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O movimento estudantil de 1968 e a


luta pelo poder nas unidades de ensino

Antonio de Pádua Gurgel

Embora nem sempre estivesse absolutamente explícita durante as manifestações


de rua, a gestão do ensino sempre foi uma questão presente em documentos, panfletos e
ações do movimento estudantil em 1968.
Na verdade, a idéia de várias organizações políticas que atuavam nos
movimentos universitário e secundarista na época era ainda mais radical: alterar a
gestão de toda a sociedade, através de uma revolução socialista. Para essas
organizações, só dessa forma seria possível colocar a gestão do ensino a serviço do
desenvolvimento soberano do Brasil.
A seguir, são relatados resumidamente alguns episódios em que a gestão do
ensino esteve em tela.

1 – OS ESTUDANTES E O CONSELHO UNIVERSITÁRIO DA UFRJ

Muito mais do que atualmente, a participação dos alunos no destino das escolas
ainda era um tabu naquela época. Em depoimento para o filme-documentário A
Rebelião dos Estudantes, baseado no livro homônimo de minha autoria – o ex-líder
estudantil Wladimir Palmeira, que comandou a legendária Passeata dos Cem Mil,
considera essa manifestação menos importante que o fato de representantes estudantis
terem participado de uma reunião do Conselho Universitário da UFRJ naquele ano.
Durante a segunda quinzena de junho, o clima estava tenso no Rio de Janeiro.
Ao chegarem no dia 19 para uma audiência com o ministro Tarso Dutra, os estudantes
encontraram o prédio do MEC cercado pela Polícia. Recuaram e voltaram com pedras e
paus, travando-se uma batalha campal durante toda a manhã. À tarde, eles continuaram
enfrentando a cavalaria, no centro da cidade, com a ajuda de populares.
Também no Rio, a UNE e a União Metropolitana de Estudantes (UME)
convocaram uma assembléia geral com 1.500 representantes de várias faculdades. A
reunião seria realizada na Faculdade de Economia, na Praia Vermelha, onde também
funcionava a Reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na hora da
assembléia, o local foi cercado pela Polícia, o que determinou sua transferência para o
Teatro de Arena.
Naquele momento, o Conselho Universitário da UFRJ estava reunido no prédio
da Reitoria. A reunião foi interrompida pelos estudantes, que obrigaram seus
participantes a descerem para o teatro e discutirem com eles os problemas da
Universidade.
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2 – ESTUDANTES EXIGEM SER OUVIDOS SOBRE DECISÕES DA


DIRETORIA DO CIEM (UnB)

No final de 1967, uma aluna foi expulsa do CIEM (Centro Integrado de Ensino
Médio) laboratório da Faculdade de Educação da UnB criado por Anísio Teixeira e
Darcy Ribeiro com uma filosofia pedagógica baseada no lema “liberdade com
responsabilidade”. Os estudantes reagiram.
Diante da situação, o Conselho de Representantes convocou para o dia seguinte
uma assembléia geral, na qual os alunos deram um ultimato ao diretor-adjunto da
escola, padre Marconi Montezuma, que tinha expulsado a aluna: ele teria de cancelar a
expulsão e discutir o assunto com o Conselho de Representantes dos alunos.
Se isso não acontecesse, seria deflagrada uma greve. No entanto, quem acabou
suspendendo as aulas foi a própria diretoria do CIEM, que convocou todos os 309
alunos da escola para uma discussão sobre o caso. O Conselho de Representantes
compareceu e questionou a atitude da escola, classificando-a como autoritária. Em
nome do Conselho, alguns alunos afirmaram que a postura da direção da escola não era
de diálogo e sim de imposição.
Na seqüência, foi criada uma comissão de sindicância composta de professores
para ouvir os alunos, principalmente os integrantes do Conselho de Representantes.
No mesmo dia 1º de novembro em que a comissão foi criada, o Conselho de
Representantes divulgou uma nota com o título “Por que o CIEM está em crise”:
– Nos últimos tempos, fatos vêm ocorrendo nesta escola que desvirtuam sua
principal tarefa: a preparação do aluno para a vida. Arbitrariedades foram cometidas. Se
estamos com nossas aulas suspensas, é decorrência desse estado de coisas que,
ultimamente, é objeto de ação por parte do corpo docente. Os acontecimentos nesta
última semana, apoiados em atos ditatoriais, desenrolaram-se rapidamente, culminando
com a expulsão sumária de uma colega, sem direito a defesa.
No final, os estudantes pedem para conhecer os estatutos ou o regimento interno
do CIEM; a continuação do diálogo com a participação de professores e alunos; a
participação do corpo discente, através do Conselho de Representantes, em qualquer
medida de caráter punitivo contra alunos; e que fosse posta em prática a teoria da
liberdade com responsabilidade.”
A resposta da direção do colégio foi a expulsão de todos os membros do
Conselho de Representantes no dia 10 de novembro de 1967. Em nota de meia página
publicada no Correio Braziliense, a direção do colégio explicava que “agiu pronta e
energicamente para impedir que o corpo discente assumisse todo o comando do
educandário, numa completa subversão de todos os princípios e valores educativos”.
Depois de muitos entendimentos, foi encontrada uma solução para que os alunos
expulsos não perdessem o ano: eles teriam a oportunidade de realizar em casa trabalhos
escolares que fossem levados em consideração na avaliação final. Os do 3º ano puderam
se inscrever no vestibular. Os outros só receberiam a guia de transferência depois de
concluído o ano letivo.
No dia 29 de novembro, as aulas foram reiniciadas.
Mas a proposta de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro para a reforma do ensino
sofrera mais um grande golpe, como antes a própria UnB – também idealizada por eles -
já fora duramente golpeada. E, já havia algum tempo, os alunos com espírito crítico que
o CIEM formava eram tidos como inconvenientes na universidade militarizada.
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3 – GESTÃO PARITÁRIA NA FAU (UnB)

Outro momento em que os estudantes atuam diretamente na gestão do ensino


ocorreu na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB.
Desde 1965, quando a UnB perdeu seus melhores professores, o curso de
Arquitetura não satisfazia aos alunos. Em sucessivos movimentos, eles passaram a pedir
sua reestruturação, com a demissão de todos os professores e a volta da equipe formada
por Oscar Niemeyer. Em vão.
Até que, em outubro de 1967, os estudantes do Instituto Central de Artes (ICA)
– ao qual a FAU pertencia - resolveram fechar a faculdade.
Segundo José Prates, que na época presidia o Diretório Acadêmico do Centro de
Arquitetura e Urbanismo (DACAU), a maioria dos docentes ali colocados a partir de
1965 nem era professor nem exercia a profissão de arquiteto. “Eram burocratas,
servidores públicos, e inicialmente a gente não tinha uma postura radical. Queríamos
apenas melhorar a qualidade do ensino. No começo, nossa atitude era tímida, como a de
uma criança que está aprendendo a andar. Num determinado momento, entretanto, nós
não tivemos outra alternativa senão bloquear a faculdade e paralisar todas as atividades.
Nem declaramos greve, simplesmente decidimos fechar a faculdade para recomeçar”.

