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anos na malona dos casos decididos pela EXTRATO DA ATA

Justiça. A má interpretação que justifica o


iudicium rescindens há de ser de tal modo AR nQ 1.131-7 - PA - ReI.: Ministro
aberrante do texto que equivalha à sua vio- Cordeiro Guerra. Rev.: Min. Moreira AI·
lação literal." ves. Autor: Estado do Pará (Adv.: Arte-
Ademais, no caso, sequer se demonstrou mis Leite da Silva). Réus: Agropecuária
a ocorrência da alteração jurisprudencial, Paraporã S.A. e outros (Adv.: Francisco
pois o acórdão rescindendo dizia respeito, Orlando Junqueira Franco).
ao contrário do que ocorreu com o aresto Decisão: julgou-se improcedente a ação,
trazido a confronto, a desapropriação de unanimemente. Plenário, 9.2.83.
área rural adjacente para formação de dis- Presidência do Sr. Ministro Xavier de
trito industrial, em que um dos fundamen· Albuquerque. Presentes à sessão os Srs. Mi-
tos era o "interesse social". nistros Djaci Falcão, Cordeiro Guerra, Mo-
2. Em face do exposto, julgo improce- reira Alves, Soares Muííoz, Décio Miranda,
dente a ação, condenando o autor nas cus- Rafael Mayer, Alfredo Buzaid, Oscar Cor·
tas e em honorários de advogado que fixo rêa e Aldir Passarinho. Ausente, justifica-
em 20% do valor atribuído à causa, re- damente, o Sr. Ministro Néri da Silveira.
vertendo o depósito em favor dos réus, se Procurador-Geral da República, Prof. Ino·
unânime a decisão. cêncio Mártires Coelho.

PODER DE POLICIA - SALVO-CONDUTO - TROTTOIR*

- A recusa de salvo-conduto para a prática do trottoir não


constitui negação de direito constitucionalmente assegurado.
- Não pode o habeas-corpus erigir-se em alvará para a prática
da prostituição ostensiva.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Francinete Soares de Castro e outra versus Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Recurso de Habeas-Corpus n!? 59.518 ---< Relator: Sr. Ministro
CoRDEIRO GUERRA

ACÓRDÃO RELATÓRIO

Visto, relatados e discutidos estes autos, o Sr. Ministro Cordeiro Guerra: O V


acordam os Ministros do Supremo Tribu- Acórdão recorrido, da lavra do ilustre De-
nal Federal em Sessão Plenária, na confor- sembargador Andrade Junqueira, está assim
midade da ata de julgamento e das notas concebido:
taquigráficas, por maioria de votos, em ne- "Trata-se de recurso oficial interposto de
gar provimento ao recurso. decisão que concedeu ordem de habeas-
Brasília, 26 de agosto de 1982. Xavier corpus preventivo em favor das recorridas
de Albuquerque, Presidente. Cordeiro Guer- Francinete Soares de Castro e Lenir Apa-
ra, Relator. recida Teixeira da Silva, a fim de evitar

* Ver, sobre a matéria, acórdão do STF (Turmas) na RDA, 147, p. 161, 165 e 168.

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venham a ser detidas por policiais quando troltoir em frente de suas residências ou
da prática do chamado Irollo;r nas vias pú- das lojas onde trabalham, reclamam, e com
blicas desta Capital. razão, porquanto qualquer um de nós faria
O recurso foi processado com regulari- outro tanto se, porventura, tais mulheres
dade. resolvessem fazer ponto em frente de nossa
O parecer da Procuradoria da Justiça se casa, tornando·se chamarisco para homens.
manifestou pelo provimento do recurso, por Que atitude deverá a polícia tomar?
insuficiente a prova quanto às detenções e Cruzar os braços seria a solução que se
quanto ao apontar a autoridade coatora. harmonizaria com a sentença de primeira
A maioria da turma julgadora dá provi- instância, que concedeu salvo-conduto às
mento ao recurso pelos mesmos fundamen- pacientes; ou então, tomar a providência
tos adotados no julgamento do Recurso de que a polícia desta Capital tem tomado, C0-
Habeas-Corpus nQ 7.325-3, da Comarca da mo se verifica do ofício de fls. 85, pelo
Capital, vasados nos seguintes termos: qual a autoridade policial informa que di·
'Batlre te Iroltoir, exploiler le trottoir' tas mulheres são detidas e em seguida en·
nada mais significa do que chercher des caminhadas à repartição competente, lavran·
clienls sur te lrottoir, como ensinam os dO-se os competentes Boletins de Recolha
mestres franceses. (fls. 86/93), sendo soltas em seguida.
Portanto, o chamado Irotlo;r não se re· Em face dessas duas atitudes que a po.
sume em simplesmente andar no passeio lícia pode tomar, inegavelmente que a pri.
das ruas por parte das prostitutas, pois, se meira nos conduziria àquela situação que
assim fosse, todas as mulheres que estives- no mundo de hoje somente se verifica ainda
sem andando pelas ruas e praças da cidade em alguns raros países subdesenvolvidos da
estariam também fazendo o chamado Irot. Asia e da Polinésia, onde o mercadejamento
loir. Consiste, sim, no aliciar homens para da mulher para fins libidinosos chegou a
o ato sexual; e, para isso, as prostitutas, um estado de degradação que se processa
para se distinguirem das demais mulheres em plena rua, à vista de quantos transitem
que não fazem a prostituição, provocam pelas ruas, dando um péssimo exemplo para
os transeuntes, exageram a vestimenta para jovens inooentes, importandO num verda·
chamar a atenção dos homens nas ruas e deiro convite para a prostituição.
praças da cidade; ou então, se colocam em Nos países civilizados, o que se tem veri·
determinados pontos das ruas e praças e ficado é o combate à prostituição ostensiva,
ali permanecem em posição tal que logo quer por meios profiláticos quer pela dimi.
se vê que são prostitutas se oferecendo para nuição da publicidade que a sua explora.
o ato sexual. ção lança mão; a mulher que pretenda vi·
E essa atitude das prostitutas que fazem ver da prostituição não está impedida de
o Iroltoir, sabem·no todos, não é apática, fazê-lo, dado que o fato somente é punível
não é silenciosa, não é discreta, porquanto pela moral, mas que o faça sem a publici·
se o fosse não conseguiriam elas chamar a dade própria do Irolto;r, sem molestar os
atenção dos homens para as suas pessoas; transeuntes em plena rua e sem dar o mau
pelo contrário, no meio baixo em que pro. exemp'o para as jovens.
Iifera, elas não se limitam a provocar a Essa restrição, que a polícia preventiva
concupiscência dos homens mediante sim· exerce sobre as atividades das prostitutas
pIes exibição de seus possíveis encantos fe· nas ruas, faz parte do 'poder de polícia'
mininos, mas vão mais longe, pois fazem que universalmente se lhe reconhece; pelo
acompanhar essa atitude de trajes, palavras mesmo princípio, a polícia preventiva reti-
e gestos que incomodam e até vexam os ra das ruas os homens que vivem a impor-
transeuntes. tunar as mulheres nas ruas, convidandO-as
Surge, então, um problema que cabe à para o ato sexual; que retira das ruas os
polícia resolver: os prejudicados com o vadios, os ébrios, os malandros, os chama-

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dos 'trombadinhas' que infestam os centros rés-do-chão, do belo prédio, se posta uma
das cidades. prostituta como se ficasse emoldurada à
Como ensinou o douto Castro Nunes o espera da freguesia. Ou quase o inverso das
poder de polícia 'é um direito primário de famosas vitrinas de Amsterdã. Entretanto,
autodefesa do Estado, inerente a todo go. de um lado ou de outro lado do vidro,
vemo autônomo. Destina-se a preservar e vergonha é a mesma' (fls. 34). E o c0-
a promover o bem público, acautelando os mentarista prossegue: 'Não se trata de pu-
interesses da ordem e da segurança indivi- ritanismo nosso. Diante do desrespeito a08
dual, da saúde, do bem-estar, da tranqüi. transeuntes, trata-se como eu disse acima
Iidade e conforto das populações. Realiza - de acinte por parte de dezenas de he-
uma função auxiliar e complementar do tairas, com diferenças das mulheres e tra-
direito, acudindo às necessidades da vida vestis que praticam o trottoir na Av. Vinte
coletiva na extensão e com as limitações e Três de Maio, nas imediações de India-
que lhes forem traçadas pelo legislador, de nápolis, somente nos trajes das mundanas
acordo com aquelas necessidades e as cir- da Zona Sul, que são sumaríssimos e até
cunstâncias emergentes de cada momento. mesmo chocantes' (fls. 34). E o comenta·
É instrumento da ação social do Estado, rista acrescenta:
meio de preservação do interesse coletivo 'Hoje, os Distritos Policiais da área não
contra as demasias do interesse individual' estão muito preocupados com o trottair,
(Teoria e prática do Poder Judiciário, p. muito embora todos saibam que atrás dele
617). vêm os ladrões, os passadores de drogas, os
Se as pacientes pretendem continuar a vigaristas, os desocupados, os rufiões e ou-
exercer a prostituição, que o façam como tros' (fls. 34).
centenas de milhares de outras costumam Vê-se, por esse relato do cronista, exibido
fazê-lo, isto é, discretamente, em lugares com o presente pedido de habeas-corpus,
adequados, sem perturbar a tranqüilidade que os próprios impetrantes se incumbiram
pública, sem escândalo e, principalmente, de trazer para os autos, um relato vivo, fiel
sem dar o mau exemplo de suas atividades e autêntico do quadro de degradação moral
às jovens que transitam pelas ruas da cio que a polícia desta Capital procura coibir,
dade. a fim de evitar que a nossa Capital se trans·
Oportuno considerar que não há notícia forme no paraíso do vício e do crime or-
de habeas-corpus impetrados por mulheres ganizado.
que não sejam prostitutas e que hajam sido E, como é óbvio, a função principal da
detidas pela polícia sob o pretexto de troto Polícia é preventiva, a fim de coibir o es-
toir; isso ocorre porque as que são detidas tado de coisas descritas pelo cronista.
se vestem de medo escandaloso, provocam E é forçoso reconhecer, ainda, que as
homens nas ruas, fazem ponto em frente providências tomadas pela polícia, na ad-
de residência ou de lojas comerciais, de ministração do atual Secretário da Segu-
modo a prejudicar a tranqüilidade dos mo- rança Pública, surtiram efeito, pois o qua-
radores ou freqüentadores de tais lugares. dro descrito por aquele cronista constitui
Os próprios impetrantes se incumbiram coisa do passado. Felizmente. E, note-se,
de trazer para os autos um retrato vivo do sem prejuízo algum para as prostitutas,
que acontecia nesta Capital, segundo o no. cujo número continua aumentando na pro-
ticiário da imprensa: porção da população da cidade, haja visto
'Mas a situação agravou-se sobremaneira o grande número de motéis e drive-in espa·
e, em certos pontos da Capital, chega a ser Ihados pela cidade.
intransitável o caminho, a exemplo do que O fato de a prostituição não constituir cri-
se vê na Av. São João, nas imediações do me não significa que o seu exercfcio seja
novo edifício Andraus, reconstruído depois profissão lícita, pois, se o fosse, por certo
do incêndio. Em cada divisão de vidro, ao que não se justificaria o art. 229 do CP;

