Você está na página 1de 170

[Digite texto]

S

SUBSÍDIOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA MISERICÓRDIA DE SALVATERRA DE MAGOS

SUBSÍDIOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA MISERICÓRDIA DE SALVATERRA DE MAGOS Autor José de Carvalho

Autor José de Carvalho Asseiceira Cardador

2

SUBSÍDIOS PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA DA MISERICÓRDIA DE SALVATERRA DE MAGOS

Edição Original 1970 Editor e Autor: José de Carvalho Asseiceira Cardador Cópia 2013 José Gameiro Edição publicado em PDF // Blogue:

“ http//: www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt “livros sobre salvaterra”

3

DR. JOSÉ DE CARVALHO ASSEICEIRA CARDADOR

Em Janeiro de 1965, o proprietário e director do “Aurora do Ribatejo”, sabendo da minha colaboração, em outros jornais, onde Filipe Hipólito Ramalho e José Teodoro Amaro, tiveram grande influência, no envio de notícias da minha terra Salvaterra de Magos, depressa encetou contactos comigo, para passar a colaborar naquele semanário, que tinha sede na vizinha Benavente.

naquele semanário, que tinha sede na vizinha Benavente. O primeiro número do “Aurora”, tinha saída, uns

O primeiro número do “Aurora”, tinha saída, uns dias antes, em Dezembro de 1964. Por volta de 1970, José de Carvalho Asseiceira Cardador, pequeno

4

vitivinicultor, nesta vila, e dado a prestar presença na Misericórdia local, bem como veredor do munícipio, colaborava naquele semanário, passou a ser conhecido e tratado dora avante, por Dr. José Cardador, uma vez em que se licenciou, em Coimbra, apresentando como tese, um trabalho de grande pesquisa sobre o historial da Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos. Além do arquivo daquela instituição, e de outras fontes, algumas vezes se socorreu da minha modesta ajuda para saber um pouco mais sobre a história de Salvaterra de Magos.

Lecionando aulas, no Colégio de Benavente, o nosso contacto decorreu em ambiente fraterno, quando convidado que fui pelo director daquele semanário regional, para dirigir a última página, que seria dedicada a Salvaterra de Magos e seu concelho, teria em cabeçalho o titulo “Jornal de Salvaterra”, fiquei grato, pela honrosa escolha, mas não me achando capacitado para tão util encargo, convidei o Dr. José Cardador, que

5

aceitou.

Certo dia, ofereceu-me um exemplar do livro:

“Subsídios para o Estudo da História da Misericórdia de

Salvaterra de Magos”, edição que sendo de poucos exemplares, dactilografado e reproduzido (no tempo usava-se o setencil), serviu para apresentar em Coimbra, quando da sua licenciatura. Um tempo depois, um “acidente”, no armário onde tinha a minha pequena biblioteca, danificou entre outros, aquele exemplar, de tal forma, que ainda está incapaz de ser manuseado, mesmo assim, guardo-o com muito carinho, pois as suas páginas estão recheadas de um tão util trabalho de investigação, reportando a vida da instituição de caridade de Salvaterra de Magos, que é a Misericórdia, cuja origem vem do século XVII.

Falecido o Dr. Cardador, em 1986, e não encontrando outro exemplar, por vezes me é solicitado informações que ele guarda, quer por estudantes e professores, quer por outros interessados que também de mim se acercam para saber mais sobre aquela casa de

6

caridade. Um dia juntando o útil ao agradável, com afinco e entusiasmo, tomei a liberdade de transcrever o livro, para que não se perca no futuro tão útil trabalho de pesquisa.

Algum tempo depois, tal cópia estava feita, respeitando o mais possivel a forma de escrita usada na época pelo autor, apenas o tipo de letra, numeração e quantidade das páginas sofreu alteração, sendo a capa de minha autoria, e as fotos do meu arquivo. Agora, este precioso trabalho de investigação sobre a Misericórdia de Salvaterra de Magos, faz parte da coleção de livros, no Site - “Literatura sobre Salvaterra” incluída no meu blogue: www.historiasalvaterra,blogues.sapo.pt

Salvaterra de Magos, 2013

José Gameiro (José Rodrigues Gameiro)

7

AGRADECIMENTO

As dificuldades, principalmente baseadas na nossa limitação pessoal, que encontrámos na execusão deste modesto trabalho não nos levaram ao desânimo ou ao fracasso porque em nosso auxilio veio sempre, e na ocasião propícia, e sábia orientação do Excelentíssimo Senhor Doutor Salvador Dias Arnaut.

Consignamos aqui o nosso sentimento de gratidão, muito respeito e sincera estima pelos ensinamentos, excelsos conselhos, interesse e palavras amigas que o Exmº. Senhor Professor Doutor Dias Arnaut generosamente se dignou ter para connosco.

Pelas gentilezas recebidas dos Exmºs. Professores Doutor Manuel Lopes de Almeida, Doutor Mário Brandão e Doutor Pe. Avelino de Jesus Costa também desejamos acrescentar o nosso muito obrigado.

José de Carvalho Asseiceira Cardador

*

* *

8

A Caridade nunca acabará, mesmo quando deixem de ter lugar as profecias, ou cessem as línguas ou seja destruída a ciênca.

9

CAPITULO I

RESUMO DA HISTÓRIA GERAL DA ASSISTÊNCIA

10

HISTÓRIA DAS MISERICÓRDIAS

história da fundação das Misericórdias Portuguesas tem sido

deturpada nas suas origens, significação e evolução, de tal modo que

quase por completo se lhe perdeu o sentido.

A

A história da fundação das Misericórdias está cheia de fantasias; impõe-se o seu estudo metódico e meticuloso, o estudo de todas elas, a partir do documento mais seguro que lhe diz respeito o Compromisso inicial. E por nos parecer que esse estudo, muito útil, se vá fazendo, vamos tentar reunir aqui uns breves apontamentos, modesto subsídio para o estudo da História da Misericórdia de Salvaterra de Antes, porém, de entramos no estudo da Misericórdia de Salvaterra de Magos, vamos registar alguns apontamentos sobre a História da Assistência e depois, ainda, dizer “duas palavras “ relacionadas com a História da Vila.

***

11

HISTÓRIA DA ASSISTÊNCIA

Conceito de Assistência Assistência significa auxilio, socorro. Onde quer que haja uma necessidade que o interessado não possa resolver por si e não consiga pagar, a assistência tem o seu lugar. Assistência famintos, a sedentos, nus, desabrigados, doentes, tristes, cativos, transviados, impacientes, desesperados, mal aconselhados, pobres de pãoou pobres de consolação, tudo é assistência, auxílio, socorro.

A assistência, material ou moral, tem lugar onde quer que haja uma falta, isto é, onde quer que habite um ser humano. A assistência tem sido encarada de vários modos através da História e vista à luz de critários; assistência individual ou social, particular ou pública, tudo são ideias e conceitos que as ciscuntâncias têm exigido. No campo da assistência há lugar para todas as pessoas de boa vontade.

As origens da assistência são dificeis de precisar. É intuitivo que, se até entre os animais se observam actos de auxílio mútuo, os homens primitivos haviam de auxiliar-se uns aos outros. Vamos apresentar um singelo esboço da História Geral da Assistência desde os tempos mais recuados até à assistência em Portugal no século XVI.

12

Periodo da História da Assistência

1º - Antiquidade:

Egipto -

As diversas tribos estabelecidas ao longo do Nilo deixaram fama de possuirem um carácter doce , benévolo, caritativo. Estas qualidades não podiam deixar de se revelar por práticas de beneficência. Os escravos foram olhados como homens. As características da assistência entre os Egípcios derivam lógicamente da sua maneira de ser e sua religião, bondade natural e crença na vidade além túmulo.

Nos “ livros dos Mortos” encontram-se as fórmulas destinadas a servir de guia aos mortos, Além deste acto piedoso, colocavam ainda alimentos e objectos vários que entendiam poder a ser úteis aos falecidos. Mas também nas lápidas funerárias se registam certas virtudes hunanas . Em papiros, talvez da 5ª dinastia, conhecem-se vários preceitos, como o de “nunca oprimir nem aterrar ninguém”.

Nos hieroglifos é muitas veses recordado o preceito de “dar pão”. Os termos destes escritos revelam um ideal de perfeição, um desejo de justiça, doçura e urbanidade. Efectivamente os Egípcios praticavam as obras de Misericórdia para com os seus próximos; davam de comer a quem tinha fome, de beber a quem tinha sede; vestiam os nus, davam pousada aos viandantes, enterravam os mortos, ensinavam os ignorantes, castigavam os que erravam e curavam os enfermos. As “Confrarias do deserto” tornavam possivel a marcha das caravanas através do deserto. Foi notável a assistência médica. Era vigiada a higiene da habitação. Proibia-se o engeitamento de crianças.

13

China

As causas da miséria na China antiga são, além das normais em todos os tempos e em todos os países, as resultantes da grande extensão do território, e diversidade de raças, lutas frequentes e ferozes, inundações formidáveis, etc

O culto dos

mortos era levado ao extremo. Lao-Tse deu origem ao “taoismo”; os taoistas tinham grande culto pela higiene, estudaram os regimes alimentares, e diétetica, medicina e farmácia; e moral taoista é, por assim dizer, a higiene da alma, com “supressão das paixões porque gastam; prescrevendo a continência e a abstinência porque a luxuria e a gula esgotam;

Os chineses tiveram o culto pelos homems de bem.

combatendo as ambições e os esforços porque nada desgota mais do que isso”. A Lao-Tse é atribuído a autoria do “livro do Rumo e da

Virtude”, verdadeiro compêndio de preceitos e ideias tendentes a viver-

se bem neste mundo, modestamente, contemplando a natureza;

segredo da sabedoria e da alegria calma, que é a única felicidade duradoira a que o homem pode aspirar, reside numa estoica obediência à natureza, aos artíficios da inteligência, em se aceitarem confiadamente as ordens que a natureza nos transmite por instinto, numa imitação modesta das vias silenciosas dessa natureza”.

o

A filosofia de Lao-Tse, proclamado a renúncia e a passividade, conduzia ao fim de contas ao esgoísmo. Kung-fu-tse, mais conhecido por Confúcio, criador do confucionismo, era mais humano, pregando a benignidade e a lealdade e incitando todos a que trabalhassem pelo bem-estar do povo, A sua paixão principal foi a moral; a inteligência; a

14

coragem e a boa vontade são os atributos do homem perfeito. Foi atribuído a Confúcio a célebre “Regra de Oiro”, que Cristo incluiu na sua doutrina: “não fazer aos outros o que não quizerdes que vos façam”.

Os discípulos de Confúcio espalharam-se por toda a parte. Através das doutrinas de Confúcio sentem-se bem os princípios de caridade, de humanidade, de justiça, de prudência e de verdadeira sabedoria. Estes elementos dão-nos a compreender o conceito que na antiga China havia a respeito do bem e da protecção aos fracos. Marco Polo (1275) afirmou que qualquer das cidades no Oriente estava mais adiantada que as europeias e falou dos hospitais que lá viu, bem como das ruas habitadas por médicos, serviços de assistência do Estado, asilos para velhos, orfãos e enfermos. Fernão Mendes Pinto, também nos falou do que viu em Pequim (1540) no respeitante a escolas paea ensino de crianças pobres, escolas de ofícios mecânicos, recolha de enjeitados, cegos, aleijados, mudos, doentes, etc.

Tresentos anos antes de Cristo já havia na China corporações de artífices, agrupando os patrões e os operários das inúmeras indústrias. A medicina chinesa antiga foi notável. O livro Nei-ching (Livro da Medicina) reune as antigas tradições médicas chinesas.

Japão A velha religião do Japão Sninto exigia o culto dos mortos e

orações, pedindo a saúde, uma longa vida, chuva em tempo oportuno,

preservação de tremores de terra, incêndios e inundações, etc

tarde surgem os preceitos morais, impondo ao homem obrigações para com os pais e a humanidade; deviam observa-se dez mandamentos, entre as quais se incluía a misericórdia. A medicina, envolta em lendas e

Só mais

15

conhecimentos

anatómicos bastante vastos, bem como o uso de águas minerais, plantas medicinais, etc

tradições,

assentava,

entretanto,

numa

base

de

India A sua enorme extensão do território, a existência de neves perpétuas ao norte, o calor asfixiante nas regiões ao sul, são consideradas como as causas principais da sua miséria. Para as defender, principalmente do calor, o indiano entendeu que o melhor modo era estar imóvel e indiferente a tudo o que se passasse à sua volta, tendo como ideal o “Nirvana”, cúmulo de felicidade, estado de quase beatitude, resultante de abdicação de todos os desejos pessoais, do afastamento de todos os

Além das consequências do

desejos egoítas, do domínio sobre si, etc

clima, registam-se ainda as epidemias, as mordeduras de serpentes,

etc

Marco Polo (1288 e 1293) e Fernando Mendes Pinto (1537 a 1557).

