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Vamos cultivar o gosto pela arte e pela cultura - parte I

Diálogo sobre a juventude (XV)

04 DE JULHO DE 1998 — EDIÇÃO Nº 1467

Esta é a décima quinta parte da série de diálogos entre o presidente Ikeda e os responsáveis pela Divisão
dos Estudantes Colegiais da Soka Gakkai, Hidenobu Kimura e Kazue Igeta, publicada na edição de 23 de
abril de 1997 do Koko Shimpo, jornal quinzenal dessa Divisão.

Kimura: Hoje iremos conversar sobre arte.

Creio que para muitos a palavra arte imediatamente traz à mente imagens de algo muito formal e mesmo
intimidador.

Pres. Ikeda: Isso pode até ser verdade. No entanto, ninguém considera o canto de um pássaro como algo
formal ou amedrontador, certo? Com certeza, o mesmo ocorre quando alguém contempla um campo florido.
Quem deixaria de admirar ou ser envolvido pela beleza das cerejeiras repletas de botões se abrindo sob o
reflexo do brilho da Lua? E, em um lindo dia, tenho certeza de que levantamos os olhos para o céu azul e
exclamamos: ―Que maravilha!‖ O som da água correndo em um riacho certamente causa deleite aos ouvidos,
revigorando e purificando nossos sentimentos. Tudo isso são exemplos do nosso amor intuitivo à beleza, o
espírito da arte e da cultura.

A arte não é, de maneira alguma, algo incomum ou extraordinário. As grandes obras de arte, assim como a
beleza inerente na natureza, são um bálsamo relaxante e refrescante para o espírito e uma fonte de energia e
vitalidade.

Várias das nossas atividades diárias fazem ecoar o espírito da arte e da cultura. Por exemplo, quando nos
esforçamos para ficar mais bonitos, buscamos produzir a beleza. Quando arrumamos nosso quarto, a fim de
deixá-lo brilhando, estamos nos esforçando para criar a beleza. Uma única flor plantada em um vaso pode,
muitas vezes, transformar completamente um recinto, proporcionando-lhe um toque suave e aconchegante.
Tal é o poder da beleza.

A arte deveria nos tornar serenos e tranqüilos, e não nos colocar na defensiva ou nos fazer sentir
desconfortáveis. Deveria nos encorajar quando nos sentimos desanimados e nos deixar relaxados e animados
quando estamos tensos.

Igeta: Alguns de nós talvez se sintam apreensivos em relação à arte, uma vez que é uma matéria exigida na
escola.

Pres. Ikeda: Acredito que o mais importante é simplesmente começar apreciando a arte. Se o seu
primeiro contato com a arte for por meio acadêmico ou analítico, é provável que acabe se
sentindo confuso e perdido em relação ao seu verdadeiro significado. Não acredito que quando as
pessoas ouvem o canto de um pássaro ou contemplam um campo florido, tentem analisar essa
beleza intelectualmente. Com certeza, para apreciar algumas grandes obras de arte em sua
totalidade, devemos nos concentrar e fazer um certo esforço mental. No entanto, a apreciação
começa simplesmente pelo contato com a obra. Com a música, por exemplo, iniciamos apenas
ouvindo-a. Com uma pintura, iniciamos olhando-a. Sinto que muitos ficam tão preocupados em
analisar um trabalho artístico que acabam não percebendo sua verdadeira natureza.

No Japão, por exemplo, mesmo a visita a um museu é, para a maioria, um evento raro e especial. Na Europa,
contudo, as pessoas visitam museus de arte com freqüência desde criança. Por estarem acostumadas aos
museus, estes não lhes causam medo. Uma razão disso talvez seja pelo fato de os museus ocidentais serem
produtos de uma sociedade democrática. Nos séculos passados, somente os aristocratas, ou os indivíduos
mais abastados, podiam colecionar e apreciar objetos de arte. Os museus de arte públicos surgiram quando as
pessoas insistiram que elas, também, tinham o direito de acesso às grandes obras de arte. Foi simplesmente
dessa maneira que eles surgiram; a partir de uma crescente demanda do povo pela oportunidade de apreciar
a arte.

No Japão, por outro lado, os museus foram, primeiramente, estabelecidos na era Meiji (1868–1912), quando
esse país abriu suas portas ao mundo após séculos de reclusão. A partir desse momento, o governo japonês
inaugurou museus que imitavam os do Ocidente, acreditando que seu país seria considerado retrógrado pelos
governantes ocidentais pelo fato de não possuir esses estabelecimentos. Como instituições patrocinadas pelo
governo, os museus japoneses inevitavelmente traziam a condescendente mensagem: ―Aqui está — estamos
nos esforçando para que vocês possam apreciar essas obras de arte.‖

Kimura: ―E vocês deveriam agradecer por isso‖ foi o sentimento transmitido.

Igeta: Isso realmente contribuiu para tornar a visita a um museu uma experiência desagradável ou mesmo
intimidadora.

Pres. Ikeda: Embora eu acredite que as coisas tenham mudado consideravelmente no Japão, tal atitude ainda
persiste no mundo da arte e da cultura, influenciando-nos de acordo com nossa reação a ambas. A cultura, na
verdade, existe para que as pessoas sintam-se felizes e tranqüilas; a arte não foi criada para nos intimidar; no
entanto, várias pessoas parecem não reconhecer essa verdade.

A arte e a cultura genuínas esforçam-se para enriquecer o indivíduo e incentivar sua expressão própria,
enquanto buscam ao mesmo tempo alcançar, emocionar, transmitir e aproximar as pessoas. Ela promove um
espírito no qual a alegria e a felicidade dos outros antecedem a fama e a riqueza. A arte e a cultura genuínas
existem para cultivar esse espírito; porém, os líderes intelectuais e políticos do Japão atual parecem ter
perdido esse sentimento. Eles tendem a considerar a arte como um meio para conseguir satisfazer seus
próprios interesses; conseqüentemente, talvez jamais venham a compreender a essência da arte e da cultura.

