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PSICOLOGIA E AUTODESENVOLVIMENTO

PSICOLOGIA E AUTODESENVOLVIMENTO

Graduação

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PSICOLOGIA E AUTODESENVOLVIMENTO

PROCESSOS COGNITIVOS
UNIDADE 8

Nesta unidade, vamos estudar a inteligência como um dos elementos


centrais para compreender a sobrevivência e superioridade da espécie
humana no planeta.

OBJETIVOS:
• conceituar inteligência, compreendendo o processo histórico de
construção desse conceito desde suas primeiras escalas de
mensuração até a teoria das múltiplas inteligências do Psicólogo
Howard Gardner.

• analisar a função da memória como um elemento do processo


de cognição.

• apropriar-se dos conceitos estudados de modo que sejam


aplicados em sua área de atuação.

PLANO DE UNIDADE:
• Conceito de inteligência.

• História do conceito de inteligência.

• Testes de QI.

• Teoria Triárquica.

• Teoria das Inteligências Múltiplas.

• A memória.

Bons estudos!

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UNIDADE 8 - PROCESSOS COGNITIVOS

É magnífica e ao mesmo tempo assustadora a capacidade humana!

Desde que o primeiro hominídeo manipulou a natureza e transformou


um galho seco de árvore em um instrumento de defesa, retirou a pele de
um animal e cobriu seu corpo para proteger-se de temperaturas frias ou
enterrou seus mortos, ele revelou sua capacidade intelectual.

De lá para cá o homem vem manipulando a natureza de modo a ajustar-


se e ajustá-la as suas necessidades. Portanto, a inteligência é elemento
central para compreender a sobrevivência e superioridade da espécie
humana no planeta.

Considerando esse aspecto, podemos entender porque nossos


ancestrais são chamados de homo sapiens, sem querer entrar no mérito
filosófico e conceptual do que é mais relevante para a formação humana, se
os aspectos intelectuais, emocionais ou motores/corporais.

Mas, afinal, como podemos definir inteligência?

Na realidade existem muitas definições de inteligência, mas a que parece


mais bem aceita é a de que a inteligência é a capacidade de aprender e de
mobilizar as habilidades cognitivas necessárias para uma adaptação bem
sucedida às exigências do ambiente e da cultura de cada um.

A história do conceito de inteligência é muito antiga. Desde o século V na


China, os testes de inteligência já eram usados, mas na história mais recente
ocidental, da qual sofremos grande influência, temos os registros dos estudos
do médico francês Jean Gaspard Itard(1774-1830), que, em 1801, relatou
sua experiência ao assumir a responsabilidade de educar um menino selvagem
encontrado nos bosques de Aveyron denominado Victor, considerado
ineducável pela avaliação de Philippe Pinel. Como destaca Jannuzzi (2004,
p.32):

Desta forma, por meio de procedimentos experimentais com base


em discriminações perceptivas, de desenvolvimento dos órgãos
sensoriais, procurou desenvolver a aprendizagem de Victor.

Essa pesquisa inaugura os estudos sobre inteligência.

O biólogo que revolucionou o entendimento da origem da humanidade,


Charles Darwin(1871), traz importantes contribuições para o conceito de
aptidão intelectual, que, a reboque do que vinha acontecendo no mundo
científico, também lança luz sobre o conceito, desmistificando–o de seu caráter
divino. Entretanto, a tendência da concepção inatista permaneceria
influenciando muitas pesquisas sobre o tema a partir de então.

Podemos citar também os estudos de Francis Galton(1869), cujo objetivo


era melhorar as capacidades mentais da raça humana a partir da análise de
dados quantitativos para explicar as influências da hereditariedade sobre
as diferenças individuais. Também no campo da Psicologia são identificados
avanços significativos para o entendimento do conceito de inteligência.
Segundo Jannuzzi(2004, p.48 - 49):

Os laboratórios de Psicologia experimental lá organizados


[referindo-se à França] nos princípios do século XX, a difusão das

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idéias de seus criadores, as pesquisas em Psicologia genética e


diferencial […] principalmente através das obras de Alfred Binet (1857-
1911) elaborador dos testes de inteligência(1905), tendo como
colaborador Theodore Simon(1871-1961)

Binet e seu colaborador Simon desenvolveram a primeira graduação da


inteligência denominada Escala Binet-Simon, e tinha como objetivo predizer
quais crianças teriam sucesso ou fracasso escolar. Como destaca Pinell (apud
Jannuzzi 2004, p.57):

A medicina só conhecia os aspectos profundos de deficiência mental,


que eram a idiotia e a imbecilidade, nas quais a inteligência não
representava papel significativo no conjunto da complexa patologia.
Eram perturbações somáticas e uma complexa sintomatologia que
faziam a medicina classificá-los de idiotas. Binet vai romper essa
taxionomia. Comparou deficiência ao estado moral e estabeleceu uma
variação quantitativa, cujo parâmetro foi a escola.

