Você está na página 1de 138

Eu sou atlântica

Eu sou atlântica
Alex Ratts

sobre a trajetória de vida


de Beatriz Nascimento

Alex Ratts
Conselho Editorial 5 Elementos - Instituto de Educação Ambiental e Pesquisa Ambiental
Abrinq - Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente
Ação Educativa - Assessoria Pesquisa e Informação
ANDI - Agência de Notícias dos Direitos da Infância
Ashoka - Empreendedores Sociais
Cedac - Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária
CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura
e Ação Comunitária
Conectas - Direitos Humanos
mprensa cial do stado de o a lo
Instituto Kuanza
ISA - Instituto Sócio Ambiental
Midiativa - Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes

Comitê Editorial Âmbar de Barros - ANDI/Midiativa - Presidente


Antonio Eleilson Leite - Ação Educativa
Cristina Murachco - Fundação Abrinq
merson ento ereira mprensa cial
bert l res mprensa cial
Isa Maria F. da Rosa Guará - CENPEC
Lucia Nader - Conectas
ie en lemm l odri es mprensa cial
i l aro alles iar de ene es mprensa cial
Maria de Fátima Assumpção - Cedac
aria n s anc e a
Monica Pilz Borba - 5 Elementos
Rosane da Silva Borges - Instituto Kuanza
Silvio Barone - Ashoka
Taís Buckup - Ashoka
era cia e mprensa cial

Esta publicação foi possível graças


a um programa de ação social da
Eu sou atlântica
GOVERNO DO ESTADO
DE SÃO PAULO
Governador Cláudio Lembo
Secretário-chefe da Casa Civil Rubens Lara

IMPRENSA OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO

Diretor-presidente Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente Luiz Carlos Frigerio


Diretor Industrial e i omio a
Diretora Financeira e Administrativa Node e ameri eano
Chefe de Gabinete Emerson Bento Pereira

INSTITUTO KUANZA

Diretor(a)-presidente Silvia Lorenso


iretora de es rmati as Cidinha da Silva
Diretora de Educação Rosa Vani Pereira
Diretora de Comunicação e Pesquisa Rosane da Silva Borges
Diretora de Juventude e Articulação Comunitária Silvia Lorenso
Diretora de Relações Internacionais Uju Annya
Eu sou atlântica
sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento

Alex Ratts

São Paulo, 2006


Direitos reservados, proibida a reprodução total
ou parcial sem a prévia autorização do editor

Ficha de Catalogação

ISBN 85-7060-359-2

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907)

Instituto Kuanza mprensa cial do stado de o a lo


Av. Diógenes Ribeiro de Lima, 2001 Rua da Mooca, 1921 Mooca
bl 77 apto. 11 Alto de Pinheiros 03103-902 São Paulo SP
P/ correspondência: Tel 11 6099 9800
Rua Dona Veridiana, 547 apto. 903 imprensao cial com br
01238-010 São Paulo SP li ros imprensao cial com br
Tel 11 3337 6980 SAC Grande São Paulo 11 6099 9725
instituto.kuanza@uol.com.br SAC Demais localidades 0800 0123 401
Apresentação

O livro do professor Alex Ratts resgata, do relativo esquecimento em que se en-


contram, a trajetória de vida e a contribuição intelectual de Beatriz Nascimento – “mu-
lher, negra, nordestina, migrante, professora, historiadora, poeta, ativista, pensadora”,
como resume o autor.
Não se trata, porém, de uma biografia nos moldes tradicionais. Nem de uma
reconstituição sistemática e fria de idéias, no padrão característico de trabalhos
acadêmicos. O livro reata um diálogo solidário e comovido com Beatriz Nasci-
mento, procurando recolocar sua voz nos circuitos acadêmicos e militantes.
A segunda parte do livro, que reproduz alguns textos significativos de
Beatriz Nascimento, é, por isso, a mais relevante. A primeira parte vale como
uma introdução cuidadosa à leitura imprescindível desses textos densos e polê-
micos, que apontaram novos ângulos da questão negra no Brasil e abriram, mui-
tas vezes, caminhos originais de pesquisa, como na reavaliação do significado
dos quilombos.
O debate sobre a condição atual e a participação histórica dos brasileiros
e brasileiras de cor negra e ascendência africana na construção de nossa na-
ção corre o risco de polarizar-se em duas posições extremas e equivocadas.
Alguns, ressaltando que nunca adotamos regimes legais de segregação racial,
como nos Estados Unidos ou na África do Sul, afirmam que não somos racis-
tas. Subestimam a persistência e a importância das formas dissimuladas de
preconceito e discriminação econômica, cultural e política contra os segmen-
tos negros e pardos de nossa população. Outros, insistindo nessas formas
encobertas de discriminação e na condição subalterna da maioria da popu-
lação negra e parda, tendem a converter a oposição entre brancos e negros
no conflito principal de nossa sociedade, não o relacionando adequadamente
com as condições de classe e de gênero, por exemplo. Alimentam, mesmo que
involuntariamente, o perigo de que nosso patrimônio cultural compartilhado seja
negligenciado e nossa identidade comum como brasileiros, fragmentada na jus-
taposição forçada de afro-descendentes, euro-descendentes, nipo-descendentes, e
assim por diante.
É preciso, portanto, aprofundar as pes-
quisas sobre o tema e o debate sobre como en-
frentar as desigualdades em nossa sociedade,
inclusive as que atingem a grande maioria da
população negra e parda. Como escreveu Bea-
triz Nascimento, “a história da raça negra ainda
está por fazer, dentro de uma História do Brasil
ainda a ser feita”.
Ao publicar textos como os dela e o traba-
lho do professor Alex Ratts, a Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo procura contribuir para
essa tarefa, lembrando que o inciso IV do artigo
3º de nossa Constituição inclui, entre os obje-
tivos fundamentais de nossa República, como
um belo programa-síntese, o de “promover
o bem de todos, sem preconceitos de origem,
raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas
de discriminação”.

Hubert Alquéres
Diretor-presidente da Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo
Prefácio, 11

Parte I – Quantos caminhos percorro, 15


1. Antes tudo acontecesse como acontecem as histórias – Introdução, 17
Palavras de reconhecimento, 21

2. É tão bom o retorno, 25


Pontos fixos de uma trajetória não linear, 27
Mulher negra acadêmica, ativista e intelectual, 28
Esquecimento, 30
Memórias seletivas: quem lembra de Beatriz Nascimento?, 32
Um nome, um horizonte, 33

3. Este projeto é também um grande sonho – Os territórios do discurso, 35


Percursos de um projeto intelectual negro, 38
Referências do discurso, 43

4. Esse emaranhado de sutilezas – O racismo brasileiro e as possibilidades de reação, 45


Mecanismos do racismo e a pessoa negra, 48
Possibilidades de reação, 50

5. A Terra é o meu quilombo – Terra, território, territorialidade, 51


Quilombo: campo de tensão e busca espacial, 53
A trajetória de Beatriz Nascimento em direção ao quilombo, 56

6. Corpo/mapa de um país longínquo - Intelecto, memória e corporeidade, 61


Corporeidades negras, 65
Corpo-documento: identidade, 68

7. Eu sou atlântica – Transmigração, mulher negra e auto-estima, 71


Mulher negra, 74
Mitos em suspensão, 76
Sinuosidades da alma e auto-estima, 77

8. Fontes, 81
Bibliográficas, 83
Hemerográficas, 87
Filmografia, 88
Internet, 88
Poemas inéditos, 88
Outros, 88

Parte 2 – É tempo de falarmos de nós mesmos, 91


Por uma história do homem negro – Beatriz Nascimento, 93
Negro e racismo – Beatriz Nascimento, 98
A mulher negra no mercado de trabalho – Beatriz Nascimento, 102
Nossa democracia racial – Beatriz Nascimento, 106
O inferno, 107
Ceticismo, 108
Kilombo e memória comunitária: um estudo de caso – Beatriz Nascimento, 109
Dificuldades e pretensões em função da pesquisa, 115
O conceito de quilombo e a resistência cultural negra – Beatriz Nascimento, 117
Objetivos, 117
Introdução, 117
O quilombo como instituição africana, 117
O quilombo como instituição no período colonial e Imperial no Brasil, 119
O quilombo como passagem para princípios ideológicos, 122
Considerações finais, 124
Bibliografia, 125
Daquilo que se chama cultura – Beatriz Nascimento, 125
A mulher negra e o amor – Beatriz Nascimento, 126
Prefácio

Mulher, negra, nordestina, quilombola urbana contemporânea, historiadora,


poeta, ativista, pensadora: qual o seu lugar - em seu tempo – para a Academia e
para os movimentos negros? São essas as questões que Alex Ratts levanta nesse
belo livro, Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. E ao buscar
fazê-lo, por meio do que ele denomina “recolocar em pauta a voz das expressões
negras, especialmente os (as) que viveram e escreveram acerca de seus desloca-
mentos por “vários mundos”, Ratts, por intermédio de Beatriz Nascimento, nos
indica os caminhos teóricos, políticos e metodológicos possíveis de serem trilhados
para se articular os múltiplos posicionamentos que a condição racial, de gênero e a
situação de classe nos impõe, em especial no âmbito das relações raciais no Brasil,
conformando sujeitos políticos e de conhecimento capazes de deslocarem e res-
significarem processos de reificação que suportam a subalternização racial e de
gênero.
Assim, Ratts nos traz de volta Beatriz Nascimento e nos permite continuar o
diálogo interrompido pela sanha assassina de um misógino que logrou silenciar,
para sempre, uma rainha. Mas como rainhas não morrem, saem de cena num ras-
tro de luz como as estrelas, ei-la de volta trazida pelas mãos desse pesquisador,
ecoando os seus e nossos sonhos de liberdade.
Tive o privilégio de assistir à célebre conferência de Beatriz na Quinzena do
Negro na USP, em 1977, evento organizado pelo pesquisador Eduardo Oliveira e
Oliveira. Lá estava ela, vestida de dourado, parecendo uma manifestação de Oxum
em terra, audaciosa nas idéias, bela na imagem, altiva na interlocução. Um mo-
mento mágico de afirmação de uma mulher negra como sujeito do conhecimento
sobre o seu povo. Um momento mágico de sabedoria e sedução, de elegância e
perspicácia como se estivéssemos num ritual yorubá de culto ao poder feminino.
Historiadora, libertou a negritude do aprisionamento acadêmico ao passado
escravista, atualizando signos e construindo novos conceitos e abordagens. Assim
é a noção de quilombos urbanos, conceito com o qual ela ressignifica o território/
favela como espaço de continuidade de uma experiência histórica que sobrepõe a
escravidão à marginalização social, segregação e resistência dos negros no Brasil.

11
Ratts inova não apenas por dedicar-se ao políticos e afins), Ratts sistematiza a trajetória
pensamento de uma intelectual e ativista negra de uma mulher que possui importância vi-
singular de pensamento arrojado e estilo de vida tal nas décadas de 1970, 80 e início da de 90,
igualmente transgressor ou insurgente. Mas, não apenas para a população negra, mas para
sobretudo, pelo fato de decisões como essa, de todos(as) os(as) habitantes desta terra ainda
prestar tributo ao pensamento de Beatriz Nas- injusta para muitos.
cimento, ser parte de um processo de recon- A invisibilização e silenciamento do
hecimento permanente em suas pesquisas, da pensamento negro têm consistido numa das
dimensão de gênero, como condição essencial, formas mais eficazes para a permanência e
além da de classe e de raça para a compreensão reprodução da alienação cultural e posterga-
e enfrentamento/equacionamento dos desafios mento da emergência e florescimento do pen-
teóricos e práticos relativos à superação das fla- samento crítico negro. As escolhas teóricas e os
grantes desigualdades sociais. Ao apontar Bea- objetos de saber apropriados por Ratts, inten-
triz Nascimento como “uma das âncoras” para cionalmente voltados para o reposicionamento
seu barco “à deriva no Atlântico Negro”, Ratts de “saberes sepultados” que compõem o pa-
nos dá a clara sinalização de por onde passa o trimônio político/cultural e libertário do povo
percurso coletivo de todos nós, negros e negras negro, expressam um projeto de investimento
acossados pela experiência histórica de sermos no resgate de uma “linhagem de pensamento
simultaneamente indivíduos e coletividade e de ação”, e conseqüentemente de afirmação
imersos no movimento de busca “por raízes e de sujeitos do conhecimento historicamente
rotas correlatas” que nos permitam retornar ao desprezados. Uma tarefa e um posicionamento
porto seguro de uma identidade não codificada político de um pesquisador negro insurgente
e, por conseguinte, livre. em busca da efetiva emancipação política das
E esse livro é um porto seguro para no- gerações que virão. A modéstia e o respeito
vas/outras referências no mapa da exclusão do autor em relação a figura ímpar de Beatriz
brasileira, pois mostra-se especialmente útil Nascimento o impede de assumir o que para
para a prática política das organizações ne- ele seria um gesto autoritário, como ele nos
gras brasileiras e para o processo educacional, diz: o de restabelecer essa voz silenciada pelo
atualmente ávido por narrar outras histórias e tempo e, sobretudo, pelos processos de invisi-
personagens que protagonizaram a construção bilização da produção acadêmica, militante e
do país em seus diversos aspectos. Com Beatriz demais saberes sujeitados da resistência negra.
Nascimento temos um modo de ver e conhecer Modestamente, coloca-se “em face de seu dis-
outra face do Brasil. Por meio dos fragmentos curso, de mulher negra, ativista e intelectual e
dos seus textos (poéticos, fílmicos, acadêmicos, travo um diálogo com suas idéias respeitando

12
contextos e trazendo à luz, nomes/vozes de
algumas mulheres e alguns homens que lhe
foram referências, interlocutores (as) em deter-
minados campos de interação”. Assim revivi-
da Beatriz Nascimento ressurge diante de nós
pronta para os novos embates que o presente
nos coloca no plano teórico e da ação política.
Obrigada Alex Ratts.

Sueli Carneiro
Diretora-fundadora de Geledés –
Instituto da Mulher Negra

13
Parte 1

Quantos caminhos percorro


1. Antes tudo acontecesse como acontecem as histórias
Introdução

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu


Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz

Se ela mora num arranha-céu


E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
(...)

Beatriz – Edu Lobo e Chico Buarque

17
Beatriz. Nascimento. Dez anos após sua trajetória enquanto grupo étnico, refazendo
morte, continuo à procura de sua pessoa – um caminho nesse mar, nessa terra escravista,
alma, soul, ntu – para tentar um diálogo, cuja racista e sexista. Para cada texto que se tem à
preocupação não seja restabelecer sua voz, o frente penso que se faz necessário abrir os olhos
que seria autoritário de minha parte. Ponho- para as figuras negras que se recompuseram
me em face de seu discurso de mulher, negra, em fuga, em combate, em territórios móveis,
ativista e intelectual e travo um diálogo com numa terra estranha que hoje nos estranha e
suas idéias, respeitando contextos e trazen- devia ser “nossa”.
do à luz nomes/vozes de algumas mulheres Quando apresentei uma comunicação acer-
e alguns homens que lhe foram referências, ca da trajetória intelectual de Beatriz Nascimen-
interlocutores(as) e/ou contendores(as) em to numa certa sociedade científica, um homem
seus territórios discursivos. branco europeu que estuda relações raciais no
O terreno que se pretende preparar é um Brasil procurou me “alertar” para o cuidado em
patamar de reencontro com seus textos escri- erigir estes “bustos negros”, com o intuito de me
tos e falados, uma terra negra, um espaço-tem- prevenir da vontade de (re)construir um mito.
po marcado por reconhecimentos de raça, de Como lhe disse naquela manhã especial, o busto
gênero, de lugares e de momentos, que procuro de Beatriz e de outras mulheres e homens negros
construir com uma personalidade que segura- não está edificado em nenhuma cidade brasileira
mente me comove e continua me convencendo e o “monumento” que merecem é o nosso retor-
cada vez que a leio ou escuto, ainda que, vez ou no a seus pensamentos e posicionamentos. Essa
outra, dela discorde. Beatriz Nascimento é uma é uma das viagens que me interessam.
das âncoras de meu barco à deriva no Atlântico Reitero que o esforço é de reconhecimento.
Negro e esse livro é fruto dessa experiência de O estranhamento e o distanciamento, exigidos
um indivíduo em movimento por raízes e rotas para se alcançar a suposta objetividade cientí-
correlatas. Parte desse meu deslocamento, es- fica, comparecem como experiências controla-
pacial e identitário, se deu ainda em Fortaleza, das. Fazendo eco a Abdias Nascimento, sem me
quando assisti a Ori, filme do qual ela é um dos imaginar à altura dele e de Beatriz, não estou
fios condutores, em 1989, quando me decidia “interessado no exercício de qualquer tipo de
pelo ativismo no movimento negro e pela pós- ginástica teórica, imparcial e descomprometi-
graduação em geografia. da. Não posso e não me interessa transcender a
Cada pessoa pode reorientar-se nesse mim mesmo, como habitualmente os cientistas
vasto campo, com os fragmentos de heranças e sociais declaram supostamente fazer em relação
de perspectivas que escolha amalgamar, de ne- às suas investigações. Quanto a mim, considero-
gritude, branquitude ou outras atitudes de sua me parte da matéria investigada”. (1978: 41).

19
Ao aproximar-me da trajetória de Beatriz, balho de campo” as rememorações que afloram
que em parte é a minha, comprometo este livro no contato com ativistas e acadêmicos(as) que
de maneira inequívoca e nele ponho razões e conheceram de perto Beatriz Nascimento. Em
emoções, sem dicotomizá-las. Muitas vezes me mais de um trecho, como fiz acima, detenho-me
pego diante de uma fotografia sua como se fosse a falar da pessoa, do ser humano que, por sua
um espelho, embora ele não reflita a minha ima- vez, expunha em seus textos sua subjetividade.
gem. Não nego que às vezes verto uma lágrima O livro também não se constitui como uma
que turva a imagem vista. Mais de uma vez o história dos movimentos negros, apesar de,
fiz, como na madrugada em que acessei, via In- eventualmente, tecer considerações a respeito
ternet, as notícias de seu assassinato em janeiro desse contexto.
de 1995. Fiquei pensando, parafraseando Lô Feitas as devidas ressalvas, tomados os
Borges acerca da morte de John Lennon: como cuidados, sigo em frente deixando ressoar o
um simples canalha mata uma rainha? Numa propósito de Célia Regina acerca de Beatriz
hora como essa lamento porque pressuponho Nascimento: “Revelar parte da personalidade
que seus projetos foram interrompidos “por um inquietante e obstinada desta mulher é fazer
triz” e supero o amargo do sentimento, quando jus ao que ela mesma definia como mistério. A
imagino que eles se realizam em outras pessoas memória de Beatriz deve ser resguardada e tam-
e coletividades por esse país afora. bém revelada” (2001).
Ressalto as fisgadas no peito por sentir-me, Enquanto organização e estilo, a primeira
às vezes, muito perto diante de alguém que não parte desse livro – Quantos caminhos percorro
conheci em vida. Distanciamo-nos, Beatriz e – é composta de escritos justapostos quase que
eu, por contextos distintos de história de vida, somente às citações de textos impressos ou nar-
ainda que siga alguns de seus passos. Afasto-me rados por Beatriz Nascimento, que se tornam,
especificamente por uma outra clivagem que é às vezes, longas. A voz de uma outra pessoa é a
o momento teórico e político em que vivo e que matéria-prima, no sentido original de “primei-
permite a mim e a outros/aos acadêmicos/aos ra”, dessa parte do livro. As notas de rodapé
ativistas nos aproximarmos destes/os nossos/os remetem a questões correlatas e autores(as) de
pares que nos antecederam. referência.
Devo destacar que não estou utilizando A segunda parte – É tempo de falarmos de
os procedimentos metodológicos de história nós mesmos – constitui-se numa coletânea de
de vida. Uso prioritariamente material escrito artigos publicados pela autora em periódicos
e publicizado, sobretudo artigos e entrevistas, acadêmicos, revistas semanais, jornais de opini-
e textos inéditos disponíveis em acervos públi- ão, incluindo a chamada “imprensa negra”. Tra-
cos e privados, sem deixar de registrar no “tra- ta-se de ensaios que apresentam o que considero

20
seus temas centrais, com destaque para sua pes- como de hábito, todo o apoio ao levantamento
quisa acerca do fenômeno dos quilombos e de daquele material. Kabengele Munanga, que me
suas idéias a respeito do racismo e da situação orienta, no sentido mais amplo desse termo,
da mulher negra no Brasil. As duas partes do desde o doutorado, observava meu trato com
livro e todos os capítulos da primeira estão inti- os papéis do arquivo, as descobertas diárias e
tulados com frases de Beatriz. respondia para além das perguntas que eu fazia
acerca de alguém que ele tão bem conhecia. Em
maio de 2004, num final de manhã paulistano,
Palavras de reconhecimento fui recebido por Raquel Gerber em seu aparta-
mento que mostrou interesse por este projeto,
Um trabalho desse tipo não seria possível em fase de confecção do livro, e cedeu a foto
sem o estímulo e o apoio de determinadas pes- para a capa.
soas. Algumas o impulsionaram e outras colabo- Luena Nascimento Nunes Pereira, primeira
raram com a pesquisa. pessoa da família de Beatriz Nascimento com
Carlos Serrano, um dos diretores do Centro quem convivi nos tempos de residência univer-
de Estudos Africanos da Universidade de São sitária, fez aproximações sensíveis para essa pes-
Paulo, sabia do meu interesse pela produção quisa e comentou meu primeiro texto acerca de
acadêmica de Beatriz Nascimento acerca de sua tia. Isabel Nascimento contribuiu sobrema-
quilombos. No início de 2001, após minha de- neira com os levantamentos e deu o estímulo
fesa de doutorado e quando estava para deixar seguro, confiando em mim para o desenvolvi-
São Paulo e, mais especificamente, a USP, com mento desse projeto de recolocar a voz de sua
mudança acertada para a UFG em Goiânia, irmã nos circuitos acadêmicos e políticos. Visi-
como pesquisador e professor convidado, Ser- tando-a em seu apartamento no Edifício Beatriz,
rano me mostrou o material que estava arquiva- no bairro do Catete, na cidade do Rio de Janeiro,
do no CEA-USP, referente aos levantamentos Isabel emprestou-me documentos raros e dividiu
hemerográficos e iconográficos para o filme comigo horas caríssimas de diálogo acerca de
Ori, dirigido por Raquel Gerber, com textos es- Beatriz. José Maria Nunes Pereira, cunhado de
critos e narrados por Beatriz. Serrano a conhe- “Bia”, como a família a tratava, numa noite em
ceu por muito tempo, e dela fala com substân- seu apartamento-biblioteca-tesouro, comentou
cia e emoção, também colaborou na pesquisa igualmente aquele meu texto inicial. Bethânia
para o filme e foi a pessoa a quem a diretora Gomes, filha de Beatriz, prestou um apoio sen-
da película confiou esse acervo. Nas vezes em sível a esse projeto.
que voltei ao CEA-USP, Maria Odete Ferreira Beatriz Monteiro, responsável pelo setor de
e Antônia de Lourdes dos Santos, prestaram, Documentos Privados do Arquivo Público Na-

21
cional, me possibilitou o acesso ao material doa- Em Goiânia, Kênia Costa, que, além de
do pela família em 1999. Sua colaboração foi de amiga de todas as horas, compreendeu e apoiou
extrema atenção e prontidão para com um pes- cada fase dessa empreitada. Douglas Silva di-
quisador por vezes certeiro, mas ora assustado vidiu comigo a digitação dos textos de Beatriz
ou deslumbrado com tanta coisa em suas mãos. Nascimento, seguida de densos debates sobre a
Sérgio Lima, do Acervo Iconográfico da mesma autora e sua relevância. Alírio Urany foi um dos
instituição colaborou na consulta às fotos relati- primeiros a captar esse projeto e dele participa a
vas ao material de Beatriz Nascimento. cada vez que nos encontramos. Fabiana Leonel
Uma das “frentes de trabalho” dessa pes- de Castro tornou-se leitora e debatedora con-
quisa se abriu no contato com os acervos par- junta de textos de e sobre Beatriz. Ivana e Ieda
ticulares de intelectuais/ativistas dos movimen- Leal cederam uma foto da presença de Beatriz
tos negros e com os quais mantenho relações de Nascimento na cidade, o que foi acompanhado
proximidade. Do círculo de amizade em Brasília, de rememorações.
Cristina Guimarães e Nelson Inocêncio empres- Sou grato a Azoilda Trindade que conversou
taram livros e artigos, deram-me guarida e com- comigo sobre as fotos de sua amiga, emitindo
partilharam esse e outros projetos. Sales Augus- palavras de apoio e segurança sobre a pesquisa.
to dos Santos enviou-me prontamente um artigo No Rio de Janeiro, Elizabeth Viana que é com-
de Beatriz Nascimento que eu não tinha. panheira de pesquisa sobre intelectuais negras,
Na casa de Taynar Pereira e Kabengele me proporcionou outros horizontes quando me
Mbya (Papi) em Salvador, encontrei, além de convidou para a Semana Lélia Gonzalez. Luiza
carinho, livros e artigos que me ajudaram a Bairros, que nesse evento, deu uma substancial
complementar a bibliografia deste trabalho. Lú- palavra de estímulo ao trabalho que eu vinha fa-
cia Gato e Josemar de Jesus, em sua/nossa casa zendo. Em São Paulo, Rosane Borges, amiga que
em São Luís do Maranhão, onde escrevi parte se tornou uma irmã para todos os momentos e
do livro, vislumbraram e acreditaram na exten- lugares, foi a propositora da edição deste livro.
são e na profundidade de um projeto que aqui Cidinha da Silva não somente prestou estímulo
está apresentado em parte. Matheus Gato de como contribuiu para divulgar esse projeto em
Jesus, querido sobrinho, interessado na obra de outra publicação. Sueli Carneiro foi e é minha
Beatriz, emprestou-me um exemplar do livro referência em distintas fases da “tarefa” de ir ao
em que ela é co-autora. Flavia Mateus Rios e encontro do texto de autoras negras brasileiras.
Adriana Cássia Moreira, jovens pesquisadoras Por vezes errático, como uma personagem
que ministraram comigo o minicurso a cerca de de um poema de Beatriz Nascimento, indago
Lélia Gonzáles e Beatriz Nascimento, no III Con- a mim mesmo “quantos caminhos percorro”
gresso de Pesquisadores Negros(as). e sigo como o único responsável do texto que

22
apresento. Por outro lado, porto a certeza de
que, junto a algumas motivações profundas, é
com determinadas pessoas, em especial aquelas
companheiras de diáspora, que nossos saberes/
fazeres adquirem sentido.

Goiânia, Brasil Central, março de 2005.

23
2. É tão bom o retorno
Memória, esquecimento e visibilidade

Poema escrito em homenagem a Beatriz Nascimento

(…)
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece


nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças
(...)

A noite não adormece nos olhos das mulheres – Conceição Evaristo

25
Para esboçar a trajetória intelectual de Bea- Aqui nós estamos no ano de 1954, em
triz Nascimento, ou seja, seu deslocamento por Cordovil. E nós viemos de Sergipe com
uma intenção de meus pais de que nós
espaços sociais distintos faz-se necessário pas- crescêssemos. Vir para a cidade grande. É
sar por diversos momentos de sua vida pessoal. a grande dinâmica da migração.
No entanto, reforço que este livro não se cons- Nós estamos aqui em Cordovil, mas o
titui numa biografia e pouco adentra nos me- ambiente em que nós vivemos até então é
uma recuperação do passado, da vida que
andros da vida particular da pessoa em foco. É
nós vivíamos em São Paulo, É canavial... E
necessário dizer que Beatriz Nascimento, sendo todas as plantas e tudo o que a gente tinha
uma pessoa de relevância no cenário nacional, contato lá.
não pode (re)aparecer sozinha, isolada, pois
Enquanto estudiosa, pesquisadora, ativis-
seu nome invoca o de outros(as) intelectuais
ta e autora, Beatriz pode ser focalizada, sobre-
ativistas que lhe foram contemporâneos(as).
tudo, entre 1968 e 1971, quando cursa História
na Universidade Federal do Rio de Janeiro
Pontos fixos de uma trajetória não linear (UFRJ). No mesmo período, faz estágio em Pes-
quisa no Arquivo Nacional, com orientação do
Maria Beatriz do Nascimento nasceu em historiador José Honório Rodrigues. Posterior-
Aracaju, Sergipe, em 12 de julho de 1942, filha
mente, torna-se professora de História da rede
estadual de ensino do Rio de Janeiro.
de Rubina Pereira do Nascimento, “dona de
Nesse período, Beatriz Nascimento partici-
casa”, e Francisco Xavier do Nascimento, pe-
pa no Rio de Janeiro de um grupo de ativistas
dreiro, sendo a oitava entre 10 irmãs(ãos)2. Aos
negras(os) que acabam por formar vários nú-
7 anos migrou com a família para o Rio de Ja-
cleos de estudos no estado, dentre eles o Grupo
neiro no final do ano de 1949, numa viagem de
de Trabalho André Rebouças na Universidade
barco, o famoso Ita, partindo de Salvador. Cabe
Federal Fluminense (UFF). Beatriz Nascimento
ressaltar que esse é o período da grande migra-
manteve vínculos com os movimentos negros
ção estimulada de nordestinos(as) para o Sud-
(com o Movimento Negro Unificado, por exem-
este brasileiro. A família se instala em Cordovil,
plo), mas teve igualmente entreveros, afasta-
subúrbio do Rio de Janeiro. Em Ori, comentan-
mentos políticos. Como pesquisadora procurou
do uma foto da família, Beatriz discorre acerca
continuar sua carreira acadêmica, em nível de
desse deslocamento:
pós-graduação na UFF.
Há registros seus em entrevistas a jornais
de circulação nacional (Suplemento Folhetim
da Folha de São Paulo) e artigos publicados em
2 Beatriz nasceu no dia 12, mas consta em seu registro a data de
17. Informação de Isabel Nascimento. periódicos relevantes: Revista Cultura Vozes,

27
Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio de outras(os) ativistas negras(os). No entanto,
Histórico. Beatriz Nascimento também compôs veremos que a fértil carreira dessa pesquisado-
o Conselho Editorial do Boletim do Centenário ra não implicou em que se tornasse uma “au-
da Abolição e República, no qual era responsá- tora” para os círculos acadêmicos hegemônicos
vel pelas entrevistas. que estudam relações raciais.
Seu trabalho mais conhecido e de maior Na Quinzena do Negro, realizada em outu-
circulação trata-se da autoria e narração dos bro de 1977, na Universidade de São Paulo,
textos do filme Ori (1989), dirigido pela sociólo- Beatriz Nascimento aparece como conferencis-
ga e cineasta Raquel Gerber. Essa película docu- ta, em processo de reconhecimento público de
menta os movimentos negros brasileiros entre seus estudos acerca da questão étnico-racial, em
1977 e 1988, passando pela relação entre Brasil especial dos quilombos. Vários dos presentes
e África, tendo o quilombo como idéia central. àquele evento, a exemplo de Eduardo Oliveira
Aapresenta, dentre seus fios condutores, parte e Oliveira e Hamilton Cardoso, se configuram
da história pessoal de Beatriz Nascimento3. no período posterior que vai até o centenário da
Através dessa participação esboça-se outra Abolição, como acadêmicos(as) e intelectuais
vertente de suas preocupações: ela escrevia (e negros(as) em emergência, alcançando signifi-
falava) com uma declarada intenção estética. cativa visibilidade e com trajetórias diferencia-
Há em seus arquivos dezenas de poemas não das nos movimentos negros. Cabe ressaltar que
publicados, alguns dos quais optei por inserir a fundação do Movimento Negro Unificado se
neste livro. daria no ano seguinte.
Ela realizou duas viagens à África com a Podemos identificar nesse “grupo” uma
intenção de conhecer parte do continente afri- postura radical em face da academia e dirigida
cano, uma para Angola, mais precisamente sobretudo aos intelectuais brancos que estavam
para conhecer territórios de “antigos quilom- à frente dos estudos de relações raciais, uma
bos” africanos e outra para o Senegal. crítica ao teor dessa produção e a denúncia da
Por ocasião de seu falecimento, Beatriz falta de espaço para negros e negras nesse cam-
estava cursando mestrado na UFRJ com ori- po e para certas temáticas como quilombo ou
entação do comunicólogo negro Muniz Sodré mulher negra.
(Folha de São Paulo, 31/01/95). Em vida Beatriz
alcançou significativa visibilidade a semelhança
Mulher negra acadêmica, ativista e intelectual

3 Ori destaca também a trajetória de Tata Windebeoacy (Osvaldo Um dos pontos que desejo abordar é a op-
Rodrigues), do terreiro Ilê Xoroquê, acerca do qual Raquel Gerber
havia realizado um outro documentário. ção de uma mulher negra pela carreira acadêmi-

28
ca que a possibilitou tornar-se ativista e intelec- critora – pensadora, seguia essa rota intelectual
tual. Para os Estados Unidos da América, um que é quase óbvia para vários homens brancos
de nossos invariáveis espelhos para a questão e algumas mulheres brancas.
racial, bell hooks apresenta a dificuldade de Podemos considerar que a invisibilidade
optar por esse caminho, sendo afro-americana: da mulher negra no espaço acadêmico tam-
bém se consolida porque o seu outro (homem
Ao longo de nossa história como afro-
americanos nos Estados Unidos surgiram branco, mulher branca ou homem negro) não a
intelectuais negros de todas as classes e vê nesse ambiente e nem mesmo trilhando esse
camadas da vida. Contudo a decisão de itinerário intelectual. Qual o tempo que as mu-
trilhar conscientemente um caminho in-
lheres negras têm para ler? A que leituras que
telectual foi sempre uma opinião excep-
cional e difícil. Para muitos de nós, tem se dedicam? E perguntamos enfim: quantas
parecido mais um “chamado” que uma possuem condições para adentrar na universi-
escolha vocacional. Somos impelidos, até dade? Destas, quantas se tornam pesquisado-
mesmo empurrados, para o trabalho in-
telectual por forças mais poderosas que a ras, professoras e intelectuais?
vontade individual. (1995: 465). Uma mulher negra que se torna pesqui-
sadora e elabora um pensamento próprio nos
No mesmo artigo, bell hooks nos alerta
parâmetros acadêmicos, inspirada da vida ex-
que nem todos os acadêmicos são ou tornam-
tra-muros da universidade como o fazia Bea-
se intelectuais, como também nem todos(as)
triz Nascimento, rompe com esse processo de
intelectuais apresentam filiação institucional
invisibilidade no espaço acadêmico. Uma mu-
acadêmica4. Além disso, Milton Santos nos
lher negra pesquisadora jamais é imperceptível
propõe mais um elemento identificador do in-
no campus, mas talvez o seja nesse campo en-
telectual: por definição, vida intelectual e recu-
quanto autora.
sa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás,
Após Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento
é um traço distintivo entre os verdadeiros in-
e outras mulheres negras que tiveram intensa
telectuais e aqueles letrados que não precisam,
atividade na vida universitária, penso que ain-
não podem ou não querem mostrar, à luz do
da se configura como sonho ver a academia
dia, o que pensam. (2001: 34).
brasileira constituir-se também como espaço
Em 1977 já encontramos Beatriz Nasci-
feminino negro. É o que nos aponta Célia Re-
mento nesse ponto de sua trajetória, com mais
gina falando de sua aproximação com a pes-
de 30 anos de idade: leitora – pesquisadora - es-
quisadora em foco quando esta cursava a pós-
graduação na UFRJ:
4 Dentre autores(as) citados(as), Lélia Gonzalez tornou-se
professora universitária e chegou a ser chefe do departamento (...) passei a conhecer um pouco da mu-
de Sociologia e Política da PUC-RJ. lher batalhadora, incisiva, tensa, voraz

