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Ano 1, Nº 3

Produzida por Pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

- A Igreja vai onde o - A TV como veículo de - Desafio de Shrek - arti- - A teologia de nossa
povo está, p. 30 evangelização na Igreja go, p. 67 Liturgia, p. 62
- Como receber bem o Evangélica Luterana do - Sugestão litúrgica para
visitante?, p. 54 Brasil, p. 4 a Quaresma, p. 64
Estrategias para que a - O desafio da IELB na - O galo cantando - sim-
Igreja cumpra a Missão, missão urbana, p. 36 bologia, p. 57
p. 18
Apresentação da Revista
EXPEDIENTE
Publicação mensal de pastores da Igreja
Eletrônica Teologia & Prática
Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não oficial. A revista Teologia&Prática é uma iniciativa de pastores da
Tem como propósito divulgar textos teológicos/ Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Ela não tem caráter
pastorais, inéditos ou não, produzidos por oficial. Seu objetivo básico é coletar e compartilhar bimestral-
pastores da IELB, recuperar textos teológicos
mente, de forma organizada, via Internet, textos teológicos/pas-
escritos no passado e que não estão disponíveis
na Internet, divulgar de forma mais abrangente torais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB e que
a teologia evangélica luterana confessional e a regularmente circulam em listas da Igreja. Além disso, procura
reflexão teológica na IELB, e ser uma ferramenta recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão
prática para as atividades ministeriais em disponíveis na Internet. Um objetivo subjacente é a intenção de
suas diferentes áreas. Os conteúdos são de
divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica lute-
responsabilidade dos seus autores.
rana confessional e a reflexão teológica na IELB. Além de pos-
Colaboradores desta edição: sibilitar a reflexão teológica, a revista quer ser uma ferramenta
Comissão de Culto da IELB; Ernani Kufeld; prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas.
Dieter Joel Jagnow; Ewerton Gustavo Wrasse;
Germano Neumann; Jarbas Hoffimann;
Marcos Schlemer Weide; Marcos Schmidt; Critérios
Martinho Rennecke; Waldyr Hoffmann.
1. A produção da revista é coordenada por voluntários. Um (ou mais) editor
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Rev. Dieter Joel Jagnow (editor) divulgação pelos mecanismos de busca da Internet.
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Rev. Mário Rafael Yudi Fukue ensaios, etc.), inéditos ou não. Cada autor é responsável pelo seu texto
(doutrinária, gramática e ortograficamente). Os textos devem ser enviados
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ao editor.
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Rev. Jarbas Hoffimann texto, caso julgue que ele afronte a doutrina da IELB. Para tanto, se neces-
sário, conta com voluntários para a avaliação. Não serão utilizados textos
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ou que firam os princípios e valores da Igreja.
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forma abordem questões pontuais (exemplo: Reforma, eleições, Natal). A
pauta completa é determinada de acordo com as colaborações recebidas,
Colaborações: conforme a ordem de chegada.
Os textos a serem publicados na revista devem
8. O organograma de produção é este:
ser enviados ao editor
a) Lançamento: até o dia 25 do segundo mês da edição
Contato/Editor: b) Preparação / Diagramação: do dia 1 ao dia 20 do segundo mês da edi-
revistateologia@gmail.com ção
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blogue: http://revistateologia.blogspot.com
tuíter: http://twitter.com/revistateologia
A Igreja vai onde o povo está, p. 30
A teologia de nossa Liturgia, p. 62
A TV como veículo de evangelização na Igreja Evangélica Luterana do Brasil, p. 4
Como receber bem o visitante na igreja?, p. 54
Desafio de Shrek - artigo, p. 67
Estrategias para que a Igreja cumpra a Missão, p. 18
O desafio da IELB na missão urbana, p. 36
O galo cantando - simbologia, p. 57
Quaresma - Estudo Bíblico, p. 58
Sugestão litúrgica para a Quaresma, p. 64
Missão e Mídia Rev. Dieter Joel Jagnow

Parte 2 - Visão histórica dos programas reg


1. A Hora mida pelo pastor Benjamin Jandt. tir do interesse da Igreja, mas da
Também escreviam e apresentavam própria emissora. Todavia, existem

A Hora foi o único programa da


IELB na TV durante cerca de
quatro anos. Era veiculado semanal-
mensagens os pastores Vilson Regi-
na e Gerold Krick.
divergências quanto à maneira de
como foi o processo. Uma fonte dá
A duração do programa foi va- conta que certo dia houve encontro
mente na TV Alto Uruguai de Ere- riável. Inicialmente, era de cinco casual entre o pastor Gerold Krick e
chim, RS. minutos. Depois, passou para 10 o diretor da emissora na residência
O programa iniciou em 1976. minutos; mais tarde, voltou a ter de Edmundo Arndt, que era mem-
Todavia, há divergências quanto cinco minutos. Também houve um bro da Comunidade São João de
ao mês. O seu primeiro produtor e período em que a duração era de Erechim. Após diálogo sobre o pro-
apresentador, pastor Edgar Tilp, diz oito minutos. grama de rádio que a congregação
que a primeira veiculação aconteceu Durante três anos, foi veiculado mantinha, o diretor comentou que
na primeira sexta-feira de março.1 Já todas as sextas-feiras, às 18h50min, queria colocar um novo programa
a revista Mensageiro Luterano in- no intervalo entre duas novelas da religioso na TV, pois o da Igreja Ca-
forma que o primeiro programa foi TV Globo. Em meados de 1979, tólica não estava agradando. O pas-
ao ar em maio.2 quando a RBS introduziu o Jornal tor Krick disse que, caso a emissora
Após a saída de Tilp, em janeiro Regional, A Hora passou para do- cedesse um horário gratuitamente,
de 1983, a coordenação foi assu- mingos, às 13h.3 o programa seria feito. Alguns dias
O programa não surgiu a par- depois, o diretor entrou em contato
1 TILP, Edgar. Correspondência recebida
do pastor Edgar Tilp em fevereiro de com a família Arndt, que era vizi-
2007.Ver anexo 1. 3 Uma outra fonte diz que “tivemos nha, informando que doaria o espa-
2 A HORA – Erexim, RS. Mensageiro de mudar o nosso programa para os ço. A família então procurou Edgar
Luterano, Porto Alegre, n. 8, ano 66, sábados, no horário do meio-dia, meio-
p. 11, ago. 1984. dia e pouco...”TILP, op. cit. Tilp, pastor da cidade, para que as-

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Missão e Mídia

gulares Nota: Este texto complementa o publicado na edição an-


terior da revista Teologia & Prática. Na parte 1 foi
sumisse o programa. O pastor pediu feito um levantamento um levantamento histórico geral sobre o tema
alguns dias para pensar e, então, re- “comunicação” na Igreja Evangélica Luterana do Brasil (Ielb) desde os
solveu aceitar o desafio.4 seus primórdios até o ano de 2006. A parte 2 trata especificamente dos
A outra fonte diz que em feverei- programas de TV que existiram (ou existem) neste mesmo período.
ro de 1976, o pastor Tilp recebeu a Durante cerca de uma década (1976 a 1986), a IELB conheceu a as-
visita do diretor da TV Alto Uru- censão e o declínio no uso da televisão como veículo para comunicar
guai, Pozzo Raimundo. Ele disse ao o Evangelho. No seu auge, chegou a ter 93 minutos semanais de pro-
pastor que queria colocar na pro- gramação regular. Neste capítulo é feito um levantamento de todos os
gramação um programa religioso, programas que existiram e de um iniciado em novembro de 2004 e que
mas que não sabia ao certo como ainda está sendo veiculado.
ele deveria ser. Comentou, também,
que já havia feito uma oferta ao pas- cadas acerca do surgimento do pro- exiguidade de espaço.”8
tor Waldemar Lückemeier, da Igreja grama, que haviam sido fornecidas Segundo desejo da emissora, o
Evangélica de Confissão Luterana por Tilp.6 Segundo o pastor, o texto programa deveria ter um formato
no Brasil, mas que ele não se sentiu publicado não havia relatado com ainda não conhecido pelo telespec-
capacitado para produzir o progra- fidelidade a história, razão porque tador. Além disso, não poderia refle-
ma. Segundo Pozzo, a emissora es- resolveu escrever e colocar a sua ver- tir abertamente o caráter da deno-
tava oferecendo um espaço gratuito são dos fatos. minação. Deveria ser um pequeno
e que ela colocava à disposição tudo A resposta de Tilp à carta de espaço de tempo semanal “que desse
o que fosse necessário para produzir Krick, também publicada na seção ao ouvinte, após uma semana de tra-
o programa. O pastor Tilp, mesmo de cartas, apareceu na edição de balho ou estudo, orientação, alento,
apreensivo, pela falta de experiên- novembro da revista.7 Tilp diz que estímulo e, acima de tudo, informa-
cia, acabou aceitando o desafio.5 ficou “surpreendido” com a carta ção sobre aquele que é o Caminho,
Estas duas versões geraram certo de Krick e que “cada historiador vê a Verdade e a Vida – Jesus Cristo, o
desconforto na época. Na edição de e descreve a história do seu ponto Senhor e Salvador”.9
abril de 1981 do Mensageiro Lu- de vista...” Tilp também diz que, se Segundo o pastor Tilp, ele e o
terano saiu uma matéria sobre os na reportagem ficou de fora algum diretor realizaram pelo menos dez
programas religiosos da IELB que nome, “não foi por má fé, mas pela
8 TILP, Edgar. “A Hora”. Mensageiro
existiam na época. O pastor Krick Luterano. Porto Alegre, n.11, ano 64,
enviou carta à Redação do Men- nov. 1981, segunda capa. Pelo o que
sageiro Luterano (publicada em 6 Inclusive, Krick cita problemas nas é possível perceber na carta, Tilp
informações de em artigo publicado mantém a sua versão da história.
junho daquele ano), questionando há mais tempo na revista. Embora Ele diz que o gerente da emissora
a veracidade de informações publi- não citado, depreende-se que seja a procurou a congregação e que talvez
nota publicada na revista em maio ele tivesse “comentado com outras
4 KRICK, Gerold. A Hora na TV de 1977, pois, pelo o que foi possível pessoas a oferta deste programa ou
Erechim. Mensageiro Luterano, Porto verificar, até a esta data somente havia espaço.” Outro dado importante é que
Alegre, n. 6, ano 64, jun. 1981, segunda sido publicada esta nota acerca do a citação de Tilp como fonte tem como
capa. O pastor Krick também informa programa. base informações prestadas por ele no
que colaborou em 60 programas de A 7 A resposta foi uma solicitação da início de 2007, para esta pesquisa.
Hora. redação da revista, como o próprio 9 .HEIMANN, Proclamando Cristo
5 TILP, op. cit. autor informa. do alto dos telhados, op. cit., p 6, 7.

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Missão e Mídia

reuniões para discutir o formato, Este formato acabou determi- gação local, juntamente com as de-
o nome, a duração, o dia e horário nando a mudança do programa da mais congregações do distrito. Boa
da veiculação, o material necessário, Igreja Católica. Até então, era re- parte dos custos era coberta por
etc.10 O nome do programa foi su- zada uma missa no estúdio. Após quatro patrocinadores da paróquia.
gestão do diretor da emissora. algum tempo, a emissora solicitou Segundo o pastor Benjamim, “no
Nas duas semanas anteriores à que o formato passasse a ser como valor da época, o patrocínio não era
primeira veiculação, a emissora co- era o A Hora. Segundo Tilp, no iní- um problema crucial”.15
locou na programação cinco a oito cio o bispo da cidade “chiou bastan- Embora o programa tivesse boa
chamadas diárias relacionadas com te”, mas teve de ceder. O bispo foi receptividade local e regional, ha-
o programa que iria estrear. procurar o pastor para ver como o via uma certa resistência por parte
Na produção, como tinha pou- programa era produzido. Os dois se da TV Globo. Ela “não gostava de
cos recursos disponíveis, o pastor tornaram bons amigos.13 produções locais, nem religiosas ou
Tilp valeu-se de adaptações feitas Segundo o pastor Tilp, o pro- outras, como programas tradiciona-
de mensagens publicadas nas re- grama A Hora foi muito bem aceito listas ou coisa parecida.”16
vistas Mensageiro Luterano e Ulti- (“não havia quem não gostasse do Ao que tudo indica, o progra-
mato, além de emprestar eslaides e programa”), tanto que depois de ma durou até 1988. Ele foi sendo
usar imagens recortadas de revistas. algum tempo a sua duração passou empurrado para horários cada vez
Sempre que necessário, a emissora para dez minutos. menos nobres, chegando a ser vei-
liberava um câmera para fazer ima- A boa audiência despertou o in- culado às 5h da manhã. “Aí os pa-
gens externas. A produção do pro- teresse de patrocinadores. De acor- trocinadores e mesmo a paróquia se
grama exigia cerca de um dia. Às ve- do com Tilp, foram recebidas mui- indignou e não queria mais manter
zes, ia ao ar gravado, e outras vezes tas propostas de patrocínio, mas o programa”, disse o pastor Benja-
ao vivo. não havia necessidade. Os poucos mim.17
A produção procurava temati- custos que existiam eram cobertos
zar o programa de acordo com o pela Congregação São João. 2. A Voz da Cruz
ano eclesiástico e eventos sociais e Com o crescimento da audiên-
O programa A Voz da Cruz teve
políticos que oportunizavam men- cia, o pastor Tilp tornou-se conhe-
seu início em 13 de abril de 1980, na
sagens cristãs (como aniversário do cido e benquisto na cidade. Passou
TV Cruz Alta de Cruz Alta, RS. O
município, eleições e outros). As a ser convidado para atos públicos,
primeiro coordenador e apresenta-
mensagens sempre eram cristocên- casamentos, eventos religiosos. Na
dor foi o pastor Mario Lehenbauer,
tricas. “Se algum dia eu não puder rua, era reconhecido pelas crianças
assessorado por uma equipe de pas-
mais falar de Cristo, isto é, se esta e chamado de o “a hora”.
tores do Distrito Vale Ijuí da IELB.
liberdade me for tolhida na TV, o A audiência também pode ser
Após a saída do pastor Mario, a
programa não terá motivo ou razão medida pelo expressivo número de
coordenação passou para o pas-
de existir”, disse o pastor Tilp.11 pessoas que se tornaram membros
tor Valdo Weber. Também foram
O programa tinha um formato na Congregação. Em certo momen-
apresentadores os pastores Paulo
ágil. Nas palavras do pastor Benja- to, havia turmas de 30 pessoas que
Nerbas, Waldemar Reimann, Rudi
mim Jandt, era um “telejornal es- estavam na instrução de adultos.14
Heimann e Ari Thoma. Havia uma
piritual”, isto é, as mensagens eram Mais tarde, a emissora passou a
presença regular do coral de crian-
curtas e mescladas com música e cli- cobrar pela veiculação e o programa
ças da comunidade Sião de Santo
pes de corais.12 passou a ser mantido pela congre-
Ângelo, RS, sob a liderança do pro-
fessor Lírio Sonntag.18
10 TILP, op. cit. 13 TILP, op. cit. Ver também HEIMANN,
11 HEIMANN, Proclamando Cristo Proclamando Cristo do alto 15 JANDT , op. cit.
do alto dos telhados, op. cit., p 7. dos telhados, op. cit., p 7. 16 Idem.
12 JANDT, Benjamim. Respostas 14 Idem.A instrução de adultos é um curso 17 Idem.
às perguntas - TV. [mensagem oferecido para pessoas não luteranas 18 Existe uma informação de que o
pessoal]. Mensagem recebida por que têm o interesse em conhecer as professor Lírio também participava da
editor@editoraconcordia.com.br em doutrinas da Igreja e, eventualmente, produção do programa. LEHENBAUER,
11 dez. 2006. se tornarem membros. Mário. A Palavra na TV Cruz

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Missão e Mídia

Segundo o pastor Mario, desde O equipamento usado era o da o programa e informando o tema da
a implantação da TV Cruz Alta na própria emissora. Ela colocava to- mensagem. Segundo Weber, quan-
cidade, ele e vários membros sonha- das as ilhas de produção e todos os do o Grêmio foi campeão do mun-
vam em ter um programa na emis- profissionais da emissora do turno à do, a RBS transmitiu e, como era sá-
sora. O sonho começou a se mate- disposição da produção do progra- bado, no intervalo do jogo apareceu
rializar quando um empresário, em ma. uma chamada para o próximo pro-
contato com o gerente da emissora, No início, o programa era manti- grama. “O pastor esteve no Japão!”,
comentou sobre o desejo.19 O ge- do pela própria emissora, com a ven- foi o comentário de domingo.24
rente solicitou que o empresário da de espaço comercial. Mais tarde, Além de mensagens e clipes mu-
chamasse o pastor para fazer as tra- os custos passaram a ser cobertos sicais, a Voz da Cruz tinha os qua-
tativas sobre um programa. O pro- com ofertas das congregações dos dros Perguntas e Respostas e Diálogo.
grama deveria ir ao ar já no domingo distritos Vale do Rio Ijuí, Planalto e No primeiro, abria-se se espaço para
seguinte - isto era uma quarta-feira. Missioneiro da IELB. responder a perguntas de natureza
O primeiro A Voz da Cruz teve De acordo com o pastor Mario, a espiritual feitas pelos telespectado-
como tema A verdade que liberta. aceitação do programa foi “impres- res. No segundo, eram apresentados
Foi apresentado pelo pastor Mario sionante” e que “a caixa do correio pastores, com o objetivo de torná-
ao vivo. Teve a duração de 20 minu- não comportava a correspondência -los conhecidos em suas cidades.
tos20 Depois, passou a ter a duração recebida”, razão porque foi necessá- Além disso, uma vez por mês o pro-
média de 12 minutos. Inicialmente, ria “a criação emergencial de condi- grama tinha a presença de um pas-
era veiculado às 11h30min, logo ções de logística para atender a re- tor convidado do Distrito.
após o programa Esporte Espetacu- percussão do programa”22 De acordo com Weber, segundo
lar, da TV Globo. Devido ao acúmulo de trabalho levantamento da emissora, a audi-
O programa oferecia aos teles- trazido pelo programa, foi chama- ência era de cerca de um milhão de
pectadores um curso bíblico cha- do Valdo Weber para ser o segundo pessoas. O programa recebia a mé-
mado Encontro com Deus. Bíblias pastor. Segundo Weber, quando dia de duzentas cartas por semana,
(Novo Testamento) eram ofereci- chegou para assumir a função, o pedindo o curso bíblico e solicitan-
das a quem completasse o curso. O programa já tinha saído do ar.23 Ele do informações sobre a IELB e co-
contato com os telespectadores era reiniciou quando Mario saiu para munidades luteranas da região.25
feito por um secretário, especial- outra Paróquia. Ao contrário do que havia acon-
mente contratado para esta função. Nesta nova fase, o programa ia ao tecido na fase anterior, a extinção
Em pouco mais de um ano (abril ar todos os domingos às 7h30min. do programa, em meados de 1984,
de 1980 a junho de 1981), haviam Era produzido nas quintas-feiras, a não aconteceu por causa de difi-
sido enviados mais de 1.500 cursos partir das 19h. Procurava-se fazer culdades financeiras. A razão foi
e mais de 800 Novos Testamentos.21 as mensagens de acordo com o pe- um decreto da direção da RBS, que
ríodo eclesiástico e datas comemo- proibiu programas religiosos em
Alta. Lar Cristão 1982. Concórdia:
Porto Alegre, ano 33, 1982, p. 78. rativas nacionais. Até o dia da vei- toda a rede. Outra versão é lembra-
19 O gerente da emissora era Pozzo culação, a emissora fazia chamadas da por Weber: “o que se ouviu em
Raimundo, o mesmo que havia convidando as pessoas para assistir Cruz Alta, foi de que o padre local
trabalhado em Erechim e parti-cipado
do processo de criação do programa 22 LEHENBAUER, Mario. Pesquisa. havia pedido o fim do programa
A Hora. Há informação de que depois 23 WEBER,Valdo. Pesquisa. [mensagem junto à diretoria da emissora. Não
Pozzo foi transferido para a trabalhar pessoal]. Mensagem recebida por sei se isto é verdade ou não. Mas tem
em emissora de Uruguaiana, RS, onde editora@editoracon-cordia.com.br
também ofereceu espaço para a Igreja em 24 nov. 2005. Segundo o pastor a sua lógica. Nós ‘incomodávamos’
Luterana.TILP, op. cit. Lehenbauer, a extinção aconteceu por os católicos.”26
20 LEHENBAUER, Mario. Pesquisa causa das dificuldades financeiras. A
[mensagem pessoal]. Mensagem interrupção parece ter durando alguns
recebida por editora@editora- meses, já que Weber relata que após 3. Expectativa (Vitória)
concordia.com.br em 21 de novembro a saída do pastor Mario o programa
de 2006. recomeçou. Valdo chegou à cidade 24 Idem.
21 LEHENBAUER, Mário. A Palavra na em 1982 e Mario saiu em 1983. Ver 25 Idem.
TV Cruz Alta. p. 78. WARTH, op. cit., p 164,168. 26 Idem.

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Missão e Mídia

Expectativa foi ao ar pela primei- colocasse no ar uma programação do programa foram registrados no
ra vez em 7 de setembro de 1980, na evangélica que fizesse uma espécie Instituto Nacional de Propriedade
TV Gazeta de Vitória, ES. A dire- de contraponto a um programa ca- Industrial, do Ministério da Indús-
ção e produção geral eram do pas- tólico, o Missa no Lar. Inicialmente, tria e Comércio.
tor Nilo Figur, assessorado por uma a liderança da Congregação Reden- A estrutura básica do programa
equipe.27 tor de Vitória, filiada à IELB, não era esta:
Com duração de 10 minutos, o acatou a ideia. O projeto somente - Abertura (vinheta)
programa era veiculado dominical- começou a tomar forma com a che- - Manchetes (normalmente três,
mente. Segundo nota publicada na gada do pastor Nilo Lutero Figur. chamando a atenção para o tema do
revista Mensageiro Luterano, dan- Figur, juntamente com o professor dia)
do conta do lançamento, o horário Sérgio Schweder e outros líderes - Texto bíblico (narrado e ilustra-
de veiculação era ao meio-dia, após luteranos, idealizaram o programa do com eslaides ou cenas de filmes)
o programa Esporte Espetacular.28 e mobilizaram congregações de - Mensagem (com duração três
Mas este horário nem sempre foi Vitória e do interior do estado. A minutos)
respeitado, por causa de corridas da Congregação Redentor aprovou a - O Cristianismo no Mundo
Fórmula 1 que eram retransmitidas sua implantação no dia 29 de junho (análise da situação da Igreja Cristã
pela TV Gazeta. de 1980. em diferentes países)
A ideia de montar um programa O logotipo e a vinheta foram - Divulgação (oferecimento de
surgiu a partir de uma proposta da criados por uma empresa de São cursos bíblicos, endereços, etc.)
TV Gazeta de que a Igreja Luterana Paulo sem custos. A “arte eletrôni- - Síntese (recado final, objetivo e
ca” era considerada “um trabalho pessoal)30
27 Após a saída do pastor Nilo Figur,
no início de 1984, a coordenação foi do mais alto nível artístico e técni- Segundo o jornalista Orlando
assumida pelo pastor Jonas Flor. co... que dão ao programa um nível Eller, o programa não era feito para
28 EXPECTATIVA na Televisão. Mensageiro classe ‘A’, que pode ser colocado ao luteranos. Por esta razão, deter-
Luterano. Porto Alegre, n. 11, ano 63,
nov. 1980. Nesta nota é informado que lado de qualquer programa de TV minados temas espirituais, consi-
Expectativa era o terceiro programa de no Brasil.”29 O nome e o logotipo derados de “difícil digestão”, eram
televisão a ser criado na IELB. evitados”.31 Além disso, o programa
29 HEIMANN, Proclamando Cristo procurava evitar a gratuidade, o ape-
do alto dos telhados, op. cit., p 10. lo sensacionalista e o lugar comum
de outros programas afins. Também
se evitou, tanto quanto possível, a
sua vinculação com a Igreja Lutera-
na.
As mensagens eram curtas e ob-
jetivas, com cerca de três minutos.
Normalmente havia um bloco mu-
sical com músicas do Grupo Kyrie
ou do coral do Seminário Concór-
dia.
Pode-se dizer que o principal
apresentador do programa era Fi-
gur. Todavia, via de regra havia um
segundo apresentador. Procurava-se
envolver pastores do interior do es-
30 Idem.
31 .ELLER, Orlando. Expectativa –
Vitória, ES. Mensageiro Luterano,
Porto Alegre, n. 8, ano 66, p. 13, ago.
1984.

