Danielle Gomes da Silva
Alessandra Lee Barbosa Firmo
Renata Nunes Azambuja
FUNDAMENTOS
DA GEOLOGIA
Universidade Federal do Espírito Santo Biologia
Secretaria de Ensino a Distância Licenciatura
FUNDAMENTOS DE GEOLOGIA Outros Sistemas Solares 7
Durante anos, cientistas e
filósofos têm especulado que
talvez haja planetas ao redor
Módulo I – Estruturando o Planeta Terra de outras estrelas que não
apenas o nosso Sol. Em 1990,
usando grandes telescópios,
os astrônomos descobriram
planetas orbitando próximos a
1 Apresentação estrelas semelhantes ao Sol.
Em 1999, a primeira família
Caros alunos, aqui começa nosso encontro que se estenderá por 6 de exoplanetas – os sistemas
solares e outras estrelas – foi
módulos. O material didático de Fundamentos de Geologia foi elaborado identificada. Esses planetas têm
com os fundamentos básicos e essenciais para se ter a compreensão luz muito fraca para serem vistos
necessária dos tópicos apresentados. diretamente pelos telescópios.
Porém, sua existência pode ser
inferida a partir de uma leve
Apesar da linguagem acessível, em momento algum abrimos mão do
atração gravitacional da estrela
rigor metodológico no desenvolvimento do conteúdo, procurando sempre em que orbitam, causando nela
evitar o uso de alguns termos puramente geológicos, para que, assim, a movimentos de vaivém que
nossa comunicabilidade seja a mais eficiente possível. podem ser medidos. Atualmente,
mais de 90 exoplanetas já foram
identificados. A maioria deles
é do tamanho de Júpiter ou
ainda maior e orbitam próximos
2 Introdução das estrelas-mães – muitos
a uma distância abrasante.
A geologia é a ciência que estuda a Terra, como esta se formou, evoluiu, Planetas do tamanho da Terra
são muito pequenos para serem
como ela funciona e como podemos preservar os habitats que sustentam detectados por essa técnica,
a vida. mas os astrônomos podem ser
capazes de encontrá-los usando
Para se entender o funcionamento do sistema Terra, costumamos estudar outros métodos. Por exemplo,
num prazo de cerca de 10
seus subsistemas separadamente, como se cada um deles existisse sozi- anos, sondas espaciais fora da
nho. Entretanto, para se obter uma perspectiva completa de como a terra atmosfera da Terra poderiam
funciona, precisamos compreender os modos como os seus subsistemas ser capazes de procurar por um
interagem entre si. Por exemplo, como os organismos vivos podem modi- esmorecimento da luz de uma
estrela-mãe, exatamente no
ficar a atmosfera e, por sua vez, este ser afetado por essas mudanças. momento em que um planeta
em sua órbita passasse em sua
Devemos entender que o sistema Terra evolui ao longo do tempo. Os frente, interceptando a linha de
geólogos estimam que a Terra tenha cerca de 4,5 bilhões de anos. No visada para a Terra.
entanto, Press et al (2006) afirmam que é importante entender que as Somos fascinados pelos
escalas que medem a vida dos indivíduos em décadas e marcam perío- sistemas planetários de outras
dos da História humana, escritas em centenas ou milhares de anos, são estrelas pelo que eles podem
vir a nos ensinar sobre nossa
inadequadas para estudar a Terra. Assim, os geólogos devem explicar
própria origem.
eventos que evoluíram em dezenas de milhares, centenas de milhões ou
muitos milhões de anos.
8 Nosso redobrado interesse, 3 O Planeta Terra e sua Origem
todavia, reside na profunda
implicação científica e filosófica O planeta Terra é formado pelo mesmo material que compõe os demais
contida na questão: “Existe
corpos do Sistema Solar e tudo mais que faz parte do nosso Universo.
mais alguém aqui “. Dentro de
20 anos, uma sonda espacial Assim, a origem da Terra está ligada intrinsecamente à formação do Sol,
denominada Descobridora da dos demais planetas do Sistema Solar e de todas as estrelas a partir de
Vida (Life Finder) poderia estar nuvens de gás e poeira interestelar (Cordani, 2008).
equipada com instrumentos
para analisar as atmosferas de
exoplanetas em nossa galáxia na
A Astronomia nos ensina que existem incontáveis estrelas e que estas
busca de indícios da presença se dispõem de maneira ordenada, seguindo uma hierarquia. As estrelas
de algum tipo de vida. Tendo agrupam-se primeiramente em galáxias, cujas dimensões são da ordem
em vista o que conhecemos
de 100.000 anos-luz (distância percorrida à velocidade da luz, 300 mil
sobre os processos biológicos,
a vida em um exoplaneta seria, Km/s, durante um ano). Na estrutura interna de uma galáxia pode conter
provavelmente, baseada em mais de 100 bilhões de estrelas de todas as dimensões, com incontáveis
carbono e precisaria de água particularidades.
líquida. As temperaturas brandas
que desfrutamos na Terra – não
tão afastadas do intervalo entre
As galáxias podem conter espaços enormes, espaços interestelares de
os pontos de congelamento e baixa densidade, mas também de densidade extrema. Os assim chama-
ebulição da água – parecem ser dos buracos negros podem sugar qualquer matéria das proximidades,
essenciais. Uma atmosfera é
em virtude de sua gigantesca energia gravitacional.
necessária para filtrar a radiação
prejudicial da estrela-mãe, e
o planeta deve ser grande o A Via Láctea é também uma galáxia do tipo espiral, sendo que o Sol – a
suficiente para que o seu campo estrela central de nosso Sistema Solar – está situado num dos braços
gravitacional impeça a atmosfera periféricos. A Via Láctea possui também um núcleo central, onde apare-
de escapar para o espaço. Para
que exista um planeta habitável
cem agrupamentos de estrelas jovens.
e com vida avançada como nós
a conhecemos, são necessárias O Universo encontra-se em constante expansão. Não é a distância entre
condições ainda mais limitantes. as estrelas de uma galáxia que está aumentando, e nem a distância
Por exemplo, se o planeta entre as galáxias de um aglomerado, visto que tanto as primeiras como
fosse muito grande, organismos
delicados, tais como os as últimas estão ligadas entre si pela atração da gravidade. A expansão
humanos, seriam frágeis demais do Universo significa que esta aumenta continuamente o espaço entre os
para resistir a sua vigorosa força aglomerados galácticos que não estão suficientemente ligados pela atra-
gravitacional. Esses requisitos
são muito restritivos para que
ção da gravidade. A velocidade desta expansão é dada pela constante
a vida exista em algum outro de Hubble, ainda não determinada com grande precisão e que presente-
lugar.. Muitos cientistas pensam mente parece se situar próxima de 18 Km/s.106 anos-luz (Cordani, op.cit).
que não, considerando a
existência de bilhões de estrelas
semelhantes ao Sol na nossa
galáxia.
