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DIREITO INTERNACIONAL

Prof. Guilherme Bystronski 03/03/20

Aula 05

É a continuação da aula 04 prevista na ementa: Sujeitos de DI. Personalidade jurídica


internacional. Indivíduos.

Objetivo da Aula
Fornecer os conceitos de sujeito de DI e personalidade jurídica internacional, e explicar como os
sujeitos de DI não são idênticos em sua natureza e extensão dos seus direitos e obrigações
internacionais. Explicar como os indivíduos podem adquirir direitos e obrigações internacionais.

Pontos do edital abordados: 4

Leituras Obrigatórias:
§ Celso – Capítulos XV e XXIX (até o parágrafo 311 – 311A em diante somente no módulo
Atena).
§ Guido – Capítulo 7 e Parágrafo 7.3 (recomendado)
§ Accioly – Parágrafos 1.6 e 1.6.1
§ Rezek – Parágrafos 83, 84, 85, e 86.

Leituras Avançadas:
§ Amaral Júnior – Parágrafo 3.1 e 3.4.
§ Mazzuoli – Parágrafos 1, 2, 3, e 8 do Capítulo I da Parte II
§ Portela – Parágrafos 1, 5, e 7 do Capítulo IV da Parte I

Retomando tema final da última aula:

CAPACIDADES INTERNACIONAIS
Cinco categorias fundamentais de capacidades internacionais que os Estados possuem:

1) Capacidade de produzir atos jurídicos internacionais, ou seja, é a capacidade de


participar no processo de produção do DIP.

Ex. Direito de convenção. É a capacidade para celebrar tratados.

- Estados obviamente possuem essa capacidade.


- Outros sujeitos de DIP. Isso depende da vontade dos Estados.
- OIs. Por exemplo: embora frequentemente possuam direito de convenção, somente
podem celebrar tratados no contexto do seu âmbito de atuação.
Já caiu no CACD à Greenpeace
Se você é uma organização não governamental, você não é tido como sujeito de DIP. Sendo
assim, você não possui direito de convenção.

1) Capacidade de ser imputado por ilícitos internacionais e de integrar, como parte, as


obrigações internacionais de reparação de danos, oriundas de um ilícito. Em outras
palavras, essa é a capacidade de ser responsabilizado por violações do direito
internacional.

- Mais uma vez, são os Estados aqueles que sempre podem responder por
violações de direito internacional.

- Outros sujeitos de DIP, juntamente com os Estados, podem, atualmente, ser


responsabilizados.

- Exemplo: em particular para nós hoje, por exemplo, a possibilidade de


responsabilização criminal de indivíduos é bastante interessante.

- Responsabilidade internacional, enquanto regra, é civil. Mas, em relação aos


indivíduos, afirma-se a possibilidade de responsabilidade criminal. Nas décadas
de 1980 e 1990, tentou-se expandir essa possibilidade também para os Estados.
Mas isso não vingou, e os Estados hoje não respondem criminalmente por suas
violações de direito internacional. Um Estado pode praticar crimes
internacionais? Pode. Como ele vai responder? Na esfera cível, e não na
criminal. Quem responde criminalmente quando perpetra crime internacional
é indivíduo.

2) Capacidade de acesso a procedimentos contenciosos internacionais, ou seja, é a


capacidade de mover reclamações internacionais.

- Os Estados sempre possuem essa capacidade. Em relação a outros sujeitos de


DIP, eles dependem da vontade dos Estados. Exemplo: na OMC, a UE possui tal
capacidade, mas o Mercosul não.

- Nesse contexto, ONGs e empresas transnacionais não têm sido consideradas,


para fins de CACD, como sendo sujeitos de DIP. Excepcionalmente, todavia,
encontramos situações em que ONGs e empresas transnacionais podem
formular reclamações internacionais, se forem autorizadas a tal pelos Estados.
Exemplo: órgãos de proteção dos direitos humanos, como nos casos da Corte
Europeia de Direitos Humanos e da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, que continuam habilitadas a promover reclamações internacionais.

- Exemplo: Em controvérsias relacionadas a investimentos – em alguns casos,


empresas podem formular reclamações internacionais. Um exemplo disso é o
capítulo 11 do NAFTA, em relação a investimentos.
3) Capacidade de ser membro e participar plenamente da vida das organizações
internacionais, inclusive com direito a voto.

- Membros de uma OI são Estados.


- Em certos casos, todavia, outros sujeitos de DIP podem ser membros ainda que
lhes falte a qualidade de Estados.
- Exemplo: OMC. A União Europeia é membro. Tanto Taiwan quanto Hong Kong
também são membros.

4) Capacidade de estabelecer relações diplomáticas e consulares.

