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Visão geral

Apresentação da disciplina:
Vamos estudar na disciplina de Teoria Geral do Conhecimento a Filosofia e Filosofia
da Educação, reflexão e prática filosófica, estudar as Teorias do Conhecimento.
Também vamos estudar a Tematização sobre educação, cultura, valores e
ideologia. As correntes filosóficas contemporâneas e a educação.

Objetivos:

• Compreender a importância do conhecimento e da reflexão filosófica para a formação do


educador.
• Conhecer as teorias do conhecimento e as correntes filosóficas e sua relação com a educação.
• Compreender a influência das correntes filosóficas na educação.
• Reconhecer a importância da reflexão sobre educação, cultura, valores e ideologia e a relação
dessas temáticas com a educação

Conteúdo Programático:

• Introdução à Filosofia
• Teoria socrático-platônica (mito da caverna) - da opinião (doxa) para a ciência (episteme); Teoria
aristotélica e a metafísica - fundamentação da ciência antiga;
• Tipos de conhecimento: senso comum, mítico, religioso, a filosófico e científico;
• Teoria Geral do Conhecimento: contextualização (epistemologia); teoria e ciência; linguagem e
conhecimento; o homem, a linguagem e a cultura; a metafísica e a "pedagogia da essência"
(tendência redentora) no pensamento medieval; o rompimento com a Renascença; a Teoria do
Conhecimento na Modernidade: mudança de paradigma, a nova ciência, nova concepção de
pensamento, visão antropológica, o surgimento da "pedagogia da existência" (tendência
reprodutivista), conhecimento subjetivo e o conhecimento objetivo; Teoria Geral do
Conhecimento e o papel da teoria: racionalismo e empirismo, o método da ciência moderna, o
conhecimento as "teorias"; Teoria Geral do Conhecimento e Organização Social: a proposta
dialética (tendência transformadora), a crítica ao projeto iluminista da razão e o mito da ciência, a
questão do esclarecimento (complementação da crítica ao "dogmatismo da ciência") e a
construção social do conhecimento.

Metodologia:

Os conteúdos programáticos ofertados nessa disciplina serão desenvolvidos por meio das Tele-Aulas de
forma expositiva e interativa (chat – tira dúvidas em tempo real), Aula Atividade por Chat para
aprofundamento e reflexão e Web Aulas que estarão disponíveis no Ambiente Colaborar, compostas de
conteúdos de aprofundamento, reflexão e atividades de aplicação dos conteúdos e avaliação. Serão
também realizadas atividades de acompanhamento tutorial, participação em Fórum, atividades práticas e
estudos independentes (auto estudo) além do Material do Impresso por disciplina.

Avaliação Prevista:
O sistema de avaliação da disciplina compreende em assistir a tele-aula, participação no fórum, produção
de texto/trabalho no portfólio, realização de duas avaliações virtuais, uma avaliação presencial embasada
em todo o material didático, tele-aula e webaula da disciplina.

Web Aula 1:
O PENSAMENTO MÍTICO E O MITO NA GRÉCIA
Apresentação do Professor

Olá, tudo bem? Sou o professora Márcia Bastos, graduada em Filosofia com
mestrado em Educação e um dos seus professores neste módulo I de Pedagogia.
Estarei ministrando a disciplina de Teoria Geral do Conhecimento e buscando com
você uma reflexão sobre a importância desta na formação do Pedagogo. Por isso,
buscando um maior aprofundamento, além das teleaulas, quero desenvolver
algumas discussões com você neste espaço de interatividade. Neste sentido,
desafie-se, ouse e busque ir além do trivial, do exigido.

É fundamental sua dedicação e busca por novos conhecimentos e pela


complementação dos estudos. Não se acomode no discurso que existe por aí de que
a "aula é só uma vez por semana". É preciso fazer mais, se você quer realmente
ser um bom profissional. Portanto, estude muito, busque ampliar suas fontes de
pesquisa e não espere que as coisas venham prontas. Você está num curso
superior, de formação superior e, deste modo, deve agir como um estudante de
ensino superior. Logicamente, isto não implica que você está sozinho. Há uma
estrutura proposta para auxiliá-lo.

