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2011

Eduardo Machado

Eduardojtmachadomail.com

[MESMIDADE DE DEUS] 0
Sinopse

O livro é, definitivamente, sobre Deus. Situa-se centralmente no plano filosófico,


pretendendo ser um contributo para a necessária estruturação do universo da
espiritualidade moderna, supra-religiosa, segundo categorias de pensabilidade filosófica.

O núcleo central do escrito propõe uma reflexão acerca da natureza de Deus enquanto
realidade fundante da existência e das suas relações com o cosmos a partir de três
atributos fundamentais – amor, consciência e luz.

Entre outros aspectos possíveis, pode encontrar-se ao longo das suas linhas dois
diálogos fundamentais que, de alguma forma, por incontornáveis que são, sempre
estiveram presentes no decurso de toda a história daquela filosofia espiritual que centrou
a sua dinâmica especulativa em torno de uma origem radical de toda a existência. São
eles: o diálogo trindade/unidade e o diálogo transcendência/imanência.

Ao propor uma reflexão sobre Deus e suas relações com a sua criação, o escrito tem
implícitos os principais vectores estruturantes, para além das múltiplas propostas
espirituais concretas que proliferam no mundo, do caminho de reencontro do Homem
consigo mesmo e com Deus; vectores, esses que poderão e se calhar deverão ser
tornados explícitos numa fase posterior.

As páginas deste livro revestir-se-ão eventualmente de alguma utilidade para todos


aqueles que buscam, de uma forma decisiva, uma compreensão e realização em si
mesmos de uma espiritualidade que se situa para além das meras fórmulas rituais e se
funda numa verdadeira transformação da consciência, pelo esforço de uma compreensão
vivida e estruturante de Deus e da vida.

O pensamento espiritual moderno (moderno no sentido de actual e não no de


modernidade filosófica) é ainda hoje marcado por um esforço de transição de uma
espiritualidade baseada num modelo obscuro de fé para um modelo de compreensão, de
uma fé esclarecida e, sobretudo, por um alargamento da consciência humana.
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A vida das sociedades é, hoje, muito complexa. Fenómenos insólitos, hiper-
desenvolvimento tecnológico, grande diversidade de estilos de vida, vivências
espirituais profundamente contrastantes com os ritmos de vida, com o paradigma
tecnológico, económico e social, são resultado da profunda evolução da consciência
humana colectiva. Suportar esse desenvolvimento, gerindo harmoniosamente todos
esses fenómenos contrastantes exige uma espiritualidade superior, integradora e
inspiradora de estruturas filosóficas, científicas e sociais capazes de gerar uma visão
profundamente nova do sentido da vida humana no quadro das suas relações com todo o
universo envolvente.

Hoje, mais do que nunca, urge uma nova investigação espiritual, única capaz de permitir
encontrar os novos caminhos que a ciência, a cultura e a sociedade necessitam de trilhar
para encontrarem as respostas e as vias estruturantes de um mundo que hoje se augura,
com um mais profundo sentido de justiça, de caridade, uma nova política de exploração
de recursos e novos conceitos capazes de permitirem e enquadrarem socialmente o
crescimento da Humanidade no sentido da realização da sua verdadeira natureza.

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Mesmidade

1. Mesmidade é o nome que se dá ao mesmo que, em tudo, se vê.


Mesmidade está presente em tudo e é tudo;

2. Mesmidade é potencialidade pura, em si mesma. Mesmidade é Amor;

3. A sua potencialidade não conhece oposição. Como tal, é


intrinsecamente criadora [a sua potencialidade]. Permanecendo a
mesma, a mesmidade está em constante mudança por criação de si
própria. Potencialidade pura é Acto puro;

4. Potencialidade pura é acto puro;

5. Mesmidade está para além do movimento e da mudança; para além do


ser e do não-ser.

6. O devir concreto resulta da mudança, em si mesma, da mesmidade.


Absolutamente transcendente, nem tão-pouco por si mesma é
encerrável. A sua essência é absolutamente transcendente até para si
própria.

7. A transcendência absoluta é causa e possibilidade de todo o devir.


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8. A mesmidade, enquanto unidade intrínseca, procura-se constantemente
a si mesma. Nesse processo de busca de uma unidade sempre presente,
mas nunca inteiramente realizada, cria.

9. No movimento de procura de si mesma, a mesmidade gera o princípio


consciente e é este que, pelo sentido de si, é criador.

10. A absoluta transcendência da mesmidade está para além de tudo e de si


mesmo. Buscar essa transcenência nunca inteiramente captável, nem
por si mesma, gera o princípio consciente. A geração desse princípio
consciente é o princípio do movimento de desdobramento da
mesmidade, sobre si mesma e em si mesma.

11. O desdobramento é condição para, e resulta em, uma contemplação de


si mesma.

12. Enquanto potencialidade pura, a contemplação é-o da sua


possibilidade, de toda a sua possibilidade. Esta é plena e inesgotável em
cada momento e, contudo, não cessa de mudar, de evoluir.

13. Ao contemplar a sua possibilidade, e cada uma das suas infinitas


possibilidades, cria. A contemplação de si é o acto verdadeiramente
criador.

14. Contemplar a sua possibilidade e cada uma das suas infinitas


possibilidades, em toda a sua extensão, implica uma total objectivação
perante si mesma. Esta objectivação, enquanto radical, exige uma
exteriorização, uma autonomização total do contemplado. Esta
autonomização plena é a criação, é um simples vir à existência.

15. A objectivação implica uma total exteriorização de si mesma, da sua


possibilidade, pela contemplação dessa mesma possibilidade. Do ponto
de vista da realidade, a mesmidade, enquanto possibilidade, ainda nada
é. A sua objectivação perante si mesma, por contemplação e enquanto
exteriorização, gera o real. O existente é a exteriorização e objectivação
do nada enquanto possibilidade total da mesmidade.

16. Mesmidade, porque consciência pura, é luz.

17. O princípio consciente é um princípio de forma e de sentido, através do


qual a mesmidade se capta a si mesma.

18. No momento em que se capta, novos sentidos, novas possibilidades se


geram em si.

19. A forma dada pela consciência é necessária ao movimento da


mesmidade.

20. O princípio consciente tem, como condição, um princípio de unidade


intrínseca da mesmidade.

21. Resultante da potencialidade pura, a sua unidade intrínseca é e não é,


continuamente. O princípio consciente é a objectivação que a
mesmidade, no seu interior, faz da sua própria unidade. O princípio

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consciente é a própria unidade da mesmidade, objectivada perante si
mesma.

22. Enquanto tal, em cada momento de contemplação, toda a potencialidade


da mesmidade está presente e, como tal, toda a sua possibilidade
criadora, o que transforma a contemplação em momento criador.

23. Criar é sair de si mesma, por acção da consciência, no seu movimento


de contemplação.

24. A forma é o princípio de toda a objectivação. Pela forma, dá-se a


autonomização de todo o existente. O acto de contemplação é, em si
mesmo, gerador de forma e, através dele, as coisas vêm à existência. A
consciência, no momento da contemplação criadora, dá forma, gerando
um existente. Contudo, essa forma não é mais do que uma forma
possível, na mesmidade contemplada por si mesma.

25. A contemplação criadora realiza, assim, a mesmidade na sua essência e,


daí, o seu mais elevado valor ontológico. Só porque é realização da
essência criadora da mesmidade é que o criado pode ser objectivado até
ao limite da autonomização. O criado não é um resultado da
contemplação – é a própria contemplação.

26. Contemplar implica uma saída de si mesma, voltada sobre si mesma. Sai
de si mesma pela forma, voltada para si mesma, porquanto a forma é
forma de si mesma.

27. A forma é sentido, é resultado do sentido de si que se objectiva pela


consciência. Esta é-o sempre por relação a algo; no caso da mesmidade
é-o por relação ao sentido de si mesma. Uma vez que o princípio
consciente se estrutura sempre por relação ao sentido de si, a
consciência da mesmidade reflecte a sua própria essência e, como tal, a
sua contemplação é pura não havendo, portanto, qualquer distorção
entre o criado por contemplação e a essência da mesmidade.

28. O devir e a sucessão dos entes são formas que a própria mesmidade
assume. Não se esgotando em nenhum deles, nem tão-pouco na própria
forma a mesmidade está, no entanto, presente em tudo, apesar de
exterior a si.

29. A exterioridade é uma exterioridade de consciência. O espaço entre a


fronteira da exterioridade, da objectividade, do objectivamente dado e o
fundo, a partir do qual emerge a objectivação, é o espaço do
desdobramento da mesmidade, é o espaço de geração da consciência. A
objectivação e a formação do princípio consciente são um único
processo - a contemplação criadora.

30. O criado, porque autonomizado, torna-se um ente. Este não o é de uma


vez por todas, mas algo continuamente recriado, de forma dinâmica,
fruto de uma constante renovação da contemplação. A mesmidade é
dinâmica e, como tal, a sua contemplação é evolutiva, o que explica a
evolução dos entes e de cada ente.

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31. A formação do princípio consciente, por desdobramento da mesmidade
em si mesma, é já um acto criador.

32. Este desdobramento, sem perda de si e de unidade intrínseca, é possível


por abundância; abundância é possível por unidade pura, unidade pura
é possibilidade infinita.

33. Unidade pura não conhece o diferente como constrangimento e, como


tal, é possibilidade pura; possibilidade pura é o que ainda não é. Aquilo
que já é não é possibilidade pura, mas apenas a sua própria
possibilidade.

34. Mesmidade é o vazio, o nada potencial que, sem se esgotar no criado,


cria, continuamente, a partir de si mesmo, por contemplação da sua
infinita possibilidade.

35. O princípio consciente radica no vazio, no nada e, só por isso, a


propriedade consciente de auto-transparência plena é possível.

36. A consciência é uma propriedade intrínseca do vazio.

37. A consciência originária é transparência pura, auto-transparência.


Nesta, surge o sentido originário e, com ele, a vontade; a vontade surge,
originariamente, numa consciência pura, auto-transparente, que capta o
sentido de si mesma, dinamizando-se pela geração da vontade.

38. Vontade é o dinamismo próprio da consciência pura que, enquanto


auto-transparência, captou a sentido essencial de si mesma;

39. Consciência pura, auto-transparência, é unidade pura – é mesmidade


pura. Desta unidade pura, resultarão, directamente, no acto criador:
coesão, no criado através da forma, e diversidade do criado, pela
possibilidade infinita de auto-transparência, potenciada pelo sentido
originário.

40. O sentido originário não o é de nada; é puro sentido que se vai


concretizando no acto contemplativo, criador.

41. Em cada momento contemplativo está presente o sentido e cada sentido,


assim como a unidade pura originária, que é condição de objectivação
pela forma, a qual não é mais do que um princípio de unidade e, como
tal, de sentido concreto.

42. Pura auto-transparência é ordem pura, ordem originária, fundante da


forma e da harmonia no criado.

43. Só através de ordem originária, que radica no vazio, é possível a vinda


à existência. A ordem é factor de vinda à existência; a harmonia, factor
de sustentação na e da existência. A ordem não é um factor de
ordenação, é, sim, resultado do vazio da auto-transparência.

44. O existente é no vazio, verdadeiro ordenador. A forma não se impõe ao


vazio; o vazio gera e permite a forma.

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45. O espaço/tempo é pura possibilidade de forma; é o vazio, em cada
momento, na sua possibilidade concreta.

46. A ordem é o resultado da auto-transparência do sentido. O criado é a


explicação da mesmidade, perante si mesma, em toda a sua
possibilidade.

47. O desdobramento da mesmidade não é algo que aconteça em momentos


sucessivos de um qualquer tempo, tempo esse que não existe na
mesmidade.

48. A consciência é um princípio activo.

49. A consciência individual, enquanto tal, é uma ilusão, pois ela não é mais
do que um auto-reconhecimento da consciência no criado.

50. Na mesmidade, tudo está em tudo de uma forma plena; no mundo, tudo
está em tudo de uma forma potencial; por tal motivo, no mundo, temos
uma interacção permanente de tudo com tudo. Por isso, o devir
específico de cada homem se inscreve num devir global; no caso
especificamente humano, num devir colectivo. Nenhum homem controla
totalmente o seu devir e, muito menos, quando este se inscreve num
devir colectivo.

51. O devir humano é um desenrolar do desconhecido; o desenrolar do


desconhecido é um vir à existência por mim e para mim.

52. A mesmidade é de tal forma transcendente que não se encerra em si


própria sem que, contudo, exista, o quer que seja, fora de si. Não se
encerra em si própria porque é potencialidade pura. Como tal, encerra
em si o seu próprio desconhecido. No entanto, enquanto consciência
ilimitada de si mesma, na sua mesmidade, até do seu próprio
desconhecido, enquanto desconhecido, é consciente.

53. A consciência humana, enquanto momento de auto-reconhecimento da


mesmidade no criado, tende para a unidade, que ela própria é, enquanto
mesmidade.

