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A Escola est,l submetida a pressões para se adequar aos novos

mandamenws do nell-liberalismo. A competiçi'io econômica


CHR.TSTTAN LAVAL
mundial ameaça que rodo sistema educativo se reduza a um
produtor do "capital humano" necessário às empresas.
LavaI descreve aqui o ataque do neo-liberalismo a educação, a
partir de uma perspectiva histórica e baseado na experiência de
v,írios países.
scola não é
A privatização do ensino envolve muito mais do que a simples
cohrança por um serviço. Ela int1uencia conteúdos, proceclimentos
e relaç()es de pocler dentro da escola, que passa a funcionar com hase
empresa
no dogma do mercado.
Christian Lavai realizou uma pesquisa profunda, na qual baseia
o neo.,liberalismo em
seus comentários sobre as "recomendações" da OCDE, Banco
ataque ao ensino público
Mundial, OMC e União Européia.
Elas enfocam liherdade de escolha pelos "consumid(;res da
escoL1" e por uma "profissionalização" dos cursos. E uma
metamorfose do ensino, que leva a mercantilização geral do
conhecimento e aprendizagem, e reforço das desigualdades.

Mas a realização integral da escola neo-liberal não é inevitável,


conforme ,lssegura Chrisrian Lava!. Resisrências surdas e lutas
coletivas at10ram em muitos locais, movidas pela consciência dos
perigos desta mutação imposta pela globalização do capitalismo.

Os atores da escola vão enconrrar aqui um dehare crucial para o


modelo de civilização que desejamos para n(lS.

Efraim Rodrigues, Ph.D.

ISB~ 85-90200-24-8

L59 46
CHRISTIAN LAVAL

A Escola não é
uma empresa
o neo -liberalismo em ataque
ao ensino público

editora
PLANTA
Todos os direitos reservados
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www.editoraplanta.com.br
(43) 3357-1108/9102-4620
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86061-270 Londrina-PR

À CLEMENCE
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Visualitá Programação Visual

L426e Lavai, Christian


A Escola não é uma empresa. O nco,libcralismo em ataque ao
ensino público Christian LavaI. trad. Maria Luiza M. de
Carvalho e Silva· Londrina: Editora Planta, 2004. xxi, 324p. ; 22cm

Título original:
L'école n1est pás une entrepise: le néo,libéralisme à l'assaut de
l'enseignement public / Christian LavaI. - Paris: Éditions La
Découverte, 2003

inclui bibliografia A G R A D E C I M E N TOS


ISBN 85-902002-4-8
Meu reconhecimento vai para todas aquelas e todos aqueles que tive a sorte de

LEscola 2. Neo·liberalismo 3. Políticas Públicas 1. 11. Título encontrar nesses últimos anos no Clube Político de além-mar, dentro do RILC
(Rede de Iniciativas Laicas e Culturais), e no Instituto de Pesquisas da FSU.
CDU 37.014.4 Não esqueço minha dívida para com aquelas e aqueles que me forneceram uma
CDD 370.1 documentação preciosa e responderam oralmente à minha curiosidade, em
particular Evelyne Roigt e Mareei Touque. Eu me beneficiei durante todo o
ISBN 85-902002-4-8
trabalho das observações de Pascal Com bem ale, Pierre Dardot, Guy Dreux, Joel
Depósito Legal na Bibioteca Nacional
Impresso no Brasil- Printed in Brazil Koskas, Hugues Jallon, Évelyne Meziani, Régine Tassi e Louis Weber e agradeço

2004 a todos. As análises e as reflexões submetidas aqui ao debate público engaj am


somente seu autor.
ÍNDICE

Introdução IX

A vertente neoliberal da escola Xl


Mutação ou destruição da escola XVIl

I. A produção do "capital humano" a serviço da empresa


Capítulo 1. Novo capitalismo e educação 03
Os momentos da escola 05
Uma escola a serviço da economia 09
Em direção à escola neoliberal 12
A escola "flexível" 15
Degradação do vínculo entre diploma e emprego 17
Uma coerência totalmente relativa 20

CaPítulo 2. Do conhecimento como fator de produção 21


Educação ampliada, cultura útil 23
A época do capital humano 25
Capitalismo e produção dos conhecimentos 29
As novas indústrias do saber 33
Um modelo que se generaliza 38

CaPítulo 3. A nova linguagem da escola 43


O aprendizado ao longo de toda vida 46
O uso estratégico das competências 53
A pedagogia das competências 58

Capítulo 4. A ideologia da profissionalização 65


A escola englobada 69
A reviravolta 73
A profissionalização para todos como nova ideologia 78
O caso da universidade 81
U - A escola sob o dogma do mercado Os efeitos da racionalização tayloriana 198
Capítulo 5. A grande onda neoliberal 89 A fascinação da administração escolar pela empresa 202
Um programa de privatização 91 O culto da eficácia 206
A argumentação da ideologia neoliberal 93 Os efeitos redutores da avaliação e da eficácia 21 O
A promoção da escolha 97 A ideologia da inovação 216
A ofensiva liberal da direita francesa 102 A modernização tecnológica 220
A escola como mercado: um novo senso comum 106 CaPítulo 10. Descentralização, poderes e desigualdades 225
CaPítulo 6. O grande mercado da educação 109 As críticas, cada vez mais numerosas quanto
à uniformidade 228
As formas da mercantilização 111
A diversidade contra o centralismo 230
Um mercado promissor 114
O gerenciamento como horizonte
A globalização do mercado educativo 116
"realista" da esquerda 235
A privatização da educação 122
Uma nova organização descentralizada 238
Mercado das novas tecnologias e ilusões pedagógicas 126
O estabelecimento escolar no centro do dispositivo 242
As novas fronteiras do e-learning 131
Escolas ricas, escolas pobres 244
Capítulo 7. A colonização mercantil da educação 135 Controle local e mutação dos valores 249
O desfraldar publicitário na escola:
o exemplo norte-americano 136 CaPítulo 11. O novo "gerenciamento educativo" 257

A situação francesa 143 Democracia ou burocracia 260

Regular a publicidade na escola? 147 Filosofia do gerenciamento educativo 262

Publicidade e objetividade: o exemplo da Renault 149 Um gerenciamento retrógrado 266


O contra-senso neotayloriano 268
Capítulo 8. A mercantilização da escola e seus A autonomia do ensino e as hierarquias intermediárias 272
efeitos segregacionistas 155
Uma nova identidade 278
Da descentralização à não-regulação 156
o chefe do estabelecimento, pedagogo 283
As políticas do liberalismo escolar 158
A hipocrisia francesa 164 Capítulo 12. As contradições da escola neoliberal 289
A segregação à francesa 167 O império impossível 291
A escolha como novo modo de reprodução 172 Política de austeridade, recuo educativo e
177 capital humano 294
A idealização do mercado escolar e a realidade
180 Os novos valores da escola 300
O mercado eficaz?
As contradições do gerenciamento público à francesa 303
Contradições pedagógicas 306
IU- Poder e gerenciamento na escola neoliberal
Capítulo 9. A "modernização" da escola 187 o mal - estar na instituição escolar 311

O sentido da modernização 189


193 Conclusão 317
A modernização do ensino americano
Sites e Entidades citadas 323
INTRODUÇÃO

A escola vive uma crise crônica, da qual uma abundante


literatura apresenta regularmente o quadro clínico. Trata-se de uma
crise de legitimidade, sem dúvida. Desde as críticas sociológicas e
políticas que mostraram a face escondida da escola - seleção social,
submissão dos espíritos à ordem estabelecida - até as críticas liberais
que a atacaram por sua falta de eficácia frente ao desemprego e à
inovação, a escola não é mais sustentada pelo grande discurso
progressista da escola republicana, hoje em dia suspeita de ser um
mito inútil. Na cultura de mercado, a emancipação pelo
conheci!llento, velha herança das Luzes, passa como uma idéia
obsoleta. Ligada a uma mutação que ultrapassa de longe apenas o
quadro institucional, essa crise toma múltiplas formas. Os professores
exercem um ofício que perdeu muito de seus benefícios simbólicos e
de suas vantagens materiais relativas. A massificação escolar não
desembocou na grande mestiçagem social, no reino da meritocracia
harmoniosa. As dificuldades de muitos estabelecimentos com forte
recrutamento popular foram agravadas por políticas liberais que
acentuaram a marginalização de frações importantes da população e
aumento das desigualdades que afetam de muitas formas o
funcionamento da escola.

IX
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Introdução

Quanto ao aspecto educativo em si mesmo, ele se tomou mais A vertente neoliheral da escola
difícil devido às transformações sociais e culturais maiores: com a
O primeiro objetivo dessa obra consiste em trazer à luz a nova y
extinção progressiva da reprodução direta dos ofícios e dos lugares
ordem escolar que tende a se impor tanto pelas reformas sucessivas
nas famílias até o peso, cada vez mais decisivo, da indústria da mídia
quanto pelos discursos dominantes; tende a fazer aparecer a lógica
na socialização infantil e adolescente, passando pela incerteza
que subentende as mudanças profundas do ensino. Sem dúvida já são
crescente quanto à validade dos princípios normativos herdados,
conhecidos alguns dos elementos desse novo modelo e percebe-se
assiste-se a um profundo questionamento das relações de transmissão
melhor, graças a trabalhos cada vez mais numerosos, as tendências
entre gerações.
sociais, culturais, políticas e econômicas que dobraram o sistema
O discurso mais corrente sustenta que o conjunto dessas
escolar l . Mas, não se vê sempre muito bem o quadro na sua
tendências e desses sintomas reclama uma "reforma" necessária da
totalidade, com suas coerências e suas incoerências. É o que nós
escola, panacéia, ao mesmo tempo que fórmula mágica, que faz
tentamos fazer aqui, juntando as peças de um quebra-cabeças. Para
geralmente papel de reflexão. Mas, uma "reforma" para construir que
se ater a algumas figuras do discurso dominante, nós devemos nos
tipo de escola e uma escola destinada a que tipo de sociedade? As
perguntar quais relações têm umas com as outras as imagens da ~
propostas atuais mais estereotipadas sobre a "reforma" não
criança-rei, da empresa divinizada, do gerenciamento educativo, do
constituem mais uma etapa no caminho da transformação social,
estabelecimento descentralizado, do pedagogo não diretivo, do
mas um elemento imposto apenas pela preocupação gestionária de
avaliador científico, da família consumidora. Essas relações são
colmatagem imediata ou ainda objeto de um estranho culto da
pouco visíveis à primeira vista. A construção dessas figuras, suas
"inovação" por ela mesma, separada de toda aposta política clara. No
lógicas e seus argumentos são diversos. Relacionando, entretanto,
entanto, é preciso se esforçar para ultrapassar as críticas da
bricolagem inovadora e da reforma incessante e se colocar a seguinte
algumas das principais evoluções desses últimos vinte anos, quer se i
trate da lógica gerencial, do consumismo escolar ou das pedagogias
questão: na série de medidas e contra medidas que afetam a ordem
de inspiração individualista, relacionando-as tanto às
escolar, nos relatórios oficiais que estabelecem os diagnósticos da
transformações econômicas quanto às mutações culturais que
crise, na opinião dos administradores e dos governantes, não haveria
afetaram as sociedades de mercado, é possível perceber por que e
uma certa idéia da escola, um modelo novo de educação que,
como a instituição escolar se adapta sempre mais ao conceito de
conscientemente ou não, os atuais promotores da reforma tendem a
escola neoliberal, cuja configuração geral nós queremos aqui traçar.
traduzir nos fatos, fazendo aparecer uma certa ideologia para a
A ~scola neoliberal designa um certo ~odelo escolar que
fatalidade e fazendo de uma certa concepção uma realidade que eles
considera a educação como um bem essencialmente privado e cujo
queriam que fosse "incontornável"? Nós mantemos aqui que uma das
valor é, antes de tudo, econômico. Não é a sociedade que garante a
principais transformações que afetaram o campo educativo nesses
últimos decênios - mas se encontraria também essa mutação em
outros campos sociais - é a monopolização progressiva pela ideologia 1. Cf. em particular os trabalhos pioneiros de Nico HIRITT com Gerard de SÉLYS, Tableau noir, Résister à la
privatisation de l'enseignement, EPO, 8ruxelles, 1998. Les Nouveaux Maitres de l'école EPO VO éditions
neoliberal do discurso e da dinâmica reformadora. 8ruxelles, 2000; e J:École prostituée, Éditions Labor, 8ruxelles, 2001. Cf. IgJwlmen;e as obras de Yve;
CAREIL, De l'école publique à l'école liberale, sociologie d'un changement, Presses universitaires de Rennes,
1998 e Ecole libérale, école inégale, Nouveaux Regards/Syllepse, Paris, 2002.

x XI
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Introdução

todos os seus membros um direito à cultura, são os indivíduos que a liberdade de circulação financeira, o sistema fiscal favorável às
devem capitalizar recursos privados cujo rendimento futuro será empresas, a fraqueza do direito social e dos sindicatos e o preço das
garantido pela sociedade. Essa privatização é um fenômeno que afeta matérias-primas, se tornou um "fator de atratividade" dos capitais
tanto o sentido do saber, as instituições transmissoras dos valores e cuja importância cresce nas estratégias "globais" das empresas e nas
dos conhecimentos quanto as próprias relações sociais. À afirmação políticas de adaptação dos governos. A esse título, ela se torna entre
)<.
da autonomia plena e inteira de indivíduos sem amarras, exceto outros um "indicador de competitividade" de um sistema econômico '
aquelas que eles próprios querem reconhecer, correspondem e sociaP.
instituições que não parecem mais ter outra razão de ser que o As reformas liberais da educação são, portanto, duplamente
serviço dos interesses particulares 2 . Essa concepção instrumental e guiadas pelo papel crescente do saber na atividade econômica e pelas
liberal, acredita-se, está ligada a uma transformação muito mais geral restrições impostas pela competição sistemática das economias. As
das sociedades e das economias capitalistas. Mais precisamente, duas reformas que, em escala mundial, pressionam para a
tendências se misturam para fazer da escola um trunfo (aposta, descentralização, para a padronização dos métodos e dos conteúdos, )
capital) maior de civilização e um lugar de muito fortes tensões. para o novo "gerenciamento" das escolas, para a "profissionalização"
Inicialmente, a acumulação de capital repousa cada vez mais dos professores, são fundamentalmente "competitivity-centred"4. A
nas capacidades de inovação e de formação de mão-de-obra, escola que antigamente encontrava seu centro de gravidade não
portanto em estruturas de elaboração, de canalização e de difusão somente no valor profissional mas também no valor social, cultural
e político do saber, valor que era interpretado, de resto, de maneira
dos saberes ainda amplamente a cargo de cada Estado nacional. Se a
muito diferente segundo as correntes políticas e ideológicas, está
eficácia econômica supõe um domínio científico crescente e uma
orientada, pelas reformas em curso,. para objetivos de
elevação do nível cultural da mão-de-obra, ao mesmo tempo, pelo
competitividade que prevalecem na economia globalizada. Deve-se
próprio fato da expansão da lógica da acumulação, o custo - ___ • - ." _ . _ . . -. - ~ _ , . 0"0 , ,_ • • , " . _ • _ , •• ,-.+ • ".",,~- -"." _ ." _" ~, .. ""~'. "',

medir bem a ruptura que se opera. A escola, na concepção


consentido pelos orçamentos públicos deve ser minimizado por uma
republicana, era o lugar que devia contrabalançar as tendências
reorganização interna ou por uma transferência de encargos para as
dispersivas e anômicas de sociedades ocidentais cada vez mais
famílias. Sobretudo, a despesa educativa deve ser "rentável" para as
marcadas pela especialização profissional e a divergência de
empresas utilizadoras do "capital humano".
interesses particulares. Ela era principalmente voltada à formação do
A globalização das economias reforça e infle te essa primeira
.cidadão, mais do que à satisfação do usuário, do cliente, do
tendência. A educação, da mesma forma que a estabilidade política,
consumidor. O que acontece, inversamente, assim que essa escola é
cada vez mais questionada pelas diferentes formas de privatização e
que ela se reduz a produzir um "capital humano" para manter a
2. A concepção dominante da educação tem uma dupla dimensão: é ao mesmo tempo utilitarista segunda a idéia competitividade das economias regionais e nacionais?
de que ela dã saber, e liberal no modo de organização da escola. Se a escola é um instrumento de bem-estar
econômico é porque o conhecimento é visto como uma ferramenta que serve um interesse individual ou uma soma
de interesses individuais. A instituição escolar parece só existir para fornecer às empresas o capital humano que
essas necessitam. Mas é, de modo complementar, liberal pelo lugar que dã ao mercado educativo. Se o 3. Cf. Annie VINOKUR, "Mondialisadon du capital et reconfiguration des systemes éducatifs des espaces
conhecimento é primeiramente, mesmo essencialmente, um recurso privado que engendra rendas mais importantes dominés)) , Informatians et commentaires, n Q 118, janeiro~março 2002.
e proporciona posições sociais vantajosas, deduz-se facilmente que a relação educativa deve ser regida por uma 4. Martin CARNOY, Mondialisation et réforme de I' éducation : ce que les planificateurs doivent savoir, Unesco,
relação do tipo mercantil ou deve ao menos imitar o modelo do mercado. 1999.