Entretanto, tenho esperança de que todos vocês, membros da Divisão dos Estudantes Colegiais, se tornem
indivíduos que apreciam o verdadeiro espírito da cultura. Visitar museus e assistir a concertos são importantes
meios para cultivarem esse espírito. Ao mesmo tempo, poderiam aprender algo na área artística, talvez cantar
ou pintar, ou algum trabalho manual. Dessa maneira, gradativamente irão se tornar uma pessoa culta, alguém
que aprecia e desfruta a arte e a cultura.

Se dedicarem todo o seu tempo somente a estudar para os exames da universidade, sua vida irá se tornar
muito limitada. É claro que é necessário estudar para os exames, mas não devem esquecer o que é
importante em termos de objetivos maiores de vida, que é cultivar a individualidade e expressão próprias.

É importante que conheçam e se acostumem à arte. Estudar para os exames é somente um pouco mais que
processar informações. A arte e a cultura são o que enriquece nossa vida, tornando-a um verdadeiro valor.

As aulas de educação artística nas escolas também são importantes, pois podem expandir, aprofundar e
enriquecer-nos como indivíduos.

Igeta: Vários de nossos estudantes reclamam que suas aulas de educação artística são chatas e entediantes.

Pres. Ikeda: Talvez tenham razão. Certo estudioso comentou que, no Japão, diversos professores de educação
artística são desmedidos e presunçosos. Ele questionou por que os professores não eram capazes de conduzir
as aulas de maneira mais direta e acessível aos alunos. Acredito que um dos problemas é que no Japão há
uma falta de solo espiritual no qual se possa cultivar mentes que compreendam a verdadeira essência da arte.

Nessas circunstâncias, algumas vezes os professores se tornam arrogantes, esquecendo-se de que a


habilidade profissional que possuem não é nada mais do que isso — uma habilidade. Por exemplo, existem
professores de inglês que são arrogantes e condescendentes, imaginando a si próprios, de alguma forma,
superiores pelo fato de conseguirem falar inglês e seus alunos não. Da mesma maneira, há professores de
educação artística que, por pintarem ou esculpirem bem, desprezam seus alunos por eles não possuírem a
mesma habilidade.

Certamente, a capacidade de um professor de educação artística somente pode ser medida pelos seus
sinceros esforços em cultivar e incentivar no aluno a compreensão e o gosto pela arte e pela cultura.
Infelizmente, o empobrecido solo cultural do Japão produz pouquíssimos indivíduos com tal capacidade.

Uma vez que a cultura é o alimento do espírito, apreciar a arte é muito mais importante do que a habilidade
artística. A cultura é a expressão do impulso interior de cultivar a terra do espírito humano, limitado e oprimido
pela tendência humana, de maneira a fazer brotar as mais belas flores e frutos em profusão.

A arrogância é o exato oposto ao espírito da cultura. Certa vez, uma pessoa comentou que um artista
arrogante e convencido é um falso artista; tal tipo de pessoa é somente um ―fornecedor de arte‖, alguém que
mantém seu sustento às custas da arte. Da mesma forma, uma pessoa culta, mas obcecada pela publicidade e
pela fama, não passa de um ―fornecedor de cultura‖.

Gostaria que todos vocês, os líderes do futuro, reconhecessem que os genuínos artistas, indivíduos que
verdadeiramente apreciam a cultura, são aqueles capazes de cultivar uma compreensão partilhada entre as
pessoas, e que sempre manifestam um sentimento de gratidão e respeito pelos outros.

Kimura: Gostaria de contar um episódio que exemplifica como a arte — neste caso a música — pode
manifestar, no coração das pessoas, um sentimento de conforto e alegria. Um membro da Divisão dos
Estudantes Colegiais tocou violino em uma reunião da qual participei. Assim que a melodia envolveu o recinto,
todos os presentes, alguns dos quais vinham olhando para o chão de maneira retraída, levantaram a cabeça,
e, ao ouvirem a música, um brilho irradiou de seus olhos. A mudança do estado de espírito foi surpreendente.

Jun-iti Saito, responsável pela Divisão dos Estudantes Colegiais de Tohoku (parte setentrional da principal ilha
do Japão) e professor de música, passou por semelhante experiência. Ele freqüentemente toca piano em
reuniões. Seu desejo, ao apresentar o que ele descreve como ―canção do mundo do bodhisattva‖, é, de
alguma forma, incentivar e inspirar os membros.

Pres. Ikeda: Isso é maravilhoso. Um mundo sem a arte é cinzento e sem vida. Somente quando as flores da
cultura brotarem é que o nosso mundo poderá se tornar brilhante e alegre. O movimento da SGI para
promover a cultura, partindo das pessoas para o mundo todo, é como um rico e colorido jardim que se
estende por todo o globo.

Kimura: Isso é bem verdade. De fato, o primeiro contato do Sr. Saito com a música foi quando ingressou no
Coral da Divisão do Futuro da Soka Gakkai. A partir de seu segundo ano no colégio, começou a estudar música
com mais afinco. Certa vez, ele me disse: ―Sinto a arte como a alegria da autodescoberta. Os momentos mais
felizes da minha vida são, também, quando estou ensinando as crianças, e algo novo se manifesta do interior
delas por meio da música. Dessa maneira, a arte é a busca da nossa própria humanidade.‖

Pres. Ikeda: Concordo plenamente. É a busca da nossa humanidade, e não a busca de fama, riqueza ou
honrarias. As grandes obras de arte mundiais de toda a história sobreviveram até o presente e continuam a
inspirar nossa vida e a tocar nosso coração exatamente porque seus criadores se esforçaram para deixar uma
herança de seus sentimentos, sem nenhum pensamento de fama ou riqueza. A arte originada de sentimentos
vis é como o latão comparado ao ouro.