29
nas palavras e pensamentos e uma com- Esquecimento
panheira como tanto eu vislumbrara ter
entre as mulheres negras e intelectuais.
Isto porque no universo acadêmico somos Portadora de um discurso que reverbera-
raras – ainda que em, ascensão – como di- va para dentro da academia e dos movimen-
zem os números das pesquisas relativas tos negros e embora atingindo tal patamar de
ao negro e à educação. (2001).
elaboração e visibilidade, Beatriz Nascimento,
Adentrando nos meandros da pesquisa, a exemplo de outros(as) que cumpriam o mes-
produzindo uma escrita temática acerca do mo trânsito, como vimos, não foi considerada
quilombo e mantendo interlocução tanto com uma autora “acadêmica”. Conforme assinalado
o campo chamado militante, quanto o denomi- anteriormente, uma das questões que identi-
nado de acadêmico, não há como não considerar ficamos nessa pesquisa é o “esquecimento”
Beatriz Nascimento como intelectual ativista. do(a) autor(a) negro(a) na academia brasileira,
Os intelectuais brancos, que não deixam notoriamente nas Ciências Sociais. No campo
de ser atuantes (ou mesmo “ativistas”) em seus de pesquisa acerca das religiões de matriz afri-
campos de pesquisa/intervenção, fazem desse canas ou afro-brasileiras, hegemonicamente
circuito próximo suas redes profissionais. Pro- branco e masculino, Vagner Gonçalves Silva
movem uns aos outros, citam-se mutuamente aponta como homens negros, a exemplo de
em seus escritos. Criam ou elegem para si Manoel Querino e Edison Carneiro, não pas-
fechados espaços acadêmicos e quase nunca saram a constar no rol de autores e etnógrafos,
evidenciam a branquitude que os amalgama, ao contrário de alguns “brancos” seus contem-
ainda que se aproximem de um(a) ou outro(a) porâneos como Nina Rodrigues e Artur Ramos.
intelectual negro(a). (2000: 74-77).
No entanto, como uma pessoa negra se Em sua cuidadosa pesquisa esse autor
torna um(a) intelectual no Brasil? Sem re- primeiro ressalta que as condições de classe,
sposta precisa para a questão, o material raça e gênero comparecem no trabalho acadêmi-
consultado nos sugere vários caminhos de co com intrincada composição no campo referi-
leitura, pesquisa e escrita trilhados por Bea- do, depois desfia essa “inserção diferenciada”
triz Nascimento e aqueles(as) que lhe foram e notoriamente desigual de pesquisadores ne-
contemporâneos(as). Mais uma vez percebe-se gros na lista de autores. Vagner Gonçalves Silva
que não agiam nem falavam em uníssono, in- ainda se detém no caso de uma mulher branca
cluindo alguns intelectuais negros da geração antropóloga como Ruth Landes que teve pro-
a exemplo de Clóvis Moura. blemas em campo e cujo trabalho foi alvo de
restrições e preconceitos sexistas. Ainda segun-
do esse autor, a “política de citações” é um dos

30
procedimentos precisos de “esquecimento” dos Nesse campo não há nenhuma luta do bem
nomes de negros e de mulheres em determina- contra o mal. Nem negros(as), nem brancos(as)
dos períodos. são unívocos(as) em suas formulações. No en-
O problema não atinge somente negros(as) tanto, na academia brasileira há uma barreira
brasileiros(as). A antropóloga e escritora afro- étnico-racial que se manifesta na baixa presença
estadunidense Zora Neale Hurston, pesquisa- de homens negros e na quase ausência de mu-
dora das culturas negras do sul dos Estados lheres negras no corpo discente. Apesar desse
Unidos e caribenhas, especialmente da religião, limite, alguns(umas) conseguiram ir adiante no
orientanda de Franz Boas, não é traduzida meio acadêmico podendo ser considerados(as)
para a língua portuguesa e pouco ou nada é intelectuais pelo delinear de sua atuação, pelo
lida ou citada na Antropologia brasileira, ao seu pensamento próprio, veiculado, em geral,
contrário de Ruth Benedict e Margareth Mead, a duras penas e, por serem assim considerados
que tiveram o mesmo orientador.Raros(as) são por leitores(as) e críticos(as).
aqueles(as) que em suas revisões bibliográficas No entanto, é perceptível como a produção
do campo das relações raciais incluem material acadêmica desses(as) pesquisadores(as) ne-
produzido por pesquisadores(as) negros(as)5. gros(as), incluindo Beatriz Nascimento, foi recu-
No campo da pesquisa acerca de quilombos, sada ou refutada indiretamente por seus “pares”
seja na história ou na antropologia, discipli- acadêmicos até o final da década de 1990. No
nas onde se concentram especialistas no tema, caso dela, esse “esquecimento” se processa
ocorre processo semelhante, porém de for- em paralelo ao seu maior período de profícua
ma mais intrincada. Os(as) estudiosos(as) do produção escrita e comunicada oralmente.
quilombo que alcançaram “renome” não citam Evidencia-se aqui um problema de grande
nenhum artigo de Beatriz Nascimento. Vale des- profundidade: a dificuldade do reconheci-
tacar que Lélia Gonzalez, pessoa importante mento do sujeito negro, mulher ou homem,
para o tema em foco, estava atenta à principal como produtor de pensamento por parte de
pesquisa de sua contemporânea de estudos e setores hegemônicos da academia brasileira,
mobilizações.6 permeáveis, portanto, aos mecanismos da “in-
visibilidade negra” semelhantes em outros
âmbitos sociais.
5 Um exemplo está em: MUNAGNA, Kabengele (Org.). Biblio-
grafia sobre o negro no Brasil. 2000, que traz várias referências
de Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Hamilton Cardoso e
Eduardo Oliveira e Oliveira, além de muitos(as) outros(as)
autores(as) negros(as).
6 Quando aborda o tema dos quilombos Lélia Gonzalez cita
e comenta a pesquisa de Beatriz Nascimento nesse campo (A
mulher negra na sociedade brasileira, 1982, p. 90.)

31
Memórias seletivas: quem lembra de Beatriz do parece sempre estranho e angustiante?
Esta, a questão debatida, verrumada, por
Nascimento?
toda uma geração de jovens negros que, nas
últimas décadas, tem trazido a público, de
Na década subseqüente à sua morte, um modo ou de outro, seu inconformismo
entre 1995 e 2004, Beatriz Nascimento com [a] situação social ou existencial dos
descendentes de escravos no Brasil. É uma
foi relativamente referida, sobretudo por história por demais conhecida: em 107
pesquisadores(as), intelectuais e/ou artistas anos de alforria, os tetranetos da África,
ativistas vinculados aos movimentos negros. filhos do Brasil, não foram devidamente
perfilhados como cidadãos. Liberados no
Há muitas dedicatórias, algumas referências a
papel, permanecem, enquanto grupo, na
suas formulações e poucas citações. segunda classe da História social. (1995).
Helena Theodoro em Mito e espirituali-
dade: mulheres negras transcreve o texto que Sodré constrói, então, um perfil de Beatriz:
escreveu para o funeral de Beatriz. O ponto de
Beatriz Nascimento foi uma dessas pes-
partida é a perda sentimental, traduzida em soas atravessadas pela angústia daquele
termos de um horizonte cultural e político afro- famoso “resíduo insolúvel” no processo
brasileiro: da modernidade, sobre o qual sociólogos
vivem construindo suas teses. Eu a con-
Suas histórias se entrelaçavam com as de heci de perto, percebi que ela sabia e sen-
seu povo. Historiadora por profissão e tia que, no resto insolúvel, parece jogar
vocação, sempre buscou desvelar as ver- um certo destino, inaceitável para a cons-
dades escondidas nas verdades de outros, ciência da pessoa.
que não percebem as realidades da reali- Tentou como intelectual (professora de
dade, as várias verdades embutidas num História, conferencista, escritora) com-
fato (...) (1996: 26). preender e superar o trágico oriundo da
dívida simbólica do ser negra. Tinha largo
A autora retoma e procura aquilatar o trânsito na comunidade.
valor das principais contribuições intelectuais Na vida pessoal, era às vezes sofrida, mas
de Beatriz Nascimento: a pesquisa acerca dos sempre lúdica e doce. Não a atemorizava
quilombos, o filme Ori e a construção pessoal o risco da verdade. Mas isto é temerário,
quando se vive numa sociedade machista.
e identitária de uma mulher negra, temas que
Na morte, espera, e a sociedade lhe deve
abordo mais adiante.
justiça. (1995).
Também após a morte de Beatriz, Muniz
Sodré escreveu acerca daquela que estava ori- No carnaval de 1997, o Bloco Afro Ilê Aiyê
entando. Primeiro o Autor traz o contexto em a homenageia em seu tema Pérolas Negras do
que a situava: Saber. Inscrevendo seu nome dentre intelec-
tuais, artistas e políticos(as) negros(as), o Cad-
Como trilhar um caminho conciliatório
com a vida, quando o real por ela aponta- erno de Educação do referido Bloco Afro inclui

32
em sua biografia a origem regional e social, loga e escritora Zora Hurston – quero situar
sua trajetória pesquisadora e acadêmica, traz Beatriz Nascimento para que haja alguma con-
as circunstâncias de sua morte, além de listar tinuidade. Para que ela figure com seu próprio
muitas de suas produções. mérito no rol dos(as) intelectuais negros(as)
Mais que um rol de invocações emocio- que nos antecederam em tempo e idéias.
nadas7 , emerge aqui um reconhecimento de Sueli Carneiro (2004) aponta o duplo ato
pares. Nessas linhas, pode-se até mesmo inferir de lembrar e nomear para se contrapor à invisi-
uma linhagem de pensamento, o que não im- bilidade das mulheres negras. Essa é uma pos-
plica em concordância. tura semelhante que permeia o artigo de Luiza
Bairros (2001) acerca de Lélia Gonzalez e de
sua atuação política/intelectual. Com base em
Um nome, um horizonte escritos como estes, penso que essa “volta” aos
textos de autoras negras, no caso, os de Beatriz
Mulher, negra, nordestina, migrante, pro- Nascimento, não se deve fazer somente por um
fessora, historiadora, poeta, ativista, pensado- esforço de reverência. De alguma maneira es-
ra: qual o seu lugar – em seu tempo – para a pero que seus textos sejam retirados de um con-
academia e para os movimento negros? Qual texto e lidos em outro com cuidado, sobretudo
é a Beatriz Nascimento que vislumbramos nos porque se trata de uma escritora e pensadora
dois campos em questão? Haverá para ela um que refletia sobre os deslocamentos – físicos,
lugar único? A recusa em ocupar o lugar social mas não somente – e almejava o retorno para
determinado para as mulheres negras na estru- territórios conhecidos e amados.
tura social brasileira, racista e sexista, lhe levou Numa seqüência de Ori em que sua nar-
a experimentar um outro lugar de fala – pes- ração se sobrepõe à imagem tranqüila de um
soal, acadêmico e político. mangue e depois a uma avenida movimentada
Num esforço para identificar fios condu- de uma grande cidade, no caso São Paulo, sua
tores intelectuais – como observamos que Alice voz calma se dirige a Raquel Gerber, lembran-
Walker e Toni Morrison se ancoram na antropó- do de um amigo já falecido (Eduardo Oliveira
e Oliveira) e enuncia a expressão que tomei
como título desse capítulo: “Essa cidade que
7 Dentre as dedicatórias a Beatriz Nascimento que considero Eduardo amou... Eu tô voltando, Raquel... É tão
de suma importância, porque aparecem em produções ligadas
aos seus campos de pesquisa e formulação, destaco algumas: bom... É tão bom o retorno!”. Assumo a idéia de
CARNEIRO, Sueli A mulher negra na sociedade brasileira “retorno” enquanto um propósito (não isolado)
– o papel do movimento feminista na luta anti-racista. 2004;
OLIVEIRA, Guacira Cesar de & SANT’ANNA, Wânia. Chega de recolocar em pauta a voz de intelectuais
de saudade, a realidade é que... 2002; LOPES, Nei. Novo di-
cionário banto do Brasil. 2003.
negras(os), especialmente os(as) que viveram e

33
escreveram acerca de seus deslocamentos por
vários mundos.
O nome próprio Beatriz é originário do
latim Beatrix e significa “bem–aventurada”,
“aquela que faz os outros felizes”. Ao menos
uma vez Beatriz Nascimento deixou um re-
gistro escrito acerca de seu nome, como um dia
o fez Alice Walker, “a Verdade Viajante”. Num
poema escrito aos 44 anos, despretensioso no
estilo e imodesto no conteúdo, ela propõe à
estrela Belatrix, da constelação de Orion, que
troque de lugar com ela e indaga qual das duas
merece “brilhar por tempo infinito”. Supondo
a negação daquela que contém as letras de seu
nome, ela sonha com aquisição de parte desse
brilho e acompanha “o silêncio da solidão”
desse astro8.
Mais que a onomástica e o desejo de adje-
tivar a pessoa em foco, permito-me dizer que
tangencio uma personalidade especial (e não
exótica), pressupondo o quanto foi demorado
e caro para ela adquirir tal estética, tal brilho,
com o preço, talvez da solidão. Uma exceção
num certo sentido, quando pensamos na situ-
ação das mulheres negras no mundo contem-
porâneo, mas bastante compreensível quando
olhamos para a trajetória de mulheres negras
intelectuais ativistas. Empreendamos, de fato,
o diálogo com seus textos.

8 NASCIMENTO, Beatriz. Belatrix (mimeo) Arquivo Nacional.


Fundo Maria Beatriz Nascimento. Código: 2D. Caixa 17. Doc. 1.

34
3. Este projeto é também um grande sonho
Os territórios do discurso

Quando pela garganta


desce abrupta mão,
nenhum punho fechado pode
transmutar nosso canto livre
Em grito

Há sede é verdade,
esse ardor pelo espaço usurpado
e nervos
sem declinar de qualquer sentimento gentil
salvo a palavra bruta.

Tudo o que transporta o ar,


nós revelamos.
Sonhamos coisas que existirão,
ainda que você sempre duvide.
Nem todo o privado de visão é cego;
quem rala a alma pelo lado de fora
sim.

Ventre armazenado de calor.


Negro, a cor de princípios.

Quando pela garganta – Paulo Colina

35
No escopo deste livro, a trajetória de Bea- O Grupo de Trabalho André Rebou-
triz Nascimento interessa sobretudo a partir ças constituiu-se como uma iniciativa de
da conclusão de sua graduação em História na acadêmicos(as) negros(as) dos cursos de
UFRJ em 1971. Vejo-a, como muitas mulheres História, Geografia, Ciências Sociais, Química
e homens negros se graduando relativamente e Física de buscar espaço de organização na
“mais tarde” que a média, aos 29 anos, mas logo universidade e de ampliação da abordagem
dando continuidade a uma intensa atividade da questão étnico-racial. O GTAR tinha os
acadêmica e ativista em pleno regime militar, seguintes propósitos:
através da tentativa de organização, com estu-
1. Introduzir gradualmente na Univer-
dantes negros(as), de um grupo de estudos que sidade créditos específicos sobre as rela-
vem a se materializar na formação do Grupo ções raciais no Brasil, principalmente nos
de Trabalho André Rebouças na Universidade cursos que abranjam a área das Ciências
Humanas;
Federal Fluminense.
2. Tentar uma reformulação no programa
Numa comunicação do próprio grupo, so-
de Antropologia do Negro Brasileiro, no
mos informados de que “a tentativa de realizar Instituto de Ciências Humanas e Filosofia
este trabalho foi iniciada em 1973 no Centro da UFF;
de Estudos Afro-Asiáticos no Rio de Janeiro 3. Atualizar a bibliografia no que diz res-
pela historiadora Maria Beatriz Nascimento e peito ao assunto, adotado pelo corpo do-
cente e discente;
alguns(umas) jovens negros(as) interessados
4. Estabelecer contato entre professores
em formar um grupo de estudos”, chamado
que desenvolvem teses sobre as relações
Grupo de Trabalho André Rebouças (GTAR). O raciais fora da UFF com o corpo docente
texto do grupo chama a atenção para que “de- do Instituto de Ciências Humanas e Fi-
vido a alguns obstáculos metodológicos surgi- losofia. ()

dos na época não foi possível dar continuidade


Em maio de 1975, esse grupo de alunos(as)
ao trabalho proposto, que ficou interrompido
organiza a Primeira Semana de Estudos sobre
por algum tempo” (1983).
a Contribuição do negro na Formação Social
Em escritos anteriores do GTAR, vemos com
Brasileira, no Instituto de Ciências Humanas
maior detalhe que, no Rio de Janeiro, havia mais
de Filosofia da Universidade Federal Flumi-
pessoas interessadas em constituir núcleos de
nense. Beatriz Nascimento tornou-se orienta-
estudos da questão étnico-racial, e que algumas
dora do grupo na UFF. Dele participavam: sua
dificuldades de organização e divergências resul-
amiga e companheira de trabalho de campo
taram em grupos distintos, a exemplo do IPCN
Marlene de Oliveira Cunha, acadêmica de
(Instituto de Pesquisa das Culturas Negras) e da
ciências sociais e depois mestre em Antropo-
SINBA (Sociedade Internacional Brasil-África).
logia pela USP; sua irmã, Rosa Nascimento,

37
acadêmica de Geografia, e Sebastião Soares, propondo-se, através de alguns artigos, a pro-
dentre outros.9 pugnar que a “História do Homem Negro” fosse
O grupo mantinha contato com um grupo também escrita por negros(as), o que exigiria a
de intelectuais negros(as) e brancos(as), nacio- inclusão no meio acadêmico de outros pontos
nais e estrangeiros, especialistas na questão ét- de vista. Discordando de uma série de lacunas
nico-racial, que ministravam cursos e difundiam e problemas nos estudos historiográficos, Bea-
seus artigos nas “Semanas de Estudos” anuais, a triz remete-se a um fato que a deixa indignada,
exemplo de Eduardo Oliveira e Oliveira, Manoel quando um jovem intelectual branco que estuda
Nunes Pereira, Carlos Hasenbalg, Décio Freitas, “cultura negra” diz ser “mais preto do que ela”,
Vicente Sales, Roy Glasgow; Juana Elbein, Ivone o que a leva a indagar, então: “o que é que eu
Velho, Leni Silverstein e Michael Turner.10 sou?”. A dúvida se converte em projeto:
Ainda em informe do próprio grupo Este projeto é difícil. É um desafio. Este
pode-se observar o crescente reconhecimento desafio, aceitei-o totalmente a partir do
do trabalho que o mesmo vinha efetuando, momento em que um intelectual branco
me disse que era mais preto do que eu. Foi
levando, no entendimento dos(as) integrantes,
para mim a afirmação mais mistificadora,
a uma necessidade de institucionalização. Em mais sofisticada e mais desafiadora. Pensa
1978, organizam-se juridicamente, aprovam ele que basta entender ou participar de
a realização da Quarta Semana de estudos no algumas manifestações culturais para se
ser preto: outros pensam que quem nos
Ministério da Educação e Cultura e continuam estuda no escravismo nos entendeu his-
seu projeto, procurando aglutinar “intelectuais, toricamente. Como se a História pudesse
ex-alunos e alunos negros universitários”, não ser limitada no “tempo espetacular”, no
tempo representado, e não o contrário: o
sem problemas de recursos.
tempo é que está dentro da história. Não
se estuda, no negro que está vivendo, a
Percursos de um projeto intelectual negro História vivida. Somos a História Viva do
Preto, não números. (1974a: 44).
Na época que precede à formação do Neste projeto, de maneira peremptória,
GTAR, pode-se observar Beatriz Nascimento Beatriz Nascimento amplia seu leque de preo-
cupações:
9 Listei como outros participantes do GTAR (em ordem
alfabética): Alcebíades Abel de Oliveira, Alcides Geraldo da Não podemos aceitar que a História do
Conceição, Andrelino do Oliveira Campos, Henrique Cristóvão Negro no Brasil, presentemente, seja en-
Garcia do Nascimento, João Ribeiro, Paulo Bento, Paulo César
Leite Figueira e Nilton Manoel da Cruz (GTAR, 1977; 1976).
tendida apenas através dos estudos et-
nográficos, sociológicos. Devemos fazer a
10 Grupo de Trabalho André Rebouças. III Caderno de estudos nossa História, buscando nós mesmos, jo-
sobre a contribuição do negro na formação social brasileira. gando nosso inconsciente, nossas frustra-
1978; II Caderno de estudos sobre a contribuição do negro na
formação social brasileira. 1977; Caderno de estudos sobre a
ções, nossos complexos, estudando-os, não
contribuição do negro na formação social brasileira. 1976. os enganando. Só assim poderemos nos

38
entender e fazer-nos aceitar como somos, população negra e revissem o que se conven-
antes de mais nada pretos, brasileiros, sem cionou denominar de cultura negra:
sermos confundidos com os americanos
ou africanos, pois nossa História é outra Quero advertir os negros universitários ou
como é outra nossa problemática. (Idem). não, sobre o caráter dos estudos mesmo
científicos, que não estão isentos de colo-
Lendo-se mais à frente o texto, é pos- rações preconceituosas ou mesmo defor-
sível compreender que, de forma alguma, Bea- madora de nossa realidade.
triz propõe que somente negros(as) estudem Tomo o culturalismo como exemplo
negros(as) ou que se faça uma ciência exclusiva- porque ultimamente, no processo de con-
sciência que os negros se envolvem, a cul-
mente negra. Seu horizonte de estudo inclusive
tura do negro é tomada como elemento
não fica restrito ao território brasileiro. Como de onde deve partir sua reação contra a
veremos mais adiante, o que ela polemiza são dominação histórica de que fomos víti-
os referenciais e os propósitos da ciência que mas. Entendo que quando o negro culto
entende que a reação deve vir de uma
tem “o negro” como objeto de estudo. tomada de posição diante da cultura, ele
Em Negro e racismo, Beatriz Nascimento está somente reproduzindo uma forma
prossegue argumentando contra a suposta soli- de ver o problema, que lhe é ditada pela
ampla divulgação dos estudos feitos pelos
dariedade de alguns estudiosos e pondo em
cientistas culturalistas. Nesse sentido se
suspense a repetida e insuficiente interpretação reproduz uma visão do grupo dominante,
econômica (ou melhor, economicista) da situa- representada pelo “Conhecimento”, larga-
mente disseminado do estudioso branco
ção de desigualdade em que vive a população
em relação ao nosso grupo. (1976: 2).
negra e as noções de “negro puro” e de uma
única concepção de ser negro: Beatriz discute o que hoje denominamos
Ser negro é enfrentar uma história de em Ciências Sociais de sujeito posicionado,
quase quinhentos anos de resistência à tomando por base o pesquisador branco que
dor, ao sofrimento físico e moral, à sensa- estuda relações raciais, analisando em várias
ção de não existir, a prática de ainda não
pertencer a uma sociedade na qual consa-
movimentações. Primeiramente na situação
grou tudo o que possuía, oferecendo ain- “clássica” de um observador externo, geral-
da hoje o resto de si mesmo. Ser negro não mente estrangeiro à sociedade que estuda, to-
pode ser resumido a um “estado de es-
mando a posição de “pai”:
pírito”, a “alma branca ou negra”, a aspec-
tos de comportamento que determinados
Nesta, medida, não há sentinela avançada
brancos elegeram como sendo de negro e
mais eficiente que o cientista. Ele penosa-
assim adotá-los como seus. (1974b: 76).
mente ou alienadamente desempenha
o seu papel. O cientista ou o culturalista
Um outro ponto que encontramos em seus
comprometido, embora abstratamente ou
textos é a necessidade de que negros e negras inconscientemente com seu sistema sócio-
estudassem as relações raciais, a história da econômico, ao se debruçar sobre o grupo

39
que vai estudar a cultura, os costumes e e uma série de outras coisas, as favelas;
os hábitos, projeta no “primitivo”, no “na- são culturas do negro. Existe uma cultura
tivo”, no “indígena”, ou no “negro” aspi- realmente histórica e tradicional que seria
rações paternais, reconhecendo neles uma a cultura de origem africana e uma outra
criança vitimada pelo seu sistema de ori- cultura também histórica, mas que foi for-
gem. Uma criança que deve ser cuidada, jada nas relações entre brancos e negros,
tratada, seus costumes interpretados e no Brasil. (Idem).
preservados. (Idem).
Beatriz, ainda que pareça essencialista
Observando que essa postura negligencia quando fala de “origem africana”, idéia que se
as contradições dos efeitos do processo colonial modifica em seus textos posteriores, toca num
ou de domínio sobre o grupo dominado, Bea- ponto sensível: a de que certos valores ou práti-
triz Nascimento se detém num segundo caso, cas culturais são recorrentes devido a situações
em que o pesquisador almeja se tornar “irmão” de submissão ou segregação em que vive a
(e não mais o pai) do grupo observado. Aqui população negra e que ela denomina de “cul-
ela relembra que esse posicionamento não evita tura da discriminação”:
prontamente o etnocentrismo, mas produz uma
(...) o negro tem uma história tradicional
visão apenas parcial do “estudado”. onde subsistem ainda resíduos das socie-
Sua crítica parece extemporânea no que dades africanas, mas tem, também, uma
diz respeito à chamada antropologia cultura- cultura forjada aqui dentro e que esta cul-
tura, na medida em que foi forjada num
lista (e mesmo à funcionalista) reconhecidam-
processo de dominação, é perniciosa e
ente comprometida com o processo colonial. bastante difícil e que mantém o grupo no
No entanto, cabe destacar que, além de por em lugar onde o poder dominante acha que
questão a relação observador-observado, em deve estar. Isto é o que eu chamo de “Cul-
tura da Discriminação”. (1976b: 04).
1976, quando nos cursos brasileiros de Antro-
pologia ou de Ciências Sociais pouco se imagi- Tratando dos espaços sociais determinados
nava uma integrante de uma coletividade estu- para quem é negro, Beatriz faz uma correlação
dada manifestar-se com voz própria, além das entre o candomblé e o futebol em que se verifi-
honrosas exceções comentadas no capítulo an- cam o apadrinhamento, ou, no segundo caso, o
terior, Beatriz põe em questão a idéia de cultura domínio de brancos. Dirigindo uma crítica por
negra, muito cara aos estudos “sobre o negro”: demais dura ao candomblé, como “escapista”,
É comum dizer que o negro tem uma cultu- por que remeteria os conflitos sociais para a rela-
ra própria. É claro que tem. E essa cultura ção orixá e filho (idéia que ela irá observar mais
é vinda de nossa origem africana. Então, adiante), Beatriz pressupõe que a “cultura negra”,
tem-se o candomblé, umbanda e deter-
inclusive no que se considera tradição, pode ser
minadas formas de comportamento, ma-
neiras de se organizar, modos de habitar revista, modificada, pelas coletividades negras,

40
sem que se perpetue a submissão. Portanto, re- Brasil (1888-1978), além de revelar alguns
sulta desse seu texto uma noção de cultura negra brasileiros que têm contribuído para a
história pátria (...) – e que têm permane-
plural e dinâmica e como consciência de grupo: cido à margem desta história, porque seus
cronistas, aqueles que com ela se identifi-
Ao invés de simplesmente ficarmos dis- cam, não tiveram até agora os meios ex-
cutindo e visualizando somente o proces- igidos para que se tornem arautos dessas
so de dominação de uma cultura sobre a verdades, caracteriza-se por um aspecto
outra, porque não procuramos ver os ele- que nos parece da maior relevância – reve-
mentos dentro de nossa cultura que estão lar o negro como criador e criatura. Numa
provocando essa mesma subordinação? palavra: Sujeito. (2001: 87).
Até que ponto a cultura do branco nos
domina e até que ponto a nossa própria Na Conferência Historiografia do Quilom-
cultura também está interagindo nesse
processo de dominação? (Idem). bo, proferida por Beatriz no referido evento,
a pesquisadora demarca o seu ponto de vista
É no ano de 1977, na Quinzena do Negro como historiadora negra:
na USP, organizada por Eduardo Oliveira e
Quando cheguei na universidade a coisa
Oliveira, que Beatriz Nascimento emerge como que mais me chocava era o eterno estudo
conferencista em processo de reconhecimento sobre o escravo. Como se nós só tivés-
público de seus estudos e pesquisas acerca de semos existido dentro da nação como mão
de obra escrava, como mão de obra pra fa-
quilombos. Eduardo era um jovem negro, ar-
zenda e pra mineração. (1989).
tista, intelectual ativista incansável11, mestran-
do em Antropologiana USP, e, a partir de suas Parece uma operação simples dar priori-
próprias palavras, pode-se perceber o potencial dade ao “negro” e não ao “escravo”, mas aqui
dos projetos em curso, a exemplo do que ocor- se aponta para uma coletividade e para indi-
ria no Rio de Janeiro e em São Paulo, de criação víduos que, apesar dos vários processos de
e consolidação de um terreno acadêmico aberto expropriação de seu espaço, de seu corpo, de
a professores(as) e estudantes negros(as) e ao suas relações, do uso de seu tempo, procuram
estudo crítico das relações raciais: o fio da liberdade e nele se sustentaram até
onde foi possível.
Esta quinzena do negro, às vésperas dos
90 anos da abolição da escravatura no Nos debates acalorados da Quinzena do
Negro editados em Ori, Eduardo de Oliveira
e Oliveira toma Beatriz como exemplo do que
11 Ver seus artigos: O mulato: um obstáculo epistemológico aqui denomino de processo de formação do(a)
(1974); Movimentos políticos negros no início do século XX no
Brasil e nos Estados Unidos (1976); Etnia e compromisso intelec-
intelectual negro(a) e de seu posicionamento
tual (1977). Consultar a seu respeito: Inventário Analítico da diferenciado na academia:
Coleção Eduardo de Oliveira e Oliveira (1984); CARONE, Iray.
A flama surda de um olhar (2003).