54. Enquanto consciência, que essencial e intrinsecamente também é, a


mesmidade existe na medida em que reside na sua própria consciência;
reside na sua própria consciência na medida em que se contempla na
sua própria possibilidade. Esse momento é eminentemente criador. Não
é concebível a existência da mesmidade isolada da criação, uma vez que
esta é, em última instância, criação de si mesma, por contemplação de
mera possibilidade; possibilidade que surge na consciência.

55. Mesmidade é absolutamente transcendente à criação que faz de si


mesma. Contudo, entre si e a criação que de si mesma faz, há uma
unidade intrínseca.

56. Mesmidade tende para si própria.

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57. Todo o criado, enquanto criação que a mesmidade faz de si própria,
tende para a mesmidade, o que mais não é do que estar no movimento
de retorno a si.

58. Pela sua transcendência, a mesmidade é totalmente livre de si própria.


Pela sua imanência ela é o próprio criado, implicando o retorno de
regresso a si própria, um movimento de evolução de todo o criado no
sentido da origem.

59. A criação é dinâmica e evolutiva, no seu conjunto e em cada ente em


particular.

60. O culminar do processo de evolução da criação e de cada ente em


particular dá-se quando cada um se reconhece, num acto de auto-
transparência absoluto, como a própria mesmidade. Nesse acto esta
reencontra-se consigo própria e a gota funde-se no oceano da
consciência.

61. O retorno é um imperativo de cada ente e resulta da unidade essencial


da mesmidade.

62. O amor é o caminho; o silêncio, a condição para o trilhar.

63. Pela sua unidade essencial a mesmidade está totalmente presente em


tudo, sem qualquer divisão em si mesma.

64. Tudo é Divino.

65. A escassez é condição de movimento e de evolução.

66. É por via do constrangimento que a mesmidade sente privação de si,


gerando o impulso de regresso a si mesma.

67. Existir é estar em si, a caminho de si.

68. Existir é ser continuamente renovado pela contemplação da mesmidade.

69. Estar em si é ser; ser em si mesmo, como fonte de si mesmo.

70. O amor tende para si mesmo. Tudo na existência tende para a unidade que é a
expressão e realização desse amor.

71. Forma é unidade; unidade é consciência; consciência é ser.

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Mesmidade

1. Mesmidade é

2. Mesmidade é

3. A sua potenc

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4. Potencialidad

Dá-se o nome mesmidade a algo que é e permanece como “si próprio”.


Algo que se repete e se mantém em si mesmo, no âmbito da sua própria
diversidade. Mesmidade pressupõe diversidade, mas uma diversidade
abarcada por si mesma, no contexto de uma unidade e de uma identidade
absolutas. Tal como num diamante as diversas faces constituem um diverso
que forma um todo intrinsecamente uno, assim a mesmidade contém o seu
diverso e por ele é constituída sem perda de unidade intrínseca.

Mesmidade está presente em tudo e é tudo. Mesmidade é, portanto, imanente


à criação. Poder-se-ia colocar a questão de saber se cria para fora de si ou
em si; se cria a partir de si ou do nada. Na medida em que é potencialidade
pura, tais questões deixam de fazer sentido, uma vez que nada é concebível
fora da potencialidade pura. Esta implica uma potencialidade infinita em
intensidade de existência ou intensidade de acto, bem como potencialidade
infinita em possibilidades. O carácter infinito da potencialidade em
intensidade implica necessariamente acto puro. A potencialidade pura não
encontra oposição e, portanto, é por si mesma, acto. Potencialidade
pressupõe um processo de desenvolvimento que se desenrola no tempo.
Potencialidade pura é o próprio acto na sua espontaneidade. Potencialidade
pura não tem, por definição, constrangimento ou oposição e, por isso, é
intrínseca e espontaneamente criadora. A potencialidade pura é um atributo
exclusivo da mesmidade. A potencialidade relativa é um atributo dos entes.
Sendo potencialidade pura em si mesma, a mesmidade não se esgota no
acto. Este é uma consumação possível da potencialidade infinita de
possibilidades. Por este motivo, a mesmidade é absolutamente transcendente
à criação. Uma vez que a sua qualidade de potencialidade pura implica uma
identidade profunda entre potencialidade pura e acto puro, ao ser
transcendente ao acto, a mesmidade é transcendente a si mesma. Em cada
momento é acto puro e em cada momento se transcende a si mesma pela sua
própria potencialidade. A mesmidade, em cada momento, é acto de si
mesma, criando-se e, em cada momento também, transcendendo-se a si
própria, pela sua potencialidade, recriando-se. Permanecendo, pois, a
mesma, a mesmidade está em permanente mudança, por criação de si

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própria. Da mesma forma que um ser humano, ao longo da vida, evolui e se
transforma, não se esgotando em nenhuma das suas experiências nem em
nenhum dos diversos papéis que desempenha ao longo da vida, não
deixando, contudo de ser ele próprio, assim também a mesmidade é
plenamente em cada momento, não se esgotando naquilo que é.

5. Mesmidade e

6. O devir conc

7. A transcendê

Ser e não-ser são realidades relativas que existem uma por relação à outra.
Os limites de um são o início do outro. A possibilidade ou potencialidade de
um é constrangida ou por si próprio ou pelo outro. A potencialidade pura
está para além destes constrangimentos e daí o carácter absolutamente
transcendente da mesmidade relativamente a esta dualidade. Ser e não-ser
são já realidades do domínio do existente ou do acto relativo. Resultam da
dinâmica de criação específica de cada momento, da mesmidade. O
movimento e a mudança estruturam-se com base em dinâmicas geométricas
de combinação de ser e não-ser. O presente é; o passado [já] não é; o
futuro [ainda] não é. No espaço, o aqui é [o aqui]; o ali não é [o aqui] mas,
por outro lado, é [o ali]. A mesmidade é o tempo todo e o espaço todo. É a
própria possibilidade do espaço e do tempo. A potencialidade relativa de
ente, ou de um qualquer criado, radica na potencialidade pura ou infinita da
mesmidade. A potencialidade relativa é uma ilusão. Resulta apenas da
antecipação de uma possibilidade de evolução da mesmidade no contexto
das suas infinitas possibilidades. Estas radicam na sua potencialidade pura.
Um jovem muito inteligente é potencialmente um homem ou uma mulher
brilhante. Se morrer precocemente, essa potencialidade não chega a
concretizar-se. O brilho augurado em jovem é apenas a antecipação de uma
possibilidade entre muitas, tendo-se concretizado a da morte, também ela,
uma de entre muitas. A única verdadeira potencialidade é aquela que
efectivamente se concretiza em acto. Só se concretiza a potencialidade total,

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aquela que é sem constrangimento, a potencialidade pura da mesmidade que
se cria a si mesma pela concretização da sua própria possibilidade.
Enquanto potencialidade pura, em cada momento, gera novas
possibilidades, de si mesma e, como tal, não é encerrável por si própria,
escapando-se, continuamente, no imenso abismo da sua própria
potencialidade. Na potencialidade relativa está-se perante uma
possibilidade concreta e específica e, de algum modo, resultado de um
constrangimento. Uma criança é um adulto potencial e não um outro animal
ou mesmo outra realidade qualquer. A força que lhe confere a
potencialidade é, ao mesmo tempo, a força que a constrange e que a impede
de se tornar algo diverso daquilo que é a sua potencialidade específica. Na
potencialidade pura ou absoluta não há constrangimento e, como tal,
potencialidade pura é mera possibilidade, possibilidade infinita. Na
potencialidade pura há uma absoluta identidade entre intensidade de
possibilidade e diversidade de possibilidade. Enquanto na potencialidade
relativa, devido ao constrangimento, a possibilidade de diversidade é
reduzida, na pura, pela inexistência de constrangimento, ela é absoluta,
total. Nesta possibilidade infinita, a mesmidade não está constrangida, nem
por si mesma ou, melhor dizendo, está constrangida pela sua própria
possibilidade, só que, como esta é infinita e, portanto, indeterminável, ela é
constrangida pela infinitude da sua possibilidade e, como tal, é não
constrangida. Não constrangida significa livre de si e, como tal,
transcendente a si própria.

8. A mesmidade

A essência da mesmidade é potencialidade pura. Na pura potencialidade


reside a condição da sua transcendência. Transcender-se a si própria é
inerente à sua própria essência. Uma vez que se inscreve na sua própria
essência, transcender-se a si própria não constitui factor de perda de
unidade e, por isso, a mesmidade é una. Enquanto unidade que se
transcende, a mesmidade busca-se. Contudo, como se transcende, a sua
unidade nunca é inteiramente realizada. A sua unidade funda-se na sua

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potencialidade pura ou possibilidade infinita, na qual se inscreve a
necessidade da sua transcendência. A sua unidade é, portanto, uma unidade
potencial mas nunca inteiramente realizada de uma vez por todas, devido ao
seu carácter transcendente.

A possibilidade de criação por parte da mesmidade reside no facto de esta


ser pura potencialidade. Sendo potencialidade pura, a mesmidade não
conhece oposição, nem de si própria, na medida em que nem em si encontra
factores de constrangimento. Se os encontrasse seria meramente
possibilidade de algo. É por não encontrar oposição, nem em si própria, que
a mesmidade é acto puro. Por não haver oposição não existe qualquer hiato
entre potencialidade e acto. Há uma perfeita coincidência entre ambos e daí
a dinâmica da criação ser intrínseca à mesmidade. Intrínseca porquanto se
inscreve na sua própria essência; intrínseca porque a criação é ela própria.
Contudo, pelo seu carácter transcendente, ela não se esgota na criação que
faz de si mesma. Há, portanto, uma unidade profunda no interior da
mesmidade – unidade entre potencialidade pura e acto puro, entre a
mesmidade e a criação que faz de si mesma. Pelo carácter transcendente,
isto é, pelo facto de não ficar constrangida pelas criações que faz de si
mesma, consequência da sua possibilidade infinita, a sua unidade nunca é
inteiramente consumada numa circularidade perfeita, mas sim num
movimento helicoidal infinito. Uma das muitas expressões disso é a
circularidade do tempo. Embora todas as primaveras sejam Primavera,
cada uma é diferente das demais, inscrevendo-se num processo evolutivo.

O Amor é uma realidade que, entre outras, tem duas características


fundamentais – integração e liberdade. Na sua dinâmica integradora supera
diferenças e obstáculos. Levado ao limite, o amor, nesta sua dimensão,
constitui-se na própria condição de unidade. É o amor que une as famílias,
liga mãe e filho, une os casais, permite e induz o perdão. Neste processo
amoroso, o amor sobrepõe-se à diferença e gera uma unidade para além
desta. A diferença permanece, simplesmente há um factor de unidade mais
profundo que a relativiza e que, por vezes, até mesmo a converte num factor
de complementaridade e de reforço da própria unidade. Na medida em que
supera obstáculos e diferenças, o amor é sublimação pura. Esta remete
necessária e directamente para a transcendência. É porque é sublimação
pura que o amor é condição de transcendência.
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O amor, em essência, é liberdade. Esta é condição para a realização plena
de cada realidade, de acordo com a sua própria natureza ou, se se quiser,
de acordo com a sua própria potencialidade específica. A mesmidade, pela
sua possibilidade infinita ou potencialidade pura, não tem oposição nem
constrangimento. É, portanto, inteiramente livre em si mesma. Possibilidade
infinita é pura liberdade. Sendo o amor a essência da própria liberdade,
mesmidade é amor.

Amor é, portanto, condição de unidade da mesmidade, enquanto essência


integradora e condição de expansão, enquanto liberdade. O amor é, dessa
forma, condição para os dois movimentos fundamentais da mesmidade – a
realização da unidade e a dinâmica da criação. Parecendo antagónicos,
entre estes movimentos há uma unidade profunda, no âmbito da qual tornam
a mesmidade transcendente a si mesma. Pelo amor, enquanto fundamento
da unidade, a mesmidade é inerente a si como acto puro de si própria e,
portanto, à criação. Enquanto liberdade, transcendente a si, enquanto
potencialidade pura de si própria.

Os dois movimentos antagónicos são a expansão e a contracção ou


recolhimento. Quando capta a sua potencialidade, expande-se como acto
puro, espontâneo, no fundo não se contendo a si própria. Como é pura
transcendência até de si, busca-se de novo e contrai-se, na direcção de si.
Como a sua essência própria é potencialidade pura, porque amor, e porque,
como tal, na sua essência se inscreve a sua própria unidade, embora se
transcenda, não deixa de estar sempre em si própria. Como a sua essência
própria é potencialidade pura, o movimento de contracção gera o
movimento de expansão. Como é potencialidade pura, a sua realização em
acto puro é espontânea, estando para além do tempo. Nesta conformidade,
os movimentos de expansão e contracção são um único. A mesmidade está
sempre em acto, resultando o devir deste estremecimento no interior da
mesmidade, devido ao aparente encontro/desencontro em que
permanentemente está.