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há inúmeros outros procedimentos que tam· tica contravencional, ou se, ao contrário,
bém não constituem crime e no entanto a seria o caso apenas de mandar a pessoa pa·
polícia não permite sejam praticados nas ra casa, depois de simples advertência, co·
ruas, à vista de todos; daí a razão de ser mo é curial fazer-se nesses casos de mero
da polícia preventiva em coibir a sua pro- policiamento preventivo.'
paganda nas vias públicas por meio do E o eminente juiz conclui o seu voto:
(rottoir. 'O que se admitiu é o que também admi-
Essa é a orientação atual da egrégia Se· to, que o trottoir, em si mesmo, não preci.
gunda Turma do colendo Supremo Tribu- sa de qualificação, é malicioso, ultrajante,
nal Federal, como se verifica do julgamen- porque praticado na via pública.'
to proferido no RHC nl? 58.179-5-SP, em O eminente Ministro Moreira Alves tam·
o qual mantiveram acórdão da egrégia bém votou no sentido de acompanhar o vo-
Primeira Câmara Criminal do Tribunal de to do Ministro Décio Miranda, pois não po.
Justiça, relatado pelo Des. ítalo Galli, res- de admitir a concessão de salvo-conduto
tando vencido o Relator Leitão de Abreu, para a prática do trotloir.
e com votos vencedores os Exmos. Srs. Mi· O eminente Ministro Cordeiro Guerra
nistros Décio Miranda, Cordeiro Guerra, também votou no sentido de que a simples
Moreira Alves e Djaci Falcão, decisão essa prática do trottoir é atividade ofensiva à
proferida em 5.9.1980. moral pública que pode ser reprimida pela
Em dito julgado, o Exml? Sr. Ministro polícia, dentro dos seus poderes naturais de
Décio Miranda teve oportunidade de obser- mantenedora da ordem pública, na preser·
var que vação dos bons costumes, não sendo neces-
a postura assumida pela paciente sário que a polícia aguarde que a prostituta,
era a de quem faz o (rotroir e envolve, nes- no trottoir, importune alguém de modo
ta simples designação, o reconhecimento da ofensivo ao pudor ou mesmo pratique um
jl1alícia contumeliosa da atitude. Do con· atentado ao pudor público para que então
trário, não seria qualificada como trottoir. atue; e S. Exa. lembra, com muita acuida·
Este, além da malícia e da provocação, con- de e adequação ao caso, o que está acon·
figura afronta a outras pessoas que na via tecendo nas Grandes Capitais do país, com
pública se encontrem e guardem posição os 'travestis', os quais se fantasiam tão bem
de moralidade e respeito aos costumes.' que chegam a atrair os imprudentes, para,
E o ilustre Ministro prossegue: ao depois, ameaçando-os com navalhas, os
'Ora, se a polícia encontra uma pessoa despojam, ameaçando-os duplamente, na
nessa atitude, faz-lhe a advertência de que pessoa física e no escândalo de que foram
não pode persistir na prática ofensiva e vá seduzidos pelo passante.
para casa; se a criatura se recusa a aten· E o eminente Ministro Djaci Falcão, que
der e se obstina em manter o procedimen- então presidiu a sessão, votou afirmando:
to na via pública; se isso desperta a aten- 'Não vejo como conceder habeas-corpus
ção e o incômodo das pessoas de moralida- preventivo nas circunstâncias correntes na
de normal que por ali transitam, das fa· espécie, porque a prática do Iroltoir, em si,
nu1ias que habitam na circunvizinhança; se constitui, sem dúvida, ato contrário aos
os locais de trotroir porventura atraem a bons costumes, ato que choca os princípios
reunião de malfeitores e de outros elemen- éticos da sociedade, configurando, fora de
tos anti-sociais; não há outra providência dúvida, um comportamento ilícito.'
senão um constrangimento, por momentâ- E S. Exa. deixou bem claro que tal
neo que seja, como seria, por exemplo, re- 'não impede o uso do habeas-corpus se
colher a pessoa em viatura policial e es· a recorrente vier a ser presa sem se achar
perar que ela chegue a bons termos ou, até, na prática do Irol1oir.'
em último caso, levá-Ia à Delegacia de Po- Esse importante julgamento do mais alto
lícia p2ra verificar se realmente houve prá- intérprete da CF está na mesma linha de

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raciocínio que o relator deste esposou nes- sível de cerceamento por parte da autorida-
te acórdão e em outros que tem relatado de poiicial.
neste Tribunal de Justiça. O presente recurso, que não merece pro-
Ante o exposto, dão provimento ao re- vido, é mera repetição do arrazoado que
curso para, reformada a decisão recorrida, informou a vestibular do writ, por isso
cassar os salvo-condutos fornecidos às pa· mesmo insistem as recorrentes, nossa Carta
cientes." Penal não pune a prostituição, exercida
O julgamento teve a participação, com esta com discrição, sem escândalo, sem ul-
voto vencedor, do Des. Marzagão Barbuto, traje público ao pudor, assim pensando o
e, com voto vencido, do Des. Cunha Ca- d. voto vencido, para quem o trottair co-
margo. mo meio para o exercício da prostituição
São Paulo, 10 de agosto de 1981. Andr(}. não pode per se, sofrer a repressão policial
de Junqueira, Presidente e Relator (fls. (v. fls. 80).
72/80). Destarte não vejo como conceder-se 'sal·
Votou vencido o ilustre Des. Cunha Ca- vo-conduto' às recorrentes, assegurando-Ihes
margo e nestes termos: assim o exercício do trottoir com todas as
"Com a devida e máxima vênia da dou- suas implicações abusivas, atentatórias à
ússima maioria e dela ousando divergir, moral, aos bons costumes e à própria oro
meu voto negou provimento do recurso. dem pública, já que a sua prática implica,
Como é cediço, a prostituição per se, a de regra, uso de vestes pouco decorosas,
mercância do próprio corpo, não está defi- molestação moral e material aos transeun-
nida, entre nós, como infração penal, pelo tes, gestos, palavras de provocação ou con-
que o denominado trottoir - um dos meios vites acintosos, criando inegavelmente pro-
para o seu exercício - por si só, não po- fundo constrangimento às famílias, levadas
de sofrer a repressão policial. a presenciar tão chocantes cenas.
Se a meretriz, com qualquer outra pes- Teríamos, então, com a concessão pre-
soa, em lugar público, ou aberto ou expos- tendida, a nulificação do 'exercício funcio-
to ao público, cometer ultraje ao pudor, nai da polícia de costumes' de que fala
em qualquer de suas modalidades, ou qual- Cretella Júnior, in Liberdades públicas,
quer outra infração penal, seja de que na- p. 74.
tureza for, deve ser penalmente responsa- Uma vez, porém, comprovado o abuso
bilizada, na forma da lei. da autoridade policial, a lei prevê os meios
Isso é o certo, é o justo e é o correto. necessários a sua punição. Todavia, in casu,
O que não se justifica, data venia, é um as testemunhas ouvidas no sumário (fls. SO
atentado à liberdade individual - que à e 51) referem-se de maneira vaga às de-
Justiça Criminal cumpre preservar - a tenções das recorrentes, sem indicar qua]
pretexto da defesa da moralidade pública" a autoridade ou delegacia de onde teria
(fls. 81). emanado a ordem de prisão, donde a sim-
Com base no voto discordante é inter- ples presunção de uso abusivo do exercício
posto o presente recurso. de polícia não pode ensejar o ofertamento
Sobre ele assim se manifesta a douta Pro- do salvo-conduto, perseguido nesta via re-
curadoria-Geral da República: cursal.
''Trata-se de recurso ordinário interposto Em arremate, uma vez comprovada a
por Francinete Soares de Castro e Lenir detenção ilegal das recorrentes, o que não
Aparecida Teixeira e Silva, contra o r. de- se provou até aqui, socorre-lhes, agora sim,
cisório de fls. 71/80, do Tribunal de Jus- o instituto do habeas-corpus, com a respon-
tiça de São Paulo que, à maioria de votos, sabilidade criminal do autor, ou autores, da
cassou os salvo-condutos expedidos em fa- ilegalidade.
vor de ambas, objetivando a prática do Tal não tem sido outro o entendimento
trottoir, que o Tribunal a que julgou pas- predominante nesse Excelso Pretório.

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Por tudo o que foi exposto, o parecer é etica di un popolo in un dato momento
pelo desprovimento do recurso." storico; e precisamente il suo modo di sen-
Brasília, 23 de dezembro de 1981. J. B. tire e di distinguere il bene e il male, rones-
Clayton Rossi, Procurador da República to e il disonesto' (p. 22).
(fls. 96/97). A Constituição da República, art. 153, §
Tendo em conta os julgados divergentes 89, ao assegurar a livre manifestação do
das 1. a e 2. a Turmas deste Tribunal, trago pensamento, condena expressamente as pu·
o presente recurso à consideração deste PIe blicações e exteriorizações contrárias à mo-
nário. ral e aos bons costumes.
Por conseguinte, não ampara o exercício
VOTO público e ostensivo da prostituição, porque
contrário à moral e aos bons costumes.
o Sr. Ministro Cordeiro Guerra (Rela- 'Os bons costumes, que a lei protege,
tor): A egrégia 2. a Turma, à unanimidade, concernem a vários bens jurídicos, podendo
em hipótese idêntica, assim decidiu: especificar-se entre eles o pudor e o decoro
Nessa oportunidade, como relator, assim público. Esta idéia é antiga. Suas raízes mer-
votei: gulham no direito romano, em cuja jurispru-
"Não é nova a espécie em debate. Esta dência há numerosas disposições que ga-
Turma, no RHC 58. 179-SP, assim decidiu, rantem os bons costumes. Mas, como obser-
em ementa da lavra do eminente Ministro va Biondo Biondi, foi a legislação romana
Décio Miranda: cristã, por sua base ética, que deu larga
'Constitucional. Poder de Polícia. Are· aplicação dos princípios morais no campo
cusa de salvo-conduto a prostitutas para a sexual mediante uma 5érie de providências,
prática de trottoir não constitui negação de que objetivavam não só a reprimir penal-
direito constitucionalmente assegurado. Con- mente, mas ainda a prevenir tudo que pu-
figuração de atos contrários aos bons costu- desse ser atentado ao pudor ou tivesse ca-
mes, ofensivo da moralidade pública e fonte ráter de obscenidade, evitando por tal modo
de constrangimento para transeuntes e resi- o incitamento a pecar. Este é o aspecto novo
dentes' (RTJ 96/1.067). do direito. A pudicícia não foi levada em
Dei, na oportunidade, de improviso, longo grande conta pelo legislador pagão. Pudor,
voto (RTJ 96/1.075-1.076) a que, data na linguagem dos juristas clássicos, não se
venia, me reporto. limita à esfera sexual. Indica o respeito à
Não obstante o valioso dissenso trazido à pessoa, a correção no cumprimento dos de-
colação pelas recorrentes, mantenho o en- veres que estão fora do direito, a honra e
tendimento de que 'no ordenamento jurídi- a consideração pública. Coube à patrística o
co vigente, que coíbe certos atos contra a mérito de considerar a pudicícia fios morum,
moral e os bons costumes, não pode o ha- honor corporum, decor sexuum, integrittlJ
beas-corpus erigir-se em 'alvará' para a prá- sanguinis, fides generis, fundamentum sanc-
tica da prostituição ostensiva.' titatis praeiudicium omnis bonae mentis.
Hoje acrescento: A partir de Constantino, a moral sexual
E preciso lembrar, como o faz o eminente cristã se eleva à categoria de norma jurídica.
Ministro Alfredo Buzaid (in Em defesa da O Código Teodosiano é severo contra qui-
moral e dos bons costumes, 1970, p. 21), cumque igitur aliquid improbe turpiterque
Invocando a autoridade de Manzini, que 'a commiserit aut libidinis macula forte pol-
moralidade pública sexual e o bom costume luerit pudicitiam. Tratando das uniões con-
são bens jurídicos essenciais da civilização tra a natureza, Valentiniano e Teodósio
moderna', e, em conseqüência, devem ser prescreviam não tolerar que urbem Romam
protegidos, porque, como assinala Maggio- virtutum omnium malrem ... pudoris conta-
re: 'La moralitá pubblica é la coscienza minalione foedari.