41
Nós temos direito a essa instituição. So- classe, tão inerente ao negro que a priori
bretudo essa aqui [a USP] que é pública. o desconfigura de outras atribuições? Se é
E o fato de fazer [a Quinzena do Negro] assim, como se equaciona negro e intelec-
dentro dessa universidade é porque a uni- tual – se é que se equacionam?
versidade assume a sua possibilidade de É o negro, e particularmente o negro
universidade para formar mais negros. brasileiro identificável com tal categoria,
Para que se formem como Beatriz, que ou tem de reivindicar uma tal atribuição?
passou por aqui, para ir ao quilombo, a
favela ou seja lá o que for, e dar os seus O que, e quem é, lato sensu, intelectual e,
ensinamentos. particularmente quem o é na sociedade
brasileira? (...)
Agora, sem uma universidade, sem um
crédito, seria até impossível conseguir Vivemos num mundo onde a cor, a etnici-
esta semana aqui, porque eu seria apenas dade e a classe social são de primordial im-
um negro. portância, sendo assim impossível ao cien-
tista (e em particular ao cientista negro),
Hoje, depois de dez anos ou doze de tra- manter uma neutralidade valorativa. (...)
balho, já me mandam entrar e sentar,
porque eu sou Eduardo Oliveira e Oliveira São estas as considerações que nos levam
que tenho um título, que não pretende ser a idéiam de uma sociologia negra, (ou
doutor, que não se branqueou, mas que uma historiografia, economia, antropolo-
usa disso como instrumento de trabalho gia negras, etc.) Ela surge como uma rea-
para se afirmar como negro e ajudar ou- ção e revolta contra o viés da “sociologia
principal” burgueso-liberal. Como um
tros negros a se afirmarem como tal.
passo positivo para o estabelecimento de
definições básicas, conceitos e construções
Para dar mais uma noção do projeto desses teóricas que utilizam a experiência dos
que, nos anos 1970, desafiavam os limites raci- afro-brasileiros. (1977:97).
ais e sociais no campo acadêmico da produção
É a percepção dos limites raciais e sociais no
do conhecimento, é relevante rever alguns tre-
ambiente acadêmico contraposta à situação da
chos do artigo Etnia e compromisso intelectual
população negra que fez emergir projetos bas-
de Eduardo Oliveira e Oliveira, comunicação
tante radicais, formulados no que denomino de
que contém algumas indagações derivadas de
“textos quentes” e “falas duras” que permearam
uma outra proposição sua intitulada De uma
os confrontos declarados apenas em parte pelos
ciência para e não tanto sobre o negro:
intelectuais hegemônicos, que raramente no-
É aqui, então, que se coloca um grande meiam os(as) contendores(as), não citando-os,
problema: relegando-os com maior ou menor consciência
A etnia terá um papel relevante nesta ao esquecimento ou ostracismo. Invisibilidade
acepção?
negra social e discurso sem reconhecimento ade-
As situações de classe influirão numa cons-
quado entre os que deviam ser pares.
ciência de classe quando esta não estiver
adstrita a uma dupla identidade – raça/ Tais questões, que ainda hoje soariam

42
polêmicas, mantêm sua pertinência no sentido Somos aceitos por quem? Para quê? O que
em que Beatriz e muitas(os) daquelas(es) que muda ser aceito? O que é ser igual? A quem
ser igual? É possível ser igual? Para que ser
pertencem à sua geração almejavam uma uni- igual? (1974: 67-8).
versidade brasileira que não fosse hegemoni-
camente eurocêntrica no que diz respeito às Em 1978, ano da fundação do Movimento
idéias que circulam e dominantemente eurodes- Negro Unificado Contra a Discriminação Ra-
cendente na composição étnico-racial de seus cial, Beatriz dava início ao curso de especiali-
quadro docente. Em artigo acima referido, Bea- zação (pós-graduação latu sensu) em História.
triz segue questionando: Pondo em prática uma de suas proposições, de
estudar, como diria Guerreiro Ramos, “o negro
Ao utilizar, no início desta exposição, de-
terminados termos entre aspas (aceitação, desde dentro”, ela se decide pelos quilombos
integração, igualdade) queríamos mostrar que seriam um dos terrenos mais propícios
na prática como a ideologia de domina- para levantamentos e estudos, tendo em vista
ção representa nela mesma, através da
o relativo apagamento do tema nas pesquisas e
linguagem, o preconceito, evidencia uma
situação de fato, isto é, o racismo, a dis- nas obras didáticas e às versões estereotipadas
criminação. A “aceitação”, a “integração”, de “valhacouto de negros fugidos”, “lugar de
a “igualdade” são pontos de vista do bandidos” e destituídos de caráter político, no
dominador.
dizer de Beatriz.
Tomando como exemplo estes três concei-
tos poderemos demonstrar como se torna
difícil para o negro, que se propõe estudar a
discriminação racial (e não só ela em si, mas
toda a história do negro brasileiro). Con-
Referências do discurso
ceituar do seu ponto de vista sua situação e
suas aspirações dentro da sociedade domi- Um dos números do tablóide Enfim, publi-
nante. Torna-se ainda mais difícil a meto-
cação do Diário de Petrópolis, traz na entrevis-
dização deste estudo, pois impregnado de
uma cultura em todos os sentidos branca e ta intitulada “Como fazer a cabeça do negro”,
europeizada se faz necessário perguntar-se em 1979, uma bibliografia em franca circulação
a si próprio se determinados termos cor- entre ativistas do Movimento Negro Unificado
respondem à sua perspectiva, se não são
somente reflexos do preconceito, repetidos
do final da década de 1970. Observa-se nos
automaticamente sem nenhuma preocupa- temas “Alienação”, “Teoria da História”, “Eco-
ção crítica. Ou seja, se não estamos somente nomia” e “Organização Política” a influência
repetindo os conceitos do dominador sem
de autores negros como Franz Fanon, Samora
nos perguntarmos se isto corresponde ou
não à nossa visão das coisas, se estes con- Machel, Amilcar Cabral, Cheik Anta Diop,
ceitos são uma prática, e caso fossem uma Stokley Carmichael e de autores vinculados
prática se isto é satisfatório para o negro. ao materialismo dialético como Marx, Engels,

43
Lênin, Trotsky, Althusser, além de Otávio Ianni aluna, ouvinte). Não cabe perguntar em que
e Eduardo Galeano. resultou essa dedicação, porém, vê-se que Bea-
Pelo fato de Beatriz Nascimento escrever triz relacionou-se, ao seu modo, com as regras
muitos ensaios com poucas referências bibli- acadêmicas e, entre idas e vindas, não pode con-
ográficas, não se pode concluir por descuido ou cluir um projeto de mestrado que contribuiria
negligência face às regras do discurso acadêmi- para aprofundar e aperfeiçoar suas indagações
co. Leitora crítica de autores “clássicos” dos e formulações e, talvez, alterasse em parte o seu
estudos raciais e étnicos, a exemplo de Nina reconhecimento nesse mesmo campo.
Rodrigues, Gilberto Freyre, Artur Ramos, Ed- Trilhando e ao mesmo tempo construindo
son Carneiro e Florestan Fernandes, Beatriz lia um espaço trilhado e construído por outros(as),
igualmente autores acima citados. Beatriz apostou na tarefa de construir um dis-
Por sua formação, pelos eventos em que curso próprio, deslocando em sua trajetória o
participou, sobretudo como expositora, e pelo lugar social da mulher negra no Brasil. Esse
rol de autores(as) consultados, percebemos que projeto não era individual e não era previsível
seus interesses priorizava, os estudos históri- em seus desdobramentos. É o que ela se inter-
cos e da cultura, adentrando pela antropolo- roga em mais um de seus poemas inusitados:
gia, filosofia, psicologia e psicanálise, história
Antes tudo acontecesse como antes
da arte, literatura, cinema e mídia e, “ob- aconteceu
viamente”, movimentos negros, escravidão, Não vindo como algo novo
quilombos e relações raciais. Sua biblioteca Seduzindo o que não estava atento
Antes tudo acontecesse como o aviso do
guarda um pequeno conjunto de obras relati- sinal
vas à literatura, especialmente afro-brasileira Atenção! “Está prestes a se concretizar”
E não como serpente silenciosa
e angolana. Beatriz torna-se igualmente uma
Em seu silvar
leitora de projetos de pesquisa e de filmes liga- Antes tudo acontecesse quando te
dos à questão racial conforme demonstra seu sentisses
forte
acervo no Arquivo Nacional.
Capaz de reagir, que pudesses sangrar
Mais que listar autores(as) que lhe são refe- Antes tudo acontecesse como se fosse o
rência é necessário estar atento ao processo que previsto
Visto de trás ou de longe
indiquei anteriormente da passagem de leitora Antes que te atingisses de frente
para pesquisadora e para intelectual. O esforço Antes tudo acontecesse como acontecem
de, pelo menos, vinte anos de escrita e pesqui- as histórias
De encontros e rompimentos, num
sa, se somam a um período igual de narradora, mergulho sem demora
de comunicadora de idéias, de transmissora de Antes tudo se passasse como passa o
conhecimentos (como professora, orientadora, Arco-íris
Num momento luz, noutro bruma e
crepúsculo. (1987).

44
4. Esse emaranhado de sutilezas
O racismo brasileiro e as possibilidades de reação

(...)
Cresce, o teu poder é muito
Envolva essa força
Unifique essa coragem
Separatismo não
O egocêntrico não tece a união
Não espalha a nobreza
Aparta os corações
(...)

Separatismo Não – Caj Carlão

(música do bloco afro Ilê Ayiê)

45
Os textos publicizados de Beatriz Nas- mesmo nestas ocasiões “pensamos duas
cimento, entre os anos de 1974 e 1990, nos vezes”! antes de reagir, pois, como expus
acima, no nosso “ego histórico” as mistifi-
permitem delinear vários aspectos de seu cações agiram a contento. (1974a: 42).
pensamento a respeito do racismo, especial-
mente sobre as formas praticadas na sociedade Atenta à diferenciação das situações racis-
brasileira contra a população negra. De início, tas e à dubiedade de suas interpretações, Bea-
o que ela denomina de “um emaranhado de triz se mostra como pensadora de um fenômeno
sutilezas” pode ser uma trama de fios finos e que se multiplica como se tivesse “sete vidas”.
complexos, mas astuciosos. Quer dizer, tratado Uma das questões que ela focaliza se situa no
como velado ou mesmo inexistente, o racismo entendimento de que um ato, uma situação é
no Brasil se mostra como uma sofisticada rede predominantemente racista. Na população
de pensamentos e ações, que varia para deter- brasileira em geral, mas especificamente na
minados contextos. Multifacetado em sua exis- população negra, há pessoas que se recusam ou
tência é um fenômeno que merece análises e demoram a reconhecer a emergência do racis-
possibilidades de reação multidimensionais. mo. Essa é uma de nossas dores primordiais,
Em 1974, no artigo Por uma história do dos racialmente discriminados:
homem negro, tendo como tema principal De tal forma o preconceito contra o negro
a flagrante despreocupação da academia é violento e ao mesmo tempo sutil, que ele
existe latente e muitas vezes vem à tona na
brasileira com os temas vinculados à história
relação entre nós mesmos. Temos, vamos
da população negra, no máximo, reduzidos dizer, uma atitude de amor e ódio por nós
aos genéricos estudos da escravidão, Beatriz mesmos; a presença, o confronto com o
parte de uma forte motivação que excede pre- outro nos incomoda também. (Idem).
ocupações de uma pesquisadora restrita aos Como pode o preconceito contra a popula-
muros universitários. A eleição do tema de es- ção negra ser, ao mesmo tempo, violento e su-
tudo vem da vida vivida em condições raciais til, latente e manifesto? Como é possível que na
desiguais: sociedade brasileira entre negros e negras e en-
A todo o momento o preconceito racial tre negros(as) e brancos(as) exista tanto amor,
é demonstrado diante de nós, é sentido. quanto ódio? Os aparentes paradoxos podem
Porém, como se reveste de uma certa
tolerância, nem sempre é possível perce-
ser desvendados.
bermos até onde a intenção de nos humi- Negro. Negra. Branco. Branca. Escravidão.
lhar existiu. De certa forma, algumas des- Racismo. Que imagens nos evocam esses ter-
tas manifestações já foram incorporadas
mos? Como os utilizamos pouco em nossos
como parte nossa. Quando, entretanto,
a agressão aflora, manifesta-se uma vio- diálogos coloquiais, nos debates acadêmicos,
lência incontida por parte do branco, e até nos embates políticos tidos como “mais

47
sérios”? Quando e como os utilizamos? So- se distancia frontalmente daquele que incluía
mente para nos referirmos ao passado como se “o negro” como elemento do passado.
o tivéssemos superado?
Novamente a voz feminina negra emite um Mecanismos do racismo e a pessoa negra
discurso potente que merece atenção redobrada:
A exemplo de outros(as) pensadores(as)
“a democracia racial brasileira talvez exis-
ta, mas em relação ao negro inexiste. As negros(as), Beatriz destrincha os mecanismos
manifestações preconceituosas são tão racistas no cotidiano, com destaque para as
fortes que, por parte de nossa intelectuali- relações interpessoais, na vida profissional,
dade, dos nossos literatos, dos nossos po-
em especial a acadêmica. No entanto, a ela in-
etas, da consciência nacional, vamos dizer,
somos tratados como se vivêssemos ainda teressava a pessoa negra vista como uma to-
sob o escravismo”. (Idem, 42-3). talidade, passado e presente, mente e corpo, a
exemplo da entrevista para o livro Fala, Crio-
No artigo que dá seqüência àquele acima
ulo de Haroldo Costa:
mencionado, uma das proposições de Beatriz
diz respeito ao estudo “do negro” face à ideo- Observando bem, a gente chega numa
conclusão que vive numa sociedade dupla
logia nacional: ou tripla. Na medida em que ela impõe na
Entretanto, para o entendimento de nossa sua cabeça que é uma sociedade branca,
sociedade é necessário conhecer um ele- que o seu comportamento tem que ser pa-
mento de suma importância na sua forma- dronizado segundo os ditames brancos,
ção histórica. Esse elemento por não per- você como preto se anula, passa a viver
tencer, em sua maioria, às camadas mais uma outra vida, flutua sem uma base
altas da população, tem um acesso minori- onde possa pousar, sem referência e sem
tário àqueles círculos considerados cultos, parâmetro do que deveria ser a sua forma
o que impede de participar de discussões peculia. (1982: 96).
consideradas esnobes (no Brasil é conside-
rado “esnobismo” discutir ou interpretar os Essa “vida dupla”, em que uma das di-
aspectos pluralísticos do nível ideológico mensões ora está subsumida, ora aflora, porque
da sua formação social). O elemento a que o racismo é uma experiência que retira o sujeito
nos referimos é o negro brasileiro, que só
pode ser entendido a partir de um estudo
de si mesmo, anulando-o em vida, segue o in-
profundo da ideologia nacional e das suas divíduo negro desde a infância:
implicações num todo social, do qual, por
Esse processo costuma ser longo e insidio-
força do preconceito racial (dentro daquela
so e começa já na escola primária. Lá em
ideologia), é posto à margem (1974: 65).
Sergipe, para citar um fato concreto. Eu
estudava numa escola que era num ter-
Relacionar população negra com a cons-
reno arrendado de minha avó, era em fren-
trução da identidade nacional em termos con- te à casa dela; pois bem, eu muitas vezes
temporâneo constitui um ponto de vista do que inventava um dor de barriga e fugia, sabe

48
por quê? Porque tinha pouquíssimas cri- era uma criança extremamente bem com-
anças negras, iguais a mim na escola. E portada na escola primária, muitas vezes
esse fenômeno acontece comigo até hoje. era elogiada pelas professoras porque eu
Eu me sinto mal, me dá uma sensação de era a mais educada, não pedia nem pra ir
isolamento quando eu estou num grupo lá fora durante a aula. O que eu era, era
onde não têm muitos pretos. (Idem, 197). muito reprimida. Imagina uma criança
que não pede pra ir lá fora. (Idem).
Sem se restringir a seus exemplos pessoais,
Beatriz Nascimento estende sua preocupação As experiências individuais com os me-
para a criança negra: canismos racistas, plenamente transferíveis
para outras pessoas negras, especialmente me-
Acho que muita criança negra tem esse
mesmo problema e é por isso que não es- ninas, jovens e mulheres, a acompanham por
tuda, muitas vezes não passa de ano, tem toda a vida, e se expressam de maneira especí-
dificuldade na escola por causa de um cer- fica, quando adulta, com pensamento formado
to tipo de isolamento que não é facilmente
perceptível. É aquela mecânica de edu-
e com uma atividade intelectual definida:
cação que não tem nada a ver com esses Nas ruas as pessoas me agridem das mais
grupos de educação familiar, a mecânica diversas formas. No meu interior há recal-
da leitura, onde você não sabe quem é, camento das aspirações mais simples. Em
porque não está nos livros. (Idem). contato com as outras pessoas tenho que
dar praticamente todo o meu “curriculum
Retornado a sua experiência pessoal, ela vitae” para ser um pouquinho respeitada.
desvenda um dos mecanismos comuns de rea- Há oitenta anos atrás minha raça vivia nas
condições mais degradantes. (...) a maio-
ção da pessoa negra ao racismo que também
ria dos meus iguais permanece social e
se prolonga para além da infância: a busca economicamente rebaixada, sem acesso às
por ser a melhor, a primeira, combinada com riquezas do país que construiu. Quando
uma certa dose, parcialmente auto-imposta, de volta ao cotidiano, verifico que as pes-
soas vêem minha cor como meu principal
de invisibilidade: dado de identificação, e nesta medida tra-
tam-me como um ser inferior. Me pergun-
Quando eu comecei a mergulhar dentro
to que ideologia absurda é essa, dessas
de mim, como negra, foi justamente na
pessoas que querem tirar minha própria
escola que era um ambiente em que eu
identidade? (1974a: 13).
convivia com a agressão pura e simples,
com o isolamento, com as interpretações
Escrever sobre esse tema, neste início de
errôneas, estúpidas das professoras, a
ausência das pessoas da minha cor na sala século, parece “chover no molhado” quando
de aula, a falta de referência. No meu caso inúmeros artigos, teses e livros o abordam.
específico, o mecanismo para romper com Para quem ainda acredita que o racismo não
esta situação de adversidade em que eu
vivia era justamente estudar e tirar cem, ocorra com esses requintes de crueldade, soa
que era a nota máxima na minha época. Eu como exagero retomar esses mecanismos.

49
Compreendo, no entanto, que Beatriz radicali- Escrevendo e discursando sem excluir a
za a investigação dos efeitos do racismo sobre a subjetividade de seu texto, portadora de um
pessoa, como veremos adiante no que tange aos intelecto sensível, emocionado, por vezes,
aspectos psíquicos. Esta ida à raiz de um fenô- irado e angustiado, Beatriz, em mais um dos
meno tão intricado levou-a a por em questão o seus escritos poéticos, almeja não se tornar
ser negro como uma identidade atribuída pelo racista, quebrando suavemente outra idéia do
Outro, o ser oposto: “Ser negro é uma identi- senso comum a respeito de todo(a) militante
dade atribuída por quem nos dominou”12. negro(a) “radical”:
Beatriz aprofundou e estendeu a noção de
Ninguém fará eu perder a ternura
negro em face de um racismo múltiplo, por-
Como se os quatro besouros
tanto, não caberia em seu pensamento uma Geração da geração
concepção essencialista de negritude. À seme- Vôo de garças seguro
Ninguém fará
lhança de Neusa Souza que estudou “as vicis-
situdes da identidade do negro brasileiro em Ninguém fará eu perder a doçura
ascensão social”, suas preocupações voltaram- Seiva de palma, plasma de coco
Pêndulo em extensão
se igualmente para esse processo em que um Em extensivo mar – aberto
segmento étnico-social deseja ser ou tornar-se Cavala escamada, em leito de rio
o Outro, inclusive pela falta ou afastamento de
Ninguém me fará racista
referências negras13. haste seca petrificada
Sem veias, sem sangue quente
Sem ritmo, de corpo, dura
Jamais fará que em mim exista
Possibilidades de reação Câncer tão dilacerado

Beatriz agrega em seus textos diversas


Anti-Racismo - Beatriz Nascimento
possibilidades de reação ao racismo que vão
das estratégias individuais de compreensão do
fenômeno, de reconhecimento enquanto grupo
étnico-racial, até a constituição dos movimentos
negros.

12 Idem, ibidem.

13 NASCIMENTO, Beatriz. Conferência e debate sobre historio-


grafia do quilombo. 1977.

50
5. A Terra é o meu quilombo
Terra, território, territorialidade

(...)
Eu estou apaixonado
Por uma menina Terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
(...)
De onde nem tempo nem espaço
Que a força mande coragem
Pra gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas no nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne

Terra, Terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria

Terra – Caetano Veloso

(canção inserida na trilha sonora do filme Ori)

51
Inúmeros temas “acadêmicos” nascem No período em pauta, lideranças dos movi-
fora dos muros universitários ou ganham con- mentos negros, alguns e algumas com carreira
tornos próprios quando desenvolvidos por acadêmica, concebiam de maneira diferencia-
sujeitos diretamente inseridos na temática, a da os quilombos enquanto reação ao sistema
exemplo do gênero discutido sobretudo por escravista, sociedade alternativa e/ou iguali-
mulheres e da raça pensada mormente por tária, locus da resistência negra que se trans-
negros(as). É nesse contexto que ocorre uma punha no século XX para as favelas, as esco-
das emergências do quilombo como questão las de samba, as casas de culto afro-brasileiro
para as ciências humanas no período entre no e as próprias organizações dos movimentos
final dos anos 1970 e na década seguinte. Ten- negros. No entanto, como pareceu para uma
ciono levantar esse “debate” em alguns espa- parte da intelectualidade branca, não se trata-
ços por onde Beatriz Nascimento transitava: va de um pensamento uniforme.
em eventos acadêmicos onde a desigualdade
racial era foco central, na mídia impressa onde
se processou um “aparecimento” dessa temáti-
ca e, em artigos científicos e outros textos ori- Quilombo: campo de tensão e busca espacial
undos de sua pesquisa.
Um dos marcos temporais dessa discussão Beatriz Nascimento é uma das pesqui-
se encontra na referida Quinzena do Negro da sadoras negras que mais se dedicou ao tema
USP, na qual Beatriz Nascimento pronunciou e por mais tempo, abrindo vários aspectos
a conferência Historiografia do Quilombo, (toponímia, memória, relação África - Brasil,
pugnando pelo empreendimento de pesqui- territorialidade e espaço) e exercitando a con-
sas acerca de quilombos e não apenas da “es- fecção de diversos “produtos” de seu trabalho
cravidão”, tema corrente principalmente entre (entrevistas, artigos, poemas, filme). Por quase
historiadores(as): vinte anos, entre 1976 e 1994, ela esteve às voltas
com essa temática.
Então, nesse momento, a utilização do
termo quilombo passa ter uma conota- O suplemento Folhetim da Folha de São
ção basicamente ideológica, basicamente Paulo publicou alguns números que aborda-
doutrinária, no sentido de agregação, no vam a “questão negra” e continham matérias e
sentido de comunidade, no sentido de luta
como se reconhecendo homem, como se
entrevistas de militantes e/ou acadêmicos(as).
reconhecendo pessoa que realmente deve Em um dos números do tablóide Beatriz Nasci-
lutar por melhores condições de vida, mento, ao ser entrevistada por Raquel Gerber,
porque merece essas melhores condições
diretora de Ori, enuncia parte de sua metodo-
de vida desde o momento em que faz par-
te dessa sociedade. (1989). logia e das preocupações que compunham seu

53
projeto de pesquisa. Estava ela preocupada Na questão da terra:
com topônimos referentes ao termo quilombo, Que os movimentos negros apurem onde
às favelas, aos “bailes black” e às comunidades existem terras ocupadas por comunidades
negras, e providenciem por meios legais, a
negras rurais contemporâneas que estavam aplicação do usucapião evitando os proble-
sendo identificadas naquele período. mas de usurpação das terras.
A imersão nas tantas páginas consultadas Luta pela defesa dos posseiros, na sua
permite levantar mais que variações em torno maioria negros e mestiços, com aplica-
ção das leis, desprezadas pelo próprio Es-
do mesmo tema. Lélia Gonzalez, por exemplo,
tado. (1983).
em mais de um artigo focaliza mulheres negras
quilombolas. A autora as ressalta, seja em Nan- Se o quilombo assumia um significado am-
ny (1983), que assume no Caribe o status de um plo de resistência negra em diversos espaços
mito semelhante a Zumbi, ou em Marli Soares, (não somente físicos), havia referências de sen-
uma empregada doméstica “quase anônima”, e tido estrito do termo, distanciadas no tempo,
tem consciência de que usa o termo quilombola que marcavam ativistas dos movimentos ne-
de maneira metafórica (1981). Por outro lado, gros: o quilombo dos Palmares e o Sítio da Ser-
nesses mesmos textos, Lélia Gonzalez exercita ra da Barriga, onde se realizavam memoriais da
o uso das noções de quilombola e quilombo luta negra, e as “comunidades negras rurais”
em diversas situações que têm a mulher negra em processo de identificação para as quais se
no centro da reflexão, confrontando-as com os percebia a necessidade de estudos adequados.
“tipos” da escrava, da mucama, da mãe preta e No “Centenário da Abolição”, a comuni-
da mulata (1984). dade negra rural de Conceição dos Caetanos
Em mesa redonda registrada pelo tablóide aparece na revista Isto É citada por Beatriz
Pasquim em 1979, Lélia Gonzalez cita breve- Nascimento, historiadora e militante do movi-
mente um agrupamento negro rural em pro- mento negro. A matéria inclui outros “resíduos
cesso de “descoberta” àquela época: “Os jornais de quilombolas” como Isidoro (no Sul da Ba-
mostraram o caso do Cafundó, onde comuni- hia) que seriam “comunidades negras que, no
dades estão sendo atacadas por latifundiários lugar dos antigos quilombos, permaneceram
brancos, entrando as multinacionais”. (1979). fiéis, depois da abolição, em 1888, aos rituais e
No 3º Congresso de Cultura Negra das aos meios de sobrevivência de seus ancestrais
Américas, realizado na Pontifícia Univer- escravos fugidos” (1988). É possível inferir que
sidade Católica de São Paulo, de 21 a 27 de pesquisadoras como Beatriz nascimento e Lélia
agosto de 1982, dentre as discussões do Grupo Gonzalez estavam atentas à situação daqueles
Movimentos Sócio-Políticos, registrou-se a grupos negros rurais com preocupações bas-
seguinte proposição: tante distintas das pesquisas de mestrado e

54
doutorado que então se desenvolviam, sobre- procuraria outros fatores a rechear e ali-
tudo, na Universidade de São Paulo. mentar tais relações. (...)

Em outra oportunidade demonstrei – através O fato novo que surgiu em Maceió talvez
tenha sido o exercício nacional do sonho
da leitura de prefácios e introduções – como este
em torno da república negra. Um sonho
“confronto” se deu em torno do termo quilom- que não deverá envolver apenas negros:
bo e de sua legitimidade científica e ideológica, deverá permear várias classes sociais, ins-
pirando-se ou não na contradição surgida
principalmente nas formulações de João Baptista
entre Ganga Zumba e Zumbi, mas envol-
Borges Pereira e alguns orientandos que pare- vendo todos os aspectos do quilombo de
ciam opor-se a Abdias Nascimento, Lélia Gonza- Palmares – a república do prazer. (1981).
lez, Beatriz Nascimento e Joel Rufino dos Santos.
Aqueles e aquelas que estavam no lado oposto da Houve “demora” da academia em aceitar
relação de alteridade com intelectuais negros(as), o quilombo como linha de pesquisa, com ex-
os(as) pesquisadores(as) brancos(as) ou não ceção do quilombo de Palmares. Dentre traba-
negros(as), não se expressavam em uníssono cer- lhos de autores negros, as obras de Edison Car-
tamente, principalmente no que tange à interpre- neiro, Abdias Nascimento (com a proposta do
tações do fenômeno do aquilombamento. Quilombismo) e Clóvis Moura (nas várias edi-
Ainda no ano do centenário da abolição, ções de Rebeliões da Senzala entre 1959 e 1981)
Hamilton Cardoso expressou sabiamente na aparecem quase isoladas ou foram desconsi-
expressão “O quilombo de cada um”, título de deradas no âmbito acadêmico.
uma de suas matérias, as divergências entre pro- Um tema muito “ideologizado” como
fissionais da História (Mário Maestri Filho, Reny afirma João Baptista Borges Pereira, vindo
Gomide), do cinema (Cacá Diegues) e da política “de fora”, no mínimo incomoda a academia
(Teotônio Vilela) em torno do Quilombo de Pal- brasileira nas décadas de 1970 e 1980. No en-
mares, durante simpósio ocorrido em Maceió: tanto, o tema a “invade”. Pesquisadores(as) vão
a campo com suas visões de mundo e com seus
Tudo indica que há um debate fervoroso
escondendo-se por trás dos discursos in-
mitos, sejam militantes de alguma causa política
telectuais. Um debate que teria como obje- ou não. Carlos Vogt e Peter Fry indicam o que
tivo promover uma verdadeira revolução perpassava o segmento acadêmico hegemônico
da metodologia de análise da história. (...)
sobre a invisibilidade negra no campo:
Entre os debatedores, pôde-se perce-
ber claramente a existência de duas cor- Esse fato [a identificação de grupos negros
rente metodológicas fundamentais: uma no Vale do Ribeira, São Paulo] aguçava o
ortodoxa, que enxergaria nas relações de nosso interesse porque tínhamos, como
classe as explicações de todos os fenôme- provavelmente têm todos os pesquisa-
nos políticos da sociedade, e uma outra, dores que se dedicam à cultura negra
menos ortodoxa – ou talvez mais – que brasileira, um fundo de referência – o da

55
diáspora – quase um mito de interpreta- Há aqui além do descompasso aludido
ção do processo social, que postula quase acima, um encapsulamento do discurso
que a total desagregação das famílias ne- negro como ativista num domínio sepa-
gras depois da Abolição. (1997: 325). rado do que é supostamente acadêmico.
Em frase que antecipa mudanças bem
Os pesquisadores acima referidos imagi- posteriores, Borges Pereira enuncia que
navam que “todos” os seus pares supunham a essas “comunidades negras não podem
ser colocadas na categoria de quilombo, a
desagregação total das famílias negras (rurais?) não ser que se dê (sic) novas dimensões a
após a abolição formal da escravidão. Vê-se tal conceito” (1981: 68).
aqui o enorme descompasso entre os acadêmi-
cos hegemônicos e os(as) intelectuais negros. Por caminhos que intrincadas relações so-
Pode-se concluir que aqueles(as) intelec- ciais produzem, várias das localidades estuda-
tuais vinculados ao movimento negro es- das pelo projeto da USP hoje se mobilizam e são
tavam preocupados em difundir uma noção de reconhecidas como “remanescentes de quilom-
quilombo e aplicá-la aos seus projetos políticos bo”. É o caso de Castainho, em Garanhuns (PE)
e às suas preocupações acadêmicas. De outro e de Ivaporunduva, em Eldorado (SP).
lado, havia (e há) intelectuais vinculados direta
e hegemonicamente à universidade que pro-
curavam pensar o que se costuma rotular de A trajetória de Beatriz Nascimento em direção
“questão do negro”. ao quilombo
Um projeto de pesquisa da Universidade
de São Paulo produziu uma literatura densa so- Em seu principal projeto de pesquisa Be-
bre “comunidades negras rurais” e evidenciou atriz Nascimento reitera as críticas à historio-
a noção de território negro. A escolha de comu- grafia de sua época que demonstrava pouco ou
nidades negras rurais cujas origens narradas nenhum interesse sobre o tema, considerado
remetiam a doação de terras (Ivaporunduva como fato do passado, ou que emitia interpre-
em São Paulo), aquisição de terrenos (Cedro em tações reducionistas de um fenômeno tão vasto
Goiás) e ocupação de zonas agrícolas e urbanas e variado no tempo e no espaço. O seu projeto
“decadentes” (Vila Bela em Mato Grosso) abriu se baseava inicialmente em cinco hipóteses:
espaço para a compreensão da diversidade de
configurações da população negra no âmbito 1) O que ficou conhecido na historiografia
como quilombos são movimentos sociais
rural. Foram escolhidas para preencher uma arcaicos de reação ao sistema escravista,
lacuna e por uma outra razão “sutil” que era cuja particularidade foi a de iniciar sistema
se contrapor à noção de quilombo utilizada por sociais variados, em bases comunitárias.
“ideólogos negros”: 2) A variedade de dos sistemas sociais en-
globados no conceito único de quilombo

56
se deu em função das diferenças institu- O discurso de Beatriz Nascimento sobre o
cionais entre esses sistemas. tema é notoriamente denso e variado. Na sua
3) O maior ou menor êxito na organiza- pesquisa há uma busca que é científica, além
ção dos sistemas sociais conhecidos como
quilombos deu-se em função do fortaleci- de pessoal e coletiva enquanto pertencente ao
mento do sistema social dominante e sua grupo étnico que estudava:
evolução através do tempo.
Gostaria de dar a este trabalho o título de
4) As áreas territoriais onde se localizaram “a memória ou a oralidade histórica como
“quilombos” no passado supõe (sic) uma instrumento de coesão grupal”, ou ainda
continuidade física e espacial, preservan- “A memória e a esperança de recuperação
do e/ou atraindo populações negras no do poder usurpado”. Esta maleabilidade
século XX. de títulos possíveis talvez se deva ao fato
5) Certas instituições características de de este não ser, ainda, um trabalho con-
movimentos sociais arcaicos são encontra- cluído. Trata-se de um estudo prolonga-
das nestes territórios acima citados, fazen- do e exaustivo.
do supor uma linha de continuidade entre Dizendo isto, estou tentando transmitir
os sistemas sociais organizados pelos ne- minha experiência de pesquisa sobre os
gros quilombolas e os assentamentos so- quilombos brasileiros, pesquisa que to-
ciais nas favelas urbanas, assim como nas mou, no projeto, o título de “Sistemas soci-
áreas de economia rural decadente com ais alternativos organizados pelos negros
incidência de população negra e segmen- – dos quilombos às favelas”. Este projeto
tos populacionais de baixa poder aquisi- é também um grande sonho. Cientifica-
tivo pertencentes a outras etnias. (1981). mente falando, pretendemos demonstrar
que os homens e seus grupamentos, que
Sua crítica à historiografia sobre os quilom- formaram no passado o que se convencio-
bos brasileiros partia do reduzido número de nou chamar “quilombos”, ainda podem e
procuram fazê-los.
títulos dedicados ao tema, que eram, em geral
Não se trata de, no meu entender, exata-
muito descritivos, e que generalizavam o ter-
mente de sobrevivência ou de resistência
mo quilombo a partir de situações como Pal- cultural, embora venhamos a utilizar estes
mares. Incluindo nessa crítica Edison Carneiro termos, algumas vezes como referência
e sua edição de 1966 de O Quilombo dos Pal- científica. O que procuramos neste estudo
é a “continuidade histórica”, por isso me
mares, Beatriz Nascimento refere-se a Clóvis referi a um sonho. (1982: 165).
Moura para enunciar a existência do fenômeno
do aquilombamento durante a escravidão e Nesse excerto de uma apresentação pre-
em quase todas as regiões brasileiras, mesmo liminar de resultados da pesquisa em Minas
naquelas onde o regime escravista não possui Gerais, percebemos uma série de cuidados que
maior significação, e indaga: como explicar his- se vêem escritos e ditos de outra maneira nos
toricamente um processo sem atentar para sua textos do filme Ori e nas entrevistas. Considero
dinâmica e diferenciação no tempo? que, para Beatriz Nascimento, nem a África, o

57
quilombo, Zumbi dos Palmares ou qualquer escravos fugidos e local onde eles se instala-
outra personagem negra raramente são alvo de vam” (1997: 110).
mitificação ou reificação. Beatriz segue traçando esse vínculo entre o
Em seus levantamentos podemos desta- quilombo africano e brasileiro, evidenciando os
car a relação entre o quilombo africano e o problemas com a pesquisa documental:
brasileiro, no século XVII, idéia presente no No Brasil, quilombo veio com essas carac-
filme Ori e em alguns artigos, fomentada após terísticas. Aqui também foi chamado de
a viagem a Angola em 1979: estabelecimento territorial. Mas, de um
modo geral, só temos documentos falan-
Quilombo é um conceito próprio dos afri- do do tempo da guerra que é descrita por
canos bantus, habitantes da África Centro documentos portugueses ou repressores
Ocidental e Leste (sic). Este conceito vem brasileiros, não nos dando conta da verda-
sendo modificado através dos séculos deira amplitude desse sistema que acom-
da História do Brasil. Já em 1740, o Con- panhou todos os séculos escravistas em
selho Ultramarino define quilombo como nosso país.
qualquer e toda habitação que possuísse
Comparando a documentação da história
5 fugitivos. Entretanto os Quilombos do
de Angola e da conquista portuguesa na
Brasil, como Palmares, atingiram aproxi-
Bacia do Congo, com as fontes que temos,
madamente 20 mil habitantes.
percebe-se essa tradição bantu no que
O nome original vem de Angola, que em foram os 0quilombos brasileiros (notada-
determinado momento da história da re- mente Palmares). (...)
sistência angolana queria dizer acampa-
O modelo de Palmares vai ser repetido
mento de guerreiros na floresta, adminis-
no Quilombo Grande e no Tijuco – Minas
trado por chefes rituais de guerra. (...)
Gerais – cujos chefes de mesmas caracte-
Do ponto de vista de uma organização so- rísticas de liderança (sic) a Zumbi, eram
cial, a África era extremamente diversifica- Ambrósio e Isidoro.
da. Tudo fazia parte de um sistema. Assim
(...) Mas a maior parte dos outros quilom-
o Quilombo, neste período [século XVII]
bos diferem, conforme a região econômica
era um sistema social baseado em povos
que controlam, tendo outro tipo de admi-
de origem caçadora [jaga ou imbangala] e
nistração. Dependendo do seu tamanho e
por isso mesmo guerreiros. (1989).
importância eles foram mais, ou menos,
atacados pelas forças governamentais e
Quanto à formação de quilombos na
por senhores de escravos. (1981).
África, Aida Freudenthal após notificar que
os imbangala se sedentarizaram ao longo do Nesse esforço comparativo ao qual Beatriz
século XVIII, assinala outras denominações não deu prosseguimento, ela esboça uma idéia
para esses agrupamentos (mutolo, couto ou que permanece crucial:
valhacouto) formados na segunda metade do Há muitas semelhanças, mas também
século XIX em Angola. A autora trabalha com diferenças. Quase todos os quilombos de
o conceito de quilombo enquanto “grupo de Angola, que visitei, transformaram-se em

58
cidades. Mas para mim, na raiz de todos processo de constituição de coletividades negras
os quilombos, existe uma procura espacial enquanto qualificadoras de um espaço, não se
do homem que se relaciona com muitas
questões discutidas atualmente, como a extinguiu em 1888 e não está restrito a territóri-
ecologia (1981). os permanentes. O corpo negro plural constrói
e qualifica outros espaços negros, de várias du-
Para ela, o quilombo, especialmente Pal-
rações e extensões, nos quais seus integrantes se
mares, podia ser considerado um projeto de na-
reconhecem. Para Beatriz Nascimento, a África
ção, protagonizado por negros, mas includente
e o Quilombo são terras-mãe imaginadas.
de outros setores subalternos. Quando assume
O projeto de pesquisa de Beatriz, escrito
a vertente ideológica do termo, ela o estende
para um curso de especialização, teria hoje o
seu significado para abranger um território de
porte de um mestrado, ainda que merecesse,
liberdade, não apenas referente a uma fuga,
como ela mesma necessitou fazer, revisões, re-
mas uma busca de um tempo/espaço de paz:
cortes e delimitações. Por falta de financiamento
Quilombo é uma história. Essa palavra e devido à largueza dos objetivos, Beatriz supri-
tem uma história. Também tem uma tipo-
miu as duas últimas hipóteses e, por conseqüên-
logia de acordo com a região e de acordo
com a época, o tempo. Sua relação com o cia, o levantamento de “ex-quilombos”. Parte de
seu território. suas conclusões foram publicadas em artigos, a
É importante ver que, hoje, o quilom- exemplo de alguns incluídos neste livro.
bo traz pra gente não mais o território
geográfico, mas o território a nível (sic)
duma simbologia. Nós somos homens.
Nós temos direitos ao território, à terra.
Várias e várias e várias partes da minha
história contam que eu tenho o direito ao
espaço que ocupo na nação. E é isso que
Palmares vem revelando nesse momento.
Eu tenho a direito ao espaço que ocupo
dentro desse sistema, dentro dessa nação,
dentro desse nicho geográfico, dessa serra
de Pernambuco.
A Terra é o meu quilombo. Meu espaço é
meu quilombo. Onde eu estou, eu estou.
Quando eu estou, eu sou. (1989).