A grandiosa arte, por outro lado, está repleta de uma poderosa força vital. É vívida, dotada da vida e do
sentimento do artista. E por falar em artistas, o renomado escultor francês Auguste Rodin (1840–1917)
afirmou que o importante é sentir, amar, ter esperança, estremecer e viver. É ser, antes de um artista, um ser
humano. Esses sentimentos humanos — esperança, amor, ira, medo — nos são transmitidos pela obra do
artista. As vibrações do espírito do artista fazem refletir vibrações semelhantes em nosso coração. Essa é a
experiência essencial da arte; um sentimento compartilhado que une o artista ao observador, transcendendo
as barreiras de tempo e espaço.

Igeta: O que realmente conta é o sentimento.

Pres. Ikeda: Dunhuang, no Oeste da China, é considerado um grande museu de arte no deserto. É um
maravilhoso repositório de pinturas budistas que abrange um período de mil anos, datando do século IV. O
falecido pintor chinês Chang Shuhong (1904-1994) tomou como sua missão proteger esse valioso tesouro e
apresentá-lo ao mundo. Ele foi uma pessoa extraordinária. Encontramo-nos em várias ocasiões; na verdade,
publicamos um livro com nossos diálogos.1

Quando jovem, o Sr. Chang estudou arte ocidental em Paris e tudo indicava que iria se tornar um grande
artista. Ele havia ganho diversos prêmios, e seu futuro era muito promissor. Então, certo dia, encontrou por
acaso um livro num sebo que ficava às margens do rio Sena. Era uma coleção de gravuras das grutas de
Dunhuang.

A China, sua terra natal, possuía uma arte tão magnífica — e havia sido saqueada por estrangeiros! Naquele
momento, decidiu retornar à China e proteger esses grandes tesouros com suas próprias mãos.

O jovem Chang abandonou sua carreira principiante e a vida em Paris, partindo para Dunhuang, que se
localizava no meio do deserto. Durante toda uma vida, que muitos poderiam considerar uma sentença de
miséria e de sofrimento eternos, ele se devotou completamente, até o último momento, a proteger e restaurar
as pinturas de Dunhuang.

Sua dedicação foi grandiosa e heróica. A vida era tão penosa no deserto que sua primeira esposa o
abandonou. A dedicação de Chang à preservação da beleza de Dunhuang e à sua apresentação ao mundo era
tal que ele não exigia nada para si próprio. Ele possuía o verdadeiro espírito da arte.

Chang Shuhong declarou: ―As pinturas de Dunhuang são tão vívidas e inspiradoras ainda hoje porque seus
criadores produziram-nas com a própria alma. A energia criativa que se manifesta das profundezas da alma é
sempre genuína. As verdadeiras obras de arte jamais perdem seu poder de encantar as pessoas, mesmo
passados milhares de anos. Porém, muitas obras de arte que parecem genuinamente belas à primeira vista
revelam-se, algumas vezes, uma verdadeira fraude após uma observação mais detalhada.‖

Não há dúvidas quanto a isso. Atualmente, há uma tendência no mundo da arte de julgar obras com grande
consideração se o artista for famoso, ou se a obra tiver um preço alto. Essa é uma atitude errônea e infeliz. No
entanto, seja qual for nossa situação atual, a busca da cultura deve ser uma eterna preocupação, uma vez que
ela é indispensável para tornar nossa vida mais rica, agradável e digna de valor.

Não há como negar que nós, seres humanos, possuímos um lado cruel, o da inveja, da competição e da
hostilidade. No entanto, também temos um outro lado, o do desejo de viver uma vida mais rica, bela e
brilhante. A interação dessas duas tendências constrói a crônica, a história de nossa espécie. Isso é o que
torna a arte e a cultura tão importantes: elas incentivam nosso melhor lado, auxiliando-nos a desfrutar, ao
máximo, a mais rica vida, cultivando a virtude da bondade, o desejo de fazer dessa terra um paraíso. Esse é o
modo ideal de viver como seres humanos e é o que nos distingue de outras espécies.

Kimura: A arte que se origina da alma também é, freqüentemente, a arte que expressa a fé religiosa. As
grandes religiões dão origem a uma grande cultura.

Pres. Ikeda: Isso será verdadeiro enquanto a religião não se aliar às forças do autoritarismo.

Sem o respaldo de uma filosofia profunda firmemente arraigada no povo, é impossível que a cultura floresça.
As religiões, e o budismo em particular, são inseparáveis da cultura. Elas são como os lados de uma mesma
moeda. Tanto a cultura como o budismo objetivam inspirar o interior das pessoas. Conforme Chang Shuhong
afirmou: ―A fonte de inspiração criativa da arte de Dunhuang pode, muito bem, ter sido religiosa. Se os
pintores não tivessem fé no budismo, não poderiam ter produzido as pinturas da forma como o fizeram.‖

Igeta: A autoridade opressiva e a arrogância são realmente fatais para a cultura, não é verdade?

Pres. Ikeda: Sim. Quando eu era garoto, o Japão inteiro atirou-se no decadente caminho da guerra. Naquela
atmosfera, tudo o que era arte foi amplamente considerado antipatriótico. A única música que escutávamos
eram canções militares. Na escola, somente nos ensinavam a desenhar soldados e tanques ou enfermeiras
cuidando dos feridos nos campos de batalha. Violentas forças opressivas foram impostas à nossa cultura. Essa
é a natureza demoníaca da tirania.

Enquanto a arte e a cultura libertam as pessoas internamente, o autoritarismo as oprime externamente. São
forças contrárias.

Kimura: Não há muitos líderes em nossa sociedade que possuem uma verdadeira compreensão da beleza. Ao
contrário, eles tentam explorar a cultura a fim de satisfazer suas próprias ambições.