Ao buscar a sua unidade, ao buscar a sua essência, a mesmidade introduz-


se numa via de retorno a si e, com isso, num movimento de contracção.
Como, no fundo, está sempre em si mesma, pela sua unidade intrínseca está
sempre na sua essência. Como esta é criadora, por potencialidade pura que

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é, está sempre em expansão. Como a sua essência é criadora, a mesmidade
só se realiza criando. Criar é, portanto, o encontro consigo mesma e, por
isso, a coincidência entre os movimentos de contracção ou recolhimento e
de expansão. Aparentemente contraditórios são o mesmo.

9. No moviment

Não é concebível a realização de uma unidade intrínseca ou essencial,


plena, sem a realização de uma auto-transparência total em e perante si
mesma. Aquela é condição de realização de uma identidade plena e
absoluta. A realização desta identidade é condição de celebração da sua
unidade intrínseca. Mesmidade é a identidade do mesmo, numa
continuidade contemplativa sem limites. É o mesmo que se contempla
sempre e só a si mesmo e que nada mais pode contemplar se não a si pois,
fora de si, nada existe, uma vez que todas as possibilidades de existência
estão já contidas na sua essência como potencialidade pura.

Auto-transparência é unidade absoluta; unidade absoluta encontra, como


corolário, uma unidade de consciência, na qual radica, em última instância,
a identidade, o sentido de si. Auto-transparência é algo que não tem
opacidades. Estas são diferenças, descontinuidades no interior do mesmo. O
amor, enquanto sublimador, é o superador de todas as diferenças por
sublimação. É, portanto, condição de auto-transparência. Auto-
transparência plena resulta de amor absoluto. Amor em si mesma e por si
mesma. Como criar é a sua essência e é a si mesma que cria, o amor é-o
também pela sua própria criação [de si mesma]. Como a mesmidade é pura
liberdade, nem tão pouco encerrável por si mesma, o amor não fica contido
no sentido de si. É quase um sem sentido, uma mera emanação amorosa.
Nesta reside a sua verdadeira e radical transcendência relativamente a si
própria. Este acto de transcendência, no entanto, só é possível no interior de
um profundo encontro com a sua própria essência amorosa. O amor é quase
um sem sentido, dada a potencialidade radical e absoluta. O sentido de si é
tão vasto quanto a sua própria infinita possibilidade. Não tendo um sentido

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de si, por infinitude, o amor é puro. Na sua essencialidade é puro amor, sem
objecto.

Enquanto condição de unidade, de auto-transparência e de identidade, o


amor é, portanto, consciência. Numa auto-consciência absoluta, consciência
é amor e amor é consciência.

É o amor que garante a unidade intrínseca da mesmidade. É o amor que a


liga a si própria no contexto dos seus movimentos antagónicos. É o amor
que os cria e simultaneamente os resolve. É o amor que faz com que os
movimentos de expansão sejam simultaneamente movimentos de contracção,
isto é, é ele que faz com que os aparentes momentos de saída de si mesma,
sejam momentos de realização e encontro consigo mesma. É o amor que a
faz buscar-se continuamente e é ele também o próprio meio de retorno a si.
É o amor que gera a coincidência entre potencialidade pura e acto puro da
mesmidade.

O movimento de busca de si própria inscreve-se na sua essência amorosa. O


amor impele-a na direcção de si mesma. Enquanto factor de unidade
fundamental, o amor é que a mantém unida a si mesma e, só por isso, se
procura. É o próprio amor que lhe permite encontrar-se a si mesma
enquanto amor, pois vivenciar esse amor é já estar em si mesma. Quanto
mais afastada de si, maior o amor por si; quanto maior o amor por si mais
encontrada está consigo mesma. Por isso, o afastamento da mesmidade
relativamente a si mesma no momento da expansão é o caminho para si
mesma, é simultaneamente o movimento de convergência, de integração.

No seu limite, amor puro é consciência pura. Amorosa em si mesma e por si


mesma, a mesmidade é consciência em si mesma, de si mesma.

10. A absoluta tr
desdobramento da mesmidade, sobre si mesma e em si mesma.

11. O desdobram

12. Enquanto po

Page 16 of 53
13. Ao contempla

14. Contemplar
contemplado. Esta autonomização plena é a criação, é um simples vir à
existência.

Como se transcende e se capta continuamente a si própria, a sua


consciência de si está também em permanente mudança. Nesse processo de
se captar a si própria, contempla-se, buscando-se num acto que é
simplesmente amoroso e de consciência, numa dinâmica de celebração e
concretização da sua identidade, da sua mesmidade. A contemplação é de si,
da sua essência e, como esta é possibilidade infinita, potencialidade pura, a
mesmidade contempla a sua própria possibilidade. A contemplação
acontece por um movimento de desdobramento no seu seio, movimento esse
que gera uma exteriorização relativamente a si mesma. O desdobramento é
possível pela contemplação, através da qual se torna exterior a si. Só
tornando-se exterior se torna contemplável por si. Como a mesmidade é
pura consciência, contemplação e desdobramento são o mesmo. Só pode
contemplar-se, concretizando-se como objecto de si mesma, isto é,
objectivando-se. Este processo de objectivação perante si consiste no
movimento de expansão. Este movimento concretiza o acto puro. Este
concretiza-se pela consciência de si mesma. Consciência de si obtém-na por
contemplação. Contemplação cria. A criação é, portanto, a contemplação
da mesmidade enquanto acto puro de si mesma.

15. A objectivaçã
por contemplação e enquanto exteriorização, gera o real. O existente é a
exteriorização e objectivação do nada enquanto possibilidade total da
mesmidade.

A essência da mesmidade é possibilidade infinita. Enquanto possibilidade, a


mesmidade mais não é do que a possibilidade de si mesma.

Page 17 of 53
Contemplar-se implica uma exteriorização relativamente a si mesma. Dada
a unidade intrínseca da mesmidade, a saída de si própria dá-se através de si
própria. Exterioriza-se através da sua própria possibilidade, contemplando-
a. Quando contempla, encontra-se a si própria e realiza-se, tornando-se
aquilo que é. A dimensão do amor, enquanto consciência, é o culminar do
processo de encontro consigo mesma; como a sua essência é criadora,
porque amorosa, porque potencialidade pura não constrangida, encontra-se
a si própria, criando. Nesta conformidade, a dimensão do amor enquanto
consciência é a condição do processo criador. Pela consciência de si, a sua
potencialidade pura é acto puro. Enquanto potencialidade pura, livre de
todo o constrangimento, a mesmidade é pura afirmação espontânea de si
própria; afirmação, essa, movida pela dinâmica do amor em si e por si que
a leva a repetir-se indefinidamente nesse acto amoroso. É nessa afirmação
de si que reside o seu poder criador. O amor em si e por si, enquanto força
absolutamente unificadora, gera como que uma compressão infinita de si
mesma, por realização da unidade absoluta. A afirmação pura de si mesma
tem toda essa força infinita, o que equivale a dizer potencialidade infinita.
Enquanto afirmação pura de si mesma, é a afirmação da sua própria
possibilidade, possibilidade essa que é afirmada porque conhecida, em
resultado da consciência que, através da contemplação, desenvolve acerca
de si própria. A contemplação, porque permite uma afirmação concreta e
concretizadora de si mesma, é condição de criação. Contudo, porque não há
afirmação sem consciência, elas são uma única e mesma realidade. É pela
consciência que se afirma em si própria, perante si própria e perante nada
mais, pois nada mais há para além de si.

Enquanto mera possibilidade, embora infinita, a mesmidade nada é. Só por


contemplação da sua própria possibilidade a mesmidade se torna real para
si mesma e em si mesma, isto é, à luz da sua própria consciência. A
afirmação de si resulta do facto de ser potencialidade pura. Contudo, a
afirmação é também ela própria uma possibilidade que se concretiza
quando, pela consciência inerente à contemplação, se identifica consigo
própria, do que resulta a afirmação de si. Esta é o resultado de um auto-
reconhecimento amoroso no seio da mesmidade. Como esta se transcende e
reencontra continuamente, no seio de uma unidade nunca perdida e
continuamente [re]celebrada, o auto-reconhecimento institui-se em auto-

Page 18 of 53
reconciliação. Como a sua essência é amor, esta auto-reconciliação, que o é
sempre com a sua essência, é uma auto-reconciliação amorosa que é a
afirmação de si própria; que a transforma em acto puro de si mesma e que
constitui a criação.

16. Mesmidade, p

A criação, enquanto auto-reconhecimento puro de si mesma, é luz pura, é o


acto originário de luz da mesmidade. A luz é o resultado e é o próprio acto
de encontro consigo própria. Como esse acto se concretiza na e concretiza a
própria criação, é o acto originário de luz, continuamente repetido e
renovado. É a força do amor, enquanto força geradora de máxima
concentração, que transforma a auto-transparência ou auto-consciência em
luz. É a força do amor que transforma em fulgor luminoso a consciência de
si. Como esta é permanente, o amor também o é, tal como,
consequentemente, o fulgor luminoso, constituindo os três um único acto
indissolúvel e intrinsecamente único. Constituem os três ângulos de um
triângulo equilátero. Este, devido ao movimento constante da mesmidade,
roda permanentemente sobre o seu próprio centro, significando isso o
movimento e a mudança no interior de si, mas sempre por referência a si.
Esta rotação do triângulo é contínua e não discreta, isto é, não existem
rupturas nem saltos na evolução da mesmidade. Esta continuidade permite
um movimento dos vértices que forma uma circunferência. O triângulo
simboliza o carácter trino da mesmidade que se sustém a si mesma e que é a
origem de todo o movimento, e a circunferência a sua unidade intrínseca.

Pela consciência o amor concretiza-se a si próprio e, por ambos, se dá o


fulgor da criação pela luz. Esta é a realização da união plena entre o amor
e a consciência, através da qual o amor se encontra e vivencia a si próprio
como amor. Este encontro é possível pela consciência que se reconhece a si
própria como amor, num acto de total auto-transparência. A força do amor,
ao infundir-se na consciência, potencia-a, transformando-a de mera
transparência em luz, que é a transparência no seu estado activo, isto é, de
acto puro de si mesma, enquanto transparência.
Page 19 of 53
Luz é o resultado da transparência da mesmidade perante si mesma. Luz
pura é a ausência total de opacidades. Estas implicariam a existência de
diferenças no interior da mesmidade, o que não é possível dada a sua
unidade intrínseca. Luz pura é auto-evidência absoluta em si mesma e para
si mesma. Luz pura não é algo que de exterior incida sobre algo; luz pura é
o resultado do encontro da mesmidade consigo mesma e do respectivo
reconhecimento de si como fonte, origem e verdade absoluta de si mesma.
Neste encontro a mesmidade realiza o absoluto em si e de si. Luz é auto-
transparência.

17. O princípio c

18. No momento

19. A forma dada

Enquanto amor, a mesmidade vivencia-se como um mar imenso de


possibilidade total, de liberdade absoluta. Enquanto consciência, a
mesmidade capta-se a si mesma, torna-se consciente [de si]. Muito embora
a consciência radique na unidade intrínseca da mesmidade, ela gera-se e
gera o desdobramento que se dá no interior daquela, pelo processo de busca
de si mesma. Esse processo ou esse movimento de busca advém do facto de a
mesmidade se estar continuamente a transcender a si própria. O buscar-se
pela consciência implica um buscar o sentido de si própria que é a forma
específica que a mesmidade tem de realizar a sua unidade. Ao buscar-se,
encontra sentidos possíveis de si própria. Estes sentidos que encontra são
como que emergências, autonomizações que se dão no seio da sua infinita
possibilidade. A mesmidade, porque potencialidade pura, é uma
possibilidade e, como tal, é sem forma ou, por antes, é algo que contém
todas as formas mas em que nenhuma prevalece. Quando, pela consciência,
realiza sentidos de si própria, essas autonomizações, no interior da sua
possibilidade, dão-se pela forma. Esta é o processo pelo qual algo emerge,
se emancipa do puro potencial. Forma é a forma própria do acto puro. É
pela via da forma que a mesmidade, através da consciência, se transforma

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em acto puro de si. A luz, enquanto resultado e condição do encontro do
amor consigo próprio através da consciência é, no fundo, a primeira
estrutura de forma e, por isso, ela é o acto criador originário. Como existe
uma unidade intrínseca entre amor, consciência e luz, também aqui se
verifica não ser concebível a existência da mesmidade sem a criação de si
mesma. A luz é o esplendor de si própria enquanto acto puro [de si] e é o
momento originário. Como se transcende continuamente a si própria e,
consequentemente, se busca e se reencontra, há um enriquecimento
progressivo dos sentidos de si e, com isso, um enriquecimento das formas e,
portanto, da criação. Se a mesmidade existisse encerrada no interior da sua
própria possibilidade, porque sem limites, estando ela totalmente presente
em todo e qualquer ponto de si própria, não teria possibilidade de
movimento e de evolução. Ora, como possibilidade infinita, ela é também
possibilidade do seu próprio movimento e da sua própria evolução. Ao
exteriorizar-se, pela concretização dos sentidos possíveis que contempla em
si própria, gera novas perspectivas em si mesma, a partir das quais se
reencontra com o sentido de si mesma. É a partir dessas novas perspectivas
que regressa a si, reintegrando esses sentidos no sentido originário que a
todos contém e do qual nunca saiu, num processo de integração contínuo e
de celebração da sua própria unidade.

