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Carlos Hasenbalg

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-LRITORA MARCO ZERO LT
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Exemplar n?At| Lélia Gonzalez
Tone : Carios Hasenbalg

Lugar de negro

Copyr'ght by Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg — Direitos ‘Editora Marco Zero Limitada
ndquiridos pela Editora Marco Zero Limitada, Travessa da Rio de Janeiro
Paz, 15 — 20250 — Rio Comprido — Telefone: 273-2357 1982
A — Rio de Janeiro —- Kj
Indice

Volume 3

Diretores:
-= Sobre os Autores

Mar.a José Silveira —- O Movimento Negro na Ultima Década


Tania Maria Mendes Létia Gonzalez
Daniel Aar#o Reis Filho
Felipe José Lindoso O golpe de 64, o novo modelo econdmic
a ee ee
e &@ populacao negra =

Movimento ou -:
Projeto Gratico: Experiéneias e tentativas .
Denise Pimentel A retomada politico-ideolégica
O Movimento Negro Unificado contra a
Discriminacao Racial
Raga, Classe e Mobilidade
CiP-Brasil. Catalogqacao-na-Tonte Carlos Alfredo Hasenbalg
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
O Estudo das relacdes raciais nos Estados
Gonzales, {Jrjdos
Lugar de negro / Léha Relagées entre negros e brancos no Brasil
Carlos Hasenbalg. — Rilo de Janeiro : Racismo e desigualdades taciais no Brasil
Marco Zero, 1982. Conclusdo
(Colegao 2 Pontos ; ¥.3)
1. Negros no Brasil 2. Negros no O Negro na Publicidade
— Segregacao 3. Problemas ra- Carlos Alfredo Hasenbalg
ciais -|l. Hasenhbalg, Cariog
Me
Tituio
"Tth Série
opp —~— 301 45196084
CDU — $23.118(8t =<96)
Sobre os Autores

Lélia de Almeida Gonzalex. é conhecida mili-


tante do movimento negro e do movimento das
mutheres. Professora de Antropologia e de Cultura
Popular Brasileira, licenciada em Filosofia e His-
i6tia e mestre em Comunicacao, Lélia escrereu va-
Os autores dedicam este Lvro a: tios artigos sobre o racismo e participou de conte-
Bricio, um raio de sol vréncias e semindrios, no Brasil e no exterior, sobre
© negro e a mulher.
Olimpio Marques, um lutador
Carlos A. Hasenbalg é professor da TUPER] —
Candeia, sempre VIVO Instituto Universitario de Pesquisa do Rio de Ja-
neiro, Escreveu varios artigos sobre as relacdes
raciais no Brasil e é autor do Livro “‘Discriminacao
@ desisualdades raciais no Brasil”, publicado em
1979.
MY MOVIMVENTO NEGHO
NA ULTIMA DECADA

1 dlia Gonzalez
O golpe de 64, o novo modelo
econémico e a populagao negra

© golpe militar de 1964 procurou estabelecer


wna “nova ordem” na sociedade brasileira 14 que,
de acordo com aqueles que o desencadearam, “o
caos, a corrupcao e o comunismo” ameagavam oO
pais. Tratou-se, entéo, do estabelecimento de mu-
dancas na economia mediante a criagdo do que fot
chamado de um novo modelo econémico em substi-
tuicio ao anterior. Mas para que isso se desse, os
militares determinaram que seria necess4rio impor
a “pacificagéo” da sociedade civil. E a gente sabe
o que significa esse termo, pacificagdo, sobretudo na
histétia de povos como o nosso: o silenciamento, a
ferro e fogo, dos setores populares e de sua repre-
sentacdo politica. Ou seja, quando se lé “pacitica-
entenda-se. repressdo.
E muitas foram as medidas tomadas no sentido
de garantir a nova ordem das coisas. A supressao
dos antigos partidos polfticos (ficando ARENA e
MDB em seu ltigar); a cassacdo-do mandato de nu-
merosos representantes politicos e o consequente en-
fraquecimento do Congresso. Além disso, a disper-
sio das ligas camponesas, a stpressio das guerrilhas
urbanas, as prisdes, as torturas, os. desaparecimentos
e os banimentos constitufram o “pano de itindo™
necessdrio: para o estabelecimento “paz social”,
Os Atos Institucionais, que tiveram no malfadado trabalhador negro participava do mercado de tra-
Al-5 a expresséo mais acabada da ditadura, foram balho industrial. Enquanto isso, no jcampdoj desa-
oO instrumental privilegiado para que ela impusesse parecia a pequena propriedade rural para dar lugar
suas decisOes. E foi dentro desse quadro que se par- 4 criacdo de latiftindios, por parte das poderosas
tii para a conecretizagao do que ficou conhecido corporacdes multinacionais, amparadas pelo governo
como o “milagre econémico” brasileiro. militar. Era o capitalismo invadindo todos os seto-
Eo que toi que caracterizou esse tal “milagre”? res da economia brasileira.
De acordo com analistas econémicos e politicos, sua Essa ofensiva ocasionou grandes fndices de de-
caracterizacao. se constituiu naquilo que eles chama- semprego no campo. EB se a isto se acrescenta a
ram de “Triplice Alianca”, ou seja, no “casamento politica de diferenciagio do saJario minimo por re-
entre estado militar, as multinacionais « o grande vides (beneficiando sobretudo o sudeste), a gente
empresariado nacional”. E foi gragas a essas “ntip- pode imaginar qual o tipo de safida encontrado pelo
cias’” que se deu o processo-de crescitnento desse trabalhador rural para fugir da miséria: o desloca-
“barato” que a gente tanto discute nos dias de hoje, mento para a periferia dos grandes centros urbanos.
mas que esta saindo muito caro para o trabalhador Comecava, desse modo, a inversdo da relagao po-
brasileiro: a divida externa. Desnecessdrio dizer que pulacional entre campo e cidade (de acordo com 0
as Iassas, pra varlar, Itcaram completamente exclui- censo de 1980, a populacao urbana passou a cons
das da partilha do bolo do “milagre”. Muito ao con- tituir 67.57% do total). Gracas a esse éxodo rural,
trario, os “beneficios que receberam tiveram como ss cidades nao cresceram, mas “incharam’ com o
resultado o seu empobrecimento, determinado pela aumento do ntimero de favelas e o surgimento desse
politica do arrocho salarial. E quando a gente fala novo personagem, o “bdia-fria”’, no cendrio da his-
em massas, a gente esta se referindo também, ou toéria dos despossuidos deste pais.
principalmente, ao grande contingente de negro que
delas faz parte e que, desde as décadas de cingiienta Com tal afluxo de mao-de-obra, nao foi dificil
ée sessenta, vinka num processo de crescimento po- para os tecnocratas do poder realizarem seu projeto
pulacional. de crescimento econdmico. A indtistria automeobilis-
tica, assim como a de construcdo civil, serviram de
A entrada. do capital estrangeiro no pontas de lancga do processo que afogou os demais
pais ampliou o seu :parque industrial, E, & primeira setores da economia brasileira na voragem do im-
vista, até que poderia parecer um grande avanco perialismo multinacional, A construgdo civil fol
para a totalidade da populacdo brasileira. Mas acon- sobretudo um grande escoadouro da mao-de-obra
tece que tal agressividade determinou, por sua vez, barata (majoritariamente negra), porque nao-qualiti-
a desnacionalizagio ou o desaparecimento das pe- cada. E toma de abrir rodovias, de desativar ferro-
quenas. empresas, E..era justamente por elas. que o vias etc. e tal. Eram as grandes obras do “‘milagre’ ;
eo seu exemplo mais grandiloqiiente esté af, na pon- melhotia do nivel de vida para o conjunto da po-
te Rio-Niterdi, que também poderia ser considerada pulacHo negra.
como timulo do trabalhador-desconhecido, tal o As condicdes de -exist€ncia material dessa po-
noumero de vidas andOnimas celfadas durante 2 sua pulaco negra remetem a condicionamentos psico-
construcao. ldgicos que devem ser atacados e desmascarados.
Outro grande escoadouro de mdo-de-obra bara- Os diferentes modos de dominacao das diferentes
ta foi a prestacdo de servico. Também ali encon- fases de producio econédmica no Brasil parecem
tramos © trabalhador negro fortemente representada, coincidir num mesmo.,ponto: a reinterpretacao da
sobretudo em atividades menos qualificadas tais teoria do\fugar natural ide Aristételes. Desde a €po-
como limpeza urbana, servicos domésticos, correlos, ca colonial aos dias de hoje, a gente saca a existén-
seguranca, transportes urbanos etc. Sua presenca era cia de uma evidente separacao quanto ao espacgo
pequena, por exemplo, num tipo de polo industrial {fsico ocupado por dominadores e. dominados. O
como o do ABC paulista, uma vez que o nivel tec- lugar natural do grupo branco dominante sao mo-
nolédgico das industrias ali concentradas exigia um radias amplas, espacosas, situadas nos mais belos.
tino de que a matoria dos trabalha- recantos da cidade ou do campo e devidamente pro-
dores negros possufa. Em suma, deslocando-se por diferentes tipos de policiamento: desde
‘do campo para a cidade, ou do nordeste para o su- os antigos feitores, capitaes do mato, capangas etc., .
-deste, e se concentrando num mercado de trabalho até a polfcia formalmente constituida. Desde a casa-
que nao exige qualificagao profissional, oO trabalha- srande e do sobrado, aos belos edificios e residéen-
dor negro desconheceu os beneficios do “milagre”. cias atuais, o critério tem sido sempre © mesmo. Ja
Como ja foi dito, o arrocho -salarial, imposto o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente:
como uma das condicdes para o desenvolyimento do da senzala as favelas, corticos, pordes, invasoes, |
pais, resultou na queda do nivel de vida da grande alagados e conjuntos “habitacionais” (cujos mode-
massa trabalhadora (basta lembrar que em 1976 los so os guetos dos paises desenvolvidos) dos dias.
cerca de 80% da forca de trabalho era constituida de hoje, o critério também tem sido simetricamente |
por trabalhadores manuais, rurais e urbanos). Se em Oo mesmo: a divisdo racial do.espagco.
1960 a populacao pobre participava da renda na- No caso do grupo dominado o que se constata
cional numa faixa de 18%, em 76 essa percentagem sho familias inteiras amontoadas em cubiculos, cutas
havia caido para 11%, Por outro lado, se em 1960 condicSes de higiene e safide sHo as mais precarias.
4 participacao do negro na forca de trabalho nao Além disso, aqui também se tem a presenca®policial;
era das mais significativas, em 76 ela atingia a faixa sO que ndo e€ para proteger, mas para reprimir, V10o-
dos 40%. Por ai se vé que esse aumento de parti- lentar e amedrontar. E por af que se entende que o
no mercado de trabalho n&o significou uma | outro lugar natural do negro sejam as Os
hospicios; A sistematica repressao policial, dado o paisagem: os “presuntos” (cadfveres) “desovados”
seu carater racista (segundo a policia, todo crioulo pelos “justiceiros”’ da nova ordem. Vale notar que
€ marginal até que se prove o contrario), tem por 70% cdesses “justicados’” eram negros. Discrimina-
opjetivo préximo a imposicgo de uma submissao cio racial? Era proibido falar dessas coisas naqueles
-psicolégica através do medo. A longo prazo, o que anos de ‘‘milagre’’, uma vez que se estaria ferindo a
‘se pretende é o impedimento de qualquer forma de Lei de Seguranca Nacional por crime de subversao.
‘unidade e organizacéo do grupo dominado, median- Enauanto isso, os novos setores da classe média
ie a de todos os meios que perpetuem sua funcionayam como suporte ideolédgico do “milagre”,
-. interna. Enquanto isso o discurso dominante ta a grande euforia do “Ninguém segura este
justifica a atuagao desse aparelho repressivo, falando pais”: eletrodomeésticos, carro do ano, tevé a cores,
-em ordem e seguranca sociais. Copa 70, Irm&os Coragem, compra de apartamento,
A partir daft, o sistema se beneficia com a ma- de casa na praia, na montanha, disso, daquilo e
nutencdo de tais condicdes, na medida em que, desse niuiio mais, EB a turma tava que tava, muito orgu-
modo, conserva A sua disposicao a mao-de-obra mais Ihosa de si e de seu pais. Portanto nada mais natural
barata possivel. Isto porque a comunidade negra nada do qué a gente ver, nos plasticos dos automoyeis,
mais é do que mao-de-obra de reserva, utilizAvel se- express6es tais como “Brasil: ame-o ou deixe-o”.
gundo as necessidades do sistema. Ou seja, além dos Propaganda e publicidade firmes.em cima, fazendo
aspectos, acima assinalados, a estratégia também se cabeca; muito riso, muito .brilho, muita assepsia,
exerce de maneira a fayorecer os patroes, mediante muito perfume. Muita festa, grandes carnavais...
a repress2o policial (que exige dos negros, como do- Enquanto isso, dos subterrdneos do regime, emana-
cumento, a apresentacdo da carteira profissional!). vam odores pestilenciais, acompanhados de choro e
Pressionado pela policia, de um lado, e pelas pés- ranger de dentes. Curioso que provenientes de jo-
simas condicdes de vida, do outro, o negro oferece vers dessa mesma classe méclia.
a sua forca de trabalho por qualquer prego no
mercado de trabalho. Sabemos gue as conttadicSes internas do mo-
delo vigente, aliadas 4 crise do petrdleo, acabaram
A Baixada Fluminense, nesse sentido, apresen- nor desmascarar o “milagre”. foi por acaso que
ta-se como exemplo privilegiado. Seu crescimento oO governo Geisel iniciou-se sob o signe da “disten-
populacional (a “inchacao” de que falamos) ‘gerou gio”. BE também nao foi por acaso que diferentes
suas cidades-dormitdérios e, em pouco tempo, levou-a setores da sociedade civil comecaram a desencadear
4 octpar as manchetes do noticidrio policial; {ol seu processo de contestacao ao regime durante aque-
transformada em 4rea preferencial da acdo dos es- le poverno. Foram os estudantes que deram 0 alerta
guadr6es da morte e congéneres. Seus habitantes yeral etn termos de movimentos e conquistas po-
Jogo se acostumatam a um novo componente da pulares. .,
Movimento ou movimentos negroes? autoritdrio: e racista da sociedade brasileire
11 geral, assim como nos diferentes meios que cla
join uttizado para concretizé-lo. Agora, se a genic
firnta tudo isso (¢ muito mais), uma pergunta se
voloca: seré que d4 pra falar do Movimento Negro?
Ii claro que, se a genie adota a perspectiva aci-
bi delineada, nfo d& Como nao daria pra falar
Na verdade, falar do Movimento Negro fa Movimento de Mulheres, por exemplo. No en-
ca no tratamento de um tema cuja complexidade, fino, a gente tala, Exatamente porque esté apontan-
dada a multiplicidade de suas variantes, nao per: (ly pura aquilo gue os diferencia de todos os outros
mite uma viséo unitaria. Atfinal, nos negros, nao- ovimentos; ou seja, a sua cspecificidade. S6 que
constituimos um bleco monolitico, de caracteristicas movimento, cuja especificidade é o significan-
fgidas e imutdveis. Os diferentes valores culturais— Ia existem divergéncias, mais ou menos fun-
trazidos pelos povos africanos que para ca vieram Was, quando ao modo de articulacdo dessa especifici-
(iorubas ou nagés, daomeanos, malés ou muculma- didls, Deve o negro assimilar e reproduzir tudo o
nos, angolanos, congoleses, ganenses, mocambicanos lc ¢ curobranco? Ou sé transar o que é afroneero?
eic.), apesar da reducdo a “igualdade”, imposta pela Chi somar os dois? Ou ter uma visdo critica de am-
| ecoravidao, ja nos levam a pensar em diversidade, 4 juin? Deve o negro lutar pra vencer na vida através
| Além disso, os quilombos, enquanto formacdes so- i nett esforgo pessoal para, desse modo, provar
ciais alternativas, o movimento revolucionario dos ava & (to capaz quanto o branco? Ou Jutar com e
maiés, as irmandades (tipo N.S. do Rosé@rio. e 8. pa conjunto da populacdo negra? Juntamente com
Benedito des Homens Pretos), as sociedades de aju- WAU também onrimidos? Ou nao? Por um
da (como a Sociedade dos Desvalidos de Salvador), mesta sociedade? Ou pela da
oO candombié, a participacio em movimentos popu- 4 aon? Wte, etc. © tefl... Os dif-rentes tinos de
lares etc., constituiram-se em diferentes tipos de . a CSsas questoes, ¢ a muitas outras, acabam
resposta dados ao regime escravista, Por outro lado, «: pur femeler a gente a talar de movimentos negros. .
que se pense nos “ciclos” da economia e€ seus des- : uy Movimento Negro. Pcis é.
locamentos (nao s6 da escrava, mas dos () cyte fica claro, a partir dessas consideracdss.
centros de decis&o politica), assim como nas dife- A (tia cule texto reflete uma escolha, que é aquela
rencas regionais que dai resultaram. Que se pense
no adyento da sociedade bureuesa e das relacGes ca- faalguns
mito tracos
Conseqitentemente, ele apenss
gue considero importantes
pitelistas, com seus abolicionismos e republicanis- para a Compreensso do Movimento Negro (MN), E
mos. E que nao se deixe de pensar, sobretudo, no: C onfoque adotado nao deixa de explicitar a pers-
Experiéncias e tentativas
pectiva de um movimento negro: o Movimento Ne-
ero Unificado (MNU). O que se segue é resultante
de leituras, papos, algumas escritazinhas. proprias,
alouma prdtica, assim como da entrevista que fiz
a trés companheiros: Hamilton (MNU/SP), Astra
(MNU/RJ) e Paulo Roberto (Instituto.de Pesquisa
das Culturas Negras, IPCN, do tio). No perfodo que se seguiu a abolicao,.o negro
buscou organizar-se em associacOes que nos, de um
modo geral, nos habituamos a chamar de entidades.
Hamilton Cardoso assim as caracteriza: — le

Flas sio conseqliéncias direta de uma coniluencia


antre go movimento abolicionista, as sociedades de |
ajuda e da alforria e dos agrupamentos cultura:s ne-
Seu papel € o de legitimar a existéncia do ne-
ero dentro da sociedade, diante da legislagao. Flas;
retinem os negros oficialmente, de forma indepen-
dente, para praticar o lazer e suas culturas especifi-
ons, Fscondem no seu interior pequenas organizacces
familiares de aitida e solidariedade, para o desenvol-
yimento social. Reproduzem, em muitas de suas atl
vidades sociais, og sistemas dominantes de organiza-
cho social. (...) Um dos exemplos é o Clube Flo-
resta Aurora, do Rio Grande do Sul, estado de baixo
{ndice de negros, mas de tradic#o militante no
mento negro (1931, p. 15),

