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“UMA NOVA FASE NOS ESTUDOS DOS PROBLEMAS DAS RELAÇÕES


DE RAÇA NO BRASIL”: ACADÊMICOS E MILITANTES NO I CONGRESSO
DO NEGRO BRASILEIRO.1

José Antônio dos Santos


UFRGS
joseants@hotmail.com

Resumo: A afirmação que serve de título para a presente comunicação foi proferida por Abdias do Nascimento
(1914-2011), quando da inauguração do I Congresso do Negro Brasileiro, em 26 de agosto de 1950, na cidade do
Rio de Janeiro. O Congresso foi organizado por intelectuais negros e brancos, mas acabou se tornando palco de
discussões acirradas entre os grupos e resultou na elaboração de dois documentos finais. O evento foi um marco
no campo das relações raciais brasileiras ao promover o rompimento dos intelectuais negros com os “homens de
ciência”. Eles foram duramente criticados por usar os negros apenas como objetos de suas pesquisas e chegar a
resultados descritivos e distantes da realidade. Os intelectuais negros buscavam o reconhecimento da sua participação
na construção do pensamento social brasileiro e um maior comprometimento dos cientistas com os problemas da
população negra.
Palavras-chave: Intelectuais negros; “homens de ciência” e relações raciais.

Desde a década de 1940, com a fundação do Teatro Experimental do Negro –


TEN (Rio de Janeiro, 1944), e por meio de suas reiteradas ações sócio-culturais e políticas,
houve um maior protagonismo intelectual deste grupo.2 A desorganização política por
demandas sociais específicas, atribuída a população negra e entendida como um dos
traumas psicológicos deixados pela escravidão e pelo racismo, passou a ser perseguida
inicialmente com a formação para o teatro. Logo houve a necessidade de capacitar
atores e atrizes desde a alfabetização e criar todo um processo de “desrecalcamento em
massa” que incluía, além do preparo para as encenações teatrais, também a formação de
um repertório teatral que tratasse de temas e questões específicas da história e da cultura
afro-brasileira.
Os intelectuais que estiveram envolvidos com as propostas do TEN criaram
uma série de estratégias para o envolvimento da população negra nos seus projetos. Do
mesmo modo, se inseriram socialmente e buscaram se aproximar da elite intelectual que

1  O presente artigo, com modificações no título e partes do texto, inicia o capítulo 2, da minha tese: Prisio-
neiros da história. Trajetórias intelectuais na imprensa negra meridional. Porto Alegre, PUC-RS, 2011.
2  A Frente Negra Brasileira – FNB, considerada o início do movimento negro, em 1931, foi fechada por
motivações políticas logo no início do Estado Novo, em 1937. As organizações negras posteriores se orga-
nizaram no clima político que antecedeu o final daquele regime, em 1945, e aprofundaram o debate sobre
o papel dos afro-brasileiros na construção do país.
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estudava o quadro das relações raciais brasileira. Foram os anos em que promoveram uma
série de eventos de âmbito nacional como a Convenção Nacional do Negro Brasileiro
e seu “Manifesto à Nação Brasileira”.3 Realizada em São Paulo, a Convenção tornou
público o “Manifesto”, em 11 de novembro de 1945, que trazia, dentre as reivindicações:
“Que se torne matéria de lei, na forma de crime lesa-pátria, o preconceito de cor e de
raça”.
A Convenção foi o primeiro evento nacional com temáticas e discussões
encaminhadas por militantes negros, que deu ênfase à resolução prática das principais
questões da população negra. A conhecida Lei Afonso Arinos, que incluiu o racismo
entre as contravenções penais, nasceu por demanda daquele movimento.4
Por outro lado, o acesso à educação gratuita era uma necessidade apontada
desde o período da escravidão, nesse sentido, outra reivindicação apontada naquele
“Manifesto” tocou em tema fundamental para a população negra, a saber:

“Enquanto não for tornado gratuito o ensino em todos os graus, sejam admitidos
brasileiros negros, como pensionistas do Estado, em todos os estabelecimentos
particulares e oficiais de ensino secundário e superior do país, inclusive nos
estabelecimentos militares”.