Pela consciência, que permite a contemplação criadora, gera como que


imagens espelhadas de si própria, a partir das quais regressa com um
sentido renovado de si mesma. Este, já contido na sua potencialidade pura,
é a dinâmica que a leva a transcender-se e, consequentemente, a buscar-se.
A sua evolução dá-se, portanto, num movimento de base infinita, elevado a
uma potência infinita, sendo que o infinito da sua potência deriva do infinito
da sua base. A base infinita é a sua possibilidade infinita que se concretiza
em cada momento na criação que faz de si mesma. O expoente infinito é a
possibilidade infinita dos sentidos a partir dos quais relê a sua base infinita.
Todos os seus expoentes estão contidos na sua base e toda a base presente
em todos e em cada um dos expoentes. Infinito elevado a infinito é igual a
infinito e, por isso, nada de novo e essencial é acrescentado à mesmidade
pelo próprio processo de criação. Ela simplesmente se expressa a si mesma,
em si mesma, através de si mesma e perante si mesma, porque mesmidade
é… ela própria, em si própria, por si própria.

Page 21 of 53
20. O princípio c

21. Resultante da
objectivada perante si mesma.

22. Enquanto tal

O amor é máxima concentração, máxima integração. Esta, no absoluto da


mesmidade, transforma-se em auto-transparência, em unidade pura.
Consciência é o amor, enquanto unidade, em acto. Luz é o resultado do
encontro do amor consigo próprio enquanto acto e potência de si mesmo.
Numa alusão à teologia de raiz cristã, poder-se-ia considerar o amor como
o Pai. Na sua potencialidade pura funda-se a omnipotência. A consciência é
a Segunda Pessoa que consiste na consciência que o amor gera de si
próprio e que corresponde à Consciência Crística. Por isso, na teologia
cristã se considera que Cristo é o Filho unigénito de Deus, não Jesus, mas
Cristo. Este é a própria consciência do amor [do Pai]. Nesta conformidade,
a Consciência Crística é uma consciência amorosa, é a consciência
amorosa de Deus. Jesus alcançou o estado de Consciência Crística, tendo
realizado, dessa forma, o Cristo. Cristo é todo aquele que está e participa
da Consciência Crística e que, como tal, vive em plena comunhão amorosa e
de pensamento com a própria Consciência Divina. Aquele que vive em
comunhão com a Consciência Divina, isto é, em Consciência Crística,
identifica-se, por uma real fusão, com o próprio Pai. Contudo, como Deus
se transcende continuamente a Si mesmo, aquele que vive em Consciência
Crística, ainda assim, não se sente como fundamento e origem de si mesmo,
remetendo para o Pai. É uno com o Pai mas o Pai não se esgota nele. Aliás,
pode ver-se no discurso de Jesus uma ambivalência. Umas vezes diz ser o
Amor, o Caminho, a Verdade e a Vida, num registo próprio de Deus e,
noutras, remete para o Pai, assumindo-se como simples Filho que mais não
faz do que a vontade de Seu Pai.

Como a mesmidade é intrinsecamente una, é o próprio amor que liga o Pai


ao Filho. Esse amor, enquanto unidade entre Pai e Filho, é o Espírito Santo.

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Este é o fundo sobre o qual se produz o desdobramento, é a própria
“matéria” que o permite sem perda de unidade. É o Espírito Santo também
que induz na mesmidade o movimento de busca permanente de si mesma. É,
portanto, a sua acção que conduz ao reencontro da mesmidade consigo
própria, geradora dos momentos de luz resultantes do fulgor amoroso do
reencontro e que é o acto originário de criação. Por esse motivo, na
espiritualidade cristã, o Espírito Santo é vulgarmente associado à Luz.

23. Criar é sair d

24. A forma é o
criadora, dá forma, gerando um existente. Contudo, essa forma não é mais
do que uma forma possível, na mesmidade contemplada por si mesma.

Consciência é o princípio da forma. Pela consciência o amor dá forma a si


próprio. Quando tal acontece, cria-se. A forma é uma concretização de si
mesmo. Concretiza-se em si e perante si, pela consciência que gera de si. A
consciência é possível pela e torna possível a contemplação. A consciência
de si celebra a unidade de si. A forma é sempre expressão da unidade de si.
Por esse motivo a forma é sempre algo completo e perfeito em si mesmo.
Poderá ser incompleto e imperfeito em relação a outras formas, mas só
porque é completo e perfeito em si mesmo pode existir. Tudo o que existe é
completo e perfeito em si mesmo, sendo essa a condição da sua própria
existência. É completo e perfeito porque é a expressão da própria unidade e
perfeição da mesmidade. É a própria unidade e perfeição da mesmidade a
concretizar-se a si própria. Pela potencialidade pura da mesmidade,
contudo, cada forma é apenas uma forma possível de si mesma. Por esse
motivo, apesar do absoluto de cada forma, enquanto unidade e perfeição em
si mesma, ela é relativa à luz da potencialidade pura. Daí que o plano da
forma seja já um plano do relativo, embora absoluto em si mesmo.

Page 23 of 53
25. A contemplaç
não é um resultado da contemplação – é a própria contemplação.

26. Contemplar i

A mesmidade, enquanto tal, nada mais é do que a sua própria possibilidade.


As formas que assume não são, contudo, aleatórias. As formas que assume
resultam do próprio acto auto-contemplativo. Este é o acto pelo qual a
mesmidade se encontra a si mesma. Como ela mais não é do que a sua
própria possibilidade o que estará na origem das contemplações concretas?
A mesmidade, ao buscar-se, fá-lo através do sentido que conserva de si
própria. É este sentido, resultante da sua unidade intrínseca, que orienta a
sua contemplação e que faz com que ela seja a contemplação da sua própria
essência. Por este motivo não há qualquer distorção entre o criado por
contemplação e a essência da mesmidade.

27. A forma é sen


sentido de si, a consciência da mesmidade reflecte a sua própria essência e,
como tal, a sua contemplação é pura não havendo, portanto, qualquer
distorção entre o criado por contemplação e a essência da mesmidade.

28. O devir e a su

29. A exteriorida
geração da consciência. A objectivação e a formação do princípio
consciente são um único processo - a contemplação criadora.

30. O criado, por


evolutiva, o que explica a evolução dos entes e de cada ente.

31. A formação d

32. Este desdobr

33. Unidade pura

Page 24 of 53
34. Mesmidade é

Mesmidade é potencialidade pura, potencialidade de si mesma.


Potencialidade implica ausência de toda e qualquer forma de
constrangimento e, em particular, do resultante de qualquer forma de
escassez. Por isso, mesmidade é também pura abundância; pura abundância
de si mesma. De que mais poderia ser?

Esta abundância inscreve-se na natureza essencial da mesmidade, que é


amorosa. O amor é, por definição, incondicionalidade, irrestritividade. A
abundância concretiza-se no encontro amoroso da mesmidade consigo
própria, que se perde no imenso mar de si mesma. Ao reencontrar-se
consigo própria a mesmidade realiza-se a si mesma sem qualquer restrição.
A abundância dá-se por realização da sua identidade, para além de toda e
qualquer restrição. Abundância é abundância de identidade. A realização
da identidade gera abundância de si mesma, aos olhos de si mesma. Esta
abundância de si mesma é o “material” que a mesmidade usa na criação
[de si mesma]. Nunca é demais referir que tudo, na mesmidade, se passa no
interior da sua consciência. Esta é que, pelo seu poder criador, livre de todo
o constrangimento e de toda a oposição, cria espontaneamente, tornando-se
acto puro de si mesma. Abundância é abundância de si mesma, de uma
consciência que se encontra a si própria e que, como tal, é pura abundância
de si.

Esta total coincidência consigo própria, esta total auto-transparência é o


acto luminoso originário e criador. A luz é a forma que a amor adquire por
acção da consciência. É a transparência da consciência inflamada pela
energia primordial do amor.

Abundância pura de si mesma implica uma unidade total consigo mesma.


Esta unidade total implica possibilidade infinita de si mesma. Mesmidade é
unidade pura e, como tal, potencialidade pura. Só o vazio, enquanto nada, é
pura potencialidade, livre de todo o constrangimento pois, como dito, aquilo
que já é não é potencialidade pura, mas apenas a sua própria
potencialidade em acto.

Page 25 of 53
35. O princípio c

36. A consciência

37. A consciência
pela geração da vontade.

38. Vontade é o d

39. Consciência
potenciada pelo sentido originário.

40. O sentido ori

41. Em cada mom

42. Pura auto-tra

43. Só através de
transparência.

44. O existente é

45. O espaço/tem

46. A ordem é o r

Consciência é um simples “ser em si mesmo”. Consciência é algo que está


para além dos seus próprios conteúdos, isto é, para além daquilo de que é
consciente. Para os seres sencientes consciência é um atributo. Para a
mesmidade consciência é simplesmente ser em si mesma, encontrada
consigo. Consciência é a unidade pura do amor que, por unidade pura, sem
diferenciação, sem opacidade, se torna transparente perante e em si mesma.
A consciência, mais ou menos desenvolvida, dos entes resulta do facto de
serem uma criação amorosa, não se verificando através deles qualquer
distorção entre a essência amorosa e transparente da mesmidade e a sua
criação por contemplação. A consciência dos entes resulta e em última

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instância radica no facto de serem perfeitos, unos e completos em si
mesmos. Esta unidade torna-os igualmente transparentes em si próprios e
perante si próprios, resultando daí a dimensão da consciência. Esta é,
portanto, uma auto-transparência do ser perante si mesmo.

A auto-transparência na mesmidade é ser em si, na sua própria essência


amorosa, pura potencialidade. É ser em si, sem mediação. Pela sua unidade
intrínseca, a mesmidade é em si sem qualquer mediação, constrangimento
ou dependência de algo que não seja de si própria. Esta imediatez é a
condição de auto-transparência. Mas auto-transparência também só é
possível numa ausência total e absoluta de obstáculos, de imperfeições que
constituam impedimento ao ser em si mesmo, à sua auto-captação. Como
tal, auto-transparência é possível num contexto de ordem absoluta. No caso
dos entes, tal como a forma é absoluta e perfeita em cada um, também a
ordem o é. Aliás nem faz sentido falar de forma perfeita ou imperfeita. A
forma, por definição, é sempre perfeita e una ou então não poderia sequer
existir. Tudo o que existe é sempre acto puro da mesmidade. Esta cria por
contemplação de si própria e toda a sua criação contém em si a essência da
mesmidade, ou seja, amor, unidade intrínseca. O sentimento de imperfeição
resulta de uma comparação relativa entre formas, de acordo com critérios
diversos mas, em si mesmo, tudo o que existe é perfeito, porque resultante de
um acto de criação amorosa da mesmidade. Nos entes a ordem é a ordem
subjacente a uma forma específica e não a Ordem. Esta é atributo da
mesmidade. Como esta é potencialidade pura, possibilidade infinita, o seu
princípio de ordem é também um princípio potencial que se concretiza em
cada momento pela contemplação de si mesma. O princípio de ordem é
inerente à consciência. Por este motivo, no momento da contemplação
criadora, o contemplado é uma possibilidade da mesmidade que se
autonomiza, pelo que se estrutura segundo um princípio de ordem. É a
ordem potencial da consciência que estrutura a potencialidade pura,
gerando o universo criado. Potencialidade pura é aquilo que ainda não é,
pois aquilo que é, é apenas a sua própria possibilidade. A mesmidade é,
portanto, um vazio que, como tal, tudo pode vir a ser. A auto-transparência
total só é possível numa consciência totalmente transcendente e desapegada
dos seus próprios conteúdos objectivos e mesmo possíveis. A auto-
transparência é, portanto, uma propriedade do vazio que, anterior a toda a

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forma e conteúdo, se capta a si mesmo. A diferença entre o grande vazio que
a mesmidade é e o mero nada é que este vazio, totalmente transparente a si
mesmo, encerra todos os sentidos que uma consciência perante o vazio
consegue gerar, enquanto o nada é uma mera possibilidade, um dos infinitos
sentidos que a mesmidade pode encontrar para si própria. Pleno de si
mesmo, por ser livre de todo e qualquer constrangimento, o vazio é
abundância pura de si mesmo e, nesta abundância, reside a sua dimensão e
dinâmica amorosas.