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Missão e Mídia

tado, que eram convidados a escre-


ver mensagem a apresentar parte do
programa.
Embora contasse com uma dire-
toria executiva da Grande Vitória,
Expectativa era um projeto abran-
gente, envolvendo pastores e leigos
de todo o Espírito Santo, represen-
tados através de um Conselho Ad-
ministrativo.
Havia uma secretária contratada
para atender as pessoas que ligavam
solicitando materiais, além de ou-
tras atividades.
Boa parte dos custos de veicula-
ção era coberta por firmas que vei-
culavam comerciais, antes e depois
do programa. O restante era pago
por congregações e por contribui-
ções personalizadas mensais, através
de carnês. Além do Espírito Santo,
havia ofertantes em congregações
da Bahia, Minas Gerais e Rio de Ja-
neiro.32
Para divulgar o programa e man-
ter os patrocinadores informados,
Expectativa publicava um informa-
tivo de periodicidade irregular, o
Boletim Câmera E. O informativo
também era enviado para todas as
pessoas que entravam em contato
com o programa.
Expectativa oferecia aos ouvin-
tes o curso Encontro com Deus. Há O primeiro ano de existência de Também foram impressos 15 mil
informação de que nos dez primei- Expectativa foi motivo de reporta- folhetos para distribuição massiva.
ros meses de veiculação cerca de mil gem de página inteira no Mensa- Além disso, foram utilizados dez
pessoas fizeram ou estavam fazendo geiro Luterano. O texto traz impor- outdoors em Vitória durante um
o curso. Para cada ouvinte que en- tantes informações adicionais sobre mês. Congregações e paróquias do
trava em contato havia um registro a história do programa e a fase em Estado foram visitadas para a di-
cadastral, em pastas para cada um que se encontrava. Até o momento vulgação do programa e a captação
dos pastores que atuavam na área de da redação da matéria, haviam sido de recursos para a sua manutenção.
abrangência do sinal da TV Gazeta produzidos e veiculados 36 progra- Houve ampla divulgação através
e que se encontravam mais próxi- mas. de material enviado para todos os
mos do endereço do remetente.33 O texto diz que a divulgação pastores da IELB, além de uso de
32 FIGUR, Nilo. A Palavra na TV inicial envolveu uma “grande mo- espaço no Mensageiro Luterano. O
Gazeta de Vitória. IN: Lar Cristão vimentação de recursos e pessoas”. lançamento também foi divulgado
1982. Porto Alegre: Concórdia, ano 33,
p. 80. Foram elaborados e impressos dois em eventos, congressos, reuniões de
33 Idem. mil cartazes para lojas, ônibus, etc. vários segmentos da Igreja.
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Missão e Mídia

A matéria também informa que


o movimento financeiro do primei-
ro ano havia sido de dois milhões
de cruzeiros. Parte do dinheiro foi
usado para a aquisição de equipa-
mentos e produtos: estruturação
do escritório para atendimento das
pessoas que entravam em contato;
arquivos de imagens para ilustração
(eslaides, cartões, etc.; dez fitas pro-
fissionais BCN e dez fitas de vide-
ocassete). Além disso, o programa
havia recebido doações em equipa-
mentos e em dinheiro como resulta-
do de campanhas de departamentos
de mulheres e de jovens.
No primeiro ano, Expectativa
havia recebido cartas de 80 muni-
cípios de quatro estados: Espírito
Santo, Minas Gerais, Rio de Janei-
ro e Bahia. Ao todo, foram feitos
cadastros de cerca de 1.400 pesso-
as que haviam entrado em contato.
Até setembro de 1981, haviam sido
enviados 1.100 cursos Encontro com
Deus, dos quais 500 já haviam sido
concluídos. Os nomes de 700 pes-
soas haviam sido enviados para a
Hora Luterana, a fim de realizarem à disposição de outras iniciativas Além de uma celebração religiosa,
cursos desta organização, dos quais da Igreja, “a fim de levar o evange- houve uma série de apresentações
460 estavam ativos. Também foram lho realmente a toda a criatura.” É culturais. O pregador do culto foi
enviados 260 cursos infantis. afirmado que “a TV está à disposi- o pastor Nilo, idealizador do pro-
Após o início do programa, a ção da IELB” e que “as possibilida- grama e então ocupando a função
Congregação Redentor chamou des são muitas.” Assim, “se estamos de Secretário Executivo do Depar-
um segundo pastor, Elias Eidam. convictos de que ‘é tempo de falar’ tamento de Comunicação da IELB,
Isso possibilitou que o pastor Nilo do amor de Deus, então falemos ao em Porto Alegre.35
pudesse investir mais tempo em Brasil pela televisão.”34 Segundo Assmann, Vitória era
produção e divulgação. Em 1º de setembro de 1985, os o centro mais bem equipado para a
A matéria do Mensageiro Lute- luteranos do Espírito Santo realiza- geração de programas36. Não é sem
rano também informa que estava ram uma grande concentração para razão, portanto, que Expectativa
sendo organizada uma estrutura celebrar os cinco anos de existência despertou a o interesse de pastores e
regional para manter e expandir de Expectativa. Estiveram reunidas líderes de outras regiões do Brasil e
o programa. Havia o objetivo que cerca de 1.200 pessoas no ginásio
cada paróquia da região indicasse 35 EXPECTATIVA: 5 anos de TV.
esportivo do SESC, em Vitória. Mensageiro Luterano. Porto
uma pessoa leiga para que atuasse Alegre, n. 11, ano 68, p. 30, nov. 1985.
como elo de ligação. 34 UM ano de Expectativa. Op. cit., p. 27. 36 ASSMANN, Hugo. A Igreja
O texto termina dizendo que os O primeiro aniversário foi celebrado Eletrônica e seu impacto na
programas já produzidos estavam em um auditório de Vitória no dia 7 de América Latina. Petrópolis:
setembro. Vozes, 1986, p 123.

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Missão e Mídia

teve pouca duração, já que há regis- raná Norte da IELB) foi fomentada
tros de uma nova fase, iniciada em e apoiada pelo Distrito Cataratas,
1º de outubro de 1983.38 Inicial- mantenedor do mesmo programa
mente, a veiculação era aos sábados, em Cascavel. Por isso, os programas
às 14h30min – um horário conside- eram os mesmos, com divulgação
rado “não muito feliz”.39 de ambos os endereços locais para
O Distrito Cataratas almejava contatos.40
investir em um programa de tele- O assunto foi oficialmente dis-
visão. Todavia, os altos custos não cutido em reunião do Conselho
permitiam. Resolveu-se usar um Distrital realizada em 18 de março
programa pronto — e o escolhido de 1984, em Mandaguari, PR. Foi
foi o Expectativa de Vitória, tanto nomeada uma comissão para iniciar
na primeira como na segunda fase. as tratativas com duas emissoras de
Assim, o programa vinha de Vitória televisão. Os resultados dos traba-
e partes de interesse regional eram lhos foram apresentados em reunião
regravadas por pastores do Distrito. extraordinária do Conselho, rea-
Ao que tudo indica, na primeira fase lizada no dia 1 de abril, em Fênix,
a apresentação local era feita somen- PR. Resolveu-se que o programa
te pelo pastor Marcos Weçolowis, seria transmitido na TV Tropical de
enquanto que na segunda partici- Londrina, PR. Foi feito um contra-
pavam das gravações os pastores Ni- to de seis meses com a emissora. O
valdo Schneider, José Eraldo Schulz primeiro programa foi ao ar em 5 de
e Nikolai Neumann. maio de 1984, às 9h.
A manutenção era feita por con- Além de dois patrocinadores,
tribuições mensais voluntárias e por membros da IELB, o programa era
patrocinadores. Na segunda fase, mantido com ofertas de membros
houve uma mobilização regional no das congregações do Distrito pelo
sentido de juntar os recursos neces- sistema de carnês. A coordenação
passou a ser retransmitido em duas sários para a veiculação regular. do projeto estava a cargo de uma
outras cidades, além de servir de Diretoria Executiva.
base para uma terceira.37 5. Expectativa (Londrina)
A implantação do programa Ex- 6. Expectativa (Dourados)
4. Expectativa (Cascavel) pectativa em Londrina (Distrito Pa- Motivados pelas experiências de
Por iniciativa do Distrito Ca- outros distritos da IELB, os mem-
taratas da IELB, o programa Ex- 38 BUSS, op. cit., p. 251. A informação bros do Distrito Mato Grosso Sul
está correta. Foi possível localizar uma
da IELB entenderam que era pre-
pectativa de Vitória começou a ser informação da reda-ção do anuário Lar
retransmitido em Cascavel, PR, em Cristão de 1982 de que “de momento o ciso ousar e investir na divulgação
8 de novembro de 1980, na TV Ta- programa está fora do ar.” HEIMANN, da Igreja através da televisão. Sur-
Leopoldo (ed.) Lar Cristão 1982. giu então a versão Expectativa de
robá, retransmissora da TV Bandei- Porto Alegre: Concórdia, ano 33, p. 85,
rantes. Segundo Buss, esta primeira 1982. Na primeira fase, a coordenação
Dourados, MS. A espinha dorsal do
fase do programa aparentemente geral era do pastor Marcos Weçolovis. programa era do Expectativa de Vi-
39 HEIMANN, Proclamando Cristo tória, no qual inspirou-se também
37 Também há informação de que o Distrito do alto dos telhados, op. cit., p.
Mineiro da IELB estava pensando em 11. Na segunda fase, o pro-grama 40 Existe informação de que o Distrito
retransmitir o Expectativa de Vitória na ia ao ar às 12h de sábado, o que estava trabalhando no sentido de
TV Globo de Belo Horizonte, MG. Não era considerado “um horário bom”. produzir o programa em Lon-drina.
foi possível encontrar registro de que NEUMANN, Nikolai. Expectativa – FACK, Martinho. Expectativa –
isto aconteceu. CONSELHOS Distritais. Cascavel, PR. Mensageiro Luterano, Londrina, PR. Mensageiro Luterano,
Mensageiro Luterano. Porto Porto Alegre, n. 8, ano 66, p.15, ago. Porto Alegre, n. 8, ano 66, p. 18, ago.
Alegre, n. 3, ano 64, mar. 1981, p. 32. 1984. 1984.

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Missão e Mídia

De acordo com o pastor Marti-


nho Sonntag, o programa Encontro
surgiu a partir de uma reflexão do
pastor e líderes da Congregação
Concórdia de Florianópolis, SC,
sobre a importância, necessidade
e urgência de evangelizar de levar
a mensagem da salvação a pessoas
que não eram atingidas com o tra-
balho regular da Congregação. “Foi
em meados de 1981 que explanei a
possibilidade de se iniciar um pro-
grama de TV para cumprir com esta
missão. Fizera antes disto consultas
às emissoras locais sobre a aceitação
de um programa, custos, etc. Diante
da aprovação do projeto pela Con-
gregação, decidimos levar a idéia ao
para o nome. Distrito Santa Catarina Leste.”44 O
Os programas tinham a dura- Distrito encampou a idéia autori-
ção de 10 minutos e iam ao ar to- zou o pastor a fazer o contrato com
dos os domingos às 10h50min pela Distrito Porto-Alegrense da IELB,
a partir da oferta de um espaço ofe- uma emissora e assumir a gerência e
TV Caiuás, retransmissora da Rede produção do programa.
Bandeirante. O coordenador de recido pela TV Gaúcha (hoje RBS
TV). De acordo com Buss, o pri- O programa Encontro chegou a
produção era o pastor Vilson Regi- ser, na IELB, o de maior duração: 30
na. Ele escrevia as mensagens, mas meiro produtor e apresentador foi
o pastor Paulo K. Jung. Mais tarde, minutos. A primeira edição aconte-
eventualmente também tinha a co- ceu em 4 de junho de 1983, na TV
Jung foi substituído, sucessivamen-
laboração dos pastores Valdir Feller,
te, pelos pastores Galdino Schnei- Cultura. Tinha a duração de 15 mi-
Rubem Rieger e Martim Krebs. Ha- nutos. Um ano depois, a TV Bar-
via um revezamento na apresenta- der e Gerhard Grasel.42
O programa ia ao ar sempre às riga Verde, hoje retransmissora da
ção dos programas, geralmente com Bandeirantes, fez um convite para
a presença de dois pastores. sextas-feiras pela amanhã, na aber-
tura da emissora. Tinha três minu- veicular o programa. O pastor Mar-
Os recursos vinham de contri- tinho explica: “Ofereceram 30 mi-
buições distritais, especialmente detos, caracterizados por uma mensa-
gem de cunho espiritual. nutos semanais com o mesmo preço
membros da congregação de Navi- dos 15 minutos da Cultura. Não
raí, MS. O programa foi ar ininter- Como tinha um caráter insti-
tucional da TV Gaúcha, não havia perdemos a oportunidade. Ao nos
ruptamente durante um ano e qua- convidarem, alegaram a qualidade
tro meses, entre os anos de 1985 e custos de produção e veiculação
para a IELB. Segundo Buss, o pro- e a boa audiência do Encontro.”45 O
1986.41 programa ia ao ar nos sábados, em
grama “tinha um longo alcance,
visto ser transmitido através das torno das 10 horas.
7. Fé e Esperança O programa era produzido e
dez emissoras afiliadas à TV Gaú-
Em 1982, foi lançado o progra- cha, localizadas em todo o estado apresentado por uma equipe nome-
ma Fé e Esperança em Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e em Santa ada pela congregação de Florianó-
RS. Tratava-se de uma iniciativa do Catarina.”43 polis, sob a coordenação de Sonn-
44 SONNTAG, Martinho. Pesquisa.
41 REGINA, op. cit. Todas as informações 8. Encontro [mensagem pessoal]. Mensagem
sobre o programa Expectativa de recebida por editor@editora-concordia.
Dourados foram forneci-das por e-mail 42 BUSS, op. cit., p.252. com.br em 17 nov. 2006.
pelo pastor Regina. 43 Idem. 45 Idem.

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Missão e Mídia

tag. O orçamento era mantido pelas Cada programa tinha um tema ou tarefas relacionadas com a Bíblia,
congregações do Distrito Santa Ca- geral. Procurava-se “dialogar” com cujos vencedores eram premiados.’
tarina Leste e por três firmas comer- o telespectador da região. “Procu- O programa tinha um arquivo
ciais de luteranos.46 ramos detectar os problemas que de mais de 100 videoclipes com co-
Encontro foi o que teve o con- afligem o povo da região, suas an- rais e cantos diversos (Coral do Se-
teúdo mais variado dentre os pro- gústias, dúvidas, necessidades. A minário Concórdia, Grupo Kyrie,
gramas da IELB. Além da abertura satisfação das necessidades do povo Coral de Florianópolis, Coral de
(manchetes), tinha seis blocos dis- faz com ele se interesse pela Pala- Crianças Raios do Sol e solos de
tintos, cada um com vinheta pró- vra e com que venha a sintonizar Eliana Sabka).49
pria: novamente.”48 Esta interatividade Segundo o pastor Sonntag, a
- Encontro Infantil. Tinha uma também passava por concursos de audiência era considerada boa e o
história em linguagem infantil com redação sobre determinado tema e/ programa tinha boa aceitação. Car-
aplicação à vida da criança. Era
48 Idem. 49 SONNTAG, op. cit.
apresentado por uma jovem.
- Encontro Estudantil. Aborda-
va questões relacionadas com a vida
dos jovens estudantes. Era apresen-
tado por dois jovens.
- Encontro Perguntas e Respos-
tas. Apresentava respostas bíblicas
para perguntas enviadas por teles-
pectadores através de cartas e tele-
fonemas. Era apresentado por uma
jovem e um pastor.
- Encontro Pensamentos. Trazia
pensamentos de autores diversos e
textos bíblicos sobre o tema geral
do dia. Era apresentado por uma
jovem.
- Encontro Comunicação. Ti-
nha notícias, informava sobre litera-
tura cristã e oferecia cursos bíblicos,
anunciava locais e horários de cul-
tos no Distrito, programações es-
peciais, endereço do programa. Era
apresentado por diferentes jovens.
- Encontro Mensagem. Trazia
uma mensagem sobre o tema do dia.
Era apresentado por um pastor.47
Também participavam eventu-
almente pastores do Distrito e pas-
tores visitantes, com mensagens e
entrevistas. As externas eram feitas
com autoridades e pessoas em geral.

46 BUSS, op. cit., p. 252.


47 EQUIPE ENCONTRO. Encontro
– Florianópolis, SC. Mensageiro
Luterano, n. 8, ano 66, p. 16, ago. 1984.

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Missão e Mídia

tas e muitos telefonemas eram rece- vínculos com alguma denominação Elas vêm aumentando o tempo de
bidos de diversas cidades do estado. religiosa, mas para tentar comuni- veiculação, montando emissoras e
“Lembro de um artigo, escrito por car-se com quem ainda não tem, ou formando redes de longo alcance.
um colunista do Jornal de Santa Ca- nem conhece o Evangelho. A IELB fez história no uso da te-
tarina, que analisava os programas Em fevereiro de 2007 foi feita levisão como veículo para anunciar
de TV em Santa Catarina. Diz: ‘Fi- uma avaliação criteriosa de toda a o Evangelho. Ela percebeu cedo o
nalmente apareceu um bom progra- programação da Ulbra TV. Toque potencial da televisão como canal
ma religioso na TV.’”50 de Vida ficou em segundo lugar ge- de evangelização. Apesar de somen-
Alegando motivos financeiros, o ral e em primeiro lugar na categoria te conseguir usar o veículo a partir
programa deixou de ir ao ar em me- “inter-programas”.51 da segunda metade da década de
ados de 1985. 1970, quando o processo foi inicia-
Conclusão do teve um grande crescimento em
9. Toque de Vida poucos anos, chegando a ocupar um
Deus é comunicação. Foi assim espaço semanal significativo. Pelo
O programa Toque de Vida é o na criação, na Aliança, na encarna- que foi possível levantar nesta pes-
único veiculado regularmente hoje ção de Cristo para efetuar a obra quisa, neste período nenhuma outra
na IELB. Ele surgiu junto com a redentora – também repleta de co- denominação religiosa cristã brasi-
Ulbra TV, da Universidade Lutera- municação. Tendo como motivação leira chegou a ter tantos programas
na do Brasil (Ulbra), em novembro única o seu amor, Deus procurou e neste formato.Hoje, a Igreja parece
de 2004. Na época, reitor da Ulbra, procura entrar em contato, em co- estar na contramão da história. Des-
Rubem Becker, orientou a equipe munhão, em comunicação com a de a segunda metade da década de
da TV a procurar a Pastoral Uni- sua criatura. 1980, ela não tem mais investimen-
versitária da Universidade para que O anúncio do Evangelho é to significativo na TV.
juntos começassem a produzir um essencialmente uma função de co-
programa que mostrasse a identi- municação. Depositários da comu- Rev. Dieter Joel Jagnow é jornalista e pastor da
dade confessional da emissora. O nicação de Deus, os cristãos levam Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Ribeirão
primeiro nome foi Vida e caminhos. adiante, para outros seres humanos, Preto-SP, além de participar da equipe editorial da
É veiculado diariamente às 8h e re- o grande momento da comunicação
Revista.Teologia.
prisado à noite, às 24h. de Deus: a obra redentora de Jesus
O programa possui quatro par- Cristo – ou seja, o Evangelho, a Boa
tes distintas, distribuídas em 6 mi- Notícia.
nutos: abertura, mensagem, clipe Um dos veículos para esta ativi-
musical e encerramento. É produzi- dade é a televisão. Por causa de suas
do e apresentado pelo pastor Lucas potencialidades de comunicação
Albrecht, que trabalha na Pastoral massiva, ela é um tremendo desa-
Universitária. São utilizados equi- fio para as denominações religiosas
pamentos do Centro de Produção cristãs, particularmente a IELB,
Audiovisual da Ulbra (CPA) e da cumprirem a sua tarefa de canal co-
Ulbra TV. A edição e finalização é municador de Deus.
feita na emissora TV. A abertura e Várias denominações religiosas
mensagem são gravados no campus têm se dado conta da importância
de Canoas, RS, e o encerramento no de investir na televisão, especial-
estúdio em Porto Alegre. Os custos mente a partir da década de 1990.
de produção e veiculação são absor-
vidos pela Ulbra. 51 Todas as informações sobre o programa
A linguagem do programa não foram fornecidas por:ALBRECHT, Lucas.
foi desenvolvida para quem já tem Informações. [mensagem pessoal].
Mensagem recebida por editora@
editoraconcordia.com.br em 29 mar.
50 Idem. 2007.

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Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 17


Missão Rev. Ernani Kufeld

Estrategias para que a

Igreja cump e os demais foram para as suas casas,


Dedicatória surpreendentemente, ele me disse
que ouviu alí, na escada da igreja, o
Dedico este Colóquio Teológico Pastoral ao Deus Triuno, que me que nunca tinha ouvido antes. Que
deu a vida e a mantém. À minha família que sempre esteve ao meu lado gostava de estar em nosso meio, da
e que em todos os momentos me apoiou e incentivou. À todos os meus forma como nos tratávamos e que-
amigos que de alguma maneira me apoiaram e deram força nestes cinco ria saber mais sobre o que nós cre-
anos e meio de estudos teológicos. À minha namorada Fabrícia, pessoa mos. Apresentei-lhe então o evan-
especial em minha vida. gelho de Cristo, a base de nossa fé
e, assim, lhe mostrei qual era a nossa
Gratidão real finalidade como igreja.
Deus o acrescentou ao grupo e
Agradeço ao meu Deus por mais esta etapa na vida. Ao professor hoje ele inspira este Colóquio Teo-
orientador Prof. Dr. Leopoldo Heimann pela orientação e dedicação e lógico Pastoral: O uso de eventos de
a todos os professores do Seminário Concórdia que participaram da mi- ordem social e recreativa nas con-
nha formação tornando possível este momento. gregações, servindo como estratégia
para o cumprimento da finalidade
maior da igreja, composto de dois
Introdução elas precisem sair a campo, desen-
capítulos que procuram mostrar de
volvam juntamente com o pastor

Saber
forma concisa a finalidade da igreja
para onde se vai e, a tarefa de falar e testemunhar de
e apontar para a comunhão e conví-
principalmente, Cristo para o bairro e a sociedade de
vio social, como uma oportunidade
aonde se quer chegar, sempre foi e um modo geral? E a resposta veio:
missionária que temos em nossas
continuará sendo decisivo e impor- pessoas foram acrescentadas por
mãos.
tante na vida de qualquer pessoa Deus ao grupo de jovens e à congre-
Desta forma, de propósito, o
ou instituição. Desta forma, com a gação que ali existe.
primeiro capítulo trata da finalida-
igreja também não é diferente. Convidei um jovem do bairro
de; para que sabendo aonde quer
Fiz meu estágio em Teologia na para jogar futebol conosco no do-
chegar, a igreja também trabalhe em
congregação “Cristo rei” de Tailân- mingo à tarde. Como ele gostava
amizade e comunhão convidando e
dia, Estado do Pará. Reuniam-se, da brincadeira, não resistiu e veio.
trazendo mais pessoas ao reino de
dominicalmente, de 20 a 50 pesso- Quando paramos o jogo e entramos
Deus.
as; e tínhamos, assim, uma congre- na igreja para o momento devocio-
gação ainda em fase de formação. nal, ele preferiu ficar de fora, espe-
Percebi ali, o quanto era difícil, mas rando o reinício do jogo. E assim foi
1. A Finalidade maior
ao mesmo tempo gratificante, levar um mês, semana após semana. Ele da Igreja
as palavras do amor e do perdão que fez amizade com as pessoas da igreja
Estabelecer finalidades, objeti-
Deus oferece à pessoas que ainda e, até que um dia, ficou sentado na
vos e metas é importante para qual-
não o conhecem. escada, ouvindo o breve estudo bí-
quer organização. Por isso, faz-se
Mas, como envolver as pessoas blico.
necessário também, que igualmen-
da congregação para que, sem que Quando terminamos o encontro
18 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011
Missão

pra a missão
te, a igreja tenha sempre bem claro,
diante de si, qual é a razão de sua
existência e sua finalidade, afim de
que saiba para onde ela caminha e
aonde ela de fato quer chegar.
Entenda-se, assim, que estabe-
lecendo qual é a grande finalidade
da igreja como um todo, teremos
conseqüentemente diante de nós a
finalidade de cada congregação lo-
cal e de cada indivíduo que faz parte
dela ou a compõe; conforme expres-
so pelos confessores do século XVI deveria ser, da igreja cristã: levar o
no artigo VII da Confissão de Au- evangelho de Deus, não somente a
gsburgo: “...uma única santa igreja, muitas pessoas, mas a todas as pes-
que é a congregação dos crentes.”1 soas; até os confins da terra.
Ora, se a igreja é a congregação dos Tem-se acima uma bela resposta,
crentes, a finalidade da igreja passa porém, talvez apenas parcial quanto
a ser automaticamente também a de ao foco da missão a ser desempe-
cada crente que a compõe. nhada ou finalidade a ser atingida,
pela igreja de Cristo. Para se enten-
1.1. A finalidade maior da der a finalidade da igreja de uma for-
igreja é buscar e salvar o ma melhor, é preciso refletir sobre a
missão ou finalidade primeira que
perdido Também a igreja é um instru-
Cristo se propôs a cumprir, ao vir ao
Se Deus mantém os seus filhos, mento nas mãos de Deus”4.
mundo em forma de um ser huma-
crentes em Cristo como seu Salva- no; uma vez que “toda a missão de Mas, embora a missão propria-
dor, aqui neste mundo, é porque Deus para com as pessoas se centra- mente dita seja de Deus, e os crentes
provavelmente ele tem algo para liza a partir de Cristo”3. apenas instrumentos em suas mãos,
que eles façam ou desempenhem Toda a missão na verdade é de isto não significa, que foi tirada, dos
aqui por ele, ou para ele. Deus. Ele mesmo deixou isto bem ombros da igreja, a responsabilida-
E qual é esta finalidade? Uma claro já em Gn 3.15, quando pro- de de levar a mensagem de Cristo
resposta óbvia e certeira é: para meteu que ele mesmo enviaria o para todos.
que estes levem o seu evangelho Salvador. Neste sentido, Vicedom, Toma-se por base aqui, que a
adiante!2 Esta tem sido também, a destaca o seguinte: igreja e, portanto cada crente, é um
grande preocupação, ou ao menos “Pois o atuante sempre é o pró- instrumento nas mãos de Deus, as-
prio Deus triuno, que incorpo- sim como foi Davi, Elias, Moisés,
1 Livro de Concórdia.1997, p. 31.
ra os seus crentes em seu reino.
2 Conforme o mandado de Jesus
em Mt 28. 3 CTCR. 1991, p. 13. 4 VICEDOM. 1996, p. 15.
Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 19
Missão

