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Índice

Introdução..........................................................................................................................3

Objectivos do trabalho.......................................................................................................3

Metodologias.....................................................................................................................3

Problema............................................................................................................................3

Terrorismo em Moçambique concretamente na zona norte do País Cabo Delgado


“Mocímboa da Praia”........................................................................................................4

Início da insurgência armada em Cabo Delgado...............................................................4

O grupo em acção..............................................................................................................5

Formação do grupo............................................................................................................5

Principais implicações do terrorismo em Cabo Delgado..................................................6

Possibilidades de soluções.................................................................................................7

Conclusão..........................................................................................................................8

Referências bibliográficas.................................................................................................9
1. Introdução

A partir do ano 2000 um novo fenómeno começou a predominar e a caracterizar a já


complexa estrutura de conflitos no continente, o terrorismo. Sobretudo com a
emergência de dois grandes grupos, o Boko Haram e o Al-Shabaab, na Nigéria e
Somália, respectivamente. Se o espectro do terrorismo parecia circunscrever-se às
contiguidades dos dois Estados hospedeiros destes dois movimentos, o ano de 2017
mostrou que o terrorismo poderia estar mais próximo de Moçambique do que se podia
imaginar.

1.1.1. Objectivos do trabalho

Objectivos geral

 Descrever quais são os processos envolventes dos ataques armados na zona


norte do País, concretamente na província de Cabo Delgado.

Objectivo específico

 Falar das implicações no que tange a guerra em Cabo Delgado.


1.1.2. Metodologias

Para o efeito, recorreu-se às fontes primárias de informação – reportagens televisivas e


notícias de jornais físicos e electrónicos – para definir a morfologia do grupo, bem
como, ao uso de bibliografia, sobretudo vinculada ao fenómeno terrorista nos casos
mais salientes de África (Nigéria e Somália), o que confere com alguma regularidade
um tom comparativo ao estudo. Neste sentido, foi preciso antes de mais dissipar
quaisquer confusões sobre o conceito de terrorismo, para em seguida analisar o grupo
que opera em Moçambique, bem como as condições estratégicas existentes, para logo
apresentar as possíveis estratégias de políticas para lidar com este fenómeno.

1.1.3. Problema

Segundo Lakatos e Marconi (2003, p. 159), “problema é uma dificuldade, teórica ou


prática, no conhecimento de alguma coisa de real importância, para a qual se deve
encontrar uma solução.” Assim sendo este trabalho tem como problema: Quais são as
implicações do terrorismo em Cabo Delgado? Porque acontece essa guerra? Quais são
os motivos fortes? Porque Cabo Delgado?

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2. Terrorismo em Moçambique concretamente na zona norte do País Cabo
Delgado “Mocímboa da Praia”

Numa altura em que Moçambique ainda estava num longo processo negocial com vista
a pôr termo ao conflito decorrente dos resultados eleitorais das eleições gerais de 2014,
o país foi surpreendido, a 5 de Outubro de 2017, com notícias de um ataque armado às
instituições do Estado na vila-sede de Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado.
Perpetrado por um grupo desconhecido, com reivindicações da prática de um Islão
radical, este ataque armado era um fenómeno novo no processo político moçambicano e
trazia uma série de questões não só do ponto de vista da natureza do grupo e suas
motivações, como também no que se refere às implicações políticas, sociais e
económicas do próprio fenómeno para o país.

Apesar de vários órgãos de comunicação social nacionais e estrangeiros terem dedicado


atenção ao fenómeno, desde o primeiro ataque, a informação disponível sobre o assunto
ainda continua escassa. Tem sido cada vez mais difícil, por parte de jornalistas e
pesquisadores, o acesso aos locais assolados pelos ataques. Aliás, desde o início dos
ataques armados em Outubro de 2017, foram detidos, pelo menos, seis jornalistas: três
estrangeiros e um moçambicano, em 2018, e dois moçambicanos, em 2019, (Dw, 2019).
Além disso, foram instaurados seis processos-crimes contra indivíduos suspeitos de
estar ligados aos ataques. Dois desses processos, com cerca de 221 arguidos, foram
concluídos pelo Tribunal Judicial da Província de Cabo Delgado, tendo resultado em 57
condenados a penas de prisão, que variam de 16 a 40 anos. Os restantes quatro
processos, visando 50 arguidos, ainda não foram concluídos, (Achá, 2019).

