SALVATERRA DE

MAGOS
I VOLUME

Textos publicados no Blogue:
“www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt”

Autor

JOSÉ GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

2

3

SALVARERRA DE MAGOS
Cronicas do Nosso tempo
Tipo de Encadernação: Brochado
Autor: Gameiro, José
Editor: Gameiro, José Rodrigues
Edição: Papel Papel A 4, e Sistema PDF
Morada: B.º Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz,
Lote 64 -1º
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal:
2120-059 Salvaterra de Magos
********

* Tel. 263 505 178 * Telem. 918 905 704

Abril 2015

4

FOI APENAS UM SONHO !...
Tudo começo em setembro de 2007. A ideia de
usar as redes sociais, fervilhava, e tantas
memórias havia de um tempo , que se entrelaça
com a história de Salvaterra de Magos.
Autodidata, como sou, desde há muito guardava
experiências, que ninguém já lê, porque no
tempo que passa é aborrecido folhear um livro.
Um dia veio a oportunidade – o meu sobrinho;
Cláudio
Gameiro,
abriu
o
blogue
“http://www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt” foi o
espaço ideal para escrever textos cujo titulo,
nem sempre se ajusta, ao espirito da “Crónica
Do Nosso Tempo”. Para mim, o mais importante
era que o conto fosse um diálogo com o leitor,
onde a crónica numa linguagem simples e
espontânea, de fácil entendimento.
Nunca pretendi uma literatura de história, que
aliás não pretendo nem sei dominar. Alguns
anos já passaram desde o seu início, e para que
não se perca os textos que foram escritos, no
blogue, vou guardá-los a seguir nas páginas
deste livro.

5

O leitor, decerto aqui vai encontrar em jeito de
conto simples, não de fábulas, não, e porque
tendo num ou noutro assunto “bordejado” o
património, a cultura, toda a a riqueza da
etnografia das gentes que fazem parte do
concelho, de Salvaterra de Magos, ele está mais
rico na sua abordagem.
Os textos aqui inseridos andam na área das
crónicas de um tempo, que é o meu, mas
decerto são formas contar o viver de um povo,
que é o meu, onde me sinto bem, pois andei no
terreno, e registei os seus saberes que conservo
no meu pequeno acervo. Talvez, até sejam
pequenas estórias de uma grande história que
veem de muitos séculos, como é a origem desta
terra. Sempre tive a noção, das minhas
carências - foi apenas um sonho de um autodidacta. por vezes não assentavam da melhor
forma para um trabalho que exigia melhor
preparação académica. Assim peço aos meus
litores, a necessária benevolência.
Ano: 2015
José Gameiro

6

I
Nº 2
03/Setembro/ 2007

O CONVENTO DE JERICÓ
( ou de Nª Sª da Piedade)
Sendo um pequeno texto, este Apontamento é dedicado ao
Convento de Jericó, que tinha como patrono: Nossa Senhora da
Piedade, construído sob a égide dos Frades Arrábidos.
O Convento, abarca uma cultura religiosa que o povo de
Salvaterra de Magos, desde início adaptou, estendendo-se
mesmo para lá da Lezíria ribatejana. Quando do aparecimento
nas bancas do novo diário lisboeta, “O Correio da Manhã” – CM,
acedemos a colaborar com os seus jovens jornalistas, Adriano
Oliveira, e Hermínio Clemente, numa série de reportagens., sobre
esta zona ribeirinha do Tejo.

7

Um foi responsável pela escrita, o outro pela fotografia, ambos
foram inexcedíveis, no seu carinho com este povo de Salvaterra
de Magos., pois tudo queriam saber, do seu passado e do
presente. A primeira reportagem saída no dia 3, do Novembro de
1985, esgotou, mesmo reforçado o número de exemplares para

os leitores desta vila. Sabe-se, que a existência do convento
Jericó, foi de: 1542-1834, e a sua construção foi custeada pelo
Infante D .Luiz, filho do rei D. Manuel I., sendo vendido os seus
pertences em 1843, Mais tarde, em 2001, uma outra reportagem,
sobre o mesmo Convento, foi levada a cabo pelo jornalista, Mário
Gonçalves, do já extinto Jornal do Vale do Tejo - J VT, com
redacção nesta terra, a que também dei a minha colaboração.
********
Nota Extratos: retirados do Livro Nº22 da Colecção
"Recordar, Também é Reconstruir" – do Autor

***************
********

8

Anexo:
O CONVENTO DE JERÍCÓ
Reinava em Portugal D. Manuel I, D. Henrique, o seu quinto filho,
estava em ascensão na vida religiosa em Portugal, entre as suas
iniciativas conta-se a Universidade de Évora e a vinda para o país
da Ordem Religiosa dos Jesuítas. O seu irmão D. Luiz, teve como
professor Pedro Nunes, andou pelos mares em guerra, veio a
casar em segredo, nascendo do matrimónio D. António. o Prior
de Crato, mais tarde rei de Portugal. Estava-se a meio do século
XVI, D. Luiz manifestava-se muito religioso, fundou na província
da Arrábida, um Convento, cujos Frades eram seus protegidos.
Veio a construir um outro Convento mais pequeno, entre
Salvaterra de Magos e Benavente. Rezam algumas crónicas, que
estando em terras baixas, todos os anos era inundado pelas
águas das cheias invernais. Depressa escolheu um sitio mais
alto, e em 1542, e aproveitou as terras mais altas, para ali
construir o novo convento, sob os auspícios dos Frades
Arrábidos, Uma construção austera, com terrenos de semeadura
e árvores, fechado com um muro de construção muito bruta, com
grandes cunhais a suportá-lo. D Luiz dedicou-o dedicou-o a
Nossa Senhora da Piedade, já eleita na Capela do Paço real da
vila de Salvaterra., mesmo estando em terrenos do concelho de
Benavente. Ali possuía os seus parcos aposentos, passando
grandes temporadas em pleno retiro religioso. O topónimo de S.
Baco – O Mártir, vem da Europa, e já conhecido no séc. XIV, certo
é, que estando instalado no caminho entre aqueles dos,
concelhos, segundo estudos de Francisco Betâmio de Almeida (1),
*******
(1)- O Convento de Jericó (1542 – 1834) * edição Câmara
Municipal de Benavente

9

ali naquele caminho também se realizavam as feiras. que na
capela existe uma imagem daquele santo, que os povos de
Benavente e Salvaterra, guardam ao longo dos século, a sua
veneração, pois acreditam na sua protecção.
A conversão e servir “uma pureza dos Frades Arrábidos”,
cativou alguns naturais de Salvaterra de Magos, naquele estudo
histórico de Betâmio de Almeida, encontramos: João Lopes (nome
religioso: Fr. João da Piedade - 1789), António Pedro Xavier Baeta
(1793), José Joaquim Maia (Fr. José de Jesus Maria – 1793), José
de Sousa Machado (Fr. José de Santa Rita – 1795), Fr. José
Soriano (1821); Este, numa pesquiza que estávamos fazendo nos
arquivos de Santarém – encontramos a seguinte certidão, de
óbito:
“Aos 31 dias de Janeiro de 1878, às dez horas da
manhã, numa casa sita na rua do Pinheiro, desta
freguesia de S. Paulo da vila e concelho de Salvaterra
de Magos, faleceu José Soriano de Souza, eclesiástico,
presbytero, de idade de 78 anos, egresso da extinta da
extinta de Santa Maria da Arrábida, natural desta
freguesia, onde era morador, filho legitimo de Joaquim
de Souza, lavrador, e de Dona Luiza Xavier de profissão
doméstica, naturaes desta freguesia: o qual não fez
testamento e foi sepultado no cemitério público desta
vila”

Socorrendo-nos novamente, do trabalho de Betâmio de Almeida,
este concluiu que depois da extinção dos Concentos Arrábidos,
José de Sousa, foi capelão da Misericórdia de Salvaterra. Com a

10

morte deste religioso deve ter desaparecido o último frade que
foi do Convento de Jenicó.
***************

**************
Realmente em 30 de Maio de 1834, é conhecida a lei que
extingue as Ordens Religiosas, em Portugal, Os frades; uns
caminharam pelo mundo, fazendo caridade, outros ficaram-se
pelas igrejas das terras vizinhas. A Junta de Crédito Público,

11

mandou avaliar e recebeu o resultado sindicância em 22 de
Março de 1842.

12

A Raínha D. Maria II, assinou a autoriza a venda daquele imóvel,
como prédio rustico e urbano, que foi religioso. Logo a seguir
após a extinção , houve grande depilação do seu rico património.
Em vários documentos ainda se escreve que estão em Benavente
e Santo Estevão, como é o caso da Custódia que está na sua
Capela.

13

Numa visita que ali fizemos para o jornal, CM – Correio da
Manhã, acabado de aparecer nas bancas, com redacção em
Lisboa, vimos junto a uma das suas paredes, várias pedras
tumulares, que pertenceram ao cemitério do antigo Convento.

**************

14

Anexo:
S..BACO – O MÁRTIR
O culto do mártir terá sido trazido para Portugal, pelos Frades
da Ordem de S. Francisco. S. Baco, nome que os cristãos lhe
atribuíram, sendo um soldado romano convertido à fé católica,
era considerado cristão novo. Por tal conversão, foi executado
pela ordem que estava em vigor de Maximiniano, Governador de
Roma, perseguição que vinha de dois três séculos depois de
Jesus, ter enviado os seus discípulos pelo mundo.
No séc. VII, com a construção do Convento dos frades
arrábidos, a crendice popular acentuou-se nos milagres
operados por S. Baco , passando este a ter os seus devotos. O
crânio deste Santo, sendo uma “relíquia” aos olhos do povo
cristão, representa uma imagem que faz obrar milagres.
Em Salvaterra, o Infante D. Luiz construiu o Convento, não
deixou de ali de fazer uma pequena Capela, onde a imagem
daquele Santo era venerada. Durante séculos, e ainda nos dias
que correm é consagrado o grande desígnio “Quem junto de si
vier com fé, é serviço, mas quem junto de si vier, e leve no
coração blasfémias, S. Baco não perdoa” Os seus seguidores
devotos ainda o dizem !..
.
Desde tempos que se perdem, nas memórias, todas as
quartas-feiras, e no dia de Quinta-feira de Ascensão de cada ano,
os povos de Benavente e Salvaterra, e até de paragens
longínquas, ali vão fazer preces, pedindo cura para os seus males
e dos seus familiares. Tempos houve, que ali pediam protecção
para as suas colheiras e animais. Conta-se que um dia,

15

quiseram levar a imagem de S. Baco, para Benavente, e o carro
de bois que transportava a imagem, foi-se enterrando no
caminho, com a decisão de voltar a coloca-lo no seu pequeno
espaço, tudo voltou à normalidade, e o povo cantou louvores.
Conta-se que anos houve, que os crentes para recordação
mexiam na sua policromia, que foi ficando gasta. Num tempo em
que ajudamos nas reportagens ali efectuadas para os Jornais CM
e JVT, o pequeno espaço da capela, ainda continuava a estar
repleta de fotos de militares – soldados que estiveram nas três
frentes de guerra ultramarina, e réplicas em cera de membros,
como: mãos e pés
Os seus crentes, oferecem azeite, fazendo queima de velas.
para a imagem esteja sempre acima das trevas. Na visita que
fizemos para o Jornal Vela do Tejo, tivemos ocasião de ver uma
voluntária, lavar toda a policromia com vinho branco.
********************

**************

16

17

II
Nº 3
03/Setembro/2007

AS SUAS GEMINAÇÕES
"UMA ALIANÇA DOS NOVOS TEMPOS "
As obrigações a pagar pelo povo, foram um fardo pesado para
quem recebeu regalias através de três Forais concedidos à vila
e concelho de Salvaterra de Magos. A imigração de povos,
especialmente da Flandres, no sul de França, muito veio
enriquecer o seu campo cultural. Séculos depois, outros
imigrantes chegaram da Holanda, foram os Falcoeiros.

18

Nos séculos XIX e XX, os cagaréus/varinos e avieiros, vindos da
Murtosa (Aveiro) e da praia de Vieira de Leiria, como pescadores
que eram, formaram duas comunidades distintas uma da outra.
A permanência das gentes das Beiras, que para a Lezíria
ribatejana vinham trabalhar nos campos, todos os anos, aqui se
fixavam, especialmente as mulheres, fazendo família.
Num entrelaçar os seus usos e costumes,
todos enriqueceram o já vasto património que enraizava nas
origens das gentes salvaterriana. Nos tempos modernos, ter
Gémino é perpetuar a amizade com os povos, como: Vieira de
Leiria (Marinha Grande) e Valkansuaard (Holanda), e disso, se
têm encarregado os seus autarcas do concelho, com os vários
“contratos” de Amizade.

