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PROTEÇÃO RADIOLÓGICA

Almy Anacleto Rodrigues Da Silva1


Walter Siqueira Paes2

1. História

No final do século XIX o físico Alemão Wilhelm Conrad Röentgen descobriu os raios
X, quando estudava as emissões de tubos de raios catódicos. Na mesma época,
Marie e Pierre Curie, paralelamente ao pesquisador francês Henri Becquerel,
descobriram as substâncias radioativas.

Nesta época, a descoberta de que, através do uso dos “misteriosos” raios de


Roentgen, era possível obter uma imagem fotográfica do interior do corpo humano,
sem a necessidade de um procedimento cirúrgico invasivo, revolucionou a medicina.
Como consequência desta notável descoberta, passou-se a fazer uso desenfreado
da nova tecnologia.

A imagem a seguir é a primeira radiografia da história. A primeira imagem não


invasiva do interior do corpo humano. Em uma se suas experiências, Röentgen
colocou a mão de sua esposa, Bertha, na frente do filme e obteve a primeira
radiografia da história, mostrando os ossos de Dona Bertha e até seu anel de
casamento.

                                                                                                                       

1  Físico  de  Proteção  Radiológica  do  SESMT  da  Universidade  de  São  Paulo.  Doutor  em  Física  (Instituto  de  

Física  da  USP),  Mestre  em  Ciências  (Instituto  de  Física  da  USP),,  Especialista  em  Vigilância  Sanitária  –  área  
Radiações  Ionizantes    (Faculdade  de  Saúde  Pública  da  USP)  
2   Físico   de   Proteção   Radiológica   do   SESMT   da   Universidade   de   São   Paulo.   Especialista   em   Radiologia  

Diagnóstica  e  Medicina  Nuclear(Associação  Brasileira  de  Física  Médica)  


 
1
Figura 1: Primeira radiografia da história

Uma das aplicações à época era a utilização em sapatarias de luxo. Uma radiografia
do cliente calçando o sapato revelava a necessidade de eventuais ajustes na
confecção do calçado, tornando-o mais confortável. A imagem a seguir ilustra essa
aplicação.

Figura 2: Aplicações dos raios X do início do século XX


Àquela época não se sabia que a radiação ionizante é capaz de levar à indução de
efeitos biológicos indesejáveis. Ocorre que o ser humano não dispõe de sensores
próprios para a detecção da radiação ionizante. A radiação ionizante é invisível,
inaudível, inodora e não perceptível ao tato. Se somarmos a esses fatos o uso
desenfreado desencadeado pela descoberta revolucionária, não será difícil imaginar
que em pouco tempo diversos efeitos biológicos indesejáveis iriam se manifestar. De
fato a esposa de Roentgen teve severas consequências em sua mão. Da mesma
forma os primeiros médicos radiologistas sofreram consequências. Madame Curie
morreu por consequência de efeitos biológicos devidos à radiação ionizante. A
sucessão destes eventos gerou o surgimento de iniciativas para entender o
fenômeno e, pouco menos de trinta anos após a descoberta de Roentgen, foi criada
a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP na sigla em língua
inglesa).

A esta altura já havia uma coleção de casos demonstrando os malefícios associados


ao uso das radiações ionizantes e o desafio inicial que se colocava era o de eliminar
ou minimizar esses malefícios. Uma das alternativas seria simplesmente abandonar
o uso da radiação ionizante. Essa alternativa garantiria a eliminação dos malefícios,
mas junto ela traria algo extremamente indesejável: eliminaria os benefícios.

Assim, a proteção radiológica nasceu de um grande desafio: como fazer para não
precisar abrir mão do uso da radiação ionizante? A alternativa seria estudar e
pesquisar, para entender a natureza e os mecanismos de interação destas
radiações. Desta forma, ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a proteção
radiológica é favorável ao uso da radiação ionizante. Não o uso indiscriminado, mas
o uso racional, que parte dos conhecimentos adquiridos.

Partindo então do objetivo de viabilizar os usos da radiação ionizante, a proteção


radiológica empenhou-se em conhecer seus mecanismos de ação. Esses
conhecimentos são dinâmicos a medida que os estudos se aprofundam mais e
geram novos conceitos e entendimentos. Há uma grande quantidade de
pesquisadores, das mais diversas áreas, dedicando-se a enriquecer os
conhecimentos a cerca da radiação ionizante e é possível afirmar que a radiação
ionizante é um dos agentes de risco mais bem conhecidos e estudados.
2. PRINCÍPIOS BÁSICOS

Considerando que a filosofia da proteção radiológica toma como base estudar e


pesquisar a natureza e os mecanismos de interação da radiação ionizante, com
vistas a viabilizar o uso das técnicas que a empregam, foram definidos três
conceitos que representam o tripé de sustentação filosófica da proteção radiológica.
Estes conceitos foram denominados Princípios Básicos de Proteção Radiológica.
Embora estes conceitos sejam distintos, sua eficácia como base filosófica está na
sua utilização de forma associada. Não se pratica proteção radiológica com
qualidade sem que se faça uso destes três princípios concomitantemente. Os
princípios são conhecidos como Princípio da Justificação, Princípio da Otimização e
Princípio da Limitação de Doses (Figura 3).

Justificação

Proteç
Proteção
Radioló
Radiológica
Limitação
Otimização
de Doses

Figura 3: Princípios Básicos de Proteção Radiológica

2.1. Princípio da Justificação


O Princípio da Justificação é enunciado da seguinte maneira pela Comissão
Nacional de Energia Nuclear (CNEN):
Nenhuma prática ou fonte associada a essa prática será aceita pela CNEN, a não
ser que a prática produza benefícios, para os indivíduos expostos ou para a
sociedade, suficientes para compensar o detrimento correspondente, tendo-se em
conta fatores sociais e econômicos, assim como outros fatores pertinentes.

Essencialmente o que está por trás deste princípio é que os usos devem ser
justificados. Todo uso da radiação ionizante pressupõe que traga benefícios. Porém,
há malefícios associados a todo uso. Assim, para que um determinado uso seja
justificável, os benefícios devem superar os malefícios. É uma balança de prós e
contras.

Tomemos alguns exemplos para analisar:

• Considere a utilização de materiais radioativos luminescentes aplicados em


brinquedos.

Neste caso fica evidente que os benefícios são muito poucos e seguramente
menores que os malefícios associados. Esta é, portanto uma utilização não
justificável. Fere o Princípio da Justificação e deve ser, portanto, considerada
proibida.

• Considere agora uma situação hipotética em que um determinado paciente


seja encaminhado por um médico para a realização de um exame
diagnóstico. Vamos supor que neste caso hipotético o médico possa solicitar
um exame de ressonância magnética, que não faz uso de radiação ionizante,
ou um exame de tomografia computadorizada que faz uso de raios X, para
obter a mesma informação. Neste caso, qual dos dois exames ele deve
indicar? Segundo o Princípio da Justificação ele deve indicar o exame de
ressonância magnética, por não utilizar radiação ionizante.

Imagine agora, neste mesmo cenário, que o plano de saúde do paciente não
contemple o exame de ressonância magnética, apenas o exame de tomografia
computadorizada. Neste caso a indicação do exame de tomografia computadorizada
passa a ser justificável.
O Princípio da Justificação é de natureza subjetiva, o que implica que o que é
justificável para um pode não ser para outro. No entanto, o uso do bom senso tende
a aproximar as escolhas.

2.2. Princípio da Otimização

O Princípio da Otimização é enunciado da seguinte maneira pela Comissão Nacional


de Energia Nuclear:
Em relação às exposições causadas por uma determinada fonte associada a
uma prática, salvo no caso das exposições médicas, a proteção radiológica
deve ser otimizada de forma que a magnitude das doses individuais, o
número de pessoas expostas e a probabilidade de ocorrência de exposições
mantenham-se tão baixas quanto possa ser razoavelmente exequível, tendo
em conta os fatores econômicos e sociais. Nesse processo de otimização,
deve ser observado que as doses nos indivíduos decorrentes de exposição à
fonte devem estar sujeitas às restrições de dose relacionadas a essa fonte.

Este princípio também é conhecido internacionalmente como princípio ALARA, sigla


em inglês da frase As Low As Reasonably Achievable, que significa tão baixo quanto
razoavelmente exequível.

O conceito por trás deste princípio é o de maximizar positivamente a relação


benefício-malefício. Uma vez que uma determinada prática seja justificável, implica
que já foi identificado que o benefício supera o malefício. O Princípio de Otimização
atua no sentido de avaliar o que pode ser feito para minimizar o malefício e/ou
maximizar o benefício, dentro dos limites do que seja razoável.

Tomemos alguns exemplos para analisar:


• Consideremos um projeto de blindagens para uma sala contendo um
equipamento emissor de raios X. Suponha que, para atender aos limites de
dose estabelecidos pela CNEN para uma determinada vizinhança, seja
necessário acrescentar uma folha de 1 milímetro de chumbo na parede. Esta
medida é suficiente para atender um requisito legal, tornando o uso
justificável. Entretanto a adoção de uma espessura maior de chumbo
proporcionará uma redução ainda maior nas doses. Desde que esse
acréscimo seja razoável em termos de custo, a medida é desejável e
recomendável. Essa análise e a escolha de “melhorar” o que já é justificável é
a filosofia do processo de otimização.

• Melhorias técnicas em equipamentos e sistemas de detecção que permitam


reduzir a dose em pacientes submetidos a técnicas que utilizam radiação
ionizante, são processos de otimização.

O Princípio da Otimização é uma ferramenta muito poderosa e frequentemente


subestimada. Embora também seja de caráter subjetivo, permite que os processos e
procedimentos sejam continuamente revistos e melhorados.

2.3. Princípio da Limitação de Doses

O Princípio da Limitação de Doses pode ser enunciado da seguinte maneira:


Os limites de dose, tanto para indivíduos do público quanto para indivíduos
ocupacionalmente expostos à radiação ionizante, devem ser respeitados.

Este princípio complementa a adoção dos princípios anteriores e permite tirar o


caráter subjetivo das escolhas. Ele atua como um vínculo e pode ser interpretado
filosoficamente como o ponto a partir do qual se considera que uma determinada
escolha é intolerável.

A tabela a seguir apresenta os limites primários anuais de dose efetiva e dose


equivalente no cristalino, pele, mãos e pés, estipulados pela Comissão Nacional de
Energia Nuclear (CNEN) em sua norma CNEN-NN-3.01. Tendo em vista novos
resultados sobre o limiar de dose para desenvolvimento de catarata, a Comissão
Internacional de Proteção Radiológica recomendou em 2011 a redução do limite
máximo admissível de dose equivalente no cristalino para 20 mSv por ano em média
definida em período de cinco anos, sendo que em um único ano a dose equivalente
não deve ultrapassar 50 mSv.
Tabela 1: Limites máximos de dose para trabalhadores e indivíduos do público.

Grandeza Órgão IOE Público


Dose Efetiva Corpo Inteiro 20 mSv * 1 mSv
Cristalino 20 mSv ** 15 mSv
Dose Equivalente Pele 500 mSv 50 mSv
Mãos e Pés 500 mSv --

* Limite de Dose Efetiva de 100 mSv em 5 anos consecutivos e 50 mSv em


único ano.
** Limite de Dose Equivalente de 100 mSv em 5 anos consecutivos e 50 mSv
em único ano.

A combinação dos três princípios dá sólida sustentação às escolhas que se fazem


em relação ao uso da radiação ionizante, permitindo viabilizar os usos e atender
assim aos objetivos primordiais da proteção radiológica.
GRANDEZAS E UNIDADES EM PROTEÇÃO RADIOLÓGICA

Logo após a descoberta dos raios X e das substâncias radioativas, várias aplicações
foram iniciadas com as radiações ionizantes. O uso era desenfreado e as
exposições pouco controladas, muitas vezes injustificadas para o nível de
conhecimento atual, mas aparentemente normais para a época. Havia grande
diversidade de técnicas para um mesmo tipo de tratamento ou diagnóstico, também
grande diversidade de produtores de equipamentos de raios X.

Em pouco tempo alguns pesquisadores começaram a questionar a possibilidade de


que as radiações ionizantes pudessem causar efeitos danosos à saúde, mas a
comprovação era difícil com o conhecimento à época. Era preciso de certa forma
padronizar as técnicas de tratamento, técnicas de obtenção de imagens, realizar
comparações entre aplicações, em especial na medicina. Para estudar efetivamente
a produção de efeitos biológicos indesejáveis era preciso quantificar de certa forma
a radiação e conhecer o feixe produzido.