3.1 Contratação de professores

No início de 1968, a Reitoria da UnB anunciou que iniciaria um curso de 41


dias, em regime intensivo, para complementar a carga horária do semestre anterior. As
aulas seriam ministradas por professores de alto gabarito, contratados no fim do ano em
Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba.
Por sua vez, no mesmo dia 8 de janeiro os estudantes divulgaram uma nota
afirmando que a luta não tinha terminado: “Hoje reabrem as aulas da nossa Faculdade,
após três meses de completo fechamento e dois anos de intensa luta para preservar os
verdadeiros valores da arquitetura e do seu ensino. O oportunismo carreirista, a
bajulação, a incompetência, bases dos sistemas e regimes facciosos e desumanos, não
mais terão nesta faculdade as gordas tetas para o alimento de sua fome insaciável”.
Por que? – perguntavam os estudantes no documento. A própria nota respondia:
– Porque não nos acomodaremos com a vitória que alcançamos. Através dos
degraus que galgamos, pelas derrotas que forjaram em nós a firmeza que hoje
possuímos, pela consciência que adquirimos, pelo nível de luta que atingimos, agora
sabemos, com a serenidade de quem soube conquistar, que uma vitória só é assegurada
quando a gente se mantém vigilante. As batalhas são sempre parciais, embora a luta seja
única e apenas tenha começado. O que nos dá a certeza da continuação de uma batalha é
tanto o nível de organização com que ela se desenvolveu quanto o apoio com que
contou, nos mais diversos setores.
Pela análise dos alunos da FAU, uma “unidade de ação” tinha motivado um
trabalho racional e coerente em todas as etapas de luta, no qual objetivos claros e
definidos eram enfocados e debatidos. “Hoje, temos a certeza de que cresce ainda mais
essa indispensável unidade, dando condições para que uma organização mais eficiente
seja forjada. Sem a consciente unidade dos colegas, nada teríamos conseguido e nada
poderíamos conseguir no futuro”.
Segundo a nota, “a vitória verdadeira só será alcançada com a superação das
arcaicas estruturas sócio-econômicas que acorrentam e amordaçam o nosso povo e nós
mesmos. As contradições de nossa Faculdade, de nossa Universidade, não se acabarão
enquanto não forem vencidas as contradições da sociedade brasileira. Eis por que a luta
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não terminou(...) O estudante tem de cumprir seu papel histórico, como indivíduo
descomprometido com a vida produtiva do País e com a política burguesa. Isto será
feito partindo de sua realidade objetiva, aprofundando-se cada vez mais teórica e
praticamente nos seus problemas cotidianos concretos, até atingir um nível de
integração verdadeira com a ampla luta que hoje é de todos os povos oprimidos. Foi
isso que iniciamos”.

3.2 – Carta aberta

Embora alguns professores contratados pela UnB para concluir o segundo


semestre letivo de 1967 realmente fossem de alto gabarito, isso não solucionava todas
as pendências do curso de Arquitetura e Urbanismo.
Em assembléia realizada a 6 de março, os alunos aprovaram uma carta aberta em
que pediam ao reitor Caio Benjamin Dias “esclarecimentos necessários sobre o destino
da FAU. Apesar de Vossa Magnificência ter se manifestado a favor de constante contato
e por uma co-participação e co-responsabilidade, a atitude da Reitoria continua
unilateral e paternalista”.
Os estudantes perguntavam ainda quando seria o reinício das aulas, quais os
professores disponíveis para 1968, e se queixavam da acusação de “minoria de
esquerda” contra os que pediam informações concretas relacionadas com a continuidade
do curso: “Não aceitaremos a transferência de responsabilidade; se esta escola se fechar
será por incompetência de quem deve mantê-la aberta, inoperância de quem precisa agir
e impotência de todos os ligados a essa reitoria, ante o simples fato de fazer existir uma
escola”.
Além disso, os alunos não aceitavam “uma escola que apenas nos obrigue a
produzir em massa, sem nos dar o verdadeiro e humano sentido da conceituação dos
elementos. A produção não deve servir de pretexto para alienar o estudante de uma de
suas mais importantes obrigações hoje: a de se voltar para a realidade do seu povo no
seu futuro campo de trabalho, que hoje atinge situação das mais angustiantes. Não
admitiremos que aqui se instale uma máquina de destruir individualidades conscientes
numa comunidade, por uma técnica ou filosofia importada de países completamente
diferentes do nosso, nos aspectos antropológico e histórico. Exigimos uma escola que
nos capacite a atuar coerentemente dentro do nosso campo de ação, sem a alienação que
hoje se projeta impor sobre toda a juventude brasileira”.

3.3 - Diálogo

No dia 9 de março, o reitor convocou uma reunião com os estudantes, tendo a


seu lado na mesa o presidente da FEUB, Honestino Guimarães. Depois de fazer um
relato sobre o início de sua administração e de mais uma vez fazer a apologia do
diálogo, o professor Caio se dispôs a ouvir os estudantes.
O primeiro a falar foi o presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, que defendeu a concepção original de Oscar Niemeyer para a
escola e perguntou por que a Reitoria não aceitara os professores indicados pelos
estudantes para compor a comissão coordenadora daquela faculdade.
O reitor lembrou todas as gestões feitas por ele visando a encontrar uma solução
para a FAU, sem que se tivesse chegado a um acordo porque algumas vezes os alunos
vetaram nomes sem motivo aparente. Nesse momento, houve diversos apartes exaltados
de alguns alunos, que acabaram saindo do recinto, mas depois voltaram para a reunião.
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Na seqüência, Caio afirmou que não aceitaria imposições dos estudantes e que a
comissão designada para resolver o problema da FAU permaneceria a mesma, embora
com um nome vetado pelos estudantes, mas que poderia ser ampliada, inclusive com
professores indicados pelo Diretório Acadêmico do Centro de Arquitetura e Urbanismo.
Três dias depois, os alunos decretaram greve até que a Comissão a ser designada
pela Reitoria reestruturasse o Instituto Central de Artes, ao qual pertencia a FAU.
Cartazes espalhados por toda a UnB informavam que não seriam aceitas soluções
provisórias e que o ensino de Artes devia levar em conta a realidade nacional.
A 20 de março, a Reitoria oficializou a suspensão das aulas até que a FAU e o
ICA fossem reestruturados. Mas, ao mesmo tempo, dissolveu a Comissão que tinha
nomeado para reestruturar essas duas unidades de ensino.
No dia 21 de março, o Conselho de Representantes e a Diretoria Executiva da
FEUB divulgaram nova carta aberta ao reitor: “Dias atrás, quando Vossa Magnificência
convocara os representantes estudantis para um diálogo ‘aberto’, os presentes ouviram
seus apelos por uma união geral de esforços no sentido de uma restauração da estrutura
universitária, colocando essa tarefa como sua principal missão e dizendo que sua
presença na UnB era motivada por tais objetivos”.
Fazendo uma avaliação da Universidade de Brasília naquela época, o documento
observava:
– Sentimos no procedimento de Vossa Magnificência uma continuação do
processo de destruição da UnB. A suspensão das aulas da FAU e do ICA “até serem
reestruturados” e a dissolução da comissão encarregada de reestruturá-los equivale a seu
fechamento. Não aceitaremos imposições de uma vontade unilateral e muito menos a
criação de novas crises, que levarão de fato esta Universidade a sua derrocada final. Que
a crise preparada por essa Reitoria e seus componentes seja de sua inteira
responsabilidade.
No dia 22, os estudantes exigiram que a Reitoria formasse imediatamente
uma nova comissão coordenadora para o ICA e a FAU, “dentro do espírito de
eqüidade entre alunos e Reitoria, desde que seus componentes estejam de acordo
com o espírito que originou a UnB e que o reitor não insista em designar membros
contrários ao interesse estudantil”.
Em virtude da suspensão das aulas, os alunos procuraram desenvolver outras
atividades. Com a participação de recém-formados e arquitetos de maior experiência,
passaram a organizar seminários e debates durante o horário escolar.
No dia 25 de março, o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB),
Eduardo de Melo, reuniu-se com os estudantes. Na ocasião, ele mostrou a necessidade
de um acordo com a Reitoria, no sentido de formar uma nova Comissão de
Reestruturação.
Também faziam parte do grupo os professores Miguel Pereira, Liberal de Castro,
Paulo Mendes da Rocha e Paulo Magalhães, que ficou como coordenador. Seu objetivo
era o reinício das aulas e a preservação das características originais do curso, concebido
para contribuir nos programas que visavam a assegurar o rápido progresso do País.