2.1.1. Início da insurgência armada em Cabo Delgado

Como foi previamente mencionado, nos dias 5 e 6 de Outubro de 2017 houve ataques
em Mocímboa da Praia que se estendem por 2018 contra esquadras policiais e alvos
civis. Tais ataques, conduzidos por um grupo de homens armados e com vestes
islâmicas, resultaram na morte do Director Nacional de Reconhecimento da Unidade de
Intervenção Rápida (UIR), homens da Polícia da República de Moçambique (PRM) e de
civis, destruição de residências da população (cerca de 50 famílias desabrigadas),
vandalização de igrejas e suspensão da ordem pública na Vila de Mocímboa da Praia
ruas desertas e interrupção do trânsito para e de Mocímboa da Praia, (Beúla, 2017).

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Esta situação exigiu uma presença e intervenções continuadas das forças policiais em
Mocímboa da Praia, sendo a última e de grande vulto a que ocorreu em Março de 2018
e que resultou na apreensão de sete armas de fogo, 554 munições de pistola, AK- 47 e
de viaturas que eram usadas nas incursões, (Jornal notícias, 2018).

2.1.2. O grupo em acção

O grupo que opera na região da Mocímboa da Praia foi rapidamente denominado Al-
Shabaab, à semelhança do movimento terrorista que actua na Somália. Esta
denominação pode ter surgido localmente através de uma analogia popular que se pode
ter feito com o grupo somali e foi rapidamente veiculada pela imprensa. Ou, como
refere o historiador Yussuf Adam em entrevista à Dw (2018), “porque há ali uma
grande quantidade de mulçulmanos imigrantes da Somália" e que buscam negócios na
região vista como o novo El Dorado. Mas até então a sua verdadeira identidade não se
formou ou ainda não veio ao público. Ora, daquilo que se pôde apurar dos esforços
policiais é que o grupo é constituído por moçambicanos (314) oriundos de Nacala Porto,
Mocímboa da Praia e Nangade, tanzanianos (52), um somali e um ugandês, totalizando
cerca de 370 membros identificados, (O País, 2018).

2.1.3. Formação do grupo

A formação deste grupo é um assunto ainda embuçado, objecto de desacordo e


especulações. Tanto que os argumentos variam desde uma abordagem historicista das
relações etno-políticas e religiosas na região até argumentos mais contemporâneos,
assentes nas dinâmicas sócio-económicas em Cabo Delgado. A narrativa da população
trazida pelos órgãos de comunicação social notabiliza que nos últimos tempos tem
havido uma reconfiguração das relações sociais e religiosas em Mocímboa da Praia.
Esta reconfiguração caracterizou-se pela existência de comportamentos estranhos àquela
comunidade, concretamente indivíduos que iam à mesquita com facas, armas e exigindo
uma postura religiosa distinta da que constituía o normal, (Voa, 2018).

Com os relatos obtidos através das plataformas de interacção na internet, chat e pelos
meios de comunicação social, estes incidentes tornaram a insegurança e o temor uma
nova característica de Mocímboa da Praia. Isto para além do facto destes ataques se
estender também para outras regiões da província de Cabo Delgado, como é o caso da
região de Olumbi no Distrito de Palma, (Dw, 2019).

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3. Principais implicações do terrorismo em Cabo Delgado

Apresentar uma proposta para solucionar qualquer problema implica automaticamente


um recuo de modo a entender as causas ou os factores determinantes de tal problema.
De modo geral, os determinantes do Terrorismo são de várias maneiras similares aos
factores causadores da maior parte dos demais tipos de violência política. Ou seja, a
clássica frustração decorrente da exclusão, privação ou incapacidade de implementar
determinadas mudanças que resulta posteriormente em agressão. No entanto, há factores
específicos que podem resultar na eclosão do terrorismo, (Lutz & Lutz, 2013).