3.1 Como Nasceu o Universo
(Fonte: PRESS, F. et al. Para
Entender a Terra. 4.ed. Porto A explicação científica mais aceita é a teoria da Grande Explosão (Big
Alegre: Bookman, 2006). Bang), a qual considera que nosso Universo começou entre 13 a 14
bilhões de anos atrás, a partir de uma “explosão” cósmica. Antes desse
instante, segundo Press et al (2006), toda a matéria e energia estavam
concentradas num único ponto de densidade inconcebível. Embora
saibamos pouco sobre o que aconteceu nos primeiros momentos após REFORÇANDO O 9
o início do tempo, os astrônomos obtiveram um entendimento geral dos CONHECIMENTO
bilhões de anos que se seguiram. Desde aquele instante, num processo Mamutes desaparecem por
que ainda continua, o Universo expandiu-se e diluiu-se para formar as queda de meteoritos, diz
galáxias e estrelas. estudo
Solos ricos em restos de
diamantes de origem cósmica,
com mais de 12,9 mil anos,
3.1.1 A hipótese da nebulosa descobertos na América do
Norte, confirmam a teoria de que
Em 1755, o filósofo alemão Immanuel Kant sugeriu que a origem do a queda dos meteoritos provocou
sistema solar poderia ser traçada pela rotação de uma nuvem de gás e uma era glacial que extinguiu os
mamutes, de acordo com estudo
poeira fina (Press et al, 2006). Descobertas feitas recentemente levaram publicado na revista Science.
os astrônomos a retomar a essa antiga ideia, agora denominada hipó-
tese da nebulosa. Equipados com os mais sofisticados telescópios, “Essas descobertas são um
índice sólido do impacto de
eles, além de descobrirem que o sistema solar não está vazio como se
meteoritos há 12,9 anos,
pensava anteriormente, registraram muitas nuvens do mesmo tipo das com enormes consequências
que Kant supôs, tendo chamado as mesmas de nebulosas. Também ecológicas nas plantas, nos
identificaram os materiais que formam essas nuvens: hidrogênio e hélio, animais e nos humanos, no
conjunto do território norte-
os dois elementos que constituem tudo, exceto uma pequena fração do americano”, afirma Douglas
nosso Sol. Kenneth, arqueólogo da
Universidade de Oregon
Essa nuvem difusa em rotação lenta contraiu-se devido à força da (noroeste), um dos co-autores
do estudo publicado na última
gravidade, a qual resulta da atração entre corpos devido a sua massa. A
edição da revista Science.
contração, por sua vez, acelerou a rotação das partículas e essa rotação
mais rápida achatou a nuvem na forma de um disco. Em outubro de 2007, uma
equipe de 26 pesquisadores
de 16 instituições apresentou
a teoria da queda de vários
3.1.2 A formação do Sol cometas para explicar um
período glacial de 1,3 mil anos,
que causou, aparentemente,
O Sol é uma estrela de média grandeza, ocupando a posição central na a extinção de várias espécies
Sequência Principal no diagrama H-R (Hertzsprung-Russel). Como tal, animais, incluindo os mamutes,
assim como a fragmentação da
encontra-se formando He pela queima do H, há cerca de 4,6 bilhões de
cultura pré-histórica, chamada
anos. Clóvis, uma das mais antigas das
Américas.
A sua formação deu-se através da atração da gravidade, onde a maté-
ria começou a deslocar-se para o centro, acumulando-se como uma (...) Uma das camadas
de sedimentos ricos em
proto-estrela. Comprimido sob seu próprio peso, o material do proto-sol nanodiamantes de origem
tornou-se mais denso e quente. Sua temperatura interna elevou-se para cósmica recobria vestígios
milhares de graus, dando início a uma fusão nuclear (Press et al, op.cit.). dessa cultura na zona de Murray
Springs, no Arizona (Sudoeste
A fusão nuclear do sol, que continua até hoje, é a mesma reação nuclear
dos EUA).
que ocorre em uma bomba de hidrogênio. Em ambos os casos, átomos
de hidrogênio sob intensa pressão e em alta temperatura combinam-se
(fundem-se) para formar hélio. Nesse processo, parte da massa é conver-
tida em energia. Assim, o Sol emite parte dessa energia como luz; uma
10 Esses nanodiamantes se formam
a temperaturas muito altas e
bomba-H, como uma grande explosão.
sob fortes pressões criadas
por um impacto cósmico. São
encontrados em meteoritos,
mas podem ser reproduzidos 3.1.3 A formação dos planetas
na Terra, desde que devido
a uma forte explosão, ou por Embora a maior parte da matéria da nebulosa original tenha se concen-
vaporização química.
trado no proto-Sol, restou um disco de gás e poeira, chamada nebulosa
(Fonte: http://noticias. solar, envolvendo-o. A nebulosa solar tornou-se quente quando se acha-
terra.com.br/ciencia/ tou na forma de um disco e ficou mais quente na região interna, onde
interna/0,,OI3428571-EI319,00-m
mais matéria se acumulou
amutes+desapareceram+por+qu
eda+de+meteoritos+diz+estudo.
html, acessado em 19/01/09). do que nas regiões externas menos densas. Uma vez formado, o disco
começou a esfriar e muitos gases condensaram-se, ou seja, eles muda-
ram para sua forma líquida ou sólida. A tração gravitacional causou a
agregação de poeira e material condensado por meio de colisões “pega-
josas” em pequenos blocos ou planetesimais de 1 Km. Estas colidiram e
se agregaram, formando corpos maiores com o tamanho da Lua. Em um
estágio final de impactos cataclísmicos, uma pequena quantidade desses
corpos maiores – cuja atração gravitacional também é maior – arrastou
outros para formar os noves planetas em suas órbitas atuais.