3.4 – Reinício das aulas

No dia 20 de junho, os alunos do ICA e da FAU propuseram que as aulas


recomeçassem com novos professores em agosto, dez meses após a interrupção das
atividades letivas.
Enquanto isso não acontecesse, segundo a proposta dos estudantes, as duas
unidades deveriam ser reabertas oficialmente, sob a direção de um professor indicado
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pela Comissão Coordenadora. Até o reinício das aulas, o diretor provisório e a


Comissão seriam assessorados através de discussões e sugestões saídas de plenárias do
conjunto ICA/FAU, a serem realizadas oficialmente duas vezes por semana.
Ainda no período anterior ao reinício das aulas, os estudantes organizaram
programas de trabalho e estudo na FAU e no ICA, coordenados pelos diretórios
acadêmicos das duas unidades.
Depois de tudo normalizado, o ICA e a FAU passariam a ser dirigidos por
uma comissão paritária de alunos e professores.
Tudo estava pronto para a reabertura dos trabalhos no ICA e na FAU a 8 de
agosto. No entanto, seis dias antes, o presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo, José Antonio Prates, foi preso.
Como Prates integrava a Comissão Paritária que deveria coordenar as unidades,
o processo foi novamente interrompido. Da mesma forma que acontecera e voltaria a
acontecer durante os momentos mais graves de 1968, quando, diversas vezes, a Polícia
invadiu a UnB.
Só em outubro as aulas foram reiniciadas normalmente, um ano depois de
interrompidas. Pela primeira vez, os estudantes conseguiram participar
diretamente da gestão de um órgão universitário.

3.5 – Exemplo francês

No dia 21 de maio, a FEUB, o DCESB e vários diretórios acadêmicos de


faculdades da UnB divulgaram uma nota oficial. O seu título era “Apoiemos a luta dos
operários e estudantes franceses” e ela começava da seguinte forma:
– As manifestações na França, com batalhas nas ruas, tomada de assalto e
ocupação de universidades, estabelecimento do governo estudantil do ensino,
declaração de “Universidade livre e revolucionária” e ocupação de fábricas pelos
operários, demonstram a negação total à política educacional e econômica do governo
francês.
O documento questionava “por que num país tão desenvolvido e diferente do
nosso acontece uma crise como essa”. E afirmava: “O conteúdo das lutas na França e no
Brasil é o mesmo, variam apenas as formas. Lá os estudantes estão lutando contra a
política educacional do governo, contra o sistema educacional arcaico, contra os
vestibulares e a elitização do ensino, contra as anuidades, pelo controle estudantil das
universidades e colégios. Tudo isso reflete o rompimento com o tradicionalismo e o
impulso revolucionário das massas que se organizam para derrubar as velhas estruturas.
O movimento francês nos mostra, de certa forma, o caminho a seguir”.
Segundo a nota, “o nível tecnológico atingido por aquele país não é
acompanhado pelo desenvolvimento social; esse desnível revela as contradições do
sistema capitalista, que se aguçam cada vez mais, na medida em que o sistema se
desenvolve. A crise que se dá nas universidades francesas é o reflexo das contradições
existentes na própria sociedade. Por isso a luta dos estudantes ganha as ruas, ganha o
apoio da população explorada. Os operários respondem ocupando fábricas, lutando por
melhores salários, por diminuição na jornada de trabalho, pelo controle da produção”.
O documento conclamava a todos que “discutam o assunto, se agrupem em torno
das representações estudantis, organizando grupos de trabalho, assembléias por sala de
aula e colégios”.
As palavras de ordem finais eram: A) contra o pagamento das anuidades; contra
o Acordo MEC-USAID; contra a elitização do ensino. B) pela entrada de todos os
excedentes nas universidades; pela eliminação dos vestibulares e abertura de novas
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universidades estatais; pela melhoria de habitação e alimentação, com abertura de novos


restaurantes estudantis; pelo controle estudantil das universidades e colégios; pela
escolha de reitores por professores, funcionários e alunos; escolha dos professores pelos
alunos; pela autonomia das entidades representativas.
“Esta é a nossa maneira de mostrar solidariedade aos estudantes e operários
franceses”, concluía a nota.

4 – ESTUDANTES EXPULSAM PROFESSOR NA UnB

Uma frase em francês estampada na capa do Pasquim refletia bem o estado de


espírito dos militantes estudantis nos idos de 1968: “Je préfère les chats aux chiens
parce qu'il n'y a pas des chats policiers” (Eu prefiro os gatos aos cães porque não há
gatos policiais).
Esse estado de espírito justificava em parte as dificuldades que o espanhol
Ricardo Roman Blanco enfrentou depois da visita do embaixador americano à UnB, em
1967. Naquela ocasião, ele foi um dos que ajudaram a Polícia a identificar os estudantes
que deviam ser espancados na Biblioteca Central.
A 18 de março de 1968, por decisão do Conselho Departamental do Instituto
Central de Ciências Humanas (ICCH), os alunos do espanhol foram submetidos a novos
exames, por uma comissão especial de professores. Essa decisão decorreu de um
recurso dos alunos, que não aceitavam ter aulas e muito menos ser avaliados por ele.
Blanco dava aulas de Paleografia, ciência que estuda a escrita dos povos antigos.
Durante assembléia no início de abril, Roman Blanco foi acusado de denunciar
estudantes que participaram dos protestos pela morte de Edson Luís. Naquela
oportunidade, foi aprovada uma proposta de se solicitar ao reitor sua exclusão do corpo
docente da UnB.
No dia 20, a FEUB encaminhou oficialmente a proposta, alertando que, caso
nenhuma providência fosse tomada, os próprios estudantes expulsariam do campus o
delator. O reitor comunicou à FEUB que só tomaria conhecimento de qualquer queixa
sobre servidores se estivesse devidamente instruída. Segundo ele, a forma como a
denúncia foi encaminhada impedia que ela fosse apreciada.
No dia 2 de maio, Blanco contestou a decisão do Conselho Departamental do
ICCH, que acolhera o pleito dos alunos contra ele. Em seu recurso, acusou o chefe do
Departamento de ter baixado uma resolução imoral, ilegal e ofensiva a sua pessoa.
Uma semana depois, o Conselho Departamental decidiu homologar o ato do
coordenador do Instituto contra Blanco. E, para evitar os constantes atritos do espanhol
com seus alunos, determinou também que o mesmo não daria aulas no semestre
seguinte.

4.1 - A expulsão

No início da manhã do dia 6 de junho, a FEUB distribuiu uma nota convocando


para uma assembléia na qual seria analisada a posição da Reitoria de não proceder à
expulsão de Roman Blanco, decidida anteriormente pelos estudantes.
Na convocação, os estudantes lembravam que aquela era uma medida de auto-
defesa, já que Blanco era acusado de atos de delação.
Estrategicamente, a reunião foi marcada para a frente do prédio 5 da Faculdade
de Educação (FE-5), onde Blanco deveria dar aula às 10h.
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Quando o espanhol passou pelo FE-5, em frente ao auditório Dois Candangos e


bem perto do antigo prédio da Reitoria, o presidente da FEUB, Honestino Guimarães,
lhe disse que os alunos desejavam que ele deixasse a UnB. Como ele não deu atenção,
começou a ser vaiado e foi atingido por um ovo podre enquanto os estudantes gritavam
“fora o dedo-duro”.
Blanco ainda tentou entrar no FE-5, mas os estudantes barraram-lhe a entrada.
Naquele momento, apareceu o reitor Caio Benjamin Dias, que saiu em defesa do
espanhol e o conduziu até a Reitoria.
Os estudantes deram então a Caio um prazo até o meio-dia para expulsar Blanco.
Ao mesmo tempo, um grupo se dirigiu à sala do espanhol, no ICCH, e de lá retirou
livros e material didático, atirando tudo na área externa do prédio.
Imediatamente o reitor convocou uma reunião urgente com os coordenadores de
cursos da UnB, que decidiram pela saída de Blanco do campus. Alguns coordenadores
diziam que, se ele não quisesse sair, deveria ser demitido. Mas o reitor ainda hesitava.
Quando se encerrou o prazo dado à Reitoria, às 12h, os estudantes foram até a
Colina, onde moravam os professores da UnB. Após conseguir uma chave do
apartamento de Blanco, entraram e tiraram todos os móveis, colocando-os no pavimento
térreo do prédio. Depois do incidente, o reitor providenciou a saída de Blanco do
campus, e o levou para um hotel da cidade.
Os familiares do espanhol continuaram morando na UnB.