47. O desdobram

O desdobramento é algo intrínseco à mesmidade; mesmidade é


reconhecimento de si mesma. O desdobramento é possível por um princípio
consciente que já é e que se gera em cada momento de contemplação. Em
cada contemplação criadora está presente todo o sentido da mesmidade, nas
suas dimensões potencial e consciente.

Todo o criado é uma totalidade de consciência e potencialidade; no caso do


criado material, de consciência e matéria.

O acto de contemplação criadora não é algo em que um princípio activo


inteligente se infunde num informe potencial, conferindo-lhe forma e
existência, mantendo-se, contudo, exterior a esse informe. Diversamente, o
acto [de contemplação] criador é um acto de mera autocontemplação, nada
acrescentando de essencial ao que já é.

Não tem sido possível, até hoje, captar a forma que o princípio consciente
assume na matéria nem, tão pouco, nos seres vivos que não o Homem.
Começa a haver alguns vislumbres sobre formas possíveis de inteligência
em alguns animais mas o seu conhecimento é, ainda, rudimentar. No
Homem, contudo, já muito começa a ser dito. De absolutamente essencial,
encontra-se a dualidade como estrutura fundante da consciência. Dualidade
que se manifesta de diversas formas, como por exemplo: no espaço, com o
aqui e o não aqui, interior/exterior; no tempo, com o agora e o não agora;

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eu/outro; consciente/inconsciente; ser/não ser. Este carácter dual da
consciência humana é a estrutura gnoseológica fundante e está na base da
sua percepção do mundo. A dualidade entre o “aqui” e o “não aqui”
permite uma noção de espaço contínuo e com dimensões. Sem a alternância
“aqui” e “não aqui” não haveria dimensões no espaço. A alternância da
dualidade é que permite a explicação do mundo aos olhos da minha
consciência. Toda a forma se dá por alternância. Na mesmidade, a
dualidade gerada no desdobramento, contudo já superada originariamente e
superada também pela auto-transparência pura, está na origem do acto
contemplativo criador.

O Homem é um criado, resultante da contemplação que a mesmidade faz da


sua própria possibilidade de auto-consciência. Por este motivo, a forma da
consciência humana tem uma importantíssima dimensão de auto-
consciência. Nesta funda-se o livre-arbítrio.

A auto-consciência resulta de um desdobramento da consciência perante, e


em, si mesma.

O desdobramento resulta de uma intensificação da consciência que o


provoca. A intensificação resulta em desdobramento e não num qualquer
processo de expansão, com perda ou pulverização, dada a natureza
intrínseca da consciência. Esta é sintética e, como tal, sintetizadora. Esta
sua natureza imprime, nos seus processos, uma dinâmica agregadora. A
consciência tende para a unidade pura e radical que ela própria é na
vacuidade de si mesma. A auto-transparência é possível na vacuidade de
uma consciência; a vacuidade é possível numa consciência que não se
apega aos objectos que contém. O princípio consciente é esta vacuidade.
Cheio de todas as suas possibilidades, não se apega a nenhuma porque é
pleno; porque é plena e não se apega, a consciência da mesmidade é
absolutamente transcendente, até a si mesma. Esta transcendência absoluta
é condição de desdobramento e, portanto, de movimento.

A irredutibilidade da consciência humana, na qual reside a liberdade,


radica na herança que o Homem, enquanto ser criado, recebe deste
princípio consciente enquanto absoluta e radicalmente transcendente. Na
intimidade da mesmidade, nessa unidade intrínseca, que nunca deixa de o

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ser, a transcendência absoluta do princípio consciente é possível pela
possibilidade infinita. A possibilidade infinita de algo e a transcendência
absoluta do princípio consciente originam-se mutuamente. A transcendência
absoluta do princípio consciente reside no potencial absoluto de algo e, este,
na possibilidade infinita, absolutamente radical da consciência. Só na
vacuidade suprema é possível o todo potencial.

48. A consciênci

Naquele criado resultante de possibilidades da mesmidade menos


associadas à consciência e mais à pura potencialidade, à obscuridade
potencial, a consciência é mero princípio activo, gerador de movimento
orgânico e inorgânico. Embora em tudo haja um sentido de si mesmo
inerente à consciência, esse sentido, no meramente orgânico e no
inorgânico, é apenas consciente. Esse sentido de si exprime-se, na matéria,
através da coesão, da simples coesão atómica, e na vida, através da unidade
e da auto-organização. No Homem esse sentido de si é expressivamente
auto-consciente. Esta auto-consciência gera dois movimentos opostos: um
no sentido da interioridade e outro no da exterioridade.

A auto-consciência no Homem não é mais do que o auto-reconhecimento do


princípio consciente da mesmidade no criado. A mesmidade contempla as
suas infinitas possibilidades e cria. Pela auto-consciência humana
reconhece-se a si mesma no criado. O esforço deliberado e consciente do
Homem no sentido do conhecimento do mundo, da sua origem, dos seus
aspectos mais recônditos, resulta da dinâmica da mesmidade no sentido de
se reconhecer a si mesma em todo o criado, através do criado.

Este reconhecimento de si mesma, por parte da mesmidade, na consciência


humana, gera um movimento deliberado de procura de si que é sentido pelo
Homem como angustiante.

Esse é um movimento no sentido da interioridade. Essa busca não é uma


busca no espaço, é um esforço de sintonia da consciência individual com o

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“momento” contemplativo que lhe dá origem. O aperfeiçoamento dessa
sintonia permite, a cada homem concreto, a evolução no sentido de si
mesmo e, em última análise, está na origem da evolução do pensamento
ético, estético, científico e filosófico, bem como da ascese interior do sentir.

49. A consciência

A consciência individual não é mais do que uma perspectiva, um ponto de


significação, um “topos”, a partir do qual a consciência pura da mesmidade
se capta a si mesma, em cada momento. A mesmidade está em tudo e a sua
unidade é intrínseca. No Homem, para além de se auto-reconhecer no
criado pela auto-consciência humana, reconhece-se, embora de forma
difusa, em tudo e procura. Este reconhecimento gera um movimento na
consciência humana, no sentido do exterior, o que está na origem do esforço
de conhecimento. Enquanto unidade intrínseca, a mesmidade, no seu esforço
de auto-reconhecimento dessa mesma unidade gera, no Homem, o sentido
da comunhão, da convivencialidade, da interacção. Gera-se, portanto, um
duplo movimento, no sentido do interior e do exterior. Esta divisão
interior/exterior radica na ilusão de uma consciência individual. Esta ilusão
é reforçada por relação a um corpo individualizado. Conforme a mesmidade
se transcende absolutamente a si mesma pelo princípio consciente, sem se
deixar a si mesma, também a consciência humana, sem abandonar a
realidade do corpo e da sua individualidade, se pode transcender a si
mesma por um processo de auto-consciência progressivo. A referência ao
corpo que mais não é do que um ponto de sentido, é a própria condição de
transcendência. Sem corpo, sem identidade, a consciência humana não
existiria. Ainda que existisse, ela seria sem sentido; uma mera vacuidade
sem sentido. Consciência e corpo são uma unidade intrínseca.
Simplesmente, pela auto-consciência, a consciência transcende-se a si
própria; transcende, portanto, também, a sua própria corporeidade,
vivenciando-a de uma forma continuamente diferente. Mesmo no seu
desdobramento, a mesmidade, como um nada absoluta e puramente
potencial que é, é uma unidade intrínseca e plena. O seu desdobramento,

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que permite e produz a auto-contemplação criadora, pressupõe, quando
abordado por uma mente dual como a humana, duas dimensões: uma, de
consciência e outra, quase se pode dizer, obscuramente potencial. Existem
uma por relação à outra: a obscuridade, por relação à consciência; a
consciência, por relação à obscuridade. No complexo humano passa-se algo
semelhante. É o Homem e o seu devir. O devir, em cada homem, não é mais
do que a contemplação activa e comprometida das suas próprias
possibilidades. Torna-se consciente delas na medida em que se lhe impõem
com a sua realidade, com a sua imediatez, assumindo elas essa realidade,
para si, na medida em que delas toma consciência.

50. Na mesmidad
global; no caso especificamente humano, num devir colectivo. Nenhum
homem controla totalmente o seu devir e, muito menos, quando este se
inscreve num devir colectivo.

51. O devir huma

52. A mesmidade
enquanto consciência ilimitada de si mesma, na sua mesmidade, até do seu
próprio desconhecido, enquanto desconhecido, é consciente.

A consciência humana é limitada e, como tal, o Homem não tem consciência


do seu próprio desconhecido. Vislumbra-o apenas sob a forma de um
presente não totalmente abarcado, de um passado recôndito e de um futuro
como um presente que poderá vir a tornar-se.

A fronteira do desconhecido é a fronteira da consciência; a fronteira da


consciência é a fronteira do eu enquanto “topos”. Inconsciente do seu
desconhecido, o Homem tem uma dimensão inconsciente. Esta dimensão tem
duas dinâmicas: uma, insondável de uma forma absoluta para o Homem,
que é a dimensão de onde brota o devir, o novo, o desconhecido puro; a
outra, resulta de todo aquele devir que a consciência não aceita e que, como
tal, não chega a ter ou deixa de ter, existência nela e que, como tal, se torna

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inconsciente. È deste tipo de dinâmica que resultam as patologias psíquicas.
Estas resultam de uma negação do ser, do ser na minha existência que se
quer dar, mas que eu não quero que se dê. O Homem tem, portanto, duas
dinâmicas de inconsciência: uma criadora e criativa e outra inibidora da
criação, da espontaneidade do ser. A negação de ser resulta de
condicionamentos artificiais da consciência, muitas vezes por educação;
outras, por incapacidade de vivenciar a incomportabilidade do sofrimento.
Esta resolve-se de duas formas possíveis: por negação ou supressão e por
superação. A negação consiste num relegar para fora da esfera do
consciente. Sendo o devir algo que não está no âmbito da esfera das opções
humanas e, como tal, compulsivo, impondo-se ao Homem, a negação
daquele gera realidades autónomas a que chamamos (na esteira de Freud)
complexos que são elementos fracturantes da identidade única de cada
homem. A superação, e em particular a da incomportabilidade, reside na
busca de sentidos progressivamente mais elevados que permitam integrar
esse sofrimento num conjunto existencial e vivencial harmonioso. O
verdadeiro sofrimento, na sua incomportabilidade, reside no facto de a sua
vivência não ter, por vezes, sentido. O sentido é o verdadeiro factor de
sublimação do sofrimento. O sentido dos sentidos é o amor e, por isso, ele é
o verdadeiro sublimador do sofrimento. Este resulta de uma desordem.
Quando entendido à luz do amor, uma ordem mais profunda é infundida,
perdendo o sofrimento a sua dimensão avassaladora e transformando-se
num factor de harmonia e desenvolvimento interiores.

53. A consciência

A consciência está permanentemente a celebrar unidade no diverso do


existente com que se defronta. Esta unidade celebrada pela consciência
(síntese) é possível pela unidade intrínseca do diverso existente, enquanto
mesmidade contemplada por si própria. Sem o sofrimento e a gratificação
resultante da sua superação, esta ascese da consciência seria meramente
mental e não envolveria o Homem, enquanto criado, em toda a sua
plenitude. Só com a ascese, também e em equilíbrio, do próprio sentir, na

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carne, a ascese do Homem em direcção a si mesmo é completa. O sentir é a
forma específica de consciência da corporeidade. O sentir é a consciência
enquanto carne. Nesta unidade intrínseca reside a verdadeira consciência, à
luz da qual adquire sentido pleno a vida humana. O corpo, enquanto
“topos” e porque é “topos”, é condição absoluta de realização e de auto-
reconhecimento da consciência da mesmidade, topos de si mesma. O sentir
próprio da carne e na carne introduz uma dimensão de verdade imediata,
concreta iniludível, sendo através dele que se concretiza a ligação íntima e
original à vida vibrante, para além de tudo o que se pode dizer, que a
mesmidade, na sua inefabilidade, também é.

54. Enquanto con


eminentemente criador. Não é concebível a existência da mesmidade isolada
da criação, uma vez que esta é, em última instância, criação de si mesma,
por contemplação de mera possibilidade; possibilidade que surge na
consciência.