Quando os planetas se formaram, aqueles cujas órbitas estavam mais
próximas do Sol desenvolveram-se de maneira marcadamente diferente
daqueles com órbitas mais afastadas. Assim, a composição dos planetas
interiores é completamente diferente daquela dos planetas exteriores.
3.1.4 Os meteoritos
Meteoritos são fragmentos de matéria sólida provenientes do espaço.
A imensa maioria, de tamanho diminuto, é destruída e volatilizada pelo
atrito, devido a seu ingresso na atmosfera da Terra. Apenas os meteoritos
maiores conseguem atingir a superfície da Terra, como, por exemplo, um
de cerca de 150.000 toneladas que se chocou com a Terra há cerca de
50.000 anos, cavando o Meteor Crater (Arizona, EUA), uma depressão
com mais 1.200 metros de diâmetro e 180 metros de profundidade.
O estudo de algumas trajetórias, quando a observação foi possível, indi-
cou, como provável região de origem dos meteoritos, o anel de asteroides
que se situa entre as órbitas de Marte e Júpiter. Análises químicas de
alguns meteoritos sugerem uma proveniência da Lua e também de Marte,
arrancados das superfícies desses corpos por grandes impactos.
3.1.5 Os cometas
FIQUE POR DENTRO! 11
Os cometas são constituídos predominantemente por material gasoso,
A radiação solar é a maior
que representa a matéria primordial da nebulosa solar. Acredita-se que, responsável pelos fenômenos
durante o processo de acresção planetária, os cometas também foram que ocorrem na superfície
formados numa região muito além do anel planetário mais externo. Tais da Terra e na atmosfera.
Entretanto, a poucas dezenas de
corpos de dimensões variáveis não puderam originar protoplanetas, por centímetros de profundidade da
estarem muito afastados entre si. superfície, seus efeitos diretos
sobre a temperatura terrestre
Cerca de 750 cometas são conhecidos, como, por exemplo, o Halley, de são praticamente desprezíveis,
período curto, cuja órbita o faz se aproximar da Terra a cada 75-76 anos; e o aumento de temperatura
que sentimos ao descermos
ou o Schumacher-Levy, que colidiu espetacularmente com o planeta no interior de uma mina, por
Júpiter, em julho de 1995. exemplo, é somente devido ao
fluxo de calor do interior da Terra.
A constituição dos cometas inclui compostos voláteis congelados, tais
O conhecimento das variações
como H2O, H2CO, C, CO, CO2, H, OH, CH, O, S, NH, NH2, HCN, N2, e da temperatura é, contudo,
muitos outros. Quando cometas são trazidos para perto da órbita da precário, quando comparado,
Terra, seus gases são vaporizados e ionizados pela radiação solar, e o por exemplo, com variações
conjunto toma a forma típica de um núcleo e uma cauda apontando para de densidade e de parâmetros
elásticos, obtidos da sismologia.
o lado oposto do sol. A razão é que as temperaturas
somente são conhecidas
próximas à superfície da Terra,
medidas em furos de sondagens
4 A Composição e o Calor da Terra ou no interior de minas. A
condutividade térmica também é
medida experimentalmente com
A maior parte do interior da Terra é inacessível às observações diretas, rochas próximas à superfície,
de modo que, para conhecer a sua constituição interna, torna-se neces- e os valores para maiores
sário recorrer a métodos indiretos. Estudos sismológicos revelaram que a profundidades acabam sendo
inferidos a partir de outras
estrutura interna da Terra consiste de uma série de camadas que com- propriedades físicas obtidas,
põem a crosta, o manto e o núcleo. A partir das propriedades físicas, e principalmente, da sismologia.
com o apoio de experiências que simulam as condições de temperatura e
(Fonte: TEXEIRA, W. et al.
pressão no interior da Terra, é possível inferir as composições mineraló- Decifrando a Terra. São Paulo:
gicas das camadas presentes. O calor interno da Terra e os processos de Companhia Editora Nacional,
sua redistribuição são fatores importantes para entender os movimentos 2008.)
dentro das e entre as camadas da Terra.
Embora a Terra, provavelmente, tenha se iniciado como uma mistura não-
segregada de planetesimais e outros remanescentes da nebulosa, ela
não manteve essa forma durante muito tempo.
Desde o início do século XIX, os cientistas especulavam sobre a cons-
tituição interna da Terra. Entretanto, só a partir da segunda metade
do século, partindo-se de estimativas para o raio e massa da Terra, a
densidade média foi calculada em 5,5 g/cm3 aproximadamente (Pacca &
McReath, 2008). Uma vez que essa densidade é maior que a da maioria
12 FIQUE POR DENTRO! das rochas expostas na superfície da Terra (2,5 – 3,0 g/cm3), conclui-se
que pelo menos parte do interior terrestre devia ser composta por mate-
A radiação solar é a maior
responsável pelos fenômenos
rial muito denso.
que ocorrem na superfície
da Terra e na atmosfera. Com o desenvolvimento da rede sismográfica mundial e dos métodos
Entretanto, a poucas dezenas de de observação e análise, foram encontradas novas interfaces e zonas
centímetros de profundidade da de transição no interior terrestre, mostrando que a crosta, o manto e o
superfície, seus efeitos diretos
sobre a temperatura terrestre núcleo são domínios heterogêneos. Partindo das velocidades sísmicas,
são praticamente desprezíveis, calculam-se as densidades das camadas principais e de suas subdivi-
e o aumento de temperatura sões, para, em seguida, buscar a identificação das rochas presentes
que sentimos ao descermos
no interior de uma mina, por
nessas camadas (Madureira Filho et al, 2008).
exemplo, é somente devido ao
fluxo de calor do interior da Terra.
O conhecimento das variações 4.1 Modelos e Estruturação da Composição da Terra
da temperatura é, contudo,
precário, quando comparado,
por exemplo, com variações
de densidade e de parâmetros
elásticos, obtidos da sismologia.