Paulo e tantos outros. E existe algo


de interessante nisto tudo. Embora
Deus pudesse obrigar os cristãos a
fazer o que ele quer, ou mesmo fa-
zer o que ele deseja sem a sua ajuda,
normalmente ele não costuma agir
assim.
Isto aumenta ainda mais a res-
ponsabilidade destes em relação
à missão de Deus, de modo que se
os crentes não a fizerem, ficará sem
ser feita. Por exemplo: se Davi não
tivesse lutado contra Golias, Golias
provavelmente não teria sido ven-
cido, embora Deus pudesse fazê-lo
sem Davi. Se Elias não tivesse desa-
fiado os profetas de baal e prepara-
do o altar que o Senhor consumiu
com fogo, estes provavelmente não
teriam sido vencidos naquela opor-
tunidade, embora Deus pudesse
vencê-los sem Elias. O fato é que
Deus escolhe e também capacita
para a tarefa proposta, como fizera
com Davi, com Elias e tantos ou-
tros. Cabe aos crentes, portanto,
servir como instrumentos nas mãos lho do Homem veio para buscar e Pregação, evangelizando as-
de Deus e não como empecilhos no salvar quem está perdido”. sim o mundo.5
caminho da missão de Deus. Encontra-se assim nas palavras
do próprio Cristo o motivo de sua Propõe-se aqui, que a tarefa dos
Mas, volte-se aqui à missão que
vinda ao mundo: Buscar e salvar discípulos de Jesus (e isto inclui to-
Jesus veio desempenhar aqui neste
quem está perdido. Toda trajetória dos os cristãos), poderia ser descrita
mundo; uma vez que não se pode
de Jesus, portanto, encaminha-se a com as mesmas palavras que Jesus
desligar a missão dos crentes da mis-
fim de tornar isto possível, desde a descreveu a sua missão; uma vez que
são de Jesus, como se passará a ver
sua encarnação até a cruz do Calvá- os discípulos foram encarregados de
daqui a diante.
rio. Depois disto, Jesus deixou aos continuar a missão de Jesus.
A Escritura Sagrada está cheia de
seus discípulos a seguinte instrução: Isto pode parecer forte e até soar
passagens que falam da tarefa de Je-
“E sereis minhas testemunhas tanto estranho num primeiro momento,
sus, das quais se podem destacar as
em Jerusalém, em toda Judéia e Sa- mas avalie-se a situação mais de per-
palavras do próprio Jesus em Lucas
maria e até os lugares mais distantes to.
5.32 “Eu não vim para chamar os
da terra” At 1.8. Paulo Flor6, por exemplo, escreve
bons, mas para chamar os pecado-
Sobre estas palavras de Jesus, lê- que “uma das recomendações mais
res”, ou ainda, as palavras de Paulo
-se no manual de Evangelização da sublimes que o Salvador Jesus nos
ao jovem Timóteo: “Cristo veio ao
IELB: transmitiu antes de seu sacrifício na
mundo para salvar os pecadores”
Os discípulos, agora já após- cruz achamos registrada no Evange-
(1Tm 1.15). E talvez a passagem
mais bonita e que melhor retrate a tolos (enviados), foram encar-
regados pelo Senhor Jesus de 5 Manual de Evangelização. 2000,
missão de Jesus, sejam as suas pala-
continuar o seu ministério de p. 09.
vras em Lucas 19.10: “Porque o fi-
6 FLOR. S.d.,p. 06.

20 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão

tido, quem entrega a salvação, tam-


bém salva, como o que atira a bóia
para alguém que está se afogando
no meio de um rio.
A igreja Cristã não está neste
mundo para permanecer na
passividade. O fato de ser Deus
quem chama, congrega, ilu-
mina e santifica a igreja, não
quer dizer que a igreja não faz
nada. Esta premissa significa,
isto sim, que a igreja não faz o
que ela quer ou o que ela bem
entende, mas que a igreja está
neste mundo para fazer a obra
de Deus e para servir de ins-
trumento nas mãos de Deus
para a salvação deste mundo.7

Desta maneira, os cristãos pas-


sam a serem vistos ao mesmo tempo
como objetos da salvação oferecida
por Deus, e agentes, instrumentos
nas mãos de Deus - entregadores
desta salvação; o que também os
torna em salvadores de perdidos.
lho de São João 13:34: “Novo man- o plano da Salvação, estabelecido Lemos no Manual de Evangelização
damento voz dou, que vos ameis por Deus, o Pai, Jesus olha para seus da IELB:
uns aos outros; assim como eu vos discípulos e diz: “assim como o Pai Sendo vasos de barro, portado-
amei.” me enviou eu também envio vocês”. res do tesouro do evangelho, os
Tem-se assim já uma evidência Ora, está claro que o Pai enviou cristãos farão o máximo para
de que Jesus estendeu parte de sua Jesus com a missão de salvar os seres não colocar obstáculos a nin-
missão também aos seus seguido- humanos, perdidos e condenados guém, e farão o que estiver a
res. O que motivou Jesus a vir para por causa de seus pecados. Se Jesus seu alcance para demonstrar o
buscar e salvar quem está perdido envia os seus discípulos assim como poder transformador do evan-
foi o amor que Deus tem pelos se- o Pai o enviou, então Jesus também gelho. O desejo dos cristãos é
res humanos, e Jesus estende esta os envia para salvar pessoas. que todos possam se alegrar
motivação a seus seguidores dizen- Chega-se assim a um ponto in- com esta maravilhosa bênção.8
do: amem também, como eu tenho teressante. Tanto Jesus quanto os
amado vocês. E esta, com certeza, seus seguidores tem como finalida- Estando claro que a finalidade
não é uma tarefa fácil que a igreja de, salvar pessoas do castigo eterno. dos seguidores de Jesus também é
tem diante de si, mas necessária e Como isto se torna possível? buscar e salvar o perdido; e que as-
urgente a ser feita. É claro que os seguidores de Je- sim farão o máximo para não colo-
Mas, as evidências da extensão da sus não desempenham a mesma car obstáculos a ninguém, fica claro
missão de Jesus aos seus seguidores função neste processo. À medida que estes então deveriam usar todos
não param por aí. Sugere-se ainda que alguém se torna um mensageiro
que a passagem de maior relevância de Deus, torna-se um entregador de 7 SEIBERT. 1988, p. 25.
é Jo 20:21. Depois de ter cumprido Salvação para as pessoas. Neste sen- 8 Manual de Evangelização. 2000,
p. 14.
Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 21
Missão

os meios a seu alcance para que bus- serviço e testemunho.9 função da igreja de Cristo
car e salvar o perdido se torne pos-
sível. Toda vez que estes objetivos se Esta é uma das funções primárias
Desta forma, entra em cena aqui transformarem em finalidade, a da igreja senão a primeira. Adorar a
aquilo que costumeiramente é cha- igreja provavelmente terá proble- Deus faz parte do ser povo de Deus.
mado de as cinco áreas de ação da mas, pois terá perdido o seu rumo e Através da adoração, a igreja “ama,
igreja. E cabe talvez, antes de qual- o seu alvo; andará em círculos, vol- honra, respeita e aclama ao seu
quer coisa, atentar para um detalhe: tada somente para si. Deus”.11
por vezes manter as cinco áreas de Pode-se dizer ainda, que a igreja
ação da igreja, que são: adoração, 1.2 Os objetivos e funções ou o cristão adora a Deus, porque
recebe infinitas bênçãos de Suas
comunhão, educação, serviço e tes- da igreja
temunho, em constante funciona- mãos e, acima de tudo, o perdão.
Uma vez estabelecida a finali- Isto o motiva a Louvar a Deus. Lou-
mento é confundido ou visto como
dade última da igreja, como sendo va e adora porque experimentou
a finalidade da igreja. O que se pro-
buscar e salvar quem está perdido, que é bom ser cristão.
põe aqui nem sempre é o que por
convém que analisemos, mesmo Neste sentido, Warren, Teólogo
vezes ocorre. Mas, entendamos o
que brevemente os objetivos e as americano, escreve o seguinte:
porque disto.
funções que a igreja precisa desem- Não podemos adorar a Deus
Estabelecido que a finalidade ou
penhar, a fim de que fato seja um como se fosse uma obrigação, de-
missão da igreja é buscar e salvar o
instrumento nas mãos de Deus, o vemos adorá-lo porque queremos.
perdido considere-se assim que, as
autor e propulsor da missão. Devemos nos alegrar em
cinco áreas acima citadas, devem ser
O teólogo brasileiro, Erní Sei- expressar o nosso amor a
vistas como objetivos e funções que
bert, escreve o seguinte sobre a mis- Deus.12
a igreja vai procurar desempenhar,
são da igreja e sua relação com estas Assim sendo, se a
para em última análise, cumprir
cinco funções ou objetivos: adoração não é uma
com a sua finalidade real.
Pode-se comparar o objetivo da obrigação e sim uma
Desta forma, pode-se dizer sim,
igreja com um diamante lapi- conseqüência de cau-
que indiscutivelmente é função e
dado com cinco faces. Cada sa e efeito diante do
objetivo da igreja de Cristo adorar,
uma destas faces enfatiza um amor de Deus, também
educar, servir, testemunhar e man-
aspecto diferente da mesma o cumprir a missão e pro-
ter e exercitar a comunhão.
missão que Deus confere a sua curar alcançar a finalidade
É preciso, porém, que se cuide,
igreja.10 de buscar e salvar o perdido
para que as funções e os objetivos
não se transformem na finalidade não o será uma obrigação e sim,
Dentro desta perspectiva, pode- um privilégio. Isto porque a adora-
da igreja. Isto seria trágico, uma vez mos dizer então que para que o alvo
que surgiria, assim, uma igreja quase ção está intimamente ligada com o
da igreja seja alcançado, todas as
que voltada para si mesma; que tra- cinco funções da igreja precisam es- 11 SEIBERT. 1988, p. 28.
balha para si mesma, ensina para si tar em pleno funcionamento, e não, 12 WARREN. 1998, p. 127.
mesma e assim por diante. de forma que se tornem as finalida-
Há, é claro, quem possa argu- des da igreja, mas, de forma que aju-
mentar que isto não é bem assim. dem a mesma a alcançar o seu alvo
Mas sabendo que a pratica reflete de cumprir com a tarefa que Jesus
aquilo que pensamos e ensinamos; é deixou: Buscar e salvar o perdido.
preciso ter cuidado.
A igreja possui cinco objetivos 1.2.1 Adorar é objetivo e
em torno dos quais está orga-
nizada toda a sua ação: ado-
9 Revista Cristo para todos. 1994,
ração, comunhão, educação
p. 08.
10 SEIBERT. 1988, p. 28.

22 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão

culto; e segundo Seibert13 , “O culto um objetivo do povo de Deus, que Então não seremos mais como
e a missão não devem andar separa- contribui para cumprir a missão crianças, arrastados pelas on-
dos.” proposta por Deus e deixada por Je- das e empurrados por qual-
Não se quer entrar em detalhes sus aos seus discípulos. quer vento de ensinamentos de
quanto ao culto, mas julga-se opor- pessoas falsas”.15
tuno dizer aqui que, em ultima 1.2.2 Ensinar é objetivo e
análise, o culto também serve para Assim, é função e objetivo da
função da igreja de Cristo igreja ensinar, a fim de que seus cren-
buscar e salvar o perdido. Enquan-
to os crentes adoram ao seu Deus, Educar é uma função e objeti- tes conheçam a verdadeira doutrina
Deus também os serve perdoando- vo constante da igreja, e ela precisa cristã, e desta forma, se mantenham
-lhes os pecados e fortalecendo-lhes ensinar tanto os neófitos quanto as firmes, para que não tornem a estar
a fé. Assim, no culto, Deus sustenta pessoas já pertencentes à igreja há perdidos por meio de falsos ensina-
e mantém aquele que já foi buscado mais tempo. mentos. Sendo ensinados e estando
e salvo, afim de que, não torne a se Também a educação (didaska- firmes na doutrina, também estarão
perder. Isto sem contar que ele sairá lia), compreende a ação missionária equipados para cumprir a finalidade
dali, animado a buscar e sal- da igreja de buscar e salvar o perdi- principal da igreja, deixada por Je-
var outros perdidos; tor- do. Através da educação os crentes sus: Buscar e salvar quem está per-
nando assim, a sua vida também são fortalecidos, a fim de dido.
como um constante culto que, através do conhecimento da
de adoração, à medida em palavra de Deus sejam animados e 1.2.3 Testemunhar é
que procurará viver de equipados para o desempenho de objetivo e função da
acordo com a palavra suas funções, tarefas e finalidade.
O próprio Jesus aponta, em igreja de Cristo
de Deus.
Ora, se abas- Mateus 28, o ensinar os discípulos Testemunhar a sua fé também é
tecido pela como uma função da igreja; quando um objetivo e uma das funções da
palavra de ele diz, “ensinando-os a obedecer a igreja, e por sinal uma função muito
Deus duran- tudo o que tenho ordenado a vocês”. importante. Já os primeiros cristãos
te a adoração É claro que isto também se inclui testemunhavam a sua fé. Güths, te-
dominical, no “assim como o Pai me enviou ólogo luterano, escreve que “com
procurar vi- eu também os envio”. Além disso, entusiasmo os primeiros cristãos ex-
ver de acordo uma das tarefas realizadas por Jesus punham a mensagem e diziam: “eu
com a palavra foi ensinar os discípulos, e assim ele também sou um deles”16.
de Deus, con- mesmo nos deu um belo exemplo de E esta função é a que provavel-
seqüentemente suas que o ensino é necessário. mente deixa transparecer de forma
palavras e seus atos Sobre o ensino, Warren14 diz que mais ampla a sua intima ligação com
estarão voltados “como igreja, não somos somente a finalidade de buscar e salvar o per-
para cumprir, na chamados para alcançar as pessoas, dido. Como já dito acima, quando
vida diária, com os mas também para ensiná-las”. a igreja deixa de querer buscar e sal-
propósitos de Deus: E também o apostolo Paulo nos var o perdido, deixa de ser igreja. E a
buscar e salvar o per- explica o por que desta necessidade, respeito desta função, Seibert escre-
dido. Assim, adora- dizendo: ve o seguinte:
ção é uma função e “Desse modo todos nós chega- É através desta atividade que
remos a ser um na nossa fé e no se manifesta com mais clareza,
nosso conhecimento do filho de o propósito de Deus em salvar
Deus. E assim seremos pessoas o mundo. Quando a igreja não
maduras e alcançaremos a al- se envolve na evangelização,
tura espiritual de Cristo.
15 Ef 4.13-14a.
13 SEIBERT.1988, p. 28. 14 WARREN. 1998, p. 131. 16 GÜTHS. 1990, p. 09.

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Missão

nega o que lhe é mais próprio.17 Receber o amor de Deus, falar que acima de tudo, precisa ter como
deste amor e não praticá-lo não con- finalidade buscar e salvar o perdido,
Estas palavras por si só já nos diz com a realidade do ser cristão; e, da mesma forma como Jesus o fazia.
mostram o quanto esta função é todo o serviço inclui as maneiras Não se quer com isto dizer que
importante para a igreja de Cristo. como o cristão responde as neces- os serviços de ação social devem
Aliás, testemunhar a fé, tem uma sidades das pessoas; uma vez que, ser feitos sempre com o objetivo
intima ligação com missão, ou ain- “sendo Deus misericordioso para de ganhar as pessoas para a igreja,
da, pode-se dizer que testemunho é conosco, aprendemos a ter miseri- comprando-as com algum mimo
missão. córdia com nossos irmãos.”18 ou mesmo necessidade suprida;
O testemunho, portanto, vai Na revista Cristo para todos19, mas, quer-se dizer que não se deve
muito além de recitar um dos cre- define-se o serviço como a “ação tornar a igreja uma mera institui-
dos no culto público. O testemu- missionária da igreja, na qual os cris- ção social, não governamental. É
nho não pode ser para si mesmo, tãos procuram servir a Deus, parti- preciso ter em mente que acima
ter um fim em si próprio ou apenas cularmente atendendo os irmãos de procurar o bem estar físico das
fazer parte de um rito. Testemunhar necessitados”. pessoas, Deus deixou para a igreja
tem relação com, mas é mais amplo Desta forma, sendo o serviço em a missão de salvá-las do terrível cas-
que, confessar a fé, e, portanto, tes- última análise um serviço à Deus, tigo eterno que as aguarda longe de
temunhando, a igreja sempre teste- também este não pode terminar em Cristo. Por isso, também é objetivo
munhará para fora de seu âmbito, si. A igreja não deve apenas servir e função da igreja servir; e também
para o perdido, afim de buscá-lo e a si. O serviço precisa também sair o serviço (diakonia) precisa servir à
salvá-lo. das paredes e do pátio do templo, e igreja para alcançar o alvo: buscar e
ser feito também em relação aos de salvar o perdido.
1.2.4 Servir é função da fora.
igreja de Cristo Assim, também o serviço é uma 1.2.5 Exercitar a
função e um objetivo que a igreja comunhão é função da
17 SEIBERT. 2000, p. 38. não pode deixar de desempenhar, e
igreja de Cristo
18 BONHOEFFER. 2003, p. 15. Da prática da comunhão pode-
19 1994, p. 14. -se dizer, inicialmente que se trata
da relação dos cristãos com Deus e
de uns com os outros.
Para que haja uma boa comu-
nhão dos irmãos, uns com os ou-
tros, é indispensável que haja antes a
comunhão com Deus; uma vez que
é esta comunhão que impulsiona a
comunhão de uns com os outros.
A grande pergunta agora é:
como a comunhão pode servir para
buscar e salvar o perdido?
A resposta com certeza não é fá-
cil, no entanto, serão sugeridos, no
próximo capítulo, alguns aspectos e
algumas sugestões de como a igreja
pode se organizar, em suas ativida-
des comunitárias, a fim de que ela
possa procurar melhor cumprir com
a missão a ela deixada por Jesus.

24 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão

2. As atividades sociais que, desempenhe esta função, a sa- povo de Deus exerce e quer exercer
ber, o exercício da comunhão tam- uma comunhão e uma amizade de
comunitárias com bém através das atividades recrea- uns para com os outros, horizontal-
vistas à finalidade da tivas e comunitárias, sem que estas mente, porque Deus os incluiu em
Igreja se tornem a finalidade, mas sirvam, uma comunhão ainda mais elevada,
como um instrumento que a auxi- unindo-os com Cristo e, conse-
Até aqui, procurou-se definir a liará a buscar e salvar cada vez mais qüentemente, com Deus, vertical-
finalidade para a qual Deus criou e pessoas; afim de que, se cumpra a mente.
mantém a igreja na terra; a fim de real finalidade para a qual a igreja Escreve o apóstolo Paulo25: “Vo-
que não hajam mal entendidos so- está na terra. cês são o corpo de Cristo, e cada um
bre o rumo que a igreja deva seguir, de vocês é uma parte deste corpo”. E
e assim, não haja uma perda de iden- 2.1 Igreja: Comunhão com ainda26: “Há um só corpo, e um só
tidade da mesma. Isto explica, o por Espírito, e uma só esperança, para a
que do primeiro capítulo ser até um
Deus e com as outras
qual Deus chamou vocês”.
pouco mais extenso que este. Deste pessoas É claro que Paulo fala de comu-
modo é preciso lembrar que a igreja Um dos objetivos da igreja cris- nhão em torno de palavra e sacra-
está sempre, em tudo aquilo que faz, tã, conforme já expressado anterior- mentos, mas, provavelmente, ele
a serviço de Deus20. mente, é a comunhão dos crentes de tem em mente não só a comunhão
Sobre a vida prática da igreja, uns com os outros. É, portanto, para dos crentes em torno da palavra e
Kunstmann, teólogo luterano, man- a igreja, motivo de alegria ver os ir- sacramentos, mas também no con-
tém a seguinte posição: mãos na fé em um relacionamento vívio fraternal, e porque não dizer,
Cada agremiação de homens fraterno e harmonioso, em uma bela social de uns com os outros. Isto
é fundada com determina- relação de amizade entre irmãos que transparece, quando ele diz:
das finalidades, como sejam, confessam a mesma fé, e perseveram Por isso eu, que estou preso,
diversões, cultura, prática de em torno da palavra de Deus. porque sirvo o Senhor Jesus
esportes e de música, etc... A fi- Sobre este aspecto da comuni- Cristo, peço a vocês que vivam
nalidade dá a cada associação dade do povo de Deus, já dizia o de uma maneira que esteja de
o seu caráter particular. Mu- salmista, no período do Antigo Tes- acordo com o que Deus quis
dando, porém, de finalidade, tamento: “Como é bom e agradá- quando chamou vocês. Sejam
também o caráter muda, e a vel que o povo de Deus viva unido sempre humildes, bem educa-
entidade deixa de ser o que é.21 como se fossem irmãos”.23 dos e pacientes, suportando uns
Para se falar sobre a vida comuni- aos outros com amor.27
Pensando nisto, neste segun- tária ou social, dentro da sociedade,
do capítulo, irá se propor a prática que é a igreja, é preciso ter pressu- Ora, serem educados e pacientes,
da comunhão entre os membros postos estabelecidos; como, a mola suportando-se com amor, não pode
da igreja sob dois aspectos22, como propulsora da comunhão cristã, por se referir a outra coisa senão a comu-
sendo também um objetivo e uma exemplo. Sobre isto, escreve o teó- nhão, a amizade, a convivência dos
função da igreja que poderá auxiliá- logo alemão, Dietrich Bonhoeffer: irmãos; ou seja, a relação horizontal
-la, de forma prática, a incluir novos Determinante para a nos- entre os irmãos da fé. E isto, tem
indivíduos no grupo, e por conse- sa fraternidade é aquilo que fortes chances de ocorrer de forma
qüência, atingir a sua finalidade. a pessoa é a partir de Cristo. harmoniosa porque Deus os cha-
O desafio da igreja é realizar isto Nossa comunhão consiste uni- mou, primeiramente, em seu amor,
sem mudar o seu caráter; de modo camente no que Cristo fez por para a comunhão vertical, com ele.
nós dois.24 Neste sentido, é perceptível tam-
20 SEIBERT. 1988, p. 26.
bém esta relação de comunhão de
21 KUNSTMANN. 1946, p. 67. Diante disto, pode-se dizer que o
22 Estes aspectos serão tratados em 25 1Co 12.27.
2.1 – a saber: comunhão vertical 23 Sl 133.1. 26 Ef 4.4.
e horizontal. 24 BONHOEFFER. 2003, p. 16. 27 Ef 4.1-12.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 25


Missão

Deus com o povo e, deste povo uns


com os outros, na forma como vi-
viam os primeiros cristãos, confor-
me descrito em atos dos apóstolos:
Todos os que criam estavam
juntos e unidos e repartiam
uns com os outros o que ti-
nham. Vendiam as suas pro-
priedades e outras coisas e di-
vidiam o dinheiro com todos,
de acordo com a necessidade de
cada um.Todos os dias, unidos,
se reuniam no pátio do Tem-
plo. E nas suas casas partiam
o pão e participavam das refei-
ções com alegria e humildade.
Louvavam a Deus por tudo e
eram estimados por todos. E
cada dia o Senhor juntava ao
grupo as pessoas que iam sendo
salvas.28

Têm-se assim, belos indícios de


que, além da relação com Deus e os
meios da Graça, havia também uma
forte relação social, comunitária e
de amizade entre os que partilha-
vam a mesma fé. E neste meio tem-
po, o Senhor ia lhes acrescentando
mais pessoas.