A indagação quem sou eu? de um indi-


víduo negro, em especial, quilombola, tem sido
estudada nos termos da identidade étnica, ali-
ada à formação de um território. No entanto, o

59
6. Corpo/mapa de um país longínquo
Intelecto, memória e corporeidade

61
O filme Ori documenta os movimentos ne- Então toda dinâmica desse nome mítico,
gros brasileiros entre 1977 e 1988, passando pela oculto, que é o Ori, se projeta a partir das
diferenças, do rompimento numa outra
relação entre Brasil e África, tendo o quilombo unidade. Na unidade primordial que é
como idéia central e apresentando, dentre seus a cabeça, o núcleo. O rito de iniciação é
fios condutores, parte da história pessoal de um rito de passagem, de uma idade para
outra, de um momento pra outro, de um
Beatriz Nascimento. O título do filme provém saber pra outro, de um poder atuar para
de uma palavra Yorubá, língua utilizada na re- outro poder atuar (Idem).
ligião dos orixás, que significa cabeça ou centro
e que é um ponto chave de ligação do ser hu- Nas reflexões de Beatriz Nascimento não
mano com o mundo espiritual. caberia a fixação em um ponto de vista individu-
Mais como metáfora do que como uma alizante ou psicologizante como distorções de
generalização de uma concepção de um seg- uma cosmovisão de um grupo africano e tam-
mento étnico-cultural e religioso para todos(as) bém afro-brasileiro. Ori, em sua metáfora, pode
os africanos(as) e todos(as) os(as) negros(as), ser o repensar da identidade pessoal e coletiva,
Beatriz burila o termo Ori, como relação entre da idéia de negro e de território negro, ou seja,
intelecto e memória, entre cabeça e corpo, en- o espaço apropriado pelo corpo negro numa
tre pessoa e terra, correlação adequada para se relação de poder, abrindo a interpretação para
interpretar numa única visada restauradora a o próprio movimento negro.
desumanização do indivíduo negro e suas pos- Num dos trechos do filme, as imagens
sibilidades de reconstrução de si, como parte mostram seqüências de eventos dos movimen-
de uma coletividade. tos negros e, às vezes, se detêm em rostos como
No filme Ori, Beatriz Nascimento e Raquel o de Eduardo Oliveira e Oliveira, Hamilton
Gerber agregaram à palavra outros sentidos Cardoso e de Beatriz, dentre outros(as), como
que abrangem do indivíduo ao coletivo, da se “rebobinasse um filme” sobre a militância
pessoa negra ao movimento negro: vivida, de meados dos anos 1970 até aquele
momento (final da década seguinte). Sobre
Ori significa uma inserção a um novo es-
tágio da vida, a uma nova vida, um novo fotografias de Beatriz sua voz em off, voz bas-
encontro. Ele se estabelece enquanto rito e tante tranqüila, repensa o discurso da reação
só por aqueles que sabem fazer com que contra o racismo:
uma cabeça se articule consigo mesma e
se complete com o seu passado, com o seu Como eu pensava que podia continuar no
presente, com o seu futuro, com a sua ori- movimento negro, não está sendo aquilo
gem e com o seu momento (1989). que eu pensava. Mas há um lugar aí, onde
tem que entrar a verdadeira luta pela liber-
A pessoa que se inicia no candomblé e “faz tação do negro, que é a libertação de si
a cabeça”, refaz o percurso que Beatriz indica: próprio. Do termo, inclusive, negro. Do

63
conceito de negro. Justamente eu vejo o arbítrio. Não é à-toa que 1974 marca o nas-
negro que pode estar em mim, pode estar cimento do movimento negro e, do meu
em você e em qualquer outro. Os homens ponto de vista, a busca do Eu sou. Na ver-
são todos iguais. Mas não quero fazer ban- dade, eu sabia quem era. Eu sabia que o Eu
deira política do movimento negro. Não sou estava inteiro. Mas desagregado numa
quero mais. Porque o movimento não é vivência de mundo extremamente repres-
negro. O movimento é da história. (1989). siva. Daí a possibilidade de sair disso foi a
reflexão, voltar pra dentro. Tirar de dentro
Ao ouvi-la suspender a palavra “negro” a potência para que houvesse possibilidade
como um termo a ser superado por quem a de abertura, de liberdade. E esta abertura é
a abertura da nacionalidade brasileira. Um
utiliza como adjetivo positivo, comentaristas amplo leque que o Movimento Negro des-
afoitos podem vislumbrar nessa citação a de- perta de questões. (Idem).
sistência da guerreira e até mesmo seu pos-
sível embranquecimento. Mas nada em seus Na mesma entrevista, Beatriz demonstra
textos posteriores autoriza essa interpretação. otimismo, talvez com algum exagero, com o
Ao formular uma interpretação do filme, posicionamento político do movimento negro
numa entrevista ao Jornal do MNU, Beatriz ao final da década de 1980: “E me dá realmente
nos revela que Ori, como palavra yorubá que alegria, alegria do poder. De finalmente estar-
assinala a “cabeça”, especialmente de um(a) mos no poder. Porque Ori é justamente a sua
iniciado(a), torna-se metáfora da recriação do descoberta de que você é poder”. Emitindo
movimento negro ainda durante a ditadura seu discurso como um ato ao mesmo tempo
militar, em meados dos anos 1970: de vigor e de delicadeza, Beatriz se reposicio-
na face ao movimento negro, como o fizeram
O processo de Ori é uma recriação de
identidade nacional através do Movi- outros(as) intelectuais negros(as) e o relê, dia-
mento Negro da década de 1970. Nós, na leticamente, com os olhos de Ori, do filme e de
década de 70, éramos mudos. E os outros sua cabeça refeita:
eram surdos a nós. A partir de 70, começa-
mos a falar sociologicamente. E esta lógica Eu quero ver Salvador com os olhos de
estava embutida no processo da própria ORI, porque ORI é esta dimensão do hu-
História do Brasil. (1989: 6). mano. É quando o homem vence uma
grande etapa de força. 10, 11 anos de tra-
Nessa abordagem a constituição do Movi- balho, eu e Rachel [Gerber] E todos nós
mento Negro contemporâneo traz no seu bojo ao mesmo tempo. Com perdas e ganhos.
Com incompreensão e amor. Nós traba-
um processo de auto-consciência, individual e lhamos nesses 11 anos no mesmo ritmo do
coletiva, acerca da inserção da população negra Movimento. Com amor, amor, até chegar-
na história da sociedade brasileira: mos aonde (sic) estamos hoje. Na verdade,
eu acho que Ori é aquele iniciado. O Movi-
Era necessária a lógica; a fala do homem, mento iniciado que passou por todas as
pois estávamos altamente reprimidos pelo suas etapas de iniciação e reiniciação. E

64
agora sugere ao país um ressurgimento. É vos, subjetivos e objetivos, com planos políti-
um ressurgimento porque a concepção de cos/organizativos, igualmente objetivos/ subje-
Ori dentro da História do MN [movimen-
to negro], dentro da História do Brasil, é tivos. Quem participa ou participou de alguma
sair da repressão. Sair da Senzala, ir pro organização coletiva, principalmente de movi-
Quilombo. (1989: 6). mento negro, pode reconhecer que há um com-
É necessário relembrar que em 1988, os ponente de reencontro do indivíduo com um
movimentos negros de norte a sul do país foram de seus grupos e que existem momentos de
a público denunciar com veemência os efeitos inflexão a exemplo de 1978 (criação do MNU
do racismo e a chamada “farsa da abolição”, e noventa anos de abolição), 1988 (10 anos de
momento que Beatriz denomina de “reinicia- MNU, centenário da abolição), 1995 (rememo-
ção”. Dando continuidade como protagonista e ração dos 300 anos da morte de Zumbi dos Pal-
observadora do Movimento Negro, ela refere- mares), que, para além de efemérides, marcam
se a uma das “matérias primas” do filme Ori, a enunciação e reverberação da voz negra em
vinculando mais uma vez a questão racial à vários espaços e escalas: do local e regional ao
questão nacional, o indivíduo ao coletivo: nacional, da saúde, educação e trabalho (stric-
tu sensu ou no sentido ocidentalizado desses
E ORI é a palavra mais oculta porque é o termos) ao gênero e ao campo psicossocial da
homem, sou EU. Porque é o indivíduo, a
chamada “questão étnico-racial”.
identidade. A identidade individual, cole-
tiva, política, histórica. ORI é o novo nome
da História do Brasil. ORI talvez seja o
novo nome do Brasil. Este nome criado por
nós, a grande massa de oprimidos, repri- Corporeidades negras
midos. Reprimidos antes, depois oprimi-
dos, torturados. Transgressores. Aí nós
Para Beatriz Nascimento o corpo negro se
estamos órfãos. Então organizamos este
movimento durante esses 15 anos14 e ORI constitui e se redefine na experiência da diáspo-
passa a acompanhar quando o Movimento ra e na transmigração (por exemplo, da senzala
procura o processo de institucionalização.
para o quilombo, do campo para a cidade, do
Os processos abertos da fala. (Idem).
Nordeste para o Sudeste). Seus textos, sobre-
Ponto de vista, ângulo de visão extrema- tudo em Ori, apontam uma significativa preo-
mente especial, esse que distingue e, ao mesmo cupação com essa (re)definição corpórea. Neste
tempo, amalgama, planos individuais/coleti- tema, a encontramos discorrendo acerca da sua
própria imagem, da “perda da imagem” que
atingia os(as) escravizados(as) e da busca dessa
(ou de outra) imagem perdida na diáspora.
14 Beatriz toma como marco o ano de 1974.

65
Na medida em que havia um intercâmbio greiros, acorrentado em senzalas, obrigado a tra-
entre mercadores e africanos, chefes, mer- balhos forçados; o corpo vestido de algodão cru
cadores também, havia uma relação es-
cravo/escravo como também de intercâm- ou de rendas, mas descalço porque escravizado,
bio, uma change. Essa troca era do nível que se movia das cozinhas para as ruas.15
do soul, da alma, do homem escravo. Ele Certamente, para o período escravista, a
troca com o outro a experiência do sofrer.
A experiência da perda da imagem. A ex-
pesquisa iconográfica e relativa a representa-
periência do exílio. (1989). ções sociais pode nos apontar outras imagens.
O que nos interessa no pensamento de Beatriz é
Tratando dessas perdas: das imagens afri- a interrelação entre corpo, espaço e identidade
canas, de África, das várias Áfricas e de si mes- que pode ser refeita por aquele(a) que busca
mo – Beatriz recupera a idéia da pessoa negra tornar-se pessoa (e não coisa): no quilombo,
enquanto ser desumanizado pelo escravismo e na casa de culto afro-brasileiro, num espaço de
pelo racismo: encontro e/ou diversão, no movimento negro,
A questão econômica não é o grande dra- diante do espelho ou de uma fotografia.
ma, percebe? Apesar de ser um grande Desta forma, o corpo negro pode ser, tam-
drama, não é... [o principal]. O grande
drama é justamente o reconhecimento da
bém em parte, aquele que foge, mas que con-
pessoa, do homem negro que nunca foi re- quista temporadas de tranqüilidade, aquele
conhecido no Brasil. (Idem). que se recolhe no terreiro e sai da camarinha
refazendo, em movimento, narrativas de divin-
No filme Ori, a câmera subjetiva nos colo-
dades africanas; pode ser o jovem que dança
ca no lugar daquele(a) que foge mata adentro,
sozinho ou em grupo ao som do funk, pode ser
nos deixando pressupor uma pessoa “só com
a mulher ou o homem que delineia suas tran-
a roupa do corpo”, com pouca ou nenhuma
ças ou seu penteado black; pode ser igualmente
bagagem material, alguém que corre e talvez se
aquele que se “fantasia” de africano num des-
arranha e se machuca na fuga.
file de escola de samba.
Por conta das imagens que se sedimentam
O corpo negro pode ser (re)definido no
ao longo do que convencionamos chamar de
olhar de Beatriz Nascimento para suas várias
História, o corpo negro é, em parte, o corpo rap-
imagens: diante de sua foto de primeira co-
tado em África, jogado em porões de navios ne-
munhão em que ela não se reconhece mais e
afirma seu afastamento do pensamento cristão;
15 De forma alguma negamos os suplícios e extermínios
diante do retrato de sua irmã Carmem na pose
sofridos pelos grupos indígenas em terras americanas. No de formatura como normalista, o que indica um
entanto, nas referências à escravidão nas Américas e em especial
no Brasil, se sobressaem descrições e gravuras de mulheres e sonho de trajetória intelectual; na visão de uma
homens negros seviciados, repetidas ad nauseam até mesmo em
diva como Marilyn Monroe, um ideal de beleza
publicações que se propõem a romper com tais estereótipos. São
imagens-força com as quais nos devemos confrontar. ocidentalizado disseminado pelo mundo.

66
Ao “ler” os seus textos escritos ou fala- dade negra e vivendo com ela. Quer dizer,
dos e, sobretudo ao ver as poucas imagens em é possível inclusive [ter] laços mais fortes
entre essas pessoas, de casamento. Menino
movimento de Beatriz, me arrisco a afirmar [preto] vai namorar menina preta, não vai
que ela demonstrava profundo senso de sua ter necessidade de arranjar a moça branca
figura. Imagino que ela não agia como se es- pra casar (...). Esse processo aí pode ser um
processo na medida em que o soul é uma
tivesse encenando ao fazer uma conferência ou coisa moderna, atual, que está na televisão,
uma declaração para um documentário, mas no cinema, no jornal, que é de americanos.
como se construísse essa imagem com a cons- Quer dizer, que tem inclusive essa possibi-
lidade de afirmação ao nível do que eu sou
ciência de quem se vê e de quem é vista. Mais
bonito, eu sou forte, de que eu tenho um
ainda, deduzo que Beatriz o fazia como quem corpo bom. (1977b).
sabe a importância da definição visual, além da
aparência, para as pessoas negras no mundo Ao discorrer acerca dos bailes black e dos
contemporâneo, em especial nas sociedades concursos de beleza negra, o filme Ori nos apre-
que foram escravistas como a brasileira. senta igualmente locais de reconhecimento que
Com suas reflexões, com sua escrita e postu- pouco vemos e discutimos: os camarins em que
ra, Beatriz Nascimento provoca um deslocamen- se preparam e os palcos em que se encontram
to da imagem da mulher negra inferior/serviçal/ artistas negros da diáspora, a exemplo da Ban-
objeto para a de mulher negra falante/pensante/ da Black Rio e Jimmy Bo Horne, Gilberto Gil e
intelectual/poeta/ativista. A espessura de sua ima- Jimmy Cliff.
gem é correlata da espessura de seus textos. Neste sentido Beatriz dirige uma crítica aos
O corpo negro a que Beatriz se refere pode intelectuais, inclusive negros, que rechaçavam
ser, então, aquele que porta carências radicais os bailes black, como “alienação cultural”:
de liberdade, que procura e constrói lugares
(...) um dos grandes dramas do intelec-
de referência transitórios ou duradouros. Luga- tual, do negro que ascende na mobilidade
res transitórios como os desfiles das escolas de social, é justamente a perda da ligação
samba e os bailes black: com seu grupo. Eu tenho a impressão que
dentro desse grupo soul isso pode acon-
Eu acho que esse pessoal que está se movi- tecer, mas em doses muito menores. Quer
mentando em volta da música negra ameri- dizer, vai poder se estabelecer um grupo
cana, num sentido é muito positivo em onde existam diferenças econômicas, dife-
termos de convívio, de identidade, de co- renças ideológicas, existe várias diferen-
nhecer o outro, de saber o outro, de apalpar ças. Eu conheço muita gente de soul no
o outro, de dançar com o outro. Eu sinto Rio que o pessoal sempre me pergunta
que esse pessoal jovem agora se organiza se eles são alienados. Então, eu digo: não.
nesse movimento soul, eles vão ter menos Eles não são alienados, eles estão vendo o
problemas que eu tive, por exemplo, eu que outro, na medida em que eles estão junto
sempre vivi alijada da comunidade branca com os outros, não são alienados. Porque
e convivendo com ela e alijada da comuni- o grande drama da gente, a grande tragé-

67
dia, é justamente a perda da compreensão
O corpo é também pontuado de signifi-
do nosso passado, a perda do contato com
o outro. Isso é fundamental. (Idem). cados. É o corpo que ocupa os espaços e deles
se apropria. Um lugar ou uma manifestação
É possível concluir que o corpo negro se de maioria negra é “um lugar de negros” ou
move por essa cartografia cultural, consciente “uma festa de negros”. Não constituem apenas
ou inconscientemente, em transe ou em trân- encontros corporais. Trata-se de reencontros
sito, embalado em trilhas sonoras do Atlântico de uma imagem com outras imagens no espe-
negro, acústicas e/ou eletrônicas: afoxé, con- lho: com negros, com brancos, com pessoas de
gada, samba, blues, jazz, reggae, funk, samba- outras cores e compleições físicas e com outras
reggae, rap, drum’n’bass, etc. histórias.
O corpo é igualmente memória. Da dor
– que as imagens da escravidão não nos dei-
xam esquecer, mas também dos fragmentos de
Corpo-documento: identidade
alegria – do olhar cuidadoso para a pele escura,
no toque suave no cabelo enrolado ou crespo,
As mulheres e os homens africanos viveram
no movimento corporal que muitos antepassa-
uma travessia de separação da “terra de origem”,
dos fizeram no trabalho, na arte, na vida. Um
a África. Nas Américas, passaram por outros
golpe de cabeça, um jeito de corpo para escapar
deslocamentos como a fuga para os quilombos
dos estereótipos, dos preconceitos e do racismo
e a migração do campo para a cidade ou para
explícito. Um jeito de corpo para entrar nos
os grandes centros urbanos. Para Beatriz Nasci-
lugares onde negros não entram ou ainda são
mento, o principal documento dessas travessias,
minoria desigual.
forçadas ou não, é o corpo. Não somente o corpo
A cabeça sintetiza tudo isso. Rosto e cabe-
como aparência – cor da pele, textura do cabelo,
lo são marcas da raça social e política que nos
feições do rosto – pelas quais negras e negros
diferencia. Cabeça – intelecto, memória, pensa-
são identificados e discriminados.
mento. Cada um tem o direito de fazer essa via-
Entre luzes e som, só encontro, meu corpo, gem de volta. Olhar-se no espelho da raça e re-
a ti. Velho companheiro das ilusões de ca- construir sua identidade e seu corpo, pensando
çar a fera. Corpo de repente aprisionado
na sua trajetória e nas rotas do povo ao qual se
pelo destino dos homens de fora. Corpo/
mapa de um país longínquo que busca sente vinculado. Beatriz é um de nossos ícones
outras fronteiras, que limitam a conquista nessa hora.
de mim. Quilombo mítico que me faça Esse corpo negro ainda que parado para
conteúdo da sombra das palavras. Con-
tornos irrecuperáveis que minhas mãos falar ou fixado em fotografia enuncia sentidos.
tentam alcançar. (1997). Na memória corporal ou na difícil construção

68
da cidadania, a linha do corpo negro continua Existe essa terra que é terra, que é a coisa
desenhando o espaço. Fio da memória. Fio da que a gente mais tem medo de perder. É o
pó. É o pó da terra, que é uma coisa que se
identidade. Espelho que nos indaga. equilibra com os outros gases, que dá fun-
Da cabeça aos pés, repleta de signos, a damento”. (Beatriz Nascimento, 1989).
imagem no espelho fala ao corpo que desenha
o espaço. A todo lugar e momento os dois se A aparente reificação presente nesse e em
fazem perguntas que tão cedo irão se calar. outros excertos de seus textos aqui incluídos não
Imagem como representação visual, se sustenta porque os símbolos geoculturais que
fotografia e filme; corpo como território das Beatriz Nascimento utiliza são perfeitamente
relações de poder e de racialização; identidade cartografáveis, ou seja, passíveis de inserir numa
como reconhecimento e como possibilidade cartografia cultural que relaciona África e Brasil
de recriação inclusive do pensamento negro; e permite à pessoa negra posicionar-se dentro
amplexos entre a razão e a emoção. Os tex- das várias rotas e raízes possíveis.
tos de Beatriz Nascimento nos trazem esses É necessário lembrar que “etíopes” foi
fragmentos que autores(as) contemporâneos para uma parte dos europeus “ocidentais” a de-
repontam(as) enquanto componentes das cul- nominação que corresponderia aos “africanos”.
turas viajantes, identidades entre lugares, em “Negro” foi e é ainda a denominação dada aos
trânsito, na diáspora. africanos e aos afrodescendentes nas “Améri-
Nos seus textos, o corpo negro pode se es- cas”. Denominações mais imprecisas e genéri-
tender simbolicamente ao máximo, até se con- cas como “pessoas de cor” (colored people)
fundir com a paisagem, com o território quilom- abrangem uma gama de grupos e etnias. Pouco
bola, com o terreiro, com partes da África, com se questionou no passado a generalização cul-
toda a África e toda a Terra, numa geopoética tural e geográfica desses termos.
africana ou afro-brasileira: O indivíduo negro, com o seu corpo em
relações (con)sentidas, percorre em transmi-
“Quilombo é aquele espaço geográfico
onde o homem tem a sensação do oceano.
gração territórios negros fragmentados pela
Raquel você precisa se sentir na Serra da diáspora. Reconhece-se nesses espaços descontí-
Barriga. Toda a energia cósmica entra no nuos e, por vezes, os correlaciona, se preenche
seu corpo. Eu fico grande numa serra. Eu
e se eleva num alargamento de horizontes, em
fico assim, Raquel, alta. Eu, assim fico alta,
parecendo os imbangala. Sabe como é? face de um sistema cujas forças o reduzem, o
Essa coisa de negro mesmo. Mas é de ne- encapsulam e o puxam para baixo: “Eu fico
gro porque é o homem ligado à terra. É o grande numa serra. (...) Eu, assim fico alta.”
homem que mais conhece a terra que nem
aqueles horizontes Dogon. É o homem pre-
to, cor da lama, cor da terra. Porque Gaga-
rin viu a terra azul, mas existe a terra preta.

69
7. Eu sou atlântica
Transmigração, mulher negra e auto-estima

Pareço Cabo-verdiana
pareço Antilhana
pareço Martiniquenha
pareço Jamaicana
pareço Brasileira
pareço Capixaba
pareço Baiana
pareço Cubana
pareço Americana
pareço Senegalesa
em toda parte
pareço
com o mundo inteiro
de meu povo
pareço
sempre o fundo de tudo
a conga, o tambor
é o que nos leva adelante
pareço todos
porque pareço semelhante

Constatação – Elisa Lucinda

71
Nos textos para Ori e em outros escri- Quantos caminhos percorro
A quantos choros recorro
tos, e com fragmentos que Beatriz trabalha,
Ao fim de cada cansaço
mas que não são vistos como pedaços de uma
peça cerâmica ancestral que se estilhaçou no O que é aquela cama
Que daqui observo?
tempo e no espaço e não pode mais ser recon-
Vazia e desfeita
stituída. Não se trata de raízes imóveis. É de como o acontecido?
reconstrução que ela fala, feita com a delica-
Quantas perguntas me faço
deza de quem é artífice da palavra/imagem e Se certo ou errado, ou pura desatenção?
desenvolve inúmeras buscas até ter o discerni- Se procedente ou contrário
mento da linha móvel entre quem copia, quem Sem chegar à decisão
De abandonar de uma vez
restaura e quem cria. Sonho há muito acumulado
Para a mobilidade, em geral forçada, da
população negra, de África para a América e O que é aquela cama no escuro?
Manchada de tantas culpas
dentro do Brasil, entre o rural e o urbano, entre Que caminham como víboras
o Nordeste e o Sudeste, Beatriz cunhou o termo E sugam aos poucos meu corpo?
transmigração. Mais uma vez ela conecta suas Quem saltará sobre ela
Para ir em meu socorro?
experiências pessoas com aquelas da coletivi-
dade étnico-racial à qual se sente pertencente: Quantos caminhos vivi
Em quantas veredas sofri
Ó paz infinita, poder fazer elos de liga- A ânsia de ser feliz?
ção numa história fragmentada. África Como me encontro agora
e América e novamente Europa e África. Errantes como sempre foram
Angola. Jagas. E os povos do Benin de As sendas que escolhi.
onde veio minha mãe.
Eu sou atlântica. (1989)
A construção do eu, da identidade como
O relativamente recente livro de Paul Gil- mulher negra, a experiência pessoal do racismo
roy, Atlântico Negro, tornou-se uma referência e do sexismo, a auto-estima, podem ser abor-
certeira para quem aborda as culturas negras em dadas como um processo do que contempora-
diáspora. Beatriz Nascimento pode ser identifi- neamente denominamos de empoderamento.
cada como uma figura do Atlântico Negro, ten- Para finalizar esse encontro com parte da obra
do em vista que o horizonte de seu pensamento de Beatriz Nascimento, trago suas reflexões a
para Europa, América e África, sendo igual- respeito de ser humano, em especial acerca da
mente uma viajante desse triângulo geocultural. mulher negra e de mito.
Em outro de seus poemas, ela discorre acerca da
importância da viagem, das suas Rotas:

73
Mulher negra Zezé Motta, a protagonista de Xica da Silva,
quando indagada acerca de críticas a essa obra
No conjunto levantado de seus textos es- enquanto reprodutora de preconceito, relativiza
critos (sobretudo os publicados) e falados (tran- esse aspecto, indicando as contradições presen-
scritos e disponibilizados) Beatriz também se tes no mito em foco e relativizando o tratamento
dedicou ao tema da mulher negra. Em alguns dado à personagem (Almada, 1995: 208). Zezé
artigos podemos captar sua opinião a esse res- é cantora, atriz e ativista negra e seus posicio-
peito, a exemplo de Mulher negra e mercado de namentos merecem atenção redobrada por sua
trabalho, editado neste livro que corrobora uma importância nesse campo. Suas interpretações
situação histórica de subalternidade nesse país. nos discos e nas telas estão a merecer análises
É na análise do filme Xica da Silva, di- especiais no que concerne às relações raciais e
rigido por Carlos (Cacá) Diegues e lançado em de gênero. O que nos interessa aqui é que essa
1976, que Beatriz desfia seu posicionamento versão da crítica ao filme chegou até ela, como
acerca de como uma obra de arte pode ser efi- também foi veiculada em outros textos.
caz na reprodução de estereótipos racialistas e José Carlos Rodrigues em O negro
sexistas: brasileiro e o cinema, um livro que se propõe
a abordar estereótipos raciais, ao comentar
A Xica da Silva diegueana é um ser anor-
mal, não é nem a louca da literatura. É uma o mesmo filme, reconhece o tratamento de-
oligofrênica, destituída de pensamento, in- sumanizador dado à personagem central:
capaz de reivindicar ao nível pessoal - não
me refiro ao nível político em função de “No filme, que foge ao realismo e da recons-
sua raça - mas ao nível de sua reivindicação tituição histórica meramente verista, Xica
individual, como uma mulher que poderia é um mero objeto sexual. Lembremos que,
ter nas mãos os bens que o dinheiro do seu em sua primeira aparição, ela está debu-
explorador lhe proporciona. lhando milho para as galinhas ao som de
um belo samba de Jorge Benjor, cujo refrão
(...) Xica da Silva vem reforçar o estereótipo diz ‘Xica dá, Xica dá, Xica dá, Xica da Sil-
va’, e é chamada pelo filho do Sinhô como
do negro passivo, dócil e incapaz intelectual- se faz com os galináceos”. (2001: 224).
mente, dependente do branco para pensar. Seu
comportamento com o contratador é o de uma Na segunda edição da mencionada obra, o
criança piegas que não atina com o que quer. A Autor traz à tona os questionamentos anterior-
Xica da Silva da História é uma mulher prepo- mente referidos, contemporizando-os, sem, no
tente e dinâmica, atenta ao seu redor, o que está entanto, nomear quem estava envolvido:
de acordo com a situação da mulher em deter- “a escravidão nesse filme está longe dos
minadas estruturas africanas e que em parte foi horrores das senzalas, preferindo a car-
transferido para o Brasil. (1976: 20). navalização dos cenários, figurinos e até

74
da interpretação dos atores. Não é incor- mais erótica ou mais ardente sexualmente
reta a visão da economia e das classes que as demais, crenças relacionadas às
sociais, apenas o cineasta as estilizou, no características do seu físico, muitas vezes
intuito quase sempre bem-sucedido de es- exuberantes. Entretanto quando se trata
tabelecer metáforas com a época contem- de um relacionamento institucional, a dis-
porânea. Quando da sua estréia, o filme criminação étnica funciona como um im-
foi muito atacado por intelectuais negros pedimento, mais reforçado à medida que
radicais, que o julgaram conformista e an- essa mulher alça uma posição de destaque
tifeminista, mas acredito que esse poten- social. (1990).
cial polêmico está entre as suas melhores
qualidades”. (Idem). Beatriz, como era de seu feitio, mais uma
vez desfia o “emaranhado de sutilezas” do racis-
Encerrando esse comentário, é notório que
mo em sua combinação com o sexismo e sugere
a crítica de Beatriz está referida ainda que não
um outro significado para o amor em que as
nomeada devidamente, entre “intelectuais ne-
relações raciais e sociais estão presentes:
gros radicais”. Em plena ditadura militar ela
emitiu sua voz contra os estereótipos de raça e No contexto em que se encontra cabe a
essa mulher a desmistificação do conceito
de gênero e, nesse sentido, suas idéias continu-
de amor, transformando este em dinami-
am a reverberar na contemporaneidade face à zador cultural e social (envolvimento na
sua argúcia pessoal e à continuidade perversa atividade política, por exemplo), buscan-
da inferiorização social da mulher negra na so- do mais a paridade entre os sexos do que a
“igualdade iluminista”. Rejeitando a fan-
ciedade brasileira. Anos mais tarde a reencontra- tasia da submissão amorosa, pode surgir
mos tratando do tema, em outra perspectiva. uma mulher preta participante, que não
Escrevendo acerca dos significados do reproduza o comportamento masculino
autoritário, já que se encontra no oposto
amor para a mulher negra, Beatriz indica os
deste, podendo assim, assumir uma pos-
limites das escolhas afetivas numa sociedade tura crítica intermediando sua própria
embranquecida que estereotipa e inferioriza as história e seus ethos. Levantaria ela a pro-
mulheres negras: posta de parcerias nas relações sexuais
que, por fim, se distribuiria nas relações
Convivendo em uma sociedade pluri- sociais mais amplas. (1990: 3).
racial, que privilegia padrões estéticos
femininos como ideal de um maior grau Dizer que estas palavras se mostram atuais
de embranquecimento (desde a mulher é pouco. Aos ouvidos de mulheres e homens,
mestiça até à branca), seu trânsito afe-
em especial os(as) afrodescendentes, ecoam no
tivo é extremamente limitado. Há poucas
chances para ela numa sociedade em que mínimo como uma ousadia e um “radicalismo”
a atração sexual está impregnada de mode- apontar que nossos vínculos afetivos são per-
los raciais, sendo ela representante da et- meados pelo nosso horizonte racial. Não per-
nia mais submetida. Sua escolha por parte
do homem passa pela crença de que seja cebemos ou fingimos acreditar que as divin-

75
dades do amor não vêem cor ou raça. “O amor se tornam professoras, artistas, pesquisadoras,
é cego”, não é o que aprendemos? políticas, ativistas, intelectuais. Acrescento que
Muitas pessoas então se surpreendem considero o feminismo negro a pedra angular
quando algumas mulheres, sobretudo negras, dos movimentos negro e feminista.
declaradamente ou não feministas, afirmam
justamente o contrário. Mais uma vez, o mito
da democracia racial sofre um revés num ter- Mitos em suspensão
reno em que parece triunfar, sempre soberano,
calcado em quase um século de interpretações Como Xica da Silva, Beatriz tratou de ou-
que nos levam a imaginar relações consensuais tras personagens que figuram entre o mito e a
entre homens negros e mulheres brancas e en- história. Zumbi dos Palmares merece destaque
tre mulheres negras e homens brancos. Para nessa temática. Nos textos narrados em Ori, ele
além da rima fácil, Beatriz nos indica que no aparece em suspensão quando ela se refere à
amor importa a cor. “guerra étnica”:
Beatriz Nascimento foi reconhecida em É preciso haver um mito, é preciso haver
vida, através da publicação de seus escritos, dos um herói, é preciso haver essa libertação
convites para palestras, das premiações de Ori e da morte. Essa libertação da morte. Você
tem que saber as falhas do mito. Que [é]
também pela outorga do título Mulher do Ano, só assim que você cresce, quando você
em 1986, pelo Conselho Nacional da Mulher destrói os seus mitos. Quando você desco-
Brasileira. Muitos(as) dentre os(as) que a conhe- bre que eles são iguais a você. (1989).
ceram provavelmente não a vejam como escri-
É Zumbi que recebe a palavra poética, como
tora negra feminista, mas talvez seja esse um
âncora mítica em deslocamento ou em suspensão:
reconhecimento que lhe falte. Cabe informar
que ela pretendia continuar a pesquisa acerca Para ti comandante das armas de Pal-
mares. Filho, irmão, pai de uma nação. O
de quilombos com o foco nas mulheres quilom- que nos destes? Uma lenda? Uma história?
bolas como nos indica um esboço de projeto Ou um destino? Ó rei de Angola Jaga, úl-
guardado em seu acervo no arquivo nacional. timo guerreiro palmar. Eu te vi Zumbi.
Nos passos e nas migrações diversas dos
Devo dizer que, a possibilidade de conviver
teus descendentes. Te vi adolescente sem
com mulheres negras intelectuais ativistas, de cabeça e sem rosto nos livros de história Te
ler seus textos, de ouvir suas vozes, além de me vejo mulher em busca do meu eu. Te verei
desconstruir e me reconstruir enquanto pessoa, vagando, ó estrela negra. Ó luz que ainda
não rompeu. Eu te tenho no meu coração.
enquanto homem, enquanto portador do mas- Na minha palma de mão. Verde como pal-
culino e do feminino, me tem feito um observa- mar. Eu te espero na minha esperança. Do
dor atento da trajetória de mulheres negras que tempo que há de vir. (1989).