55. Mesmidade é

56. Mesmidade t

57. Todo o criad

58. Pela sua tran

59. A criação é d

60. O culminar d
oceano da consciência.

61. O retorno é u

62. O amor é o c

63. Pela sua unid

64. Tudo é Divin

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A mesmidade, na sua natureza essencial, é absolutamente transcendente à
criação. Não o ser significaria ficar apegada e, portanto, constrangida por
si mesma. Contudo, a criação, enquanto mesmidade, tende para si própria e,
como tal, todo o seu movimento é determinado por um regresso a si mesma,
por um reencontro, uma fusão consigo mesma. A mesmidade está presente
na criação, em cada ente, de uma forma absoluta, mas potencial. O
reencontro pleno da mesmidade consigo própria culmina quando, pela via
do ente e em ente, se reconhece a si própria como mesmidade. Quando tal
acontece dá-se a divinização do ente e consuma-se a unidade plena da
mesmidade em todas as suas dimensões. É a plena identificação da
imanência com a transcendência sem perda de nenhuma. É a transcendência
na imanência e a imanência na transcendência, constituindo isto a superior
forma de realização da unidade da mesmidade. Enquanto transcendência
total, a mesmidade é absolutamente consciente de toda a sua imanência.
Enquanto imanência não é consciente da sua transcendência. Enquanto
imanência ela é, simplesmente. Contudo, todo o seu potencial de
transcendência e, como tal, de consciência está presente. A sua unidade
essencial compele a criação e cada ente em particular a um movimento de
retorno a si mesma. Este movimento é alimentado pela energia amorosa
primordial que está presente na mais pequena partícula da criação e pela
via da experiência. O mesmo é dizer que é pela via do amor, da consciência
e da luz. A mesmidade é, portanto, origem, destino e caminho de si mesma.
Pela sua unidade intrínseca a mesmidade não é susceptível de fragmentação
e, por isso, está totalmente presente em tudo e em cada partícula da criação.
Na sua transcendência tudo conhece, tudo vive, de tudo é consciente. Na sua
imanência, não. Esta faz parte do seu próprio desconhecido, do qual,
contudo, enquanto transcendente a si por via da consciência amorosa, é
consciente. Pela sua unidade intrínseca, a mesmidade não pode deixar de
estar totalmente presente em tudo. Em cada partícula da existência está
presente todo o fulgor, todo o potencial da mesmidade. Apesar de totalmente
presente em cada partícula, esta última mais não é do que uma mera
possibilidade da mesmidade e, como tal, limitada, constrangida. Contudo,
como nela toda a mesmidade está presente, esse constrangimento não é
absoluto mas relativo e, como tal, ultrapassável, necessariamente
ultrapassável.

Page 35 of 53
65. A escassez é

66. É por via do

Na sua imanência, o constrangimento é o elemento que induz o movimento


de regresso a si mesma. Dada a unidade intrínseca e amorosa da
mesmidade toda a criação está necessariamente em permanente movimento
de retorno a si. Por isso, este movimento, no fundo, resume-se a um simples
existir.

67. Existir é estar em si, a caminho de si.

68. Existir é ser continuamente renovado pela contemplação da mesmidade.

69. Estar em si é ser; ser em si mesmo, como fonte de si mesmo.

Ser em si é simplesmente ser em profunda e total sintonia com o acto


criador que deu origem, e que se renova em cada momento. Quanto mais
profundamente em si, maior a auto-transparência e maior a profundidade
com que a mesmidade se vivencia enquanto aquela possibilidade específica
de si mesma ou, mais profundamente, aquela possibilidade, enquanto
mesmidade, se vivencia a si própria. O estar em si, o simples vivenciar-se a
si mesma, implica uma simplicidade total em si e perante si, uma auto-
transparência total. É desta transparência em si mesma e perante si mesma
que advém a energia vital que mantém os entes e cada ente na existência.

As montanhas, os oceanos, os seres inanimados e os seres animados não


racionais existem nesta simples transparência, repousando em si mesmos,
na sua própria natureza. São em si próprios pois mesmidade é evolução.

A erosão de uma montanha ao longo de milhares de anos é uma das suas


formas de evolução. O ciclo da água é uma das formas de evolução dos

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oceanos. O nascimento e a morte de uma flor é uma forma de evolução que
não se perde na morte. Nas sementes que largou e que deram origem a
novas flores está presente essa experiência de nascimento, glória e morte.
Nas partículas que resultam da sua desintegração está gravada essa
experiência. Essas partículas, por essa experiência acumulada estão um
pouco mais próximas da realização plena. O vento leva-as e a
contemplação da mesmidade integra-as com outras partículas que, pela sua
experiência, conseguem gerar formas mais completas, capazes de vivências
mais ricas. Pela unidade intrínseca de cada ente, manifestada na forma, o
conjunto dessas partículas forma um todo, tornando-se, cada uma, o
conjunto de todas, atingindo assim um nível de complexidade cada vez
maior. Desta forma, cada partícula absorve as vivências daquela nova
forma mais complexa em que se integrou, que vive em si e da qual faz parte
integrante. As partículas constituem um novo ente, uma forma e esse mesmo
ente transmite-lhes a sua própria complexidade, fazendo-as evoluir e
tornando-as mais aptas a virem a constituir um outro ente mais complexo,
mais rico em possibilidades. Mais rico em possibilidades significa mais
próximo de realizar em si a possibilidade infinita da mesmidade na sua
essência.

Das formas mais simples às mais complexas, o movimento de retorno da


mesmidade em acto de si dá-se através deste processo de experimentação,
numa dinâmica progressivamente mais complexa, mais integradora. O que
subjaz a este processo é a força agregadora do amor que se consubstancia
na geração de formas mais complexas e autónomas.

70. O amor tende para si mesmo. Tudo na existência tende para a unidade
que é a expressão e realização desse amor.

O amor é consciência. Por isso, uma progressão no verdadeiro amor é


também e necessariamente uma evolução na consciência. O amor é
potencialidade pura; a consciência é a explicitação e realização dessa
potencialidade pura. A realização do amor, através de formas
progressivamente mais complexas e autónomas, é possível pela acção da
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consciência que, ao estruturar essas progressivas complexidades, reflecte
perante si mesma a riqueza do amor. Ao reflectir perante si mesma o amor,
contempla e, portanto, cria.

A mesmidade, pela sua unidade intrínseca, está totalmente presente em tudo,


desde a partícula mais simples à forma mais complexa. Não há, portanto,
uma presença mais intensa do amor na forma mais complexa do que na
partícula mais elementar. De facto, a força amorosa agregadora que
mantém o electrão a girar em torno do núcleo é a mesma que mantém coesa
uma família unida pelos laços do amor. A consciência desse mesmo amor é
que é diferente. Pode até ser aceitável considerar que no seio dessa família
há mais amor do que num electrão. Contudo, o importante é considerar que
o electrão tem o amor necessário para manter a sua unidade ou a sua forma
e que a família também o tem. Têm a mesma quantidade de amor; a
quantidade específica necessária a cada um deles. Assumindo formas
diferentes, a mesmidade está presente de igual forma em todos, aquela que
resulta da necessidade específica de cada um. Desta forma, no
profundamente relativo se encontra o absoluto da mesmidade, na qual tudo
é amor em tudo e para com tudo; um absoluto mar de amor.

Na sua incessante busca de si própria, mesmidade é evolução. Da partícula


mais elementar ao ser mais complexo tudo está em evolução. É a força do
amor, da consciência e da luz que rege esse processo de evolução. O amor
com a sua energia infinita alimenta-o. A perfeição do amor torna-o livre de
toda a imperfeição, de toda a privação, de todo o constrangimento e, como
tal, o seu processo não conhece oposição sendo esta ausência de oposição
que torna a mesmidade acto espontâneo de si mesma.

Pela consciência [do próprio amor], o princípio de ordem inerente à


mesmidade e, consequentemente, à própria criação, rege a estruturação de
níveis progressivamente mais complexos de organização da existência.
Como esse princípio é intrínseco à consciência [da mesmidade] ao
estruturar-se segundo si própria ela transforma-se e conduz-se para si
própria. Como a sua essência é amorosa, o princípio de ordem subjacente à
criação e à sua evolução expressa essa mesma essência, induzindo o
desenvolvimento de formas e seres progressivamente mais perfeitos,
conscientes e com maior capacidade amorosa. Tudo na existência ressoa ao

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amor da mesmidade, se alimenta do amor da mesmidade e caminha em
direcção ao amor da mesmidade. Em cada ser que se estrutura de uma
forma mais complexa e mais amorosa revela-se a própria mesmidade na
busca de si mesma, na sua dinâmica de realização absoluta [de si mesma].
O encontro da mesmidade consigo própria gera luz [em si própria e para si
própria]. Quanto mais profundo e completo o encontro mais intensa a luz.
Seres mais ricos e complexos, gerados segundo o princípio de ordem
inerente à mesmidade, são seres com maior intensidade luminosa. O acto de
luz é o acto resultante do encontro da mesmidade consigo própria, através
do qual, por contemplação, dá forma a si própria, perante si própria e por si
própria. A forma, por conseguinte, é luz. De um ponto de vista relativo,
quanto maior a complexidade, maior a luz. De um ponto de vista absoluto,
forma é forma, qualquer que seja a sua complexidade; e forma é luz. O que
varia segundo a complexidade é a consciência própria da luz. Contudo,
como consciência é luz, mais consciência implica mais luz. A partícula mais
elementar tem potencial infinito de luz, advindo daí a sua capacidade de
integrar formas cada vez mais complexas. O seu potencial de luz vai-se
tornando acto de si próprio na medida em que, pela experienciação, se vai
tornando cada vez mais consciente de si.

O ponto a partir do qual se estrutura a consciência é o sentimento de si.


Este está presente em tudo e é a marca indelével da mesmidade. O
sentimento de si nas partículas mais elementares revela-se na coesão. O
sentimento de si é a semente amorosa e identitária que a mesmidade
imprime no ente. O sentimento de si gera a unidade no ser criado. O
sentimento de si é o “topos” a partir do qual se estrutura e perspectiva a
consciência. Por seu turno, a estruturação desta permite o aprofundamento
da consciência de si. A evolução do sentimento de si e a estruturação da
consciência reflectem, resultam de e constituem elas próprias o movimento
de retorno a si mesma. Este movimento da mesmidade não é uma fuga do
criado, porque ela é também o próprio criado, mas é sim um movimento de
transformação, por via da consciência amorosa, em formas cada vez mais
amorosas e conscientes, isto é, mais profundamente próximas da essência da
mesmidade.

Cada forma ou cada ente, enquanto mesmidade ela própria, está em


permanente evolução. Pela mudança e pela evolução cada ente se escapa
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continuamente a si próprio, se busca continuamente a si próprio e se
transcende a si próprio em momentos específicos. A busca de si próprio que,
tal como na mesmidade, é também o movimento de saída de si próprio
estrutura-se segundo o sentimento de si. Este sentimento gera uma dinâmica
estrutural centrípeta em cada ente, dinâmica essa que induz à preservação
de si, ao alimento de si, ao crescimento de si. Esta dinâmica de crescimento
resulta do sentimento de potencialidade pura, de tudo ser, próprio da
mesmidade. Numa palavra, resulta da infinitude do amor que é a própria
mesmidade. É este sentimento de si que exige, por exemplo para a cisão do
átomo, o recurso a energias elevadíssimas, tal é a força da sua coesão
interna. Nos comportamentos humanos reflecte-se na alimentação, no
descanso, nas aspirações, no desejo de perpetuação através dos filhos, etc.

O sentimento de si é o ponto de estruturação de toda a existência e é ao


mesmo tempo o elemento maior resistência à sua evolução. O sentimento de
si introduz estabilidade e constância relativas nas formas e, com isso, é
factor de estruturação. Essas mesmas estabilidade e constância, por outro
lado, também implicam resistência à mudança e à evolução.

Quando um átomo se integra numa molécula, passando a participar da vida


dessa molécula, ele transcende-se a si próprio, não deixando de ser ele
próprio. A evolução concretiza-se, portanto, em momentos de
transcendência. Esta acontece quando se dá uma transformação no
sentimento de si. Esta dá-se quando, pelo próprio sentimento de si, a
dinâmica centrípeta se transforma em dinâmica centrífuga, permitindo a
abertura de si próprio a realidades mais alargadas. O átomo que se integra
numa molécula fá-lo por abertura. Por paradoxal que possa parecer, é a
sua própria centripetidade que o leva a abrir-se e a integrar-se numa
realidade mais vasta. É o amor que está na origem deste processo. Por um
lado, é o amor que garante a centripetidade, enquanto força agregadora;
por outro, é o amor, enquanto expansão, liberdade, não constrangimento,
que o leva a abrir-se e a integrar-se. Também é o amor, enquanto
integração, que o leva a abrir-se ao outro enquanto forma de o integrar. É
também o amor enquanto integração que gera a coesão da nova molécula.
Tal como o átomo em si era uma completude, também esta nova molécula o
é, em si mesma. Todas as formas são completudes, totalidades em si
mesmas, imagens da mesmidade enquanto completude de si mesma.
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A mesmidade integra em si todos os opostos, transcendendo-os pela unidade
da consciência amorosa. Esses opostos são meras possibilidades de ser e
não ser. O feminino é o não ser do masculino; o dia é o não ser da noite. Ser
e não ser completam-se na unidade transcendente da mesmidade. Carga
positiva e carga negativa completam-se na unidade do átomo que
transcende cada um deles, estabelecendo uma unidade, uma completude. Os
opostos são o espelho um do outro, sendo pela sua interacção que surge um
terceiro – a unidade. Da união de um ser feminino com um ser masculino
surge um terceiro ser, uma nova unidade, uma nova completude. A união de
dois contrários implica a sua superação, isto é, a transcendência de si
próprios. A integração de átomos numa molécula é possível por este sistema
de completudes e só isso permite a celebração de uma nova unidade e,
consequentemente, da transcendência. Esta e, como tal, a verdadeira
evolução dão-se por celebração da unidade, que é a essência da mesmidade,
unidade que é amor. Evolução dá-se, portanto, por celebração da unidade
da mesmidade num movimento de completude cada vez mais abrangente e
profundo.