Dependendo do tipo de atividade desenvolvida,


podemos considerd-las como entidades negras recrea-
fivas, com “perspectivas e anseios ideoldégicos elitis-
tas’, e culturais de massa (afoxés, cord6es, maraca-
tus, ranchos e, posteriormente, blocos e escolas de
samba). Estas filtimas, justamente por mobilizarem
aS massas, a nosso ver, sempre foram objeto de
grande controle por parte das ‘‘autoridades’. Que . & SHo Paulo. Mais exatamente, na cidade de Sao
se atente para a significactio do ‘“‘pedir passagem” - Paulo, estendendo-se para outras cidades do interior.
dos abre-alas dos blocos e escolas de samba. Na | Com isso estamos querendo ressaltar o seu carater
verdade, elas sempre tiveram que se submeter as eminentemente urbane, uma vez que 6 o negro da
regras impostas por tais “autoridades”’. Afinal, qual- _ cjdade que, mais exposto as pressOes do sistema
quer eglomeracaio de negros sempre é encarada como dominante, aprofunda sua consciéncia racial.
caso de policia (um exempla bem préximo de Por outro lado, a industrializagio e a modernt
refete-sé a um famoso bloco negro de Salvador, o zacho, que se dio a partir de Sao Paulo para o
Apachéss que se consulte os anais daquela cidade resto do pais, com que a organizagao politica
para se ter uma idéia da violéncia e perseguic¢ao po-
do negro encontre ali suas forgas de expressao mais
ictal ce que foi cbieto, a ponto de ter sido comple- avancadas. & em SP que se inicia o processo de
tamente domesticado}. Nao esquecamos, por exem- do negro na sociedade capitalista, 80-
plo, que os templos das religides afro-brasileiras, byetudo nos anos trinta, quando a imigracao curo-
como o candomblé, tinham que se registrar na po- péia é interrompida pelo governo Vargas. E por al,
licia, para pcderem funcionar legalmente... De também, que se compreende porque a FNB cons-
‘qualquer modo, as entidades culturais de massa tém Hiniwse num dos setores mais atvasados do opera-
sido de grande importincia na medida em que, ao tiado paulista (embora, a partir de um racha intet-
‘transarem o cultural, possibilitaram ao mesmo tem- no, a Frente Negra Socialista lhe fizesse oposi¢ao).
po o exercicio de uma pratica politica, preparadora Apés o seu fechamento enquanto partido. politico,
‘do advento dos movimentos negros de carater 1deo- em 1937, acentuam-se os rachas interncs e ela nao
ldgico.
ulirapassata o ano de 38. O Estado Novo, com ©
Em suma, esses dols tipos de entidades negras sou “trabalhadores do Brasil”, nfo deixara de sen-
remetem-nos pata dois tipos de escolha: o assimila- sibilizar a comunidade negra, grandemente beneli-
cionismo e a pratica cultural. O primeiro grande ciada por sua legislagéo trabalhista. De qualquer
movimento ideclégico a Frente Negra modo, a FNB é um marco dos mais importantes do
Brasileira (1931-1938), buscou sintetizar ambas as projeto de politica do negro brasileiro.
praticas, na medida em que atratu os dois tipos de As entidades culturais, organizadas no mesmo
entidade para o seu seio. Por ai, da pra entender estilo das tecreativas, mas que se propoOem a um
também o sucesso de sua mobilizagao, Afinal, cla melhor conhecimento ou a uma pratica cultural mais
conseguiu trazer milhares de negros para os seus politizada, encontraraio sua melhor expressao No
quadros. Precedida pelo trabalho de uma imprensa perfodo pés-Estado Novo. Nesse sentido, o grupo
negra cada vez mais militante, a FNB surgiu exata- que trabalhava no mais importante orgao da impren-
mente no grande centro econ6mico do pais que era sa negra, o Clarim da Alvorada, e criador da Frente
Negra Socialista ha pouco' citada, reestruturou suas dos anos cingtienta. Além disso, n&o se’ pode detxar
de recordar que nao foi por acaso que um Florestan
atividades através do Clube Negro de Cultura Social.
O perfodo que se estendeu de 1945 a. 1948 Fernandes, por exemplo, tenha iniciado suas pesqul-
sas sobre O nesro nesse periodo.
caracterizou-se, portanto, pela intensificagdo das
agitacdes intelectuais e politicas dessas entidades Ao lado do teatro negro, a poesia também fot
que, agora; tratavam da redefinicao e implantacao uma das mais vigorosas expressdes das elites negras
definitiva das reivindicacdes da comunidade negra. daquela fase que, sem perda de continuidade, mar-
© Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de cou AS novas geracdes. Solano Trindade de certo
Yaneito, foi a mais alta expresso desse tipo de en- modo sintetiza esses dois aspectos, tanto pela criagao
tidade. Sua posicdo critica em face do racismo e¢ to seu Teatro Popular, quanto por sua extraoraina-
suas préticas, seu trabalho concreto de alfabetiza- ria produgiio poética. Afirmagio. de identidade cul-
informacio, de atores e criagiio de tural e dentincia da exploragdo dos oprimidos cons-
pecas que apontam para a questo racial, significou a tematica da poesia revolucionaria de
um grande avanco no processo de organizac#o da. ano. O movimento poético negro dos dias de hoje
comunidade. O TEN inaugurou um importante pro- nao perde de vista a perspectiva de que racismo ¢
cesso que se estenderia pelos anos sessenta até os exploracio sécio-econémica estao muito bem artl-
dias atuais (apesar do auto-exilio do seu fundador culados quando se trata de limitar ¢ reprimir. & CO-
Abdias do Nascimento, nos Estados Unidos, a partir munidade negra. Vejamos o que nos diz esse verda-
de 1968). Estamos falando do teatro negro que, nos dJeiro manifesto que 6 a Apresentagao dos Cadernos
anos setenta, por exemplo, teve no Grupo Evolucao
Negros, em sua edicio de lancamento, datada de 25
de Campinas uma das suas expressOes mais qualifi- de novembro de 1978:
cadas, no sentido de efetuar um trabalho cultural
numa perspectiva politica,
A Africa est& se libertando!, ja dizia Bélsiva, um
Vale notar que € também a partir do perfodo dos nossos velhos poetas. E nés, brasileiros de origem
1945-1948 em diante que yamos encontrar a pre- africans, como estamos?
senca de representantes dos seiores progressistas Estamos no limiar de um novo tempo. Tempo de
brancos junto as entidades negras, efetivando um Africa vida nova, mais justa e mais livre e, inspira:
tino de alianca que se prolongaria, de maneira mals dos ‘por ela, renascemos arrancando ag mascaras
OU menos constante, aos dias atuais. EK nesse ponto, brancas, pondo fim A imitacio. Descobrimos a lava.
a genie se pergunta sobre a importancia do papel sem cerebral qtte nos poluia e€ estamos assumindo
desempenhado pelo TEN para além dos limites da nossa negrura bela e forte. Estamos limpando NlOsso
negra; estamos nos referindo ao. movi- espitito das idéias que nos enfraquecem e@ que 80
mento de renovacio do. teatro brasileiro, a parti servem a0$ que nos querem dominar ¢ explorar. —
Cadernos Negros marca passos decisivyos para cio do Movimento Negro Uniticado Contra a Diseri-
nossa yalorizacao e resulta de nossa vigilancia con: minacao Racial...
tra as idéias que nos confundem, nos enfraquecem
& nos sufocam. As diferengas de estilo, Ajlém da contribuicao das entidades culturais,
de liferatura, forma, nada disso pode mais ser um vale ressaltar que as entidades negras de massa,
muro erguido entre aqueles que encontraram na poe- apesar de todas as tentativas de manipulagao por
sia um meio de expresso negra. Aqui se trata de le-
gitima defesa dos valores do povo negro. A poesia
parte do Estado Novo, continuaram seu projeto de
resistencia cultural. E se nos remetemos as escolas
como yerdade, testemunha do nosso tempo.
Neste 1978, 90 anos pés-abolic#o — esse conto do de samba, por exemplo, constatamos que sua pro-
vigéario que nos prepararam —, brotaram novas ini- ducdo nfo deixava de expressar a resposta critica da
clativas de conscientizacao, e, Cadernos Negros surge comunidade negra em face dos dominadores. A gui-
como mais um sinal desse tempo de Africa-conscién- sa de éxemplo, vale recordar o que Candeia e Isnard
cla e acho para uma vida melhor; e, neste sentido, nos contam a respeito do desfile de 1940 da Por-
fazemos da negritude, aqui posta em poesia, parte da tela, cujo enredo era “Homenagem a Justiga’; como
luta contra a exploracHo social em todos os niveis, 0 samba de Paulo da Portela nao fot bem ensalado,
na qual somos os ma:s atingidos.
Cadernos Negros é a viva imagem da Africa em “os componentes mudaram o sentido das palavras
nosso continente. E a Diaspora Negra dizendo que trecando ‘Salve a Justica’ por pau na fusiica...~
sobreviveu e sobrevivera, superando as cicatrizes que Psse ato falho diz-nos muito mais sobre o que sentia
assinalam sua dramatica trajetéria, trazendo em suas e pensava a comunidade do que todos os temas de
maAos 0 livyro. enredo que pintaram durante e depois do Estado
Essa coleténea retine oito poetas, a maioria deles Novo. Segundo os mesmos autores, foi a partir de
Ga geracdo gue durante os anos 60 descobriu suas 1955 que elementos da classe media branca passa-
raizes negras. Mas o trabalho para a consciénc'a ne- ram a freqiientar as escolas de samba. Como Ja v1-
era vem de muito antes; por isso, Cadernos Negro 1 mos anteriormenic, tratar-se-ia de representantes
refine também que estio na luta ha muito
dos setores progressistas brancos. Dal para os anos
tempo. Hoje nos juntamos como companheiros nesse
trabalho de levar adiante as sementes da consciéncia sessenta, comegaria uma série de mudancas nas
para a verdadeira democracia racial. materiais de vida da populagao negra,
OS AUTORES como j4 vimos (deslocamento do campo para a Cl-
dade, etc.),
Ecoam nesse texto sonoridades que nos reme- Q golpe de 64 implicaria na desarticulacgao das
tem as vozes de um Frantz Fanon, de um Agostinho elites inteleciuais négras, de um lado, e no processo
Neto, de um Amilcar Cabral, de um Malcoln X, de de integracdo das entidades de massa numa perspec-
um Solano, de um Abdias e de tudo o que eles re- tiva capitalista, dé outro. As escolas de samba, por
presentam. Vivia-se, naquele tempo, a recente cria exemplo, cada vez mais, vao se transtormando em
empresas da industria turfstica. Os antigos mestres
de um artesanato negro, que antes dirigiam as ativi- “Tem o PIS, 0 PASEP e também ‘o FUNRURAL/
Levando ao homem do campo a seguranga total...
dades nos barracdes das escolas, foram sendo subs-
Nio haveria muita diferenga entre esse ente
titufdos por artistas plisticos, cendégrafos, figurinistas
etc. e tal. O cargo de presidente de ala transformou- nquele da Portela, em 1941 (D
se numa profissdo lucrativa com a venda de fante- om homenagem & Revolugdo de Trinta), ou a
aquele outro, da mesma Portela, em 1951 MA Volta
sias. Os sambas foram simplificados em sua estruty.
ta, objetivando nao sé o fato de serem facilmenie do Filho Prédigo, em homenagem a volta de Vargas
aprendidos, como o de poderem ser gravados num a poder); mas existe uma diferenga, de carater
mesmo disco, Os ‘négo yéio” da Comissdo de Fren- gualitativo. O crescimento da populagao negra, sua
te foram substitufdos por mulatas rebolativas e te- maior concenttacio urbana, as relagdes capitalistas
sudas. Os desfiles transformaram-se em espetaculos em todds os niveis, a industria cultural/ cultura de
tipo teatro de revista, sob a de uma nova | massas, O maior controle, mas tambem uma nova
figura: © carnavalesco, Levantaram-se arquibancadas cousciéncia quanto 4 exploragao . .
para ricos, pobres e remediados, autoridades e povo,
nacionais ¢ estrangeiros, com a venda de ingressos
nos respectivos precos. Tudo isso com a presence de
jornalistas, fotégrafos, cinegrafistas e cAmeras de
tevé durante os desfiles. Estes, por sua vez, passaram
a se dar segundo novas regras e hordrios rigorosos.
Afinal, tempo é dinheiro, . .
O regime militar nfo deixou de se beneficiar
por ai também. Retomando o populismo inaugurado
por Vargas, iria aplicé-lo ao seu estilo ‘proporcio-
nando estimulo a novas escolas: (quanto ao primeiro
grupo} ou teforgando as mais antigas. Na verdade,
ele sacou a importancia das formas organizativas
encontradas pela comunidade negra, enquanto en-
tregue a propria sorte (o texto de Candeia e Isnard
nos dio um bom exemplo disso}, e mandou ver.
Quem nao se lembra do primeiro desfile da Beija
Flor no primeiro grupo? Seu samba enredo era uma
exaltagéo aos efeitos da ‘‘revolugio” de 64:...
20.
{...) eu lia no jornal (sobre as guerras) de libertagao
A retomada politico-ideoldégica dos pafses africanos, e muita coisa que acompanhel
também do movimento dos negros nos Estados Uni-
Jog, Uma coisa que me chamou muito a atengao, no
‘mfcig, dos anos setenta, fim de 68, foi ao livro do
Cleaver, Alma no Exilio. A primeira vez que ouvl
falar desse livro foi em 68: eu o li naquela epoca e
andava sempre com esse livro; e esse livro, pra mim,
era o meu cartéo de vis'tas nos lugares em que che-
Dissemos que as elites intelectuais nepras fo- gava. Entéo; eu uma vez, eu me surpreendi que eu
comecava a falar nisso com alguns negros, algumas
ram desarticuladas pelo golpe de 64. De fato. O pessoas que... elas nao tinham as minimas preocupa-
aiito-exilio de Abdias do Nascimento, enquanto fi- cdes. Entaéo 2 minha experiéncia pessoal comega por
gura das mais representativas, senfo a mais, de todo af, quer dizer, a partir dai, pelo meu proprio inte:
um trabalho desenvolvido na fase. anterior, confirma vesse elt comecava air em alguns lugares, conhecia
O que dissemos. Sem nunca abandonar sua militancia, dois ou trés, a gente acabou se juntando e num certo
ele iria enriquecé-la no exterior, continuando sua momento, unia certa comunidade de pessoas que ¢s-
tava interessadas na questao racial do negro (...-)
denuncia do racismo brasileiro (nesse sentido, vale
nao esquecer que suas acaloradas com Ai, me surpreendi porque fui conhecendo pessoas
exiiados brasileiros muito contribuiram para aue que eu nunca imaginava que o cara tivesse aquilo
estes, além de outras experiéncias vividas 14 fora. na cabeca, mas ele também nao tinha com quem
retornassem ao Brasil com um novo entendimento ent#o, era inctiyel quando a gente se encon-
ava,
da questo negra). Enquanto isso, por aqui, a repres-
sio desmobilizou as liderancas negras, lancando-as
numa | especie de semiclandestinidade isolada das E é no inicio dos anos setenta que vamos Ter a
organizagoes propriamente clandestinas (sabemos retomada do teatro negro pela turma do Centro de
hoje que foi pequeno o numero de negros partici- Cultura e Arte Negra (CECAN), em Sao Paulo, o
pantes dessas organizacdes; principalmente no que alerta geral do Grupo Palmares, do Rio Grande do
se reiere aos que militavam no Movimento Negro), Sul, para o deslocamento das comemoragodes do tre-
A turma s6 se encontrava socialmente para biritar e ze de maio para o vinte de novembro, etc. No Rio de
falar de generalidades. Mas a regadinha jovem co- Janeiro, enquanto isso, ocorria um fenomeno novo,
mecou a atentar para certos acontecimentos de ca-
efetuado pela massa de negros an6nimos. Era a Co-
rater internacional: a luta pelos direitos civis nos
munidade negra jovem, dando sua resposta aos me-
Hstados Unidos e as guerras de libertacao dos povos
eanisnios de exclusdo que o sistema lhe impunha.
negroatricanos de lingua portuguesa. Vejamos o que
Estamos falando do movimento ‘‘soul”’, depois ba-
gos diz um dos nossos irm&os, companheiro de luta:
tizddo de Black Rio, Vefamos o depoimento de al- é universitarios também. O fato é que a neégrada
que dele participou: jovem da Zona Norte e da Zona Sul comecou a se
cruzar nesses bailes, que reuniam mulhares de pes-
(...) Embora ja chegasse alguma coisa no Brasil, soas, todas negras. O.fendmeno também se esten-
airayes dds meios de comunicacio de massa, sd foi deria para So Paulo; e se a gente pega um dos
entendido como coisa negra, a partir de 71, por af, numeros do Jornegro (Ano I, n° 2, maio de 1978)
Nessa €poca, eu andava muito pelo subfirbio e ja -e Jé a entrevista da negadinha (18 a 20 anos), a
havia esse tipo de baile. Ainda nao era exatamente gente v8 uma coisa, e isto é6 essencial, ela nao .é alie-
como ele apareceu para o grande publico, mas j& era nada: todos afirmam, porque o vivenciam no seu
O embriao. Eram bailes que tocavam muito James cotidiano, a existéncia do racismo ¢ suas praticas.
Brown, por exemplo. Um negécio que o pessoal Vale notar que a reacao do “grande ptblico’’, em
“curtia” muito e tinha mais ou menos a mesma. et face do soul, fol de surpresa e temor (mas a policia
trutura, Parece que surgiu a partir dos discotecarios sempre esteve 14 para garantir a “ordem”); enquan-
“Big Boy” e Ademir que promoviam, nos to isso, a intelectualidade progressista acusava-o de
Dailes e¢ concursos de danca, E o pessoal conseguia
dancar bem. Isto, alids, ێ um dado importante: quem
alienacao, dizendo que crioulo tinha mais é que
danca bem o “soul”, danca bem o samba ¢(...) De dancar samba...
repente, o pessoal percebeu: “Bom, se o ‘Big Boy’ Ainda segundo Carlos Alberto, o Renascenga
pode fazer a equipe dele, eu também posso me es-
pecializar nisso, ganhar dinheiro etc,’”. Comecam, en-
Clube inaugurou seus bailes-soul com as famosas
tao, a surgir equipes de negros. (...) realmente h4 Noites do Shaft, ponto de encontro da turma que
uni dado de alienacao, h& esse aspecto de fantasia, articulou o movimento negro no Rio, Nesse mesmo
que faz parte da coisa tada. Mas, ao mesmo tempo ano (1974), o Centro de Estudos Afro-Asiaticos, a
em que existe esse dado, existe também um fator Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil
importante, que 6 o da aglutinacdo. (...) No momento | (SECNEB, de Salvador}, coma colaboracao do Mu-
em que se pode perceber “J& que eu posso me unir seu de Arte Moderna, realizaram as Semanas Afro-
para fazer isso, eu posso me unir para fazer uma
Brasileiras, no periodo aue se estendeu de 30 de
colsa mals positiva’, isso se torna importante. E claro
que nem todo mundo faz essa passagem {Carlos Al- maio a 23 de junho, com exposicio de arte afro-
berto Medeiros, em entrevista dada a Artefato, Jornal brasileira, experi€ncias de dancas rituais Nagd, de
de Cultura, p, 12-14, Ano JI, n° 10, s.d.). mfisica sacra, popular e erudita afro-brasileira, Tudo
isso acompanhado de semindrios e palestras, com a
notar que o “soul” fol um dos ber- presenca de 6 mil pessoas, vindas de diferentes bair-
cos do movimento negro do Rio, uma vez que a ros e camadas sociais do Rio (Cadernos Candido
mocada que ia aos bailes nfo era apenas constitut- Mendes, Estudos Afro-Asiaticos, Ano I, n.° f, jen/
. da de trabalhadores, mas de estudantes secunddarios
abr, de 1978). A exposicfo de arte sacra (objetos
littirgicos segundo modelos tradicionais Nagé-Yoru- tnento, QO atraso de alguns manifestou-se num tipo
ba), recriacao de simbolos e arte popiar, foi organi- de moralismo calvinista e machista,. que’ caractert-
zada por Juana Elbein dos Santos e Mestre Didi Zava O quanto se sentiam ameacgados pela capacidade
Co Assogba Maximiliano M. dos Saritos, do Axé Ops e sensibilidade das companheiras mais brilhantes;
Afonja, dé Salvador), Antes de chegar ao Brasil, ela em seus comentarios, falavam de‘mal-amadas e col-
fora apresentada em Lagos, Acra e Dacar na Africa, sas que tais (baixaria mesmo}. Desnecessario dizer
‘assim como em Paris, Londres. e Buenos Aires. As que suas esposas ou companhetras nunca pdrticipa-
Semanas fotam decisivyas para o movimento negro ram de tais reuniOes, na medida ém que ficavam em
.Cdallocd, casa cuidando-das criancas,-da casa etc., Oo que e
Vale aqui um pequeno comentario. Interessan- sintoniatico. De um modo geral, esses machdes
te que o MN do Rio teve duas fontes de origem: eram de uma geracao mais velha, porque os mais
de um lado, a comunidade negra, “dando ciéncia”’ jovens cresceram junto com suas irmas de luta. Alias,
de como recebeu os efeitos do movimentco negto vale notar que nao existe coisa mais homossexual,
norte-americano; do outro, uma ‘iniciativa oficial, e no pior sentido, porque n&o conscientizado e as-
académica, transada nado em termos de “Oropa, sumido, do que o ressentimento sectario dos ma-
‘ranca e Bahta’, mas, ao contrério, via ‘‘Bahia, chistas. De qualquer modo, o avanco das mulheres
Africa e Oropa” e com niuito axé em cima, Pois é... negras, dentro do movimento negro carloca, marca-
A partir das Semanas, a “tiurma’ entrou em - ria sua diferenca com rcelacdo a outras regides (onde,
contato com o Afro-Asiatico, e passou a se reunir hoje, o quadro é diferente, apesar dos pesares), No
em suas dependéncias. Durante o decorrer da sema- ano seguinte (2 de julho de 1975), num encontro de
na, encontravam-se duas vezes para preparar dois mulheres realizado na Associacao Brasileira de Im-
tinos de texto: um, com o noticlario a respeito de prensa, 14 estavam aquelas jovens e valentes negras,
atos de discriminac&o e, outro, relativo ao periodo marcando sua posicdo num importante documento,
oré-colonial na Africa. Aos sdbados, reuntio gera! onde dtziam: . |