A Convenção Nacional do Negro Brasileiro, ao reunir parte expressiva dos


principais intelectuais e militantes da época e ter caráter político-reivindicativo, estava
em consonância com as forças políticas que se articulavam pela redemocratização do
país depois do regime varguista. A luta em defesa da democracia deve ter aproximado os
intelectuais negros dos “cientistas”. Em 1945, o TEN organizou o Comitê Democrático
Afro-Brasileiro junto com a União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro, para
realizar atividades em favor da anistia aos presos políticos. Em seguida, a sociedade
brasileira se mobilizaria para a discussão dos grandes temas nacionais na Constituinte
que reestruturaria o Estado democrático.
O fato é que a Conferência Nacional do Negro, realizada quatro anos depois
da Convenção, de 09 a 13 de maio de 1949, na capital do país teve caráter ampliado
ao inserir a participação de outros intelectuais, como Arthur Ramos, Édison Carneiro
e Guerreiro Ramos. Arthur Ramos inclusive, fez a abertura da Conferência. Os
organizadores do evento concluíram que era conveniente dar continuidade aos estudos

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Todas as citações a seguir, salvo informação ao contrário, fazem parte dos anexos disponíveis, em: NAS-
CIMENTO, 1982. (Este livro foi originalmente publicado em 1968, e traz cópias de boa parte dos pareceres
e teses aprovadas, além das principais resoluções dos eventos citados, principalmente, do I Congresso do
Negro Brasileiro).
4  A Lei nº 1.390, de 3 de julho de 1951, de autoria do deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco,
diferencia-se da legislação atual, na medida em que o racismo deixou de ser apenas contravenção penal e
passou a ser considerado crime inafiançável. (Cf. Artigo 5º da Constituição Federal, regulamentado pela Lei
Federal nº 7.716, sancionada em 5 de janeiro de 1989).
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das questões referentes aos negros no ano seguinte. Nesse sentido, em comemoração
ao “Centenário do Final do Tráfico de Escravos”, convocaram para a participação no I
Congresso do Negro Brasileiro, demonstrando o grande apreço que aqueles homens e
mulheres tinham por efemérides que remetiam ao histórico de emancipação gradual da
escravidão.5
Segundo o documento de convocação, o Congresso deveria congregar
escritores, historiadores, antropólogos, folcloristas, musicistas, sociólogos e intelectuais
em geral, além de negros e mulatos, e homens do povo, para se tornar “representativo
das aspirações e tendências gerais da população de cor”. Os temas definidos na
Conferência para serem apresentados no Congresso como teses, eram: História (que
incluía a escravidão, os quilombos, a participação dos negros nas revoltas populares
e suas “figuras eminentes”); Vida Social (que devia tratar de aspectos demográficos,
natalidade e mortalidade infantil, associações culturais, recreativas e beneficentes, a
discriminação de cor, motivos e consequências, dentre outros); Sobrevivências Religiosas
(vários aspectos da diversidade religiosa afro-brasileira); Sobrevivências Folclóricas
(Maculelê, frevo, capoeira, rodas de samba, batuque, contos populares de procedência
africana, dentre outros aspectos culturais); e, finalmente, Línguas (que deveria tratar de
uma série de aspectos relacionados às “sobrevivências linguísticas” que se mantinham
como de origem africana ou que influenciaram o português do Brasil).
O Congresso foi realizado, de 26 de agosto a 4 de setembro de 1950, e tornou-se
o ápice daquele movimento social, que havia iniciado com a Frente Negra Brasileira –
FNB (São Paulo, 1931-1937), na primeira metade do século XX. Reputo a realização do
I Congresso do Negro Brasileiro como a principal iniciativa dos negros na disputa política
que se dava no campo das relações raciais brasileiras. O evento pode ser qualificado
com essa importância em virtude das questões levantadas pelos congressistas que se
consolidaram ao longo dos anos.
Naquela oportunidade, foi intensificada a tentativa de reconhecimento público
da participação dos intelectuais negros na construção do pensamento social brasileiro.
Eles passaram a criar dispositivos, como a promoção de eventos intelectuais e políticos,
a elaboração de estudos e a fundação de periódicos, para discutir suas questões em
âmbito nacional. Os objetivos eram se inserir no campo de estudos das relações raciais
como protagonistas históricos e produtores de conhecimento, assim como angariar
garantias legais para a melhoria da qualidade de vida da população negra.
Os documentos do Congresso demonstram a capacidade organizativa do
movimento que havia iniciado no princípio do século XX, e chegava ao ápice da sua