A evolução da consciência que é indesligável e que, ao contrário, gera a


própria matriz da evolução, dá-se igualmente pela dinâmica dos opostos e
sua respectiva superação. A tensão dos opostos, na consciência, é superada
por síntese. Esta é a celebração de um novo nível de unidade naquela. Como
tal, a transcendência na consciência dá-se por síntese. Esta é a celebração
da harmonia sobre a incoerência gerada pela tensão dos opostos. Essa
harmonia resulta da unidade realizada na consciência. A síntese é o
esvaziamento daquela sem perda dos seus conteúdos. A molécula é a
realização de um novo nível de harmonia sem perda dos átomos que a
constituem. Quer a molécula, quer a síntese na consciência, se dão segundo
um princípio de ordem inerente à mesmidade. Esse princípio reside na
unidade transcendente daquela e, por isso, toda a evolução se dá por saltos
transcendentais, resultantes da geração de novos níveis de unidade. Como
toda a evolução se dá por celebração da unidade, dá-se, necessariamente,
no sentido da realização da essência amorosa da mesmidade. Não há
suporte ontológico para uma qualquer evolução de outra espécie. Num
lapso temporal à escala da possibilidade de apreciação humana poderão
certos momentos ser tidos como involutivos. Contudo, tal avaliação resulta

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do curto alcance do olhar humano pois, em absoluto, não há
sustentabilidade fora da mesmidade. A afirmação de Cristo “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida” não tem um mero sentido moral, conforme
habitualmente tem sido considerado. Tem, sim, o mais profundo e radical
alcance ontológico.

Para ser possível a síntese, a consciência tem um princípio activo. É este


princípio que permite a superação e a síntese. Sem ele não seria possível
superar a tensão entre opostos. É o princípio de ordem inerente à
mesmidade. A síntese é uma ordenação em ordem à unidade. Por esta via,
tudo na criação tende para a realização da unidade da mesmidade,
constituindo nisso o retorno desta a si própria. Fora da unidade
transcendente da mesmidade, a consciência estrutura-se sempre e
necessariamente em três pontos, unidos entre si como um triângulo perfeito.
Pressupõe o “si”, aquilo que objectivamente se contrapõe ao “si” e um
elemento superior para o qual estes opostos se encaminham, que anima a
sua dinâmica e que, a dada altura, se torna testemunha do processo.
Quando a dimensão de testemunhar o processo se torna dominante o
sentimento de si transfere-se para esse nível superior, a síntese está
realizada, a unidade celebrada, os opostos absorvidos e uma evolução na
consciência, em si mesma, se deu.

Tudo aquilo que se apresenta perante uma consciência não é mais do que
ela mesma objectivada perante si própria. O diálogo entre a consciência e
aquilo que se lhe apresenta é um diálogo que tende à celebração de uma
nova unidade, regresso a si própria. É o diálogo entre a consciência e a
manifestação de si mesma. A consciência perante a realidade é como a
consciência perante de si mesma, objectivada. Os conteúdos da consciência
são o espelho de si própria, pois são produzidos em si e por si própria. Sem
estes conteúdos a consciência não teria dinâmica nem possibilidade de
evolução. É em função deste diálogo entre o “si” e aquilo que contrapõe a
“si” (produzido por si) que a consciência se resolve a si mesma, gerando
novas unidades, novas integrações, novos níveis de auto-transparência.
Neste diálogo consigo própria vai-se progressivamente auto-testemunhando
e é esse movimento que a leva numa dinâmica ascendente a libertar-se dos
seus conteúdos, o que permite a celebração de uma nova unidade. Este
movimento ascensional é possível pelo terceiro vértice do triângulo. Este é o
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princípio de ordem, unidade pura, que celebra continuamente novos níveis
de unidade entre opostos (ou contrapostos), isto em direcção ao reencontro
pleno da mesmidade consigo própria. Nesse momento, os dois restantes
vértices do triângulo integram-se no terceiro, numa coincidência perfeita
num único ponto. A matriz de toda a criação (que é a mesma da evolução,
pois entre ambas não há distinção) é trina. No acto da criação temos o “si”
da mesmidade que, por desdobramento contemplativo, gera o perante “si”,
gerando os dois, por sua vez, numa unidade perfeita, o universo criado. Esta
matriz preside ao processo de evolução de todo o universo criado, desde a
mais elementar partícula, até à forma mais complexa. Tudo é e tem
consciência ainda que não necessariamente uma consciência discursiva nos
termos a que habitualmente se chama consciência. É a consciência que o
electrão tem do núcleo que o mantém na órbita daquele. O núcleo é o
espelho do electrão. O núcleo é estável, é positivo; o electrão é instável, é
negativo. Cada um é a expressão inversa do outro. Cada um constitui a
complementaridade, é o factor de completude do outro, em função da
unidade que é o átomo.

71. Forma é unidade; unidade é consciência; consciência é ser.

Consciência não é um mero acto mental pelo qual um qualquer ente


percepciona algo. Consciência é ser. Aquilo que é, pelo simples facto de ser,
é intrinsecamente consciente. Consciência é o simples acto de ser.
Consciência é o ser que permanece em si mesmo e que, na sua unidade
intrínseca, é consciente. O ser, no repouso em si mesmo, pela sua própria
continuidade, é consciente. Não é ser porque é consciência; é consciência
porque é ser. Aquela resulta da continuidade do ser, da homogeneidade do
ser. As suas continuidade e homogeneidade tornam-no, pura e
simplesmente, transparente em si, perante si. A fonte da consciência é a
unidade absoluta do ser; a unidade absoluta do ser realiza-se pelo amor.

Forma é unidade; forma é autonomia e, também por isso, unidade. Só é


completo o que é uno. O que é uno é completo em si mesmo, enquanto si
mesmo. De nada carece para ser “si mesmo”. Forma é expressão da
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unidade da mesmidade. Forma, enquanto unidade, enquanto perfeição, é
algo que repousa em si mesmo, transparente e uno em si mesmo. Não sendo
“o” ser em si, mas ser em si, transparente perante si, forma é consciência.

A unidade absoluta da forma deve ser compreendida para além dos


componentes físicos que a corporizam. A forma está para além dos
componentes físicos. Não são estes que dão suporte à forma, mas esta que
dá suporte àqueles. A forma é expressão do princípio de ordem. Este é
inerente à consciência, é o ser em si mesmo, na sua auto-transparência,
possível pela abundância, pela sua esmagadora totalidade.

Enquanto unidade, completude, forma é consciência; consciência ordenada.


Não é concebível consciência sem auto-consciência. A auto-transparência é
a origem da consciência, de toda a consciência. Cada forma, na medida dos
seus atributos, é auto-consciente. O átomo é auto-consciente. Não tem
capacidade para decidir do seu destino, não tem livre arbítrio, mas a sua
capacidade de permanecer enquanto átomo reside na unidade de si que [em
si] celebra pela consciência. A unidade do átomo estrutura-se na polaridade
electrão/núcleo. Enquanto tem energia de coesão, mantém-se pela
consciência da sua unidade. Contudo, é a consciência da unidade que, pelo
princípio de ordem presente na forma, dá uma forma tal à energia que faz
dela um aproveitamento sob a forma de uma força de coesão. Tal como no
átomo, mas à escala da criação, a energia do amor, usada sob a forma
infundida pelo princípio de ordem inerente à consciência, gera aquela
[criação]. A luz, enquanto auto-transparência que pela força do amor se
transcende a si própria no acto criador, é a forma das formas, a consciência
das consciências. A luz é simultaneamente a energia e a força que a rege.
Por isso, toda a forma é luz, toda a criação é luz. A luz é o fulgor da
consciência pelo amor. Toda a forma criada é um acto de luz e é luz em si
própria.

Cada ente, cada forma, enquanto unidade perfeita, é consciência. Nesta


reside a ordem. Cada forma é, de algum modo, auto-consciente. Podê-lo-á
ser de uma forma mais ou menos incipiente, mais ou menos reflexiva, mas é-
o sempre. O “auto” [consciência] é o corolário da unidade e, como tal,
também da própria transcendência. Ao realizar a sua unidade intrínseca, a
forma transcende-se e abre-se ao mundo. Contrariamente àquilo que se

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poderia pensar, a unidade da forma não é um factor de encerramento em si
própria, mas um factor de liberdade, de libertação de si e, como tal, de
abertura ao mundo. Aquilo que não é completo existe preso em si mesmo
pela necessidade de se realizar a si mesmo, após o que, e somente após o
que, se liberta de si abrindo ao mundo. Esta transcendência de si própria
pela sua própria unidade, que constitui uma dinâmica essencial da criação,
é o motor de toda a evolução. Inscreve-se na natureza amorosa essencial da
mesmidade, de abertura e expansão crescente, por um lado e de máxima
integração e celebração de unidades sucessivamente mais abrangentes, por
outro. Pela sua unidade a forma transcende-se e abre-se ao mundo, criando
condições para se integrar em formas mais ricas e complexas. É a
realização de si que gera a transcendência de si.

A auto-consciência é meramente residual nas formas elementares; é quase


só o culminar da unidade, da perfeição da forma, não tendo, ainda,
qualquer dimensão reflexiva. Na medida da evolução das formas, na sua
complexidade e, como tal, da sua própria potencialidade específica, essa
auto-consciência vai-se desenvolvendo sob a forma de uma reflexividade
crescente. Nas formas elementares, o movimento de transcendência inerente
à unidade da forma gera uma abertura ao mundo segundo um processo de
integração em formas mais complexas. É o caso da integração dos átomos
em moléculas, destas em macro-moléculas e assim sucessivamente. No caso
das formas mais complexas, com maior potencialidade própria, esta
transcendência já não se esgota numa abertura ao mundo, passando por
uma abertura a si mesma, à sua própria potencialidade o que, neste caso, já
não implica uma perda de si própria. Traduz-se numa transcendência de si
própria com abertura para si própria, para a sua potencialidade específica.
Este ponto de transcendência constitui a plataforma a partir da qual se
desenvolve a reflexividade. Neste salto transcendente com abertura para a
sua própria potencialidade, a forma torna-se objecto de si própria,
surgindo, então, a dimensão reflexiva que tem como condição a
exterioridade a si sem perda da sua unidade. A auto-consciência
desenvolve-se na razão directa da potencialidade específica da forma. O
livre-arbítrio inscreve-se precisamente nesta abundância de possibilidade.

A potencialidade da mesmidade está tão presente na partícula elementar


quanto na forma mais complexa. Na primeira, essa potencialidade realiza-se
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através da abertura ao mundo, quase com perda de si. Na segunda, realiza-
se contemplando a sua potencialidade quase infinita, pois essa forma
contém o próprio cosmos numa diluição total nele, embora sem perda de si,
dada a sua unidade intrínseca específica. O Cristo cósmico da teologia
cristã corresponde a esta forma maximamente englobante que abarca o
cosmos sem perda de si.

A partícula elementar é uma abertura total ao cosmos, consistindo nisso a


sua transcendência absoluta relativamente a si mesma. O Cristo cósmico
abarca em si todo o cosmos, consistindo nisso a sua transcendência
absoluta. A primeira é quase potencialidade pura por elementar que é; o
segundo é quase potencialidade pura pelo tudo que abarca.

A consciência é uma só, a consciência da mesmidade. Sem se esgotar em


nenhum dos entes, em nenhuma das formas, ela está totalmente presente em
cada um(a). A realização plena do retorno da mesmidade a si consiste na
realização da consciência da mesmidade, nos entes. Há uma realização
plena deste retorno quando um ente realiza, num acto de consciência, que é
mesmidade. Esta é a realização de consciência própria da iluminação tal
como Buda ensinou. Em Buda, a mesmidade realizou-se, alcançou-se a si
própria como mesmidade, através de um ente. Alcançar-se a si próprio
como mesmidade é realizar em si aquilo que certas vias espirituais chamam
de consciência divina. No caso de Buda não se deu uma transcendência
daquela forma, mas da forma, tendo-se dado, contudo, sem perda de uma
consciência individual. Foi, aliás, a individualidade a própria condição de
transcendência. O caminho espiritual proposto por Buda é um caminho de
desenvolvimento de consciência, de amor, de compaixão. A compaixão é
uma forma específica de amor, podendo considerar-se, portanto, um
caminho de consciência amorosa. A consciência divina é totalmente
amorosa, totalmente livre de todo o constrangimento, totalmente
transparente em si própria, totalmente transcendente. A sua adesão à
criação resulta de um acto livre e amoroso. A compaixão é essa adesão livre
e amorosa da mesmidade às formas por si livremente criadas; é um estar
com, Paráclito. É um esperar que alimenta a evolução num acto amoroso e
de profundo respeito pelo sofrimento que, enquanto seu, é o das criaturas
que gerou e que sofrem pela ignorância da herança divina com que

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nasceram. O pior e único sofrimento, que está na base de todos os outros, é
o sofrimento da consciência divina encarcerada no efémero, no ente.