para discutir os textos, na base da dinamica de


srupo. No domingo, tava todo mundo na Noite do
© destino da mulher negra no continente americano,
Shaft no Renascenca. A cada reuniao o grupo ‘assim: como de toclas as suas irmas cla mesma raca,
crescia.
tem sido, desde a sua chegada. ser uma co.sa, un
Chegou a um ponto que as mulheres passaram objeto de producado ou de reproducao sexual, Assim,
a mulher negra brasileira recebeu wma heranga cruel:
ase reunir separadamente para, depois, todos se reu-
str nfo apenas o objeto de producdo {assim como o
nirem numa sala maior, onde se discutia os proble- homem negro também o era}, mas, mais ainda, ser
mas comuns. E claro que pintou machismo e pa- um objeto de prazer para os colonizadores. O: Eruto
‘ternalismo, mas também solidariedade e entend- dessa. covatde procriacgzo é:.0 que agora é ackamada
si”, ou seja, “chamar As falas”. Pois.é... Mas, volte-
como o tinico produto nacional que nao pode ser — mos as reunidbes do Afro-Astatico.
exportado;: a mulher mulata brasileira. Mas se a
Dizfamos que o grupo crescla. Sobretudo no
qualidade deste “produto” é€ tida como alta, o trata-
mento que ela recebe 6 extramamente degradante,
aprofundamento do nivel politico das discuss6es.
sujo € Nesse momento, setembro de 74, o grupo transtior-
mou-se em entidade, a Soctedade de Intercadmbio
Brasil-Africa. Meses depois, surgiu um racha em
Fol a partir da convivéncia com essas irmas, 44 funcao de divergéncias quanto ao método e ao onde
no Movimento Negro. Unificado, que passei a me desenvolver um trabalho concreto. O grupo dissi-
preocupar e trabalhar sobre a nossa prdépria espe- dente, que saiu, preferia desenvolver um trabalho
cificidade. E nesse trabalho, tem dado pra sacar, na Zona Sul, enquanto o pessoal da SINBA defen-
por exemplo, que pelo fato de nfo ser educada para dia a tese de que se deveria partir pra Zona Norte.
se casar com um “principe encantado”’, mas para Vejamos o que nos diz Paulo Roberto a esse respeito:
o trabalho (por razdes histéricas e sdcio-econdmicas
concretas}, a mulher negra nao faz o género da sub- (...) © esse pessoal que ficou pro Jado da Zona Sul
seabou se encontrande com outro grupo, meio eli
missa. Sua pratica cotidiana faz dela alguém que tizado de Zona Sul que eram os famosos atores da
tem consciéncia de que Ihe cabe batalhar pelo “leite TV Globo: niio eram todos atores mas havia um
das criancas’’ (como ouyimos de uma “mulata do srande nuimero de atores que se reunia -— hegros,
sem contar muito com o companheiro todos negros — que se reunia na Zona Sul (acres-
(desemprego, violéncia policial e outros efeitos do centando aque alguns elementos eram protissionals
liberais, também da Zona Sul), no apartamento de
racismo e também do sexismo). De fato, as dltimas alsumas pessoas. E nés acabamos encontrando esse
pesquisas cfetuadas demonstram que, em matéria de grupo no Teatro Opinido. Exatamente por causa de
tiulher chefe de familia, a mulher negra tai pra con- um problema que tinha pintado na Rede Globo, por
ferir. (E por ai também que da pra sacar uma das ocasidao daquela novela — Gabriela, cravo © Ca-
nela -- onde a Vera Manhies, mulher do An-
razdes pelas quais os negros que “subtram na vida” t6nio Pitanga (...) que seria escolhida para o
preferem se casar com mulheres brancas; sfo mais papel, foi preterida em func&o da Sénia Braga. En-
submissas, também por tazdes historicamente anali- tAo, o pessoal ficou p. da vida e (...} © grupo todo
saveis. Mas isso é papo pra outros escritos.) Se a se encontrou e houve uma série de reunides la no
Teatro Opinifico. E acabou surgindo daf o IPCN,
gente junta a essa pratica uma consciéncia politica,
Instituto de Pesquisa das Culturas Negras que, eu
dé pra entender porque nao sé nossos irmfos, mas patticularmente acho, foi um eulemismo que ¢ncon:-
determinados setores do movimento de mulheres te-
nham ficado chocados com a nossa autonomia e tramos (...) pata criar uma entidade. que procurass¢e
ndo s6 trabalhar a nivel cultural, mas que pudesse
asressividade de mulheres negras. Alias, € impor- set uma etitidade de mobilizacio polftica do negro,
. tante ressaltar que agressividade significa “‘chamar a
Mas acabow: tendo, no seu inicio, nfo uma agzd po- Semana de Estudos sobre o O Negro na Formagao
litica, mas um trabalho principalmente culturalista. Social Brasileira, na Universidade Federal Fluminen-
Acho que um grupo que tinha poder. econdmico se, reunindo professores e pesquisadores nas mais
dentro da entidade e que, de certa maneira, era diferentes éreas, especialistas na questo negra. A
maioria na diretoria;. esse grupo, conseqtientemente, 8 de dezembro desse mesmo ano, um grupo de com-
poderia dirig‘r objetivamente a entidade porque, co- positores, sambistas, pessoas ligadas ao samba e sob
mo todos sabemos, algumas providéncias a nivel or-
-panizacional deperidem da estrutura financeira pra
a lideranca de Anténio Candeia Filho, fundavam o
poder funcionar. Ent&o esse grupo, pelo simples fato Grémio Recreativo de Arte Negra e Escola de Sam-
de ter dinheiro, de poder menipular seus talées de ba Oitilombo. Cito de dezembro, dia de Oxum, a
cheques, impés algumas tarefas de carater extremia-— detisa das d4guas doces... Reproduzamos aqui, as
‘mente culturalista, que nos atrapalharain pra cacete diretrizes bdsicas dessa que nao se pre-
no Rio de Janeiro. E essas tarefas foram o qué? Por
tende apenas uma escola de samba, mas um centro
cxemplo, promover shows, showzinho do artista Fu-
lano de Tal aqui, teatrinho ali; sabe, esse tipo de de cultura negra:
coisa foi muito. negativo pra entidade. Num certo
aspecto, a gente teve um desgaste politico; nao um Estou chegando...
desgaste a nivel da comunidade porque, até pelo con- Venho ‘com £6. Respeito mitos e tradigdes, Trago. um
trario, a gente muito pela Zona Norte naquela. canto negto. Busco a liberdade. Nao moldes.
época. Me lembro que nés fomos a varios bairros, a As forcas contrarias sio muitas. Niio faz mal. “
aqueles conjuntos habitacionais; e a partir da nossa Meus pés no chao. Tenho certeza da vitoria,
presenca nesses lugares, muitos. grupos foram criados Minhas estio abertas. Entre com cuidada.
na periferia. E esses grupos, na sua grande. maioria, Aqui todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
tornaram-se grupos de teatro ou de danga. Mas houye Teorias, deixo de lado. Dou -vazio, A riqueza de ura
um desgaste polftico muito grande messa época, por mundo ideal. A sabedoria € meu sustentaculo. O
conta desse grupo que o segurou ideclogicamente amor é meu. principio. A imaginagiio é¢ minha ban-
por muitos anos. aeira.
Nao sou radical. Pretendo, apenas, salvaguardar 0
que resta de uma cultura. bem alto, expli-
De qualquer modo, o trabalho desenvolvido cando um sistema que cala yozes importantes © per
pelos elementos mais coerentes do IPCIN em seus mite que outras, totalmente alheias, falem quando
“‘circuitos itinerantes”, resultaria,.em ‘1976; na. cria- hem entendam, Sou franco-atirador, Nao almejo ti-
cio de uma outra entidade: o Centro de Estudos tilos, Nao almejo glérias. Faso questéo de nao virar
Brasil-Africa, localizado em S80 Gongalo tig Siti academia. Tampouco palicio. Nao atribua a meu
1975 (novembrto), a questo negra passava a ser nome © desgastado sufixo “fio”, Nada de forjadas ¢
mal feitas espectlacdes literdrias. Deixo os ‘complexos
formalmente discutida na universidade; o Grupo de temas & observagiio dos verdadeiros intelectuais. Eu
Trabalho André Rebougas realizava~ sua. .primeire
sou povo. Basta de complicacdes. Extraio o belo das sica etc. O mais ‘significative de tudo isso foi o espi-
coisas simples que me seduzem. - tito de solidariedade e colaboragao n&o s6 dos ami-
Quero sair pelas ruas dos suburbios com minhas bain
nas rendadas, sambando sem parar. Com minha co gos e colegas de EAV (que, jJuritamente com seus
missio de frente digna de respeito. Intimamente li- slurios, ajudaram na realizacio dos eventos) mas
gado as minhas origens.
dos irmfos e companhesiros do Olorum Baba Mun,
Artistas plasticos, figurinistas, coreOgrafos, departa- do IPCN, do CEBA, da SINBA, da Zona Norte, da
mentfos culturais, profissionais, nio me incomodem, Zona Sul, dos subtitbios, das favelas e até mesmo
nor favor. dja Africa (0 cineasta nigeriano Ol4 Balogum e o
Sintetizo um mundo magico, cantor angolano SA Moraes). Em 78, um dos eventos
Estou chegando... do gue ento chamdvamos Ciclo do Negro-Homena-
sem a Zumbi, foi um espetaéculo de mdsica e poesia
Km 1976, eu mesma iniclava o primelro Curso para o qual conyidamos numerosos cantores,
de Cultura Negra no Brasil, na Escola de Artes Vi- cos e atores negros. Interessante notar que, dos ato-
suais (no Parque Lage), justamente no momento em res e atrizes convidados para participar, apenas dois
que, gragas a sua nova e jovem direcdo, aquela atores compareceram e deram sua colaboragdo; os
instituig¢ao se renovaya. Reunindo artistas e intelec-
demais, ficaram com medo da “repress&o” e nos
tuais progressistas, cuja producgao implicava numa acusaram de radicais, Exatamente porque, a essas
visdo critica da realidade brasileira, 2 EAV tornou- alturas, cram os membros do MNU/RJ que estavam
se Oo maior espaco cultural do Rio de Janeiro naque- 4 frente da otganizacao dos eventos. De qualquer
le perfodo (tanto que sua desativacZo foi determi- forma, o espetaculo foi um sucesso, dada a qualida-
nada a partir de Brasilia no inicio de 1979, com o de dos textos e das Reportamo-nos a esse
afastamento de sua direcao). fato justamente porque nos parece importante uma
reflex2o sobre um certo tipo de negro que_a gente,
Além do curso tedrico (que em seguida se arti-
culou com outros dois: um, de dancas afro-brasilei- hoje, chama de jaboticaba (preta por fora, branca
nor dentro, doce... mas com carogo que nao da
ras e, outro, de capoeira}, que visava analisar as
Instituicbes e os valores culturais negros, assim como.
pra engolir). Falaremos do jaboticaba mais adiante.
Foi também em 1976 que se iniciaram os con-
sua presenga na formagao cultural brasileira, o es- tatos entre o Rio e Sdo Paulo, em termos de movi-
naco da Escola tambem foi aberto para a expressZo
mento negro. A turma de S80 Paulo tomou conhe-
viva de artistas e infelectuais negros. Durante trés cimento do que se passava por aqui, através do Bo-
anos (76, 77, 78), no més de novembro, realizamos
letim do IPCN, e, ent&o, pintou por aqui pra levar
exposicoes de artistas plasticos, apresentacdes de um papo. Este foi o primeiro encontro de uma
grupos de danca e¢ de poesia, exibicao de filmes, se-
série que se realizaria em Sao Paulo, Rio Claro, 5a0
mindrios, lancamentos de livros, espetaculos. de mit-
Carlos etc. As discussdes se darigm em torno de ‘O Movimento Negro Unificado Contra
uma quest§o fundamental: a criagdo de um movi- a Discriminagaéo Racial (MNU)
mento negro de cardter. nacional. E foi assim que
comecaram a ser lancadas as bases do Movimento
Negro Unificado Contra a Discriminacaio Racial, o
MNU. Sua criacdo efetiva, que se daria em junho de
78 em Sao Paulo, como veremos em seguida, resul-
tou de todo um trabalho dos ‘setores mais conse-
qiientes das entidades carlocas e paulistas, empe- através.de seu primeiro documento,
como se deu: a criacéo do -ent3o denominado Mov1-
nhados numa luta politica comum. Vale dizer .que a
mento Unificado Contra: a Discriminacao Racial.
fundaggo do MNU nao contou com a participacao Trata-se da-carta. convocatéria para o ato ‘publico
de nenhuma grande personalidade, mas resultou do contra o tacismo: —=