A Índia foi, desde longa data preferida por viajantes arrojados :

Sabe-se que houve uma civilização notável na Índia três mil anos a.C Os “Vedas” registam as tradições, literatura, moral, filosofia e religião primitivas da Índia. No meio de múltiplas ideias igoístas, epicuristas, cepticas, sofistas, nihilistas, etc. Surgiu, como um reformador, um homem que ficou na hitória com o nome de Buddha (563 a.C.). Buddha srgiu na Índia na mesma época em que noutro países apareceram grandes filósofos e notáveis reformadores, como se uma causa comum os tivesse feito actuar. Foi Leo-Tsae e Confúcio na China, Jeremias e Isaías na Judeia, Thales de Mileto, Heraclito, Anaximandro, Anaxágoras, Empedocles, Pitágoras, Zenão e Demócrito na Grécia, Zaratustra na

Pérsia, etc

Buddha, admitia a reincarnação da alma dos mortos, e

16

metempsicose, só poderia evitar-se uma nova encarnação abdicando de todos os desejos egoístas, não fazendo senão bem, de forma a atingir o “Nirvana”.

O budismo pretende resolver o problema da dor física e moral. Buddhe foi designado pelo “grande compassivo”. A seguir à invasão

macedónica, desenvolveu-se uma das épocas mais brilantes; contavam- se duas mil cidades. Estudou-se medicina e outras ci^`encias e artes. Havia Repartições de Higiene e Saúde Pública, hospitais e outros

estabelecimentos de beneficiência, assistência, etc

eram bem recebidos. Existiam corporações de mestres. A medicina usou plantas sendo digno de registo o cuidado com que faziam os pensos aos feridos de guerra; davam importância a observação do pulso; conheceram a tuberculose, a lepra, a cólera, etc. Deixaram estudos preciosos acerca de fracturas e operações.

Os estrangeiros

Pérsia Entre os persas a primeira das virtudes era a piedade, que consistia na adoração do deus - Ahura Mazda - ; depois da piedade era a honra a virtude mais apreciável, seguindo-se-lhe a rectidão nos actos e nas palavras. Os persas tinham horror à mentira, praticavam a hospitalidade para com os estranhos, a caridade para com os pobres, a par do respeito pela moralidade, pela virtude e pelo bem. Zaratustra, foi o grande reformador. O “Avesta” prescrevia também abulações, formulando práticas para a purificação do corpo e da alma. Parece terem existido na Pérsia as corporações mais antigas de médicos. Havia albergues situados junto

17

das estradas que recebiam os viajantes quando doentes. No “Avesta” figura o deus curador Aryman ou Mithra, o mais antigo deus da saúde.

Assíria e Babilónia Pouco afectuosos, antes orgulhosos e impiedosos , os povos da Mesopotânia eram guerreiros e cruéis. No entanto os reis usavam de certa clemência para com os seus súbditos. A deusa Istar era misericordiosa.

Apesar da fama de impiedade, sabe-se que entre os assírios e balilónios se libertavam cativos, se dava de comer aos famintos, se consolavam os aflitos e se cuidava dos doentes. Praticava-se a hospitalidade. Ensinavam-se os ignorantes, havendo escolas junto dos templos. A magia, os preságios, os prognóticos, as explicações dos sonhos e a influência dos astros faziam parte da medicina corrente. Verifica-se que, entre este povos embora ferozes, não se deixou de cumprir certos preceitos de auxílio aos que sofriam.

Hebreus A história do povo hebreu é referida no Antigo Testamento, vasta colecção de textos, constituíndo uma das obras mais notáveis que se conhecem. É na Biblia que se encontram os elementos que dizem respeito à miséria, às necessidades, aos recursos e à assistência entre os hebreus antes do Cristianismo. A Palestina, situada a meio caminho entre o Egpto e a Mesopetâmia, foi vítima da sua situação geográfica que, se favorecia o comércio dos Hebreus com os povos vizinhos, era um motivo inevitável de guerras constantes, com o seu cortejo de destruições e ruínas, fome e miséria.

18

Moisés, proclamou os Dez Mandamentos, código de moral admirável, quja influência foi enorme, tornando-se a base do próprio Cristianismo. Os Profectas preconizavam a fraternidade, o amor do próximo, a justiça, o socorro a prestar aos órfãos e às viúvas, etc., ao mesmo tempo que combatiam todos os vícios. O amor ao próximo é a base da moral hebraica. A hospitalidade é a virtude tradicional do povo judeu. A caridade individual ressalta da leitura de inúmeras passagens da Bíblia. Os estrangeiros deviam ter um asilo, como os velhos. Eram garantidos abrigos de noite aos viajantes. Uma nota caracteristítica da caridade hebraica é a de até os próprios pobres, sustentados pela colectividade, deverem dar uma parte do que recebiam aos indigentes mais necessitados do que eles.

Havia peditórios periódicos em benefício dos pobres, uns diários chamados “do prato”, outros semanais. No templo havia uma caixa para receber esmolas destinadas aos pobres envergonhados. Uma das obrigações que os Hebreus tomavam a seu cargo era a de sustentarem os aleijados que não pudessem suprir-se. Eram feitos inquéritos prévios antes das distribuições. Não se negava vestuário a um pobre que pedisse. Consolava-se os tristes, não só hebreus mas até pagãos e enterravam-se os mortos, qualquer que fosse a sua crença. As viúvas e os orfãos tinham uma protecção particular. O salário do trabalhador era sagrado. Os escravos eram tratados com doçura; amaldiçoava-se os indivíduos que abusassem dos cegos. Fazia-se bem, mesmo aos inimigos. Em cada campo era reservado anualmente aos pobres um canto para eles fazerem a colheita em seu proveito. Um indigente com fomepodia entrar no campo do seu próximo e colher

19

espigas de trigo, desde que não utilizasse a foice, podendo igualmente entrar numa vinha para comer uvas.

Os proprietários deviam deixar sempre parte da sua colheita para os pobres ficarem com ela, isto é, deixavam-lhes um “rabisco”. De sete em sete anos (ano sabático) as terras não eram cultivadas, pertencendo o que nelas nascesse espontaneamente a quem quer que o quizesse apanhar. De cinquenta em cinquenta anos (ano jubilar), ano seguinte a sete anos sabáticos (7x7+1) as terras não eram semeadas e deviam voltar para as mãos dos antigos possuidores. Encontra-se na Biblia os germes de muitas instituições (que por vezes são julgadas de fundação recente), como as “caixas de caridade obrigatória”, os “inquéritos sociais”, as visitas domiciárias e o esboço do serviço social. As prescrições bíblicas são a legislação sanitárias mais antigas que chegou até nós.

A sangria era uma prática corrente. Os médicos judeus praticavam a cirurgia; a circuncição estava a cargo dos sacerdotes, oito dias após o nascimento. No “exito” são referidas as parteiras, as mais antigas de que há memória.

O asseio corporal era prescrito. Os hebreus tinham já a noção de que

o mosquitos e os ratos transmitiam várias doenças. A purificação das casas onde tinham vivido pessoas com doença

contagiosas, o uso da cal para desinfectar paredes, o descanso semanal,

a construção de cisternas, etc. mostram a preocupação dos judeus em

defender a saúde e evitar o aparecimento de doenças, fazendo assim uma Medicina preventiva ou Higiene social.

20

Grécia A história, lendas e a motologia da Grécia foram por dois autores

célebres: Homero, considerado o autor de “Ilíada e de “Odisseia”, e

Mesíodo o autor de “Os trabalhos e os dias”da “Teogonia” etc

helénicoteve sempre tendência para a Arte<, cultivou as artes plásticas, como a arquitectura, a escultura, a pintura e a cerâmica. A música, a

oratória, o teatro, a poesia, todas as artes, enfim, tiveram culto

fervoroso entre os gregos. Dotados de inteligência brilhante, imaginação ardente e sólida aptidão intelectual, impuseram-se como

artistas, cientistas, filófosos, médicos, políticos, oradores, etc pela saúde e pela força era geral.

O povo

O culto

Os escravos, em geral, eram socorridos, pelos senhores. As primeiras manifestações de assistência que a história dos gregos nos releva referem-se ao auxílio prestado a soldados feridos. A “Ilíada” refere-nos que no cerco de Troia tomaram parte “dois filhos de Feculápio”, sábios na arte de curar.

A compaixão dos gregos pelos que sofriam, física ou moralmente, é atestada por muitas passagens da “Ilíada” e da “Odisseia”. Solon, o célebre legislador ateniense, distinguiu-se pela piedade que revelou pelos humildes, impedindo a perda de liberdade por motivos de dívidas. Aos cidadãos inválidos e pobres eram concedidos óbulos. A casa de Creso foi destinada a um colégio de velhos (gerontia). No século V a.C. (século de Péricles) a assistência do Estado tornou-se mais intensa:

distribuição de dois óbulos em dinheiro aos indigentes; dádiva de carne

21

dos animais sacrificados nas festas públicas; distribuição gratuita, ou por baixo preço, de trigo e carne.

Durante o inverno os pobres abrigavam-se do frio nas termas e iam aquecer-se nas forjas, Os escravos maltratados tinham asilo no templo de Teseu, no das Euménides e no “altar da Misericórdia”. Os gregos eram hospitaleiros; os nâufragos recebiam socorros e os “suplicantes”, isto é, os fugidos a vinganças ou de penas, uma vez acolhidos, tornavam- se invioláveis. As crianças recebiam cuidados; em pequenas tinham água quente nos seus banhos e havia uma grande preocupação com a sua educação física e intelectual.

Também na Grécia houve corporações ou associações de socorros mútuo; foram as associações “eramitas” que parecem assemelhar-se às modernas associações mutualistas; as “heterias” eram associações profissionais. Prodicos de Cêos, filósofo sofista do século V a.C.pôs em relevo os problemas morais. Sócrates (século V a.C.) sustentava que o homem devia estudar-se para ser moral, honesto e justo. Platão (século IV a.C.) legou-nos obras cheias de preceitos morais de incitamento à virtude e à meditação sobre os males e aflições dos infelizes. Aristóteles (século IV a.C.) diz-nos que “no que diz respeito à virtude, não basta saber em que ela consiste; é preciso possuí-la e praticá-la”.

A Grécia ocupará sempre um lugar inconfundível na História da Midicina, e o nome de Hipócrates simbolizará tudo o que de valioso a observação e a experiência médica da antiguidade legaram à humanidade. Data dos tempos primitivos (1.000 anos a.C.) o culto de Asklépios, considerado o deus da Medicina, filho de Apolo, inventor da arte de curar.

22

Asklépios era simbolizado por uma serpente; tinha por esposa Epione (calmante da dor) e como filhos Higieia (a higiene), iasao (a que cura) e panaceia (a que cura tudo). Em honra de Asklépios foram erguidos vários templos, Asklepieias, as mais célebres dos quais foram os de Epidauro e de Cós. A Asklépios eram dados os títulos de Iatros (médico), Orthios ( o que endireita) e Soter (salvador).

Os templos de Asklépios eram muitas vezes construídos junto de fontes de águaa termais, cujas propriedades eram aproveitadas, como aproveitado era o efeito do clima, a sangria, os purgantes, os vomitivos, o regime alimentar, etc Tem-se discutido se os templos de Asklépios devem ser considerados como hospitais. Na verdade os doentes abrigavam-se neles, chegando a estar lá alojados muitos dias. As prescrições de higiene eram as mais vulgares. Havia médicos e parteiras, para percorrerem as diferentes povoações. É conhecido o famoso juramento de Hipócrates. Hipócrates fazia clínica de terra em terra, era um “periodeuta”. Quando a clínica era feita em consultórios (iatreion) estes ficavam situados fora dos centros populosos para terem melhor ar e melhor iluminação. Em geral eram os médicos quem preparava os remédios, tendo para auxiliar os “risotomos” (cortadores de raízes). Mais tarde aparecem os “fermacopolos” que vendiam medicamento. Houve médicos que se dedicaram a especialidades, como a oftalmologia, a

Era grande aconsideração de que gozavam os médicos

gregos, sendo-lhes concedidos muito privilégios, honrarias e imunidades.

ginecologia, etc

Roma A históriade Roma decorre entre o ano de 753 a.C. data da fundação da cidade de Roma, e a de 476 da nossa era, data em que a invasão dos

23

bárbaros pôs termo ao Impero Romano. De 753 a.C. a 29 a.C. a forma de governo foi a republicana. De 29 a.C. a 476 da nossa era foi o terceiro período, o dos imperadores. O romano foi forte, dominador, ambicioso e impedoso, em geral, para com os vencidos. Roma conseguiu impôr-se às outras cidades, à custa de lutas, agregando a si muitos países estrangeiros, até formar o célebre Imperio Romano que ía desde a Península Ibérica até a Ásia menor, incluíndo a Gália, a Bretanha, Germania, Itália, Panónia, Ilíria, Dácia, Trácia, Macedónia, Grécia, Arménia, Síria, Palestina, Arábia, Egipto, Cirenaica, Tripoli, Cartago e Mauritânia, dominando todos os povos do Mediterrâneo e Mar Negro.