5  A Lei Eusébio de Queirós foi aprovada em 4 de setembro de 1850, visava proibir o tráfico transatlântico
de africanos para o Brasil. A Lei não gerou efeitos imediatos sobre a estrutura escravista, ao contrário, es-
timulou o tráfico interno e incrementou a entrada de escravizados no país.
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organização com a crítica dos resultados das pesquisas dos principais teóricos das
“questões raciais” do período. Os negros reunidos naquele evento tinham objetivos
comuns, no qual a chamada “cultura negra” passou a assumir papel político cada vez
mais proeminente. A história e a cultura desta parcela da população brasileira passaram
a ser agenciados pelas suas lideranças para demandar o início de uma legislação que
garantisse políticas sociais específicas.
As organizações negras anteriores, desde as irmandades católicas e as
“comunidades de terreiros”, a FNB, a imprensa negra brasileira, e alguns indivíduos
6
, considerados em diferentes graus de proeminência e momentos históricos também
foram responsáveis por confrontar os discursos da “inferioridade inata da raça negra”,
mas o que vou passar a destacar são as implicações epistemológicas dos lugares a partir
dos quais os intelectuais negros passaram a emitir seus discursos.
O entendimento de boa parte daquela intelectualidade vinculada à organização
do Congresso, capitaneada por Abdias do Nascimento e Alberto Guerreiro Ramos,
era de que a população negra fora “abandonada” pelo Estado.7 Não houve, por parte
do governo republicano, qualquer medida de integração social e econômica voltada
aos negros depois da abolição formal em 1888. Na “Declaração final” do Congresso,
inclusive, recomendavam:

[...] o apoio oficial e público a todas as iniciativas e entidades dos brasileiros de


cor, a ampliação da facilidade de instrução e de educação técnica, profissional
e artística, a proteção à saúde do povo e a garantia de oportunidades iguais para
todos na base da aptidão e da capacidade de cada qual. (Nascimento, 1982, p.
401)

Eles reivindicavam o acesso ao ensino básico e profissional que os preparassem


para o mercado de trabalho, a igualdade na disputa por melhores condições sociais e
a intervenção do Estado na resolução dos problemas. O respeito às regras sociais e
morais, bem como a busca pela integração dentro da ordem estabelecida, sempre foi
a tônica das organizações negras. Jamais foi levantada qualquer bandeira separatista
ou iniciativa para a volta à África, por exemplo. O “problema do negro”, que remetia

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Manuel Querino (1851-1923), por exemplo, foi um intelectual negro preocupado em recuperar as “so-
brevivências africanas” na cultura popular da Bahia no início dos anos de 1900. Ele tornou-se um dos
primeiros pensadores a conferir importância à contribuição africana para a formação do Brasil, e colocou-se
contra alguns “homens de ciência” da época, como Raimundo Nina Rodrigues e Silvio Romero, que rep-
resentavam os negros e mestiços como inferiores, mas não teve o apoio dos demais negros de sua época.
Ver: REIS, 2007.
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Além de Abdias do Nascimento e Alberto Guerreiro Ramos, fizeram parte do Congresso: Aguinaldo Ca-
margo, Geraldo Campos de Oliveira, José Pompílio da Hora, Ruth de Souza, Ironides Rodrigues, Sebastião
Rodrigues Alves, Maria de Lourdes Vale Nascimento, o senador Hamilton Nogueira, Claudino José da
Silva (deputado federal do Partido Comunista), entre outros. O Congresso teve representações políticas de
São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (Sociedade Floresta Aurora).
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às dificuldades advindas da “herança da escravidão”, era um desafio que deveria ser