Em 1925 foi criada a International Commission on Radiation Units and


Measurements (ICRU), com objetivo de estabelecer grandezas e unidades
específicas para a área de física das radiações e definir a metodologia de medidas.
A comissão atua até hoje e sempre que novas metodologias ou tecnologias são
introduzidas suas recomendações são atualizadas.

2.4. Grandezas e Unidades

As grandezas em Física das Radiações são estabelecidas em três categorias:


grandezas físicas, grandezas de proteção e grandezas operacionais. As grandezas
físicas são utilizadas para caracterizar o feixe de radiação, as grandezas de
proteção são grandezas dosimétricas estabelecidas para o corpo humano, portanto
não podem ser efetivamente medidas. As grandezas operacionais são aplicadas
para monitoração de área e individual e podem ser medidas com instrumentos e
dosímetros através de algoritmos de cálculo e calibrações. As grandezas
relacionam-se através de fatores de conversão estabelecidos pela ICRU.
Apresentaremos aqui algumas das grandezas físicas e de proteção.
A cada grandeza é associada uma unidade de medida que em física das radiações
muitas vezes tem um nome especial em homenagem a pesquisadores pioneiros na
área.

2.4.1. Grandezas Físicas

2.4.1.1. Exposição

A exposição, simbolizada por X, foi a primeira grandeza a ser definida em física das
radiações e é definida apenas para feixes de raios X e gama com até 3 MeV de
energia. A medida da exposição caracteriza a capacidade de um feixe de fótons
ionizar o ar, ou seja, colocar elétrons em movimento. A definição da exposição é:

dQ
X=
dm

O dQ é a quantidade total de carga de mesmo sinal, produzida no ar, quando todos


os elétrons liberados por fótons no elemento de massa de ar dm são completamente
freados no ar.
A unidade original da exposição é o Roentgen, símbolo R, em homenagem a Wilhen
Conrad Roentgen. No Sistema Internacional a unidade é o C/kg (Coulomb por
quilograma). As unidades são relacionadas pela seguinte expressão:

1R = 2,58 x10 −4 C / kg

Dessa relação temos que a exposição de 1R em um volume de ar com a massa de


1g produz 1,61 x 1015 pares de íons.

A medida da taxa de exposição é comumente utilizada em monitorações rotineiras.


Ela indica o nível de exposição por unidade de tempo, geralmente dado em horas.
2.4.1.2. Dose Absorvida

A Dose Absorvida, simbolizada por D, diferentemente da exposição é válida para


qualquer meio material e para qualquer tipo de radiação. É a grandeza fundamental
em Proteção Radiológica, pois mensura a quantidade de energia recebida por um
meio. Nos seres humanos a manifestação de efeitos biológicos depende
principalmente da quantidade de energia recebida.

A Dose Absorvida é a medida da quantidade de energia absorvida por um elemento


de massa, devida à passagem da radiação:

Eab
D=
dm

Eab é a quantidade média de energia absorvida pelo meio de massa dm.

A unidade original da dose absorvida é o rad (do inglês, radiation absorbed dose).
No Sistema Internacional a unidade é o J/kg (Joule por quilograma) que em Física
das Radiações tem o nome especial Gray, com símbolo Gy, em homenagem a Louis
Harold Gray.

A dose absorvida relaciona-se com a exposição de acordo com a seguinte equação:

D = 0,00876. X

Uma exposição de 1R em um determinado ponto no ar equivale então a uma


deposição de energia de 8,76 mGy de dose absorvida. A partir da medida da
exposição ou taxa de exposição podemos então estimar a dose absorvida ou taxa
de dose absorvida no ar, e desta forma caracterizamos um determinado feixe de
radiação. Se outro meio, diferente do ar, for colocado no mesmo ponto da medida,
também podemos calcular a dose absorvida nesse outro meio, porque a deposição
de energia depende da diferença de absorção de energia do meio em relação ao ar,
o que depende basicamente das densidades de cada meio. Assim, uma vez medida
a exposição no ar, obtemos a dose absorvida no ar e com o uso de fatores de
correção estimamos a dose absorvida em outros materiais.

2.4.2. Grandezas de Proteção

As grandezas de proteção são definidas para o corpo humano e através delas são
estabelecidos os limites máximos admissíveis de dose para um órgão ou tecido ou
para o corpo todo. Os valores de dose das grandezas de proteção dão de certa
forma uma indicação do risco radiológico. Aqui veremos as definições para a Dose
Equivalente (Ht) em um órgão ou tecido e Dose Efetiva (E) no corpo inteiro.

As grandezas de proteção são obtidas a partir da dose absorvida através do uso de


fatores de ponderação que consideram diferenças existentes na capacidade de
produção de efeitos biológicos de diferentes tipos de radiação e nas diferenças de
sensibilidade à radiação de diferentes órgãos ou tecidos do corpo humano.

No Sistema Internacional a unidade das grandezas de proteção também é dada em


J/kg (Joule por quilograma), assim como a dose absorvida, porém quando estamos
medindo ou estimando a dose equivalente em um órgão ou tecido ou a dose efetiva
usamos o nome especial da unidade - Sievert, em homenagem a Rolf Maximilian
Sievert.

2.4.2.1. Dose Equivalente no Órgão ou Tecido

A Dose Equivalente no órgão ou tecido, simbolizada por Ht, é válida para qualquer
tipo de radiação e é obtida a partir da dose absorvida média no tecido t devido ao
tipo de radiação r (Dt,r) :

H t = Dt ,r .wr

A dose equivalente - no órgão ou tecido t, é então a dose absorvida no meio


corrigido pela eficiência do tipo de radiação t em produzir efeitos biológicos,
caracterizadas pelo fator de ponderação wr.
Para exemplificarmos o uso dessas grandezas considere uma exposição a um
determinado órgão do corpo. Se a fonte de radiação é emissora de raios X ou gama,
a dose equivalente é numericamente igual à dose absorvida (por exemplo: 1 mGy de
dose absorvida resultaria em 1 mSv de dose equivalente), pois wr é igual a um para
fótons e elétrons. Se a fonte for de radiação alfa a mesma dose absorvida resultaria
uma dose equivalente 20 vezes maior (1 mGy resultaria em 20 mSv), pois para a
radiação alfa wr = 20. Avaliando apenas a dose absorvida, poderíamos pensar que o
risco radiológico é o mesmo, porém quando consideramos o tipo de radiação através
da dose equivalente, vemos um risco 20 vezes maior para a exposição com radiação
alfa.

2.4.2.2. Dose Efetiva

A Dose Efetiva está relacionada com a absorção de energia considerando o corpo


todo. É a grandeza utilizada para limitação de doses para indivíduos
ocupacionalmente expostos e indivíduos do público. É definida como a somatória
das doses equivalentes em cada tecido ou órgão do corpo, ponderada pela
sensibilidade do órgão ou tecido à radiação:

E = ∑ H t .wt =∑ Dt ,r .wr .wt


t t

A sensibilidade do órgão ou tecido é também estimada por um fator de ponderação


wt, estabelecido pela ICRP a partir de estudos epidemiológicos. A tabela a seguir
mostra valores de wt para alguns órgãos e tecidos e sua variação ao longo dos anos.

Tabela 2: Valores de wt para alguns órgão e tecidos e sua variação ao longo dos anos.
Variação dos valores de Wt
ÓRGÃO 1977 1990 2007
Gônadas 0,25 0,20 0,08
Mama 0,15 0,05 0,12
Medula óssea 0,12 0,12 0,12
Pulmão 0,12 0,12 0,12
Tireóide 0,03 0,05 0,04
Osso (superfície) 0,03 0,01 0,01
Restante do corpo 0,30 0,05 0,12
3. FATORES DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA

Os aspectos teóricos e filosóficos da Proteção Radiológica, regidos pelos princípios


básicos, são essenciais para o planejamento e desenvolvimento seguro de práticas
que envolvem o uso da radiação ionizante. Há, entretanto, alguns aspectos de
ordem prática que, se corretamente aplicados, permitem direcionar as ações para
diminuir as doses de radiação recebidas. Estes fatores de proteção radiológica são o
tempo de exposição, a distância da fonte de radiação e o uso de blindagens
adequadas.

3.1. Tempo de Exposição

Quanto menor o tempo de exposição à radiação ionizante menor será a dose


recebida. Embora este fator seja óbvio, há alguns detalhes importantes a respeito do
tempo de exposição como ferramenta para a redução de doses.

É importante lembrar que a radiação ionizante, quando interage com um organismo


vivo, deposita energia em uma fração de tempo extremamente pequena, da ordem
de trilhonésimos de segundo. Os eventuais efeitos biológicos resultantes destas
exposições dependem desta absorção inicial de energia. Isso implica que, uma vez
sob a ação de um feixe de radiação, não há tempo para tomar iniciativas no sentido
de evitar a absorção de energia da radiação incidente. Essa característica da ação
da radiação impõe que, quaisquer que sejam as medidas a se tomar para minimizar
as doses recebidas, devem ser tomadas antes do início das atividades que
envolvem a manipulação das fontes emissoras de radiação. Assim, o planejamento
é condição necessária ao exercício adequado da proteção radiológica.

Outro aspecto prático importante a se ressaltar é que, embora seja desejável


diminuir as doses recebidas, não se pode tentar obter isso fazendo tudo com pressa.
Aqui vale o ditado de que a pressa é inimiga da perfeição. Há casos conhecidos de
indivíduos que transportavam frascos contendo material radioativo e que, na
tentativa de reduzir o tempo de exposição, percorreram a distância correndo e
tropeçaram, derramando o conteúdo do frasco no chão e nas roupas, aumentando
assim as doses recebidas, sem mencionar o aumento na produção de rejeitos
radioativos devidos ao processo de descontaminação. Novamente aqui o
planejamento, aliado ao conhecimento dos riscos associados a cada etapa da
manipulação, são essenciais para os objetivos da proteção radiológica.

3.2. Blindagem

Há um “mito” de que chumbo é a blindagem universal para a radiação ionizante.


Embora o chumbo seja um material comumente utilizado como blindagem, não é o
material mais adequado como blindagem para todos os tipos de radiação e nem
tampouco é o único material adequado.

Inicialmente é importante lembrar que a radiação ionizante interage com qualquer


meio material, provocando ionizações nos átomos do meio e depositando energia
em seu percurso. Assim, qualquer material pode servir como blindagem. Como os
diferentes tipos de radiação interagem de maneira diferente com a matéria, é de se
esperar que os materiais adequados como blindagem também variem conforme o
tipo de radiação. Assim, os diferentes materiais podem ter maior ou menor eficiência
como blindagem, dependendo do tipo de radiação.

Apresentamos a seguir alguns exemplos de materiais adequados como blindagem,


conforme o tipo de radiação.
• Para a radiação gama ou os raios X o chumbo é uma escolha adequada. Há
outros materiais bastante utilizados como o concreto, em salas de
radioterapia, e argamassas baritadas, utilizadas em salas de raios X-
diagnóstico. Há algumas aplicações onde o tungstênio pode ser a escolha
mais adequada;
• Para a radiação beta é conveniente fazer uso de materiais de número atômico
baixo, tais como acrílico, plásticos, madeira e até mesmo água;
• Para a radiação alfa uma simples folha de papel é suficiente como blindagem,
bem como alguns centímetros de ar;
• Para nêutrons, conforme sua energia, materiais hidrogenados como parafina
ou água são escolhas adequadas. Cádmio também pode ser um material
adequado.

Figura 4: Blindagens de tijolos de chumbo prismáticos.

               
Figura 5: Blindagens de acrílico para manipulação de emissores de partículas beta.
 
Figura 6: Blindagem com vidro plumbífero para manipulação de emissores gama.

 
Figura 7: Armário Blindado de Aço Inox.

 
 
Figura 8: Biombo de alvenaria com massa baritada e vidro plumbífero em sala de raios X diagnóstico.

A escolha de um material como blindagem deve levar em consideração diversos


fatores, tais como sua eficiência, custo, facilidade de instalação, capacidade
estrutural e até mesmo aspectos estéticos.

3.3. Distância

Aumentar a distância em relação a uma determinada fonte de radiação promove


redução na dose. Há dois fatores que contribuem para que isso ocorra, um fator
puramente geométrico e outro fator de blindagem.
Quando aumentamos a distância em relação a uma fonte emissora de radiação
ionizante, não estamos apenas nos distanciando da fonte. Estamos também
aumentando a quantidade de ar entre nosso corpo e a fonte. Isso quer dizer que
estamos aumentando a quantidade de blindagem. O ar pode ser extremamente
pouco eficiente como material de blindagem para a radiação gama ou os raios X,
mas é muito eficiente para blindar a radiação alfa e a radiação beta de baixa
energia. Sendo assim, dependendo do tipo de radiação ionizante, aumentar a
distância e, consequentemente, a quantidade de ar entre o corpo e a fonte de
radiação pode reduzir significativamente a dose.

