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Khalil Gibran

O Profeta
Al-Mustafa o Escolhido

UNIVERSALISMO
Sumário

Capítulo 1 — O regresso do navio

Capítulo 2 — Sobre o amor

Capítulo 3 — Sobre o matrimônio

Capítulo 4 — Sobre os filhos

Capítulo 5 — Sobre a dádiva

Capítulo 6 — Sobre o comer e o beber

Capítulo 7 — Sobre o trabalho

Capítulo 8 — Sobre a alegria e a tristeza

Capítulo 9 — Construir com os sonhos

Capítulo 10 — Sobre as roupas

Capítulo 11 — Sobre comprar e vender

Capítulo 12 — Sobre o crime e o castigo

Capítulo 13 — Sobre as leis

Capítulo 14 — Sobre a liberdade

Capítulo 15 — Sobre a razão e a paixão

Capítulo 16 — Sobre a dor

Capítulo 17 — Sobre o conhecimento de si próprio

Capítulo 18 — Sobre o ensino

Capítulo 19 — Sobre a amizade

Capítulo 20 — Sobre a conversação

Capítulo 21 — Medindo o tempo

Capítulo 22 — Sobre o bem e o mal


Capítulo 23 — Sobre a prece e a oração

Capítulo 24 — Sobre o prazer e a liberdade

Capítulo 25 — Sobre a beleza

Capítulo 26 — Sobre a religião

Capítulo 27 — Sobre a morte

Capítulo 28 — Despedida
CAPÍTULO 1

O regresso do navio

Al-Mustafa, o Escolhido e o Bem-Amado, que era o amanhecer de seu próprio


dia, esperara doze anos na cidade de Orphalese pelo navio que o levaria de volta
à ilha de seu nascimento.

E no décimo segundo ano, no sétimo dia de Ailul, o mês das colheitas, ele subiu
a colina fora dos muros da cidade e olhou para o mar; e viu seu navio chegar
junto com a bruma.

Então as portas de seu coração se abriram de repente, e seu contentamento


derramou-se sobre o mar. E ele fechou os olhos e orou no silêncio de sua alma.

Mas ao descer a colina a tristeza o invadiu, e ele pensou em seu coração:

“Como poderei partir em paz e sem tristeza? Não, não será sem ferir meu espírito
que deixarei esta cidade. Longos foram os dias de pena que transcorri entre seus
muros, e longas as noites de solidão; e como pode alguém dizer adeus à sua
pena e à sua solidão sem tristeza?

Demais foram os pedaços de meu espírito que espalhei nestas ruas, e muitos
são os filhos de minha saudade que caminham nus por entre estas colinas, e
não posso apartar-me deles sem ficar triste e deprimido.

Não é apenas uma veste que hoje lanço de mim, mas é a própria pele que
arranco com minhas mãos.

Nem é apenas um pensamento que deixo atrás de mim, mas um coração


enternecido com fome e sede.

Todavia, não posso tardar mais.

O mar, que tudo chama a si, está me chamando, e eu devo embarcar.

Pois se eu me demorar aqui, enquanto as horas queimam na noite, seria como


congelar-me e cristalizar-me, limitado em um molde.

De boa vontade levaria comigo tudo o que está aqui. Mas como fazê-lo?

A voz não leva consigo a língua e os lábios que lhe deram asas. Ela deve buscar
o éter sozinha.
E é sozinha e sem seu ninho que a águia voará para o sol.”

E então, chegado ao sopé da colina, novamente olhou para o mar e viu seu barco
se aproximar do cais, os marinheiros na proa, os homens da sua terra.

E sua alma gritou-lhes e disse:

“Filhos da minha velha mãe, que cavalgais as ondas, quantas vezes navegastes
em meus sonhos. E agora chegais no meu despertar, que é meu sonho mais
profundo.

Estou pronto para partir, e minha ansiedade está de velas abertas a espera do
vento.

Só mais um hausto tomarei deste ar sereno, só mais um olhar amoroso deitarei


atrás, e então estarei entre vós, marinheiro entre marinheiros.

E tu, vasto mar, mãe adormecida,

Tu que só és a paz e liberdade para o rio e o regato,

Só mais uma volta dará este córrego, só mais um murmúrio nesta clareira,

E então irei a ti, ilimitada gota no ilimitado oceano.”

E ao caminhar, viu ao longe homens e mulheres deixando seus campos e


vinhedos e apressar-se rumo às portas da cidade.

E ouviu suas vozes chamando seu nome, gritando uns para os outros,
anunciando a chegada de seu navio.

E disse para si mesmo:

“Será o dia do encontro o mesmo dia da separação?

E será dito que meu crepúsculo era na verdade meu alvorecer?

E o que oferecerei àquele que deixou o arado no meio do sulco, e a quem


paralisou a roda do seu lagar?

Virá meu coração a ser uma árvore pródiga, cujos frutos possa colher para dar-
los?

E fluirão meus desejos como uma fonte com que possa encher-lhes os copos?

Serei eu uma harpa, tal que a mão do todo-poderoso possa tocar-me, ou uma
flauta que Seu sopro possa me atravessar?

Eu sou um explorador do silêncio, e que tesouros encontrei eu no silêncio que


possa distribuir com segurança?
E se este é o meu dia de colheita, em que campos eu semeei a semente, e em
que esquecidas estações?

E se de fato este for o momento de erguer minha lanterna, não será minha chama
a brilhar dentro dela.

Fria e escura levantarei minha lâmpada.

E será o guardião da noite que a abastecerá de azeite, e também a acenderá.”

Tais coisas ele expressou em palavras. Mas muito mais ficou sem ser dito dentro
de seu coração. Pois nem ele mesmo podia exprimir seu mais profundo segredo.

E quando ele entrou na cidade, todas as pessoas vieram a seu encontro,


clamando a uma voz pelo seu nome.

E os anciãos da cidade dele se aproximaram e disseram:

“Não se vá ainda, de junto de nós. Tu foste um meio-dia em nosso crepúsculo,


e tua juventude deu-nos sonhos para sonhar.

Não és um estranho entre nós, nem um hóspede, mas nosso filho e nosso bem-
amado.

Não condenes ainda nossos olhos a padecer a fome de tua face.”

E os sacerdotes e as sacerdotisas lhe disseram:

“Não permitas agora que as ondas do mar nos separem, e que os anos que
passaste entre nós se tornem uma lembrança.

Caminhaste entre nós como um espírito, e tua figura tem sido uma luz para
nossas faces.

Muito te amamos, mas nosso amor foi sem palavras, encoberto por véus.

Mas agora ele grita alto por ti, e quer revelar-se a ti.

E sempre tem acontecido que o amor não conhece sua própria profundidade a
não ser na hora da separação.”

E outros também vieram ter com ele, e o suplicavam. Mas ele nada respondeu.
Apenas abaixou a cabeça; e aqueles que lhe estavam perto viram suas lágrimas
caírem sobre seu peito.

E ele, junto com o povo, caminhou para a grande praça, diante do templo.

E saiu do santuário uma mulher, cujo nome era Almitra. Ela era uma vidente.

E ele a olhou com infinita ternura, pois fora ela quem primeiro o procurou, e nele
acreditou, quando da sua chegada à cidade.
E ela o saudou dizendo:

“Profeta de Deus, em busca do extremo limite, por longo tempo procuraste o teu
navio na distância.

E agora teu navio chegou, e tu deves partir.

Profunda é tua nostalgia pela terra de tuas memórias, morada de teus maiores
desejos; e nosso amor não te prenderá, nem nossas necessidades te segurarão.

Isto porém te pedimos antes de nos deixares, que nos fale e que nos presenteie
com tua verdade.

E nós a transmitiremos a nossos filhos, e este a seus filhos, e ela não se perderá.

Em tua solidão velaste sobre nossos dias, e em tua vigília ouviste os lamentos e
os risos de nosso sono.

Agora pois, revela-nos a nós mesmos, e diga-nos o que te foi mostrado do que
está entre o nascimento e a morte.”

E ele respondeu:

“Povo de Orphalese, do que mais poderei falar-vos senão do que se move agora
dentro de vossas almas?”
CAPÍTULO 2

Sobre o amor

Então, disse Almitra: “Fala-nos do Amor.”

E ele levantou a cabeça, olhou para o povo, e um silêncio caiu sobre eles. E com
forte voz falou-lhes, dizendo:

“Quando o amor vos acena, segui-o,

Embora seus caminhos sejam ásperos e escarpados.

E quando suas asas vos envolverem, rendam-se a ele,

Embora a espada escondida entre suas plumas possa ferir-vos.

E quando ele vos falar, acreditai nele,

Embora sua voz possa arrasar vossos sonhos como o vento do norte devasta o
jardim.

Pois assim como o amor vos exalta, também ele vos crucifica. E tanto ele age
em vosso crescimento como em vossa poda.

E assim como ele sobe até vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que
balançam ao sol,

Assim também desce até vossas raízes e as sacode em seu abraço à terra.

Como feixes de messe ele vos aperta junto de si.

Ele vos açoita para mostrar vossa nudez.