esforco de uma negrada anénima, dessas noyas Ji-


dérancas forjadas sob o regime ditatorial militar. | Nés,’ Entidades Negras, reunidas no Centro de
Cultura e Arte Negra no dia 18 dé junho, resolyemos
crlar: um: Movimento no sentido de defender a Co-
munidade Afro-Brasileira contra a. secular explora-
cio racial e desrespeito humano a que a Comunidade
é submetida.
Nao podemos mais calar. A discriminagio rac:al
é um fato marcante na sociedade brasileira, que barra
o desenvolvimento da Comunidade Afro-Brasileira,
desitr6i a alma do homem negro e sua capacidade de
realizacfio como ser humane.
O Movimento Unificado Contra a Discriminacao
Racial foi ctiado pata que os direitos dos homens
nevros sejam respeitados. Como primeira atividade,
este Movimento realizard um Ato Publico contra o
Racismo; no dia 7 de julho 4s 18,30 horas, no Via-
duto do Cha. Seu objetivo sera protestar contra os
' Giimos acontecimentos. discriminatOrios contra ne
gros, amplamente diyulgados pela, [mprensa.
No dia 28 de abril, numa delegacia de Guala
nazes, mais um negro foi morto por causa das tor:
tliras’ policiais. Este négto era Robson Silveira da
_ Luz, trabalhador, pat'de filhos. No Clube
de Regatas Tieté, quatro garotos foram barrades do
time infantil de voleibol pelo fato de serem negros. Centro de Arte e Cultura Negra, Associacdo Recrea-
© diretor do Clube dew entrevistas nas quais afirma ‘tiva Brasil Jovem, Afrolatino América, Associacao
aS sas atitudes racistas, tal a confianga de que nao Casa de Arte e Cultura Afro-Brasileira, Associacao
sera punido por seu ato.
NOs também sabemos que os processos desses Crista Beneficente do Brasil, Jornegro, Jornal Aber-
casos nao darfo em nada. Como todos os outros ca- tura, Jornal Capoeira, Company Soul, Zimbabwe
sos de racial, serio apenas mais dois ‘Soul. Nas reunides seguintes, a primeira se retirou
processos abafados e arquivados pelas autoridades @ @ segunda comecou a se atemorizar com @ repres-
deste pais, embora um dos casos tenha a agravante sao. De qualquer modo, um grupo de membros do
da tortura e conseqitiente morte de um cidadZo.
Nias o Ato Puiblico Contra o Racismo marcara CECAN organizou-se como o Centro de Luta Decisao
fundo nosso repdidio e convidamos a todos os seto- e levou adiante a idéia de realizacdo do Ato Piiblico.
res democraticos que lutam contra o desrespeito e as Formou-se, uma comissdo que organizarta a
Injusti¢as aos direitos humanos, a engrossarem filei- manifestacgzo. Ao chegar a ocasido do Ato Publico,
tas com a-Comunidade Afro-Brasileira nesse ato con-
t'a O racismo, pram as seguintes as entidades e grupos: Afrolatino
Fazemos um convite especial a todas as entida- América. Decis#o. Instituto Brasileiro de Estudos
des negras do pafs, a ampligrem nosso movimento. As Africanistas, Brasil Jovem, Capoeira, Atletas Negros
entidades negras devem desempenhar o seu papel oe ACBB.,
historico em defesa da Comunidade Afro-Brasileira:
¢, lembramos, quem silencia consente. Contatos foram estabelecidos com o Rio de Ja-
Nao podemos mais aceitar as condicdes em que neiro. Um dos atletas negros do Tieté velo ao nosso
Vive Oo homem negro, sendo discriminado da vida encontro para informar sobre os acontecimentos;
social do pafs, vivendo no desemprego, subemprego e cabia-nos, agora, mobilizar as entidades negras cario-
nas tavelas. Nio podemos mais consentir que o negro cas. Abdias do Nascimento, que chegara ao Rio al-
soira as perseguicdes constantes da policie, sem dar suns dias antes, proveniente dos Estados Unidos,
ume resposta.
TODOS AO ATO PUBLICO CONTRA O topou logo participar do processo. E nao da para
RACISMO esquecer aquela tarde ensclarada em que a gente se
CONTRA A DISCRIMINACAO RACIAL mandou pra-Coelho Neto, pra levar um papo com
CONTRA A OPRESSAO POLICIAL Candeia sobre a participacao da Quilombo no Ato
PELO FORTALECIMENTO E-UNIAO DAS ENTI- Piblico. Papo vai, papo vem, ele nos presenteotu
DADES AFRO-BRASILEIRAS com o folheto do enredo para o préximo carnaval:
Noventa Anos de Abolicao. Fora escrito por ele,
Assinavam o documento os seguintes. grupos e Candela, “baseado nas publicacédes de Edson Car-
associagoes: Camara de-Comércio. Afro-Brasileira, neiro, Lélia Gonzalez, Nina Rodrigues, Arthur
&
Daag
Ramos (...), Alipio Goulart”...
Surpresa e emocionada, disse-Ihe que ainda nao velho temor do comprometimento. Argumentava-se
tinha um. {trabalho publicado digno de ter meu nome que um ato ptiblico era. algo de muito sério e, no
ao lado daqueles “‘cobras’’ (afinal; um .artiguinho caso, até mesmo temerario, Felizmente a lucidez e a
aqui, outro acola, e de tempos. em, tempos, nao sig- dos mais decididos nao se abateu diante de
nilicava nada), Ele retrucou, dizendO que sabia t2is recelos.
wuite bem do trabalho que eu vinha realizando “par
ai” e que isso era 180 importante quanto os. livros Cabe.agqui uma referencia quanto a wma cons-
dos ‘‘cobras”: E foi ai, entéo, que me incumbiu de de caraéter pessoal. Na verdade, a oportuni-
representar a Quilombo no Ato Publico: “Nao u- dade de poder ter participado de um evento muito
porta o que vocé diga, que.eu assino embaixo”. Pela importante, a nosso ver, para a consolidacao daquele
primeira vez, para mim, alguém me fazia refletir movimento que viria a surgir em S80 Paulo. A con-
sobre a responsabilidade que se tem quando. se co- vite do Departamento Cultural da Prefeitura de Sal-
meca um trabalho “por ai”... A 16 de novembro vador, dirigi-+me para aquela cidade, na primeira
daquele ano, Candeia trocou a stia situacdo de com- semana de maio, para dar um curso cujo titulo era:
-panheiro de lutas péla de ancestral (6u‘seja, faleceu, ‘“Noventa anos de abolicdo: uma reflexfo critica’.
secundo a expressfo tradicional). E os ja entao com-
panheiros da Quilombo me indicaram para tresumir
e discutir com os membros da Ala dos Compositores
© enredo que ele escrevera. Nei Lopes e Wilson Mo-
ferentes pontos. do. pais. Representantes do Grupo
reira {essas duas “feras’’) tiveram o seu samba-en- Malé, do Centro de Estudos Afro-Brasileiros, assim
redo escolhido como o melhor, dentre outros muito como de blocos e afoxés de Salvador la estavam dis-
bons. E num trecho do samba, eles dizem: “E os cutindo e reivindicando, denunciando e se posicio-
guilombolas de hoje em dia/Sao candeia que nos nando contra o racismo, Chegsamos a um ponto que
stiumia’’.
tive que adiar a viagem de retorno ao Rio para que
Além da Quilombo, o Renascenca Clube, o Nu- pudéssemos melhor aprofundar as discusses..O re-
cleo Negro Socialista, o. Centro de Estudos Brasil- sultado desse encontro foi a criacho de um novo
Africa (CEBA) e o Institttto de Pesquisa das Cultu- grupo, constituido por membros dos anteriormente
ras Negras (IPCN)} foram as assoclagGes cariocas citados, assim como pelos que a eles nao pertenciam.
que apoiaram o novo movimento e assinaram uma Mas por que um novo grupo, se ja existiam outros?
‘nota conjunia de solidariedade que foi remetida para A novidade dele estava no fato de articular de ma-
SHo Paulo. Enquanto isso, naquela cidade, como vi- ueira explicitamente polftica a quest#o racial. O
mos, ocorriam as primetras defeccdes, determinadas Grupo Négo viria a ser a base a partir da gual o
‘pelo velho temor da: repressio e pelo nao menos futuro MNUCDR se estenderta a Salvador.
Por af a gente constata que o 7 de julho é um Campanha contra a discriminacdo racial, contra
marco histérico muito importante para nos, na me- a policial, contra o desemprego, o sub-
dida em que se constituiu em ponto de convergén- cinprega © a marginalizacao. Estamos nas ruas para
cia para a manifestacio, em praca ptblica, de todo denunciar as péssimas condicdes de vida da Comu-
um clima de contestagao as praticas racistas, assim nidace Negra.
como da determinacao de levees adiante a organiza- rioje ¢ um dia histérico. Um novo dia comeca
8 surgir para o negro!
cha politica dos negros. Ora, esse chuma e essa de- ‘Estamos saindo das salas de reunides, das salas
terminagao ja haviam pintado em diferentes pontos de conferéncias e estamos indo para as ruas. Um
do pais, como ja dissemos, Faltava esse 7 de julho, novo passo fot dado na luta contra o racismo.
garantia simbélica de um movimento negro de cara- Os racistas do Clube de Regatas Tiet® que se
ter nacional. cubram, pois exigiremos justica. Os assassinos de neo-
Bros que se cuidem, pois a eles também exigiremos
_E estévamos todos 14, nas escadarias do Tea-
tro Municipal de Sdo Paulo. Muita. atividade (distrt-
buicio da carta aberta a populacdo, colocacgao de O MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A
cartazes, faixas etc.), muita alesria, muita emocao. DISCRIMINACAO RACIAL foi criado para ser um
iInsfrumento de luta de Comunidade Negra. Este
As mogées de apoio chegavam e eram lidas com voz movimento deye ter como principio b4sico o trabalho
forte e segura. A multidao aplaudia, Como aplaudia ce denuncia permanente de todo ato de discrimina-
os discursos que se sucediam. Gragas as mensagens racial, a constante organizacéo da Comunidade
de solidariedade de grupos, organizacgGes, entidades para enfrentarmos todo e qualquer tipo de racismo,
negras e brancas, de Sdo Paulo e do Brasil; gracas Todos nos sabemos o prejufzo social que causa
AS falagdes que iam fundo em sltas dentncias 3 gta~ O racismo. Quando uma pessoa n&o gosta de um
negro é€ lamentdvel, mas quando toda uma sociedade.
gas Aquela multidaéo ali presente (cerca de duas mil assiime atitudes racistas frente a um povo inteiro, ou
pessoas), negra na maioria (mas mititos brancos se nega a enfrentar, af entdo o resultado é trégico
também); gracas a todo um espirito de luta pluri-se- para nos nesros:
cular de um povo, a emocdo tomava conta da gente, Pais de familia desempregados, filhos desampa-.
causando uma espécie de vertigem. E um sentimen- rados, sem assisténcia médica, sem condicdes de pro-
to fundo tomou conta de cada um, quando ouvimos tecdo familiar, sem escolas e sem futuro. EF é -este
a leitura, a duas mil vozes, da Carta Aberta a Popu- racismo coletivo, este racismo institucionalizado que
gue assim dizia: da otigem a todo tipo de violéncia contra.um povo
inteiro. E este racismo institucionalizado que da se-
Contra o Racismo para a pratica de atos racistas como os que
ocotreram no Clube Treté, como o ato dé violéncia
Hoje estamos na rua numa campanha de de- policial que se abatetu sobre Robson Silveira da Luz,
nvyineia) no 44.° Distrito Policial de Guttaianazes, onde este
negro, trabalhador,.pai de famflia, foi torturado até
» thorte. No dia t2 de julho, Nilton Lourengo, mais YOR “alta ° documento acima reproduzido. As l&gri-
um negro operério, fol assassinado pot um policial mos 0 impediam de fazé-lo. Marcou-me fundo.o seu
nO bairro da ‘Lapa, reyoltando toda a comunidade ¢ gesto. de enxugd-las na manga do paletd, passando o
0 povo em. geral. brago nos olhos.. .
Casos como estes 880 rotina ém nosso pals que
se diz democratico.
ia seguinte, os jornais noticiavam em man-
tais acontecimentos deixam mais evidente ¢ chetes de primeira p4gina,. E estavamos no nonagé-
reforcam a justica de nossa luta, nossa necessidade ce simo ano apds a chamada da escravatura.
mobilizacaa. a
Ketornamos ao Rio, apds a assembléia de ava-
BR necessério buscar formas de organizagao. E Nagao do Ato Publico. Reunimo-nos, entHo, para
preciso garantir que este movimento seja um forte
instrumento de luta permanente da comunidade, onde
discutir as propostas que levarfamos para a assem-
todos patticipem de verdade, definindo os caminhos bicia que se realizaria no dia 23 de julho na capital
do movimento. Por isso chamamos todos a engros- paulista. Dentre as propostas que levamos, destaco
sarem 0 MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A uma: a gue propunha o acréscimo do significante
DISCRIMINACAO RACIAL.
Portanto, propomos a ctiacaio de CENTROS DE negro a0 nome
ante, passamos doo movimento,
a ser MOVIMENTO NDaquela data ex
LUTA DO MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A
DISCRIMINACAO RACIAL, nos bairros, nas vilas,
UNIFICADO CONTRA. A DISCRIMINACAO RA
nas prises, nos terreiros de candomble, nos terreiros CIAL. Nessa mesma assembléia interestadual (SP e
de umbanda. nos locais de trabalho, nas escolas de KJ), reunlda nas dependéncias da ACBB, continua-
-- gamba, nas igreias, em todo o lugar once o negro ram a pintar as divergéncias; os setores mais con-
vive: CENTROS DE LUTA que promovam o debate, servadores nao deixavam de demonstrar seus receios
a informacio, a conscientizagio ¢: da em face das proposias mais avangadas dos setores
comunidade negra, tornando-nos um movimento forte, progressistas do movimento. Desnecess4rio dizer que
ativo e combatente, levande o negro a participar em
eles comegaram a se afastar do projeto com que nos
todos os setores da sociedade. brasileira.
Convidamos os setores democraticos da socieda- a haviamos comprometido, Apés calorosas: discussdes
de (para) que. nos apdiem, criando. condigdes neces: — foi eleita uma Comissao que se encarte-
para criar uma verdadeira democracia racial. | garia de elaborar o ante-projeto dos documentos
CONTRA A DISCRIMINACAO RACIAL baésicos do MNUCDR: Carta de Princ{pios, Estatuto
CONTRA A OPRESSAO POLICIAL e Programa de Acdo. _
PELA AMPLIACAO DO MOVIMENTO |
POR UMA AUTENTICA DEMOCRACIA RACIAL
Dias depois, seguiamos para Salvador, Abdias
e eu, 2 fim de colacarmos. os irmfos daquela cidade
Pessoalmente, n@o poderei esquecer a imagem a par dos acontecimentos (também .eles haviam
i.
« daquele velho homem negro, que mal podia ler em ~ sua mog&o.de opojo ao Ato de 7 de julho).
propostas vinham sendo derrotadas, retirou-se sob
Sua adesiio foi imediata, assim como seu compromis- protesto, dado o esquentaménto dos Animos. Mesmo
so de comparecimento & Assembléia Nacional a ser assim, as discussOes continuaram no maior entusias-
realizada no Rio de Janeiro. La pelos fins de agosto, mo, La pelas tantas, eram evidentes os singis de
um grupo de intelectuais negros do Rio € de Sao cansaco, resultantes de tanta empolgacdo, de tanta
Paulo seguiu para Belo Horizonte, a fim de partict- entrega. Era bonito-de ver aquela negada tao cheia
par da II Semana de Estudos Afro-Brasileixos, orga- de vida, to ardorosa, mesmo que discordante, em-
nizada pelo Instituto de Histéria e Arte de Minas penhando-se ‘inteira naquela assembléia. E o lance
Gerais. Todos, & excegfo de um, pertenciam ao mais incrivel se deu quando o sono comecou a amea-
MNUCDR e, dentre estes, dois eram membros da gar o andamento dos trabalhos. Jd era alta madruga-
Comissio Proviséria. Ao regressarmos, j@ tinhamos da de segunda-feira; estavamos todos exaustos, exau-
conseguido a adesio de um casal negro, que sé en- ridos, mas com uma determinacBo que teimava em
carregou de criar e organizar o movimento naquela transcender tudo isso. E era um tal de négo cochi-
cidade. Minas Gerais também se comprometia a lando aqui, outro acold, outro mais adiante, todos
corpatecer 4 Assembiéia no Kio. insistindo em permanecer no plendrio (ainda hoje,
Esta tiltima foi realizada nos dias 9, 10 e 11
quando a gente papeando se recorda da cena, a gente
de setembro, nas dependéncias do IPCN. Presentes, sc acaba de rir).
as delegacdes de Sao Paulo, Bahia, Minas Gerais ec.
Espirito Santo, além dos cariocas-e fluminenses. De qualquer modo, o importante foi que se
Eram cerca de trezentas pessoas que ali estavam conseguiu fechar a pauta. Os documentos bdsicos
para discutir e votar nfo s6 os documentos basicos foram votados, a Comissio Executiva Nacional fo}
do movimento, mas também eleger @ Comiissao eleita (os Centros de Luta dos respectivos estados
Executiva Nacional e caracterizar a posicdo do escolheram seus representantes, & excecio dos com-
MNUCDR em face das eleicSes de 15 de novembro. panheiros do Espfrito Santo que deixaram para fa-
zé-lo mais tarde) e se decidiu o posiclonamento que
As discussdes foram prolongadas e cansativas, tertamo iante das eleicées, mediante a noco de
uma vez que posicdes diferentes insistiam em deten- voto racial, Este Gltimo significava o estabelecimen-
der seus pontos de vista com todas as forgas. O to dé“tima plataforma das exigéncias da comunidade
grupo fluminense, que j4 a 23 de julho ameagara negra, primeiramente apresentada aos candidatos
se atfastar, retirou-se praticamente nos primeiros
negros.e, casO nao a encampassem (o que acabou
momentos em que se iniciavam os trabalhos. Pas- ocorrendo), .aos candidatos progressistas da oposi-
esmos todo o sébado discutindo e votando o estatu-
¢a0, em seguida, para que a divulgassem: durante a
to, No domingo, foi a vez da carta de principios e campanna e buscassem efetivé-la durante o manda-
do programa de O acirramento foi de tal or- to, Estes altimos cumprifam ou tentaram cumprir a.
% dem que quase o pau quebrou. Um dos grupos cujas
seu importante trabalho sobre o drama de: ser né-
primeira parte, nada fizeram com relagdo & segunda;
avo no Brasil, tais mecanismos de ocultamento e
exceto alguns belos discursos (0 que a gente ja
previa), negacgao sfo devidos ao fato de, em termos psica-
naliticos, o branco ser vivenciado como ideal do
Vale recordar aqui.um fato muito interessante,:”' eso. De nossa parte, de acordo com as pesqttisas do
que nos remete & ideologia do branqueamento. Como Cheikh Anta Diop, e também numa perspectiva psi-
se sabe, ela consiste no fato de os. aparelhos ideolo- canalitica, a universal “fobia de negro” remeteria
gsicos (famflia, escola, igreja, meios de comunicacgao justamente para o contrario. Mas isso é assunto para
etc.) veicularem valores que, juntamente com o mito um outro papo, posta que a reprodugdo da ideologia
da democracia racial, apontam para uma suposta do branqueamento é um fato concreto que.sé con-
superioridade racial e cultural branca. Vale notar firma o que a Neusa diz. Isto feito, aqui val o nosso
cue 6 justamente por. af, por essa articulagao entre ralato.
o mito e a ideologia, que entender o carater
disfarcado do racismo @ brasileira. Dai se segue que Fui designada pelos companhetros de movimen.-
pessoas “negras (pretas.ou mulatas, porque da no to para Jevar nossa plataforma politica a um famo-
mesmo) internalizam tais valores e passam a se so e respeitade candidato da oposicado, que é negro.
gar enquanto tais, de maneira mais ou menos cons: Na sala de espera de seu escrit6rio, fui abordada
ciente (o mesmo acontecendo com as pessoas “bran- por uma jovem recepcionista, “morena queimadi-
cas”, isto 6, aguelas cujos tracos revelam uma as- nha’, que foi logo me dizendo: “Escuta aqui, minha
cendéncia negra, ‘mas que sao vistas:corno ‘brancas; filha; se vocé veio aqui pra pedir emprego ao Dr.
Abdias do Nascimento as chama de “brancdides”’). (...), nem adianta, porque ele nao vai te receber.”’
Em suma, elas sentem vergonha de sua condigao ra-
Por af se vé que, de acordo com sua bela cabecinha,
cial e passam a desenvolver mecanismos de oculta- uma crioula querendo falar com o candidato, sé po-
mento de sua “inferioridade”. Esses mecanismios re-
dia ser para pedir emprego... ApOs uma verdadel-
cobrem um amplo quadro de racionalizagao que yao ra odisséia, consegui ser levada & presenga do Dr.
desde um efetivo racismo as avessas ou (...)}, que jeu atentamente o documento que lhe en-
“brancéides” que, por palayras e atos, “n#o gostam. tresuei. Apds issso, me disse solidariamente: “Mas
de preto”) até a atitude “democratica” que nega a é claro que eu apoio todas essas reivindicagdes por-
guestio racial, diluindo-a mecanicamente na luta de aue, afinal de contas, o problema de vocés € muito
classes (por af se’ vé como certas de esquer- sério.” Ao que eu lhe retruquei: “De fato, Dr. (...),
da nada mais fazem do que.reproduzir o mito da
muito mais sério do que a gente pensava até aqui ¢
democracia‘ racial, criado pelo liberalismo paterna-'—
lista que elas dizem combater). De acordo com nos-
agora.’ Pois 6... Desnecessério dizer que nem du-
rante sua campanha foi levantada a quest&o do ne-
sa companheira’ de. MNU,. Neusa Santos Souza,-em
ero. (Neusa,; vocé tem carradas de razao, podes te, inclusive, com provocacSes e agressdes as pes-
erer.). soas que orientavam os transeuntes 4 participarem
da Assembléia. Fol um passo importante para O NOsso
Uma nova Asseinbléia Nacional foi marcada pa- Movimento, pois definimos pontos programaticos,
ra o dia 4 de novembro em Salvador. Vejamos o de- data para a preparatéria do Congresso de
poimento de um companheiro: Culturas Negras das Américas e tiramos um do
sumento Nacional do Dia da Consciéncia Negra. (De-
“A reuniao do Movimento Negro Unificado Contra - poimento de Milton Barbosa, do Centro de Luta De-
s Discriminacdo Racial fere a Lei Afonso Arinos”, cisko, do MNUCDR — Jornal Versus n° 27.)
Esta a descuipa apresentada pelo presidente da Asso-
clacao dos Funcion4rios Pudblicos da Bahia ao Gesis- Na verdade, ficou estabelecido o 20 de novem-
tir de ceder a sede de “sua” entidade para a realiza-
cio da II] Assembléia Nacional do Movimento Negro bro como o Dia Nacional da Consciéncia Negra. Nos
Unificado, na cidade de Salvador, na Bahia. Durante anos seguintes, terfamios os atos publicos, as passea-
a manha do dia 4 de novembro, varios telefonemas tas e outras formas de manifestagao, ocorrendo a
de Brasilia determinavam as entidades de estudo das nivel nacional enquanto expressdes de um assenil-
relacGes raciais, para que nao apoiassem a Assem- mento: o da Comunidade Negra. Gracas ao empe-
bléia, enquanto a Policia Federal se encarregava de
tentar impedir a reuniadc. E a proibicfo da reunigo | nho do MNU, ampliando e aprofundando a propos-
por este organismo, foi o argumento utilizado pela ta do Grupo Palmares, o 20 de novembro transtfor-
responsa&vel pelo Teatro Vila Velha, o local alter- mou-se num ato politico de da histéria do
nativo, determinado pela Coordenacio Nacional, or- pavo negro, justamente naquilo em que ele demons-
ganismo dirigente do Movimento Negro Uniticado trou sua capacidade de organizacHo e de proposta
Contra a Racial. (...) de uma sociedade alternativa: na verdade, Palmares
Ao chegarmos ao teatro Vila Velha fomos infor-
foi o auténtico berco da nacionalidade brasileira, ao
mados de que a policia federal proibira a Assembléia,
pois consideraya que sua realizacdo feria a Lei Afon- se constituir como efetiva democracia racial e Zum-
so Arinos. Ndés, negros, sempre desconfiamos desta bi, o simbolo vivo da luta contra todas as formas de
Lei, pois temos certeza que, apesar de ser uma lel exploracio. E hoje, tamos ai, constatando a tmpor-
que deveria garantir o direito do negro lutar contra tancia da iniciativa do MNU, uma vez que grupos
O racismo, nunca funcionou contra os racistas. De- e entidades negras de todo o pais se mobilizam em
yeria:' ser usada contra nés. Foram colocados v4rios torno dessa data magna. E o treze de maio, cada vez
policiais neste teatro e muitas viaturas circulavam
mais, caracteriza-se como data oficial de Orgaos go-
ostensivamente nas suas Iméediacoes.
Voltamos para o ICBA (Instituto Cultural Brasil xernumentais, ou seja, como papo de branco (o que
Alemanha) e realizamos nossa assembléia, indiferentes é até coerente, pois, a chamada aboligao resolveu os
us pressoes do. aparato repressivo, que se fez presen- problemas das classes. dominantes’ brancas © nao Oo
JOGADO NAS FAVELAS, CORTICOS, ALAGA-
TOs
nosso). Mas vames ao texto de 4 de novembro de DOS E INVASOES, EMPURRADO PARA A MAK:
GINALIDADE, A PROSTITUICAO, A MENDL-
CANCIA, OS PRESIDIOS, O DESEMPREGO E O
AO POVO BRASILEIRC | SLIBEMPREGO tendo sobre si; ainda, o peso desu:
MANIFESTO NACIONAL DO mano da VIOLENCIA E REPRESSAO POLICIAL.
MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO Por isto, mantendo o espfrito de luta dos- quilombos,
CONTRA A DISCRIMINACAO RACIAL GRITAMOS contra a situacio de exploracdo a que
A ZUMBI estamos submetidos, lutando contra 0 RACISMO €
70 DE NOVEMBRO: DIA NACIONAL DA toda e qualquer forma de. OPRESSAO existente na
CONSCIENCIA NEGRA sociedade brasileira, e pela MOBILIZACAO E OR-
GANIZACAO da Comunidade, yisando uma REAL
Nos, negros brasileiros, orgulhosos por descendermos emancipacio politica, econ6émica, social e cultural.
Desde o dia 18: de junho somos 0 MOVIMENTO
de ZUMBI, lider da Reptiblica Negra de Palmares,
NEGRO UNIFICADO CONTRA A DISCRIMINA-
Gue existiu no Estado de Alagoas, de 1595 a 1695.
desafiando o dominio portugués e até holandés, nos CAO RACIAL, movimento que se propos a ser um
canal das reivindicacées do negro brasileiro e que
reuunimos hoje, apés 283 anos, para declarar a todo tem suas bases nos CENTROS DE LUTA, forma-
poyo brasileiro nossa verdadeira e efetiva data: 20 dos onde quer que 6 negro se faga presente.
de novembro, DIA NACIONAL DA CONSCIENCIA | EK preciso que o MOVIMENTO UNIFICA:
NEGRAS DO CONTRA .A DISCRIMINACAO RACIAL 66
Dia da -morte do grande Hder negro. nacional, torne forte, ativo e combatente; mas, para isso 6
ZUMBI, responsavel pela PRIMEIRA E UNICA ten- | necessdtia a participacdo de todos, afirmando o 2U
tativa brasileira de estabelecer uma sociedade demo- de novembro como o DIA NACIONAL DA CONS-
crAtica, ou sefa, livre, e¢ em que todos — negros, CIENCIA NEGRA.
fndios, brancos — realizaram um grande ayanco po- - PELO DIA: NACIONAL DA CONSCIENCIA
{ftico e social. Tentativa esta que sempre esteve pre- NEGRA
sente em todos os quilombos. PELA AMPLIACAO DO MNUCDR
Hoje estamos unidos numa Iuta de reconsirucao da - POR UMA VERDADEIRA DEMOCRACIA
sociedade brasileira, apontando para uma. nova of- RACIAL
dem, onde haja a participaco real e justa do negro, PELA LIBERTACAO DO POVO NEGRO
uma yez que somos os Mais Oprimidos dos oprinidos;
no sé aqui, mas em todos os lugares onde vivemos.
Por isto, negamos o treze de maio de 1888, dia da Em setembro de 1979, realizar-se-ia um Encon-
abolicio da escravattra, como um dia de libertacfo. tro Nacional em Belo Horizonte visando um Dalan-
Por qué? Porque nesse dia fol assinada uma lel que co ctitico de nossas atividades, assim como a prepa-
apenas ficou no papel, encobrindo uma de tacio do I Congresso do MNUCDR, marcado para
dominacgdo sob a qual até hoje o negro se encontra: os dias 14, 15 ¢ 16 de dezembro no Rio de Janeiro.
As atividades do MNU em seu primeiro ano de gacko dos assaltantes do adolescente Ailton, da me-
exist€ncia se deram nos mais diferentes niveis. Des:- nina Marcia, de Aézio, todos eles negros anonimos ¢
de a dentincia dos casos de violéncia policial (que pobres, vitimas, como tantos outros, da violencia
nos levou a defender a tese, junto ao Comité Brasi- policial. E quando eclodiu o internacionalmente [a-
leiro pela Anistia, em seus dois congressos de 1978 toso “caso Marli”, o apoio recebido sobretudo pelo
e 1979, de que o negro brasileiro também é prisio- movimento de mulheres foi um dos efeitos das de
nelro politico, na medida em que é colocado sab nincias efetuadas pelo MNUCDR desde 1976.
suspeita e preso pelo simples fato de ser negro), pas- (Robson da Luz e os atletas-emirins do Tieté.. .}
sando pelas manifestacSes em praca piblica (enterro Quanto aos aspectos negativos, deixando de la-'
da Lei Afonso Arinos, em Sdo Paulo: de do o ja tradicional “racismo as avessas” de que so-
gatos ptblicos e passeatas, por ocasifo do 20 de no mos acusados sempre que nés, negros, partimos para
vembro, em diferentes capitais do pais, etc.), ao tra- 9 dentincia do racismo e da discriminacao, pintaram
balho iniciado junto 4 comunidade negra. Seu tra- outras acusacdes como as de divisionistas, revanchis-
balho de deniincia do racismo e da violéncia poli. tas etc. e tal, provenientes de certos setores de es-
clal acabou por sensibilizar determinados setores da querda, além daquela de subversao, tao cara ao re-
sociedade, tanto num sentido positivo quanto ne- gime. Mas a gente continuou a nossa luta. E hoje;
salvo. 1981, é interessante observer que, apesar dos pesa-
res, engrossaram as fileiras dos aue estao interessa-
No primeiro caso, vale _natar, por exemplo, a
descoberta_divulgada pela grande imprensa:a_de dos na “questo negra”. O que nfo deixa de ser um
quéeO negro comum também 6 torturado. De acor- avyango..,
do com a reportagem de um grande semandrio, a Com esse tipo de perspectiva com relag&o ao
opiniao ptiblica brasileira s6 passou a tomar conhe- racismo, nosso trabalho de dentincia da situacao do
cimento da existéncia da tortura a partir do momen- negro brasileiro também tem se dado a nivel inter-
to em que a repressao passou a praticaé-la nos jovens nacional, secundando aquele iniciado por Abdias do
de classe média que se Opuseram ao regime. Um belo Nascimento a partir de 68. Assim & que participa-
dia, o cardeal do Rio de Janeiro, foi fazer sua visita mos de: .
anual ao presidio, quando os presos (negros em sua a) Congressos — como o II Congresso. das Culturas
maioria, vale lembrar) Ihe revelaram a grande novi- Negras das Américas, realizado no Panama em
dade. (Se a gerite_se_interessasse mais pelo que se 1930:
passa efetivamente no_cotidiano da. grande massa b) Semindrios — “Democracia para o Brasil’, No-
negra, desde a escrayidio, a gente saberia que tor- va lorque, 1979; “A Mulher sob o Apartheid”
tura sempre existiu em nosso ‘belo pafs tropical.) Ou-
(promovidos pela ONU), no Canada e. na Finlan-
ros exemplos de sensibilizag&o referem-se a divul- dia, em 1980 (dos quais fui vice-presidente); “St-
tuagao Politica, Econémica e Social do Brasil’, crise econdmica, haveria uma espécie de deslocea-
Italia, 1981; mento das atencSes. A séguranca social ocuparia 0
¢) Simpésios — “Economia e Politica do Mundo primeiro lugar das -preocupagdes do governo, colo-
Negro”, Los Angeles, 1979; ‘Raca e Classe no ‘cando num segundo plano, aparentemente a segu-
Brasil’, Los Angeles, 1980; ranca nacional, Os projetos. de diminuigao da idade
d) Encontros —- IV Encontro da Associac3o de Es- com relagio a responsabilidade criminal (18 para
tudos Latinoamericanos, Pittsburgh, 1979; En- 16 anos) e da prisdéo cautelar, apontavam para a
coniro Preparatorio da Conferéncia da Década principal vitima do sistema a populacdo negra, para
da Mulher, | Sufga,. 1980; II Encontro da Asso- vatiar. Os linchatentos ja se sucediam e a pena de
clacao de Estudos da Heranca Africana, Pitts- morte ja eta vista como “natural” pelos varios
burgh, 1979; | Setores da classe média (duramenté atingida pelo
e) Conferéncia —- “Os Direitos Humanos e a Mis- ‘“Sacote de dezembro”’, ponto de partida pata
sao da Mulher” (promovida pelo Conselho Mun- o seul empobrecimento propressivo). Diante de tal
dial das Igrejas}), Veneza, 1979; Conferéncia Al- guadro, os congressistas votaram a execucdo das se-
ternativa da Década da Mulher, Copenhague, guintes campanhas articuladas: MAIS EMPREGOs
1980; Sangdes contra a Africa do Sul (promovi- PARA OS NEGROS e a campanha CONTRA A
da pela ON), Paris, 1981;. VIOLENCIA POLICIAL. O desdobramento desta
f) Palestras (Estados Unidos, Europa e Africa: filtima, no momento que as bombas tavam ai, explo-
negal, Aito Volta e-Mali), entrevistas (imprensa dindo pelo pais, levou nossos companhetros de
falada, escrita e televisada dos trés continentes ci-
tados), participac#o em manifestacdes (Dia da Li- nas a ae
é objeto caracterizarem
arror cotidia CU, fato te que a populagao ne
um fer
bertaco Africana,|25 de abril;' vale ressaltar que Também nds, mulheres negras, além da
Oo Dia Nacional da Consciéncia Negra, o nosso - cia do branqueamento do homem negro, em. termos ;
20 de novembro, foi comemorado em Londres, de casamento, discutimos os problemas relativos a
em 1980) ete, | educacdo de nossas criancas, controle da natalidade,
assiin como nossa participacao no processo de liber-|
O I Congresso do MNU significou um prande tacko do povo negro e na luta contra o racismo. Ana-|
passo em termos de luta politica do negro; Reunin- também a situacio da.mulher negra enquan-
do delegados do Rio, Sao Paulo, Bahia, Minas e Rio
to empregada doméstica no quadro da reprodugao
Grande do sul, avan¢ou uma de questdes que do racismo (inclusive por parte de muitas mulitantes
serliam posteriormente-contirmadas. Ao analisar a brancas do movimento de mulheres).
conjuntura nacional, os congressistas avaliaram cor-
retamente a questao da violéncia: na medida
Sf. Ff. 4, .,. FF — fF . @ «
em que
5S +
Quanto & questiio ‘da cultura negra, sérias crf.
. a abertura’’ se e com ela a aproximeagao da tices foram dirigidas ao processo de comercializagao
Carta de Princfpios, inspirou a criac#o de diversas
é folclorizagdo que ela tem’ sofrido por parte das entidades.e grupos negros em varios pontos do pais.
secretarias e agéncias de turismo. Conscientes da im-
Finalizemos, ent&éo, com o texto de nossa Carta de
possibilidade de deter a invasio capitalista, reivin- Princfpios:
dicou-se a profissionalizagao dos produtores de cul-
tura popular. Era a consciéncia de que sobretudo NOS, membros da populacfo negra brasileira — en-
as entidades negras de massa haviam se transformado tendendo como negro todo aquele que possul na cor
Cm empresas; consequentemente, por que nao pa- da pele, no rosto ou nos cabelos, sinais caracteristicos
gar salarios para passistas, bateristas, compositores e dessa raca —, reunidos em Assembléia Nacional,
outros membros natos das eseclas de samba? CONVENCIDOS da exist@éncia de:
Com relacéo a estrutura do movimento, o Pro- — discriminacdo racial -
grama de Acdo foi devidamente ampliado e aprofun- — marginalizacio racial, polftica, econdmica, social
dado. E como a luta prioritéria do movimento é con- e cultural do poyo negro
ira a discriminacdo racial, seu nome foi simplificado —- péssimas condigdes de vida
para (o que ja se fazia na prdtica): MOVIMENTO — desemprego
-— subemprego
NEGRO UNIFICADO (MNU),. == discriminacdo na admissdo de empregos e¢ perse-
guicdo racial no trabalho.
A guisa de conclus#o deste depoimento, nic
podemos deixar de ressaltar que o advento do MNU -— condicSes sub-humanas de vida dos presidiarios
- — permanente repressdo, perseguicgo e yioléncia po-
consistiu no mais importante salto qualitativo nas licist
lutas da comunidade negra brasileira, na década de — exploracio sexual, econémica e social da mulher
setenta. Vale notar que as entidades culturais que,
de um modo ou de outro, se distanciaram do MNU —~ abandono e mal tratamento dos menores, negros
em sila Mmaloria
(por discordarem de sua proposta ou por falta de
— colonizacso, descaracterizac&o, esmagamento © co-
Clareza politica}, foram obrigadas a se posicionarem mercializacio de nossa cultura
de maneira mais incisiva; justamente porque o MNU | —~ mito da democracia racia
conquistou espagos politicos que exigiram esse avan- RESOLVEMOS juntar nossas forcas ¢ lutar por:
¢o por parte delas. d4 mais pra sustentar — defesa do povo negro em todos os aspectos poli-
posigoes culturalistas, intelectualistas, coisas que tais, ticos, econdmicos, sociais e culturais através da
€ divorciadas da realidade vivida pelas massas ne- conquista de:
gras. Sendo contra ou a favor, nfo d4 mais pra ig- — maiores oportunidades Ge emprego
—- melhor assisténcig & sade, & educacio e A ha:
norar essa questao concreta, colocada pelo MNU: bitaczo
g articulagao entre raga e classe. Por outro lado, o — reavaliaczo do papel do negro na Historia do
| advento do MNU ea difusfo de sua proposta polfti- Brasil
.Ca, Objetivada em seu Programa de e em sua
«= yalorizacgio da cultura negra ¢ combate sistemé-
tico & sua comercializac&o, folclorizacdo e dis-
torcao |
-—- extincao de todas as formas de perseguicdo, ex-
ploracBo, represséo e violéncia a que somog stib-
metidos
~~ liberdade Ge organizacso e de expressdo do pova
negro
E CONSIDERANDO ENFIM QUE:
RACA, CLASSE E MOBILIDADE
~~ nossa. luta de Hbertaga#o deve ser somente dirigida
por nos
— Gueremos uma mova sociedade onde todos real-
mente participem
“= COMO NEO estamos isolades do restante da socie Carlos Alfredo Hasenbalg
dade brasileira
NOS SOLIDARIZAMOS:
A} com toda e qualquer [uta reivindicativa dos seto-
res populares da sociedade brasileira que vise a
real conquista de seus direitos politicos, econémi-—
COS e& socials:
b) com a luta internacional contra o racismoa.
POR UMA AUTENTICA DEMOCRACIA RACIAL!
PELA LIBERTACAO DO POVO NEGRO!
A expansdo européia iniciada no século XY
teve como resultado o contato entre europeus bran-
cos € populacoes das dreas que iam. sen-
do incorporadas ao mercado internacional. Desses
contatos resultaram a incorporagaéo de povos inteiros
aos dominios coloniais metropolitanos, migracdes
forcadas de trabalhadores entre continentes ¢ regides
e a sujeigao de populagdes de cor a sistemas repres-
‘sivos de trabalho.