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o direito Justinianeu protege amplamen- dentro de seus poderes normais de mantene-
te a moral cristã. Justiniano, desejando cul- dora da ordem pública, na preservação dos
tivar a castidade, determina que deve ser bons costumes. Não é necessário que a Po-
semper colendam.' (Ministro Alfredo Bu- lícia aguarde que a prostituta, no trottoir,
zaid, Em defesa da moral e dos bons costu- importune alguém de modo ofensivo ao pu-
mes, 1970, p. 35/36, nQ 35). dor ou mesmo pratique um atentado ao
De fato, a prostituição é o comércio pudor púbüco, para que então atue. Basta
sexual da mulher com fim de lucro e sem que a prostituta, pela sua atitude, revele o
que ela escolha o parceiro do prazer, na propósito da prática da contravenção ou do
definição do Prof. Arturo Santoro, da Uni- crime, para que seja obstada em sua inten-
versidade de Pisa, que relembra ser ela es- ção manifestada pela própria conduta.
tigmatizada no livro dos Profetas e no Pen- Assim, estou em que não é inconstitu-
tateuco. cional evitar que os direitos individuais se·
Não é, pois, uma atividade romântica, jam utilizados em contrário à sua própria
digna de estímulo e facilitação: finalidade, que é a de assegurar a tranqüi-
'A prostituição, além de constituir um fato lidade de todos os cidadãos."
de patente imoralidade e fonte de degradan- Por esses fundamentos, nego provimento
te corrupção, constitui sob diversos aspectos ao recurso.
um perigo para a sociedade.'
Diz o mesmo autor que ressalta: VOTO
'Amplas são as ligações do meretrício com
a criminalidade, e lo stato non puo chiudere o Sr. Ministro Soares Munor.: Sr. Presi-
gliocchi dinanzi alia realtà dei triste feno- dente, a Primeira Turma tem decidido casos
meno, anche perchê, come si é accennato, semelhantes ao que acaba de ser relatado
esso é fomite e causa di gravi nocumenti pelo eminente Ministro Cordeiro Guerra e
social i. tem chegado a solução diferente.
~ quindi, praticamente inammissibile un
Tem-se noticiado que essas decisões im-
sistema legislativo de piena libertà, il quale
portam declarar a licitude ou a defensabili-
lascerebbe la prostituzione sottopposta es·
dade da prostituição. Não é verdade. Te-
clusivamente alie comuni disposizione vale·
mo-nos adstrito apenas à observância de
voli per ogni forma de atività' (Novissimo
uma das garantias constitucionais, aquela
Digesto Italiano, Prostituzione).
que, segundo entendo, é das mais preemi-
Daí o regime regulamentar da prostitui
nentes, porque assegura a liberdade de ir
ção adotado em todos os povos cultos, pela
e vir, salvo prisão em flagrante ou me-
Grã-Bretanha, nas cidades portuárias, em
diante ordem escrita da autoridade compe-
1864; na Itália, em 1871; na França, desde
o século XVI, e, finalmente, na União S0- tente. Segundo ela, a prisão não pode ser
viética, que, por um ukas de 4.5.1961, prevê realizada, mesmo em face do crime, sem
medidas de ingerência social em relação que se cumpram as formalidades constitucio-
àqueles que, furtando-se ao trabalho, se de· nais. Os tribunais, principalmente o Supremo
dicam a vida anti-social e parasitária na Tribunal, não devem e não podem transigir
qual se incluem as mulheres que exercitam quando a polícia transgride essa garantia
a prostituição, segundo refere Tomaso Na· constitucional, a maior que os cidadãos
politano (11 Nuovo Codice Penale Sovietico, livres podem almejar para viver livremente
Milano, 1963. p. 366). num país que quer ser livre.
O trottoir, como salienta o ilustre De- O Sr. Ministro Moreira Alves: Mas, Mi
sembargador !talo Galli, 'nada mais é que nistro, a Segunda Turma não é contrária a
procurar clientes nas calçadas', e, como dis- isso. Apenas acha que, se não há crime, não
se, é uma atividade ofensiva à moral públi- há necessidade de salvo-conduto, e, se há
ca, que pode ser reprimida pela Polícia, o salvo-conduto, é ilegal.

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o Sr. Ministro Soares Muiíoz: Não há longos tempos. A evolução do direito é no
ilegalidade na concessão de salv<H:onduto, sentido, nem sempre linear, de restringir esse
ainda que o chamado trottoir possa, naquela direito, enquanto implica o que se pode
hipótese, constituir crime. Se tal ocorre, chamar de arbítrio. O regime de polícia, em
cabe à Polícia prender e lavrar o auto de que ao príncipe se concedia, em proporções
prisão em flagrante, submetendo-o à con· quase ilimitadas, o ius politiae, deu lugar ao
sideração do juiz competente. É o que deter- regime de legalidade, ao regime do estado
mina a Constituição. O salvo-conduto visa de direito, que se funda, substancialmente,
a evitar a prisão indiscriminada e arbitrária. no príncípio da reserva da lei, ou seja, de
Esse é o sentido das decisões da Primeira que ninguém é obrigado a fazer ou deixar
Turma, como se vê do voto que proferi no de fazer alguma coisa, a não ser em virtu-
RHC nQ 59.087, verbis: de de lei. Diante desse postulado, natural
"Se a paciente praticasse o trottoir de ma- e necessária é a redução do poder de polí-
neira descrita no parecer da Procuradoria- cia, notadamente quando, em seu nome, se
Geral da República seria, quiçá, lícita sua pretendam estabelecer restrições à liberda-
prisão, desde que seguida de lavratura do de individual, numa de suas mais altas ex-
respectivo auto de flagrante, porquanto ela pressões, que é a liberdade de ir e vir. Com
teria ofendido o pudor público (art. 233 do fundamento nessa regra de liberdade, enten-
CP) ou importunado outras pessoas, em do que, embora em princípio, a polícia
lugar público, de modo ofensivo ao pudor possa estabelecer certas restrições à prática
(art. 61 da Lei das Contravenções). do trottoir, não lhe é lícito, sem apontar o
O abuso de poder reside na prisão indis- título em que se funda, prender as ínfe-
criminada de todas as prostitutas que são lizes que a ele se entregam, sem que haja
encontradas nas ruas sem se verificarem flagrante delito, sem que se consubstancie
aquelas particularidades, trancafiando-as ordem escrita de autoridade competente,
nas cadeias públicas, sem que seja lavrado sem que se comunique imediatamente ao
auto de prisão em flagrante e, assim, com juiz competente a pnsao ou a detenção, a
manifesta infração da determinação impera- fim de que este a relaxe, se não for legal"
tiva do art. 153, § 12, da Constituição da (RTl 96/1.076).
República. Concordo com essa orientação, data venia
No RHC nl? 58_974, proveniente também da decisão da douta maioria da Segunda
de São Paulo, por mim relatado, em 29 de Turma, expressa no já citado RHC nQ
setembro próximo passado, nesta Primeira 58. 179-SP. Tive ocasião de acentuar nos
Turma, observei que no RHC nl? 58. 179-SP, RHC n. OS 56.956-1-SP e 57.031-SP, julga-
no qual se arrimou o acórdão ora recorrido, dos por esta Primeira Turma, que, em face
foi voto vencido o eminente Ministro Leitão da determinação constitucional, de que "nin-
de Abreu e que S. Ex. a depois de rememo- guém será preso senão em flagrante delito
rar os RHC n. OS 39.270 e 54.534, onde se ou por ordem escrita da autoridade compe-
decidiu, em casos idênticos à espécie sub tente", toda e qualquer prisão realizada fora
judice, que 'não é fato penalmente punível dessas duas hipóteses é ilegal.
o baure le trottoir, constituindo ilegalidade Ante o exposto, dou provimento ao re-
e abuso de poder a prisão de quem a ele se curso para restabelecer a sentença de pri-
entrega' (RTl 36/358 e 81/45), observou: meira instância, no sentido de que se for-
'Não recuso à autoridade policial a fa- neça salvo-conduto à impetrante, a fim de
culdade de subordinar o trottoir a condições que não seja presa senão nas hipóteses e na
de tempo e lugar, proibindo-o, assim, em forma prevista no art. 153, § 12, da Cons-
determinadas horas ou em determinados lu- tituição Federa!."
gares. É inútil rebuscar em tempos antigos Data venia, divergir dessa orientação, que
antecedências para o poder de polícia, pois tão-somente cumpriu a Constituição, impor-
é notório que a sua existência remonta a ta revogá-la naquilo que ela tem de mais

134
caro a toda criatura humana: liberdade de deiro Guerra, emitindo seu voto no pedido
ir e vir. de habeas-corpus preventivo em favor de
Ante o exposto, com a vênia do eminente Francinete Soares de Castro e Lenir Apa-
Ministro Cordeiro Guerra, dou provimento recida Teixeira da Silva, "a fim de evitar
ao recurso. venham a ser detidas por policiais quando
da prática do chamado irottoir nas vias pú-
CONFIRMAÇÃO DE VOTO blicas" da capital paulista (acórdão fls. 72),
proferiu substancioso voto, negando provi-
o Sr. Ministro Cordeiro Guerra: Sr. Pre- mento ao recurso, vale dizer, mantendo o
sidente, como fui o Relator, gostaria de v. acórdão recorrido que cassou "os salvo-
aduzir que, evidentemente, não contesto o condutos fornecidos às pacientes" (fls. 80).
direito de ir e vir da paciente. O que eu 2. Fundou-se o eminente Relator em
sustento é que não pode exercê-lo em de- precedentes deste egrégio Supremo Tribunal,
trimento da moral e dos bons costumes. sobretudo da colenda Segunda Turma, nos
Acho que a Constituição da República dá quais teve S. Ex. a mesmo oportunidade de
os parâmetros fundamentais para assegurar analisar o tema (v. g. RHC n9 58-179-SP
as normas de bem viver. E não vejo, no RTI 96/1.075, que cita).
poder de polícia, exercitado com modera- 3. Contrapôs-se-lhe o eminente Ministro
ção e equilíbrio, no interesse da moralida· Soares Muõoz, asseverando que "a Primei-
de e dos bons costumes, nenhum constran· ra Turma tem decidido casos semelhantes
gimento à liberdade dos cidadãos bra· ao que acaba de ser relatado... e tem che-
sileiros. gado a solução diferente".
E salientou que ao invés de "legalizar ou
EXTRATO DA ATA declarar a licitude ou a defensabilidade da
prostituição", a c. Primeira Turma "tem-se
RHC n9 59.518-SP - ReI.: Min. Cordei- adstrito apenas a uma das garantias consti-
ro Guerra. Rectes.: Francinete Soares de tucionais", aquela que, afirma o eminente
Castro e outra (Adv.: Dirceu Eugênio Pi- Ministro Soares Muõoz, "segundo me pare-
nheiro Grohmann) . Recdo.: Tribunal de ce, é dos mais preeminentes, porque garan-
Justiça do Estado de São Paulo. te a liberdade de ir e vir, salvo prisão em
Decisão: pediu vista o Ministro Oscar flagrante ou mediante ordem escrita da au-
Corrêa, após os votos do Ministro-Relator, toridade competente".
negando provimento, e do Ministro Soares 4. Estabelecida a controvérsia, e tendo-
Muiíoz, dando provimento ao Recurso. nos sido dada a honra, ao ingressar neste
Presidência do Senhor Ministro Xavier egrégio Supremo Tribunal Federal, de inte-
de Albuquerque. Presentes à sessão os Se· grar a Primeira Turma, julgamo-nos no
nhores Ministros Djaci Falcão, Cordeiro dever de emitir, mais fundamentadamente,
Guerra, Moreira Alves, Soares Muõoz, Dé· nossa posição, em homenagem mesmo àque-
cio Miranda, Rafael Mayer, Firmino Paz, les de quem discordaremos e que, por isso
Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar Cor- mesmo, nos merecem a explicitação de
rêa. Procurador-Geral da República, Prof. nossas razões.
Inocêncio Mártires Coelho. 5. Não pretendemos analisar senão os
Brasília, 6 de maio de 1982. Alberto Ve- aspectos mais estritamente ligados à discus.
ronese A guiar, Secretário. são como atualmente posta neste egrégio
Supremo Tribunal.
VOTO (VISTA) Seria, por certo, interessante remontar à
evolução da prostituição, tema ao qual, ain·
o Sr. Ministro Oscar Corrêa: 1. No re. da há pouco se dedicava Max Neuhaus,
curso de habeas-corpus nQ 59.518, de São Inspetor-Chefe da Brigada dos Costumes,
Paulo, o eminente Relator, Ministro Cor. em Genebra, na Suíça, em artigo na Revue