- Nas relações diplomáticas, a preocupação central é com o relacionamento


político entre os entes envolvidos. É o interesse público de cada “ente” o que é
objeto de disciplina no contexto das relações diplomáticas. As relações
consulares, por outro lado, se destinam a trabalhar com temas
majoritariamente de natureza administrativa – por exemplo, obtenção de
documento de viagem, de visto de entrada etc. Então relações diplomáticas não
se confundem com relações consulares. Em matéria de imunidade, por
exemplo, faz toda diferença do mundo se você desempenha uma ou outra
atividade.
- Relações diplomáticas – direito de legação ou capacidade de estabelecer
relações diplomáticas e ser titularizado não somente pelos Estados, mas
também por outros sujeitos de DIP. Exemplos: OIs, MLNs (Movimentos de
Libertação Nacional), Santa Sé, Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
- Relações consulares. Elas se verificam entre Estados.

Vimos as cinco categorias fundamentais. Obviamente, existem diversas outras capacidades


internacionais que os Estados possuem e que podem ser titularizadas por outros sujeitos de
DIP. Dois exemplos:

1) Capacidade de desfrutar de imunidades perante tribunais internos de outros Estados.

2) Capacidade de oferecer proteção diplomática. A proteção diplomática é um direito do


Estado de formular reclamações internacionais contra sujeitos de DIP que vitimam seus
nacionais. Excepcionalmente, no caso de apátridas, o pedido de proteção diplomática
é endereçado ao país em que se tem residência permanente. Há dois requisitos
fundamentais para que a proteção diplomática seja concedida:

a) Nacionalidade da vítima. Você pode pedir para o seu Estado a proteção


diplomática. Estado só concede proteção diplomática a quem é seu nacional.
Projeto da Comissão de DI sobre Proteção Diplomática, de 2006. Em matéria de
nacionalidade, os arts. 3º a 8º refletem o que se está falando aqui.
b) Esgotamento prévio dos recursos internos quando efetivos. Por esgotamento
prévio de recursos internos, o que se quer dizer é que se deve dar uma chance para
que o Estado violador (e seus tribunais internos) possa reparar o problema que
causou. Para os recursos serem efetivos, os tribunais internos do Estado violador
devem ser acessíveis, imparciais e eficazes. Se não os forem, os tribunais internos
não permitem recursos efetivos, e aí se pode concorrer à proteção diplomática.

Exemplos de Sujeitos de DIP

1) Estados (próxima aula)

2) Organizações Internacionais. Definição: uma OI é normalmente uma entidade criada


por tratado entre dois ou mais Estados que possui uma Constituição e órgãos próprios
e que desfruta de personalidade jurídica distinta daquela de seus membros. Na prática,
as OIs hoje são formadas por três ou mais Estados – é muito mais multilateral no âmbito
de seu funcionamento. Constituição é o instrumento que regula o funcionamento da OI
– é, normalmente, seu instrumento constitutivo, embora haja exceções a isso.

3) Indivíduos. Aquelas teorias que, no passado, retratavam o indivíduo como sendo, na


melhor hipótese, mero destinatário das normas internacionais não mais correspondem
à prática atual, o que nos revela, de forma cada vez mais clara, que o indivíduo tem sido
considerado como sendo sujeito de DIP. Hoje, claramente a posição do CACD é essa. A
grande exceção, aqui, é a posição do Rezek: ele afirma que indivíduo não é sujeito de
DIP.
- Direitos/obrigações: Por um lado, o atual costume internacional, codificado em
alguns tratados, permite que indivíduos possam ser responsabilizados
criminalmente quando perpetram crimes internacionais da maior gravidade.
Importante: Indivíduo não pode responder criminalmente hoje por qualquer
crime internacional. Hoje, ele responde por alguns poucos crimes desse tipo: os
crimes internacionais da maior gravidade. Quais são os crimes então por que
ele responde internacionalmente? Crime de genocídio; crimes contra a
humanidade; crimes de guerra; crime de agressão. Essas definições estão
atualmente codificadas no Estatuto de Roma1, de 1998, responsável pela
criação do atual Tribunal Penal Internacional (TPI).

Crime de genocídio, art. 6º;


Crimes contra a humanidade, art. 7º;
Crimes de guerra, art. 8º;
Crime de agressão, art. 8º bis.

ESTATUTO DE ROMA

1 cf. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/d4388.htm (Estatuto de Roma)


Por outro lado, os indivíduos possuem atualmente direito de ação para
promoverem reclamações internacionais. Essa capacidade é exercida
primordialmente em situações que envolvem a violação de direitos humanos.
Ora, em diversas circunstâncias, hoje, o próprio indivíduo, sem precisar do seu
Estado, pode ajuizar ação internacional contra o Estado violador. Essa
prerrogativa, todavia, somente pode ser exercida por um indivíduo quando o
Estado que ele acusa lhe confere tal direito. Aqui não interessa a nacionalidade
do indivíduo, então. Por exemplo, no âmbito da Corte Europeia de Direitos
Humanos, 47 Estados europeus admitem que indivíduos vitimados dentro de
seus territórios possam recorrer à Corte Europeia de Direitos Humanos. Outro
exemplo em que isso ocorre é no âmbito da Comissão Interamericana de
Direitos Humanos.

4) Situações particulares de sujeitos de DIP (próxima aula)