Pres. Ikeda: Por isso é tão importante que as pessoas apóiem e incentivem a cultura. De certo modo, a arte
da Renascença na Europa foi uma conseqüência da articulação da libertação das pessoas do poder opressivo
da Igreja e do Estado. Ela expressou o brado: ―Essa é a maneira como as pessoas devem viver!‖ Foi uma
manifestação do extraordinário poder das pessoas. E a beleza e o valor perenes da arte da Renascença ainda
permanecem intatos através do tempo.

O fato de aqueles no poder não tentarem compreender a arte e a cultura é realmente temeroso. Essa falta de
apreciação dos nobres aspectos da vida humana é o que leva a partir para a guerra, e a tender para o lado do
fascismo.

Com certeza, existem também exemplos de líderes que compreendem e apreciam a arte. Albrecht Dürer
(1471–1528) foi um grande pintor e gravador da Renascença alemã. Certo dia, ele subiu em uma escada para
trabalhar em uma grande pintura no palácio do imperador romano Maximiliano I. A escada começou a
balançar, e o imperador, que estava observando, solicitou a um dos aristocratas que se encontravam no
recinto que a segurasse. Ninguém se mexeu. A posição social de um pintor naquela época era uma das mais
inferiores; portanto, aqueles homens não se rebaixariam para ajudar Dürer. Com isso, o próprio imperador
levantou-se do trono e firmou a escada.

Um dos membros da corte murmurou que era inconveniente o imperador ajudar um pintor de classe inferior.
O imperador ouviu o comentário e fez uma observação: ―Posso transformar em nobres tantos homens quanto
desejar. Porém, nunca conseguirei fazer de alguém um grande artista como Dürer.‖

Igeta: Tenho certeza de que ele sabia que tipo de pessoa é realmente importante.

Pres. Ikeda: As pessoas que são capazes de apreciar a arte e a cultura são valiosas. Aqueles que são
verdadeiramente cultos valorizam a paz e conduzem outros a um mundo de beleza e esperança e a um
brilhante futuro. A autoridade tirânica, por outro lado, somente conduz as pessoas à escuridão. É o oposto da
arte.

Por essa razão, cultivar e propagar uma apreciação à arte e à cultura é de suma importância para a
caminhada em direção à paz.

Notas: 1. Chang Shuhong e Daisaku Ikeda, Tonko no Kosai (O Esplendor de Dunhuang). Tóquio, Tokuma
Shoten, 1990. Disponível apenas em japonês.
Vamos cultivar o gosto pela arte e pela cultura - parte II
Diálogo sobre a juventude (XVI)

11 DE JULHO DE 1998 — EDIÇÃO Nº 1468

Igeta: Sei que no próximo século será muito importante ser uma pessoa que aprecia a arte e a cultura, mas
como? Tenho certeza de que muitos pensam assim: "Eu não canto bem", "não sei desenhar nem pintar".
Sentem-se inseguros com relação às suas habilidades artísticas.

Pres. Ikeda: Eu também nunca fui bom em desenho, nem em caligrafia, mas me esforcei para encontrar e
observar as boas pinturas e caligrafias. Esse esforço teve um grande retorno em minha vida.

Devemos viver de forma sábia e ponderada. Muitas pessoas tendem a abandonar o caminho para atingir seus
objetivos, achando que chegaram a um beco sem saída. No entanto, apesar de ser longo e difícil, sempre há
um outro rumo a seguir.

Kimura: Creio que muitas pessoas fazem o mesmo com os estudos. Alguns se convencem de que nunca vão
conseguir e em conseqüência disso desistem de seu objetivo nos estudos.

Pres. Ikeda: Quando na verdade esse não é exatamente o caso. Algumas pessoas encontram-se num beco
sem saída unicamente porque decidiram que estão ali. O maior inimigo do aprendizado é o medo. Isso
vale para o idioma, para a arte e para qualquer assunto ou área de estudo. Quando se sente medo
de ser ridicularizado, de ficar embaraçado, de ser menosprezado pelos outros devido aos seus
erros, às suas falhas, ou às suas limitações, o progresso torna-se difícil. O importante é ser
corajoso. E daí se alguém rir? Quem ri dos que estão tentando fazer o melhor é que deveria ficar
com vergonha.

Não há necessidade nenhuma de se comparar aos outros. O que importa é seu próprio
crescimento, mesmo que seja um pouquinho de cada vez. Quanto melhor o professor, mais seus
alunos sentem-se à vontade, porque esse professor compreende que o medo é o maior empecilho
para o desenvolvimento do aluno em seu pleno potencial.

Igeta: Com certeza, a intimidação mata a cultura. A atmosfera em alguns museus e salas de concerto faz com
que as pessoas se sintam tensas e pouco à vontade, quando na verdade esses lugares deveriam fazer com
que nos sentíssemos tranqüilos e vivazes.

Pres. Ikeda: A arte e a cultura deveriam ser compartilhadas e desfrutadas por todos. Elas não discriminam.
Quando encontramos o belo, retornamos para a essência de nossa humanidade, em que todas as pessoas são
iguais. Não existem professores ou alunos, nem especialistas ou amadores. Essas distinções existem na
sociedade, mas necessitamos de um local onde possamos restabelecer nossa humanidade. Esse local é
construído pela arte e pela cultura. Criar um lugar assim é também um dos papéis fundamentais da religião.

O problema é como acalentar um espírito realmente culto nas pessoas que entram em contato com a arte e a
cultura. Por exemplo, um japonês que fica se gabando de ser especialista em cultura estrangeira está na
verdade usando apenas a cultura para conquistar prestígio social.

Kimura: Dizem com freqüência que o povo japonês é bem instruído, mas não culto. Isso pode estar
relacionado com o problema de desenvolver "mentes realmente cultas".