De minha parte, farei o que estiver ao meu alcance. Mas, evidentemente, você
deve estudar muito. Você só tem a ganhar com isso.
Bem, antes de iniciarmos, quero dar um panorama geral do trabalho que será
desenvolvido. Acompanhe-me.

Inicialmente, tratarei da questão do pensamento mítico, seus fundamentos e a


perspectiva deste como uma das formas de expressão humana. Na seqüência,
ainda na primeira unidade, falaremos da passagem do mito para a Filosofia e do
contexto que proporcionou o nascimento da mesma na Grécia. Fechamos assim a
primeira unidade. Procurando aprofundar nossa discussão, veremos dois pré-
socráticos interessantes, Heráclito e Parmênides. Suas teorias discutem a questão
da permanência e do movimento, levando-nos a um exercício de elaboração de
conceitos. Isto nos ajudará a compreender nossa última webaula, que trata de
Sócrates, considerado um divisor de águas na Filosofia. A partir dele, a Filosofia
apresenta sua grande perspectiva conceitual.

No intuito de firmarmos bem os nossos estudos, você desenvolverá algumas


atividades durante os mesmos e fará uma avaliação específica ao final das
unidades, que nos permitirá um feed-back do trabalho desenvolvido. Esta avaliação
final é obrigatória e será considerada para conceito final e carga horária da
disciplina. Para o fórum, fica aberta a proposta de debates e comentários sobre as
webaulas aqui apresentadas, unidades I e II, e dos capítulos do livro "Teoria Geral
do Conhecimento", que você recebeu como texto base da disciplina. Portanto, mãos
à obra e bons estudos!
O PENSAMENTO MÍTICO E O MITO NA GRÉCIA

Para melhor compreendermos como nasce a Filosofia, é fundamental entendermos


primeiro como se dá e o que representa um tipo de pensamento tão antigo quanto
o próprio homem: o mito. Compreender a questão do mito não implica em
estabelecer um olhar negativo, condenatório, mas na realidade, buscar as bases
desta forma quase natural, ou imediata, do homem dar respostas aos problemas
que o afligem. Na Filosofia não entenderemos o mito de forma pejorativa ou
completamente negativa. Para nós, o mito é a primeira forma de explicação que o
homem encontra para aquilo que ele desconhece. Todos os povos, todas as culturas
possuem seus mitos: egípcios, babilônios, caldeus, romanos, gregos... Hoje ainda
transmitimos nossos mitos de geração em geração, tornando plausíveis explicações
que poderiam ser no mínimo constrangedoras para os nossos filhos se
recorrêssemos apenas à racionalidade. Por exemplo, quando os pais recorrem ao
mito da cegonha, buscam dar a explicação para a indagação da criança supondo
que o interesse dela é o mesmo que eles pensam como resposta: o sexo. O que a
criança espera é uma reposta à sua pergunta sobre a sua origem, se ela é filha
deles na verdade e não um tratado de sexologia. Recorremos a vários tipos de
mitos, como o Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, ou a mitos de "heróis", buscando
tranqüilizar nossa realidade, nossos sentimentos. Num determinado momento,
contudo, o mito não satisfará mais como resposta à criança que amadureceu e,
nem tampouco será coerente com a realidade que ela observa. Neste sentido, ela
buscará uma explicação mais racional. Assim acontece com o homem na história do
pensamento. No início, tudo era explicado através dos mitos, mas em determinado
momento, é preciso uma racionalidade maior, a necessidade de uma explicação
mais coerente e científica para os fenômenos.

O mito, portanto, pode ser compreendido já de início, como a primeira forma de


explicação que o homem tem para os fenômenos que contempla e para as
realidades em que se encontra e, cujas respostas, ele desconhece. Mas, qual a
definição de mito? Um olhar apressado pode levar-nos ao "olhar negativo" sobre o
mesmo, e o mito aparece-nos apenas como sendo algo fabuloso, alegórico, sem
realidade. Podemos ver, por exemplo, no mini-dicionário Silveira Bueno a seguinte
explicação: fato, passagem dos tempos fabulosos, tradição que, sob forma
de alegoria, deixa entrever um fato natural histórico ou filosófico; (fig.)
coisa inacreditável, sem realidade (BUENO, 199-, p. 435). A definição não está
errada, mas, dentro da concepção filosófica, porém, interessa-nos aprofundar um
pouco mais esta questão.