76
Mais adiante, num poema publicado, é Metáforas do herói, do viajante, do
provavelmente ele (ela? Nós?), a potência Z, movimento e do povo negro, tais versos
que reaparece transfigurado: (com)portam sentidos diversos, para além
dos(as) receptores(as) que defendem a existên-
À potência Z
cia de um discurso militante único. Estou con-
Sendas abertas à força pesada vencido de que o pensamento de Beatriz é den-
Movimento oscilante do conhecido so, variado, coerente, por vezes contraditório,
Irresoluto e precipitante
mas altamente adequado aos temas que ela en-
Como fundo falso.
frentou em diversas arenas.
No espelho véus justapostos
Ocultam o olhar como teias metálicas
Tornando o ser difuso.
Separando definitivamente o exterior do
interior
Sinuosidades da alma e auto-estima
Entrechocam-se e percutem fantasias
antigas Abre as asas sobre mim
Que não se miram como a um só Ó, senhora Liberdade
pertencente.
E eis que surge na arena Eu fui condenado
Dançarino flamejante de intenções Sem merecimento
Descabido como algo que desceu em
Por um sentimento
terreno ocupado
Misterioso como dádiva encantada
Por uma paixão
De longínquas paragens.
Violenta emoção, foi
Propiciador que ignorava capítulos de Amar foi meu delito
sua doutrina Mas foi um sonho tão bonito
Arrebatado qual luz da primeira hora.
Entre trevas e lusco-fusco Hoje estou no fim
Ninguém saberia dizer sua “Eternia”.
Senhora Liberdade
De que matéria se constituía
A que missão se destinava. Abre as asas sobre mim

Nas cores que esbanjava Não vou passar por inocente


A perplexidade das combinações Mas já sofri terrivelmente
Sufocava os gritos de dor
Inibia os brados de alegria. Por caridade
Chamejando como picantes chicotes Ó, liberdade
A volúpia luminosa impedia os sons.
Quem era aquele viajante de tantos
Abre as asas sobre mim
confins?
Confinado em seus próprios gazes?
Senhora Liberdade – Nei Lopes
(1989: 8).

77
Beatriz passou por um longo período de Hamilton Cardoso. Por outro lado, deixando
transtornos psíquicos que, em parte, afetaram esse terreno movediço, penso que sobre os om-
a continuidade e o aprofundamento de suas bros de Beatriz não deve pesar nenhuma culpa
atividades. Este é um aspecto acerca do qual pela interrupção de sua vida provocada por um
pouco me arvoro a escrever por inapetência homem branco desumano e desumanizador.
pessoal e por ter de enveredar por outro pro- As oportunidades que surgiram para Bea-
cesso metodológico como a história de vida. triz ou que ela conquistou em vida a distinguem
No entanto, na literatura sobre relações raci- da população negra em geral e em especial da
ais e de gênero é notório que o enfretamento maioria das mulheres negras. Com isso não
diário dos micro-mecanismos do racismo e do quero dizer que ela se reduz a uma exceção e
sexismo atingem sobremaneira a saúde men- que deva ser tratada como exótica. Imodesta
tal das mulheres negras. aos 35 anos, ela afirma numa entrevista seu em-
Numa sociedade como a brasileira, são poderamento:
educadas a serem maternais com crianças que
Eu que sou uma negra intelectual também
não são “suas”, às vezes a despeito dos seus pró- perdi as minhas origens (...). Eu como mu-
prios filhos, além da exigência de serem “mães” lher negra tenho o poder para afirmar que
de homens adultos, inclusive homens negros. a pele branca não representa nada para
mim. Porque como todos negros eu tenho
Devem parecer fortes e não demonstrar senti-
minha beleza, minha força e meu saber.
mentos, e suportar por toda uma vida lugares Mas eu também dou minha vida pelo
subalternos de expressão, de trabalho e de exis- branco, me dou, dou a minha cultura, o
tência sem ousar questioná-los sob o preço de meu saber. Eu sou suficientemente forte
para querer o branco comigo enquanto ele
ver recair sobre si mesma cargas a mais de es- não estiver contra mim. (Barcelos, 1977).
tereótipos ou “imagens de controle”.
Além disso, os patamares por onde Beatriz Qualquer ser humano vive entre definições
se movia – do discurso público, falado ou escri- e incertezas. Com ela, não foi diferente. Havia
to, originário de uma pesquisa (busca) que não sempre espaço para a dúvida. Em 1990, aos 58
defendia nenhuma neutralidade asséptica, for- anos, Beatriz escreve em seu caderno de poe-
çam de maneira específica os limites da mente sia os versos dessa consciência do ângulo de
de intelectuais ativistas, cônscios das fronteiras visada, um misto de testemunho e quase testa-
em que esbarram. Não é a toa que alguns de sua mento intitulado Espera:
geração se foram em delicadas circunstâncias Aquilo mesmo que busco
de suicídio, a exemplo, neste caso de dois ho- Como saída, me interrompe
Num tempo de esquecimento
mens negros de relativo sucesso em seus cam-
Em suspenso
pos de atuação: Eduardo Oliveira e Oliveira e Suspense. Ânsia edificada no ar

78
Não tenho a oferecer ao outro louça, não é de éter, não é loucura, não é cenário
A não ser uma vida concluída.
a casa da atriz. Junto aos compositores, pensan-
A terminar. Um exílio forçado,
Não-voluntário. do em Beatriz Nascimento, reafirmo: Sim, me
Um susto, muitos riscos leva para sempre Beatriz, me ensina a não andar
Uma eterna ascensão
com os pés no chão. Para sempre é sempre por
Um lugar não tombado
enhum traço de união um triz.
Só uma obra de arte Pode um indivíduo ser polifônico? Pode
O espaço que ocupo
Completo, não despojado
emitir sua voz sem estar preso à sua própria
Dos meus receios e temores repetição como o mito grego da ninfa Eco? Pen-
Dos meus ódios e amores sando em Beatriz Nascimento, o termo multi-
Do olhar dessemelhante
De qualquer ângulo em que estás.
mídia lhe representa adequadamente?
Historiadora, pesquisadora, pensadora,
Essa escrita na primeira pessoa do singu- escritora, poeta, narradora...
lar foi uma escolha de Beatriz Nascimento e Imagino Beatriz serena, irada, cansada,
que acompanhei nesse diálogo com seus textos. alegre, pensativa, disposta... A grandeza da
Textos que remetem a contextos, num trocadil- alma de uma pessoa, em contraposição à vida
ho adequado. Uma vida é vivida em fragmen- breve desses indivíduos significativos que se
tos e o indivíduo que escreve sobre outro faz constituíram como “individualidades fortes”,
escolhas às quais atribui sentido. O dilema en- nos leva a equações de aparente incongruên-
tre a escolha do foco e amplitude do sujeito em cia. Que Beatriz Nascimento seja referência
foco, jamais é facial. Aproximar-se de alguém “intelectual ativista insurgente”, mas também
que estará inexoravelmente distante no mundo passível de crítica. Que seja uma imagem de
sensível é um esforço de reconhecimento e ao mulher negra, quase ícone, uma estrela negra e
mesmo tempo de afastamento. que possa estar próxima. Que Beatriz seja o que
Por aqui, vou interrompendo o fluxo de pa- foi em sua existência humana: demasiado hu-
lavras desse texto que se justapõe a outros e que mana. Que sua noite “não adormeça em nossos
se constitui, ao mesmo tempo, como pesquisa/ olhos”, a exemplo do que nos solicita o poema
escrita, crítica e sensível. Num impulso poético de Conceição Evaristo, a ela dedicado.
queria parafrasear e responder à canção Bea- Por fim, fiquemos com suas palavras, por
triz composta por Chico Buarque e Edu Lobo, vezes incandescentes ou ternas, mas nunca
desdizendo uma parte da letra: Não é pintura mornas. Com sua escrita negra, aberta a outras
o rosto da atriz, não é divina a vida da atriz, ela cores, mas jamais embranquecida, porque desa-
não dança no sétimo céu, ela não acredita que é pareceria entre as páginas impressas que ainda
outro país e ela não decora seu papel. Não é de são majoritariamente brancas. A Beatriz o que a

79
ela pertencia e havia de ser dela e que atraves-
sou meu/nosso corpo/trajeto. O seu texto, a
sua voz e seu silêncio que seguem por outras
veredas, noutras viagens acompanhadas das
mencionadas trilhas sonoras do Atlântico Ne-
gro, profundas e extensas como numa conjuga-
ção imagética, numa paisagem humanizada e
musical, entre Sol e Blues:

Terra azul
Céu escuro
Fantasmas passam nas ruas
Como eu fantasma nua
A caminhar

A quem procuro?
Em que corpo quero estar
Em que cama repousa espírito tão
inquieto?

Nas rotas de sol em ritmo blues


Em remansos passados
Em fechados futuros
Em furioso silêncio

Em furioso silêncio.

80
8. Fontes

81
1. Bibliográficas ___________ (1981) Estudos Antropológicos
das Populações Negras na Universidade de São
ALMADA, Sandra. (1995). Damas negras: Paulo. Revista de Antropologia 24, pp. 63-74.
sucesso, lutas, discriminação – Chica Xavier, Lea BOURDIEU, Pierre (1995) A Ilusão Biográ-
Garcia, Ruth de Souza e Zezé Motta. Rio de Ja- fica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes e AMA-
neiro:Mauad. pp.239 DO, Janaína (Orgs.) Usos & Abusos da História
ANDREWS, George Reid (1998) Negros Oral. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio
e Brancos em São Paulo (1888-1998). Bauru, Vargas, pp. 183-191.
EDUSC, 444p. CARONE, Iray (2003) A flama surda de um
BAIRROS, Luiza (2000) Lembrando Lélia olhar In: CARONE, Iray & BENTO, Aparecida
Gonzalez. In: WERNECK, Jurema; MENDON- Silva (Orgs.) Psicologia social do racismo. Estudos
ÇA, Maisa & WHITE, Evelyn C. (Org.) O livro da sobre a branquitude no Brasil. 2ª. Ed. Petrópolis,
saúde das mulheres negras: nossos passos vêm Vozes, p. 181-188.
de longe. Rio de Janeiro, Pallas/Criola, p. 42-61. CARDOSO, Hamilton Bernardes (1984)
BAIRROS, Luiza (1995) Nossos feminismos “Movimentos negros: é preciso” ou aspectos
revisitados. Revista de Estudos feministas Ano 3, econômicos da opressão racial. Rio de Janeiro,
N. 2, pp. 458-463. IPEAFRO. Afrodiáspora 3:43-57.
BARBOSA, Lucia Maria de A., GONÇALVES CARNEIRO, Sueli. (2004) A mulher negra
E SILVA, Petronilha B. & SILVÉRIO, Valter R. na sociedade brasileira – o papel do movimento
(Orgs.). De preto a afrodescendente: trajetos de feminista na luta anti-racista In: MUNANGA,
pesquisa sobre relações étnico-raciais no Brasil. Kabengele (Org.) História do negro no Brasil .
São Carlos: EdUFSCar, 346p.. Vol. 1. O negro na sociedade brasileira: resistên-
BORGES PEREIRA, João Baptista. (1999) As cia, participação, contribuição. Brasília, Funda-
Relações entre a Academia e a Militância Negra ção Cultural Palmares/MinC, pp. 286-336.
In: BACELAR, Jeferson e CAROSO, Carlos (Orgs.) ___________ (2003). Mulheres em movi-
Brasil: um país de negros? Rio de Janeiro, Pallas / mento. Estudos Avançados. Setembro/ Dezem-
Salvador, CEAO, pp. 253-257. bro, vol.17, Nº. 49, p.117-133.
___________ (1983a) Prefácio. In: QUEIROZ, CHRISTIAN, Barbara (1999) A disputa de
Renato. Caipiras Negros no vale do Ribeira: um teorias. Estudos Feministas. V. 7 (1-2)
estudo de GONZALEZ, antropologia econômica. DAMATTA, Roberto (1978) O ofício de et-
São Paulo, FFLCH-USP, pp. 11-13. nólogo, ou como ter “anthropological blues”. In:
___________ (1983b) Prefácio. In: BAIOC- NUNES, Edson de Oliveira (Org.) A Aventura So-
CHI, Mari de Nasaré. Negros de Cedro: um es- ciológica: objetividade, paixão, improviso e mé-
tudo antropológico deum bairro rural de Goiás. todo na pesquisa social. Rio de Janeiro, Zahar
São Paulo, Ática, pp. XIII-XV. Editores, pp. 23-35.

83
EVARISTO, Conceição. A noite não ador- GRUPO DE TRABALHO ANDRÉ RE-
mece nos olhos das mulheres. In: WERNECK, BOUÇAS (1983) Em busca de um espaço. Estu-
Jurema; MENDONÇA, Maisa & WHITE, Evelyn dos Afro-Asiáticos 8-9, p. 64-66.
C. (Orgs.) O livro da saúde das mulheres negras: ___________ (1977) II Caderno de estudos
nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro, Pal- sobre a contribuição do negro na formação so-
las/Criola, p. 20-21. [Publicado originalmente em cial brasileira. Rio de Janeiro, Instituto de Ciên-
Cadernos Negros Nº 19, 1996.] cias Humanas e Filosofia/Universidade Federal
FANON, Franz (1983) Peles negras, máscar- Fluminense, 50p.
as brancas. Rio de Janeiro, Livraria Fator, [1952] ___________ (1976) Caderno de estudos so-
FOUCAULT, Michel (1999) A ordem do dis- bre a contribuição do negro na formação social
curso. São Paulo, Edições Loyola [1970]. brasileira. Rio de Janeiro, Instituto de Ciências
___________ (1980). Os intelectuais e o po- Humanas e Filosofia/Universidade Federal Flu-
der. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Po- minense, 30p.
der. Rio de Janeiro, Graal [7ª ed.], pp. 69-78. GUIMARÃES, Cristina de Fátima (2001)
FREUDENTHAL, Aida (1997) Os quilombos Processo histórico da organização das mulheres
no século XIX: a recusa da escravidão. Rio de Ja- negras brasileiras (mimeo)
neiro, Estudos Afro-Asiáticos No. 32, p. 109-134. GUSMÃO, Neusa M. M. de. (1996) Terras de
GERBER, Raquel (1982) O Mito da Civiliza- Preto, Terras de Mulheres: terra, mulher e raça
ção Atlântica: Glauber Rocha, cinema, política e num bairro rural negro. Brasília, Fundação Cul-
estética do inconsciente. Petrópolis, Vozes. tural Palmares.
GILROY, Paul. O Atlântico Negro: moderni- HALL, Stuart (2003) Na diáspora: identi-
dade e dupla consciência. São Paulo, Ed. 34/Rio dades e mediações culturais. Belo Horizonte, Ed.
de Janeiro, Universidade Cândido Mendes – Cen- Da UFMG/Brasília, UNESCO.
tro de Estudos Afro-Asiátios, 2001. HOOKS, Bell & WEST, Cornell (1991) Brea-
GONZALEZ, Léliz. (1988) Nanny. Brasília, king bread: insurgent black intellectual life. To-
UnB, Humanidades IV, pp. 23-25. ronto, Between The Lines.
___________ (1984) Racismo e sexismo na cul- HOOKS, Bell (2000). Vivendo de amor. WER-
tura brasileira. São Paulo, ANPOCS, pp. 223-244. NECK, Jurema; MENDONÇA, Maisa & WHITE,
___________ (1982) A mulher negra na so- Evelyn C. (2000) O livro da saúde das mulheres
ciedade brasileira. In: LUZ, Madel T. (Org). O negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Ja-
lugar da mulher: estudos sobre a condição femi- neiro, Pallas/Criola, p. 111-115.
nina. Rio de Janeiro, Edições Graal. ___________ (1995) Intelectuais Negras. In:
GRAMSCI, Antonio (1989) Os intelectuais e Estudos Feministas Nº 2, pp. 464-478.
a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civiliza- HULL, Gloria; SCOTT, Patricia B. & SMITH,
ção Brasileira [7ª ed.] Barbara (Eds.) (1982) All The Women Are White,

84
All The Black Are Men, But Some of Us Are ta de Antropologia 23, pp. 109-117.
Brave: Black Women’s Studies Old Westbury/ __________ (1988) Construção da Iden-
New York, The Feminist Press. tidade Negra: diversidade de contextos e pro-
ILÊ AIYÊ (1985) Pérolas negras do saber. blemas ideológicos. In: GOMES, Josildete e COS-
Cadernos de Educação Vol. V. Salvador: associa- TA, Márcia Regina da (Orgs.) Religião, Política e
ção Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, 52p. Identidade. São Paulo, EDUC, pp. 143-146.
INOCÊNCIO, Nelson (2001a) Representa- NASCIMENTO, Abdias (1980) Quilom-
ção visual do corpo afro-descendente. In: bismo: documentos da militância pan-africanis-
__________ (2001b) Consciência negra em ta. Petrópolis, Vozes.
cartaz. Brasília: Editora da UnB, 136p. __________ (1978) O genocídio do Negro
__________ (2001c) Relações raciais e impli- Brasileiro: processo de um racismo mascarado.
cações estéticas. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
INVENTÁRIO Analítico da Coleção Eduardo NASCIMENTO, Elisa Larkin. O Pan-africa-
de Oliveira e Oliveira. Universidade Federal de nismo na América do Sul: emergência de uma
São Carlos, Arquivo de História Contemporânea. rebelião negra. Petrópolis, Vozes, 1981.
São Carlos, 1984. NASCIMENTO, Maria Beatriz (1997) O
LOPES, Helena Theodoro (1996) Mito e es- movimento de Antônio Conselheiro e o aboli-
piritualidade: mulheres negras. Rio de Janeiro, cionismo. Rio de Janeiro, Revista do Patrimônio
Pallas, 216p. Histórico e Artístico Nacional Nº 25, pp. 261-
LOPES, Helena Theodoro; SIQUEIRA, José 267.
Jorge & NASCIMENTO, Maria Beatriz (1987) Ne- __________ (1989) Textos e narração de Ori.
gro e cultura no Brasil: pequena enciclopédia da Transcrição (mimeo).
cultura brasileira. Rio de Janeiro, UNIBRADE/ __________ (1985) O conceito de quilombo
UNESCO, 140p. e a resistência cultural negra. Afrodiáspora Nos.
LOPES, Nei (2003) Novo dicionário banto 6-7, pp. 41-49.
do Brasil. Rio de Janeiro, Pallas, 260p. __________ (1982a) Kilombo e memória co-
LUCINDA, Elisa. Euteamo e suas estréias. munitária – um estudo de caso. Rio de janeiro,
Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 2ª. Ed., 240p. Estudos Afro-Asiáticos 6-7, pp. 259-265.
MUNANGA, Kabengele (2000) 100 anos de __________ (1982b) Maria Beatriz Nasci-
bibliografia sobre o negro no Brasil. Vol. 1. Bra- mento – Pesquisadora, 29 anos. In: COSTA, Har-
sília, Fundação Cultural Palmares. oldo. Fala, Crioulo. Rio de Janeiro, Record, p. 194-
__________ (1996) Origem e histórico do 198.
Quilombo na África. Revista USP No. 28, p. 56-63. __________(1981) Sistemas sociais alternati-
__________ (1990) Negritude Afro-Brasilei- vos organizados pelos negros: dos quilombos às
ra: perspectivas e dificuldades. São Paulo, Revis- favelas. Relatório narrativo final (mimeo).

85
__________ (1979) O Quilombo do Jabaquara. SANT’ANNA, Wânia (2002) Chega de saudade,
Revista de Cultura Vozes 3, pp. 176-178. a realidade é que... Estudos Feministas. Janeiro,
__________ (1977) Nossa democracia racial. vol. 10, Nº 1, p.199-207.
Revista IstoÉ. 23/11/1977, pp. 48-49. PERROT, Michele. Mulheres Públicas. São
__________ (1976b) Culturalismo e contra- Paulo, Editora da UNESP, 1998.
cultura. In: Cadernos de Formação sobre a Con- RATTS, (Alex) J. P. A voz que vem do in-
tribuição do Negro na Formação Social Brasileira. terior: intelectualidade negra e quilombo. In:
Niterói, ICHF-UFF, pp. 02-06. BARBOSA, Lucia Maria de Assunção; SILVA,
__________ (1974b) Negro e racismo. Revista Petronilha Beatriz Gonçalves E; SILVÉRIO, Valter
de Cultura Vozes. 68 (7), pp. 65-68. Roberto. (Org.). De preto a afro-descendente: tra-
__________ (1974a) Por uma história do jetórias de pesquisas sobre relações etnico-raciais
homem negro. Revista de Cultura Vozes. 68(1), no Brasil. São Carlos, 2003, v. 1, p. 89-108.
pp. 41-45. __________ (2001) O mundo é grande e a
OLIVEIRA, Eduardo Oliveira e (2001) Uma nação também. Tese de doutorado. São Paulo,
quinzena do negro. In: ARAÚJO, Emanoel (Cu- FFLCH-USP (mimeo)
radoria) Para nunca esquecer: negras memórias, __________ (2000a) (Re)conhecer quilom-
memórias de negros. Brasília, Ministério da Cul- bos no território brasileiro In: FONSECA, Ma-
tura/Fundação Cultural Palmares, 2001, p. 287. ria Nazareth Soares (Org.) Brasil Afro-Brasileiro.
__________ (1977) Etnia e compromisso Belo Horizonte, Autêntica.
intelectual. In: GTAR, Caderno de estudos So- REGINA, Célia (2001) Uma mulher negra.
bre a contribuição do negro na formação social www.afirma.inf.br
brasileira. Rio de Janeiro, Instituto de Ciências REIS, João José e GOMES, Flavio dos Santos
Humanas e Filosofia/Universidade Federal Flu- (1996) Introdução: uma história da liberdade.
minense, p. 22-28. In: REIS, João José e GOMES, Flávio dos San-
__________ (1976) Movimentos políticos tos (Orgs.) Liberdade por um Fio: história dos
negros no início do século XX no Brasil e nos quilombos no Brasil. São Paulo, Companhia das
Estados Unidos. In: GTAR, Caderno de estudos Letras, p. 9-25.
Sobre a contribuição do negro na formação social RODRIGUES, João Carlos (2001) O negro
brasileira. Rio de Janeiro, Instituto de Ciências brasileiro e o cinema. Rio de Janeiro, Pallas, 3a.
Humanas e Filosofia/Universidade Federal Flu- Ed. 224p.
minense, p. 06-09. SANTOS, Milton. As exclusões da globali-
__________ (1974) O mulato: um obstáculo zação: pobres e negros. 1999
epistemológico. Revista Argumento. Ano I, nº. 3, SCHWARCZ, Lilia (1999) Questão racial e
janeiro, p. 65-74. etnicidade. In: MICELI, Sergio (Org.) O que há
OLIVEIRA, Guacira Cesar de & para ler na ciência social brasileira (1970-1995).

86
São Paulo, Ed. Sumaré/ANPOCS; Brasília, Capes, cióloga Beatriz Nascimento. Jornal Movimento,
pp. 267-325. 16/05/1977.
SODRÉ, Muniz (1995) Sobre Beatriz. BARBOSA, Neusa. Na universidade, negros
(mimeo). Arquivo Nacional. Fundo Maria Beatriz não assumem a discriminação racial. folha de
Nascimento. Código: 2D. Caixa 22. Doc. 4. São Paulo, 06/11/1983.
SILVA, Carlos Benedito Rodrigues da (1984) Boletim do Centenário da Abolição e
“Black Soul”: aglutinação espontânea ou iden- República. No. 3, dez/1987; No. 5, ago/1988.
tidade étnica. Uma contribuição ao estudo das CAMPOS, Judas Tadeu de. O Quilom-
manifestações culturais no meio negro. São Pau- bo guarda tradições. O Estado de São Paulo.
lo, ANPOCS, pp. 245. 26/05/1985
SILVA, Vagner Gonçalves da (2000) O an- CARDOSO, Hamilton. Negros debatem sua
tropólogo e sua magia: trabalho de campo e texto situação em encontro no Rio. Folha de São Paulo.
etnográfico nas pesquisas antropológicas sobre 25/07/1983.
religiões afro-brasileiras. São Paulo, EDUSP. _____________ O quilombo de cada um. São
SILVA, Vagner Gonçalves da et all (Org.) Paulo, Folhetim. 22/11/81.
(1994) Antropologia e seus espelhos. São Paulo, _____________ A luta continua. Abdias Nas-
FFLCH-USP. cimento entrevistado por Hamilton Cardoso. São
VOGT, Carlos e FRY, Peter (1997) Os caça- Paulo, Folhetim. 22/11/81.
dores de tesouro: em busca de línguas africanas GONZALEZ, Léliz. Mulher negra, essa
no Brasil. Rio de Janeiro, Revista do Patrimônio quilombola. São Paulo, Folhetim. 22/11/81.
Histórico e Artístico Nacional 25, pp. 316-325. LEAL, Moisés Batista et all. Uma tentativa
WALKER, Alice (1988) Vivendo pela pala- de unificar o movimento negro: eles que são ne-
vra. São Paulo, Rocco. gros que se entendam. Pasquim. Ano XI. Nº 533.
WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maisa 20/09/1979.
& WHITE, Evelyn C. (2000) O livro da saúde das MARTINS, Marília. Preto no Branco: história
mulheres negras: nossos passos vêm de longe. da escravidão começa a ser reescrita. São Paulo,
Rio de Janeiro, Pallas/Criola, 260p. Isto É, 20/04/1988, p.39-45
WEST, Cornell. Questão de Raça. São Paulo, NASCIMENTO, Beatriz. (1990) A mulher
Companhia das Letras. negra e o amor. Jornal Maioria Falante. No. 17,
Fev – março, p. 3.
__________ (1989) Beatriz Nascimento – Ori.
2. Hemerográficas Jornal do MNU, Nº 17, set/out, p. 6.
__________ (1989) Urgência. Jornal do MNU,
BARCELOS. Caco. Quilombo: em Palmares, Nº 17, set/out, p. 12.
na favela, no carnaval: Um depoimento da so- __________ (1986) Daquilo que se chama

87
cultura. Jornal IDE. No. 12. Sociedade Brasileira 4. Internet
de Psicanálise – São Paulo. Dezembro, p. 8.
_____________ (1981) Volta à terra da http://www.afirma.inf.br
memória. Beatriz Nascimento entrevistada por http://www.names.hpg.ig.com.br/nomes_
Raquel Gerber. São Paulo, Folhetim. 22/11/81. b.htm Acessado em 28/06/04.
__________ (1976a) A mulher negra no mer-
cado de trabalho. Jornal Última Hora, Rio de Ja-
neiro, 25 de julho. 5. Poemas inéditos
__________ (1976b) O negro visto por ele
mesmo. Rio de Janeiro, Revista Manchete, setem- NASCIMENTO, Beatriz. Belatrix Arquivo
bro, p.130-131. Nacional. Fundo Maria Beatriz Nascimento. Có-
RIBEIRO, Jorge Ovídio. Negros de origem digo: 2D. Caixa 17. Doc. 1.
africana vivem no vale do Ribeira. Folha de São __________Sol e Blues:17/02/1990. Arquivo
Paulo, 13/04/1986. Nacional. Fundo Maria Beatriz Nascimento. Có-
SANTOS, Milton. O intelectual anônimo. digo 2D. Caixa 17.
2001 __________ Rotas 12/08/1987. Arquivo Na-
SÉRGIO, Armindo. Quilombos: uma estru- cional. Fundo Maria Beatriz Nascimento. Código
tura comunitária em harmonia com o meio. Jor- 2D. Caixa 17.
nal Raízes, julho de 1977). __________ Inusitado (1989). Arquivo Na-
SERRANO, Carlos. Quilombo, da África ao cional. Fundo Maria Beatriz Nascimento. Código
Brasil. São Paulo, Folhetim. 22/11/81. 2D. Caixa 17.
ZAGO, Antônio; CARDOSO, Hamilton B. __________ Espera (1990). Arquivo Nacio-
e GRZICH, Mirna. Quilombismo: todo o poder nal. Fundo Maria Beatriz Nascimento. Código
aos negros. Folhetim. 09/09/79. 2D. Caixa 17.

3. Filmografia 6. Outros

BULBUL, Zózimo (Direção e roteiro) (1988). Afrodiáspora Nº 1 – Ano 1 - jan/abr 1983.


Abolição. Rio de Janeiro. 150 min. Arquivo Nacional, (12/08/1987). Fundo Ma-
COUTINHO, Eduardo (Direção) (1991) Rio ria Beatriz Nascimento. Código 2D. Caixa 17.
de Janeiro. O Fio da Memória. 115 min. __________. Fundo Maria Beatriz Nascimen-
GERBER, Raquel (Dir.) (1989) Ori. São Paulo, to. Código 2D. Caixas 32-44.
Angra Filmes. 90 min. Isto É, (1988) Cem anos de Abolição: a liber-
dade passada a limpo. 20/04/1988
Folhetim. 22/11/1981.