2.2 O diferencial da
relação comunitária da
igreja
Se olhada à parte da palavra de
Deus, uma comunidade cristã
não difere em quase nada de
qualquer comunidade ou
organização social. Ela se
organiza, se estrutura,
elege diretorias, procura
manter e até ampliar
seu patrimônio e de-
senvolve ativida-
des sociais diver-
sas entre as pessoas

28 At 2.44-47.

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Missão

que a grande diferença estará na vistas a buscar e salvar perdidos.32


pratica do perdão de uns para com Por isso, tudo o que a igreja faz,
os outros; que nos cristãos é impul- também no que se refere a ativi-
sionada, a partir da comunhão ver- dades sociais recreativas, deveria
tical, dos crentes com Deus, ou de sempre de alguma forma procurar
Deus com os Crentes. Isto transpa- ser um instrumento para procurar
rece na primeira carta de João, onde atingir os perdidos com o evange-
se lê: “nós amamos porque Deus lho de Cristo. E isto pode acontecer
nos amou primeiro”.30 através do exemplo, da atitude e éti-
que dela participam. Com isto, quer-se atentar para ca do cristão e do pregar e ensinar a
O que então pode fazer, aos o fato de que todas as atividades de palavra.
olhos dos de fora, a igreja ter uma congregação deveriam poder Quer-se propor, assim, que o
um diferencial, se comparada a ser vistas com bons olhos pelos de jogo de futebol, da juventude da
um clube social? Ou ainda, qual fora, pela maneira como são realiza- congregação, ou o jogo de bocha
é este diferencial? das e pela maneira que os cristãos se dos leigos, os almoços da congre-
A igreja sabe que a resposta é a tratam uns aos outros ou perdoam gação, jantares, aniversários, jogos
sua finalidade, mas os de fora não uns aos outros, afim de que, quem de mesa e tantas outras atividades
o sabem. Portanto, a leitura que olhasse de fora pudesse dizer: “poxa, sociais que fazem parte da vida da
por eles será feita, não será queria ser um deles”. igreja, podem servir para atrair ou-
quanto à finalidade da igreja, Isto também inclui a responsa- tras pessoas a comunhão horizon-
mas quanto à ação que transpa- bilidade que os pastores tem para tal; movidas talvez até pela beleza
rece aos seus olhos a partir do que com o bom testemunho para os de ou fraternidade que há naqueles
a igreja faz. Eles julgam os crentes fora, mesmo, e talvez principalmen- momentos, para quem sabe, poder
a partir do que vêem. te, fora do púlpito. Isto Paulo alerta talvez de alguma forma, incluí-los
Neste sentido, Hulme, um teó- em sua primeira carta ao jovem Ti- mais tarde também na comunhão
logo luterano; atenta para um fato móteo: “é necessário que ele tenha vertical com Deus, que por sinal é a
curioso: bom testemunho dos de fora, a fim mais importante.
Em outras palavras, a diferen- de não cair no opróbrio e no laço do Um belo exemplo, de usar um
ça não reside no desempenho diabo”.31 ponto em comum para trazer pesso-
de atividades diferentes, mas Fica evidente então que o bom as a Cristo, encontra-se na associa-
no “modo” como estas ativida- testemunho, ou a boa imagem, pode ção brasileira dos Atletas de Cristo.
des são feitas.29 ser decisiva para abrir ou fechar O amor ao esporte é o ponto em co-
portas para que o evangelho possa mum de todos eles; e a amizade que
Se a diferença existe aos olhos ser anunciado e o perdido possa ser eles tem entre si e com outros atletas
dos de fora, ou é perceptível, a par- salvo. faz com que eles tenham oportuni-
tir do modo como a igreja conduz dades de falar e mostrar para os ami-
as suas atividades, uma boa comu- 2.3 Comunhão horizontal: gos e profissionais do esporte, como
nhão dos crentes, horizontalmente, é bom ser cristão.
uma porta para a
é fundamental para que haja um Roberto Thomé, que foi repór-
bom testemunho para o mundo que comunhão vertical! ter da Rede Globo de televisão,
rodeia a congregação. É preciso ter em mente que nem falou o seguinte sobre os atletas de
É claro que, a igreja é formada tudo o que a igreja faz é somente ir Cristo: “Profissionais do esporte,
por pessoas que ainda continuam buscar e salvar o perdido, propria- mas ao mesmo tempo, apóstolos da
sendo pecadoras (embora já salvas), mente dito; no entanto, tudo deve- palavra, os atletas de Cristo são um
e que assim sempre haverá falhas em ria ser feito na perspectiva ou com exemplo que ajuda a reabilitar o país
suas relações de uns com os outros. do vale tudo”.33
Mas neste sentido, pode-se dizer
30 1Jo 1.4-9. 32 SEIBERT. 1988, p. 83.
29 HULME. 1981, p. 85. 31 1Tm 3.7. 33 RIBEIRO. 1995 (Contracapa).

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 27


Missão

Trazendo isto para a realidade Cristo (Mt 28.19; At 1.8) e Um outro exemplo disto é a his-
de congregações, poderia-se dizer movidos por um poderoso im- tória de Eliana Leite,35 jogadora da
assim: promovemos encontros de pulso interior de partilhar as seleção brasileira de voleibol nos
convívio social e fortalecimento bênçãos da comunhão cristã, anos 70. Eliana, ora passava por di-
de amizade, mas ao mesmo tempo, com o mundo.34 ficuldades e ora se reerguia em sua
oportunidades para reabilitar pes- carreira profissional. Agora estava
soas que caminham rumo a conde- Desta maneira, o convite a um na seleção de Vôlei feminino, mas
nação eterna. joguinho de futebol no domingo à não via sentido em sua vida. Em
Um belo exemplo disto é, o caso tarde, um almoço da congregação 1978, foi convidada para participar
que inspirou esta pesquisa, descrito ou um jogo de bocha com os leigos; de um encontro dos Atletas de Cris-
na introdução deste trabalho. E nes- ou seja, um convite à comunhão ho- to, e o resultado foi o seguinte:
ta direção aponta também o parecer rizontal, pode se tornar uma porta A diferença entre aquela tur-
da comissão de teologia da igreja lu- aberta para uma possível futura co- ma e os grupos que já havia vi-
terana do Sínodo de Missouri: munhão vertical também. A pessoa sitado era a busca de Deus e o
Os crentes, exercitando-se na é convidada para a comunhão hori- objetivo de levar outros atletas
comunhão com Deus e entre zontal e de bônus, encontro após en- ao encontro de Jesus.
si, fortalecendo-se mais e mais, contro, é lhe apresentado também o Saiu dali resolvida a voltar
se empenham em propagar amor de Deus, que realmente faz a
a comunhão. Isto eles fazem grande diferença e a inclui também 35 Primeira mulher a participar dos atle-
em consonância com o grande na comunhão vertical. tas de Cristo. A história completa está
nas páginas 79-82 de Atletas de Cristo,
mandamento missionário de 34 KUNSTMANN. 1946, p. 17. citado neste trabalho.

28 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão

para Cristo e com a visão de social e recreativa de uma congre- e salvar cada vez mais pecadores da
sua participação no voleibol gação tem uma relação, mesmo que condenação eterna.
modificada. Até então achava indireta, com a verdadeira finalida- Para que isto se torne possível,
que tinha conseguido tudo por de da igreja, que é buscar e salvar o todas as atividades que a igreja de-
seus próprios esforços. Alí en- perdido. Por isto, estas atividades sempenha, devem ser realizadas
xergou a mão de Deus em sua também deveriam ser incentivadas com os olhos fixos na finalidade de
vida esportiva... Começou a fa- afim de que, na medida que há um Cristo ao ter vindo ao mundo.
lar de Jesus para as colegas do bom testemunho de tais atividades Desta maneira, também as ati-
time, levando Bíblia até para horizontalmente, além de desenvol- vidades que, aparentemente, não
as adversárias.36 ver a amizade e a comunhão entre teriam nada haver com a pregação
os irmãos na fé, abram-se portas da palavra de Deus, devem servir a
Nesta organização chamada para apresentar o amor de Deus e, esta finalidade, pois, quando a igre-
Atletas de Cristo, há uma relação assim a comunhão vertical, àqueles ja deixa de buscar e salvar perdidos
bastante extensa de atletas que en- que ainda estão de fora do reino de perdeu, o que lhe é próprio e deixou
contraram a Cristo através do teste- Deus. de ser igreja para se tornar uma mera
munho de outros cristãos nas pistas, reunião e entidade social.
quadras e campos. Conclusão Atividades sociais e recreativas
Também a Sociedade Bíblica do devem, portanto, ser incentivadas,
Brasil chegou a publicar uma “Bí- Buscar e salvar o perdido sempre não de modo que se tornem a fina-
blia personalizada” para os Atletas foi e sempre continuará sendo a fi- lidade da reunião do povo de Deus,
de Cristo e para a Copa do Mundo nalidade maior de Deus e também mas de forma que congreguem e ge-
de Futebol. da igreja que ele criou e preserva na rem amizade entre os irmãos na fé
Desta forma, pode-se dizer que terra. As ações de Deus em favor dos e também abram possíveis portas
chamando pessoas para uma ati- seres humanos ao longo da história para que o evangelho seja pregado e
vidade social em comum, pode-se do seu povo têm mostrado isto. novas pessoas sejam incluídas na co-
chamar ela também ao evangelho e Jesus veio para buscar e salvar o munhão vertical com Deus, através
oferecer-lhe Jesus à elas. E desta for- perdido e estendeu esta tarefa à sua da fé em Cristo Jesus.
ma, pode-se dizer que, a atividade igreja. Esta, por sua vez, deveria pro- Rev. Ernani Kufeld é pastor da Igreja Evangélica
curar, de todas as maneiras levar, o Luterana do Brasil em Aracaju-SE.
36 RIBEIRO. 1995, p. 80. evangelho a cada vez mais pessoas

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LIVRO de Concórdia. As confissões da igreja Evangélica Luterana. Trad. Arnaldo Schuler. Porto Alegre: Concórdia, 1997
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WARREN, Rick. Uma igreja com propósitos. Traduzido por Carlos de Oliveira. São Paulo: Editora Vida, 1998.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 29


Artigo Rev. Martinho Rennecke

Uma breve reflexão sobre algumas influencias do reformador Martinho Lutero na mudança de paradigmas na
missão, ou seja, na manifestação (Epifania) de Deus ao mundo, através de seu povo.

O modelo tradicional de Missão e tantismo histórico não respondeu a tal expectati-


va. Antônio Gouvêa Mendonça contata que, na
Evangelismo verdade, desde a sua inserção no Brasil, o protes-

No modelo tradicional de evangelismo presente tantismo se orientou por uma espiritualidade de


nas igrejas históricas, é necessária a presença acomodação, caracterizada por desviar os olhares
de um pastor e de uma congregação. Em conseqüência, da história e transferir para o celeste porvir (Men-
há a necessidade de prover um salário e uma casa para donça 1984). Restou à igreja aguardar passiva-
o pastor e sua família morarem. Além disso, também mente um advento apocalíptico que faça insurgir
existe a preocupação de construir um templo para reu- ‘um novo céu e uma nova terra’. (O Pastor Urbano.
nir as pessoas. Só então, se começa a falar em missão e
evangelismo.
Outra preocupação presente neste modelo tradicio-
nal é a questão administrativa. Se a congregação é pe-
quena, há problemas financeiros que impedem maior
investimento no evangelismo. Se a congregação é gran-
de, o pastor tem quase todo seu tempo ocupado no pre-
paro dos trabalhos, estudos, sermões e visitas pastorais.
Novamente aqui, a evangelização fica em segundo pla-
no.
Este modelo centrado no trabalho e na presença do
pastor, além de ser oneroso, faz com que as atividades
na congregação e em sua função na sociedade, andem
em passos lentos, quando, muitas vezes, nem aconte-
cem. Acontecem apenas as atividades de manutenção.
“Caracterizado por um perfil elitista, esse modelo
sempre teve grandes dificuldades para a aproximação
das massas. Tal distanciamento da cultura brasileira já
podia ser observado nas primeiras tentativas de inser-
ção dos valores protestantes no Brasil Colonial, feitas
por holandeses no Nordeste brasileiro, no século XVII,
conforme afirma Sérgio Buarque de Holanda:
Ao oposto do Catolicismo, a religião reformada
oferecia nenhuma espécie de excitação aos sentidos
ou à imaginação dessa gente, e assim não propor-
cionava nenhum terreno de transição por onde sua
religião pudesse acomodar-se aos ideais cristãos
(1996:65).” (O Pastor Urbano. Wander de Lara
Proença. Pg. 52)

“O modelo de pastorado desenvolvido pelo protes-

30 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Artigo

Wander de Lara Proença. Pg. 61) mais. (Ex do trem, onde o pastor é o maquinista e os
membros são os passageiros de final de semana).
Por trás deste modelo tradicional de igreja, existe
uma visão no que diz respeito à função da igreja. Neste Alguns aspectos históricos como
caso, a tarefa principal, senão única da congregação, é
pregar a mensagem do Evangelho. Se for somente isto,
causas deste modelo
então uma pessoa apenas, no caso o pastor, é capaz de Pode-se apontar alguns fatores históricos que leva-
realizá-la. Precisará se expressar bem, ter o domínio de ram a esta visão de igreja. O mundo que viu surgir a
ensinar, de aconselhar, de pesquisar e orientar. Neste igreja cristã estava familiarizado com classes sacerdo-
caso, deverá cursar um curso de Teologia e posterior- tais. Os judeus tinham sacerdotes e sumo-sacerdotes.
mente, uma pós-graduação. Normalmente um pastor Os pagãos não eram em nada diferentes em suas reli-
dá conta do recado, para até 1000 pessoas, às vezes giões às deusas e deuses. O imperador era o pontífice
máximo. Para espanto de todos, a igreja cristã não ti-
nha uma classe sacerdotal. Era, na sua origem, um mo-
vimento leigo. Tinha líderes, os presbíteros ou bispos,
mas não tinha sacerdotes separados do povo. Cada um
e todos eram sacerdotes. Não se conhecia a distinção
entre clero e leigos, comum no judaísmo e posterior-
mente introduzida na igreja católica.
No cristianismo pré-niceno, período que vai de 100
a 325, ganha força e se estabelece a distinção entre um
corpo clerical e os leigos. Algumas tarefas foram consi-
deradas santas ou demasiadamente espirituais para os
cristãos em geral e, em razão disso, atribuídas somente
ao clero.
“O Evangelho é a mensagem da Salvação de Deus
para o homem, realizada por Jesus Cristo na cruz
e na ressurreição. A pecaminosidade do homem
é evidente na totalidade de sua vida como indi-
víduo e como membro da raça humana. O mal é
uma realidade tanto do ponto de vista da dimen-
são intelectual como da dimensão física ou social
da vida e das estruturas humanas. A salvação de
Deus transforma o homem na totalidade de sua
vida, destarte afetando tanto sua vida como suas
estruturas. Dar apenas um conteúdo espiritual à
ação de Deus no homem, ou dar somente uma di-
mensão social e física à salvação de Deus, são here-
sias antibíblicas e, como tais, devem ser rejeitadas
pelos evangélicos.” (A Evangelização e a busca de
liberdade, de justiça e de realização pelo homem.
Samuel Escobar. P.186.)

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 31


Artigo

Sob a influência do gnosticismo, muitos cristãos co- lugar onde ‘se prega o evangelho de modo puro e onde se
meçaram a achar que o mundo material era mau; esta administram corretamente os sacramentos’. Assim, inves-
atitude foi reforçada pela divisão de alma e corpo, cor- tiu-se alto na sólida formação teológica dos pastores.
rente na filosofia grega. Esta idéia da rejeição do mun- Esta foi se tornando cada vez mais demorada, cara e
do, acreditando que ele não pertencia ao Deus Pai, fez especializada, e, por conseguinte, mais distanciada dos
com que a igreja se visse como uma comunidade me- membros.
diadora da eterna salvação aos indivíduos. (Hagglund, Outrossim, devido às heresias freqüentes nas igrejas
29-33) (Hulme, 61-63) da época, o melhor antídoto era encorajar os crentes a
“A Igreja não é somente santa da mesma forma que seguir as diretivas dos bispos, que eram vistos como os
uma pessoa (Ef 5.26-27), mas como a Igreja dos garantidores da tradição apostólica.
santos que habitam a cidade. Ela é santa porque A espiritualidade também era vista como uma exis-
foi separada para executar uma missão, cujo palco tência orientada em oposição ao material e corporal, o
é a cidade... Ainda existe uma dualidade não com- que reflete também a concepção católica tradicional.
preendida por muitos, mas, se o pecado habitava Na prática o clero deveria distanciar-se do mundo, pois
na cidade nesta habitava o pecador, então não só eles só poderiam viver exemplarmente a sua vida reli-
o pecador era santificado, mas também a cidade.
Nesse aspecto, a Igreja exerce a função de santificar
a cidade. Agostinho destaca a Cidade de Deus en-
quanto paradigma da comunidade santa presente
no mundo (Agotinho 1190:421)”. (O Pastor Ur-
bano. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg.164)

Outro fator historicamente importante foi a cons-


tantinização (313) da Igreja. Quando a Igreja se aliou
com a estrutura de poder do Estado, surgiu um novo
relacionamento que suprimiu certas funções litúrgicas,
especialmente as funções referentes à comunidade dos
leigos.
Uma situação parecida deve ter influenciado a his-
tória do luteranismo brasileiro. O discurso teológico
sobre sacerdócio geral de todos os crentes não se efe-
tiva na prática, que é fortemente centrada na figura do
pastor, devido à herança histórica do luteranismo do
‘senhor territorial’ especialmente na Prússia. Com o
passar do tempo e o advento da igreja estatal, o pastor
passou a ser funcionário público, agente do governo.
Acentuou-se a distinção entre pastor e leigos. O pastor
luterano tinha prestígio, não por causa do evangelho
que pregava, mas por sua posição e sua condição de
funcionário público.

Alguns aspectos teológicos como


causas deste modelo giosa em distância do mundo.

Causas teológicas também podem ter influenciado Paradigmas de um novo modelo de


esta visão restrita da função da igreja e sua centralização Evangelismo e Missão
no pastor. Definia-se Igreja a partir de uma interpre-
tação por demais estreita da CA VII, ou seja, como o Em seu livro Fundamentos para o Crescimento da

32 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Artigo

Igreja, Kent R. Hunter aponta um fator interessante Urbano. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg. 169)
para o sucesso das primeiras igrejas, que seria o número
reduzido de pastores: ”as igrejas primitivas prospera- Isto pode apontar para uma visão diferente de igre-
vam, não somente apesar de Paulo ter ido embora, mas ja e sua função em relação à sociedade. Pode trazer luz
talvez por causa disso. As pessoas eram forçadas a assu- para um paradigma diferente de evangelismo e missão
mir, tomar posse do ministério em suas próprias congre- que esteve presente no começo da igreja cristã.
gações”. (p.56). Considerando-se que a Igreja é uma cidade edifica-
“Só conseguiremos marcar presença nos nossos dias, da sobre um monte, não se pode esconder a sua luz para
fora dos bastidores eclesiásticos, a partir do momen- a sociedade, para o mundo. A luz desta cidade é as suas
to que formos despertados para treinar e capacitar obras e não apenas a sua mensagem. São as obras que
o laicato a viver a vida cristã autêntica além igre- fazem que os homens glorifiquem ao Pai que está nos
ja. Precisamos de uma eclesiologia dinâmica, com céus. (Mateus 5. 14,16)
objetivos concretos e definidos, que se volte para o “A igreja vai assumir a ação pastoral para a cida-
mundo, abrindo-se para que tenhamos discussões de. Daí, pergunta-se como ser igreja na cidade sem
ecumênicas, buscando conjuntamente no Senhor o sair da igreja? A resposta nos remete também ao
contexto da missio Dei, é Deus agindo na cidade
através da Igreja. Nesse aspecto, as denominações
cristãs, sensibilizadas e obedientes à missão de
Deus na cidade, vão adquirir um papel funda-
menta na lida pastoral dignificará os habitantes
do mundo urbano, dando-lhes novo sentido de
vida e esperança.” (O Pastor Urbano. Valéria Mª
B. Motta dos Santos. Pg. 167.)