***********
*********

19

III
Nº 4
03/Setembro./2007

A ORIGEM DAS
POPULAÇÕES DO CONCELHO
" suas raízes"
Quando se tem ao dispor, um “punhado” de documentos, fruto
de uma recolha iniciada na década de cinquenta do século que
agora findou, tudo se torna mais fácil
No ano de 1997, integrado na
equipa do “Jornal Vale do Tejo”, foi
um retomar de uma já longa
colaboração na comunicação
social. Nesta fase, dei à letra
alguns assuntos, que guardava sobre a história do povo do
concelho de Salvaterra de Magos. Uns anos antes já tinha usado
alguns deles, nas minhas crónicas, semanais na Rádio
Marinhais. Nos artigos publicados, no JVT,

20

tinham um formato jornalístico, agora neste apontamento de
crónicas, sob um conteúdo literário com fotos de
acompanhamento, tento unir todo o concelho, pensando dar a
conhecer melhor as povoações de Marinhais, Muge, Glória do
Ribatejo e Granho, nas suas raízes demográficas e geográficas,
além das culturais. Foros de Salvaterra, tem nesta Crónica um
apontamento em síntese, visto já lhe ter dedicado a edição de um

livro- “Subsidíos para História de Foros de Salvaterra”, sendo o
seu conteúdo resultado de uma grande investigação no terreno.
As origens e formas de vida, incluindo as suas próprias culinárias
de cada povo fazem-nos diferentes, mesmo vivendo no mesmo
concelho, mas influenciados alguns por viverem próximo da
borda-d’água, outros nas terras de charneca.
**********
Nota: Extraído do Caderno Nº 23 da Colecção "Recordar, Também
é Reconstruir" – Do Autor

21

Aexo:

1 Facebook – José Gameiro
Janeiro/2015

GUARDAR A SUA CULTURA
- Freguesia de Salvaterra de Magos O rio Tejo, na sua margem esquerda, mesmo ali na sua bacia com
terras de aluvião deixou crescer a povoação de Salvaterra de
Magos, minha terra-mãe. É uma vila e concelho no coração da
Lezíria ribatejana, remontando a sua origem ao ano de 1295, com
foral de D. Dinis.
A cultura do seu povo, tem
raízes de séculos na vida
do campo. Um roteiro, pelo
concelho leva-nos a visitar
as várias etnografias do
seu povo, Todas elas uma

22

Uma afinidade, são gentes do Ribatejo. O Campino, guardador de
gado bravo em dias de festa, mostrando o colete encarnado/ou
azul, calção ao joelho, com meia em lã, desenhada e barrete
verde. No peito, mostrava o ferro da casa agrícola, onde
trabalhava, calçava sapato cardado.
O O Camponês/Camponesa, aqueles que trabalhavam terra,
pela força braçal, onde a enxada e a foice lhes calejavam as
mãos, quer nos trabalhos da “cava da terra”, quer na ceifa.
Na cava da terra, o cabo da
enxada, bem curto, com o
ferro de testa larga e fina,
qual faca afiada cortando a
terra de aluvião, ou aquela
arenosa bem seca, fazendo
dobrar os “costados”, o dia inteiro, de nascer ao por do sol, em
movimentos bem marcados, pela voz do “mandador”, que em
passo cadenciado, marcava o terreno e os golpes da enxada. No
calor do verão, o suor correndo a face mostrava a raiva de vida
tão penosa.
O homem,
usava barrete
preto, ainda nos
anos 30/40, do
séc. XX, depois
veio o chapéu e
o boné. A calça e colete de cotim, com bota cardada, onde a
língua dobrada, resguardava os pés da terra. A mulher, de saia

23

comprida até ao tornozelo, de “chita” franzida na cintura, até ao
tornozelo, tinha 4 panos fazendo o
rodando. Quando necessário levantá-la, vinha ao joelho, segura
nas pernas por uma cinta preta, fazendo balão na
cintura e perna.
A blusa de “riscado”, com pregas no peito, fazendo fole, e um
avental e xaile, com lenço e sapato cardado. Ao domingo e em
dias de festa, vestia saia de castor, vermelho e meia branca de
lã. Toda sua roupa de trabalho, tinha influências das gentes
beirãs, especialmente da Beira Litoral, com os ranchos que
vinham fazer trabalho sazonal, já conhecidos no séc. XIX, agora
tudo pertence ao passado desde o dobar do séc. XX, tempo da
mecanização do campo. O Rancho Folclórico da Casa do Povo de
Salvaterra de Magos, é o seu resguardo.

***********
***********

24

2 Faceboock – Janeiro 2015
José Gameiro

- Aldeia do Escaroupim –
amos debruçar-nos um pouco mais sobre a etnografia da comunidade de
pescadores que vive da riqueza do Tejo. Ele, o rio, vem calmo no verão,
mas com

águas revoltosas
no inverno, que provocam
cheias nas suas margens, que acabam por lhe dar riqueza De Espanha,
quer chegar ao mar em Portugal, onde os lodos de águas salobras
(mistura de água doce com água salgada) do mar da palha, onde
alimentação é fértil para as aves, “espreguiçando-se” um pouco mais à
frente no Oceano. No seu percurso depois de passar o estreito rochoso de
Marvão, encontra espaço aberto em Abrantes e Constância para se
alargar nos campos do Ribatejo, onde encontra a Lezíria, no seu lado sul.
Aqui as terras, de aluvião. dão fartura as populações de Vale de Santarém,

25
Chamusca, Golegã ,Salvaterra de Magos e Vila Franca de Xira, O Ribatejo,
como província existe desde a sua criação em 1936,e a diferença são
tamanhas, com as suas terras a caminho da Beira, onde a oliveira, faz
parte do seu tecido económico em contraste com a campina ribatejana.
Esta província tem aqui e ali, pequenas diferenças de costumes. Um lugar
comum é o campino - esse garboso guardador de gado bravo - o toiro. Em
terras de Salvaterra de Magos, na margem do rio, ladeando a Mata do séc.
XIII, encontramos o Escaroupim.

Uma comunidade de pescadores, um dia vieram da Praia de Leiria, até ao
Tejo. Porque não á datas precisas, Francisco Rodrigues Lobo, conta num
seu romance, que um pescador do Lena, morreu afogado, em 1622, no Tejo.

Pela safra do Sável eram vistos por aqui ao longo do rio, desde Alfange
até Sacavém, próximo do rio Trancão, já na primeira década do séc. XX.

26
As famílias, viviam nas pequenas embarcações de pesca. Depressa por
aí começaram a construir pequenos núcleos de barracas de madeira e
caniço. O Escaroupim, foi uma das margens escolhidas.
Longe vai esse tempo, que as aldeias no Vale de Santarém, Caneira,
Alfange, Valada, Reguengo, Casa Branca, Vau, Conchoso, Vala do Carregado
e Vila Franca de Xira. Passou a conservar a cultura etnografica daquela
gente vinda de Vieira, através dos Ranchos Folclóricos. Os pescadores do
Escaroupim em 1985, começaram a mostrar as suas danças já com alguma
influências das gentes da Lezíria, através de um Rancho Folclórico.

Este era uma presença
permanente no Restaurante
Típico Ribatejano, na vila,,
perante visitantes, que em dia
de folga dos Congressos em
Portugal, que aqui passavam
um dia. Ali também, não
deixavam de mostrar as
danças das suas origens, aos domingos e feriados.
***************
*******************

27

3 Faceboock - Janeiro/2015

José Gameiro

- Freguesia de Foros de Salvaterra - A história da freguesia de Foros de Salvaterra é recente. Era
um terreno, que pertenceu à Coutada Real da vila. A Rainha D.
Maria II, em 0000, vendeu a cada real, aquele terrenos, foram
comprados por particulares e iniciou-se o seu aforamento. O
povo que desbravou a terra de
mato e charneca, veio da
terra-mãe, Salvaterra de
Magos, nascia assim os Foros
de Salvaterra. As famílias, ali
instaladas
levaram
e
conservaram os seus usos e
costumes, hábitos que foram
sofrendo as necessárias adaptações aos tempos, até porque as
terras eram secas, as searas de sequeiro adaptavam-se bem De
inicio (em tempos remotos), naquelas paragens apenas existam -

28

as terras dos "Coelhos", "Ameixoeira" e "Magos", mas um século
passado após o aforamento, apareceram espaços urbanos como:
Estanqueiro, Várzea Fresca, mais tarde terrenos que receberam
o nome de "Califórnia", entre outros, lá para os lados da Albufeira
de Magos. O povo predominantemente rural, usava para
transporte da comida – a cesta de verga ( conhecida como
Raposa), porque em tempos recuados, era naqueles utensílios,
que levavam, os animais de pelo, inclusive as raposas capturadas.
No transporte usava o burro,
ou as grandes caminhadas a
pé, com o alforge ao ombro,
ou na anca do animal. Para a
dormida no campo, a manta
“lombeira”, era uma peça
que se entendia no chão, o seu nome vem do guardador de
gado/ou campino, a transportar no lombo do cavalo.
No vestuário do homem, conservou a Jaqueta e calça de cotim e
barrete preto. A mulher saia de chita, com uma roda de 4 pano.
Franzida na cintura. A saia de castor vermelho e meia de lã, era
usada aos domingos e dias de festa. O sapato de sola cardada até
ao ortelho. A blusa, de pano
“riscado” com bolsa
franzida no peito. Um
avental com dois longos
laços atados nas costas.
Lenço na cabeça, com duas
pontas atadas no cimo da
cabeça. No inverno, o xaile cobria o peito e as costas. Mesmo
lentamente, o homem no dobrar do séc. XX, via-se a usar boné ou
chapéu preto. Da carroça e burro, o transporte passou à
bicicleta. A sua etnografia, tem sido guardada pelos

29

agrupamentos folclóricos existentes em Foros de Salvaterra e
Várgea Fresca. Ainda nos anos 50 do século XX, os casamentos,
eram na Igreja Matriz de Salvaterra de Magos, a comitiva
deslocava-se em grandes cortejos de carroças, onde o barulho
dos guizos das bestas se confundia com os toques de acordéon,
contratado para animar a festa.

********

************

*******
Nora: Extraído do Livro “ Subsídios para a História dos Foros de
Salvaterra” – Do Autor

30

4 Faceboock – Janeiro 2015
José Gameiro
- Freguesia de Muge Ao continuarmos a nossa pesquisa sobre a etnografia do
concelho de Salvaterra de Magos, em Muge sentimos um Ribatejo
diferente. Esta povoação é um
limite geográfico do concelho. Os
romanos andaram por ali e
deixaram vestígios, que chegaram
aos nossos dias. Desde o ano 1304
passou a ter Foral. D. Dinis mandou
povoar aquelas terras, q sentimos
um Ribatejo diferente. Esta povoação é um limite geográfico do
concelho. Os romanos andaram por ali e deixaram vestígios, que
chegaram aos nossos dias. Desde o ano 1304 passou a ter Foral.
D. Dinis mandou povoar que sentimos um Ribatejo diferente. Esta
povoação é um limite geográfico do concelho. Os romanos
andaram por ali e deixaram vestígios, que chegaram aos nossos
dias. Desde o ano 1304 passou a ter Foral. D. Dinis mandou povoar

31

aquelas terras, que depressa pertenciam à Abadia de Alcobaça,
mais tarde algumas delas foram trocadas e ficaram pertença da
vizinha povoação de Valada. Na sua origem medieval, o seu nome
vem da lenda da tainha – Mugem, peixe muito abundante nos seus
ribeiros e outros pequenos cursos de água, que tinham destino o
rio Tejo.. A riqueza dos seus
campos, quer aqueles que ladeiam
aquele rio, ou mesmo as ribeiras,
que nos indicam estarmos perto
da charneca, passaram a ter novo
donatário pós-restauração de
1640 – A Casa Cadaval. Depressa
passou a instituição agrícola
poderosa no meio do um Riba-tejo, onde os seus trabalhadores
se confundiam entre várias origens, já que a maioria deles
vinham em ranchos de homens e mulheres lá das Beiras, e alguns
por cá ficavam formando família, ocupando mesmo os terrenos
conhecidos por “Foros de Muge”, e aí nasceram espaços urbanos;
como o Granho e Marinhais. A cultura do povo de Muge ainda no
dobrar do ´sec. XX,
mantinha as roupas
beirãs
dos
seus
antepassados.
Era
comum na mulher o lenço
na cabeça, com saia
levantada através de uma
cinta, especialmente nos
trabalhos dos arrozais. Nos dias de festas populares, mesmo
apoiadas pela Casa Cadaval, da qual dependiam no trabalho e
sustento, dançavam Viras e Corridinhos ribatejanos,
entrelaçados com os cantares da Beira baixa. A sua etnografia,

32

era parca de motivações culturais e com o decorrer dos tempos,
não deixou raízes em qualquer agrupamento folclórico.
A sua maior riqueza no campo patrimonial, está nos Concheiros,
onde as primeiras pesquisas da pré-história, foram encontradas
em meados do séc. XIX.
O seu valor arqueológico regista a ocupação humana que
passa pelo “Homo Taganus”, e encontram-se nas várias estações
arqueológicas, agora património nacional.

**************
**********

33

5 Faceboock – José Gameiro
Janeiro/2015

-

Freguesia

do

Granho

-

Nos Post(s) publicados até aqui, coube agora a vez sobre a
etnografia da freguesia do Granho .Estava a iniciar algumas
buscas, e surpresa a minha,
Rosa Gomes, que há muito
vinha
fazendo
um
levantamento sobre a
origem da sua terra-natal, o
Granho. De imediato não
deixou que de me
presentear com um livro de sua autoria, com cerca de centena e
meia de páginas.- mesmo sendo curiosa destas coisas como eu,
não deixa de trazer à luz memórias históricas das gentes
grenhense. Tal edição, dá-nos a conhecer alguns estudos sobre a

34

origem daquela povoação. Contribuiu para o enriquecimento
deste nosso trabalho de pesquisa, e para conhecimento de todos
que gostam destas coisas. de história dos povos, que um dia
vieram até às terras medievais do Riba-tejo. Os contos brejeiros
do povo simples da sua terra ali estão para que perdurem no
tempo. A monografia, "História Tradição, Gentes" está cheia de
informações de um tempo que enche de saudades qualquer um
que não se resigna a perder as tradições daquela gente que um
dia povoou as terras que um dia foram os Foros de Muge. O
Rancho Folclórico do Granho, guarda e divulga os seus cantares
e danças, além das crendices populares.