Os nobres, descendentes dos antigos chefes das “gens” eram ”patrícios”; os indivíduos de classe inferior eram os “clientes” e os mais inferiores os “escravos”. Um facto fundamental da história de Roma foi

o nascimento de Cristo, na Judeia, que então fazia parte do Império, no tempo do Imperador Octávio. De notar são também as perseguições feitas pelos imperadores romanos aos cristãos. O romanofoi agricultor

e soldado; os artífices eram por vezes escravos e os operários estavam mal remunerados. A classe onde se encontravam os verdadeiros pobres era a dos plebeus.

Para valer a estes, organizaram os governos de Roma verdadeiros serviços de assistência pública, tais como a distribuição de terras e de bens e leis contra a usura. O abastecimento de géneros alimentícios e a vigilância da sua boa qualidade estavam confiados aos “edis”; o comércio do sal era monopólio do Estado. No tempo de Augusto é instituído um Corpo de extinção. Septimo Severo, que encontrou os abastecimentos em mau estado, de tal modo cuidou

24

que, ao morrer, deixou trigo suficiente para sete anos e azeite para cinco.

Nos tempos primitivos havia a instituição dos “pontífices” (ponten facere, fazer pontos) assim chamados por uma das suas atribuiões ser a de construir e conservar pontes, favorecendo o trânsito. Matar a sede às populações, a sede às populações, fornecendo-lhes água em abundância e gratuitamente, foi uma das mais antigas preocupações dos romanos. As “termas”possibilitaram os banhos que, antes, eram tomados no Tibre. A protecção à infância também se fez sentir, criando-se obras de assistência a crianças abandonadas. A assistência aos velhos era praticada entre os romanos ; o pai de família era venerado com piedade. A hospitalidade foi considerada uma virtude digna do maior apreço. A escola individual existiu em Roma. Os romanos conheceram as necessidades dos pobres e procuraram remediá-las quando podiam.

Havia em Roma corporações (colegia) reunindo cada uma delas os membros das suas profissões, podendo distribuir víveres ou dinheiro aos seus associados. A assistência aos doentes de cada família era exercída, nos primeiros tempos de Roma, pelo parter famílias. Quando a Grécia foi conquistada pelos romanos a medicina grega invadiu a capital do Império. O antigo culto de Apolo, Marte e Salus foi substituído pelo de Asklépios (Esculápio). Os templos de Esculápio eram verdadeiras clínicas. Houve mestres famosos como Celso, Pilínio o Velho, Dioscorides e principalmente Galeno. As parteiras que também podiam exercer a medicina, tinham o nome “obstátricas”. Aos médicos foi concedido o direito de cidade, e isentos do pagamento de impostos.

25

Sabe-se que em Roma existiam hospitais, não só militares mas também civis.

***

A maneira como qualquer povo pratica a assistência pode dizer-se que

é um dos melhores índices da civilização desse povo, sejam quais porem

as suas crenças e as explicações que dê do sobrenatural É certo que a História conhece melhor o utilitarismo, a frieza, o egoismo, a especulação política, a vaidade, o interesse material da vida passada dos povos; é certo que o culto da força, a moral utilitária, o desprezo pela

piedade, a ânsia de conforto, riquezas e bem-estar, a indeferença pela sorte dos outros, etc. são atributos do passado que ficam mais

fácilmente registados na memória dos honens; e também parece ser certo que a História da Assistência tem ficado um pouco esquecida, pois

o homem, em geral, preocupa-se em registar a história das violências, das paixões, do mal, enfim A História do bem e dos bons tem, em regra, pouco quem se interesse por ela, talvez por oferecer poucos contrastes.

***

Primeiros Tempos do Cristianismo:

As doutrinas de Cristo, partidas da Palestina que naquele tempo era reino dependente do império romano, espandiram-se pouco a pouco, levadas pelos Apótolos; S. Paulo, S. Bartolomeu, S. Tomé, S. Simão, S. Mateus, Stº André, S. Marcos levaram a doutrina cristã à àsia Menor, à

26

Grécia, à Itália, a Roma, à Arábia, à India, à Pérsia, à Etiópia, à Rússia, a Chipre, ultrapassando assim os limites do Império Romano. S. Tiago,pregou na Península Hispânica, estando o seu corpo em Compostela. Martirizados no ano 67, S.Pedro e S.Paulo e, sucessivamente, S.Tiago e outros Apóstolos, depois de criada a Igreja de Jerusalém, a de Antioquia e a de Roma, a disseminação da doutrina cristã foi constante e ininterrupta.

A história da assistência cristã é essencialmente a história da realização das Obras de Misericórdia. É no Evangelho de S. Marcos que vêm expressas, como virtudes, as cinco primeiras Obras de Misericórdia corporais: “dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, abrigar os viandantes, vestir os nús e visitar os enfermos e encarcerados”. Remir os cativos foi a própra acção de Cristo, vindo remir o cativeiro do pecado. Enterrar os mortos foi uma prática seguida pelos cristãos desde sempre. Ensinar os ignorantes foi uma das missões de Cristo, escolhendo para discípulos humildes pescadores. Consolar os tristes, perdoar as injúrias foi o que Cristo fez tantas vezes. Para Cristo a caridade é amor, não só do próximo, como dos próprios inimigos. Com o cristianismo a noção de próximo alargou-se a todo o género humano.

A humanidade passou a ser considerada uma virtude. Durante as perseguições a assistência tinha de ser feita a acultas. Logo nos primeiros tempos os cristãos começaram a distribuir esmolas aos necessidades e avisitar os enfermos e prisioneiros. O diácono tinha de viver no bairro que lhe era distribuído, cabendo-lhe a organização de assistência aos moradores desse bairro. A assistência aos doentes era

27

imposta como um dever. Em 268 d.C. uma epimedia de tipo em Alexandria, deu lugar a actos heróicos de dedicação dos cristãos. Dada a liberdade à Igreja por Constantino, em 313, iniciou-se uma nova fase assistência. A principal característica desta nova época foi a fundação de instituições em edifícios próprios.

Deve-se a S. Zotico, padre romano levado para Constinopla por

Constantino, a fundação do primeiro hospital que houve nesta cidade, o

mais antigo da cristandade (anterior a 350 d.C

construiu um hospital em Casarias. S. Jerónimo (419) fundou um hospício em Belém. S. João Crisóstomo, dando exemplo de sua caridade, destinou parte das suas economias a proteger os hospitais. Deus coloca- se entre o pobre e o rico; ao pobre oferecesse como fiador e ao que empresta como garantia.

S. Basílio (379)

Por toda a cristandade começaram a erguer-se hospícios: asilos para crianças abandonadas, para velhos, para órfãos ou para os pobres; albergues para os viandantes; hospitais para os doentes; recolhimentos para as viúvas; retiros para os leprosos. Esmolas de alimentos, de vestuário, de bons conselhos, de ensinamentos, de consolações e de orações; visitas a enfermos e encarcerados, hospitalidade aos viandantes sem cuidar de saber quem eram; remissão de cativos, enterro piedoso dos moros.

De tudo, em casas próprias, definitivas ou improvizadas, ou nos domicílios dos que precisavam, era prodigamente distribuído pelos cristãos. Espalhados por toda a parteos conventos de beneditinos e, a seguir, os de outras ordens, em todos era obrigatória a prática das obras de misericórdia. A invasão dos bárbaros, iniciada no século IV,

28

não enfraqueceu o ardor caritativo dos cristãos. O médico cristão tinha de ter as qualidades tradicionais e, além disso, amor aos doentes. Quem desviava do seu destino os bens dos pobres era considerado homicida.

O Concílio de Tours, de 567, decidiu que cada comuna tinha obrigação

de sustentar os pobres da sua área, para evitar a mendicidade, a

vagabundagem e os abusos. Os leprosos, ao contrário do que durante

muitos anos se afirmou, foram protegidos no mundo cristão. No século

VII viviam geralmente em cabanas, que eram queimadas quando eles

morriam; mas junto de muitas igrejas e conventos havia hospícios especiais para eles. Carlos Magno protegeu dedicamente os pobres. A criação e conventos veio trazer à assistência um campo vasto de acção, visto haver junto de todos eles instituições de protecção dos pobres.

***

******

***

29

Idade Média (idade de oiro da assistência cristã)

As misérias na Idade Média foram enormes. A destruição do império de Carlos Magno, as lutas entre os senhores feudais, a invasão dos bárbaros e depois os Àrabes deram como resultado perdas de vidas, destruições constantes, fome, etc

Os desgraçados alimentavam-se com raízes; os lobos famintos atacavam os que sobreviviam. As epidemias vieram juntar-se aos outros flagelos. A Igreja chama a si a tarefa de combater estes males, por meio de uma acção caritativa. Ordenou disposições legais tendentes

a aperfeiçoar a sociedade. Os famintos e os desesperados encontraram nas portarias dos conventos e nos presbitérios os auxílios de que necessitavam.

O exercício da medicina e a assistência médica aos pobres estava quase exclusivamente a cargo do clero até meados da Idade Média. Os

pobres eram em hospitais, em enfermarias anexas a conventos. Houve na Idade Média clínicas para pobres, verdadeiros dispensários ou policlínicas. Nos hospitais tratavam-se todas as qualidades de doentes,

à excepção dos pestíferos e dos leprosos.

O movimento das cruzadas, levou muitos senhores à construção de hospitais. De princípio os hospitais instalavam-se em edifícios adaptados, mas mais tarde foram construídos edifícios próprios. Procurava-se afastá-los dos centros das cidades e instalá-los nas proximidades dos rios. Na frontaria construíam-se arcarias ou

30

alpendres, predominando o estilo ogival. As enfermarias eram cobertas por abóbadas; ao fundo ou mesmo no meio havia uma capela. As enfermarias atingiam por vezes grandes dimensões; por esemplo, a enorme enfermaria do Hospital do Espírito Santo, em Saxe, media 126 m. por 12,35 m. As camas eram dispostas ao longo das naves. Além das enfermarias havia quartos particulares para pensionistas, quatos para o pessoal, refeitórios, celeiros, arrecadações várias, etc

A luta contra a lepra assentava fundamentalmente no isolamento, em Gafarias, que se espalharam por toda a a Europa. Esta doença foi um dos mais terr´veis flagelos da Idade Média. A disposição das Gafarias

era geralmente a de quintas de isolamento, onde havia de tudo o que os leprosos necessitavam. O isolamento nas Gafarias, ou melhor, o internamento era gratuíto para os pobres. No tratamento dos leprosos

a caridade cristã atingiu uma notável elevação. Todo este movimento

caritativose divulgou bastante, era um misticismo são e nobre, seguindo

a doutrina de Cristo, que originou o hospital, o hospício, o albergue, a albergaria e o asilo.

Outra manifestação piedosa foi o estabelecimento de barcas para passagem de rios e a da construção de pontes. Eram concedidos indulgências a quem intituisse as barcas. Algumas comunidades religiosas tomaram a seu cargo a construção de pontes, diques e caminhos, realizando assim “o génio prático da caridade”. As confrarias e irmandades desempenharam um papel social muito importante. A par da defesa profissional, a associação dos membros de cada mister cuidava da assistência material e moral dos associados. As Confrarias davam esmolas, visitavam os pobres e fundavam hospitais.

31

A fundação dos primeiros Hospitais deve-se aos Franciscanos, na Idade Média. A sua principal razão de ser foi lutar contra a miséria e o excesso da usura. Há vestígios de bancos criados na antiguidade a favor dos pobres, para os livrar dos usuários. Uma das modalidades de auxílio prestado pelos montepios era o empréstimo de sementes aos lavradores. A protecção à criança foi sempre uma preocupação da Igreja. O mais antigo asilo para crianças abandonadas parece ter sido o de Milão, no século XIII. Em certas igrejas havia locais especialmente destinados a neles serem colocadas as crianças abandonadas.