A comunidade cristã primitiva foi uma fraternidade


antes de ser uma assembléia. A existência de uma co-
munidade semelhante abre possibilidades inéditas de
serviço no contexto de globalização atual. A começar
sendo a consciência moral e espiritual das nações, cida-
des e seus governos. Não é por acaso que Jesus cita no
Grande Julgamento, a ação dos cristãos voltada para a
koinonia.
“A missio Dei para a cidade consiste na ação evan-
gelizadora e libertadora, concentrando a men-
sagem de denúncia ao processo de urbanização
que torna a cidade corrompida. É necessário que
levantemos no meio da cidade a voz profética da
igreja, para que a comunidade cristã venha a pro-
porcionar, diante do contexto urbano, um novo es-
tilo de vida. Embora a função profética da Igreja
seja mais importante, a política não deve ser trata-
da com descrédito, pois ela prepara e executa pro-
objetivo de transformar o povo de Deus, impelin- jetos. É fazendo que a igreja demonstra sua práxis
do-o para a missão. A partir do momento em que eclesiástica e ilustra a manifestação da missio Dei
descobrirmos que os nossos dons e talentos não nos na cidade. Não se pode excluir a participação do
pertencem, pertencem ao Senhor e para ele é que povo de Deus em nenhum dos setores da sociedade,
devem ser direcionados, poderemos mudar a nossa mas, deve-se tentar conquistar os espaços perdidos
visão do que significa Reino de Deus.” (O Pastor durante os anos que já passaram”. (O Pastor Urba-

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 33


Artigo

no. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg.171) vontade, e ele irá trabalhar pela fé nos corações”. (O
Pastor Urbano. Valéria Mª B. Motta dos Santos.
Em países pobres, como na América Latina, a igreja Pg.172)
e seus cristãos não só devem saber onde estão os pobres,
mas conhecer porque são pobres. Deve instar aos go- Neste sentido, se a igreja local deve ser uma agen-
vernos a investir em programas de ação social. A defesa cia de transformação da cidade, ela deve ir onde o povo
dos pobres deve começar pela afirmação de sua digni- está! Esta nova função não pode ser exercida por uma
dade e pelo desenvolvimento de suas potencialidades pessoa somente, ou por alguns líderes. É tarefa da igreja
que possibilitem a eles trabalho com remuneração jus- toda e não apenas de especialistas.
ta. Outrossim, motivá-los a realizar ações adequadas
para transformar sua situação. Um novo paradigma em Lutero
“A igreja é a igreja somente quando ela existe para
os outros (...) A igreja deve compartilhar os pro- Aqui, neste ponto crucial, Martinho Lutero redes-
blemas seculares da vida humana comum, sem cobriu no movimento da Reforma, a força da igreja
dominar, mas ajudando e servindo”. (das prisões na sua ação no mundo, o sacerdócio geral de todos os
nazistas, Dietrich Bonhoeffer, em 1944). In: Da- crentes. Em três obras magistrais escritas em 1520, ele
vid J. Bosch. Missão Transformadora: Mudança redesenhou a função da igreja, as quais abalaram os
de Paradigma na Teologia da Missão, fundamentos da Igreja oficial, a ponto de causar a sua
“O que vai trazer transformação aos meninos de excomunhão em 3 de janeiro de 1521.
rua, nas prostitutas e drogados e em pessoas que são Em sua obra À Nobreza Cristã da Nação Alemã,
consideradas a escória do mundo, pessoas que não acerca da Melhoria do Estamento Cristão, Lutero lem-
têm mais crédito e que estão totalmente desacredi- bra os nobres de seus deveres pessoais como cristãos
tadas é a compreensão de que o Senhor é o Deus conscientes e membros da Igreja, chamados a tomar
que pode fazer todas as coisas. O Espírito é que a iniciativa devido à omissão da hierarquia. Especial-
opera em nós o querer e o realizar, segundo a sua mente na primeira parte, ataca violentamente a Cúria

34 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Artigo

e as ‘doutrinas’ fundantes da ordem eclesiástica, social cristianismo passivo e contemplativo para uma religião
e política da Idade Média. Afirma a igualdade de to- ativa e realizadora no sentido social. Ressalta que é im-
dos os cristãos diante de Deus (o sacerdócio geral de possível ter fé sem praticar boas obras, que são assim
todos os crentes), a liberdade da palavra de Deus teste- decorrências naturais e inevitáveis da mesma. Ressalta
munhada na Bíblia e a co-responsabilidade de todos os novamente aqui a liberdade que todos os leigos têm por
cristãos pela Igreja, negando os privilégios da classe dos serem sacerdotes reais, dignos de comparecer perante
clérigos e do papado. Deus, orar e ensinar uns aos outros. Lutero conclui que
Outra grande obra de Lutero foi Do Cativeiro Babi- Cristo obteve as dignidades de rei e sacerdote por meio
lônico da Igreja, que denuncia a negação do cálice aos de sua primogenitura, assim podendo compartilhá-las
leigos e a doutrina da transubstanciação. Especialmen- e comunicá-las a qualquer de seus fiéis; ele usa aqui a
te no que diz respeito à Ordem, Lutero lança mais luz figura do noivo e da noiva, no intercâmbio de bens.
sobre o sacerdócio geral de todos os crentes, quando Desta forma, unidos como uma cidade no alto da
critica a interpretação corrente sobre o texto de Lucas montanha, que ilumina todo o vale, pode-se dizer ‘ve-
22.19, “Fazei isto em memória da mim”, como sendo nha o teu reino e, seja feita a tua vontade’. Uma igreja
um momento que Cristo tivesse ordenado somente aos confessional que vai ao encontro das necessidades das
sacerdotes. Segundo ele, certamente com este artifício pessoas. Uma igreja que vai onde o povo está. Uma
se procurou criar uma sementeira de implacável dis- igreja que pratica a missão integral para a pessoa inte-
córdia, para que os clérigos e os leigos sejam mais di- gral, deixando em seus passos, marcas e sinais da vinda
ferentes entre si que o céu e a terra, o que é uma ofensa plena do reino de Deus, na esperança da restauração de
inconcebível à graça batismal e traz confusão à comuni- todas as coisas.
dade evangélica. Pois daí vem essa detestável tirania dos Somos mendigos dizendo a outros mendigos onde
clérigos com relação aos leigos. se encontra o pão.
Por último, a obra mais popular e, considerado o Rev. Ms. Martinho Rennecke é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil e
mais importante livro de Lutero, Da Liberdade Cris- coordenador do Projeto Macedônia.
tã, onde procura modificar o antigo conceito de um

Um momento de treinamento
do Projeto Macedônia

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 35


Missão Urbana Rev. Marcos Schlemer Weide

Uma abordagem integral do


eclesiológica para
Resumo aproveitar o contexto urbano e bus- ja, visando um preparo especial para
car um envolvimento maior com o melhor comunicar o amor de Deus

Este trabalho apresenta ser humano para melhor comunicar


uma proposta eclesio- o amor de Deus pela humanidade,
lógica de abordagem integral do ser em Cristo Jesus.
em Cristo Jesus.
As cidades do mundo inteiro
estão crescendo de maneira que
humano num contexto de missão metade da população mundial está
urbana. Foi adotado o método da Introdução concentrada nas cidades. Durante
pesquisa bibliográfica. Assim, traz 1 ano vivi em Guarulhos, a segunda
uma idéia geral do que é o ser huma- A missão urbana tem sido alvo maior cidade da região metropoli-
no urbano, com seus problemas e de pesquisas ao longo dos últimos tana de São Paulo-SP, cumprindo o
dificuldades e um breve histórico de anos. O desafio de pregar o Evange- período do meu estágio ministerial
missão na IELB – Igreja Evangélica lho numa grande cidade e a concor- pelo Seminário Concórdia. A re-
Luterana do Brasil. Depois, fazendo rência que as atividades da igreja en- gião possui cerca de 22 milhões de
um contraponto, sugere-se uma prá- frentam num grande centro urbano, habitantes; mais de 1,5 milhões só
tica contextualizada das ações mis- como shoppings, cinemas, clubes, em Guarulhos. Durante o período
sionárias históricas da igreja cristã: ou simplesmente o desejo de se es- tive a oportunidade de perceber as
testemunho e proclamação, liturgia, tar em casa com a família ao final de dificuldades que as pessoas enfren-
diaconia e comunhão. Os resul- uma semana de trabalho, exige no- tam até mesmo em questões básicas,
tados mostram que a Igreja pode vas reflexões das lideranças da igre- como transporte, saúde, habitação,

36 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

ser humano como proposta


a a missão urbana
educação, disponibilidade de tem- raízes para, baseados na Bíblia e na deslocamentos de trabalhadores
po, entre outros. Teologia, cumprirmos a missão de rurais, destacando-se a moderni-
As duas congregações nas quais levar Cristo para Todos, que não é zação da agricultura do sudeste e a
eu desempenhava minhas funções nossa, mas de Deus, através de nós. abertura de novas fronteiras agrí-
ficavam em regiões periféricas da colas, o avanço da industrialização
cidade, com seus problemas de 1. A situação atual das e, também, o elevado crescimento
desemprego, saneamento básico, cidades brasileiras demográfico da área rural da região
saúde, etc. Esta experiência me fez nordeste do Brasil.2
refletir sobre a atuação da igreja em A população do Brasil em 1940,
contextos de grandes centros urba- 1.1. Breve análise do segundo dados do IBGE, era de
nos. Será que, como igreja cristã, crescimento urbano 41,2 milhões de habitantes, e em 1º
estamos conscientes dos reais pro- de agosto de 2000 atingiu um to-
blemas enfrentados pelas popula- Esta exposição não tem como tal de 169,8 milhões de habitantes.
ções que se amontoam numa cidade propósito delinear uma análise e Portanto, ao longo do século XX, o
grande? Como a IELB tem atuado distinção entre os conceitos de ci- país experimentou um aumento no
ao longo de cem anos de história em dade e urbano. Pretende-se apenas seu contingente de 128,6 milhões
contextos urbanos? Qual seria uma alertar para a importância de detec- de pessoas, tendo crescido cerca de
postura bíblico-teológica viável tar os dinamismos que percorrem o quatro vezes.3
para que tenhamos uma presença ambiente urbano do final do século Dentro destes dados também
mais efetiva na cidade? XX e começo do século XXI. nota-se a grande expansão da po-
Estas questões serão abordadas, O desenvolvimento econômico pulação urbana. Em 1940, 12,8
respectivamente, nos capítulos a se- marcou as grandes transformações milhões de pessoas moravam em
guir. Quando se fala em abordagem ocorridas no solo brasileiro entre cidades enquanto que 28,3 milhões
integral do ser humano, ou missão os censos de 1940 e 20001. A partir residiam em área rural. No ano
integral, não se quer cair em extre- da década de 1930, o processo de 2000, o censo contabilizou 137,9
mos como sincretismo ou evange- repulsão populacional na Região milhões de pessoas vivendo em áre-
lho social. Estamos conscientes do Nordeste recebeu grande força, fa- as urbanas e apenas 31,9 milhões
papel da igreja e queremos fazê-lo zendo com que a busca por opor- nas áreas rurais.
de maneira que toque os corações tunidades de trabalho nos grandes O grau de urbanização do Bra-
endurecidos pelo pecado a fim de centros urbanos deslocasse milhões sil passou de 31,3%, em 1940, para
conduzi-los ao Salvador Jesus. de nordestinos para fora de sua re- 81,2%, em 2000. O gráfico abaixo
Esta pesquisa não tem a preten- gião.
IBGE. Tendências demográficas no
são de esgotar o assunto, muito me- A partir da década de 1940, a 2 período de 1940/2000. Disponível em:
nos criar polêmicas ou críticas sobre distribuição da população no es- <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/
paço brasileiro passou por grandes populacao/tendencia_demografica/
o assunto da missão integral. Busca- analise_populacao/1940_2000/
-se, todavia, uma melhor compre- transformações, com importantes comentarios.pdf> Acesso em: 15 abr.
ensão da realidade atual e de nossas 1 Segundo dados do IBGE – Instituto 2009.
Brasileiro de Geografia e Estatística. 3 Idem. Ibidem.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 37


Missão Urbana

Proporção da População Urbana, segundo


as grandes regiões
100
90,5
90 86,7
81,2 80,9
80
69,9 69,1
70
60
50
39,6
40 1940
31,3
26,2 27,7 2000
30 23,4 22,9
20
10
0

FONTE: IBGE, Censo


Demográfico 1940/2000

demonstra o aumento desses núme- [...] O Brasil, em 1940, era incharam e as populações cada vez
ros por região: ainda um país fundamen- mais sofrem com os insuficientes re-
Conforme conclusões do pró- talmente agrícola e com uma cursos de infra-estrutura em todos
prio IBGE, “em 1940, com 2/3 da economia doméstica de subsis- os níveis ou setores. A superpopu-
população concentrada nas áreas tência, embora já estivessem lação traz consigo o desemprego, o
rurais, o Brasil possuía característi- em curso mudanças políticas surgimento e crescimento de fave-
cas eminentemente agrícolas, com e estruturais que favoreciam las, falta de estrutura básica, aumen-
forte presença da agricultura de sub- o crescimento urbano-indus- to da criminalidade, carência na
sistência e do grande latifúndio.”4 trial.5 área educacional, problemas sociais,
Dentro do mesmo assunto, acres- de saúde e falta de atendimento.6
centa: Com o aumento significativo Vejamos algumas características e
Os principais setores de ativi- das áreas urbanas, as características dificuldades da população urbana
dade das pessoas de 10 anos agrícolas deram lugar a uma econo- atual.
ou mais de idade ocupadas em mia mais fundamentada na indus-
1940 eram agricultura, pecu- trialização e, mais recentemente, 1.2. As pessoas e as
ária e silvicultura, juntamente no setor de serviços. O comércio
também teve grande aumento. Apa-
dificuldades urbanas
com as atividades domésticas
e escolares, que absorviam receram os shoppings e os grandes Segundo José de Souza Martins,
73,6% das pessoas de 10 anos centros de compras.
ou mais de idade ocupadas. Muito rapidamente as cidades 6 NEITZEL, Leonardo. Missão Urbana e
Família – Desafios e Perspectivas. In:
Vox Concordiana. Vol. 16 Número 2.
4 Idem. Ibidem. 5 Idem. Ibidem. 2001. p. 36.

38 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

“o homem moderno (típico cidadão do número de condomínios luição dos carros, juntamente com a
urbano) é essencialmente carente”.7 fechados por motivo de segu- poluição de rios e córregos, consti-
Necessita de condições adequadas rança; expansão de shoppings e tui o indicador social da população
de vida; tempo para si e para os supermercados – valorizando que vive na cidade grande.12
seus; de sonhos, imaginação, prazer certas áreas e com efeitos sobre Com relação à vida do homem
no trabalho (também no horário o pequeno e médio comércio; urbano podemos afirmar que “a
comercial e não apenas na folga); invasão das cadeias interna- segmentação e compartamentali-
de alegria; de festas; de entreteni- cionais de ‘fast food’, mudando zação da vida têm levado o homem
mento, de compreensão ativa de seu hábitos e costumes; surgimento a isolar-se no seu próprio mundo e
lugar na construção social da reali- de serviços especializados que relativizar a verdade, baseado em
dade.8 alteram o estilo de vida urba- seu próprio interesse”.13 Esta é uma
Ao longo do tempo, o processo na; novos impostos e aumentos característica marcante da socieda-
de urbanização aproximou as pes- constantes de taxas e tarifas de que chamamos pós-moderna:
soas, mas forçou-as a lutarem cada que afetam a maioria da po- aquilo que me importa ou interessa,
uma por si. Disto, conclui-se que: pulação.10 é isso o que vale.
Ao mesmo tempo que a cida- Valores éticos tradicionais, pa-
de une, ela apresenta consigo Mas não são apenas fatores eco- drões nobres de comportamen-
uma força individualizadora. nômicos que influenciam a vida ur- to não são levados em conside-
Massifica, porém individuali- bana. Dentro do conjunto que po- ração ou respeitados. Na vila
za (cria um ser egoísta). Como demos chamar de “social” também global “vale tudo”. Se algo é
conseqüência aparece a inse- notamos o fator saúde, com baixa bom para uma pessoa indivi-
gurança que brota da solidão. qualidade no atendimento públi- dualmente, é isto que interes-
Ligado ao mundo, mas sozi- co, freqüentes crises em hospitais, sa. Não importa o que pensa
nho; gente por cima, por bai- aumento de doenças (AIDS, men- ou que conseqüências trará à
xo, do lado, mas sem ninguém tais, estresse, dengue) e o aumento cidade, comunidade ou grupo
para repartir suas angústias, considerável do consumo de drogas. que vive. A cidade e a família
seus medos, seus sonhos, seus Com relação ao trabalho, aumento urbana do pós-modernismo
dramas de fé. Esse é o homem do desemprego e subemprego (e vivem o drama da relativida-
urbano.9 como conseqüência, aumento da de, principalmente quanto à
população de rua), migração rural- valores de ética social, de liber-
Dentro da mesma idéia, destaca- -urbana e mudanças na qualificação dade, de moral e religião, que
mos alguns indicadores econômicos para o trabalho. Também na educa- são milenares e têm servido
que afetam a vida do homem urba- ção nota-se queda de qualidade do como fundamento de nações,
no: ensino público e expansão do ensi- cidades, sociedades, famílias e
Descentralização industrial no privado comercial, achatamento indivíduos bem sucedidos.14
e de certos serviços, tendo em salarial e desmotivação dos profes-
vista o encarecimento do solo sores e conteúdos muitas vezes ina- A sociedade pós-moderna, tipi-
urbano; crescimento da cha- dequados à realidade.11 camente urbana, é realmente com-
mada economia informal; Tudo isso somado ao aumento plexa. O ser humano, por vezes, se
expansão de cortiços e favelas, da violência e da criminalidade, a concebe como parte de todos os
ampliando as zonas sem infra- corrupção institucionalizada, a pre- aparatos e máquinas que ele mesmo
-estrutura mínima; ampliação cariedade e aumento sucessivo dos inventou. Crê firmemente que não
7 MARTINS, José de Souza apud preços nos transportes coletivos, pode viver sem eles. Vive e morre
KIRCHHEIN, Augusto. As Portas da tempo perdido no trânsito e a po- por eles. Acaba por considerar que o
Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15, êxito em sua vida depende do “equi-
Número 1, 2000. p. 42. 10 WANDERLEY, Luiz Eduardo In:
8 KIRCHHEIN, Augusto. As Portas da ANTONIAZZI, Alberto. CALIMAN, Cleto.
Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15, (Orgs.) A presença da Igreja na Cidade. 12 Idem. p. 59.
Número 1, 2000. p. 42. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 56. 13 NEITZEL, op. cit. p. 37.
9 Idem. p. 50. 11 Idem. p. 58. 14 Idem. p. 40.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 39


Missão Urbana

pamento” de que dispõe.15 Tudo sus Cristo, que vem ao encontro das
deve ser rápido e cada vez mais rá- necessidades humanas preenchendo
pido para que lhe produza satisfa- as lacunas que a vida pós-moderna
ção. A grande questão não é chegar, provoca. Cabe agora refletirmos
mas a rapidez em fazer o caminho. sobre nossa atuação como Igreja
Quando chega já quer voltar porque Luterana nesse contexto de grandes
se aborrece – e a toda velocidade.16 centros urbanos.
O homem urbano é submetido
constantemente a um bombardeio 2. Breve histórico de
de informações através dos meios de missão da IELB
comunicação, seja televisão, jornal,
rádio, internet, telefone celular. In-
teressa muito mais o “já” antes que 2.1. Diagnóstico dos
se transforme em “foi”. Não impor- primeiros 50 anos:
ta definir-se como “Eu sou...”, mas
muito mais como “Eu estou...”17 Basicamente uma igreja
Na vida da cidade grande o pen- rual
sar move-se pelo princípio da “ética A fundação oficial da IELB
consensuada”. Tudo se resolve con- ocorreu em 24 de junho de 1904
forme a maioria dos votos. Não se no então distrito Rincão São Pedro,
fazem necessários “princípios” ou hoje município de São Pedro do
“valores”, mas as estatísticas coman-
Sul-RS.20 Porém, o trabalho de pas-
dam as decisões.18 tores luteranos (do Sínodo de Mis- a terra para o plantio de lavouras.22
Além destes fatores, a família souri – EUA) já se fazia presente no Até 1918, o trabalho missio-
urbana vive a rotina estressante daBrasil desde 1900, quando a primei- nário do sínodo tinha acontecido
cidade, da violência que permeia ra comunidade foi formada em Co- somente entre pessoas de origem
tanto arranha-céus em condomí- lônia São Pedro, hoje município de alemã. Porém, neste ano, deu-se iní-
nios de luxo como barracos das vi- Morro Redondo-RS.21 A formação cio a uma missão Luso-brasileira em
las e favelas. Convive com pessoas do sínodo teve como pano de fundo Lagoa Vermelha-RS.23 Em 1919 foi
diferentes em calçadas e transportes
a história da imigração alemã no es- iniciada, no interior de Canguçu-
coletivos, envoltos em crimes, con-tado do Rio Grande do Sul. -RS, uma missão de língua portu-
sumo e tráfico de drogas, do rapto Quase todos os assentamentos guesa entre os negros daquela loca-
e da prostituição de menores, da dos imigrantes aconteceram em lidade.24
doença, internação em hospitais su-regiões de florestas montanhosas. Durante o período da Segunda
perlotados, desemprego, exploração Estas áreas foram abertas pelos go- Guerra Mundial a língua alemã foi
econômica, morte.19 vernos federal ou estadual, ou por proibida em todo o Brasil. Entre-
Diante dessa realidade de carên-
companhias privadas. Em todas as tanto, nos anos seguintes, por volta
cia do ser humano nos mais variadossituações era preciso abrir estradas. de 1950, após a liberação da língua
setores da vida, a igreja urbana tem
Os imigrantes chegaram com seus alemã e da Revolução de 1930 que
muito a oferecer com sua função de poucos pertences, alguns macha- colocou Getúlio Vargas no poder,
proclamadora do evangelho de Je- dos, foices, facões, enxadas, alguns parte do trabalho ainda era
utensílios de cozinha. Trabalhavam realizado em língua alemã,
15 NAGEL, Carlos In:SEIBERT, Erni na derrubada das matas preparando embora a maior parte fosse
(Coord.) A Missão de Deus diante de um em língua portuguesa. O tra-
novo milênio. Porto Alegre: Concórdia, 20 REHFELDT, Mario. Um grão de
2000. p. 58. balho pastoral estava longe de
Mostarda – A História da Igreja
16 Idem. Ibidem. Evangélica Luterana do Brasil. Volume
17 Idem. Ibidem. 1. Tradução de Dieter J. Jagnow. Porto 22 Idem. p. 20.
18 Idem. Ibidem. Alegre: Concórdia, 2003. p. 63. 23 Idem. p. 92.
19 NEITZEL, op. cit. p. 45. 21 Idem. p. 42. 24 Idem. p. 99.

40 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

Uma estatística referente a 1951 in- da população concentrada em áreas


forma sobre a existência de trabalho rurais.33
da IELB em dez estados brasileiros e Mas, já em 1960, “ao crescente
no Distrito Federal.28 êxodo rural e à ausência de obrei-
Nas primeiras décadas de exis- ros nas grandes cidades, o Depar-
tência a IELB teve preferência por tamento de Missão reagiu, come-
áreas rurais e pequenas cidades. çando a dar maior atenção à missão
Mesmo “após 50 anos de atividade, em centros urbanos”.34 Cinco anos
a IELB atuava em apenas sete das 21 mais tarde, na Convenção Nacio-
cidades brasileiras”29, a saber, Porto nal de 1965, decidiu-se “incluir no
Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de currículo do Seminário Concórdia
Janeiro, Salvador, Goiânia e Recife. estudos que visassem a propiciar aos
Em 1955, apenas cerca de 20 das estudantes um bom conhecimento
621 congregações da IELB se loca- da realidade do campo brasileiro.”35
lizavam em cidades com mais de 20 Contudo, ao final da década de
mil habitantes.30 1960, o trabalho da igreja ainda
A conclusão do pastor Harold “continuava concentrado, em larga
Ott31, citada por Buss, aponta para escala, nas áreas rurais dos estados
uma opção feita de maneira cons- do Sul.”36 Um visitante da LCMS
ciente e intencional por parte da concluía, após uma visita ao Brasil,
liderança da IELB: que “a Igreja precisava, agora, vol-
Manter a Igreja ruralizada é tar-se para a população brasileira e
ser o ideal. As paróquias eram considerado o ideal; dirigir o não continuar limitando sua aten-
muito extensas. A educação na trabalho para dentro das cida- ção a pessoas de origem germânica
mordomia cristã e no evange- des é considerado uma tendên- em áreas rurais.”37
lismo ainda era precária por- cia cheia de perigos. O ponto Para tanto, a IELB fez uso do rá-
que os pastores tinham traba- de vista rural, em oposição ao dio em grande escala. Os programas
lho demais.25 ponto de vista urbano, é geral- da Hora Luterana, atual CPTN38,
mente defendido pela Congre- eram ouvidos em vários lugares do
A maioria dos membros em gação de Professores [do Semi- Brasil. Um dos resultados mais no-
1950 era de origem alemã, mas nas nário] de Porto Alegre e por táveis dos programas de rádio na dé-
cidades também eram recebidas um número considerável dos cada de 1960 foi o início da missão
pessoas de outras nacionalidades, e pastores.32 da IELB na Paraíba, quando ouvin-
em número cada vez maior.26 tes da cidade de Campina Grande
Fica latente, desta afirmação, que solicitaram a vinda de um pastor
2.2. De 1950 a 2000: A a missão rural foi a estratégia ado- luterano.39
expansão da IELB para as tada pelas lideranças nos primeiros Na década de 1970, além dos
anos de vida da IELB. De fato, ana- programas de rádio, a Hora Lute-
cidades lisando superficialmente a história rana oferecia três cursos bíblicos
Em 1950, 88 pastores atendiam pode-se perceber que a estratégia por correspondência: Doutrinas
a 65.280 membros da IELB. O nú- era válida, uma vez que na primei- Fundamentais da Fé Cristã, Curso
mero total de locais atendidos, in- ra metade do século XX o Brasil Bíblico Infantil, e A Vida de Jesus
cluindo congregações e pontos de possuía 2/3, ou seja, cerca de 70%
pregação e missão, somava 539.27 Alegre: Concórdia, 2006. p. 33. 33 Dados do IBGE em 1940.
28 Idem. p. 34. 34 BUSS. op. cit. p. 81.
25 Idem. p. 175. 29 Idem. p. 41. 35 Idem. Ibidem.
26 Idem. Ibidem. 30 Idem. Ibidem. 36 Idem. p. 128.
27 BUSS, Paulo W. Um grão de Mostarda 31 Pastor da LCMS em visita ao Brasil no 37 Idem. Ibidem.
– A História da Igreja Evangélica ano de 1955. 38 Cristo para Todas as Nações.
Luterana do Brasil. Volume 2. Porto 32 OTT apud BUSS. op. cit. p. 42. 39 BUSS, op. cit. p. 87.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 41


Missão Urbana

Cristo.40 Conforme Buss, vários centros de aten-


o número de cartas recebidas dimento ao ser humano
pela Hora Luterana eviden- em suas necessidades,
ciava a boa repercussão e recep- como o Centro Educa-
tividade dos seus programas cional para Deficientes
junto aos ouvintes. Em 1971, Auditivos, em Porto
a Hora Luterana recebeu car- Alegre-RS; o Serviço
tas de 10.651 ouvintes. Ses- Assistencial Diacônico
senta por cento destes residiam Redenção, em Pelotas-
no Norte do país. Em 1972, -RS; a Associação de
o número de cartas recebidas, Assistência à Infância
incluindo a remessa de lições Amigo dos Meninos, em
dos cursos bíblicos, totalizava Esteio-RS; o Lar Ebe-
11.840; e em 1973, 13.930.41 nézer para Idosos, em
Gravataí-RS; entre ou-
Os programas de rádio continu- cou uma mudança de direção do
tros.46
aram aumentando o seu alcance ao rural para o urbano, percebendo as
Na década de 1980, o Departa-
longo da década de 1980. Em 1984, dificuldades que o habitante da ci-
mento de Assistência Social da IELB
a Hora Luterana recebia, em média, dade encontrava ao seu redor. No
(DAS) procurava fazer de cada novo
400 cartas por dia.42 Neste período processo de urbanização do Brasil
ponto missionário um centro inte-
também deu-se o auge da utilização a IELB perdia congregações rurais
grado de missão. O objetivo era de,
da TV para a divulgação do evan- e não conseguia reconquistá-las na
por meio dos Centros Integrados de
gelho. Mas, devido a dificuldades cidade.
Missão (CIM), a IELB desenvolver
na produção dos programas e o alto Especialmente na década de
um ministério o mais abrangente e
custo de manutenção dos mesmos, 1990, há uma preocupação mais
completo possível, evangelizando,
o uso da TV pela IELB foi abando- evidente com a missão urbana em
educando e servindo.47 Nota-se a
nado já no final da década de 1980.43 alguns setores da IELB. O assunto
ênfase na abordagem integral do
Algo que merece destaque na foi tema de simpósios e de diversos
ser humano nestes centros missio-
história das missões da IELB na encontros regionais por todo o pa-
nários, onde não havia apenas a
segunda metade de seus primeiros ís.49 A 53ª Convenção Nacional da
preocupação com o espiritual mas
cem anos é a ação social. Foi na dé- IELB afirmou a necessidade de di-
também com o social, o físico, o psi-
cada de 1960 que percebeu-se uma vidir paróquias grandes e estabele-
cológico. Também se percebe neste
ênfase crescente nessa área da vida cer novas missões em metrópoles.50
período um forte investimento nas
cristã na IELB como um todo.44 Foi nessa década que a IELB iniciou
regiões Norte, Nordeste e Centro-
Neste período foram realizadas dis- atividades missionárias nas capi-
-oeste do Brasil. Alguns dos locais
tribuições de alimentos, remédios e tais de Estados onde ainda estivera
beneficiados com a instalação de
roupas em favelas da Grande Porto ausente.51 Também foi nesta época
um CIM foram: Belém-PA, Tomé-
Alegre e Rio de Janeiro. Até mesmo que surgiu o PEM – Programa de
-Açu-PA, Marabá-PA, Imperatriz-
educação primária gratuita e cursos Evangelização e Mordomia Cristã,
-MA, Paulistão-MA, São Luis-MA,
de alfabetização e economia do- “com o objetivo de fortalecer as pro-
Campina Grande-PB, Anastácio-
méstica eram oferecidos pela IELB gramações existentes na IELB e dar
-MS, e Dourados-MS.48
na cidade de Salvador-BA neste especial ênfase na mordomia e no
Estes centros missionários com
período.45 Também foram criados evangelismo através de um processo
abordagem integral foram decisivos
contínuo de educação e treinamen-
para a missão luterana nos locais
40 Idem. p. 176. to.52
41 Idem. Ibidem.
contemplados. Esta estratégia mar-
42 Idem. p. 250. 49 Idem. p. 307.
43 Idem. Ibidem. 46 Idem. p. 178-180. 50 Idem. p. 297.
44 Idem. p. 88. 47 Idem. p. 253. 51 Idem. p. 299.
45 Idem. Ibidem. 48 Idem. Ibidem. 52 Idem. p. 302-303.

