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Carta de Sua Santidade Dilgo Khyentse Rinpoche

"Caras amigas e caros amigos,

somente algumas pessoas no mundo têm grande compaixão e vivem as suas vidas de acordo
com essa compaixão. Não prejudicam ninguém, permanecem amorosas, pensam em
beneficiar os outros, a sua fala/mente/corpo é dirigida ao benefício das outras pessoas e a sua
presença inspira-nos a sermos cada vez melhores.

Não importa se és budista do norte, budista do sul, budista ocidental, zen, budista vietnamita,
budista birmanês, japonês, coreano, cambojano, do Laos, Theravada, Hinayana, Mahayana,
Vajrayana, Nyingma, Kagyu, Gelug ou Sakya. Para quê perder tempo a debater quem é melhor
quando todo o objetivo é praticar neste momento e domar a mente? Se a nossa mente é
domada, qualquer que seja a tradição à qual pertencemos, então essa é a melhor tradição
para nós enquanto respeitarmos os outros. Treina a mente e segue em frente, não treines o
mundo.

Não sigas os ensinamentos que movem montanhas, as tuas kundalinis internas, os teus canais
ou que levem à iluminação imediata numa vida. Embora estes ensinamentos sejam esotéricos
e poderosos, estarás pronto para eles? Estar pronto leva décadas de prática. Logo, é
importante teres a certeza. Conheço pessoas que fizeram práticas tântricas superiores nos
últimos 15 anos, desistiram e voltaram ao hedonismo. Acontece que não estavam prontas. Em
vez de aplicarem os fundamentos, correram para o céu e acabaram por cair de volta na terra.
Não é culpa do Dharma, mas sim da nossa impaciência, ignorância e, por vezes, arrogância.

Devemos procurar ensinamentos que possamos alcançar e aplicar no imediato. Quando


alcançamos alguns resultados, sentimos motivação para continuar e aspiramos procurar mais.
Procurar mais, nesse momento, deve ser sem esforço. Nesse momento devemos adotar
práticas "simples" como louvor/mantra de Shakyamuni, prece/mantra de Guru Rinpoche, Guru
Yoga de Tsongkapa/mantra, louvor/mantra de Tara, prece/mantra de Manjushri, combinadas
com práticas de ensinamentos da mente (Lojong, 8 Versos, A Roda de Armas Afiadas). Não
praticá-las a todas, mas uma delas de acordo com a nossa linhagem ou o que o professor nos
designou. Deveríamos ler o Lam Rim ou Sakya Lam Dre dependendo da linhagem a que
pertencemos. As nossas meditações diárias e a prática real de sentar devem ser curtas e
agradáveis. Mas a leitura, contemplação e aprendizagem devem acontecer ao longo do dia.

Quando a nossa mente ganha uma compreensão e um gosto mais claros sobre a renúncia, a
mente bodhi (bodhicitta) e também alguma compreensão sobre a vacuidade de todos os
fenómenos, então talvez possamos procurar ensinamentos esotéricos mais elevados e
práticas/iniciações de forte compromisso - mas não agora. Se já temos ensinamentos mais
elevados, é da maior importância praticá-los de imediato com os fundamentos. Mas
desenvolver compaixão, devoção ao Guru, sabedoria, meios de subsistência corretos, ética,
libertação dos 8 dharmas mundanos, e ser gentil independentemente da situação em que
estamos, são práticas muito profundas só por si. Segue ensinamentos que possas assimilar e
aplicar agora na tua vida e com os quais possas ser consistente. E isto não deve ser usado
como desculpa para não entrares em ensinamentos avançados devido à preguiça.
É muito importante, desde o início, associares-te a amizades que promovam boas qualidades e
evitem qualidades nocivas. No começo, somos vulneráveis como um pintainho recém-nascido
e precisamos de proteção. Mas, à medida que progredimos, podemos associar-nos a qualquer
pessoa porque ao invés de sermos arrastados para atividades inúteis, somos nós que levamos
os outros a serem mais espirituais. De que forma nos sentimos quando passamos mais tempo
com o nosso professor e os amigos do dharma? Como pensamos quando nos desviamos do
nosso professor e dos amigos do dharma? Como agimos? Como fica a nossa atitude? Podemos
achar que estamos a desfrutar de algum tipo de 'liberdade', mas essa liberdade pode levar à
'prisão' das nossas mentes. Portanto, é possível comparar as diferenças de quando estamos
perto de amigos espirituais e quando temporariamente nos afastamos. Sê honesto e aberto.

Se encontrares pessoas (não importa quem) que criticam a nossa prática, o nosso professor, a
nossa linhagem, a nossa fé, tem paciência e compreende que precisam de ajuda, são
ignorantes, podem ter segundas intenções ou ter boas intenções, mas tu estás bem tal como
estás. Podem ter mais conhecimentos do que tu, mas isto não significa que os aplicaram ou
que se aplicam a ti. Se encontras alguém ensanguentado e num acidente, não perguntas o que
aconteceu ou ficas assustado. Procuras ajuda e lidas com o resto mais tarde. Mesmo que
pessoas famosas ou conhecidas critiquem a tua prática/ linhagem/ lama, deves dar um passo
atrás sem ficares agitado com a fama deles, e pensar para ti mesmo:

O teu lama beneficiou-te, amou-te e ofereceu-te o precioso Dharma? Seres leal ao teu lama é
necessário. A tua prática ajudou-te? Já observaste algumas mudanças na tua mente? Mesmo
que pequenas, são um bom sinal. O teu lama encorajou-te a seres gentil, manteres os votos e
a desenvolveres estados mais elevados de consciência? Se sim, o teu professor é honesto. A
tua linhagem/ Yidam/ Deidade abençoaram-te com ajuda, esperança e bênçãos? Então
continua e mantem-te firme. Os ensinamentos foram-te dados por pura motivação? Então
aprecia-os profundamente praticando.

Neste caso, os ensinamentos que te foram dados estão bem e permanecem. Nunca deixes que
outras pessoas te criem dúvidas simplesmente porque não confirmaste ou tens inseguranças.
Todos os ensinamentos são bons. Se outras pessoas continuarem a menosprezar o teu
professor/prática/ linhagem, perdoa-as. Se as práticas delas são diferentes, não significa que
seja mau. Mesmo que seja "mau", não devemos excluí-las e mantê-las afastadas ou apontar o
dedo e expulsá-las. Devemos ser gentis, mantê-las próximas e proporcionar-lhes MAIS
CONHECIMENTO para que eventualmente possam reformular. Dizer que a sua prática é má ou
errada e ignorá-las vai contra toda a nossa ambição de desenvolver compaixão, renúncia,
mente bodhi, amor e o ideal do bodhisattva ou o modo de vida do bodhisattva.

Se alguém praticar algo 'errado' ou 'mau', devemos ser ainda mais pacientes e dar-lhes
conhecimento, lentamente, para corrigirem os seus caminhos ao invés de deitá-los fora e
aliená-los. Ignorávamos uma criança que costuma brincar com fósforos ou íamos ensiná-la a
parar? Afinal, os nossos 'inimigos' são os nossos melhores professores. Aqueles que contrariam
as nossas crenças dão-nos a hipótese de olharmos profundamente e aprendermos mais para
que a nossa fé se baseie no conhecimento, na compreensão e no estudo. Não no medo e na
ignorância.
~ Sua Santidade Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991) foi reconhecido como a emanação da
mente de Jamyang Khyentse Wangpo (1820-1892) e foi um dos discípulos mais próximos da
emanação da atividade de Jamyang Khyentse Wangpo, Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö (1893-
1959).