enfrentado por toda a nação brasileira.
Foi no Congresso que Guerreiro Ramos defendeu a tese, “A Unesco e as
relações de raça”, na qual propunha que o órgão internacional estudasse as “experiências
sociológicas” desenvolvidas pelo Teatro Experimental do Negro. Conforme o seu
entendimento, talvez a Unesco, como responsável por “promover o desenvolvimento
dos processos democráticos internacionais”, entendesse como vinha sendo construída
uma solução para a “questão racial brasileira”. Na continuidade da discussão de sua
proposta e do debate que se seguiu com a plenária do Congresso, Guerreiro Ramos
definiu melhor a experiência teórica e prática que desenvolvia no interior do TEN e
deveria ser motivo de estudo pelos intelectuais da Unesco.
Ele usava o teatro como meio de reeducação do comportamento dos negros a fim
de excluir certos sentimentos ou ideias fixas de inferioridade racial. Segundo Guerreiro,
o processo constituía-se numa técnica de “desrecalcamento” que deveria suprimir, por
meio de atos repetitivos construídos nos ensaios e nas apresentações teatrais, qualquer
sofrimento psicológico adquirido ao longo da vida. O fundamento prático era buscar
o equilíbrio emocional e o protagonismo contra o preconceito e o racismo reinante na
sociedade brasileira. O teatro era usado como instrumento de valorização e integração
do negro na sociedade de classes, e as peças encenadas deveriam enfocar a realidade e
os dilemas existenciais dos negros.
Nesse sentido, é revelador ler as anotações de Guerreiro Ramos sobre o que
ele entendia ser “psicodrama”, “sociodrama” e “grupoterapia”, expressões que tinham
inspiração na psicologia social em voga no pós-guerra.8 Alberto Guerreiro Ramos,
nasceu em 1915, no interior da Bahia, oriundo do meio popular, foi militante do Centro
de Cultura Católica e depois integralista. Ele era um homem profundamente preocupado
com a realidade em que vivia, identificado com os “problemas dos negros”, tal como
colocado pela sociologia da época. Portanto, buscava inspiração para a construção
de um “novo negro”, desalienado da condição de inferioridade postulada e política e
culturalmente comprometido com a realidade de seu povo.
Logo depois da apresentação e debate da tese de Guerreiro, Costa Pinto se
manifestou na plenária do Congresso e disse ter participado, em dezembro de 1949, do
“Comitê de Raças” que se reuniu em Paris, sob os auspícios da Unesco. Segundo seu
depoimento, a proposta de Guerreiro deveria ser aprovada por ser o Brasil um verdadeiro
“laboratório para estudos de raça”, o que reforçaria os seus argumentos já apresentados
para a Unesco, por ocasião do encontro daquele Comitê.

8  Suas propostas foram desenvolvidas no jornal Quilombo, publicado pelo TEN, de dezembro de 1948
a julho de 1950, nos seguintes artigos: “Teoria e prática do psicodrama”, nº 6, p. 6-7; “Teoria e prática do
sociodrama”, nº 7 e 8, p. 9; “Uma experiência de grupoterapia”, nº 4, p. 7.
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Costa Pinto já havia iniciado, em 1949, as suas investigações sobre “relações de


raças” no Rio de Janeiro e, inclusive, confessou posteriormente, que fazia “observação
participante” no Congresso dos negros. Essa atitude lhe renderia o epíteto de “traidor”
das causas dos negros. Além de propor para a Unesco uma ideia que não era sua, na
medida em que ela já vinha sendo encaminhada por Arthur Ramos por demanda dos
intelectuais negros, Costa Pinto se utilizara de influências e pretensas amizades para
imiscuir-se entre as principais lideranças negras. Logo depois do lançamento do livro
que havia iniciado naquele ano, ele foi acusado por Abdias do Nascimento, de ficar
de posse de documentos do Congresso e de infiltrar-se naquele espaço em proveito
próprio. 9
Segundo Nascimento (1982), com a realização do primeiro Congresso do
Negro Brasileiro: “O negro passa[va] da condição de matéria-prima de estudiosos para
a de modulador da sua própria conduta, do seu próprio destino”. Alguns intelectuais
negros passaram a acreditar que deveriam realizar seus próprios encontros intelectuais e
políticos e definir as principais questões e temáticas cientificas a serem abordadas. Suas
críticas eram dirigidas de forma direta aos procedimentos dos pesquisadores ligados aos
Congressos Afro-Brasileiros anteriores, realizados em Recife, em 1934, e em Salvador,
no ano de 1937, que não tiveram qualquer preocupação com a resolução dos problemas
da população negra.
Alguns dos estudiosos que participavam do Congresso, como Edison Carneiro,
Darcy Ribeiro, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Roger Bastide, Charles Wagley e Thales de
Azevedo, também foram acusados, naquele momento, de tomar os negros como objetos
de estudo exóticos ou estranhos à cultura brasileira. De certa forma, os intelectuais
negros se anteciparam aos resultados das pesquisas do Projeto Unesco, que começaram a
ser publicados a partir de 1952.10 Segundo eles, os “cientistas” não haviam demonstrado
qualquer preocupação com os problemas concretos como racismo, desemprego e
analfabetismo. Muito menos, em propor alternativas para superar as visões do “negro