Amor e consciência constituem a essência da mesmidade. Todo o verdadeiro


caminho espiritual é um caminho de realização da essência da mesmidade e,
como tal, tem necessariamente de ser estruturado no amor e na consciência.
A evolução só é possível realizando a essência da mesmidade e culmina com
a descoberta [com o despertar] da mesmidade em si mesma, no ente. Este
descobre a mesmidade e aquela descobre-se neste. A iluminação que
constitui o culminar do processo evolutivo do ente, enquanto ente, resulta
num único acto de consciência em que duas dinâmicas estão presentes. O
ente descobre a mesmidade e descobre-se como mesmidade. Neste instante,
a mesmidade reencontra-se consigo própria; redescobre-se, transcendendo
a forma e reencontrando a sua unidade transcendente e fundamental.

A evolução só é possível porque há uma consciência que perdura, que tudo


regista mas que se mantém inalterada para além das próprias formas que
assume. Essa consciência inalterada e inalterável é a transcendência da
mesmidade relativamente a si própria e às formas que em si própria cria.
Pela unidade intrínseca da mesmidade, essa consciência é o pano de fundo
sobre o qual se moldam as formas mas que, moldando-a pela sua imanência,
não a moldam, contudo, pela sua transcendência. A transcendência
sucessiva das formas tem como condição e como suporte esta consciência
inalterada. A transcendência sucessiva das formas é o caminho para a
descoberta dessa consciência inalterada, transcendente. Quando essa
descoberta se dá, a mesmidade, enquanto entificada, descobre a sua própria
essência e reencontra-se consigo. Quando Buda fala da relatividade de toda
a existência pretende precisamente incutir nos seus discípulos este sentido,
incentivando-os a encontrar essa consciência transcendente e inalterável.
Quando Buda fala da imperturbabilidade ante o sofrimento e o prazer fala
desta inalterabilidade. Quando Lao Tse fala do caminho do meio, fala da
realização desta consciência transcendente, divina.

O caminho proposto por Jesus tem uma abordagem aparentemente


diferente, contudo, convergente. A mensagem central de Jesus é o amor. O
amor incondicional, o amor transcendente de Deus, por um lado aponta
para a realização da essência da mesmidade enquanto amor. Por outro

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lado, ao falar centralmente do amor, Jesus propõe a realização de uma
totalidade de cada um em si mesmo, por via do amor e da aceitação. A via
de Buda é uma via de integração pela consciência; a via de Jesus é uma via
de integração pelo amor. Dado que amor e consciência são expressões do
mesmo, ambas as vias conduzem à iluminação. O amor proposto por Jesus,
pela sua incondicionalidade, absolutiza tudo e, com isso, relativiza também.
Absolutiza tudo enquanto divino, presença e imagem de Deus. Relativiza
tudo uma vez que o amor, na sua máxima expressão, nada discrimina, nada
distingue e, com isso, relativiza. A inalterabilidade da consciência realiza-se
em Jesus, por via do amor e em Buda, por via da consciência da
transitoriedade. O núcleo, o objectivo é alcançar esse estado de consciência
amorosa, inalterada que é consciência pura, transcendente, da própria
mesmidade e, com isso, a iluminação. Chama-se iluminação pois é o acto
supremo de luz. É o acto de reencontro da mesmidade consigo própria.
Neste acto, tal como no de criação, a mesmidade encontra-se a si própria
num acto amoroso. Aí, a energia do amor introduz fulgor na transparência
da consciência.

Não há caminho fora da mesmidade. Todo o caminho é um retorno. Tal


como o processo de criação é um processo de consciência amorosa, assim
também o é o caminho de retorno. Mesmidade é ser, é a única e suprema
realidade. Mesmidade torna-se real para si e em si na medida em que de si
conscientiza, por via da contemplação criadora. Os entes existem no
universo de realidade da mesmidade. Porque estes bebem na consciência da
mesmidade, o que é real para esta é existência para aqueles.

O universo criado é um universo de consciência tornado realidade pela


consciência criadora da mesmidade. Até que, através de uma consciência
individual, a mesmidade desperte como “si própria” e, como tal, transcenda
a sua própria criação, vive enclausurada pela contingencialidade própria
daquela. Quando certas correntes espirituais afirmam que o Homem é um
Deus vivo, que é uma centelha divina, etc, pretendem dizer que é
precisamente a mesmidade adormecida, imersa na sua própria criação.
Enquanto mesmidade ela tem o potencial de se realizar a si mesma, de
caminhar para si mesma. O caminho do ente para a mesmidade, ou da
mesmidade para si própria não é um caminho percorrido no espaço e no

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tempo. É um mero caminho de consciência, de recuperação de uma auto-
transparência perdida.

O universo é-o de consciência; de uma consciência que é real para si


própria e perante si própria porque reside em si própria, nada mais
existindo para além. Esta consciência é una, plena, amorosa, vibrante. Esta
presente em tudo de uma forma total e absoluta. Pela sua unidade intrínseca
cada ente e a consciência nele presente não é um fragmento da mesmidade.
É simplesmente um olhar específico que a mesmidade tem da sua própria
possibilidade – é a sua contemplação específica. Como o ente é uma criação
de si mesma, a mesmidade, para além de se ver a partir de si, vê-se também
enquanto aquele ente específico. A consciência da mesmidade é o princípio
de toda a consciência, é a plataforma de toda e qualquer consciência. Como
aquele ente é uma criação de si mesma, a mesmidade vê-se a partir da
forma específica daquele ente. Vivencia-se a si própria em si própria, bem
como em todo e em cada ente em particular. Cada ente é uma contemplação
específica da mesmidade. Como a sua totalidade está presente em cada ente,
este é levado a sentir-se como uma individualidade pura, total e irrepetível.
Esta individualidade é uma ilusão, nela residindo a dificuldade,
aparentemente paradoxal, de conceber a existência, em simultâneo, de
consciências individuais e de uma consciência global, contínua e una e que,
no fim, se verifica ser apenas uma, esta última, que se refracta. As
consciências individuais são meras refracções da consciência da
mesmidade, radicando a refracção no “topos”, gerado pelo sentimento de
individualidade o qual, por sua vez, radica na unidade e completude da
forma, possível pela unidade intrínseca da mesmidade. Toda a criação
resulta de refracções, segundo o princípio de ordem, da consciência da
mesmidade. As refracções da consciência geram distintos padrões
vibratórios na luz. Esses distintos padrões modelam a luz a qual, enquanto
energia, dá dessa forma origem aos diversos planos e formas de toda a
existência.

A contemplação criadora da mesmidade é plena e, só por isso, criadora. A


plenitude da criação implica uma entrega total da mesmidade a si mesma,
às formas que cria. Só esta entrega total permite o acto criador. Gera um
quase esgotamento total da consciência da mesmidade em cada ente. Não
fosse esta entrega, este esgotamento total e a mesmidade não seria ela
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própria em cada ente, seria meramente residual. O amor essencial leva-a a
entregar-se totalmente à sua criação e a vivenciar-se a si mesma nesta,
enquanto esta. Aliás, a contemplação criadora da mesmidade não é uma
contemplação mental, é sim uma vivência plena e, só por isso, geradora de
vida, criadora.

Como a mesmidade está totalmente presente em cada ente, também nele está
a sua transcendência. Este elemento é gerador da dinâmica de evolução que
conduz os entes ao longo de um percurso que culmina com despertar da
mesmidade neles, enquanto eles.

Os entes sentem um sofrimento estrutural, uma inquietude permanente que


os mantém em movimento. Este sofrimento não é específico do ente. É a
mesmidade que, enquanto ente, pelo quase esgotamento neste, deseja o
retorno a si própria, à sua transcendência. Este desejo resulta de um e num
sentimento de enclausuramento no ente. Este reflecte a dinâmica de retorno
a si própria. Este retorno é também uma forma de se transcender,
transcendendo as criações que faz de si própria.

Enquanto partícula elementar, a vocação de totalidade, que é a mesma


impressa em todo e qualquer ente, manifesta-se e realiza-se através de uma
abertura o mundo, integrando-se em formas progressivamente mais
complexas. Enquanto ente complexo, que se transcende contemplando a sua
própria potencialidade, como é o caso do Homem, a vocação de totalidade,
de realização de si mesma enquanto mesmidade, manifesta-se através de
uma consciência integradora, abarcante.

A mesmidade tem duas grandes dimensões as quais, contudo, pela sua


unidade absoluta, são de uma coincidência perfeita – uma interior a si
mesma, imanifestada, na qual reside a sua potencialidade absoluta e uma
outra manifestada. Esta manifestação é em si mesma, de si mesma e perante
si mesma. A mesmidade manifesta-se perante si mesma, através da sua
consciência, a qual se gera no acto da própria manifestação. A consciência
é, portanto, a porta entre duas dimensões que na mesmidade coexistem, em
última instância, como uma mesma realidade.

Tal como na mesmidade, também nos entes existem estas duas dimensões – o
mundo interior e o mundo exterior. É a partir da sua interioridade que a
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mesmidade se manifesta. O mundo interior é um único e é nele que se
encontra a unidade transcendente da consciência da mesmidade. De alguma
forma o mundo interior pode ser visto como o interior do sol, a partir do
qual se manifestam os raios. Uma vez manifestado no exterior, cada raio
diverge dos demais, sendo, num certo sentido, individualizável. Tem
consciência de si enquanto raio e sente-se individualizado, muito embora
possa reconhecer provir de uma fonte da qual provêm todos os demais. Se
só fosse vista a projecção dos raios numa parede escura, sem ser vista a sua
trajectória a partir do sol, dir-se-ia que eram meros pontos de luz, vendo-se
eles próprios como tal, como individualidades. Se um raio encetasse um
caminho, através de si mesmo, de retorno até ao sol, ao atingi-lo,
compreender-se-ia como um dos infinitos olhares que este dirige ao mundo.
Sem deixar de se compreender como raio, compreender-se-ia como sol.
Compreenderia que a única forma que este tem de olhar o mundo é
tornando-se raio. Compreenderia igualmente que quem queria olhar o
mundo era o próprio sol e que, para o poder fazer, se confinado a um raio.
Compreenderia que a solidão que havia sentido enquanto raio, não era a
sua solidão, mas sim a solidão do próprio sol que, ao confinar-se num raio,
tinha saudades de ser todos os raios e que, por isso, havia encetado todo
aquele caminho de regresso. Compreenderia igualmente que, como a sua
trajectória é absolutamente rectilínea, havia regressado pelo mesmo
caminho. Como ele é um raio e não um ponto, foi ele mesmo o caminho de si
próprio para o mundo, bem como o caminho de si próprio para si próprio.
Compreenderia que não havia caminho fora de si, fora do sol.
Compreenderia que o caminho de saída era um caminho em que
continuamente se tinha criado, gerando novas exterioridades de si mesmo e
que o caminho de regresso o era através de si mesmo, um caminho interior.
Compreenderia que, embora se tivesse reencontrado, não havia deixado de
ser raio, dado que se via na mesma como raio projectado no mundo. Ver-se-
ia mesmo como um raio muito mais luminoso pois então realizaria de forma
mais profunda o próprio sol. Perceberia que outros raios, movidos pela
mesma solidão, o procuravam. Num acto de profunda compaixão manter-se-
ia como raio ao serviço dos outros raios, para que todos pudessem
regressar. Mas regressar como, se ele nunca havia deixado de ser raio?
Então, o regresso não era uma auto-aniquilação de si próprio como tantas
vezes havia temido. Compreenderia então que o regresso tinha sido um acto
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de consciência, realizado por via do seu próprio mundo interior.
Compreenderia que ele próprio era a porta entre o sol e o raio e que, dessa
forma, havia realizado o equilíbrio entre os seus dois mundos e que esse era
o ponto de perfeição, pois não há sol sem raios, nem raios sem sol. A partir
desse momento veria que os outros eram tão brilhantes quanto ele. A sua
aparente palidez resultava do facto de serem o sol, não terem realizado num
acto de consciência a união do relativo com o absoluto. Eram raios mas não
tinham ainda sido iluminados pela consciência plena de si, como sol.

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