XII XIII
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Introdução

A concepção de educação que inspira hoje em dia as disparatadas. "A hipótese antecipa. Ela prolonga a tendência
reformas está longe de ser somente francesa, e ainda se tem muita fundamental do presente 6", dizia Henri Lefebvre. Delinear o novo
tendência, quando é questão de educação, a só considerar os debates modelo de escola não significa, no entanto, que na escola de hoje, e
hexagonais. Não sem ter integrado certos traços propriamente especialmente na França, a doutrina liberal seja, desde já, triunfante.
nacionais, ela saiu em grande parte da grande onda neoliberal que Esse modelo, ao menos quando é exposto explicitamente, continua a
-.J. penetrou profundamente, desde os anos 1980, as representações e as ser recusado por numerosas pessoas refratárias à nova ideologia,
políticas nos países ocidentais. A "literatura cinza" composta por tanto na França como no mundo inteiro.
múltiplos relatórios oficiais e artigos de experts na França, deve ser Sob outro ponto de vista, seria muito simples pensar que
relacionada à abundante produção das organizações internacionais, todas as dificuldades da escola atual sejam devidas à aplicação dessas
"guardiãs da ortodoxia", se se quer perceber como a "reforma da reformas de inspiração liberal. Para ressaltar apenas alguns
escola" na França participa da nova ordem educativa mundial. Essa fenômenos mais importantes: o aumento dos efetivos do colégio, do

de uma ~o ainda mais eficaz uma vez que não há nem mesmo
--
mutação da escola não é o produto de uma espécie de complô, mas
......_."'_.,
liceu e da universidade é uma tendência antiga de nossas sociedades.
Se é possível pensar que ela desemboca hoje em uma massificação
diversas instâncias responsáveis que se poderiam facilmente mal pensada, mal preparada, muito pouco financiada, não é efeito de
identificar; que o processo é muito difuso e que tem múltiplas uma doutrina toda voltada para resultados programados. A falta de
alternâncias nacionais e internacionais, cujas relações não se vêem meios, a penúria dos professores, a sobrecarga das classes, se
à primeira vista; que ele segue vias muitas vezes técnicas e que ele se testemunham sem dúvida uma lógica de empobrecimento dos
cobre geralmente das melhores intenções "éticas". As organizações serviços públicos, relacionam-se igualmente a uma antiga tradição
internacionais (OMC, OCDE, Banco Mundial, FMI, Comissão das elites econômicas e políticas que, se pagando palavras generosas,
Européia) contribuem para essa constrição transformando as concedem mesquinhamente os meios financeiros quando se trata da
"constatações", as "avaliações", as "comparações" em muitas instituição de crianças das classes populares. Marc Bloch, tirando
ocasiões de fabricar um discurso global que tira sua força cada vez lições das derrotas de 1940, o ressaltava antigamente 7. Quanto à
mais de sua extensão planetária. Nesse plano, as organizações centralização burocrática que caracteriza a administração do estado,
internacionais, além de seu poderio financeiro, tendem a ter, cada ela engendra há muito tempo um espírito de casta, mantém o
vez mais, um papel de centralização política e de normalização desprezo' das esferas superiores com relação a uma base julgada
simbólica considerável. Se as trocas entre sistemas escolares não são incapaz ou imóvel, um autoritarismo de chefe e um fetichismo do
novas, nunca havia sido tão claro que um modelo homogêneo podia regulamento e, no todo, uma iniciação geral dos administrados e dos
se tornar o horizonte comum dos sistemas educativos nacionais e que funcionários que pode tornar por vezes sedutoras certas soluções
seu poder de imposição viria justamente de seu caráter liberais extremas. Enfim, e talvez sobretudo, a escola é atravessada
mundializad0 5. por uma contradição maior, longamente exposta por numerosos
A escola neoliberal permanece ainda uma tendência e não
1.' uma realidade acabada. Mesmo se tratando ainda de uma
antecipação, essa hipótese é necessária à análise das transformações 5, Cf, Ch"stian LAVAL e Louis WEBER (eoord,J, Le nouvel ordre édueatif mondial, OMC, Banque
mondiale, OCDE, Comission européenne, Nouveaux Regards/Syllepse, Paris, 2002,
em curso. Ela permite atualizar e relacionar as avaliações e políticas
6, Henn LEFEBVRE, LQ Révolution urbaine, Gallimard, Paris, 1970, p, 11,
concretas, resgatar o sentido de práticas e de políticas a priori 7, Mare BLOCH, r.:Étrange Défaite, Gallimard, Paris, 1990, p, 256-257

XIV XV
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Introdução

autores, entre as aspirações igualitárias de acordo com o imaginário Mutação ou destruição da escola?
de nossas sociedades e a divisão social em classes, contradição que
Nossa proposta pretende refutar a falaciosa oposição entre
não se dá sem acelerar a imposição da concepção liberal da escola
imobilistas e renovadores. Pretende, igualmente, evitar as teses
que pretende sobrepujá-la e que na realidade a agrava. A força do
novo modelo e a razão pela qual ele pouco a pouco se impõe, alarmistas e catastróficas, às vezes necessárias, mas que desmobilizam
referem-se precisamente à forma como o neoliberalismo se apresenta quando parecem significar que a boa velha escola republicana
à escola e ao resto da sociedade, como a solução ideal e universal a estando morta, "tudo está perdido". A escola coloca questões
todas as contradições e disfunções, enquanto na verdade esse complexas que não se saberia reduzir a itens simplistas ou a
remédio alimenta o mal que ele supostamente cura. Com a diagnósticos muito rápidos, sobretudo quando eles concluem um
imposição desse modelo liberal, a questão escolar não é mais pouco rapidamente, pela morte clínica. Se ela engaja o sentido da
somente o que se denomina "problema social", ela tende a se tomar vida individual e coletiva, se liga passado e futuro e mistura gerações,
uma questão de civilização. Em uma sociedade com poderes de a educação pública é também um campo de forças, um afrontamento
( produção notáveis, o acesso universal à cultura escrita, letrada, de grupos e de interesses, uma luta contínua de representações e de
científica e técnica pela educação pública e instituições culturais, se lógicas. As relações de força não são nem essências nem fatalidades.
toma uma utopia irrealizável. No entanto, o que é possível não pode A questão que nós gostaríamos de colocar nessa obra é sobre o
ser realizado por pelo menos duas razões associadas. A primeira conteúdo e a dinâmica do modelo escolar que se impõe hoje em dia
refere-se à preeminência da acumulação de capital sobre qualquer nas sociedades de mercado. Trata-se de adaptar melhor a escola à
outro fim consciente da sociedade. Realizar esse direito universal à
economia capitalista e à sociedade liberal, adaptação que colocaria
cultura suporia, com efeito, um financiamento público ampliado -
cada vez mais em perigo a auronomia da Instituição escolar mas que
sob a forma de imposto ou de cotizações sociais - que contradiria as
não a destruiria, ou bem a uma discussão sobre um caminho mais
políticas liberais de baixa das contribuições obrigatória, baixa que
firme em direção à destruição da escola como tal?
visa a aumentar a despesa privada e a estender a esfera mercantil em
Essa última tese foi proposta por Gilles Deleuze em uma
detrimento da esfera pública. Nesse contexto, o direito à educação
fórmula notável: "Tenta-se nos fazer crer em uma reforma da escola,
não pode se degradar em uma demanda social solvível que se
como uma liquidação."8 Segundo Deleuze, nós deixaríamos as
destinará sempre mais, e de modo muito desigual, a uma educação
sociedades de aprisionamento e de "recomeço" analisadas por
privada. O outro limite relaciona-se à pressão das solicitações
Michel Foucault, nas quais o indivíduo passa, sucessivamente, por
mercantis e de divertimentos audiovisuais que aprisionam o desejo
uma série de instituições descontínuas (família-escola-indústria-
subjetivo na gaiola estreita do interesse privado e do consumo. O
hospital) para entrar nas sociedades de controle total e permanente
livre uso da mercadoria se torna a forma social dominante do prazer
nas quais "não se acaba nunca com nada" e sobretudo não com um
dos sentidos e do espírito. Salvo quando se dispõe de uma célula
controle contínuo que assegura uma flexibilidade e uma
familiar muito protetora, os jovens são facilmente desencaminhados
,J.c
pela "socialização-atomização" mercantil das alegrias intelectuais e,
em decorrência, entram com mais dificuldade na cultura transmitida
pela escola. Na sociedade de mercado, o consumo ultrapa~§a a 8. Gilles DELEUZE, entrevista com Toni Negri, Futur Antérieur, n. 1, primavera de 1990, retomado em
transmissão. Pourparlers, Éditions de Minuit, Paris, 1990, p. 237.

XVI XVII
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Introdução

disponibilidade ilimitada dos dominados. A análise das recentes resultados e de inovações. A instituição é considerada capaz de se
mutações escolares fornece, ver-se-á, argumentos sólidos à tese da transformar em uma "organização flexível".
desescolarização, cuja tendência é para uma pedagogização
--_
Desvalorização?
.. Mesmo se a educação é mais do que nunca
generalizada das relações sociais. Não se está no "aprendizado ao reconhecida nos discursos oficiais como um fator essencial de
longo de toda a vida", fórmula doravante oficialmente admitida que progresso, só se pode constatar a erosão dos fundamentos e das
diz bem da dilatação da relação pedagógica? O desenvolvimento das finalidades de uma instituição até lá voltada à transmissão da cultura
tecnologias da informação e a individualização da relação com os e à reprodução dos quadros sociais e simbólicos da sociedade no seu
saberes, não são tantos sinais de um inevitável declínio da forma conjunto. Os objetivos que se podem dizer "clássicos" de
escolar? O universo dos conhecimentos e o dos bens e serviços emancipação política e de expansão pessoal que estavam fixados
parecem se confundir, a ponto de serem cada vez mais numerosos para a instituição escolar, são substituídos pelos imperativos
aqueles que não vêem mais a razão de ser da autonomia dos campos prioritários de eficácia produtiva e de inserção profissional. Assiste-
de saber nem a significação tanto intelectual quanto política da se, no plano da escola, à transmutação progressiva de todos os
separação entre o mundo escolar e o das empresas. Com a valores em um único valor econômico.
universalização da conexão mercantil dos indivíduos, parece Desintegração? A introdução de mecanismos de mercado no
-------
......._•...
chegada a época de um enfraquecimento das formas institucionais funcionamento da escola, através da promoção da "escolha das
que acompanharam a construção dos espaços públicos e dos Estados- famílias", quer dizer, de uma concepção consumidora da autonomia
nações. individual, pressiona a desintegração da instituição escolar. As
A despeito desses sinais mais importantes, deve-se, no diferentes formas de consumo educativo realizam, de modo
entanto, interrogar os limites dessa evolução em função de suas descentralizado e "leve", uma reprodução das desigualdades sociais
próprias conseqüências. Se ela responde bem a certas tendências, a segundo novas lógicas que não têm grande coisa a ver com a "escola
tese do declínio irreversível da instituição escolar não tem alguma única". O novo modelo de escola funciona com a "diversidade", a
coisa de ilusória e específica na visão dos imperativos funcionais da "diferenciação" em função dos públicos e das "demandas".
economia capitalista e das exigências de ordem social? Se nós ainda Essas tendências que conduzem a um novo modelo escolar
não estamos na liquidação brutal da forma escolar como tal, nós não são levadas a termo e nem todas as contradições que elas
assistimos seguramente a uma mutação da instituição escolar que se encerram eclodiram. Sem mesmo falar da resistência dos professores
pode associar a três tendências: uma desinstitucionalização, uma e dos usuários a escola, ao menos para o período presente, é marcada
:",
desvalorização, e uma desintegração. Essas são inseparáveis das que por sua hibridação, mistura curiosa de certos aspectos próprios ao
tendem a uma recomposição de um novo modelo de escola. setor mercantil ("serviço à clientela", espírito "empreendedor",
Desinstitucionalização? A adaptabilidade às demandas e a financiamento privado) e certos modos de comando e de prescrição
--_. ,'o

fluidez nas respostas que se espera dessa escola, concebida doravante característicos de sistemas burocráticos mais restritivos. Por um lado,
como produtora de serviços, levam a uma liquefação progressiva da essa escola híbrida é, progressivamente, sujeita à lógica econômica .I;

"instituição" como forma social caracterizada por sua estabilidade e da competitividade, tendo ação direta sobre o sistema de controle
sua autonomia relativa. Essa tendência está diretamente ligada ao social visando a elevar o nível de produtividade das populações
modelo de escola como "empresa aprendiz", gerida segundo os ativas. Por esse lado, a escola que se delineia parece cada vez mais
princípios do novo gerenciamento e submetida à obrigação de com uma empresa "a serviço de interesses muito diversos e de uma