9  No Prefácio à segunda edição do seu livro, a primeira edição era de 1953, Costa Pinto mostrou-se
amargurado pela recepção que o mesmo obteve na época. Segundo ele, no primeiro mês foram vendidos
dez exemplares ao dia, depois de “crítica ardente e emocional – às vezes alcançando um nível bem sub-
alterno”, provavelmente realizada por algum intelectual negro, a circulação de suas ideias parece ter ar-
refecido. A reedição do livro, realizada 45 anos depois do lançamento, sem dúvida demonstrou o quanto a
sua contribuição para os estudos das relações raciais brasileiras foi relegada ao esquecimento. Isso se deu,
no mesmo momento em que a sociologia paulista tornava-se hegemônica no campo das relações raciais
brasileira. Cf. PINTO, 1998.
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Charles Wagley, professor da Columbia University, dirigiu os trabalhos de pesquisa da Unesco no
Brasil. Thales de Azevedo, professor da Universidade da Bahia, foi o responsável pelos trabalhos naquele
Estado e L. A. Costa Pinto, professor da Universidade do Brasil, fez pesquisas no Rio de Janeiro. Os resul-
tados começaram a aparecer a partir de 1952, com Race and class in rural Brazil de Wagley, seguido de Les
élites de couleur dans une ville brésilienne de Azevedo. No ano seguinte, 1953, teríamos o livro de Costa
Pinto já citado. SIQUEIRA, 2005.
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pitoresco” ou do “negro espetáculo”, anteriormente descritas por seus pares. Muito


embora, alguns negros reconhecessem que, de forma retórica, alguns estudiosos tivessem
colaborado para desvincular a origem dos problemas enfrentados pela população negra
de qualquer determinismo biológico advindos da origem africana.
Abdias do Nascimento (2008, p. 144), expõe com detalhes a organização do
Congresso e as disputas internas entre os intelectuais negros e os “cientistas e acadêmicos
brancos”. Também faz críticas contundentes ao trabalho científico de Costa Pinto, que, em
resposta aos intelectuais negros que o haviam acusado de tendencioso em suas conclusões
de pesquisa sobre o negro no Rio de Janeiro, teria escrito:

“Duvido que haja biologista que depois de estudar, digamos, um micróbio,


tenha visto esse micróbio tomar da pena e vir a público escrever sandices a
respeito do estudo do qual ele participou como material de laboratório”.

Essa representação dos negros como exógenos ou inexpressivos na construção


do país, levava muitos pesquisadores a estudá-los apenas a partir dos aspectos culturais,
vistos como fossilizados, perdidos no tempo e no meio rural. A “questão racial” ou
“problema negro”, levantada inicialmente pelos abolicionistas e, posteriormente por
políticos e intelectuais da elite, como um dos principais problemas para a consolidação
da nação, tinha por base o seguinte dilema: “o que fazer com o grande contingente de
negros depois da escravidão?” Essa questão perpassou todo o pensamento político-social
brasileiro, e, desde, pelo menos o final da escravidão, os intelectuais negros respondiam
com a assertiva de que eles também eram “formadores da nação e do povo brasileiro”.
O objetivo era deixar de ser representado como exógeno ao processo de construção do
país e passar a ser visto de um outro lócus de representação, ou seja, como o próprio
“povo brasileiro”.
Para Guerreiro Ramos (1957:155), “o negro [era] povo no Brasil”, na medida que
era considerado a “matriz demográfica mais importante” na formação do país. Portanto,
elencar o negro como a principal “questão” ou “problema nacional”, tal como colocado
na sociologia da época, era compreendido por Guerreiro como “um ato de má fé ou um
equívoco epistemológico”. Isso demonstrava a alienação dos nossos pesquisadores, que
estariam submetidos aos ditames científicos estrangeiros e à “idealização da brancura”
que os levava a apontar a integração do negro como um obstáculo ao desenvolvimento
do país.
Guerreiro Ramos os descrevia como “brancos mestiçados do Nordeste” que
tomavam o negro como objeto de pesquisa para dele se distanciar e reforçar seus
interesses de pretensão a brancura. Por outro lado, podemos refletir que os estudiosos
estavam comprometidos com interesses variados que se aglutinavam sob a rubrica de
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“científicos”, assim como os intelectuais negros estavam mais interessados na resolução