Ele vos peneira para separar-vos de vossas palhas.

Ele vos mói até a brancura.

Ele vos amassa até que estejais macios;

E então vos destina a seu sagrado fogo, para que vos t torneis o pão sagrado do
sagrado banquete de Deus.
Todas essas coisas o amor fará convosco para que possais conhecer os
segredos do vosso coração, e com esse saber vos torneis parte do coração da
Vida.

Mas, se em vosso medo procurardes apenas a paz e os prazeres do amor,

Então será melhor para vós que cubrais vossa nudez e abandoneis a eira do
amor,

Para um mundo sem estações onde ireis rir, mas não todos os vossos risos, e
ireis chorar, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá, a não ser de si mesmo, e nada recebe senão de si próprio.

O amor não possui e não quer ser possuído;

Pois o amor basta-se a si mesmo.

Quando amais, não devei dizer “Deus está em meu coração”, mas dizei antes
“Eu estou no coração de Deus.”

E não penseis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar
dignos, dirigirá vosso curso.

O amor não tem outro desejo que não chegar à própria plenitude.

Todavia, se amardes e necessitardes ter desejos, que sejam estes vossos


desejos:

De vos confundires e ser com um regato que canta sua melodia para a noite.

De conhecerdes a dor da ternura em excesso.

De serdes feridos pela vossa própria compreensão do amor;

De sangrardes de boa vontade, alegremente.

Acordar ao amanhecer com o coração alado, dando graças por mais um dia de
amor;

Descansar ao meio-dia e meditar sobre o êxtase do amor;

Voltar para casa ao anoitecer com gratidão;

E então adormecer com uma prece para o bem-amado no coração, e uma


canção de bem-aventurança nos lábios.
CAPÍTULO 3

Sobre o matrimônio

Então Almitra falou novamente e disse: “E que nos dizes sobre o matrimônio,
Mestre?”

E ele respondeu dizendo:

“Vós nascestes juntos, e deveis permanecer juntos para todo sempre.

Deveis estar juntos quando as brancas asas da morte dispersarem vossos dias.

Sim, estareis juntos até na silenciosa memória de Deus.

Deixai porém espaços em vossa união.

E deixai as asas dos céus dançarem entre vós.

Amai um ao outro, mas não façais do amor um cativeiro:

Deixai antes que seja um mar ondulante por entre as praias de vossas almas.

Enchei o copo um do outro, mas não bebais do mesmo copo.

Dai um ao outro do vosso pão, mas não comais do mesmo naco.

Cantai e dançai juntos e sêde alegres, deixai porém cada um de vós estar só.

Bem como as cordas da lira, que estão separadas, e no entanto juntas vibram
na mesma música.

Doai vossos corações, mas não para que o outro zele.

Pois apenas as mãos da Vida podem conter vossos corações.

E vivei juntos, mas não juntos demais:

Pois os pilares do templo ficam separados,

E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.”


CAPÍTULO 4

Sobre os filhos

E uma mulher que trazia seu filho ao colo disse: “Fala-nos dos filhos.”

E ele disse:

“Vossos filhos não são vossos filhos.

São filhos e filhas do anelo da Vida por si mesma.

Eles vêm através de vós, e não de vós,

E embora estejam junto de vós, não vos pertencem.

Podei doar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,

Pois eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas,

Pois suas almas moram na casa do amanhã, que vós não podeis visitar nem
mesmo em vossos sonhos.

Podeis tentar ser como eles, mas não tentai fazê-los como vós.

Pois a vida não caminha para trás, nem se demora com o ontem.

Vós sois os arcos dos quais os vossos filhos são arremessados como setas
vivas.

O Arqueiro mira o alvo no caminho do infinito, e Ele vos tende com sua força
para que Suas setas possam voar ligeiras para longe.

Deixai que as mãos do Arqueiro vos curvem, para vossa felicidade;

Pois assim como Ele ama a flecha que voa, assim também Ele ama o arco que
permanece estático.”
CAPÍTULO 5

Sobre a dádiva

Então um homem rico disse: “Fala-nos da Dádiva.” E ele respondeu:

“Vós doai bem pouco quando doai de vossas posses.

É só quando dai de vós mesmos que realmente dais.

Pois o que são vossas posses senão as coisas que guardais por medo de virdes
a precisar delas amanhã?

E amanhã, o que trará o amanhã para o prudentíssimo cão que enterra ossos na
areia sem rastro, quando segue os peregrinos para a cidade santa?

E o que é o medo da necessidade, senão a própria necessidade?

E não é o temor da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável?

Há aqueles que doam pouco do muito que têm — e o doam para terem o
reconhecimento, e seu secreto desejo torna seu donativo sem valor.

E há aqueles que pouco têm e doam-no inteiramente.

Estes são os que acreditam na vida e na sua generosidade, e seus cofres nunca
estão vazios.

Há os que doam com alegria, e esta alegria é sua recompensa.

E há aqueles que doam com pena, e esta pena é seu batismo.

E há os que doam e não conhecem pena em doar, nem buscam alegria, nem
pensam na virtude;

Estes doam como o mirto, naquele vale, que exala seu perfume no espaço.

Através de suas mãos é Deus que fala, e por trás de seus olhos Ele sorri para o
mundo.

É bom doar quando solicitado, mas é melhor dar sem ser pedido, só por ter
compreendido;
E para quem é generoso, buscar a quem receberá é alegria maior que o próprio
dar.

E haverá alguma coisa que possais conservar?

Tudo o que possuis um dia será dado;

Portanto, doai agora, para que o tempo da dádiva seja vosso, e não de vossos
herdeiros.

Muitas vezes dizeis: “Eu daria, mas apenas para quem merece.”

As árvores em vossos pomares não dizem isso, nem os rebanhos em vossos


pastos.

Eles dão para poderem viver, pois conservar é perecer.

Certamente, aquele que é digno de receber seus dias e suas noites, é também
digno de tudo receber de vós.

E aquele que mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em
vosso pequeno regato.

E que mérito maior haverá do que está na coragem e na confiança, e mais, na


caridade de receber?

E quem sois vós para que os homens devam mostrar seu íntimo e desvelar seu
orgulho, para que possais ver seu mérito exposto e seu orgulho aviltado?

Olhai primeiro se vós mereceis ser um doador, um instrumento da doação.

Pois em verdade é a vida que dá à vida — enquanto vós, que vos tendes por
doadores, sois apenas espectadores.

E vós que recebeis — pois todos recebeis — não assumais o peso da gratidão,
para não deitar um jugo sobre vós mesmos e sobre aqueles que doaram.

Ao invés disso, alçai-vos junto com eles sobre suas dádivas, como sobre asas;

Pois se vos preocupardes demais com vossa dívida, estaríeis duvidando da


generosidade daquele que tem a terra livre por mãe e Deus por pai.
CAPÍTULO 6

Sobre o comer e o beber

Então um velho, um estalajadeiro, disse: “Fala-nos do comer e do beber.” E ele


respondeu:

“Antes pudésseis viver da fragrância da terra e, como uma planta, ser


alimentados pela luz.

Mas uma vez que tendes de matar para comer, e roubar do infante o leite de sua
nutriz para saciar vossa sede, façais com que seja um ato de adoração.

E seja a vossa mesa como um altar sobre o qual os puros e inocentes do campo
e da floresta são sacrificados àquilo que é mais puro e mais inocente no homem.

Quando matais um animal, dizei-lhe dentro do vosso coração:

Pelo mesmo poder que te imola, eu também serei imolado; e eu também serei
alimento para outros;

Pois a lei que te entregou às minhas mãos, me entregará a mãos mais


poderosas.

Teu sangue e meu sangue são apenas a seiva que alimenta a árvore do céu.

E quando triturardes uma maçã com vossos dentes, dizei-lhe dentro de vosso
coração:

Tuas sementes viverão em meu corpo,

E os brotos do teu amanhã florescerão em meu coração,

E tua fragrância será meu alento,

E juntos nos regozijaremos por todas as estações.

E no outono, quando apanhardes as uvas de vossos vinhedos para o lagar, dizei-


lhes em vosso coração:

Eu também sou uma vinha, e meu fruto será colhido para o lagar,

E como um vinho novo serei guardado em vasos eternos.


E no inverno, quando beberdes o vinho, que haja uma canção em vosso coração
a cada taça;

E que seja uma canção de lembrança dos dias de outono, do vinhedo e do lagar.
CAPÍTULO 7

Sobre o trabalho

Então um lavrador disse: “Fala-nos do trabalho.”

E ele respondeu e disse:

“Vós trabalhais para poderdes manter a harmonia com a terra e com a alma da
terra.

Pois ficar à toa é tornar-se um estranho às estações e sair do compasso da vida,


que marcha majestosa e orgulhosamente submissa rumo ao infinito.

Quando trabalhais sois uma flauta através da qual o sussurro das horas torna-
se música.

Qual de vós quereria ser um junco, surdo e silencioso, quando tudo em volta
canta em uníssono?

Sempre foi-lhes dito que o trabalho é um tormento, e o labor uma desgraça.