As implicações são:

Pobreza e desemprego - Quando se aborda as causas do terrorismo, ou o porquê as


pessoas decidem se aliar aos grupos terroristas e chegar, inclusive, a sacrificar as suas
vidas por tal causa, a pobreza e o desemprego são elementos salientes. Sobretudo em
contextos em que o acesso aos recursos básicos de subsistência é ainda privilégio de
uma pequena parcela da população e os fossos de desigualdade encontram
fundamentação em elementos étnicos ou identitários, (Chang, 2005). Olhando de forma
específica para o caso de Mocímboa da Praia, e de forma um pouco mais abrangente
para a província de Cabo Delgado, é inegável aceitar a pobreza, o desemprego e os
baixos níveis de escolaridade como parte da paisagem social daquela região.

Fronteiras porosas e os espaços ingovernáveis - As fronteiras porosas e os espaços


ingovernáveis são uma característica saliente dos Estados frágeis e Moçambique não
foge à regra. Por fronteira porosa pode-se entender o tipo de fronteira que escapa à
vigilância das entidades responsáveis pelo controlo migratório e que permite, desta
forma, a livre-circulação de todo o tipo de pessoas e bens de um Estado para o outro. E,
por espaço ingovernável, pode-se entender os espaços no interior de um Estado que
escapam à presença e controle das diferentes formas de autoridade constituídas em certo
Estado. Estes dois fenómenos andam de mãos dadas e são um elemento de
vulnerabilidade, pois permitem a fácil circulação e consolidação de vários tipos de
criminosos transnacionais no país, (ISRI, 2014).

Cultura e identidade - A cultura e identidade são factores salientes nas causas dos
conflitos africanos. Essencialmente quando combinados com alguma forma de privação
ou acesso aos recursos do Estado já escassos entre grupos distintos, (ISRI, 2014). A

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cultura e identidade foram sempre elementos proeminentes na constituição de grupos de
protesto e advocacia por alguma forma de direito exigida ou negada. Na Nigéria, o
grupo terrorista Boko Haram foi constituído apelando ao factor identitário como base da
sua acção no norte da Nigéria ou nos Estados fronteiriços, seja identidade étnica ou
religiosa, (Dw, 2019).

A presença de investimentos ocidentais nos recursos naturais - Cabo Delgado é uma


província rica em recursos naturais e minerais. Esta riqueza que se reflecte em grandes
investimentos e novas dinâmicas económicas e sociais atrai todo o tipo de interesses,
desde criminosos transnacionais, investimentos Ocidentais à islâmicos radicais visando
comprometer os interesses dos Estados Ocidentais. A presença de grandes
investimentos ocidentais no território nacional é provavelmente das causas mais
emergentes do terrorismo em Moçambique. Primeiro pela questão do timing e segundo
pela natureza de conflitos que emerge com a existência de recursos naturais num
determinado Estado. Primeiro, se atentarmos ao timing em que o grupo começa a se
formar e inicia as suas actividades, é de se notar que coincide com as actividades de
prospecção de gás, a comunicação do potencial do país e o anúncio das decisões de
investimento na Bacia do Rovuma por parte de empresas Ocidentais a partir de 2015 e
que vem se fortalecendo em 2017, (Chang, 2017).

3.1.1. Possibilidades de soluções

Debater uma solução ao terrorismo é uma tarefa muito complexa e sinuosa, sobretudo
quando se tem pouco conhecimento ou informação sobre o grupo em acção e a causa
por detrás das suas acções. Por ser uma questão de segurança, normalmente o terrorismo
é visto em três perspectivas: a primeira que é pensar o fenómeno no contexto de um
inimigo a ser derrotado numa guerra o que presume que o uso dos métodos militares
pode gerar uma vitória; a segunda que consiste em lidar com o terrorismo confiando nas
técnicas policiais normais aqui, se sugere que o terrorismo, como qualquer outro crime,
não pode desaparecer, senão apenas ser contido; ademais é que esta perspectiva é
reactiva, ou seja, como criminosos, os terroristas só podem ser apreendidos depois de
cometer o crime; e a terceira perspectiva consiste em ver o terrorismo como uma doença
que deve ser observada tanto sob ponto de vista de sintomas, como também sob ponto
de vista de causas desses sintomas, (Lutz & Lutz, 2013: 274, citando Sederberg, 2003).