das questões ditas “sociais e raciais”. Ambos os grupos, de qualquer forma, procuravam
distanciar-se de definições essencialistas de raça ou da indeterminação simplificada dos
grupos de cor, mas não conseguiam escapar dos lugares demarcados pelo fenótipo e pela
busca da ascensão aos lugares de prestígio.
Segundo Pereira (1999:254), podemos identificar três fases nas relações entre
acadêmicos e militantes negros após a proclamação da República: a primeira, no início
do século XX, foi caracterizada pela absoluta falta de diálogo entre ambos; a segunda, a
partir de 1950, foi quando se estabeleceu o diálogo, cuja iniciativa coube aos acadêmicos;
e a terceira, atual (1999), na qual acadêmicos e militantes procuravam situar-se
simetricamente, embora com reclamações entre ambos.
Para o autor, a segunda fase da aproximação entre acadêmicos e militantes negros,
teve início apenas a partir das pesquisas de Roger Bastide e Florestan Fernandes. Foram
eles que, no bojo das pesquisas para a Unesco, passaram a trazer “as personalidades
negras, transformadas em informantes-chave da pesquisa, para dentro da universidade”.
Pereira reforçou, mais uma vez, a proeminência da “escola paulista de sociologia”, da qual
fazia parte, no campo dos estudos das relações raciais brasileiras, parecia desconhecer a
realização do I Congresso do Negro Brasileiro, da mesma forma em que ratificava a
contribuição dos negros apenas como informantes.
O esquematismo proposto reconheceu contribuições intelectuais dos negros apenas
na terceira fase; antes, as aproximações teriam se dado unicamente entre acadêmicos e,
note, militantes. Havia, e de certa forma, ainda há, uma dificuldade de reconhecer alguns
militantes negros como intelectuais. Independente da formação acadêmica, se o intelectual
identifica-se como negro, posiciona-se em defesa dessa população e trabalha com temas
correlatos, automaticamente ele passa a ser desprestigiado no ambiente acadêmico.
Aos intelectuais negros, que sem dúvida tinham a pretensão de ocupar aqueles
lugares de pensadores das questões raciais, de certa forma, não restava outra opção
além de compactuar com aqueles que eram os “objetos de pesquisa dos cientistas”,
ou seja, a maioria da população identificada como negra. Enquanto aos “acadêmicos e
cientistas” presentes no Congresso, mesmos aqueles que eram identificados por todos
como “mestiçados”, restava afirmar o lugar ocupado, ou, buscar uma interlocução com
os negros para legitimar as suas conclusões. No limite, como foi o caso de Costa Pinto
(1998), usaram desta aproximação para destituir aqueles que eram representados como
uma “elite negra intelectualizada”. Segundo ele, as lideranças negras vinculadas ao TEN,
se encontravam distantes e pouco interessadas na realidade da maioria dos negros.
Naquelas disputas intelectuais em torno do Congresso do Negro Brasileiro
tornaram-se explícitos os estereótipos reproduzidos de parte a parte – os negros, como
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objetos de pesquisa; os “acadêmicos”, como potenciais traidores; os intelectuais negros,