135
lnternationale de Criminologie et de Police L'amazone: elIe recherche ses clients à
Technique (v. 30, n9 3, juil./sept. 1977), bord d'une voiture.
partindo de cerca de 2.000 anos antes de La bucolique (ou zonarde): elle opere
Cristo, na Caldéia, com "a prostituição hos- dans les pares, les bois et les jardins publics.
pitaleira" (que reapareceu depois na Fran- La caravelIe: la vedette qui ne 'tapine'
ça da Idade Média e que ainda subsiste em pas, mais se laisse racoler. EIla fréquente
algumas populações) , passando pela "pros- les palaces, les bars américains, les aéro-
tituição sagrada" da Babilônia, até se tornar ports, les salIes de jeus. Ses instruments de
alfaire d' P:.tal e dividir as opiniões nas te0-travail préférés sont le manteau de vison et
rias da proibição, da regulamentação e do beaucoup de charme dans les battments de
absenteísmo, todas reconhecendo-se incapa- cils.
zes de dar solução ao mal, geralmente tido La roulante: mi-marcheuse, micaravelIe.
como necessário. ElIe recherche sa clientêle dans les cafés,
6. Lembra Max Neuhaus que, na Grécia, brasseries, grands comptoirs etc.
"os dictérions eram confiados a funcioná- L'échassiêre: passe son temps vissée sur
rios das Contribuições chamados Pornotro- un tabouret de bar. Elle reste généralement
pos" e comenta que os atenienses, segundo attachée au même établissement, pendant
Demóstenes, organizavam sua vida sexual un certain temps.
tendo: La perle: appelée aussi 'spécialiste', qui
"uma esposa, para cuidar da casa e ter os satisfait à prix d'or les pires dérêglements
filhos; de son partenaire."
E inúmeras outras categorias que não in.
amigas heteras (cortesãs) , para a satisfação
teressam ao exame da espécie, estranhas à
do espírito;
nossa análise.
pallaques (prostituídas em casas de tolerân-
8. Bastaria essa tentativa de caracteriza-
cia), para a satisfação dos sentidos;
ção para salientar as dificuldades de luta
tocadoras de flautas e dançarinas, para a
contra essa prática, tantas as formas e mo-
alegria do ouvido e da vista."
dos de que se reveste e das quais dá
7. Daí em diante, assinala, sucedem-se apenas pálida idéia.
os êxitos, ora proibicionistas, ora regula-
Isso mesmo salienta Neuhaus com relação
mentaristas, ora abolicionistas, variando o
à legislação suíça - à qual se refere e, par-
predomínio das correntes.
ticularmente, à de Genebra.
Passando de uma a outra, conforme a
A legislação sobre circulação pública, de
prevalência das normas mais restritivas ou
13.11.62 permite, no art. 33, letra d, à Po·
tolerantes, analisa as formas modernas do
Iícia intervir junto aos automobilistas que
debauche - do desregramento, da devassi-
efetuam, em um local, os "vai-e-vem", ou
dão, da corrupção - nomem juris, genérico,
"circuitos inúteis", na prática, quando mais
que assumem tais demonstrações da sexuali·
de três vezes passam na mesma rua, em
dade - , dividindo-se em duas categorias: a certo espaço de tempo.
das profissionais e a das não-profissionais.
E o regulamento sobre circulação pública
Entre aquelas caracteriza e nomeia as que, de 25.1.1963, art. 19, item 2, menciona que
parece-nos, se incluiriam no gênero froffoir. "toda pessoa que causa perturbação ou es-
como se diz entre nós ou racolage, na no- cândalo na via pública deve, por ordem da
menclatura jurídica francesa:
Polícia, circular imediatamente".
"La chandelIe: forme la plus connue 9. A legislação tem variado, contudo, e
dans les grandes viIIes. Racole les passants em Zurique, o Conselho Administrativo da
sur le trottoir à un endroit déterminé. cidade, em 17.2.1972, editou novo regula-
La marcheuse: délaissant le stationnement, mento proibindo a circulação em certos
elIe arpente les rues et les avenues. ElIe et locais e condições, com a intenção marcada
plus difficile à identifier. de prostituir-se; e detidas 48 prostitutas, in-

136
terpuseram recursos, pretendendo que se a perturbar a ordem pública e a moral s0-
lhes violava a liberdade individual (fls. cial" (art. 380, 4 9 ).
306), mas, em última instância, o Tribunal Exige a provocação, pública, ativa: por
Federal, em 13.6.1972, lhes rejeitou o pe- palavras, gestos ou sinais, não sendo punível
dido. a provocação puramente passiva. E deve
Não findou, porém, a controvérsia, e em visar à corrupção, ainda que não se exija
Genebra o Tribunal Federal deu-lhes razão, que o escândalo se tenha, efetivamente, pro-
e deliberação do Conselho de Estado de duzido (fls. 389).
Genebra que lhes proibia a atividade duo A pena é de prisão de 8 dias a 3 meses
rante o dia acabou não tendo plena vigên- e multa de 26 a 500 francos (Código Pe-
cia. nal, art. 380, 49, aI. La).
10. Na Bélgica, examinando em alguns 12. Na França, modernamente, a legisla-
doutores a análise que fazem da lei e da ção e a jurisprudência têm sofrido as mu-
jurisprudência, não é menos difícil a con· tações que os conceitos sociais relativos à
clusão, não só em vista das modalidades de matéria lhes têm imposto.
que se reveste a prática, ora caracterizada Pelo art. 39 da Lei de 20 de julho de
como contravenção, ora como crime, e, 1940, promulgada pelo Governo de Vichy,
ainda assim, sujeita às variações da aprecia- reprimia o racolage, que se tornava delito,
ção pelos Tribunais. às vezes muito grave, eis que punido com
Explica-o, aliás, estudo sobre lmage et prisão de seis meses a cinco anos e multa
Statu de la PTOstituée, sob os auspícios do de 20 mil a 200 mil francos (Code Pénal
Ministério da Justiça e com o concurso de Annoté, par Emile Garçon. Nouvelle ed.
Fondation Universitárie de Belgique (Revue refondue et misé à jour par Marcel Rous-
de DTOit et de Criminologie, p. 853 e seg., selet, Mauríce Patin e Marc Angel. Tome
529 année, 1971-1972, n9 8, mai 1972). bus- deuxiéme, p. 228, n 9 40). Sirey, 1956.
cando um "ensaio de integração da prosti. Para ser punível, ensinam os anotadores,
tuição no sistema social global", e do qual "deve exercer-se publicamente por gestos,
se vê, entre outras afirmações seguras a que palavras, escritos ou quaisquer outros meios
se refere "à tolerância crescente que cerca que o Tribunal, conforme o caso, deve pre-
a sexualidade: o papel sexual do homem e cisar na sentença de condenação. ~ incrimi-
o da mulher não constituem mais mistérios nado pela lei, qualquer que seja o sexo das
que a educação familiar ou escolar se re. pessoas às quais se dirige". E, salientam os
cusam a esclarecer. ~ impossível, diz o es- anotadores, não é inútil sublinhar que o de·
tudo, abrir Mademoiselle Age Tendre ou lito, punido com penas tão severas, é defi-
qualquer outra revista para adolescentes nido em termos tão amplos que, interpre-
sem descobrir algum artigo sobre a virgin- tados literalmente poderiam gerar graves
dade, a prenhez ou a frigidez" (p. 861). erros" (p. 228).
E as próprias estruturas políticas do país Daí o av~o que endereçam qnanto à
firmam a atitude em face da prostituição, aplicação da lei:
como, por exemplo, na Rússia, onde, em "O bom senso aconselha aos juízes não
nome de uma nova ordem social foi proi· a aplicar sempre, senão com discernimen-
bida (fls_ 863/864). to, com o que ela deixa à justiça, como à
11. MareeI Rigaux et Paul Em. Trous- polícia, um poder arbitrário. Daí crermos
se, em seu Les Crimes et les délits du que ela necessita de sérias correções."
Code Pénal, Brucelles/Paris, 1968 (tome 5, 13. Posteriormente, a lei de 13 de abril
p. 387), ao cuidar da provocação pública de 1946, sem definir o racolage visando à
à corrupção (debauche), afirmam que re- prostituição, tem disposição especialmente
prime "a manifestação exterior e pública consagrada à repressão do racolage, referin-
da corrupção: o apelo impudico constitui, do-se ao texto do art. 334, alínea 1. a; mas
em si mesmo, fonte de escândalo, de molde enquanto o art. 39 da Lei de 13 de abril

137
de 1946 só pune o raco/age publicamente, 26 - 80), consistindo em "simples atitude
o art. 334 r;ão contém a mesma restrição. sobre a via pública, de modo a provocar a
O Nouveau répertoire de droit (Deuxié- corrupção".
me édition. DaIloz, 1964. Tome troisiéme), O Decreto de 25 de novembro de 1960
ao cuidar do racolage, salienta as dificulda· agravou, de novo, as penas, passando o raco-
des em caracterizar o ativo (punível com lage propriamente dito a contravenção de
prisão de 10 dias a um mês e mu1ta de 400 5. a classe (art. 40-119) e a atitude provo·
a 1.000 francos ou uma só dessas penas) cativa à 3. a classe (art. 34-13 9 ) (p. 713).
com o passivo, punível com multa de 40 a Por esses dispositivos, a contravenção de
60 francos, cabendo ao juiz precisar a na- 5. a classe é passível de prisão de 10 dias a
tureza da atitude incriminada. 1 mês e multa de 400 a 1.000 francos, ou
Idem o Dictionnaire de droit (Deuxiéme uma das penas somente, em dobro, em caso
édition, mise à jour au ler janvier 1966, de reincidência (p. 714).
DaIloz, 1966. tome 2), que examina tam· 16. A jurisprudência sobre o racolage
bém as hipóteses do raco/age ativo e pas- começou depois da lei de 1946, ora repres-
sivo. siva, ora liberal: aquela, diz Lambert (p.
14. E Louis Lambert, no seu Traité de 715) "fazendo do texto interpretação senão
droit pénal spécial (Étude théorique et pra- extensiva, pelo menos tão ampla quanto pos-
tique des incriminations fondamentales. Edi- sÍvel, e punindo tanto o racolage passivo
tions Police, Revue, Paris 1968) historia a da prostituta simplesmente postada sobre
evolução da incriminação do raco/age des- uma calçada (trottoir) ou assentada num
de a origem (de 1810 até 1939), quando bar em atitude de solicitação permanente";
não era senão pequena contravenção de e "a liberal, praticando a c1ásisca interpreta-
primeira classe, resultante da desobediência
ção estrita, não condenando senão pelo ra-
a um regulamento de polícia municipal,
co/age ativo e direto, por um convite pre-
ignorada pelo Código Penal, não prevista
ciso à corrupção, e não pelo fato de se ex·
em nenhuma lei especial, até a introdução
por a um convite eventual" (p. 715).
pelo Decreto-lei de 29 de dezembro de
1939 (art. 13 e 14), transformando-se em 17. Certo é que não se havia, até então,
contravenção nacional, de 3. 3 classe, punida pacificado a jurisprudência francesa, nos
com multa de 11 a 15 francos; até o surgi· vários Tribunais (Sena, Paris, Aix etc.),
mento da "grande lei de 13 de abril de 1946, demonstrando a dificuldade de identificar e
transformando-o em delito e delito grave - tipificar as duas hipóteses ativa e passiva
quase igual ao furto e à fraude - e punin· do racolage. Menos ainda, aquele "remédio
do com 6 meses a 5 anos de prisão e multa verdadeiro" a que se refere Lambert: "a
de 10 mil a 100 mil francos quem, por interdição da prostituição, a partir da qual,
gestos, palavras escritas, ou por outros toda pessoa jovem, estacionando ou andan-
meios, proceda publicamente, ou tente pro- do, ou o que seja, não poderá ser razoa-
ceder publicamente ao raco/age (aliciamen- velmente tomada por uma prostituta" (fls.
to) de pessoas de um ou de outro sexo, 723).
visando a provocar a corrupção (debauche). 18. Desta brevíssima notícia sobre as
15. Com isso, o agravamento excessivo dificuldades de solução do problema em
da pena levou à convicção de que era um países modelos, como a Bélgica, a Suíça e
erro transformá-Ia em contravenção em de· a França, e sem nos determos em outras
lito. E decreto de 23 de dezembro de 1958, indagações, confirmam-se os percalços de
modificando diversas disposições penais, que se lhe reveste o equacionamento, em
reincriminou o raco/age em duas contraven- face, sobretudo:
ções diferentes: uma, de 4. 3 classe, art. 38 da estrutura social - no mais amplo sentido
- 109 , no raco/age realizado por gestos, - do país (econômica, religiosa, política);
pabvras etc., e outra, de La classe (art. da atual e desmedida liberação dos costumes,