***********
***********

35

6 Faceboock – José Gameiro
Janeiro/2015
- Freguesia de Marinhais –
Vamos continuando o roteiro
pelas terras do concelho,
fomos da borda de água, no
Escaroupim até às terras da
charneca.
Aqui chegados,
vamos conhecer um pouco da
povoação de Marinhais. As suas terras, no dobrar do séc. XX,

36

ainda eram trabalhadas pela força braçal das famílias,, sendo de
sequeiro, cada pedaço era conhecida por Fazenda. Toda esta
vasta área, que foi dos “Foros de Muge, conhecidos já em 1875,
vai até à Gloria e Granho, são terras areno – arenosas, com
afinidades com a charneca. As primeiras ainda recebem os ares
da humidade da bacia do Tejo e algumas ribeiras, que os beneficia
para a cultura da vinha. No entanto na sua origem de povoado,
por ali existia os Camarinhais (empetáceos, conhecidas por
Camarinhais). Com o decorrer dos tempos deu origem a
Marinhais, para consumo familiar e dos animais, os poços de
água eram abertos junto às casas de habitação. O Pinhal e
Eucaliptal, depressa também p0assou a parte do rendimento

daquele gente. Marinhais, dá-nos mostra que a sua origem tal
como em todo o Ribatejo, a mão obra camponesa, vinha em
ranchos da região centro e mais para baixo da Beira Litoral. Aqui
são conhecidas, que vieram de Soure, Cantanhede, Figueira da
Foz, Montemor e Pombal. Na sua cultura linguística, ainda se
encontram ligações àqueles locais. A etnografia na mulher, até
meados do séc. XX, mostrava-nos a saia comprida, avental, blusa

37

e lenço atado na cabeça. No homem, vem desde o barrete
preto, colete, calça tapando a bota., passando pelo chapéu até ao
boné. Com o decorrer dos tempos, nas décadas
de 50/60, já como freguesia em 1927, o homem
passou a usar boné. E o transporte de carroça e
burro, foi substituído pela bicicleta. Marinhais,
com o seu crescimento demográfico passou a
Vila desde 1985. As danças e cantares dos seus
antepassados, foram guardadas pelo Rancho
Folclórico “Os Lusitanos”, que se iniciou nos anos 60, tendo
sucessivas mudanças, agora apresenta-se como: Grupo de
Danças “Os Lusitanos”, continuando a divulgar a etnografia da
terra.

****************
******

38

7 - Faceboock – José Gameiro
Janeiro/2015

- Freguesia de Glória do Ribatejo –

De Marinhais, à Glória
do Ribatejo é um salto. A
separar
estas
duas
povoações existe a linha
do caminho de ferro,
inaugurada no tempo do
rei D. Luiz. Glória, dá-nos
mostra que os seus terrenos já são de charneca,
onde a pedra de seixo predomina.
O seu povo até meados do séc. XX, vivia
marcadamente da agricultura. Os mais jovens

39
trabalhavam à jorna, e o campo de Vila Franca de
Xira, absorvia-os em ranchos para trabalhos de
quinzena. O fim de semana, era ocupado nas suas
“ Fazendas/ Foros” (pequenas áreas de terra), onde
a seara de sequeiro predominava, desde que deixou
de pertencer aos Foros de Muge. Uma outra fonte de
rendimento era o sobrado (grandes manchas de
sobreiros), onde o
eucalipto e o pinhal

mostrava
grandes manchas
no terreno.
Na
alimentação
da
família, além do
porco, a cabra e a ovelha estavam a par com os
galináceos, que existiam num pequeno aramado
junto à habitação. A etnografia do povo gloriano tem
a particularidade, de ser diferente dos demais
ribatejanos,
especialmente os da
borda de água. Na
sua
cultura,
a
linguística,
tem
despertado ao longo
dos tempos grande
interesse de investigadores e escritores. Dentro entre
muitos nomes, decerto; Celestino Graça, Alves
Redol, Dr. Peral Ribeiro, Idalina Serrão sobressaem.
A povoação da Glória, já tem alguns séculos,
despertou interesse ao rei D. Pedro I. No ano de
1362, foi edificada a sua igreja, à povoação está
ligada a Lenda de D. Pedro, daquele monarca

40
recebeu privilégios e isenções. Nos dias que correm
mantem viva a suas tradições ancestrais, om
veneração à Nossa Senhora da Glória. No dobrar do
séc. XX, ali houve grandes transformações, com a
instalação nos seus terrenos do emissor da RARET.
A povoação tem uma extensão de cerca 10 mil
hectares . De início era charneca, mas depressa o
povo a trabalhou, e apareceram os pequenos talhões
que mostravam, vinhedos, trigo e centeio. Na forma
de vestir e falar, nota-se ainda nas gerações mais
velhas, o seu particular falar, sem igual em todo o
Ribatejo. Os vestuários – homem, mulher e criança,
especialmente bebé/menina, que mantiveram
durante décadas. Agora são os agrupamentos
folclóricos da terra, que os preservam. Nas danças,
chama-nos a atenção alguns elementos dançarem
descalços.
Aqui terminamos a visita “simbólica” às 6
freguesias, do Concelho de Salvaterra de Magos,
onde tentamos com utilizar textos por nós
compostos, algumas fotos do nosso álbum e outras
que retiramos do Youtube.

*************************

41

IV
Nº 5
03/Setembro/2007

HOMENAGENS E INAUGURAÇÕES
Ao longo dos anos da minha vida, fui assistindo a inaugurações e
homenagens, umas mais do que outras organizadas com pompa e
circunstância, sendo os momentos e os protagonistas, o espelho
das mesmas. O ser humano, por vezes manifesta-se parco em
agradecer, tem dificuldade mesmo no reconhecer o mérito das
obras, de um seu semelhante que, às vezes até é um seu
conterrâneo. Nesta terra, quantos estão ainda à espera do
reconhecimento público, pelas obras, que prestaram à
comunidade onde estão inseridas.

42

Muitos até, “sofrem” a ingratidão que lhes passa ao lado, com
origem nos poderes públicos, mas têm pelo menos o
reconhecimento da família e dos amigos, que souberam respeitálo, sabendo muitas vezes, que dedicaram uma vida a uma causa.
Neste trabalho, certamente não vou abarcar todas as
inaugurações e homenagens que, decorreram num certo período
de tempo, na vila de Salvaterra de Magos. Mesmo as cerimónias,
que foram levados a cabo quando do Congresso Mundial de
Antropologia, nos finais do séc. XIX, realizadas na cidade do Porto
e, cujos membros ao visitarem Salvaterra de Magos, sede do
concelho e, as estações pré-históricas, em Muge, foram alvos de
pomposos festejos, não cabem neste pequeno espaço, pois terão
lugar num Apontamento próprio.

***************
********

43
**********
Nota: Do Caderno Nº 18 da Colecção "Recordar, Também é
Reconstruir!

A CONSTRUÇÃO DE UM HOSPITAL

O terramoto de 1909, deixou a vila de Salvaterra de Magos em
situação de grandes carências, sendo notória no campo da
assistência médica e hospitalar, a antiga Albergaria (1), tinha
desaparecido e a população da vila de Salvaterra de Magos,
lamentava aquela necessidade. Um homem bom da terra - Gaspar
da Costa Ramalho - fez recair sobre si, as despesas da
construção de um novo edifício hospitalar e, no decorrer do
empreendimento, foi secundado por um outro benemérito da
terra – Francisco Lino.
Os esforços levou
à sua inauguração
no ano de 1912, e a
população
do
concelho, passou a
utilizar uma moderna unidade de cuidados médicos hospitalares,
que depois da solenidade da ocasião, foi oferecida à Misericórdia
local. Os festejos, especialmente as sessões de agradecimento,
decorreram sempre sem a presença do homenageado, pessoa

44

que tudo fazia para não estar presente, nos actos onde tivesse
tido a oportunidade de colaborar.
*********
(1) - Albergaria: Primitivamente Também conhecida por Mercearia

A LUZ ELÉCTRICA NA VILA
No ano de 1948, deliberou a vereação camarária, em reunião
pública, apoiar uma proposta do presidente, para que os festejos
da inauguração da luz eléctrica, projectada para o dia 28 de
Novembro, fossem levados a efeito com o maior brilho possível.
Convidadas entidades oficiais que, foram recebidas nos paços do
concelho, por uma guarda de honra de bombeiros e de campinos,
das casas agrícolas da terra, depois foi-lhes servido um Porto
de Honra, no salão nobre dos paços do concelho, extensivo ao
muito povo presente nesta recepção oficial.
Aos indigentes e pobres, foi distribuído um bodo, até ao valor
de quinhentos escudos, suportados pela municipalidade,
conforme constava no programa da festa.
Naquele dia, uma cabina em cimento,
construída pela Hidro Elétrica do Alto
Alentejo (HEAA), instalada na E.N.118,
junto ao matadouro municipal,
forneceu luz elétrica à vila de

45

Salvaterra de Magos, eram onze horas da manhã. A inauguração,
por ser uma necessidade, a população, acorreu dando louvores e
palmas, com a sua banda de música e, fez-se uma largada de
pombos-correio, a completarem o evento festivo.
.

ALEXANDRE VARANDA DA CUNHA
(Barbeiro e Fotografo Amador)

Alexandre Cunha, desde menino foi encaminhado pelos pais
para a profissão de Barbeiro, pois sendo aqueles trabalhadores
rurais, sabiam quanto era penosa a vida no campo. O Alexandre,
“Barbeiro”, como carinhosamente era tratado, anos mais tarde,
quando prestou serviço militar, foi enfermeiro. Naquela
actividade, teve oportunidade de lidar com produtos químicos, e
ali veio a interessar-se pela fotografia.
De regresso a casa, estabelecido na
sua profissão, comprou uma maquina
fotográfica e, para além de praticar um
hoby, passou a ser o fotógrafo da terra.
A população a ele recorria, para as
necessárias fotos de crianças em dia de
aniversário, como também as pequenas destinadas aos
documentos oficiais, especialmente: Bilhetes de Identidade.
Tempos depois tem outra máquina, uma “Kodak” e com ela
obteve fotografias de tudo quanto era sítio, da sua terra natal –
Salvaterra de Magos. Já com o peso dos anos, a Câmara
municipal, não esqueço o seu desempenho cívico, e homenageouo, acompanhado de uma exposição de fotos do seu vasto espólio

46

que era deveras grande. Mais tarde ofereceu grande parte ao
Departamento da Cultura da Câmara Municipal. Com a
Restauração em grande desenvolvimento na terra, nos últimos
anos da segunda metade do séc. XX, e inicio do séc. seguinte,
raro era a sala que não tivesse uma antiga foto dos seus
negativo. ,Alguns originais em vidro, ofereceu-os-me, quando lhe
fiz uma entrevista sobre a origem do Clube Desportivo
Salvaterrense, pois.enquanto jovem, muito se interessou por esta
colectividade, tendo mesmo pintado o seu emblema. Não deixou
de me oferecer uma foto, onde meu pai – José Gameiro Cantante,
empregado camarário, postado com um animal que servia para a
carroça da recolha do lixo, em frente ao grande portão do antigo
Jardim público,

***********
*********

47

V
Nº 6
03/Setembro/2007

AS CHAMINÉS
DAS COZINHAS DO ANTIGO PAÇO REAL
Quando criança brinquei dentro delas !..
O António Lopes, filho de um dos donos da propriedade, e eu,
quantas vezes através de uma escada de madeira, nos
penduramos naquelas fortes barras de ferro.!..
Estávamos em 1949, havia obras no local, o Restaurante
Ribatejano estava em construção e, afinal aquelas grandes casas
onde brincávamos, eram as três chaminés das cozinhas do antigo
palácio real de Salvaterra de Magos. Na minha adolescência, no
edifício camarário, entre muitos documentos que li, um me
despertou grande curiosidade, pois tinha a haver com o palácio
real de Salvaterra de Magos:

48

“dientro en los palácios reales del dicho Lugar de Salvatierra
estando hi presentes el muj nobre e mij alto claro príncipe Sñor
D. Fernando por la gracia de Dios Rej de Portugal e del
Algarbe....”
Com o decorrer do tempo, as calamidades, a incúria dos homens,
foram factores que contribuíram para o desaparecimento de um
vasto património monumental, que a vila de Salvaterra de Magos
possuía e , agora os poucos existentes se podem contar nos
dedos de uma mão. Estas antigas construções, mesmo

encontrando-se no rol dos monumentos de utilidade pública, da
terra, desde 1958, não deixaram de sofreu descuidos na sua
conservação. Disso é, prova, o “dano”, que muito abalou a
existência, daquelas chaminés, visíveis nos trabalhos
preparativos de uma nova urbanização de prédios, uma
autorização no mandato autárquico, de Cristina Ribeiro, e disso
foi dado publico relevo, pelo então Jornal Vale do Tejo

********
Nota:: Extraído do Caderno Nº 16 da Colecção "Recordar, Também
é reconstruir" – Do Autor

49

VI
Nº 7
03/Setembro/2007

OS DIAS QUE SE SEGUIRAM AO
TERRAMOTO DE 1909
Quando criança ocasionalmente ouvia falar do terramoto, pois
muitos anos se tinham passado, os estragos causados na
povoação estavam recuperados, ou tinham desaparecido.
No entanto a curiosidade era muita, pois existia um marco
daquela época, uma escola primária na vila, tinha alguma
informação. Os traumas, esses não, mas a geração, que o viveu
estava em declínio, os que ainda se lembravam, como José
Caleiro, Joaquina Mendes, Francisco Costa e Rosa Mendonça,
pessoas a rondar os 100 anos de vida.

50

Dele me fizeram algum relato, em 1986, para mais viveram a
chegada a esta vila, do rei D. Manuel II, que aqui veio visitar os
seus estragos. A emoção espelhada nas suas palavras, quando
descreviam as cenas de pânico que a população viveu.,
especialmente a urbana, pois a rural, àquela hora ainda
trabalhava nos campo. José Caleiro, homem que esteve na I
guerra mundial (1914-1918), com uma descrição tão
pormenorizada quanto possível, até porque veio do campo, a pé,
chegando uma hora e meia depois, à vila, quando do
acontecimento sismológico, encontrando as muitas habitações
destruídas, como constam descritas em documentação que
consultei, quando me debrucei sobre o assunto.
*******
*******
( *) Guardo, as suas informações em gravação áudio, bem como de
outros que, outra visão sobre o assunto tinham, nas suas memórias.