Pres. Ikeda: Algumas pessoas dizem que o Japão ocupa o terceiro lugar no que diz respeito à cultura; outros
dizem que está em quinto lugar. Os líderes, professores e estudantes japoneses ainda não são pessoas cultas.
Eles não valorizam a importância da cultura. Nem mesmo tentam. Não fazem nenhum esforço concreto. Como
se preocupam apenas com as aparências e com a cultura com uma formalidade, não têm nenhuma
experiência real disso.
Até agora, o Japão veio enfatizando o desenvolvimento econômico. A cultura sempre foi considerada apenas
como "extra". Nós, japoneses, temos também a tendência de julgar o valor da cultura pelo preço e pelo valor
monetário, e isso se tornou uma característica nacional. Se não mudarmos isso, o futuro do Japão será
obscuro.

Kimura: A idéia de que a cultura é algo "extra" ainda não está firmemente arraigada no Japão? Nós tendemos
a pensar que agora que conseguimos chegar a uma economia forte é que chegou o momento de voltar a
atenção para a cultura, mas essa visão trata a cultura como uma mera decoração, algo apenas para ser
mostrado.

Igeta: Muitos japoneses parecem não compreender que a cultura não é algo "extra"; ela é uma necessidade
vital para os seres humanos.

Pres. Ikeda: O escritor Natsume Soseki(1867-1916), do período Meiji, escreveu:

Tratem tudo de forma racional, e irá se tornar uma pessoa severa. Escore-se numa torrente de emoções, e
será levado pela correnteza. Dê vazão aos seus desejos, e ficará desconfortavelmente confinado. Este nosso
mundo não um lugar muito agradável para viver.

Quando a insatisfação aumenta, a pessoa tenta alcançar um lugar onde a vida seja mais fácil. É simplesmente
no ponto em que se descobre em primeiro lugar que a vida não será mais agradável, não importando a altura
atingida, que um poema pode ser composto, ou uma pintura pode ser criada.1.

Temos de viver. Nós trabalhamos, vivemos nossos dias e envelhecemos. Nossa vida é uma constante
repetição de pequenas ações. Contra esse pano de fundo, nós progredimos, buscamos uma existência que
seja plenamente humana, desejamos fazer com que as flores desabrochem. Desse sentimento surgem a arte e
a cultura.

A vida é dolorosa. Ela tem espinhos, como o caule de uma rosa. A arte e a cultura são as rosas que nascem
nesse caule.

Igeta: Uma vida sem arte é como a natureza sem flores.

Pres. Ikeda: A flor é seu próprio eu, sua humanidade. A arte é a liberação da humanidade que existe em uma
pessoa.

As instituições da sociedade nos tratam como "peças" de uma máquina. Elas nos atribuem
categorias e exercem uma pressão considerável sobre nós para cumprirmos nossos papéis
definidos. Precisamos de algo que nos ajude a restabelecer nossa humanidade, que está perdida
e distorcida. Cada um de nós tem sentimentos que foram suprimidos e fundamentados
interiormente. Temos no fundo de nosso ser um brado silencioso aguardando para ser
manifestado. A arte dá voz e forma a esses sentimentos.

Também podemos extravasar esses sentimentos com prazeres e divertimentos, que podem ser suficientes por
um momento, mas a longo prazo essas distrações não trazem nenhuma satisfação nem senso de realização.
Nossa vida ficará monótona e sem brilho, ficaremos com um sentimento de vazio., pois nosso verdadeiro eu,
nossos verdadeiros desejos, não foram libertados de seu âmago. A arte é o brado do espírito que vem do
fundo do ser.

Criar e apreciar a arte liberta o espírito que está preso dentro de nós. É por isso que a arte causa tanta
alegria. A arte, muito além de quaisquer questões de habilidade ou da falta dela, é a emoção, o prazer de
expressar a própria vida exatamente como ela é. Aqueles que consideram a arte dessa forma são movidos
pela paixão, pela intensidade e pela beleza. Por isso é impossível separar uma vida humana plena da arte.
O conceito budista de cerejeira, da ameixeira, do pessegueiro e do damasqueiro - segundo o qual cada pessoa
deve viver de forma autêntica, sendo fiel a sua individualidade - tem muito a ver com a arte e a cultura. A
cultura é o florescimento da verdadeira humanidade de cada pessoa, e é por isso que ela transcende as
fronteiras nacionais, os períodos de tempo e todas as outras diferenças. Da mesma forma, a correta prática
budista significa cultivar a si próprio e servir de inspiração para conduzir uma vida realmente culta.

Igeta: Consigo compreender agora o profundo papel que a cultura desempenha na existência humana. Uma
sociedade que considera a cultura simplesmente como algo "extra" não é uma sociedade completamente
humanística.

Pres. Ikeda: Uma sociedade que valoriza a cultura também valoriza a felicidade da humanidade. O primeiro
presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, dizia que a felicidade encontra-se na busca do belo,
do benefício e da virtude. Num sentido mais amplo, o benefício é a busca de tudo que é
recompensador. A virtude é a busca da justiça e a oposição à injustiça. O belo é a busca da arte e
da cultura. Os três contribuem para a felicidade. Quando falta um dos três, há um desequilíbrio.
Quando as pessoas ficam desequilibradas, a sociedade também fica, e as pessoas não conseguem conquistar
a felicidade.

Atualmente, o Japão está desequilibrado em detrimento da política, dos interesses econômicos e da


tecnologia, o que torna ainda mais importante restabelecer o equilíbrio enfatizando a importância da arte e da
cultura e ao apoio de seu desenvolvimento. Esses esforços farão do Japão uma nação mais humanística, em
que as outras nações poderão confiar com segurança, e em conseqüência poderemos contribuir para a paz
mundial.