Vinda do grego mythos, a palavra mito é derivada de dois verbos especificamente:


mytheyo (que significa contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e mytheo
(que apresenta a idéia de conversar, contar, anunciar, nomear, designar). A
importância disto é que os gregos entendiam o mito como sendo um discurso
pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem a narrativa como
verdadeira porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em
público, baseada, portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do
narrador (CHAUÍ, 2002, p. 35). Este narrador ou presenciou os fatos narrados,
testemunhou-os pessoalmente ou conheceu quem o fez e recebeu dele a narrativa.
Na tradição grega, quem detinha esta autoridade eram os poetas, ou os chamados
aedos e rapsodos. Eram cantores ambulantes que apresentavam de forma poética
os relatos populares, recitando-os de cor em praça pública (ARANHA & MARTINS,
2003, p. 79). Sua narrativa era respeitada porque se acreditava que o poeta era
um escolhido dos deuses. Estes, ao escolherem-no, mostravam-lhe os
acontecimentos passados e permitiam que eles vissem a origem de todos os seres
e de todas as coisas para que pudessem transmiti-las aos ouvintes (CHAUÍ, 2003,
p. 35). Portanto, sua palavra - o mito - é sagrada porque vem de uma
revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável (CHAUÍ,
2002, p. 35).

Apesar de o mito pertencer à cultura dos mais diversos povos, dedicaremos nossa
atenção de forma especial aos gregos. O motivo disto está em que, a Filosofia, no
entendimento que nos interessa abordar, é grega e fundamentou todo o
pensamento Ocidental a partir do pensamento grego. Veremos que a Filosofia
nasce na Grécia e que, somente lá houve uma sistematização do pensamento de tal
forma a propiciar a passagem deste pensamento mítico para o que os gregos
chamaram de logos, ou seja, a razão, a palavra, o discurso racional.

A preocupação do mito não está na veracidade, no provar a realidade, mas, apenas


e tão somente em explicá-la. Sem respostas para os sentimentos, fatos e
fenômenos que contempla, o homem recorre a mitos e encontra respostas que lhe
dão segurança. Saber o que é o amor, por que o universo está estruturado como
está, por que a colheita foi boa ou não, são algumas das indagações que tomam
conta do homem antigo. Procurando respostas, os gregos apresentaram seus mitos
relacionados às genealogias. Tais genealogias são compreendidas como teogonias
e cosmogonias. A palavra gonia, do verbo grego gennao (engendrar, gerar,
fazer nascer e crescer) e do substantivo genos (nascimento, gênese,
descendência, gênero, espécie), unida à palavra theos (deuses, coisas divinas ou
seres divinos), representa a idéia do nascimento, da origem dos deuses, ou seja,
teogonia. No caso da cosmogonia, a mesma palavra gonia aparece unida à
palavra cosmos (mundo ordenado e organizado, o contrário de caos), o que nos
remete à idéia do nascimento e a organização do mundo a partir de forças
geradoras (pai e mãe) divinas (CHAUÍ, 2002, p. 36).

Para apresentar estas origens, do mundo e das coisas, os mitos narram-nas de três
maneiras: relatam o nascimento de tudo a partir da relação sexual entre os seres
divinos que governam o mundo e os homens (mitos sobre o nascimento dos titãs,
dos heróis, dos humanos, dos animais, dos materiais da natureza e das qualidades,
como bem e mal, justo e injusto, o nascimento do amor através do mito de
Eros...), da luta entre estes deuses que afeta o mundo humano (o ciúme das
deusas na origem da Guerra de Tróia, por exemplo) e das alianças destes com os
homens (o mito de Prometeu, que protegia os homens e lhes dá a "luz divina"
como presente). Os deuses gregos, neste sentido, eram antropomórficos (do
grego antropós = homem e morfo = forma), ou seja, criados à imagem e
semelhança dos homens, diferentemente da concepção judaico-cristã, em que Deus
nos fez a sua imagem e semelhança. Criando e crendo em vários deuses - era uma
cultura politeísta -, a relação que estabeleciam com o divino era uma relação com a
natureza. Por isso o antropomorfismo, no qual estes seres divinos não se
diferenciavam muito dos homens em seus sentimentos e atitudes (eram bons ou
maus, invejosos, ciumentos, apaixonavam-se por humanos ou humanas e
protegiam os homens ou faziam deles seus joguetes...) e representavam a própria
natureza (a beleza, o amor, a colheita, a fertilidade...).