Em Treves, havia uma grande concha de mármore, e em Florença, na frontaria da igreja de Santa Maria della Scala, existia um berço abrigado pela portaria. Em 1160 foi fundada em Montpellier uma ordem religiosa dedicada a crianças expostas, orfãs ou por qualquer motivo desvalidas. Igualmente foram fundados asilos para cegos, asilos de regeneração, etc

A assistência desde o século X ao século XVI é bem a idade de oiro da caridade cristã. A intelegência e a erudição, postas ao serviço da doutrina, e a virtude e a acção postas na prática da caridade foram simbolizadas por duas grandes figuras da igreja; S. Tomaz da Aquino e S. Luis. O primeiro definiu em que termos imortais a caridade cristã, e o segundo deu, com o exemplo da sua vida e com a sua obra, o mais extraordinário impulso à realização das obras de misericórdia e à administração da justiça.

***

32

A ASSISTÊNCIA EM PORTUGAL

As oscilações das fronteiras durante as lutas da reconquista; as mortandades que essas lutas causaram; as guerras civis, as fomes, etc. tornam impossivel fazer qualquer cálculo de confiança sobre o número de habitantes que ocupavam o território português no começo da nacionalidade. Seria de quinhentos mil, no século XII, como concluiu Oliveira Martins?

A miséria teve por base as fomes e as epidemias. A epidemia de 1188, resultante da fome causada pela invernia rigorosa, causou muitas vítimas. As guerras contra os muçulmanos, a destruição de povoações, de searas e de habitações rurais, roubos, enfim, a peste, a fome e a guerra foram as três causas tradicionais e trágicas da miséria. Êsta miséria deu origem a multiplas formas de necessidades. Inválidos de guerra, orfãos, doentes, viúvas, cativos, etc., todos eles exigiam que houvesse quem lhes valesse.

As peregrinações a lugares de devoção tornaram-se como que verdadeira moda, o que dava motivo a viagens constantes muitas vezes feitas a pé. S.Tiago de Compostela tornou-se um dos três mais notáveis centros de peregrinação, ao lado de Roma e quase tão famoso como Jerusalém.

As romagens a S. Tiago deram motivo à construção e reparação de caminhos e pontes, instituição de barcas e construção de hospícios, albergues e mosteiros para dar pousada aos peregrinos, constituíndo-se mílicias “de heróis e santos” para os defender dos salteadores. Entre

33

as personalidades célebres que visitaram S.Tiago como peregrino, conta-se S. Francisco de Assis, S.Domingos de Gusmão, a Raínha Santa Isabel de Portugal, D. João II, D. Manuel I, etc

A assistência no território hoje ocupado por Portugalera exercida não só nos mosteiros, presbistérios, residências epcospais e dos senhores, como em albergues, albergarias, hospícios, hospitais, gafarias e mercearias, instituição de barcas e construção de pontes. As albergarias ou albergues eram casas onde se recolhiam pessoas de passagem. Os hospitais tinham funções múltiplas , indo das que correspondiam aos hoteis e hospedarias até as mais variadas formas de hospitalidade. As gafarias eram albergues destinados aos leprosos. As mercearias destinavam-se à realização duma obra de Misericórdia, asilando pessoas pobres até morrerem.

Dar de comer a quem tem fome era, com efeito, uma prática

corrente, quer nos paços reais, casas nobres, mosteiros e presbitérios, quer nas moradas particulares de ricos, ou apenas remediados, sempre que o podiam os necessitados. Dar de beber a quem tinha sede era o complemento natural de esmolas. A caridade colectiva foi realizada por intermédio de assistência administrativa, através de leis de fomento

agrícola, aperfeiçoamento das leis pessoais, etc

A criação de

corporações de mesteres (corporações profissionais) e de confrarias, associações essencialmente beneficentes.

Em Portugal foram sempre muitos os fiéis que doaam em vida ou

deixavam em testamento bens para beneficiar

esses bens eram deixados a mosteiros, só indirectamente favorecendo os pobres, tratamentos médicos e outros benefícios que neles podiam

os pobres; por vezes

34

receber; outras vezes os testamentos determinavam a criação e manutenção de hospitais, albergues e gafarias, para neles serem acolhidos os necessitados.

D. Teresa e D.Henrique fizeram várias doações a mosteiros e igrejas.

D.Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, deixou no seu testamento

rendimentos ao seu “Hospital de Canavezes”.

A Rainha Santa Isabel, deixou dois testamentos, favorecendo a enfermaria do Mosteiro de Alcobaça, e Albergaria de Odivelas, as Gafarias de Santarém, Leiria, Óbidos e Coimbra. A enfermaria do Mosteiro de Santa Cruz, também não foi esquecida, além de muitos legados a igrejas, mosteiros, etc

D. Leonor, foi a primeira pessoa poderosa que fundou um Hospital

Termal. As Gafarias eram simples asilos onde se recolhiam os leprosos. As mercearias, asilos de velhos ou inválidos. As Albergarias, conhecidas por albergues, alcaçaries, caridades e hospícios, acolhiam os viandantes. O Hospital, própriamente dito, era pequeno. O maior de todos, o de Santa Isabel, de Coimbra, tinha o número execepcional de trinta camas. Não tinha médico nem farmacêutico privativos. A casa hospitalar recolhia o viajante doente, onde o ia visitar qualquer médico e onde lhe eram levados medicamentos como se estivesse em sua casa.

Outra característica dos hospitais medievais era a de serem fundados por particulares. A lei que regulava a prática de assistência resumia na síntese das “Obras de Misericórdia”.

35

A fundação de instituições tais como albergarias, hospitais, gafarias e mercearias, irmandades ou confrarias, era regulada pelas disposições do “Direito Canónico”.

O poder civil, porém, cedo começou a intervir na fundação e administração delas. As Ordens Afonsinas, vieram consagrar a doutrina da laicização progressiva da administração das instituições da assistência. São muitas as disposições São muitas as disposições incluídas nas Ordenações, no respeitante a assistência. As individualidades que intervieram na remodelação da assistência em Portugal no último quartel do século XV, foram D. Leonor, D. João II, Frei Miguel Contreiras e o Cardeal de Alpedrinha, além do Rei D. Manuel.

D. Leonor, digna mulher do Príncipe Perfeito; mãe dedicada, “mater dolorosa” que viu morrer o filho único e irmã carinhosa a quem o marido matou o irmão e mandou matar o cunhado; Raínha que se dedicou com amor à protecção dos humildes e de todos os infelizes; fundadora do Hospital das Caldas e dando origem a uma obra de auxílio aos desprotegidos da sorte, e das misericórdias; protegendo artistas, pintores, arquitectos e escultores, fundou obras pias e vendeu as suas joias para fundar e manter o Hospital das Caldas, A raínha D. Leonor deixou, por tudo isto e pela sua intelegência, nobreza e santidade, um nome justamente aureolado na nossa história.

A primeira intervenção de D. João II, em assuntos de assistência parece datar de 1479, sendo ainda princípe, ao pedir ao Papa Sisto IV, autorização para reunir, num só, vários pequenos hospitais; o seu testamento mostra bem o seu programa de assistência. Frei Miguel Contreiras, culto e eloquente, juntou às palavras o exemplo duma vida

36

austera, toda dedicada ao bem do próximo, socorrendo os famintos, libertando presos, valendo a viúvas, amparando órfãos, promovendo o tratamento de doentes, realizando, enfim, todas as Obras de Misericórdia.

D. Jorge da Costa, Cardeal de Alpedrinha, notável pela sua intelegência e pelo seu saber, dedicou a sua actividade a bem da igreja e da caridade, gastando os seus avultados rendimentos no culto divino e no remédio dos pobres, sendo o seu palácio o asilo dos mendigos e propriciatório dos necessitados. Viveu longos anosem Roma e, criando muita influência, pô-la sempre ao serviço do seu país.

O Hospital das Caldas e o de Todos os Santos, de Lisboa, em seus regulamentos dão-nos as bases fundamentais da administração, do funcionamento e da finalidade dos hospitais. Aí, encontramos já o Provedor, o Tesoureiro, o Capelão, o Médico, o Boticário, Enfermeiras,

Escrivão, etc. , bem como horário de consultas, de visitas, disposições sobre a aceitação de doentes, limpeza, vigilância dos enfermeiros,

funções de administração, etc. O

(1504) é um documento notável

Santos del Rei Nosso Senhos de Lisboa”

como o das Caldas, revelando um perfeito conhecimento da técnica administrativa hospitalar, das necessidades múltiplas dos doentes , etc

“Rugimento do Esprital de Todoslos

O hospital das Caldas tinha cem camas e o de Todos os Santos, tinha duzentas nas diversas secções. Conforme o conceito da Raínha D. Leonor, “Misericórdia era uma confraria e irmandade de cem homens de

boa fama, sã consciência e honesta vida

que se propunham cumprir

entre si e para com todos e quaisquer necessitados as catorze obras de Misericórdia, tendo como modelo o Envangelho de S. Mateus e

37

seguindo as normas preconizadas por S. Paulo: - trabalhai e suportai as

cargas (esforços) uns pelos outros”.

No entanto a Confraria da Misericórdia nãocontava apenas com o zelo, esforço e caridade dos cem irmãos, mas com a caridade de toda a gente, pois no que respeita à miséria o que se pode prever é sempre inferior às realidades, exigindo uma solicitude permente e geral de parte de todos. Uma vez institída em bases admiráveis a Misericórdia de Lisboa, D. Manuel promoveu a sua expansão a todo o país, pois nessa altura se escreveu Folgaríamos muito que em todas as cidades, vilas e lugares principais do nosso reino se fizesse a dita confraria na forma e maneira que no dito reino Regimento se contém”.

Ainda em vida da Raínha D. Leonor foram fundadas as seguintes Misericórdias: Em 1498, Lisboa, Pereira, Vidigueira, Goes, Montemor-o-

Velho, Lagos, Tavira, Cabeço de Vide, Valença, Angra do Heroísmo e Vila da Praia.

1499 Porto, Évora, Montemor-o-Novo e Albufeira, 1500 Coimbra, Beja,

Barcelos, Proença, Lousã, Alandroal, Portalegre, Alhos Vedros, Póvoa do

Varzim, Mação e Ponta Delgada. 1501 Setúbal, 1502 Santarém, 1503

Elvas, 1504 Abrantes, 1505 Serpa, 1509 Penafiel, 1510 Tomar e Vila do Conde, 1511 Cascais, Óbidos, Guimarães e Funchal, 1512 Batalha e Aviz, 1513 Braga e Alcoutim, 1514 Castelo Branco, 1516 Viseu, Caminha, Porto de Mós, Viana do Castelo e Vila Viçosa, 1518 Mirandela,

1519 Aveiro e Lamego, 1520 Alvito, Soure, Alcobaça, Torres Vedras e

Montijo, 1521 Vila Verde dos Francos, Viana do Castelo e Cantanhede,

1524 Alter do Chão.

38

A expansão das Misericórdias foi-se processando e elas tornaram-se a pouco e pouco os centros de toda a assistência local, anexando a si as instituições hospitalares anteriores.

.

*******

****

******

39

CAPITULO II

ALGUNS FACTOS DA HISTÓRIA DA VILA DE SALVATERRA DE MAGOS

40

Alguns factos da História da Vila de Salvaterra de Magos

fundada por D. Diniz, a vila de Salvaterra de Magos; o seu

primeiro Foral tem os provilégios de Santarém, mas não tem data; o mesmo D. Diniz deu-lhe outro Foral, em Coimbra, a 1 de Junho.

1295 Foi

1296 A Igreja Paroquial foi fundada

Martins Soalhães.

pelo

Bispo de Lisboa, D.

João

1383 - Foi assinado o Tratado de Salvaterra, em 2 de Abril de 1383, segundo o qual o rei castelhano D. João I, casaria com D. Beatriz, filha de D. Fernando e de D. Leonor Teles.

1514 Havia uma grande Coutada, da Casa Real, e um bom palácio fundado em 1514, pelo Infante D. Luiz, duque de Beja, filho de D. Manuel e de sua mulher D. Maria, filha dos reis católicos, Fernando e Isabel. Na Tapada real, faziam os reis frequentes e grandes caçadas. Os primeiros donatários da vila, os Condes de Atalaia, que a deram ao dito Infante D. Luiz (filho de D. Manuel), em troca da vila da Asseiceira e outros lugares.