Kimura: Há muito tempo o senhor vem lutando para conseguir isso. Apesar dos seus empreendimentos,
pessoas anti-éticas que não têm nenhuma compreensão da importância da arte e da cultura o atacaram e
tentaram minar seus esforços. Isso nos deixa irados.

Pres. Ikeda: Desde quando me encontrei com o segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, aos
dezenove anos, compreendi que o único caminho para o Japão era se tornar uma nação culta. Somente por
meio da cultura e da arte o Japão poderia se levantar espiritualmente das cinzas da guerra. Isso vale para
qualquer nação.

Aferrei-me a essa crença durante anos, e é por isso que eu, apesar de ser um cidadão comum, pude me
encontrar com tantas pessoas do mundo inteiro, e conquistar sua confiança e apoio. Tudo isso se deveu ao
poder da cultura.

Há mais ou menos 25 anos(em 1972 e 1973), dialoguei com o Dr. Arnold Toynbee, o grande historiador
britânico. Falamos sobre vários assuntos, entre eles a importância da cultura, e, em meio aos nossos diálogos,
foi amplamente anunciado o encontro de dois líderes políticos. Naquela ocasião o Dr. Toynbee disse-me que
apesar de nossos diálogos não terem atraído muita atenção no momento, dentro de dez ou vinte anos as
pessoas de todo o mundo iriam concordar com o que dissemos e também elogiar. Sua predição tornou-se
verdadeira.

Até agora, o diálogo entre o presidente Ikeda e o Dr. Toynbee foi publicado em 21 idiomas.

Às vezes, pode ser difícil descobrir o poder da cultura, mas essa é força fundamental, pois transforma o
coração humano. O desenvolvimento político e econômico pode com freqüência ser vitorioso e ser a notícia do
momento, mas, na verdade, a cultura e a educação são o que molda qualquer época. Não devemos cometer o
erro de olhar apenas para as águas rasas que borbulham ruidosamente sobre as rochas; as correntes
profundas são muito mais importantes para conhecer a verdadeira natureza do rio.

Igeta: Voltando a mesma questão, o senhor disse que não faz nenhuma diferença se a pessoa tem ou não
habilidade. O senhor poderia explicar isso mais detalhadamente?

Pres. Ikeda: Claro. Seja ou não habilidoso, o importante é ter contato com a grande arte. O sentimento de
admiração e de arrebatamento ao conhecer as grandes obras é a essência da arte. Ou seja, a essência da arte
é ver, ouvir, sentir e então descobrir.

Kimura: Apesar de sabermos que devemos conhecer a grande arte, muitos de nós não sentimos que temos
confiança de reconhecer o que é e o que não é a grande arte. Podemos não apreciar aquilo que os outros
consideram uma obra-prima. Como podemos reconhecer a grande arte.

Pres. Ikeda: Uma grande obra de arte é aquela que comove e dá inspiração. Vocês próprios devem sentir-se
comovidos. Não observem a arte com os olhos dos outros. Não ouçam música com os ouvidos dos
outros. Vocês devem reagir à arte com seus próprios sentimentos, com seu coração e com sua
alma. Se se permitirem serem dominados pelas opiniões alheias - "deve ser bom, porque todo
mundo gosta"; "deve ser ruim, porque ninguém gosta" - seus próprios sentimentos, sua própria
sensibilidade, que devem ser a verdadeira essência da experiência artística, irão murchar e
perecer.

Para desfrutar a arte ao máximo, devem abandonar todas as nações preconcebidas, passando em branco em
tudo. Então, confrontem a obra diretamente, com todo seu ser. Se ficarem profundamente comovidos, então
essa obra será, para vocês, uma grande obra de arte.

Kimura: Então, o julgamento do que vem a ser uma grande obra de arte difere de pessoa para pessoa?

Pres. Ikeda: Apesar de as respostas subjetivas da pessoa serem muito importantes, também não se pode
perder de vista a objetividade. É necessário acalentar, por meio do esforço, a capacidade de realmente
apreciara grande arte. À medida que seu grau de compreensão for progredindo, aquela arte que no passado
consideraram como boa parece não lhes satisfazer mais, e as obras que antes não lhe causaram nenhuma
impressão passam repentinamente a exercer um enorme poder de comovê-los.

Por exemplo, as obras de arte que são reconhecidas em todo o mundo e que comoveram tantas pessoas
durante séculos possuem as qualidades que fazem jus ao fato de serem identificadas como obras de arte
grandiosas e universais. A arte que carece dessas qualidades, apesar de serem populares durante um certo
período, tendem a não durar muito. Existem certas experiências para as quais quase todos os seres humanos
parecem estar inclinados a concordar: quando olhamos para um límpido céu azul, todos nós achamos
maravilhoso; quando observamos as flores de cerejeira, todos as achamos belas.

As grandes obras de arte possuem também uma qualidade universal. Elas possuem uma força vital
semelhante à da própria natureza. Para instilar sua vida nessa obra, os grandes artistas sofrem
demasiadamente, vertendo toda sua energia vital em sua arte.

Igeta: Como podemos acalentar a capacidade de reconhecer a grande arte?

Pres. Ikeda: Provavelmente, a melhor maneira seja ver e ouvir o máximo que puderem do que é considerado
como grandes obras de arte de todo mundo, o que fará com que cultivem e refinem sua sensibilidade.
Naturalmente, aprenderão a distinguir o bom do ruim.

Observar a arte de segunda e terceira categoria não os ajudará a compreender a arte de primeira categoria,
mas, depois que a conhecerem, perceberão imediatamente o que é de segunda e terceira classe. Seu olhar
crítico surgirá. É por isso que devem se esforçar para entrar em contato com o que há de melhor desde o
início.