Toda esta tradição mítica dos gregos foi construída, como já apontamos, a partir da
autoridade dos poetas. Os dois grandes representantes desta tradição foram
Homero e Hesíodo. Ao primeiro atribuem-se duas grandes obras clássicas: a Ilíada
e a Odisséia. A Ilíada trata da Guerra de Tróia (Ílion é o original grego de Tróia)
e a Odisséia refere-se ao retorno de Ulisses (cujo nome em grego é Odisseu)
para casa após a guerra. É bem verdade que não temos a confirmação histórica de
que Homero realmente as tenha escrito. O mais provável é que tenha sido o
compilador dos mitos e tradições que se mantinham por gerações. O fato é que sua
importância é fundamental na construção desta tradição. E é exatamente esta
tradição, a chamada "tradição homérica" que Platão criticará quando "expulsa" os
poetas da sua "cidade perfeita". Homero representa o ápice e a vitalidade de todo
um impulso cultural dos gregos. É considerado o "pai" da cultura helênica, pois dele
deriva a idéia marcante da mitologia grega: o destino, que comanda a vida dos
homens e dos deuses. E esta força, atrelada ao mito é a pergunta básica na
formação do pensamento ocidental: o que é essa força do destino que domina
tudo? Por isso, a originalidade de Homero consiste no fato de ter legado à
posteridade uma visão clara do espírito grego, em que a existência
humana é profundamente permeada da presença do divino: cada momento
da vida, nenhum detalhe da vida parece ter sentido sem referência à
divindade. O ser divino não representa explicação, interrupção ou
suspensão do curso natural do mundo: é o próprio mundo natural (PAIM;
PROTA & RODRIGUEZ, 1999, p. 45) Durante os séculos homéricos a narração se
organiza em torno dos personagens divinos, sendo os humanos reduzidos a
essências com o estatuto da quase-dependência. Por isso tudo se explica pelas
cosmogonias e teogonias, conforme já foi relatado.

Num determinado momento, contudo, o pensamento mítico começará a ser


questionado. Não perderão suas crenças, mas buscando respostas de forma mais
racional, os gregos darão nascimento ao pensamento filosófico. Por que isto
acontece na Grécia e não nos demais povos? No Egito e na China, entre os Caldeus
e Babilônios, saberes também se construíram, mas nada como a Filosofia grega. O
que permitiu à Grécia desenvolver tal condição? É o que tentaremos entender na
próxima web aula. Antes disto, leia um fragmento de um dos grandes mitos gregos.

FRAGMENTOS: UM PAI CRUEL


No alto da luminosa montanha grega do Olimpo, na qual o ar era claro e
transparente e onde reinava uma eterna primavera, habitava Cronos, o rei
do Universo, num magnífico palácio.

Cronos, chamado Saturno pelos romanos, era filho de Géia (a Terra) e de


Urano (o Céu), os quais haviam tido, antes, muitos filhos, chamados os
Urânidas: doze Titãs, seis varões e seis mulheres; três Ciclopes (Brontes,
Esteropes e Arges) e três Centímanos (Briareu, Cotos e Gias), que haviam
sido todos precipitados pelo pai no Tártaro, para que não pudessem
destroná-lo.

Cronos tomou por esposa a Réia, que se sentia muito infeliz porque tinha
tido muitos filhos formosos e o cruel marido os havia devorado. Um oráculo
anunciara ao feroz pai que seria destronado por um dos filhos e ele tratava
de evitar essa desdita, engolindo-os quando nasciam.