como guias da “massa inculta”. As discussões entre eles definiram boa parte dos
combates que se dariam pelo monopólio dos campos de pesquisas das relações raciais.
As críticas das lideranças negras, principalmente aquelas elaboradas por
Guerreiro Ramos à “ciência branca”, não tinham apenas o caráter político de disputa
por territórios e fontes de pesquisas. Eram motivadas também pela definição de
novos fundamentos epistemológicos que se voltavam para as teorias e metodologias
de investigação que descortinassem a realidade e a subjetividade afrodescendentes.
Chamada por Guerreiro de “corrente pragmática”, as suas reflexões prestaram serviço
ao pensamento social brasileiro ao criticar os intelectuais que se dedicaram a estudar
o negro como um estrangeiro em sua própria terra. Até então, os negros eram vistos
apenas como objetos de estudo, material etnográfico que servia a simples curiosidade
ou a eruditas divagações científicas. Boa parte dos estudiosos mostravam-se pouco
preocupados com a situação de miséria, doença e analfabetismo dessa população,
distantes daquela realidade e do compromisso político de transformá-la.11
Wanderley Guilherme dos Santos, um dos pesquisadores que mais se
concentraram nos intelectuais que constituíram o que se entende como pensamento
político-social brasileiro, elencou três matrizes conceituais para definir a produção
intelectual no campo das ciências sociais. A “matriz institucional”, que inicia nos anos
de 1930, com a primeira produção de trabalhos científicos na área e a criação dos cursos
de Ciências Sociais. A “matriz sociológica”, que explicaria as variações dos conteúdos
e as preocupações dos investigadores, relacionando o pensamento social ao processo
político e econômico-social. Por último, a que ele chamou de “matriz ideológica”, cujo
formulador foi Guerreiro Ramos.12 Esta matriz conceitual buscou a caracterização das
categorias que eram próprias dos textos dos pensadores sem a preocupação estrita com
a conjuntura em que foram produzidos, e sim com determinadas características internas
aos textos que revelassem a tradição intelectual a que pertenciam.
Nos escritos do livro “O processo da sociologia no Brasil”, de 1953, Guerreiro
Ramos fez uma radiografia dos intelectuais que compõem as ciências sociais brasileiras

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Analisando o mesmo período e atores políticos, Motta-Maués (1999), qualificou aquelas discussões
entre os dois grupos, como, um “diálogo entre acadêmicos e militantes negros”. As críticas dos negros aos
pesquisadores foram interpretadas como sendo de teor mais político do que propriamente científico. Por
outro lado, eu entendo como um debate intelectual, levado a cabo por contendores com origens sociais, in-
teresses políticos e que propunham epistemologias diferenciadas para compreender uma mesma realidade.
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O trabalho de Santos
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(2002) é uma recuperação bibliográfica abrangente de todos os intelectuais
brasileiros que se interessaram pelos principais problemas nacionais, passando pela escravidão, abolição,
construção da nacionalidade, educação, economia, política nacional, relações internacionais, entre outros.
Guerreiro Ramos é o único intelectual brasileiro destacado como o fundador de uma matriz do pensamento
político-social que faz a crítica de todas as outras, elencadas como resultado da contribuição de vários
pensadores.
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e propôs a continuidade, no que era visto como um limite, entre a produção sociológica
institucionalizada dos anos de 1930, e a chamada “pré-científica” ou “ensaística” dos
anos anteriores. O exercício intelectual proposto por ele, comparado com os estudos
anteriores, conforme Miceli (1989) e Maio (1996), foi considerado uma guinada radical
na literatura sociológica ao aproximar as contribuições intelectuais dos séculos XIX e
XX.
Segundo as conclusões de Guerreiro, os trabalhos de Silvio Romero, Euclides
da Cunha, Oliveira Viana e Alberto Torres, ao articular o problema racial com a questão
nacional, teriam a preocupação de criar um “instrumento para a construção nacional”.
Embora houvesse alguns equívocos de natureza preconceituosa entre eles, para Guerreiro,
eles procuravam um lugar para o negro na sociedade brasileira, ao contrário de outros
intelectuais que seguiram os ensinamentos de Nina Rodrigues. Nessa direção teriam
seguido Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Roger Bastide, Costa Pinto, entre outros, que
viam o negro como uma ameaça aos destinos da nação desejada – civilizada, branca e
ocidental.
Guerreiro foi um crítico feroz da importação de ideias e do elitismo dos
intelectuais brasileiros que, segundo ele, revestidos de cientificismo, encontravam-se
distantes dos problemas que afligiam o povo brasileiro. Depois da sua morte, em 1982,
e de forma mais definitiva a partir da década de 1990, a obra de Guerreiro Ramos
passou a ser exumada como uma mostra de que, afinal de contas, existiram pensadores
brasileiros originais que fugiram aos cânones tradicionais. Ao retomar algumas de suas
proposições, é possível refletir sobre o que o I Congresso do Negro Brasileiro contribui
para a inserção diferenciada de Guerreio aos cânones do pensamento social brasileiro, o
que cada vez mais tem sido realizado nos mais diferentes aspectos.13
O entendimento de quais eram os “problemas nacionais” a ser enfrentados
pela sociedade brasileira era diferente entre os intelectuais negros e os acadêmicos.
Os resultados do Congresso, onde houve a aprovação em assembleia da “Declaração
final”, que ratificava as discussões e os encaminhamentos da maioria dos congressistas
(intelectuais e militantes negros, em grande número, destituídos de títulos acadêmicos),
foram questionados pelos “homens de ciência”. Eles fizeram aprovar uma outra
“Declaração”, que, por sua vez, iniciava afirmando não acreditar na “superioridade de
raças”, motivo pelo qual eles não “emprestariam seu concurso à criação de atitudes que