********
Nota: Do Caderno Nº 17 da Colecção "Recordar, Também é
Reconstruir! – do Autor

51

VII
Nº8
3/Setembro/ 2007

FONTES E FONTANÁRIOS
Já lá vai meio século, quando menino, lembro-me um dia,
minha mãe, mulher jovem na flor da idade, comigo arrastado pelo
braço, em grande correria, entre a multidão, que se dirigia para
o novo Depósito de Água, na estrada que vai para Coruche.
Era dia de festa em Salvaterra de
Magos, algumas ruas estavam
engalanadas, campinos e os bombeiros
fizeram uma parada junto ao edifício dos
paços do concelho, onde o povo assistiu
à sessão de boas vindas, aos convidados.
A cerimónia terminou junto aquele
Depósito, pois estava-se perante uma
das maiores inaugurações do séc. XX, na vila, que era o
abastecimento e distribuição de água ao domicílio. Uns anos
antes, já as ruas estavam a receber canalização de "lusalite", de
grande dimensão, em valas previamente abertas, à força braçal
de muitos homens. A maioria das habitações já estavam prontas
a receber o tão precioso abastecimento, que até ali era retirado

52

em muitas Fontes naturais ou Fontanários, construídos e
abastecidos de furos artesianos, ao longo dos séculos. e, os
furos a jorrarem água para o depósito, horas depois as
habitações da vila estavam abastecidas. Uma nova condição de
vida foi dada à população.
Os festejos, após algumas palavras apropriadas ao
acontecimento, a cerimónia festiva findou com a ligação dos
motores Uns tempos depois, um grande Depósito de água,
construído na década de 30, ali no espaço da frente da antiga
Fonte de S. António, que abastecia através de um furo, um núcleo
de habitações em redor da Igreja Matriz e do edifício municipal,
começou a ser demolido.
*****************

**************

Nota: Extraído do Livro Nº 16 da Colecção "Recordar, Também é
Reconstruir!" – do Autor

53

VIII
Nº 9
03/Setembro/2009

CHESAL " COOPERATIVA DE HAB. SOCIAL
Nos meus tempos de criança, talvez de 4/5 anos, ia a pé, de
madrugada para casa dos meus avós maternos, para os Quartos,
pois meus pais já estavam a caminho dos trabalhos do campo.
Os Quartos, eram pequenas habitações, de telhado com telha
de canudo (telha portuguesa), onde algumas tinham apenas duas
divisões. Algumas eram divididas com “paredes”, feitas com
sacos, que tinham servido para batatas, ou adubo, depois de
abertas e cosidas umas às outras, recebiam várias camadas de

54

cal, ficavam espessas. Aí, viviam casais com filhos de ambos os
sexos. Um dia, apercebi-me que minha avó, foi à mercearia pedir
papel e jornais velhos, pois tinha de calafetar tudo quanto era
sítio, onde não pudesse entrar uma nesga de luz.
Comentava-se entre a
população, foram ordens
da câmara, pois a vila
seria sobrevoada por
aviões militares, um
exercício
nocturno,
desde Tancos até Alverca do Ribatejo. Estávamos no começo da
aviação, integrada no exército português. Os Quartos, aquelas
pequenas casinhas, perduram ainda nos dias que correm.
Um quarto de século
depois, tive o privilégio
como dirigente, no Centro
Paroquial, ajudar o padre
José Diogo, que ao
construir bairros sociais
em Salvaterra de Magos,
deu um forte contributo, para acabar com as muitas barracas,
que existiam na vila.
Após o golpe militar de Abril de 1974, o povo uniu-se por todo o
pais, e o desenvolvimento verificou-se em todos os campos.
Em Salvaterra de Magos, na área da habitação, num grupo

55

encontrou e condições para levar a cabo a iniciativa do
aparecimento da Chesal- Cooperativa Habitação Económica de
Salvaterra de Magos. Com o apoio municipal, uma Comissão PróCooperativa de Habitação, em comunicado informou a população
dos seus desígnios. Algum tempo depois, no Notário, foi feita
escritura pública da Chesal, foram seus autorgantes: Mário
Ferreira Duarte, José António Ferreira da Silva e Manuel Pedro
Pinto Pereira. Com 100 associados inscritos numa primeira fase,
as construções iniciaram-se num vasto terreno da zona da
“Coutadinha” e as primeiras casas foram distribuídas, no dia 11 de
Julho de 1988, no meio de grandes festejos
**************

***********

Nota: Extraído do Caderno Nº 21 da Colecção "Recordar, Também
é reconstruir" – do Autor

56

IX
Nº 10
10/Setembro/2007

A ARTE SACRA DA PARÓQUIA DE
SALVATERRA DE MAGOS
Antes de visitar o museu (em criação), na Igreja Matriz, voltei
a reler o meu espólio documental e fotográfico, que venho
acumulando já há mais de 50 anos. A Igreja, é um templo que data
da fundação da povoação (1296) e, foi arrolado no inventário da
devolução à paróquia de Salvaterra de Magos, através da
Portaria 4.978 de 2 de Agosto de 1927, depois de muito tempo em
poder do estado, por via da confiscação feita, por força do

57

decreto-lei de 20 de Abril de 1911, quando da implantação da
república em Portugal, em Outubro de 1910 Tal devolução foi
concretizada em 22 de Janeiro de 1928, depois de várias
reuniões entre a Junta de Freguesia de S. Paulo de Salvaterra de
Magos e Corporação Fabriqueira Paroquial de S. Paulo, de
Salvaterra de Magos.
A Igreja Matriz
É um edifício religioso, construído por volta de 1296, Tem torre
com relógio e uma superfície coberta de 823 m2. Confronta a
Norte com o Largo da Igreja, a Sul com a rua Nova de S. Paulo.
Durante muitos anos, a sua aba do lado Sul, servia de residência
e sacristia do padre da
freguesia. Em 1945, com
a chegada do Pe José
Rodrigues Diogo, este
providenciou
a
construção de uma nova
residência – casa paroquial. No dobrar do século XX, o Pe. Diogo,
ordenou algumas obras no interior do templo, foi retirado uma
vedação em ferro e pintado o tecto com a imagem de S. Paulo. No
decorrer das obras, foram colocadas à vista na zona do altar,
algumas pedras tumulares. O adro do lado Norte, foi aproveitado,
acrescentando espaços para salas.
Na minha visita à igreja matriz, pode apreciar dentro do
templo, a existência de uma pequena capela, onde está
depositado a imagem do “senhor morto”, bem como próximo do

58

altar, dois pequenos frontões, que albergam; lado direito:
Sagrado Coração de Jesus, lado esquerdo: Imaculado Coração de
Maria/ou Nª Sª de Fátima.
O tecto da nave principal, é
de uma beleza extraordinária,
com uma grande pintura de S.
Paulo, rodeado de anjos.
O seu espaço interior tendo
uma boa sonorização, ali nos
últimos anos têm cantado alguns coros, em espectáculos
especiais, acompanhados do seu órgão de tubos, do séc. XIV,
recentemente recuperado. A sua torre, com azulejos de cor
azul, são recentes (1983), substituíram outros da mesma cor, ali
colocados no séc. XVII, e do seu primeiro relógio, com numeração
árabe, que substituiu em 1956, um outro de numeração romana,
ali instalado, quando do sismo de 1585.
No seu museu (em formação) estão, catalogadas cerca de 100
peças: imagens, quadros, livros e objectos litúrgicos, alguns
pertencentes à antiga capela real, como: Imagem de Nossa
Senhora da Piedade; Quadro do Milagre da Horta D`el- Rei e uma
outra pintura, referenciada como um Milagre em Benavente.
Também se podem apreciar, duas imagens da Pietá (Nª Sª com
o filho nos braços), sendo uma delas considerada única em toda a
Península Ibérica. O boletim municipal “ O Foral “, editado pelo

59

município, em 1995, quando da comemoração dos 500 anos da
vila e concelho de Salvaterra de Magos, publicou um texto da
autoria de Leonel Nunes Garcia(*).
‘’Por ser um documento raro, que trata do património da
freguesia de Salvaterra de Magos, no campo da arte sacra, em
anexo a este texto se transcreve”
Antiga Capela Real
A antiga capela real, quando da sua devolução à casa
paroquial, foi descrita como: Prédio urbano de uma nave e sete
divisões, com uma porção de terreno anexo, murado que,
antigamente na última serventia serviu de cemitério, com cerca
de 840 m2, e tendo à frente do edifício uma faixa de terreno com
um gradeamento de ferro., com 91 m2 * Superfície coberta: 285
m2,
Este edifício religioso confronta
ao Nascente, com edifício ,(que foi
da casa real) e esteve na posse de
descendentes de Roberto Jacob da
Fonseca; ao Sul com a antiga Horta
del-rei, que foi pertença de António
José Ferreira da Silva, e por venda passou para a firma Manuel
Vieira Lopes, Sucrs, Ldª, passando agora aos seus herdeiros. No
lado Poente, confronta com edifício que foi de António Jorge de
Carvalho, depois passou a seu genro António Henriques de Sousa
Antunes, agora é pertença dos descendentes deste. Nos nossos

60

dias, mesmo com o prestígio que ainda goza no âmbito da
arquitectura nacional, aquele templo mostra-nos um espaço
vazio sem vida, sendo usado para os serviços municipais, mesmo
sendo catalogado, como monumento de interesse público. Desde
1958, periodicamente ali se realizam algumas exposições
culturais.
Capela da Misericórdia
Este templo, descrito como prédio urbano, composto de uma
nave e oito divisões, com superfície coberta de 230 m2,
confrontando do Norte com a vala, Sul com João Oliveira e Sousa,
Nascente com rua de Baixo e Poente com rua Direita.
Nesta capela, tem guarida a imagem de Nossa Senhora da
Conceição, à qual a população ainda lhe venera grande devoção,
pois todos os anos promove uma
procissão,
que
percorre
algumas ruas da vila, no dia 8 de
Dezembro.
Neste templo
também existe em local
apropriado a grande imagem do
senhor morto, que em tempos
saia, quando das festas que se realizavam pela Páscoa. Os
quadros, retábulos, que tapavam o seu tecto, desde 1979, ano da
grande cheia e tempestade, que destruiu grande parte do edifício,
deixaram de ser vistos, e ao que se sabe, estão a aguardar
trabalhos de recuperação devido aos estragos sofridos (1).

61

Anexo
SALVATERRA DE MAGOS “ DOIS CRISTOS DE
MARFIM NA IGREJA PAROQUIAL “
“As duas imagens que se apresentam no Museu Paroquial foram
alvo de um artigo escrito por * Leonel Nunes Garcia, na Revista
Municipal, uma edição com Editorial assinado pelo Presidente –
Dr. José Gameiro dos Santos.
(*) Pelo seu valor histórico único de descrição num artigo cheio
de análises comparativas, cativou-mos, e assim não deveríamos
e não podíamos deixar passar esta oportunidade de o inserir
aqui, fazendo a sua total transcrição:
*************
(*) Instado a escrever sobre Salvaterra de Magos
por amável convite do Exmº Presidente da Câmara
Municipal Dr. José Gameiro dos Santos, decidi-me
pelo estudo de dois Cristos, sem dúvida de factura
Indo-Portuguesa, presentes na Igreja Paroquial
desta vila.
As duas imagens que se apresentam correspondem
…. A Fig 1 e Fig 2, e deste modo passarão a ser
designadas por uma questão de facilidade de
exposição. Resta a intenção de que estas notas
sirvam para dar a
**********
– Jornal Vale do Tejo – edição de 4.2.1999

62

conhecer duas peças, não só aos leitores a quem a
arte Indo-Portuguesa interessa em particular,
mas, e sobretudo, alargar o circulo de interessados
de uma arte que ainda há não muito tempo era
pouco analisada e divulgada.
A arte Indo -Potuguesa
Os marfins que aqui nos interessa abordar,
identificam-se pelas suas características estilísticas
com a produção Indo-Portuguesa. Isto é, trata-se
de peças elaboradas por artistas ou artífices
asiáticos, em oficinas da Costa Ocidental Sul da
Índia, mais exactamente na Costa do Malabar,
zonas de Goa e Cochim.
As peças mais antigas desta arte remontam aos
finais do séc. XVI, contudo a sua produção maciça
desenrola-se sobretudo nos séc. XVII e XVIII com
o incremento da missionação.
A aventura portuguesa dos descobrimentos,
proporcionou o entrecruzar de dois mundos, logo a
interpenetração da arte portuguesa no mundo
indiano e vice-versa
Naturalmente repercussões ao nível da
produção de imagens e de toda a arte sacra. Nos
locais que eram conquistados pelos portugueses
criavam-se novas dioceses e Igrejas, motivando o
desejo dos padres em dotarem os seus templos com
todos os objectos que o culto requeria, numa
altura em que as normas tridentinas e o fervor
religioso fomentava o culto das imagens.
Para acudir à necessidade crescente destas
peças, as ordens religiosas vergaram-se ao trabalho

63
dos artífices locais, fornecendo-lhes instruções e
protótipos europeus, uma vez que nos deparamos
muitas vezes com peças que acusam essa filiação,
por exemplo, pela posição dos braços e torso;
cendal curto e com laçada ao lado, pés unidos por
um só cravo e barba bifurcada à espanhola.
Esta prática era veiculada pelos desenhos,
livros, gravuras, imagens, medalhas ou estampas
incluídas em bíblias ou catecismos. Uma das mais
curiosas características desta produção, encontrase na omnipresença quase constante do cunho e
valores artísticos locais.
Ou seja, os artistas não conseguiram desligar-se
dos valores artísticos que lhes eram intrínsecos,
sendo por vezes visível a afinidade, por exemplo de
algumas imagens de Cristo, com as representações
de divindades das religiões locais, com traços de
ascetas e homens santos.
As preocupações pós-tridentinas, condicionaram
os artistas nas suas fantasias levando-os a criar
peças destituídas de grande parte da sua natural
ingenuidade, num trabalho em série, o qual, apesar
das sujeições que o encomendador impunha, não
conseguiram evitar o carácter deste tipo de
produção.
Análise Descritiva
As duas esculturas representam Cristo
crucificado morto, cabeça descaída sobre o seu
lado direito, olhos fechados e chaga aberta no
peito. Estas características diferem de uma outra
variante iconográfica, normalmente apelidada de
“expirante” (1), em que o crucificado surge