138
que conduziu à desmesurada liberdade ção, em contrário aos da segunda corrente,
sexual; que denominaríamos abstencionistas.
da impossibilidade de prever todas as for- Fazêmo-lo por motivos de ordem moral
mas de atuação que nela se configuram_ e legal.
Demandaria isto, mais do que simples Moral - porque cremos de nosso dever
análise jurídica, estudo social, que tem in- criar empecilho a que, pela concessão do
teressado a especialistas, mas não tem con- salvo-conduto, se facilite a prática que -
duzido a soluções aplicáveis como norma todos estamos de acordo - não condíz com
legal. as conveniências da sã moral e dos bons
costumes. E o salvo-conduto seria o bill de
19. A nós nos parece que incumbe ao
indenidade com o que se disporiam à prá-
judiciário o árduo papel de opor diques à
tica, a todo ímpeto, já que seria difícil aos
ampliação dessas atividades, em benefício da
incumbidos de velar pela defesa dos bons
contenção da onda dissolutória dos costu-
costumes, sem risco de incorrer em desobe-
mes, que avassala a sociedade.
diência a autorização judicial, opor-se-lhes
Como aos gramáticos - que devem opor- à atuação, tornando difícil, senão impossí.
se aos abusos e desvios da linguagem para vel, a própria repressão aos abusos mais
que não se torne o vernáculo em caçanje, graves.
com a invasão maciça da gíria e de todas
A defesa do direito deve começar na as-
as formas de deturpação que a atacam -
seguração do respeito às normas morais,
também aos juízes incumbe criar obstáculos
primeira trincheira do círculo concêntrico
a que a dissolução dos costumes se amplie e
mais amplo da distinção clássica, primeira
domine a vida social, gerando o desregra-
barreira que se deve defender. E esse di·
mento e a devassidão - a corrupção moral
reito deve garantir o mínimo da morali-
- que não são o fermento próprio ao pro-
dade pública, contra o qual atenta, às
gresso da vida social.
escâncaras, prática do lroltoir, em todas as
E tendo de julgar há que ponderar todos suas formas e modos, impossíveis de serem
esses dados, essenciais às razões de decidir. tipificados mesmo pelo mais competente e
20. Compreende-se, assim, que neste percuciente analista do tema, de tantos ma-
egrégio Supremo Tribunal Federal, duas cor· tizes se colore e de tantas burlas se veste.
rentes, nítidas, se tenham formado: a que Juridicamente - porque, a nosso ver, o
considera o trottoir - tal como se pratica, trottoir é, evidentemente, delito punível pela
sobretudo em São Paulo - de onde têm lei penal. Porque como se assinala sempre
vindo os pedidOS - atentado à moral, ao - mesmo nos votos dos que concedem o
pudor e aos bons costumes - e, como tal, salvo-conduto para a liberdade de ir e vir
proibíve1 e punível; ainda que, obviamente, - não é ele "o fato atípico" - como há
não admitindo, em absoluto, que, na sua cerca de nove anos, em pronunciamento
repressão, abusos se cometam sob colar de neste egrégio Supremo Tribunal Federal, di·
impedi-lo; e os que, não enxergando nele zia o caro, saudoso e eminente Ministro
desvio punível, preferem assegurar a liber- Aliomar Baleeiro: "sem importunação, sem
dade essencial e primária de ir e vir, ga- ultraje público ao pudor" (RTI 68/59). O
rantida pelo texto constitucional, autorízan- que lhe dá a tipicidade delituosa é precisa-
do o pedido de salvo-conduto às pacientes mente a importunação pública, a agressão
que o têm requerido_ insólita à moral comum, o ultraje público
21. Pedimos vênia aos que sustentam - e violento ao pudor, por todas as formas
com bons argumentos - a tese contrária, de que se vale a astúcia, a malícia, ou o
para nos filiarmos à primeira corrente, que desregramento, para aliciar visando à prá-
denominaríamos proibicionistas, que consi· tica sexual.
dera de seu dever jurídico, em face da Essa importunação em lugar público, ou
realidade e da lei, opor-lhe óbices à atua· acessível ao público, de modo ofensivo ao

139
pudor - e que o é se não nega - é con· tado deve combinar a repressão aos abusos
travenção punível (art. 61 da LCP). E se contra o pudor, o seu ultraje público, com
objetiva à prostituição e à prática sexual, as medidas sociais (morais, econômicas e
atinge os limites dos crimes contra os cos- psicológicas) de combate à prostituição, por
tumes, podendo configurar algum dos tipi. mais que, até aqui, e imemorialmente, se
ficados no título VI e, sobretudo, capítulos tenham mostrado ineficazes.
V e VI do Código Penal - delitos puní· 24. Os abusos que, no combate ao trot-
veis com penas de reclusão ou detenção e, toir se tem cometido, não nos merecem ac0-
portanto, autorizadores das medidas policiais lhida, nem os escusamos. Nem foram, ja-
restritivas de liberdade. mais, aceitos por esse egrégio Supremo Tri-
O induzimento à satisfação da lascívia bunal. Apenas, compreendem·se as dificul·
de outrem, o induzimento à prostituição, dades que encontram os agentes da lei para
não têm hoje o ~imples significado passivo, coibir os abusos que se cometem, e que
mas também o ativo do convite à participa. usam de todos os disfarces e burlas, simu·
ção; o ultraje público ao pudor, pela prá· lações e farsas, malícia e solércia; para lhe
tica de ato obsceno em lugar público, aber· fugirem às malhas.
to ou exposto ao público, tipifica o trottoi! Não se nega à meretriz "o direito de li·
e o penaliza como crime punível. vre locomoção pelas vias públicas, desde
22. Ora, não é essa a liberdade de ir que não cause escândalo ou que sua con·
c vir constüucionalmente assegurada, e que duta não importe em infração penal" (RTJ
se integra, necessariamente, nos direitos do 24/215). Nem isto, acentue-se, é o troftoir,
cidadão. Pelo contrário: essa falsa, solerte e nem cremos, em sã consciência, que o obs·
desregrada liberdade de ir e vir, levada ao te a polícia; nem que qualquer autoridade
abuso pela forma como se dá, constitui, judicial o desampare.
em verdade, atentado e ofensa à liberdade O que tipifica o trortoir e o torna fato
de ir e vir dos demais cidadãos, submeten· punível é a importunação, e, sobretudo, o
do-os aos vexames, importunações e ultra· ultraje público ao pudor, que se caracteri·
jes que é dever do Estado coibir e punir. .la por formas as mais imprevisíveis e cria·
Assegurar uma pretensa liberdade de ai· tivas, de que damos breve notícia e que,
guém submetendo-se a toda sorte de agres· obviamente, assumem todas as cores e in-
sõe, morais, a incontável maioria dos que tensidades em que é fértil a imaginação fe·
pleiteiam a liberdade real de ir e vir, é suo minina, desde a primeira mulher.
bordinar o bem maior, comum, de quase 25. Acórdão da lavra do eminente e sau·
todos, às conveniências inconvenientes de doso Ministro Rodrigues Alckmin, no RHC
poucos. nQ 54 534-SP - (RTJ 81/47), citando pa-
E não o pode amparar a lei, nem o di· recer do então ilustre Procurador-Geral da
reito. República, Prof. Henrique Fonseca de Araú·
23. Nem se diga que isso é fruto da li· jo, acentuava:
berdade sexual da época. Sempre houve e "A localização do meretrício, a proibição
haverá, triste fatalidade do convívio, mas do Irottoir em determinadas zonas e locais
a que se deve opor resistência, para que se da cidade, ou em determinados bairros,
não torne o desregramento geral. bem como do racolage ou aliciamento de
A liberalização sexual pode e deve ter clientela, mediante palavras e gestos, são
atiçado a prática do troltoir, visto como, medidas que se compreendem no âmbito do
ampliando as formas menos públicas e poder de polícia, na sua modalidade de p0-
agressivas de satisfação sexual, dificultou a lícia de costumes."
asseguração da subsistência das desafortu· E invoca o ensinamento do insigne Prof.
nadas que dele vivem. Cretella Júnior, verbis:
Não há, porém, como facilitá-lo para "Os poderes públicos dos diversos países,
prover-lhes à subsistência. A ação do Es- embora reconhecendo que a prostituição, em

140
si, não ccnstitui delito, já que não se acha ro alvará para a prática ostensiva da pros-
capitulada em códigos penais, nem por isso tituição", como diz bem o Prof. Francisco
deixam de proibir o roco/age, ou seja, a pro- de Assis Toledo no seu parecer no RHC
vocação e aliciamento de transeuntes por nQ 58.938. Isto, contudo, não impedirá qUf.:,
palavras e gestos. verificado o abuso, no caso concreto - co-
O poder de polícia pode limitar a libero mo têm salientado todos os Exmos. Senho-
dade de ir e vir das prostitutas, impedindo- res Ministr03 que têm negado o pedido -
lhes, por exemplo, que transitem perto de não atue o juiz para pôr cobro imediato
escolas em determinadas horas" (Liberda- ao abuso da autoridade (v.g. Ministro Dja-
des púbUcas, p. 74). ci Falcão. RTI 96/1.076).
E diz ainda o parecer do ilustre Doutor 27. E quando a ameaça de prisão é no-
Procurador-Geral: toriamente injusta, o Tribunal a tem repeli-
"Não é possível, assim, conceder-se salvo- do (RHC nQ 56.956-SP - Relator: Mi-
conduto às impetrantes para se lhes assegu· nistro Xavier de Albuquerque, DI de 18.6.
rar o exercício do trotroir, pois se manti· 1979).
do dentro de certos limites e conveniências O eminente Ministro Leitão de Abreu,
é legítima, simples manifestação da liber- em repetidos votos, ao conceder o salvo-
dade de ir e vir, torna-se abusivo, atenta- conduto, em verdade, pronunciou-se no sen-
tório à moral, aos bons costumes e à pró- tido de "impedir que a paciente continue a
pria ordem pública ... ser presa ou detida, como repetidamente
A concessão do salvo-conduto tornaria vem acontecendo, sem que se formalize
impossível o exercício da função policial, contra ela a imputação de qualquer delito,
obrigando aos agentes da autoridade a cru- sem que se aponte, assim, o dispositivo pe-
zarem os braços diante de atos atentatórios nal que teria violado".
à moral e ao sossego público, o que é inad- E, "o mais grave - afirma S. Exa. - é
missível. que a polícia, afirmando apenas que a pa-
Para concluir: ciente não se encontra presa, procura es-
Comprovado que seja, porém, o abuso quivar-se até - uma vez que as prisões
da autoridade, prevê a lei os meios adequa- ou detenções, segundo declara o magistrado
dos à sua punição. O que não se pode, po- de primeiro grau, com base na prova, efe-
rém, é vedar o exercício do poder de polí- tivamente se realizaram - da responsabili-
cia pela simples possibilidade de seu uso dade pelos atos que vem praticando" (RHC
abusivo" (RTI 81/48). nQ 58 938-SP citado).
26. Mesmo os que se incluem entre os 28. Óbvio que, posta de questão como
abstencionistas ou não proibicionistas não a pôs Sua Exa.,
recusam ao troltoir escandaloso, malicioso, "se a autoridade policial pode, a seu
aliciador, o caráter de infringir norma pe- alvedrio, prender e deter qualquer pessoa,
nal. trate-se ou não de prostituta ou prostituto,
E a verdade é que o uso da liberdade de com violação do § 12 do art. 153 da Cons-
ir e vir, normalmente exercido por quem tituição",
quer que seja, não é trottoir, nem abuso pu· a resposta só poderia ser negativa.
nível. Mas não há quem, em sã consciên- Mas se se verifica abuso punível, pelo
cia, e à primeira vista, não distinga o uso constrangimento injusto e imoral aos outros
normal do abuso malicioso. cidadãos - protegidos pelo mesmo man-
Salientou, em lúcido voto no RHC nQ damento constitucional, é claro que se não
58.179-SP (RTI 96/1074) o eminente Mi- pode considerar como ofendido senão o di-
nistro Décio Miranda que "o habeas-corpUJ reito destes. E a concessão do salvo-condu-
preventivo seria como que uma carteira to levaria, obviamente, a essa conseqüência.
profissional, em lugar da que o Ministério Daí a conclusão dos V. acórdãos nos
do Trabalho não outorga". Seria "verdadei- RHC n. OS 59.104 e 59.417 de que "não há