XVIII XIX
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Introdução

ampla clientela" para retomar uma fórmula da OCDE, o que a Enfim, posto que se é rapidamente acusado de
conduziu a se diversificar segundo os mercados locais e as "demandas conservadorismo se não se adere com todo o entusiasmo necessário
sociais". Por outro lado, ela aparece como uma megamáquina social aos dogmas modernistas ou, ao contrário, de ser um liquidador da
comandada de cima por um "centro organizador" poderoso e escola republicana se se pensa que certas transformações seriam
diretivo, ele mesmo pilotado por estruturas internacionais e indispensáveis para melhor defender a vocação emancipadora da
intergovernamentais definindo de maneira muito uniforme os escola e tornar o acesso à cultura mais igual, é preciso dizer aqui que
"critérios de comparação", as "boas práticas" gerenciais e a chantagem à modernidade ou a recriminação de traição não
pedagógicas, os "bons conteúdos" correspondentes às competências deveriam mais estar nos debates e análises sobre a escola. Se nos
requeridas pelo mundo econômico. A escola francesa é, sob esse parece indispensável mudar muito a escola e, em certos pontos de
ponto de vista, um bom exemplo desse híbrido de mercado e de maneira radical, nos parece também necessário distinguir
burocracia que alguns tomam por uma evolução "moderna" da cuidadosamente duas lógicas de transformação. Há uma que busca
instituição. negar o que está no princípio da educação pública, a apropriação por
Para analisar as mutações da escola francesa em sua lógica de todos de formas simbólicas e de conhecimentos necessários ao
conjunto, nós tentamos ultrapassar, tanto quanto possível, as julgamento e ao raciocínio e que promete, no seu lugar, aprendizados
separações de abordagens, de métodos, de disciplinas: o curto termo
dóceis às empresas e voltados para a satisfação do interesse privado.
deve ser colocado em perspectiva histórica, porque o que acontece à
Quem mais é em nome da "igualdade de chances", instaura uma
escola tem raízes profundas; a dimensão nacional, que não pode ser
lógica mercantil que consolida e mesmo intensifica as desigualdades
eliminada em matéria de ensino, deve ser relativizada por
existentes. É nessa vertente que estamos hoje amplamente
comparações necessárias; a função econômica da escola, cada vez
enredados. Há uma outra transformação, toda contrária, que visaria
mais essencial no quadro do novo capitalismo, deve ser relacionada
a melhorar para o maior número de pessoas as condições de
com as mutações sociais, políticas e culturais; as determinações
assimilação e de aquisição dos conhecimentos indispensáveis a uma
econômicas e sociais externas são relacionadas com as evoluções
vida profissional, mas também, muito mais amplamente a uma vida
internas da instituição escolar de natureza organizacional,
intelectual, estética e social tão rica e variada quanto possível,
sociológica ou pedagógica e as restrições ideológicas devem sempre
segundo os ideais que a esquerda carregou muito tempo antes de os "'
ser relacionadas com as experiências dos indivíduos nas sociedades
esquecer, de escola emancipadora. Ideais que são traídos se a escola
de mercado em construção. Vale dizer que cada um desses aspectos
não é mais do que uma antecâmara de uma vida econômica e
teria merecido um desenvolvimento mais longo, que um livro geral
profissional muito desigual. É essa vis~o de universalização da
como esse proíbe. Nós procuramos aqui, articular três grandes
cultura que preside aqui a análise do modelo neoliberal da escola.
tendências que correspondem às três partes desse livro: o
envolvimento da escola no novo capitalismo, a introdução das
Vai~--dizer que essa crítica, se é uma prévia, não substitui a
construção de uma educação universal digna desse nome, obra
lógicas de mercado no campo educativo, as novas formas e poder
gerencial dentro da escola. Para dizer de outra maneira, na nova necessariamente coletiva.

ordem educativa que se delineia, o sistema educativo está a serviço


da competitividade econômica, está estruturado como um mercado,
deve ser gerido ao modo das empresas.

xx XXI
PARTE I

A produção do ~ecapital humano"


a serviço da empresa
CAPÍTULO

Novo capitalislllo e
Educação

Pode-se prever que a educação será, cada vez


menos, um meio fechado, que se distingue do meio
profissional como outro meio fechado, mas que
todos os dois desaparecerão, em proveito de uma
terrível formação permanente, de um controle
contínuo exercido sobre o operário-aluno ou sobre
os dirigentes da universidade"
Giles Deleuze, 1990.

o novo modelo escolar e educativo que tende a se impor está


fundamentado, inicialmente, na sujeição mais direta da escola à razão
econômica. Ele depende de um "economismo" aparentemente
simplista cujo axioma priIlcipal é que as instituições, em geral, e as
escolas, em partÍ-;;ul;~, só ~ê~ sentid~ dent~o do serviço que elas
deve~ prestar às empresas e à economia. O "homem flexível" e o
"trabalhador autônomo" constituem, assim, as referências do novo
ideal pedagógico.
Uma dupla transformação tende a redefinir a articulação da
escola e da economia em um sentido radicalmente utilitarista: por um ;z
lado, a concorrência desenvolvida no seio do espaço econômico
tornado mundial; por outro lado, o papel cada vez mais determinante
da qualificação e do conhecimento na concepção, na produção e na
venda dos bens e serviços. As organizações internacionais de
ideologia liberal, acompanhadas pela maior parte dos governos de
países desenvolvidos, que propulsionaram essa concepção da escola,
fizeram da competitividade o axioma dominante dos sistemas
educativos: "A competitividade econômica é também a

03
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Novo capitalismo e Educação

competitividade do sistema educativo l ". As apostas estratégicas da valorização da empresa erigida em ideal normativo. Nessa parceria
"massa cinzenta" ou dos recursos humanos se tornaram cada vez mais generalizada, a empresa se torna "qualificante" e aprendiz e termina
importantes na competição entre empresas transnacionais e entre por se confundir com a instituição escolar em estruturas de
economias nacionais. Se acreditarmos nos peritos internacionais aprendizado flexíveis3. O Livro Branco da Comissão da Comunidade
solicitados pela OCDE, nós entramos em um novo modelo educativo. Européia resume bem a tendência: "Há convergência entre os Estados
Um deles, James W. Guthrie, apresenta, assim, as principais membros sobre a necessidade de uma maior implicação do setor
características do modelo: "A inteligência quando é valorizada pela privado nos sistemas de educação e/ou de formação profissional e na
educação, em outros termos, o "capital humano", está em vias de se formulação das políticas de educação e de formação, para dar conta
tornar, rapidamente, um recurso econômico primordial e pode ser que das necessidades do mercado e das circunstâncias locais, sob forma,
este "imperativo" dê, pouco a pouco, nascimento a um modelo por exemplo, de se encorajar a colaboração das empresas com o
educativo internacional. Os países membros da OCDE esperam de sistema de educação e formação e a integração, pelas empresas, da
seus sistemas educativos e dos diversos programas de formação formação contínua nos seus planos estratégicos 4.
profissional que participem fortemente no crescimento econômico e
adotem reformas nesse sentid0 2". Não se saberia explicar melhor o Os momentos da escola
J sentido das evoluções. q~ontrole direto e mais estreito d~_iormação As mutações do capitalismo permitem explicar, pelo menos em
« inicial e profissional é um dos grandes objetivos d<:J~ meios parte, a natureza das reformas em curso. O nascimento e o
econômicos. Essa formação não vai tão-somente determinar o nível desenvolvimento de um sistema de educação e de instrução separado
de eficácia econômica e o dinamismo da inovação, mas vai oferecer às da família e dos meios de trabalho, constituem uma das grandes
empresas um mercado fortemente promissor. A educação não traz transformações do Ocidente. Esta tendência pertence a uma
apenas uma contribuição essencial à economia, ela não é somente um transformação de conjunto dessas sociedades marcadas pela
"input" em uma função de produção, ela é, daqui em diante, "autonomização" das diferentes ordens da religião, da política, da
compreendida como um fator cujas condições de produção devem ser economia, do pensamento. Esse "desembutimento"
pJ_~tl~~~J:lte~ublIl,etidas à lógica ecsmômica. Desse modo, é (disembeddedness) geral das esferas sociais, para retomar a expressão
considerada como uma atividade que tem um custo e um rendimento de Karl Polanyi, foi acompanhado por sua racionalizaçã0 5 . Se o
e cujo produto é assimilável a uma mercadoria. Como dizia com seu desenvolvimento de uma instituição especialmente dedicada à
habitual "a propósito" o ex-Ministro da Educação Claude Allegre, a divulgação do saber não encontra suas razões primordiais na formação ,~
formação é "o grande mercado do próximo século". da mão-de-obra, mas sim na construção das burocracias religiosas e
O caráter essencial da nova ordem educat~per:da políticas, o que implicava na extensão da cultura escrita tanto a seus
progressiva da autonomia da ~scola -q~~ é acompanhada por uma servidores diretos quanto a muitos daqueles com quem elas estavam

Haw Comité Éducaríon Éconnomie, Éducation;éconnomie. Quel systeme éducatif POUT la société de ['an
2000?, La Documentation Française, Paris, 1988, p.8. O relatório acrescenta que "hoje em dia, um dos 3. Cf. Manuel CASTELLS e Marrin CARNOY, Une flexibilité durable, OCDE, 1997, p.37-38
elemenws essenciais da competirividade econômica de um país é constituído pelo nível de formação de sua 4. COMISSION DES COMUNNAUTES EUROPEENES, Croissance, comPétitivité, emploi, les défis et les
população, pelo estoque de conhecimento por ela acumulado, muito mais do que pela posse de matérias primas pistes pour emrer dons Ie XXIe siecle, 1993, p. 122.
minerais ou agrícolas muito mais ainda que pelo baixo nível do salário pago à mão de obra" 5. Cf. KARL POLANYI, La Grande Transformation, Gallimard, Paris, 1988. Cf. igualmente Max Weber,
2. "L' évolution eles politiques économiques ec son incidance SUT l' évaluarion des systemes éducatifs", in Évaluer Avant-propos à l'Éthique Protestante et l'esprit du capiralisme (1904), Flammarion, col!. "Champs", Paris,
et réformer les sysremes éducatifs, OCDE, 1996, p.70. 2000.

04 05
Novo capitalismo e Educação
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

Poder-se-ia, a partir desse autor, distinguir três períodos


em relação de comunicação, será, cada vez mais, estimulada e
orientada, desde o início da revolução industrial, pela demanda das históricos: um período no qual a principal função da escola era a 1-
indústrias e das administrações em matéria de qualificaçã0 6 . integração moral, lingüística e política à Nação; depois, um período
Essa transformação será, de certa forma, mascarada pela no qual o imperativo industrial nacional é que ditou sua finalidade à
preponderância das finalidades culturais e políticas da escola, instituição; por fim, a fase atual, na qual a sociedade de mercado
conservada durante muito tempo, o que explica a causa de ter sido determina mais diretamente as mudanças da escola. Não se deve, no
considerada, por longo tempo, como um fundamento da identidade entanto, conceber a evolução da escola segundo um caminho linear.
nacional e um pilar da ordem republicana. Sabe-se que o Estado se Desde o século 16, se firmou uma concepção utilitarista da educação
definiu, inicialmente, como um educador da Nação em luta contra a a qual não cessou de alimentar a crítica dos sistemas escolares
Igreja, para assegurar sua hegemonia simbólica e ideológica e que não estabelecidos. Com o advento de uma sociedade menos religiosa e
hesitou em retomar muito de seu adversário, tanto no plano mais científica e técnica, menos tradicional e mais produtiva, as
organizacional quanto no plano pedagógico, para realizar essa grande formas e os conteúdos escolares herdados foram, pouco a pouco,
obra 7. No entanto, segundo uma sutil combinação, a escola sempre contestados. O saber, conheceu uma transformação maior quando foi,
manteve ligações mais ou menos diretas, segundo as épocas e os cada vez mais, visto como uma ferramenta capaz de "resolver
domínios, com o universo do trabalho. A própria impulsão da problemas10". É, sem dúvida, Francis Bacon quem, no final do século
escolarização depende, em grande parte, dos recursos que nascem do 17, formula de maneira mais nítida a virada utilitarista que levará
desenvolvimento econômico não sem defasagens, mais ou menos muitos séculos para ser completada: ',!<;,Elowledge is powe(,o saber é
importantes, entre as fases de forte crescimento econômico e as um poder. O indivíduo só quer saber para melhorar sua sorte e, isso,
explosões da escolarizaçã0 8. Nas suas formas e nos seus materiais, na de~d~~~-primeiras experiências de criança. O homem em busca da
cf sua moral como nos seus modos pedagógicos, o sistema escolar soube felicidade aumenta os poderes de suas faculdades em decorrência do
dar lugar tanto aos valores do trabalho quanto à orientação
aperfeiçoamento de seu saber. A "grande rebelião baconiana 11 ",
profissional diferenciada dos alunos na sociedade industrial. Desde a
segundo a fórmula de Spencer, contra a escolástica, concebe, assim, o
segunda metade do século 19, ao lado do ensino secundário clássico,
saber como um estoque que se acumula, como um capital cuja função
foram abertos cursos, seções e estabelecimentos destinados a fazer
é aumentar a capacidade humana de domínio da natureza a fim de
crescer o nível profissional da mão-de-obra e a prover os quadros de
fazê-la servir melhor ao bem-estar. É a proposição moderna maior e
dirigentes da indústria e do comércio. No entanto, apesar dos avanços
não se saberia insistir o suficiente sobre sua importância. Expressão
nessa via profissional, durante o período entre as duas guerras
máxima da representação que se farão as novas classes ativas da
mundiais, a lógica dominante da escola permaneceu, durante muito
indústria - burguesia e proletariado -, ela é o embasamento comum
tempo, aquela que Bernard Charlot qualificou como "político-
do liberalismo e do socialismo. A partir dessa" revelação" do trabalho
cultural9".
e da felicidade terrestre, a crítica utilitarista se aterá às formas e aos

6. Cf. LOUIS FONTVIEILLE, "Croissence et transfonnation du systheme éducatif et de fonnation en France


conteúdos pedagógicos próprios à civilização cristã e à cultura clássica
aux XIXe et XXe sieeles", in Jean-Jaques PAUL, Administrer, gérer, évaluer les systhemes éducatifs, ESF, do humanismo, e denunciará, no saber escolar, o distanciamento da
Paris, 1999.
7. Cf. I' exemple dês écoles nonnales primaires éwdiés par Christian NIQUE, L' Impossible Gouvemement des
esprits, Nathan, Paris, 1991.
8. Cf. LOUIS FONTVIEILLE, "Croissence et transfonnation du systheme éducatif et de fonnation en France 10. Michel FREITAG, Le Naufrage de l'université, La Découverte/Mauss, Palis, 1995, p. 38-39
aux XIXe et XXe siecles", aH. citada. 11 . Herbert SPENCER, De l' éducation intellectuelle, morale et physique (1861), Marabout Université,
9. Cf. Bemard CHARLOT, I;école en muration, Payot, Paris, 1987 e I;École et le tmitoire, nouveaux
espaces, nouveaux enjeux, Annand Collin, Paris, 1994, p. 27-48. 1974, p. 74.