42 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

Congregações e Locais
Cidade População Pastores Membros
de Pregação
Aracaju, SE 520.303 1+1 1 137
Belém, PA 1.408.847 4+4 2 224
Belo Horizonte, MG 2.412.937 3+5 2 398
Boa Vista, RR 249.853 2+4 2 269
Brasília, DF 2.051.146 4+6 7 716
Campo Grande, MS 724.524 2+4 2 573
Cuiabá, MT 526.830 3 2 533
Curitiba, PR 1.797.408 12+2 9 2.739
Florianópolis, SC 396.723 4+5 5 693
Fortaleza, CE 2.431.415 2+1 1 157
Goiânia, GO 1.244.645 1+6 3 374
João Pessoa, PB 674.762 3 1 181
Macapá, AP 344.153 1+1 1 26
Maceió, AL 896.965 2+1 1 102
Manaus, AM 1.646.602 1+1 2 145
Natal, RN 774.230 1+4 1 128
Palmas, TO 178.386 3+3 2 259
Porto Alegre, RS 1.420.667 13+2 15 6.066
Porto Velho, RO 369.345 5+4 2 345
Recife, PE 1.533.580 2 1 187
Rio Branco, AC 290.639 2+7 1 122
Rio de Janeiro, RJ 6.093.472 5+3 5 709
Salvador, BA 2.892.625 2+5 2 189
São Luis, MA 957.515 3+2 1 130
São Paulo, SP 10.886.512 7+4 8 2.068
Teresina, PI 779.939 3+3 - 191
Vitória, ES 314.042 2 2 660
Totais 43.818.065 93+78 82 18.321
Dados do IBGE 2007 e das Estatísticas 2007 da IELB (Anuário Luterano 2009. Ano 70. Nilo Wachholz [editor] Porto Alegre: Concórdia, 2008).

População Brasileira – 2007 183.987.291 Para finalizar esta parte, observemos um qua-
Nas Capitais 43.818.065 = 23,81% dro comparativo com dados estatísticos sobre a
presença da IELB nas capitais brasileiras e suas
IELB – 2007 233.416 respectivas populações.
Nas Capitais 18.321 = 7,84% Cabe agora, com base neste breve histórico da
Pastores em paróquia* – 2007 610 IELB e em alguns autores luteranos da atualidade
que estão envolvidos com a prática pastoral, refle-
Nas capitais 82 = 13,44%
tirmos sobre a presença da IELB nas regiões urba-
Locais de Culto - 2007 1438+662 = 2100 nas do Brasil e, a partir disso, verificar nossas es-
Nas Capitais 171 = 8,14% tratégias de atuação na propagação da mensagem
*Congregações mais Pontos de pregação em todo o Brasil salvadora do Evangelho de Jesus Cristo.
Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 43
Missão Urbana

2.3. Algumas reflexões as cidades. Organizamo-nos Já a sociedade urbana moder-


como igrejas luteranas nas ci- na (que se instala a partir da
sobre a atuação da IELB dades, muitas vezes alheios aos revolução industrial e se difun-
nas cidades anseios, preocupações e necessi- de mundialmente nas últimas
Visto que menos de 8% dos dades dos centros urbanos.54 décadas do século XX) é volta-
membros da IELB vivem nas capi- da, preferencialmente, para a
tais brasileiras (enquanto que a pro- A grande questão da IELB é inovação. A experiência deixa
porção de habitantes do Brasil em não ter deixado de ser rural mesmo de ser o saber acumulado para
capitais é de quase 24%) e que pou- presente no meio urbano. Como tornar-se “experimento”, risco,
co mais de 8% dos locais de culto já relatamos no capítulo anterior, busca do novo.55
situam-se nestas cidades, podemos o modo de vida rural difere consi-
notar que há realmente uma carac- deravelmente do modo de vida ur- Neste contexto, a religião tam-
terística ainda marcadamente rural bano. O Padre Alberto Antoniazzi, bém sofre uma mudança de função
na IELB dos dias atuais. numa conferência sobre a presença para as pessoas em geral. Enquanto
A IELB possui sua origem no da igreja na cidade, nos aponta uma que, no meio rural, a religião tem
campo: das diferenças: como fundamento construir mun-
é uma igreja de migração. A sociedade rural pode ser vis- dos de sentido, dar significado ao
Surgiu nos assentamentos de ta como regida pela tradição, mundo (em outras palavras, forne-
colonos alemães no sul do país pela experiência acumulada cer certezas), num contexto moder-
no início do século XX. Assim no passado. O fato se justifica no, urbano, transforma-se em me-
como outras igrejas do ramo pela relativa estabilidade da canismo de controle das incertezas
protestante histórico, ela “veio sociedade rural, onde as mu- e em resposta localizada a carências
de navio”. Os primeiros passos danças são lentas ou raras. [...] 55 ANTONIAZZI, Alberto. CALIMAN, Cleto.
(Org.) A Presença da Igreja na Cidade.
se deram no campo, ao lado 54 LÜDKE, Reinaldo M. A Igreja na Cidade. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 82-83.
In: Vox Concordiana. Ano 15. Número 1.
dos agricultores.53 2000. p. 25

Uma vez que tanto os primeiros


como muitos dos passos da IELB
foram organizados ao lado dos agri-
cultores e com o pano de fundo ru-
ral, algumas considerações são im-
portantes:
Como IELB não temos muita
vivência nos grandes centros
urbanos. Nossas congregações
se organizaram a partir de
luteranos oriundos da zona
rural, ou seus descendentes,
que migraram para as cida-
des, especialmente nas regiões
sul, sudeste e centro-oeste. Este
quadro muda um pouco em al-
gumas cidades da região norte
e nordeste. Não nos preocupa-
mos muito em compreender

53 KIRCHHEIN, Augusto. As Portas da


Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15,
Número 1, 2000. p. 36.

44 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

localizadas.56 best-sellers de auto-ajuda. Uma das 3. Uma abordagem


Num contexto urbano atual, explicações possíveis para o baixo
“educar o indivíduo não é dar-lhe nível de envolvimento dos membros
integral do ser humano
um quadro de valores, mas torná-lo na congregações da IELB é que, como proposta
livre para escolher. [...] Assim, todos No mundo rural, a população eclesiológica para a
os valores, também os religiosos, vive a maior parte do tempo missão
ficam na esfera da escolha pessoal, em contato com a natureza.
subjetiva”.57 Daí se compreende o O momento de encontrar-se
fato de algumas pessoas não batiza- com outras pessoas é o momen- 3.1 O que é missão?
rem seus filhos em nenhuma deno- to da socialização, do sentir-
A palavra “missão” é utilizada para
minação sob o pretexto de que eles -se gente. Assim, os encontros
designar a atividade divina que emer-
devem escolher sua religião quando religiosos dominicais também
ge da própria natureza de Deus, pois
crescerem. vão ao encontro da necessida-
o Deus vivo da Bíblia é um Deus que
Além do mais, muito se ouve de natural das pessoas de se
“envia”. Ele enviou profetas, seu Filho,
que as pessoas não querem mais encontrarem. Inversamente, o
os apóstolos, o Espírito Santo, a igre-
frequentar os cultos, estudos de de- ser humano urbano vive uma
ja. Sendo assim, a primeira missão é a
partamentos e outras atividades da multiplicidade de contatos e
missão de Deus, cujo centro se eviden-
igreja. Não é verdade que os habi- de relações durante os “dias
cia no envio de seu Filho ao mundo. E
tantes da cidade são indiferentes à úteis” da semana, submetido
a missão da igreja resulta desta missão
religião, uma vez que os movimen- a um ritmo estressante. No
do Filho: “[...] assim como o Pai me
tos neo-pentecostais e o crescimen- “fim de semana” não procura
enviou, eu também vos envio”.60
to das filosofias orientais crescem mais o encontro, a comuni-
A Bíblia atribui uma só intenção
nos centros urbanos, sem falar nos dade, a massa; prefere mais a
para a ação de Deus: salvar a huma-
intimidade, o refúgio tranqüi-
56 LÜDKE, op. cit. p. 28. nidade. Assim, também o seu Filho
lo, o afastamento dos outros.
57 Idem. Ibidem. Jesus Cristo foi enviado ao mundo
Na sociedade rural a igreja é
apenas com este objetivo: salvar a hu-
o centro de convergência. Na
manidade. Por isso, “missão é Deus
grande cidade, a igreja é um
em atividade, é obra de Deus”.61
dos muitos “serviços” que a ci-
O derradeiro mistério da mis-
dade oferece.58
são, do qual ela emana e do
De fato, a presença da igreja na qual vive, é: Deus envia seu
cidade grande, no entender popular, Filho, Pai e Filho enviam o Es-
é apenas mais um serviço, como hos- pírito. [...] Esse processo do en-
pitais, supermercados e shoppings. vio intradivino é de eminente
Também, precisamos reconhecer importância para a missão e o
que, por vezes, o nosso modelo ecle- serviço da Igreja. Sua missão
siológico destoa um pouco da vida está prefigurada na missão di-
urbana.59 Já que a nossa prática mis- vina, seu serviço está preesta-
sionária como IELB ainda engati- belecido pelo serviço divino, o
nha pelas ruas da cidade grande, va- sentido e conteúdo do trabalho
mos nos deter agora numa proposta estão determinados a partir da
eclesiológica para uma abordagem missio Dei.62
integral do ser humano num con- 60 Jo 20.21
texto de missão urbana. 61 MARQUARDT, Rony Ricardo. A
Contextualização na Ação Missionária
da Igreja Cristã. Canoas: ULBRA, 2005.
p. 45.
58 Idem. p.31. 62 VICEDOM, Georg. A Missão como Obra
59 KIRCHHEIN, op. cit. p. 40. de Deus: Introdução a uma teologia da

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 45


Missão Urbana

Portanto, a missão é divina por Para tanto, a missiologia faz uso das flexão teológica”.69 Em todo tempo
natureza e pertence a Deus.63 A Mis- mais diversas áreas do saber huma- faz-se necessária a adesão a uma
sio Dei não permite a interferência no, como Antropologia, Sociologia, ortopraxia autêntica guiada pelos
do homem pois acontece extra nos, Lingüística, Comunicação e outras, princípios da fé conforme a Bíblia
no sentido de que não permite qual- a fim de testemunhar o Evangelho e as Confissões Luteranas.70 Atuar
quer participação da parte do ho- salvador de Jesus Cristo. com um fundamento bíblico-teoló-
mem. Este é apenas o recipiente ou Uma vez que delineamos rapi- gico significa considerar a definição
beneficiário da graça de Deus.64 damente um conceito de missão, teológica da missão, antes de colo-
A igreja, por sua vez, “está em vejamos agora uma proposta ecle- car uma estratégia no lugar. Como
missão sempre; é propriedade de siológica de missão integral num luteranos temos verdadeiras pérolas
Deus a seu serviço buscando e sal- contexto urbano. teológicas. Citamos como exemplo
vando pecadores. É missionária por a doutrina da justificação, que ao
essência e natureza.”65 Por isso, a 3.2. Missão integral: uma mesmo tempo nos “abre” a Escritu-
missão primeira da igreja é testemu- proposta eclesiológica ra penetrando todos os artigos de fé
nhar o evangelho da salvação atra- e é fonte de consolação e conforto
vés de Jesus Cristo.
para um contexto urbano às consciências apavoradas. A jus-
Para desempenhar melhor tal No primeiro capítulo desta pes- tificação funciona como a premissa
função a igreja se serve da missio- quisa percebemos o grande aumen- teológica para qualquer missão.71
logia, que é o estudo da ação mise- to da população urbana no Brasil Ela nos mostra que diante de Deus
ricordiosa e soteriológica de Deus dos últimos anos. De fato, já faz somos mendigos, totalmente inca-
para com a humanidade através de algum tempo que nosso país deixou pazes; e, diante do próximo, temos a
Jesus Cristo conforme revelada na de ser rural. No segundo capítulo obrigação de compartilhar nossa fé
Palavra e recebida por fé através do fizemos um rápido diagnóstico de e fazer o bem, conforme a vocação
poder do Espírito Santo de forma nossa postura como igreja ao longo de cada um.
que, incorporados na família de de cem anos. Com isso percebemos A doutrina da justificação nos
Deus e na comunhão dos crentes, que nossa origem é rural e de etnia compele a adotar uma perspec-
dêem testemunho da sua salvação germânica. Também vimos que por tiva centrífuga para com Deus
até os confins do mundo, inseridos muitos anos a “ruralidade” da IELB e com o nosso próximo. Com
nos muitos e diferentes contextos foi vista como uma estratégia de relação a Deus, as últimas pa-
geográficos, lingüísticos e sociais, missão, um alvo eclesiológico. lavras de Lutero escritas numa
na expectativa do Cristo exaltado No Brasil de hoje existe grande carta próxima ao seu leito de
até que Ele venha.66 diversidade, tanto em termos étni- morte, expressam esta verda-
Missiologia é uma disciplina ho- cos, como culturais, religiosos, geo- de: ‘Nós somos mendigos, isto
lística pelo fato de relacionar o estu- gráficos e políticos. Por isso, olhan- é verdade’. Mas, também com
do de Deus comunicando sua eterna do de uma perspectiva missionária, relação ao próximo, uma pers-
e imutável palavra num contexto em o Brasil é um país ao mesmo tempo pectiva centrífuga é de valor
constante mutação. É tarefa da mis- intrigante e cativante; e quando ético central para a Reforma.
siologia estreitar a distância entre o pensamos em missão no Brasil não O próximo e o seu mundo se
“contexto original” do texto bíbli- podemos fazê-lo sem levar em con- tornam o fórum de nossa obri-
co e o contexto atual das pessoas.67 sideração o contexto específico.68 gação cristã, principalmente o
Conforme o Dr. Klaus Detlev de compartilhar nossa fé e fa-
missão. Tradução de Ilson Kayser. São
Leopoldo: Sinodal, 1996. p. 17.
Schulz, “há uma relação íntima en- zer o bem. 72
63 VICEDOM, Georg apud NEITZEL, tre a ação em um contexto e a re-
Leonardo. A Missão de Deus. In: Vox 69 SCHULZ, Klaus Detlev. Propostas para
Concordiana, Vol. 15 Número 1. 2000. 68 SCHULZ, Klaus Detlev. Estratégia na Ação em Missões Urbanas. In: Vox
p. 10. Missão: Teologia e Prática de Métodos Concordiana. Vol. 16 Número 2. 2001.
64 NEITZEL, op. cit. p. 10. Evangelísticos. In: GRAFF, Anselmo p. 77.
65 Idem. p. 13. Ernesto (Org.). CITM - Teologia e 70 Idem. Ibidem.
66 Idem. p. 15. Prática de Métodos Evangelísticos. 71 Idem. p. 79.
67 Idem. Ibidem. Porto Alegre: Concórdia, 2009. p. 19. 72 Idem. Ibidem.

46 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

Poderíamos falar ainda de mui-


tos aspectos bíblico-teológicos que
norteiam nossa atividade missio-
nária, como a primazia da Palavra,
a encarnação e a presença real de
Cristo ou a distinção (não separa-
ção) entre os dois reinos. Todavia,
queremos agora nos deter especifi-
camente no conceito de missão in-
tegral como proposta para ação em
missões urbanas.
É preciso sempre ressaltar que
sem a proclamação de Jesus Cristo
como Senhor e Salvador não há mis-
são integral, nem mesmo parcial. O
senhorio de Cristo se estende tanto
ao âmbito econômico como ao po-
lítico, ao social como ao cultural, ao
estético como ao ecológico, tanto ao espirituais e físicas”.75 O ser huma- necessitados do alimento coti-
pessoal como ao comunitário. Nada no é uma unidade de corpo, alma diano, e qualquer dentre vós
nem ninguém está fora do senhorio e espírito, inseparáveis entre si. Isto lhes disser: Ide em paz, aque-
e soberania de Cristo.73 se confirma, por exemplo, quando cei-vos e fartai-vos, sem, contu-
A cristologia que se sintetiza na médicos afirmam que muitas das do, lhes dar o necessário para o
confissão “Jesus Cristo é o Senhor” doenças que sofremos são psicosso- corpo, qual é o proveito disso?77
se constitui a base de uma eclesiolo- máticas, ou seja, aquelas em que um
gia que concebe a igreja como a co- problema psicológico repercute na Desta perspectiva, a missão in-
munidade que confessa e proclama saúde física, ou uma enfermidade tegral é a missão orientada para a
a Jesus como Senhor da totalidade física repercute na saúde mental.76 E satisfação das necessidades básicas
da vida humana e de toda a criação. porque o ser humano é uma unida- do ser humano, incluindo sua ne-
Quando a igreja perde de vista a de, não se pode querer ajudar a uma cessidade de Deus, mas também sua
centralidade do Senhor Jesus Cris- pessoa dando atenção apenas a suas necessidade de amor, alimento, lar,
to, deixa de ser igreja e se constitui necessidades espirituais (como per- abrigo, saúde física e mental, e senti-
numa seita religiosa incapaz de re- dão de pecados) deixando de lado mento de dignidade humana.78
lacionar sua mensagem com a vida suas necessidades em outros aspec- Frente aos dados que levantamos
prática das pessoas.74 tos (físicos, emocionais, psicológi- no primeiro capítulo, a igreja urba-
O que propomos aqui é uma cos). Isto percebemos na passagem na tem o dever de ser sensível aos
visão holística do ser humano prin- da Epístola de Tiago que diz: problemas sérios que atravessam as
cipalmente em contextos urbanos. Se um irmão ou uma irmã pessoas, os casamentos, as estrutu-
Holístico é “uma volta ao evangelho estiverem carecidos de roupa e ras familiares, os desempregados, os
ensinado por Jesus e uma rejeição da marginalizados, as mães solteiras, as
dicotomia que divide necessidades 75 KEHREIN, Glen apud SCHULZ, crianças desamparadas em abrigos
Klaus Detlev. Propostas para Ação em e creches, entre outros. Afinal, vi-
Missões Urbanas. In: Vox Concordiana.
73 PADILLA, C. René. Introducción: Una Vol. 16 Número 2. 2001. p. 85. vemos numa sociedade construída
eclesiología para la misón integral. 76 PADILLA, C. René. Hacia una definición sobre a base do individualismo e de
In: PADILLA, C. René; YAMAMORI, de la misión integral. In: PADILLA, C. uma economia de mercado que sa-
Tetsunao (Eds). La iglesia local como René; YAMAMORI, Tetsunao (Eds).
agente de transformación – una El proyecto de Dios y las necesidades crifica diariamente vidas humanas.
eclesiología para la misión integral. humanas – Más modelos de ministerio
Buenos Aires: Kairos, 2003. p. 21-22. integral en América Latina. Buenos 77 Tg 2.15-16.
74 Idem. Ibidem. Aires: Kairos, 2000. p. 29. 78 PADILLA. op. cit. p. 30.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 47


Missão Urbana

líticos, econômicos e emocionais


aos quais as pessoas estão sujeitas
com mais facilidade numa cidade. A
igreja em si não atende às carências
nestas áreas, mas se envolve na me-
dida em que participa da vida urba-
na. Schulz escreve, citando Charles
van Engen:
Obviamente, a igreja não de-
veria se ver apenas como uma
agência social, mas se tornará
socialmente envolvida atra-
vés de seus serviços diacônicos.
A igreja também não é um
governo, mas por sua procla-
mação e ação em uma comu-
nidade, mostrará influência
política e comunitária signi-
ficativa. A igreja não é uma
instituição financeira, mas às
vezes tem que procurar ofere-
cer ajuda financeira em seu
empenho para desenvolver seus
planos missionários e estabele-
cer projetos locais. A igreja não
é uma escola, mas a educação
é um meio importante para
facilitar o processo de amadu-
recimento da congregação e in-
corporação de novos membros.
A igreja não é uma família,
mas as relações familiares e
estruturas são supremas para
Frente a isso a igreja de Jesus Cristo Jesus Cristo. Pois assim como o
sua missão. A igreja não é um
tem uma grande responsabilidade. evangelho precisa ser contextuali-
edifício, entretanto o edifício
Não a de entrar na arena política zado para ser apresentado de manei-
é importante para acomodar
porque sua função como igreja não ra compreensível às pessoas, assim
numerosos programas de trei-
é essa, mas a de ser sensível às neces- também precisa ser contextualizado
namento e trabalho de grupos.
sidades humanas em sua tarefa de de acordo com as necessidades des-
A igreja não é uma organiza-
testemunhar o Evangelho.79 sas pessoas. Para a igreja cristã o que
ção, mas precisa de estruturas
A igreja precisa diagnosticar os conta são as necessidades espirituais
institucionais para funcionar
males de seu tempo para receitar e materiais do indivíduo.80
para outros na sociedade.81
com sabedoria o remédio divino: A ação missionária da igreja em
79 ROLDÁN, Alberto Fernando. El
contextos urbanos precisa estar Assim, mesmo que a igreja não
Sacerdocio de todos los creyentes y la atenta aos problemas sociais, po- seja uma instituição “do mundo”,
misión integral. In: PADILLA, C. René;
YAMAMORI, Tetsunao (Eds). La iglesia 80 WEIRICH, Paulo P. A comunidade
ela está no mundo e precisa intera-
local como agente de transformación – cristã urbana: igreja em movimento. In:
una eclesiología para la misión integral. Mensageiro Luterano. Janeiro de 1995. 81 ENGEN, Charles van apud SCHULZ,
Buenos Aires: Kairos, 2003. p.124. p. 9. op. cit. p. 83.