ou parcial da humanidade do negro e outros nio-


brancos, constituiu a justificativa..para exercitar 0
dominio sobre os povos de_cor. O contefido desta
justificativa variou ao longo do tempo, tendo.
cado com nogdes Smbutdas de uma iso religiosalda
mundo que permitiram estabelecer a distincad entre
cristaos e pagaos. Mais tarde e de uma. maneira pa-
radoxal, o idedrio de igualdade e liberdade surgido
no final do século XVIII bcentuou a exclusio dos
nao-brancos do universalismo burgués e levou A ne-
cessidade de reforcar a distingao entre homens,{bran-
cos) & sub-homens (de cor). Jé no século (XIX) o
darwinismo social, o evolucionismo, as doutritias do
“racismo cientifico’”’ e a idéia da “missao ctvilizaté-
fig do nomem branco” aparecem intimamente rela-
cionadas & expansao imperialista dos paises europeus.
De fato, o inicto da revolta cientifica contra o © estudo das relagées raciais
racismo e a definicaio das racas como entidades bio-
légicas independentes de definicdes sociais data da
nos Estados Unidos
terceira e quatta décadas deste século. O antropdlo-
go Franz Boas pode ser destacado como um dos pio-
neiros no ataque sistematico as interpretacoes biold-
sicas da historia e um dos princlpais respons4veis
pela mudanca que leyou a desenfatizar fatores biold-
No que se refere ad estudo cientifico das rela-
gicos e nereditérios em tavor de fatores puramente
cuiturais na explicacao da dinamica social. Porém, cOes raciajs, nao € de estranhar que grande parte
das interpretacdes tedricas e andlises empfricas te-
apesar do crescente descrédito do determinismo bio-
ldgico e racial, o velho tema volta a aparecer com nna sido desenvolvida nos Estados Unidos, pafs
novas roupagens. Numa época em que a atividace multi-racial onde a questao racial tem ocupado um
das ciéncias sociais e biolégicas tem refutado consis- lugar central no debate académico e politico. Em
tentemente a existéncia de desigualdades naturais en- _ termos do seu valor intrfnseco e influéncia poste- —
tre as racas, alguns produtos da atividade cientifica rior, a teoria do ciclo das relagdes raciais, formula-©
continuam a ser para sustentar a existén- da por \Robert E. Par constitui um dos marcos inis, c
cia de uma base genética das diferencas raciais: é | clais da interpretagao sociolégica do tema. Segundo %
-o caso dos controvertidos testes de QI e as possivets
derivacSes racistas de uma disciplina nova e igual- esse autor, as relagbes raciais so o produto de mi- as: rey
mente controvertida como é a socicbiologia. de_interagdes “¢competi-
ay ©
Cod
<,
livas_ marcadas pelo etnocentrismo. As _relacdes _ra-
. ciais tenderiam a se adequar a um ciclo que inclui as.
etapas de contato, competigaéo, acomodacao e assi-
milacfo.! Park formulou sua teoria tendo em vista
tina ampla gama de situagGes histéricas. Seus varios
trabalhos retletem a sua crengca numa tendéncia a
longo prazo no sentido da assimilacao das minorias
na sociedade mais ampla e¢ o conseqtiente desapa-
recimento de categorias étnicas e raciais. enquanto
tais. Desta forma, a.classe social
el TN TT ls lltenderia
an ee a substituiz
En

raga ¢ etnicidade como critério de.