88
Jornal Raízes, julho de 1977.
Pasquim. Eles que são pretos que se enten-
dam.. Ano XI. Nº 533. 20/09/1979. p.4-9.

89
Parte 2

É tempo de falarmos de nós mesmos


Por uma história do homem negro • Como abordar, por exemplo, a História do
Negro no Brasil? Somente de um enfoque et-
Beatriz Nascimento•• nográfico, religioso, sócio-econômico, ou seja,
fragmentariamente, como de um modo geral
vem sendo feita brilhantemente? E a História
Como um outro aspecto da deficiência de
vida histórica geral, a vida individual não do Homem Negro? Afinal somos homens, indi-
tem ainda história... víduos que devem ser estudados como tal.
O vivido individual da vida cotidiana sepa- Um dos trabalhos mais sérios sobre o ne-
rada permanece sem linguagem, sem con- gro no Brasil é o de Florestan Fernandes, A in-
ceito, sem acesso ao seu próprio passado.
Ele não se comunica. Está incompreendido
tegração do negro na sociedade de classes. É
e esquecido em proveito de falsa memória uma das fontes primordiais para o estudo do
espetacular do não memorável. negro no Brasil (São Paulo). Outros de igual
Guy Debord – A Sociedade do espetacular cunho abordam também o problema do negro
- Ed. Afrodite, Lisboa 1972. do ponto de vista da classe ou da mobilidade
social. Este tipo de abordagem, rico em dados,
Como retomar o verdadeiro tempo da
em números, leva a que alguns estudiosos, e
História aparentemente perdido a partir do me-
mesmos aqueles que buscam somente nestes
canicismo e da Revolução Industrial nos séculos
trabalhos um conhecimento maior da nossa
XVII e XVIII? Como viver a História do Homem
problemática, constatem somente o negro de
preterida em favor do cientificismo, de um tec-
uma perspectiva social.
nicismo, que permanece justamente por fazer
Este tipo de abordagem é a forma primor-
parte desta mesma História? Como fazer, como
dial dos estudos históricos atuais. Considero-
escrever a História sem se deixar escravizar pela
o para a História do Negro Brasileiro uma
abordagem da mesma, fragmentariamente?
fragmentação um tanto perigosa, porque pre-
É possível reduzir-se a História do Homem,
tende, na constatação de aspectos, não apenas
a História Total, a especializações? Reduzi-la a
sócio-econômicos como também raciais. Não
uma ciência puramente constatativa do que apar-
se pode incorrer na perpetuação de mistifica-
entemente vivemos? É possível limitar a História
ções, de estereótipos que remontam às origens
a um tempo historicamente reduzido, ou seja,
da vida histórica de um povo que foi arrancado
entendê-la somente como nos foi apresentada a
de seu habitat, escravizado e violentado na sua
partir do século XIX? Como mais uma ciência?
História Real.
Como seríamos nós, o indivíduo, o Homem
• Publicado originalmente em: Revista de Cultura Vozes. 68(1), Negro, se não tivesse havido no século XV a
pp. 41-45, 1974. Revolução Comercial do Ocidente? Sei que
•• No original publicado está registrado o nome Beatriz Nasci-
mento Gomes. faço uma pergunta que assustará os cientistas,

93
aqueles que vêem na História simplesmente As relações inter-raciais no Brasil são ame-
uma ciência, aqueles comprometidos com o nas, se considerarmos o comportamento apa-
pensamento dos séculos XIX e XX. A Ciência rente dessas relações entre todas as raças e po-
atualmente é considerada a “Mater Mundi”. vos que aqui vivem. Sabemos, no entanto, que
Não podemos ir de encontro aos seus dogmas. com o preto elas tomam um aspecto diferente.
Entretanto a História nasceu com o Homem, a Sentimos, nós pretos, que a tolerância conosco
Ciência só foi possível graças à História, graças camufla um profundo preconceito racial, que
ao Homem. Reflexões simplistas? aflora nas mínimas manifestações, inclusive
Retomando o problema da História do ne- naquelas que aparentam ter um cunho afetivo.
gro no Brasil: Que somos nós, pretos, humana- A todo o momento o preconceito racial é
mente? Podemos aceitar que nos estudem como demonstrado diante de nós, é sentido. Porém
seres primitivos? Como expressão artística da como se reveste de uma certa tolerância, nem
sociedade brasileira? Como classe social, con- sempre é possível percebermos até onde a in-
fundida com todos os outros componentes da tenção de nos humilhar existiu. De certa forma,
classe economicamente rebaixada, como que- algumas destas manifestações já foram inclu-
rem muitos? Pergunto em termos de estudo. sive incorporadas como parte nossa. Quando,
Podemos, ao ser estudados, ser confundidos entretanto, a agressão aflora, manifesta-se uma
com os nordestinos pobres? Com os brancos violência incontida por parte do branco, e, mes-
pobres? Com os índios? mo nestas ocasiões, “pensamos duas vezes”
Pode-se ainda confundir nossa vivência antes de reagir, pois, como expus acima, no
racial com a do povo judeu, porque ambos so- nosso “ego histórico” as mistificações agiram a
fremos discriminação? Historicamente, creio contento. De tal forma o preconceito racial con-
não haver nenhuma semelhança entre os dois tra o negro é violento e ao mesmo tempo sutil,
povos, mesmo se pensarmos em termos inter- que ele existe latente e muitas vezes vem à tona
nacionais. Em termo de Brasil, nem em fantasia nas relações entre nós mesmos. Temos, vamos
podemos pensar assim; o judeu no Brasil é um dizer, uma atitude de amor e ódio por nós mes-
branco, antes de tudo judeu, isto é, poderoso mos; a presença, o confronto com o outro nos
como povo, graças ao auxílio mútuo que his- incomoda também.
toricamente desenvolveram entre si. A democracia racial brasileira talvez exis-
Não será possível que tenhamos carac- ta, mas em relação ao negro inexiste.
terísticas próprias, não só em termos “cul- As manifestações preconceituosas são tão
turais”, sociais, mas em termo humanos? In- fortes que, por parte de nossa intelectualidade,
dividuais? Creio que sim. Eu sou preta, penso dos nossos literatos, dos nossos poetas, da cons-
e sinto assim. ciência nacional, vamos dizer, somos tratados

94
como se vivêssemos ainda sob o escravismo. A partia. Mais tarde, pude rejeitar totalmente
representação que se faz de nós em literatura, esta teoria, mas não me senti tranqüila, pois
por exemplo, é a de criado doméstico, ou, em constatava esta miscigenação cada vez mais
relação à mulher, a de concubina do período presente, mais solicitada por parte do preto.
colonial. O aspecto mais importante do desleixo A miscigenação aconteceria como acontece,
dos estudiosos é que nunca houve tentativas mas está fundamentada ideologicamente no
sérias de nos estudar como raça. embranquecimento, que na História do Brasil
O branco brasileiro de um modo geral, e o situa-se na era pombalina. Não foi tão espon-
intelectual em particular, recusam-se a abordar tânea como querem, porém existe.
as discussões sobre o negro do ponto de vista Entretanto, ultimamente tem havido por
da raça. Abominam a realidade racial por co- parte dos intelectuais e artistas, principalmente,
modismo, medo, ou mesmo racismo. Assim uma nova mistificação, baseada, em teoria con-
perpetuam teorias sem nenhuma ligação com trária, mas que demonstra um preconceito racial
nossa realidade racial. Mais grave ainda, criam talvez mais perigoso. Uma das piores agressões
novas teorias mistificadoras, distanciadas desta que sofri neste nível foi por parte de um intelec-
mesma realidade. tual branco. Disse-me ele que era mais preto do
Um dos fatos que mais marcaram meu que eu por ter escrito um trabalho sobre religião
período escolar e minha formação posterior foi afro-brasileira, enquanto que eu não usava ca-
quando um professor de Geografia, discorren- belo afro nem freqüentava candomblé.
do sobre a etnia brasileira baseando-se na teoria Foi uma das constatações mais difíceis de
do luso-tropicalismo de Gilberto Freire, disse: situar, uma das mais sutis sobre o preconceito
“O Rio de Janeiro era, no início do século, racial existente no Brasil. Sofremos agressões
uma sociedade impossível de se viver, só tinha sutilissímas, na rua, na escola, no trabalho, até
pretos”. Adiante, comparando a questão racial mesmo na família. Mas esta foi verdadeira-
dos Estados Unidos com a do Brasil: “No Brasil mente a mais violenta. Não sei a que corrente
não existe racismo, porque a miscigenação sem- pertence.
pre existiu e continuará existindo, não vamos ter Acredito que ela faça parte da mais nova
conflitos porque o negro tende a desaparecer”. mistificação em termos de preconceito contra
Foi um impacto muito forte, pois ao o negro. Os artistas, intelectuais e outros bran-
mesmo tempo em que sentia o afloramento cos, diante da crise do pensamento e da própria
do racismo de uma maneira tão dura, pensei cultura do Ocidente, voltam-se para nós como
que talvez fosse realmente a solução para nos se pudéssemos mais uma vez agüentar as suas
sentirmos iguais aos brancos. Entretanto tive frustrações históricas. É possível que agora, no
uma grande tristeza, que eu não sabia de onde terreno das idéias e das artes, continuemos a ser

95
“os pés e as mãos” desta Sociedade Ocidental? que foi uma forma de carinho chamar-me, por
Acham eles que por freqüentarem candomblé, exemplo, de crioula, com uma acentuação bas-
fazerem músicas que falam de nossa alegria, sa- tante depreciativa e agressiva, ou exigir que
bedoria e outros estereótipos, podem também, chame a dona da casa quando atendo à porta
subtrair a nossa identidade racial. Se um jovem do meu apartamento. E outras vezes a violên-
loiro, burguês, intelectual brilhantíssimo, após cia se manifesta em toda sua plenitude, com
alguns anos de estudo de uma das nossas mani- ameaça, inclusive de agressão física. Na escola
festações culturais chegar à conclusão que é ou no trabalho esperam sempre que você seja o
mais preto que eu, o que é que eu sou? incapaz ou o gênio. Quanto ao primeiro, a frase
Nas ruas as pessoas me agridem das que surge é – “mas ele é preto”; quanto ao úl-
mais diversas formas. No meu interior há re- timo – “ele é preto, mas...” Quer dizer, conhece
calcamento das aspirações mais simples. Em e deve permanecer no seu lugar, no seu papel,
contato com as outras pessoas tenho que dar na representação.
praticamente todo o meu “curriculum vitae” Nessas ocasiões, você nem sempre revida
para ser um pouquinho respeitada. Há oitenta a agressão. De fato, é impossível estar 24 horas
anos atrás minha raça viva nas condições mais preparado para revidar conscientemente to-
degradantes. Penso às vezes que talvez eu es- das essas formas de preconceito, muitas vezes,
tivesse em meu continente de origem se não partindo do próprio negro.
tivesse havido uma revolução econômica dos Há entre nós uma atitude de defesa di-
brancos, com a qual não tive nada a ver até ante do outro negro, que toma, vez por outra,
hoje, pois a maioria dos meus iguais permanece forma de agressão. É onde nossos recalques
social e economicamente rebaixada, sem acesso afloram mais.
às riquezas do país que construiu. Quando de Todas essas agressões não resolvidas, todo
volta ao cotidiano, verifico que as pessoas vêem o recalque de uma História ainda não escrita,
minha cor como meu principal dado de identi- ainda não abordada realmente, fazem de nós
ficação, e nesta medida tratam-me como um ser uns recalcados, uns complexados. Não afirmo
inferior. Me pergunto que ideologia absurda é isto empiricamente, a psicologia prova teorica-
essa, dessas pessoas que querem tirar minha mente que os complexos existem em todos os
própria identidade? homens, enquanto recalques, o não resolvido
Geralmente, quando somos agredidos na existir.
rua e reagimos, apressam-se os agressores ime- Em oitenta anos de uma “Abolição” da
diatamente a recorrer ao que entendem por in- qual pouco participamos, que não partiu do
tegração racial, como dar-se muito bem com os nosso amadurecimento político-ideológico co-
pretos, menos comigo, é claro, que não entendi mo raça, nem como brasileiros, não podem es-

96
tar resolvidas as nossas frustrações. A senzala Este projeto é difícil. É um desafio. Este de-
ainda está presente. Oitenta anos em termos de safio, aceitei-o totalmente a partir do momento
História Total, são dias. em que um intelectual branco me disse que era
Como então nos desfazermos dos nossos mais preto do que eu. Foi para mim a afirma-
complexos? Acreditando que embranquecemos ção mais mistificadora, mais sofisticada e mais
quando clareamos a pele? Quando alisamos o desafiadora. Pensa ele que basta entender ou
cabelo? Quando casamos com branco, surgin- participar de algumas manifestações culturais
do a possibilidade da próxima geração ser mais para se ser preto: outros pensam que quem nos
clara? Quando acreditamos na democracia ra- estuda no escravismo nos entendeu historica-
cial brasileira? Quando aceitamos frases como mente. Como se a História pudesse ser limitada
“sou o branco mais preto do Brasil?” (Samba no “tempo espetacular”, no tempo representa-
da Benção, de Vinícius de Moraes). Quando do, e não o contrário: o tempo é que está dentro
ascendemos de classe social? Quando nosso da história. Não se estuda, no negro que está vi-
grupo com o qual nos relacionamos, é total- vendo, a História vivida. Somos a História Viva
mente branco? Quando acreditamos que ape- do Preto, não números.
sar de tudo “contribuímos para a formação da Não podemos aceitar que a História do
etnia brasileira através da culinária e da músi- Negro no Brasil, presentemente, seja enten-
ca”, como quer a maioria dos nossos livros de dida apenas através dos estudos etnográficos,
História e Geografia? Contribuímos ou fomos sociológicos. Devemos fazer a nossa História,
forçados a fazer esta cultura? Nossa “contri- buscando nós mesmos, jogando nosso incons-
buição” foi de escravos. A maior parte de nossa ciente, nossas frustrações, nossos complexos,
raça está realmente sem acesso às riquezas, ao estudando-os, não os enganando. Só assim po-
bem-estar. Mas será que ela só precisa disso deremos nos entender e fazer-nos aceitar como
para sentir-se em igualdade? somos, antes de mais nada pretos, brasileiros,
Será que ela não tem outra representação sem sermos confundidos com os americanos
senão os cultos afro-brasileiros, o samba, o ou africanos, pois nossa História é outra como
futebol, a alegria e o sexo, como querem alguns é outra nossa problemática. Num país onde o
renomados escritores? Dizem os intelectuais conceito de raça está fundado na cor, quando
que nós não temos ideologia própria, porque um branco diz que é mais preto do que você,
fundamentalmente queremos embranquecer. trata-se de manifestação racista bastante so-
Será exatamente isto? Ou nossa ideologia não fisticada e também bastante destruidora em
deve ser aflorada? A história da raça negra ain- termos individuais. Naquele instante, a partir
da está por fazer, dentro de uma História do da minha reação, ao perguntarem-me se eu
Brasil ainda a ser feita. tinha complexo, surpreendi-me dizendo que

97
sim, com um orgulho jamais sentido. Justifico: Negro e racismo •
se minha cultura é considerada como “contri-
buição à...”; se minha raça nunca teve acesso Beatriz Nascimento
conjuntamente nem representativamente às
riquezas deste país: se a maioria de nós está No estudo da formação histórico-social do
dispersa por força de uma incomunicabilidade Brasil proliferam trabalhos relacionados com
que deve ser posteriormente estudada (o negro os aspectos econômicos e políticos, enquanto
brasileiro, com raras exceções, não se agrupa); as “teorias” que tentam explicar os aspectos
se nossa manifestação religiosa passa a ser fol- ideológicos desta sociedade limitam-se a adap-
clore, ou o que é pior, consumida como música tar conceitos importados de uma ciência social
na TV (vide música de Vinícius de Moraes e To- européia ou norte-americana, restringindo sua
quinho cantando o nome de Omulu), quando discussão a fechados círculos intelectuais ou
um branco quer retirar minha identidade física, mesas-de-bar em fim de noite. Deste modo, a
único dado real da minha História viva no Bra- “ideologia nacional” fica sendo considerada por
sil – só me resta o que está dentro de mim, só me determinados meios um estudo de luxo, na me-
resta assumir o meu complexo não resolvido. lhor das hipóteses, quando não é preconceitu-
Resta-nos somente nosso inconsciente, osamente confundida com aspectos subjetivos
que só através da História poderá ser com- (o papel econômico é que é considerado obje-
preendido e solucionado. tivo) e vista como especulação desvirtuadora.
Não aceito mais nenhuma forma de pa- Entretanto, para o entendimento de nossa
ternalismo, especialmente intelectual. Como sociedade é necessário conhecer um elemento
o jovem branco, eu adquiri instrumentos para de suma importância na sua formação histórica.
o meu conhecimento através do estudo da Este elemento, por não pertencer, em sua maio-
História, na qual acredito totalmente. São in- ria, às camadas mais altas da população, tem
strumentos adquiridos na cultura branca oci- um acesso minoritário àqueles círculos conside-
dental, portanto nada deixo a dever a ele. En- rados cultos, o que o impede de participar de
tretanto, como me disse a pessoa que mais amo, discussões consideradas esnobes (no Brasil é
um negro, meu marido, as coisas que reflito considerado “esnobismo” discutir ou interpre-
neste momento já existiam no ventre de minha tar os aspectos pluralísticos do nível ideológico
mãe, num quilombo qualquer do Nordeste, da sua formação social). O elemento a que nos
na África onde já não quero nem posso mais referimos é o negro brasileiro, que só pode ser
voltar. Portanto em minha raça, na História do
Homem.
• Publicado originalmente em: Revista de Cultura Vozes. 68 (7),
pp. 65-68, Petrópolis, 1974.

98
entendido a partir de um estudo profundo da o espectro daquele que escravizou e que cor-
ideologia nacional e das suas implicações num rompeu. É justamente o fato de nos ter corrom-
todo social, do qual, por força do preconceito pido que maltrata as consciências salvadoras
racial (dentro daquela ideologia), é posto à de muitos dos nossos “defensores”, daqueles
margem. O mesmo preconceito racial por que que atualmente nos querem redimir estudan-
é espicaçado no seu cotidiano, historicamente do-nos através dos aspectos sócio-econômicos
é evidenciado na ausência de um pensamento e apressando-se em se “sentir” negros, como se
livre do brasileiro com relação a ele mesmo, de séculos de sofrimento e marginalização pudes-
um pensamento livre do negro sobre si. sem ser redimidos por uma sensação de “ser
Quando em um artigo publicado pela Re- negro”. Ser negro é enfrentar uma história de
vista de Cultura Vozes, em seu primeiro núme- quase quinhentos anos de resistência à dor, ao
ro do ano corrente, dizíamos que deveríamos sofrimento físico e moral, à sensação de não exis-
ser entendidos com brasileiros, sem sermos tir, a prática de ainda não pertencer a uma so-
confundidos com os negros norte-america- ciedade na qual consagrou tudo o que possuía,
nos ou africanos, queríamos deixar expresso oferecendo ainda hoje o resto de si mesmo. Ser
que existia um preconceito no nível das idéi- negro não pode ser resumido a um “estado de
as que procurava nos entender sob a luz dos espírito”, a “alma branca ou negra”, a aspectos
problemas de outros negros que viveram uma de comportamento que determinados brancos
outra realidade social e racial que não a nossa. elegeram como sendo de negro e assim adotá-
Essa importação de “ideologias” é típica dos los como seus.
pensamentos da intelectualidade brasileira, Ser negro por adoção é uma tarefa tão sim-
a mais branca, a mais europeizada de todo o ples quanto falsa. Nela se esconde a tentativa de
chamado 3º Mundo. Ou seja, a mais complexa- permanecer o quadro racial dominante, é uma
da das elites, justamente por ser aquela que ja- forma sofisticada de apresentar sob forma de
mais se conformou em trazer no seu todo social paternalismo o preconceito de quem não pode
elemento tão degradante, mas que por força das negar uma origem que repudia; de quem deve
circunstâncias históricas foi o mais importante maior parte do que possui ao povo que escravi-
no seu processo de formação. O escravo negro, zou e desumanizou. É um paradoxo por demais
assim como o negro atual, não só participou da incômodo. Não contava os dominadores que
formação social do Brasil com seu trabalho, com seus dominados acumulassem não sofrimento
seu sofrimento, participou também da mesa, da e miséria, mas também aspectos de sua cultura,
cama, do pensamento e das lutas políticas do inclusive seus vícios e virtudes.
colonizador e de seus descendentes. Para todo Atualmente, com a crise da cultura ociden-
o lado que o branco olhar, deparar-se à com tal, crise nas formas de pensamento, nas artes,

99
nas instituições de um modo geral, as elites in- beleza, virilidade, fortaleza que querem nos in-
telectuais de países de contingente negro pro- culcar, são conceitos seus, impregnados de sua
curam saídas na maneira de ser e de sentir que cultura; quanto à nossa consciência de nós só
conceituam como sendo do negro. Repetem, pode sair de nós mesmos e a partir de uma cons-
não sei se consciente ou inconsciente, o mito do ciência do dominador.
“bom selvagem” do séc. XVIII, aparecem deze- Perdoem-nos se não correspondemos mais
nas de “Russeaus” nos perseguindo a que ramo uma vez às expectativas das necessidades dos
africano pertencemos, se somos provenientes nossos antigos senhores. Pelos menos aqui no
da África, a que tribo etc...; ou então, baseados Brasil não é mais possível encontrar o homem
no comportamento do negro americano e no negro “puro”. Por enquanto ainda queremos
“feeling” do “black power”, querem nos dar nos “igualar”, sermos “aceitos”. Por enquanto
consciência que talvez seja a deles (brancos). ainda impera em nós o ideal estético do branco.
Esquecem somente que não é possível mais so- Por enquanto há de nos ver com “alma bran-
breviver mitos (criados justamente para institu- ca”, porque nós fazemos parte de um todo em
cionalizar a dominação e fundamentá-la moral- que domina a ideologia do dominador, nós
mente) que revelam pureza, beleza, etc., porque não somos “belos” como o negro americano
a dominação ocidental se encarregou de não só e não queremos, nem podemos ser. Se algum
usar fisicamente seus dominados, mas também intelectual branco estiver interessado em saber,
sob forma de ideologia impregnou-os de seus nós só podemos ser compreendidos na medida
hábitos, de seus fins, de sua moral. Enfim, es- em que ele perca o complexo de inferioridade
quecem que nos corromperam e que agora não que possui em relação à Europa ou aos Esta-
adianta nos ver belos ou puros porque para nós dos Unidos (para não dizer que o brasileiro
está muito claro que quem domina o mundo é tem complexo em relação a todo Mundo; uma
o Ocidente branco com seu dinheiro, suas ar- de suas maiores aspirações é ser estrangeiro, e
mas, sua ciência, sua moral, sua estética. de língua francesa) e nos encare como nós so-
Não existem mais “bons selvagens” como mos, isto é, aceite-se como, tendo se misturado
não existem mais “negros puros” que saibam conosco, tendo usufruído todos os nossos bens,
seu ramo africano no Brasil. Depois de nos aceite-se ser parte de nós, ter sido alimentado,
explorar e tirar as melhores coisas, depois de amado e se defendido por nós, aceite ter negado
nos reprimir, a ideologia dominante quer nos na prática de sua moral, sua religião, sua cul-
“descobrir” (como costumam dizer alguns dos tura dormindo conosco na cama, amamentado
paladinos em favor do negro) “puros”, “ricos por nossas mulheres, defendido e instruído por
culturalmente”, “conscientes de nossa raça”. nossos homens. Aceite-se sem culpa, sem pre-
Não entendem que esses ideais de pureza, conceitos. Aceite-se tão miserável quanto seus

100
escravos, tão famintos quanto eles, tão “incul- nas fundamentações econômicas explicação
tos” quanto eles (ou mais), talvez assim alguma para uma situação tão complexa, não esclarece,
coisa de nós possa ser útil para a compreensão só contesta, nem promete soluções para os dire-
de sua sociedade em crise. tamente interessados nela.
O preconceito quanto ao estudo das ideo- A ideologia do racismo tem raízes tão pro-
logias provoca, no pensamento das camadas fundas na formação social brasileira que temos
instruídas do país uma série de mal-entendi- que levar em conta uma série de formas de
dos que – com a aparência de “aceitar” a “con- comportamento, de hábitos, de maneira de ser
tribuição cultural” do negro – perpetuam o e de agir inerentes não só ao branco (agente)
racismo, pois fundamentalmente desconhecem como ao negro (paciente). Principalmente, é
quem são os “contribuintes” e, o que é pior, da parte do negro que se necessita esclarecer
não querem conhecer. Preferem muitos “teóri- todo o produto ideológico de quatro séculos de
cos” repetir obviamente que a origem da de- inexistência dentro de uma sociedade da qual
scriminação está no aspecto sócio-econômico participou em todos os níveis.
que caracteriza a sociedade brasileira. Insistem Propomos a nós mesmos e aos negros
em não ver o preconceito racial como reflexo brasileiros que num esforço comum tentemos
de uma sociedade como um todo, ou seja, em compreender e expor as características do pre-
todos os seus níveis, pois a ideologia, onde re- conceito racial no nosso comportamento, na
pousa o preconceito, não está dissociada do ní- nossa maneira de ser, de como ele se reflete em
vel econômico, ou do jurídico-político; não está nós. Procuremos caracterizar não somente com
nem antes nem depois destes dois, também repetições de situações, mas com uma inter-
não está em cima ou embaixo. A ideologia em pretação fidedigna dos reflexos do racismo em
suas formas faz parte integrante e está acumu- nós, a fim de que nos integremos na “consciên-
lada numa determinada sociedade, juntamente cia nacional” não como objetos de estudo, mu-
com os outros dois níveis estruturais. Confun- mificados por força de uma omissão e de uma
dir esquematização de conceitos para um me- dependência de pensamento, que não fez mais
lhor estudo e compreensão do problema, com que perpetuar o “status quo” ao qual estamos
a prática dos mesmos na realidade concreta, é submetidos historicamente. É tempo de falar-
demonstrar uma ignorância de mau aluno, para mos de nós mesmos não como “contribuintes”
não dizer que é justamente pôr em prática o mes- nem como vítimas de uma formação histórico-
mo preconceito sob forma velada de “inocência social, mas como participantes desta formação.
(muito) útil”. Repetir que o preconceito racial Quando nos propomos a escrever uma
é de origem econômica, ou em decorrência do História do Negro no Brasil, sabíamos da dificul-
fenômeno da luta de classes, procurar somente dade de tal empreendimento, entretanto se nos

101
apresentou uma dificuldade inicial que foi o en- são uma prática, e caso fossem uma prática se
contro de uma metodologia adequada e de uma isto é satisfatório para o negro. Somos aceitos
outra conceitualização não só no nível do estudo por quem? Para quê? O que muda ser aceito?
em si, mas mais precisamente na utilização de O que é ser igual? A quem ser igual? É possível
conceitos que vão de encontro àqueles univer- ser igual? Para que ser igual?
salizados pela dominação ocidental, os quais As perguntas aos conceitos até aqui utiliza-
consistem em expressar a posição do domina- dos com relação ao negro e ao estudo da dis-
dor frente aos seus dominados. Ao utilizar, no criminação, a nosso ver devem ser inquiridas e
início desta exposição, determinados termos en- decompostas minuciosamente em todas as suas
tre aspas (aceitação, integração, igualdade) que- implicações. Assim como esses que usamos aci-
ríamos mostrar na prática como a ideologia de ma, quase tudo o que foi dito sobre o negro,
dominação representa nela mesma, através da tudo que lhe é atribuído, o que até agora é con-
linguagem, o preconceito, evidencia uma situa- siderado ser negro, inclusive a cultura do negro,
ção de fato, isto é, o racismo, a discriminação. A deve ser reexaminado não sob o ponto de vis-
“aceitação”, a “integração”, a “igualdade” são ta da teologia dominante, mas sob o ponto de
pontos de vista do dominador. vista das nossas aspirações e necessidades. Isto
Tomando como exemplo estes três con- só pode ser possível à luz de uma fidelidade á
ceitos poderemos demonstrar como se torna História. Só o levantamento histórico da vivên-
difícil para o negro, que se propõe estudar a cia do negro no Brasil levada a efeito pelos seus
discriminação racial (e não só ela em si, mas descendentes, isto é, os que atualmente viven-
toda a história do negro brasileiro). Conceituar ciam na prática a herança existencial, poderá er-
do seu ponto de vista sua situação e suas as- radicar o complexo existente nele, e assim como
pirações dentro da sociedade dominante. Tor- o preconceito racial por parte do branco.
na-se ainda mais difícil a metodização deste
estudo, pois impregnado de uma cultura em
A mulher negra no mercado de trabalho •
todos os sentidos branca e europeizada se faz
necessário perguntar-se a si próprio se deter-
Beatriz Nascimento
minados termos correspondem à sua perspec-
tiva, se não são somente reflexos do preconcei-
to, repetidos automaticamente sem nenhuma Para entender a situação da mulher ne-
preocupação crítica. Ou seja, se não estamos gra no mercado de trabalho, acho necessário
somente repetindo os conceitos do dominador
sem nos perguntarmos se isto corresponde ou
• Publicado originalmente em: Jornal Última Hora, Rio de
não à nossa visão das coisas, se estes conceitos Janeiro, domingo, 25 de julho de 1976.

102
voltarmos um pouco no tempo, estabelecendo escrava, ela pe uma trabalhadora, não só nos
um pequeno histórico da sociedade brasileira afazeres da casa grande (atividade que não se
no que concerne à sua estrutura. Da maneira limita somente a satisfazer os mimos dos senho-
como estava estruturada essa sociedade na res, senhoras e seus filhos, mas como produ-
época colonial ela surge como extremamente tora de alimentos para a escravaria) como tam-
hierarquizada, podendo-se conceituar como de bém no campo, nas atividades subsidiárias do
castas, na qual os diversos grupos desempen- corte e do engenho. Por outro lado, além da
ham papéis rigidamente diferenciados. sua capacidade produtiva, pela sua condição
Num dos pólos desta hierarquia social en- de mulher, e, portanto, mãe em potencial de
contramos o senhor de terras, que concentra novos escravos, dava-lhe a função de reprodu-
em suas mãos o poder econômico e político; no tora de nova mercadoria, para o mercado de
outro pólo, os escravos, a força de trabalho efe- mão-de-obra interno. Isto é, a mulher negra é
tiva desta sociedade. Entre estes dois pólos en- uma fornecedora de mão-de-obra em poten-
contramos uma camada de homens e mulheres cial, concorrendo com o tráfico negreiro.
livres, vivendo em condições precárias, sem Não quero dizer com esta última afirmati-
meios de vida. Por estar assim definida, a socie- va, que o crescimento vegetativo da população
dade colonial se reveste de um caráter patriar- escrava no Brasil tenha sido positivo. Compa-
cal que permeia toda sua estrutura, refletindo- rando aos Estados Unidos, onde a população
se de maneira extrema sobre a mulher. escrava tinha um alto crescimento vegetativo,
Devido ao caráter patriarcal e paternalista, o balanço entre natalidade e mortalidade dos
atribui-se à mulher branca o papel de esposa do crioulos no Brasil foi desfavorável. Basta para
homem, mãe dos seus filhos e dedicada a eles. ilustrar dizer que, após a cessação do tráfico
Deste modo seu papel é assinalado pelo ócio, nos Estados Unidos, em 1808, até a Guerra de
sendo amada, respeitada e idealizada naquilo Secessão, a população negra escrava quase tri-
que este ócio lhe representava como suporte plicou. Enquanto no Brasil, com o tráfico aberto,
ideológico de uma sociedade baseada na explo- não aumenta o número de escravos, ficando em
ração do trabalho [e da pessoa] de uma grande torno de um milhão e meio no mesmo período.
camada da população. De qualquer jeito é importante chamar a aten-
Contrariamente à mulher branca, sua cor- ção desta “capacidade reprodutiva” da mulher
respondente no outro pólo, a mulher negra, negra, que a faz revestir de uma tradição como
pode ser considerada como uma mulher es- elemento produtor neste período da história
sencialmente produtora, com um papel seme- do Brasil sendo, junto com o seu correspon-
lhante ao do seu homem, isto é, como tendo dente masculino, o suporte para a instituição
um papel ativo. Antes de mais nada, como escravocrata. Ressalte-se, entretanto, que, jus-

103
tamente por isso, recai sobre ela o peso da de- clara. Dialeticamente perpetuando o processo
nominação senhorial. de domínio social e privilégio racial.
A moderna sociedade brasileira apresenta A mulher negra, elemento no qual se cristali-
um maior dinamismo no que concerne à diver- za mais a estrutura de dominação, como negra
sificação das atividades produtivas, trazido a e como mulher, se vê, deste modo, ocupando os
efeito com o processo de industrialização de- espaços e os papéis que lhe foram atribuídos des-
marcado no período de 1930. Com a expansão de a escravidão. A “herança escravocrata” sofre
industrial e do setor de serviços, a estratificação uma continuidade no que diz respeito à mulher
social, profundamente polarizada nos períodos negra. Seu papel como trabalhadora, a grosso
anteriores, apresenta uma maior flexibilidade e modo, não muda muito. As sobrevivências pa-
gradação. No entanto, esta maior flexibilidade triarcais na sociedade brasileira fazem com que
mantém muito profundamente as diferenças de ela seja recrutada e assuma empregos domésti-
papéis atribuídos aos diversos grupos da socie- cos, em menor grau na indústria de transforma-
dade. Diversos fatores funcionam como causa ção, nas áreas urbanas e que permaneça como
para que se perpetuem estas diferenças. Um tralhadora nas rurais. Podemos acrescentar, no
deles, como não poderia deixar de ser, numa entanto, ao que expusemos acima que a estas so-
sociedade constituída de diferentes grupos ét- brevivências ou resíduos do escravagismo, se su-
nicos, é o fator racial. perpõem os mecanismos atuais de manutenção
Numa sociedade como a nossa, onde a
de privilégios por parte do grupo dominante.
dinâmica do sistema econômico estabe- Mecanismos que são essencialmente ideológicos
lece espaços na hierarquia de classes, exis- e que ao se debruçarem sobre as condições obje-
tem alguns mecanismos para selecionar as
tivas da sociedade têm efeitos discriminatórios.
pessoas que irão preencher estes espaços.
Se a mulher negra hoje permanece ocupando
O critério racial constitui-se num desses empregos similares aos que ocupava na socie-
mecanismos de seleção, fazendo com que as dade colonial, é tanto devido ao fato de ser uma
pessoas negras sejam relegadas aos lugares mais mulher de raça negra, como por terem sido es-
baixos da hierarquia, através da discriminação. cravos seus antepassados.
O efeito continuado da discriminação feita pelo Numa sociedade como a nossa, onde con-
branco tem também como conseqüência a in- vivem elementos arcaicos com o processo de
ternalização pelo grupo negro dos lugares infe- modernização, a educação representa um fator
riores que lhes são atribuídos. Assim, os negros de pressão dos grupos subordinados, visando
ocupam aqueles lugares na hierarquia social, melhores condições de vida e ascensão social.
desobrigando-se de penetrar os espaços que Entretanto, justamente por causa daqueles ele-
estão designados para os grupos de cor mais mentos arcaicos, os avanços educacionais são

104
limitados e recentes, ao mesmo tempo [em] ormente da hierarquia ocupacional se engajem
que carente, pois a maior parte da população no processo: a necessidade de mão-de-obra
tem tido pouco acesso efetivo ao processo edu- para a indústria e outros serviços recentes con-
cacional. Entretanto pesquisas recentes basea- correm para esse fenômeno.
das nos recenseamentos de 1940, 1950 e 1970, As populações de nível de renda mais
registram que a mulher branca conseguiu baixo17 são as principais recrutadas. Deste modo,
maior acesso ao curso superior, diminuindo a mulher branca passa a fazer parte da força de
proporcionalmente a desigualdade entre ela e trabalho. Mas não podia deixar de ser, devido
o homem branco. A recíproca não foi idêntica ao fato de pertencer ao grupo subordinado,
quanto á população negra e mestiça, menos ai- ocupa lugares definidos como de “atividades
nda em relação à mulher negra. femininas”. Na fase inicial de industrialização,
Como a educação é um requisito para o a mulher branca participa da foca de trabalho
acesso às melhores ocupações16 na hierarquia com o declínio das indústrias tradicionais, prin-
de empregos, deduz-se que as populações de cipalmente a têxtil, ela se vê expulsa do setor
cor e as mulheres brancas não estariam capaci- industrial e passa a concentrar-se em empregos
tadas para assumir os empregos de maior sta- burocráticos de nível baixo que, embora mal re-
tus e, conseqüentemente, maior remuneração. munerados exigem certa qualificação educacio-
A mulher negra tem menores possibilidades nal. Como conseqüência desse deslocamento,
do que qualquer um dos outros grupos. Aqui os homens de classe média ascendem a ocupa-
é preciso estabelecer uma comparação entre ções burocráticas de nível mais alto.O mesmo
a mulher negra e a mulher branca. A partir não ocorre com a mulher negra, e isto por dois
de 1930, com a decadência das áreas rurais e motivos fundamentais: o primeiro, porque a
a conseqüente ascensão das áreas urbanas, o mulher negra ainda não teve acesso suficiente
processo de vida levado a efeito nestas últimas à educação para qualificar-se para estes tipos
obriga a que o poder econômico do homem, de empregos burocráticos. Segundo, porque
enquanto chefe de família, decaia um pouco. esses empregos implicam relações públicas ou
Para manter o nível estável da renda familiar relação com o público. Por exemplo: Comércio
e empreender a sobrevivência, filhos e mul- de mercadorias. Neste contexto, o critério racial
heres são obrigados a ingressar no mercado se faz muito mais seletivo, mantendo a mulher
de trabalho. Por outro lado, um dado exógeno negra nos empregos tradicionais, os então como
concorre para que esses grupos alijados anteri- operárias industriais.