Outro fator que leva à diminuição da dose pelo aumento da distância é um fator
geométrico. Uma fonte de radiação emite radiação em todas as direções. Isso
implica necessariamente que nem toda a radiação que uma fonte emite é capaz de
atingir um indivíduo. A radiação emitida na direção oposta à do indivíduo, por
exemplo, não o atinge. A uma dada distância de uma fonte, apenas uma
determinada parcela das emissões, atinge um indivíduo. À medida que nos
afastamos da fonte, como o feixe de radiação é divergente, uma parcela menor
deste feixe atinge o indivíduo. Quando as dimensões da fonte são significativamente
menores do que o indivíduo irradiado, esta relação geométrica é conhecida como “lei
do inverso do quadrado da distância”. Neste caso, ao dobrar a distância, diminuímos
a dose para um quarto do valor inicial.

A figura a seguir ilustra esse fator geométrico de diminuição da dose. Verificamos


claramente que parte do feixe que atingiria o indivíduo no ponto A, mais perto da
fonte, não o atinge se ele se afastar para o ponto B, logo a essa distância a dose é
menor que no ponto A.

Figura 9: Demonstração da lei do inverso do quadrado da distância


4. EFEITOS BIOLÓGICOS

Sabemos que a radiação ionizante é um “transportador” de energia. Sabemos


também que a radiação ionizante perde energia quando atravessa um meio material,
por intermédio de um fenômeno conhecido como ionização. Mas o que acontece
quando o meio que a radiação ionizante está atravessando é um organismo vivo,
como um ser humano, por exemplo? Quais as consequências desta deposição de
energia no corpo?

Para responder a estas perguntas é necessário entender os mecanismos de indução


de efeitos biológicos devidos à interação da radiação ionizante com os seres vivos.

Um efeito biológico induzido pela radiação ionizante, como o câncer, por exemplo,
não aparece imediatamente após a irradiação. Inicialmente ocorre a ionização, onde
se dá a absorção da energia incidente. A partir desta ionização podem ocorrer
alterações moleculares e estas, por sua vez, podem levar a danos em órgãos ou
tecidos. Tudo depende então da absorção inicial de energia. É razoável supor que,
quanto maior a quantidade de energia depositada pela radiação, maior o dano
biológico. Embora esta suposição não esteja incorreta, veremos a seguir que há
vários fatores a ser considerados para uma correta interpretação do potencial de
produção de efeitos biológicos da radiação ionizante.

4.1. Classificação dos Efeitos Biológicos

No intuito de facilitar o entendimento das variáveis relacionadas à produção de


efeitos biológicos induzidos pela radiação ionizante, apresentaremos a seguir a
classificação destes danos e efeitos, conforme a variação de alguns aspectos e
fatores.

4.1.1. Danos Diretos

Um organismo vivo é formado por diferentes tipos de células. Isso implica que a
radiação pode atingir diferentes tipos de células, com consequências diferentes.
Imaginemos inicialmente que a radiação ionizante incide em um indivíduo e provoca
uma ionização em um átomo de uma importante molécula do corpo deste indivíduo,
danificando aquela estrutura molecular. Este é um tipo de dano causado diretamente
pela ação da radiação naquela molécula e por isso é classificado como dano direto.

Esta classificação, embora pareça óbvia demais, tem importância quando


comparada com a ação dos danos indiretos, descritos a seguir.

4.1.2. Danos Indiretos

Imaginemos novamente que a radiação ionizante incide em um indivíduo.


Entretanto, vamos imaginar agora que a radiação provoca uma ionização em um
átomo de uma molécula de água do corpo deste indivíduo, danificando esta
molécula. Seguramente o dano numa molécula de água no organismo é
potencialmente menos prejudicial do que o dano em uma estrutura importante do
organismo, como o DNA. Entretanto, a ionização de uma molécula de água pode
levar à formação de radicais livres, que são compostos quimicamente reativos. Este
processo é conhecido como radiólise da água. Estes radicais livres formados podem
se combinar, entre si, gerando novos produtos ainda mais reativos. Estes produtos
reativos dentro do organismo, por sua vez, podem levar a danos em estruturas
importantes, como o DNA.

Neste caso, a radiação não causou dano diretamente no DNA. O dano foi causado
por “subprodutos” da ionização de moléculas de água. Este é um tipo de dano
causado indiretamente pela ação da radiação naquela estrutura e por isso é
classificado como dano indireto.

Se considerarmos que o ser humano possui em sua composição mais de 70% de


moléculas de água, este é naturalmente o tipo de molécula que possui maior
probabilidade de ser atingida pela radiação ionizante incidente. Consequentemente,
nos seres humanos, a probabilidade de ocorrência de dano indireto é maior do que a
probabilidade de ocorrência do dano direto.

4.1.3. Efeitos Agudos

Os efeitos biológicos devidos à interação da radiação ionizante com os seres vivos


podem variar consideravelmente quanto ao tempo de manifestação.

Os efeitos classificados como agudos são aqueles que se manifestam num intervalo
de tempo relativamente curto após a irradiação. No caso dos seres humanos estes
efeitos manifestam-se em no máximo dois meses após a irradiação. São efeitos
característicos de exposições a doses elevadas de radiação.

Os principais exemplos, no caso dos seres humanos, são as queimaduras


(eritemas), queda na contagem de plaquetas, náuseas e vômitos.

2
Figura 10: Radiodermite provocada por alta dose de radiação ionizante.
4.1.4. Efeitos Tardios

Os efeitos classificados como tardios são aqueles que se manifestam num intervalo
de tempo longo após a irradiação. No caso dos seres humanos estes efeitos
manifestam-se em anos ou dezenas de anos após a irradiação. São efeitos
característicos de exposições a doses pequenas de radiação.

O principal exemplo, no caso dos seres humanos, é o câncer.

4.1.5. Efeitos Genéticos ou Hereditários

Os efeitos biológicos devidos à interação da radiação ionizante com os seres vivos


também podem variar quanto ao tipo de célula atingida. Os efeitos classificados
como genéticos ou hereditários são aqueles que ocorrem a partir de danos
provocados pela irradiação de células germinativas (óvulos ou espermatozoides).
Estes efeitos podem manifestar-se quando estas células reprodutivas forem
utilizadas no processo de reprodução. Nestes casos o efeito biológico se
manifestará nos descendentes dos indivíduos irradiados. Os principais exemplos são
as mutações genéticas e as malformações.

4.1.6. Efeitos Somáticos

Os efeitos classificados como somáticos são aqueles que ocorrem a partir de danos
provocados pela irradiação de quaisquer células do organismo, exceto as células
germinativas (óvulos ou espermatozoides). Nestes casos, o efeito biológico
manifestar-se-á nos próprios indivíduos irradiados.
Alguns exemplos são o câncer, as queimaduras (eritemas) e a catarata.

4.1.7. Efeitos Estocásticos

Os efeitos biológicos devidos à interação da radiação ionizante com os seres vivos


também podem variar quanto à quantidade de energia depositada pela radiação.
Os efeitos classificados como estocásticos são característicos de exposições a
pequenas doses de radiação. Sua principal característica é o fato de que não
apresentam um limiar de dose para sua ocorrência. São efeitos de natureza
essencialmente probabilística e a sua probabilidade de ocorrência aumenta com o
aumento da dose. Essa característica tem uma implicação muito importante, que é o
fato de que para qualquer dose de radiação, por menor que seja, está associada
uma probabilidade maior do que zero para a ocorrência deste tipo de efeito. Sob o
ponto de vista da proteção radiológica este aspecto é fundamental, pois é
justamente o que dá base filosófica para o princípio da justificação (vide capítulo PR-
2). Não faz sentido receber uma dose de radiação, por menor que seja, sem que
exista um benefício maior em troca!

Este tipo de efeito apresenta ainda como característica o fato de que sua gravidade
independe da dose de radiação. O principal exemplo, no caso dos seres humanos, é
o câncer.

4.1.8. Efeitos Determinísticos (Reações Teciduais)

Os efeitos classificados como determinísticos são característicos de exposições a


doses elevadas de radiação. Sua principal característica é o fato de que apresentam
um limiar de dose para sua ocorrência. Em outras palavras, implica que só ocorrem
se um determinado valor de dose for superado. Para este tipo de efeito a gravidade
aumenta com o aumento da dose. Alguns exemplos são as queimaduras (eritemas),
a epilação (queda de pelos) e a catarata.
2
Figura 11: Catarata em olho de médico intervencionista.

4.2. Radiossensibilidade

Outro fator a ser considerado quanto à indução de efeitos biológicos pela radiação
ionizante é o fato de que diferentes estruturas celulares podem possuir diferente
sensibilidade à radiação. Este fator é conhecido como radiossensibilidade e tem
diversos aspectos importantes. De uma maneira geral podemos indicar em ordem
decrescente de sensibilidade à radiação, os seguintes sistemas:

SISTEMA HEMATOPOIÉTICO
ò
SISTEMA GASTROINTESTINAL
ò
SISTEMA NERVOSO
Em proteção radiológica este fator pode ser determinante na escolha do tipo de
proteção para uma determinada prática. No radiodiagnóstico odontológico, por
exemplo, há recomendação para o fornecimento de protetor de tireoide aos
pacientes, pois este órgão é reconhecidamente sensível à radiação ionizante.

Em radioterapia, por exemplo, este aspecto é fundamental na determinação da


viabilidade ou não do tratamento. Os tratamentos em radioterapia, de maneira geral,
só são indicados nos casos em que o tipo de câncer a ser tratado é
reconhecidamente sensível à radiação. Caso contrário, corre-se o risco de danificar
mais os tecidos adjacentes sadios do que o tecido do tumor.

4.3. Mecanismos de Reparo Celular

É conhecido que, sob pressão do meio ambiente, os organismos evoluem através de


uma resposta adaptativa. Este é um processo conhecido como seleção natural, onde
os mais aptos tendem a prosperar. Assim, o ser humano e os demais organismos
que vivem no planeta evoluíram, adaptando-se continuamente ao meio em que
vivem.
A radiação ionizante está presente desde os primórdios da formação do planeta e,
portanto, todos os organismos que habitam o planeta estão sujeitos à sua ação. Isto
implica que, dentre os diferentes fatores de pressão ambiental que atuaram e atuam
nos processos evolutivos no planeta, a radiação ionizante é um deles. O homem,
assim como outros organismos, possui uma resposta adaptativa à ação danosa da
radiação ionizante e de outros agentes, conhecida como mecanismo de reparo
celular. Este mecanismo atua, dentro de certos limites, permitindo que certos danos
induzidos pela radiação ionizante sejam reconhecidos e reparados, tais como alguns
danos no DNA.
5. RECOMENDAÇÕES DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA

O uso de técnicas que empregam fontes emissoras de radiação ionizante visa


benefícios específicos. Entretanto, ao uso de qualquer fonte emissora de radiação
ionizante há malefícios associados, que se traduzem principalmente na forma de
riscos de incidência de efeitos biológicos. É razoável supor que quando os
malefícios associados superam os benefícios, o uso se torna injustificável.

A Proteção Radiológica pode ser entendida basicamente como o conjunto de ações


que visa viabilizar o uso das técnicas que empregam fontes emissoras de radiação
ionizante. Neste sentido, esforços são direcionados em maximizar positivamente a
relação benefício versus malefício. É muito comum as pessoas envolvidas nas
aplicações das radiações ionizantes associarem a Proteção Radiológica unicamente
à verificação por meio de monitoração individual do respeito aos limites de dose. De
fato, nos primórdios das aplicações a regra principal era a limitação de doses, ou
seja, enquanto os limites de doses são respeitados praticava-se adequadamente a
Proteção Radiológica. No entanto, como vimos anteriormente, a filosofia envolvida
na Proteção Radiológica foi se aprimorando e se consolidando nos princípios de
justificação, otimização e limitação de doses.

Com base nesses princípios e nos fatores básicos de proteção radiológica, regras e
procedimentos simples e eficientes são elaborados para que o trabalho com fontes
emissoras de radiação ionizante torne-se algo seguro, a despeito dos riscos e
efeitos biológicos que a radiação ionizante pode provocar no corpo humano ou no
meio ambiente.