pe, estratificagdo so-
cial e fonte de conflito,
A sociologia americana posterior a Park nao tas como estando numa situacdo basicamente igual
s6 est4 dominada pela premissa assimilacionista, co- a das minorias étnicas européias no passado. A par-
mo também fez um recorte mais paroquial do foco tit desta semelhanca aparente com o imigrante se-
de andlise, limitando-se a estudar quase que exclu- sue-se que o ritmo de incorporac&o do negro’e outras
sivamente as relacées raciais nos Estados Unidos. De minorias racjais depende fundamentalmente de: 2)
um ponto de vista teédrico mais abstrato, o suposto a diminuicao do preconcetio do. grupo branco eb) &
assimilacionista resulta de uma anélise. das exigén- aquisicdo pelas minorias raciais das normas cultu-
cias estruturais das modernas sociedades industriais: rais apropriadas & competic#o social na sociedade
universalismo, realizagao, eficiéncia instrumental e americana. No que se refere ao preconceito e discri-
capacidade individual dentro de uma estrutura aber- minacdo do grupo branco, além da tendéncia a
ta de oportunidades. Dada a ldgica do industrialis- subestimar seu efeitos, existe um otimismo geral so-
M0 e o cardter impessoal dos mecanismos de mer- bre as possibilidades de sua diminuigéo através: da
cado, caracteristicas individuais que nao podem ser persuasaio moral e continuo esclarecimento do gru-
modificadas, como. raga, etnicidade e sexo.tendem po dominante, Por sua vez, o ritmo lento ou ate a
a ser cada vez menos importantes. como. Iontes-de auséncia de progressos.no processo de incorporacao
estruturacaéo das relacgGes: sociais. Mais concretamen- é explicada por alguns autores_da escola _assimuacio-
te, os trabalhios mais expressivos da perspectiva assi- nista como resultado do. fracasso. ou incapacidade
milacionista partem da idéia de que os Estados Uni-
dos sfo uma nacdo constitufda por sucessivas. levas
de imigrantes e onde as oportunidades econOmicas mais de organizacdo social e familiar constituem a
em permanente expansZo mantém abertos os. canais explicacdo do confinamento das minorias raciais na:
de ascensdéo social no sistema de classes;? Cada uma base da hierarquia social, por baixo da linha oficial
das minorias étnicas de imigrantes europeus ingres~ da pobreza. Numa. tipica declaragfo em que “po-
sou nos. Estados Unidos a partir de uma situacgo bhreza’’ constitui um e@ufemismo para referir-se fun-
desfavordvel devido ao preconceito do grupo damentalmente As minorias raciais, alirma-se:
nante, a auséncia de familiaridade com os padrodes
culturais vigentes e A falta de habilidades para com- “A pobreza engendra. pobreza. Um individuo ou 1a:
petir exitosamente no novo pais. Porém, com o pas- mflia pobre tem uma alta probabilidade de perma:
sar do tempo as minorias imigrantes aprenderam a necer pobre. Uma baixa renda carrega consigo um
cultura dominante, desenvolveram as habilidades ~ alto risco de doencas, limitacGes na mobilidade, aces:
requeridas e se deslocaram para cima na literarquia so limitado & informago © treinamento.
ocupacional. Nesta abordagem as minorias raciats, Os pais pobres nao podem dar a seus filhos uma
ds ultimas a migrar para as grandes cidades, S40 vis= satide e melhor, necessarias para melhorar
sua situacdo. A. falta de motivagao, esperanga © In:
centivo s#0 uma barreira sutll mas nao menos pode- de constituir as tendéncias mais significativas dat
rosa que a falta de recursos financeiros, Assim, o dinadmica das relacées raciais.°
é passado de pais para. f}-
crus’, da pobreza Antes .de considerar as andlises de classe da
questo racial ¢ do racismo, tema central deste tra-
Nos diagndsticos desta vatiante a estrutura balho, 6 conveniente fazer uma breve mengao a uma
econOmica € isenta de responsabilidades e o racistno
outra interpretacio académica das relagdes racials
<branco desaparece como fator explicativo. As viti que nao comparte a premisa assitmilacionista domil-
nante na sociologia americana, Trata-se dofmodeéld
explicativo de casta e classe, formulado por antro-
pdlogos e socidlogos na década de 1930, a partir de
astidos de comunidades locais no sul dos Estados
Unidos. Nao obstante este modelo explicativo estar
cana, como raca de “gente de cor’’, nfo tinham a stralmente em desuso e ter sido superado pelos
capacidade de melhorar por si mesmas.
acontecimentos, o mesmo teve acentuada influéncia
__interessantemente, ° colapso da perspectiva as- nas linhas de pesquisa sobre relagdes raciais desen-
similacionista obedeceu menos a geracdo de novos valvidas nas décadas de 1940 e 1950. Tracando uma >
enfoques e desenvolvimentos tedricos do que a analogia com o sistema de castas da India, os gru-
cao politica das minorias raciais. Com efeito, a crise
pos brancos ¢ negro foram conceitualizados como i.)
da estratégia integracionista do movimento pelos di: Oleisiema de castas] caracterizado na maioria’
reitos civis deu lugar, na década de 11960; a. novas
das definigdes pela aus€ncia de intercasamentos © .°
formas de mobilizaco politica do negro ameticano, -mobilidade entre. grupos, é contrastado com
ma dé classes, onde.o intercasamento. e mobilidade Vad
Ae entie grupos & possivel. O padrdo de relagGes fa- a"
| minor ciais do sul americano era visto como implicando ~
litantes desssas minorias passatam a definit a rela. ambos fendmenos, com estruturas de diferenciacao
620 de negros, indios, chicanos grantes mexicanos de classes preséntes dentro mas nao através da linha
'¢ americanos de ascendéncia~ mexicana) € outros de sepatacio das castas raciais. A linha de separa-—
com @ sociedade americana como a de cold. cio de castas, que no perfodo escravista estaria tra-
internas. O modelo de colonialismo interno, cada no sentido horizontal, tenderia a rotar sobre
Inspitado nas do colonialismo e neocolo- seu eixo no sentido diagonal como resultado da
europeu, através da énfase nas dimensdes crescente estratificac&o interna do grupo negro. O
modelo de casta e classe tem sido criticado pelo uso
\taonstrar que assimilacae e integrasdo
difuso.e estavam
vatiado.do conceitolonge
|monstrar que assimilacao e integracdo estavam lonpe de casta; a cristalizacao
de uma visdo estatica da-estrutura social; incapaz de racial é essencialmente conflito politico de classe. O
explicar as constantes mudancas no sistema de rela- explorador capitalista, sendo oportunista e prAtico,
utliizara qualquer expediente para manter sua forca
coes raciais e pela inexisténcia, no caso americano,
. de. trabalho e outros recursos livremente
das legitimagoes de ordem cultural e religiosas que Ele tramara e utilizaré o preconceito racial quando
sustentam o sistema de castas da [ndia.® lhe for conyeniente.?
Em contraposig¢ao a maioria das interpretacdes
sociolégicas. que focalizam acédes discriminatérias e Seguindo este raciocinio: “O preconceito racial\ , --
constitui entdo a atitude justificativa necessdria para ‘A
ypreconceito racial | como elementos jirracionais na a exploragao de uma raca. Para dizé-lo de outra
yo wsociedade, destinados a desaparecer, as/andlises de forma, O preconceito racial é a atitude social que
is? av Classe questao racial atribuem primazia as bases
Nh
yk
materiais do preconceito e discriminacao racial, ten-
tando delimitar quais sao os grupos ou classes so-
acompanha as praticas exploratérias raciais da clas-
se dominante numa sociedade capitalista’”’,® |
Clais que se beneficiam com o racismo. sta interpretacao esta _caracterizada pela im-
Nas suas linhas essenciais, a interpretagZo mar- portancia atribuida ao racismo como mecanismo de
“manutengao da dominacao de Classe. Os arranjos
racials sao
Xista corrente postula que racismo, preconceito e

do. desenvolvimento capitalista, implementados e


racistas operam em beneficio da classe capitalista
em detfimento de todos ds_trabalhadores.”. Desdé
que todos os trabalhadores sfo economicaniente ex-
manipulados pela classe dominante com os objetivos
_plorados, independentemente da cor, segue-se a ne-
de manter uma forga de trabalho explordvel, cons-
tituida pelos racialmente dominados, e criar divi- cessidade de aliancas e coligagdes inter-raciais para
enfrentar a classe capitalista dominante.
tr “| sdes dentro da classe trabalhadora, de forma a ate-
nuar ou dimtinuir o contlito de classes. As reagoes criticas.a esta interpretacao apontam
nao tanto para o fato da mesma estar errada ou
deixar de assinalar aspectos relevantes da dinamica
social, mas ara seu carater unilateral e simplifica-
entre OS eu-
ropeus junto como do capitalismo do dor. Em lugar, um suposto implicito na.
nacionalismo. A origem do conilito racial se encon- erspectiva marxista ortodoxa é o de que raca e eini- “\*.
trarla no processo mais geral de mercantilizagao do
cidade constituem manifestagdes secundari
trabalho. —
apenas alterani @ foriia tas nfo O conteddo da di.
nica dé Classe. O relegamento do. preconceito %, °
racial, racismo e identidades étnicas a esfera supe- cm
J
A exploragiio racial é meramenté um aspecto do pro restrutural,
(= QS reflexo das relagdes de
lili OO classe, a
subestima
> oO
blema. da. proletarizagao do trabalho, independente Oo papel dos fenédmenos raciais_e étnicos na andlise
. «, «mente da cor do trabalho, Portanto, 9 antagonismo ne a SD
de sociedades pluriraciais e multiétnicas..A insistén- Pulagho negra nos Estados Unidos simplesmente co-
cia ei COncéitualizar o negro sitiplesmente como mo uma classe explorada ou, ainda mais confusa-
um segmento explorado (ou superexplorado) da mente, como um dentre um nGmero de grupos étnicos
que Oo capitalismo tem oprimido de vAdrias manciras.
classe trabalhadora e explicar as hierarquias raciais Os negros americanos constituem nao tanto uma
unicamente em termos dos interesses e estratégias classe como uma nacBo, e sua experiéncia nos Esta-
da classe capitalista tende a ofuscar o que ha de dos Unidos tem sido tinica. (...) A nacionalidade
especifico na opressdo racial. E por esse motivo que negra emerge de duas fontes: uma comunidede de
militantes e intelectuais negros americanos, nao interesses ¢m uma sociedade yirulentamente racista;:
obstante adotar posturas anticapitalistas, tém insis- e ums cultura particular que tem sido ela mesma
um mecanismo de sobrevivéncia tanto como de re-
tentemente assinalado a duplicidade da exploracdo
s.istencia & Opressio racista. Ao mesmo tempo, os ne-
de classe e opressao racial. gros vivem entre brancos e fazem parte da cultura
nacional americana. Em definitivo, eles tanto sao
Na maioria dos paises a luta dos oprimidos tem se parte como estao aparte da nacéo americana.!!
dado em termos de classe unicamente. Mas nos Es-
tados Unidos os negros nfo sé tem estado no mais Umi segundo problema suscitado por esta pers-
baixo degrau da economia, eles t@m sido mantidos pectiva refere-se a estratégia de aliancas inter-raciais.
ali na base da raca... N&o sHo somente os grandes Muitos marxistas -americanos assinalam com certo
negocios ou os administradores ou os dirigentes do fundamento como a auséncia de unidade através da
sistema que estio alfados contra os ne: racial funciona como um obstaéculo 4 solidarie-
gros. E a populacio brancg, Isto 6 o que concede a dade da classe trabalhadora. Porém, a dificuldade
luta do negro sua peculiar dualidade: é tanto uma
luta de classe dos que estao no filtimo degra revol- neste ponto reside na defasagem entre teoria e rea-
tando-se contra a propria estrutura do sistema ame- lidade, representada pelo racismo da classe traba-
ricano, como também é@ uma luta racial porque esta Ihadora branca. N&o é sem bons motivos que
disigida contra a populacHo branca americana que Mmilitantes negros afirmam a inexisténcia de bases
tem mantido o negro. nos pordes de sua sociedade.10 para a constante promessa de que os tra-
balhadores brancos iréo se juntar ao negro numa
Desenvolvendo um argumento semelhante, Eu- frente comum contra o inimigo capitalista. Como
gene Genovese, historiador marxista de inspiracao destaca J. Prager:
pramsciana, ao enfatizar o status de dependeéncia
semicclonial do negro americano, postula as bases Para aceitar a teoria radical, € necessdrio relegar boa
de uma nacionalidade negra, parte da moderna histéria americana a uma histéria
baseada na falsa consciéncia. Somos forgados a acei-
A complexidade ¢ dificuldade do problema racial so tar como artigo de ié uma hegemonia ideoldégica que
ginca mais obscurecidos pela tendéncia a ver a po- ¢ capaz de implantat um racismo t&o virulento (quan-
to irracional) que as yvezes escapa a qualquer con-
‘trole. Implicitamente, @ teoria racial afirma que 1% dos ao se¢gmento:mais avancado da economia, eo
da populacio 6 capaz de fazer com qué os restantes virtual monopolio branco das posicdes nas hierar-
99% da populacio se comportem nao so como atores quias administrativas do setor privado. Este racio-
‘nconscientes (ou falsamente conscientes) mas atuem cinio sugere a_possibilidade de que a pérpetuacgo
de tal maneira a negar seus prdéprios interesses.! ‘das racistas” ésteja relacionada A ¢ A
Reduzir o racismo da populagao branca a um de interesses materials, situacko. competitiva e
fendmeno de falsa consciéncia imposta pela classe neficios simbédlicos de grupos da populacdo branca.
dominante simplifica demasiadamente as profundas além dos detentores do ‘capital.
raizes histéricas do racismo na sociedade americana.
A nivel regional essa hegemonia pode ter existido Uma. outra_variante_de anélise de classe da
no sul dos Estados Unides durante o escravismo ¢ questao racial localiza a fonte do vacismo na com- Yoo
peticao entre grupos de tr iN mercados od
no perfodo que vai do fim da guerra civil até a cam- e trabalho segmentados étnica ou racialmente, Se-
panha pelos direitos humanos. Porém, o que se pode glindo Edna Bonacich, formuladora desta interpreta-
colocar em dtivida é até que ponto o capitalismo
atnericano precisa propagar delibe- cao“, .. A empresa tenta pagar.pelo trabalho o mini-
radamente o racismo como mecanismo de asseguratr mo possivel, independentemente da etnia, e 6 man-
tida erm cheque pelos recursos e motivos do grupo
sua estabilidade politica. de trabalhadores. Como recursos e motivos variam
Diividas semelhantes podem ser levantadas a com Trequéncia segundo .a-etnia, é comum encon-
frarem-se mercados de trabalho segmentados etnica-
respeito da distribuigao dos beneficios derivados do
racismo. A visdo segundo a qual o racismo so pera mente Num mercado de trabalho segmentado um
ganhos materiais para a classe capitalista ¢ perdas _contlite triplo entre empresdrios, um grupo de tra-
para todos os trabalhadores subestima os beneficios baihadores melhor remunerado (usualmente branco)
-econdmicos e nao econémicos acumulados ao longo € outro mais. Darato (usualmente de cor) pode evo-
do tempo por uma -parcela significativa da popula-— luir para formas extremas de antagonismo racial.
cio branca pelo simples confinamento do negro as No que se refere aos interesses dessas classes, os
nosicdes inferiores da hierarquia social. De fato, 0 empregadores _desejam | ter uma forga de trabalho
tto barafa ¢ docil quanto possivel para competir com
resultado das praticas racistas de(Selegao social € 0 empresas. O. grupo de trabalhadores mais |
acesso preferencial. dos brancos as posigdes de. clas-
sé que comportam maior remuneragéo, prestigio e bem pago -€ ameacado -pela.introdugdo de trabalha-
aores mais baratos no mercado, pois pode exclui-lo
autoridade. No caso particular dos Estados Unidos
~€ conveniente Jembrar a exclusdo racial praticada do territdrio ou. reduzir 0. seu preco ao nivel deste |
_ pelos setores organizados da classe operdaria, vincula- ultimo. O trabalho mais barato, por sua vez, € utili- |!
zado pelas empresas para minar a do traba-
lho mais caro, seja para furar gfeves ou para srupo para implementar os arranjos de exclusdo ¢
rebaixar o nivel dos saldrios. Dependendo das rela-
casta, Alternativamente pode se sugerir que a po-
sicko do negro na estrutura de classes obedece aos
cOes de poder entre esses trés setores, trés resultados
tipicos podem ocorrer. Em primeiro lugar o processo
efeitos combinados das mudancas na da
de deslocamento pelo qual o trabalho mais barato forca de trabalho requeridas pelo desenvolvimen-
desloca o grupo de trabalhadores mais bem pago ou
to capitalista e o nivel e qualidade das praticas ra-
reduz:o seu nivel de saldérios. O segundo processo, cistas de selecao social e ocupacional. Como afirma
exclusio, tem mais probabilidades de ocorrer quan- Sidney Willhem:
do o trabalho mais bem pago tem forga suficiente O racismo que alguns véem como “endémico” a al-
para se opor aos interesses dos empresarios, Os tra: gins. ou todos os setores da classe trabalhadore bran-
balhadores melhor remunerados resistem ao deslo- ca se desenyolveu e persisie porque até agora a clas-
camento quer impedindo a presenga fisica de tra- se trabalhadora tem sido capaz de criar um sis-
balhadores mais baratos ou expulsando-o8 se eles tema econdmico alternativo e ainda deve, no me-
j4 estiverem presentes. A casta é © terceiro processo Ihor dos casos, perceber suas estratégias dentro dos
e 6 o resultado mais provavel onde quer que o tra- parimetros do capitelismo. Porque a menos que uma
visio de uma ordem social melhor possa ser concre.
balho mais barato esteja presente € mao possa ser. tizada e rélacionada as possibilidades presentes. as
excluido. A casta é implementada por uma aristo- pessoas lutarao por aquilo que podem conseguir den:
cracia do trabalho gue se reserva certos empregos fro do sistema existente.!4
e torna ilegal a possibilidade dos empregadores uti-
lizarem trabalho mais barato para substitui-la,
Uma primeira observacio critica a respeito des-
ta teoria deriva de uma falha que ela comparte
com as conceitualizacédes do marxismo ortodoxo:
implicitamente apresenta uma visfo da
estrutira de classes, composta s6 de capitalistas_e¢
trabalhadores diretamente produtivos, A decorrén-
cia disso Cénsiste em escamotear a responsabilidade
dos empregadores pela exclusdo do negro nos cres- —
centes setores da classe média assalariada. Em se-
gundo lugar, se a hipdétese de Bonacich fornece uma
boa descricfo das motivacSes e comportamento de
um setor da classe oper4ria branca, ao mesmo tem-
po hiperdimensiona a importéncia e poder desse
Relacdes entre negros e brancos A obra de Gilberto Freyre influenciou outra
linha de indagag&o conduzida por aqueles que estu-
no Brasil daram as telacdes raciais no norte do Brasil, rural
e¢ urbano, durante as décadas de 1940 e 1950.°5
Apesar da evidéncia contundente de uma forte as-
sociacfo entre cor e posicdo social, estes estudiosos,
lmpressionados pelas diferencas mais notéveis entre
Os sistemas raciais do Brasil e dos Estados Unidos,
Voltando a atenc3o para o Brasil, podem ser desentatizaram a discriminacdo racial e seus efeitos
identificadas trés linhas de pesquisa que dizem res- na mobilidade social do negro. Algumas de suas pri-
peito as relacdes entre raga, classe e desigualdades meiras conclusOes sao: (a) existe preconceito no Bra-
sociais. A atual vers#o oficial das relacbes racials sil, mas ێ mais preconcecito de classe do que de raca;
teve sua formulacdo académica feita no inicio da (b) a forte consciéncia das diferencas de cor nao
| década de 19350 por Gilberto Freyre. Ao destacar as esta relacionada a discriminacio; (c) esteredtipos ec
contribuigSes positivas do africano ¢ do amerindio preconceitos negativos contra o negro sao manifesta-
para a cultura brasileira, este autor subverteu as pre- dos mais verbalmente do que a nivel do compotta-
Mmissas racistas presentes no pensamento social do mento; e¢ (d) outras caracteristicas tais como rique-
fim do século XIX e inicio do presente século. Si- za, ocupacao e educacdo sao mais importantes que
multaneamente, Freyre criou a mais formidavel a raca na determinacdo das formas de relacionamen-
arma ideolédgica contra o negro. A énfase na flexi- tO inter-pessoal..Em wma conclusdo bastante incon-
bilidade cultural do colonizador portugiiés e¢ no sistente, onde -coexistem mito, fato e desejo, C.
avancado erau ‘de mistura racial da populacgo do Wagley afirma:
pais o leyou a formular a de democracia ra-
cial. A consequéncia implicita desta idéia 6 a ausén- Nao existem sérias barreiras raciais ao avanco social
cia de preconceito e discrimina¢éo racials e, portan- e econdmico; 4 medida que as oportunidades au-
fo, a existéncia de iguais oportunidades econdémicas mentam, malor nadmero de pessoas deverd eleyar-se
€ sociais para mnegros e brancos. Neste ponto ¢& inte- no sistema social. O grande contraste nas condicGes
sociais € economicas entre os estratos- baixos de cor
resante notar que nos Estados Unidos os negros ¢ mais escura e a classe alta predominantemente bran-
outras minorias raciais sao as excecdes reconhecidas ca ceyera desaparecer. Porém, ha perigos no caminho
a ideologia de igualdade de oportunidades, enquanto em direc#o a este ideal. Ha indicacGes tanto nestes
na sociedade brasileira, hieraérquica e permeada por estudos como em informes provenientes dos grandes
grandes desigualdades sociais, o ideal de igualdade centros do pais de que discriminacfo,
de oportunidade é predicado fundamentalmente no tensOes € preconceltos Daseados na raga estao spa-
Jterreno racial. - gecendo,'
A terceira linha de pesquisa, que incorpora A obra de Florestan Fernandes, sem dtivida a
uma andlise de classe da quest&o racial, fo1 desen- mais importante contribuic&o aos estudos contempo-
volyida nas décadas de 1950 e 1960 pela escola de raneos sobre as relacOes entre brancos e negros no
Sio Paulo, a qual se vinculam indissoluvelmente os Brasil, 6 a que analisa mais detalhadamente o pe-
nomes de Florestan Fernandes, Fernando Henrique tiodo pés-abolicdo. Seus estudos enfocam a integra-
Cardoso e Octdvio Janni. Nao obstante os traba- cio do negro no mercado de trabalho e na estrutura
thos de Cardoso e Janni sobre escravidiio apenas da sociedade de classes emergente. Na sua avaliacao |
tratarem secundariamente a situacdo pds-aboli¢ao, as da situacao social e econdémica do negro nas |
anélises desses trés autores compartem algumas st- imediatamente posteriores ao fim do escravismo, 4 |;
posicdes e chegam a certas conclusSes comuns. Lin discriminacio racial e a preferéncia dos emprega-
linhas gerais, o sistema de relagdes raciais é enfo- dores por trabalhadores brancos imigrantes apare-
csdo a partir da andlise do processo de desagrega- cem junto com uma forte énfase nas deficiéncias
cfio do sistema escravista de castas e da constituigao culturais do ex-escravo — auséncia de mormas orga-
de uma sociedade de classes. A situacdo social do nizadas de comportamento, desorganizacdo social «
negro depois da abolicdo é vista 4 luz da heranga familiar. Por outro lado, preconceito e discriminacao
do- antigo regime. Preconceito e discrifminagao ra- raciais sao vistos como requisitos do funcionamento
cjais, o despreparo cultural do’ ex-escravo para assu- do regime escravista, mas como sendo incompativeis
mir a condicao de cidadania ¢ de trabalhador livre con os fundamentos juridicos, econdmicos e sociais
e a sua. negacio do trabalho como forma de afir- de uma sociedade de classes. A adocao de um modelo
macdo da posicao de homem livre resultaram na
normative de revolucao burguesa e de sistema socia!
marginalizacio e desclassificagdo social do negro, competitivo leva a uma sobreestimagdo do potencial
que se estendeu por mais de uma geracgao. Indepen- democratico ¢ igualitério da sociedade de classes em
dentemente de sua adequacdo, este diagndstico esta
relacionado basicamente 4 regio sul do. pais, onde formacdo. Isto, junto com a visao do preconceito e
discriminacao. raciais como sobreylvéncias anacro-
a grande maioria da populagao negra tinha saido da |
condicdo servil nos anos finais do sistema escravista.
nicas do portanto
a desaparecer com o amadurecimento do capitalismo
O mesmo n§o poderia ser extrapolado para o resto —Yevam de forma implicita a um, diagndéstico oti-
do pais, particularmente o nordeste e Minas Gerals, mista sobre a integracao do negro a sociedade de
conde a ‘transicdo entre a condigao de ho- classes. O reconhecimento de que o racismo a bra-
mem livre foi mais gradual e a maioria da populagao
sileiza pode ser mais do qué tm fendmeno transi-
nesra jd era livre antes da aboligdo, apesar de ter trio se encontra apéetias em algtimas passageris iso-
ficado imobilizada, antes e depois da aboligas, por
ladas onde se contempla a possibilidadé de uma so:
um sistema semi-servil de relacdes de trabatho.
do paralelismo entre taca e posic#o na Racismo e desiqualdades raciais
esirutura social, oo . | no Brasil
A. despeito das diferencgas no tratamento do
problema, a perspectiva assimilacionista esta. presen-
te nas trés abordagens das relagoes racials acima
destacadas. iNum_caso
Nl, ae o papel da raca na geracdao
de desigualdades socials ¢ negado, noutro 0 precon-
ceito (racial) € rédtizido a um Jendémeno.de_c Fim trabalhos anteriores, o autor formulou uma
interpretacao alternativa sobre a reprodugio das de-
sisualdades raciais no Brasil e as relagbes entre raga,
a estrutura de classes e mobilidade Do pon-
to de vista tedrico, foi discutida a perspectiva se-
sundo a qual as relagdes raciais pdés-abolig&o so. vis-
tas como uma 4rea residual de tenOdmenos sociais,
resultante de formas “‘arcaicas’ de relacOes inter-
srupais formadas no passado escrayista. Em oposigao
a essa argumentagdo fol sugerido que: (a) precon-
ceito e raciais nao se mantém intactos
apds a abolicdo, adquirindo novas e signift-
cados dentro da nova estrutura social e (b) as pra-
grupo racial dominante, longe de
serem meras sobrevivénicias do passado, estao rela-
clonadas aos benelicios materiais ¢ simbdlicos que
os brancos obtém da desqualifi¢acas competitiva do
rupo negro, Deste ponto de vista, nao parece extis-
tir nenhuma Idgica inerente ao desenvolvimento ca-
pitalista que Jeve a uma incompatibilidade entre
racismo e industrializacdo. A raga, como atributo so-
cial e historicamente elaborado, continua a funcio-
far como.um dos critérios mais importantes na_dis-
ci
iribuicio de pessoas na_hierarquia. social, Em outras
palayras, a raga se relaciona fundamentalmente com
reproducdo das classes sociais,
isto et€,eg aa | dos indivfduos nas posi¢Ses da plementadas no sudeste, cujo resultado foi a seg-
estrutura de classes ¢ dimensdes distributivas da_es-
mentacio regional do mercado de trabalho entre o
tratificacdo,_ social.
fim do escravismo e a década de 19350.
No que se refere as desigualdades raciais con- Com relaciio ao racismo, além dos efeitos das
tempordneas, a explicacao que entatiza o legado da
ordticas discriminatérias, . uma organizagao social
escravidao e o diferente ponto de partida de brancos eacista também limita a motivagdo e o nivel de as-
e negros no momento da abolicao pode ser colocada
piragdes do negro. Quando. so. considerados 0s mle
em questao, O poder explicativo da escravidio com sociais que obstruem a mobilidade social
relacdo A posigdo social do negro diminui com o pas- ascendente do negro, as praticas discriminatérias dos
sar do tempo, ou seja, quanto mais afastados esta- brancos devem ser acrescentados os efeitos deriva-
mos no tempo_do final do sistema escravista, menos dos da internalizaco pela maioria da populagado ne-
sé pode invoce a escravidio como uma causa da ora de ‘uma auto-imagem desfavoravel. _Esta | visao
atual subordinagado social do negro. Inversamente, a negativa do negro comega a ser transmitida nos tex-
énfase deve ser.colocada nas relagdes estruturais .¢ tos escolares e esté presente numa estética racista
no. intercémbio desigual entre brancos.e negros no veiculada permanentemente pelos meios de comu-
resente. nicacio de. massa, além de estar incorporada num
Dois fatores principais, ambos relacionados & coniunto de esteredtipos e representagGes populares.
estrutura desigual de oportunidades de mobtlidade Desta forma, as préticas discriminatérias, a tenden-
social depois da abolicao, podem ser identtiicados xin A evitar situacdes discriminatérias e 2 violéncia
como os determinantes das desigualdades raciais simbélica exercida contra o negro réforcam-se
contemporaneas no Brasil: a_desigual distribuicdo tuamente de maneira a regular as aspiragoes do ne-
geografica de brancos e negros e as praticas racistas
do grupo racial dominante, ero de acordo com o que oO grupo racial dominante
impde ¢ define como os “lugares apropriados’ para
Em relacdo ao primeiro aspecto, nota-se que um as pessoas de cor. — re
numero desproporcional de ‘negros vive nas regioes | Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra
predominantemente agraétias e menos desenvolvidas — ‘de Domicilios (PNAD) de 1976 permitem relacionar
do Brasil, onde as oportunidades econdmicas ¢ edu~ a classificacdo de cor (brancos, pretos e pardos) com
cacionais sdo muito menores do que no sudeste, onde aloumas caracteristicas sécio-econdmicas € tragat
se concentra a parte majoritaéria da populacao bran- um perfil atualizado da estrutura de desigualdades
ca: Esta geogratica dos dois grupos raciais raciais no Brasil.
fot inicialmente condicionada pelo funcionamento Como foi-assinalado antetiormente, um dos de-
do sistema escravista € posteriormente retorcada pe- terminantes da apropriacdo desigual das oportunida-
las politicas de estimulo 4 imigracao européia um- des econémicas e educacionais esta relacionado com
a segregacao geoprafica da populacdo branca e ndo-
branca (esta dltima constituida por pretos e pardos,
inddstria de construcao civil e de servicos,
na denominacéo dos censos. democrdaficos e da que englobam as ocupagdes menos qualificadas ¢
PNAD). A acentuada polarizacio geografica dos dois pior remuneradas. Esses trés setores absorviam 68%
dos niio-brancos e 52% dos brancos economicamente
grupos raciais esta indicada pelo fato de quase dois
ativos. Inversamente, pretos e pardos estayam sub-
tercos (64%) da populacdo branca residir no Sudes-
te (RJ, SP, PR, SC e RS), na mais desenvol- representados nos setores de outras atividades, co-
mércio de mercadorias e industria de transformacao,
vida do pais, enquanto uma proporcio similar
(69%) de pretos e pardos concentra-se no resto do cujas acupacdes exigem maiores qualificagoes e sdo
melhor remuneradas.
pais, principalmente nos Estados do Nordeste e Mi-
Por tiltimo, 6 Ié6gico esperar que as desigualda-
nas Gerais, Um dos efeitos da distribuicéo geogré- des existentes na distribuic&o regional, qualificacao
lica dos grupos de cor entre regides desigualmente educacional e estrutura de emprego de brancos e
desenvolvidas aparece no local de residéncia desses
n40-brancos determinem fortes disparidades na dis-
gtupos, notando-se uma proporcao mais elevada de
brancos residentes em dreas urbanas (63% de bran-
de renda. Entre as pessoas nao-brancas
cos e 57% de nao-brancos). com rendimentos, 53,6% recebiam uma renda de
até um salario minimo. No caso do grupo preto essa
Oufra dimensdo das desigualdades raciais esta proporcao aumenta para 39;4% enquanto somente
constituida pelo acesso ao sistema educacional e as 23,2% dos brancos situavam-se nessa faixa de ren-
oportunidades de escolarizacao, Considerando-se as dimentos. No extremo oposto da distribuic&o,.23,7%
pessoas de cinco anos ou mais de idade na data de de brancos e 14,5% de nao-brancos obtinham mais
teferéncia, a proporcao de analfabetos entre os nio-. de 2 a 5 salarios mfnimos, por sua vez 16,4% dos
brancos (40%) é& quase o dobro da dos brancos brancos e-4,2% de nao-brancos tinnam rendimentos
(22%). O grau de desigualdade educacional experi- superiores a 5 salarios minimos.
mentado por pretos e pardos aumenta rapidamente
quando sao considerados os niveis mais altos -de ins- Foi sugerido anteriormente que as causas das
desigualdades raciais nfo s6 devem ser procuradas
trucao. O grupo branco tém uma oportunidade 1,55
vezes malor que os n&o-brancos de completar entre
no passado, mas que elas também operam no pre-
sente. Isso leva a controntar duas interpretacGes que
5 e & anos de estudo ¢ uma oportunidade. 3,5 vezes
maior de cursar 9 ou mais anos de estudo. podem ser assim formuladas:.({1) segundo a nocdo
de “democracia racial” o negro usufrui hoje as mes-
Levando-se em conta-a participagao dos dois eru-
mas oportunidades que o branco.e sua posic#o social
pos raciais na Iorca de trabalho, segundo setores de
inferior é devida ao ponto de partida desigual no
atividade econdémica, constata-se uma momento da abolicfio, e (2)-a subordinagao social
desproporcional de nfo-branhcos nos setores agricolas, do negro é devida ao diferente ponto de partida ¢ 4
persisténcia de oportunidades desiguais de ascensdo Entre os filhos de trabalhadores rurais que ex-
social. A forma de dirimir as ddavidas consiste em perimentaram mobilidade ascendente, o principal
estudar oO processo de mobilidade social dos dois ponto de destino s#o as ocupacdes manuais urbanas.
grupos racials € assim determinar @ existéncla ow ndo Os brancos nascidos neste grupo tém uma pequena
de oportunidades desiguais. vantagem sobre os nfo sé a heranca de
Os dados da Tabela 1 oferecem uma visio slo- status 6 menor entre os brancos (45,8%) do que en-
bai dos fluxos de mobilidade social entre geracgdes, tre os nao-brancos, mas também sé 9,6% de néo-
sepundo grupos de cor. brancos et comparacdo com 16,3% de brancos
atravessavam a linha manual/nado-manual.
Tabela 1
As diferencas inter-raciais de mobilidade pas-
Mobilidade da Ocupacio dos Pais até a des Sa a ser maiores ao considerar-se pessoas nasci-
Lirtrevistqaos, segundo Grupos Raciats das nos estratos ocupacionais mais eleyados. Entre
os nascidos no estrato manual, nao sé os nao-branccs
Braencos permanecem em maior proporgao no mesmo estrafo,
Ocup. do Nao como também 39% de brancos e s6 23,5% de niao-
Pal Alta Manuel Manual Rural brancos ascende aos dots estratos mais altos. Entre
as pessoas nascidas no estrato nao-manual, 21,4%
Alta 47 0 28,3 22,6 2,1 de brancos e s6 12.5% de ascendem a0
N&o manual 21,4 39 4 31,0 63 estrato mais alto. Por filtimo, entre os nascidos no
Manual 148 24.2 57,2 38 estrato. ocupacional alto, os brancos apresentam um
Rural 4] . 42,2 37,9 . £=458 suto-recrutamento (47%) muito mais alto do que os
Um detalhe adicional reside no fato de
que os estfo expostos a probabilidades
Ocup. do Ngo muito mais elevadas de mobilidade social descenden-
Pa} Alta Manual. Manual Rural fe, OU seja, perder as posicdes conquistadas na ge-
yacdo ‘anterior, como é notério no caso dos nascidos
Alita 24,2 289 45,6 1.5 100.0 nos estratos e@ alto.
Nao manual 12,5 330 41,4 13,t 100,0 Em suma, levando em conta a ocupacao do pal
Manual 72 16,3 68,7 738 106.0 dos entrevistados, os brasiletros nao-brancos tém
Rural 20 46 - 37,9 525 - 400,0 menores possibilidades de mobilidade social ascen-
dente do que os brancos. As diferencas inter-raciais
Obs.: Dados da PNAD 1976, relativos a homens de 20 a nas oportunidades de mobilidade ascendente aumen-
64 anos de itdade. tam quanto mais elevado o status de origem familiar.
cumulative de desvantagens que afeta sua mobilida-
_ Engtanto os brasileiros brancos nascidos nas posi- de social. Noutras palavras, o negro enfrenta uma
gOes soclais mais elevadas se beneficiam em erat estrutura de oportunidades sociais diferente e¢ mais
maior de heranga de status, o pequeno grupo de branco.
nao-brancos nascidos em familias de posicdo social
elevada estio muito mais expositos a perder essas