16 No original datilografado, “condições”. 17 No artigo publicado: “baixa”.

105
Através da análise da situação da mulher Nossa democracia racial •
negra no mercado de trabalho, vimos como este
elemento se acha na mais baixa posição dentro Beatriz Nascimento
da hierarquia social. No entanto, não é somente
pelo reflexo no mercado de trabalho que se Certa vez, em Salvador, conversava com
pode avaliar a situação de subordinação em um jovem chefe de família que tentava con-
que a mulher negra se encontra. O fato mesmo vencer-me de como a Bahia era o maior centro
de ser mulher, atraiu para si um tipo de domi- de tolerância racial do mundo. Ao justificar tal
nação sexual por parte do homem, dominação pretensão para o seu estado, mostrou-se um
que se origina nos primórdios da colonização. adepto apaixonado da miscigenação e recorreu
A exploração sexual de que foi vítima ao seu exemplo. Mostrou-me seus dois filhos
por parte dos senhores, determinada princi- pequenos, ambos mulatos, mas com diferenças
palmente pela moral cristã portuguesa, que de tonalidade de pele, e disse: “Está vendo?
atribuía à mulher branca das classes mais altas Este aqui saiu quase como eu (referindo-se ao
o papel de esposa ou de “solteirona” depen- menino mais escuro), mas este já saiu melhor;
dentes economicamente do homem, e limita- quase louro”. Dizendo isto, enquanto eu e o
das – quando esposa – ao papel de procriadora, primeiro menino olhávamos atônitos para ele,
ou seja sua vida sexual limitava-se à posterior concluiu: “Deste jeito o negro vai desapare-
maternidade, fez com que a liberação da fun- cendo e não teremos conflito racial como nos
ção sexual masculina, recaísse sobre a mulher Estados Unidos”.
negra ou mestiça. Talvez estejam neste último ponto os mal-
Por seu lado, os mecanismos ideológicos se entendidos quanto à tolerância racial brasileira
encarregaram de perpetuar a legitimação dessa e isto não parte somente de homens comuns
exploração sexual através do tempo. Com re- como meu interlocutor baiano; constitui uma
presentações baseadas em estereótipos de que crença nacional que o fato de não terem existido
sua capacidade sexual sobrepuja a das demais recentemente, na nossa experiência social, os
mulheres, de que sua cor funciona como atra- fatos de racismo virulento típicos da sociedade
tivo erótico, enfim, de que o fato de pertencer norte-americana, nós somos os destinatários de
às classes pobres e a uma raça “primitiva”, a um sistema racial digno de causar inveja as na-
faz mais desreprimida sexualmente, facilita-se ções mais civilizadas do mundo. Mas o que di-
a tarefa do homem de exercer sua dominação zer de uma aspiração tão estranha como esta do
livre de qualquer censura, pois a moral domi-
nante não se preocupa em estabelecer regras
• Publicado originalmente em: Revista IstoÉ. 23/11/1977, pp.
para aqueles carentes de poder econômico. 48-49.

106
jovem pai baiano, cujo objetivo final seria o de- ta Régia aconselhava os portugueses a se cruza-
saparecimento físico de um grupo, este mesmo rem com os nativos e as mulatas para aumentar
ao qual se credita total tolerância no Brasil? o povoamento do Brasil) até o nosso baiano,
A recente bibliografia sobre relações raciais pensa-se transformar o Brasil num “paraíso”
no Brasil, basicamente a estrangeira, está per- no qual o mais cômodo seja o desaparecimento
meada de exemplos como o que acabo de citar, total dos que vivem no “inferno”. Tal raciocínio
exemplos nos quais se demonstra que a nega- é o ponto crucial de uma ideologia nacional
ção do preconceito racial, antes de constituir a responsável pelo espaço social degradante em
reflexão consciente de nossa situação, traduz que se encontra a massa de negros no Brasil.
uma certa urgência de aliviar os possíveis con- Grande ideólogo, a quem se atribuiu o ter-
flitos decorrentes do confronto de poder entre mo “democracia racial”, Gilberto Freyre, em re-
as etnias que formam nossa sociedade. Tal re- centes pronunciamentos, vangloriava-se de que
ceio criou, no dizer de um jovem sociólogo do o Brasil fica cada vez mais moreninho. Cabe a
Rio de Janeiro, uma auto-imagem do sistema ele não só obra pioneira deste tipo de ideologia,
de relações raciais brasileiro como sendo uma como grande parte da crença na tolerância ra-
“democracia racial”. cial brasileira. Sua obra influencia sobremodo
estudos científicos, notadamente de cientis-
tas estrangeiros, como Tannenbaum19, que ga-
O inferno rante, baseado em Freyre, que no período da
escravidão no Brasil os senhores reconheciam
Não foi resultado do raciocínio simples do a “pessoa moral” do escravo, ou seja, o Brasil,
homem comum a emergência do ideal de “de- diferentemente dos Estados Unidos, possui
mocracia racial” entre nós nem o surgimento, uma tradição de valorização da humanidade
entre outras soluções para o possível conflito, do negro. O ponto alto deste comportamento
da miscigenação em massa. Sua origem pode seria o respeito aos direitos civis dos negros
remontar-se aos primeiros séculos da coloni- após a Abolição. O que não sucedeu com os ne-
zação; Antonil18, nosso primeiro ideólogo, já gros norte-americanos.
dizia algo que ficou como máxima entre nós: Acontece que, após a abolição da escra-
“O Brasil é o inferno dos negros, o purgatório vatura, nós não temos um negro no centro de
dos brancos e o paraíso dos mulatos”. E a partir decisões do país, quando, às vésperas daquele
dele, desde o marquês de Pombal (que em Car- evento, tínhamos pelo menos três negros de

18 André João Antonil. Cultura e Opulência no Brasil – Ed. 19 Frank Tannenbaum, sociólogo norte-americano, autor de
Melhoramentos/MEC. Slave and Citizen: The negro in the Americas.

107
grande poder nas duas casas do Congresso. gro dentro da escala social, Como este espaço se
Enquanto que nos Estados Unidos deu-se o in- apresenta como parte incorporada à cultura dos
verso – hoje, há cada vez mais negros atuando negros, nada mais cômodo do que unir o útil
nos diversos setores da sociedade. A que se ao agradável. Quando se questionar a ausência
atribui esta defasagem? Seria pertinente per- de negro em posições de relevo social, basta
guntarmos qual a cotação do reconhecimento mencionar Pelé ou algum dos poucos sambis-
da nossa pessoa moral entre a atual sociedade tas atualmente em boas condições financeiras.
brasileira Creio que sim, pois a atitude de com- Quanto á grande maioria marginalizada, o mais
placência, quando não de aversão em relação à fácil será recorrer à explicação econômica ou de
nossa participação no seio da comunidade na- classe, não esquecendo a herança escravagista
cional (condições visíveis na obra de Gilberto que, segundo alguns eminentes teóricos, faz do
Freyre e na ideologia de democracia racial), nos negro um ser ainda não preparado para inte-
remete ao passado, onde à nódoa da escravidão grar uma sociedade competitiva.
foi vinculado o nosso destino de grupo, como Entretanto, nós, os negros, vamos acompa-
sendo uma nódoa nacional. nhando esse poço de contradições e este emara-
Após a abolição da escravatura, fomos inte- nhado de sutilezas com uma visão bastante
grados ao todo nacional, mas, sem dúvida, com cética. Lá se vão noventa anos de abolição da
a esperança simplória de, através do filtro das escravatura e não consta que os imigrantes que
relações de casamento ou concubinato, irmos vieram nos substituir na lavoura cafeeira es-
“melhorando a raça” até o ponto de a nação fi- tivessem mais aptos a entrar numa sociedade
car cada vez mais moreninha e, com auxílio da capitalista (que ainda não se tinha formado por
imigração européia, cada vez mais branca. volta de 1930) do que nós. Por meio de que mi-
lagre essa situação social ficou melhor do que
a nossa? Se somos parte integrante de uma de-
Ceticismo mocracia racial, por que nossas oportunidades
sociais são mínimas em comparação com os
Mas é como conflito não manifesto que atu- brancos? A resposta nos parece clara, embo-
almente se encara o preconceito e a discriminação ra discorrer sobre os fatores que nos levaram
gritante nos terrenos da educação e do mercado a isto constitua ainda hoje um tabu e (o mais
de trabalho, perpetuando-se, enquanto isso, op- sério) esbarramos com um total despreparo
ções do tipo jogador de futebol e sambista, para para enfrentar os problemas advindos da práti-
aqueles que lutam por uma ascensão social. ca da discriminação. Despreparo cuja origem
Mediante mecanismos seletivos, a socie- está principalmente na falta de oportunidades
dade brasileira reduz o espaço dedicado ao ne- no terreno da educação, o que reduz nossa ca-

108
pacidade de organização em torno do objetivo Kilombo e memória comunitária: um estudo
comum. Esta impotência parece legitimar a de caso •
crença num sistema de relações raciais pacífico,
reforçando a ideologia de “democracia racial”. Maria Beatriz Nascimento ••
Entretanto, não vemos tudo perdido, pois
a duras penas já possuímos consciência, princi- Gostaria de dar a este trabalho o título
palmente entre as novas gerações dos principais de “A memória ou a oralidade histórica como
centros urbanos, de que as soluções apressadas instrumento de coesão grupal”, ou ainda “A
e simplórias, como a de uma maior miscigena- memória e a esperança de recuperação do pod-
ção, não são verdadeiras. É necessário muito er usurpado”. Esta maleabilidade de títulos
mais que isso. Marvin Harris, em seu trabalho possíveis talvez se deva ao fato de este não ser,
Padrões Raciais nas Américas, diz uma frase es- ainda, um trabalho concluído. Trata-se de um
clarecedora: “Já é tempo de as pessoas adultas estudo prolongado e exaustivo.
deixarem de pensar em relações raciais de acor- Dizendo isto, estou tentando transmitir
do com a cama”. E demonstra estatisticamente minha experiência na pesquisa sobre os quilom-
como Estados Unidos e África do Sul possuem bos brasileiros, pesquisa que tomou no projeto,
tão ou maior contingentes de mestiços do que o título de “Sistemas sociais alternativos orga-
no Brasil. nizados pelos negros – dos quilombos ou fave-
É certo que não podemos colocar nos las”. Este projeto é também um grande sonho.
mesmo plano a sociedade brasileira e a sul-af- Cientificamente falando, pretendemos demons-
ricana. Realmente não tivemos a experiência trar que os homens e seus grupamentos, que
do gueto e dos linchamentos, mas nem por formaram no passado o que se convencionou
isso nossa situação é ideal. Deste modo, cabe chamar “quilombos”, ainda podem e procuram
lembrar às consciências de brancos e negros fazê-los.
no Brasil uma frase que só o gênio de Lévi- Não se tratava, no meu entender, exata-
Strauss poderia produzir: “A tolerância não é mente de sobrevivência ou resistência cultu-
uma posição contemplativa dispensando in- ral, embora venhamos a utilizar estes termos
dulgências ao que foi e ao que é, é uma ati- algumas vezes, como referência científica. O
tude dinâmica, que consiste em prever, em que procuramos neste estudo é a continuidade
compreender e em promover o que quer ser”. Histórica, por isso me referi a um sonho. Todo
Portanto, resta começar a tolerar.

• Publicado originalmente em: Estudos Afro-Asiáticos 6-7. Rio


de Janeiro, CEAA/UCAM, pp. 259-265. 1982.
•• Professora do Grupo de Trabalho André Rebouças (UFF), Rio
de Janeiro.

109
historiador é um conversador e um sonhador nhamos perdido de vista a comparação entre
em busca deste continuum, digamos mesmo os três ex-quilombos.
ser esta a nossa meta enquanto estudiosos do Na segunda etapa, dedicamos a pesquisa
processo do homem no planeta. Continuidade ao estudo de campo através dos procedimentos
histórica é um termo ainda mais abstrato do da metodologia da história oral, da etnografia
que “sobrevivência” ou “resistência cultural” e da observação participante. O quilombo de
dos antropólogos. A continuidade seria a vida Carmo da Mata foi o nosso campo de estudo, e
do homem – e dos homens – continuando apa- as condições dos negros que ali ainda vivem.
rentemente sem clivagens, embora achatada Resolvemos assim, em função do desen-
pelo vários processos e formas de dominação, volvimento da pesquisa. Este quilombo, dos
subordinação, dominância e subserviência. três estudados, era o que possuía razoável
Processo que aconteceu, ao longo desses anos, quantidade de afro-brasileiros (pretos e mes-
com aqueles que, em nossas abstrações, se en- tiços). Por outro lado, seu reconhecimento deu-
globam na categoria de negros. se sem o auxílio de documentação primária
O trabalho aqui apresentado é nada mais ou secundária. Durante o levantamento, na
que um relatório parcial de pesquisa. Não primeira etapa, constatamos um conflito de
pretende estar com a verdade e nem definir classe e de raça latente que tendia a progredir e
uma tese, estou apenas dizendo: foi isto o que que, ao final, veio realmente a acontecer (mais
encontrei. tarde o relataremos).
Esta pesquisa, por razões que não colo- Em Kilombo, Carmo da Mata, também en-
caremos aqui, se desenvolveu na zona rural de contramos uma especificidade não verificada
Minas Gerais em comunidades não particular- nos demais: existia lá uma família cuja mãe
mente, isoladas, mas em um ex-quilombo. – senhora que, segundo as informações levan-
A primeira etapa do trabalho foi dirigida tadas, possuía 110 anos – era descendente di-
ao levantamento das áreas que possuíam nomes reta dos quilombolas que habitaram a região
de ex-quilombos na relação de municípios, durante muitos anos, até 1888.
povoados e localidades do IBGE, assim como Tomamos contato com esta senhora na
das áreas de ex-quilombos conhecidas através primeira fase da pesquisa. Realmente, apa-
de bibliografia e das fontes de documentação rentava ter mais ou menos a idade que lhe
primária dos arquivos Nacional e Público de atribuíam. Possuía família numerosa, parte
Minas Gerais. Nesta etapa, visitamos também que ainda residia na região e parte que migra-
três destas localidades, em Minas, num primei- ra para São Paulo, Paraná, Mato Grosso, ou
ro contato com seus habitantes. Escolhemos, outras regiões com maiores oportunidades de
então, um caso para estudo, embora não te- trabalho. Na ocasião, perguntamos-lhe por que

110
aquela região tinha sido denominada quilombo não só havia no Reinado um relação muito es-
(Kilombo). Respondeu-nos que era devido ao treita com o que procurávamos no quilombo,
surgimento de uma santa milagrosa, que apa- podendo mesmo vir a ser uma dramatização
recera alguns anos atrás, numa gruta da região, das condições de vida dos habitantes negros,
em local mais alto que o povoado. Esta elevação possíveis reminiscências traduzidas no código
constituída de pedras e possuindo um pequeno cultural, mas, principalmente, com a própria
vale por onde corre um rio, era chamada de dinâmica das relações raciais na povoação.
Calhambola. Ora, calhambola é um termo que O exemplo mais típico era a insistência dos
substitui quilombola. Ao fazermos a mesma informantes negros em relacionar a origem Ki-
pergunta aos brancos – donos de casa comer- lombo a uma situação milagrosa ou legendária.
cial e parente dos fazendeiros da região – res- E não somente neste quilombo de Carmo da
ponderam-nos, no início, que não sabiam, mas Mata, bem como nos demais visitados.
logo depois, ao consultarem um jovem parente Ainda na primeira etapa da pesquisa, mui-
de Belo Horizonte, disseram-nos que o nome to nos foi esclarecido sobre a ligação da história
do povoado era Kilombo, por terem ali se locali- de Kilombo, em Carmo da Mata, com apareci-
zado negros fugidos da escravidão. mentos e revelações místicas, em transe ou não.
Intrigaram-nos as duas versões, pois, sem- O depoimento mais esclarecedor pertence ao
pre que questionávamos os negros, estes repeti- Sr. Neca, filho mais novo de D. Idalina, a anciã
am a explicação que atribuía a origem do nome descendente dos quilombolas da região. An-
do local à santa milagrosa, afirmando-nos que tes dele, alguns negros nos tinham insinuado
a mesma se encontrava na capela católica do a versão corrente e, quando perguntávamos
lugar. Por ocasião do Reinado – festa de rua a quem pertencia a santa, respondiam-nos: A
comemorativa da trilogia: São Benedito, N. S. “nós”. E se voltávamos a indagar: “Nós quem?”
do Rosário e Santa Efigênia – aconteciam situa- – respondiam-nos: “A nós, o Kilombo”.
ções muito especiais, e, inclusive, os filhos e ne- Uma das hipóteses de nosso projeto diz,
tos ausente de D. Idalina – a última quilombola explicitamente, que as áreas de onde se locali-
– voltavam ao lugar, juntamente com outros zaram “quilombos” no passado supõem uma
negros, mestiços e brancos. continuidade espacial, preservando ou atrain-
Decidimos acompanhar, na segunda etapa do populações negras no século XX.
da pesquisa, todo o processo que culminava Dos três quilombos estudados – o de Car-
com as festas do Reinado – como manifesta- mo da Mata, o da Comarca do Rio das Mortes e
ção impregnada de conteúdos simbólicos, ao o de Alagoas -, do primeiro e do último não nos
nível dos mitos afro-brasileiros – conteria uma foi possível encontrar nenhuma documentação
continuidade histórica, ou seja, vimos que primária ou secundária, a não ser a referência

111
já citada na lista do IBGE. Tivemos, então, que ou mestiço -, que são quatro: da Congada, de
optar pela pesquisa oral para refazer sua tra- Moçambique, de Catupé e do Vilão20.
jetória. Iniciamos com entrevistas, observação Regressando ao Rio de Janeiro, procura-
participante e fotografias. Com o da Comarca mos a origem deste “folguedo” em Câmara
do Rio das Mortes – um dos maiores do pas- Cascudo, o que não nos adiantou muito. Re-
sado mineiro, mas também encontramos mui- tornamos posteriormente à região de Carmo
tas referências bibliográficas e documentação da Mata e procedemos a levantamento mais
primária. detalhado da concepção dos habitantes negros
O quilombo de Carmo da Mata se nos tor- e brancos do local.
nou conhecido em setembro de 1976, ao hospe- Pelos vários depoimentos, inferimos que
darmo-nos numa pequena fazenda no povoado não se tratava de simples festejos folclórico-re-
de Riacho, município de Carmo da Mata, dis- ligiosos. Havia toda uma impregnação históri-
tante 14 KM da região que posteriormente fo- ca, pois os ternos tinham nomes e especifi-
mos estudar. Ao perguntarmos à dona da casa cidades significativas. O primeiro referia-se a
qual a padroeira da pequena igreja católica de um patriarcado africano, que se centralizou em
Riacho, a mesma nos revelou que se tratava da um poder político-administrativo e que fora o
Igreja de Nossa Senhora dos Rosário. Sendo esta Reino do Congo dos séculos XIII ao XV. O se-
Virgem protetora dos escravos e dos pretos em gundo, também referenciado ao passado afri-
geral, dentro desta religião, indagamos se era cano, representava um matriarcado, ou pelo
comum os pretos a freqüentarem. A fazendeira menos um grande poder político da mulher, e
nos deu, de forma muito precisa, os primeiros ao mesmo tempo descentralizado, na África do
dados da pesquisa que, posteriormente, viemos período já citado. “A diferença entre a Congada
a desenvolver. e o Moçambique são as rainhas, mas as diferen-
Foi-nos revelado, com certo ponto de vista ças que os pretos dizem que tem é no toque do
histórico, que os negros assim como os brancos tambor e das caixas”21. O terceiro terno, de Ca-
iam àquela igreja, contudo os primeiros aumen- tupé, é o índio brasileiro, e o quarto e último
tavam suas práticas “cristãs” durante a trilogia representa o português, é o terno do Vilão.
de São Benedito, N. S. do Rosário e Santa Ifigê-
nia. Nesta ocasião, eles promoviam as festas de
rua “que só eles sabem comandar”. O nome
que recebia a trilogia, na região, dado pelos ne-
20 O fato de os negros organizarem estes ternos segundo diferen-
gros era o Reinado. Este constitui-se de ternos ças étnicas e históricas levou-nos a levantar a hipótese de um con-
flito, cuja continuidade seria revelada durante a trilogia religiosa.
– espécie de pequenos exércitos ou batalhões,
21 Depoimento da fazendeira, em casa de quem nos hospedamos
cada um com seu comandante, sempre negro em 1976, antes da pesquisa.

112
Era o mês de setembro e procuramos nos in- Através dos depoimentos orais, viemos a
formar se havia algum Reinado perto da fazenda. saber que o quilombo de Carmo da Mata or-
Foi-nos informado que naquela tarde de domin- ganizou-se a partir do contato dos negros “co-
go haveria uma apresentação em outro povoado rumbas” com os índios puris, que habitavam
próximo, cujo nome era Kilombo, considerado o aquela região. Os negros eram da nação bantu,
mais autêntico das circunvizinhanças. de uma etnia m’bunda. Viviam de caça e de
A referência ao nome nos interessou, a pequena lavoura de abacaxi, feijão, banana e
ponto de queremos desenvolver pesquisa onde extraíam, ainda, o palmito. Não se registra, em
os conceitos histórico-culturais de quilombo e longo período, ataque à comunidade.
reinado fossem o ponto de partida. Nesta pers- Por volta de 1888, segundo depoimento,
pectiva, utilizamos a hipótese de uma continui- forasteiros brancos, provenientes de São João
dade histórica entre o quilombo e suas repre- d’El Rei, procurando terras para café e gado,
sentações e redefinições nos dias atuais. A esta apossaram-se da região, expulsando os negros
parte referem-se as hipóteses de pesquisa de e os puris, seus primitivos habitantes. E houve
números 1, 2 e 322. de tudo, desde massacre até reescravização.
Posteriormente, procuramos localizar este Após a luta entre os forasteiros brancos e os
quilombo na documentação histórica levantadas quilombolas é que a santa milagrosa, Senhora
nas fontes, referentes aos quilombos dos séculos Santana, foi encontrada.
XVIII e XIX, em Minas Gerais. Nada foi encon- Um peão de um dos fazendeiros encontrou-
trado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, a em uma gruta, após seguir uma rês que se des-
nem no Arquivo Público de Minas Gerais, em garrara da manada. A vaca tinha o chifre partido
Belo Horizonte. Procuramos na Igreja Matriz de e o peão procurou saber onde ela tinha se ferido.
Carmo da Mata e Divinópolis este mesmo tipo Seguindo o rastro de sangue deixado pelo ani-
de documentação, também sem sucesso. mal encontrou, numa das grutas do sítio Calham-
bola, o que lhe pareceu ser a imagem de uma mu-
lher, com uma das mãos partida. Posteriormente,
acompanhado de outros negros, verificou que
se tratava de uma imagem de Senhora Santa, e
22 Hipótese nº 1: – O que ficou conhecido na historiografia
como quilombos são movimentos sociais arcaicos de reação ao todos acreditaram que o ferimento que ela cau-
sistema escravista, cuja particularidade foi a de inaugurar siste- sara à vaca fora devido a esta pertencer a um dos
mas sociais variados, em bases comunitárias. Hipótese nº 2: – A
variedade dos sistemas sociais, englobados no conceito único fazendeiros mais cruéis da região, um dos que
de quilombo, se deu em função das diferenças institucionais
entre estes sistemas. Hipótese nº 3: – O maior ou menor êxito na
mais maltratavam os negros e seus colonos.
organização dos sistemas sociais conhecidos como quilombos A imagem recebeu um “passe”, antes
deu-se em função do fortalecimento do sistema social domi-
nante e sua evolução através do tempo. de ser trazida para o arraial e entronizada na

113
igreja católica, cuja padroeira era Nossa Se- do padre da paróquia de Carmo da Mata, até a
nhora do Rosário. Trata-se de uma imagem de retirada da imagem, que ele considera perten-
ébano, madeira escura, em estilo barroco. Os cente aos negros, como conseqüentemente as
negros atribuem sua origem a um quilombola esmolas a ele entregues por ocasião de promes-
da região, o que mais tarde procuraram verifi- sas. E ao longo deste processo vê, ao mesmo
car em um Centro de Kimbanda. Constatado, tempo, procurando legalizar sua ascendência
por volta do meado deste século, que a santa branca, visando a recuperação das terras per-
pertencia ao quilombola da região, o que mais didas por seus ancestrais negros, ou seja, pelo
tarde procuraram verificar em um Centro de fato de ser filho natural de um dos fazendeiros
Kimbanda. Constatado, por volta do meado brancos, ele procura, através de documentos
deste século, que a santa pertencia ao quilom- em cartório, herdar as terras que pela “lei dos
bo, os comandantes do Reinado construíram brancos” pertence ao seu pai.
uma nova capela no sítio onde a imagem foi Este mestiço nos revelou, após uma ano de
encontrada e tenta, até o momento da pesquisa, pesquisa, o conflito que nos pareceu latente à
transferi-la para esta pequena capela. primeira vista. Este conflito processava-se em
Este procedimento dos comandantes do torno da posse da santa milagrosa pela comu-
Reinado, todos negros, levou-os a um confli- nidade negra, todos componentes do Reinado.
to com a Igreja Católica e com os brancos da Com isto, procuravam o domínio da renda das
região. festas e das esmolas por romarias à santa, além
Um dos filhos de uma das seis famílias da tomada das terras, seu objetivo final. Cons-
brancas, mais ou menos por volta de 1910, truíram, sob as liderança do Sr. Neca, filho de
passou a viver maritalmente com D. Idalina, a D. Idalina, a capela do Reinado fora da juris-
descendente dos quilombolas. Entre os vários dição direta da paróquia de Carmo da Mata. A
filhos negros desta mulher existe, pois, um capela foi construída com o dinheiro da Caixa
mestiço, filho do homem branco, descendente do Reinado, no alto do sítio calhambola, próxi-
dos fazendeiros. Este filho de D. Idalina tem mo à gruta onde a santa foi encontrada. Para
um papel relevante na comunidade. Suas ativi- lá pretendiam levá-la e lá organizar o Reinado
dades vão desde ser um bom lavrador, pas- autonomamente no ano de 1979.
sando por ser benzedor, a principal capitão do Como já dissemos, o Reinado dramatiza-
Reinado. Atuando como líder principal da co- va uma situ ação de conflito, mas com as in-
munidade, é ele quem dirige a luta contra os formações constantes dos depoimentos foi-nos
poderosos da região. Esta luta vai desde a re- possível verificar que ele objetivava o próprio
cuperação da Caixa de Auxílio Mútuo do Rei- conflito. Em torno dele, deveria haver uma
nado, que estava nas mãos dos brancos amigos demonstração das situações daquela comuni-

114
dade que fugiam á observação em outras épo- suas características geográficas. Os locais onde
cas não próximas ao evento chamado Reinado. se formaram quilombos, no passado, possuem
De agosto a setembro, época do Reinado, características climáticas e de relevo bastante
desenvolvemos a fase decisiva da pesquisa. similares. Questionamos até que ponto as carac-
Acompanhamos, como observadores partici- terísticas acima funcionam como pólo de atra-
pantes, entrevistadores e fotógrafos, procu- ção para a povoação de determinadas regiões
rando documentar não só a dramatização, bem ou, ainda, se estas características atraem ou não
como os conteúdos simbólicos do Reinado. a expansão da fronteira econômica, impedindo
Documentamos também, por entrevistas, os que se constituam em áreas vazias, capazes de
conflitos inter-raciais e inter classe da comuni- acomodar pequenos proprietários, seja bran-
dade com a sociedade geral, já que, no perío- cos ou negros. Questionamos, ainda, se não foi
do, houve a greve dos metalúrgicos minérios justamente esta característica, de ser região de
e muitos dos negros voltaram à região de ki- fronteira, que levou aos ataques e á destruição
lombo, fugindo da greve ou desempregados. dos quilombos no passado. Até que ponto, ain-
Observamos também as temporárias soluções da hoje, este problema se repete? Todas estas,
do conflito, ao nível da solidariedade, compa- são questões que nos remetem ao conceito de
drio e outras formas de coesão grupal, através continuidade histórica.
dos próprios festejos do Reinado. É muito comum encontrar no Brasil – mas
o vimos também em Angola – os quilombos se
localizando em planaltos ou colinas, nas pro-
Dificuldades e pretensões em função da ximidades de rios, ou outros caminhos naturais,
pesquisa possuindo clima bastante específico, onde as
condições do Sol e de outros astros dão uma
Entre as dificuldades encontradas nesta eta- sensação de espaço aberto, diríamos, oceânica
pa do trabalho, ressaltamos a que se refere à au- e infinito. Figura, por isso, a características de
sência de especialistas na equipe, não só na área fronteira, não só geográfica, como também de-
das ciências humanas, mas também na área tec- mográfica, econômica e cultural que estas orga-
nológica. Assim, um geógrafo e um antropólogo nizações possuem.
ou um lingüista seriam presenças importantes. Em Angola, pelo levantamento que
É do nosso interesse ampliar o conceito de fizemos, isto ficou patente, e trouxemos esta
quilombo, de modo a extrapolar sua característi- impressão observada a fim de verificar se o
ca puramente histórica, na media em que uma mesmo ocorria no Brasil. Sabemos que, no pas-
das principais hipóteses da pesquisa refere-se sado, isto pode ter ocorrido, e é parte de nos-
à permanência de populações em função de sas constatações a importância econômica dos

115
quilombos. Tal constatação leva-nos à hipótese porquê deste deslocamento, ou seja, que in-
de que os quilombos são importunados, no ter-relações possuíam estes chefes; se isto era
passado, por se encontrarem em terras próprias praxe dos quilombolas, procurando se reor-
para tipos vários de exploração econômica por ganizar com os outros, ou mesmo procurar
parte do sistema econômico dominante. Esta a refúgio junto aos quilombolas que não tinham
razão dos ataques e da destruição. sido, ainda, reprimidos. Gostaríamos mesmo
Em função do estudo da mentalidade e de saber se este procedimento levava também
dos componentes simbólicos hoje representa- em conta um certo sentido de nação por parte
dos na concepção de mundo da comunidade destes quilombolas.
estudada, em função da sua história passada, Dos demais Estados, fizemos o levanta-
teríamos que recorrer a outros cientistas que mento dos quilombos que estavam na área
pudessem, conosco, melhor esclarecer e con- de influência de Antônio Conselheiro, no in-
ferir corpo teórico às impressões que tivemos terior da Bahia. Utilizamos documentação
sobre estes fatores, impressões baseadas, tão secundária e o recenseamento demográfico de
somente, em nosso conhecimento histórico. 1872. Abrangemos quilombos atacados cujos
Outro problema que se nos apresentou foi integrantes ingressaram nas hostes do líder
a extensão e ambição do projeto original. Se- nordestinos, no final do século passado.
gundo este, a pesquisa desenvolver-se-ia em Faltam-nos, portanto, grosso modo,
quatro Estados. Até o momento, efetuamos três Estados, e o estudo de campo de alguns
somente o trabalho de campo, aliado ao estu- quilombos da Bahia como os de Orobó, o de
do de documentos no Estado de Minas Gerais Nossa Senhora dos Mares e Cabula, e o do Bu-
e, assim mesmo, não pudemos ir ao quilombo raco do Tatu.
de Serro. Nesta pesquisa, contamos com o apoio fi-
Embora nossa concepção do estudo sobre nanceiro da Ford Foudantion e, como auxiliar
quilombos não leve em conta a preservação de pesquisa, contamos com Marlene de Oliveira
de componentes lingüísticos, de cultura e de Cunha, a quem agradecemos profundamente.
etnia especificamente africanas, pensamos em
estudar e pesquisar em campo este quilombo,
que foi um dos mais importantes do país, onde
figurava somente um tipo de etnia. Seu chefe,
o quilombola Isidoro, na época da destruição
de Serro, caminha por Minas Gerais em busca
de Ambrósio e seu quilombo da Comarca do
Rio das Mortes e nós gostaríamos de saber o

116
O conceito de quilombo e a resistência procedimento de historiadores desta parte do
cultural negra • mundo repousa na ruptura da identidade dos
negros e seus descendentes, tanto em relação
Beatriz Nascimento •• ao seu passado africano quanto à sua trajetória
na própria história dos países em que foram
alocados após o tráfego negreiro.
Objetivos
Numerosas foram as formas de resistên-
1) Caracterizar o quilombo como institui- cia que o negro manteve ou incorporou na luta
ção africana, de origem angolana, na história árdua pela manutenção da sua identidade pes-
da pré-diáspora. soal e histórica. No Brasil, poderemos citar uma
2) Indicar as conotações que tal instituição lista destes movimentos que no âmbito social
recebe no período colonial e Imperial no Brasil. e político é o objetivo do nosso estudo, Trata-
3) Caracterizar a instituição quilombo na se do Quilombo (Kilombo), que representou na
passagem para princípios ideológicos como história do nosso povo um marco na sua capa-
forma de resistência cultural. cidade de resistência e organização. Todas estas
4) Historicizar a ideologia junto às etapas formas de resistência podem ser compreendi-
do movimento de conscientização do negro e das como a história do negro no Brasil.
da sociedade brasileira no século XX.
O quilombo como instituição africana
Introdução
Dois incentivos iniciais fizeram com que
A visão que o mundo ocidental procurou os portugueses, ao contrário dos demais euro-
transmitir da África foi a de um continente iso- peus, se internassem no continente africano e
lado e bizarro, cuja História foi despertada com procurassem conquistar uma colônia em Ango-
a chegada dos europeus. Da mesma forma que la. O primeiro seria repetir o caso brasileiro, ou
se deu com o território de origem do povo ne- seja, adquirir terras próprias para se fixar como
gro, a História deste só o é se tiver sido marca- naquela colônia americana. O Segundo objeti-
da por acontecimentos significantes da História vava encontrar minério precioso em Angola,
da civilização ocidental. O risco maior de tal objetivo logo frustrado.
Os Europeus descobriram ainda no século
XV que a maior fonte de riquezas era o tráfico
escravista. O Brasil passou a ser o maior recep-
• Publicado originalmente em: Afrodiáspora Nos. 6-7, pp. 41-
49. 1985. tor desta “mercadoria” nos meados do século
•• Beatriz Nascimento é historiadora, professora da UFRJ e
militante do movimento negro. XVI. Decorrente da procura de escravos inten-

117
sificou-se a penetração interior, geralmente or- David Birmingham dá bem a mediada
ganizada pelo rei do Congo que orientava os dos conflitos existentes nas socieades bantus
ataques dos portugueses. da África centro-ocidental no momento da
A “zona de caça” preferida era a região da penetração portuguesa. Diversas etnias se en-
etnia mbundu, no sul de Angola. No século XVII trechocam, se sucedem no mesmo espaço, seja
os portugueses verificaram definitivamente aderindo ao novo momento, seja resistindo a
que o comércio humano mais que qualquer esta penetração. Dentre estas vamos encontrar
atividade atendia aos interesses coloniais. Três os Imbangalas, também conhecidos como Ja-
métodos principais se mostraram eficazes para gas, caçadores vindos do Leste que, por volta
este empreendimento. O primeiro baseava-se de 1560, começam a invadir o Reino do Congo
na compra por traficantes nos mercados dos po- e que por volta de 1569 tinham conseguido ex-
vos mais afastados, junto às fronteiras do Con- pulsar o rei e os portugueses da capital, obrig-
go e de Angola. Mpunbu, povo fixado próximo ando-os a exilar-se numa ilha no rio. Entre 1571
ao lago Stanley, deu nome a estes traficantes, e 1574 os europeus, usando armas de fogo, fa-
os famosos pombeiros. O segundo método zem recuar este combativo povo.
consistia na forma de obter escravos através da Dez anos mais tarde os Imbangalas com-
imposição de tributos aos chefes mbundus con- batiam ao lado dos mbundu contra a penetra-
quistados. Tal tributo era pago em jovens escra- ção portuguesa. Sua entrada no território do
vos adultos conhecidos sob o nome de peças da mbundus foi precedida de uma luta feroz entre
índia. O terceiro método de adquirir escravos Ngola, chefe dos mesmos, e Kingui, chefe dos
era através de guerras diretas. Os governadores Imbangala.
eram os mais interessados neste último proce- Os Imbangalas que dominaram Angola
dimento. Alguns deles, com interesses no Bra- eram considerados um povo terrível, que vivia
sil, preocupavam-se em abastecer de escravos inteiramente do saque, não criava gado, nem
suas próprias terras americanas. possuía plantação. Ao contrário das ouras linha-
Ao entrar no continente africano, os euro- gens, não criavam os filhos, pois estes poderiam
peus encontraram sociedades de diversos tipos, atrapalhá-los nos diversos deslocamentos que
naquele momento em processo de redefinição, se faziam necessários. Matavam-nos ao nascer
na medida em que surgia em alguns pontos a e adotavam os adolescentes das tribos que der-
organização do Estado. Este, como o exemplo rotavam. Eram antropófagos e em sua cultura
do Reino do Congo, chocava-se com algumas adereços, tatuagem e vinho de palma tinham
formações tradicionais, como no caso das for- especial significado.
mações baseadas no modo de produção de Esta característica nômade dos Imbanga-
linhagem da qual o mbundus faziam parte. las, acrescida da especificidade de sua forma-

118
ção social, pode ser reconhecida na instituição Observando-se a interrelação entre Brasil e
Kilombo. A sociedade guerreira Imbangala era Angola, frente ao tráfico negreiro, não é difícil
aberta a todos estrangeiros desde que iniciados. estabelecer conexão entre a história desta ins-
Tal iniciação substitui o rito de passagem das tituição na África (Angola) e aqui. A dificuldade
demais formações de linhagem. Por não con- está em se estabelecer linhas de contato direto,
viverem com os filhos e adotarem os daquelas como por exemplo, entre a formação de um
formações com as quais entravam em contato, quilombo aqui e suas origens territoriais e de
os Imbangalas tiveram papel relevante neste composição étnica em Angola. Se os componen-
período da história angolana, a maior parte das tes nacionais eram descendentes diretos dos en-
vezes na resistência aos portugueses, outras volvidos na África, ou ainda se haveria relação
no domínio de vastas regiões de fornecimento direta com quilombos combativos aqui e gru-
de escravos. Por tudo isto, o Kilombo cortava pos africanos que atuavam na zona de guerra
transversalmente as estruturas de linhagem e naquele momento do outro lado do Atlântico.
estabelecia uma nova centralidade de poder
frente às outras instituições de Angola.
O quilombo como instituição no período
O ritual de iniciação baseava-se na prática
colonial e Imperial no Brasil
da circuncisão que expressava o rito de passa-
gem incorporando jovens de várias linhagens A primeira referência a quilombo que surge
na mesma sociedade guerreira. Kilombo aqui em documento oficial português data de 1559,
recebe o significado de instituição em si. Seria mas somente em 1740, em 2 de dezembro, assus-
Kilombo os próprios indivíduos ao se incorpo- tadas frente ao recrudescimento dos núcleos de
rarem à sociedade Imbangala. população negra livres do domínio colonial, de-
O outro significado estava representado pois das guerras do nordeste no século XVII, as
pelo território ou campo de guerra que se de- autoridades portuguesas definem, ao seu modo,
nominava jaga. o que significa quilombo: “toda a habitação de
Ainda outro significado para Kilombo di- negros fugidos que passem de cinco, em parte
zia respeito ao local, casa sagrada, onde proces- desprovida, ainda que não tenham ranchos le-
sava-se o ritual de iniciação. vantados nem se achem pilões neles”.
O acampamento de escravos fugitivos, as- Como esclarecimento, as guerras do nor-
sim como quando alguns Imbangalas estavam deste referidas acima dizem respeito à destruição
em comércio negreiro com os portugueses, do Quilombo dos Palmares, assim como toda a
também era Kilombo. agitação que se processou ao redor deste núcleo.
Mais tarde, no século XIX, as caravanas de Dos quilombos brasileiros, no século XVII,
comércio em Angola recebiam esta denominação. sem dúvida Palmares se sobressai sem similar.