Com base no desempenho da criança em uma série de questões ou


itens que deveria resolver, Binet acreditava que seria capaz de avaliar o
desenvolvimento intelectual das crianças. Os resultados dos testes de
inteligência são apresentados pelo que denominou de Quoeficiente
Intelectual, conhecido por nós como QI.

Para ambos os pesquisadores, as dificuldades apresentadas pelos


estudantes era um “defeito que estava na criança”(Jannuzzi 2004, p.57),
sendo assim, seu teste de inteligência era um sistema classificatório que
encaminhava para as práticas segregacionistas, que rotulavam as pessoas
submetidas aos testes.

Nos Estados Unidos, esse mesmo trabalho foi desenvolvido por Lewis
Terman(1911), psicólogo da Universidade de Stanford, que o adaptou para
identificar as diferenças individuais no que tange a inteligência. Assim,
formulou a Escala de inteligência Stanford-Binet, que, após várias versões,
é utilizada até hoje.

Lewis Terman começou um estudo sobre crianças intelectualmente


superdotadas que foi continuado ao longo de décadas por outros psicólogos.
A história de vida de alguns dos participantes dessa pesquisa é relatada
por Shurkin(apud NEWCOMBE, 1999,p.281):

A vida das crianças nem sempre seguiu seu potencial inicial. Tal fato é
ilustrado na história de ‘Beatrice’, que se formou em Stanford aos 17
anos e parecia superdotada para a escultura. Contudo, ela nunca
conseguiu um emprego adulto no qual pudesse ser produtiva. Neste
trecho, ingressamos na história de vida de Beatrice depois dela ter
terminado a faculdade.

Uma transformação estranha ocorreu com Beatrice

Enfim, os testes de QI sofreram severas críticas e hoje questiona-se a


sua aplicabilidade, sobretudo, nos seguintes aspectos:

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· a tendência em classificar e rotular as crianças em retardadas,


normais e superdotadas ou inteligentes e não-inteligentes.

· a divergência nos testes de QI quanto ao aspecto cognitivo


mensurado, o que poderia provocar resultados diferentes para
a mesma pessoa. Dependendo do teste de QI a que era
submetida, a mesma pessoa poderia ser considerada deficiente
ou superdotada.

· o uso de padrões socialmente valorizados pelos grupos


dominantes na construção dos testes.

Mais recentemente, Sternberg (1985) formula a Teoria Triárquica da


inteligência em que propõe um modelo ampliado da inteligência, incorporando
a esse conceito as habilidades cognitivas, as experiências de vida, assim
como sua habilidade para adaptação. Sua teoria Triárquica tem três
componentes principais:

1º - componentes cognitivos e conhecimento: esse componente


compreende habilidades de resolução de problemas,
planejamento, monitoração e avaliação do próprio desempenho
e o acréscimo de conhecimento, relacionando as novas
informações às que já possui.

2º - facilidade e rapidez com as quais os indivíduos lidam com as


novas experiências.

3º - capacidade de se adaptar ao seu ambiente social e cultural.


Envolvem não só a necessidade de mudanças pessoais para a
adaptação, mas também as ações do indivíduo sobre o meio
de modo que possa reorganizá-lo para que, a partir daí, possa
melhor se adaptar.

Atualmente vivemos uma forte tendência em compreender a inteligência


como um aspecto múltiplo e não geral. Um dos mais expressivos
representantes dessa corrente teórica e que tem maior visibilidade no mundo
acadêmico é Howard Gardner da Universidade de Harvard. Ele formulou a
Teoria das Inteligências Múltiplas. Gardner caracteriza a Inteligência:

• como habilidade para resolver problemas;

• como habilidade de projetar algo útil em um contexto cultural.

Segundo Gardner(2000), a inteligência é um potencial biopsicológico para


processar informações que pode ser ativado num cenário cultural para
solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura.

Pontos fundamentais:

· número de competências não é definitivo nem central,


fundamental é o caráter múltiplo;

· as Inteligências interagem;

· a Inteligência não é única e não pode ser medida;

· considera diferenças, não rotula, padroniza ou mede


habilidades.