1517 D. Manuel deu em Lisboa, novo Foral à vila de Salvaterra, a 20 de Agosto de 1517.

41

1650 D. João IV, mandou abrir o Paúl, existente

denominava Paúl de Magos.

e que à data já se

1690

D. Pedro II, mandou acrescentar o palácio e fazer belos jardins.

1757

A vila tinha, nesta época, 453 fogos.

1762 Havia antigamente em Salvaterra esplêndidas touradas, divertimentos a que os nossos reis muito inclinados. O próprio D. José, que costumava aceitar todas as opiniões do <marquês de Pombal, nunca transigiu com ele quanto à concessão das corridas. Um dos destros, o valoroso Conde de Arcos, filho do Marquês de Marialva, o mais famoso cavaleiro da península. “saiu do curro um touro preto e só o Conde de Arcos se atreveu a enfrentá-lo, cravando- lhe um ferro”. “O touro furioso investe com o cavalo que cai arrastando consigo o Conde de Arcos que, ferido numa perna, não se poude levantar”. “O touro arremessa-o com as hastes na e queda, esmagou-o depois com as patas”. “ Esta desgraça aterrou o Monarca e todos os espectadores “. “O Marquês de Marialva, que tinha setenta anos, desceu com a agilidade de um mancebo os degraus do anfiteatro para vingar a morte do filho, ou morrer com ele”. “D.José, mandou detê-lo; O Marquês não acedeu, delicadamente, e desceu até à praça”. “Ajoelhou junto ao cadáver do filho e beijou-o na fronte”. “Levanou do chão a espada de dois gumes, passou a capa no braço e, colocando-se no meio da praça esperou o touro, a pé firme”. “O animal investiu e depois de um combate de alguns momentos, o Marquês crava a sua espada até aos copos na nuca do touro que caiu a seus pés”. “D. José resolveu que esta

42

fosse a última corrida de Touros em Salvaterra.” Este damático texto, consta do livro de Rebello da Silva.

1824 Na noite de 28 de Fevereiro, deu-se em Salvaterraum facto naturalíssimo, que os liberais aproveitaram para desacreditar o

que os liberais aproveitaram para desacreditar o Monte do Conde dos Arcos – Salvatera de Magos

Monte do Conde dos Arcos Salvatera de Magos

Rei, D. Miguel (então Infante), embora fosse impossível convencer o público, conseguiram, pelos meios mais torpes, tornar o caso obscuro, para que a calúnia não fosse completamente destruída.

Na referida noite, houve um ensaio no teatro da Ópera, do palo real, ao qual assistiram muitas pessoas da corte e, entre elas, o Marquês de Loulé, que se retirou antes de terminar o ensaio. O edificio do palácio já então principiava a arruinar-se. O Marquês, tomou por um corredor que não estava iluminado e, tateando ao longo da parede, foi ter a uma antiga porta que dava entrada a uma sala que já não existia e que estava agora

43

transformada em saguão e, por conseguinte, a citada porta estava servindo de janela rasgada.

O Marquês, foi andando pelo corredor, e, certamente por esquecimento, uma vez que a porta não tinha qualquer resguardo, ao tatear caiu soubre uma pilha de entulho que estava no saguão e morreu da queda. Quando na manhã de 29, apareeu o cadáver do Marquês, ninguém se lembrou de que tivesse havido crime. O Magistrado, Doutor Torres, Corregedor da Comarca, procedeu logo ao auto de exame e corpo de delito no cadáver, e os dois cirrurgiões e as testemunhas do auto declararam nele que o Marquês não tinha o mais pequeno sinal de ferimento ou contusão.

Mas o Ministro da Justiça, Lacerda, implacável inimigo de D. Miguel, queria atribuir a um rime a morte do Marquês e imputável ao príncipe. Chamou o Corregedor, e exigiu que ele substitui-se o auto de corpo de delito, mas o honrado corregedor, recusou-se. Lacerda, para que o factoficasse pelo menos duvidoso, sumiu o auto, que nunca mais apareceu. D. Miguel. foi sempre amigo do Marquês, continuou a ser inseparável de seus filhos, e mais afeição durou até aos últimos momentos da sua vida. Mesmo quando D. João VI, obrigado pelas intrigas palacianas, mandou viajar D. Miguel, e fazer residência em Viena de Áustria, um dos camaristas que o principe escolheu, foi o filho, José Maria, um dos filhos do Marquês de Loulé.

As relações de amizade continuaram sempre entre todos os membros da família do falecido Marquês, e o senhor D. Miguel, prova irrefuntável de que Loulé morreu de desastre, e não de violência.

44

1876 No inverno, deste ano, os temporais assolaram o Ribatejo; em

Salvaterra a enchente chegou até ao meio da Rua de S. Paulo, invadiu a

Igreja da Misericórdia e muitos mais casas de habitação. No dia 6 de Dezembro de 1876, todos os marítimos de Salvaterra ofereceram os seus préstimos para salvamentos na região de Alquidão, Reguengo, Valada, Porto de Muge, etc., salvando vidas e haveres.

1877 Em Setembro, foram arrematados, na Repartição da Fazenda no

Distrito de Lisboa, os bens pertencentes à extinta “Comenda de Salvaterra de Magos, de que foi último administrador, o Conde da

Ribeira Grande.

**

******

*****

45

CAPITULO III

MISERICÓRDIA DE SALVATERRA DE MAGOS

(Fundação, Missão e Finalidade da Santa Casa)

46

**********

O primeiro Compromisso da Misericórdia de Salvaterra de Magos, vem

do alvará concedido em 1660, e ajuda-nos a compreender a missão das Misericórdias. Nele consta; alguns Capitulos por exemplo:

Capítulo I

Do número e qualidades que hão-de ter os Irmãos da Misericórdia:

serem homens de boa consciência e fama e tementes a Deus; hão-de ter condições;

1º - ser limpos de sangue, sem alguma raça de mouroou judeu;

2º - livre de toda a infâmia de Feito e de Diireito;

3º - ter idade conveniente; sendo solteiro ter mais de 25 anos;

4º - não servir a Santa Casa por salários;

5º - que tenha tenda, se for Oficial, mando de Ofício em que há costume haver, ou que seja mestre de obras,;

6º - ser de bom entendimento e saber ler e escrever;

7º - ser abastado de Fazenda.

*********

47

Capítulo VIII

O Provedor será sempre um homem fidalgo, de autoridade, prudência,

virtude, reputação, e idade de maneira que os outros irmãos o possam

reconhecer por cabeça.

Captulo X -

O Irmão que houver de ser recebedor das esmolas; será pessoa nobre, honrada e eabastada.

Capitulo XII -

Aos irmãos visitadores, compete tirar informações de pessoas a quem as haja de dar dotes, capelanias, ou mercearias.

Capitulo XX

Os irmãos; 2 nobres, terão a seu cargo o recolhimento das donzelas

que viverão à custa da Misericórdia ordem da Mesa da Santa Casa.

nenhuma delas pode casar sem

Capitulo XXII

O Mordomo da Capela vigiará os Capelães, os enterramentosdos defuntos.

e os Clérigos;

ordenará

48

Capitulo XXIV

Os mordomos do Hospital, terão a seu cargo justamente os doentes que estão nas enfermarias e correrão com eles assim no espiritual como no temporal.

Capitulo XXVI

Os Capelães não serão recebidos sem serem examinados em canto e coisas necessárias ao culto divino pelos Mestres da Capela. Capitulo XXX

as pessoas que houverem de ser visitadas hão-de ter condições:

serem pessoas de recolhimento, virtude e boa fama; 2ª serem pobres e necessitados de tal qualidade que não andem pedindo pela cidade; 3ª que não possam servir a outrem.

Capitulo XXXIII

Achando-se alguns meninos desamparados a Mesa os mandará recolher, acabar de criar e depois de crecidos lhes dará ordem conveniente.

49

Capitulo XXXV

Como o enterramento dos mortos é uma das principais obras de misericórdia trabalhará o Prevedor, e mais irmãos da Mesa, que se faça com decência e cristandade, e com respeito às pessoas que faleceram

. cada irmão é obrigado a dizer pelo alma do defunto catorze vezes “O Padre Nosso” e catorze vezes a “Avé Maria”

Capitulo XXXVI

quando alguma pessoa houver de padecer por justiça, os Mordomos dos prezos chamarão um religiosoque o virá confessar e consolar naquele dia em que se lhe publicar a sentença.

**********

Aplicada a letra deste Compromisso à Misericórdia local vê-se que lhe competia uma larga obra de assistência, adaptada à realidade e às circuntâncias locais. A sua missão era, portanto, a assistência e protecção a: visitar e acudir à “pobreza envergonhada”; recolher ou vigiar as donzelas; enterrar os defuntos; recolher e amparar os peregrinos; acudir e tratar os doentes; proteger os meninos desamparados, etc

************

50

“Estatuto da Associação de Beneficiência - Misericórdia de Salvaterra de Magos”

Sendo o segundo Regulamento que encontramos, este diploma data de 30 de Abril de 1912, e nele se lê, por exemplo no Capitulo I

praticar em geral todos os actos de assistência; beneficência;

prestar socorros hospitalares aos enfermos;

medicamentos a doentes pobres;

trânsito e alimentos, os doentes e peregrinos;

fornecer

subsidiar com esmolas, para

ministrar uma sopa

por ocasião de calamidades públicas ou intensas crises de trabalho.

O terceiro e actual Regulamento é o “Compromisso” da Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos”, aprovado por despacho de S. Exª.o Ministro da Saúde e Assistência, de 20 de Fevereiro de 1961.

Também neste diploma se pode ler no seu Capitulo I

os seus fins são: a beneficência, a caridade cristã, a prática do culto

a assistência moral e religiosa aos

doentes e beneficiários da Irmandade;

necessitados a sua acção caritativa e criar de futuro novas modalidades de assistência.

estender ao maior número de

católico e das obras pias

***

51

Portanto todos os Regulamentos estão de acordo quanto à acção da Santa Casa da Misericórdia, a qual se pode resumir numa só ideia: - praticar a assistência, o bem, a protecção, afinal o socorro, onde e quando ele for necessário.

Esta ideia está patente na acta de Julho de 1927, ao afirmar-se:

“Só quem conheça, por aturada permanênciam a vida interna do nosso hospital, poderá avaliar do seu valor como instituição de caridade e assistência pública. Só quem, dia a dia, acompanha o drama tremendo que à sua volta se desenrola, poderá ter a concepção nítida das dores,da miséria, da falta de recursos de toda a ordem, que os pobres personagens desse drama passam e sofrem e que o benemérito hospital na sua alta missão de caridade atenua, suavisa, socorre, prodigalizando assistência hospitalar a uns, fornecendo medicamentos a outros, matando a fome a alguns e finalmente mantendo sempre as suas portas abertas aos infelizes, que se vêem acolher ao seu seio no último arranco da vida, e a quem ele, quando mais lhe não pode dar, oferece sempre um leito limpo para os deixar morrer com o corpo consolado e o espírito mais tranquilo pela certeza que lhes fica de que a sociedade, que considerava madrasta, foi, ao menos, nos últimos momentos da sua atribulada existência, mãe carinhosa e amorável” Apresentadas estas palavras sobre a missão e finalidade da Misericórdia, vamos ainda dentro deste I Capitulo, registar um apontamento sobre a inauguração do Hospiral novo e, apenas a t´titulo de curiosidade, anotar um pequeníssimo resumo de algumas deliberações da Mesa.

**

52

Nos capitulos seguintes fazemos um pouco da história da Santa Casa, com a intenção de dar a conhecer, em simples bosquejo, o que tem sido a sua vida e a sua acção efectiva.

HOSPITAL NOVO

Em sessão extraordinária do dia 10 de Fevereiro de 1913, foi deliberdo mandar fazer e colocar na Sala de Entrada do novo Hospital uma lápida com a seguinte inscrição:

“Este Hospital foi mandado construir pelo benemérito provedor da Misericórdia, cidadão Gaspar da Costa Ramalho, com esmolas por ele obtidas e a expensas suas em 1912”

A Comissão Administrativa, em homenagem ao Prevedor

*********

A construção do novo Hospital importou na quantia de nove contos e noventa e cinco mil quatrocentos e sessenta e um réis (9.095.461 rs.). Os donativos angariados pelo provedor foram de sete contos e onze mil novecentos e cinquenta e cinco reis (7.011.955 rs.), pelo que o donativo do provedor foi de dois contos e oitenta e três mil quinhentos e seis reis (2.083.506 rs.).