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06
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
Novo capitalismo e Educação

prática, a separação da vida cotidiana, a abstração dos


Uma escola a serviço da economia
"
conhecimentos. Tais defeI'tos t rad UZInam a natureza essencialmente Esses conceitos utilitaristas e liberais vão se impor em várias
aristocrática e ornamental do conhecimento até então transmitida. etapas. Depois da Segunda Guerra Mundial, o período de forte
Ao contrário, os critérios de eficácia na Produção e no comércio crescimento econômico é caracterizado pelas exigências, em mão-de-
corresponderiam a exigências democráticas e populares: o povo tem obra, de uma indústria eficaz e pela decolagem correspondente dos
necessidade de certos conhecimentos ligados à prática, para seu bem- efetivos escolarizados em todos os níveis que não o da escola
estar. Os outros lhe sendo inúteis são desvalorizados. elementar: pré-escolar, secundário e superior. É na época do grande
O neoliberalismo atual não vem transformar a escola compromisso do Welfare State que se dá o desenvolvimento
bruscamente. Muito cedo, numerosos autores se dedicaram a definir e extensivo do sistema escolar, de 1946 a 1973, época durante a qual é
construir uma escola de acordo, em todos os pontos, com o espírito do levado por uma lógica quantitativa, tanto no plano dos efetivos
capitalismo. A. presente mutação é, na realidade, a atualização, em quanto no dos investimentos. Esse período é marcado pela aspiração
uma fase mais madura da sociedade de mercado, de uma't~ndên~i~~ à equalização das condições e pelo ajuste mais manifesto e mais direto
do sistema escolar ao sistema produtivo. Os anos 1960 e 1970 são
presente nas obras desde muito tempo. É suficiente reler os clássicos
dominados pela obsessão de fornecer à indústria francesa,
para que se perceba esse fato. Em Spencer, por exemplo, que foi um
trabalhadores qualificados em número suficiente e de formar,
dos principais teóricos utilitaristas da educação em meados do século
12 igualmente, futuros consumidores capazes de utilizar os produtos mais
19 , reencontram-se os argumentos já desenvolvidos antes dele por
complexos fabricados pelo sistema industrial. Outros fatores, em
Benjamin Franklin, mas também por Rousseau e muitos outros, em
particular de natureza ideológica, tiveram um papel importante, a
favor de uma educação que preparasse para uma "vida completa". "O começar pela crença progressista da identidade do crescimento
que é mais negligenciado em nossas escolas é justamente aquilo de econômico, da democracia política e do progresso social, expresso, por
que nós temos mais necessidade na vida 13 ", diz Spencer. E, entre essas exemplo, no Plano Langevin-Wallon, referência principal da
necessidades, aquelas ligadas às profissões e aos negócios são as mais esquerda política e sindical no pós-guerra 15.
importantes. Era reencontrar, também, o que Adam Smith já havia Por outro lado, a partir dos anos 1960, o Estado é dotado de
salientado quando tencionava introduzir uma dimensão de mercado categorias de análise e de ferramentas de gestão destinadas a operar a
nas relações entre os indivíduos e os estabelecimentos de educação: se regulação e a adaptação dos "fluxos de mão-de-obra". Essa
se quer que as escolas ensinem coisas úteis, é necessário que elas "industrialização da formação" não necessita de investimentos apenas
obedeçam antes a uma demanda do que ao conformismo da financeiros, solicita também "investimentos simbólicos", quer dizer,
corporação ou ao capricho de superiores. O mercado é o melhor criação de formas institucionais e de classificações que estruturem a
estimulante do zelo dos mestres, posto que ele permite que seus relação salarial: os diplomas e as qualificações, os níveis de saída e o
interesses e seus deveres se confundam14. conjunto de procedimentos de orientação de alunos, por exemplo. É
a partir do IV Plano (1960-1965) que aparecem os primeiros esforços
de planejamento coordenado da mão-de-obra e da formação,
prolongados e amplificados pelos trabalhos do V Plano (1965-1970).
A idéia principal consiste em determinar o melhor possível, por
12. Herbert SPENCER, De l' éducadon imellectuelle, morale et physique, op. cito
13. Herbert SPENCER , op. cit., p. 31.
14 .. Adam SMITH, Recherches Sur la nature et lês causes de la nchesse des nadons, voUl, Livre V, chap. I
secaon 3, GamJer Flammarion, Paris, 1991. '
15. Guy BRUCY e Française ROPE, Suffit.il de scolariser?, Édidons de l'Atelier, Paris, 2000, p.24.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Novo capitalismo e Educação

extrapolação das tendências observadas, um ajuste ótimo entre mão- que o produtor atualize seus conhecimentos e se adapte a uma
de-obra e necessidades da economia. A análise da relação "formação- tecnologia em movimento I9 ". A universidade deve, além disso, criar
emprego" permite, então, determinar a estrutura e o tamanho ótimo conhecimentos novos e não se contentar em transmitir a herança das
do sistema educativo em função das necessidades esperadas das gerações passadas. Dessa exigência, o autor conclui que a escola e a
empresas l6 . universidade devem tomar-se quase-empresas funcionando sob o
Esse período é marcado por uma crítica, de inspiração modelo das firmas privadas e restritas à "performance" máxima. O
tecnocrática, do ensino dito tradicional ou clássico que é autor insiste ainda na variável chave do "rendimento do ensino" que
reencontrada nos relatórios do Plano, em certos meios sindicais e as novas tecnologias devem assegurar, e no imperativo de adaptar o
patronais e que se confundem, freqüentemente, com uma crítica ensino à "modernidade", para evitar os desperdícios e as perdas de
política e sociológica de um sistema desigual. Ela se exprime tempo: "A escola não é nada se não prepara para a vida" diz o autor,
igualmente, nas organizações internacionais e, muito retomando, sem o saber, o utilitarismo de Spencer20 . Sem dúvida, não
particularmente, nos trabalhos da OCDE que passam, hoje em dia, é questão de privatização nem de rentabilidade em um sentido
por textos pioneiros. A obra de Lê Thành Khôi, A indústria do ensino, propriamente mercantil. O papel da oferta educativa no quadro de um
resume a argumentação, no início dos anos 1970 17 . O autor constata serviço público parece preponderante, posto que se trata, para o
que o ensino transformado, em diversas etapas, em uma verdadeira Estado, de contribuir para a modernização da sociedade e para a
indústria de massa, só pode, doravante, ser descrito sistematicamente, eficácia global da economia.
com a ajuda das categorias econômicas. Essa interpretação do ensino Convém, no entanto, observar que esse discurso modernizador
',1:. distingue três funções da educação moderna: a formação de uma mão- constituiu, historicamente, um meio de redefinir contra o humanismo
de-obra qualificada, a mudança cultural que prevalece sobre a herança tradicional o sistema de ensino como uma máquina produtiva,
e a formação de cidadãos responsáveis l8 . Essa mutação marca para o levantando modos de raciocínio e de abordagem que podem ser
autor o fim do humanismo clássico, fundamentado no desinteresse e aplicados a outros setores da produção. Muitos progressistas aderiram
na livre atividade humana. a tais propostas ainda mais facilmente porque pareciam ir no sentido
A primeira função é imposta pelo crescimento econômico e o dos avanços promissores da ciência e do "desenvolvimento das forças
desenvolvimento do bem-estar. A escola, que não é mais a única fonte produtivas".
de saber, deve, doravante, "aprender a ensinar" a fim de que a criança Apesar dessas críticas, um certo acomodamento entre a missão
possa ordenar e selecionar a informação confusa, lacunar e orientada cultural e política da escola e o novo imperativo econômico, pôde se .J{'
da cultura comercializada de massa. Essa primeira educação escolar é manter por bastante tempo, o que permitiu a muitos acreditar que a
o prelúdio de uma educação permanente, uma formação de todos os mão visível do estado poderia no futuro associar, harmoniosamente,
dias, acompanhada por numerosas seções periódicas de reciclagem - os progressos do espírito e o desenvolvimento da produção, sob a
por exemplo, a cada três ou cinco anos, segundo os ramos - "a fim de condição de, todavia, centrar menos os estudos nas antigas
humanidades e abandonar toda ilusão quanto ao desinteresse da
cultura. Esse grande compromisso histórico que tentava combinar o
16. Cf. Lucie TANGUY et ai., L'lmrouvable ré/ation fonnation-emploi, La Documentation Française, Paris,
1986.
17. Lê Thàhnh KHÓ1, I.:lndustrie de l'enseignement, Éditions de Minuit, Paris, 1973. O livro é sob todos 05
pontos de vista, notável e premonitório. Sua leitura mostra que a maior parte dos temas que a OCDE ou a
Comissão EuroPéia desenvolveram depois, já estavam, em genne, nessa literatura modernizadora há 30 anos. 19. lbid, p. 115
18.lbid,p.1JO 20. lbid, p. 178.

I o I I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Novo capitalismo e Educação

desenvolvimento econômico da nação com a idealização da perímetro de ação, se inspira na empresa privada. No plano da
burocracia francesa "educadora do espírito" prepararia, no entanto, os administração escolar, a tendência é para a descentralização, para o
questionamentos neoliberais dos anos 1980-1990. gerenciamento moderno e para a "gestão pela demanda". Durante esse
período, os imperativos de eficácia impostos à escola começam a se
Em direção à escola neoliberal tomar preponderantes, inicialmente por razões de controle dos custos,
As reformas impostas à escola vão ser em seguida, cada vez em seguida, por razões de concorrência entre países e entre empresas
mais, guiadas pela preocupação com a competição econômica entre e enfim, por razões propriamente ideológicas: a _~~~91a~, .cada vez
sistemas sociais e educativos e pela adaptação às condições sociais e mais, vista como uma empresa entre outras, ~~mpelida a seguir a
subjetivas da mobilização econômica geral. As "reformas orientadas evolução econômica e a obedecer às restrições do mercado. A retórica
pela competitividade" tiveram, inicialmente, a finalidade de melhorar gerencial se toma cada vez mais invasora, por parte dos responsáveis
a produtividade econômica melhorando a "qualidade do trabalho 21 ". do mundo político e da alta administração escolar22 .
A padronização dos objetivos e dos controles, a descentralização, a O "Estado regulador", segundo expressão proposta por Bernard
f- mutação do "gerenciamento educativo", a formação dos docentes são, Charlot, tem tendência a delegar aos escalões inferiores e aos serviços
essencialmente, reformas "centradas na produtividade". descentralizados, a ação cotidiana, racionalizada segundo as regras de
Mas, a escola neoliberal pretende também elevar a qualidade gerenciamento dito "participativo" e conforme o esquema contratual
\J.. da força de trabalho no seu conjunto, sem elevar o nível dos impostos entre níveis e tipos de administração e a generalização dos "parceiros"
e mesmo, tanto quanto possível, reduzindo a despesa pública. Daí a entre "atores" de todos os tipos. Esse Estado, guiado pelos novos
colocação, na mesma época, tanto em nível mundial como em escala princípios da ação pública, fica conhecido por definir as grandes
nacional e sobre todos os registros da atividade educativa, de todas as perspectivas e avaliar, a posteriori, os resultados de uma gestão mais
campanhas de opinião e de todas as políticas destinadas a diversificar autônoma, com a ajuda de um sistema estatístico rigoroso, que deve
o financiamento dos sistemas educativos. Isso foi feito apelando muito permitir a "pilotagem" das unidades locais e periféricas. Segundo esse
mais abertamente para a despesa privada, para gerenciar mais esquema é que foi pensada, e que se desenvolveu, a descentralização
"eficazmente" a escola, à maneira das empresas. Apelando, ainda, do sistema escolar.
para. a. _redução daculturª-ensil1:a-ª~ apenas à~~~~~~~ê-;cias Usando como pretexto os numerosos defeitos, cada vez mais
·n~cessárias à ~~pregabilidade dos assalariados, para o encorajamento manifestos, de um sistema burocrático que se havia hipertrofiado e
de uma lógica de mercado na escola e da competição entre famílias e massificado no grande período do Estado fomentador, as pressões se
alunos para o "bem raro" e, portanto, caro, da educação. acentuaram, em nome da eficácia e da democracia, para introduzir os
Desde os anos 1980, aparece uma c~p'ção ao mesmo tempo mecanismos de mercado e os métodos de gestão inspirados na lógica
r::~~s individualista e mais mercantil da escola. Essa nova fase empresarial. Nos fatos, uma política de "territorialização" abriu
correspo~de à desestruturaç~~dã-socied;dêlndustrial que os caminho, progressivamente, a uma "desregulamentação" escolar em .J(

economistas chamam "fordista" e da norma de emprego que lhe é resposta a novas necessidades sociais, versão soft da mão invisível dos
própria. Depois da reviravolta do governo socialista, o Estado deixa, liberais: "A doutrina dominante derruba a proposição anterior: em
mais abertamente, que as regras de mercado atuem, quer reduzir seu educação, como nos outros domínios, não se trata mais de corrigir as

22. CrB. CHARLOT e]. BEILLEROT (dir), La conserucrion des poliriques d'éducarion ee des fonnarion,
2 1. Marrin CARNOY, op.eie., p.37.
PUF, Paris, 1995, p.79.

12 I 3
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Novo capitalismo e Educação

imperfeições do mercado pela intervenção do Estado, mas de suprir as eliminação de toda "rigidez" inclusive psíquica, em nome da
fraquezas do Estado pela promoção do mercado, suposto auto- adaptação às situações as mais variadas que o indivíduo encontra,
regulador, quer dizer, estabelecer a superioridade ética da agregação tanto no seu trabalho quanto na sua existência. A economia foi
das preferências individuais pelos processos mercantis sobre a colocada, mais do que nunca, no centro da vida individual e coletiva,
deliberação, como forma de elaboração das escolhas sociais 23 ". O sendo os únicos valores sociais legítimos os da eficácia produtiva, da
papel tutelar do Estado educador é questionado quando a "escolha das mobilidade individual, mental e afetiva e do sucesso pessoal. Isso não
famílias" é reconhecida e encorajada pela "dessetorização" dos pode deixar ileso o conjunto do sistema normativo de uma sociedade
estabelecimentos, pela publicação da classificação dos e seu sistema de educação.
estabelecimentos e por todas as formas de se apelar à responsabilidade
individual dessa escolha. O modelo do mercado tende a se impor, ao
A escola "flexível"
~!, menos como referência ideológica, e, de um modo muito eufemístico,
As transformações da organização do trabalho, por um lado /'~,
quando a esquerda se engajou, com um certo zelo, nesse caminho. A
reais, por outro, idealizadas no discurso oficial, explicam em grande .J/..t( \'
instituição escolar, nesse novo contexto, deve produzir uma oferta que
parte o tipo de modificações escolares reclamadas pelas forças
vise a satisfazer uma demanda de consumidores avisados. No fim dos
econômicas e políticas dominantes. O ideal de referência da escola é,
anos 1990, uma fria constatação se impõe: "A ofensiva neoliberal na
daí em diante o "trabalhador flexível", segundo os cânones da nova
representação 'do g~;~~~'~pregador não esperaria mais do
escola é um processo já bem avançad0 24 ".
Essa mutação deve ser substituída no quadro mais geral das
assalariado uma obediência passiva a prescrições precisamente
transformações do capitalismo desde os anos 1980: mundialização das
definidas, gostaria que ele utilizasse as novas tecnologias, que ele
trocas, financialização das economias, desengaJamento do Estado,
compreendesse melhor o conjunto do sistema de produção ou de
privatização das empresas públicas e transformação dos serviços
comercialização no qual se insere sua função, desejaria que ele pudesse
públicos em quase-empresas, expansão dos processos de
fazer face à incerteza, que ele provasse ter liberdade, iniciativa e
mercantilização ao lazer e à cultura, mobilização geral dos assalariados
autonomia. Desejaria, em suma, que, em vez de seguir cegamente as
em uma "guerra econômica" geral, questionamento das proteções aos
ordens vindas de cima, ele fosse capaz de discernimento e espírito
assalariados, sujeição à disciplina pelo medo do desemprego. Muito
analítico, para prescrever a si mesmo uma conduta eficaz, como se
mais do que a uma "crise" passageira, é a uma mutação do capitalismo
fosse ditada pelas exigências do seu próprio interior. A autonomia que
i. que assistimos. J\2:pos~<:~1 é o enfraquecimento de tudo o que faz
se espera do assalariado, que consiste em que ele dê ordens a si
contrapeso ao poder do capital e de tudo que, institucionalmente,
próprio, que ele "se autodiscipline", não acontece sem um certo
juridicamente, culturalmente, limita sua expansão socia12 5 . Todas as
aumento do saber. Em uma palavra, seria necessário que ele
instituições, muito além da economia, foram afetadas incluindo a
incorporasse as maneiras de fazer e os conhecimentos necessários ao
instituição da sub01b,-ida~e h_u,r:r:tilna:
,
o neoliberalismo visa à
~

tratamento dos problemas, em um universo mais complexo, segundo


as fórmulas em vigor. Para isso, autodisciplina e auto-apreIlq}zad?
23. A. VINOKUR, "Pourquoi une économie de l'éducation ?", in]ean-]acques PAUL, Administrer, gérer, caminham juntos. A hierarquia b~;~~át:;~~~ o '~taylorismo" do tipo
évaluer les systcmes éducatifs, ap.eie., p.316.
24. Yves CAREIL, "Le néo-libéralism dons l'école: un processus déjà bien engagé", Nouveaux Regards, no 6, clássico tenderiam, assim, a se apagar diante de um autocontrole
junho, 1999. . generalizado. A nova "regulação" no trabalho residiria em uma maior
25. Cf. M. VAKALOULIS, Le capitalisme postmodeme, Elements pour une critique sociologique,PUF, Paris,
2001. margem de ação deixada à periferia e a um controle fundamentado na

14 15
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Novo capitalismo e Educação

realização dos objetivos. Paralelamente, e de acordo com a doutrina "destinatário do serviço", a saber, a empresa. Em uma sociedade de
do capital humano, o trabalhador se dotaria de conhecimentos e mais em mais marcada pela instabilidade das posições, sejam elas
competências ao longo de sua vida, sem poder mais se definir por um profissionais, sociais ou familiares, o sistema educativo deveria
emprego estável ou um estatuto definido: "Na era da informação, o preparar para situações de "incerteza" crescente. A nova pedagogia,
f;j, trabalhador não se define mais em termos de emprego, mas em termos "não diretiva" e "estruturada com leveza", a utilização de novas
de aprendizagem acumulada e aptidão em aplicar este aprendizado a tecnologias, um mais extenso "menu" de opções oferecido aos alunos
diversas situações, no interior ou no exterior do local de trabalho e aos estudantes, o hábito adquirido de um "controle contínuo", são
tradicional2 6" O conceito norteador é o da "empregabilidade" pensados como introdução na "gestão das situações de incerteza" nas
individual. quais o jovem trabalhador será mergulhado ao sair de seus estudos. Se
Sem que isso seja sempre claramente afirmado, é a essa as formações profissionais muito precisamente adaptadas a empregos
representação do trabalho e da nova subjetividade esperada dos específicos são, algumas vezes, declaradas anacrônicas - posto que os
"jovens" que a escola deveria se adaptar, e adaptar os futuros assalariados terão que trocar de empresa mais amiúde e a trocar de
assalariados. A Comissão da Comunidade Européia salienta, assim, cargos no seio de cada empresa - , inumeráveis são os textos que dizem
que "a instalação de sistemas mais flexíveis e abertos de formação e o que o ensino deve, doravante, dotar seus alunos de "competências de '7?
desenvolvimento das capacidades de adaptação dos indivíduos serão, organização, de comunicação, de adaptabilidade, de trabalho em
com efeito, cada vez mais necessários ao mesmo tempo para as equipe e de resolução de problemas nos contextos de incerteza". A
empresas, a fim de melhor explorar as inovações tecnológicas que elas "competência" primeira, a meta-competência, consistiria em
desenvolvem ou que elas adquirem e para os próprios indivíduos, dos "aprender a aprender" para fazer face à incerteza erigida como entrave
quais uma proporção importante corre o risco de ter que trocar quatro permanente da existência e da vida profissional.
ou cinco vezes de atividade profissional ao longo de sua vida 27 ".
Como dizem os peritos da OCDE, "os empregadores exigem dos
trabalhadores que eles sejam não somente mais qualificados mas Degradação do vínculo entre diploma e emprego
também mais leves e "aptos a se formar 28 ". Para produzir esses Por trás desses discursos repetidos, as transformações
~~ assalariados adaptáveis, a escola em si, a reboque do mercado de importantes se delineiam. O período dito "fordista" do capitalismo
trabalho, deveria ser uma organização flexível, em permanente assegurou a instalação de um conjunto de instituições e de
inovação, respondendo tanto aos desejos muito diferenciados e procedimentos de proteção social fundamentados no reconhecimento
variáveis das empresas quanto às necessidades diversas dos indivíduos. de direitos e posições que proporcionaram aos assalariados uma
Essa maior flexibilidade da escola é inclusive apresentada como a relativa estabilidade, regularizando não somente o consumo, a
"questão central" pela Comissão Européia29 . Não se trata apenas de evolução salarial, a carreira, mas igualmente o próprio curso da vida.
aumentar os níveis de competência dos assalariados, é necessário, É essa institucionalização do assalariado que, segundo muitos
ainda, que toda a educação recebida tenda a levar melhor em conta o economistas e sociólogos, permitiu a integração da classe operária ao
lhe garantir recursos suficientes para consumir o que as empresas
"taylorizadas" produziam em série e a baixo custo. É igualmente nesse
26. Martin CARNOY e Manuel CASTELLS, Une flexibilité durable, op. cit., p. 39.
27. COMISSION DES COMMUNAUTÉS EUROPÉENNES, op, cit., p.24. período que muito mais indivíduos puderam antecipar uma progressão
28. OCDE, Du bien-être des nations, le rôle du capital humain et social, 2001, p.30. social, não apenas para si próprios, mas também para seus filhos,
29. COMISSION EUROPÉENNE, Livre blanc, Enseigner et apprendre, vers la société cognitive, 1995,
p.44-45. graças a seus estudos. A escola, parte atuante do "compromisso

16 17
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Novo capitalismo e Educação

fordista" e da "sociedade salariaPo", entregou, assim, títulos a pessoas desemprego de massa e a instabilidade crescente dos empregos e dos
dotadas de direitos reconhecidos por convenções coletivas e postos de trabalho, dos quais são vítimas os assalariados. A
contribuiu para o estabelecimento de posições que eram pontos de insegurança atinge não apenas a posse de um emprego mas,
apoio nos quais poderiam se fundamentar para vender sua força de igualmente, o conteúdo do ofício, a natureza das tarefas, a
trabalho. Mesmo se a relação entre diploma e emprego não foi jamais participação em uma empresa, as qualificações que se possuem em
geral e unívoca, o diploma estava, para uma grande parte, no uma organização do trabalho mais "fluida". O enfraquecimento do
fundamento da hierarquia interna à classe assalariada, especialmente valor simbólico dos diplomas, a instalação de práticas de avaliação de
na função pública. Mas, ele tinha igualmente como característica competências mais próximas das situações profissionais, a influência
ascender de uma esfera escolar que, por sua autonomia relativa, tinha maior das empresas na determinação dos conteúdos de formação,
a força simbólica suficiente para tomá-lo relativamente independente participam desta insegurança quase ontológica dos trabalhadores, cuja
das relações de força imediatas no mundo profissional. São amplidão é mostrada por certos trabalhos sobre a "desqualificação"
particularmente verdadeiros os diplomas técnicos e profissionais que sociaPl. Em suma, o valor social dos indivíduos corre o risco de
permitiam aos assalariados não depender diretamente das exigências depender, cada vez mais estreitamente, das competências pessoais que
instáveis e arbitrárias dos empregadores. A ligação entre um "bom o mercado de trabalho sancionará do modo menos institucional,
diploma" e um "bom ofício" aparecia como uma relação necessária em menos "formal" possível. O trabalho se aproxima, então, cada vez
~
uma sociedade de estatutos. Se o ensino técnico foi objeto de um mais de uma mercadoria como as outras, perdendo aos poucos sua
relativo desprezo, amplamente devido à divisão social e técnica do dimensão coletiva e suas formas jurídicas.
trabalho, ele constituiu um vetor de reconhecimento das A tendência atual à não-institucionalização da relação entre o
qualificações e deu a muitos um sentimento de dignidade pessoal e de diploma, a qualificação e o ofício, decorre desse enfraquecimento das
utilidade social, condições de uma ação coletiva prolongada. posições dos assalariados que encontram cada vez menos segurança
O período neoliberal do capitalismo tende a mudar a ligação, nas instituições e referências estáveis quanto ao que eles valem e ao
que ele deixa mais frouxa e mais leve, entre o diploma e o valor que eles são e que, em conseqüência, se tomam culpados pela sua
pessoal reconhecido socialmente. Esse título escolar e universitário, sorte. Com efeito, a transformação do mercado do trabalho acentuou
em uma época onde se declara que o saber é um produto "perecível", a vulnerabilidade dos detentores de títulos escolares, aos quais se
e que as competências são, elas mesmas, objeto de uma "destruição pediu uma experiência profissional, ou, ao menos, um "treinamento",
criadora" permanente, tende a perder sua força simbólica. No através de múltiplos estágios e empregos precários. Certos
momento em que ele se expande, ele é cada vez mais considerado relacionamentos oficiais reforçam a idéia segundo a qual os diplomas
como uma fonte de rigidez que não corresponde mais aos novos entregues pelas universidades não valeriam mais, alguns anos após sua
imperativos de adaptabilidade permanente e de reatividade imediata primeira entrega, o que só acentua a disparidade crescente entre o
da empresa. Esse questionamento deve estar, evidentemente, valor jurídico de um título e seu valor sociaP2. A escola e a
relacionado às transformações do trabalho. A classe assalariada foi Universidade se vêem, então, representar um papel ambíguo que
atomizada em múltiplos estatutos, subestatutos e sem estatutos. A consiste em manter, por diplomas de validade temporária, a
identidade ao trabalho - e pelo trabalho - é debilitada com o precariedade do valor escolar e profissional dos indivíduos.

31. Cf. par exemplo Serge PAUGAM, Le salarié de la précarité, PUF, Paris, 2000.
30. Robert CASTEL, Les Méramorphoses de la question so/ciale: une chronique du salaria<, Fayard, Paris, 32. O relatório Aralli afirma, nesse sentido que "nenhum diploma terá mais legitimidatle permanente". Joques
1995. ATALLl, Paur um modele euroPéen d'enseignement supérieur, MEN; 1998, p.19.

18 I 9
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 2

Uma coerência totalmente relativa Do conhecimento como


A contradição parece estar cada vez mais forte entre a
aquisição do saber pelas jovens gerações, as quais pedem estabilidade,
fator de produção
segurança do valor do que se aprende, respeito por uma cultura
comum e construção de uma personalidade, e as necessidades
econômicas, particulares e variáveis. Enquanto a "profissão" para a
qual a escola preparava permitia vislumbrar um futuro relativamente
estável e a realização de uma "função" social em um conjunto
compreensível, a profissionalização, aliás parcial, dos estudos não
tinha todos os efeitos destruidores que pode ter, quando a vida futura
não evoca mais do que uma indústria ameaçada de deslocamento ou
à deriva de trabalho em trabalho. O capitalismo "flexível" e
"revolucionário" mina a confiança a longo prazo, desconsidera os
engajamentos, o cuidado com o patrimônio cultural e o sentido dos
sacrifícios pelo próximo. Como associar o nomadismo inerente a essa
deriva profissional prometida aos assalariados do futuro e a filiação As sociedades de mercado se caracterizam pela escravização de
confiante a uma cultura e a seus valores? Certo, é fácil esperar da todas as atividades à lógica da valorização do capital, de agora em
escola que ela "incuta nos alunos as noções de autonomia, de diante considerado como uma evidência, uma fatalidade, um
adaptação rápida às mudanças e de mobilidade", mas, dificilmente, se imperativo, ao qual nenhum ser razoável pode se furtar. Sob esse
vê como ela poderia fazê-lo no seio de uma esfera social e cultural em ponto de vista, seria necessário meditar sobre os ditos premonitórios
vias de desintegração. É no coração da subjetividade que se instala a de Nietzsche em Schopenhauer educador e nas conferências Sobre o
contradição que todos os sintomas associados a essa perda de amanhã porvir nos estabelecimentos de ensino. Particularmente nessas últimas,
exprimem. N ietzsche interroga o sentido real dos grandes discursos sobre a
Os especialistas em educação do OCDE sentiram que se "necessidade de cultura" da época moderna. A cultura clássica,
abalava a própria estabilidade das sociedades ocidentais que não reservada a alguns, cai em ruínas, constata o filósofo. Por "cultura
estavam somente ameaçadas pela crise financeira, mas, igualmente, universal", entende-se daqui por diante uma cultura totalmente
pelos efeitos deletérios da "perda de referências" das jovens gerações, diferente daquelas que as universidades ou os estabelecimentos
da "crise de laços sociais33 ". Se a tomada de consciência é louvável, secundários se propunham a dar aos alunos e que visavam a formar
embora tardia, vê-se mal como a escola poderia, sozinha, chegar ao espíritos intelectualmente treinados e equipados para os pensamentos
fim da "degradação do ambiente social", quer dizer, das desigualdades, mais elevados. A nova cultura, que hoje em dia chamaríamos de
da insegurança social, da anomia crescente, da delinqüência, etc. massa, não se propõe a reproduzir e reconduzir o esforço dos grandes
Sobretudo, não se vê como uma escola, cujas competências seriam as gênios das gerações anteriores. Ela está subordinada a três fins
mesmas da sociedade de mercado, poderia contrariar os efeitos de específicos: o fim econômico, o fim político e o fim científico. A
dissolução que o curso atual do neoliberalismo engendra. primeira subordinação tem, de longe, para Nietzsche, os efeitos mais
importantes: se ela conduz à "extensão" e à "ampliação" da cultura, é
33. Cf. OCDE, Du bien-être des nations, le róle du capital humain et social, 2000. Em particular o capítulo
3 "Le role du capital social", p. 45 et sq. com a finalidade de aumentar a riqueza pessoal e coletiva. É "um dos

2 o 21
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produ.ção

grandes dogmas da economia política, mais caros ao tempo atual"l, dotados e talentosos. Os valores que tinham, até lá, constituído o
como atestam os escritos de James Mill ou de John Stuart Mill sobre mundo escolar, são substituídos por novos critérios operacionais: a
o tema da educação. A democratização da cultura é, cada vez mais, eficácia, a mobilidade, o interesse. É que a escola muda seu sentido:
guiada pela eficácia econômica e impede qualquer forma de cultura ela não é mais o local de assimilação e de presença freqüente das
"que torne solitário, que se proponha a fins além do dinheiro e do grandes narrações que forjam caracteres estáveis para situações sociais
ganho e que demande muito mais tempo"2, acrescenta Nietzsche. É bem definidas; ela é lugar de formação de caracteres adaptáveis às
necessária uma cultura rápida, econômica, que custe pouco esforço e variações existenciais e profissionais em movimento incessante.
permita ganhar muito dinheiro. Mais pessoas são chamadas para o
saber, mas é um saber que deve ser útil, servir à finalidade do bem- Educação ampliada, cultura útil
estar. "A verdadeira tarefa da cultura seria, então, criar homens tão No dia seguinte dos acontecimentos de 1968, Michel Crozier,
correntes quanto possível, assim como se fala de uma moeda na sua obra A sociedade bloqueada, tinha louvado esta mudança de
corrente." Quanto mais existissem homens correntes, mais um povo significado da cultura "que não é mais um luxo inútil reservada a uma
seria feliz, e o propósito da escola só poderia ser justamente o de fazer minoria de aristocratas privilegiados e a alguns criadores marginais".
cada um progredir até o ponto no qual sua natureza o chamasse a Ela se transformou em "um instrumento essencial de ação em um
tornar-se "corrente", o de formar cada um de tal forma que, de sua mundo racionalizado, que só pode ser dominado através da utilização
medida de conhecimento e saber, ele tire a maior quantidade possível de modos de raciocínio que necessitam uma aprendizagem cultural"4.
de felicidade e benefício" 3. Em uma palavra, Nietzsche observa de De modo geral, o utilitarismo que caracteriza o "espírito do
modo muito lúcido a que ponto uma lógica de eficiência apodera-se capitalismo" não é contra o saber em geral, nem mesmo contra o saber
pouco a pouco do domínio cultural e escolar. Esse diagnóstico sobre a para um maior número de pessoas, ele vê o saber como uma
evolução do ensino pode ser prolongado: não é de uma espécie de ferramenta a serviço da eficácia do trabalho. É ainda mais verdadeiro
malthusanismo generalizado, visando à baixa do nível cultural que hoje em dia, em uma época onde o capitalismo, "fundamentado no
estamos, exatamente, ameaçados, mas de um duplo movimento de saber", "cognitivo", "informacional" supõe uma elevação do nível de
extensão social e de "instrumentalização" da cultura, pelos interesses conhecimento da população. A organização patronal Mesa Redonda
econômicos privados. Européia (ERT)5, por exemplo, lembra a necessidade de realizar
Essas transformações, afetando o lugar e a natureza dos investimentos financeiros e humanos importantes na educação,
conhecimentos, são fundamentais para o futuro da educação. O saber acentuando que neles está o futuro econômico e social da Europa. O
não é mais um bem a adquirir para participar de uma essência especialista da OCDE que nós já citamos, James Guthrie, sublinha
universal do ser humano, como no antigo modelo escolar que, é que: "Antigamente, um país devia sua influência em grande parte, às
necessário lembrar, reservava esse bem supremo a alguns, mas um riquezas que ele podia extrair do solo mas, em nossos dias, seu poderio
investimento mais ou menos rentável para os indivíduos igualmente é, cada vez mais, subordinado às riquezas do espírito. [... ] Considera-
se, cada vez mais, a inteligência humana - quando é desenvolvida

1. Friedrich NIETZSCHE, SUT l'anevir de nos établissements d'enseignements in CEuvres philosophiques


completes, Écrits posthumes1870-1873 , Gallimard, Paris, 1975, p.94. 4. Michel CROZIER, La Société bloquée, Seui/, Paris, 1970, reedição "Poim/Seuil ", 1995. p.149-150.
2.lbid. 5. A ERT (European Round Table! fundada em 1985 por cerca de 40 grandes industriais europeus é um
dos principais "think tanks" que inspiram os relatórios da Comissão Européia, especialmente em matélia de
3.lbid
educação.

22 23
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
Do conhecimento como fator de produÇãO

pela educação e se alia a competências muito especializadas - como o econômica e social, são nisso acompanhados por certos reformadores
recurso econômico primordial de uma nação, do qual essa última tem, pedagógicos bem imprudentes que, em nome da democratização,
maciçamente, necessidade"6. É nessa perspectiva que se coloca a consideram que as crianças do povo não podem, a priori, receber a
estratégia de aprendizado contínuo: "A população da Europa deve cultura da elite. É o que faz o caráter, freqüentemente, equívoco das
estar engajada em um processo de aprendizagem ao longo de toda a noções de "democratização", de "cultura de base" ou de "cultura
vida. A integração crescente do conhecimento no ambiente comum", noções que podem receber interpretações muito diferentes
industrial transforma os trabalhadores em "trabalhadores segundo os objetivos políticos e os valores que lhes servem de
cognitivos"7. Essa afirmação repousa sobre um argumento muito referência e que solicitam, então, elaborações avançadas 10.
divulgado. A vida profissional, mesmo nos escalões subordinados,
para não falar da vida social mais geralmente, supõe hoje em dia uma A época do capital humano
capacidade intelectual e um domínio simbólico, mesmo elementar, A doutrina dominante em educação encontra hoje seu centro
que apenas uma escolaridade relativamente longa, durante uma de gravidade nas teorias do capital humano. Essas últimas, mesmo
grande parte da juventude, pode assegurar. distorcidas ideologicamente, traduzem uma tendência muito real do
Certos meios patronais ou políticos continuam, é certo, a capitalismo contemporâneo: mobilizar saberes cada vez mais
sustentar e praticar, em nome das restrições orçamentárias devidas às numerosos, sob seu duplo aspecto de fatores de produção e
políticas liberais ou em nome dos riscos de desclassificação, um mercadorias. Os economistas designam capital humano, o "estoque de
malthusianismo educativo visando a fazer recuar o esforço em matéria conhecimentos valorizáveis economicamente e incorporados aos
de escolarizaçã08. Mas muitos dos "tomadores de decisão" pleiteiam, indivíduos"ll. São as qualificações adquiridas inicialmente, seja no
de preferência, um "aumento" desse esforço, com a condição, todavia, sistema de formação, seja na experiência profissional. Mais
de que eles se concentrem no saber-fazer e nos saberes úteis, amplamente, essa noção pode englobar os múltiplos trunfos que o
supostamente melhor adaptados aos jovens vindos das classes indivíduo pode fazer valer no mercado e fazer reconhecer junto aos
populares e correspondendo às necessidades das empresas. Tem-se empregadores como fontes potenciais de valor: aparência física,
uma dupla reivindicação: por um lado, a favor de um investimento civilidade, maneira de ser e de pensar ou estado de saúde, por
educativo importante, e por outro lado, a favor de uma redução dos exemplo. Assim, segundo a OCDE, o capital humano reuniria "os
conhecimentos julgados inúteis e aborrecidos quando eles não têm conhecimentos, as qualificações, as competências e características
ligação evidente com uma prática ou um "interesse"9. Esses individuais que facilitam a criação do bem-estar pessoal e
responsáveis políticos e econômicos, que querem combinar educação econômico" 12. Sem ser totalmente original, a concepção do capital
de massa e determinação mais restrita dos conteúdos pela utilidade humano conheceu um imenso sucesso nos organismos internacionais
e entre os governos ocidentais, não somente porque ela propõe uma

6. James W. GUTHRIE, "L'évolution des poli tiques économiques et son incidence sur l'évaluation des
systemes éducatifs", in Évaluer et réformer les systemes éducatifs, OCDE, 1996, p.71.
7. ERT, lnvesting in Knowledge, The lntegration ofTechnology in European Education, 1997, p. 6.
8. Cf. sobre esse ponto, Jean-Pierre TERRAIL (dir.) , La Scolarisation de la·France. Critique de l'état des 10. Cf. sobre este tema os trabalhos da associação "Défendre et transformer l' école pau,. tous" bem como a
lieux, La Dispute, Paris, 1977, p. 230. obra publicada pelo 1nstitut de recherches da FSU: Helene ROMA1N (dir.) , Pour une culture commune,
9. Michel Crozier e Bruno Tilliette apelam assim "a aliviar a complexidade que esmaga os indivíduos, o que Hachette, Pmis, 2000.
demanda uma redução da massa de conhecimentos a absorver, quando a escola tende a multiplica-los sem 11. Cf. D. GUELLEC e P. RALLE, Les Nouvelles Theóries de la croissance,La Découverte, col!.
cessar" (Michel CROZIER e Bruno TILLIETTE, Quand la France s'ouvrira, Fayard, Paris, 2000, "Reperes", Paris, 1995, p. 52.
p.145. 12. OCDE, Ou bien-être des nations, le rôle du capital humain et social, 2001, p. 18.

24 25
A ESCOLA NÁO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

estratégia de "crescimento duradouro", como o dizem seus essencialmente considerado como uma fonte de ganhos de
promotores, mas porque ela dá uma justificativa econômica às produtividade. Os perigos de redução são particularmente visíveis na
despesas educativas, a única que tem valor hoje em dia aos olhos dos versão ultraliberal dessa teoria defendida por um outro economista
que têm poder de decisão". Além disso, a noção, como iremos ver, tem americano, Gary Becker. Para Becker, o capital humano é um bem
a vantagem de traduzir o enfraquecimento da ligação entre diploma privado proporcionando uma remuneração ao indivíduo que o tem.
escolar e emprego e justificar uma maior seletividade por parte dos Esta concepção estritamente individualista concorda com os
empregadores em um período onde a inflação de títulos tende a fazer pressupostos da teoria liberal ortodoxa: o indivíduo possui recursos
r<
crescer a importância dos componentes "informais", sobretudo de próprios que ele vai tentar fazer crescer ao longo de sua existência
origem social, na apreciação da "empregabilidade" dos assalariados. para aumentar sua produtividade, sua renda e suas vantagens sociais.
Para compreender o sucesso dessa noção, é preciso partir de Concebe-se, então, que não pode haver nada de desinteressante na
algumas considerações gerais. Os trabalhos do economista americano aquisição de um tal capital humano. Essa concepção supõe que a
Edward F. Denison permitiram mostrar, nos anos 1960, que o "escolha do ofício" é unidimensional: só importa o rendimento que a
crescimento econômico estava ligado não somente ao aumento profissão abraçada proporcionará. Ela negligencia, dessa forma, todas
quantitativo dos fatores de produção (capital e trabalho) mas também as representações de futuro ligadas às condições presentes, aos valores
à qualidade da mão-de-obra, qualidade que talvez pudesse vir, em transmitidos e às chances percebidas e desconhece que a relação com
parte, da educação 13 . Levando em conta esta relação, não se poderia a vida ativa é uma relação que compromete tanto uma história pessoal
esperar a busca do crescimento isolado dos investimentos físicos nem e coletiva quanto as relações entre as classes sociais, os sexos e as
o crescimento isolado do volume da mão-de-obra: seria necessário faixas etárias 15 . Na concepção utilitarista da escolha profissional, tudo
"investir" em um novo tipo de capita11 4 . A noção de capital humano, é dirigido pelo esforço racional com vistas a adquirir rendimentos
sem constituir a revolução da teoria econômica padrão vista por monetários suplementares. Esse esforço é determinado pela taxa de
alguns, permitia desviar o olhar que se tinha sobre a despesa da rendimento esperado do investimento. Seu financiamento deve
educação, colocando-a antes do lado dos investimentos do daquele depender dos ganhos esperados, dos costumes e do grau de
dos consumos. A noção nova se espalhou por múltiplos canais e por generalidade das competências adquiridas. Se a despesa educativa é,
interesses diversos, ao ponto que os partidos de esquerda e os de início, destinada à formação de um capital humano, a questão que
sindicatos retomaram por seu lado, nos anos 1970, esse raciocínio se coloca é, com efeito, saber quem deve pagar, quem deve definir os
para a legitimidade que ele parecia trazer aos esforços do Estado em conteúdos, quem deverá ser o mestre-de-obras dessa formação. Em
matéria de ensino público. função dos ganhos esperados, o financiamento deve ser repartido
Essa metáfora do "capital humano" desemboca, todavia, em entre o Estado, a empresa e o indivíduo. Entretanto, o Estado não
uma visão muito empobrecida dos efeitos do "investimento no saber", deve se desinteressar pela educação uma vez que existem
"extemalidades positivas", quer dizer, efeitos benéficos para toda a
coletividade. Mas, se ele deve se encarregar de uma parte das despesas
13. Edwards F. OEN1S0N, Why Growth Rates Oiffer? Postwar Experience in Nine Westem Countries,
Brookings lnstitution, Washington O.C., 1967. Cf. Éric OELAMOTTE, Une introduction à la pensé
educativas, deve igualmente criar as condições para que os indivíduos
économique en éducation, PUF, Paris, 1998, p. 99.
14. lbid., p. 38. Cf. também Denis CLERC, "La théorie du capital human", Altematives économiques,
mars 1993 e Élisabeth CHATEL, Comment évaluer l'éducation? Pour une théOlie de l'action educative,
Oelachaux e Niestlé, Lausanne e Paris, 2001. Para uma visão de conjunto dos trabalhos sobre o assunto, 15. Para uma análise das representações que estruturam a pesquisa de emprego, cf. Francis VERGNE, De
Cf. OCOE, op. Cit., 2001, p. 30etsq. I' école à l' emploi, attentes et représentations, Nouveaux Regords/Syllepse, Paris, 2001.

26 27
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

operem as escolhas racionais e assumam os custos que retomem a eles execução. Desse ponto de vista, a articulação estreita entre a escola e
legitimamente. Se os poderes públicos devem assegurar a formação a empresa não é, necessariamente, mais democrática.
inicial, tendo visto a forte rentabilidade social dos investimentos a ela Essas concepções ultra-utilitaristas da educação têm, hoje em
consagrados, devem, igualmente, apelar para financiamentos dia, muita influência sobre as representações dominantes. Pode-se /
privados, provenientes das famílias e das empresas, especialmente em temer que elas contribuam para reforçar o já conhecido ensino em
um período marcado pela "intensificação das restrições várias velocidades, no qual os alunos mais "rentáveis" se beneficiam
orçamentárias"!6. Diversificar as fontes de financiamento aparece de investimentos mais importantes do que os de pior "performance".
como a única via racional, já que ela faz com que os casais se Mesmo se uma vasta literatura empírica mostra que a correlação entre
encarreguem de uma parte crescente da despesa, na proporção das o investimento na formação e o nível de remuneração está muito
vantagens pessoais que eles obtenham. Quando a OCDE e o Banco longe de ser tão simples quanto os economistas liberais o proclamam
Mundial convidam para um financiamento diversificado ou para um - é preciso acrescentar múltiplas variáveis para interpretar as relações
"co-financiamento" da educação, é a esta lógica do rendimento observadas, em particular a tendência dos empregadores a empregar
educativo que eles se referem. pessoal superqualificado -, o essencial permanece: a concepção da
As implicações sociais dessa diversificação do financiamento educação como investimento produtivo em vista de um rendimento
estão longe de serem negligenciáveis. Acredita-se que a análise do individual, alcança um imenso sucesso e uma ampla difusão. Por via
tipo custo/benefício explique as diferenças de investimento das organizações econômicas e financeiras internacionais, essa
educativo. Os estudantes mais dotados têm interesse em prosseguir concepção constitui, hoje, o fundamento ideológicO da nova ordem
seus estudos porque o investimento é, nesse caso, muito rentável, educativa mundia11 8 .
enquanto os menos dotados têm mais interesse em abandonar seus
estudos e entrar mais rápido na vida profissional. A teoria do capital Capitalismo e produção dos conhecimentos
humano, contrariamente a algumas pretensões à "eqüidade" da As teorias modernas do capital humano, da "economia do
OCDE ou do Banco Mundial, não é, em nada, igualitária. Gary conhecimento" ou da "nova economia", não descobriram o papel
Becker legitima, ao contrário, as desigualdades escolares pelo cálculo crescente da ciência na produção, papel que já havia sido percebido
racional do indivíduo: os alunos dotados aprendem rápido e, por um por Smith e analisado por Marx. Desde o primeiro capítulo da Riqueza
custo limitado, acumulam um capital muito rentável, ao passo que os das Nações, Smith descreve o caráter positivo e acumulativo dos
menos dotados penam para obter os diplomas cujo custo não será efeitos da divisão do trabalho sobre o progresso técnico e salienta que
compensado pelos rendimentos futuros! 7. É esta lógica que se vê "um grande número de descobertas é devido à indústria dos
trabalhar no mercado da formação permanente erigida por alguns construtores de máquinas, desde que essa indústria se tomou objeto de
como modelo para a educação de base e cujo efeito mais certo é uma uma profissão particular. Algumas são devidas à habilidade dos que
produção de desigualdades entre aqueles que dela mais se beneficiam, são chamados sábios ou teóricos, cuja profissão é de fazer nada mas
os chefes, e aqueles que dela menos se aproveitam, os assalariados de observar tudo e que, por esta razão, se acham, freqüentemente, aptos

16. OCDE, Analyse dês poliriques d'éducarion, 1997, p. 24. 18. Cf. sobre esse ponto os trabalhos do Insritut de recherches da FSU e em particular Christian LAVAL e
17. Cf.. Denis CLERC, "La théorie du capital humain", art. citado. Louis WEBER (coord) , op. cito

28 29
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

a combinar as forças de coisas as mais distanciadas e as mais


solicita". O conceito marxista de "forças produtivas" saído do
d'D . h f az, nesse ponto, a exposição resumida de uma
1 erentes "19 . Smlt
conceito de "faculdades produtivas" que são encontrados nos ::;.
evolução mais complexa: desde muito tempo atrás, a divisão social do
economistas do século XVIII e em Saint-Simon engloba não apenas
trabalho permitiu a grupos humanos desenvolver sua capacidade
as ferramentas e a organização do trabalho, mas igualmente o "nível
intelectual longe das restrições da produção material, à distância
de habilidade médio do operário" e o "desenvolvimento da ciência e
relativa do trabalho diretamente produtivo. Na escala da sociedade, a
suas possibilidades de aplicação tecnológica".
diferença maior entre grupos sociais repousou sobre esta divisão entre
O crescimento da pesquisa nos países capitalistas
trabalho intelectual e trabalho material, condição primordial de uma
acumulação ampliada de conhecimentos ligados ao trabalho social. desenvolvidos, testemunha esse lugar cada vez mais decisivo dos
No século 20, esta tendência à "capitalização do saber" se acentuou conhecimentos, considerados como componentes essenciais do
nitidamente. sucesso econômico. O conjunto das despesas de Pesquisa-
A esta primeira divisão geral entre trabalho intelectual e Desenvolvimento (P & D) nos 29 países da OCDE representa mais de
manual, se acrescentou uma segunda. No meio do processo de 470 bilhões de Euros, ou seja, cerca de um terço do PIB francês, e tem
produção, os conhecimentos "vivos", incorporados aos trabalhadores, tido um aumento absoluto muito forte desde os anos 1980 (quase 75%
foram, ao mesmo tempo captados e substituídos pelos saberes de aumento entre 1981 e 1996). Sua concentração é igualmente
formalizados que se impõem como fonte de prescrições e normas muito sensível: a OCDE realiza cerca de 90% das despesas de P & D
exteriores aos gestos profissionais, saberes que se tomaram o apanágio no mundo, tendo à frente os Estados Unidos, que representam mais de
de certas categorias de assalariados. O taylorismo é, sob esse aspecto, 40% das despesas da OCDE. Esses dados conduzem um certo número
apenas um momento de uma longa evolução. O desenvolvimento da de teóricos a pensar que nós estaríamos entrando em economias
ciência para um dos pólos da sociedade e essa capitalização dos saberes fundamentadas no conhecimento. Essa idéia tomou-se mesmo, como
técnicos para o interior da esfera de produção, conjugaram seus efeitos se sabe, um slogan encarregado de resumir as doutrinas e estratégias
para fazer da "ciência" um estoque de conhecimentos diretamente políticas e econômicas dos países da OCDE. Teríamos mesmo,
úteis na produção, integrados nas ferramentas, nos códigos e nos segundo alguns, uma economia nova repousando em leis muito
programas 20
. Essa articulação entre as atividades intelectuais e diferentes das antigas, na medida em que o conhecimento é um fator

produtivas não é um acontecimento recente. Já havia sido destacado de produção cujos rendimentos são crescentes, ao contrário do que
por Marx que, tanto nos Gundrisse, como mais tarde em O Capital, ocorreu com os fatores "físicos" do capital e do trabalho: a utilização

insistia na submissão das ciências à lógica da acumulação de capital: de uma unidade suplementar de informação, longe de diminuir a

"a invenção se toma um ramo dos negócios e a aplicação da ciência à produtividade marginal dessa unidade, tem tendência a aumentá-la,

produção imediata determina as invenções ao mesmo tempo que as em decorrência do caráter cumulativo do conheciment02 !. Essas
teorias e essas representações indicam a seguinte tendência: se a
acumulação dos conhecimentos tem um papel crescente na produção, 'lf-

19. Adam SMITH, Recherches sur la nature et les causes de la richesse dês nations ' op . cit ." 1 chap .I, p.
77.
20. Cf. Dominique FORAY, L'Éconnomie de la connaissance, La Découverte, "Reperes", Paris, 2000,
21. Cf. Dominique GUELLEC, I.:Économie de l'innovarion, La Découverte, "RepeTes", Paris, 1999, e
p.46 et sq.
D. GUELLEC e Pierre RALE, Les nouvelles Théories de la croissance, op. cit

3O 3 I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

a ciência vai estar, cada vez mais estreitamente, submetida às que as escolas secundárias e as universidades nos países capitalistas
exigências da valorização do capital. desenvolvidos, experimentaram desde os anos 1950.
Essa subordinação dos saberes à economia, já muito
perceptível na segunda metade do século XIX, só fez se estender, desde As novas indústrias do saber
então, com a multiplicação dos laboratórios e dos centros de pesquisa É por essa mesma lógica que se pode compreender melhor a
nas empresas gigantes, com as múltiplas aproximações entre pesquisa expansão das "universidades-empresa", iniciada nos Estados Unidos
privada e pública e com aumento considerável dos investimentos em nos anos 1950, e depois, mais recentemente, na Europa. A partir de
P & D e das patentes22 • O exemplo americano do MIT, alguns estudos sobre o assunto, existiriam cerca de trinta delas na
freqüentemente considerado modelo, mostra quanto a pesquisa França, geralmente dependentes de um grande grupo. Se ainda é
aplicada, comandada pela indústria, pode dominar a produção dos difícil, por falta de perspectiva de conjunto, prever sua evolução,
saberes. O desenvolvimento das biotecnologias, das atividades pode-se, no entanto, ressaltar que, em certos casos, elas tendem a se
espaciais assim como das pesquisas ligadas à informação e à distinguir dos centros de formação para dirigentes com "alto
comunicação, testemunham, numa escala mais ampla, essa potencial", tomando-se verdadeiros locais de formação capazes de
interpenetração crescente dos setores produtivos e das instituições recrutar estudantes no exterior e de expedir diplomas 24 . De modo
universitárias. A produção de conhecimentos toma-se, ao mesmo mais geral, abre-se um novo campo de acumulação de capital, com a
tempo, uma atividade mercantil específica pelas formas jurídicas de transformação das universidades em indústrias de produção do saber
sua apropriação privada (patentes, direitos autorais) e uma fonte de eficaz. A produção dos conhecimentos e o próprio saber são,
benefícios, importante para as empresas que as desenvolvem. Uma das doravante, modelados pelo "capitalismo universitário"25. É, em
características do capitalismo moderno é, precisamente, a organização realidade, toda a cadeia de produção dos conhecimentos que tende a
sistemática da pesquisa sobre uma base capitalista, a fim de liberar se transformar segundo os imperativos de valorização do capital, como
rendas tecnológicas para as firmas. O número de empregos no setor da o mostra o exemplo da América do Norte. No início dos anos 1970,
produção de conhecimentos cresce, nitidamente, mais rápido do que com a importância adquirida pelas "indústrias de inteligência" e pela
na média dos outros setores; os conhecimentos científicos e as valorização do capital humano visto como uma variável estratégica na
inovações tecnológicas conhecem uma aceleração notável ao mesmo competição econômica, a pesquisa universitária foi a primeira
tempo em que se constata uma obsolescência cada vez mais rápida dos transformada em uma produção de bens submetidos ao regime de
equipamentos, especialmente no domínio da informática, segundo direitos de propriedade e comercializáveis no mercado. Solicitação de
um processo de "destruição criativa" que parece estar desenfread0 23 . licenças e deposição de patentes tomaram-se atividades comuns,
Essa situação na qual "todas as ciências se encontram aprisionadas a geradoras de rendimentos apropriados ao mesmo tempo pela
~ serviço do capital" como diz Marx, parece reclamar um aumento instituição, os pesquisadores e os parceiros financeiros do setor
contínuo de mão-de-obra qualificada e altamente qualificada, privado. Durante os anos 1980, os sucessivos governos tanto dos
fenômeno no qual se pode ver uma das razões da massificação escolar

24. Cf. de um modo muito apologético, Annie RENAUD-COULON, Université d'entreprises. Vers une
mondialisation de l'intélligence, Village Mondial, Paris, 2002. . ' "
22. Dominique FORAY, L'Économie de la conaissance, op. cit, p. 20-21. 25. Cf. David F. NOBLE, Digital Diploma Mills, Part I, "The Automation ofHlgher EducatlOn ,outubro
23. 1bid, p. 31. 1997, <http;//www.communication.ucsd.edu/dl/ddm1.html>.

32 33
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

Estados Unidos como do Canadá favoreceram, do ponto de vista redutora das missões universitárias a serviço das atividades
fiscal, o financiamento privado da pesquisa universitária e permitiram econômicas. O acordo entre a Universidade da Califórnia (Berkeley)
aos laboratórios se apropriar, legalmente, dos resultados de seus e a firma farmacêutica suíça Novartis assinado em novembro de 1998,
trabalhos, financiados por fundos públicos. Em 1980, a lei Bahy-Dole ilustra, particularmente, esse fenômeno. No fim desse acordo,
foi a primeira das leis autorizando as universidades a patentear as Novartis atribuía 25 milhões de dólares ao departamento de
invenções financiadas pelo governo, em seguida a vendê-las (antes da microbiologia, ou seja, um terço do orçamento do departamento, em
adoção dessa lei, essas patentes eram atribuídas ao governo federal), o contrapartida aos quais a universidade dava à firma privada o direito
que fez com que as universidades se beneficiassem de um aporte de de se apropriar de mais do que o terço das descobertas dos
fundos, cada vez mais importante, proveniente de firmas privadas. pesquisadores da universidade e o de negociar as patentes de invenção
Essa lei, decisiva para a extensão da comercialização da pesquisa, que delas derivassem27. Esse tipo de acordo não é raro desde que os
reforçou a trama das relações entre as universidades e as firmas Estados americanos viram suas receitas fiscais estagnar e precisaram
privadas. A intenção era, no início, relançar a produtividade e operar cortes nos orçamentos da educação. Se, por exemplo, o estado
enfrentar o "desafio japonês" ou, mais amplamente, asiátic0 26 . Se, em da Califórnia fornecia 50% do orçamento total de Berkeley no meio
um primeiro momento, se trata de vender novas idéias, fruto da dos anos 1980, ele não fornecia mais do que 34% em 97. Mesmo que
pesquisa, essa lei desembocaria em uma subversão das relações entre os financiamentos públicos continuem consideráveis nos Estados
empresas e universidade. Os laboratórios se transformaram, pouco a Unidos, uma parte sempre maior da pesquisa universitária é,
pouco, em "centros de aproveitamento", integrados em uma doravante, financiada por doações privadas.
instituição universitária, ela mesma metamorfoseada em um lugar de A busca do lucro não atingiu apenas a pesquisa. Nos anos
acumulação de capital. As universidades criaram filiais privadas 1990, a expansão das "redes" e a possibilidade de vender cursos "on
encarregadas de comercializar as patentes e operar investimentos line" aos particulares e às empresas apareceram como outras
financeiros. As redes e as "parcerias" com a indústria se oportunidades para "rentabilizar" o próprio ensino. É, então, toda a
multiplicaram, na maior parte do tempo sob a forma de subvenções instituição, até em suas atividades fundamentais, que se torna um
mais ou menos disfarçadas. Se os riscos e os custos permaneciam lugar de valorização do capital. As condições de trabalho, as posições
amplamente socializados, os benefícios eram privatizados. Essa dos pesquisadores e dos professores são afetadas. Uma grande parte dos
política causou um profundo desequilíbrio em detrimento das professores e dos pesquisadores perde sua posição de pequenos
atividades pedagógicas reduzidas ao mínimo. Vários pesquisadores se produtores independentes - freqüentemente comparados às profissões
desinteressaram pelo ensino, menos remunerador que a pesquisa liberais e aos artífices - para tornarem-se trabalhadores industriais
comercializada; os departamentos mais afastados das atividades submetidos a uma disciplina, a uma intensificação do trabalho, a
rentáveis viram seus meios diminuir rapidamente, baixar os salários e restrições e, por parte da administração, a controles intensificados que
aumentar o número de alunos por curso. reduzem, consideravelmente, sua autonomia. Essa revolução
Direções de empresas e administrações universitárias transforma uma minoria de professores e administradores em
desenvolveram as colaborações e partilharam uma concepção verdadeiros capitalistas dispondo de suficientes recursos financeiros,

26. Desde que o Japão tomou medidas semelhantes modificando sua legislação para atribuir aos
pesquisadores do setor público a metade dos direitos de patente sobre suas invenções. 27. Eyal PRESS e Jennifer WASHBURN, "The Kept University", The Atlandc Monthly, março 2000.

34 35
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

institucionais e cogmtlvos para fazer trabalhar alguns de seus lógica do lucro imediato e, antes de tudo, nos cérebros dos
"colegas" menos bem dotados em títulos, em poder e em dinheiro e pesquisadores e dos universitários: "Os dirigentes de universidade,
alguns de seus estudantes, em troca de promessas de colocações ou de cujo papel se assemelha, doravante, ao dos representantes comerciais,
remunerações simbólicas e materiais. Ao seguir as primeiras são julgados, antes de tudo, por sua capacidade de levantar fundos"29.
experiências de mercado e-Iearning da América do Norte, verifica-se Os centros universitários servem de cobertura aos interesses privados,
que a colocação on line dos cursos permite, em numerosos casos, trazendo seu aval e sua caução "científica" a operações comerciais e ao
impor aos professores normas pedagógicas sob a forma e a base de trabalho de fazer lobby. Professores e pesquisadores atuam, nesse caso,
produtos pedagógicos cada vez mais calibrados e aumentar sua carga como porta-vozes desses interesses, inclusive nas revistas científicas
de trabalho. Esses "produtos" pedagógicos comercializados escapam ao mais prestigiosas. Em certos casos, os fundos de origem privada
domínio dos produtores e podem circular sob o único controle da limitam, abertamente, a liberdade de pensamento e a reflexão crítica.
administração como mercadorias rotuladas pela instituição Ibrahim Warde relata assim, que a firma Nike "suspendeu"
universitária. recentemente seu suporte financeiro a três universidades (Michigan,
A introdução de valores de mercado no funcionamento Oregon e Brown) sob o pretexto de que seus estudantes haviam
universitário não se dá sem conseqüência. Os doadores impõem suas criticado algumas de suas práticas em países pobres, em particular no
logomarcas nas paredes e nos mobiliários, rebatizam os prédios e tocante ao emprego de crianças30 . Noam Chomsky cita o caso de um
dotam cátedras em troca de uma designação que testemunhe a origem estudante do MIT em ciência informática que se recusou a responder
dos fundos. O exemplo mais caricatural dessa hibridação entre a a uma questão durante um exame, apesar de conhecer a resposta, sob
universidade e firmas privadas é reportado por Ibrahim Warde, que o pretexto de que um outro professor, engajado em uma pesquisa para
descreve assim a nova Business School da Universidade da Califórnia: a indústria, lhe havia, formalmente, imposto segredo sobre esse
"A família Haas (herdeira do fabricante de jeans Levi-Strauss) que assunt0 3l . A conclusão não é difícil a tirar: o valor mercantil das
,
efetuou a doação mais importante obteve que a Business School pesquisas é mais importante do que seu escopo de verdade, na medida ,"
levasse seu nome. Grandes empresas financiaram cátedras. A decana que esse termo tenha qualquer validade na nova configuração, ou,
do estabelecimento, Laura D'Andrea Tyson, uma antiga conselheira para dizer de outra maneira, a verdade, embasamento até então da
econômica de Clinton, porta, por exemplo o título de 'Bank of atividade teórica, é "desmontada" pelo mercado. Para alguns
America Dean of Haas"'28. Essa prática de dotação de cátedras observadores americanos, "a disciplina pelo dinheiro", que se impõe
expandiu-se muito entre as firmas que buscam modificar ou melhorar ao mundo universitário, deixando ao mercado o cuidado de repartir os
sua imagem social. Eyal Press e ]ennifer Washburn na sua pesquisa recursos e as recompensas, introduz ameaças muito sérias sobre a vida
sobre a universidade americana indicam, por exemplo, que a firma intelectual e o pensamento, tão perigosas quanto as do
Freeport Mc MoRan, uma companhia mineira questionada por sua macarthism0 32 . Pode-se temer que, com as prerrogativas acordadas ao
má conduta ecológica na Indonésia, criou uma cátedra sobre o meio
ambiente na faculdade de Tulane. A mistura de gêneros prejudica a
ciência, mantém uma cultura do segredo, faz penetrar em toda parte a
29. Eyall PRESS e lennifer WASHBURN, arrigo citado.
30. Arrigo citado, p.21.
31. Noam CHOMSKY, "Assaulting Solidarity, Privatizing Educarion", maio 2000 no site da Aped,
http://users.swing.be/aped/documents/d0095Chomsky.html.
28. Ibrahim WARDE, "L'université americaine vampirisée par /es marchandes", Le Monde diplomarique,
32. David HARVEY, "University, Inc.", The Atlanric Monthly, outubro 1998.
março 2001.