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Com base no site do jornal Appai Educar1, Gardner propõe as seguintes


modalidades de inteligência:

INTELIGÊNCIA LINGÜÍSTICA - Os componentes centrais da inteligência


lingüística são uma sensibilidade para os sons, ritmos e significados das
palavras, além de uma especial percepção das diferentes funções da
linguagem. É a habilidade para usar a linguagem para convencer, agradar,
estimular ou transmitir idéias. Gardner indica que é a habilidade exibida na
sua maior intensidade pelos poetas. Em crianças, esta habilidade se manifesta
através da capacidade para contar histórias originais ou para relatar, com
recisão, experiências vividas. Outros exemplos: escritores, poetas, redatores,
roteiristas, oradores, líderes políticos e jornalistas.

Principais características:

• sensível às regras;

• organizado;

• sistemático;

• habilidade para raciocinar;

• gosta de ouvir;

• gosta de ler e de escrever;

• soletra com facilidade;

• gosta de jogos de palavras.

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UNIDADE 8 - PROCESSOS COGNITIVOS

INTELIGÊNCIA MUSICAL - Esta inteligência se manifesta através de


uma habilidade para apreciar, compor ou reproduzir uma peça musical. Inclui
discriminação de sons, habilidade para perceber temas musicais, sensibilidade
para ritmos, texturas e timbre, e habilidade para produzir e/ou reproduzir
música. A criança pequena com habilidade musical especial percebe desde
cedo diferentes sons no seu ambiente e, freqüentemente, canta para si
mesma. Exemplos:

músicos, compositores, concertistas, fabricantes de instrumentos musicais


e afinadores de piano.

Principais características:

· sensível à entonação;

· tem ritmo, marcação de tempo;

· sensível ao poder emocional da música.

INTELIGÊNCIA LÓGICO-MATEMÁTICA - Os componentes centrais desta


inteligência são descritos por Gardner como uma sensibilidade para padrões,
ordem e sistematização. É a habilidade para explorar relações, categorias e
padrões, através da manipulação de objetos ou símbolos e para experimentar
de forma controlada; é a habilidade para lidar com séries de raciocínios,
para reconhecer problemas e resolvê-los. É a inteligência característica de
matemáticos e cientistas. Gardner, porém, explica que, embora o talento
científico e o talento matemático possam estar presentes num mesmo
indivíduo, os motivos que movem as ações dos cientistas e dos matemáticos
não são os mesmos. Enquanto os matemáticos desejam criar um mundo
abstrato consistente, os cientistas pretendem explicar a natureza. A criança
com especial aptidão nesta inteligência demonstra facilidade para contar e
fazer cálculos matemáticos e para criar notações práticas de seu raciocínio.
Exemplos: matemáticos, cientistas, engenheiros, investigadores, advogados
e contadores.

Principais características:

· gosta de raciocínio abstrato;

· gosta de ser preciso;

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· aprecia cálculos;

· organizado;

· utiliza estruturas lógicas;

· aprecia computadores;

· aprecia resolução de problemas;

· prefere anotações de forma ordenada.

INTELIGÊNCIA ESPACIAL - Gardner descreve a inteligência espacial


como a capacidade para perceber o mundo visual e espacial de forma precisa.
É a habilidade para manipular formas ou objetos mentalmente e, a partir
das percepções iniciais, criar tensão, equilíbrio e composição, numa
representação visual ou espacial. É a inteligência dos artistas plásticos, dos
engenheiros e dos arquitetos. Em crianças pequenas, o potencial especial
nessa inteligência é percebido através da habilidade para quebra-cabeças
e outros jogos espaciais e a atenção a detalhes visuais. Mais exemplos:

pintores, escultores, navegadores, jogadores de xadrez e estrategistas


militares.

Principais características:

• pensa em figuras;

• cria imagens mentais;

• utiliza metáforas;

• gosta de arte: desenho, pintura e escultura;

• lê com facilidade mapas e gráficos;

• lembra-se com figuras;

• utiliza todos os sentidos para formar imagens;

• tem bom senso de direção.

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INTELIGÊNCIA CINESTÉSICA - Esta inteligência se refere à habilidade


para resolver problemas ou criar produtos através do uso de parte ou de
todo o corpo. É a habilidade para usar a coordenação grossa ou fina em
esportes, artes cênicas ou plásticas no controle dos movimentos do corpo e
na manipulação de objetos com destreza. A criança especialmente dotada
na inteligência cinestésica se move com graça e harmonia a partir de estímulos
musicais ou verbais; demonstra uma grande habilidade atlética ou uma
coordenação fina apurada. Exemplos: bailarinos, atores, atletas, inventores,
mímicos, cirurgiões, vendedores, pilotos de corrida, praticantes de artes
marciais e trabalhadores com habilidades manuais.