É claro que vocês podem ver a grande arte nos livros, mas ver a obra real, quando tiverem uma oportunidade,
é uma experiência totalmente diferente. Ainda me lembro de ter ficado extremamente comovido quando vi
pela primeira vez as grandes pinturas de Louvre. Essa é a diferença de ver a foto de uma pessoa e ver a
própria pessoa.

Vejam as boas pinturas. Ouçam a boa música. Conhecer a grande arte fará com que seu espírito se
desenvolva e seja estimulado.

Igeta: Pintar e a cantar como hobby pode também ser uma forma de participar do movimento para propagar a
cultura. Recentemente, vimos até companhias japonesas recrutando empregados que tivessem algum talento.
Existem muitas razões para isso, mas uma delas é que eles buscam esse tipo de pessoa pois valorizam o tipo
de personalidade que aprecia a arte e a cultura. Todos nós devemos desenvolver o espírito de se alegrar, de
louvar e de compartilhar o dom das pessoas que têm talentos artísticos e riqueza de sentimento,
independentemente de eles conquistarem ou não um amplo reconhecimento. Cultivar essa beleza de espírito é
um esforço muito digno.

A arte e a cultura não são um simples adorno tampouco são acessórios. O que importa é se a cultura
enriquece a essência da nossa vida

Igeta: Sei que o importante é enriquecer nosso eu interior. A responsável pela Divisão das Estudantes
Colegiais de Quito(na região de kansai), Reiko Fujita, trabalha no singular campo da tintura de tecidos, em
que complicados motivos são pintados à Mão ou desenhados na seda. Reiko disse: "Meus sentimentos se
expressam nas cores que uso. Por exemplo, se estou pensando na felicidade dos outros, isso aparecerá nos
desenhos e nas cores. É por isso que preciso continuar a me desenvolver."

Ela também disse: "Espero buscar um mundo mais amplo e inspirar o ar fresco da mudança, impregnar minha
arte com essa inspiração, e então compartilhá-la com o mundo como um exemplo da cultura japonesa. Meu
objetivo é criar uma bela arte para o mundo, para os outros."

Pres. Ikeda: Isso é maravilhoso. Espero que possamos criar muitas outras pessoas que também respeitem a
cultura e amem a arte. Quando muitos desses indivíduos se unirem, e quando essas nações se ligarem nesse
espírito, nosso mundo será ideal e o século de verdadeira humanidade surgirá.

Kimura: Esse com certeza será o século da paz.

Pres. Ikeda: A paz e cultura são uma coisa só. Uma nação verdadeiramente culta é uma nação pacífica, e vice-
versa. Quando os conflitos se multiplicam, a cultura declina e as nações caem numa existência abominável. A
história da raça humana é uma luta entre a cultura e a barbaridade. Depois de termos deixado as tensões da
Guerra Fria para trás, a questão premente passou a ser esta: "Como será o novo século?" A cultura é a única
força capaz de acabar com o conflito e conduzir a humanidade para a paz.

Kimura: O senhor teve uma grande percepção ao fundar tantas instituições culturais, tal como a Associação de
Concertos Min-On, o Museu de Arte Fuji(em Tóquio e em Shizuoka), a Universidade Soka e muitas outras. O
senhor contribuiu grandemente para essa força cultural de que ele falou.

Pres. Ikeda: Na época, todos se opuseram a esses projetos! Ninguém compreendia o que eu estava fazendo.

Igeta: Buscar essa visão própria, contra a oposição dos outros, e realmente colocá-la em prática reflete um
grande talento artístico no seu direito próprio.

Tanto na cultura como em outros campos, as pessoas dizem que os japoneses são bons imitadores e pobres
inovadores. Como podemos aprender a inovar?

Pres. Ikeda: A busca do belo, assim como muitas outras atividades humanas, com freqüência começa com a
imitação. Todo aprendizado inicia com a imitação; não se pode inovar sem que se aprenda
primeiro o básico. Ficar dedilhando no piano sem ter antes dominado as teclas não é o que
podemos chamar de inovador. A imitação é o primeiro passo para a criação de uma nova arte.

Mas não se pode ser um eterno imitador. No Japão, muitos artistas nunca vão além da imitação, nunca
atingem o estágio em que criam algo próprio. Somos uma nação de imitadores; na tecnologia e em muitos
outros campos, usamos nossa capacidade de imitar para ganhar dinheiro, e criamos o Japão de hoje. Mas,
apesar de sermos habilidosos imitadores, parecemos não ter capacidade de dar o próximo passo, de romper
barreiras. A única maneira de superar essa tradição restritiva é a revolução humana.

Kimura: O que é essencial para passar da imitação para inovação?

Pres. Ikeda: Se ficarem apenas repetindo o que viram e ouviram, nunca passarão além da
imitação. O espírito é crucial. Vocês têm de sentir com o espírito e exprimir com o espírito para
poderem inovar. Isso requer sangue, suor e lágrimas; isso requer incansável busca e contínuo
esforço. Somente então vocês irão adquirir gradativamente a capacidade de expressar-se com
plenitude e naturalidade.

O esforço é a chave. Leonardo da Vinci(1452-1519) escreveu em seus manuscritos: "Pobre Leonardo! Veja
como você sofre!2." E dizem que Beethoven, em seu leito de morte, embora continuasse a estudar
avidamente a música de George Frederick Handel(1685-1759), declarou que ainda tinha muito a aprender.

Kimura: Beethoven disse isso? Sempre pensei que Beethoven fosse tão orgulhoso a ponto de se considerar um
gênio que não tinha nada a aprender com os outros.

Pres. Ikeda: Ele era orgulhoso, mas todas as pessoas grandiosas são também humildes, no verdadeiro sentido
da palavra. Essas pessoas sabem o que significa respeitar e admirar os outros. Quanto mais insignificante for a
pessoa, mais ela será propensa a invejar os outros.