A seguir apresentaremos recomendações de proteção Radiológica específicas para


cada área de aplicação na medicina: radiodiagnóstico, medicina nuclear e
radioterapia.

5.1. Proteção Radiológica em Radiodiagnóstico


As práticas de radiodiagnóstico que empregam equipamentos emissores de raios X
requerem procedimentos específicos de Proteção Radiológica que, em geral,
resumem-se em regras simples e de grande eficácia. Neste item veremos
recomendações para as práticas envolvendo o uso de equipamentos emissores de
raios X para produção de imagens que auxiliem no diagnóstico (Radiodiagnóstico) e
em procedimentos cirúrgicos para diagnóstico e tratamento (Radiologia
Intervencionista).

Para tratarmos das recomendações de Proteção Radiológica é importante


diferenciarmos os tipos de feixes que a fonte principal de radiação, o equipamento
de raios X, pode produzir. A figura abaixo ilustra uma tomada radiográfica simulada
em um paciente. Verificamos que com o acionamento do equipamento de raios X,
temos a produção de três tipos diferentes de fontes de exposição: o feixe primário ou
principal, a radiação de fuga e a radiação espalhada (os dois últimos também
normalmente classificados como radiação secundária).

Figura 12: Tipos de feixes produzidos em tomadas radiográficas

O feixe primário ou principal é produzido dentro do tubo de raios X e liberado para o


exterior pelo colimador do equipamento na direção do paciente. O feixe atinge o
paciente e o sistema de formação de imagem para a realização do exame. A cada
disparo uma quantidade imensa de fótons de raios X é produzida e liberada na
direção do colimador. Desta, apenas uma pequena porção é absorvida no paciente e
no sistema de formação de imagens, outra porção é espalhada e uma quantidade
significativa simplesmente não interage, e deve ser absorvida para garantir proteção
nas vizinhanças na direção do feixe primário.

O disparo do equipamento produz raios X em todas as direções, a porção liberada


na direção do colimador fará parte do feixe primário, o restante, dirigido para as
demais direções, que não interage com a blindagem intrínseca do equipamento é
denominado de radiação de fuga.

O terceiro feixe importante e que tem forte influência nos métodos de proteção
radiológica é a radiação espalhada. Esse feixe é produzido fora do tubo do
equipamento devido à interação, por efeito Compton, do feixe primário com a
matéria que encontra em seu percurso. Em cada tomada radiográfica há radiação
espalhada para todas as direções. Dependendo do ângulo de incidência o feixe
espalhado tem energia pouco menor que o feixe principal e, devido à sua existência,
procedimentos de proteção radiológica devem ser adotados para segurança de
trabalhadores, pacientes e indivíduos do público.

5.1.1. Procedimentos Gerais de Proteção Radiológica

Toda filosofia da proteção radiológica pode ser colocada em prática quando os


agentes envolvidos nas aplicações das radiações ionizantes, sejam trabalhadores,
médicos, responsáveis ou aqueles que fazem parte dos órgãos reguladores e
normatizadores, adotam postura adequada para o trabalho com um agente de risco.

A proteção radiológica começa com a justificação das práticas e exposições. A


prática do radiodiagnóstico já se mostrou justificável, mas atenção especial deve ser
dada às novas modalidades médicas e a procedimentos adotados para solicitação
de exames. A proteção radiológica deve ser otimizada de acordo com o princípio
ALARA, ou seja, as doses devem ser tão baixas quanto racionalmente exequíveis.
Perguntas que mais bem se aplicam para a adoção deste princípio seriam algo
parecido com: Já fizemos tudo que poderíamos para melhorar a proteção radiológica
considerando os recursos disponíveis? Ou, os níveis de doses dos trabalhadores e
indivíduos do público já estão em níveis considerados aceitáveis ou precisamos de
maiores investimentos na proteção radiológica?

É importante também que todos os envolvidos, mas principalmente trabalhadores e


pacientes, tenham conhecimento dos riscos e dos benefícios do uso das radiações e
que haja treinamentos e reciclagem periódicos, para que o desenvolvimento das
ações seja realizado com bom senso, sem medo ou displicência.

5.1.2. Fatores básicos de Proteção Radiológica

Em qualquer aplicação é sempre importante considerar as regras básicas de


proteção radiológica para redução de doses e exposições (no capítulo 4 mostramos
como esses fatores podem contribuir significativamente com a redução de doses):

• Menor tempo de exposição à fonte;


• Maior distância à fonte;
• Uso de blindagens entre operador e a fonte.

5.1.3. Aspectos legais

Naturalmente a prática de proteção radiológica exige a observância das normas e da


legislação relacionada com o uso de fontes de radiação. Para o radiodiagnóstico
médico e odontológico a Portaria N. 453 do Ministério da Saúde, publicada em 01 de
Junho de 1998, descreve o regulamento técnico que estabelece as diretrizes básicas
de proteção radiológica e que dispõe sobre o uso dos raios X diagnósticos em todo
território nacional (no capítulo 7 discorremos sobre essa portaria e os principais
pontos do regulamento técnico).

5.1.4. Projeto Físico

A estrutura física para a sala de exames deve ser planejada e a espessura das
blindagens necessárias calculadas de acordo com o uso do equipamento e da
ocupação nas vizinhanças no entorno da sala de exames. A espessura das
blindagens deve ser calculada de acordo com modelos matemáticos disponibilizados
em recomendações internacionais. A figura abaixo mostra uma estrutura típica para
o planejamento de uma sala.

Figura 13: Estrutura de uma sala de exames em radiodiagnóstico

A barreira primária, destinada para contenção da porção do feixe principal que não
interage com o paciente, em geral é mais espessa que as demais, denominadas de
barreiras de proteção secundárias. As barreiras não absorvem completamente todos
os fótons que as atingem, mas elas devem ter, no mínimo, espessuras adequadas
para que os níveis de doses nas vizinhanças da sala respeitem os níveis máximos
estipulados de dose para o tipo de indivíduo que ocupa o local (trabalhador ou
público). Normalmente utiliza-se um revestimento adicional de massa baritada, entre
1 e 2 cm, para as paredes e espessuras entre 0,5 e 2,0 mm de chumbo para portas
e batentes. Muitas salas de exames para radiografia geral contam com um biombo
de alvenaria para proteção do operador do equipamento. Salas de mamografia
contam com vidro plumbífero que garante proteção adequada da operadora, visto
que em mamografia os raios X utilizados são de baixa energia e requerem
espessuras menores que em outras aplicações. Salas de tomografia têm uma sala
de comando anexa. Para aplicações em que os feixes são bem colimados e com
menores cargas de trabalho, como em odontologia periapical, em geral, não é
necessário blindagens adicionais e pode-se contar com o fator distância para
garantia de proteção do operador.

Depois de planejadas e construídas, a adequação das blindagens é verificada por


meio de medidas de levantamentos radiométricos que devem ser realizados
periodicamente.

5.1.5. Manutenção do equipamento

Testes periódicos nos equipamentos podem detectar e também antecipar eventuais


problemas técnicos, o que contribui para a manutenção preventiva e para uma maior
vida útil do equipamento. Por outro lado a manutenção adequada das condições de
uso dos equipamentos e os testes periódicos para a avaliação da qualidade da
imagem, além de uma exigência legal, contribuem para redução de doses nos
trabalhadores, indivíduos do público e pacientes.

5.1.6. Equipamentos de proteção

Em várias situações não podemos utilizar ao mesmo tempo os três fatores básicos
de proteção radiológica e alguma exposição torna-se necessária. Para essas
situações foram desenvolvidos equipamentos de proteção individual como avental
de chumbo, protetor de tireoide, luvas plumbíferas etc. Esses acessórios contêm
material com chumbo e oferecem maior blindagem aos raios X e diminuem a
magnitude das exposições. Os serviços de diagnóstico devem ter disponíveis em
número adequado aventais de chumbo, protetores de tireoide, luvas plumbíferas,
óculos plumbíferos etc, sempre que aplicável.
 
Figura 14: Avental de chumbo.

Figura 15: Protetor de tireóide.


Figura 16: Luvas plumbíferas.

5.1.7. Sinalização e Controle de Acesso

Todas as salas com equipamentos emissores de radiação ionizante devem ser


adequadamente sinalizadas com o símbolo que indica a presença de radiação
ionizante.

Figura 17: Símbolo internacional que indica a presença de radiação ionizante.

No ambiente de trabalho a sinalização tem o papel de alertar e conscientizar os


trabalhadores sobre a presença de radiação ionizante. Esse alerta indica a
necessidade de adotar uma postura de segurança e proteção frente ao agente de
risco com o qual trabalha, além de servir como aviso aos indivíduos do público sobre
a presença de fontes de radiação. O símbolo não deve ser utilizado
inadvertidamente, em situações contrárias à de seu objetivo e jamais com intenção
de assustar as pessoas, pois é uma indicação da necessidade de respeito frente ao
agente de risco.

Figura 18: Porta de entrada típica de uma sala de exames de radiodiagnóstico.

De acordo com a legislação, outros tipos de sinalização são necessários; por


exemplo, as salas de exames devem ter avisos para alertar as mulheres para que
elas avisem ao operador se estão ou podem estar gestantes. É também necessária
lâmpada de sinalização com luz vermelha para advertência durante as exposições.
Esta lâmpada deve ser posicionada sobre a porta de entrada da sala de exames.
Figura 19: Aviso às mulheres gestantes.

Figura 20: Luz de advertência sobre a porta.

O operador deve controlar o acesso às salas de exames e permitir que apenas os


pacientes e acompanhantes, quando necessário, entrem na sala. Em certas
situações há necessidade de confortar ou conter o paciente durante procedimentos
radiológicos. Nesses casos é preferível que algum acompanhante, voluntariamente,
o faça. A exposição do voluntário nessas situações configura-se como exposição
médica, portanto o técnico de raios X deve evitar assumir esta tarefa.

 
Figura 21: Avisos típicos em serviços de radiodiagnóstico.

Figura 22: Avisos típicos em serviços de radiodiagnóstico.


5.1.8. Procedimentos de trabalho

Além do projeto da sala e da disponibilização de equipamentos de proteção


individual, um fator muito importante para a proteção e segurança adequada de
trabalhadores e pacientes são os procedimentos de trabalho. Verifica-se na prática,
que as situações que levam a maiores doses em trabalhadores e pacientes são, em
geral, provocadas por falta de aplicação adequada dos procedimentos de proteção
radiológica, o que reflete a necessidade de treinamentos e reciclagens periódicas a
respeito desses procedimentos. Tanto na legislação atual do Ministério da Saúde
quanto do Ministério do Trabalho e Emprego, treinamentos periódicos são previstos.

O empregador deve fornecer aos trabalhadores instruções de segurança e distribuir


os procedimentos de proteção radiológica. Tais documentos devem constar no
Plano de Proteção Radiológica.
Apresentamos a seguir alguns procedimentos simples e de grande eficácia para a
proteção radiológica de trabalhadores em aplicações específicas.

5.1.8.1. Radiologia Convencional

Na radiologia convencional normalmente há um único trabalhador envolvido nas


tomadas radiográficas. Os disparos são efetuados em sala de comando ou, mais
comumente, em biombos de proteção dentro da própria sala de exames. Os
biombos normalmente contêm vidros plumbíferos, que permitem a visualização dos
pacientes. Como medidas de proteção, podemos citar:
• Efetuar os disparos dentro da área de proteção;
• Colimar adequadamente a área de interesse do paciente para o exame;
• Tomar medidas preventivas para evitar a repetição de tomadas radiográficas;
• É fundamental o conhecimento a respeito do posicionamento adequado do
paciente;
• Manter a porta da sala fechada;
• Oferecer vestimentas plumbíferas a eventuais acompanhantes;
• Oferecer acessórios plumbíferos para proteção de regiões específicas do
corpo do paciente, tais como protetores de gônadas ou protetores de tireoide,
quando aplicável;
• Controlar o acesso;

5.1.8.2. Radiologia com equipamentos móveis

Em certas situações é necessário o uso de equipamentos portáteis de raios X para


diagnósticos em quartos e enfermarias. Nessas situações normalmente não se conta
com salas com blindagens estruturais específicas, a condição para formação de
imagem é mais precária e é possível a presença de indivíduos do público. Como
medidas de proteção, podemos citar:
• Limitar sempre que possível o número de pessoas presentes;
• Efetuar o alinhamento correto entre o feixe e o filme;
• Colimar o feixe exclusivamente à região de interesse;
• Usar vestimentas plumbíferas.