4.1.1 A crosta terrestre
A razão é que as temperaturas
somente são conhecidas Para se alcançar as partes da crosta atualmente mais profundas, foram
próximas à superfície da Terra, necessárias sondagens tanto nos oceanos como nos continentes.
medidas em furos de sondagens
ou no interior de minas. A
Entretanto, por serem os custos de tais sondagens muito altos, torna-se
condutividade térmica também é necessária a busca por outras evidências para validar os modelos obtidos
medida experimentalmente com através dos estudos sísmicos. As rochas expostas atualmente na superfí-
rochas próximas à superfície,
cie terrestre, através da combinação das forças geológicas internas, vêm
e os valores para maiores
profundidades acabam sendo permitindo a verificação dos modelos sísmicos.
inferidos a partir de outras
propriedades físicas obtidas, A crosta continental apresenta espessura muito variável, desde 30-40
principalmente, da sismologia. Km nas regiões sismicamente estáveis mais antigas (os crátons) até 60-
(Fonte: TEXEIRA, W. et al. 80 Km nas cadeias de montanhas, como o Himalaia, na Ásia, e os Andes,
Decifrando a Terra. São Paulo: na América do Sul (Pacca & McReath, op.cit.).
Companhia Editora Nacional,
2008.) O modelo geofísico para a crosta oceânica sugere que, em média, esta
apresenta espessura total em torno de 7,5 Km. No Oeste do Oceano
Pacífico, encontram-se alguns platôs oceânicos nos quais a espessura
da crosta oceânica alcança de três a quatro vezes a espessura média
(figura 01).
MINERAIS QUE VOCÊ DEVE 13
CONHECER!
Anfibólio
Figura 01 – Detalhes das camadas superiores da Terra (Fonte: McKnight & Hess, 2005)
Calcita
4.1.2 O manto
O manto superior situa-se abaixo da descontinuidade de Mohorovicic
até a primeira das descontinuidades mantélicas abruptas, que se
manifesta a uma profundidade de cerca de 400 Km. A velocidade da
propagação das ondas sísmicas nas regiões oceânicas e em partes das
regiões continentais, dentro dessa faixa de profundidade, sofre uma
ligeira diminuição com o aumento da profundidade. Essa zona ou camada
recebe a denominação de zona de baixa velocidade. Diamante
A petrologia experimental demonstra que, para o manto superior, o
principal tipo de rocha produzido são as máficas, como os peridotitos
(olivina+piroxênio) ou o eclogito (granada+piroxênio).
Ao descer através da crosta e do topo do manto superior, portanto,
passamos de uma parte rígida, acima da zona de baixa velocidade, para
uma parte plástica dentro da zona de baixa velocidade. A parte rígida
que inclui crosta e parte do manto é denominada litosfera, enquanto a
parte dúctil é denominada astenosfera. Na mesosfera abaixo da zona Dolomita
de baixa velocidade, o manto, a despeito de sua maior temperatura, que
poderia torná-lo mais plástico, está submetido a uma pressão mais alta,
o que faz com que seja novamente pouco plástico e totalmente sólido
(Pacca & McReath, 2008).
A geofísica revela que, em uma zona de transição, no intervalo de aproxi-
14 madamente 400 a 650 Km, há algumas descontinuidades, caracterizadas
por pequenos aumentos de densidade nítidos ou gradativos que podem
ser causados por mudanças na composição química do manto para uma
composição em que um ou outro elemento de maior peso atômico (por
exemplo, o ferro) começa a predominar sobre os outros elementos de
menor peso atômico (por exemplo, o magnésio).
Acredita-se que, desde 650 Km até em torno de 100-300 Km da descon-
Feldspato tinuidade de Gutenberg a 2.900 Km de profundidade, o manto inferior
seja composto, predominantemente, por silicatos ferromagnesianos com
estrutura densa e, em menor quantidade, por silicatos cálcioaluminosos
também densos, bem como óxidos de magnésio, ferro e alumínio.
4.1.3 O núcleo
Granada
Os aumentos da densidade e da velocidade, ao atravessarem a descon-
tinuidade de Gutenberg, são muito grandes e não podem ser gerados por
transformações polimórficas dos materiais que compõem o manto inferior.
Segundo Pacca & McReath (2008), a densidade calculada para o núcleo
terrestre deixa poucas dúvidas de que seja composta predominante-
mente por uma liga metálica de ferro e níquel, hipótese corroborada pela
planetologia comparada e pelo estudo de meteoritos. Acredita-se que,
na sua liga, deva incorporar algum elemento de número atômico baixo,
cuja presença resulta numa diminuição da densidade, como o hidrogênio,
oxigênio, sódio, magnésio, enxofre.
Gpsita
O núcleo interno, sólido, deve ser composto pela liga ferro-níquel, uma
vez que sua densidade corresponde à densidade calculada. O núcleo
interno deve crescer lentamente pela solidificação do núcleo externo.
Estudos recentes sugerem que o interno assemelha-se a um enorme cris-
tal anisotrópico que permite uma velocidade ligeiramente maior às ondas
sísmicas propagadas na direção N-S.
Hematita
5 Os Minerais: Constituintes Básicos das Rochas
A importância dos minerais no desenvolvimento tecnológico da humani-
dade vem crescendo continuamente desde a época da pedra lascada.
Segundo Madureira Filho et al (2008), a sociedade tecnológica não teria
conseguido chegar à Lua não fosse o seu conhecimento sobre as carac-
terísticas e propriedades dos minerais.
Para contar, com precisão, a história da Terra, os geólogos frequen-
temente utilizam os minerais existentes para deduzir os processos e 15
eventos que ocorreram em um determinado local, em tempos passados.
Por exemplo, os tipos de minerais presentes em uma rocha vulcânica
podem fornecer evidências de que as erupções trouxeram à superfície
terrestre rochas fundidas, com temperaturas próximas a 1.000oC. Os
minerais de um granito revelam que este cristalizou na crosta profunda,
nas altas temperaturas e pressões que ocorrem quando duas placas Caolinita
continentais colidem e formam montanhas. Assim, o conhecimento da
geologia de uma região pode fornecer informações consistentes sobre os
locais onde há possibilidade de descobrir recursos minerais de importân-
cia econômica.
5.1 O que são Minerais
Mica
Os minerais são elementos ou compostos químicos com composição
definida dentro de certos limites, cristalizados e formados naturalmente
por meio de processos geológicos inorgânicos, na Terra ou em corpos
extraterrestres.
Alguns poucos minerais têm uma composição química muito simples,
dada por átomos de um mesmo elemento químico. São exemplos o dia-
mante (átomo de carbono), o enxofre (átomo de enxofre) e o ouro (átomo
de ouro). A grande maioria dos minerais, entretanto, é formada por com-
postos químicos que resultam da combinação de diferentes elementos Pirita
químicos.