Certa ocasião, Beethoven escreveu a uma menina:

O verdadeiro artista não tem nenhum orgulho; infelizmente, ele compreende que a Arte não tem limites. Ele
sente vagamente como está distante do seu objetivo, e mesmo apesar de os outros o admirarem, lamenta sua
falha em atingir esse objetivo que seu gênio superior ilumina como se fosse um sol distante.3.

Igeta: Essa profunda humildade deve ter sido o que permitiu a Beethoven criar suas grandes obras.

Pres. Ikeda: Creio que na mesma carta Beethoven escreveu: "Não conheço nenhuma outra vantagem dos
seres humanos além das que os coloca nas categorias do bem e do superior; onde quer que encontre isso,
esse será meu lar."4.

Kimura: O que importa é como nós somos como pessoas. Com certeza, houve artistas famosos que
particularmente não foram boas pessoas.

Pres. Ikeda: É verdade. Apreciar a música ou a pintura de um artista é totalmente diferente de respeitar esse
artista como ser humano. Devemos ter cuidado para não confundir as questões de habilidade artística e do
talento com o respeito pelo artista como pessoa. Não é raro encontrar pessoas "cultas" que tiveram uma vida
degenerada ou que cometeram atrocidades. Pode ser um caso extremo, mas Hitler se considerava um artista.
Ainda existem muitas de suas pinturas, e apesar da divergência de opiniões, pode-se provavelmente dizer que
elas não são inferiores do ponto de vista da técnica. No entanto, Hitler jamais poderia ser considerado como
uma pessoa culta e civilizada. Ele foi um bárbaro, a personificação da natureza maligna do poder corrupto.

Um exemplo de artista de natureza muito boa foi o pintor francês Jean Baptiste Camille Corot(1796-1875),
precursor dos impressionistas. Após ter atingido um relativo sucesso como pintor, era sempre gentil com os
outros. Quando uma de suas modelos casou-se com um homem pobre, ele lhe deu um dote. Quando um
pintor amigo dele estava para ser despejado da casa que havia alugado, Corot comprou a casa e a deu para
ele.

Dizem que uma mulher que havia conhecido Corot fez o seguinte comentário: "Não sei se suas pinturas são
obras-primas, mas ele próprio é uma obra prima criada por Deus."

Kimura: Até mesmo os artistas devem se examinar como seres humanos. Eles não se podem permitir
tornarem-se egocêntricos.

Pres. Ikeda: Ser criativo é muito diferente de ser egocêntrico, assim como são diferentes uma verdadeira
individualidade e de uma personalidade fácil e excêntrica. De fato, também pode acontecer de os indivíduos
incomparáveis conseguirem expressar sua singularidade sem nem mesmo tentar. Essas pessoas buscam a
natureza, a vida e a verdade e as aceitam, e tentam transmiti-las exatamente como são. Nesse processo, sua
individualidade brilha naturalmente. Essa é a verdadeira criatividade, a autêntica inovação.

Creio que o escultor francês Auguste Rodin(1840-1917) queria dizer a mesma coisa ao falar que a vida é muito
mais importante do que a criatividade na criação da arte.

Igeta: A autêntica criatividade é importante para todos nós, e não apenas para os artistas. No futuro, o Japão
não poderá ficar apenas na mera imitação.

Pres. Ikeda: Isso é muito provável. Enfrentaremos uma "competição de criatividade." Mas é muito fácil falar de
criatividade em vez de realmente ser criativo. Ser criativo é um batalha feroz. As pessoas criativas sempre
enfrentam a oposição dos conservadores, e devem suportar a solidão e o isolamento dos incompreendidos.
Elas precisam de coragem e de tenacidade. Precisam ter fé em seus empreendimentos de tal forma que não
sejam influenciadas pelas condições superficiais de perda e de lucro.

Kimura: Quando as pessoas dizem que os japoneses não são criativos, podem estar salientando o fato de que
muitos deles não têm essa fé e coragem.

Pres. Ikeda: Gostaria que vocês, que são nossos jovens, transformassem o Japão e o mundo em uma
sociedade culturalmente rica e criativa. O século XX presenciou a matança de tantas pessoas, começando com
as duas guerras mundiais. Apesar de ser considerado um século em que a civilização realizou seus maiores
avanços, foi também o século em que ocorreram os massacres mais bárbaros. Auschwitz, Hiroshima,
Nagasaki, o massacre da Nanquin e o expurgo stalinista são símbolos desse barbarismo. E são uma lição para
todos nós: até mesmo uma sociedade aparentemente civilizada nunca terá paz sem que tenha indivíduos
realmente cultos que amem a humanidade. Sem isso, as criações da civilização moderna transformam-se em
instrumentos do demônio.

O Sr. Makiguti ensinava que a educação é a maior de todas as artes, a arte da criação de valores de excelente
caráter. Essas são palavras douradas. A arte não pertence a apenas uns poucos escolhidos. Inspirar as
pessoas e cultivar a própria personalidade também é arte. A arte se apresenta numa vida bela, em belas ações
e em belas orações. A maravilhosa arte da paz devota-se inteiramente a ligar um belo coração humano a
outro. Quando vidas cultas se unem à própria cultura, nascerá a verdadeira cultura humana do século XXI.
Quando a humanidade completamente realizada e a arte se juntarem, uma arte autenticamente humana
surgirá. É missão de vocês construir esse futuro criativo e espetacular.

Notas: 1. Natsume Soseki, The Three-Cornered World. Alan Turney, trad. Tóquio, Charles E. Tuttle Co., 1965,
pág.12. 2. Traduzido do japonês: Reonarudo da Binchi no Shuki(Anotações de Leonardo da Vinci). Mimpei
Suguiura, trad. Tóquio, Iwanami Shoten, 1977, vol.I, pág.31. 3. Michael Hamburger, Beethoven - Letters,
Journals and Conversations. Londres, Thames and Hudson, 1951, pág.115. 4. Ibidem.