64
invariavelmente com “(…) a cabeça erguida (…) e
olhos levantados ao céu (…) “ (2).
Nas esculturas de Salvaterra as cabeças estão
bem proporcionadas abrindo-se em risco ao meio
contornando o crânio com belas madeixas que
pendem sobre os ombros.
Na imagem da Fig 1, o cabelo assenta na fronte
em ondas algo irregulares caindo sobre os ombros
em madeixas diagonais ligeiramente onduladas.
Na imagem da Fig 2, caem em elaborado
zinguezague simétrico, um maneirismo peculiar de
uma oficina ou não conhecida. Os cabelos espessos
estão pintados de castanho-escuro e as barbas
bifurcadas à espanhola.
O rosto docemente sereno na imagem da Fig 1,
adquiriu na Fig 2, uma expressão mais dramática
e patética. As bocas entreabertas permitem
observar o minucioso trabalho dos dentes. Atentese na imagem da Fig 1, em que Cristo está
representado com uma graciosa curvatura,
reveladora do modo como a matéria-prima e a
curvatura longitudinal da defesa, condicionaram a
sua forma e o modo como este foi trabalhado.
Na Fig 2, Cristo surge representado com o corpo
vertical e a cabeça com ligeira flexão para a frente.
Nas duas imagens os corpos acusam tratamento
muito naturalista, percebendo-se a constituição
óssea, a tenção gerada nos músculos, veias e
tendões.
As
caixas
torácicas
foram
convenientemente
marcadas
(sendo
mais

65
pronunciada na imagem Fig 2, por a posição dos
braços assim condicionar), bem como os ventres
salientes em ogiva. Nos braços horizontalizados
da Fig 1, foram esboçadas veias desenhadas
caracteristicamente com linhas paralelas, enquanto
na Fig 2, apresentam-se convencionais e bem
marcadas.
De notar algumas distorções anatómicas na
imagem da Fig2, para além de pescoço e braços
curtos, os dedos das mãos dobradas, ajustam-se
em mãos demasiado pequenas.
Mãos e pés estão pregados nas cruzes com cravos
balaustiformes. Os pés, unidos na mesma massa de
marfim e a perna direita cruzada sobre a esquerda.
Braços e pernas bem esculpidos e nos dedos os
artistas mostraram alguma delicadeza ao
diferenciar as unhas e separar os dedos, sem
contudo esboçar as falanges.
Os cendais revelam um trabalho delicado, de
orlas rendilhadas, sendo os panos sobrepostos e
seguros por duas voltas de cordão torcidos e
enrolados sobre a anca.
Na imagem da Fig 2, a ponta solta e esvoaçante
acusa um repuxo forçado. Na da Fig 1, não existe
ponta, tendo-se perdido, mas os artifícios de
encaixe com cavilhas atestam a sua existência
anterior.
No que concerne à pintura, os dois Cristos
apresentam-se
parcialmente
policromados
confirmando as observações de Bernardo Ferrão e
Távora, o maior tratadista de marfins LusoOrientais quando diz: “ (…) os crucificados teriam
policromia (…) que se limitava a acentuar cabelo e
barba (castanho escuro ou anegrados) e os traços

66
fisionómicos (olhos e boca), bem como os motivos
da decoração dos cendais (frequentemente
dourados). A pintura espectacular das feridas e
pisaduras, sangue correndo e gotejando, etc.,
afigura-se ser acrescento não coevo, da
responsabilidade
dos
hábeis
encarnadores
metropolitanos”.
(3) Esta definição aplica-se obviamente às
peças em análise, sendo que a imagem da Fig 1,
com policromia muito gasta e perdida tem
curiosamente incorporadas algumas lentículas
minúsculas de vidro vermelho. A imagem da Fig 2,
apresenta um exagerado colorido sanguíneo e
empastado a avolumar as feridas e hematomas.
Sulcos de sangue escorrem das feridas,
testemunhando o que as provocou a coroa de
espinhos; os açoites, o peso da cruz sobre os
ombros e as sucessivas quedas a caminho do
calvário.
Em suma, nas duas imagens interveio a mão de
um mestre encarnador metropolitano que lhe
emprestou todo o realismo mórbido, tão ao gosto
da época. Resta descrever as cruzes, acessórios e
peanhas que lhes serviram de suporte.
Fundamentalmente aparecem pregadas em
cruzes latinas de assento (na época seriam raras as
de pendurar), com secção rectangular e
pobremente ornamentadas, tendo sido muito
provavelmente executadas na metrópole.
Na cruz da Fig 1, os rebordos são rebaixados e a
base é escalonada em dois pisos semioctogonais
com molduras de tremidos, encontrando-se muito

67
danificada. A tabela é uma filactera de latão
prateado (?) de fabrico nacional com a clássica
inscrição <<I.N.R.I.>> e desprovida de resplendor.
A imagem da Fig 2, está fixa numa cruz de
madeira castanha-clara de perfil moldurado. A
base é torneada em vaso, inteiramente lisa e sem
ornamentos, assentando por sua vez numa peanha
marmoreada. Os adereços são uma tabela em
filactera gravada em placa de prata, com letras
formadas com atados de folhagem com caracter
indo-português, e um resplendor com raios
lanceolados a envolver a cabeça de Cristo.
Esta
imagem
insere-se
num
oratório
metropolitano, cujo fundo é revestido com uma
tela a óleo nela figurando os chamados
“Companheiros do Calvário” (Nª. Senhora das
Dores e S. João Evangelista), que ladeiam o corpo
do Senhor Crucificado.
Conclusão
A arte Indo-Portuguesa, pela falta de
documentação coeva que a referencie, tem
constituído um grande problema ao pretender
situá-la no tempo. São muito raras as imagens
datadas com base em documentação “directa” e só
há conhecimento de um único exemplar de
crucificado com a data inscrita na peça.
Torna-se difícil determinar com segurança o
trabalho correspondente a cada oficina, dado que o
conhecimento que se dispõe das “escolas-oficinas”
que produziram tais peças, é escasso e os detalhes
que
poderiam
eventualmente
defini-las,

68
confundem o investigador e muitas vezes, acabam
por se revelarem ilusórias. Esta situação obriga a
fazer uma avaliação atenta das características
iconográficas e estilísticas e uma comparação
criteriosa com outras imagens nacionais, europeias
e orientais, devidamente datadas.
Quanto à época destas duas peças, parece dever
colocar-se na 1ª. metade do século XVIII.
Com efeito todo o caracter esguio quinhentista está
ausente, ambas as figuras acusam uma ligeira
movimentação e quebra de rigidez corporal de
seiscentos.
Nota-se o abandono do tratamento esquemático
e o enriquecimento no lavrado dos cendais. Por
último, as representações de Cristo morto são mais
frequentes no séc. XVIII.
************

69

*********************
Fig 1 – Cristo Morto
Indo-Português
Dimensões:
*Altura - 41 cms
*Comprimento:
Braços – 33 cms
* Largura
Peito – 18 cms
*Espessura
do Tronco – 14, 2 cms

***************
Fig 2 – Cristo Morto
Indo-Português
Dimensões:
*Altura – 22 ,5 cms
*Comprimento:
Braços – 18 cms
* Largura
Peito – 12, 5 cms
*Espessura
do Tronco – 10, 5 cms

************************

70

X
Nº 10
15/ Setembro/2007

QUANDO HAVIA LOBOS
EM SALVATERRA !
No ano de 1972, estava um dia bonito de Primavera, ao cair da
tarde, um bater três vezes na porta de minha casa, levou-me a
entreabri-la. Um senhor, de idade avançada ,bem posto de
vestuário, apresentou-se e, aí
entabulámos um pequeno diálogo
acompanhado de um apertar de mãos.
Era o escritor, José Amaro (José
Amaro D`Almeida) natural de Almeirim,
mas quando criança, depois da idade escolar, veio até Salvaterra,
aprender o ofício de Ferreiro, com seu tio Manuel Amaro que,
tinha oficina de ferreiro (junto à capela real). Na visita que me
fez, ofereceu-me o livro “Contos do Ribatejo”, com uma
dedicatória, pedindo-me a sua divulgação, nos jornais,em que eu

71

colaborava na altura. Também me disse, que com ele tinha
aprendido ofício, José Sabino de Assis, que mais tarde veio a
ser um próspero comerciante, estabelecido junto à torre da
Igreja Matriz da vila, com loja de ferragens e drogarias,
estabelecimento que ainda existe na posse da família.
José Amaro, quando aprendiz do tio; Manuel Amaro, foi um
protagonista real, na oficina deste, onde também entrou um lobo,
que em pequeno tinha sido apanhado pelo Ferreiro, em dia de
caça, nos arredores da vila – no que restava do pinhal do
“mourros”. Naquele tempo, aqui ou ali, ainda abundavam alguns
lobos, réstias do que foi Coutada Real. O animal, estava a ser
criado como um cão, pelo mestre Manuel Amaro.

**********
Nota: Quanto a este acontecimento, José Amaro, descreveuo muitos anos depois, em textos, publicados no jornal “Vida
Ribatejana”: Nºs 2738,2739 e 2740 – Dezembro de 1971 *
Em 1972, foi editado em livro, pela Editorial Organizações
Lisboa * Uns anos mais tarde foi publicado, no JVT Nºs 157 de
17.12.1998 – Nº 158 de 7.1.1999 – Nº 159 de 21.1.1999 - Nº 160 de
4.2.1999 e Nº 161 de 18.2.1999 (incompleto) * incluído no
Caderno Nº 15 da Colecção – Recordar, Também é Reconstruir, de
José Gameiro

72

XI
Nº 11
20/ Setembro /2007

JOGOS, BENZEDURAS E PROVÉBIOS
POPULARES
UMA CULTURA QUE SE PERDEU?

Os Jogos
A geração que, viveu a sua infância no após a segunda guerra
mundial, aquela pertenço, ainda conheceu muitas formas de
brincadeiras e jogos, como: o Pião, o Arco, o Berlinde/ ou Botão,
a Cabra cega, etc.
Eram divertimentos populares, pelas
crianças, especialmente os rapazes da vila de Salvaterra de
Magos. A prática dos jogos era na rua, era aí o local de encontro
do rapazio. Os oriundos do povo rural, esses tendo contacto com
o campo, outros jogos aprendiam, como o jogo do Pau, e o da
burricada. O jogo do Pote, tinha um tempo próprio, efetuava-se
nos dias de Entrudo (Carnaval), sendo praticando pelos adultos.

73

O Jogo do Boltão/ ou Berlinde - Os botões, tinham de ser do
tamanho daqueles que se usavam nas calças. No caso dos
Berlindes, utilizava-se as esferas vidro, usadas nas garrafas das
gasosas. Uma pequena cova no chão (que era de terra), cada
jogador com o máximo de seis botões. O inicio do jogo, tinha de
ser à distância de duas passadas. Cada jogador jogava o seu
botão/berlinde, em direcção à cova. O jogo continuava, sendo o
botão/berlinde, jogado com o dedo médio, largado do polegar
com força, batendo no botão/berlinde. Aquele jogador que
coloca-se o seu botão/berlinde, na cova, em menos jogadas,
ganhava a todos os competidores os botões/berlindes, que se
tinham apresentado ao jogo.
O Jogo da Malha, e do Chinquilho, foi um entretém dos adultos,
que ainda é praticado no concelho, especialmente na Glória do
Ribatejo e Foros de Salvaterra.
As Benzeduras, e Provérbios Populares,
Naquele tempo a maioria do povo ainda era analfabeta, mesmo
com a escolaridade obrigatória para as crianças a dar os
primeiros passos. Na última década, antes do dobrar o século
XX. os Responsos e Benzeduras, como os Provérbios, faziam
parte do uso normal na vida dos adultos, superstições vindas de
gerações. Colaborava eu, no Jornal Aurora do Ribatejo, um dia de
1968, fui junto de pessoas idosas - eram as últimas gerações que
os diziam, algumas mulheres por necessidade, algumas dali
tiravam alguns dinheiros para aumentar os seus magros bolsos.

74

Outras, diziam-me não era bruxaria, mas guardam-nas nas
suas velhas memórias. Eram ladainhas, que descansavam os
espíritos e muitas vezes punham a descoberto situações, do arco
da velha. Nessa procura, encontrei Maria Inês e Maria Mendes,
que me contaram: “Andando alguma jovem em desgoverno de
sentidos e comportamentos, trazia a família, especialmente a
mãe em sobressaltos, que procurava uma idosa mulher já com
muita sabedoria destas coisas, e depressa com algumas rezas e
benzeduras – era descoberto a razão de tais percalços, na vida
das moçoilas” – Alguns rapazes, também ali tinham apoio, mesmo
quando torciam um pé”
BENZEDURAS

A Mulher, que fazia as benzeduras, colocava a moça entre as suas
pernas, depois de fazer umas cruzes com a mão dizia em voz alta:
- Se ela, embirra, e faz estragos – Credo, Credo; decerto já tem
pelo na venta. Descubra-se quem a tenta!
- Se os estragos são em dia de vendaval –Ai, Ai: A moça, já tem
coisa grande debaixo do avental !
- Se a barriga da moça lhe faz passo manso - Que coisa, Que
coisa para usar lenço! Não é preciso esperar, vai haver criança
no berço !