Mas eu vos digo que quando trabalhais realizais parte do mais distante sonho da
terra, que lhes foi confiado quando este sonho nasceu.

E dedicar-se ao trabalho, é na verdade amar a vida,

E amar a vida através do trabalho é ser íntimo do mais profundo segredo da vida.

Mas se em vossas penas chamais o nascimento de aflição, e suportar a carne


de maldição gravada em vossa fronte, então vos direi que nada, a não ser o suor
de vossa fronte poderá lavar o que ali está escrito.

Foi também dito que a vida é escuridão, e em vosso cansaço repetis o que foi
dito pelos cansados.

E eu digo que de fato a vida é escuridão, salvo quando há um anelo;

E todo anelo é cego, salvo quando há conhecimento.

E todo conhecimento é vão, exceto quando há trabalho;

E todo trabalho é vazio, salvo quando há amor;


E quando trabalhais com amor vos unis a vós mesmos, uns aos outros, e a Deus.

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com os fios retirados de vosso coração, como se vosso bem-
amado fosse quem vai vestir este tecido.

É construir uma casa com afeto, como se vosso bem-amado fosse habitá-la.

É semear as sementes com ternura e colher a messe com alegria, como se vosso
bem-amado fosse comer destes frutos.

É imprimir em todas as coisas que fazeis um sopro de vossa alma.

E saber que todos os abençoados mortos estão à vossa volta e vos observam.

Muitas vezes vos o ouvi dizer, como se falásseis no sono: “Aquele que trabalha
no mármore, e encontra na pedra a figura de sua própria alma, é mais nobre que
aquele que lavra a terra. E aquele que apanha o arco-íris e o deita na tela em
figuras humanas, é superior àquele que faz sandálias para nossos pés.

“Mas eu vos digo, não no sono, mas na plena lucidez do meio-dia, que o vento
não fala com mais doçura para o grande carvalho do que para as menores folhas
de relva;

E só é grande aquele que transforma a voz do vento em uma canção, tornada


mais doce pelo seu próprio amor.

O trabalho é amor tornado visível.

E se não puderes trabalhar com amor, mas apenas com desgosto, seria melhor
que deixasses teu trabalho, sentasse à porta do santuário a pedir esmolas
àqueles que trabalham com amor.

Pois se assardes o pão com indiferença, estareis assando um pão amargo, que
satisfaz apenas metade da fome do homem.

E se espremeres de má vontade as uvas, vossa má vontade destilará como


veneno no vinho.

E mesmo que canteis como os anjos, mas vosso canto não tiver amor, estareis
tapando os ouvidos do homem às vozes do dia e às vozes da noite.
CAPÍTULO 8

Sobre a alegria e a tristeza

Então uma mulher disse: “Fala-nos da Alegria e da Tristeza

E ele respondeu:

“Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.

E aquele mesmo poço de onde surgiu vosso riso foi muitas vezes enchido com
vossas lágrimas.

E como pode ser isso?

Quanto mais fundo o pesar cavar teu ser, quanto mais alegria poderás conter.

A taça que contém teu vinho, não é a mesma taça que foi queimada no forno do
oleiro?

E a lira que abranda vosso espírito, não é a mesma madeira que foi lavrada pelo
ferro?

Quando estiverdes alegres, olhai fundo dentro de vosso coração e percebereis


que aquilo que vos deu tristeza é o mesmo que vos alegra.

E quando estiverdes tristes, olhai novamente em vosso coração, e vereis que,


verdade, estais chorando por aquilo que foi vosso deleite.

Alguns dizem: A alegria é maior que a tristeza; e outros dizem: Não, a tristeza é
maior.

Mas eu vos digo que elas são inseparáveis.

Elas vêm juntas, e quando só uma sentar junto de vós à vossa mesa, lembrai
que a outra está dormindo em vossa cama.

Na verdade estais sempre oscilando como os pratos de uma balança entre vossa
tristeza e vossa alegria.

E só quando estais vazios é que estais parados em equilíbrio.

Quando o guardião do tesouro vos erguer para pesar seu ouro ou sua prata,
deve então vossa alegria ou vossa tristeza subir ou descer.
CAPÍTULO 9

Construir com os sonhos

Então um pedreiro se aproximou e disse: “Fala-nos das Habitações.”

E ele respondeu e disse:

“Erguei, com vossos sonhos, um abrigo no ermo, antes de construir uma casa
dentro dos muros da cidade;

Pois assim como retornais para casa em vosso crepúsculo, assim faz também o
nômade que há em vós, o sempre distante e solitário.

Vossa casa é vosso corpo ampliado.

Ele cresce ao sol e dorme no silêncio da noite; e também tem sonhos. Não sonha
vossa casa? E sonhando, não deixa a cidade pelo bosque ou o alto da colina?

Pudesse eu apanhar vossas casas em minhas mãos e, como um semeador


espalhá-las pelas florestas e campos!

Pudessem os vales ser vossas ruas, e os verdes sendeiros vossas alamedas,


para que pudésseis procurar-vos uns aos outros através dos vinhedos, e voltar
com a fragrância da terra em vossas vestimentas.

Mas tais coisas ainda não podem ser.

Em seu temor, vossos pais juntaram-vos perto demais uns dos outros. E este
medo durará ainda por um tempo. E por esse tempo, as paredes de vossas
cidades manterão separados vossa essência de vossos campos.

E dizei-me, povo de Orphalese, o que tendes em vossas casas? O que tendes


guardado atrás dessas portas trancadas?

Tendes paz, esse anseio tranquilo que revela vosso poder?

Tendes recordações, arcos lampejantes que ligam os topos da mente?

Tendes a beleza, que leva o coração das coisas feitas de madeira e de pedra
para a montanha sagrada?

Dizei-me, tendes tais coisas em vossas casas?


Ou tendes apenas o conforto, e a lascívia do conforto — essa coisa furtiva que
entra em casa como convidado, depois se torna hóspede e depois senhor?

Sim, e se torna domador que, com forcado e azorrague, reduz a bonecos vossos
maiores desejos.

E embora suas mãos sejam de seda, seu coração é de ferro.

Ele vos embala para dormirdes só para ficar junto de vosso leito e escarnecer da
dignidade de vossa carne.

E zomba de vossos sólidos sentidos, e deita-os na lanugem com a um frágil vaso.

Em verdade, a paixão pelo conforto assassina as paixões da alma, e depois


caminha rindo no seu funeral.

Mas vós, filhos do espaço, do repouso inquieto, vós não sereis domados ou
presos em armadilhas.

Vossa casa não será uma âncora, mas um mastro.

Não será uma fita brilhante a recobrir uma ferida, mas uma pálpebra a proteger
o olho.

Não fechareis vossas asas para atravessardes as portas, nem dobrareis a


cabeça para não bater no teto, nem reter o alento temendo abalar as paredes e
fazê-las ruir.

Não morareis em túmulos, construídos pelos mortos para os vivos.

E apesar da magnificência e do esplendor, vossa casa não conterá vossos


segredos nem abrigará vossa saudade.

Pois aquilo que é ilimitado em vós, mora na mansão do céu, cuja porta é a bruma
da manhã, e cujas janelas são as canções e os silêncios da noite.
CAPÍTULO 10

Sobre as roupas

E o tecelão disse: “Fala-nos das roupas.”

E ele respondeu:

“Vossas roupas escondem muito de vossa beleza, embora não escondam o feio.

E embora procureis nas roupas a liberdade de vossa intimidade, nelas podeis


encontrar um arnês e uma cadeia.

Antes pudésseis encarar o sol e o vento com mais pele e menos vestimenta.

Pois o sopro da vida está na luz do sol, e suas mãos estão no vento.

Alguns dizem: Foi o vento do norte quem teceu as roupas que vestimos.

E eu vos digo: Sim, foi o vento do norte,

Mas a vergonha foi seu tear, e o afrouxar do vigor, o seu fio.

E quando seu trabalho estava terminado, ele riu na floresta.

Não esqueçais que a modéstia é um escudo contra o olhar do impuro.

E quando não houver mais o impuro, que será a modéstia senão um grilhão e
uma nódoa na mente?

E não esqueçais que a terra se delicia ao sentir o peso de vossos pés descalços,
e que o vento anseia por brincar em vossos cabelos.”
CAPÍTULO 11

Sobre comprar e vender

E um mercador disse: “Fala-nos das Compras e Vendas.”

E ele respondeu dizendo:

“A terra vos oferece seus frutos, e de nada mais precisareis se tão somente
souberdes como encher as mãos.

E é trocando os dons da terra que encontrareis a abundância e a satisfação.

Todavia, se a troca não for feita com amor e benevolente justiça, levará uns à
cobiça e outros à fome.

Quando no mercado, vós trabalhadores do mar, do campo e dos vinhedos,


encontrardes os tecelões, os oleiros e os colhedores de especiarias,

Invocai o espírito mestre da terra para que esteja entre vós, e santifique as
balanças e os cálculos que avaliam valor com valor.

E não permitais que os de mãos vazias participem de vossas transações, pois


eles vos venderiam suas palavras em troca de vosso trabalho.

Para tais homens devei dizer.