53

O novo hospital foi inaugurado solenemente em 9 de Março de 1913, stando presentes as seguintes individualidades: A Mesa Administrativa da Misericórdia, composta por João Ferreira Vasco, Manuel Frazão d`Azenha, Francisco de Almeida Henriques, António Henriques Alexande, Augusto Lopes e José Pedro valente; Câmara Municipal, Junta da Paróquia, Associação dos Trabalhadores Rurais, Club de Salvaterra, Monte-Pio, Centro Republicano e respectiva Banda, Sindicato Agricola, Caixa de Crédito Agrícola, Comissão Organizadora da Festa da Àrvore, funcionários e mais povo.

O discurso da inauguração foi lido por Manuel Frazão d`Azenha, concebido nos seuintes termos: “Hoje Salvaterra rejubila de contentamento numa festiva manifestação; vibram no ar os acordes dos hinos populares; harmonias que se espargem em ondulações transmitidas a todas as ruas, a todos os lares, a todos os indivíduos numa manifesta satisfação de júbilo; dilata-se-nos a alma no consolo de um grande gozo, de uma aspiração satisfeita, de uma conquista vitoriosa, perserverante e deiligênte. E em toda a asistência eu diviso o aspecto alegre, a risonha esperânça de festiva manifestação, a alegria patenteada na boa disposição de todasas classes aqui associadas, numa cominidade de anuência para o brilhantissimo desta festa geral em que todos gozam, ricos e pobres, com o desejo satisfeito de um grade melhoramento.

Prestamos hoje, aqui, o envio o culto sagrado a uma divindade que esparge às mãos cheias benéficas oferendas, com que se remedeiam todas as necessidades, todas as privações, tdas as esperanças; enxugando lágrimas, saciando os famintos, vestindo os nús, curando enfermos, fazendo florir as rosas da saúde nas faces amarelecidas dos

54

desfalecidos e dos estiolados da sorte. Esta Deusa miraculosa da nossa

que prestamos hoje o nosso culto, e para quem erigimos este edifício, templo que lhe é consagrado em homenagem à sua beneficência

e

1913 - inauguração do hospital
1913 - inauguração do hospital

a Caridade essa pomba de asas brancas que

errante em todas as regiões, sem pátria, corre dum e outro extremo ligeira a enxugar lágrimas, fazemos o dia onde a noite é tenebrosa, desabrochando auroras multiclores onde a densa cerração e as lufadas do sul ameaçam varrer os tristes casais da encosta. Quando no horizonte assoma a alva pomba seguindo ligeira através dos ares, as núvens como véus de gase transformam-se em frocos transparentes, deixando antever através do seu tecido finíssimo, os raios de ouro do astro luminoso, que esparga a luz, e calor, que é a vida, a saúde e a alegria do casal. Uma auréola de cores variadas, o arco-iris da bonança forma-lhe a coroa do triunfo,; e o sol esplêndido refletindo-se a pino nas gotas de chuva, que antes caía torrencial, depostas nas folhinhas herbáceas das boninas da planíce, transforma-se em milhares de brilhos

é a CARIDADE

sim

55

de cintilações deslumbrantes. A festa que hoje aqui solenizamos refere-

se à inauguração deste edificio,o templo sagrado da caridade: - o Hospital da Misericórdia de Salvaterra de Magos, erigido e construído pela própria caridade, que como uma fada benfazeja fez surgir do nada, neste terreno incultoonde só havia uma auréola árida escaldada dos ardores do sol, e que ela a fada benfazeja com a sua carinha de magia

beneficiou, fazendo crescer dessa auréola o edifício alteroso ostentando

a sua elegante arquitectura num embelezamente pomposo de uma

esplêndida apresentação. Para que possamos apreciar os maravilhosos efeitos da caridade, historiemos um pouco a biografia do edifício: - Desde épocas antiquíssimas existia o pequeno e modesto hospital da Misericórdia, propriamente um Albergue para socorro dos desvalidos, que em largos anos muitos serviços prestou à humanidade enferma.

1980 - Hospital da Misericórdia
1980 - Hospital da Misericórdia

56

O terramoto de 1909, como uma avalanche despenhada por encosta por encostas e algares, varreu na sua impetuosadade todos os edifícios numa derrocada desoladora, e lá se foi também o triste albergue dos pobres. O grito de lástima das povoações assoladas ecoou estrondoso por todos o nosso país, e então a caridade despertada pelos gemidos lamentosos das vítimas da derrocada, surgiu prestes na colheita dos óbolos de todos, pobres e ricos, que à porfia lançavam os seus cobres, as suas pratas, o seu ouro na escola, que a caridade estendia a todos numa gentil apresentação de um agradecimento de fina homenagem. O dinheiro multipicou-se, e o sol esplêndido da beneficência raiou por todo o país, fazendo a luz resplandescente onde havia a tempestade. Parte deste dinheiro foi destinado para este Hospital, que começou então a surgir, a crescer, a crescer, e arquitectar-se, manifestando-se já um edifício de distinta aparência, mas o dinheiro da grande subscrição, e dávida destinada ao edifício escasseou, e então o Hospital não se completava por falta de meios; mas a varinha mágica da fada benfazeja agitou-se no ar e uma nova caridade surge pressurosa em socorro do seu templo, da casa dos pobres, e o edifício a crescer e a desenvolver- se até à sua altura completa. Um poder oculto, fanático dessa religião cultora de caridade operava na sombra; e obtendo ainda donativos de beneficência particular e por fim despendendo o restante preciso - alguns contos de reis até ao completo acabamento do edifício, conseguiu colocar a cópula final na casa dos pobres. Esta benemerência caritativa que a divulgue e que me desculpe o senhor Gaspar Costa Ramalho se ofende a sua modéstia, mas a história que tenho feito deve ser verdadeira: - e assim a par de todos os agradecimentos da nossa gratidão e todos as pessoas, que ajuntaram uma pedra neste edifício e que concorram com donativos permanentes para a sua sustentação, prestamos a nossa homenagem ao senhor Gaspar Ramalho, na sua

57

qualidade de Prevedor, que foi o dirigente da construção deste edificio e colaborardor financeiro, que numa grande benemerência se dedicou à sua construção é portanto a festa promovida para a solenização da inauguração do Hospital da Misericórdia; dia de festiva alegria, dia de comemoração das dedicações em prol deste melhoramento, dia grande pela alteza do assunto, dia feliz em que soam melodias sonoras de músicas festivas, harmónicas, que evolam pelo ar neste dia, em júbilos de verdadeio festival”.

************

Presidiu a esta sessão solene da inauguração do novo Hospital o Dr. Armando Freire dos Santos Calado, que pronunciou o seguinte discurso:

“Meus senhores: - É com a alma a transbordar de alegria, que felicito o povo de Salvaterra de Magos, pela inauguração deste esplêndido Hospital; ninguémmais do que eu, como médico lhe sentia a falta e a necessidade imperiosa que havia de o construir; era um belo sonho que embalava de muito a minha alma já desenganada e que hoje tenho a felicidade de ver realizado. Há males que vêem por bem; está ainda bem dolorosamente gravada na nossa mente, a horrorosa catástrofe que assolou esta vila a 23 de Abril de 1909, em que as mães aterrorizadas, clamando piedade e socorro, figiram das casas levando em seus trémulos braços os filhinhos, tesouro único da sua alma, quais andorinhas espavoridas a que mão malfazeja destruisse de

58

momento os seus nonhos dia funesto este em que os homens tolhidos de tétrico pavor perante um inimigo invisível e poderoso, quedavam de alma incerta e contrista, qual gazela que se vê entre a pontaria certeira de um bom atirador a um precipício, no qual é forçoso despenha-se. Quem diria então, que nos três locais onde esta povoação ansiosa, passou aglomerada horríveis dias de incerteza cruel, de lento suplício, volvidos quatro anos aí se achariam hoje construídos, num eles, Largo do Mártir S. Sebastião, uma instituição para os pobres impossibilitados, noutro, Largo 5 de Outubro, uma escola modelar, e que neste Largo se processaria hoje à inauguração dum Hospital, dos melhores da província? Que poder de magia, que fada benfazeja operou tal milagre, tornando esses três locais de tragica dor, em Albergue de Inválidos, em escola, em hospital, onde se retempera a força, e saúde do pobre, único capital que ele possui, esteio único de sua mulher, de seus filhos? A fada que com sua vara mágica operou tal prodígio, ignorais qual fosse? Foi a CARIDADE, essa única flor de vestir humano, mimosa planta de estufa que desponta na alma dos bons, foi essa caminheira eterna que só trilha caminho espinhosos, da desventura, sendo a sua

uma

bússola, o seu norte – uma dor mitigar lágrima a enxugar!

59

Meus senhores - É quando surge a tempestade, em plena tormenta, quando o oceano indómito parece querer arremeter com a terra. É então que se avalia a solidez da construção de um navio, e rebustez do seu bojudo casco, a resistência do seu volame enfunado pelo furacão, a coragem, e perícia do timoneiro, e destreza da tripulação, assim neste labutar diário da vida, é também nos momentos difíceis que se conhecem os homens; é quando a desgraça aborda à nossa porta que se conhece um abrigo verdadeiro. Meus senhores – O ilustre cidadão Gaspar Costa Ramalho (cuja ausênciana presente ocasião muito lastimo) desde o dia em que o primeiro tremor de terra convulsionou este nosso torrão querido, até hoje, deu inúmeras e exuberantes provas de que possui uma alma da mais fina têmpera, e de que é um amigo dedicado da sua terra natal; não tem o brilhante mais resistente nas suas arestas aceradas e cortantes, de que ele manifestou de tenacidade, de perseverança em alcançar donativos para esta casa de caridade – nem mais pureza nas suas facetas limpindíssimas, do que pura e despida de vaidades, foi a ideia da construção deste hospital. Nesta quadra de esgoísmo feroz que vamos atravessando, é para causar admiração tanta persistência e dedicação desinteressada; isto em quem se achou sózinho, como ele, cercado duma atmosfera gélida de

60

indiferença, quando não era de calúnia, pois há gente que pode ter a estulta ilusão de subir, amesquinhando o bem que outrem faça. GASPAR COSTA RAMALHO, não era homem que deixasse por completar a sua obra, e teve a generosidade de abonar do seu bolso, tanto quanto faltasse para a concluir. Perante exemplar proceder, a povoação de Salvaterra de Magos, contraíu uma dívida sagrada de gratidão que nunca poderá pagar; não pode um filhomostrar mais dedicação por sua mãe, do que ele manifestou para sua terra natal. Proponho meus senhores, que fique exarado na acta um voto de admiração pelo seu carácter diamantino, e de o reconhecimento de toda a povoação desta vila ao ilustre cidadão Gaspar Costa Ramalho, grande benemerente e extraordinário amigo da sua terra”.

***************

“ Falou de seguida o senhor Francisco Maria Gomes Leite, que diz o seguinte:

“Em nome do Club de Salvaterra que represento, é aos beneméritos desta vila e muito principalmente ao Exmº Snr. Gaspar da Costa Ramalho que tanto contribuiu para a construção deste hospital, que envio uma pequena menção.

61

Pequena em palavras mas grande em sentimento, porque há iniciativas louváveis, acima de todas, estão as que cuidam do bem da humanidade. É à actual Direcção deste hospital composta de pessoas de toda a respeitabilidade, que fica o encargo de velar pelo conforto daqueles que na amargura da vida, aqui vêem procurar alívio aos seus sofrimentos; e não posso deixar de envolver nas minhas palavras o nome do distinto facultativo desta vila o Exmº. Snr. Dr. Armando Calado, que aqui prestará toda a sua dedicação e intelegência. Portugal é um país onde se cuida ainda da beneficência, e é necessário que Salvaterra caminhe na vanguarda para orgulho dos que dela são filhos e dos que trabalham e desejam o desenvolvimento desta Vila”.

**************

Depois falou o Snr. José Eugénio de Menezes, presidente da Câmara Municipal que em nome do munícipio de Salvaterra agradeceu a quantos concorreram para a realização da valiosa obra que acaba de ser dotado o concelho.

Falou finalmente o Dr. Acácio Sande Marinha que disse assistira esta festa com verdadeira e íntima satisfação, fazendo votos para que os vários corpos dirigentes que se sucederem, conservem sempre o seu amor e dedicação por tão belo edifício que encarna uma salutar instituição. Foi depois enviado um telegrama ao Snr. Gaspar Costa

62

Ramalho, do teor seguinte: “ A Mesa Administrativa da Misericórdia de Salvaterra, interpretendo o sentir desta belo povo nas pessoas dos seus representantes aqui reunidos para inaugurarem o hospital de que V. Exª. foi o iniciador, agradece tão grande benefício” A seguir a sessão foi encerrada.