5.1.8.3. Radiologia Pediátrica

Na radiologia pediátrica é necessário considerar que os pacientes são menos


cooperativos, apresentam respiração mais acelerada e têm maior expectativa de
vida, então, além dos procedimentos de proteção do profissional, cuidados
adicionais são aplicáveis para maior proteção do paciente:
• Utilizar elementos de imobilização;
• Efetuar colimação mais exata e precisa;
• Utilizar tempos de disparo mais curtos;
• Proteger o paciente com protetores de gônadas e tireoide;
• Tomar medidas preventivas para evitar a repetição de tomadas radiográficas;
• Oferecer vestimentas plumbíferas a eventuais acompanhantes;
• Manter a porta da sala fechada;
5.1.8.4. Mamografia

Em mamografia a proteção radiológica da operadora é facilitada devido ao uso de


raios X de baixa energia, assim basta à técnica manter-se atrás do vidro plumbífero
durante os disparos. Para a paciente, entretanto, não é um exame simples. Deve ser
considerado o estado emocional e psicológico da paciente, a possível exposição de
pessoas assintomáticas e a necessidade de grande contraste na imagem. Como
medidas de proteção à paciente, podemos citar:
• Utilizar os dispositivos de compressão;
• Tomar medidas preventivas para evitar a repetição de tomadas radiográficas;
• Oferecer vestimentas plumbíferas a eventuais acompanhantes;
• Efetuar verificações periódicas das condições de uso e de qualidade da
imagem do equipamento.
• Manter a porta da sala fechada;

5.1.8.5. Tomografia Computadorizada (CT)

Em tomografia a exposição é realizada a partir de uma sala de comando anexa que


conta com um vidro plumbífero para garantia de proteção aos operadores. Como
medidas adicionais de segurança, podemos citar:
• Os trabalhadores devem utilizar vestimentas plumbíferas caso seja
necessário estar junto ao paciente durante o exame;
• Manter a porta da sala fechada;
• Oferecer vestimentas plumbíferas a eventuais acompanhantes;
• Controlar o acesso;

5.1.8.6. Radiologia Intervencionista

A radiologia intervencionista é caracterizada pelo uso de feixes contínuos de raios X,


acionados pelo médico durante os procedimentos, de dentro da própria sala de
exames. É uma técnica com grande número de pessoal envolvido, trabalhando
próximo ao paciente e à fonte de exposição e espalhamento. Médicos de diferentes
especialidades atualmente realizam procedimentos intervencionistas
(cardiovasculares, endoscopistas, ortopedistas e médicos não radiologistas). Muitas
dessas especialidades ainda não têm exigência de treinamento em Proteção
Radiológica, o que pode contribuir para a magnitude das doses. Essas
características fazem da radiologia intervencionista a prática que envolve as maiores
doses, tanto na equipe de trabalho quanto nos pacientes. Como medidas de
proteção, podemos citar (mais detalhes, veja o capítulo sobre Radiologia
Intervencionista):
• Maximar, na medida do possível, a distância entre o tubo de raios X e o
paciente;
• Minimizar a distância entre o paciente e o intensificador de imagem;
• Evitar tempo de exposição desnecessário;
• Colimar o feixe exclusivamente à região de interesse;
• Otimizar a técnica levando em conta o compromisso entre menor dose e boa
qualidade de imagem;
• A equipe deve usar avental/saiotes plumbíferos;
• Otimizar a quantidade de componentes da equipe;
• Usar protetores de tireóide e óculos plumbíferos;
• Garantir treinamento e capacitação à equipe de trabalho;
• O posicionamento adequado da equipe pode contribuir para redução de
doses;
• Controle de acesso.
• O controle efetivo de desempenho do equipamento permite menores doses
no paciente e consequentemente na equipe de trabalho.

5.1.8.7. Radiologia odontológica

Na odontologia são utilizadas duas técnicas principais: radiologia periapical e


radiologia panorâmica. Na radiologia periapical a região de interesse é pequena e,
portanto, o feixe é bem colimado, o que contribui para uma menor quantidade de
radiação espalhada. O operador pode utilizar o cabo disparador, e manter-se, pelo
menos, a dois metros de distância durante a exposição. Para pacientes e
acompanhantes é necessário oferecer vestimentas plumbíferas. Na radiologia
panorâmica é utilizado feixe de raios X contínuo durante o exame, porém o comando
normalmente é externo à sala. Nesse caso medidas de segurança similares à
radiologia convencional são adotadas.

5.1.9. Monitoração

A detecção de radiação ou dosimetria tem objetivos diversos e é sempre necessária


na grande maioria das aplicações que se faz com fontes de radiação. Em locais de
trabalho onde as exposições caracterizam o trabalhador como Indivíduo
Ocupacionalmente Exposto (IOEs) há necessidade de definir áreas (livres,
supervisionadas ou controladas) e implementar algum monitoramento para
determinar as doses ocupacionais.

Em radiodiagnóstico há dois tipos principais de detecção dos níveis radiométricos


com objetivos específicos: o levantamento radiométrico e a monitoração individual
de trabalhadores.

5.1.9.1. Levantamento Radiométrico

Os testes de levantamento radiométrico têm como objetivo verificar a adequação


das blindagens estruturais e comprovar a proteção oferecida para os operadores e
indivíduos do público. No levantamento radiométrico são efetuadas medidas dos
níveis radiométricos em diversos pontos na vizinhança das salas de exames durante
a simulação de exames. Os níveis medidos são corrigidos por estimativas das taxas
de uso do equipamento e das taxas de ocupação em cada local. Os resultados são
então comparados com os limites estabelecidos pela legislação. Os resultados
destes levantamentos podem apontar falhas nas estruturas de blindagens,
permitindo que se corrija o problema antes que gere doses inaceitáveis para os
ocupantes daquela vizinhança.
                       
Figura 23: Câmara de Ionização utilizada no levantamento radiométrico.

5.1.9.2. Monitoração Individual

A monitoração individual de trabalhadores é basicamente a medida de doses


recebida pelos IOEs durante a jornada de trabalho. Além da estimativa das doses
ocupacionais recebidas, dentre os objetivos da monitoração individual podemos
destacar: a confirmação da aplicação do princípio de limitação de doses ou a
indicação de níveis intoleráveis de doses ocupacionais; avaliação das condições de
trabalho; detecção de alterações nas condições de trabalho e controle e verificação
da Proteção Radiológica. A monitoração individual fornece ainda dados para fins
médicos, finalidades legais e para estudos epidemiológicos.

A monitoração deve ser provida pelos empregadores por meio de contratação de


laboratórios credenciados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear. Os
laboratórios por sua vez, desenvolvem métodos de medidas que fornecem
estimativas de doses ocupacionais que possibilitem a aplicação dos princípios de
otimização e limitação de doses da proteção radiológica.

Os métodos de medidas baseiam-se em fenômenos físicos, como a


Termoluminescência (TL) e a Luminescência Opticamente Estimulada (OSL, na sigla
em inglês), apresentados por cristais detectores naturais ou produzidos
artificialmente (ex. CaF2, CaSO4:Dy, LiF, Al2O3:C etc - ver figura abaixo). Esses
detectores têm, de certa forma, a capacidade de armazenar a energia transferida a
eles quando da passagem de radiação ionizante. Para a realização das medidas, a
energia armazenada pode ser liberada quando os detectores são aquecidos a
temperaturas da ordem de centenas de graus (no caso da TL) ou quando recebem
estímulos luminosos (no caso da OSL). Essa característica permite a medida de
doses integradas em determinados períodos como, por exemplo, na monitoração
individual, em que o tempo de integração é de, normalmente, um mês.

Figura 24: Detectores termoluminescentes de CaSO4:Dy.

A partir do fenômeno físico (Incluir link para filme demonstrando a TL) os


laboratórios desenvolvem monitores (comumente chamados de dosímetro individual
ou monitor pessoal – ver figura abaixo) que contém combinações de detectores e
filtros. Após a tomada das medidas e a partir de um algorítmo de cálculo, as
estimativas de doses são realizadas.
Figura 25: Monitor Individual para monitoração de trabalhadores.

5.1.9.3. Aspectos Operacionais quanto à monitoração pessoal

• Segundo a legislação, todo indivíduo que trabalha com raios X diagnósticos


deve usar o dosímetro pessoal durante a jornada de trabalho e enquanto
permanecer em área controlada;
• A troca dos dosímetros e o fornecimento dos relatórios de doses devem ter
periodicidade mensal;
• Os dosímetros devem ser utilizados na região mais exposta do corpo,
normalmente no tronco;
• Os trabalhadores em radiodiagnóstico médico que, durante sua jornada de
trabalho, têm que utilizar avental de chumbo, devem utilizá-lo sobre o avental.
Essa condição deve ser informada ao laboratório durante o cadastramento de
usuários. O uso do dosímetro sobre o avental permite a estimativa da dose
efetiva no corpo todo e a estimativa da dose equivalente em áreas não
protegidas pelo avental, como o cristalino. Em situações em que o usuário
utiliza muito pouco o avental de chumbo em sua jornada de trabalho, o
dosímetro adequado é o denominado dosímetro de tórax.
• Mensalmente também é enviado pelos laboratórios um dosímetro para
avaliação do nível de radiação de fundo ou natural no local. Essa dose de
radiação de fundo deve ser descontada na medida de doses dos dosímetros
pessoais, já que a monitoração individual pretende unicamente estimar a
dose ocupacional dos trabalhadores. Normalmente esse dosímetro é
denominado “Padrão”, “Padrão de Referência”, “Padrão Ambiental” etc,
dependendo do laboratório. Esse dosímetro padrão para medida da dose
ambiental deve ser posicionado distante das fontes utilizadas na instalação
para uma melhor avaliação da exposição natural. Não deve ser colocado na
área de acionamento dos equipamentos.
• Em casos de exposição acidental do dosímetro pessoal, o laboratório deve
ser informado e o monitor trocado;
• Não irradie propositalmente o dosímetro pessoal! Na maioria das situações,
com uma investigação adequada, é possível identificar se a exposição foi
proposital ou acidental. A irradiação proposital pode levar a implicações
legais, inclusive com demissão por justa causa;
• Não viole o dosímetro pessoal, o laboratório pode se negar a efetuar a
avaliação nesse caso;
• Em casos de extravio do dosímetro o laboratório deve ser informado
imediatamente;
• Em qualquer suspeita de maior exposição, os dosímetros podem ser
encaminhados ao laboratório para leitura de emergência;
• Sempre que forem avaliadas doses acima no nível de investigação indicado
pela autoridade sanitária, atualmente 1,5 mSv em um mês, uma análise deve
ser realizada e documentada para avaliação dos motivos que contribuíram
para a magnitude da dose;
• Sempre que forem avaliadas doses acima no nível considerado de “alta
dose”, atualmente 4,0 mSv em um mês, uma análise deve ser realizada e
documentada para avaliação dos motivos que contribuíram para a magnitude
da dose. Nesse caso o laboratório informa tanto o empregador quanto à
CNEN, imediatamente.

5.2. Proteção Radiológica em Medicina Nuclear

A Medicina Nuclear faz uso de compostos químicos radioativos como ferramenta


para os procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Estes compostos são
administrados aos pacientes por injeção, ingestão ou inalação e permitem, portanto,
o contato direto do material radioativo com quem os manipula, o que implica a
possibilidade concreta e direta de ocorrência de contaminação. Este tipo de fonte de
radiação é classificado como fonte não selada ou aberta.

5.2.1. Irradiação e Contaminação

Um dos aspectos mais importantes de Proteção Radiológica relacionados ao uso de


fontes emissoras de radiação ionizante não seladas é a diferenciação dos conceitos
de irradiação e de contaminação. Esta diferenciação determina condutas de
proteção radiológica distintas e determina, consequentemente, as diferenças de
planejamento.

As fontes não seladas tipicamente utilizadas em Medicina Nuclear levam, tanto à


irradiação quanto à contaminação e, portanto, o entendimento das diferenças é
essencial no planejamento em um serviço de Medicina Nuclear.

Inicialmente é importante entender claramente a diferença que existe entre um


material radioativo e a radiação que ele emite. O Césio-137, por exemplo, é um
isótopo ou material radioativo. Este isótopo radioativo tem a propriedade física de
emitir radiação ionizante na forma de radiação beta e de radiação gama.
Analogamente o Tecnécio-99m é um isótopo radioativo que emite radiação gama.
Quando a radiação emitida por um isótopo radioativo atinge um indivíduo ou um
objeto, dizemos que este indivíduo ou objeto está sendo irradiado. Repare que neste
processo não há necessidade de que haja contato físico com o isótopo radioativo.
Isso implica que basta retirar o indivíduo ou objeto do raio de ação da radiação, para
que cesse sua irradiação.