A pobre mãe estava desesperada. Ao nascer-lhe um novo filho, ao qual pôs


o nome de Zeus, saiu do Olimpo com o menino nos braços envolto no
manto da Noite. Levou-o a uma gruta escondida na ilha de Creta e confiou-
o ao cuidado das Ninfas. Depois, tranqüila quanto à sorte de seu último
rebento, voltou aos altos cimos de sua régia morada e apresentou ao
marido uma pedra envolta em paninhos, que ele engoliu, pensando que era
o novo recém-nascido.

Titãs, Ciclopes e Centímanos.

Zeus, a quem os romanos, mais tarde, chamaram Júpiter, cresceu belo,


forte e bom. Quando se tornou adulto, obedeceu ao que o Fado havia
estabelecido: subiu ao Olimpo, destronou o pai e reinou em seu lugar. Mas
os primeiros tempos do seu reinado foram turbulentos: ele era jovem e,
portanto, inexperiente. Num momento de generosidade, pôs em liberdade
os Titãs, monstros gigantescos, que, desde, muitos séculos, haviam sido
encarcerados nas entranhas da Terra por Saturno. Eles, porém, em vez de
ficarem agradecidos ao generoso soberano, saíram de sua morada
subterrânea e, julgando-se com mais direito a reinar do que o próprio
Zeus, assaltaram o Olimpo.

A luta contra os Titãs durou dez anos. Foi terrível e sem tréguas. Ao ver
que não conseguia dominá-los, Zeus recorreu ao auxílio dos Ciclopes,
irmãos dos Titãs, enormes gigantes de um olho só, no meio da testa e,
para assegurar a vitória, pôs igualmente em liberdade os Centímanos (por
ter cem mãos cada um). Desencadeou-se, então, uma espantosa luta: os
Centímanos atiravam enormes penhascos contra os Titãs e os Ciclopes
feriam-nos e queimavam-nos com raios de fogo. O ardor e a cólera dos
combatentes sacudiam toda a terra, desde os seus alicerces, e seus gritos
raivosos rasgavam o céu. Zeus, no meio da peleja, resplandecente no seu
carro doirado, animava os seus defensores e lançava contra os inimigos
poderosos raios, acompanhados de relâmpagos e trovões.

Por fim, decidiu-se a vitória e os Titãs foram precipitados no tenebroso


Tártaro, por toda a eternidade.

Apenas vencidos os Titãs, Zeus teve de lutar novamente contra cem


gigantes, nascidos do sangue de Urano, aos quais sua mãe, a Terra, incitou
contra Zeus, para vingar aqueles; mas foram também derrotados. Depois
desta nova e dura luta, chamada a Gigantomaquia, todos os deuses do
Olimpo se submeteram a Zeus, que pode, então, reinar em paz sobre o
Universo.

MADEIRA, Marcos Almir (coord.). O livro dos nossos filhos:


enciclopédia para adolescentes. Volume primeiro. 2.ª ed. Rio de
Janeiro: Editora Alfa S. A., 1961.

No link abaixo, você pode ver um vídeo que ilustra um pouco o fragmento
apresentado, em que a mãe de Zeus engana Cronos, dando-lhe uma pedra como se
fosse o filho para ser devorado. O vídeo está em inglês, mas a imagem é suficiente
para entender, se comparada com o texto anterior. O vídeo é do You Tube e é um
fragmento do game chamado "Deus da Guerra 2 (God of War 2)". Confira:

http://medievalx.blogspot.com/2008/03/greek-gods-series-zeus-sire-deuses.html

Web Aula 2:
NASCE A FILOSOFIA
Filha dos gregos, a Filosofia tem data e local de nascimento específicos e, também,
um "pai", considerado o primeiro filósofo datado historicamente: Tales. Mileto, a
cidade de Tales, ficava na Jônia, atual Turquia, uma das colônias micênicas
desenvolvidas após a invasão dos dóricos. É exatamente aí, portanto, na Jônia, no
século VI a. C. que surge a primeira proposta filosófica. Neste sentido, vamos
entender o contexto de formação do povo grego e o processo que levou ao
nascimento do pensamento filosófico.