Venham conosco para os campos, ou ides com nossos irmãos para o mar e
lançai vossas redes;

Pois o mar e a terra vos serão generosos, como o foram para nós.

E se vierem os cantores, os dançarinos e os tocadores de flauta, comprai


também suas ofertas.

Pois eles também são apanhadores de frutos e incenso, e aquilo que eles
trazem, embora feito de sonhos, é vestimenta e alimento para vossa alma.

E antes de deixares o mercado, cuidai que ninguém retome seu caminho de


mãos vazias.

Pois o espírito mestre da terra não dormirá em paz sobre o vento até que as
necessidades do último de vós estejam satisfeitas.
CAPÍTULO 12

Sobre o crime e o castigo

Então um dos juízes da cidade se aproximou e disse: “Fala-nos do Crime e do


Castigo.”

E ele respondeu dizendo:

“É quando vosso espírito vagueia sobre o vento, que vós, sozinhos e


desprevenidos, cometeis delitos contra os outros, e portanto contra vós mesmos.

E por este mal cometido, devereis bater à porta dos eleitos e esperar até que
sejais atendidos.

Como o oceano é vosso Eu-divino;

Ele permanece sempre impoluto.

E como o éter, sustenta apenas os alados.

E é também como o sol, vosso Eu-divino;

Ele não conhece os caminhos das toupeiras, nem busca o covil das serpentes.

Mas vosso Eu-divino não mora sozinho em vosso ser.

Muito em vós ainda é homem, e muito ainda não é homem,

Mas um disforme pigmeu que caminha sonâmbulo na bruma buscando seu


próprio despertar.

E é do homem que há em vós que quero falar.

Pois é ele, e não vosso Eu-divino e nem o pigmeu na bruma que conhece o crime
e o castigo do crime.

Ouvi-vos muitas vezes falar de alguém que comete um delito como se não fosse
um de vós, mas um estrangeiro entre vós, um intruso em vosso mundo.

Mas eu vos digo que assim como o santo e o justo não podem elevar-se para
além do que há de mais alto em vós,
Assim também o mau e o fraco não podem descer abaixo do que há de mais
baixo em vós.

E assim como uma única folha não amarelece sem o silencioso conhecimento
da árvore toda,

Assim o malfeitor não pode fazer o mal sem o secreto consentimento de todos
vós.

Como em uma procissão, vós caminhais juntos rumo ao vosso Eu-divino.

Vós sois o caminho e os caminhantes.

E quando um de vós cai, ele cai para aquele que segue atrás dele, um alerta
contra a pedra de tropeço.

Sim, e ele cai para os que vão adiante dele que, apesar de mais ligeiros e com
os pés firmes, não removeram a pedra de tropeço.

E isto também ouvi, embora a palavra pese em vosso coração:

O assassinado não é inocente por seu próprio assassínio,

E o roubado não é sem culpa por ser roubado.

O justo não é inocente pelos atos do mau,

E o que tem as mãos limpas não é isento de culpa nos atos do malvado.

Sim, o culpado é muitas vezes vítima do injuriado.

E mais vezes ainda o condenado é quem aguenta o fardo do inocente e


irrepreensível.

Não podeis separar o justo do injusto e o bom do mau;

Pois eles andam juntos diante da face do sol, bem como os fio brancos e pretos
que são tecidos juntos.

E quando o fio preto se rompe, o tecelão olha todo o tecido, e examina também
o tear.

Se qualquer um de vós quiser trazer em juízo a esposa infiel, que pese também
na mesma balança o coração do marido, e meça sua alma com cuidado.

E aquele que quiser vergastar o ofensor, que olhe para dentro do espírito do
ofendido.

E se algum dentre vós quiser punir em nome da retidão, e deitar o machado na


árvore do mal, que olhe também para suas raízes;
E na verdade ele encontrará as raízes do bem e do mal, frutífero e infecundo,
entrelaçadas no coração silente da terra.

E vós, juízes, que quereis ser justos,

Que sentença pronunciareis para aquele que, embora honesto na carne é ladrão
no espírito?

Qual penalidade imporeis àquele que é assassino da carne, embora ele próprio
seja assassinado no espírito?

E como processareis aquele que, em seu agir, é enganador e opressor,

Embora também seja lesado e ultrajado?

E como punireis aquele cujo remorso já é maior que seu mal-feito?

Não será o remorso a justiça ministrada por aquela mesma lei que vos esforçais
por servir?

E todavia não podeis colocar o remorso no coração do inocente, nem levantá-lo


do coração do culpado.

Não convidado, ele chamará na noite para que os homens despertem e encarem
a si mesmos.

E vós que quereis compreender a justiça, como o fareis sem olhardes para todos
os atos na plenitude da luz?

Só então sabereis que o erguido e o caído são um mesmo homem, imóvel no


crepúsculo entre a noite do seu eu-pigmeu e o dia do seu Eu-divino.

E que a pedra angular do santuário não é mais alta que a pedra mais baixa de
sua fundação.
CAPÍTULO 13

Sobre as leis

Então um advogado disse: “Que dizes de nossas leis, Mestre?”

E ele respondeu:

“Vós vos deleitais em fazer leis,

E mais ainda em infringi-las.

Como crianças brincando a beira mar, que constroem pacientemente castelos


de areia e depois os destroem entre risadas.

Mas enquanto construís castelos de areia, o oceano traz mais areia para a praia.
E quando as destruís, o oceano ri convosco.

Em verdade, o oceano sempre ri com os inocentes.

Mas o que dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, e as leis humanas
não são castelos de areia,

Mas para os quais a vida é uma pedra, e a lei um cinzel, com o qual querem
esculpi-la à sua própria imagem?

E que dizer do aleijão que odeia os bailarinos?

E que dizer da rês que ama o próprio jugo, e considera o veado e o gamo da
floresta casos perdidos e vagabundos?

E que dizer da velha serpente que já não pode trocar sua pele, e chama todas
as outras nuas e impudicas?

E daquele que chega cedo ao festim de bodas, e depois de saciado e cansado


sai de lá dizendo que toda festa é uma violação da lei, e todo folião um infrator?

O que direi então destes, a não ser que também estão na luz do sol, mas de
costas para ele?

Eles vêem apenas suas sombras, e suas sombras são suas leis.

E o que será para eles o sol, senão um projetor de sombras?


E o que é conhecer as leis senão curvar-se e contornar a própria sombra sobre
a terra?

E vós que caminhais encarando o sol, que imagens sobre o solo poderão deter-
vos?

E vós que viajais com o vento, qual cata-vento orientará vosso curso?

E que lei humana vos poderá deter se quebrardes vosso jugo, embora não à
porta de uma prisão humana?

Que lei temereis se dançardes sem tropeçar em nenhuma férrea cadeia


humana?

E quem poderá levar-vos a julgamento se rasgardes vossas roupas, sem deixá-


las, contudo, no caminho dos homens?

Povo de Orphalese, podeis abafar o tambor, e afrouxar as cordas da lira, mas


quem poderá impedir à cotovia de cantar?”
CAPÍTULO 14

Sobre a liberdade

E um orador disse: “Fala-nos da liberdade.”

E ele respondeu:

“Tenho-vos visto prostrados junto às portas da cidade e junto de vossas lareiras


para adorardes vossa própria liberdade,

Como escravos que se humilham diante de um tirano louvando-o, embora este


os aniquile.

Sim, no arvoredo do templo e à sombra da cidadela tenho visto os mais livres


dentre vós carregar sua liberdade como um jugo e como uma algema.

E meu coração sangrou dentro do meu peito; pois vós só podeis ser livres
quando até mesmo a busca da liberdade se tornar um empecilho para vós, e
quando cessardes de falar em liberdade como uma meta e uma realização.

Vós sereis livres de fato, não quando vossos dias estiverem sem cuidados e
vossas noites sem necessidades e sem tristezas,

Mas antes quando tais coisas cingirem vossa vida e, todavia, vos elevardes cima
elas, nus e sem amarras.

E como podereis elevar-vos acima de vossos dias e de vossas noites sem


quebrar as cadeias com as quais, no amanhecer de vosso entendimento,
amarraste vossa hora meridiana?

Em verdade, aquilo que chamais liberdade é a mais forte dessas cadeias,


embora seus elos brilhem ao sol e deslumbrem vossos olhos.

E do que é que quereis livrar-vos, para serdes livres, senão de pedaços de vós
mesmos?

Se é uma lei injusta que quereis abolir, esta lei foi escrita por vossa própria mão
em vossa própria fronte.

Não podeis apagá-la queimando vossos códigos das leis, nem lavando a fronte
de vossos juízes, mesmo que despejeis o mar sobre eles.
E se quiserdes destronar um déspota, cuidai primeiro que seja destruído seu
trono erguido dentro de vós.

Pois, como poderia um tirano dominar os livres e altivos, se não pela tirania que
está em sua própria liberdade e a vergonha em sua própria altivez?

E se é de um cuidado que quereis vos livrar, esta preocupação foi escolhida por
vós, mais que imposta a vós.

E se é um temor que quereis afastar, o assento desse medo está em vosso


coração, e não nas mãos do temido.