O fato de a definição de mineral destacar o termo cristalizado, para esses
materiais, significa que eles têm um arranjo atômico interno tridimensio-
nal. Duas propriedades físicas que por si só atestam esta organização
interna são o hábito cristalino e a clivagem. O hábito cristalino é a
forma geométrica externa natural do mineral, desenvolvida sempre que
a cristalização se der sob condições calmas e ideais. Já a clivagem é a
quebra sistemática da massa mineral em planos preestabelecidos que Piroxênio
reúnem as ligações químicas mais fracas e oferecidas pela estrutura do
mineral.
O mercúrio (elemento nativo) é o único líquido considerado espécie
mineral. O gelo formado naturalmente (nas calotas polares, por exemplo)
é considerado mineral, mas a água líquida não.
Quartzo
ANOTAÇÕES PESSOAIS Substâncias amorfas, tais como géis, vidros e carvões naturais, não são
16 cristalinas e, portanto, não satisfazem às exigências da definição de
mineral. Estas substâncias formam parte da classe dos mineraloides.
Quando usamos o termo “naturalmente” na definição do mineral, indica-
mos que as substâncias devem ocorrer espontaneamente, na natureza.
Como regra geral, substâncias sintéticas feitas pelo ser humano por
síntese no laboratório ou os produtos resultantes de combustão ou os
formados a partir de materiais artificiais, mesmo com a ação do ar ou
de água, não são considerados minerais, embora apresentem todas as
características de seus equivalentes naturais.
O uso do termo inorgânico na definição de mineral impede que as
substâncias puramente biogênicas sejam minerais. A pérola, o âmbar,
os recifes de corais e o carvão são algumas substâncias biogênicas
que não podem ser consideradas minerais, por um motivo ou outro. São
todos mineraloides. No caso do coral, mesmo que possamos reconhecer
compostos químicos idênticos às formas naturais de carbonato de cálcio
sólido, o organismo vivo tem intervenção essencial na produção do com-
posto – que é uma secreção gerada por seu metabolismo.
A origem de um mineral está condicionada aos “ingredientes químicos” e
às condições físicas (temperatura e pressão) reinantes no seu ambiente
de formação. Assim sendo, minerais originados no interior da Terra são
geralmente diferentes daqueles formados na superfície.
Um mineral pode se formar de diferentes maneiras. Por exemplo, a partir
de uma solução, de material em estado de fusão ou vapor. O processo de
cristalização tem início com a formação de um núcleo, um diminuto cristal
que funciona como uma semente, ao qual o material vai aderindo, com o
consequente crescimento do cristal.
5.2 Nomenclatura dos Minerais
A nomenclatura dos minerais é hoje controlada pela Comissão de
Novos Minerais e Novos Nomes de Minerais (CNMNM) da Associação
Mineralógica Internacional (IMA), criada em 1959. Os nomes de novos
minerais devem ter, no caso brasileiro, a terminação “ita”, em contraposi-
ção, a terminação “ito” é usada para nomes de rochas (Madureira Filho et
al, 2008).
Os minerais mais comuns podem, muitas vezes, ser identificados sim-
plesmente pela observação de suas propriedades físicas e morfológicas,
que são decorrentes de suas composições químicas e suas estruturas ANOTAÇÕES PESSOAIS
cristalinas. Utilizamos, para fins de identificação rápida de minerais, as 17
seguintes propriedades: hábito cristalino, transparência, brilho, cor, traço,
dureza, fratura, clivagem, densidade relativa, geminação, propriedades
elétricas e magnéticas.
O hábito cristalino é a forma geométrica externa, habitual, exibida
pelos cristais dos minerais, que reflete a sua estrutura cristalina. Esta
propriedade pode ser observada, sobretudo, quando o mineral cresce
em condições geológicas ideais. Os hábitos mais comuns são: o laminar,
o prismático (os cristais aparecem alongados como prisma), o fibroso, o
acicular, o tabular e o equidimensional.
A transparência é uma das propriedades que expressam quando um
mineral não absorve ou absorve pouca luz. Os que absorvem a luz
consideravelmente são translúcidos e dificultam que imagens sejam
reconhecidas através deles (Figura 02). Obviamente, esta característica
depende da espessura do mineral, pois a maioria dos minerais translúci-
dos torna-se transparente quando em lâminas finas. Existem, contudo, os
elementos nativos metálicos, óxidos e sulfetos que absorvem totalmente
a luz, independentemente da sua espessura. São os minerais opacos.
Figura 02 – Visualização da transparência dos minerais
O brilho é a quantidade de luz refletida pela superfície de um mineral. Os
minerais que refletem mais de 75% da luz incidente exibem brilho metá-
lico, como é o caso da maioria dos minerais opacos. Os que não atingem
esta reflexão têm brilho não-metálico. Entre estes, é usual distinguir
alguns, como o vítreo (o brilho da fratura fresca do vidro), o gorduroso (o
brilho do azeite), o sedoso, etc.
A cor de um mineral resulta na absorção seletiva da luz. Alguns minerais
têm cores bastante características, sendo chamados de idiocromáticos
(Exemplificando: o enxofre, amarelo). Outros são alocromáticos, isto é,
sua cor varia amplamente, como a turmalina e o quartzo, por exemplo,
que ocorrem em muitas cores.
O traço é a cor do pó mineral. É obtida riscando um mineral contra uma
18 OBSERVAÇÃO placa ou fragmento de porcelana de cor branca. Esta propriedade só é
útil para identificar os minerais opacos ou os minerais ferrosos, que apre-
sentam traços coloridos.
A dureza é a resistência que o mineral apresenta ao ser riscado. Para
classificá-la, utiliza-se a escala de Mohs (Tabela 01).
Mineral padrão Dureza Padrão secundário
talco 1
gipsita 2 unha (2,5)
calcita 3 alfinete (3,5)
flourita 4
apatita 5 lâmina de aço (5 - 5,5)
ortoclásio 6
quartzo 7 porcelana (~7)
topázio 8
corídon 9
diamante 10
Tabela 01 – Escala de Mohs e padrões secundários. (Fonte: Madureira Filho et al,
2008)
Figura 03 – Tipos de clivagens A fratura é a superfície irregular e curva resultante da quebra do mineral.