Geograficamente dispersa, a Grécia Antiga constituía-se por um grande número de


pequenas comunidades independentes, no mar Mediterrâneo, desde a Jônia - atual
Turquia -, na Ásia Menor até o sul da Itália. Apesar desta dispersão, havia uma
certa unidade cultural, expressa por uma língua comum, formas de organização
política semelhantes e mesmas crenças religiosas. A dispersão destas comunidades
deveu-se, em grande parte, às invasões em busca de terras para cultivo mas,
também, devido aos conflitos entre dois povos que praticamente formaram a
cultura grega. Vindos da Europa, os micênicos, um povo mais avançado
culturalmente, chega à Grécia por volta do ano 2.000 a. C. e, encontrando um povo
mais atrasado na região, logo se estabelece como a cultura dominante. Os
micênicos - ou aqueus, como também ficam conhecidos - encontravam-se na idade
do bronze e tornam-se uma grande civilização, representada pela punjância da
cidade de Micenas. Isto prevalece até que, por volta do séc. XII a. C., os dóricos -
povo guerreiro que já dominava o ferro - invade a região e obriga o êxodo dos
micênicos em busca de novas terras. Emigrando para a Ásia Menor - chamada Jônia
na época -, os gregos fundaram novas colônias para fugir ao domínio dórico e
preservar suas tradições. Desta colonização surgem duas cidades que se tornaram
grandes centros culturais e econômicos: Mileto e Éfeso. Portanto, é nesse
conjunto de comunidades independentes que, no século VI antes de Cristo,
vai se formando um dos elementos que marcaram o surgimento do
pensamento ocidental: a racionalidade (PAIM, PROTA e RODRIGUEZ, 1999, p.
45).

Para conhecer um pouco mais sobre a Grécia Antiga, ver um mapa


da região e um pouco da história deste povo, acesse o link abaixo:
http://www.suapesquisa.com/grecia/

Como já podemos perceber a filosofia não nasce na Grécia propriamente dita, mas
na Jônia e na Magna Grécia, colônias desta no Oriente e no Ocidente. Mas, por que
nasce na Grécia e não nas culturas orientais antigas como Egito, Babilônia, China,
Índia ou entre os Hebreus? Sofreu influência destas pelo menos ou, terá sido
apenas um "milagre" o que aconteceu na Grécia? Este é um ponto que nos
interessa discutir. Durante algum tempo duas teses foram defendidas para o fato
de a Filosofia ter tido seu início na Grécia. Uma considerava o fato um "milagre", ou
seja, algo "a-histórico", desconsiderando as condições sócio-econômico-culturais e
políticas que faziam parte da cultura grega. A outra considerava o nascimento da
Filosofia como sendo devida a "ensinamentos esotéricos que os gregos adquiriram
em suas viagens pelo Oriente, ou seja, a Filosofia nasceu por influência dos povos
orientais, sem mérito algum dos gregos e não, novamente, por um contexto sócio-
cultural próprio que existia na Grécia. Estas duas correntes, portanto, "milagre
grego" versus influência oriental, estão desacreditadas academicamente. A tese
aceita atualmente defende o nascimento da Filosofia devido a uma série de fatores
sócio-político-econômico-culturais que aconteceram somente na Grécia. Por isso,
neste entendimento não foi possível o mesmo acontecer em outras culturas, não da
forma como se dá no Ocidente. Com isto esclarecemos que, no entendimento
acadêmico estamos falando da Filosofia Ocidental e não das "filosofias orientais",
que apresentam sua sabedoria e importância mas, num olhar mais depurado, não
desenvolveram uma sistematização do pensamento de tal forma que permitisse o
nascimento do que viria a ser conhecido posteriormente como ciência.

REVISANDO: você sabe explicar por que as teses do "milagre


grego" e da perspectiva da "influência oriental" como
possibilidades do surgimento da Filosofia não são aceitas
academicamente?