48 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

gir com este mundo que a cerca. Ao de seu estado de religiosidade.87 As Eles devem proclamar pecado
invés de sugerir práticas para uma missões urbanas precisam estabele- e graça em linguagem com o
missão integral na cidade (visto que cer a natureza e caráter do contexto mesmo frescor e novidade das
cada cidade possui suas particulari- imediato através de estudo cuidado- misericórdias diárias de Deus:
dades), optamos por refletir sobre so e basear a sua mensagem em um em palavras vívidas, vigoro-
alguns princípios que precisam ser próprio construto hermenêutico sas, cativantes, excitantes. En-
lembrados quando planejamos al- que combina três fatores: o texto quanto que a verdade divina é
guma ação missionária da igreja em bíblico, o contexto urbano e a fé da constante, a linguagem muda
contextos urbanos. Para isso, sele- própria igreja.88 e se torna diferente, adquirin-
cionamos quatro ações missionárias Poderíamos questionar a prega- do novas forças das correntes
tradicionais:82 testemunho e procla- ção da igreja “com relação à repe- do presente, perdendo velhas
mação83, liturgia84, diaconia85, e co- tição de fórmulas e de palavras já formas nas águas do passado.90
munhão.86 consideradas ‘chavões teológicos’
ou ‘teologuês’.”89 Uma convenção A contextualização da procla-
3.2.1. Testemunho e da Lutheran Church – Missouri Sy- mação é fator indispensável para a
nod, realizada em 1962 apontava a missão urbana. “Para ser evangeli-
proclamação zadora a igreja precisa fazer mais do
seguinte direção:
A pregação da igreja (testemu- Se a Igreja precisa comunicar que pregar o Evangelho do mesmo
nho e proclamação) sempre será sua mensagem para audiên- modo repetitivo”.91 É preciso pro-
desafiada pelo contexto urbano. cias que ficam completamen- clamar em linguagem compreensí-
A proclamação deve estar baseada te aborrecidas com o melhor vel ao povo brasileiro, que enfrenta
na compreensão de quem é a au- entretenimento do mundo, problemas sociais, econômicos, fal-
diência e numa compreensão clara seus oradores e escritores de- ta de acesso à escola, entre outros. E
vem abster-se de estereótipos. não apenas isso, mas fazer uso deste
82 SCHULZ. op. cit. p. 86. 90 COATES apud MARQUARDT. op. cit. p.
83 Mt 28.19-20. 87 SCHULZ. op. cit. p. 90. 157.
84 At 2.46-47. 88 ENGEN, Charles apud SCHULZ, op. 91 WEIRICH, Paulo P. Conquistar para
85 At 6.1-7. cit. p. 89. Cristo: discurso e prática. In: Mensageiro
86 Rm 12.4-5. 89 MARQUARDT. op. cit. p. 156. Luterano. Janeiro de 1995. p. 3.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 49


Missão Urbana

contexto para, não apenas com pa- do com a maneira que for a mais seu conteúdo informativo.
lavras, comunicar melhor a mensa- útil e a mais edificante para a con- Aplicando à liturgia o princí-
gem do evangelho salvador. gregação de Deus”.94 A Confissão pio, nota-se como ocorre aqui
de Augsburgo declara que para que uma alta freqüência de fórmu-
3.2.2. Liturgia haja “a verdadeira unidade da igreja las repetidas ou inteiramente
cristã não é necessário que em toda previsíveis, o que torna míni-
Liturgia tem a ver com o culto,
a parte se observem cerimônias uni- mo o conteúdo informativo e
momento em que Deus nos serve
formes instituídas pelos homens”.95 pouco eficiente para chamar e
(caráter sacramental) e em que nós
A IELB tem liturgias oficiais, concentrar a atenção do oran-
servimos a Deus (caráter sacrificial).
que são utilizadas em todo o Brasil. te.96
Estas duas características jamais po-
De certo modo, a liturgia também é
dem ser perdidas quando se pensa Aplicando a afirmação anterior
proclamação e, como tal, se encaixa
em liturgia num contexto de missão ao nosso contexto luterano consi-
nas leis normais de comunicação.
urbana92. dero válido perguntarmo-nos até
Uma lei fundamental da te-
Entretanto, podemos fazer uma que ponto nossa liturgia imutável
oria da comunicação, por
diferenciação entre forma e conteú- comunica o amor e a salvação de
exemplo, diz que “o conteúdo
do do culto. Do conteúdo do culto Deus numa sociedade em constan-
da informação é inversamente
não podemos abrir mão, pois é de- te transformação. De qualquer ma-
proporcional à probabilidade
terminado por Deus e através dele, neira, por vezes, algumas tentativas
de ocorrência.” [...] Em outras
pela ação do Espírito Santo, Deus de contextualização têm corroído
palavras: quanto maior é a
dá a sua igreja as suas ricas bênçãos. a singularidade e o caráter trans-
previsão da ocorrência de de-
Porém, a forma deste culto é de-
terminada fórmula, menor é o
terminada pela cultura e, por isso, 96 BONATTI, Mário. Liturgia, Comunicação
pode ser contextualizada93 “de acor- 94 Fórmula de Concórdia. Epítome X. e Cultura. In: Revista Eclesiástica
parágrafo 4. Brasileira. Número 143. setembro de
92 MARQUARDT. op. cit. p. 155-156. 95 Confissão de Augsburgo. Artigo VII: Da 1976. Petrópolis: Vozes, 1976. p. 582-
93 Idem. Ibidem. igreja. Parágrafo 3. 583.

50 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

cultural da liturgia. Nesse sentido


cabe bom senso da parte de quem
organiza a liturgia da comunidade
e instrução aos membros sobre a es-
trutura do culto cristão luterano.

3.2.3. Diaconia
A igreja urbana está inserida num
contexto de múltiplas etnias e de es-
tratificação social e econômica. Por
um lado, Deus sempre mostrou-se
estar ao lado do pobre, do oprimi-
do. Por outro lado, não deveríamos
romantizar a pobreza como se fosse
garantia do favor especial de Deus.
“Se acabamos com a pobreza mas
negligenciamos ao pobre as Boas
Novas sobre Jesus Cristo, teremos
falhado em nossa missão”.97 Mas “se
pregamos o evangelho mas igno-
ramos a situação do pobre, somos
falsos profetas”.98 Para estabelecer
uma relação entre as duas afirma-
ções antitéticas aparece a diaconia,
que funciona como testemunho do
amor proclamado pela igreja em
nome de Jesus Cristo.
Na IELB, a diaconia foi vista ao
longo dos anos muito mais como
uma instituição de serviço do que
propriamente toda a ação da igreja
em favor do próximo. Isto não quer
dizer que não devem existir insti-
tuições de serviço aos necessitados,
mas chama a atenção para que toda
a ação da comunidade local esteja
envolvida no serviço de apoio às ca-
rências das pessoas, sejam materiais,
psicológicas e espirituais. Cabe lem-
brar que “atividades benevolentes e
humanitárias não deveriam se tornar
um fim em si mesmas, e assim, se sa-
tisfazerem em criar dependência”.99
Ao invés disso, a igreja deve traba-

97 GREENWAY, Roger S. apud SCHULZ.


op. cit. p. 87.
98 Idem. Ibidem.
99 SCHULZ. op. cit. p. 88.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 51


Missão Urbana

lhar para proporcionar confiança pessoas, significativas umas para as O aumento considerável da po-
entre os menos favorecidos em suas outras, e que, ao realizarem inter- pulação urbana no Brasil nos em-
potencialidades de elevarem-se aci- câmbios entre si e com outros gru- purra, como igreja, para a busca
ma das suas necessidades. pos significativos, podem potencia- de uma prática da missão de Deus
lizar os recursos que possuem”.103 cada vez mais contextualizada. No
3.2.4. Comunhão Estas redes, que empiricamente es- começo do século XX, quando a
tavam presentes no meio rural na fi- IELB foi fundada, a maior parte da
A comunhão da igreja contras-
gura de parentes, amigos e vizinhos, população brasileira era rural. Isto
ta com todas as outras comunhões
fazem muita falta ao homem urba- explica a estratégia utilizada de ma-
expressas na comunidade mais
no atual. A igreja, por sua vez, pre- neira consciente de “plantar” igrejas
abrangente. Esta é uma comunhão
cisa estar atenta a esta necessidade no meio rural, junto aos alemães, na
compartilhada no corpo de Cristo e
e pode buscar suprir, ainda que de medida em que a língua unia os mis-
incorpora todos os crentes que vêm
maneira parcial, essa carência. De- sionários americanos e a membresia,
de grupos sociais e culturas varia-
partamentos tradicionais como Lei- basicamente de imigrantes.
das.100 Os membros da igreja urbana
gos, Servas, Jovens e Idosos são uma A história seguiu seu curso e o
compartilham as preocupações e
alternativa. Há algumas iniciativas Brasil hoje não é mais o mesmo. Da-
as situações do ambiente social co-
no sentido de grupos de afinidade, dos do último censo apontam para
mum. Conforme Schulz,
com uma função específica além da mais de 80% da população vivendo
uma das razões que explica o
comunhão propriamente dita, tais em áreas urbanas, sendo mais de
crescimento explosivo do mo-
como grupos de visitação, evange- 23% nas capitais. O estilo de vida
vimento pentecostal é a sua
lismo, acompanhamento a enluta- rural está cada vez mais escasso em
solidariedade social e identi-
dos, entre outros. O próprio grupo nossa realidade, bem como o modo
ficação com a família e provi-
do PEM (Programa de Evangeliza- de enxergar o mundo e a igreja. En-
dência de um status digno ao
ção e Mordomia), na sua essência, quanto que a igreja, no interior, era
desestruturado e desarraigado
também contribui para que as pes- vista como o centro das atividades
homem latino.101
soas busquem uma vida de comu- de uma cidade – o que explica até
O sentimento de acolhimento nhão, onde a mútua consolação dos mesmo a localização do templo, ge-
social é um fator decisivo para o ho- crentes acontece, chorando com os ralmente em frente à praça central –
mem urbano enxergar-se dentro da que choram e alegrando-se com os hoje não passa de mais um serviço
comunhão da igreja a qual frequen- que se alegram.104 dentre os muitos oferecidos à popu-
ta. O jeito rural, onde as famílias Levando em consideração o lação de uma cidade grande.
possuíam suas cadeias de influência, contexto urbano como descrito no Nossa igreja, a IELB, apesar de
redes de apoio mútuo e lideranças primeiro capítulo, faz-se necessária tentativas consideráveis ao longo da
definidas, já não existe na cidade. A uma abordagem integral do ser hu- sua história, ainda preserva muitos
família nuclear (pais e filhos) agora mano para uma melhor comunica- traços de uma igreja marcadamente
vê-se isolada num apertado terreno ção da mensagem salvadora através rural. A conhecida dicotomia entre
ou apartamento, cercada de pessoas da proclamação e testemunho, da alma e corpo ainda é pronunciada
estranhas, não possuindo mais as liturgia, da diaconia e da comunhão de maneira subliminar em nossos
relações de apoio e valores morais e dos crentes. púlpitos e registrada com todas as
espirituais que tinham no meio ru- letras em nossos livros de registro
ral.102 Conclusão (como por exemplo, 97 almas no
As redes sociais são “grupos de rol de membros). No interior a igre-
103 GIONGO, Cláudia Deitos. ja não precisava se preocupar com
100 Idem. p. 92. Tecendo Relações: o trabalho com as pessoas integralmente, porque,
101 Idem. Ibidem. famílias na perspectiva de Redes
102 WEIRICH, Paulo P. Família e Sociais. In: SCHEUNEMANN, Arno V.
empiricamente, estavam estabeleci-
Matrimônio. In: HEIMANN, Leopoldo. HOCH, Lothar C. (Orgs.). Redes de das diversas redes de apoio social,
(Org). A família numa sociedade em Apoio na Crise. São Leopoldo: EST/ físico, psicológico e político. Nes-
transformação. Porto Alegre: Concórdia, ABAC, 2003. p. 19. tes contextos, a igreja podia apenas
2006. p. 17. 104 Rm 12.15.

52 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão Urbana

preocupar-se com as almas. os aspectos da sua vida. É uma vi- sua dinâmica de Lei e Evangelho, e a
Hoje o ser humano urbano vive, são holística que visa proporcionar correta administração de Batismo e
em sua maioria, isolado em peque- auxílio e consolo tanto material, Santa Ceia; os meios da graça. Tra-
nos terrenos ou apartamentos, mui- psicológico e espiritual. Para isso a zendo isto para a realidade do ser
tas vezes nem mesmo conhecendo igreja continua a fazer uso de suas humano urbano brasileiro, a igreja
seu próprio vizinho. Os parentes ações missionárias do passado, po- cumpre sua função de testemunha e
estão longe e as dificuldades da ci- rém, de maneira contextualizada. proclamadora da Boa Nova da sal-
dade grande são múltiplas e multifa- O testemunho e a proclamação, a vação através de Jesus Cristo.
cetadas. A igreja, por sua vez, pode liturgia, a diaconia e a comunhão Antes de ser uma responsabili-
aproveitar esse contexto para buscar são aspectos que fazem parte do “ser dade, o preocupar-se com o ser hu-
um envolvimento maior com o ser igreja cristã”. A tarefa da contextua- mano integral é um privilégio para
humano principalmente numa ecle- lização é um esforço que a igreja re- todos os que foram justificados pelo
siologia urbana. aliza para continuar fazendo soar a sangue de Cristo e agora querem le-
A missão integral aparece como voz de Deus no mundo, de maneira var esse mesmo Cristo para toda tri-
uma proposta para uma eclesiologia vibrante e convincente. bo, língua, povo e nação, dentro dos
cada vez mais urbana. Abordagem A IELB tem uma grande tarefa seus respectivos contextos, porque
integral significa estar atento às ne- neste país. Ela possui a proclamação Cristo é para todos.
cessidades do ser humano em todos pura e fiel da Palavra de Deus com Rev. Marcos Schlemer Weide é pastor da Igreja Evan-
gélica Luterana do Brasil em São Vicente-SP.

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Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 53


Missão: Acolhendo e Integrando Rev. Waldyr Hoffmann

Como receber bem o

Receber bem
guém em
nossas casas é fundamental quando
al- são sobre o assunto. Quando mais
nos aprofundamos, várias questões
vêm à nossa mente sobre o porquê
bros têm o interesse em receber bem
o visitante para que ele se sinta bem
em nosso meio, especialmente por
se quer estabelecer uma boa relação de muitos visitantes não retornarem se tratar de uma nova realidade para
com o visitante, seja este familiar ou ao nosso convívio. O que está acon- ele. Nem sempre isto é fácil, mas
não. O mesmo se dá no círculo da tecendo? Como os temos recebido? com persistência, cuidado e preparo
igreja onde precisamos refletir so- A princípio imagino cada mem- podemos conseguir muito.
bre a nossa postura frente àqueles bro da igreja um recepcionista. Há, A igreja também poderá estru-
que nos visitam. Quando esta etapa nesta tarefa, uma dupla finalidade: turar-se com um departamento (ou
estiver sido bem feita, os resultados sermos cordiais com todos e tam- comissão) de recepcionistas. Estes,
também são satisfatórios. Se, to- bém oportunistas. Apesar disso, depois de preparados para tal fun-
davia, houver omissão ou descaso acreditamos que jamais deveríamos ção, irão desempenhar o seu papel
neste assunto, corremos o risco de “fazer a cabeça” de alguém após com muita alegria porque estarão
não ter o visitante de volta em nosso uma visita sua. Óbvio que uma lem- cientes de sua responsabilidade. Diz
meio. brança, convite, etc sucedem após o o ditado popular: “a primeira im-
Com a exposição deste tema contato e isto é recomendável. No pressão é a que fica”. Assim também
também queremos abrir o leque entanto, quando sentimos que isto o é na igreja. Portanto, recomenda-
e aproveitar a oportunidade para esteja constrangendo a outra pessoa, -se que uma equipe fique de pronti-
refletir sobre a nossa prática, am- precisamos rever o nosso procedi- dão quando os visitantes vierem.
pliando, assim, a nossa compreen- mento. Como um todo, os mem- É bom lembrar que em nossos

54 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Missão: Acolhendo e Integrando

dias de hoje as pessoas correm mui- alguma música ambiente. um cartão, no qual podemos
to e quase não têm tempo para nada. Recomendamos que os minu- destacar a ficha (serrilhada)
Em função disso, quando se sentem tos que antecedem o culto não em duas partes, onde o chama-
enfraquecidas, ou quando proble- deveriam ser utilizados para mos bem vindo, poderá ser uti-
mas sérios rondam a sua casa, etc, afinação dos instrumentos. lizado. Se o visitante veio por
em muitos casos elas irão procurar Isto poderá ser feito em outro intermédio de algum membro
por uma igreja (ou grupo religioso). momento. Agora, o tempo é de da igreja, este poderá fornecer
Por isso, elas precisam de uma lugar comunhão, oração e preparo o seu endereço. Preferencial-
de acolhimento por estarem aflitas e para o culto. Caso o culto seja à mente na semana seguinte
angustiadas. O que elas encontrarão noite, uma luz não muito forte deveria ser encaminhado uma
na igreja? Pessoas alegres, dispostas (indireta) deixará o ambiente correspondência (cartão ou
e perseverantes? Ou vão encontrar mais próprio para a ocasião; carta) agradecendo-lhe pela
pessoas cabisbaixas, zangadas umas b) seja natural – não somos visita e convidando-o nova-
com as outras (em muitas igrejas há em nada diferentes dos ou- mente. Se porventura, o visi-
membros que não falam com os ou- tros. As pessoas têm medo da tante já vem com freqüência,
tros). algo forçado (hipocrisia). Aqui bom seria agendar um con-
Nesta linha de pensamento, acre- também é preciso salientar o tato na sua própria casa para
ditamos que a partir do momento cuidado com os preconceitos expor-lhe mais sobre as dou-
em que o membro vive o Evangelho existentes entre as pessoas; trinas da igreja e tirar as suas
em sua vida, reflete o amor de Deus e c) cumprimente a todos – in- dúvidas. Isto poderá ser feito
passa a ser uma “luz no mundo” (Mt clusive os membros da igreja pela equipe de visitação ou pelo
5). Inclusive este também é o objeti- para que eles também se sin- próprio pastor.
vo da igreja: reunir o povo de Deus, tam cada vez melhores em nos- f ) após o culto – Este é um di-
fortalecer-lhe a fé e direcionar a sua so meio e despertem o interesse lema. Já vi muitos visitantes
vida na prática do amor de uns para pelos visitantes, seguindo o seu “no canto” e não serem acom-
com os outros. E nesta perspectiva, exemplo. A comunhão será for- panhados por ninguém. Neste
se torna também um grande recep- talecida com tal atitude; momento, muitos membros da
cionista que tem prazer em receber d) providenciar Bíblias, hiná- igreja estão preocupados com
o visitante em seu meio. rios e liturgias – e indicar um os “seus irmãos” e se esquecem
O que segue são algumas dicas/ membro da igreja para assesso- daquele que pode se tornar
orientações são necessárias para os rá-lo durante todo o culto (al- também um dos nossos. Aqui
membros da igreja e, em especial, guém que sente ao seu lado). também vale ressaltar qeu
àqueles designados para serem os e) anotar o endereço – Este é muitos membros são “apressa-
recepcionistas. um momento delicado. Que- dos” e logo querem ir embora
a) chegar mais cedo – prefe- remos ter um contato posterior para as suas casas. Bom seria
rencialmente meia hora antes com o visitante. No entanto, se todos pudessem participar
do culto. Deverá deixar todo não podemos constrangê-lo a de um momento de comunhão
o ambiente preparado, com deixar o seu endereço. Talvez (com café, chá ou lanche). As-

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 55


Missão: Acolhendo e Integrando

sim também o visitante seria mento e a pessoa deve ser en- mas pela palavra anunciada (pre-
“enturmado”. caminhada a assentar-se e as- gação), pelas músicas, liturgias, etc.
g) em situações constrangedo- sistir o culto. Também sou da Portanto, se estamos intencionados
ras – entre várias situações, opinião que o pastor ou outro também nos outros, precisamos nos
menciono duas: 1) bêbados líder, para evitar constrangi- preparar cada vez melhor, evitando
(mais comum) e 2) mendigos. mentos maiores entre os mem- monotonia nos cultos, etc. É preci-
Quando uma pessoa embria- bros, não divulgue que haja so também, nos adequar aos novos
gada entra na igreja e não um pedinte na igreja, especial-momentos. Não há necessidade em
atrapalha o culto, não nos cabe mente porque nem sempre co- realizar cultos mórbidos. O culto é
tirá-la. Caso ele grite, converse nhecemos o caso e encontramos a expressão da alegria que está em
alto ou crie situações embara- muitos “oportunistas” e a igre-nossos corações, mesmo que acom-
çosas, é recomendável que uma ja é um dos seus grandes alvos.panhados de muita dor, sofrimento,
pessoa a tire do ambiente e, dificuldades, etc.
havendo possibilidade, conver- Acredito que estas colocações Que estas reflexões nos ajudem
se com ela em particular. Há nos ajudarão a refletir sobre a nossa na prática de levar Cristo Para to-
casos também em que pedintes prática. Também não podemos nos dos!
entram na igreja e abordam esquecer que o visitante volta não Rev. Waldyr Hoffmann é pastor da Igreja Evangélica
um ou outro. Particularmente só porque recebeu um bom “tra- Luterana do Brasil em Joinville-SC
entendo que este não é o mo- tamento” por parte dos membros,

56 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Rev. Jarbas Hoffimann
Pesquisa e Adaptação

O Galo cantando
Um dos símbolos da Pai- a figura de Pedro aparece em mo- O galo nos chama a fazer o con-
xão de Cristo é o Galo vimento entre os apóstolos, o galo trário do que Pedro fez, ou seja, a
Cantando. Este pode ser visto den- canta. confessar Cristo. Nosso Salvador
tro de igrejas e no topo das torres disse: “Se uma pessoa afirmar pu-
de templos. No momento do blicamente que pertence a mim, eu
julgamento de Jesus, perante o também, no Dia do Juízo, afirmarei
Sinédrio, Pedro estava se aque- diante do meu Pai, que está no céu,
cendo numa fogueira na corte do que ela pertence a mim.” (Mateus
palácio do sumo sacerdote. Lá ele 10.32). E uma vez mais nos diz:
negou conhecer ou estar ligado ao “Então vigiem, pois vocês não sa-
Senhor. O galo cantando relembra bem quando o dono da casa vai vol-
aquele evento. tar; se será à tarde, ou à meia-noite,
Para alertar ao apóstolo do que ou de madrugada, ou de manhã.”
estava à frente, Jesus disse a ele na (Marcos 13.35). Vigilância e pron-
noite anterior: “nesta mesma noite, tidão para confessar são marcas de
antes que o galo cante, você dirá três uma fé alerta.
vezes que não me conhece.” O “can- “Se você disser com a sua boca:
tar do galo” foi o termo usado para ‘Jesus é Senhor’ e no seu coração
definir a terceira hora ou divisão da crer que Deus ressuscitou Jesus,
noite. O evangelista Marcos registra você será salvo.” (Romanos 10.9).
que depois da terceira negati-
va de Pedro, “Naquele instan-
te o galo cantou pela segunda
vez”. Isto aconteceu de ma-
nhã, bem cedo na Sexta-Feira
Santa.
O galo cantando
foi encontrado em
muitas esculturas e
pinturas, como se
quisesse ajudar os
cristãos a se lembra-
rem que não só Pedro,
mas todos nós vi-
vemos em tempos
de tentação a ne-
gar nosso Senhor.
Esta é a mensagem
do galo empoleirado no
alto do grande relógio da
catedral de Estras-
burgo. Sempre que