141
direito constitucionalmente assegurado à Presidência do Sr. Ministro Xavier de
prática do trotoir, a qual é contrária aos Albuquerque. Presentes à sessão os Srs. Mi·
bons costumes, ofensivo da moralidade pú- nistros Djaci Falcão, Cordeiro Guerra, Mo-
blica e fonte de constrangimento para tran- reira Alves, Soares Muiíoz, Décio Miranda,
seuntes e residentes." Rafael Mayer, Firmino Paz, Néri da Silvei-
29. Na hipótese, o v. acórdão recorri· ra, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Pro-
do, já transcrito no Relatório, bem resume curador-GeraI da República, Prof. Inocên·
a atitude agressiva que assumem as mulhe- cio Mártires Coelho.
res que se entregam ao trotroir e que le- Brasília, 9 de julho de 1982. Alberto Ve-
vou a co!enda Terceira Câmara Criminal ronese Aguiar, Secretário.
do Tribunal de Justiça de São Paulo a caso
sar os salvo-condutos fornecidos às pacien- VOTO (VISTA)
tes (fls. 72/80).
Data venia dos eminentes ministros que O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: 1. Pedi
julgam em contrário, acompanho o ExmQ vista dos autos, porque, num assunto de ta-
manha transcendência sobre o qual já se
Ministro Relator, Cordeiro Guerra, e nego
manifestaram os eminentes ministros desta
provimento ao recurso.
Corte, me corria a obrigação de um pro·
É o voto.
nunciamento claro e inequívoco, por ser o
único juiz que ainda não havia emitido o
CONFIRMAÇÃO DE VOTO seu voto na Turma ou no Plenário. O te-
ma é bem conhecido e os votos dos emi-
o Sr. Ministro Soares Munoz: Sr. Presi· nentes ministros estão amplamente divulga-
dente, não nego, e os acórdãos deferitórios dos. Não intento, por isso, proferir um voto
de habeas-corpus jamais negaram, à Polícia longo, discorrendo sobre pontos já assaz
o poder de prender prostitutas que praticam dilucidados nos brilhantes debates da Tur-
o trottoir, uma vez que ele tipifique crime ma ou do Plenário. Desejo apenas ventilar
ou contravenção. Nego à Polícia, que pren- algumas questões, que me parecem úteis à
de e continua prendendo tais mulheres, o discussão da causa.
poder de fazê-lo sem lavrar o respectivo 2. Começo por precisar que o impetran.
auto de prisão em flagrante delito, comuni- te requereu habeas-corpus em favor de
cando-a imediatamente ao juiz competente, Francinete Soares de Castro e Lenir Apa·
que a relaxará, se não for legal (art. 153, recida Teixeira da Silva, a fim de lhes as-
§ 12, da CF).
segurar, mediante salvo-conduto, a prática
Esse é o ponto de vista expresso no voto da prostituição. "As pacientes", escreve o
proferido neste caso e em todos os anterio- impetrante, "desde jovens, por uma infeli·
res, que, data venia, mantenho. cidade e pelas próprias condições sociais
das quais são originárias, passaram a viver
EXTRATO DA ATA da prostituição, tirando daí proventos para
se manterem" (fls. 2). Diz depois que, no
RHC nQ 59.518 - SP - ReI.: Min. exercício dessa atividade, freqüentam boa·
Cordeiro Guerra. Rectes.: Francinete Soa· tes, mas ao chegarem às referidas casas de
res de Castro e outra (Adv.: Dirceu Eugê- divertimento ou delas saírem, ora em com-
nio Pinheiro Grohmann). Recdo.: Tribunal panhia de alguma pessoa, ora sozinhas, são
de Justiça do Estado de São Paulo. constantemente detidas por agentes da au-
Decisão: pediu vista o Ministro Alfredo toridade coatora (fls. 3). E conclui, pedin·
Buzaid, após os votos dos Ministros Rela· do uma ordem de habeas-corpus preventivo,
tor e Oscar Corrêa, negando provimento, e para que as pacientes não sejam detidas a
do voto do Ministro Soares Munoz, dando não ser nos casos previstos em lei, expedin·
provimento ao recurso. do-se-lhes o competente salvo-conduto.

142
3. Cumpre examinar, primeiro que tudo, do bem comum. Não me parece, pois, que
se o habeas-corpus é o meio legal para pro- se deva conceder salvo-conduto ao meretrí-
teger a situação descrita pelo impetrante. cio, sabendo-se que ele, como profíssão, é
Peço vênia ao colendo Tribunal para insis- um grave mal, que atenta contra os bons
tir neste ponto, porque foi ele precisado e costumes. O habeas-corpus não pode servir
enfatizado na petição de impetração do ha- para proteger essa atividade anti-social, jus-
beas-corpus, que não aludiu à liberdade de tamente porque não é um bem jurídico.
locomoção, mas sim ao exercício da pro- 6. Venho de um Estado onde o mere-
fissão que adotaram, cuja renda constitui trício assume a forma mais agressiva de
a fonte de sua manutenção. Ora, o habeas- provocação social: o troftoir. Nos bairros
corpus é um remédio, de índole constitu- mais elegantes e familiares da cidade de
cional, destinado a proteger a liberdade no São Paulo e nas avenidas de maior tráfego
exercício de um direito. Ora, qual o bem desfilam as hetairas, vestidas com roupas
jurídico que o recorrente vindica mediante extravagantes que facilmente as identificam,
habeas-corpus? A resposta a esta indagação, embargando a passagem de homens e re-
ele próprio a deu desenganadamente. ~ a questando-os para a prática sexual. As ma-
tutela do exercício de uma atitude que, em· pifestações exteriores dessas messalinas bem
bora não qualificada legalmente como deli- caracterizam o seu procedimento, que é in·
to ou contravenção, ofende, contudo, os decoroso; e elas timbram de rigor em mos-
bons costumes. trar-se como efetivamente são num espe-
4. A idéia de bons costumes não é ape- táculo doloroso de decadência humana, ven-
nas ética; é eminentemente jurídica. Alguns dendo o seu amor a qualquer um que acei-
exemplos, colhidos no direito positivo na- te o seu convite.
cional, são bem elucidativos. Ela aparece no Concorrem com elas os homossexuais,
art. 17 da Lei de Introdução, cujo enuncia- que se apresentam com seios artificiais,
do é o seguinte: usando vestidos e levando jóias, para deno·
"As leis, atos e sentença de outro país, tarem que são mulheres. Este quadro, tão
bem como qualquer declaração de vontade, vilipendioso como o trottoir, passa na fren-
não terão eficácia no Brasil, quando ofen- te das casas de família, de homens dignos,
derem a soberania nacional, a ordem públi. de senhoras respeitáveis e de meninas ino-
ca e os bons costumes." centes, constituindo um agravo ao seu pu-
O Código Civil preceitua, no art. 395, dor e ao direito ao seu sossego.
que perderá, por ato judicial, o pátrio po- 7. Tenha-se, finalmente, em conta o que
der o pai ou a mãe: dispõe a Constituição da República no art.
"lU - que praticar atos contrários à mo- 153, § 8Q, que, depois de garantir o direito
raI e aos bons costumes." à liberdade nas manifestações de pensa-
5. O meretrício não é, em direito bra- mento, de convicção política ou filosófica,
sileiro, um crime ou uma contravenção. de informação independentemente de cen-
Mas é um mal social, "mal deplorável", diz sura, salvo quanto a diversões e espetáculos
o saudoso e eminente Minístro Nélson Hun- públicos, preceitua:
gria (O problema da prostituição, em Re- "Não serão, porém, toleradas a propagan-
vista Forense, v. 169, p. 466), ou como da de guerra, de subversão da ordem ou
sublinha Jimenez de Asúa "uma imoralida· de preconceitos de religião, de raça ou de
de que tem seu paralelo na vida dissoluta classe, e as publicações e exteriorizações
do varão e que, como o alcoolismo, o jogo contrárias à moral e aos bons costumes."
e a vagabundagem, constitui estado perigo. Que o Iroltoir representa uma exterioriza·
so" (El Criminalista, v. 1. p. 80). Os bons ção contrária à moral e aos bons costumes,
costumes representam, ao contrário, patri- não há dúvida. Tratando-se de um ato anti-
mônio jurídico de um povo, base de sua jurídico, condenado pela Constituição, não
estabilidade social, componente necessário posso conceder salvo-conduto para a prática

143
do trotroir, porque as prostitutas não são ti· Presidência do Senhor Ministro Xavier de
tulares de um direito protegido por lei. Albuquerque. Presentes à sessão os Senhores
8. Até aqui ficou demonstrado um as- Ministros Djaci Falcão, Cordeiro Guerra,
pecto do problema, ou seja, que as meretri- Moreira Alves, Soares Mufioz, Décio Miran·
zes carecem de direito ao exercício do da, Rafael Mayer, Firmino Paz, Néri da
trotroir. Vejamos agora se a polícia, retiran. Silveira, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa.
do-as da via pública, comete coação ou vio- Procurador-Geral da República, Prof. Ino-
lência. Que é que Se chama coação? Que é cêncio Mártires Coelho.
que se denomina violência? interroga Rui
Barbosa. E logo responde: VOTO (VISTA)
"Coação, definirei eu, é a pressão em·
pregada em condições de eficácia contra a o Sr. Ministro Rafael Mayer: A sentença
liberdade no exercício de um direito, qual. de primeiro grau, concessiva de habeas·
quer que seja" (Barbosa, Rui. Comentários corpus preventivo em favor das duas recor·
à Constituição Federal brasileira. Saraiva, rentes, tem a seguinte fundamentação:
1934. v. 5, p. 505). "As testemunhas de fls. 49/51 oferecem
Na exegese de Rui Barbosa, há nessa re- notícias concretas a respeito das arbitrarie·
lação jurídica dois pó:os: a) a parte credi· dades policiais e demonstram o justo re·
loris, um direito cujo exercício é embarga· ceio de virem as pacientes a ser tolhidas em
do por ilegalidade ou abuso de poder; b) a sua liberdade de ir e vir, por agentes das
parte debitoris, a coação à liberdade ao exer· autoridades policiais.
cício desse direito. Ora, como ficou demons- É certo que o regular exercício do po.
trado, não têm as prostitutas um direito tu- der de Polícia consiste, também, no zelo da
telado por lei. Ao contrário, exercem uma moralidade pública.
atividade contrária à moral e aos bons coso Paira induvidoso que as pacientes são bar.
tumes, atividade reprovável, atividade incô. regãs (fls. 49/51), como de resto o admite
moda, atividade incompatível com o direito a inicial. Mas merecem respeito, posto que a
de as famílias gozarem de tranqüilidade na prostituição é fenômeno sociológico, que se
frente de suas residências. A liberdade das tornou problema horroroso, que nenhum
prostitutas termina onde começa a liberdade país conseguiu resolver.
de as famílias não serem molestadas pela Uma decaída não é, por si só, uma cri·
sua provocação. minosa, uma afronta. É, sobretudo, uma in·
Por todo o exposto e pedindo vênia aos feliz que deve ser amparada e socorrida, com
eminentes ministros que votam em sentido compreensão. Todavia, se a marafona se
contrário, acompanho o eminente Ministro transforma em instrumento de crime, tor.
Cordeiro Guerra e nego provimento ao re· na-se caso de polícia.
curso. Não é, ao que se tem, o caso.
Às ruas podem ter acesso as bagaxas,
EXTRATO DA ATA mesmo reconhecidas pela polícia de costu·
mes, sem prejuízo dos padrões morais que
RHC nQ 59.518·SP - ReI.: Min. Cordei. devem ser vigiadOS com zelo, para que se
ro Guerra. Rectes. : Francinete Soares de evite a transformação das vias públicas em
Castro e outra (Adv.: Dirceu Eugênio Pi- acampamento de marginais.
nheiro Grohmann) . Recdo. : Tribunal de Mas é ingênua a credibilidade de que as
Justiça do Estado de São Paulo. cidades podem ser filtradas pela ética, pela
Decisão: pediu vista o Ministro Rafael educação e pelo bom gosto, embora exista
Mayer, após os vo~os dos Ministros Rela· gente disposta a drená-la, dando·lhes aspecto
tor, Oscar Corrêa e Alfredo Buzaid, negan· limpo.
do provimento, e do voto do Ministro Soa· Ora, não sendo criminosa nem proibida
res Mufioz, dando provimento ao recurso. a prostituição, não podem as autoridades