Ao considerar as fases do processo de trans-


missdo de status, os dados da mesma pesquisa*”
também indicam que: {a} os nfo-brancos cbtém con-
sistentemente menos éducagio que os brancos da
mesina origem social; (b} considerando pessoas com
Oo mesmo nivel educacional, os nfo-brancos tendem a
concentrar-se em nivels ocupacionais mais baixos do
que os brancos; (c) considerando também pessoas
com a mesma educacdo, os nao-brancos obtém con-
sistentemente uma remuneracao menor que os bran-
cos. Os retornos 4 educacdo, tanto em termos de
ocupacao como de renda, mostram um acentuado di-
em favor do grupo. branco.
A pesquisa de Valle Silva. atingiu resultados se-
melhantes.*° No seu modelo de de status
social este autor aplicou as equacGes estruturais dos
brasileiros ndo-brancos aos brancos. Controlando
todas as varidaveis do ciclo de vida, encontrou
que 40% da diferenca na educacHo atingida nio é
explicada; 29% da diferenca nos pontos da escala
ccupacional nao é explicada; e que 50% da dife.
renca de renda permanece inexplicada. Estas dife-
ren¢cas nao explicadas devem ser interpretadas como
consequéncias do racismo e das praticas diacrimina-
torias sofridas pelo. grupo. nfo-branco. Estas evidén- |
clas empiricas recentes indicam claramente que a
populacaio negra no Brasil est4 expcsta a um ciclo
Conclusae
maiores as dificuldades para manter as posic&es j4
conquistadas,
ada essa situacio de fato, parece muito pou-
co provavel que o ideal da igualdade racial seja atin-
gido através de um mecanismo calcado no mercado,
isto 6, Oo processo de mobilidade social individual.

Transcorridos mais de noventa anos desde a


abolicfio do escravismo, a populacgao negra brasilei-
ta continua concentrada nos degraus inferiores da
hierarquia social. Em contraste com a populacao
branca, parte majoritdaria da populagao negra loca-
liza-se nas regiGes menos desenvolvidas do pais. Seu
acesso ao sistema educacional é restringido, parti-
cularmente nos niveis de instrugdo mais elevados.
A participacao do negro no sistema produtivo
est4 caracterizada pela concentracio desproporcional
nos setores de atividade que absorvem mao-de-obra
menos qualificada ¢ pior remunerada. Por sua vez,
os fatos mencionados determinam uma participacao
altamente desigual de brancos e negros na distri
buic&o de renda e na esfera do consumo do produto
social.
Esse perfil de desigualdades raciais nao _€ um
simples legado do passado; ele é perpetuado pela
estrutura desigual de oportunidades sociais_a que
brancos e negros estao expostos no presente. Os
negros sofrem uma desvantagem.competitiva .em.to-
das. as etapas do pro sso de mobtlidade_social indi-
vidual.
nee Suas
a possibilidades de .escapar.as limutacdes
de uma posigao social baixa sao menores que adas
brancos . dq.mesma
i origem social, assim. como.s8o.
10 -Boggs,- James, Racism: and the Class Nova
Jorque:. Modern Reader, 1970, 6. 28. =

HM’ Gennoyese, Eugene D., In Red and Black, Nova lorque:


‘Vintage, 1972, pp. 57-58.
*«* Bonacich, Edna “A ‘Theory of Ethnic Antagonisni: The
Split Labor Market”, American Sociological Review, vol.
97, 5, 1972,
3 idem, idem.
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E. T, Thompson ‘(ed.), Race Relations and the Race Probiems, cism?”, Social Problems, vol. 28, n& 2,'1980; p, 104.
Durham, N.C.: Duke University Press, 1932. . ©« IS Pierson, Donald, Negroes in Brasil: A Study of Race
2 Os trabalhos mais representativos da escola assimilacio-
Contact in Bahia, Chicago: The University of Chicago Press, |
n’sta sio. Handlin, Oscar, The Newcomers: Negroes ana 1942 e Wagley, Charles (org.) Race and Class in Rural
Puerto Ricans in a Changing Metropolis, Cambridge: Harv.
ard University Press, 1959; Glazer, Nathan ¢ Danield P. Brazii, Nova Torque: Columbia University Press, 1963, Uina
Moynihan, Beyond the Melting Pot, Cambridge: The M. LT, conceitualizacho semelhante encontra-se em Thales de Aze-
Press, 1963 e Gordon, Milton M., Assimilat ion in American vedo, As Elites de Cor, Um Estudo de Ascensiio Social, Sio
Lite, Nova Iorque: Oxford University Press, 1364, Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955.
4 4964 Economic Report of the President, Washington,
¢
It
Wagley, Charles, “From Caste to Class in North Brazil”,
D.C.: Government Printing Ofice, 1964, pp. 69-70. em Comparative Perspectives in Race Relations, Melvin
+ Expos’cdes da teoria do colonialismo interno aplicadas Tumin (org.), Boston: Little, Brown & Co.; 1967, p. 60.
ss minorias raciais podem set encontradas em Carmichael, ‘’ Fernandes, Florestan, A IntegracGo do Negro na Socle-
Stokely ¢ Charles V. Hamilton, Black Power, the politics of dade de Classes, Sao Paulo: Dominus, 1965 e O Negro no
liberation in America, Nova Iorque: Random House, 136i Mundo dos Brancos, Sic Paulo: Difusio Européia do Livro,
» Robert Blauner, Racial Oppression in America, Nova 1972; Cardoso, Fernando Henrique, Capitalismo e Escravi-
ue: Harner & Row, 19/2.
dao no Brasil Meridional, S40 Paulo: Difuséo Européia do
oritioas so claboradas de maneira contundente por Livro, 1962 e Ianni, Octdyio, As Metamorfoses do Escravo,
Oliver C, Cox em Caste, Class and Race (1948), Nova lor: 240 Paulo: Difusdo Européie do Livro, 1962.
que: Modern Reader, 1970, cap. 19. “ Carlos A. Hasenbalg, Desigualdades Raciais no Brasil,
? Ibid. p. 335. DADOS, n2 14, 1977, Discrintinacto e Desigualdades Ra-
8 Ibid. p. 4/9. ciais no Brasil, Rio de Janeiro: Graal, 1979 e Race and
5 Uma variante desta interpretagdo, baseada em analise Inequalities in Brazil, trabalho apresentado
empirica de dados recentes, admite que o sistema de desi- no Simposio sobre Classe e Raca no Brasil, Center for Afro-
suaidades faciais aumenta a desigualdade economica entre Ametican Studies, Universidade da Califérnia, Los Angeles,
a populacio branca através dos beneticios que gera para 1380, Para uma andlise dos efeitos da discriminacio racial
08 e uma de trabalhadores brancos me nos diterenciais de mobilidade social entre brancos e negros,
lhor remunerada. Ver Michael Reich, Racial Imequahty,
ver Nelson do Valle Silva, “Cor e o Processa de Realizaciio
Princeton,.N. J.: Princeton University Press, 1981.
Sécin-Feondmica”, sobre a divisdio racial do trabalho no
Brasi] yer Licia Helena G. de Oliveira, Teresa Cristina N.
Aratjo Costs e Rosa Maria Porcaro, “O ‘Lugat’ do Negro
na Forca de Trabalho”, trabalhos apresentados no Vv Et
contro da Nacional de Pés-Graduagio e Pes-
guisa em Ciéncias Sociais, Rio de Janeiro, 1980.
19 Hasenbalg, Carlos, op. cit. “Race and Socioeconomic
Inequalities in Brazil”. O NEGRO NA PUSLICIDADE*
2 Silva, Nelson do Yalle, op. cit. “Cor @ o Processo de
RealizagZo Sécio-Econémica”.