Quando há contato direto do isótopo radioativo com um indivíduo ou objeto, dizemos


que este está contaminado. Nesta situação não há como afastar o indivíduo ou
objeto da fonte emissora e consequentemente não há interrupção da irradiação.
Nestes casos, para que seja possível interromper a irradiação é necessário remover
o isótopo radioativo da região contaminada, removendo a contaminação. Estes
processos são conhecidos como descontaminação radioativa. A figura abaixo ilustra
a diferença dos conceitos.

Figura 26: Demonstração da diferença entre contaminação e irradiação

5.2.2. Procedimentos Gerais de Proteção Radiológica

A Medicina Nuclear abrange procedimentos diagnósticos e terapêuticos e os


primeiros representam a grande maioria. O planejamento adequado para a
realização destes procedimentos envolve aspectos de proteção radiológica que
visam principalmente a minimização da magnitude das irradiações e a minimização
das probabilidades de ocorrência de contaminações. Apresentamos a seguir alguns
dos principais procedimentos de proteção radiológica adotados em serviços de
Medicina Nuclear e sua relação com os conceitos de irradiação e contaminação.
• Utilização de blindagens estruturais – As dependências de um serviço de
Medicina Nuclear requerem um estudo denominado cálculo de blindagens
estruturais, que visa determinar quais ambientes necessitam de blindagens
adicionais em paredes, portas, visores e lajes. O objetivo da utilização de
blindagens adicionais é reduzir a magnitude das irradiações nas vizinhanças.
Os materiais mais comumente utilizados como blindagens adicionais são o
chumbo e o concreto para paredes e lajes, o chumbo para portas, e vidros
plumbíferos para visores;

Figura 27: Porta blindada em serviço de Medicina Nuclear.

Figura 28: Biombo de chumbo.


Figura 29: Visor de vidro plumbífero.

• Utilização de luvas descartáveis, sapatos fechados e jalecos de algodão – O


uso destes acessórios tem por objetivo evitar que mãos, pés e roupas sejam
diretamente contaminados por materiais radioativos;
• Utilização de aventais de chumbo e protetores de tireoide – O uso destes
acessórios plumbíferos tem por objetivo minimizar a magnitude das
irradiações em situações como o posicionamento e acompanhamento de
pacientes na sala de exames, a preparação e a administração de
radiofármacos, e a assistência a pacientes internados submetidos a
procedimentos terapêuticos;
Figura 30: Aventais de chumbo.

Figura 31: Protetor de tiróide.

Figura 32: Óculos plumbífero.


• Utilização de superfícies impermeáveis – Superfícies das bancadas de
manipulação de radioisótopos, pisos e paredes são confeccionadas ou
revestidas com materiais impermeáveis, visando facilitar processos de
descontaminação radioativa;

Figura 33: Detalhe de piso liso e impermeável com canto arredondado.

• Utilização de forrações impermeáveis em procedimentos terapêuticos – Nos


procedimentos terapêuticos os pacientes ingerem quantidades
significativamente maiores de materiais radioativos, comparadas aos
procedimentos diagnósticos. Isso significa que estes pacientes se tornam
“mais radioativos” e que suas secreções (fezes, urina, saliva e suor) podem
gerar contaminações significativas. Para evitar que as superfícies do quarto
de internação sejam contaminadas, além das impermeabilizações de pisos e
paredes, utiliza-se forrações impermeáveis, tais como plásticos sobre
interruptores, maçanetas, telefones, colchões, travesseiros, vasos sanitários,
torneiras, etc.;

• Utilização de acessórios de chumbo – Há inúmeros acessórios de chumbo utilizados


em Medicina Nuclear, cuja finalidade é diminuir a magnitude das irradiações. Alguns
exemplos: cofres de chumbo para armazenamento de rejeitos radioativos, blocos de
chumbo e visores de chumbo para áreas de manipulação, carrinhos de transporte de
fontes, porta seringas, etc.;

Figura 34: Protetor de seringa.

Figura 35: Armário blindado.


Figura 36: Blindagens para fontes de calibração.

Figura 37: Tijolos de chumbo de encaixe.

5.2.3. Monitoração

Qualquer uso que se faça de fontes emissoras de radiação ionizante requer um


sistema de detecção. A proteção radiológica, para atingir seus objetivos, não é
exceção. Seja como ferramenta para avaliar a intensidade das irradiações, seja
como ferramenta para investigar a ocorrência de contaminações, os sistemas de
detecção são essenciais em proteção radiológica.
5.2.3.1. Avaliação da Intensidade de Irradiações

Há diversas situações em que a avaliação das intensidades de irradiação é


fundamental. Estas avaliações são representadas por grandezas como a taxa de
exposição e a taxa de dose equivalente.

Uma das situações que requer essa avaliação é a checagem da eficiência de


blindagens, sejam estruturais, sejam de acessórios. Para a checagem da eficiência
de blindagens estruturais faz-se um conjunto de medidas denominadas
levantamento radiométrico. Esse levantamento pode ser efetuado utilizando-se um
detector do tipo Geiger-Muller ou uma câmara de ionização. O objetivo é medir os
níveis de radiação que atravessam as blindagens estruturais de uma sala (paredes,
portas, lajes, visores) com o intuito de verificar se essas blindagens oferecem
proteção considerada adequada. De maneira similar podem ser testadas as
eficiências de acessórios utilizados como blindagens (aventais de chumbo,
protetores de seringa, etc.), e verificar qual o grau de proteção que oferecem.

Figura 38: Monitor Geiger-Muller.


Outra situação que requer o conhecimento da intensidade das irradiações é a
monitoração pessoal. Este tipo de monitoração objetiva conhecer as taxas de dose
equivalente a que se submetem os indivíduos ocupacionalmente expostos de uma
instalação. Este tipo de monitoração fornece um controle da qualidade do exercício
das atividades com possibilidade de exposição. Um acréscimo não previsto no valor
da taxa de dose equivalente em determinado período é indicativo da ocorrência de
algum erro operacional ou de planejamento, que pode ser corrigido antes que os
níveis de dose atinjam valores intoleráveis.

Figura 39: Monitor pessoal para medida de doses ocupacionais.

5.2.3.2. Investigação da ocorrência de contaminações

O trabalho com fontes radioativas não seladas gera, inevitavelmente,


contaminações. Grande parte destas contaminações é prevista, como por exemplo,
as contaminações das seringas utilizadas para a injeção de radiofármacos em
pacientes. Há, entretanto, contaminações não previstas, que ocorrem com
frequência em serviços de Medicina Nuclear. Podem ser pequenos respingos ou
derramamentos de material radioativo - dificilmente perceptíveis a olho nu - mas que
podem gerar múltiplas contaminações se não detectados e removidos. Uma
maçaneta de porta, acidentalmente contaminada por algum indivíduo que estava
com a luva contaminada, pode ser tocada por outros indivíduos, que passarão a ter
suas mãos contaminadas e assim propagarão a contaminação em cada objeto que
tocarem.

Figura 40: Monitor Geiger-Muller com sonda para investigação de contaminação

Para investigar a ocorrência destas contaminações recomenda-se que se façam


frequentemente, monitorações em todas as áreas sujeitas a contaminações. O
sistema de detecção mais comumente utilizado para estas investigações em
serviços de Medicina Nuclear é o detector do tipo Geiger-Muller com sonda
específica para investigação de contaminações, usualmente uma sonda do tipo
panqueca. Nos serviços de Medicina Nuclear, toda e qualquer área pode ser
considerada como sujeita a contaminações e, portanto, merece investigação. Há,
entretanto, áreas mais sujeitas do que outras, o que permite que se estabeleçam
frequências de monitoração diferentes.

5.2.4. Gerenciamento de Rejeitos Radioativos

O trabalho com fontes radioativas não seladas gera inevitavelmente rejeitos


radioativos. São considerados rejeitos radioativos todos aqueles materiais que
contenham radioisótopos em quantidades superiores a valores especificados pela
Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), denominados níveis de isenção, e
para os quais a reutilização seja imprópria ou não prevista.

Os rejeitos radioativos gerados em serviços de Medicina Nuclear compreendem


seringas e acessórios utilizados na injeção de radiofármacos, papéis e plásticos
contaminados, utilizados como forração de superfícies, roupas de cama utilizadas
por pacientes, luvas descartáveis utilizadas pelos profissionais do setor, restos de
comida de pacientes internados submetidos a tratamento terapêutico, e toda sorte
de materiais contaminados. Estes rejeitos possuem, como característica comum, um
tempo de meia vida curto. Isso implica que podem e devem aguardar o decaimento
radioativo na própria instalação. Há inúmeras regras e recomendações para este
gerenciamento e a seguir são apresentadas algumas delas:

• Os rejeitos radioativos devem ser segregados por isótopo;


• Os rejeitos radioativos devem ser segregados em sólidos e líquidos;
• Os rejeitos radioativos que apresentarem algum outro risco associado, tal
como risco biológico ou risco químico, devem ser segregados dos demais;
• Rejeitos radioativos devem ser armazenados separadamente de
quaisquer outros tipos de rejeitos;
• Recipientes que contenham rejeitos radioativos devem ser identificados e
sinalizados com o símbolo internacional da presença de radiação
ionizante;
• Recipientes que contenham rejeitos radioativos devem ser adequados às
características físicas e químicas dos rejeitos;
• Rejeitos radioativos podem ser eliminados no sistema de coleta de lixo
urbano (rejeitos sólidos) ou na rede de esgotos (rejeitos líquidos) somente
quando suas atividades específicas forem inferiores aos limites para
descarte determinados em norma específica da Comissão Nacional de
Energia Nuclear (norma CNEN-NE-6.05);
Figura 41: Caixa blindada para depósito temporário de rejeitos em Medicina Nuclear

                     
Figura 42: Depósito de Rejeitos em Serviço de Medicina Nuclear

 
Figura 43: Foto de um depósito para armazenamento de rejeitos radioativos

Figura 44: Exemplos de recipientes para armazenamento de rejeitos radioativos

5.3. Proteção Radiológica em Radioterapia

Embora a prática de radioterapia envolva doses muito maiores e fontes mais


intensas que em medicina nuclear e no radiodiagnóstico, a proteção radiológica na
radioterapia é bem mais simples. Por outro lado o planejamento das salas e o
processo de licenciamento são muito mais exigentes que para as outras áreas.
Como a maioria das fontes é fixa, a proteção é mais fácil. Em geral, as paredes da
sala e os dispositivos que impedem a liberação de radiação com a equipe na sala
são suficientes para garantir uma boa proteção. É claro que isso não significa que
devemos descuidar da proteção radiológica. Embora os acidentes sejam raros, o
risco potencial é muito grande, pois envolve fontes com energia e taxa de exposição
muito altas. Qualquer pequeno erro pode ter resultados muito graves.

Todos os Serviços de Radioterapia devem ter um Plano de Radioproteção em que


se estabelecem todos os procedimentos a serem empregados para garantir a
segurança e diminuir os riscos. Também nesse documento devem estar descritos os
procedimentos em caso de emergência, com detalhamento da responsabilidade de
cada membro da equipe de trabalho. O Plano de Radioproteção deve ser submetido
à Comissão Nacional de Energia Nuclear para aprovação.
6. LEGISLAÇÃO

A legislação relacionada à Proteção Radiológica tem como base recomendações de


instituições internacionais, elaboradas a partir de diversos estudos sobre os usos e
efeitos das radiações ionizantes nas mais diversas práticas. No âmbito internacional,
as recomendações básicas são elaboradas por comitês específicos da International
Commission on Radiological Protection (ICRP) e da International Commission on
Radiation Units and Measurements (ICRU). Estudos sobre os efeitos das radiações
ionizantes também são elaborados pela UNSCEAR (United Nations Scientific
Committee on the Efects of Atomic Radiation), órgão da ONU.

As recomendações consensuais no âmbito internacional são adotadas pela Agência


Internacional de Energia Atômica (IAEA) que orienta os países signatários nas
recomendações locais. No âmbito nacional a Comissão Nacional de Energia Nuclear
(CNEN) é atualmente responsável pela normatização e controle do uso de materiais
radioativos não isentos do controle regulatório e de equipamentos emissores de
radiação ionizante. Com base nas recomendações internacionais a CNEN, no que
compete à sua área de atuação, elabora a legislação nacional sobre o uso de
materiais radioativos e de equipamentos emissores de radiação ionizante.