(Fonte: http://www.dct.uminho.
pt/PNPG/gloss/gifs/clivagem.jpg)
As superfícies de fratura podem ser irregulares ou conchoidais, a depen-
der da estrutura atômica dos minerais.
A clivagem ocorre em superfícies de quebra que constituem planos
de irregularidade e podem ser classificadas como: perfeita, boa ou
imperfeita. Muitos minerais, além de mostrarem superfícies de fratura,
apresentam uma ou mais superfícies de clivagem, nomeadas como
cúbica, romboédrica, etc (Figura 03).
A densidade relativa é o número que indica quantas vezes certo volume
do mineral é mais pesado que o mesmo volume de água (a 4ºC). A densi-
dade relativa da maioria dos minerais oscila entre 2,5 e 3,3.
Figura 04 – Exemplo de
geminados simples em
estaurolita (Fonte: www. A geminação é a propriedade de certos cristais de aparecerem intercres-
dicionario.pro.br/.../ cidos de maneira regular. A geminação pode ser simples (dois indivíduos
Gemina%C3%A7%C3%A3o). intercrescidos) ou múltipla (polissintética), sendo uma propriedade diag-
OBSERVAÇÕES
nóstica do mineral (Figura 04).
As propriedades elétricas e magnéticas se devem à presença de liga-
ções atômicas totalmente metálicas, como é o caso dos metais nativos
ouro, prata e cobre, que são excelentes condutores de eletricidade. A
orientação dos minerais magnéticos nas rochas ígneas é importante no
estudo do paleomagnetismo terrestre.
6 Rochas: Unidades Formadoras da Crosta ANOTAÇÕES PESSOAIS
19
As rochas são produtos consolidados, resultantes da união natural de
minerais. Diferentemente dos sedimentos, por exemplo, areia de praia
(um conjunto de minerais soltos), as rochas têm seus cristais ou grãos
constituintes muito bem unidos. Dependendo do processo de formação,
a força de ligação dos grãos constituintes varia, resultando em rochas
“duras” e rochas “brandas”.
6.1 Rochas Ígneas
As rochas ígneas formam-se pela cristalização do magma, uma massa
de rocha fundida que se origina em profundidade, na crosta e no manto
superior. Esta pode ser dividida em duas categorias: rochas ígneas intru-
sivas e rochas ígneas extrusivas.
6.1.1 Rochas ígneas intrusivas ou plutônicas
As rochas ígneas intrusivas cristalizam-se quando o magma intrude em
uma massa de rocha não-fundida, em profundidade na crosta terrestre.
Cristais grandes crescem enquanto o magma esfria, produzindo rochas
de granulação grossa. As rochas ígneas intrusivas podem ser reconhe-
cidas por seus cristais grandes intercrescidos, os quais se desenvolvem
lentamente, enquanto o magma é gradualmente resfriado. O granito é um
exemplo de rocha ígnea intrusiva.
Os corpos de rochas ígneas intrusivas podem ser classificados em
relação às suas formas, que podem ser alongadas, circulares, tabulares
ou mesmo totalmente irregulares. De um modo geral, todos os corpos
intrusivos são denominados “plutons” e podem ser distinguidos de acordo
com seu tamanho e relação com as rochas encaixantes da crosta.
Os corpos intrusivos menores são representados pelos diques e sills (ou
soleiras), que têm formas tabulares, pelos lacólitos, em forma de cogu-
melo, e pelos necks vulcânicos. Já os corpos intrusivos maiores são
chamados de batólitos.
6.1.2 Rochas ígneas extrusivas
20 OBSERVAÇÕES
As rochas ígneas extrusivas formam-se pelo rápido resfriamento do
(I) Se um magma sofreu
cristalização fracionada porque magma que chega à superfície por meio de erupções vulcânicas. As
os cristais foram separados e, rochas ígneas extrusivas, como o basalto, são reconhecidas facilmente
portanto, não puderam mais por sua textura vítrea ou de granulação fina.
reagir com o magma, as rochas
finais podem ter maior teor
A maioria dos minerais das rochas ígneas são silicatos, em parte, porque
de sílica que os cristais mais
máficos, formados nos estágios o silício é muito abundante, e, em parte, porque vários minerais silicata-
iniciais. A cristalização fracionada dos fundem-se nas altas temperaturas e pressões alcançadas nas partes
pode produzir rochas ígneas mais profundas da crosta e do manto. Entre os minerais comuns de silica-
máficas nos estágios iniciais de
cristalização e de diferenciação, tos encontrados nas rochas ígneas, estão o quartzo, o feldspato, a mica,
e rochas félsicas nos estágios o piroxênio, o anfibólio e a olivina.
mais tardios. Mas esse processo
não pode ser responsável
pela abundância de granitos.
Tampouco a diferenciação
magmática dos basaltos explica
6.2 Rochas Sedimentares
a composição e a abundância
de rochas ígneas. Diferentes Os sedimentos, antecessores das rochas sedimentares, encontram-se
tipos de rochas ígneas podem na superfície terrestre como camadas de partículas soltas, como areia,
ser produzidos por variações
silte e conchas de organismos. Uma vez depositado, o material sedimen-
nas composições dos magmas,
causadas pela fusão de tar, terrígeno ou carrbonático, passa a responder às condições de um
diferentes misturas de rochas novo ambiente, o de soterramento. Ao conjunto de transformações que o
sedimentares com outras rochas depósito sedimentar sofre após sua deposição, em resposta a esta nova
e pela mistura de magma.
condição, dá-se o nome diagênese. A diagênese é uma transformação
(II) Os grandes corpos ígneos em adaptação às novas condições físicas (pressão, temperatura) e
são denominados plútons. Os químicas (Eh, pH, pressão da água) (Giannini, 2008). Se levado adiante,
maiores plútons são os batólitos,
espessas massas magmáticas
a diagênese pode conduzir à transformação do depósito sedimentar
com um funil central. Os stocks inconsolidado em rocha, só desagregável com o uso do martelo. Este
são corpos plutônicos menores. processo é conhecido como litificação.
Menos gigantescos que os
plútons são as soleiras, que A diagênese é caracterizada por um conjunto de processos e por seus
são concordantes com suas
encaixantes, sendo paralelos a respectivos produtos. A importância de cada processo diagenético varia
seu acamamento, e os diques, na dependência do estágio de soterramento e do tipo de rocha sedi-
que seccionam o acamamento. mentar, se calcária ou terrígena. Os processos mais conhecidos são: 1.