Na verdade, todas as coisas se movem dentro de vós em um constante meio-


aperto, as coisas desejadas e as temidas, as que vos repugnam e as que vos
afagam, as que persegui e as que quereis evitar.

Tais coisas movem-se dentro de vós como pares inseparáveis de luzes e


sombras.

E quando a sombra se esvai e já não existe, a luz que se demora torna-se uma
sombra para outra luz.

E assim vossa liberdade solta suas amarras, torna-se amarra para a liberdade
maior.”
CAPÍTULO 15

Sobre a razão e a paixão

E a sacerdotisa falou novamente e disse: “Fala-nos da Razão e da Paixão.”

E ele respondeu dizendo:

“Vossa alma é muitas vezes um campo de batalha onde se digladiam vossa


razão e julgamento com vossa paixão e vosso apetite.

Pudesse eu ser o apaziguador de vossa alma, e transformar a discórdia e


rivalidade de vossos elementos em unidade e harmonia.

Mas como o farei, a não ser que vós mesmos vos torneis pacificadores, ou antes,
amantes de todos vossos elementos?

Vossa razão e vossa paixão são o leme e as velas de vossa alma navegante.

Se vossas velas ou vosso leme se quebrarem, só podereis balançar à deriva ou


ficardes parados no meio do mar.

Pois se a razão governar sozinha, será uma força limitadora; e uma paixão
ignorada é uma chama que arde até sua própria destruição.

Deixai, portanto, que vossa alma eleve vossa razão até a altura da paixão, para
que possa cantar;

E deixai que ela dirija vossa paixão com vossa razão, para que a paixão possa
viver através de sua própria ressurreição cotidiana, e que ressurja qual fênix de
suas próprias cinzas.

Eu gostaria que tivésseis para com vosso julgamento e vosso apetite o mesmo
tratamento que teríeis para com dois hóspedes queridos em vossa casa.

Certamente não honraríeis um hóspede mais que o outro; pois aquele que
tivesse mais apreço por um deles, perderia o amor e a confiança de ambos.

Por entre as colinas, quando sentardes à sombra fresca dos brancos choupos,
partilhando a paz e serenidade dos campos e prados distantes, deixai que vosso
coração diga em silêncio: “Deus repousa na razão.”
E quando vier a tempestade, e o vento impetuoso sacudir a floresta, e o raio e o
trovão proclamarem a majestade do céu, que vosso coração diga com
reverência: “Deus age na paixão.”

E uma vez que sois um alento na esfera de Deus, e uma folha na floresta de
Deus, vós também deveis repousar na razão e agir na paixão.
CAPÍTULO 16

Sobre a dor

E uma mulher falou e disse: “Fala-nos da Dor.”

E ele disse:

“Vossa dor é o quebrar da concha que encerra vossa compreensão.

Como a semente do fruto deve ser quebrada para que seu coração possa se
expor ao sol, assim também deveis conhecer a dor.

Pudésseis manter vosso coração maravilhado com o milagre diário de vossa


vida, vossa dor não vos pareceria menos maravilhosa que vossa alegria;

E aceitaríeis as estações de vosso coração como sempre aceitastes as estações


que passam sobre vossos campos.

E esperaríeis com serenidade durante os invernos de vossa aflição.

Muitas de vossas dores vós mesmos as escolhestes.

É o remédio mais amargo com que vosso médico interior cura vosso Eu doente.

Portanto, confiai no médico, e sorvei seu remédio em silêncio e tranquilidade.

Pois sua mão, apesar de dura e pesada, é guiada pela mão suave do Invisível,

E a taça que vos traz, embora queime vossos lábios, foi fabricada com o barro
que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas.
CAPÍTULO 17

Sobre o conhecimento
de si próprio

E um homem disse: “Fala-nos do autoconhecimento.”

E ele respondeu dizendo:

“Vosso coração conhece no silêncio os segredos dos dias e das noites.

Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração conhece.

Quereis conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.

Quereis tocar com vossos dedos o corpo nu de vossos sonhos.

E é bom que assim desejeis.

A secreta nascente de vossa alma precisa se manifestar, e correr murmurando


para o mar;

E o tesouro de vossa infinita profundeza deve ser revelado aos vossos olhos.

Não hajam porém balanças para pesar vosso tesouro desconhecido;

E não sondai a profundidade de vosso conhecimento com uma vara de medida.

Pois o Eu é um mar sem limites nem medidas.

Não digais “Encontrei a verdade”, mas “Encontrei uma verdade.”

Não digais “Encontrei o caminho da alma.” Dizei antes: “Encontrei a alma


andando no meu caminho.”

Pois a alma caminha em todas as sendas.

A alma não caminha em linha reta, nem cresce como um junco.

A alma desabrocha, como um lótus de incontáveis pétalas.


CAPÍTULO 18

Sobre o ensino

Então disse um professor: “Fala-nos do Ensino.”

E ele disse:

“Homem algum pode revelar-vos nada, a não ser aquilo que jaz meio adormecido
no alvorecer de vosso conhecimento.

O mestre que caminha na sombra do tempo em meio a seus discípulos, não dá


de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.

Se ele for de fato um sábio, ele não vos proporá entrardes na mansão de sua
sabedoria, mas antes vos conduzirá aos limites de vossa própria mente.

O astrônomo pode falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não vos pode
dar sua compreensão.

O músico pode cantar para vós o ritmo que preenche o universo, mas não vos
pode dar o ouvido que o capta nem a voz que o repete.

E aquele que é versado na ciência dos números, pode falar-vos das regiões dos
pesos e medidas, mas não pode vos conduzir para lá.

Pois a visão de um homem não empresta suas asas para outro.

E assim como cada um de vós está só no conhecimento de Deus, assim também


cada um deve ter seu conhecimento único de Deus e sua própria compreensão
da terra.
CAPÍTULO 19

Sobre a amizade

E um jovem disse: “Fala-nos da Amizade.”

E ele respondeu dizendo:

“Vosso amigo é a vossa necessidade satisfeita.

Ele é vosso campo, que semeais com amor e ceifais dando graças.

E ele é vossa mesa e vossa lareira.

Pois a ele vos achegais com fome, e nele procurais a paz.

Quando vosso amigo expõe sua opinião, não temeis o “não” que está em vossa
mente, nem segurais o “sim”.

E quando se mantém em silêncio, vosso coração não pára de ouvir seu coração;

Pois na amizade todos os cuidados, desejos e esperanças nascem e são


partilhados sem palavras, em uma alegria não declarada.

E quando vos separais de vosso amigo, não fiqueis aflitos;

Pois aquilo que mais amais nele, ficará mais claro na sua ausência, como para
o alpinista parece mais clara a montanha vista do plano.

E que não haja outro propósito na amizade que o aprofundamento do espírito.

Pois o amor que busca outra coisa que não a descoberta de seu próprio mistério,
não é amor, mas uma rede armada, que apanha só o inaproveitável.

O que há de melhor em vós, que seja para o vosso amigo.

Se ele deve conhecer a vazante de vossa maré, que conheça também a


enchente.

Pois o que seria vosso amigo se apenas o procurásseis para matar o tempo?

Procura-o sempre com horas para viver.

Pois ele é para preencher vossa necessidade, não vosso vazio.


E na doçura da amizade que haja o riso, e o partilhar dos prazeres.

Pois no orvalho das coisas pequenas o coração encontra seu amanhecer, e


sente-se refrescado.
CAPÍTULO 20

Sobre a conversação

E um estudioso disse: “Fala-nos da Conversação.

E ele respondeu dizendo:

“Vós falais quando deixais de estar em paz com vossos pensamentos;

E quando não mais podeis habitar na solidão de vosso coração, viveis em vossos
lábios e o som emitido é uma diversão e um passatempo.

E em muitas de vossas conversações, o pensamento é meio assassinado.

Pois o pensamento é uma ave do espaço, que na gaiola das palavras pode de
fato estender suas asas, mas não pode voar.

Há entre vós os que procuram os faladores, por medo de ficarem sozinhos.

O silêncio da solidão revela a seus olhos seu Eu desnudo, e eles preferem evitá-
lo.

E há aqueles que falam e, sem conhecimento ou previsão revelam uma verdade


que eles próprios não compreendem.

E há aqueles que têm a verdade dentro de si, mas não a exprimem com palavras.

No âmago destes habita o espírito em rítmico silêncio.

Quando encontrardes vosso amigo pela estrada ou no mercado, deixai que o


espírito em vós mova vossos lábios e dirija vossa língua.

E que a voz oculta em vossa voz fale ao ouvido de seus ouvidos.

Pois sua alma guardará a verdade de vosso coração como é lembrado o gosto
do vinho,

Quando sua cor tiver sido esquecida e já não mais existir a taça.
CAPÍTULO 21

Medindo o tempo

E um astrônomo disse: “Mestre, que dizes do Tempo?”

E ele respondeu:

“Vós gostaríeis de medir o tempo, que é sem medida e incomensurável.

Gostaríeis de ajustar vossa conduta e mesmo de dirigir o curso de vosso espírito


conforme as horas e as estações.