4.2 - Versões

Em conversa com jornalistas, o reitor lembrou que desde o mês de abril os


estudantes pediam a expulsão de Blanco, e que ele solicitara aos líderes do movimento
acusações com provas, para serem examinadas: “O que ocorreu nessa época – disse o
reitor – foi que recebemos não um pedido, mas uma intimação, e não atuamos sob
intimação ou pressão. Até o momento não tenho elementos que me permitam fazer um
julgamento definitivo do caso”.
No mesmo dia, a FEUB divulgou uma nota oficial explicando: “Hoje os
estudantes da UnB foram obrigados a cumprir a expulsão do consumado dedo-duro e
falso intelectual Roman Blanco, que perniciosamente vinha infectando o ar desta
Universidade. Em assembléia realizada há um mês, tínhamos decidido por unanimidade
solicitar a medida ao reitor. Mas a Reitoria, estando tão integrada no esquema de
repressão da ditadura, não deu a mínima atenção a essa decisão soberana da assembléia.
Hoje a repressão está simbolizada na figura desse indivíduo, mas ela, é bom que se diga,
está totalmente institucionalizada nas leis de Segurança Nacional, lei Suplicy, lei de
Imprensa etc”.
A análise dos estudantes sobre os fatos do dia concluía: “A nossa ação
demonstrou a única forma correta e eficaz de alcançarmos nossos objetivos e
defendermos nossos interesses e nosso campus: a nossa mobilização e organização.
Agimos em defesa da cultura, pelo afastamento de um elemento que foi expulso da USP
por desonestidade intelectual. Ao não aceitar nossa decisão, a Reitoria demonstrou seu
papel de cúmplice, e nós a responsabilizamos por qualquer medida policialesca,
expressa em atentado contra o campus universitário”.
A nota terminava com três palavras de ordem: Pela expulsão dos dedo-duros da
UnB! Contra a política educacional da ditadura! Pela participação dos estudantes na
administração da Universidade!

4.3 Denúncias
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Expulso da UnB, Blanco imediatamente procurou a Polícia e fez uma série de


denúncias sobre supostos acontecimentos no campus.
Depondo na Secretaria de Segurança, o espanhol disse que “a subversão na UnB
é total, envolvendo estudantes, professores e funcionários. O campus é um valhacouto
de criminosos e bandidos”. Essas denúncias serviram como pretexto para a abertura de
um IPM contra alunos acusados por ele de participar de sua expulsão. E do IPM
resultou um mandado de prisão contra Honestino e outros líderes estudantis.
No dia 19 de junho, a FEUB denunciou em Carta Aberta aos Professores da UnB
que a Reitoria tinha criado uma Comissão de Sindicância para apurar responsabilidades
no episódio da expulsão de Roman Blanco: “como se a maior responsabilidade não
fosse a dele, por permitir, como reitor, que professores e alunos sofressem a ação da
Polícia e de alcagüetes. Na verdade, o que pretende o reitor com essa comissão-fantoche
é apenas buscar apoio legal para poder, lavando as mãos, expulsar da Universidade
aqueles estudantes que se opõem mais fortemente à sua política, identificada com a do
governo e contrária aos verdadeiros interesses do País”.
Naquele documento, a FEUB conclamou os professores para se unirem aos
alunos em defesa da Universidade, sua estrutura e espírito originais, não permitindo as
punições anunciadas.
No dia 22 de junho, tropas da Polícia invadiram mais uma vez o campus da
UnB, o que tornaram a fazer em agosto.
Em depoimento prestado na Secretaria de Segurança Pública após a invasão de
agosto, Roman Blanco afirmou terem sido alunos que destruíram laboratórios, e não os
policiais – como estava fartamente documentado. E que as primeiras agressões partiram
dos estudantes, não dos policiais. Na avaliação do provocador, os deputados integrantes
da Comissão Parlamentar de Inquérito que apurava as violências praticadas pela Polícia
não tinham autoridade moral para isso porque eram “acobertadores de comunistas”.
Na mesma ocasião, acusou o reitor de ser conivente com os “estudantes
comunistas” e de não ter autoridade sobre eles.
A UnB iniciou então um processo de demissão contra o espanhol.

5 - SECUNDARISTAS EM GUERRA CONTRA AS AUTORIDADES


EDUCACIONAIS DO DF

A entidade que representava os secundaristas no Distrito Federal era o Diretório


Central dos Estudantes Secundaristas de Brasília, que em l968 era dirigido pela chapa
Aliança Operário-Camponesa-Estudantil, ligada à IV Internacional (trotskista).
Embora intimamente ligado aos universitários, o movimento secundarista tinha
características próprias. Mesmo sem o nível intelectual dos universitários, os
secundaristas eram muito mais agressivos. Até porque sua perspectiva de inclusão no
mercado de trabalho era mais remota.
Além disso, os secundaristas eram muito mais numerosos. Estavam espalhados
por dezenas de escolas no Plano Piloto e nas cidades-satélites, entre as quais se
destacava Taguatinga. Mas mobilizá-los não era tão difícil e sua presença tornava-se
fundamental para o êxito de uma manifestação.
Quando o trabalho do DCESB começou a ser melhor percebido pelos órgãos de
repressão, estes passaram a combatê-lo com mais intensidade. Uma das iniciativas nesse
sentido foi a criação de uma entidade paralela, também com o nome de Diretório
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Central dos Estudantes Secundários de Brasília e formada por conhecidos policiais. O


nome da chapa era Novos Horizontes.
Em matéria publicada com destaque pelo Correio Braziliense, a nova entidade
afirmava que atuaria “dentro da ordem, da lei e dos princípios cristãos e democráticos.
(...) A nossa administração será isenta de agitações importadas ou teleguiadas de
estudantes universitários, não temendo pressões de falsas ideologias”.
Embora minoritário no movimento secundarista, esse grupo foi logo reconhecido
pela Secretaria de Educação do GDF como representante legal dos estudantes. O
objetivo mais imediato era retirar do grupo majoritário, de esquerda, o direito de emitir
identidades estudantis, principal fonte de receita do movimento. Afinal, o famoso “ouro
de Moscou” só existia mesmo na propaganda militar.
Naquela época, o DCESB emitia e vendia cerca de 30.000 carteirinhas de
estudante, cuja principal utilidade era permitir aos portadores pagar meia entrada nos
cinemas. Com o resultado financeiro desse trabalho se promoviam eventos culturais e se
comprava material para propaganda política, como mimeógrafo, tinta de mimeógrafo,
material para faixas e cartazes, papel, spray para pichação etc. Parte da receita também
era utilizada na própria confecção das carteirinhas, que implicava em custos gráficos e
plastificação.