75

PROVERBIOS
TEMPO, EM RELAÇÃO Á VINHA

- No São Tiago, pinta o Bago * Vai à vinha em São Lourenço, e

enche o lenço * No São Miguel, o vinho está no túnel * No São
Martinho, vai à adega e prova o vinho !
TEMPO DO ALHO
- Se o queres no bacalhau, não tardes em semeá-lo, No Natal já
deve ter bico de pardal ! *Algum tempo da Semeadura do Alho:-;
É tempo de matar caracol, curar couve, alface e alho *
Crescimento: - Não contes os dias da sua vida. Apanha-o, tem
tempo igual a uma barrigada * Tempo de vender: - Grita bem alto:
Quem quer Alho, Quem quer,! é bom na sopa, feridas da mão, e
aproveita-o em tudo, até para o coração.
MUDANÇA DO TEMPO
INVERNO PARA A PRIMAVERA !
- Desgrudar, a noite com o dia, tem sido enfadonho – é inverno *
Hora à vante já tem luz mas o calendário, da primavera é a 22 de
Março * Mas Janeiro fora, já dá uma hora, e quem bem contar, no
final, hora e meia há-de achar * Na mudança; Troveja, chove e
enche o caneiro, decerto vai juntar o pão com a vinha, e dar força
ao sol, enchendo o celeiro.
**********
Nota: Extraído do Caderno Nº 24 da Colecção "Recordar,
Também é Reconstruir! – do Autor

76

XII

Nº 12
02/ DE OUTUBRO / 2007

RECORDAÇÕES NA PRAIA DOS TESOS
(Agora Praia Doce)
As cheias de Inverno, todos os anos faziam mudar o local das
areias junto àquela propriedade do “Minhoto”, fazendo aparecer
uma bonita praia de extenso arial. Daí em diante, foi aquele arial
usado pelo povo de Salvaterra e, passou a ser conhecido pela
Praia dos Tesos – pois os mais abastados da vila, iam de abalada

77

todos os anos até à Nazaré, ou Figueira da Foz, ou mesmo para as
Termas.

UIM DIA PASSADO NA PRAIA DOS TESOS
Rapaz que eu, era na altura, num daqueles dias de Domingo,
dei comigo no sossego da frescura das sombras e, da água que
corria de mansinho a registar a minha nova experiência – estava
na praia.

Alguns para além dos “farnéis”, traziam apetrechos da pesca
(cana, bornal e saca-peixe), afim de se dedicarem ao seu
desporto, pois no local a fataça abundava em quantidade. Muito
perto, a escassos metros, algum gado movimentava-se para
junto de um pequeno regato, que se aninhava nas areias, afim de
se sedentarem de uma noite passada ao relento. Uns atrás dos
outros, como em fila indiana, começaram a chegar mais
banhistas com seus amigos e familiares.e, num ápice, toda a zona
conhecida pela “Praia dos Tesos”, estava cheia de vozes

78

humanas, que punham em desassossego a pardalada que, mal
tinha acordado.
Nas primeiras horas alguns adultos aproveitavam para fazer
uma colheita de pequenos paus e canas, que o rio nas suas
marés depositava mesmo ali à mão, a fim de começarem a fazer
lume para as suas refeições que seria de frango assado, ou de
pequenas fatias de carne entremeada de porco assado na
brasa(1). Agumas crianças pelas mãos dos seus vigilantes, iam
para as areis brilhantes do rio, onde a maré já começava a
movimentar-se, a fim de aprenderem a prática da natação, no
entanto os mais tímidos choravam em altos gritos, não só pela
água fria, como também pelos grandes “tufões” que a rapaziada
maior fazia com as suas brincadeiras.
Quase todos os
presentes, que no local se
encontravam, escolhiam a
hora do almoço entre a
uma e as duas da tarde.
Assim ao som da música
de uma pequena telefonia
e das anedotas, entre umas goladas do bom vinho dos campos da
terra, a camaradagem era excelente e já ninguém se lembrava da
semana que findou. Pela tarde dentro. uns dormem a sesta em
cima de um cobertor, outros brincam no areal da praia com jogos
de bola; outros ainda vão continuar na pesca, enquanto algumas
moças estão estendidas nas toalhas, afim de bronzearem a pele

79

num corpo a despontar para a vida. Quando o dia começou a
chegar ao fim, o habiente até aí calmo debaixo, das aprazíveis
árvores, entrou num reboliço total - os motores das motorizadas
e dos carros começaram a movimentarem-se para o regresso a
casa.
Muitos nem têm tempo de apreciar o grande bando de milharós,
que mostravam o seu bonito colorido das penas e a melodia do
seu cantar que, agora ao cair da tarde, vão entrando e saindo
dos ninhos feitos numa barreira do “Mouchão da Quinta da
Saudade”. Em pouco tempo, o local ficou deserto, na espera que
no próximo Domingo, as areias da "Praia dos Tesos", voltam a ser
local de encontro.

*************
***************

******
* Texto publicado em 1976 – Jornal “Aurora do Ribatejo” e
no Jornal Vale do Tejo – 2000 (1) - Petisco, que mais tarde
ganhou fama, em dias festivos, com o nome "Sardinhas de
Salvaterra"

80

Anexo

UM AVIÃO NA PRAIA DOS TESOS
Estávamos em 1956, naquele dia, depois das aulas disputavase um jogo com bola (de borracha) entre o rapazio da vala e os
das areias, Muitos rapazes jogavam descalços, pois o calçado
eram coisa preciosa. Naquela tarde de verão, quando o jogo
estava a decorrer – eram prá ai umas 4 horas da tarde, uma
avioneta de duas asas, começou a voltear sobre os jovens
jogadores, acabando por fim por se afastar lá para os lados do
Tejo.
Um pedaço de tempo
depois, apareceram em
cima da ponte da vala
real, dois homens vestidos
com fato de macaco, um
capacete de cabedal fino na cabeça, mas desapertado no queixo,
uns óculos vinham abertos em cima da cabeça, por cima do
capacete. Era gente de um outro mundo !.. Deixámos o jogo e,
fomos ao seu encontro, queriam um telefone.
Logo foram rodeados, e encaminhados à taberna do Camilo
Martinez (galego, fugido da guerra civil de Espanha), mesmo ali
junto à Capela da Misericórdia, lá trataram dos seus contactos.

81

De regresso, um cortejo de rapazes acompanhavam aqueles
dois pilotos ao pequeno avião. Um deles após a descida da
estrada que dá acesso ao Escaroupim, ali junto às pequenas
boiças (hortas), começou a encontrar no chão junto a pequenas
ervas altas, ninhos de calandra. Com voz meiga, dizia ao magote
que os seguiam; cuidado que com os ninhos, não lhes mexam!
Enquanto esperávamos, no areal bonito de escorreito feitio,
junto às aguas do rio, os aviadores lá iam perguntando em que
classe andávamos na escola e, porque é que alguns andavam
descalços.
Um pouco depois, juntaram-se a nós, uma fila indiana de
homens, que não mais parava de crescer; uns vinham a pé,
outros de bicicleta. Umas boas duas horas depois, um jeep
apareceu no cima da estrada (tapadão), Os dois pilotos lá
começaram a acenar as mãos. O carro, parou junto às árvores,
pois o avião tinha "pousado" no areal da praia dos tesos. Os
dois mecânicos, vindos de Alverca, retiram uma grande caixa de
madeira e, após informação dos aviadores onde era a avaria, lá
começaram a reparar o motor da pequena aeronave.
A tarde já ia alto, o ar já corria fresco ali junto ao salgueiral
com a água do rio, enchendo cada vez mais aquele espaço.
Dentro da fila de bicicletas vejo meu pai, que me procurava entre
a multidão e, me chamou dizendo: "Ho Zé, Olha lá rapaz por causa
do avião esqueceste-te de ir buscar o petróleo à loja, a tua mãe,
quer fazer a ceia, pois chegamos agora do trabalho"

82

Nem olhou para a multidão, tão zangado estava, amarrou-me à
cintura, uma corda que tinha na bicicleta e, lá veio pedalando
entre as pessoas que ainda iam ver o avião, vindo eu a correr
atrás da bicicleta até chegar ao Botaréu da Capela, onde
morávamos. Grande castigo foi aquele, para grandes males
grandes remédios. O recado foi feito, na loja do António
Henriques, junto à torre da Igreja, fui num pé e vim noutro.
Minha pediu, não ralhes e não batas, a vergonha já foi grande.
Nunca mais em casa se falou no assunto - grande tinha sido o
castigo !,,,

***********

83

XIII
Nº 13
05/ DEZEMBRO /2007

OS CEMITERIOS DE SALVATERRA !
Um dia, em 1999, a população da freguesia de Salvaterra de
Magos - terra onde nasci, foi alertada com notícias na
comunicação social que, o cemitério da freguesia iria ser
ampliado, pois argumentava-se, que o seu espaço estava
esgotado.
Os executivos da Junta de freguesia e da câmara municipal,
estavam determinados nesse objectivo e, para isso já tinham
tomado as decisões políticas adequadas. Ás vozes da
discordância, juntei a minha, pois o descontentamento do
processo estava latente, até pela forma como foi desenvolvido,
nos órgãos eleitos pelo povo. Um novo espaço para cemitério

84

impunha-se, na freguesia, aliás, o assunto já tinha sido discutido
entre aqueles gestores da coisa pública, em mandatos
anteriores.
Tendo em meu poder, alguns apontamentos que vinha
recolhendo sobre os locais de repouso dos mortos desta terra,
não deixei de os juntar, ao processo de uma crítica que se queria
construtiva, até porque tais espaços fazem parte do passado

histórico da freguesia. Um “braço de erro”, foi instalado
especialmente entre aqueles que tinham as suas habitações
envolventes, ao terreno requisitado e os eleitos municipais.
Os autarcas, infelizmente como tantas vezes acontece, em
tamanha decisão politica não contemplaram as opiniões dos que
se manifestaram, pois tais obras, serviram apenas em época
eleitoral, disseram os mais esclarecidos!..
Assim foi, uns meses depois o alargamento saquele espaçoanto da freguesia, estava consumado. A obra tal como foi
apresentada, ficou por concluir. pois alguns serviços de apoio
não foram instalados, como ossários e formo crematório.
****************

85

XIV
Nº 14

UMA GALINHA
PARA DOIS, QUE ERAM TRÊS, E
AINDA SOBROU GALINHA!

O século XX, estava ainda não a meio, mas ainda se falava do
assunto, quando vinha à baila qualquer referência à fome que
grassava em muitas casas da vila de Salvaterra de Magos. Por
volta de 1935, Carlos Torroaes, filho do empresário de
transportes públicos de passageiros, da vila, era muito conhecido
pela forma pitoresca de contar as suas diabretes Esta é uma
delas: Um dia teve necessidade de se deslocar a Lisboa, para a

86

necessária mudança do alvará que a familia possuía, pois tinha
ao serviço duas Diligências; uma para Vila Franca e uma outra
até à estação dos caminhos de ferro, em Muge. A que levava e
recebia passageiros de e para V F Xira, era servida pelo pontão
do Cabo, que atravessa o rio Tejo, com a estação dos Caminhos
de Ferro mesmo ali defronte.

Estávamos na época das viaturas mecanizadas e, um pequeno
carro de 12 lugares, foi adquirido e passou a transportar os
passageiros com ida de manhã e regresso à tarde.
Em Lisboa, na Repartição do Estado já depois dos problemas
resolvidos, convidou o funcionário que o atendeu (pela fala dava
mostras de ser nortenho) se aceitava um almoço em Salvaterra,
em pelo Ribatejo. Este de imediato aceitou, mas pediu se podia
levar mais um colega, que mesmo ali foi apresentado.
No sábado, véspera de receber os convidados organizou com
a esposa, o repasto; seria uma galinha, daquelas que existiam na

87

capoeira dos pais. A sobremesa, uns doces feitos por sua mãe.
A fruta, melão daqueles que, um amigo de Muge, lhe oferecera
uns dias antes, por lhe ter ajudado a preencher um requerimento
na câmara municipal. O vinho doce para as entradas, e tinto para
acompanhar a refeição pediu-o ao tio Virgolino José Torroaes
No domingo aprazado, a manhã ainda estava no luz-fusco, já se
encontrava no Pontão do cabo, Carlos Torroais, na Charrete da
casa, tirantada a um animal, O Batelão atracou, o convidado
conhecido, apressaramse nos cumprimentos
habituais, com a viagem
no comboio, Lisboa até
Vila Franca, tinha
corrido bem.
Pedindo desculpa, afinal seriam três os convidados, e apressouse na apresentação de mais um colega, A viagem até Salvaterra
foi iniciada, o cavalo em marcha troteada, percorria a recta do
cabo, pela estrada empedrada. O campo apresentava-se nos
dois lados, separado por uma vedação de arame e, por duas
pequenas valas que corriam ao longo do trajecto, transportando
um pequeno fio de água, naquela época do ano.
Ali próximo da Ermida de Alcamé, onde alguns ranchos de
homens e mulheres ceifavam o que restava das cearas de
sequeiro, especialmente trigo, foram cumprimentados com os
chapéus no ar.