Gostaríeis de fazer do tempo um rio, em cuja margem vos sentaríeis olhando-o


fluir.

Todavia, aquilo em vós que é sem tempo sabe da eternidade da vida.

E sabe que o ontem é apenas a memória do hoje, e o amanhã é o sonho do hoje.

E que aquilo em vós que canta e contempla ainda habita os limites daquele
primeiro momento em que as estrelas foram espalhadas pelo espaço.

Qual dentre vós não sente que seu poder de amar é sem limites?

E todavia quem não sente que este amor, embora sem limites, circunscrito no
centro de seu próprio ser, não se move de um pensamento amoroso para outro,
nem de um ato amoroso para outro?

E não é o tempo como é o amor, indivisível e descompassado?

Mas se em vosso pensamento deveis dividir o tempo em estações, que cada


estação envolva todas as outras estações.

E que o hoje abrace o passado com nostalgia e o futuro com expectativa.


CAPÍTULO 22

Sobre o bem e o mal

E um dos anciãos da cidade disse: “Fala-nos do Bem e do Mal.

E ele respondeu:

“Do bem que há em vós posso falar, mas não do mal.

Pois o que é o mal senão o bem torturado por sua própria fome e sede?

Em verdade, quando o bem está faminto, busca alimento até nos antros
tenebrosos, e quando está sedento bebe até das águas estagnadas.

Vós sois bons quando sois um com vós mesmos.

Todavia, quando não estais identificados com vós mesmos, não sois maus.

Pois uma casa dividida não é um covil de ladrões; é só uma casa dividida.

E um barco sem leme pode vaguear à toa por entre perigosos recifes sem
afundar.

Vós sois bons quando vos esforçais para dar de vós próprios.

Todavia não sois maus quando buscais apenas o vosso lucro.

Pois quando vos esforçais atrás do lucro, sois apenas raízes que se agarram à
terra e sugam seu seio.

Certamente o fruto não pode dizer à raiz: “Sê como eu, madura e cheia, dadivosa
de tua abundância”.

Pois para o fruto dar é uma necessidade, assim como receber o é para a raiz.

Vós sois bons quando falais plenamente acordados.

Todavia não sois maus quando adormeceis enquanto vossa língua gagueja sem
propósito.

E mesmo palavras trôpegas podem fortalecer uma língua cansada.

Vós sois bons quando caminhais para vossa meta com passo firme e intrépido.
Porém não sois maus quando para lá ides coxeando.

Mesmo os mancos não caminham para trás.

Mas vós que sois fortes e ligeiros, cuidai de não coxear diante dos mancos,
julgando isso uma amabilidade.

Vós sois bons de incontáveis modos, mas não sois maus quando não sois bons,

Sois apenas ociosos e indolentes.

Pena que os veados não possam ensinar a velocidade às tartarugas!

Em vossa ansiosa busca por vosso Eu gigante está vossa bondade; e essa ânsia
está em todos vós.

Mas em alguns de vós esta ânsia é uma torrente que corre impetuosa para o
mar, carregando os segredos das colinas e as canções da floresta.

Para outros é uma lenta corrente que se perde em incontáveis curvas e


serpenteia antes de atingir o mar.

Mas aquele que muito deseja não diga àquele que pouco deseja: “Por que andas
tão lento e atrasado?”

Pois aquele que é realmente bom não pergunta ao desnudo: “Onde está tua
roupa?” nem ao desabrigado: “O que aconteceu à tua casa?”
CAPÍTULO 23

Sobre a prece e a oração

Então uma sacerdotisa disse: “Fala-nos da Prece.”

E ele respondeu dizendo:

“Vós orais em vosso sofrimento e em vossa necessidade; antes pudésseis orar


também na plenitude de vossa alegria e em vossos dias de fartura.

Pois, o que é a oração senão a expansão de vosso próprio ser para o éter vivo?

E se é confortável para vós derramar vossas trevas no espaço, também é deleite


para vós espargir a alvorada de vosso coração.

E se não podeis segurar o pranto quando vossa alma vos convida à prece, esta
deveria vos espicaçar mais e mais, por entre as lágrimas, até que orásseis rindo.

Quando orais, vos elevais às alturas onde encontrais aqueles que estão orando
nessa mesma hora, e que talvez nunca encontrásseis a não ser pela oração.

Portanto, que vossa visita ao templo invisível tenha apenas por finalidade o
êxtase e a doce comunhão.

Pois se fordes entrar no templo sem outro propósito que pedir, não sereis
recebidos.

E se nele entrardes para vos humilhardes, ninguém vos levantará:

Ou mesmo que aí entrardes para mendigardes favores para os outros, não sereis
ouvidos.

É o bastante que entreis no templo invisível.

Eu não posso ensinar-vos a orar com palavras.

Deus não escuta vossas palavras, a menos que Ele mesmo as pronuncie através
de vossos lábios.

E não posso ensinar-vos a prece dos mares, das florestas e das montanhas.

Mas vós que nasceste das montanhas, das florestas e dos mares, podeis
encontrar suas preces em vossos corações.
E se vós apenas escutardes na quietude da noite, os ouvireis a dizer em silêncio:

“Deus Nosso, que és nosso Eu alado, é Tua vontade que quer em nós.

É Teu desejo que deseja em nós.

É o Teu querer em nós que pode transformar nossas noites, que Te pertencem,
em dias que também são Teus.

Nada podemos pedir-Te, pois conheces nossas necessidades antes mesmo que
nasçam em nós.

Tu és nossa necessidade; e dando-nos mais de Ti mesmo, Tu dai-nos tudo.”


CAPÍTULO 24

Sobre o prazer e a
liberdade

Então um eremita, que visitava a cidade uma vez por ano, aproximou-se e disse:
“fala-nos do Prazer.”

E ele respondeu dizendo:

O prazer é uma canção de liberdade,

Mas não é a liberdade.

É o desabrochar de vossos desejos,

Mas não é seu fruto.

É uma profundeza olhando para o alto cume,

Mas não é nem a profundeza nem o cume.

É o engaiolado tomando asas,

Mas não é o espaço que o contém.

Sim, em verdade, o prazer é uma canção de liberdade.

E de bom grado ouviria-vos cantá-la de todo coração; todavia não gostaria que
perdêsseis vossos corações ao cantá-la.

Alguns de vossos jovens buscam o prazer como se ele fosse tudo, e eles são
julgados e repreendidos.

Eu prefiro não julgá-los nem repreendê-los, mas deixá-los procurar.

Pois eles encontrarão o prazer, mas não só ele;

Sete são suas irmãs, e a última delas é mais bela que o prazer.

Não ouvistes falar do homem que escavava a terra em busca de raízes e


encontrou um tesouro?
E alguns de vossos anciãos lembram do prazer com remorso, como malfeitos
cometidos quando ébrios.

Mas o remorso só anuvia a mente, não é seu castigo.

Eles deveriam lembrar de seus prazeres com gratidão, como lembrariam uma
colheita de verão.

Se porém eles se reconfortam com o remorso, deixemo-los se reconfortarem.

E há dentre vós os que não são nem jovens para buscar, nem velhos para
recordar.

E em seu medo de procurar e relembrar eles se abstêm de todos os prazeres,


temendo desprezar ou ofender o espírito.

Mas mesmo em sua renúncia está seu prazer.

E assim eles também encontram um tesouro, embora escavem a terra em busca


de raízes com mãos trêmulas.

Mas dizei-me, quem poderá ofender o espírito?

Poderá o rouxinol ofender a quietude da noite, ou o vaga-lume, as estrelas?

Poderá vossa chama ou vossa fumaça onerar o vento?

Pensais que o espírito seja um poço tranquilo que possas agitar com uma vara?

Muitas vezes, negando a vós mesmo o prazer, só fazei represar o desejo nas
profundezas de vosso ser.

Quem sabe se aquilo que parece omitido hoje, não espera pelo amanhã?

Mesmo vosso corpo conhece sua herança e seus direitos, e não pode ser
enganado.

E vosso corpo é a harpa de vossa alma,

E está em vós tirar dele uma música suave ou ruídos confusos.

E agora indagai em vosso coração, “Como distinguiremos o que é bom, no


prazer, daquilo que não é bom?”

Ide até vossos campos e vossos jardins, e aprendereis que o prazer da abelha
está em sugar o néctar da flor,

Mas também que o prazer da flor está em entregar seu néctar para a abelha.

Pois para a abelha, a flor é uma fonte de vida,

E para a flor, a abelha é uma mensageira de amor.


E para ambas, flor e abelha, dar e receber prazer é uma necessidade e um
êxtase.

Povo de Orphalese, que vosso prazer seja como para as flores e as abelhas.
CAPÍTULO 25

Sobre a beleza

E um poeta disse: “Fala-nos da Beleza.”

E ele respondeu:

“Onde procurareis a beleza, e como podereis achá-la, a menos que ela própria
seja vosso caminho e vosso guia?

E como podereis falar dela, se ela própria não for a tecelã de vossa fala?

Os aflitos e os feridos dizem: “A beleza é doce e suave,

Como uma jovem mãe, meio acanhada em sua própria glória, que caminha entre
nós.”

Os apaixonados dizem: “Não, a beleza é algo poderoso e apavorante,

Como a tempestade que sacode a terra abaixo de nós e o céu acima de nós.”

Os cansados e desgastados dizem: “A beleza é um suave sussurro. Ela fala ao


nosso espírito.

Sua voz cede aos nossos silêncios como uma tênue luz que tremula por medo
da sombra.”

Mas os agitados dizem: “Ouvimos seus gritos entre as montanhas,

E com seus gritos chegavam ruídos de cascos, farfalhar de asas e o rugir de


leões.”

À noite, o guarda da cidade diz: “A beleza surgirá com a aurora, no nascente.”

Ao meio-dia, os trabalhadores e os viandantes dizem: “Nós a temos visto curvar-


se sobre a terra pelas janelas do poente.”

No inverno, os prisioneiros da neve dizem: “Ela virá com a primavera, saltando


por sobre as colinas”.

E no calor do verão os segadores dizem: “Nós a vimos dançar com as folhas do


outono, e vimos flocos de neve em seus cabelos.”
Todas estas coisas vós dissestes da beleza,

Todavia, em verdade não falastes dela, mas de carências insatisfeitas,

Enquanto a beleza não é uma carência, mas um êxtase.

Não é uma boca sedenta, nem uma mão que se estende vazia,

Mas antes um coração inflamado e uma alma encantada.

Não é a imagem que quereis ver, nem a canção que quereis ouvir,

Mas antes uma imagem que vedes com os olhos fechados, e uma canção que
ouvis com os ouvidos tapados.

Não é a seiva a correr sob a casca enrugada, nem uma asa presa a uma garra,

Mas antes um jardim eternamente florido e uma reunião de anjos sempre a voar.

Povo de Orphalese, a beleza é a vida quando desvela sua santa face.

Mas vós sois a vida e sois também o véu.

A beleza é a eternidade mirando a si mesma em um espelho.

Mas vós sois a eternidade e o espelho.


CAPÍTULO 26

Sobre a religião

E um velho padre disse: “Fala-nos da Religião.”

E ele disse:

“E falei hoje de outra coisa?

Não é a religião todos nossos atos e nossas reflexões?

E o que não é nem ação nem reflexão, mas a maravilha e a surpresa sempre
surgindo na alma, mesmo quando as mãos lavram a pedra ou tendem o tear?

Quem pode separar sua fé de seus atos, ou suas crenças de seus afazeres?

Quem pode espalhar suas horas diante de si dizendo: “Esta é para Deus e esta
outra é para mim; esta é para minha alma, e esta outra para meu corpo?”

Todas as vossas horas são asas que pulsam através do espaço, de um Eu para
outro.

Aquele que veste sua mortalidade como sua melhor vestimenta, ficaria melhor
desnudo.

O vento e o sol não farão furos em sua pele.

E aquele que define sua conduta pela ética, aprisiona seu pássaro canoro em
uma gaiola.

A mais livre canção não atravessa barras e arames.

E aquele para quem a adoração é uma janela, para ser aberta e para ser
fechada, ainda não visitou a mansão de sua alma, cujas janelas estão abertas
de um amanhecer a outro.

Vossa vida diuturna é vosso templo e vossa religião.

Sempre que nele entrais, levais convosco todo vosso ser.

Levai o arado e a forja, o macête e o liuto,

As coisas que confeccionastes por necessidade ou por deleite.


Pois no sonho não podeis subir além de vossas realizações, nem cair abaixo de
vossos malogros.

E levai convosco todos os homens:

Pois na adoração não podeis voar mais alto que suas esperanças, nem vos
humilhardes mais baixo que seu desespero.

E se quiserdes conhecer a Deus, não vos torneis decifradores de mistérios.

Antes olhai à vossa volta, e O vereis brincando com vossos filhos.

E olhais para o espaço: O vereis a caminhar sobre as nuvens, abrindo Seus


braços no relâmpago e descendo com a chuva.

O vereis a sorrir nas flores, e agitando Suas mãos nas árvores.”


CAPÍTULO 27

Sobre a morte

Então Almitra falou dizendo: “Queríamos perguntar-te sobre a Morte”.

E ele disse:

“Quereis conhecer o segredo da morte.

Mas como o encontrareis senão olhando para o coração da vida?

A coruja, cujos olhos noctívagos são cegos para o dia, não pode desvelar o
mistério da luz.

Se quereis de fato contemplar o espírito da morte, abri de vez vosso coração


para o corpo da vida.

Pois vida e morte são uma só coisa, assim como o rio e o mar são um.

No fundo de vossas esperanças e desejos jaz vosso silente conhecimento do


além;

E como sementes sonhando sob a neve, vosso coração sonha com a primavera.

Confiai nos sonhos, pois neles está escondida a porta da eternidade.

Vosso medo da morte é apenas como o tremor do pastor diante do rei, quando
este lhe estende a mão para homenageá-lo.

E o pastor não estará feliz, sob o seu tremor, por receber a distinção do rei?

E todavia, não está ele mais atento ao seu tremor?

Pois o que é morrer senão estar nu no vento, e dissolver-se ao sol?

E o que é cessar de respirar senão libertar o alento de suas marés agitadas, para
que possa se erguer e expandir e, desembaraçado, encontrar Deus?

Só quando beberdes do rio do silêncio podereis realmente cantar.

E quando tiverdes atingido o cume da montanha, então começareis a subir.

E quando a terra reclamar vossos membros, podereis realmente dançar.”


CAPÍTULO 28

Despedida

E já entardecera.

E Almitra, a vidente, disse: “Abençoado seja este dia e este lugar, e teu espírito
que nos falou.”

E ele respondeu: “Fui mesmo eu quem falou? Não fui também um ouvinte?”

Então ele desceu os degraus do templo e todas as pessoas o seguiram. E ele


alcançou seu navio e subiu ao convés.

E voltando-se novamente para o povo, ergueu sua voz e disse:

“Povo de Orphalese, o vento me convida a vos deixar.

Sou menos impaciente que o vento, e todavia devo ir-me.

Nós os errantes, sempre buscando os caminhos mais solitários, nunca


começamos um dia onde encerramos o anterior; e nenhuma alvorada nos
encontra onde o ocaso nos deixou.

Mesmo quando a terra dorme, nós viajamos.

Nós somos as sementes de uma planta tenaz, e é em nossa maturidade e


plenitude de coração que o vento nos apanha e nos espalha.

Breves foram meus dias entre vós, e mais breves ainda foram as palavras que
disse.

Mas se minha voz se enfraquecer em vossos ouvidos, e meu amor desvanecer


em vossa memória, então novamente voltarei até vós.

E com o coração mais fecundo e os lábios mais obedientes ao espírito, eu falarei.

Sim, eu voltarei com a maré,

E embora a morte possa ocultar-me, e o silêncio maior me envolver, novamente


buscarei vossa compreensão.

E não a buscarei em vão.


Se o que eu disse for verdade, essa verdade se revelará com voz mais clara, em
palavras mais afins a vosso entendimento.

Vou-me com o vento, povo de Orphalese, mas não para o vazio;

E se esse dia não é a satisfação de vossas aspirações e de meu amor, que seja
ao menos a promessa de outro encontro.

Mudam as necessidades do homem, mas não seu amor, nem seu desejo de ter
suas necessidades satisfeitas pelo seu amor.

Saibam portanto, que voltarei do grande silêncio.

A névoa que se dissipa ao amanhecer, deixando porém o orvalho nos campos,


sobe, condensa-se em nuvem, e cai então como chuva.

E eu não tenho sido diferente da bruma.

Na quietude da noite tenho caminhado por vossas ruas, e meu espírito entrou
em vossas casas,

E o pulsar de vosso coração estava no meu coração, e vosso alento estava em


minha face, e assim vos conheci a todos.

Sim, conheci vossa alegria e vossa dor, e no vosso sono, vossos sonhos foram
meus sonhos.

E muitas vezes eu fui, entre vós, como um lago entre as montanhas.

Eu espelhei vossos cumes e as íngremes vertentes, e mesmo os rebanhos


errantes de vossos pensamentos e vossos desejos.

E ao meu silêncio afluíram como torrentes os risos de vossos filhos, e como rios
as ânsias de vossos jovens.

E quando atingiam minha profundidade, torrentes e rios não cessaram de cantar.

Mas algo mais suave que o riso e maior que as ânsias veio a mim.

E era o que há de ilimitado em vós;

O imenso homem do qual sois todos apenas células e arcabouço;

Ele, em cujo canto todas vossas canções são apenas um tímido pulsar.

É nesse imenso homem que sois imensos,

E ao contemplá-lo, eu vos contemplei e vos amei.

Pois, que distâncias pode o amor atravessar que não estejam nesta imensa
esfera?
Que visões, que esperanças e que presunções podem ultrapassar este vôo?

Como um gigantesco carvalho, coberto de flores de macieira, é o imenso homem


que há em vós.

Ele tem o poder de vos prender à terra, sua fragrância vos leva ao espaço, e em
sua longevidade, vós sois imortais.