Principais características:

• controle excepcional do próprio corpo;

• controle de objetos;

• bons reflexos;

• aprende melhor se movimentando;

• gosta de se envolver em esportes físicos;

• habilidoso em artesanato;

• gosta de representar, contador de piadas;

• brinca com objetos enquanto escuta;

• irrequieto e aborrecido em palestras longas.

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INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL - Esta inteligência pode ser descrita


como uma habilidade pare entender e responder adequadamente a humores,
temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas. Ela é melhor
apreciada na observação de psicoterapeutas, professores, políticos e
vendedores bem sucedidos. Na sua forma mais primitiva, a inteligência
interpessoal se manifesta em crianças pequenas como a habilidade para
distinguir pessoas e, na sua forma mais avançada, como a habilidade para
perceber intenções e desejos de outras pessoas e para reagir
apropriadamente a partir dessa percepção. Crianças especialmente dotadas
demonstram muito cedo uma habilidade para liderar outras crianças, uma
vez que são extremamente sensíveis às necessidades e sentimentos de
outros. Exemplos:políticos, professores, líderes religiosos, conselheiros,
vendedores, gerentes, relações públicas e pessoas com facilidade de
relacionamento.

Principais características:

• relaciona-se e associa-se bem;

• consegue “ler” as intenções de terceiros;

• aprecia estar com pessoas;

• tem muitos amigos;

• comunica-se bem;

• às vezes manipula as pessoas;

• gosta de mediar disputas.

INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL - Esta inteligência é o correlativo interno


da inteligência interpessoal, isto é, a habilidade para ter acesso aos próprios
sentimentos, sonhos e idéias, para discriminá-los e lançar mão deles na
solução de problemas pessoais. É o reconhecimento de habilidades,
necessidades, desejos e inteligências próprias, a capacidade para formular
uma imagem precisa de si próprio e a habilidade para usar essa imagem
para funcionar de forma efetiva. Como esta inteligência é a mais pessoal de
todas, ela só é observável através dos sistemas simbólicos das outras
inteligências, ou seja, através de manifestações lingüísticas, musicais ou

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cinestésicas. Exemplos: romancistas, conselheiros, sábios, filósofos, místicos


e pessoas com um profundo senso do “eu”.

Principais características:

• autoconhecimento;

• sensibilidade aos valores próprios de cada um;

• tem um senso bastante desenvolvido do “eu”;

• habilidade intuitiva;

• automotivado;

• consciente das próprias potencialidades e fraquezas;

• muito reservado;

• deseja ser diferente da tendência geral.

INTELIGÊNCIA NATURALISTA - Esta inteligência foi recentemente


adicionada à lista das sete inteligências múltiplas e consiste na habilidade
de identificar e classificar padrões da natureza. É também conhecida como
inteligência biológica ou ecológica. Exemplos: biólogos, botânicos,
pescadores, agricultores, jardineiros, paisagistas, ecologistas e amantes da
natureza.

Principais características:

· Tem capacidade para perceber a natureza de maneira integral.

· Sente processos de acentuada empatia com animais e com as


plantas; uma capacidade que pode estender-se a um
sentimento ecológico, uma percepção de ecossistemas e
habitats.

INTELIGÊNCIA EXISTENCIALISTA - Esta nona inteligência, que


ainda está em estudo, não foi aceita por inteiro, pois os cientistas
ainda não provaram que ela requer áreas específicas do cérebro. Está
relacionada à capacidade de consciência da própria existência.
Exemplos: místicos, líderes religiosos, pessoas que meditam.

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É HORA DE SE AVALIAR!
Não esqueça de realizar as atividades desta unidade de
estudo, presentes no caderno de exercício! Elas irão ajudá-lo a
fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no
processo de ensino-aprendizagem. Caso prefira, redija as
respostas no caderno e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA). Interaja conosco!

Gostou? Sem dúvida é magnífica a capacidade humana! Mas não


paramos por aqui. Na unidade IX, iremos compreender o que acontece
quando as engrenagens chamadas de “processos psicológicos” não
funcionam harmoniosamente.

NOTA
1
Disponível em: http://www.appai.org.br/Jornal_Educar/jornal35/historia_educacao/
howard.asp
Acesso em: 15/12/2006.

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