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3.1.2. Conclusão

A presença do terrorismo em Moçambique é um fenómeno ainda embuçado e com


traços de crime transnacional pois, diferentemente da lógica normal do terrorismo
islâmico radical, que é cometer violência contra alvos civis e depois reivindicar o
protagonismo da violência para se visualizar e granjear simpatizantes, no caso
moçambicano, este grupo não veio ao público dar a conhecer sobre a sua existência e
nem os objectivos que os animam a cometer terror. Tanto que o grupo que opera não
tem até então uma denominação específica.

Entender o por quê do surgimento desde grupo ainda é um enigma parcialmente


resolvido. Contudo, pode-se apontar para a chegada de grandes investimentos ocidentais
na área dos recursos naturais que quando combinado com outros factores (cultura e
identidade, pobreza, desemprego, fronteiras porosas, etc.), se criaram as condições
favoráveis para o estabelecimento do movimento. Por isso, uma estratégia de combate
efectiva deve incidir numa abordagem das políticas públicas (sociais e de
desenvolvimento) e de segurança. A política social e de desenvolvimento visa eliminar
os factores que podem ser instrumentalizados para legitimar o grupo (a pobreza, o
desemprego, a privação relativa e exclusão). E a política de segurança visa gerar
capacidade de resposta aos ataques e melhor controle sobre os espaços nacionais através
do apetrechamento material e intelectual das FDS.

O entendimento popular local facilmente denominou este de Al-Shabaab ainda que não
tenha vínculos comprovados com o movimento com a mesma designação que opera na
Somália. Mas este já demonstrou capacidade de desestabilizar Mocímboa da Praia e
outras regiões da província de Cabo Delgado, bem como colocar em causa a segurança
humana das populações naquela região. Ademais, com as acções de violência
cometidas, as consequências se estendem desde a simples desordem, pânico e
insegurança até à retracção de investimentos naquele ponto do país.

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4. Referências bibliográficas
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Cabo Delgado. O País, 04/06/2019. Disponível em http://opais.sapo.mz/ataques-
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16 de Julho de 2019.
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Praia. Retrieved Outubro 1, 2018, from O País: http://opais.sapo.mz/director-da-
uirassassinado- em-mocimboa-da-praia.
3. Chang, B.-O. (2005/2017). Islamic Fundamentalism, Jihad, and Terrorism. Journal
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4. Dw. (2019). Segundo jornalista moçambicano detido este ano em Cabo Delgado.
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Acedido a 27 de Julho de 2019.
5. ISRI, (2014). Tráfico de Pessoas em Moçambique, em particular, de crianças.
Maputo: Procuradoria da República de Moçambique.
6. Jornal Notícias. (2018, Abril 05). Retrieved Abril 19, 2018, from
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emmocimboa- da-praia-tribunal-decide-destino-dos-bens-dos-atacantes.html.
7. Lutz, B., & Lutz, J. (2013). Terrorism. In A. Collins, Contemporary Security Studies
(pp. 273-288). Oxford: Oxford University Press.
8. O País. (2018, Março 21). Homens armados entregam-se às autoridades em
Mocímboa da Praia. http://opais.sapo.mz/homens-armados-entregamse-as-
autoridades-emmocimboa- da-praia
9. Voa, (2017, Dezembro 26). VOA Português. Retrieved Abril 19, 2018, from
www.voaportugues.com: https://www.voaportugues.com/a/atacantes-
mocimboapraia- estao-activos/4179913.html
10. Voa, (2018, Janeiro 18). Voa portugues. Retrieved Abril 19, 2018, from
www.voaportugues.com: https://www.voaportugues.com/a/jovens-
insurgentesatraidos-promessas-milionarias-entrada-paraiso-ataques/4212317.html