88

Algumas manadas de gado bravo, vigiadas pelos campinos,
chegavam-se até às valas, afim de se sedentarem, pela noite
passada ao relento. A viagem correu, sem grandes sobressaltos,
pelos campos da Lezíria, era uma novidade para aqueles
viajantes. Chegados ao caminho que os levaria da Fonte das
Somas, pelo Convento até Salvaterra, Carlos Torroais, da
algibeira do colete retirou o relógio, e vendo que eram apenas 8
horas da manhã, mudou de caminho e seguiu viagem para os
lados da Aldeia do Peixe, rumo aos Foros de Salvaterra. Algum
tempo depois, chegados à taberna do João da Horta, já seu velho
conhecido, apresentou-lhes tão ilustres viajantes.
Depressa, o João da Horta, passou a convidante e serviu sem
cerimónias, um petisco, à base de carne de porco assada,
acompanhada com um bom
vinho das terras arenosas
dos Foros. Perto de uma
hora, demorou aquele
petisco e,
retomada a
viagem, a comitiva acenava
com os chapéus, em resposta a alguns pequenos grupos de
familias que, nas suas terras faziam tarefas de pequena
agricultura, aproveitando o dia de domingo.
Uma nova paragem foi no Estanqueiro, na taberna local,
foram convidados para apreciarem um petisco. Uns chouriços
caseiros, cortados às rodelas, acompanhados com pão aquecido

89

no forno e um vinho branco, retirado de um garrafão que estava
no fundo do poço a refrescar.
Os viajantes, estavam deslumbrados com tanta recepção, a
viagem continuou a caminho das Buinheiras, dos Freires, eram
quase 11 horas, o caminho de areia ladeado por valados que o
estreitavam, faziam com que várias famílias num lado e de outro,
estivessem quase juntas nos afazeres das suas terras.
Os acenos continuavam, o entusiasmo era de grande alegria
naquele grupo de visitantes, ali próximo das terras da Alagoa, o
chefe de uma família conheceu o Carlos Torroais, pois era a ele
que recorria quando precisava de alguma coisa nas repartições
públicas na vila. A paragem foi inevitável, apresentados os
viajantes, logo todos foram convidados para petiscarem na casa
mesmo ali próximo, com uma latada de vinha que sombreava a
casa. Aceite o convite, a família composta pela mulher e mais
duas filhas ainda moças, e um rapaz, acabado de chegar da vida
militar havia três semanas, desdobravam-se em simpatias,
perante tão ilustres visitantes, em casa.
Foi aproveitado para desengatar o animal, e dar-lhe de comer
e de beber um balde de água fresca, que foi retirada do poço.
Uma mesa foi preparada, debaixo da sombra de uma grande
amoreira. As moças, serviram sopa de carne de porco, estava
quente dentro do tripé de ferro, na chaminé em lume brando,
alguma carne que estava na salgadeira havia três dias, pois
tinha-se morto o porco da engorda da primavera foi assada. Um

90

jarro com bom vinho tinto, retirado da adega, acompanhou o
repasto. Depois foi servido algumas fatias de melão.
Após a refeição e, já muito alegres os convidados, davam
mostras de algumas aptidões em cantorias. Tal situação, deu
azo a que o jovem, sendo bom tocador de gaita de beiços, logo
tocou uns viras, músicas da região ribatejana. Eram 3 horas da
tarde, foi retomada a viagem, através das Buinheiras, a caminho
do Paul de Magos. Nova paragem, ocorreu na taberna do Paúl,
um lanche foi oferecido pelo dono da tasca, umas postas de Atum
(embebido em azeite numa barrica), foram postas no balcão, um
pão grande (cozido na véspera) e, um jarro de barro com vinho
branco, foi mais tarde acompanhado de uma prova de melões que
se encontravam numa parga, (em pirâmide), debaixo de uma
árvore, esperando comprador.
Um dos convidados, olhava constantemente o relógio
pendurado numa corrente, que tinha na algibeira do colete, no
entanto não deixava de participar nas anedotas que o grupo ia
contando, até porque uns clientes também entraram na roda dos
dichotes e anedotas.
Já a caminho de Salvaterra, cantarolando de contentes pelo dia
bem passado no Ribatejo, chegaram à vila, na rua do Pinheiro,
junto à casa da família do Torroais, onde um pequeno grupo de
vizinhos, fazia companhia na espera, e das preocupações, pois
eram já cerca das 6 horas da tarde e, a chegada estava prevista
para as 9 horas da manhã.

91

Todos os convidados, dando mostras de algum nervosismo,
muito agradeceram a oferta, e o dia inesquecível, mas insistiram
na viagem de regresso a Lisboa.
O cavalo lá voltou a trotear, O comboio, não esperava.!...

*************
***********

92

XV
Nº 15
08 /JULHO D/ 2008

AS BOTAS DO MANEL GATO
Nos dias que passam persistem apenas dois dos cerca de 40
sapateiros que existiam em Salvaterra de Magos, no dobrar do
século passado. As oficinas destes artesãos eram pequenos
espaços, à entrada das suas habitações, sendo muito poucos os
que tinham outro sitio para laborarem. Alguns na rua, tinham
junto da porta, um corvo, ou gralha que, amestrados diziam
alguns palavrões, daquelas “azedas” que a clientela, ou quem
passava gostava de ouvir dizer – era uma graça!...
Entre eles, havia três figuras que andavam na boca do povo,
pela sua originalidade, os Mestres; Vital Nuno Lapa, Manuel Gomes
Serra, conhecido por Manel Gato e o seu primo Roberto Serra.

93

Manuel Serra – O Manel Gato

O Mestre - Manuel Serra, conhecido por Manel Gato, tinha a
sua oficina em casa, lá para os lados da Fonte do Arneiro. Era
um homem que rondava os 50 anos, mas muito brincalhão, uma
das suas diabrites, foi o caso das botas de um cliente. Naquele
tempo, a população da vila, era maioritariamente rural, e muitos
vinham a casa, só de quinze em quinze dias. De Sábado ao cair
da tarde até Domingo à noite, altura em que regressavam ao
campo. Por isso, o dia de Segunda-feira, era dia de sapateiros
(dia de folga).
O calçado, especialmente a bota de homem, era de um cabedal
ensebado e com cardas na sola, comprado em dia de feira anual,
no mercado de Marinhais, ou nas lojas de fancaria da vila. Um
certo dia, um cliente levou um par de botas para o mestre, pôr
meias solas e cardá-las. O tempo combinado para o arranjo, há
muito estava ultrapassado, os emissários enviados pelo cliente,
passaram pela esposa, filhos e amigos.
A resposta era sempre a mesma. Estão a andar!
Certo dia, o dono das botas, encontrou o sapateiro, numa
taberna existente junto da Igreja Matriz, com elas calçadas e,
este com uma calma de gelar, respondeu ao reparo:

94

rapaz, eu sempre disse a todos, que as botas estavam a andar,
não viram, como tu viste, não tenho culpa, são ceguetas! Vai
logo à oficina que estão prontinhas!
Assim, ficaram famosas as botas do Manel Gato!..

O Mestre Vital
O mestre-Vital, também deixou fama. Tinha a sua oficina na rua
Direita, com a Trav. da Amoreira, era um homem alto, magro,
mas já vergado pelo peso dos anos. Era solteiro, os seus últimos
tempos de vida, passou-os junto dos seus primos, a família L
Rosa, que tinham na vila, uma pequena empresa na fabrição de
licores. Vivia a causa republicana em Portugal, com grande
convicção, pois desde muito novo, que se fez
seu partidário, assistindo às aventuras e
desventuras do seu percurso no país. O
seu entusiasmo era tal, que por volta de
1955, ainda dava azo a que o rapazio de idade
escolar, como eu, o incomodava à porta da
oficina.
Oh, mestre Vital.!. Quando chegam as tropas do Gomes da
Costa.. Tirando os olhos do calçado que tinha entre-mãos, em
cima dos joelhos, a resposta vinha serena: Olhem!, Estão a
chegar às Cavalariças. Despachem-se depressa, não cheguem
lá tarde !!....

95

Um banco corrido de madeira, encostado à parede, dava para
seis pessoas. e um pequeno armário já carcomido pelo tempo,
sem os seus oito vidros nas duas portas da frente, pois era
esquartejada em cada uma, eram o seu mobiliário.
Nas
prateleiras do móvel, guardava uma infinidade de pequenos
instrumentos de trabalho como: os Bucetes para brunir a sola, os
Costas Viras, as Cevelas de meia cana, a Régua de afiar as facas,
a Cera para passar os fios de coser, a caixa das agulhas, as
grosas e limas, pequenos martelos e alicates.
O móvel, apresentava-se esconso num dos lados, pois estava
gasto num dos seus quatro pés. Para que não sofre-se qualquer
acidente da clientela, no cimo deste, guardava o Candeeiro de
vidro, a petróleo, que servia para aquecer os bucetes.
O Mestre Vital, era de uma disciplina desusada, pois para tirar
ou colocar qualquer peça no armário, tinha de abrir sempre a
fechadura da porta, facto notado que deu brado durante anos.
Por ali paravam durante o dia, um grupo de velhos amigos, que
usavam de malandrice, sabendo da sua grande paciência Numa
combinação prévia um ou outro dava um pequeno encontrão no
móvel e lá vinha o candeeiro ao chão.
O Mestre, recomendava " Tenham mais cuidado " e, de
imediato tirava algumas moedas do bolso do colete,
encarregando um dos presentes em lhe fazer o favor de comprar
um outro candeeiro, na loja do Gaspar Alexandre (1), junto à
câmara municipal. Os presentes, lamentavam o “acidente”, logo
se solidarizavam, pagando o prejuízo, ficando o mestre-Vital

96

muito agradecido e, enaltecendo o gesto praticado – era uma boa
acção dos seus amigos.
Quando o candeeiro, estava no chão, aquecendo o bucete de
ferro, o próprio Gaspar Rapitalho, seu velho amigo, deixava cair
um pingo de cuspo, na fita que estava a arder, ficando esta como
a soluçar (devido ao contacto da água com o petróleo) até que se
apagava. O Mestre, logo dizia: Ó Gaspar, estão-te a vender o
petróleo falsificado, deves reclamar !
O outro sapateiro que deixou fama, foi o Mestre Manuel Serra,
conhecido por Manel Gato, tinha a sua oficina em casa, lá para os
lados da Fonte do Arneiro. Era um homem que rondava os 50
anos, mas muito brincalhão, uma das suas diabrites, foi o caso
das botas de um cliente. Naquele tempo, a população da vila, era
maioritariamente rural, e muitos vinham a casa, só de quinze em
quinze dias. De Sábado ao cair da tarde até Domingo à noite,
altura em que regressavam ao campo. Por isso, o dia de
Segunda-feira, era dia de sapateiros (dia de folga).
O calçado, especialmente a bota de homem, era de um cabedal
ensebado e com cardas na sola, comprado em dia de feira anual,
no mercado de Marinhais, ou nas lojas de fancaria da vila. Um
certo dia, um cliente levou um par de botas para o mestre, pôr
meias solas e cardá-las. O tempo combinado para o arranjo, há
muito estava ultrapassado, os emissários enviados pelo cliente,
passaram pela esposa, filhos e amigos.
A resposta era sempre a mesma. Estão a andar!

97

Certo dia, o dono das botas, encontrou o sapateiro, numa
taberna existente junto da Igreja Matriz, com elas calçadas e,
este com uma calma de gelar, respondeu ao reparo: Rapaz, eu
sempre disse a todos, que as botas estavam a andar, não viram,
como tu viste, não tenho culpa, são ceguetas! Vai logo à oficina
que estão prontinhas!
Assim, ficaram famosas as botas do Manel Gato.
O Mestre Roberto Serra
O mestre, Roberto Serra, tinha a sua casa, na rua Dr. Gregório
Fernandes, mesmo ao lado do Custódio do carvão. No outro lado
da rua existiam, além da farmácia, o barbeiro e uma grande loja,
cujo empregado era conhecido pelo Manel Pechincha. O Roberto,
tinha duas filhas muito pequenas, a Rita e a Marta. durante o dia
amiúdas vezes lá ia à loja comprar rebuçados, alegando; são
para a minha Marta!...Para matar o tempo, enquanto trabalhava a
sola, chupava aqueles doces de açucar. Um dia foi descoberto, o
povo especialmente as mulheres - na compra de rebuçados,
defendiam-se com alguma graça, não são para mim, são para a
Marta, do Roberto Serra!.....
*****
* Cavalariças: o cruzamento na EN 118
(Santarém/Coruche * Gaspar Rapitalho = Gaspar Maria
Alexandre
* Manel Pechincha = Manuel Gonçalves da Luz

98

Introdução
JOSÉ GAMEIRO

José Rodrigues Gameiro, desde jovem, quando começou a
escrever para o Jornal Aurora do Ribatejo, usou o nome “José
Gameiro”, chegou mesmo a ser solicitado para colaborador de
revistas e jornais ao longo de muitas dezenas de anos, como
regista o seu “Curriculum” de vida.
Um dia um texto de Joaquim Mário Antão, foi acolhido nas páginas
do Jornal O Mirante, em virtude de uma entrevista, que aquele
semanário solicitou a José Gameiro, e tinha acabado de publicar,
a propósito de o executivo municipal de Salvaterra de Magos, sob
a presidência do Engº Helder Manuel Esménio, ,lhe ter agendado
uma homenagem com uma exposição da sua vida, sob o tema:
José Gameiro um Cronista ao longo de 50 anos”, que incluía
ainda a publicação de uma 3ª edição do seu livro “Salvaterra de
Magos – Uma vila no coração do Ribatejo”.