***

63

ALGUMAS DELIBERAÇÕES

1888 Deliberado adquirir meio serviço de estanho para uso dos

doentes.

- Deliberado proceder à reparação do edifício da Misericórdia.

- Deliberado adquirir 11,250 Kgs de Cera.

1890 Deliberado adquirir três colchões, três enxergões e nove feixes

de palha.

- Deliberado fazer a Festa da Imaculada Conceição

1912 A Misericórdia passou a denominar-se:

“Associação de Beneficência - Misericórdia de Salvaterra de

Magos “ – Alvará de 26

1918 Resolvido passar a iluminação do Hospital para petróleo, devido

ao elevado prêço do Carboneto.

1920 Concordou-se em plantar árvores na cerca do Hospital.

1928 Foi aprovado colocar um retrato a óleo do benemérito Sr.

Francisco Ferreira Lino, e outro do Sr. Gaspar Costa Ramalho.

1941 Resolvido colocar no edifício do Hospital uma placa de mármore,

como testemunho de eterno agradecimento à benfeitora D. Isabel Maria da Costa Santos. - Resolvido colocar no Salão Nobre do edifício do Hospital o retrato de D. Teresa Castro Ferreira Guimarães de Melo e Maro e marido Jorge de Melo e Faro (Monte Real), por terem tomado a iniciativa da reconstrução da Praça de Touros e da organização da sua primeira corrida de touros, após o Ciclone que a danificou.

- Mais foi resolvido colocar no Hospital lápides de homengem ao benemérito José José Xavier Pinto.

de Junho de 1912.

64

- Foi deliberado também telegrafar a S. Exª. O Senhor Presidente da República, General António Oscar de Fragoso Carmona, agradecendo a honra da sua assistência à corrida de Touros, quando das obras que sofreu após o Ciclone.

1947

Deliberado instalar telefone. - Deliberado instalar água quente.

1960

- Resolvido colocar uma lápide ao Snr. Eng. João Oliveira e Sousa,

por ter levado a efeito e custeado intregalmente as obras da reparação e restauro da Igreja da Misericórdia, e feitura do Jardim, no espaço

junto onde existiu Albergaria para Recolha de Peregrinos.

- Igualmente foi aprovado colocar outra lápide ao médico Dr.

Joaquim Gomes de Carvalho, por ter completado vinte cinco anos de dedicado serviço gratuíto ao hostipal.

1961 Em Março desde ano, a Associação de Beneficência, passou a ter a

denominação de: “Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de

Salvaterra de Magos”.

**********

65

CAPITULO IV

ASSISTÊNCIA HOSPITALAR E MOVIMENTOS DEMOGRAFICOS

66

DATA DA FUNDAÇÃO DA MISERICÓRDIA

As informações que conseguimos obter, embora sem poderem ser consideradas como autenticas fontes oficias, são embora históricas, indicam a data de 1660, como fundação da Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos. A antiga Albergaria (hospital) era um modesto

de Magos. A antiga Albergaria (hospital) era um modesto DA. MIZ. A P. A RECOLHER .

DA. MIZ.A P.A RECOLHER . OS POBRES. PEREGRINOS

edifício junto à Capela/ ou Igreja da Misericórdia, no mesmo local onde hoje é um terreno ajardinado com as dimensões; 23 m. de cumprimento por 15 m. de largura. No velho muro ali existente ( junto à capela, era a frontaria do edifício que caíu quando do terramoto de 1909), por cima

67

de uma velha porta, existia ali uma pedra mórmere com uma inscrição gravada, com os dizeres na página anterior. Quando em 1960, das obras de recuperação daquele espaço, a pedra, foi colocada na parede traseira, por cima de um portão em ferro, que substituiu uma porta de madeira.

************

ASSISTÊNCIA HOSPITALAR

A Assistência Hospitalar, até ao primeiro quartel do nosso século (séc.XX), era prestada principalmente a doentes de Concelhos estranhos, que aqui se encontravam de passagem ou com residência temporária. Assim, para além de vários mendigos, a quase totalidade dos registos é constituída por trabalhadores rurais pertencentes a Ranchos, que tendo-se deslocado das suas terras em busca de trabalho neste Concelho, não possuíam casa própria de família e tinham, por conseguinte de procurar tratamento no Hospital. Estes Ranchos deslocavam-se até aqui vindos principalmente de terras da Beira. Verificava-se também que, nesses mesmos tempos, os naturais deste Concelho preferiam estar em suas casas, quando doentes, procurando apenas o Hospital, com doença mais garve, ou prolongada e ainda por completa falta de recursos financeiros, pois os partos continuavam a ser em casa.

68

É certo que o Hospital Velho, da vila, no Largo S. Sebastião, não oferecia as condições necessárias, (em todos os aspectos) para recolha e tratamento de doentes, mas também parece ser certo que o pensamento daquelas épocas deveria ser de que o Hospital se destinava principalmente aos pobres e aos desamparados, o velho edificio, veio a

1909 - O que restou do velho hospital, após o Terramoto
1909 - O que restou do velho hospital, após o Terramoto

cair com o terramoto de 1909. A partir de 1918 ( já no Hospital Novo), encontramos nos registos de doentes, (para além duma natural quantidade), uma quase totalidade de indivíduos naturais deste Concelho e, embora a grande percentagem seja a de trabalhadores rurais também verificamos a presença de doentes provenientes de diversas camadas sociais. De 1884 até 1908, os doentes são pertencentes à camada social dos rurais, acrecidos de alguns pedintes e um ou outro campino. No mesmo período de tempo verificamos também que os doentes (com raras excepções) são todos provenientes de teessas terras são todas do

69

Norte, isto é a Norte de salvaterra, não se encontrando qualquer registo respeitante a terras do Sul. Esta presença de doentes naturais de localidades a Norte do tejo mostra que a migração era no sentido Norte- Sul.

O Norte sempre teve uma mais alta percentagem de emigração do que o Sul, e os seus naturais saíam para o estrangeiro e para terras mais ricas do Sul. As serranias mais pobres, menos produtivas forçavam esse movimento, essa busca duma vida melhor.

Uma maior densidade de população contribuía também para tornar dura a vida do homem do Norte. Por isso, ele descia até ao Ribatejo, procurando trabalho e melhores condições de vida. Vindo sózinho ou agrupado em “Ranchos”, onde predominada as mulheres jovens, vinha em busca de trabalho e de pão. Muitas delas sendo solteiras, ficavam casadas por todo o Ribatejo. Em Salvaterra, ainda predomina as raízes genelógicas vindas de terras abaixo de Viseu até Pombal.

A vida dura a que fora habituado dera-lhe um espírito conbativo e uma maior capacidade de adaptação a qualquer meio. Uma vez aqui chegado empregava-se em serviços agrícolas, era um trabalhador rural, levando uma existência mais sóbria, menos exigente do que os trabalhadores naturais desta região. Mal alojado e sem grandes recursos, quando a doença lhe batia à porta só lhe restava o recurso so hospital.

Nos registos, predominam os doentes do sexo masculino, alguns deles

casados, mas na sua grande maioria solteiros, novos, de idade na média

com 12

dos 30 anos.

Há doentes com idade de 5, 6, 8, 11, 12 e 14 anos;

70

anos já consta a profissão de “rural”. Vê-se que os casados traziam a família e que os filhos, mesmo de pouca idade, já trabalhavam ao lado dos pais, nos serviços agrícolas.

Quanto aos “Ranchos” de que falámos já, ou de doentes de passagem, assinalam-se Concelhos ou terras de origem, que a seguir descriminamos por ordem alfabética:

Ataláia, Almoster, Abrantes, Águeda, Alcobaça, Alvaiázere, Albergaria, Aveiras de Cima, Alpiarça, Almeirim, Barquinha, Chão de Couce, Ceia, Condeixa, Coruche, Cadaval, Covilhá, Caldas da Raínha, Coimbra, Ervedal, Estremoz, Ferreira do Zezere, Figueiró dos Vinhos, Figueira da Foz, Fornos de Algodres, Fundão, Golegã, Guimarães, Idanha-a-Nova, Lousá, Leiria, Moimenta da Beira, Montemor-o-Velho, Mira, Mação, Maçãs de D.Maria, Nelas, Ourém Ovar, Pampilhosa, Pedrógão Grande, Penela, Pombal, Santarém, Soure, Sertã, Sª Comba Dão, Tomar, Torres Novas, Vila Pouca de Aguiar, Viseu, Valongo e Vila Nova de Ourém.

O primeiro doente registado em 1884, foi Margarida Maria, de 16 anos solteira, rural, natural de Penela, com febres intermitentes. A partir de 1913, e principalmente de 1918, a maior percentagem de doentes passou a ser do Concelho, pois a epidemia dessa época certamennte não permitiria uma vida nornal e habitual de migrações.

“providenciar sobre as

medias a adoptar em face da epedimia que tem alastrado e adquriu medicamentos”, tendo resolvido também no mesmo no requisitar o edifício da Escola Primária para instalar uma enfermaria provisória.

Em 1918, a Mesa da Santa Casa, resolveu;

71

Em Janeiro de 1919, a Mesa deliberou proceder a uma limpeza geral e desinfecção de todas as dependências do Hospital, visto ter diminuído o número de doentes atacados pela epidemia. O Mapa do “Movimento demográfico” acusa em 1918, um aumento enorme de doentes, o que e compreende em vista da citada epidemia. As doenças mais frequentes eram as febres intermitentes, pneumonias e tísica; além destas a bronquite, embaraço gástrico, reumatismo, feridas, fracturas, anginas, sarampo e contusões. O primeiro doente a entrar no Hospital Novo, em

1913, foi José Duarte, de 45 anos, viúvo, pescador, filho de António Duarte

e de Henriqueta Margarida, natural da Barquinha, com reumatismo e saíu curado, em 5 de Abril do mesmo ano.

Presentemente (1970) o Hospital alberga e trata os doentes pobres, gratuitamente, dando-lhes alimentação, cama e medicamentos; procede

a curativos e só os casos graves ou de cirurgia mais complexa para os

quais não há aparelhagem adequada são enviados para Lisboa. Nesta data estão internados no Hospital sete homens e nove mulheres. Embora o Regulamento diga que os doentes com alguns recursos deviam pagar uma pequena diária, isso só raras vezes se tem verificado. Nos dois quartos particulares, destinados a doentes com maiores recursos, acontece que passam o ano sem serem utilizados. Só recentemente, porque as Mesas, têm feito pressão nesse sentido e porque se foi criando o hábito de os partos serem feitos no Hospital é que passou a registar-se alguma receita com os doentes pensionistas.

**********

72

MOVIMENTO DEMOGRÁFICO

Ano

Doentes

Doentes

 

Doentes

 

Entrados

Altas - Falecimentos

Internados

Masc .Fem. total

Masc. Fem Total

 

Masc. Fem. Total

1884

-

1

1

-

1

1

-

-

-

1889

3

-

3

3

-

3

-

-

-

1893

19

4

23

19

4

23

-

-

-

1894

22

6

28

22

6

28

-

-

-

1895

33

18

51

33

1

51

-

-

-

1896

32

18

50

32

18

50

-

-

-

1897

20

17

37

19

17

36

1

-

1

1898

20

13

33

20

12

32

-

1

1

1899

8

9

17

8

9

17

-

-

-

1900

10

1

11

10

1

11

-

-

-

1901

11

-

11

9

1

1 0

1

-

-

1902

20

3

23

20

3

23

-

-

-

1903

12

15

27

12

15

27

-

-

-

1904

9

4

13

8

4

12

1

-

1

1905

19

8

27

18

8

26

1

-

1

1906

14

5

19

14

5

19

-

-

-

1907

3

2

5

3

2

5

-

-

-

1908

5

7

12

5

7

12

-

-

-

1909

51

29

80

51

29

80

-

-

-

1910

11

3

14

11

3

14

-

-

-

1911

9

4

13

9

4

13

-

-

-

73

 

Hospital Novo

 

Ano

Doentes

 

Doentes

 

Doentes

 

Entrados

Altas - Falecimentos

 

Internados

Masc .Fem. total

Masc. Fem. Total

 

Masc. Fem.