Retomando a questão da formação da Grécia, alguns contextos então contribuirão


para uma construção diferente da cultura grega com relação às outras culturas. No
mesmo período, as outras civilizações existentes apresentavam algumas
características que, contrapostas à cultura grega, podem nos ajudar a esclarecer
porque estes últimos apresentaram um terreno fértil para o surgimento da ciência
filosófica. Nas demais culturas geralmente existia uma casta sacerdotal dominante,
responsável pela interpretação dos livros sagrados e de verdades reveladas, o que
determinava o comportamento moral, político e econômico do povo. A escrita era
restrita aos escribas - tratada como segredo e, portanto, acessível apenas a
iniciados -, proibida aos homens comuns, o que impedia a ampla difusão e
discussão de idéias. Religiões com dogmas e uma certa teologia elaborada eram
outros fatores que impediam o livre desenvolvimento do pensamento, tornando a
religião um instrumento de poder. Aliado a isto ainda, a cultura do poder vitalício
do Rei e a figura do súdito, o que impedia qualquer manifestação política ou
reflexão sobre a questão do poder. Pois bem, o contexto grego era contrário a este
modo de ser.

Com o fim do domínio dórico, nós vemos a reconstrução da sociedade grega. Há


um renascimento do comércio em torno do século VIII a.C. e a tendência à
formação de centros maiores ao redor da ágora, - a praça pública - local das
transações comerciais e das discussões sobre a vida da cidade. É o nascimento da
política. Esclarece-nos Paim, Prota & Rodriguez (1999):

Vencendo o princípio de que todos são iguais diante da lei, a discussão torna-se a forma
normal de tratar-se não só a política mas os acontecimentos em geral; prevalece a opinião
de quem expõe suas idéias corretamente e com argumentos válidos, quer dizer há a
supremacia do logos (que significa "palavra", "razão"). Assim que, enquanto antes os
fenômenos divinos, naturais e humanos confundiam-se e eram vivenciados sem
necessidades de explicação, com a pólis, esses fenômenos tornam-se problemas, à procura
de explicação (PAIM, PROTA e RODRIGUEZ, 1999, p. 47).
Na estruturação política, cada comunidade grega era uma cidade-Estado - as
chamadas polis -, autônoma, com a dimensão de pequeno município. Na Pólis é
que se efetua a conquista política do estatuto cívico, da ordem da cidadania, na
qual o destino de cada um é definido não pela obrigação de lealdade à um chefe,
mas pela relação ao princípio abstrato que é a lei - primeira etapa. Num segundo
momento. A democracia se instaura em Atenas. Apresenta-se a idéia de governo do
povo ou, governo no "meio" do povo e não governo do "povinho". O grego tem
consciência de sua cidadania porque participa da vida pública da cidade. Os
destinos da pólis são de responsabilidade comum de todos os cidadãos, acima dos
quais nada a não ser as leis que eles mesmos elaboraram. Escreve HOWART
(1984):

Pode parecer exagero, porém acredito que seja justo afirmar que as realizações políticas e
as experiências práticas de governo dos gregos, nas quais se basearam todas as formas
modernas de política da Europa ocidental, pelo menos até a aparição do marxismo, não
poderiam ter acontecido em outro ambiente que não fosse o da pólis. Conceitos tão
familiares como, por exemplo, governo constitucional, império da lei, democracia e, acima
de tudo, cidadania, eram completamente desconhecidos até que os gregos começaram a
experimentá-los (HOWART, 1984, p. 170-171).

O modelo de governo da pólis como esforço coletivo e exclusivo dos cidadãos, até
então desconhecida em outras civilizações tem por fundamento a idéia de que os
deuses abandonaram os homens. E a idéia do Destino, como força superior aos
próprios deuses, sugere a visão democrática de que a lei está acima dos indivíduos.
É nesse quadro que surge a reflexão filosófica, que busca uma lei universal, acima
de todas as coisas, que possa explicar o homem e o mundo sem recorrer a forças
divinas.