144
públicas, sob esquivos motivos, obstar-lhe a Recurso provido, habeas-corpus concedido"
prática e, a tal pretexto, atingir a liberdade (RTI 24/213).
pessoal de ir e vir, de cunho constitucio- Nessa linha, a egrégia Primeira Turma,
nal_ em sessão de 14.2.1966, em acórdão unâni·
Reconheça-se que cumpre à Polícia fisca- me de que foi relator o eminente Ministro
lizar o comportamento das pacientes que, ao Oswaldo Trigueiro (RHC nl? 42.952 - RTI
que parece, exercitam o troftoir e praticam 36/358), concedeu, em situação análoga,
a prostituição, agindo na eventualidade da habeas-corpus preventivo, asserindo o douto
ocorrência de escândalo ou ofensa ao pudor voto:
público, o possível perigo de contágio ve- "O Estado tem outros meios para coibir
néreo. ou restringir a prostituição; não precisa ape·
Vale, enfim, lembrar o que restou decidi- lar para a violação dos direitos fundamen·
do do venerando acórdão prolatado pelo tais, assegurados na Carta Magna, explícita
Desembargador Acácio Rebouças, no habeas- ou imp!icitamente. Embora competente a
corpU3 nl? 151.541 : '0 bem-estar geral é autoridade e lícito o fim visado, exorbitou-
aquele que a lei define e para cuja prote- se quanto aos meios empregados."
ção estabelece formas de ação. Esses os precedentes a que se reporta o
A autoridade que não respeita as formas acórdão no RHC nl? 58.974, da Primeira
cria um mal-estar geral muito maior, porque Turma, relatado pelo eminente Ministro
se transforma numa ameaça permanente à Soares Munoz, a que compareci com a mio
liberdade, à paz e ao sossego público. Entre nha adesão (R TI 100/581), nesse como em
a hipotética (porque não comprovar) afron- outros precedentes.
ta ao decoro público e uma concreta (por- Nos termos em que posta a decisão con-
que confessada) afronta à liberdade indivi- cessiva de primeiro grau, não está a merecer
duaI de locomoção, a proteção judiciária a censura que lhe faz o venerável acórdão
deve manifestar-se, decidida e sem vacila- recorrido. Na verdade, a controvérsia se
ções, pela liberdade individual, que é o coloca na conceituação do que seja o tr01toi,
bem jurídico de maior expressão, pelo qual fazendo dessa premissa o ponto de partida
a humanidade sustenta luta secular, talvez para o silogismo jurídico.
vã, mas inteiramente válida.' Mas aí está a falha. Com efeito, o acór·
Decido. dão recorrido tem como pressuposto que o
Ante o exposto, acolho a inicial e deter- trottoir já de si envolve ilícito suscetível de
mino a expedição, em favor dt. Francinete repressão, e nisso incorre uma valoração
Soares de Castro e de Lenir Teixeira da subjetiva, quando a verdade pediria um juízo
Silva, de salvo-conduto, com a ressalva de de realidade. O trottoir nem é uma figura
se resguardar a atuação dos agentes poli- penal, nem mesmo um conceito jurídico e
ciais, que poderão agir livremente contra ainda como simples conceito não tem uni.
elas, dentro dos limites permitidos pela le- vocidade.
gislação processual penal, desde que ocorra Essa relatividade conceitual é suposta
vuIneração de qualquer dispositivo legal, mesmo em julgados da Corte, denegatórios
permissivo de prisão." da ordem por falta de prova do constrangi·
O equacionamento jurídico aí constante mento, como em acórdão relatado por Alio-
se acomoda ao precedente mais antigo desta mar Baleeiro, onde se diz que "em princípio,
Corte, firmado pelo Pleno, em sessão de o meretrício e o trottoir não são puníveis,
1.8.1962, por unanimidade, sendo Relator o se não há importunação nem ultraje público
Ministro Pedro Chaves, dizendo a ementa: ao pudor" (RTI 68/58); ou em acórdão re-
"Constrangimento à liberdade de locomo- latado pelo Ministro Rodrigues Alckmin,
ção: não é fato penalmente punível o battre que a ele se refere distinguindo entre o que
le trortoir, constituindo ilegalidade de abuso é abusivo, atentatório à moral e aos bons
de poder a prisão de quem a ele se entrega. costumes e à própria ordem pública, e o

145
que "mantido dentro de certos limites e con- Mayer, também reiterando pronunciamen·
veniências é legítimo, simples manifestação tos anteriores, na Turma de que faz parte.
da liberdade de ir e vir" (RTl 85/47). Nego provimento ao recurso.
Entretanto, mesmo indiferentes, em si
mesmas, à esfera jurídico-penal, a prostitui- EXTRATO DA ATA
ção e o trottoir, confinando, senão invadin-
do, a área da moralidade pública, sob a ne- RHC nQ 59.518-SP - ReI.: Min. Cordei-
cessária proteção do Estado, não só legiti- ro Guerra. Rectes.: Francinete Soares de
ma, como reclama o exercício do poder de Castro e outra (Adv.: Dirceu Eugênio Pi-
polícia, restringindo os direitos individuais, nheiro Grohmann). Recdo.: Tribunal de
em benefício da coletividade. O exercício Justiça do Estado de São Paulo.
desse poder se há de fazer, entretanto, nos Decisão: pediu vista o Ministro Néri da
lindes da legalidade. Silveira, depois dos votos dos Ministros Rela-
Não haverá prisão senão de acordo com tor, Oscar Corrêa, Alfredo Buzaid e Décio
o molde constitucional do § 12 do art. 153, Miranda, negando provimento ao recurso, e
logo, pela ocorrência de crime ou contra- dos votos dos Ministros Soares Muíioz e
venção, e não pelo simples trottoir quando Rafael Mayer, a ele dando provimento.
este não assuma notas subsumíveis em tipo
Presidência do Senhor Ministro Xavier
criminal. Se se prende sem crime, ou, se
de Albuquerque. Presentes à Sessão os Se-
havendo crime, sem o devido procedimento
nhores Ministros Djaci Falcão, Cordeiro
legal, exigido pela Constituição, há cons-
trangimento injurídico. Guerra, Moreira Alves, Soares MUDez, Dé-
cio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Silvei·
Endosso o convencimento do juiz de pri-
meira instância que, pela proximidade dos ra, Alfredo Buzaid e Oscar Corrêa. Procura-
fatos e contato com as provas, e ainda pela dor-Geral da República, Prof. Inocêncio
sua vivência dos usos da polícia local, en· Mártires Coelho.
tende iminente a prisão ilegal das pacientes.
E restabeleço a ordem por ele concedida, VOTO (VISTA)

a qual, nos termos em que o foi, nem


coíbe o regular exercício do poder de po- O Sr. Ministro Néri da Silveira: Discute.
lícia nem impede a prisão dentro dOIi pa- se acerca da concessão de ordem de ha·
râmetros da legalidade. beas-corpus preventivo, em favor de mulhe-
Dou provimento ao recurso. res que, na inicial, se afirma serem dedicadas
à prostituição, alegando-se que sofrem de-
VOTO
tenção, na via pública, constantemente, pelas
autoridades policiais, e maus tratos em de-
o Sr. Ministro Décio Miranda: Sr. Pre- pendências de Delegacias de Polícia de São
sidente, tive oportunidade de expor meu Paulo, para onde recolhidas, aí permane-
pensamento sobre o problema, no primeiro cendo, às vezes, por vários dias, de modo
caso em que a Segunda Turma cuidou da violento e arbitrário. Aduz-se que, no exer-
matéria. cício da prostituição, as pacientes, por sua
Meu voto, com a dissidência apenas do conduta e modo discreto de vestir, não
eminente Ministro Leitão de Abreu, mas ofendem ao pudor alheio, não podendo,
com a adesão dos eminentes colegas que in- dessa maneira, sofrer constrangimento ile·
tegravam a Turma, foi proferido no RHC gal e privações em sua liberdade de ir e
nQ 58.179, e publicado no acórdão na RTl vir. Pedem a expedição de salvo-conduto
96/1.067. para não serem detidas, sustentando que a
Reporto-me às considerações ali expendi- prática do trottoir, por si mesma, não cons-
das, para divergir do douto voto agora pro- tituindo crime ou contravenção, não auto-
nunciado pelo eminente Ministro Rafael nza a detenção.

146
2. No exame da quaestio juris, tenho coletividade, no setor de costumes. Escreveu,
como exatos estes passos do voto do emi. nesse sentido, Hely Lopes Meirelles:
nente Ministro Leitão de Abreu, no RHC "A polícia de costumes visa a combater
n'? 58.179-O-SP: os males, vícios e perversões com os quais
··A opinião que predomina, no tocante à certos indivíduos atentam contra a moral, a
matéria, opinião pela qual me inclino, é a decência, o trabalho e as boas maneiras da
de que o trottoir por si mesmo não cons- sociedade. Nem todo o vício requer ação
titui conduta que autorize a prisão de quem policial, senão aqueles que, por sua gravi-
o pratique. É preciso, para que a sanção de dade e efeitos danosos, afetam o bem-estar
polícia se aplique, que o trottair se realize coletivo. Vícios e atitudes individuais exis·
de modo escandaloso ou malicioso, com tem que, embora reprováveis do ponto de
importunação dos transeuntes ou com ultra- vista ético, não causam prejuízo à coletivi-
je público ao pudor" ( ... ). "Não me parece, dade, dispensando, por isso mesmo, repres-
todavia, que o trottoir em si mesmo consti- são ou prevenção estatal, ao passo que ou-
tua ilícito penal, que legitime, sem mais, a tros não só afetam ao seu portador, como
prisão de quem o pratique. Não se afirma, se propagam e corrompem a sociedade mo-
com isso, que a polícia não deva exercer ral, física e economicamente, pelo que inte·
vigilância sobre essa atividade, nem que es- ressa ao Poder Público combatê-los. No
teja inibida de interferir no sentido de sub- elenco dos males sociais danosos e corrupto-
meter o exercício a determinadas condi- res, que convém ao Poder Público prevenir
ções de tempo e lugar. O que a autoridade e combater, entram a prostituição, as per-
pública, no uso do poder de polícia, não versões sexuais, a vadiagem, a embriaguez,
pode fazer é prender meretrizes pelo exer- a mendicância, os jogos de azar, o uso de
cício, simplesmente, do trottoir, sem que lhe entorpecentes, a obscenidade pública, e ou-
impute, formalmente, crime ou contraven- tras formas de desestímulo e de rebaixamen-
ção, ou sem ordem de autoridade compe- to da dignidade humana" (in Direito admi-
tente." nistrativo brasileiro. 2. ed. p. 107).
É inafastável, assim, a conclusão, no exa- Nesta linha, a lição de Rui Cirne Lima
me dessa matéria, de que a atividade do (in Principios de direito administrativo, 5.
trottoir poderá se revestir de caráter penal- ed. p. 115), ao anotar:
mente censurável, dependendo das circuns- "Tarefa da polícia de costumes é a pre-
tâncias de cada caso concreto. Ainda no servação dessa moralidade externa que, em
que concerne às mesmas pessoas que se de- toda sociedade civilizada, se tem por indis-
dicam à prostituição, a atitude postural de pensável ao convívio coletivo. São inumerá-
cada momento poderá fazer com que sua veis as manifestações concretas dessa incum-
conduta seja, ou não, suscetível de enqua- bência de tamanhas proporções. De modo
dramento penal ou contravencional. Nesse principal, todavia, vela a polícia de costu-
sentido, anota, com inteira propriedade, mes na prevenção ou repressão da embria-
Cretella Júnior, in Liberdades públicas, p. guez, da prostituição, dos jogos de azar."
74: Cumpre, neste particular, é certo, enten-
"Os poderes públicos dos diversos países, der que os limites do poder de polícia admi-
embora reconhecendo que a prostituição, nistrativa são demarcados pelo interesse
em si, não constitui delito, já que não se social em conciliação com os direitos fun-
acha capitulada em códigos penais, nem, damentais dos indivíduos, assegurados na
por isso, deixam de proibir o racolage, ou Constituição da República. Escreveu, nesse
seja, a provocação e aliciamento de transeun- sentido, Hely Lopes Meirelles:
tes por palavras ou gestos." "Do absolutismo individual evoluímos
De outra parte, a prostituição é atividade para o relativismo social. Os Estados demo-
que está sujeita ao poder de polícia admi- cráticos como o nosso inspiram-se nos prin-
nistrativa, afetando, como pode fazê-lo, a cípios de liberdade e nos ideais de solida-