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), também no que compete às suas


atribuições, publicou, em 2005, norma regulamentadora específica para serviços na
área da saúde, a NR32, visando estabelecer as diretrizes básicas para a
implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores
dos serviços de saúde. Ainda no âmbito nacional a fiscalização e controle para as
práticas médicas ficam a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA), do Ministério da Saúde (MS), que publica legislação própria para
regulamentar o uso de fontes de radiação para as práticas de Radioterapia,
Medicina Nuclear e Radiodiagnóstico.
No âmbito local, seja o estabelecimento uma clínica, um hospital, um prestador de
serviço ou uma indústria, os usuários de fontes de radiação podem contar com
setores previstos na legislação da CNEN, MTE ou ANVISA como os Serviços de
Proteção Radiológica (SPR) ou os Serviços Especializados em Engenharia de
Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT).

As normas da CNEN, MTE e ANVISA, orientam os responsáveis finais pelo uso e


controle de fontes de radiação ou equipamentos emissores de radiação, atribuem
responsabilidades e estabelecem procedimentos de fiscalização para seus
respectivos agentes, nos âmbitos nacional, estadual e municipal.

O caráter de controle e fiscalização associado às normas, em geral, aliado à cultura


padrão de que qualquer tipo de fiscalização é ruim, dificulta muitas vezes um melhor
aproveitamento deste vasto material. Podemos verificar que as normas relacionadas
à Proteção Radiológica, independente do órgão, muitas vezes trazem conteúdo
positivo e de fácil aplicação, baseado em recomendações internacionais e em
estudos sobre a ação das radiações nos seres humanos e no meio ambiente. A
necessidade de regulamentação é clara e a aplicação desses conhecimentos
escondidos por trás da legislação tende a melhorar a qualidade da Proteção
Radiológica na prática.

6.1. Recomendações da CNEN

A Comissão Nacional de Energia Nuclear é uma autarquia federal, vinculada ao


Ministério da Ciência e Tecnologia e tem as seguintes finalidades institucionais
(conforme consta no sítio da CNEN na internet: www.cnen.gov.br):
I - colaborar na formulação da Política Nacional de Energia Nuclear;
II - executar ações de pesquisa, desenvolvimento, promoção e prestação de
serviços na área de tecnologia nuclear e suas aplicações para fins pacíficos
conforme disposto na Lei nº 7.781, de 27 de junho de 1989; e
III - regular, licenciar, autorizar, controlar e fiscalizar essa utilização.
A CNEN elabora normas que reúnem inúmeras recomendações, tanto de caráter
geral quanto de caráter específico. Muitas destas normas constituem a base técnica
de legislações nacionais, o que confere um caráter de obrigatoriedade às
recomendações que abrangem.

Apresentamos a seguir algumas das principais normas e resoluções da CNEN


indicando o tipo de recomendação que contêm.

6.1.1. NORMA CNEN-NN-3.01

A norma CNEN-NN-3.01 é denominada Diretrizes Básicas de Proteção Radiológica.


É uma norma de caráter geral e é a norma mais importante em Proteção
Radiológica, por apresentar os principais conceitos e diretrizes. Alguns pontos
importantes que abrange:

6.1.1.1. Definições e siglas

• Apresenta definições e siglas utilizadas pela norma;


• Apresenta a definição das grandezas utilizadas em proteção radiológica,
como dose absorvida, dose equivalente, dose efetiva, dentre outras.
Maiores detalhes sobre estas definições podem ser obtidos no capítulo
PR-3;
• Apresenta as definições de cores e dimensões do símbolo internacional
da presença de radiação ionizante. Maiores detalhes sobre estas
definições podem ser obtidos no capítulo PR-7.

6.1.1.2. Responsabilidades gerais

• Apresenta as responsabilidades gerais de proteção radiológica dos


diferentes profissionais de uma instalação, incluindo os titulares ou
empregadores e os indivíduos ocupacionalmente expostos (IOEs).
6.1.1.3. Princípios básicos

• Apresenta os princípios básicos de proteção radiológica, incluindo os


limites de dose;
• A tabela a seguir apresenta os Limites Primários Anuais de Dose
Equivalente para IOEs e para indivíduos do público

Tabela 3: Limites máximos de dose para trabalhadores e indivíduos do público.

Grandeza Órgão IOE Público


Dose Efetiva Corpo Inteiro 20 mSv * 1 mSv
Cristalino 20 mSv ** 15 mSv
Dose Equivalente Pele 500 mSv 50 mSv
Mãos e Pés 500 mSv --

* Limite de Dose Efetiva de 100 mSv em 5 anos consecutivos e 50 mSv em


único ano.
** Limite de Dose Equivalente de 100 mSv em 5 anos consecutivos e 50 mSv
em único ano.

6.1.1.4. Posições Regulatórias da Norma CNEN-NN-3.01

• A CNEN elaborou diversas normas complementares à norma CNEN-NN-


3.01, denominadas posições regulatórias (PRs). Estas posições
regulatórias tratam mais profundamente de assuntos específicos
relacionados ao escopo da norma principal. Apresentamos as posições
regulatórias e seus temas:
• PR-3.01 / 001 - Critérios de exclusão, isenção e dispensa de requisitos de
proteção radiológica
• PR-3.01 / 002 - Fatores de ponderação para as grandezas de proteção
radiológica
• PR-3.01 / 003 - Coeficientes de dose para indivíduos ocupacionalmente
expostos
• PR-3.01 / 004 - Restrição de dose, níveis de referência ocupacionais e
classificação de áreas
• PR-3.01 / 005 - Critérios de cálculo de dose efetiva a partir da
monitoração individual
• PR-3.01 / 006 - Medidas de proteção e critérios de intervenção em
situações de emergência
• PR-3.01 / 007 - Níveis de intervenção e de ação para exposição crônica
• PR-3.01 / 008 - Programa de monitoração radiológica ambiental
• PR-3.01 / 009 - Modelo para elaboração de relatórios de programa de
monitoração radiológica ambiental
• PR-3.01 / 010 - Níveis de dose para notificação à CNEN
• PR-3.01 / 011 - Coeficientes de Dose para Exposição do Público

6.1.2. NORMA CNEN NE 3.02

A norma CNEN-NE-3.02 trata dos serviços de radioproteção, órgão interno das


instalações que tem como objetivo executar e manter o Plano de Proteção
Radiológica. Alguns pontos importantes:

• Estabelece a estrutura necessária para os serviços de radioproteção,


incluindo o pessoal necessário, instalações e equipamentos;
• Estabelece a qualificação pessoal dos integrantes do serviço;
• Estabelece as atividades desenvolvidas pelo serviço, incluindo o controle
de trabalhadores (por exemplo, a monitoração individual e verificação de
contaminações), o controle das áreas da instalação, o controle do meio
ambiente, controle de equipamentos, fontes de radiação e rejeitos,
treinamento dos trabalhadores e registros necessários.

6.1.3. RESOLUÇÃO CNEN No. 111

Esta resolução trata da certificação da qualificação de supervisores de proteção


radiológica. Alguns pontos importantes que abrange:
• A classificação das áreas de atuação.
• Os requisitos para a certificação dos candidatos. Especifica os requisitos
de formação, experiência operacional na área pretendida e as
características do exame de qualificação. O candidato deve possuir
diploma de curso de nível superior de graduação, reconhecido pelo
Ministério da Educação, nas áreas biomédica, científica ou tecnológica. A
formação acadêmica do candidato deve ser compatível com a área de
atuação pretendida. O candidato deve possuir e comprovar experiência
operacional na área de atuação pretendida.
• Deveres e sanções aplicáveis aos supervisores de proteção radiológica.

6.1.4. RESOLUÇÃO CNEN No. 112

Esta norma trata do licenciamento de instalações radiativas. Alguns pontos


importantes que abrange:

• Determinação da classificação das instalações conforme o grau de risco


associado. As instalações subdividem-se em instalações que utilizam
fontes seladas, instalações que utilizam fontes não seladas, instalações
que utilizam equipamentos geradores de radiação ionizante e instalações
para produção de radioisótopos.
• Dispõe sobre os atos administrativos e seus requisitos e sobre os
requerimentos necessários ao processo de licenciamento. Os atos
administrativos compreendem, quando aplicáveis, os seguintes:
§ Aprovação do local
§ Autorização para construção
§ Autorização para comissionamento
§ Autorização para a modificação de itens importantes à
segurança
§ Autorização para aquisição ou movimentação de fontes de
radiação
§ Autorização para operação
§ Autorização para retirada de operação
6.1.5. NORMA CNEN-NE-6.05

Esta norma trata especificamente de rejeitos radioativos e é denominada “Gerência


de Rejeitos Radioativos em Instalações Radiativas” (essa Norma foi revisada
recentemente e a nova versão passou por consulta pública entre Dezembro de 2010
e Março de 2011, está atualmente em fase de aprovação). Alguns pontos
importantes que abrange:

• A classificação dos rejeitos radioativos, tanto sólidos quanto líquidos ou


gasosos. Os rejeitos, de acordo com seu estado físico e com valores
especificados na norma, podem ser classificados como sendo de baixo
nível de radiação, médio nível de radiação ou alto nível de radiação;
• Os requisitos gerais do processo de gerenciamento:
a) Os rejeitos devem ser separados, fisicamente, de quaisquer outros
materiais;
b) Os rejeitos inicialmente submetidos à segregação, que não puderem
ser removidos da instalação, devem ser colocados em recipientes
adequados e armazenados até que possam ser transferidos ou eliminados
em conformidade com requisitos específicos;
c) Os recipientes destinados tanto à segregação quanto à coleta,
transporte e armazenamento de rejeitos devem portar o símbolo
internacional de presença de radiação, colocado de maneira clara e
visível;
d) O local para armazenamento provisório de rejeitos deve ser incluído no
projeto da instalação;
• Os critérios para segregação:

A segregação de rejeitos deve ser feita no mesmo local em que forem produzidos,
levando em conta as seguintes características:
a) Sólidos, líquidos ou gasosos;
b) Meia vida curta ou longa (T1/2 > 60 dias);
c) Compactáveis ou não compactáveis;
d) Orgânicos ou inorgânicos;
e) Putrescíveis ou patogênicos se for o caso;
f) Outras características perigosas (explosividade,
combustibilidade, inflamabilidade, piroforicidade, corrosividade e
toxicidade química).

Após a segregação e acondicionamento em recipientes adequados, os rejeitos


devem ser identificados e classificados de acordo com as categorias indicadas na
norma. Os rejeitos eliminados devem ser registrados conforme formulário próprio.

• Os critérios para acondicionamento:


a) Os recipientes para segregação, coleta ou armazenamento provisório
devem ser adequados às características físicas, químicas, biológicas e
radiológicas dos rejeitos para os quais são destinados;
b) Os recipientes para armazenamento provisório de rejeitos devem ter
asseguradas suas condições de integridade e, caso necessário, ser
substituídos;
c) Os recipientes destinados ao transporte interno não devem apresentar
contaminação superficial externa em níveis superiores aos especificados
na norma;
d) Os recipientes destinados tanto à segregação quanto à coleta,
transporte e armazenamento de rejeitos devem possuir vedação
adequada e ter o seu conteúdo identificado com todos os dados
pertinentes;

• Os critérios para transporte:


a) Os veículos utilizados em transporte interno de rejeitos devem possuir
meios de fixação adequados para os recipientes de modo a evitar danos
aos mesmos;
b) Os veículos, após cada serviço de transporte interno, devem ser
monitorados e, caso necessário, descontaminados;

• Os critérios para armazenamento provisório:


O local da instalação destinado ao armazenamento provisório de rejeitos,
conforme aplicável deve:
a) Conter com segurança os rejeitos - do ponto de vista físico e
radiológico - até que possam ser removidos para local determinado
pela CNEN;
b) Possuir um sistema que permita o controle da liberação de material
radioativo para o meio-ambiente;
c) Dispor de monitoração de área;
d) Situar-se distante das áreas normais de trabalho, sendo cercado e
sinalizado, com acesso restrito a pessoal autorizado;
e) Ter piso e paredes impermeáveis e de fácil descontaminação;
f) Possuir blindagem para o exterior que assegure o cumprimento dos
requisitos de radioproteção;
g) Possuir sistemas de ventilação, exaustão e filtragem;
h) Dispor de meios que evitem a dispersão do material por animais;
i) Apresentar delimitação clara das áreas restritas e, se necessário, locais
reservados à monitoração e descontaminação individuais;
j) Possuir sistemas de tanques e drenos de piso para coleta de líquidos
provenientes de vazamentos, descontaminações etc.;
k) Dispor de meios para evitar decomposição de matérias orgânicas. Este
é o caso específico, por exemplo, das sobras de comidas de pacientes
internados submetidos a terapias com radioisótopos;
l) Prover segurança contra ação de eventos induzidos por fenômenos
naturais;
m) Possuir barreiras físicas que visem minimizar a dispersão e migração
de material radioativo para o meio ambiente;
n) Dispor, para facilitar o manuseio dos materiais e minimizar a exposição
de trabalhadores, de procedimentos apropriados sempre afixados em
paredes, quadros e outros lugares bem visíveis;
o) Dispor de planos preliminares de proteção física e radioproteção, bem
como procedimentos para situações de emergência.