Carios A. Hasenbalg

Fede Brasuctra
cledade acne apresentada
para o Progres & da
eressO 35.
x
Reunlio
Cs
Ciéncia, Anual
Salvador, da So-
juiho de 1981,
a
as Valiosas sugestdes de Lélia Gonzalez, Cesar
Guimaraes © Wanderley Guilherme dos Santos.
No registro que o Brasil tem de si mesmo o
negro tende a condicao- de invisibilidade. Alguns
exemplos servem para ilustrar as manifestagdes sin-
tomaticas desta tendéncia: o Jugar irrisério que a
historiografia destina 4 experiéncia e contribuicfo
do negro na formacéo desta sociedade; a queima
dos documentos relativos. ao tréfico de escravos ¢
ao regime escravista; a retirada do quesito sobre a
cor da populacéo nos censos demogréficos de 1900,
1920 e 1970, e a nmegacdo obstinada de discutir a
existéncia de qualquer problema de indole racial.
O_intento de fazer do negro um_ser invisiyel
deyeria chamar a atengao ¢ na cultura que,
_ proclamando-se racialmente democrdtica, est4 per-
meade pelo ideal obsessiyo do embranquecimento.
Basta lembrar os fatos pertinentes. Enquanto milha-
res de trabalhadores chineses chegavam a Cuba,
Peru costa ceste dos Estados Unidos, o Brasil
tra o tinico pais das Américas que, tendo passado
pela experi¢ncia do escravismo, nos anos posterio-
res a aboligao utilizou fartos. recursos ptblicos para
subsidiar. a imigracdo européia e assim evitar a
“mongrelizacao” do pais. Depois do episédio. da
imigracao japonesa, o decreto-lei n.° 7969 de 1945
destinava-se a garantir & “composicdo étnica da po-
pulagao as caracteristicas mais convenientes da sua.
ascendéncia européia”. Entretanto, o resultado de- definido por Lélia Gonzalez: “As imagens mais po-
moprafico do ideal de embranquecimento, através sitivas vistas das pessoas negras sio aquelas que
do “‘processo de foi a gradual representam os papétis sociais atribuidos pelo siste-
do segmento propriamente negro da populagao e o ma: cantor e/ou compositor popular, jogador de
reforcamento da propalada “‘meta-raga” mestiga. futebol e ‘mulata’. Em todas estas ‘imagens: ha um
Esta “tirada de cena” do negro pode ser vista como © elemento em comum: a pessoa negra é um objeto de
uma forma de resolver a tensao entre os sentimen-— divertimento’ >
tos de superioridade branca e a culpa de infringir
os ditames da mitologia racial vigente. A tipificacio cultural do negro nos polos de
trabalhador desqualificado e¢ “entertainer” remete,
Por sua vez, o escamoteamento do registro his-
térico e a invisibilidade do negro relacionam-se com
por sua vez, a outro elemento em comum, conden-
sado em atributos do co 9: vigor e resisténcia Lisl-
o processo de construgao de sua identidade. Apesat
dos intentos em sentido contrario, a identidade do =, vite e sexual ar 6. Ao negar outras catacter S-
elo branco. Neste ficas, a estereotpia nega oO negro que nao encalxa
negro esta
aT eae basicamente definiaa
nesses dois polos: o operario qualificado, o empre-
r duas identidades. A
pont mie
primeira, deBa
garéter ptblicoe oficial, deriva das gado de escritério, o bancério, ° universitario ete
concepcdes formuladas por Gilberto Freyre na deé-
cada de 1930. Neste caso a identidade do negro esta lo _branco_providencigm
balizada pelos paradmetros de uma democracia ra- s para analisar as
cial: o negro & um brasileiro como qualquer outro
e, como tal, nao estd sujeito_a preconceitos e discri- medida em que a publicidade opera segundo a linha
A segundatidentidads corresponde a0 pla- do mencr resisténcia e que sua fungio é vender
Tid) riva e incorpora duas dimensdes. Uma delas, produtos ao maior némero possivel de pessoas é nao
a nivel mais consciente e detiberado, traduz aquilo — mudar esteredtipos, a expectativa inicial é que ela
gue, A boca pequena e em conversa entre brancos, — tende a reproduzir as manifestagdes de racismo pre
constitui o repertério de ditados populates carrega- sentes ‘na cultura. Dentre as diferentes
dos de imagens negativas sobre o negro. A outra, ie publicidade, optou-se pela observagao daquela
em ‘plano mais inconsciente, corresponde a estereoti- veiculada pela televisiio e um conjunto de revistas.
pacio dos papéis e lugares do negro. Nesta dimensao A ‘observacdo resultou no registro de 117 antincios
o negro é representado ora como trabalhador bragal,
nio qualificado, ora como aquele que ascendet so- publicitérios transmitidos pelos tres canals comer.
da televisio do Rio de Janeiro e 87 andncios
cialmente pelos canais:de mobilidade considetados
publicados em sete revistas selecionadas.’
| legitimos para o negro. Este dltimo grupo € assim
A ptimeira constatacdo derivada desse conjunto negro, executando tarefas ho convés de proa de um
de antncios relaciona-se diretamente. a invisibilida- navio de guerra. A mensagem transmitida nesta ta-
de do negro e & auto-imagem embranquecida do refa de. equipe apela para a defesa da patria, tarefa
Brasil. Segundo a estimativa mais atualizada, pro- Je todo brasileiro, independentemente da cor. A se-
veniente da PNAD de. 1976, a- populacgo do pais sunda propaganda do governo consiste em uma
contava com 41% de pretos e pardos. No mundo © campanha de alistamento nas Forgas Armadas. Ela
da publicidade a realidade é outra. Em um total de mostra um fovem negro navegando em canoa um
203 antincios publicitérios de revistas e televisio o rio, dirigindo-se 4 cidade mais proxima para apre-
negro esta presente em apenas nove, sendo que em sentar-se no posto de alistamento. O antincio insi-
tres deles aparece em propagandas do governo, de nua.a presenca do negro que, no cumprimento ae
carater nao comercial, ‘Desta acentuada despropor- um dever civico, transita confiante e de maneira
¢ao pode-se derivar a conclusao de que no raciocinio desimpedida pelo mundo dos brancos, neste caso
do publicitario o negro quase. que inexiste como con- representado pelo funcionario da junta de alista-
sumidor. A limitada capacidade aquisitiva da popv- mento. A ultima propaganda governamental ¢ uma
lagéo negra poderia dar conta da auséncia de ape- campanha de vacinagio contra o sarampo © mostra
los publicitarios ao negro como consumidor poten- um grupo de criangas pobres, brancas ¢ negras, que
cial de carros de luxo, banheiras com hidro-massa- constituem a populacdo alyo da campanha. Além de
gem ¢ solisticados equipamentos de som. Nao obstan- mostrar & ‘preocupa¢ao do governo com a sade da
te 1SSO, oO leque de produtos anunciados inclui uma populacéo, particularmente das camadas mais Ca-
variedade de bens e servicos de consumo popular rentes, uma das mensagens implicitas reside na ine-
diiundido. Na Idgica subjacente & publicidade a per- xisténcia de divisdes raciais no seio do povo. Estas
gunta possivelmente 6: se anunciando para brancos trés aparicGes do negro na publicidade tiliam-se a
O negro também compra, por que arriscar-se.a ‘‘de- sua identidade oficial. Os antincios estdéo isentos de
negrir’” a imagem do produto?* implicacdes racistas, Como- cidadio brasileiro, no
-
Constatada a invisibilidade do negro na publi- desempenho de suas obrigagGes civicas, o negro apa-
cidade, o préximo passo consiste em determinar rece junto ao branco em situagdes de igualdade.
como € em que circunstancias ele faz suas raras Considerando o exiguo 3% de antincios pubii-
Como as aparicdes sia. raras, elas permi- citdrios de cardter comercial em que o negro aparece
tem unt exame.caso a caso, comegando com 4S pro- de alzuma forma, ‘sero analisados primeiros aque-
pagandas goyernamentais na televisfo. — les mostrados na televisdo. A propaganda mais neu-
A primeira delas é uma campanha de recruta- tra do ponto de vista de stias implicagSes raciais &
mento de marinheiros para a Armada e mostra um a de um supermercado que atualmente expande sua
grupo de marinheiros de varias cores, de branco a rede de pontos de comercializagio da zona sul para
a zona morte do Rio de Janeiro. Nela aparece uma na comm outro grupo branco bebendo. Este é o tinico
muitidgao de pessoas em um espaco aberto, que vai antincio que, possivelmente pela popularidade do
se juntando lentamente até formar uma massa ¢om- produto, estabelece uma associagao entre O negro €
pacta. O grupo d& uma visao do corpo de funcioné- o produto, ainda que esta associaco esteja diluida
rios da empresa e na seqtiéncia final sao destacados pela presenca majoritéria de pessoas brancas.
em close os rostos de varias pessoas brancas e ne- Deslocando a atencio para a publicidade das
sras. Apesar da auséncla de implicacdes raciais, este revistas, ingressa-se no 4mbito de produtos mais so-
anuncio evidencia um procedimento publicitdrio fisticados, onde se eleva rapidamente a proporcao
onde existe uma assimetria no tratamento dado a de modelos publicitérios brancos do mais puro tipo
brancos e negros. Trata-se de evitar a associacio di- nordico.
reta entre o negro e produtos especificos, particular- Neste caso, a publicidade em que a estereotipagao
mente de uso pessoal. A tinica excecdo desta do negro aparece de forma mais evidente anuncia
associacao direta que vem a memoédria 6 a da empre- uma linha de vefculo de transporte. A composi¢ao —
gada domeéstica negra que, autorizada pelos seus inclui as fotografias de quatro vefculos, Em trés de-
longos anos de experiéncia na cozinha, pode atirmar las aparecem seus donos, brancos e um casal japones,
que a marca x faz o cafezinho mais gostoso ou o junto a produtos hortigranjeiros a serem transpor-
detergente y lava melhor a louca. O antincio seguinte tados, insinuando tratar-se de pequenos e meédios
corresponde a uma rede de lojas que disputa a fatia asvicultores. A quarta fotografia mostra um cami-
mais popular do mercado de eletrodomésticos. A nhzo de mudancas junto ao motorista branco e a um
sequéncia inicial mostra um casal negro cantando e catregador negro, este tiltimo apresentado na ima-
dancando ao ritmo de um samba, segue enfocando gem mais contundente de trabalhador bragal desqua-
outro casal branco e termina mostrando um grupo lificado.
de pessoas de varias cores. Novamente, inexiste uma
assoclacao entre o negro e produtos especificos. Por A segunda publicidade, de uma empresa de
outro lado, apesar da propaganda fazer um apanhado produtos metaltirgicos, baseada na fotografia de
ae pessoas comuns em situagdes de rua, & coreogra- um homem negro mestre-sala e uma porta-bandeira
fia do casal negro entoando um samba faz com que mestica apresentando-se frente As arquibancadas. O
ele se aproxime da categoria de “entertainer”, A anuncio sugere o contraste entre dois Brasis. Um, o
Gltima propaganda televisiva € a de uma marca de Brasil de sempre, “tropical e abengoado”, represen-
cerveja (n.° 39). Dentro de um botequim e em um tadd por negros desfilando numa escola de samba.
cima festivo, com samba como misica de fundo, Outro, pela rigidez e eficiéncia das arquibancadas
ela mostra um grupo de jovens brancos bebendo de aco, de onde se vé o desfile. Este tiltimo ¢ o Bra-
chopp, segue enfocando um homem negro e termi- sii nove, de mudanca e progresso. Assim, temos
uum contraponto entre a idéia de desenvolvimento,
positivamente conotada, ¢ seu negativo “abencoa- c) A publicidade reprdduz os esteredtipos cul-
do”’: o mero folclore, representado por negros. Além turais sobre o negro, assim contribuindo para deli-
do mais, o antincio é uma instancia de apropriacio mitar, no plano ideoldégico, “seus lugares apropria-
de produtos culturais do negro, apresentados como Os’. Estes lugares esgotam-se na polaridade traba-
tipicamente brasiieiros, na sua versao mais folclo- Tho desqualificado/“entertainer”’, “objeto de con-
tizada e. mercantilizada.
(oa

A tltima publicidade, de um banco estadual Estas constatagoes sugerem a comparagaod corm


de desenvolvimento, mostra uma fotografia de sete uma sociedade que, tida como racista, servlu como
homens negros puxando uma rede de pesca para exemplo negativo para constituir o mito da demo-
fora d’4gua. A evocacdo mais simples e direta é a cracia racial brasileira, Nos Estados Unidos o negro,
do trabalho rude, forca e vigor fisico. verdadeira minoria numérica, conquistou um lugar
Projetando a’ probabilidade desta amostra, se- irreversivel e nao estereotipado no ambito da publi-
rla necessario observar aproximadamente trés mil cidade — essa invencio tipica e caracterfstica do
anuncios para registrar umas cem aparicdes publici- pais do norte.. Sem ddvida, esse lugar deriva das
térias do negro. Os poucos casos observados para profundas transformagdes culturais e politicas no
este trabalho impedem formular afirmacdes deftizii- sistema de relac6es raciais e do fato do negro ame-
tivas, mas permitem detectar tendéncias e chegar a ricano ter definido sua prdépria identidade, impondc
aleumas conclusdes preliminares: @ mesma ao resto da sociedade. .
a) A_publicidade nao é alheia a dindmica sim- Na auséncia de transformacGes semelhantes, o
bdlica que rege as relagdes raciais no Brasil, Por negro brasileiro, exposto ininterruptamente as ima-
acho e omissdo, ela é instrumento eficaz de perpe- | gens de um mundo branco dominante, ficara conti-
tuacao de uma estética branca carregada de implica- nado as alternativas de uma. negativa
cOes racisias. Nela o negro aparece subrepresentado cu a adocao de um ideal de ego branco, nos sets
e diminuido como consumidor e como segmento da - intentcs de ascensao social.*
populacao do pais, reforcando-se assim a tendéncia
a tazer dele um ser invisivel, “‘retirado de cena’”’.
D) Nas suas _escassas incurs6es na publicidade,
Oo nesro tende_a aparecer dissociado de rodutos es-

€ amenizadas pela presenga conjunta de_repre-


COLEGAO 2 PONTOS

LUGAR DE NEGRO 6 o terceiro volume da Colecio


2 Pontos cujos livros trazem opinides de dois ou mais au:
k Lélia Gonzalez, “Racism and its Effects in Brazilian So- fores sobre um mesmo tema.
Ao publicar mais de um autor escrevendo sobre um
ciety’, trabalho apresentado na Women’s Conference on mesmo problema, queremos colocar a possibilidade de se
Human Riekts and Mission, World Council of Churches. abordar de modo diferente cada questao, as éniases distin-
Genebra, julho de 1979, p. 4. tas, a discussao,
Os temas serfo sempre polémicos e atuais refletindo as
quest6es que, de uma ou oulra maneira, fazem parte do
2 Foram registradas unicamente publicidades que anresen: nosso dig a dia,
favam figuras humanas no conteG@do do anincio. No caso
da teleyisao, as propagandas repetidas foram contadas uma Livres ja publicados:
yez s0 na enumeracao total. Cada um dos canais comerciais
de televisico do Rio de Janeiro (4, 7 e £1) foram obseryados ® Vida de Mulher — de Maria Quartim de Mo-
durante uma noite, em dia de semana, no horario de 19:00 raes e Maria Menass da Silva:
as 23:06 hs. Revistas examinadas no més de abril: Fatos e
® Os [nd’os vao a futa — de Marcio Souza,
Fotos 27-4-81; Playboy; Status; Manchete 25-481; Veja
154-81: Isto B 154-81 e ClAudia. José Ribamar Bessa, Mario Juruna, Me-
garon, Wlarcos Terena.
3
A auséneia do negro néo deve levar a pensar que o ideal
de beleza transmitido pela publicidade reflete as caracterfs- Préximos lancamentos da Colecao 2 Pontos:
ticas externas tipicas do branco brasileiro. Particular. oc A Y¥.clancia Urbana — ce Teclo Lins e Silva
mente no caso das revistas, destinadas a um publico mais e Carlos Alberto Luppl;
restrito que o da televisio, o nadmero de modelos brancas, |
louras e de oJhos azuis leva a pensar mals em publicacdes Homecpatia e Aicpatia — de Luiz Carlos Bet-
oriundas da Suécia do que do Brasil. farello e Orlando Orlandi:
Reforma Aqraria —- de Maria Yedda Linha-
4 Sobre a adocio de um ideal de ego branco pelo negro res e Moacir Palmeira:
em mobilidade ascendente, yer Neusa Santos Souza, Tornar- Satde Popular e Sadde de Elite -— de Carlos
se Negro ou As Vicissttudes da Identidade do Negro Bra- Gentile de Mello e Douglas Carrara;
silgiro em Ascens&o Social, tese de mestrado apresentada ao |
Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de A publicidade — de Roberto Duailibi e Melior
Janeiro, 19890,
i
Silva.
© impressed por,
SDITORA GRAFICA LUNA LTDA,
Rua Bardo de Sd Feix, tg
Tal. 243-2217 Ho~-AJ
eee C8? aa
Carlos Haseribalg

en 7 yf
fe 7 Num pais ae a
- onde o precenceito racial ative des brancos dominanies i
|
se disfarga detras de mito da democracia racial,
* LUGAR DE NEGRO en
poe, efetivamente, muitas coisas No lugar.
Gonzalez — militanie do Movimento Negro -~ -
mostia os avancos da consciéncia negra entre os Nogros
brasileiros, e Carlos Hasenbalg socialogo e pesguisader
ns
..— 4
do problema do negra no Brasil —
desmonta as utilizacées “bouzinhas” dos negros
CTCL OMe UML

traca um panorama sucinio 7a


Br CMM ee eo mmr ee SD
ATION SEU Re LC meteor emo ei =) ve
ligado 4 questZo das classes e de destino politico
_ de nossa nacao. os "fe

ERI MARCO ZERO LTDA, EDITORA MARCO ZERO LTDA. ,