Outras condições histórico-sociais também foram proporcionando o questionamento


do mito. O renascimento comercial citado exigiu do homem grego o "lançar-se ao
mar" para encontrar novos mercados. Com o desenvolvimento das viagens
marítimas, os gregos começam a confrontar os fatos reais com as tradições míticas.
Chegando às ilhas e regiões que constituem o pano de fundo das epopéias e dos
relatos poéticos, o grego não encontra as "divindades" e as "criaturas" citadas pela
tradição. Singrando os mares não encontra as sereias e nem tampouco é
confrontado com Posseidon¹ . Em Creta não depara-se com o Minotauro² mas sim,
com um povo que está disposto a comercializar também, como nas demais regiões.
Questionamentos surgem sobre a veracidade do mito e a possibilidade ou não de
encontrar novas explicações para os fatos e fenômenos antes entendidos apenas de
forma mítica. Concomitante a isto, há a invenção da moeda e um
desenvolvimento da escrita e do calendário. Criada pelos sumérios, a escrita
ganha novo sentido com os gregos que se descobrem capazes de expressar seu
pensamento não mais de forma verbal apenas, mas, a partir da concepção do
alfabeto e da construção fonética, de forma mais elaborada, por escrito. Estes fatos
exigem uma abstração do pensamento, um maior rigor na formulação das idéias e,
conseqüentemente, uma mudança cultural. O grego descobre que não precisa
trocar as mercadorias através de coisas concretas (um cavalo por um boi, por
exemplo), mas sim, que é possível uma troca abstrata (um cavalo por 20 moedas,
por exemplo). É o desenvolvimento da capacidade de elaboração do pensamento de
forma diferente. O calendário produz condições semelhantes ao permitir uma
observação sobre os dias e as estações do ano e, desta forma a percepção da
natureza em seu curso, desmistificando a ação divina sobre os fenômenos da
natureza (como no caso de a colheita ter sido boa ou ruim devido ao "deus" e não
às condições climáticas ou época do ano). Por fim, o surgimento da vida urbana,
que impulsiona este renascimento comercial e diminui o prestígio da classe
aristocrática, proprietária de terras, faz nascer a política, que exige a construção de
uma nova relação social, como já foi explicado anteriormente.

¹Posseidon: na mitologia grega é o nome do "deus do mar", irmão de Zeus. Teria,


de acordo com o relato da Odisséia, sido o mentor dos problemas de Ulisses (do
grego Odisseu) no seu retorno para casa. Para os romanos chamava-se Netuno.

²Minotauro: criatura que habitava o labirinto em Cretas, onde Minos, rei da ilha
colocava seus inimigos para serem mortos pelo monstro. Teseu, o herói grego,
vence a criatura e consegue sair do labirinto utilizando-se de um novelo de linha
para reencontrar o caminho.

Por todos estes fatores, portanto, e não por um "milagre" ou por "influência do
oriente" como já esclarecemos, é que, no século VI a.C. Tales inicia a jornada que
se tornará a grande aventura na História do Ocidente: o pensamento filosófico.

As mudanças começam a acontecer. Em torno do século V a.C. o homem, como


cidadão-guerreiro, que fala e que combate, aparece como assumindo o seu destino.
Nesta época, os gêneros culturais mudam de sentido e de estilo. A tragédia, antes
fundamentalmente religiosa, torna-se cerimônia política. A história-geografia se
afirma. As descrições lendárias e as genealogias míticas dão lugar a paisagens e
costumes analisados e descritos com precisão. No campo da medicina surge um
apelo pela investigação das causas das enfermidades e não mais aos recursos
ambíguos da adivinhação. Na física o grego passa pouco a pouco das especulações
mágicas para o estudo das relações fenomenais. A "arte da palavra" por sua vez
deixa de ser privilégio das famílias nobres para ser o meio pelo qual todo cidadão
dispõe, pelo menos em direito, para fazer valer suas opiniões e interesses.

O mito, contudo, não perdeu sua beleza, seu sentido que propiciou todo este
progresso. É uma forma diferente de olhar a realidade. Hesíodo fala em suas obras
do "abandono dos deuses" com relação aos homens. Há um princípio de
"secularização" do pensamento. O homem não precisa mais recorrer aos deuses
para explicar o mundo. Na Teogonia - de Hesíodo - o homem encontra-se sem
deuses, abandonado, mas livre para agir e pensar. Entre os séculos VIII e V a.C.,
portanto, desenvolve-se o esforço para a construção de uma sociedade justa,
propiciada pelas condições históricas próprias do mundo grego. É neste contexto
que nasce a filosofia e aparecem os primeiros filósofos, os chamados pré-
socráticos.

PARA SABER MAIS: veja um rápido panorama dos pré-socráticos


ao helenismo para enriquecer nossa discussão sobre o nascimento
da Filosofia. Acesse:
http://educacao.uol.com.br/filosofia/ult3323u22.jhtm