99

José Rodrigues Gameiro é o ilustre cronista
da mui nobre Salvaterra de Magos
.
O Mirante dos Leitores
edição de 2011-05-12

“Toda a história de Salvaterra se encontra narrada
nos diferente folhetos que o José Gameiro foi
escrevendo com recurso a buscas em documentos
e conversas com pessoas mais idosas. Sem ele
nada teria sido escrito do muito que se soube
sobre diferentes temas e acontecimentos ocorridos
nesta vila. Obrigado José Gameiro pelo teu
contributo desinteressado. Em 1985 o executivo
municipal de então, decidiu publicar a edição da
obra “Vila Histórica no Coração do Ribatejo”, da
autoria de José Gameiro, que depressa se esgotou.
Em 1992, uma nova edição daquela monografia,
foi apoiada por aquele executivo, também se
esgotou. De então para cá ninguém mais se
interessou pelo manancial de livros escritos por
este grande salvaterrense. Em muitos concelhos
são aproveitados os trabalhos destas humildes
pessoas e elas são reconhecidas pelas autoridades
municipais, facto que não aconteceu em Salvaterra
de Magos nos últimos anos, nem mesmo quando o
Pelouro da Cultura esteve entregue a professores,

100
um dos quais de história. O alcatrão e o cimento
prevalecem acima dos valores culturais.
a) Joaquim Mário Antão

***********

Homenagem Pública a José Gameiro

***********

***********

101

Nº 1
Publicado
20 de Setembro de 2007
Atualizado
16 de Abril de 2015

JOSÉ RODRIGUES GAMEIRO
DADOS PESSOAIS

Nasceu em Salvaterra de Magos, em 16.04.1944 – Filho de
José Gameiro Cantante, e de Felisbella Lopes Rodrigues

Escolaridade
Iniciou a escolaridade obrigatória em 1951, com o
professor; Armando Duarte Miranda, até à 3ª classe, tal como a
maioria da turma não foi proposto a este exame, por falta de
preparação – informação do professor.

102

No ano de 1954, os alunos repetentes, engrossaram a turma da
professora; Natércia Rita Duarte Assunção, com quem fez o
exame da 3ª e 4ª classe da instrução primária, tendo terminado
a escolaridade em 1956. A professora Natércia, notando em si
boas aptidões para uma aprendizagem fácil, e lhe prevendo
qualidades para um curso superior, contatou seus pais na
continuação dos estudos.
Estes, sendo analfabetos e
trabalhadores rurais, sem posses económicas, destinaram-lhe
como à época era uso, a entrada no mundo trabalho.

Vida Laboral
No Verão de 1956, já estava sob a alçada do chefe da secretaria
da câmara municipal de Salvaterra de Magos – João Segurado
Santos. Seu pai, sendo já funcionário da autarquia, na limpeza do
lixo nas ruas da vila, solicitou, àquele chefe dos serviços, a sua
permanência nos serviços administrativos, para “desemburrar e
não andar na moina”, cumprindo o horário estabelecido, como os
outros funcionários. Ali, entre outras tarefas fazia o “arrumar”
dos livros que se encontravam a esmo, no sótão do edifício
municipal, “aprimorou-se” na caligrafia (copiando algumas
“bonitas” usadas pelos trabalhadores administrativos)
substituindo quase por completo a que trouxera da escola.
Contactou com o arquivo histórico do concelho, onde constavam
documentos oficiais, alguns desde o séc. XIII e, os Forais
recebidos pelo município, desde o doado por D. Dinis em 1295, até
ao rei D. Manuel I. Começou aí o seu interesse pelo passado
histórico de Salvaterra de Magos. Em 1957, já com 13 anos de

103

idade, entrou no mundo do trabalho remunerado, em Salvaterra
de Magos, na empresa de Camionagem Setubalense, da família
Belos, de Fresca de Azeitão, desempenhando funções na Central
(usada como extensão de serviços da CP – Caminhos de Ferro).

Colaboração na Comunicação Social
Amiúdas vezes, a pedido dos correspondentes dos jornais de
Lisboa e Santarém; José Teodoro Amaro e Filipe Hipólito Ramalho,
redigia textos de pequenas noticias da vida social, da povoação,
que José Teodoro Amaro e Filipe Hipólito Ramalho,
No primeiro número do jornal "Aurora do Ribatejo",
semanário que se publicava na vizinha vila de Benavente, saiu a
sua primeira colaboração, que veio a durar até ao seu
desaparecimento.. Colaboração em vários jornais, ocupando
cerca de 40 anos da sua vida.
Jornais

*
*
*
*
*
*
*
*
*
*

Jornal "Aurora do Ribatejo" (1964-1981)
Jornal "Mundo Columbófilo" - Porto (1960-1987)
Jornal "Diário do Ribatejo" - Santarém (1975)
Jornal "Diário de Notícias" - Lisboa (1976 - 1979)
Jornal "Diário de Lisboa" - Lisboa (1979)
Jornal "Ribatejo Ilustrado" - Rio Maior (1977-1978)
Jornal "Portugal Hoje" - Lisboa (1981)
Jornal "Correio da Manhã" - Lisboa (1983-1986)
Jornal "O Ribatejo" - Santarém (1985-1996)
Jornal "Nova Aurora" - Benavente (1988-1990)

104

* Jornal Vale do Tejo- Salvaterra de Magos (1992-2003)
(desde 1997, foi seu secretário de redação)

Revistas
* "Desporto Columbófilo" (1962-1963)
* "Vida Columbófila" (1969-1975)
* "Columbófila" (1982-1987)
Rádio
* Na Rádio Marinhais, assinou crónicas
com o título: "Já Sabia Que ! (1990)
Investigação da História Local
Agrupou uma série de documentos de uma recolha, com o título:
“Desenvolvimento de Estudos Históricos (Recolha sobre a
história, Geografia e Sociedade - Concelho de Salvaterra de
Magos (1965)
Livros publicados
* Salvaterra de Magos "Vila Histórica no Coração do Ribatejo",
com o apoio da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos
(Tipotejo) - 1ª Edição 1985 - 2500 exemplares Esgotados
* 2ª Edição (1992) Revista e Aumentada (Gráfica da EPSM) –
2.500 exemplares Esgotada

105

* 3ª Edição (Revista e Aumentada), publicado. Em PDF, no blogue:
www.historiadesalvaterra - (2011), depois em 2014,
* 3ª Edição (2015), Revista e aumentada em papel, apoiado pela
Câmara Municipal de Salvaterra. – Também publicado em PDF, no
Blogue: “www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt”
*Os Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos e a sua Banda
de Música (Historial) - (Edição Original On-line - PDF) – publicado
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt (2010), também uma
edição em suporte papel
* Subsídios para a História da Freguesia de Foros de Salvaterra
- (Edição On-Line) publicado em
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt - Set. 2010
* Subsídios para a História de Salvaterra de Magos - Séc. XII Séc.XXI (1ª Parte) Edição On-Line PDF , publicado em
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt - Set. 2011
* Subsídios para a História da Tauromaquia em Salvaterra de
Magos - Séc.XIX, XX e XXI - Edição On-Laine PDF www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt Jan. 2011
* A Propósito do "Homo Taganus" autor - Dr. A. Mendes Correa Introdução: José Gameiro (Edição On-Laine PDF)
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt

106

* Recordar, Também é Reconstruir - Colecção de Apontamentos
Nº 0 - Nº16 - Vol- I (Edição On-Laine PDF) - wwwhistoriadesalvaterra.blogs-sapo.pt

* Documentos para a História de Salvaterra de Magos
(Volume I), Edição On-Line publicado em
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt – 2011
* A Origem da Sociedade Columbófila Salvaterrense - Historial
(Edição On-line PDF) Maio 2011 publicado em
www-historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt
* COSM - Clube Ornitológico de Salvaterra de Magos (A sua
História) - Edição On-Line PDF publicado em
- www.salvaterra-blogs.sapo.pt- 2007
* A Transportadora Setubalense (Uma recordação em terras de
Portugal)
- Subsídios para a sua história (Edição On-line PDF www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt
* Recordar, Também é Reconstruir - Colecção de Apontamentos
Nº 17 - 45 Volume II (Edição On-line PDF)
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt
* Árvore Genealógica - Famílias; Bastos Ferreirinha e Lopes
(Edição On-line PDF www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt

107

*Árvore Genealógica - Famílias; Cantante,Silva, Neves, Travessa e
Gameiro (Edição On-Laine PDF)
www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt
* Famílias: Ferreira Roquette e Brito Seabra (Resenha
Descritiva)- Edição On-Line PDF
- Casas Brasonadas em Salvaterra de Magos e seu concelho –
www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt
*A Família Roberto(s) – Uma Dinastia de Toureiros * 2ª Edição
On-Line PDF
www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt
Neste Blogue, o autor incluindo textos inéditos, também juntou
uns outros da sua Colecção de Apontamentos "Recordar,
Também é Reconstruir!!!, e outros ainda, seus publicados
desde 08.04.94 a 31.12.2000 no Jornal Vale do Tejo (JVT).
Cursos de Formação
* Curso de Escriturário, no Exército Português, Regimento de
Artilharia Ligeira Nº 4 (RAL4), em Leiria - 1965 * 1º Cabo no
Exército Português - 1965-1968
Distinções
* Distinguido com Louvor Miltar (O.S. de 29Jan68 do
DGMV/Lisboa e transcrito na O.S. do GCTA/Lisboa - 1968 *
Medalha de Agradecimento: Centro Paroquial de Bem-Estar Social
de Salvaterra de Magos-1997 * Homenagem de agradecimento

108

com placa e Diploma, em 2008, pela Direção do COSM - Clube
Ornitológico de Salvaterra de Magos " A José Rodrigues Gameiro,
sócio fundador - pelo empenho e dedicação à `ornitologia"
Em 2014, dia 29 de Setembro, José Rodrigues Gameiro, foi alvo de
Homenagem pública, com Exposição “Um Cronista ao Longo de 50
Anos”, prestada pelo executivo Municipal de Salvaterra de Magos,
sendo –lhe oferecida uma salva com dedicatória , assinada pelo
Presidente da Câmara . Neste acto público foi reeditado em 3ª
edição o livro “Salvaterra de Magos – Uma Vila História no
Coração do Ribatejo”
Experiência Profissional
* De 1957 a 1987, foi empregado de Escritório em duas firmas:
Empresa de Camionagem Belos e Organização Industrial de
Cartões (Orinca) * de 1987 -1997, foi Funcionário Público, onde se
Aposentou.
Experiência de Bibliotecário
* Biblioteca da Escola Profissional de Salvaterra de Magos
(Instituto de Educação e Formação do Sorraia, Ldª -de 14.05.2000
- 05.01.2003
Associativismo e Vida Associativa
* Director da Sociedade Columbófila Salvaterrense (SCS) Salvaterra de Magos De: 1960-1963 * Praticante do Desporto

109

Columbófilo, na SCS, de 1967-1990 * Membro da Comissão
Organizadora da Exposição Nacional de Pombos-Correios (Um
evento promovido pela Federação Portuguesa de Columbofilia e
organizado pela Sociedade Columbófila Salvaterrense, realizado
em Salvaterra de Magos - 1973 * Promotor de Mostras de Aves
Canoras e Ornamentais, Salvaterra de Magos, 1989 - 1990
* Promotor de Exposições de Aves Canoras e Ornamentais, do
Clube o COSM,1991-1998 * Fundador do Clube Ornitológico
de Salvaterra de Magos (COSM), sendo o sócio Nº 001
e Presidente da Direcção e Assembleia Geral, durante vários
anos. * Sócio Fundador do CCAP - Clube Canário Arlequim
Português, Nº 21 - 18.12.1998 * Praticante do Hoby Ornitológico,
desde 1988

Solidariedade e Vida Social
* Promotor de uma campanha de Angariação de Fundos - Jornal
Aurora do Ribatejo/Benavente, para uma doente residente em
Salvaterra de Magos, vitima de cegueira, foi operada em
Barcelona/Espanha * Comissão das Festas dos Toiros e do Fandango - Salvaterra de
Magos, 1968-1969
* Membro da Comissão de Angariação de Fundos para a
Construção do Parque Infantil em Salvaterra de Magos, 1975 *
Membro da Comissão Concelhia (Salvaterra de Magos) de recolha

110

de ofertas para a "Operação Pirâmide", promovida pela Cruz
Vermelha Portuguesa - 1978 * Membro da Comissão de
Angariação de Fundos para a Construção de um Centro
de Dia/Misericórdia de Salvaterra de Magos, na
Praça da República em Salvaterra de Magos, 1985 * Membro da
Comissão da Construção de um novo edificio para Centro de Dia e
Lar da Misericórdia de Salvaterra de Magos * Comissão de
Festas do Foral dos Toiros e do Fandango, Salvaterra de Magos,
1983 - 1996 * Director do Centro Paroquial de Bem-Estar-Social
de Salvaterra de Magos (Fábrica da Igreja) - Construção de
Bairros Sociais e Creche, 1978 - 1990 * Enquanto funcionário
municipal, com um grupo de colegas, fundou o Fundo Social dos
Trabalhadores da Câmara de Salvaterra de Magos
Vida Politica
* AUTARCA *
* Membro da Assembleia Municipal do Concelho de Salvaterra de
Magos, eleito secretário, 1976-1985 * Membro da Assembleia de
Freguesia de Salvaterra de Magos, eleito Presidente, 1985-1989
Dirigente Politica Local
Membro da Comissão Politica Concelhia de Salvaterra de Magos,
do Partido Socialista (PS), 1976 - 1999
*********

111

Bibliografia usada:
Post(s) publicados no Blogue:
“http://www.historiasalvaterra.blogs.sapo.pt
Colecção: Cadernos/Apontamentos:
“Recordar, Também é Reconstruir” – Autor
*********
Fotos: Usados:
de A/D * Faceboock * do Autor

112

**********
***********

Indice – Capitulos:
I O Convento de Gericó ………………………………
II As suas Geminações ……………………………….

Pág 6
Pág 17

“ Uma Alianças do Nosso tempo”

III A Origem das Populações do
Concelho ……………………………………………….
IV Homenagens e Inaugurações ………………
V As Chaminés das Cozinhas do
Antigo Paço Real ……………………………………
VI Os Dias que se seguiram ao
Terramoto de 1909 …………………………….
VII Fontes e Fontanários ………………………..
VIII Chesal – Cooperativa de
Habitação Social ……………………………..
XIV Uma Galinha, para dois,
Que eram três, e ainda sobrou
Galinha …………………………………………….
XV As Botas do Manel Gato ………………….
XVI José Gameiro …………………………….

Pág 19
Pág 41
Pág 47
Pág 49
Pág 51
Pág 53
Pág 85
Pág 92
Pág 101

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful