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22/10/2021 17:29 SEI/GDF - 72629174 - Ofício

GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL


SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E ECONOMIA CRIATIVA DO
 
DISTRITO FEDERAL
 
 
Gabinete da Secretaria de Cultura e Economia Criativa
Ofício Nº 1628/2021 - SECEC/GAB Brasília-DF, 22 de outubro de 2021.
A Sua Senhoria o Senhor
SAULO SANTOS DINIZ
Superintendente
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN
Brasília/DF
 
Senhor Superintendente,
 
Conforme recentes notícias vinculadas na mídia[1], a família de Lúcio Costa doou acervo
com mais de 11 mil documentos do arquiteto e urbanista à Casa de Arquitectura localizada na cidade de
Matosinhos em Portugal.
Até o ano de 2020, o rico acervo encontrava-se no Instituto Antônio Carlo Jobim, no Rio de
Janeiro. Contudo, a instituição alegou que não poderia mais mantê-lo. Deste modo, segundo reportagens
na mídia nacional, a família em consenso optou por doar todas as obras, transferindo parte da
documentação em 2020 e parte em 2021 à Casa de Arquitectucra em Portugal.
Em que pese se tratar de bens particulares, o acervo extraído do país possui grande
relevância para a memória e cultura nacional, conforme restará demonstrado adiante.
Entre 1956 e 1957 foi realizado concurso nacional para escolha do projeto arquitetônico de
Brasília, a nova capital do Brasil idealizada pelo então presidente Juscelino Kubitschek. Foram inscritos no
concurso 26 projetos, tendo sido escolhido como primeiro lugar o projeto apresentado pelo arquiteto e
urbanista Lúcio Costa.
Destacaram-se no concurso os arquitetos do modernismo, e o vencedor, Lúcio Costa, foi
pessoalmente um dos responsáveis pela difusão do estilo no Brasil.[2] Um dos membros do júri chegou a
dizer que “a obra de Lúcio Costa é a maior contribuição urbanística do século XX”.[3]
O projeto vencedor é popularmente conhecido pela semelhança com um avião. Em suas
asas ficam as áreas comerciais e residenciais da cidade. Na parte central ficam os prédios do governo, os
bancos e os espaços culturais.
Deste modo, Brasília foi criada a partir do projeto arquitetônico de Lúcio Costa  e
inaugurada no dia 21 de abril de 1960.
Lúcio Costa é considerado, portanto, um dos “pais de Brasília”. O projeto vencedor do
concurso, popularmente conhecido como a figura de um avião, deu vida à cidade pensada por JK, e
transformou Lúcio Costa em uma figura ilustre na história da construção da capital.
Passados 24 anos do seu falecimento, recentemente tem-se notícia de que todo o vasto
acervo deste importante nome pra capital do Brasil foi extraído do país, sem que houvesse qualquer
aviso prévio ou possibilidade de manifestação de interesse de entidades públicas ou privadas em abrigar
o referido acervo.
Sabe-se que o acervo compreende documentos como: correspondências, artigos de
jornais, recortes, revistas, cartazes, fotografias, álbuns de família, postais, mapas, plantas, desenhos e
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apontamentos nos mais diversos suportes como envelopes, verso de calendários, folhas de rascunho ou
cartões de visita.
Dentre os diversos documentos doados à Casa de Arquitectura em Portugal, possivelmente
há documentação relacionada à construção da capital do país, sendo de extrema importância verificar se
há obras tombadas ou obras pertencentes ao Distrito Federal, em especial aquelas que tratam do
concurso público para construção de Brasília, em que Lúcio Costa logrou vencedor.
Neste sentido, destaca-se que o Distrito Federal de forma concorrente com a União, os
estados e os municípios, tem competência para proteger os documentos, as obras e outros bens de valor
histórico, artístico e cultural. De igual forma, é competente para impedir a evasão, a destruição e a
descaracterização de obras de arte e de outros bens de valor histórico, artístico ou cultural, conforme
comando constitucional dos incisos III e IV do art. 23 da Constituição Federal de 1988.
Ademais, de acordo com o inciso IX do art. 30 da Constituição Federal de 1988, compete
também ao Distrito Federal promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a
legislação e a ação fiscalizadora federal.
Verifica-se, deste modo, que a Carta Magna reconheceu a importância da preservação do
patrimônio cultural brasileiro, conceituado pelo art. 216 como os bens de natureza material e imaterial,
tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
Ademais, dispõe a Constituição Federal de 1988 que o Poder Público, com a colaboração
da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários,
registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.
Com relação ao instituto do tombamento, o Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de
1937 afirma em seu art. 14 que “a coisa tombada não poderá sair do país, senão por curto prazo, sem
transferência de domínio e para fim de intercâmbio cultural, a juízo do Conselho Consultivo do Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional”.
O referido Decreto-Lei ainda dispõe que:
Art. 15. Tentada, a não ser no caso previsto no artigo anterior, a exportação,
para fora do país, da coisa tombada, será esta sequestrada pela União ou pelo
Estado em que se encontrar.
§ 1º Apurada a responsabilidade do proprietário, ser-lhe-á imposta a multa de
cinquenta por cento do valor da coisa, que permanecerá sequestrada em
garantia do pagamento, e até que este se faça.
§ 2º No caso de reincidência, a multa será elevada ao dobro.
§ 3º A pessoa que tentar a exportação de coisa tombada, além de incidir na
multa a que se referem os parágrafos anteriores, incorrerá, nas penas
cominadas no Código Penal para o crime de contrabando.
Deste modo, esta Secretaria questiona ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional – IPHAN se há registro de tombamento dos bens doados pela família de Lúcio Costa ao
equipamento cultural localizado em Portugal.
Ainda, mesmo que não haja registro de tombamento dos bens, questiona-se se este órgão
tem conhecimento da listagem dos bens doados, em especial no que tange à documentação referente ao
concurso nacional que consagrou como vencedor o projeto de Lúcio Costa para construção de Brasília.
Isto porque, conforme narrado alhures, os documentos que tratam da construção da
capital do país possuem relevante valor histórico e cultural para o Brasil, em especial para o Distrito
Federal, sendo abarcado pela proteção constitucional conferida aos bens de natureza material e
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, e à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
Ante o exposto, diante da obrigação constitucional de zelar pelo patrimônio histórico e
cultural do Distrito Federal, e diante da inegável relevância do acervo de Lúcio Costa para a história,
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memória e cultura brasileira, solicitamos os bons préstimos do IPHAN na análise dos questionamentos
aqui expostos e na construção conjunta de solução que vise o retorno do acervo ao Brasil.
 
Atenciosamente,
 
BARTOLOMEU RODRIGUES DA SILVA
Secretário de Estado de Cultura e Economia Criativa
 

[1] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/10/lucio-costa-pai-de-brasilia-tem-seu-acervo-doado-
para-portugal.shtml
https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2021/10/4956846-uma-memoria-distante.html
https://www.metropoles.com/distrito-federal/familia-de-lucio-costa-doa-acervo-de-arquiteto-brasileiro-
a-portugal
[2] Projeto arquitetônico de Lucio Costa para Brasília completa 60 anos». G1. 18 de março de 2017.
Consultado em 22 de julho de 2020 e  Braga, Milton (2010). O Concurso de Brasília. Rio de Janeiro: Cosac
e Naify. ISBN 978-8575038963
[3]   Tavares, Jeferson (julho de 2007).  «50 anos do concurso para Brasília – um breve histórico (1)».
vitruvius. Consultado em 22 de julho de 2020

Documento assinado eletronicamente por BARTOLOMEU RODRIGUES DA SILVA -


Matr.0245129-8, Secretário(a) de Estado de Cultura e Economia Criativa, em 22/10/2021, às
17:27, conforme art. 6º do Decreto n° 36.756, de 16 de setembro de 2015, publicado no Diário
Oficial do Distrito Federal nº 180, quinta-feira, 17 de setembro de 2015.

A autenticidade do documento pode ser conferida no site:


http://sei.df.gov.br/sei/controlador_externo.php?
acao=documento_conferir&id_orgao_acesso_externo=0

verificador= 72629174 código CRC= 68116E74.

"Brasília - Patrimônio Cultural da Humanidade"


SDCN Via N2 Anexo do Teatro Nacional, Asa Norte, Brasília ? DF - Bairro ASA NORTE - CEP 70086-900 - DF
 
Site: - www.cultura.df.gov.br

00150-00005994/2021-61 Doc. SEI/GDF 72629174

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