5.1 - A guerra das carteirinhas

Como era de se esperar, a verdadeira diretoria do DCESB (chapa Vanguarda)


não ficou de braços cruzados ao ver a Secretaria de Educação reconhecer a chapa Novos
Horizontes.
Inicialmente, o DCESB procurou resolver o assunto no âmbito jurídico,
comprovando sua legitimidade. Além dos estatutos e demais documentos oficiais
devidamente registrados, a entidade tinha as atas de assembléias e congressos que
atestavam sua representatividade.
Esses documentos foram mostrados à imprensa e à própria Secretaria de
Educação, mas esta insistia em reconhecer apenas as carteirinhas assinadas pelo
presidente da chapa Novos Horizontes.
A solução foi partir para a mobilização dos principais interessados, os estudantes
que tinham pago pelas carteirinhas questionadas. Em Taguatinga, a principal cidade-
satélite, nem foi tão difícil. Depois de alguma pressão na porta do Cine Paranoá, o dono
do cinema resolveu aceitar as duas carteirinhas, perguntando apenas ao pessoal da chapa
Vanguarda se o documento era fornecido exclusivamente a estudantes.
Mas no Plano Piloto, onde os dois principais cinemas eram do governo, a
situação não foi tão pacífica. Afinal, esmagar financeiramente a diretoria do DCESB era
um objetivo que vinha sendo buscado havia algum tempo pelos órgãos de repressão.
Para isso, eles contavam com a colaboração da Secretaria de Educação e Cultura do
GDF, dona do Cine Brasília e do Cine Cultura – que funcionavam respectivamente na
entrequadra Sul 106/107 e na Quadra 507 Sul (Av. W-3). Estes dois cinemas só
aceitavam as carteirinhas da chapa Novos Horizontes, ignorando a legitimidade da
chapa Vanguarda.
Numa bela tarde, os diretores do DCESB legítimo passaram pelas salas de aula
do Centro de Ensino Médio Elefante Branco, avisando: “Como vocês já devem estar
sabendo, o GDF está recusando a nossa carteirinha, que foi paga por todos nós. Estamos
indo para o Cine Cultura fazer valer a nossa carteirinha e o dinheiro que gastamos para
comprá-la. Vamos até lá defender nossos direitos”.
11

Por volta das 17h, cerca de 800 estudantes do Elefante e de outros colégios
estavam em frente ao Cine Cultura, cuja fachada era toda formada por vidraças. Um dos
diretores do DCESB comprou um ingresso de estudante e mostrou ao porteiro, junto
com a carteirinha da chapa Vanguarda. O filme em cartaz era “Menino de Engenho”,
com base no livro de José Lins do Rego.
Foi um dia inesquecível.
O bilheteiro mostrou a Portaria da Secretaria de Educação, afixada na vidraça
frontal, e disse que a nossa carteirinha não valia. Só valia a que estava na vidraça,
reconhecida pelo GDF. Mas isso era um detalhe irrelevante para o pessoal, que queria
entrar de qualquer maneira.
Foi, então, chamado o gerente, que já chegou meio assustado. E ficou mais
assustado ainda quando o dirigente do DCESB falou: “Eu sei que o senhor não tem nada
com isso, que vocês estão apenas cumprindo uma Portaria da Secretaria, mas todo
mundo aqui comprou meia entrada e quer entrar no cinema. Eu até compreendo a sua
situação, mas não sei se vou conseguir controlar todo esse pessoal. Você deve saber que
só a Casa Thomas Jefferson os estudantes já quebraram duas vezes este ano. Não sei o
que poderá acontecer com essas vidraças se a carteiririnha não for liberada”.
O gerente ficou realmente nervoso e seus lábios chegaram a tremer. Explicou
que precisava dar um telefonema e pediu que a gente esperasse dois minutos, que pelo
amor de Deus tivéssemos um pouco de paciência. Pouco depois, ele voltou e mandou
abrir as portas do cinema para todos, para quem tinha ingresso e para quem não tinha.
As vidraças do Cine Cultura estavam salvas e a Portaria do secretário de
Educação estava revogada na prática. Nunca mais se ouviu falar da tal chapa Novos
Horizontes.
Pouco tempo depois, os órgãos de repressão tentaram novamente articular uma
“Ala Independente” do DCESB, com o mesmo objetivo de esvaziar a entidade
verdadeira. Porém, mais uma vez fracassaram.
Durante a maior parte de 1968, o DCESB foi dirigido na prática por Sebastião
Lopes de Oliveira Neto, seu diretor mais atuante.

5.2 – Problemas no Colégio Agrícola

Apesar de algumas deficiências, a maior parte das escolas públicas do Plano


Piloto tinha um funcionamento satisfatório.
No entanto, a realidade da educação nas cidades-satélites não era a mesma. E no
Colégio Agrícola de Brasília (CAB), localizado em Planaltina e ligado diretamente ao
Ministério da Educação e Cultura (MEC), a situação estava se tornando insuportável
para os alunos, que moravam e trabalhavam na escola. Em número de 106, eles eram
submetidos a condições de vida subhumanas e praticamente não tinham ali qualquer
condição para aprendizado e manutenção de sua dignidade. As mercadorias produzidas
por eles eram vendidas na feira de Planaltina pela direção da escola, que ficava com o
dinheiro.
O Centro Social Wanderley do Prado Barreto (CSWPB), representante dos
alunos, conversou várias vezes com a direção do colégio, que vagamente prometia
estudar soluções para os problemas, mas nada fazia. Então, os alunos procuraram o
DCESB para relatar seu drama que, de certa forma, estava descrito num manifesto de
maio de 1968:
– Atualmente, nada funciona no Colégio Agrícola. Fala-se muito em “colégio
de aplicação”, em “escola experimental”. Mas o que vemos na prática é uma didática
ultrapassada lecionada por pessoas que não têm a mínima competência para tal, com
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raras exceções. A falta de professores faz com que nem todos os horários sejam
preenchidos, resultando daí um aumento no número de dias letivos ao final do semestre.
“As chamadas ‘aulas práticas’ não são nada mais que aproveitamento da mão-
de-obra dos alunos em atividades sem qualquer proveito educacional. As aulas em
laboratório, indispensáveis à nossa formação intelectual, simplesmente inexistem. A
sala de audiovisual, que tem uma impressora inglesa, embora seja bem-aparelhada não é
aproveitada pelos alunos, servindo apenas como cartão de visitas. Atendimento médico-
hospitalar não existe, assim como assistência social. A biblioteca não atende aos
requisitos mínimos necessários a nossa formação, sendo que a maior parte dos livros
nela encontrados está ultrapassada ou escrita em língua estrangeira. A carência de livros
didáticos faz com que se imponha com urgência a distribuição gratuita de apostila a
todos os alunos. O refeitório funciona precariamente, sem higiene. O quadro de
funcionários é deficiente, o que faz com que alunos tenham de trabalhar sob justificativa
de 'aulas práticas'. A produção da pocilga e do aviário não é usada na alimentação dos
alunos. A alimentação fornecida nas tardes de domingo não atende às necessidades
básicas de nutrição”.

5.2.1 – Apoio do DCESB

Durante assembléia realizada em abril, a direção do Colégio Agrícola prometera


solução para os problemas, mas o prazo estava se esgotando e nada estava sendo feito.
Por isso, os alunos do Colégio Agrícola procuraram o DCESB.
Este não se fez de rogado. No dia 31 de maio, coordenou a realização de uma
assembléia geral dos alunos com a direção da escola, na qual foi estabelecido o prazo de
4 de junho para o atendimento das reivindicações. Com o apoio do Conselho de
Grêmios do Distrito Federal, a diretoria do DCESB expediu no dia 2 de junho uma nota
de apoio aos colegas do Colégio Agrícola:
– No momento em que os estudantes de todo o mundo levantam-se contra as
estruturas arcaicas de ensino, demonstram uma vontade de luta de toda a população
contra o atual estado de coisas. Essa vontade de luta no Brasil é demonstrada pelos
secundaristas de São Paulo, Bahia, Guanabara, Paraná e Goiás, que estão em greve.
Mobilizam-se, denunciam, declaram-se radicalmente contrários à política educacional
do governo, reflexo de uma sociedade onde uma minoria detém o poder econômico e
político, em detrimento das necessidades da maioria.
E prosseguia: “Os alunos do Colégio Agrícola sentiram de perto os efeitos dessa
política educacional. Não têm alimentação adequada, são obrigados a executar trabalhos
pesados sob pretexto de que são ‘aulas práticas’, não têm orientação técnica nem
científica. O método pedagógico usado pelo colégio não condiz absolutamente com suas
necessidades. Contra isso insurgiram-se os alunos do Colégio Agrícola. Em assembléia
geral realizada dia 31 de maio, unanimemente decidiram que, se até o dia 4 de junho
não forem atendidas todas as suas reivindicações, farão funcionar normalmente todas as
dependências do Colégio, independentemente da vontade da direção do
estabelecimento”.
A nota do DCESB terminava conclamando os secundaristas a “discutirem em
assembléias por sala de aula, em assembléia geral, em grupos de estudos e em grupos de
trabalho os problemas de sua escola”. Pedia também “solidariedade com os alunos do
Colégio Agrícola na luta que eles vêm travando contra a política educacional do
governo. Agrupem-se em torno das representações estudantis: grêmios, DCESB e
UBES!”.
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Seguiam-se as palavras de ordem: a) contra o pagamento de anuidades; contra o


Acordo MEC-USAID; b) pela entrada de todos os excedentes nas universidades; pela
eliminação dos vestibulares e abertura de novas universidades estatais; pela estatização
de todas as universidades e colégios; pela distribuição gratuita de livros didáticos e
apostilas; pela melhoria da habitação e da alimentação para os estudantes, com a
abertura de novos restaurantes estudantis; c) por melhores condições de ensino; por
melhores salas de aula e laboratórios; pelo controle estudantil das universidades e
colégios; escolha de reitores e diretores por professores, alunos e funcionários; escolha
de professores pelos alunos; pela autonomia das entidades representativas”.
A nota era assinada pelo DCESB e por dez grêmios estudantis.

5.2.2 - A ocupação do Colégio Agrícola

No dia 4 de junho, foi realizada nova assembléia no auditório do Colégio


Agrícola, com a presença do diretor do estabelecimento, Joacir Góes. Inicialmente, ele
foi chamado a falar sobre o atendimento às reivindicações.
No entanto, suas explicações não satisfizeram o dirigente do DCESB, Sebastião
Lopes de Oliveira Neto (Tião), que cassou sua palavra. “Esse cara, mais uma vez, está
querendo enrolar a gente. Chega”. E passou a dirigir a reunião, encaminhando
imediatamente a votação de uma proposta: expulsão do diretor, declaração do Colégio
Agrícola como terrritório livre e sua ocupação pelos estudantes, que passariam a
controlar seu funcionamento.
A proposta foi aprovada por praticamente todos os presentes. O único dos 106
alunos a votar contra, um conhecido policial, preferiu acompanhar o diretor, que
naquele instante abandonou o local.
A segunda votação decidiu: “O Centro Social Wanderley do Prado Barreto passa
a denominar-se Diretório Revolucionário Ernesto Guevara”. Mais tarde, a decisão foi
reformulada e o nome ficou “Diretório Estudantil do Colégio Agrícola de Brasília”.
“Para não parecer provocação”, explicaram candidamente os autores da mudança.
Vários comitês foram formados. Um deles ficou encarregado da vigilância do
terreno, da eventual evacuação das lideranças em caso de invasão da Polícia e da
segurança aos alunos. Outros se destinavam a fazer funcionar os diversos setores do
Colégio, como limpeza, alimentação, serviços gráficos e primeiros socorros.
Embora não se contasse com muitos recursos para o trabalho, cada comitê
procurava se esmerar ao máximo no cumprimento de suas tarefas. A primeira refeição
feita sob a direção dos alunos foi a melhor do ano, com salada e carne à vontade. O
pessoal da limpeza chegava a incomodar, tal o perfeccionismo de seu trabalho. A
impressora inglesa foi colocada para funcionar, mas, como não houve aula naquele dia,
ela serviu para imprimir panfletos políticos.
O comitê de vigilância, por sua vez, fabricou “telefones” de latas e barbante,
com códigos definidos para cada situação: uma puxada significava aproximação de
veículo amigo; duas puxadas, veículo suspeito; três puxadas, invasão.

5.2.3 – A chegada da polícia

Por isso, quando o delegado Paes Leme chegou ao pátio do Colégio Agrícola, no
início da noite, já se sabia que alguém como ele estava para chegar. Grisalho, gordo e
visivelmente alcoolizado, Paes Leme pediu uma reunião com as lideranças. Mas foi
informado por Tião de que todos ali eram líderes e, portanto, a reunião precisaria ser
com a assembléia geral.
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No auditório, bebendo um copo d’água atrás do outro, afirmou que fora


designado por seus superiores para ver o que estava acontecendo. Mas declarou-se
muito bem impressionado com a ordem reinante no colégio e afirmou que nunca vira o
Colégio Agrícola tão limpo e tão organizado.
Seu principal interlocutor era o dirigente do DCESB, que entretanto não se
apresentou como tal. Quando o delegado quis saber seu nome, Tião disse: “Pode me
chamar de João”. E assim foi feito. No final, Paes Leme disse que transmitiria ao
secretário de Segurança suas boas impressões e que, para testemunhar essa sua atitude,
solicitava que um grupo de estudantes fosse com ele até a Delegacia de Planaltina. Este
autor fazia parte do grupo.
Ao chegar na Delegacia, realmente ele pegou o rádio-transmissor e inicialmente
informou: “Lideranças na escuta”. Em seguida, começou a dizer que os temores não
procediam, que o Colégio estava um brinco, que não tinha visto baderna nenhuma, que
era invenção dos informantes. Mandou os estudantes de volta para o Colégio Agrícola
num camburão, com a promessa de que nada aconteceria e que todos podiam ficar
tranqüilos.
Mas o pessoal não era ingênuo a ponto de acreditar na encenação.
Imediatamente, o comitê de segurança foi encarregado de traçar uma estratégia para
retirar do local os dirigentes do DCESB e do grêmio do colégio. Ao mesmo tempo,
seriam dadas instruções claras para quem ficasse no terreno.

5.2.4 - A invasão do Colégio Agrícola

Durante a madrugada, aconteceu o previsto. Com Paes Leme à frente,


numerosos camburões e carros de choque da Polícia saíram da rodovia Brasília-
Planaltina e tomaram a estrada de terra que levava ao Colégio Agrícola.
O delegado chegou apoplético, procurando principalmente Tião, o presidente do
DCESB. Mas Tião estava longe. Como a saída pela estrada foi desaconselhada pela
segurança, ele e outros dirigentes entraram pelo mato, guiados por alunos do Colégio
Agrícola. Só pela manhã chegaram ao asfalto, num local seguro.
Galvão Augusto Domingos se lembra bem daquele dia: “Quando a Polícia
chegou, nós saímos pelo meio do cerrado, em direção a Sobradinho. Num certo
momento, quando ainda estava escuro, percebemos uma movimentação e pensamos que
era a tropa nos cercando. Ficamos agachados no meio do mato, bem quietos, quase sem
respirar. Quando o dia começou a amanhecer, descobrimos que eram umas vacas que
estavam lá”.
Após a intervenção da polícia, o DCESB divulgou um manifesto, de onde foram
transcritos os trechos a seguir:
– A luta dos companheiros do Colégio Agrícola mostra de forma clara a força
que temos. A ocupação do colégio pelos alunos, a exemplo do que ocorre hoje na
França e mundialmente, e o controle estudantil sobre todas as atividades escolares e
administrativas demonstram que os estudantes e o povo já estão suficientemente
maduros para exercer todas as formas que levem à concretização de uma sociedade
onde a maioria tenha realmente o controle econômico-social e onde haja liberdade de
expressão de pensamento e manifestação.
“Chamamos os colegas universitários para que realizem assembléias e comícios,
unindo as suas reivindicações à luta dos secundaristas, mantendo firme a posição de
expulsão do fascista Roman Blanco, impedindo o afastamento de professores e
coordenadores solidários aos estudantes, opondo-se às pretensões reacionárias e
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repressivas da Reitoria na preparação de novas crises que levem ao fechamento de


novos cursos.
“A continuidade da luta agora depende de todos nós estudantes de Brasília. É
necessário que não fiquemos somente em manifestações simbólicas de solidariedade.
Precisamos adotar uma posição definida de luta para exigir nossos direitos.
“As mobilizações dos estudantes se colocam como um dos centros
impulsionadores da luta pela libertação das classes oprimidas em todo o mundo. Os
estudantes da França, Itália, Bélgica e Alemanha saem como expressão da vontade
firme de luta das massas exploradas. Devemos promover a ocupação de colégios,
universidades e fábricas, estabelecer o governo estudantil do ensino. Devemos lutar
também pelo controle da produção nas fábricas, pelo aumento geral de salários e pela
diminuição das horas de trabalho”.
Aquele manifesto terminava com uma novidade em relação aos anteriores: pedia
“a unificação das lutas dos estudantes e operários”.
Além de soltar manifestos, o DCESB contratou advogados e desencadeou uma
ampla campanha pela volta dos 80 alunos. Praticamente todos os pontos de ônibus do
Plano Piloto foram pichados: “Os 80 voltarão. CAB” (Colégio Agrícola de Brasília)

6 – A OCUPAÇÃO DO CENTRO DE ENSINO MÉDIO ELEFANTE BRANCO

Os secundaristas também ocuparam o Centro de Ensino Médio Elefante Branco,


maior escola pública do Distrito Federal em 1968.
Foi um protesto contra a omissão da Secretaria de Educação no atendimento às
suas reivindicações. Devido a essa omissão, o diretor do colégio, Hélio Medeiros – que
havia quatro anos mantinha convivência satisfatória com os alunos – resolveu pedir
demissão.
Na Secretaria de Educação desde o início de 1967, o ex-deputado catarinense
Ivan Luz tinha criado vários atritos com o professor Hélio e vinha prejudicando o seu
trabalho, para forçar sua saída.
Quando o diretor finalmente pediu demissão, os estudantes não sabiam o que
poderia acontecer e resolveram ocupar o colégio como forma de chamar atenção para
suas reivindicações. Entre elas estavam o funcionamento em tempo integral da
biblioteca – que só abria à noite – a instalação de novos equipamentos e a plena ativação
dos laboratórios, o funcionamento da cantina com preços módicos, a substituição de
coordenadores e professores considerados incompetentes, a distribuição gratuita de
apostilas escolares, a melhoria das instalações sanitárias, a limpeza geral do colégio e
autonomia total para o grêmio estudantil.
Depois de declarar o colégio ocupado, na noite de 7 de junho, uma sexta-feira, a
primeira providência dos estudantes foi organizar diversas comissões: de segurança,
alimentação, almoxarifado, limpeza e biblioteca. Outro grupo ficou encarregado do
relacionamento com os pais de alunos, autoridades educacionais e imprensa.
A biblioteca foi reaberta em tempo integral com os livros bem organizados por
assunto, o que não era feito havia muito tempo.
Mas a principal atividade foi a limpeza, que deixava muito a desejar no Elefante.
Depois que as grandes enceradeiras redondas foram retiradas do almoxarifado, todo o
chão do colégio foi cuidadosamente limpo pelos alunos, que passaram o fim de semana
trabalhando. As instalações sanitárias também mereceram cuidados especiais, da mesma
forma que as carteiras, que estavam todas riscadas e receberam pelo menos duas
camadas de uma cera cor-de-rosa.
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Ao declarar o colégio território livre, os estudantes afirmaram que assumiriam as


funções administrativas e que as aulas prosseguiriam normalmente. “Sem que, no
entanto, aceitemos arbitrariedades de qualquer professor”, esclareciam os novos
responsáveis pelo estabelecimento de ensino.
Outra resolução estabelecia que, se alguém fosse surpreendido em atitudes
contrárias às decisões estudantis, seria expulso do Elefante. As pessoas vinculadas ao
colégio que adotassem atitudes policiais ou que estivessem comprovadamente ligadas
aos órgãos de repressão do governo seriam julgadas publicamente. Ficou decidido
também que seriam realizadas discussões em salas de aula sobre os problemas do
colégio e que os professores e funcionários seriam convidados a participar do
movimento.
Segundo Renata Maria Braga Santos, que participou da ocupação, “era proibido
qualquer tipo de namoro e o uso de qualquer droga, para manter a disciplina interna.
Cantávamos muito, principalmente músicas de protesto e canções revolucionárias, como
a Internacional. Dormíamos em colchonetes”.
No sábado, foram ministradas algumas aulas por professores solidários ao
movimento e também por alunos. Algumas turmas substituíram as aulas por seminários
orientados por representantes do grêmio.
Para desocupar o colégio, os alunos exigiam a saída dos policiais que tinham
invadido o Colégio Agrícola desde a semana anterior. Além disso, queriam o
atendimento de todas as reivindicações e que “o novo diretor ou o professor Hélio, se
permanecer no cargo, declare em assembléia geral que cumprirá rigorosamente nossas
condições num prazo a ser fixado”.
No dia 15 de agosto, funcionários do Elefante não conseguiram apagar as
pichações feitas durante a noite nas pilastras do colégio: “Fora a Diretoria Fascista do
CEMEB” e “Liberdade no CEMEB - Grêmio Fechado”.
Enquanto a direção do colégio declarava não reconhecer a diretoria do Grêmio,
cassada pelo Conselho Técnico até as eleições seguintes, a diretoria do Grêmio declarou
não reconhecer qualquer resolução do Conselho Técnico, presidido por César
Gonçalves Filho, o novo diretor.
A direção do colégio marcou para a segunda-feira seguinte, 19 de agosto, o
reinício das aulas. A diretoria do Grêmio marcou para a mesma data manifestações que
teriam início na reabertura das aulas.

6.1 – As expulsões que não valeram

No dia 17, foi divulgada pela direção do colégio uma lista com 13 alunos
expulsos, dos quais cinco pertenciam à diretoria do Grêmio: Luiz Carlos Monteiro
Guimarães, Ítalo Silgueiro Filho, Iraê Sassi, Caci Maria Sassi, Victorino de Oliveira
Neto, Hamilton Lopes dos Santos, Ana Amélia Gadelha Lins Cavalcante, Maria Regina
Peixoto Pereira, Gilma Pereira de Souza Elias, Bergson Luiz de Souza, Ângela Cozetti
Marinho, Solonel Campos Drumond Jr. e Maria Jacy Santos Amorim.
Na mesma data, o grêmio divulgou nota classificando a medida como arbitrária:
“Torna-se imperioso que notemos a total inexistência de argumentos justos que
fundamentem as expulsões desses alunos, os quais – junto a vários outros – colaboraram
num trabalho sério e honesto no sentido de melhorar as condições de ensino neste
colégio”.
A 19 de agosto, o juiz da Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal, Vicente
Cernichiaro, atendeu pedido do advogado Edísio Gomes de Matos e concedeu liminar
ao estudante Victorino de Oliveira Neto, decretando a ilegalidade do ato que cancelou a
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sua matrícula. No mesmo dia, foi também reintegrada Maria Jacy Santos Amorim,
incluída na lista de expulsões por engano.
Ainda em agosto, o mesmo advogado conseguiu na Justiça a reintegração dos
outros 11 expulsos.
Em setembro, na eleição para a diretoria do Grêmio do Elefante, César e a
Secretaria de Educação sofreram nova derrota, apesar do racha na esquerda.
Desde o ano anterior, quando ganharam a eleição para o DCESB e para o
Grêmio do CIEM com chapas denominadas Vanguarda, os trotskystas (quase sempre
aliados a outros grupos de esquerda) disputaram e ganharam com esse nome todas as
eleições estudantis no Distrito Federal.
Deflagrado o processo eleitoral no Elefante Branco, foi registrada uma chapa
Vanguarda, que tinha como presidente Jonas Martins Fernandes e como vice Iraê Sassi.
Mas havia uma outra chapa de esquerda, a Convenção, presidida pelo amazonense
Aurélio Michiles. A direita estava representada pela Ala Independente, e na última hora
ainda foram registradas as chapas Virgem, Amor e Bandinha – sem qualquer chance de
vitória.
A eleição estudantil mais disputada de 1968 teve muitos cartazes, faixas e
distintivos para serem afixados nas camisas, principalmente dos seguidores da
Vanguarda, da Convenção e da Ala Independente. Esta apresentava como principais
bandeiras a luta pela construção da área de esportes, pela solução definitiva para o
problema da cantina e a defesa do livre pensamento dos estudantes. A Vanguarda
prometia lutar contra o vestibular, contra a infiltração estrangeira no ensino, defendendo
a liberdade de expressão dos estudantes, bem como seu direito de realizar assembléias.
Outra bandeira era “apoiar a luta dos trabalhadores”. Por sua vez, a Convenção se
propunha a dinamizar as atividades culturais e esportivas no colégio, lutar pela melhoria
da biblioteca e dos laboratórios e estimular o estudo de documentos sobre a política
educacional do Governo, como o Acordo MEC-USAID.
A Vanguarda ganhou a eleição, com seis votos a mais que a Ala Independente.
A Convenção ficou em 3º lugar.
A vencedora tinha o mesmo nome da chapa destituída pelo diretor em agosto. E
seu vice-presidente, Iraê Sassi, expulso do colégio na mesma ocasião, fora reintegrado
através de medida judicial contra a decisão do diretor.

7 - ESTUDANTES PRENDEM POLICIAL

No dia 11 de julho, uma quinta-feira, a comissão de segurança da FEUB prendeu


no interior do restaurante universitário o policial Edrovano Guimarães Gutierres, que
tinha chegado ao campus numa viatura da Polícia equipada com rádio. Era um gaúcho
forte, 30 anos, de bigode.
Identificado pelos estudantes, ele teve os olhos vendados e foi levado para o
auditório do Departamento de Música, onde foi interrogado. Num quadro negro, perto
da cadeira onde Edrovano estava sentado, alguém escreveu: “O Pêra Dourada?” Era
uma alusão a uma policial detida por estudantes da Universidade de São Paulo com uma
identidade estudantil falsa e que fora chamada de “Maçã Dourada”.
Pêra Dourada disse que tinha ido à UnB procurar uma estudante do 3º ano de
Medicina chamada Maria de Jesus, ex-namorada de outro policial que ele teria
conhecido num festival de chope. Os estudantes tentaram localizar Maria de Jesus, que
não era conhecida pelos alunos do curso de Medicina.
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O policial disse que não podia responder às insistentes perguntas dos estudantes
sobre o nome de agentes infiltrados na UnB. Alegou que trabalhava no combate à
mendicância e que, portanto, não tinha qualquer ligação com a repressão ao movimento
estudantil.
Sempre com os olhos vendados, Pêra Dourada insistia em afirmar que não estava
em serviço e que apenas procurava uma pessoa. Se usava uma viatura policial, era
porque seu carro estava na oficina.
Às 20h20, os estudantes anunciaram para o público externo que iam levar o
prisioneiro para outro local, fora da Universidade, onde ele passaria a noite sendo
interrogado. Segundo os estudantes, a retirada de Edrovano do campus visava à própria
segurança dele. Fora da UnB ele estaria a salvo de eventuais agressões de militantes
mais inquietos, alegavam os responsáveis pelo prisioneiro.
Na verdade, Pêra Dourada foi removido para o Instituto Central de Ciências, um
prédio do campus que ainda estava em obras e se constituía num verdadeiro labirinto de
corredores em obras, salas sem reboco e material de construção por todos os lados.
O policial foi bem tratado enquanto esteve sob poder dos universitários, que
apenas evitavam falar seus nomes verdadeiros. Todos se tratavam simplesmente como
“João”, como Pêra Dourada chamou o estudante que o deteve no restaurante.
Edrovano acabou dizendo que já tinha sido aluno da UnB em diversos cursos de
extensão cultural: Teoria Geral do Direito, uma matéria de Jornalismo e um curso
denominado Direções da Poesia Brasileira Contemporânea. A suposta namorada dele
não foi encontrada e mais tarde ele confessou que era casado, tendo pedido para mandar
um bilhete à esposa.
O prisioneiro foi identificado como o policial que comandou a repressão ao
movimento estudantil no Centro de Ensino Médio Ave Branca, em Taguatinga.
Também foi reconhecido como figura sempre presente em manifestações estudantis.

7.1 - Negociações

Por volta das 2 horas da madrugada, os colegas de Pêra Dourada resolveram


resgatá-lo. A UnB foi cercada por 70 viaturas e 350 agentes armados, inclusive com
bombas de gás lacrimogêneo. Alguns conduziam chicotes que estalavam no ar.
Todas as vias de acesso estavam sob controle dos agentes, que prenderam vários
estudantes, dentro e fora do campus. A alguns deles, que chegavam para as aulas, os
policiais faziam questão de afirmar: “Estamos aqui para vingar nosso colega que foi
seviciado por vocês. Arrancaram o bigode dele à mão. Vocês fizeram as maiores
perversidades e agora vão pagar por isso”.
Às 6h30, numa operação comandada pelo delegado Paes Leme, um pelotão de
choque invadiu a UnB, espalhando-se pelo campus e tentando localizar o policial
seqüestrado. Não foi possível. Em frente à sede da FEUB, foram feitas mais algumas
prisões. Em conversa com estudantes, Paes Leme tentava convencê-los a entregar Pêra
Dourada.
Por volta das 7h30, com a chegada do reitor, foram iniciadas gestões para
contornar o problema. Às autoridades, a Reitoria pedia que controlassem seus homens.
Aos estudantes, pedia que libertassem o policial.
Os estudantes exigiram a libertação dos colegas presos como condição para
soltarem Pêra Dourada. Além disso, os estudantes queriam a presença da imprensa,
suspensão do cerco policial e um pronunciamento da Reitoria com uma posição frente
aos fatos.
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Às 11h30, um ônibus saiu da UnB com três professores e dois delegados para
buscar os presos – que a Secretaria de Segurança dizia serem apenas nove. Logo que o
ônibus saiu, foi permitida a entrada de jornalistas e estudantes que aguardavam fora do
campus.

7.2 – Troca de presos

Pouco depois do meio-dia, chegaram 23 presos: 20 estudantes e três turistas


franceses. Quando o ônibus chegou, foi logo cercado pelos estudantes. O delegado João
Comini abriu a porta e disse que estacionaria em frente à Reitoria. Apoiando uma das
mãos na porta do veículo, o delegado foi vaiado pelos estudantes, que lhe
recomendavam: “Cuidado com seu dedo-duro, que ele pode se machucar quando a porta
se fechar”.
Os presos foram levados para uma das salas da Reitoria. Assim que eles foram
identificados, chegou uma professora dizendo que três outros estudantes tinham sido
presos na Colina (onde moravam os professores da UnB).
Com estudantes superlotando a sala do reitor e subindo nas mesas, começou uma
discussão com os assessores do reitor, em que era exigida a devolução também desses
presos.
Segundo o Jornal do Brasil, de onde foi transcrita parte destas informações,
travou-se então o seguinte diálogo:
– Os presos estão aí. O trato tem de ser cumprido.
– Nós só devolveremos o agente quando tivermos certeza de que todos os
estudantes foram soltos.
– O delegado já deu sua palavra de que todos estão aqui.
– Ninguém acredita em Polícia.
– Eles deram a palavra. Vocês têm de acreditar.
Naquele momento, chegou a informação de que as novas prisões eram sete e não
apenas três.
Enquanto o secretário da Reitoria telefonava para confirmar a denúncia e recebia
a garantia de que não havia mais nenhum preso, um grupo de jornalistas bateu na porta
da sala do reitor. O delegado João Comini atendeu e disse que não ia permitir a entrada
de ninguém. Os estudantes então perguntaram: “Afinal, quem manda aqui? O delegado
ou o reitor?”
Devido à garantia da Polícia de que não havia outros presos, os estudantes
resolveram entregar o agente, que em nenhum momento saíra do campus.
Sorridente, Edrovano entrou na sala às 13h e foi apresentado ao reitor, que
saudou: “Muito prazer”. Pêra Dourada foi abraçado pelo delegado João Comini e pelo
capelão da Polícia, que lhe perguntou como ele se sentia: “Muito bem. A moçada foi
gentil”.
A presença do policial no campus, devido à ostentação com que aconteceu, foi
interpretada como uma provocação de grupos ultra-direitistas para criar uma nova crise
na UnB.