Veios hidrotermais formam-se
onde há abundância de água, no
compactação, 2. dissolução, 3. cimentação, e 4. recristalização diagené-
magma ou na rocha encaixante tica.
vizinha.
Os sedimentos e as rochas sedimentares são caracterizados pela estrati-
ficação, a formação continuada de camadas paralelas de sedimentos à
medida que as partículas depositam-se no fundo do mar, de um rio ou da
superfície do terreno. Pelo fato de as rochas sedimentares serem forma-
das por processos superficiais, elas cobrem grande parte dos continentes
e do fundo dos oceanos. A maioria das rochas que se encontra na super-
fície terrestre é sedimentar. Todavia, o volume dessas rochas é menor
que o das rochas ígneas e metamórficas – que constituem o principal (III) Os sedimentos e as rochas
volume da crosta –, pois dificilmente são preservadas. sedimentares clásticos são 21
classificados pelo tamanho de
suas partículas, como: cascalhos
Os minerais comuns dos sedimentos clásticos são os silicatos (quartzo, e conglomerados, areias e
feldspato e argilominerais), porque eles predominam nas rochas que arenitos, siltes e siltitos, Lamas,
são alteradas para formar partículas sedimentares. Já os minerais mais lamitos e folhelhos, argilas
e argilitos. Esse método de
abundantes nos sedimentos precipitados química ou bioquimicamente classificação dos sedimentos
são os carbonatos, como a calcita, o principal constituinte do calcário. A enfatiza a importância da energia
dolomita, também encontrada no calcário, é um carbonato de magnésio e da corrente, no processo de
cálcio formado por precipitação durante a litificação. Dois outros sedimen- transporte e deposição dos
sólidos. As rochas sedimentares
tos químicos – a gipsita e a halita – formam-se por precipitação, quando a e os sedimentos químicos e
água do mar evapora. bioquímicos são classificados
com base na sua composição
química. As rochas carbonáticas
– calcários e dolomitos – são
6.2.1 Classificação geral das rochas sedimentares as mais abundantes dessa
classe de rochas. O calcário é
constituído predominantemente
A classificação mais abrangente das rochas sedimentares relaciona-se de materiais conquíferos,
à ocorrência ou não de transporte mecânico (alóctones X autóctones) e precipitados por processos
à origem dos grãos fora ou dentro da bacia sedimentar (extrabacinais X bioquímicos. O dolomito
é formado pela alteração
intrabacinais). Trata-se, sem dúvida, de uma classificação genética, no diagenética do calcário.
entanto a simples descrição da composição químico-mineralógica das Outros sedimentos químicos e
rochas é suficiente para permitir o uso desta classificação (Tabela 02). bioquímicos são os evaporitos,
os sedimentos silicosos, como o
sílex, os fosforitos, as formações
ferríferas, as turfas e outras
matérias orgânicas que são
transformadas em carvão, óleo
e gás.
ANOTAÇÕES PESSOAIS Tipo de Rocha Caráter do critério Critério Termos
22
Rudito (psefito)
Granulação Arenito (psamito)
Lutito (pelito)
Arenito,
ortoconglomerado
Textural Proporção de
matriz Wacker,
paraconglomerado
Lamito
Conglomerado
Arredondamento
Brecha
Quartzo rudito,
quartzo arenito/
wacker
Proporção QFL Rudito feldspatico,
Terrígeno (quartzo, arenito/Walker
feldspato, lítico) feldspato
Rudito lítico, arenito/
Mineralógico wacker lítico
Conglomerado oligo-
mítico, conglomerado
polimítico
Diversidade ou
pureza composi- Folhelho, folhelho
cional carbonático, folhelho
silicoso, marga,
porcelanito
Geométrico (estru- Fissilidade Folhelho
tura sedimentares)
Ritimicidade Ritmito
Calcirrudito
(dolorrudito)
Granulação Calcarenito
(doloarenito)
Calcilutito (dololutito)
Textura Ooesparito, oomicito
Carbonático
Intraesparito, intra-
Tipo de grão / micrito
tipo de material
intersticial Bioesparito,
biomicrito
Pelmicrito, pelsparito
Relação calcita/
Mineralógico Calcário, dolomito
dolomita
Tabela 02 – Critério e termos mais usuais na classificação de rochas sedimentares
terrígenas e carbonáticas (Fonte: Giannini, 2008)
Apesar do antagonismo entre sedimentação terrígena e carbonática, os
dois tipos de materiais podem coexistir no mesmo sítio deposicional. Há
todas as proporções possíveis de mistura de materiais terrígenos e não
terrígenos numa rocha sedimentar (pelo menos, se ela for alóctone).
Desse modo, parece lógico que o material que dá nome à rocha seja 23
aquele que predomine em volume.
6.3 Rochas Metamórficas
As rochas metamórficas têm seu nome derivado das palavras gregas
que significam “mudanças” (meta) e “forma” (morphe) (Press et al, 2006).
Essas rochas são formadas quando qualquer tipo de rocha – ígnea, sedi-
mentar ou outra rocha metamórfica – é submetido às altas temperaturas
e pressões capazes de mudar a sua mineralogia, textura ou composição
química, embora mantenha sua forma sólida. As temperaturas do meta-
morfismo estão abaixo do ponto de fusão das rochas (aproximadamente
700ºC), mas são altas o bastante (acima de 250ºC) para as rochas modi-
ficarem-se por recristalização.
6.3.1 Metamorfismo regional e de contato OBSERVAÇÕES
O metamorfismo pode ocorrer numa área extensa ou limitada. O (I) As rochas metamórficas
metamorfismo regional ocorre onde as altas pressões e temperatu- apresentam duas classes
texturais principais: as foliadas
ras estendem-se por regiões amplas, o que acontece onde as placas (que mostram clivagem de
colidem. O metamorfismo regional acompanha as colisões das placas, fratura, xistosidade ou outras
resultando na formação de cadeias de montanhas e no dobramento e fra- formas de orientação preferencial
dos minerais) e as granoblásticas
turamento das camadas sedimentares que, até então, eram horizontais. ou não foliadas (Figura 05 e 06).
Quando as altas temperaturas restringem-se às pequenas áreas, pelo
contato com uma intrusão, as rochas são transformadas por metamor-
fismo de contato.