 

Total

1913

20

16

36

20

16

36

-

-

-

1914

31

19

50

30

19

49

1

-

1

1915

29

25

54

28

25

53

1

-

1

1916

32

25

57

31

25

56

1

-

1

1917

47

22

69

45

21

66

2

1

3

1918

122

121

243

121

115

136

1

6

7

1919

42

27

69

42

26

68

-

1

1

1920

23

8

31

21

8

2

2

-

2

1921

31

8

39

31

8

39

-

-

-

1922

25

13

38

24

13

37

1

-

1

1923

23

21

44

23

21

44

-

-

-

1924

12

28

40

12

28

40

-

-

-

1925

21

29

50

15

26

41

6

 

3

 

9

1926

32

30

62

30

26

56

2

4

6

1927

67

58

125

63

52

115

4

 

6

10

192

66

41

107

65

38

103

1

3

4

1929

21

33

54

20

27

47

1

6

7

1930

47

53

100

45

50

95

2

3

5

1931

37

10

47

35

8

42

2

2

4

193

26

18

44

25

18

43

1

-

1

1933

30

13

43

30

12

42

-

1

1

1934

61

47

108

60

45

105

1

2

3

 

1935

24

18

42

24

17

41

-

1

1

74

Ano

Doentes

Doentes

 

Doentes

Entrados

Altas - Falecimentos

Internados

Masc

.Fem. total

Masc.

Fem. Total

Masc. Fem. Total

1936

12

12

24

12

12

24

-

-

-

1937

22

29

51

22

29

51

-

-

-

1938

23

36

59

22

34

56

1

2

3

1939

30

19

49

27

18

45

3

1

4

1940

37

39

76

33

35

68

4

4

8

1941

76

47

123

68

43

111

8

4

12

1942

92

60

152

87

56

143

5

4

9

1943

83

98

181

81

88

169

2

10

12

1944

129

139

266

124

130

254

3

9

12

1945

116

189

305

112

180

292

4

9

13

1946

104

151

255

99

146

245

5

5

10

1947

113

171

284

108

165

273

5

6

11

1948

88

157

245

83

151

234

5

6

11

1949

82

126

208

79

122

201

3

4

7

1950

72

106

178

68

97

165

4

9

13

1951

100

116

216

93

108

201

7

8

15

1952

116

146

262

110

136

146

6

10

16

1953

118

157

275

109

145

254

9

12

21

1954

84

133

217

80

128

208

4

5

9

1955

106

141

247

93

129

222

13

12

25

1956

94

111

205

82

102

184

12

9

21

1957

84

125

209

72

113

185

12

12

24

1958

107

149

256

101

137

238

6

12

18

1959

99

141

240

90

127

217

9

14

23

75

1960

121

199

320

112

178

290

9

21

30

Ano

Doentes

Doentes

Doentes

 

Entrados

Altas - Falecimentos

Internados

Masc .Fem. total

Masc. Fem. Total

Masc. Fem.

Total

1961

153

322

475

145

311

456

8

11

19

1962

153

442

143

28

425

10

7

17

24

1963

157

278

435

150

273

423

7

5

12

1964

133

252

385

118

242

360

15

10

25

1965

126

227

353

122

221

343

4

6

10

1966

101

242

343

91

231

322

10

11

21

1967

82

246

328

77

240

317

5

6

11

1968

64

129

193

58

124

182

6

5

11

******

************

76

CAPITULO

V

CONTABIIDADE

( Receitas e Despesas)

77

CONTABILIDADE

Ao verificarmos os documentos de contabilidade existentes notamos que não só há um natural e costumado aumento de números que exprimem a evolução do valor da moeda, mas também que a secção da Misericóedia tem vindo a alargar a sua missãoa um campo mais vasto, significando assim uma maior cobertura no auxílio aos necessitados, aos doentes, aos pobres. Limitadas as suas despesas, nos tempos recuados, aos encargos provenientes com o Capelão, com o Andante, e com os gastos de casa, tem hoje que fazer face às despesas de administração (funcionários, água, luz, limpesas, etc.), à reparação de edifícios e aos serviços hospitares com os doentes.

Se em 1670, fazia a sua despesa com 100 000 reis, aproximadamente, hoje esse quantitativo sobe a mais de 250 000$00. A mesma contabilidade se, por um lado nos mostra um grande desenvolvimento, também nos induz, igualmente, à formulação duma lei geral; e dificudade financeira em que a Misericórdia tem sempre vivido.

Assim, encontramos com frequência saldos negativos, (nos anos mais afastados) e, quando isso não se verifica, quererá apenas dizer que as despasas foram condicionadas e limitadas em função das receitas.

78

Esses saldos negativos eram normalmente suprimidos com o dinheiro pessoal do Provedor. Ainda hoje, ao vermos saldos positivos (e por vezes de valor apreciável), não podemos concluir que a Misericórdia esteja rica e que tenha esgotado todo o seu programa de assistência, mas que, simplesmente, isso tem a sua base numa prudente ou acautelada limitação de despesas. Por exemplo, em Fevereiro de 1929 foi resolvido suspender a entrada de mais doentes em virtude das dificudades financeiras, no entanto lá encontramos em 1928/1929 o saldo positivo de 16 924$45, e em 1929/1930 o saldo também positivo de 11 402$43. De 1923 a Março de 1924, o Hospital esteve fechado.

Por vezes esse saldo apenas mostra que houve uma receita provocada por uma necessidade de angariar fundos; em 1962, por exemplo, o saldo foi apenas de 18$60, e no ano seguinte, 1963, as contas são encerradas com o bonito saldo de 125 207$00.

O saldo positivo denuncia afinal que havia uma situação anterior dificil Surge assim, nos momentos cruciais, o apelo a um Cortejo de Oferendas, ou à venda de lenha do Pinhal das propriedades próprias. E o saldo lá vai continuando a figurar de ano para ano como sentinela de prevenção sempre à espera dum contratempo e não como sinal de prospriedade ou símbolo de paz.

Bastaria adquirir os aprelhos cirúrgicos necessários, alargar as instalações hospitalares, etc. E o aspecto da contabilidade seria bem mais desagradável. Que houve sempre dificulkdades é testado por diversas referêcias ao longo da vida da Misericórdia.

79

Temos algumas notas dessas dificudades em datas mais recentes. Por exemplo, em Novembro de 1918 foi resolvido fazer uma subscrição pública; em 1940 escrevia-se o seguinte: “Presentemente a sua situação vai-se tornando cada vez mais difíci, não só pelo agravamento que sofreram os preços dos medicamentos e comestíveis, como também pela maior assistência que vem fazendo e pelo maior número de doentes que interna”. Em 1944, foi deliberado levar.se a efeito, não só neste ano, mas também nos anos seguintes um Cortejo de Oferendas.

As principais fontes de receita têm sido as mais diversasdesde o início da Misericórdia: - esmolas, aluguer de tumba, foros (em centeio, milho e

Cortejo de Oferendas
Cortejo de Oferendas

80

trigo), venda de pingos de cera, donativos, produtos de espectáculos públicos, quotização, etc Recentemente a receita apresenta-se nítida quanto à sua proveniência: Diversos serviços e visitas a doentes, venda de lenha, etc.; Bens próprios venda das propriedades, juros de Certificados; Subsídios; dádivas particulares e oficiais; Receitas Diversas - multas de caça; consignação de receitas venda de objectos inúteis e desnecessáriosde cozinha; Receita Extraordinárias festas, espectáculos, Cortejos de Oferendas, etc

Lenha - Oferecida no Cortejo de Oferendas
Lenha - Oferecida no Cortejo de Oferendas

A despesa tem tido a sua motivação nas seguintes causas: gastos da casa, esmolas aos pobres com carta de guias; ordenado do Capelão, à “capritaleira”; gastos com religiosas que se agasalhavam e aos pobres andantes; ceras, pregador, balandraus, mortalhas, ofícios e missas; reparação de edifícios, engeitados, cerimónias de lava~pés, procissões, azeite para lâmpadas, limpesa dos painés, contribuições e festas da Irmandade,; mendigos, esmolas aos trabalhadores em consequência das

81

inundações; despesas com os Azambuja,

transporte de doentesem lancha até

lavagem de roupa e medicamentos,: - ordenados; aquisição de um fogão, uma maca, mobiliário e cobertores (1911); despesa com fogo de artifício no acto da inauguração do Novo Hospital (1913); Administração ordenados, Água, luz, etc.; Serviços hospitalares doentes, medicamentos, etc.; Propriedades despesas de conservação; Consignados Fundo de Desemprego, Caixa de Previdência, Sindicato dos Profissionais de Enfermagem , etc

Postas estas considerações apresentamos alguns mapas das receitas que nos elucidam, embora na fria rigidez matemática da linguagem numérica, da evolução gradual mas crescente da vida da Misericórdia.

**********

***

82

DOCUMENTO MAIS ANTIGO, RESPEITANTE A CONTABILIDADE

Transcrição

Contas que se tomarão ao (Irmão) Francisco de Seq(uei)ra somaron o mez de Julho de 1670 Despendeo com o capelão mil e quinhentos re

1,500

Despendeo com o Andante mil e sento

1.100

Despendeo com a espreitadeira tresentos e trinta tres

333

Despendeo com os vizitados e padres capuchos dos mil seis

centos e oitenta

Despendeo com cartas de guia e os tractam entos sujicidade da

terra mil santo e noventa re

Despendeo com gastos de caza mil e quatro sentos e quarenta

2.680

1.190

1.440

Despendeo com Relijiosos que se agasalharão nesta

cazaTrezentos re

300

8.543

83

Soma a despesa (que) o dito) irmão fes oito mil e quinhentos e quarenta e tres rs. que abatidos da Receita que forão des mil rs. paça a Receita pella despeza mil e quatro centos e setenta e sete digo cincoenta e sete que o (d(i)t(o) irmão entregou com bolça e per esta ma neira lhe ouverão as Contas per Boas firmes e valiosas de que mandarão fazer este termo como asinarão e eu João (Barreto) Mialheyro escrivão da caza o escrivi

O

P. Dor

Manuel de

P P, e

Manuel de Bairro

Mendanha

André Pires de Carvalho Sebastião dias Gaspar Gomes An (tonio) Cartaxo

84

CONTABILIDADE DE CAIXA Séc.XVII Séc. XX

1670

 

Receita

(de Julho a Dezembro)

 

Despesa

* 49.058

*

Saldo

67 rs

ANO

RECEITA

 

DESPESA

SALDO

1671

*

92.173

*

92.693

*

Saldo/Neg

520

1672

*

139.460

*

138.600

*

860

1673 *

?

*

165.855

*

860

1674 *

1.525

*

181.280

*

560

1675 *

162.702

*

162.702

* (Agosto )

?

1676 * ( 4 Meses)

*

85.700

*

0

1677 *

?

*

147.640

*

0

1678 *

114.006

*

113.31 *

 

690

*

1679 ?

*

201.290

*

?

1680 *

?

*

188.210 *

 

?

1681 *

?

*

186.620 *

?

1682 *

?

*

187.231 *

?

1683 * (6 meses) ?

*

108.190

*

?

Não há documentos de contabilidade dos anos de 1684 a 1702

1703/1704 *

179.860

*

201.910

*

22.050

1704/1705 *

222.700

*

259.900

*

37.200

1705/1706 *

221.520

*

163.670

*

57.850

1706/1707 *

294.800

*

310.850

* Saldo/N

26.050

1707/1708 *

200.280

*

172.080

*

28.200

85

1708/1709 * 241.710

*

222.580

*

19.130

ANO

RECEITA

DESPESA

 

SALDO

1704/1705 *

222.700

*

259.900

*

37.200

1705/1706 *

221.520

*

163.670

*

57.850

1706/1707 *

294.800

*

310.850

*

Saldo/N

26.050

1707/1708 *

200.280

*

172.080

*

28.200

1708/1709 *

241.710

*

222.580

*

19.130

1709/1710 *

?

*

518.610

*

?

1710/1711 *

564.830

*

525.580

*

39.240

1711/1712 *

?

*

298.972

*

?

1712/1713 *

?

*

325.300

*

?

1713/1714 *

?

*

207.590

*

?

1714/1715 *

280.469

*

251.217

*

49.252

1715/1716 *

201.560

*

332.585

*

131.025

1716/1717 *

?

*

128.764

*

?

1717/1718 *

402.180

*

381.845

*

20.335

1718/1719 *

222.188

*

282.685

*

Saldo/N

60.497

1719/1720 *

283.280

*

226.120

*

57.160

1720/1721 *

?

*

220.185

*

?

1721/1722 *

294.230

*

209.435

*

84.795

1722/1723 *

162.690

*

187.005

*

Saldo/N

24.315

1723/1724 *

235.370

*

242.360

*

Saldo/N

6.990

1724/1725 * 1189.545

*

155.460

*

34.085

1725/1726 *

178.130

*

177.533

*

.597

1726/1727 *

163.865

*