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Souza (2000) e Bariani (2006), exumaram a obra de Guerreiro Ramos em aspectos pouco trabalhados
anteriormente. Vianna et. al (1994:381), por outro lado, colocam Guerreiro como caudatário do que enten-
dem como “iberismo”, uma tradição de pensamento social que teve grande influência em autores como Gil-
berto Freyre, Oliveira Viana, Alberto Torres e Silvio Romero. O “iberismo” teria como base “concepções
organicistas e comunitaristas da ordem nacional e as suas reservas quanto ao individualismo e ao mundo
livre dos interesses”. Tirando Gilberto Freyre, todos os outros eram influências intelectuais reconhecidas
por Guerreiro na seu trabalho.
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não tenham justificativa na ciência”.14


As várias orientações que vinham configurando-se nos estudos e debates sobre
o comportamento da população negra, desde Nina Rodrigues, no final do século XIX,
definiram-se em duas correntes de pensamento naquele Congresso e separaram-se. No
documento assinado pelos “cientistas”, estavam explícitas as ideias que eram correntes
na sociedade brasileira – qualquer atitude para a afirmação da identidade negra ou de
organização social com esse fim era acusada de racista. Portanto, não havia a aprovação
da ciência, nem muito menos de boa parte dos brasileiros. Por outro lado, os intelectuais
negros apontavam o racismo como um dos principais impedimentos para a organização
e para a mobilidades social entre os negros.
A “Declaração final” do I Congresso do Negro Brasileiro representava não
apenas o fim do jugo intelectual dos negros, ou “uma nova fase nos estudos dos
problemas das relações de raça no Brasil”, conforme profetizara Abdias na abertura
Congresso. O documento elaborado por eles era a possibilidade da realização de
eventos intelectuais independentes, representava uma vitória para todos os brasileiros
pois apontava a possibilidade de novas formas de organização social na defesa dos seus
interesses. Os negros passaram a ser, cada vez mais, protagonistas na organização dos
seus eventos políticos, na publicação dos seus manuais de sobrevivência e na definição
de mecanismos de ascensão social, na constituição de identidades e nas escolhas das
histórias que iriam contar. Nessa direção, não buscaram os caminhos da segregação e
do distanciamento do convívio daqueles que lhes eram parceiros de luta, muito pelo
contrário, apenas estabeleceram novas bases para os contratos de colaboração mútua.
As lideranças negras mantiveram contatos aproximados com políticos e
intelectuais, atuaram em defesa dos seus interesses estabelecendo foros específicos
para suas discussões, e buscaram a colaboração dos “pesquisadores“ para os seus
encaminhamentos. A construção do pensamento social brasileiro não se encontra
apenas nos gabinetes acadêmicos, mas também na relação próxima com os dilemas
cotidianos.

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