147
riedade humana. Daí o equilíbrio a ser pro- - bifurca-se, para atender à dupla necessi-
curado entre a fruição dos direitos de cada dade de prevenir e reprimir os abusos, que
um e os interesses da coletividade, em favor daqueles direitos se fizerem."
do bem comum. Em nossos dias, predomina As limitações, que se manifestam, assim,
a idéia da relatividade dos direitos, porque, pelo exercício do poder de polícia, no dizer
como bem adverte Ripert, "o direito do in- de Rui Cirne Lima, "são as que resultam
divíduo não pode ser absoluto, visto que de intervenção reguladora da administração
absolutismo é sinônimo de soberania. Não pública, reclamada pelas próprias contingên-
sendo homem soberano na sociedade, o seu cias do tempo, do espaço e do convívio em
direito é, por conseqüência, simplesmente sociedade, para tomar possível o exercício
relativo" (op. cito 7. ed. p. 112/113). dos direitos individuais concorrentemente
Noutro passo, observa: assegurados a todos os cidadãos nacionais
"Para efetivar essas restrições individuais e a todos os estrangeiros residentes na
em favor da coletividade, o Estado se utili- País" (op. cit. p. 106).
za desse poder discricionário, que é o poder Ora, não sendo possível deixar de com-
de polícia administrativa. Em se tratando de preender que as exteriorizações das atividades
um poder discricionário, a norma legal que de prostituição, dentre elas o tro11oir, são
o confere, não minudeia o modo e as con· fatos sociais quo!, por sua natureza, consti·
dições da prática do ato de polícia. Esses tuem ameaça constante à moralidade públi-
aspectos são confiados ao prudente critério ca, de referência a essas manifestações legi-
do administrador público. Mas se a autori- tima-se, em princípio, o exercício do poder
dade ultrapassar o permitido em lei, incidi- de polícia de costumes, de forma perma-
rá em abuso de poder, corrigível por via nente, não só para prevenir o ultraje públi-
judicial; o ato de polícia como ato admi- co ao pudor, como para a imediata represo
r.istrativo que é, fica sempre sujeito à inva· são dos abusos que, daí, podem resultar.
lidação pelo Poder Judiciário, quando pra- Se a prostituição se enumera, como escre-
ticado com excesso ou desvio de poder" ve Hely Lopes Meire\!es, "no elenco dos
(op. cito 7. ed. p. 113). males sociais danosos e corruptores, que con-
Ensina, à sua vez, J. G. Menegale (in vém ao Poder Público prevenir e combater"
Direito administrativo e ciência da adminis- (in Direito municipal brasileiro. V. 1, p.
tração. 3. ed. p. 533): 282), quanto à mesma, assim, não se há de
"Na construção constitucional surge o interditar cu dificultar o exercício do poder
poder de polícia quando, em complemento de polícia.
à declaração dos direitos individuais, se Nessa linha de considerações, penso,
acrescenta que o uso des~es direitos e ga- data venia, qUe a concessão de salvo-condu-
rantias terá por limite o bem público, as to a prostitutas, para lhes assegurar o exer-
necessidades da defesa, do bem-estar, da paz cício do troltoir, constitui forma de restri-
e da ordem coletiva, bem como as exigên. ção do exercício do poder de polícia, no
cias da segurança da Nação e do Estado âmbito dos costumes. Se, por sua natureza,
em nome dela constituído. Aí vemos que a polícia administrativa é, na lição de Má-
o direito constitucional enumera os princí- rio Masagão, apoiado em Santi Romano e
pios, e a essa enumeração responde o di- Marcelo Caetano, "o conjunto das limita-
reito administrativo, fazendo funcionar o ções, eventualmente coativas, da atividade
poder limitativo, que a Constituição erigiu. dos indivíduos, impostas pela administração
Eis por que, tendo origem na ordem cons- a fim de prevenir os danos sociais que
titucional, o poder de polícia é instituição de dessa atividade possam resultar" (in Curso
direito administrativo. Ao emergir da matriz de direito administrativo, 5. ed. p. 166),
do direito constitucional, o poder de polícia não é cabível presumir que sua atuação se
- o poder de concretizar aquele limite ao faça, arbitrariamente, quanto é certo, no
uso dos direitos e garantias constitucionais Estado de direito, a presunção 6 de os atos

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de administração se realizarem segundo a favor judicial, pela imensa legião de~sa;;
lei, porque a esta se sujeita a atividade mulheres, que se desafortunaram, nos cami·
administrativa. Disse.o, incomparavelmente, nhos da imoralidade, palmilhando as sen
Rui Cirne Lima: "Traço característico da das da prostituição.
atividade assim designada é estar vinculada Revela notar, em realidade, que não se
- não a uma vontade livremente determi- indicam nomes de policiais, nem mesmos se
nada - rorém, a um fim alheio à pessoa upontam 6rgãos policiais certos, coatra 03
e aos interesses particulares do agente ou quais se destinaria a providência pleiteada.
6rgão que a exercita ( ... ). O fim - e não Toda a polícia paulista não poderia coibir
a vontade - domina todas as formas de o trottoiT das pacientes e demais beneficia-
administração. Supõe, destarte, a atividade das por salvo-conduto. Como antes sina-
administrativa a preexistência de uma regra lei, não é fácil definir o instante em que,
juridica, reconhecendo-lhe uma finalidade por gestos, vestimentas ou palavras, o
pr6pria. Jaz, conseqüentemente, a adminis- tTottoi, já estaria na esfera da ilicitude
tração pública debaixo da legislação, que penal ou contravencional, legitimando a
deve enunciar e determinar a regra de di- atuação policial repressiva. Portando salvo-
reito. À sua vez, o fim ou os fins, que a conduto, à evidência, difícil se tomaria a
atividade administrativa se propõe, embora atividade de policiamento de costumes, 110
reconhecidos pelo direito, independem ge- particular, máxime tendo em conta a ten-
ralmente, para realizar-se, da concomitante cência à generalização dos pedidos de idên-
realização do direito mesmo. A atividade tica ordem preventiva.
administrativa desenvolve-se, decerto, dentro No caso concreto,outrossim, sequer há
do direito e através do direito, não, porém, prova eficiente da ameaça de prisão das pa-
necessariamente a serviço do direito" ( op. cientes, de molde a justificar a concessão do
cito 3. ed. p. 22/23). wTit, tratando-~e, apenas, de declarações de
Dessa sorte, a atividade administrativa de companheiras das interessadas, no sentido
políc::. dos costumes, enquanto busca a de afirmar serem elas vítimas de injusto
preservação da moralidade externa indispen. constrangimento policial, em sua Iiberda1e
sável ao convívio coletivo, mediante atos de ir e vir, fato este negado pelas autorida-
discricionários (não arbitrários) , há de lo- des responsáveis pela segurança pública.
grar condições de desempenho de sua fun- Na espécie, ademais, tem inteira proce·
ção, no interesse público, dentro dos J.imi. dência, o registro do saudoso Ministro Ro-
tes que lhe traça o poder discricionário, res- drigues Alckmin no RHC nQ 54.534-SP, a
ponsáveis sempre seus agentes por eventuais 5.10.1976, ao não conceder o habeas-corpuJ
abusos de autoridade ou desvios de poder. pretendido, verbis: "... se qualquer lias
Como estes se hão de ter qual exceção, por- pacientes vier a ser ilegalmente detida, a
que a presunção é do exercício do poder solução estará em eliminar por via de
conforme a legalidade, devendo sempre ser habeas-coTpus a detenção ilegal e respcnsa-
imputados a agentes certos, parece natural bilizar criminalmente o autor da ilegalidade.
não se admitir interdição, de caráter geral, Mas a pretendida concessão de salvo-condu-
ao desempenho do poder de polícia, em si, to, que abra ensejo ao troltoir com impor-
óe índole discricionária, visando a toda a c0- tunação ou ultraje público ao pudor, limi-
letividade de seus agentes. Tal decorrena, tando regular exercício do poder de polícia,
çm verdade, da outorga do pretendido salvo- não se justifica" (in R TI, v. 81, p. 48).
conduto, a impedir o desempenho da ação Do exposto, na espécie, nego provimento
policial, no que concerne à prática do ao recurso, reconsiderando-me, assim, õo
tToftoiT, por determinadas prostitutas, sendo voto de adesão que emprestei, na Primeira
inequívoco esperar que a postulação tende- Turma, segundo a orientação nela existente,
ria a generalizar-se, na súplica do mesmo no RHC nQ 58.974-O-SP, bem assim do voto

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que proferi, no RHC nl? 59.114-SP após EXTRATO DA ATA
vencido quanto à proposta para submeter ao
Plenário a matéria, em face da divergência RHC nl? 59.518-SP ReI.: Min_ Cor-
entre as Turmas. deiro Guerra. Rectes.: Francinete Soares de
Castro e outra (Adv.: Dirceu Eugênio Pi-
VOTO p.heiro Grohmann). Recdo.: Tribunal de
Justiça do Estado de São Paulo.
o Sr. Ministro Djaci Falcão: Sr. Presi- Decisão: negou-se provimento ao recurso,
dente, também nego provimento ao recurso, vencidos os Ministros Soares Muí'íoz e Ra-
de acordo com o entendimento que já es fael Mayer.
posei em outras oportunidades, em que r~:>­ Presidência do Senhor Ministro Xavier
saltei o exercício normal do poder de po- de Albuquerque. Presentes à sessão os Se-
lícia. A polícia de costumes deve zelar nhores Ministros Djaci Falcão, Cordeiro
pelo interesse social, preservando sobremodo Guerra, Soares Muí'íoz, Décio Miranda, Ra
a moralidade pública. Evidentemente q'le, fael Mayer, Néri da Silveira, Alfredo Bu-
em ocorrendo abuso de autoridade ou des- zaid e Oscar Corrêa. Ausente, justificada-
vio de poder, o julgador poderá ser levado mente, o Sr. Ministro Moreira Alves. Pro-
a deferir c pedido de habeas-corpus, mas curador-Gerai da República, ProL Inocên-
i,so não ocorre na espécie. cio Mártires Coelho_

PODER DE POLICIA - APREENSÃO DE JORNAL - LIBERDADE DE


IMPRENSA

- Evidenciada propaganda de preconceito de raça, a apreensão


de jornal que a veicula é legítimo exercício do poder de polícia_

TRIBUNAL FEDERAL DE RECURSOS


Mohamad Said Mourad e outro versus Ministro de Estado de Justiça
Mandado de Segurança nl? 99.312 - Relator: Sr. Ministro

CARLOS MADEIRA

ACÓRDÃO RELATÓRIO

Vistos e relatados estes autos em que o Sr_ Ministro Carlos Madeira (Relator):
são partes as acima indicadas, decide o Tri- Contra ato do Sr_ Ministro de Estado da
bunal Federal de Recursos, em Sessão Ple- Justiça que, com fundamento no art. 153,
na, por unanimidade, indeferir o Mandado § 89, da Constituição e art. 61, I, combina-
de Segurança, na forma do relatório e notas do com o art. 63 da Lei nl? 5.250, de 1967,
taquigráficas constantes dos autos, que determinou a apreensão dos exemplares da
ficam fazendo parte integrante do presente publicação Jerusalém - ano I, n9 3 -
julgado. por conter propaganda de preconceito de
Custas, como de lei. raça, impetram mandado de segurança
Brasília, 24 de março de 1983 (data do Mohamad Said Mourad e Georges Latif
julgamento). José Fernandes Dantas, Pre- Boudoukan, domiciliados em São Paulo e
sidente. Carlos Madeira, Relator. responsáveis pelo referido jornal, pleitean-

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