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 57


Estudo Bíblico Rev. Ewerton Gustavo Wrasse

Significado da

Quar
1. SIGNIFICADO DA QUARESMA
a. Do latim quadragésima, é o período de 40
dias antes da festa da ressurreição de Jesus
domingos, uma grande festa realizada
anualmente, onde era primeiro era reali-
zada uma vigília de orações e, em segui-
Cristo (páscoa). da, a celebração eucarística (Santa Ceia).
b. Tem início na quarta feira de cinzas, ao b. Séc. III: a Páscoa começou a ser celebra-
meio dia, e término na semana da paixão da em três dias (sexta, sábado e domin-
(mais precisamente no Domingo da Páscoa), go).
que inicia com o Domingo de Ramos (entra- c. Séc. VII: papa Gregório I, em 604 a.D.,
da triunfal de Jesus em Jerusalém). instituiu o tempo de 40 dias antes da
c. 40: número comum na Bíblia: páscoa para preparação, com jejum e
i. 40 dias do dilúvio; orações, onde o povo deveria evitar sexo,
ii. 40 anos de peregrinação do povo judeu carnes vermelhas e festas.
pelo deserto; i. Este período teria início no dia intitulado
iii. 40 dias de Moisés e de Elias na monta- “Quarta-feira de cinzas”
nha; 1. Antigo ritual católico em que os de-
iv. 400 anos que durou o exílio egípcio; votos são abençoados com cinzas pelo
v. 40 dias que Jesus passou no deserto sen- padre (o padre marca a testa de cada
do tentado. fiel, relembrando a antiga tradição
vi. 40 dias após a ressurreição de Cristo, pro- bíblica de jogar cinzas sobre a cabe-
vando sua vitória. ça como símbolo de arrependimento
2. SURGIMENTO DA QUARESMA perante Deus – Gn 3.19: porque tu és
a. A única festa religiosa no início do cristia- pó e ao pó tornarás).
nismo era a celebração semanal da ressurrei- 2. Também em diversos relatos bíbli-
ção do Senhor. cos, personagens jogam cinza sobre a
i. Os cristãos transformaram o 1º dia da se- cabeça como sinal de luto // tristeza //
mana, que os romanos chamavam de “dia arrependimento – Lv 6, Nm 19.17ss,
do sol”, em “dia do Senhor”, o verdadei- Et 4.1,3, Jó 42,6.
ro sol da justiça. ii. CURIOSIDADE: os dias antes da quarta-
ii. Mais tarde, instituíram o Domingo dos -feira de cinzas começaram a ser de

58 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Estudo Bíblico

resma intenso consumo de carnes, bebidas e


festas. A esse período deu-se o nome de
“adeus à carne”, ou “carne vale” em ita-
liano, que depois passou a ser conhecido
como “carnevale”. Escreve Felipe Ferrei-
ra, autor de “O livro de ouro do carnaval
resma para um período de meditação e cul-
tos especiais. Procuravam evitar tudo o que
pudesse atrapalhar esta devoção. O tempo de
descanso e de lazer era usado para medita-
ção e oração. Assim, após o trabalho no fim
do dia, as pessoas se dirigiam diariamente às
brasileiro”: “As ruas enchiam-se de gente suas igrejas para as meditações quaresmais.
fazendo tudo aquilo que não se devia Alguns preferiam fazer sua devoção em
ou não se podia fazer durante o resto do casa. Nos anos 50 isso ainda se fazia sentir
ano. [...] O que dava o caráter especial de forma palpável em Porto Alegre. As pro-
ao carnaval era a grande concentração de gramações radiofônicas refletiam o tempo da
brincadeiras num mesmo período, a pro- paixão. Também não se realizavam compe-
ximidade com a longa abstinência com a tições esportivas. Hoje vivemos em tempos
Quaresma e o fato de a coisa toda ter dia diferentes. Mesmo assim, cada cristão, cada
e hora marcados para acabar”. família cristã e cada congregação deveria
1. Estes dias de festa começaram a ser lutar por encontrar tempo para a meditação e
apoiados (embora não oficialmente) os cultos quaresmais (Horst Kuchenbecker).
pela própria igreja, que dessa maneira b. Em o que meditar? Meditamos na pessoa e
podia cobrar mais rigor religioso no obra de Jesus Cristo, o nosso Salvador.
período pós-folia. i. Jesus veio cumprir tudo o que estava es-
3. SÍMBOLOS DA QUARESMA E DA PÁSCOA crito a seu respeito – Lc 18.31: Tomando
a. Ovos: representam o final da quaresma. consigo os doze, disse-lhes Jesus: Eis que
Simbolizam o nascimento, pois, aparente- subimos para Jerusalém, e vai cumprir-
mente morto, rompe as paredes externas -se ali tudo quanto está escrito por inter-
b. para o surgimento de uma vida.Coelho: Re- médio dos profetas, no tocante ao Filho
presenta a fecundidade, a reprodução cons- do Homem.
tante da vida. Está associado ao crescimento 1. Tudo, em minúcias, foi cumprido por
exponencial da igreja, através do testemu- Jesus...
nho dos cristãos. ii. Jesus chamou pessoas ao arrependimento
4. COMO O CRISTÃO SE PREPARA NA QUA- e à fé – Mt 4.17: Daí por diante, passou
RESMA. Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos,
a. Antigamente, as pessoas reservavam a qua- porque está próximo o reino dos céus.
Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 59
Estudo Bíblico

Também Jo 14.6: Eu sou o caminho, e a a justiça. A lei precisou ser cumprida e a


verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai culpa precisou ser paga, para que Deus
senão por mim. pudesse perdoar. Então vieram os fariseus
iii. Nossa razão não compreende o sofri- e os soldados, guiados por Judas para o
mento de Cristo. O Cristo crucificado prenderem. Por amor a toda a humanida-
é “escândalo para os judeus e loucura de, por amor a ti e a mim, Jesus se entre-
para os gentios” (1 Co 1.23). Em outras gou voluntariamente a eles.
palavras, nossa razão não aceita a so- viii. Somos, pela fé na graça de Cristo, filhos
lução que Deus encontrou para a nossa de Deus. Somos novas criaturas e tem-
miséria, a nossa pecaminosidade. O amor plos do Espírito Santo. Temos uma mente
de Deus é escândalo para a nossa razão nova, uma nova visão da vida, e novas
corrompida pelo pecado. Por isso, quan- forças.
do alguém chega à fé na graça de Cristo ix. Temos alegria em servir a Cristo – Sl
e é conservado nesta fé isto é, ainda hoje, 119.77: Baixem sobre mim as tuas mise-
o maior milagre que acontece debaixo do ricórdias, para que eu viva; pois na tua
céu. “Pois ninguém pode dizer (isto é, lei está o meu prazer.
confessar com fé) Senhor Jesus (reconhe- x. Vivemos “em novidade de vida” – Rm
cer Jesus como Salvador e vencedor do 6.4: Fomos, pois, sepultados com ele
pecado, da morte e do poder de Satanás), na morte pelo batismo; para que, como
senão pelo (poder do) Espírito Santo” (1 Cristo foi ressuscitado dentre os mortos
Co 12.3). pela glória do Pai, assim também ande-
iv. Jesus humilhou-se profundamente – Fp mos nós em novidade de vida; Também
2.6-8: Pois ele, subsistindo em forma Rm 7.6: Agora, porém, libertados da lei,
de Deus, não julgou como usurpação o estamos mortos para aquilo a que está-
ser igual a Deus; antes, a si mesmo se vamos sujeitos, de modo que servimos em
esvaziou, assumindo a forma de servo, novidade de espírito e não na caducidade
tornando-se em semelhança de homens; da letra.
e, reconhecido em figura humana, a si 1. Isto se expressa pelo apego à Palavra
mesmo se humilhou, tornando-se obe- de Deus e aos cultos, pelo orar sem
diente até à morte e morte de cruz. cessar (1 Ts 5.17: Orai sem cessar),
v. Porque Jesus humilhou-se? – Is 53.4-5: bem como na luta diária contra o pe-
Certamente, ele tomou sobre si as nossas cado (Gl 5.16-26: Digo, porém: andai
enfermidades e as nossas dores levou no Espírito e jamais satisfareis à con-
sobre si; e nós o reputávamos por aflito, cupiscência da carne. Porque a carne
ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi milita contra o Espírito, e o Espírito,
traspassado pelas nossas transgressões e contra a carne, porque são opostos
moído pelas nossas iniqüidades; o casti- entre si; para que não façais o que,
go que nos traz a paz estava sobre ele, e porventura, seja do vosso querer. Mas,
pelas suas pisaduras fomos sarados. Ou se sois guiados pelo Espírito, não es-
seja: por amor a nós... tais sob a lei. Ora, as obras da carne
vi. Na oração do Getsêmani – Mt 26.39: são conhecidas e são: prostituição,
Meu Pai, se possível, passe de mim este impureza, lascívia, idolatria, feitiça-
cálice! Todavia, não seja como eu quero, rias, inimizades, porfias, ciúmes, iras,
e sim como tu queres. discórdias, dissensões, facções, inve-
vii. Perguntamos: Não haveria mesmo ou- jas, bebedices, glutonarias e coisas se-
tro caminho para salvar a humanidade melhantes a estas, a respeito das quais
do que pelo amargo sofrer e morrer de eu vos declaro, como já, outrora, vos
Jesus? Não, não havia. O amor não anula preveni, que não herdarão o reino de

60 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Estudo Bíblico

Deus os que tais coisas praticam. Mas graça, o perdão dos pecados.
o fruto do Espírito é: amor, alegria, 5. CONCLUSÃO:
paz, longanimidade, benignidade, a.  A Quaresma é um tempo ótimo para fortale-
bondade, fidelidade, mansidão, domí- cermos nossa intimidade com Deus. É uma
nio próprio. Contra estas coisas não oportunidade de enfraquecermos o nosso
há lei. E os que são de Cristo Jesus apetite pelas coisas que não nos podem
crucificaram a carne, com as suas salvar e nos concentrarmos naquele que é o
paixões e concupiscências. Se vive- centro da nossa fé: Jesus Cristo.
mos no Espírito, andemos também no b. Promessa: Desejo, na Quaresma, servir a
Espírito. Não nos deixemos possuir de Deus verdadeiramente e, preparando-me
vanglória, provocando uns aos outros, neste período, assim continuar servindo-o
tendo inveja uns dos outros). durante todo o resto do ano.
a. Aquele que não se apega a isso, torna-se ne- Rev. Everton Gustavo Wrasse é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, na
gligente e, desta forma, estará para sempre Serra-ES.
condenado.
xi. Jesus nos governa. No seu reino impera a
Liturgia Rev. Germano Neumann

A teologia de nossa

1ª - Deus fala a nós,


faz e age em nós?
A primeira é conhecida como “theologia prima”: c) E quais as consequências maiores daí?
a) Teologia maior, melhor, superior, teologia primeira. 1) Enfraquece a liturgia;
Por isso mesmo, liturgia primordial, ou primária. 2) Ela perde o seu poder e a sua ação;
b) É liturgia sacramental: Gottes + dienst = serviço de 3) Ela passa a ser uma colcha de retalhos e, cai por
Deus para nós. Que deixa Deus ser Deus. Que dei- si;
xa Deus aair. Primeiro lugar para Deus, sempre. 4) E pede, automaticamente, o novo e a novidade;
c) Todas as partes da liturgia estão atreladas entre si e 5) Haja fôlego e criatividade para eternas novida-
convergem todas para os meios da graça: Batismo, des;
Santa Ceia e Evangelho. 6) Lança todos em um círculo vicioso, corroído e
d) Esta theologia prima é e, deve ser sempre, cristocên- raso;
trica. 7) Enfraquece, igualmente, a teologia;
e) Ela é, igualmente, escatológica. 8) Enfraquece e relativiza a doutrina e, depois, a
praxe;
A segunda é conhecida como “theologia secunda,” 9) Traz crise espiritual, em que os adoradores sen-
ou teologia secundária. tem um Deus distante, ou, até ausente, em seu
a) É a teologia em que o ser humano fala e, Deus silen- culto e vida;
cia e, ouve. 10) Culto, liturgia, doutrina, fé, Deus passam a ser
b) O ser humano fala a Deus e pede. uma coisa chata, cansativa, mutável, adiáfora, su-
c) Fala de Deus, da Sua Palavra, dos seus milagres, das pérflua;
Suas maravilhas, das Suas obras e adora. 11) Culto passa a ser um hobby entre outros. Um
«hobby de muito mau gosto»;
O problema maior acontece, quando a teologia pri- 12) Acaba com a identidade e uniformidade bíbli-
mária é relegada à secundária e vice-versa. Explico: ca e, cristã;
a) Falamos mais que Deus na liturgia. Alçamos a teo- 13) A liturgia, então, passa a ser dispersiva, frag-
logia secundária à primária e, acabamos abafando, mentária, dissolutiva e divisionista;
ou até silenciando a voz de Deus. 14) Ela perde o seu poder intrínseco e aglutinador;
b) anto mais ativismo nosso, menos atividade sobra 15) Ela traz consigo o poder da anomia, do vale
para Deus. tudo;

62 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Liturgia

2ª - Nós falamos a
Deus, nós fazemos e
agimos?
16) Ela traz consigo o «entusiasmo pentecostal e b) atequética;
carismático.» Sim, quem entre estes, usa liturgia c) Didática;
d) Primordialmente evangélica, ativa e aglutinadora.
Liturgia, bem como teologia, é para ser guarda-
da debaixo de sete chaves, com todo ardor, carinho e Que tal, vamos parar e analisar a nossa prática de
amor. Sim, porque ela é: Liturgia e teologia? Ecclesia semper reformanda!
a) Profundamente hermenêutica; Rev. Germano Neumann é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em
Tapes-RS.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 63


Litúrgica: Período de Quaresma Comissão de Culto da IELB

Sugestão Litúrgica para a Quaresma


Veja uma sugestão de liturgia para o período de sos pecados, dizendo:
Quaresma. Aqui aparece sem a formatação adequa- C.: Querido Senhor, confessamos que somos peca-
dores por natureza. Pecamos contra ti por pen-
da para uso prático no culto. Caso queira formatar samentos, palavras e ações. Cedemos diante das
à vontade, este texto pode ser usado. Caso queira o tentações do diabo. Desobedecemos à tua von-
material finalizado, verifique no blog da Comissão tade. Deixamos de olhar para o nosso irmão e
de Culto da IELB (www.liturgialuterana.blogspot. não o acolhemos em nosso coração nem o inte-
com). Lá você encontra o material para imprimir, gramos em nossa vida pessoal e da congregação.
Perdoa-nos, Senhor, por causa de Jesus Cristo,
bem como para ser projetado. E várias outras suges- o bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas,
tões de liturgias. que morreu e ressuscitou para que todos seja-
mos teu rebanho e tenhamos vida eterna.
P.: Tudo isso é feito por Deus, o qual, por meio de
Legenda: Cristo, nos transforma de inimigos em amigos
dele. E Deus nos deu a tarefa de fazer com que
P Pastor de pé os outros também sejam amigos dele. (2 Corín-
tios 5.18). Por isso, como servo de Deus chama-
C Congregação sentados do e ordenado, anuncio-lhes a graça de Deus, e
em nome e por ordem do Senhor Jesus Cristo,
T Todos ajoelhados perdoo todos os pecados de vocês, em nome do
Pai e do Filho e do Espírito Santo.
|: Repetir o canto. cantar C.: A nossa mensagem é esta: Deus não leva em
conta os pecados dos seres humanos e, por meio
de Cristo, ele está fazendo com que eles sejam
1. Hino seus amigos. E Deus nos mandou entregar a
mensagem que fala da maneira como ele faz
2. Invocação com que eles se tornem seus amigos. (2 Corín-
P.: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. tios 5.19)
C.: Amém.
P.: Ó SENHOR Deus, não me repreendas quando 4. Intróito
estiveres irado! Não me castigues no teu furor. (Veja Culto Luterano – Lecionários)
C.: Tem compaixão de mim, pois me sinto fraco.
Dá-me saúde, pois o meu corpo está abatido, 5. Kyrie
P.: e a minha alma está muito aflita. Ó Deus, quan- P.: Por causa do teu amor, ó Deus, tem misericór-
do virás me curar? dia de mim. (Salmo 51.1a)
C.: Vem salvar a minha vida, ó SENHOR Deus! C.: Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem mise-
Por causa do teu amor, livra-me da morte. ricórdia, pois em ti procuro segurança! (Salmo
T.: O SENHOR Deus escuta quando peço ajuda e 57.1)
atende as minhas orações. (Salmo 6.1-4,9) P.: Tem compaixão de mim, Senhor, pois eu oro a
ti o dia inteiro! (Salmo 86.3)
3. Confissão e Absolvição C.: Olha de novo para mim e tem misericórdia de
P.: Estamos aqui falando em nome de Cristo, mim; dá-me a tua força e salva-me, pois eu te
como se o próprio Deus estivesse pedindo por sirvo. (Salmo 86.16)
meio de nós. Em nome de Cristo nós pedimos
a vocês que deixem que Deus os transforme de 6. Oração do Dia
inimigos em amigos dele. (Veja Culto Luterano – Lecionários)
C.: Em Cristo não havia pecado. Mas Deus colo-
cou sobre Cristo a culpa dos nossos pecados para 7. Hino
que nós, em união com ele, vivamos de acordo
com a vontade de Deus. (2 Coríntios 5.20-21) 8. Leitura do Antigo Testamento
P.: O período da Quaresma é um tempo especial (Veja Culto Luterano – Lecionários)
em que a Palavra de Deus nos faz olhar para
aquilo que Jesus fez a fim de pagar pelas nossas 9. Leitura da Epístola
desobediências e pecados. Por isso, chegamos (Veja Culto Luterano – Lecionários)
diante dele arrependidos e confessamos os nos-
64 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011
Litúrgica: Período de Quaresma

10. Gradual va em mim espírito reto. Não me lances fora da


P.: Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, tua presença e não retires de mim o teu Espírito
C.: Pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salva-
ele quem a aperfeiçoa. ção e sustém-me com um voluntário espírito.
P.: Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele Amém.
desistisse. 17. Prefácio e Sanctus
C.: Pelo contrário, por causa da alegria que lhe foi
prometida, P.: O Senhor esteja convosco.
P.: Ele não se importou com a humilhação de mor- C.: Ele está no meio de nós.
rer na cruz P.: Elevai os corações.
C.: E agora está sentado do lado direito do trono C.: Ao Senhor os elevamos.
de Deus. (Hebreus 12.2) P.: Rendamos graças ao Senhor, nosso Deus.
T.: [VERSO] C.: É digno e justo.
(Veja Culto Luterano – Lecionários) P.: É verdadeiramente digno, justo e do nosso de-
ver, que em todos os tempos e em todos os lu-
11. Evangelho gares te demos graças, ó Senhor, santo Pai, oni-
(Veja Culto Luterano – Lecionários)
potente, eterno Deus, mediante Jesus Cristo,
nosso Senhor,
C.: Que venceu os assaltos do diabo e deu sua vida
12. Mensagem como resgate por muitos, a fim de que, com
corações limpos, possamos ser preparados com
13. Credo Niceno alegria para celebrar a festa da Páscoa com sin-
ceridade e verdade.
14. Recolhimento das Ofertas—Hino P.: Portanto, com os anjos e arcanjos e com toda a
companhia celeste, louvamos e magnificamos o
15. Oração Geral da Igreja teu glorioso nome, exaltando-te sempre, dizen-
P.: Ó Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do do:
mundo, agradecemos-te porque derramaste o T.: Santo, santo, santo Senhor, Deus de força e
teu sangue sobre a cruz para que pudéssemos poder; céus e terra cheios estão de tua glória.
ter vida abundante e eterna. Hosana, Hosana, Hosana nas alturas. Bendito
C.: Olha para nós, Senhor, liberta-nos de nossos aquele que vem em nome do Senhor. Hosana
pecados e salva-nos por causa do teu amor sem nas alturas!
fim.
P.: Ó Cordeiro de Deus, fortalece a nossa fé em 18. Pai-Nosso
tua vida, morte e ressurreição, para que em T.: Pai nosso, que estás nos céus. Santificado seja
meio aos problemas deste mundo, à tentação o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua
do diabo e à doença da nossa natureza pecami- vontade, assim na terra como no céu. O pão
nosa possamos conhecer a tua paz, vivendo na nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos as
confiança de que és o nosso bom Pastor. nossas dívidas, assim como nós também per-
C.: Olha para nós, Senhor, e pela tua Palavra e pe- doamos aos nossos devedores. E não nos deixes
los sacramentos, livra-nos do mal. cair em tentação. Mas livra-nos do mal.
P.: Ó Cordeiro de Deus, assim como nos acolheste Pois teu é o reino, e o poder, e a glória, para
em teu Reino nas águas do Batismo, perdoan- sempre. Amém.
do o pecado, criando a fé e nos colocando em
tua família, ajuda-nos a levar a tua Palavra de 19. Palavras da Instituição
salvação a muitos que vivem ao nosso redor. E, P.: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que
quando forem chamados por ti a virem até este foi traído, pegou o pão, e, tendo dado graças,
santo lugar, ajuda-nos a amá-los assim como o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo:
nos amaste, para que sejam parte do teu corpo, Peguem, comam, isto é o meu corpo (†), que é
a santa Igreja Cristã. dado por vocês; façam isto em memória minha.
C.: Olha para nós, Senhor, e faze com que sempre E, semelhantemente, também, depois da ceia,
confessamos que tu és o Cristo, o nosso bom pegou o cálice e, tendo dado graças, o entre-
Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. gou, dizendo: bebam todos deste; este cálice é
(Pedidos adicionais podem ser acrescentados.)
o Novo Testamento no meu sangue (†), que é
derramado por vocês para remissão dos peca-
16. Ofertório dos; façam isto, quantas vezes o beberem, em
C.: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e reno- memória minha.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 65


Litúrgica: Período de Quaresma

20. Pax Domini nossa fé o nosso amor por ti e pelas outras pes-
P.: Que a Paz do Senhor Jesus esteja com todos vo- soas; por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor.
cês hoje e sempre. C.: Acolhidos e integrados por ti, queremos aco-
C.: E com você também. lher e integrar, sendo instrumentos na tua mão
T.: Amém. para que muitos se tornem teus amigos e vivam
contigo. Amém.
21. Agnus Dei
24. Bênção
C.: Cordeiro Divino, morto pelo pecador, sê com-
passivo. P.: Recebam a bênção do Senhor.
Cordeiro Divino, morto pelo pecador, sê com- O Senhor abençoe e guarde vocês.
passivo. O Senhor faça resplandecer o rosto sobre vocês
Cordeiro Divino, morto pelo pecador, a paz e tenha misericórdia de vocês.
concede. O Senhor, sobre vocês, levante o rosto e dê a
Amém. paz.
C.: Amém. Amém. Amém.
22. Distribuição
(Canta-se hinos)
25. Hino Final
26. Comunicações, anúncios e
23. Ação de Graças
despedida
P.: Senhor Deus, que nos alimentaste com o corpo
e sangue do Cordeiro de Deus, dados no pão
e vinho, rogamos que este alimento fortaleça a

Liturgia completa e em diversos formatos no blogue Liturgia Luterana. Inclusive as melodias para as partes
cantadas, sugeridas nesta liturgia. www.liturgialuterana.blogspot.com

66 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


Direto ao Ponto

Desafio de Shrek
O casamento religioso à fantasia em Gari-
baldi, RS, mostra bem o jeito alucinado da
vida. Vestidos de Fiona e Shrek, o desejo dos noi-
na miragem de reinos e castelos. Sem dúvida,
temos um desafio parecido com o do Shrek, de
espantar as ilusões e viver a realidade.
vos diante do altar expressa a síndrome huma- Viver a realidade? Vale à pena? Ela é tão
na “do fazer de conta” – que virou epidemia. Os dura, exigente, cruel. Por que não levar a vida
padrinhos com roupas de príncipes e princesas, na brincadeira? Seria o caminho, se o dragão
os pais dos noivos de reis e rainhas, as crianças fosse apenas fábula. Ele existe e expele violen-
com alegorias de Dragão, Burrinho, Branca de tamente sobre nós suas labaredas. Podemos até
Neve, os convidados caracterizados dos contos aprisioná-lo atrás de máscaras e alegorias, mas
infantis – uma cena surreal que diz tudo so- um dia ele surge em inevitáveis tragédias. Por
bre esta sociedade de castelos de areia. Fiquei isto a advertência: “Viva alegre durante todos
pensando na história dessa famosa animação, os anos da sua vida. Mas, mesmo que você viva
para dizer o seguinte: precisamos imitar o ogro muitos anos, lembre que ficará morto durante
Shrek, e expulsar as criaturas mági- cas muito mais tempo. Tudo o que acontece é ilu-
que invadem o nosso “pântano”. são” (Eclesiastes 11.8).
Esta é a ameaça – a vida Seria tudo ilusão se não fosse “a realidade
transformada numa aventura de Cristo” (Colossenses 2.17). Que para
de desenho animado. De ficar alguns é também pura fantasia.
adulto, mas ainda “brincar” Mas, uma certeza para aque-
de casinha, de carrinho, de les que são chamados de
vídeo game, de ganhar e igreja – que vem “de Deus,
perder. De fazer de conta enfeitada e preparada, ves-
que casamos, que tida como uma noiva que
temos família, que vai ser encontrar com
trabalhamos, que o noivo”, para viver no
somos felizes. No reino celestial onde
imaginário de ser “não haverá mais
bem sucedido, vestir morte, nem tristeza,
a alegoria de sobe- nem choro, nem dor”
ranos, alucinados (Apocalipse 21.1-4).
Rev. Marcos Schmidt é pastor da
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
em Novo Hamburgo-RS