119
Das notícias da época, a quantidade destes es- Certo é que o nome Angola dado ao ter-
tabelecimentos está diretamente relacionada ritório colônia africano derivou do nome do rei
ao desmembramento deste grande estado que mbundu N‘gola, o qual emprestou-o aos seus
inaugura uma experiência singular na História diversos descendetes-sucessores. Provavel-
do Brasil. mente representantes desta dinastia africana
Se inferirmos, através de coincidência de são transferidos pelo tráfico para o Brasil. Cer-
datas, vamos notar que o Quilombo de Pal- to é que estejam em Palmares também como
mares não deixa de ser fenômenos paralelo ao chefes do estabelecimento sedicioso. Provável
que está se desenrolando em Angola no final que o segundo nome janga – variação de jaga
do século XVI e início do século XVII. Talvez – demonstra a união destas duas linhagens che-
seja este quilombo o único a se poder fazer cor- fiando o Quilombo de Palmares, porque assim
relação entre o Kilombo instituição angolana e estavam relacionados no controle do território
quilombo no Brasil colonial. O auge da resistên- mbundu em Angola.
cia Jaga se dá exatamente entre 1584 e meados Estas considerações em torno deste Quilom-
do outro século, após o qual esta etnia se alia ao bo no Brasil nos dão a medida do quanto as re-
esforço negreiro português. Neste mesmo mo- alidades de Brasil e Angola estavam num está-
mento se estrutura Angola-Janga, conhecido gio ainda possível de inter-relação. Os demais
como quilombo dos Palmares no Brasil. quilombos vão se distanciando do modelo afri-
Alguns outros fatores coincidentes com a re- cano e procurarão um caminho de acordo com
alidade angolana podem ser remarcados, como as suas necessidades em território brasileiro.
por exemplo, a nominação do chefe africano de Falta ainda um esforço historiográfico de, ao
Palmares Ganga Zumba. Tal título era dado ao estudar os quilombos brasileiros, defini-los se-
rei Imbangala com uma pequena variação: Gaga. gundo suas estruturas e sua dinâmica no tempo.
O adorno da cabeleira verificado pelo cronista De um modo geral define-se quilombo como se
quando o rei palmarino conferencia em Recife em todo o tempo de sua história fossem aldeias
a trégua que tem o seu nome: era costume do do tipo que existia na África, onde os negros se
Imbangala Calando, por exemplo, usar o cabelo refugiavam para “curtir o seu banzo”.
em tranças longas adornadas de conchas, como No período colonial o quilombo se carac-
sinal de autoridade. O estilo da guerra, baseada terizou pela formação de grandes Estados, como
numa máquina que se opunha em várias frentes o da Comarca do Rio das Mortes em Minas
aos prováveis inimigos da instituição, ou seja, a Gerais, desmembrado em 1750. Podemos afir-
corte transversal e a centralidade nova frente ao mar que como Palmares este quilombo age de
regime colonial. Por fim, o nome dual da insti- acordo com as condições estruturais, inclusive
tuição no Brasil Angola-Janga. econômica, no contexto dos “ciclos” econômicos

120
no Brasil. Antes o açúcar de Pernambuco, agora Além disso, aliado no espaço e no tempo
o ouro em Minas Gerais. ao sistema social escravagista não seria de todo
Dentro desta perspectiva se é possível en- impossível em alguns momentos tal instituição
cará-los como sistemas sociais alternativos, ou interferir na economia dos grandes quilombos.
no dizer de Ciro Flamarion: brechas no sistema Um exemplo de tal prática infere-se do assen-
escravista. timento de Ganga-Zumba em transformar os
Um ponto importante e em certa medida palmarinos não-adesistas à trégua de Recife em
controverso é a atitude desses grandes estab- escravos coloniais.
elecimentos frente ao regime da escravidão. É Mas é preciso recordar que o escravo colo-
preciso reforçar, que o Africano não é um ser nial, ao aderir ao quilombo, muitas vezes pode-
estereotipado na acepção do “bon sauvage” ria fazê-lo na condição do escravo voluntário.
e que a África não era necessariamente um É perfeitamente compreensível desde que tal
paraíso bizarro. prática era largamente utilizada em África.
A instituição da escravidão era conhecida Isto posto, o que difere entre quilombos
e utilizada desde a Antiguidade africana, en- do século XVII dos demais era a possibilidade
tretanto esta escravidão não tinha o caráter de de grupos e etnias comuns ainda poderem ser
“propriedade” encontrado no sistema escra- encontrados num espaço territorial e voltados
vagista colonial. Antes, diversos fatores leva- para um tipo de economia, o que dá a medi-
vam um homem livre à condição de escravo, da de risco que representavam para o sistema
entre eles as guerras vizinhas em momento de colonial. Podemos mesmo afirmar que estes
instabilidade política; os filhos de mãe escrava quilombos são o primeiro momento da nossa
não resgatados; dependência devido a castigo história em que o Brasil assim se identifica en-
imposto pela quebra de normas grupais, peri- quanto Estado centralizado.
go de vida dentro do grupo que poderia levar A partir do desmembramento dos quilom-
ao pedido de proteção de outra linhagem, a bos do Tijuco e da Comarca do Rio das Mortes
chamada “escravidão voluntária”. no século XVIII, o quilombo se redefine vari-
Frente a este último fator, o quilombo ando conforme a área geográfica, a repressão
sendo uma instituição de homens egressos da oficial e a diversidade étnica, que se torna cada
escravidão colonial ou em perigo frente a esta, vez mais comum quanto foi a política negreira
cujos laços estavam baseados em condições de misturar povos de origem diversa.
extraordinárias, poderia perfeitamente fazer Neste século a proliferação de quilombos
uso destes mecanismos tradicionalmente con- se faz em todo território das capitanias coloni-
hecidos e suportar no seu interior a prática da ais. A diferença básica ente estes e os do século
escravidão. XVIII está diretamente vinculada à impossibili-

121
dade de cada um em si representar um risco ao Outro dado importante do período é que
sistema. Nesse particular, tanto no século XVII os quilombos de grande porte se encontram em
quanto no século XIX, esta instituição procede morros e periferias dos centros urbanos mais
como frinchas nos sistema, muitas vezes con- importantes como o de Catumbi, o do Corcova-
vivendo pacificamente, que ao ser vista global- do, o de Manuoel Congo, no Rio de Janeiro im-
mente, ou seja, em todo o espaço territorial e perial. Muitos destes quilombos se organizam
em todo o tempo histórico, traduzia uma ins- dentro de um arcabouço ideológico, ou seja, a
tabilidade inerente ao sistema escravagista. A fuga implica numa reação ao colonialismo. Já
oscilação das atividades econômicas, ora numa existe neste momento a tradição oral ao lado de
região, ora noutra, provocava muitas vezes o af- referências literárias do fenômeno no passado.
rouxamento dos laços entre os escravos e senho-
res. A fuga passa a ser uma instituição decor-
O quilombo como passagem para princípios
rente desta fragilidade colonial e integrante da
ideológicos
ordem do quilombo. O saque, as razzias, enfim
o banditismo social, são a tônica que define a É no final do século XIX que o quilombo
sobrevivência desses aglomerados. recebe o significado de instrumento ideológico
É assim que no Código de Processo Penal contra as formas de opressão. Sua mística vai
de 1835 o quilombo no sentido de valhacouto de alimentar o sonho de liberdade de milhares de
bandidos se distingue de qualquer outra forma escravos das plantações em São Paulo, mais das
de contestação dos escravos. Mas se assemelha vezes através da retórica abolicionista.
enquanto perigo à estabilidade e integridade do Esta passagem de instituição em si para
Império, sendo a pena para os seus integrantes símbolo de resistência mais uma vez redefine
correspondentes à mesma dos participantes de o quilombo. O surgimento do quilombo do
insurreições: ou seja, a degola. Jabaquara é o melhor exemplo. Os negros fugi-
Neste período ele está inserido no chama- dos das fazendas paulistas migram para Santos
do “perigo negro”, movimento que assim se em busca de um quilombo que era apregoado
denomina em função das guerras da Bahia e pelos seguidores de Antonio Bento, quilombo
do Maranhão. Sindicâncias policiais são feitas este que na verdade viria a ser uma grande
de acordo com denúncias, muitas vezes não favela, frustrando aquele ideal de território
confirmadas. Em outras ocasiões são encon- livre onde se podia dedicar às práticas culturais
trados grupos sociais que desenvolvem nos africanas e ao mesmo tempo uma reação mili-
quilombos intensas práticas religiosas. Como tar ao regime escravocrata.
o Exemplo do quilombo de N.Sa. dos Mares e É enquanto caracterização ideológica que
Cabula, em Salvador. o quilombo inaugura o século XX. Tendo fin-

122
dado o antigo regime, com ele foi-se o estabe- um Brasil mais justo onde houvesse liberdade,
lecimento como resistência à escravidão. Mas união e igualdade.
justamente por ter sido durante três séculos Ao analisarmos esta conotação, não
concretamente uma instituição livre, paralela poderíamos esquecer da heroicidade tão in-
ao sistema dominante, sua mística vai alimentar trinsecamente ligada à história dos quilombos.
os anseios de liberdade da consciência nacional. Como não poderia deixar de ser, a figura do
Assim é que na trilha da Semana de 22, a edição herói é enormemente destacada, principalmente
da coleção Brasiliana da Editora Nacional pu- a figura de Zumbi, e isto mais do que tudo neste
blica três títulos sobre o quilombo, de autores período ganha uma representação capaz de ao
como Nina Rodrigues, Ernesto Enne, e Edison lado de muito poucos a imagem deste chefe se
Carneiro. Não deixando de citar Artur Ramos e confundir com uma alma nova nacional.
Guerreiro Ramos, além, da versão romanceada Não chega a ser exagero afirmar que en-
um pouco anterior de Felício dos Santos. tre 1888 e 1970, com raras exceções, o negro
Este momento de definição da naciona- brasileiro não pôde expressar-se por sua voz na
lidade faz com que a produção intelectual se luta pelo reconhecimento de sua participação
debruce sobre este fenômeno buscando seus social. Soa interessante que tal expressão vem
aspectos positivos como reforço de uma iden- há a acontecer num momento em que o país es-
tidade histórica brasileira. Mas não só nela, tava sufocado sob uma forte repressão ao livre
em outras manifestações artísticas o quilombo pensamento e à liberdade da reunião. Este era
é relembrado como desejo de uma utopia. A o momento dos anos 70.
maior ou menor familiaridade com as teorias Talvez por ser um grupo extremamente
da resistência popular marcam esta produção, submetido e que não oferecia um imediato
que é inclusive demonstrada em letras de perigo às chamadas instituições vigentes, os ne-
samba. Muitas vezes referidas em instituições gros puderam inaugurar um movimento social
escolares. É comum até 1964 a narrativa da baseado na verbalização ou discurso veiculado
história oficial ser encontrada nos livros esco- à necessidade de auto-afirmação e recuperação
lares. De todo modo, até os anos 70, o quilom- da identidade cultural.
bo adquire este papel ideológico fornecendo Foi a retórica do quilombo, a análise deste
material para a ficção participativa como o como sistema alternativo, que serviu de símbo-
caso da peça teatral Arena Contra Zumbi, bus- lo principal para a trajetória deste movimento.
cando o reforço da nacionalidade brasileira Chamamos isto de correção da nacionalidade.
através do filão da resistência popular às for- A ausência de cidadania plena, de canais rei-
mas de opressão, confundido num bom sen- vindicatórios eficazes, a fragilidade de uma
tido o território palmarino com a esperança de consciência brasileira do povo, implicou numa

123
rejeição do que era considerado nacional e di- povo negro, sinônimo de comportamento do
rigiu este movimento para a identificação da negro e esperança para uma melhor sociedade.
historicidade heróica do passado. Passou a ser sede interior e exterior de todas
Como antes tinha servido de manifesta- as formas de resistência cultural. Tudo, de ati-
ção reativa ao colonialismo de fato, em 70 o tude à associação, seria quilombo, desde que
quilombo volta-se como código que reage ao buscasse maior valorização da herança negra.
colonialismo cultural, reafirma a herança afri- Hoje, o 20 de novembro é data instituída de
cana e busca um modelo brasileiro capaz de fato no calendário cívico nacional, como Dia da
reforçar a identidade étnica. Consciência Negra ou Afro-Brasileira.
Toda a literatura e a oralidade histórica so-
bre quilombos impulsionaram este movimento
Considerações finais
que tinha como finalidade a revisão de concei-
tos históricos estereotipados. Este esboço de estudo tentou trazer uma
Com a publicação de artigo no Jornal do unidade no tempo do fenômeno quilombo. Foi
Brasil em novembro de 1974, o grupo Palmares escolhido um método descritivo por acharmos
do Rio Grande do Sul, do qual participava en- que caberia este esforço na medida em que as
tre outros o poeta Oliveira Silveira, sugeria que variáveis do quilombo são negligenciadas ofi-
a data de 20 de novembro, lembrando o assas- cialmente. Por outro lado seria necessário um
sinato de Zumbi e a queda do Quilombo dos corpo analítico para se compreender por que
Palmares, passasse a ser comemorada como este fenômeno sobrevive no inconsciente cole-
data nacional contrapondo-se ao 13 de maio. tivo dos negros e da inteligência brasileira.
Argumentava que a lembrança de um acon- Durante sua trajetória o quilombo serve de
tecimento em todo os sentidos dignificante da símbolo que abrange conotações de resistên-
capacidade de resistência dos antepassados cia étnica e política. Como instituição guarda
traria uma identificação mais positiva do que características singulares do seu modelo afri-
a Abolição da escravatura, até então vista como cano. Como prática política apregoa ideais de
uma dádiva de cima para baixo, do sistema es- emancipação de cunho liberal que a qualquer
cravagista e de S. Altera Imperial. momento de crise da nacionalidade brasilei-
Sua sugestão foi imediatamente aceita e ra corrige distorções impostas pelos poderes
a procura de maiores esclarecimentos sobre dominantes. O fascínio de heroicidade de um
aqueles fenômenos de resistência tomou forma povo regularmente apresentado como dócil
de aulas, debates, pesquisas e projeções que e subserviente reforça o caráter hodierno da
alimentaram o anseio de liberdade de jovens comunidade negra que se volta para uma ati-
através de entidades, escolas, universidades e tude crítica frente às desigualdade sociais a
da mídia. Quilombo passou a ser sinônimo de que está submetida.

124
Por tudo isto o quilombo representa um Daquilo que se chama cultura •
instrumento vigoroso no processo de reco-
nhecimento da identidade negra brasileira para Beatriz Nascimento••
uma maior auto-afirmação étnica e nacional.
O fato de ter existido como brecha no sistema
No ensaio “Moisés e o Monoteísmo” [,]
em que negros estavam moralmente submeti-
Freud arrisca-se a adentrar num campo, se não
dos projeta uma esperança de que instituições
estranho, surpreendente. No decorrer da leitu-
semelhantes possam atuar no presente ao lado
ra deste texto [,] chama-nos a atenção, de nosso
de várias outras manifestações de reforço à
prisma leigo, que um psicanalista, concebido
identidade cultural.
como interessado mormente na problemática
individual, enverede pela trajetória mítico-reli-
giosa da comunidade à qual pertencia. Faz-se
Bibliografia
curioso notar o fato de um judeu ilustre tentar
explicar, psicanaliticamente, a origem e a fun-
BIRMINGHAM, David (1973). A conquista
ção do mito do herói exatamente sob a égide
Portuguesa de Angola: a Regra do Jogo. Lisboa.
ameaçadora do nazismo. Surpreende-nos não
CARNEIRO, Edison (1965). O Quilombo
só a temática, o mito do herói, mas também o
dos Palmares. Rio Civilização Brasileira.
momento histórico no qual Freud se debruçou
CONRAD, Robert (1975). Os últimos
sobre esta. Seria possível estabelecer uma co-
anos da escravatura no Brasil. Rio: Civilização
nexão entre esses dois elementos? É o que pro-
Brasileira/ MEC.
curaremos investigar.
FREITAS, Décio (1971). Palmares, a guerra
Interessa-nos apurar até que ponto o en-
dos escravos. Porto Alegre: Editora Movimento.
saio “Moisés e o Monoteísmo”, poderia ser con-
NASCIMENTO, Abdias (1980). O Quilom-
siderado como produto da crítica da identidade
bismo. Rio/Petrópolis: Editora Vozes.
pessoal e cultural do autor23. Como poderíamos
NASCIMENTO, Maria Beatriz (1978). “O
compreender seu interesse pela análise do herói
quilombo do Jabaquara”. Revista de Cultura
Vozes (maio-junho).
RODRIGUES, José Honório (1970). “A re-
beldia negra e a abolição”, História e Historio-
grafia. Petrópolis: Vozes. • Publicado originalmente em: Jornal IDE. No. 12. Sociedade
SERRANO Carlos (1982). “História e Brasileira de Psicanálise – São Paulo. Dezembro, 1986, p. 8.

antropologia na pesquisa do mesmo espaço: a •• Beatriz Nascimento é negra, historiadora e engajada no


Movimento Negro.
Afro-América”. África – Revista do Centro de 23 Grifo da autora na versão datilografada. Arquivo Nacional.
Estudos Africanos da USP (nº 5). Código 2D. Cx. 22. Doc. 4.

125
civilizador24 enquanto componente psicossocial da vinculação de nossos ancestrais com nossa
de um grupo contestado e perseguido? Por que história de vida. Conseqüentemente, a extrema
Freud foi movido a investigar as raízes do sen- importância assumida pela comprovação da
timento que liga um povo a seu herói? existência terrena, histórica, daquele escolhido
Perguntamo-nos porque um povo carente, como herói civilizador da cultura negra brasilei-
discriminado e com parcos recursos educa- ra, dado que este herói poderia ser compartil-
cionais procurou, dentre as múltiplas formas hado dentre os aqui nascidos: negros, índios e
de crítica às relações do sistema, intermediar brancos também. O mito surge, então, do real
um mito histórico. A que simbolismo isto nos para o simbólico e o herói seria mormente um
remete? Seria incorreto opinarmos que o res- conciliador banido da própria história do Brasil,
gate da figura histórica baseia-se num complexo preencheria a lacuna daqueles que, vivos, em
de culpa, analogamente à análise freudiana de vinte anos (1964-1984) foram cassados em seus
Moisés? De qualquer maneira, é a resolução de direitos individuais e privados de seus símbo-
um “complexo” o que aparenta levar os interes- los coletivos. A culpa pelo parricídio poderia
sados a revigorar a imagem positiva do mito, ser atribuída a um setor específico, a saber – os
previamente associada a um bandido. Talvez, representantes das seqüelas da moral colonial
esta seja a forma de alcançarmos, também, uma que assassinou e baniu “Zumbi de Palmares”.
auto-imagem positiva. Se não houver culpa liga- Lembramos a citação de Bertold Brecht:
da a um passado de escravos, há um complexo “infeliz do povo que necessita de heróis”. En-
interpretativo onde a identificação total com o quanto necessitarmos criar e recriar heróis,
fraco, o vencido o inumano é insuficiente para, codificar e recodificar símbolos, somos, ainda,
ao nível da luta do dia-a-dia, contrapor-se às muito infelizes.
formas de discriminação. Este enfrentamento,
em última instância requer o reforço do ego.
O mito da terra prometida – o Quilombo A mulher negra e o amor •
de Palmares – a edificação do herói Zumbi, ci-
vilizador de uma cultura negra, atraem outras Beatriz Nascimento
codificações que não as já estereotipadas pela
tradição e pela história. À sombra deste mito Pode parecer estranho que tenhamos esco-
recriado circulam outras manifestações ocultas lhido a condição amorosa e não sexual para nos
até então, tais como as religiões afro-brasileiras,
conduzindo à compreensão, na linha do tempo,

• Publicado originalmente em: Jornal Maioria Falante, No.


24 Idem. 17,Fev – março, 1990, p. 3.

126
referir ao estado de ser mulher e preta no meu com extremas separações políticas, sociais e
país. A escolha do tema funda-se em histórias individuais à sociedade do europeu, através da
de vida e na observação de aspectos da afe- máquina colonialista.
tividade de mulher frente à complexidade das Esta contradição histórica no terreno das
ligações heterossexuais. idéias e do real impunha o poder da razão, no
A temática da sexualidade nas relações seu interior. Para exemplificar a mecânica dessa
homem e mulher atualmente, é cada vez mais ideologia na prática do pensamento ocidental
encarada do ponto de vista político ou sociológi- onde à afirmação corresponde à negação, re-
co. Ou seja, perpassa na discussão a questão flitamos sobre esta frase de Martinho Lutero no
do poder: o status dominante do elemento século XVIII: “a razão é uma mulher astuta”.
masculino em detrimento do outro elemento, Contraporíamos: logo, é preciso que seja apri-
o feminino. Recorre-se a explicações econômi- sionada pelo homem e expressada pelo atribu-
cas, sociais e políticas, enfatizando [o] papel to masculino, só assim pode ser dominante.
do trabalho, visto como fator de resolução da Por esse pensamento formulado, a mulher
desigualdade, ou propulsor de um igualitaris- seria um homem, embora não sendo total. Se-
mo entre os dois sexos. ria ciclicamente homem, conforme seu próprio
Em princípio, a retórica política do mundo ciclo natural (puberdade e maternidade). Fora
moderno está calcada no liberalismo do Ilustra- desses estados sua capacidade de trabalho es-
cionismo europeu no século XVIII. Persegue-se taria a reboque da necessidade do desenvolvi-
o ideal de igualdade entre os agentes sociais mento econômico (mão de obra anexada ou
das sociedades humanas. Fruto da reflexão na excludente de acordo com as variações da eco-
Economia, que invadiu a Filosofia e privilegiou nomia). Fora destes espaços, ou mesmo aí ela
o indivíduo mais que o grupo, o Ilustracionis- não o é. Será a razão fora de lugar, ou exercerá
mo adiciona a todo Universo da Humanidade sua razão fora do campo produtivo.
a noção masculina e sobre determinada do Vai recobrir a mulher a moral totalizadora,
produtor, que tem como recompensa do seu seja enquanto agente ou enquanto submetida.
esforço o privilégio de ser o chefe. Foi forjada Revestir-se-á de fantasias, de sonhos, de utopia,
no Ocidente uma sociedade de homens, iden- de eroticidade não satisfeita e estagnada pela
tificando não só o gênero masculino, mas a condição específica da usa arquitetura física e
espécie no seu todo. Essa perspectiva possuía psicossocial.
um devir utópico, previa-se um mundo sem Dentro desse arcabouço qualquer ex-
diferenças. Entretanto, ao contrário do pensa- pressão do feminino é revestida pela institui-
mento Iluminista naquele momento proces- ção moral. Representa em si a desigualdade
sava-se a anexação de sociedades e culturas caracterizada pelos conflitos entre submissão

127
x dominação; atividade x passividades, infan- Quanto ao homem negro, geralmente
tilização x maturação. A contrapartida a esse despreparado profissionalmente por força de
estado de coisas coloca a mulher num papel contingências históricas e raciais tem na mu-
desviante do processo social, onde a violência lher negra economicamente ativa um meio de
é a negação de sua auto-estima. sobrevivência, já que à mulher se impõe, como
A mulher negra na sua luta diária durante sabemos, dupla jornada.
e após a escravidão no Brasil, foi contemplada Entretanto, nem todas as mulheres negras
como mão-de-obra, na maioria das vezes não estão nesta condição. Quando ela escapa para
qualificada. Num país em que só nas últimas outras formas de alocação de mão-de-obra,
décadas desse século, o trabalho passou a ter dirigem-se, ou para profissões que requerem
o significado dignificante o que não acontecia educação formal ou para a arte (a dança). Nes-
antes, devido ao estigma da escravatura, repro- tes papéis elas se tornam verdadeiras exceções
duz-se na mulher negra “um destino histórico”. sociais. Mesmo aqui, continua com o papel de
É ela quem desempenha, em sua maioria, os mantenedora, na medida em que, numa famí-
serviços domésticos, os serviços em empresas lia preta são poucos os indivíduos a cruzarem
públicas e privadas recompensadas por baixís- a barreira da ascensão social. Quando cruzam,
simas remunerações. São de fato empregos variadas gamas de discriminação racial dificul-
onde as relações de trabalho evocam as mes- tam os encontros da mulher preta, seja com ho-
mas da Escravocracia. mens pretos, sejam os de outras etnias.
A profunda desvantagem em que se encon- Por exemplo, uma mulher preta que atinge
tra a maioria da população feminina repercute determinado padrão social, no mundo atual,
nas suas relações com o outro sexo. Não há a requer cada vez mais relações de parceria, o
noção de paridade sexual entre ela e os elemen- que pode recrudescer as discriminações a essa
tos do sexo masculino. Essas relações são mar- mulher específica. Pois uma sociedade organi-
cadas mais por um desejo amoroso de repartir camente calcada no individualismo tende a
afeto, assim como o material. Via de regra, nas massificar e serializar as pessoas, distanciando
camadas mais baixas da população cabe à mu- o discriminado das fontes de desejo e prazer.
lher negra o verdadeiro eixo econômico onde A parceria, elemento de complementação
gira a família negra. Essa família, grosso modo, em todas as relações, inclusive as materiais, é
não obedece aos padrões patriarcais, muito obstruída e restringida na relação amorosa da
menos os padrões modernos de constituição mulher.
nuclear. São da família todos aqueles (filhos, Quanto mais a mulher negra se especializa
maridos, parentes) que vivem em dificuldades profissionalmente numa sociedade desse tipo,
de extrema pobreza. mais ela é levada a individualizar-se. Sua rede de

128
relações também se especializa. Sua construção transformando este em dinamizador cultural e
psíquica, forjada no embate entre sua individ- social (envolvimento na atividade política, por
ualidade e a pressão da discriminação racial, exemplo), buscando mais a paridade entre os
muitas vezes surge como impedimento à atra- sexos do que a “igualdade iluminista” . Rejei-
ção da discriminação racial, muitas vezes surge tando a fantasia da submissão amorosa, pode
como impedimento à atração do outro, na medi- surgir uma mulher preta participante, que não
da em que este, habituado aos padrões formais reproduza o comportamento masculino autori-
de relação dual, teme a potência dessa mulher. tário, já que se encontra no oposto deste, po-
Também ela, por sua vez, acaba por rejeitar es- dendo assim, assumir uma postura crítica in-
ses outros, homens, masculinos, machos. Já não termediando sua própria história e seus ethos.
aceitará uma proposta de dominação unilateral. Levantaria ela a proposta de parcerias nas rela-
Desse modo, ou permanece solitária, ou ções sexuais que, por fim, se distribuiria nas
liga-se a alternativas onde os laços de domi- relações sociais mais amplas.
nação podem ser afrouxados. Convivendo em
uma sociedade plurirracial, que privilegia pa-
drões estéticos femininos como ideal de um
maior grau de embranquecimento (desde a
mulher mestiça até à branca), seu trânsito afe-
tivo é extremamente limitado.
Há poucas chances para ela numa socie-
dade em que a atração sexual está impregnada
de modelos raciais, sendo ela representante da
etnia mais submetida. Sua escolha por parte
do homem passa pela crença de que seja mais
erótica ou mais ardente sexualmente que as de-
mais, crenças relacionadas às características do
seu físico, muitas vezes exuberantes. Entretan-
to quando se trata de um relacionamento insti-
tucional, a discriminação étnica funciona como
um impedimento, mais reforçado à medida
que essa mulher alça uma posição de destaque
social, como nos referimos acima.
No contexto em que se encontra cabe a essa
mulher a desmistificação do conceito de amor,

129
Publicações da Imprensa Social

A Escola Sustentável Gogó de Emas


Eco - alfabetizando pelo ambiente A participação das mulheres na história
Lucia Legan do estado de Alagoas
IPEC / Imprensa Oficial/SP Shuma Shumaher
REDEH / Imprensa Oficial/SP
Álbum de Histórias
Araçuaí de U.T.I educacional a cidade educativa Jovens Lideranças Comunitárias e Direitos Humanos
Tião Rocha Conectas / CDH/ Imprensa Oficial/SP
Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento /
Imprensa Oficial/SP Kootira Ya Me’ne Buehina
Wa’ikina Khiti Kootiria Yame’ne
Alianças e Parcerias Vários Organizadores
Mapeamento das publicações brasileiras sobre ISA / FOIRN / Imprensa Oficial/SP
alianças e parcerias entre organizações da sociedade
civil e empresas O Caminho das Matriarcas
Aliança Capoava / Instituto Ethos / Imprensa Oficial/SP Maria do Rosário Carvalho Santos
Geledés / Imprensa Oficial/SP
Aprendendo Português nas Escolas do Xingu
Parque indígena do Xingu Orientação Para Educação Ambiental
Terra indígena Panará Nas bacias hidrográficas do estado de São Paulo
Terra indígena Capoto-Jarina Cyntia Helena Ravena Pinheiro, Mônica Pilz Borba
Livro inicial e Patrícia Bastos Godoy Otero
Vários autores 5Elementos / Imprensa Oficial/SP
ISA / ATIX/ Imprensa Oficial/SP
Pela Lente do Amor
A Violência Silenciosa do Incesto Fotografias e desenhos de mães e filhos
Gabriella Ferrarese Barbosa, Graça Pizá Carlos Signorini
Clipsi / Imprensa Oficial/SP Lua Nova / Imprensa Oficial/SP

Brincar para Todos Saúde, Nutrição e Cultura no Xingu


Mara O. Campos Siaulys Estela Würker
Laramara / Imprensa Oficial/SP ISA / ATIX/ Imprensa Oficial/SP

Educação Inclusiva: Vivências Caipiras


O que o professor tem a ver com isso? Pluralidade cultural e diferentes temporalidades
Marta Gil na terra paulista
Ashoka / Imprensa Oficial/SP Maria Alice Setúbal
Cenpec / Imprensa Oficial/SP
Em Questão 2
Políticas e práticas de leitura no Brasil Vozes da Democracia
Vários Organizadores Intervozes / Imprensa Oficial/SP
Observatório da Educação / Ação Educativa /
Imprensa Oficial/SP

Espelho Infiel
O negro no jornalismo brasileiro
Flávio Carrança, Rosane da Silva Borges
Geledés / Imprensa Oficial/SP
Título Eu sou atlântica
Formato 20,9 x 23 cm
Tipologia Myriad, Palatino Linotype
Papel miolo set m2
Papel capa Cartão triplex, 250g/m2
Número de páginas 136
Tiragem 2500
Eu sou atlântica Alex Ratts