Muitas rochas metamorfizadas regionalmente, como os xistos, têm uma
foliação característica, isto é, superfícies onduladas ou planares pro-
duzidas quando a rocha foi deformada estruturalmente por dobras. As
texturas granulares são mais típicas da maioria das rochas de metamor- Figura 05 – Gnaisse
fismo de contato e de certas rochas de metamorfismo regional formadas apresentando foliação bem
por temperatura e pressão muito altas. desenvolvida (Fonte: www.
gmariano.com.br/i-metamorfismo.
htm
Os silicatos são os minerais mais abundantes das rochas metamórficas,
pois as rochas parentais também são ricas nesses minerais. Os minerais
típicos das rochas metamórficas são o quartzo, o feldspato, a mica, o
piroxênio e os anfibólios. Muitos outros silicatos – como a cianita, a estau-
rolita e algumas variedades de granadas – são exclusivos das rochas
metamórficas. Esses minerais formam-se sob condições de alta pressão
e temperatura na crosta e não são característicos das rochas ígneas.
24 Eles também são bons indicadores do metamorfismo, como a calcita,
principal mineral dos mármores, e corresponde ao calcário metamorfi-
zado.
6.4 Distribuição das Rochas
Figura 06 – Serpentinito com
textura granoblástica (Fonte: As rochas não são encontradas na natureza convenientemente divididas
www.rc.unesp.br/.../serpentinito. em corpos separados. São encontradas segundo padrões determinados
html pela história geológica de cada região. Na busca por dados na crosta
Os tipos de rochas produzidas continental profunda, os governos de vários países – incluindo Estados
pelo metamorfismo dependem Unidos, Alemanha e Rússia – realizaram perfurações muito profundas
da composição do protólito e do nos continentes. O furo mais profundo, na Rússia, tem mais de 12 Km,
grau de metamorfismo.
excedendo a profundidade de qualquer furo comercial.
Mesmo com as informações sobre o que se têm abaixo da superfície
terrestre, os geólogos continuam a confiar nas rochas expostas em aflo-
ramentos, lugares onde o substrato rochoso está exposto.
6.4.1 O ciclo das rochas
O ciclo das rochas é o resultado das interações de dois dentre os
três sistemas fundamentais da Terra: a tectônica de placas e o clima.
Controlados pelas interações desses dois sistemas, materiais e energia
são trocados entre o interior da Terra, a superfície da terrestre, os ocea-
nos e a atmosfera.
A ideia de Terra como um sistema ainda não havia sido proposta quando
o escocês James Hutton descreveu o ciclo das rochas (Press et al.,
2006). Daremos atenção aqui a um ciclo, reconhecendo que este varia de
acordo com o tempo e com o lugar.
Começamos com um magma no interior da Terra, onde as temperaturas
e as pressões são altas o suficiente para fundir qualquer tipo de rocha
(ígnea, metamórfica ou sedimentar). Quando uma rocha preexistente
se funde, todos os seus componentes minerais são destruídos e seus
elementos químicos são homogeneizados, resultando em um líquido
aquecido.
O ciclo começa com a subducção de uma placa oceânica em uma placa
continental. As rochas ígneas que se formam nas bordas onde as placas
colidem, juntamente com as rochas sedimentares e metamórficas asso- ANOTAÇÕES PESSOAIS
ciadas, são, então, soerguidas para formar uma cadeia de montanha, à 25
medida que uma secção de crosta terrestre dobra-se e deforma-se. Os
geólogos chamam esse processo, o qual inicia com a colisão de placas e
finaliza com a formação de montanhas, de orogenia.
As rochas ígneas assim expostas sofrem intemperismo, e mudanças
químicas ocorrem em alguns minerais. O intemperismo das rochas
ígneas produz novamente vários tamanhos e tipos de detritos de rocha
e material dissolvido, que são carregados pela erosão. Alguns desses
materiais são transportados no terreno pela água e pelo vento, outros são
transportados pelos córregos para os rios e para os oceanos. No oce-
ano, os detritos são depositados como camadas de areia, silte e outros
sedimentos formados a partir de material dissolvido, tal como o carbonato
de cálcio das conchas.
Os sedimentos depositados no mar, assim como aqueles depositados no
continente pela água e pelo vento, são soterrados por sucessivas cama-
das de sedimentos, onde litificam vagarosamente para formar as rochas
sedimentares. O soterramento é acompanhado de subsidência – uma
depressão ou afundamento da crosta terrestre. Enquanto a subsidência
continua, camadas adicionais de sedimentos vão sendo acumuladas.
À proporção que a rocha sedimentar litificada é soterrada a profundida-
des maiores da crosta, fica mais quente. Quando a profundidade excede
a 10 Km e as temperaturas ficam maiores que 300ºC, os minerais da
rocha, ainda sólida, começam a se transformar em novos minerais, os
quais são mais estáveis nas altas temperaturas e pressões das partes
mais profundas da crosta. O processo que transforma as rochas sedi-
mentares em rochas metamórficas é o metamorfismo. Com mais calor, as
rochas podem fundir-se e formar um novo magma, a partir do qual rochas
ígneas irão cristalizar, recomeçando o ciclo.
Essa série de processos é apenas uma variação entre muitas que podem
acontecer no ciclo das rochas. Certos estágios podem ser omitidos. Por
exemplo: quando uma rocha sedimentar é soerguida e paulatinamente
erodida, o metamorfismo e a fusão não acontecem. Os estágios tam-
bém podem estar fora de sequência, como no caso de uma rocha ígnea
formada no interior que é metamorfizada depois de ser soerguida (Figura
07).
ANOTAÇÕES PESSOAIS
26
Figura 07 – Ciclo das rochas: relação entre processos ígneos, metamórficos e sedimen-
tares (Fonte: www.cercifaf.org.pt/.../img_descn/ciclo.png)
O ciclo das rochas nunca tem fim. Está sempre operando em diferentes
estágios em várias partes do mundo, formando e erodindo montanhas
em um lugar e depositando e soterrando sedimentos em outro. As rochas
que compõem a Terra sólida são continuamente recicladas, entretanto,
apenas observamos parte do ciclo que ocorre na superfície e, portanto,
devemos deduzir a reciclagem da crosta profunda e do manto por evidên-
cias indiretas.
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