Foi-vos dito que, como uma corrente, sois tão fracos como o mais fraco de
vossos elos.

E esta é apenas meia-verdade. Vós também sois tão fortes como o mais forte de
vossos elos.

Medir-vos pelo menor de vossos atos seria como avaliar o poder do oceano pela
fragilidade de sua espuma.

Julgar-vos por vossos erros, é como atirar culpa às estações por sua própria
inconstância.

Sim, vós sois como o oceano.

E embora como os navios encalhados em vossas costas esperam a maré alta,


não podeis apressar vossas marés.

E sois também como as estações,

E apesar de, em vosso inverno, negardes vossa primavera,

A primavera, que repousa dentro de vós, sorri em sua sonolência e não se


ofende.

Não penseis que digo tais coisas para que possais dizer um para o outro: “Ele
muito nos elogiou. Ele só viu o que há de bom em nós.”

Eu apenas expressei em palavras aquilo que vós mesmos sabeis em


pensamento.

E o que é o saber em palavras senão a sombra do conhecimento sem palavras?

Vossos pensamentos e minhas palavras são ondas rolando de uma memória


selada que mantém o registro de vosso ontem,

E dos dias primevos em que a terra nos desconhecia e desconhecia a si mesma,

E das noites em que a terra era gerada na confusão.

O homem sábio vem até vós para dar-vos de sua sabedoria. Eu vim para tomar
de vossa sabedoria.

E vi que aquilo que encontrara era maior que sabedoria.


É um espírito inflamado em vós que se alimenta de si próprio,

Enquanto vós, desatentos a esta expansão, lamentais o fenecer de vossos dias.

É a vida em demanda da vida em corpos que temem a sepultura.

Não há sepulturas aqui.

Estas montanhas e planícies são berços e degraus.

Sempre que passais pelos campos onde jazem vossos ancestrais, olhai bem à
vossa volta e vereis a vós mesmos e a vossos filhos dançando de mãos dadas.

Na verdade, muitas vezes ficai felizes sem o saber.

Outros vieram até vós, e a estes, em troca de promessas douradas feitas à vossa
fé, destes riquezas, poder e glória.

Eu vos dei menos que promessas, e todavia fostes mais generosos comigo.

Deste-me uma sede mais profunda de viver.

Seguramente, não há maior presente para um homem que tornar suas


aspirações em lábios sedentos, e toda sua vida em manancial.

E nisso está minha honra e minha recompensa,

Pois sempre que vou à fonte para beber, encontro a água viva, ela própria
sedenta;

E ela me bebe enquanto eu a bebo.

Alguns de vós me julgaram orgulhoso e muito esquivo para receber presentes.

Sou de fato muito orgulhoso para receber paga, mas não presentes.

E embora tenha comido bagas entre as colinas quando vós me queríeis sentado
à vossa mesa,

E tenha dormido no pórtico do templo quando vós me teríeis com prazer dado
abrigo,

Não foi, contudo, vosso amoroso cuidado com meus dias e minhas noites que
tornou meu alimento suave à minha boca, e cingiu meu sono de visões?

Mais por isso eu vos abençoo.

Vós dais muito, e não sabeis que dais tanto.

Em verdade, a brandura que mira a si mesma em um espelho, torna-se pedra,


E uma boa ação que chama a si mesma por nomes elogiosos, torna-se quase
uma maldição.

E alguns de vós têm-me chamado de arredio, embriagado com minha própria


solidão,

E disseram: “Ele mantém reunião com as árvores da floresta, mas não com os
homens.

Ele senta-se sozinho no alto das colinas, olhando para baixo, para nossa cidade.”

É verdade que escalei as colinas e caminhei por lugares remotos.

E como poderia eu ver-vos a não ser de grande altura ou de grande distância?

Como pode alguém estar de fato próximo, a não ser de longe?

E outros entre vós me chamaram, sem palavras, e disseram:

“Estrangeiro, estrangeiro, que amas as alturas inatingíveis, por que habitas entre
os cumes, onde só as águias fazem seus ninhos?

Por que buscas o inatingível?

Qual tempestade queres apanhar em tua rede,

E que pássaros vaporosos pretendes caçar no céu?

Venha, e seja um de nós.

Desce, e apazigua tua fome com nosso pão e sacia tua sede com nosso vinho.”

Na solidão de suas almas eles disseram tais coisas;

Fosse porém sua solidão mais profunda, eles saberiam que eu buscava apenas
o segredo de vossa alegria e de vossa dor,

E que eu caçava somente vossos Eus maiores que caminham no céu.

Mas o caçador era também a caça;

Pois muitas de minhas setas deixaram meu arco só para encontrar meu próprio
peito.

E aquele que voava era também o rastejante;

Pois quando minhas asas estavam abertas no sol, sua sombra sobre a terra era
como tartaruga.

Eu, o crente, era também o cético;


Pois tantas vezes coloquei meus dedos em minha própria ferida que pude ter
maior crença em vós, e um maior conhecimento de vós.

E é com essa crença e esse conhecimento que digo:

Vós não estais encerrados em vossos corpos, nem confinados em vossas casas
ou campos.

O vosso ser habita sobre as montanhas e vagueia sobre o vento.

Não é uma coisa que rasteja ao sol para se aquecer, ou escava buracos na
escuridão para se proteger,

Mas é algo livre, um espírito que envolve a terra e se move no éter.

Se essas forem palavras vagas, não procurai esclarecê-las.

Vago e nebuloso é o começo de todas as coisas, mas não o seu fim,

E eu prefiro que vos lembreis de mim como de um começo.

A vida, e tudo que vive, é concebido na bruma, e não no cristal.

E quem sabe se o cristal não é a bruma em decomposição?

Ao lembrardes de mim, gostaria que lembrassem disso:

Aquilo em vós que parece mais fraco e perdido, é o mais forte e mais
determinado.

Não foi vosso alento que construiu e solidificou a estrutura de vossos ossos?

E não foi o sonho que nenhum de vós lembra de ter sonhado, que construiu
vossa cidade e modelado tudo o que está nela?

Pudésseis antes ver as marés dessa respiração, deixaríeis de ver tudo o mais,

E pudésseis ouvir o murmúrio do sonho, deixaríeis de ouvir qualquer outro som.

Mas vós não vedes nem ouvis, e isso é bom.

O véu que tolda vossos olhos será levantado pelas mãos que o teceram,

E o barro que tapa vossos ouvidos será removido pelos dedos que o amassaram.

E então vereis.

Então ouvireis.

E todavia não lamentareis ter conhecido a cegueira, nem sentireis teres sido
surdos.
Pois nesse dia conhecereis o propósito oculto de todas as coisas;

E abençoareis as trevas como abençoais a luz.”

E tendo dito estas coisas ele olhou à sua volta, e viu o piloto do seu navio, em
pé ao timão, olhando ora para as velas enfunadas, ora para a distância.

E ele disse:

“Paciente, muito paciente é o capitão do meu navio.

O vento sopra, e as velas estão cheias;

Mesmo o leme pede por direção;

Todavia, o capitão espera quieto pelo meu silêncio.

E estes meus marujos, que têm ouvido o coro de mares mais vastos, também
me ouviram com paciência.

Agora não esperarão mais. Eu estou pronto.

A torrente atingiu o mar, e mais uma vez a grande mãe aperta seu filho contra
seu peito.

Adeus, povo de Orphalese.

Este dia já se foi.

Fecha-se sobre nós como o nenúfar sobre seu próprio amanhã.

O que foi-nos dado aqui, nós conservaremos.

E se não for o suficiente, mais e mais vezes estaremos juntos, e juntos


estenderemos nossas mãos para o doador.

Não esqueçais que eu voltarei para vós.

Mais um curto momento, e minha saudade apanhará pó e espuma para outro


corpo.

Mais um curto instante, um rápido momento de descanso sobre o vento, e outra


mulher me conceberá.

Adeus para vós e para a juventude que vivi entre vós.

Foi apenas ontem que nos encontramos em um sonho.

Cantastes para mim em minha solidão, e eu construí, com vossa nostalgia, uma
torre no céu.

Mas agora nosso sono se foi e nosso sonho desvaneceu, e já não é o alvorecer.
O pleno meio-dia está sobre nós, e nossa sonolência tornou-se dia pleno, e
devemos nos separar.

Se no crepúsculo da memória nos encontrarmos novamente, de novo


conversaremos, e cantareis para mim uma canção mais profunda.

E se nossas mãos se encontrarem em outro sonho, construiremos outra torre no


céu.”

Dizendo isso ele fez um sinal aos marujos, e logo estes levantaram a âncora,
soltaram o navio de suas amarras e rumaram para leste.

E um grito levantou-se do povo, como de um só coração, subiu na penumbra e


correu por sobre o mar como um lamento de trombeta.

Só Almitra ficou silenciosa, olhando para o navio até desaparecer na bruma.

E quando todos se haviam dispersado, ela ainda estava lá, sozinha sobre o cais,
relembrando em seu coração as palavras de Al-Mustafa:

“Mais um curto instante, um rápido momento de descanso sobre o vento, e outra


mulher me conceberá.”