• Os critérios para eliminação:


A eliminação de rejeitos líquidos, sólidos e/ou gasosos de uma instalação,
obedecendo a determinados limites, está condicionada à obtenção de
parecer favorável da CNEN, com base na análise técnica dos fatores
ambientais pertinentes;
A eliminação de rejeitos líquidos na rede de esgotos sanitários está sujeita
aos seguintes requisitos:
§ O rejeito deve ser prontamente solúvel ou de fácil dispersão em
água;
§ A quantidade de cada radionuclídeo liberada diariamente pela
instalação, na rede de esgotos sanitários, não deve exceder o
maior dos seguintes valores:
§ A quantidade que, se fosse diluída no volume médio diário de
esgoto liberado pela instalação, resultasse numa concentração
média igual aos limites especificados na Tabela 6, Coluna 1.
Esta tabela apresenta valores específicos diferenciados para
cada radioisótopo;
§ Dez vezes o limite especificado na Tabela6, Coluna 3;

a) A quantidade de cada radionuclídeo liberada mensalmente, quando


diluída pelo volume médio mensal de esgoto liberado pela
instalação, deve ter concentração inferior aos limites especificados
na Tabela6, Coluna 1;
b) A quantidade anual total de radionuclídeos, excluindo o H-3 e o
C-14, liberada na rede de esgoto sanitário, não deve exceder
3,7x1010Bq (1Ci);
c) A quantidade anual de H-3e C-14, liberada na rede de esgoto
sanitário, não deve exceder 18,5 x 1010 Bq (5Ci) e 3,7 x 1010 Bq
(1Ci), respectivamente;

A eliminação de excreta de pacientes submetidos à terapia radioisotópica deve


ser feita de acordo com instruções específicas estabelecidas pela CNEN;
A eliminação de rejeitos sólidos no sistema de coleta de lixo urbano deve ter sua
atividade específica limitada a 7,5x104 Bq/kg (2 µCi/kg);
A eliminação de rejeitos gasosos na atmosfera deve ser feita em concentrações
inferiores às especificadas na Tabela 6 - Coluna2, e deve ser previamente
autorizada pela CNEN.

§ Apresenta modelos de fichas de identificação de rejeitos


radioativos e de fichas de inventário de rejeitos radioativos.

6.2. Outras Regulamentações

Tanto a CNEN quanto os outros órgãos reguladores no Brasil editam normas


específicas às suas áreas de atuação. A CNEN, por exemplo, edita ainda normas
para as aplicações médicas em Medicina Nuclear e Radioterapia (ver capítulos
específicos), para as instalações nucleares, outras normas para as instalações
radiativas e tem norma específica para o transporte de materiais radioativos.

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) publicou em 2005 a norma


regulamentadora (NR) número 32, específica para serviços na área da saúde, que
trata de diversos agentes de risco no ambiente de trabalho e estabelece diretrizes
para proteção de trabalhadores. O capítulo 4 é específico para as radiações
ionizantes.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) publica normas específicas


para aplicações médicas. Nos capítulos específicos de Medicina Nuclear e
Radioterapia são apresentadas as normas relacionadas a essas aplicações. Para a
área de radiodiagnóstico médico e odontológico foi publicada em 1998 a Portaria
453 que estabelece as diretrizes de proteção radiológica para essa modalidade
médica. A seguir apresentamos alguns pontos desta portaria.

6.2.1. A Portaria 453

Em 01 de Junho de 1998 a Portaria MS/SVS/453 aprovou o Regulamento Técnico


que estabelece as diretrizes básicas de proteção radiológica em radiodiagnóstico
médico e odontológico e que dispõe sobre o uso dos raios X diagnósticos em todo
território nacional.
A Portaria 453 é, atualmente, a legislação básica que orienta os usuários finais de
equipamentos de raios X para as diversas práticas de radiodiagnóstico com uso
desses aparelhos. O regulamento é dividido em cinco capítulos:

• O capítulo I trata de disposições gerais incluindo as definições


necessárias;

• O capítulo II define o sistema de Proteção Radiológica, norteado por seus


princípios de Justificação, Otimização e Limitação de Doses;

• O capítulo III define os requisitos operacionais para os serviços de


radiodiagnóstico médico e odontológico;

• Os capítulos IV e V regulamentam requisitos específicos para as práticas


de radiodiagnóstico na medicina e na odontologia, respectivamente.

O regulamento define no capítulo III aspectos essenciais para a prática de Proteção


Radiológica:

• Regras para o licenciamento de instalações;

• Os requisitos básicos para elaboração do Memorial Descritivo de


Proteção Radiológica;

• A definição clara das responsabilidades básicas para as figuras do titular


legal da instalação, do responsável técnico (RT), do supervisor de
proteção radiológica (SPR) e dos demais membros da equipe;

• A sistemática para a adequação de treinamentos, controle e definição de


áreas do serviço, assentamentos necessários, e características gerais dos
equipamentos.

Uma vez que no sistema de limitação de doses não são previstos limites para
pacientes, o regulamento define aspectos importantes voltados para a segurança e
proteção dos pacientes na prática de radiodiagnóstico: a adoção de níveis de
referência de doses para vários tipos de exames e a necessidade da adoção de um
programa de garantia de qualidade do sistema de proteção radiológica, incluindo a
verificação da qualidade das imagens realizadas. Nos capítulos IV e V o
regulamento apresenta, para cada área, requisitos básicos para ambientes,
equipamentos, procedimentos de trabalho e os testes necessários para o adequado
controle de qualidade dos equipamentos e respectivos padrões de desempenho.

6.2.1.1. Memorial descritivo de Proteção Radiológica

O Memorial descritivo de Proteção Radiológica, além de uma exigência formal,


descreve o estabelecimento e aspectos específicos do serviço relacionados à
Proteção Radiológica. É um documento básico de treinamento e de orientações para
novos funcionários e de reciclagem para os demais. O Memorial é um dos
documentos exigidos para o licenciamento do serviço de radiodiagnóstico. Nele deve
constar a descrição do estabelecimento e de suas instalações, equipamentos,
procedimentos de proteção radiológica etc. Outros documentos que formam o
Memorial são o Programa de Proteção Radiológica e os Laudos de aceitação do
equipamento, dos testes de levantamento radiométrico e de radiação de fuga do
cabeçote.

6.2.1.2. Programa de Proteção Radiológica

No Programa de Proteção Radiológica deve constar o seguinte conjunto mínimo de


informações:

• Relação nominal de toda a equipe, suas atribuições e responsabilidades,


com respectiva qualificação e carga horária;
• Instruções a serem fornecidas por escrito à equipe, visando a execução
das atividades em condições de segurança;
• Programa de treinamento periódico e atualização de toda a equipe;
• Sistema de sinalização, avisos e controle das áreas;
• Programa de monitoração de área incluindo verificação das blindagens e
dispositivos de segurança;
• Programa de monitoração individual e controle de saúde ocupacional;
• Descrição das vestimentas de proteção individual, com respectivas
quantidades por sala;
• Descrição do sistema de assentamentos;
• Programa de garantia de qualidade, incluindo programa de manutenção
dos equipamentos de raios-x e processadoras;
• Procedimentos para os casos de exposições acidentais de pacientes,
membros da equipe ou do público, incluindo sistemática de notificação e
registro.

6.2.1.3. Programa de Garantia da Qualidade (PGQ)

Segundo a Portaria 453, os titulares devem implementar um programa de garantia


de qualidade, integrante do programa de proteção radiológica, com os seguintes
objetivos:

• Verificar, através dos testes de constância, a manutenção das


características técnicas e requisitos de desempenho dos equipamentos
de raios X e do sistema de detecção/ registro de imagem.
• Identificar, levando-se em consideração as informações fornecidas pelos
fabricantes, possíveis falhas de equipamentos e erros humanos que
possam resultar em exposições médicas indevidas e promover as
medidas preventivas necessárias.
• Evitar que os equipamentos sejam operados fora das condições exigidas
no Regulamento e assegurar que as ações reparadoras necessárias
sejam executadas prontamente, mediante um programa adequado de
manutenção preventiva e corretiva dos equipamentos.
• Estabelecer e implementar padrões de qualidade de imagem e verificar a
sua manutenção.
• Determinar os valores representativos das doses administradas nos
pacientes em decorrência dos exames realizados no serviço e verificar se
podem ser reduzidas, levando-se em consideração os níveis de referência
de radiodiagnóstico estabelecidos na portaria.
• Verificar a adequação da calibração e das condições de operação dos
instrumentos de monitoração e de dosimetria de feixe.
• Averiguar a eficácia do programa de treinamento implementado.
O programa de garantia da qualidade tende a, ao longo do tempo, tornar o serviço
mais eficiente, possibilitar maior proteção aos trabalhadores e pacientes e permitir
maior qualidade das imagens utilizadas no diagnóstico médico-odontológico. O
programa de garantia da qualidade traz ainda benefícios relacionados à manutenção
adequada dos equipamentos, maior capacidade de atendimento, redução de custos
de material químico e filmes e utilização mais eficiente da radiação administrada aos
pacientes com redução das doses resultantes de exposições médicas e
consequentemente redução das doses ocupacionais.

6.2.1.4. Levantamento Radiométrico

O levantamento radiométrico é um conjunto de medidas que analisa os níveis


radiométricos no entorno das salas de exames. Trata-se de um tipo de monitoração
de área que tem como objetivo verificar se as blindagens em cada parede da sala e
demais estruturas como biombo, vidros plumbíferos e portas, oferecem proteção
adequada aos trabalhadores e indivíduos do público, de acordo com a comparação
com os limites máximos estipulados pela legislação. Com base nos níveis medidos
e em estimativas, por exemplo, da carga de trabalho de uso do equipamento durante
determinado tempo e taxas de ocupação em cada vizinhança, verifica-se a
adequação das blindagens. O laudo, segundo o regulamento, tem validade de
quatro anos ou deve ser refeito sempre que alguma alteração estrutural ou nas
estimativas anteriormente realizadas sofrerem modificações significativas.

6.2.1.5. Teste de radiação de fuga

O teste de radiação de fuga também realiza verificações de níveis radiométricos a


uma distância determinada de um metro do centro da cúpula do equipamento. O
objetivo nesse caso é verificar a adequação da blindagem do cabeçote. O laudo
também tem validade de quatro anos, ou deve ser refeito sempre que alguma
manutenção ou modificação estrutural na cúpula for realizada.
6.3. Considerações Gerais

Como pode ser observada, a legislação nas diversas aplicações das radiações
ionizantes, em especial na Medicina, é muito vasta e não se esgota com o que foi
apresentado aqui. Há legislações de âmbito estadual e municipal, e legislações
específicas sobre outros temas relacionados, como o transporte de materiais
radioativos, meio ambiente etc. O mais importante a se ressaltar, entretanto, diz
respeito a como “encarar” as normas e regulamentações. O caráter de
obrigatoriedade imposto por uma norma frequentemente afasta o indivíduo da
percepção de que o conteúdo da norma pode auxiliar no trabalho. Isso acaba por
gerar um sentimento ruim de que devemos cumprir uma regulamentação
simplesmente para evitar a punição; e, como consequência, acabamos por perder a
capacidade de análise crítica. Com isso, perdemos junto a oportunidade de
aproveitar o conteúdo técnico de uma norma, para tornar nosso trabalho
intrinsecamente mais seguro ou mais eficaz.
REFERÊNCIAS:

                                                                                                                       
1
"Wilhelm Conrad Röntgen - Photo Gallery". Nobelprize.org. 3 Oct 2012
http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/physics/laureates/1901/rontgen-photo.html - Acesso em
23/10/2012.
2
J. Cardella, K. Faulkner, J. Hopewell, H. Nakamura, M. Rehani, M. Rosenstein, C. harp, T. Shope, E.
Vano, B. Worgul, M. Wucherer. Interventional Procedures – Avoiding Radiation Injuries.
International Commission on Radiological Protection – Free Educational Downloads.
http://www.icrp.org/page.asp?id=35 – Acesso em 23/10/2012.

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