36 37
A ESCOLA NAo É UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

setor privado em numerosos casos, a lógica da apropriação privada dos estreitamento das ligações entre a ciência, a medicina e o mercado.
conhecimentos não vá muito diretamente ao encontro da ética que Mais de um milhar de patentes sobre fragmentos de genes foi
guia a pesquisa intelectual, feita de rivalidade mas também de livre depositado até agora. Os contratos de pesquisa entre os laboratórios
circulação de idéias e de crítica aberta aos trabalhos antigos e aos em farmacêuticos e os laboratórios públicos, providos de cláusulas de
curso. "confidencialidade" e de exclusividade, se multiplicaram"34. Essa
tendência é reforçada por leis que facilitam a apropriabilidade e a
Um modelo que se generaliza transferibilidade mercantil dos conhecimentos segundo o modelo de
Essa política de hibridação institucional e de subordinação Bahy Dole Act. Ela está ligada, sobretudo, à evolução das práticas e
específica é encorajada por todos os obstinados do liberalismo das instituições. Os canais que permitem a interpenetração dos meios
econômico. A OCDE, em nome da importância da inovação de pesquisa e da empresa se multiplicaram e, particularmente sob a
"schumpeteriana" no crescimento econômico, convida, assim, os forma de instituições de pesquisa situadas na intersecção do setor
Estados a remover todo obstáculo à cooperação entre universidades e público e do setor privado e que produzem ao mesmo tempo bens
empresas para favorecer a inovação: "A inovação não depende mais, públicos e bens privados 35 . Em muitos países ocidentais, o aporte de
somente, das performances das empresas, das universidades, dos fundos públicos a um laboratório é, inclusive, condicionado pela
institutos de pesquisa e das autoridades regulamentares; ela é, hoje em assinatura de um contrato com uma ou várias empresas privadas.
dia, tributária de sua cooperação. [... ] É, portanto, conveniente, A lógica do lucro entrou maciçamente na universidade
eliminar os obstáculos à cooperação e à constituição de redes e francesa, globalmente subfinanciada. Na França, certamente, o
promover a colaboração entre as universidades, os institutos de hábito do eufemismo conduz a falar de "par~eria", de "realismo", de
pesquisa públicos e as empresas. Em muitos países da OCDE, os "eficácia" e de "inovação". No entanto, nesse domínio, o liberalismo
pesquisadores nas universidades não são incitados a se engajar em mimético não é muito difícil de ser reconhecido e, além disso, a
pesquisas que poderiam ser objeto de uma aplicação comercial nem a imitação do modelo universitário americano é claramente confessada
cooperar com as empresas. Os Estados Unidos são um dos primeiros pelos responsáveis de primeiro plan0 36 . Claude Allegre declarava: "A
países a tomar medidas nesse campo"33. cultura americana é uma cultura de mobilidade e de riscos, o que a
A aceleração dessa comercialização da pesquisa pública é cultura francesa não é. Nós não somos os descendentes daqueles que
observável em todos os países capitalistas desenvolvidos. Ela é atravessaram o Atlântico, nós somos os descendentes dos que ficaram
favorecida pelo reforço do papel da propriedade intelectual, do lado de cá"37. Segundo relatório redigido por Jacques Attali, as
particularmente no domínio das ciências da vida e da informática,
domínios submetidos cada vez mais a uma extensão da
34. Maurice CASSIER e Jean-Paul OAUDELLIERE, "Droit et appmpnation dam le damaine des
patenteabilidade. Maurice Cassier e Jean-Paul Gaudilliere escrevem:
biotechnologies, quelques remarques sur l'évolution récente des pratiques", Réseaux, no 88-89, 1998. Cf,
«Os anos 1990 foram marcados pela difusão de práticas de Igualmente Brigitte CHAMAK, "Conséquences dês brevets SUT les séquences génomiques: les cas des brevets sur
/es tests de prédisposition au cdncer du sein ") Nouveaux RegareIs, no 15, outono, 2001 .
apropriação no campo da pesquisa genômica em um contexto de 35. Cf, Jean-Loup MOTCHANE, "Oénoplante ou la priva~'sations des laboratoires publics", Le Monde
diplomatique, setembro 1999.
36. Cr Christophe CHARLES, "Université et recherches dans le carcan technocratique", Le Monde
diplomatique, setembro 1999.
37. Entrevista dada à revista americana Science, citada por Chistophe Charles. Esse último comenta assim essa
nota: "Os responsáveis europeus são fascinados pelo modelo americano conhecido por associar financiamento
33. Jean OUlNET, Dirk PILAT, " faut-i! prornouvoir l'innovanon?", L'Observateaur de l'OCDE,
público leve e financiamento privado significativo e imegmT pesquisa fundamental, pesquisa aplicada, inovação
outubro 1999, p. 66.
tecnológica e desenvolvimento de empresas[ .. .].
/I

38 39
A ESCOLA NÃO li UMA EMPRESA Do conhecimento como fator de produção

universidades devem se tornar sempre mais um entrelaçamento de empresa com o seu órgão de origem 40 . Em agosto de 2002, essa
empresas, de laboratórios e de serviços de financiamento capitalista. política foi completada por uma série de facilidades dadas aos
Elas poderão "abrigar empresas iniciantes das quais poderão tomar, se empreendedores, pesquisadores e assalariados do setor privado, para se
desejarem, uma parte do capital"38. Segundo uma volta retórica, o tornarem professores-pesquisadores da universidade. Essa concepção
Relatório Attali pretende conter a mercantilização que ameaçaria a retém, de seu modelo americano, a idéia de que a colaboração é,
universidade francesa, através de um caminho que, ao contrário, serve presumidamente, produtora de "benefício mútuo" uma vez que a
para prepará-la: "Se se quer evitar que empresas de tamanho mundial "batalha econômica mundial é a batalha da matéria cinza", segundo
decidam satisfazer, por seus próprios meios , suas necessidades futuras as proposições de Claude Allegre 41 . Em nenhum ponto é considerado
de formação com mais intensidade do que o fazem hoje em dia, as o risco de reconsideração da autonomia da pesquisa, indispensável ao
universidades deverão contribuir para a criação de empresas e seu progresso do conhecimento, nem mesmo a maneira de tratar o caso de
desenvolvimento. Para tal, deverão valorizar sua pesquisa, tirar conflito de interesses, no entanto muito provável, em função da
patentes, organizar empresas em seu seio"39. Os professores devem confusão das espécies, da mistura dos financiamentos e do
poder se tornar empreendedores e fundir, na mais completa emaranhamento dos status pessoais.
legalidade, suas funções de ensino, pesquisa e dirigente de empresa: Os próprios fundamentos da universidade e da escola são
"O status dos professores deverá ser alterado para lhes permitir mais atingidos quando é necessário que elas respondam, sem mediação e
mobilidade e, em particular, participar da formação de empresas sem prazo, às exigências econômicas que mais fazem pressão. O
inovadoras, fundamentadas nos resultados de suas pesquisas sem, economista Ernest Mandel já explicava por essa transformação, a crise
necessariamente, dever abandonar definitivamente seu status de estudantil do final dos anos 1960 e início dos anos 1970: "Não é mais
funcionário", diz, ainda, o mesmo relatório. Essa visão desembocou a produção de "homens honestos", de burgueses cultos, quer dizer, de
em uma série de incitações que levam a uma comercialização, cada indivíduos aptos a julgar e a resolver dificuldades razoável e
vez mais acentuada, dos resultados científicos. A lei sobre a inovação rigorosamente - o que correspondia às necessidades do capitalismo de
e a pesquisa, apresentada por Claude Allegre em julho de 1999, livre concorrência -, mas sim a dos assalariados intelectualmente
pretende facilitar a criação de empresas pelos pesquisadores, as trocas muito qualificados, que se tornou a tarefa essencial do ensino superior
entre órgãos públicos de pesquisa e empresas privadas e a constituição na terceira idade do capitalismo"42. A educação humanista, tão
de estruturas profissionais de valorização. Ela prevê, especialmente, ilusória quanto possa ser sua pretensão a universalidade em uma
para os pesquisadores e professores-pesquisadores, a possibilidade de sociedade de classe, visando o desabrochar de todas as faculdades
criar empresas como associados, administradores ou dirigentes, intelectuais, morais e físicas, tinha, por finalidade, a emancipação
continuando como funcionários, enquanto os textos precedentes
limitavam as relações do antigo funcionário, que resolveu criar uma

38. laques ATTALI, op. cit., p. 24-25.


39. Ibid., p. 19.
38. laques ATTALI, op. cit., p. 24-25. 40. As informações detalhadas sobre essas medidas se encontram em Chistophe 1AQUEMIN, "Profession;
39. Ibid., p. 19. entrepreneur-chercheur" XXle siecle - Le magazine du minis tere de l'Éducation nationale, de la Recherche
40. As informações detalhadas sobre essas medidas se encontram em Chistophe 1AQUEMIN, "Profession; et de la Technologie, n' 4, abril 1999.
entrepreneur-chercheur" XXle siecle - Lemagazine du ministere de l'Éducarion narionale, de la Recherche 41. Cf. entrevista com Claude Allegre, I.:Expansion, 4-7 de novembro de 1999.
et de la Technologie, n' 4, abnl 1999. 42. Ernest MANOEL, Le troisiéme age du caPitalisme, vol. 2, 10/18, Paris, 1976, p. 94

4O 41
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 3

intelectual e, por referência ideal, um homem completo para o qual o


A nova linguagem da escola
trabalho não era a ocupação exclusiva da vida. A educação, na época
neoliberal, visa, ao contrário, à formação do assalariado ou, mais
geralmente, do "trabalhador" cuja existência parece se reduzir a
utilizar conhecimentos operacionais no exercício de uma profissão
especializada ou de uma atividade julgada socialmente útil. Não tendo
mais por horizonte que o campo das profissões e das atividades
existentes, ela se encerra em um presente ao qual é necessário, custe
o que custar, se adaptar suprimindo a utopia de uma liberação.
Segundo a justa expressão de André Tosel, a época é da escola "A educação deve ser considerada como um
*' "desemancipadora" 43. serviço prestado ao mundo econômico"
Relatório da Mesa Redonda Européia,
Fevereiro de 1995.

Não há educação sem ideal humano, sem uma idéia da


excelência humana. São, sem dúvida, pouco numerosos os autores e
atores interessados pelo domínio educativo que questionam
abertamente o famoso tríptico hierarquizado do final da escola
republicana: formar o trabalhador, instruir o cidadão e educar o
homem. Como se poderia, abertamente, instituir como referência a
submissão direta aos imperativos econômicos? E, no entanto, os
"novos homens" a formar, se se presta atenção aos discursos mais
correntes, são, prioritariamente, os trabalhadores e os consumidores
do futuro. Depois do crente, depois do cidadão do Estado, depois do
homem cultivado do ideal humanista, a industrialização e a
mercantilização da existência redefinem o homem, como um ser
essencialmente econômico e como um indivíduo essencialmente
privado. Quando se pergunta qual é o "pólo da educação" de hoje,
para retomar a expressão de Durkheim 1, quer dizer o ideal ao mesmo
tempo uno e diverso que resume a "alma" de um sistema educativo, é
necessário, atualmente, se voltar para as categorias econômicas que

43. Cf. André TOSEL, 'Vers l'éco/e désémancipatrice", La Pensée, nº 318, abril-junho 1999. 1. Émile DURKHE1M, Éducation et sociologie, PUF, Paris 1985, p. 50.

42 43
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

permitem pensar a pessoa humana como um "recurso humano" e um "empresa educativa" foi desenvolvido desde o fim dos anos 1970,
consumidor a satisfazer2 . concomitante a um certo número de colóquios, no curso de trocas
Essa evolução das referências normativas deve ser substituída com os peritos internacionais e os administradores de países onde o
no movimento de revalorização da empresa, "motor e modelo da processo estava mais avançado (o Canadá, por exemplo), em certas
sociedade civil" na representação dominante. Em ruptura com os revistas relacionadas ao meio do pessoal de direção e da administração
ideais clássicos da escola, a referência ao mundo da empresa era vista central da Educação nacionaIS, nas múltiplas obras de peritagem ou
como trazendo, já prontas para o uso, as soluções radicais para a crise com objetivo formador. É suficiente, para dar uma primeira idéia desse
de centralização burocrática e para o conjunto das dificuldades fenômeno, relembrar a inflação galopante do léxico da gestão na nova
introduzidas pela rápida massificação da população escolarizada do linguagem da escola. No desvio dos anos 1980, a pedagogia se toma
meio dos anos 1980. Essa referência não somente serviu de uma "gestão", mesmo uma "gestão mental" e alguns propõem ver no
justificativa à reaproximação dos dois mundos, escolar e econômico,. professor um "gerente de sua classe"6. Saberes, inovação, parcerias,
foi, igualmente, o meio de modificar os parâmetros internos da tudo depende dessa lógica que tem a atração das visões totalizantes.
própria escola, seu modo de funcionamento, sua organização, a Esses discursos permitiram colocar, simbolicamente, a instituição
natureza do comando que a governa e até suas missões primordiais3 . escolar sob a jurisdição de uma lógica de gestão estranha à sua
A instituição escolar não encontra mais sua razão de ser na referência cultural e política antiga mas, também, submetê-la à
distribuição, o mais igualmente possível, do saber, mas nas lógicas de pressão de lógicas sociais e econômicas que até então lhe eram
produtividade e rentabilidade do mundo industrial e mercantilista. exteriores, favorecendo, assim, a interiorização de novos objetivos e a
Essas lógicas de eficácia que se impõem não são "axiologicamente constituição de novas identidades profissionais.
neutras", como dizem os gerentes que pretendem conhecer filosofia e Essa conversão do sistema escolar às necessidades econômicas
sociologia, elas não são somente técnicas mas, ao contrário, supõe uma hibridação das categorias de inteligibilidade e de
profundamente culturais e políticas. legitimidade. Na intersecção da economia e da educação, em uma
A instituição escolar, no seu conjunto, conheceu, como outras zona de recobrimento lexical, palavras de concordância, de
instituições, mas com uma intensidade excepcional, uma verdadeira conivência e de passagem entre as esferas permitiram uma concepção
"transferência tecnológica", que preparou as reformas de inspiração homogênea dos campos da economia e do ensino. É, por exemplo, a
liberal4. Todo o léxico que acompanha o "pensamento-gerencial" noção de "aprendizado ao longo da vida", estreitamente associada às
pode supostamente ser aplicado à ação educativa em todas as suas de eficácia e performance, ou ainda à de competência, que fazem
dimensões. Esse trabalho de redefinição da instituição escolar como passar a lógica econômica dentro da lógica escolar em nome de uma

2. Cf. sobre esse ponto Ricardo PETRELLA, Téducation victime de cinq pieges", Le Monde diplomatique, 5. É na revista Éducation et management - publicada pelo CRDP de Créteil- que são encontrados, talvez,
outubro 2000. os traços mais evidentes da constituição do "referencial" doutrinai do gerenciamento educativo. A confusão
3. Jean-Pierre Le Goff analisou muito bem a penetração dos temas da modernização gerencial na escola. Cf. de gêneros está inscrita de chofre na capa da revista. O subtítulo, em forma de o,omoro, dessa revista
Jean-Pierre LE GOFF, Le mythe de l'entreprise, La Découverte, Paris, 1992, em particular o capítulo 7. consritui seu programa: "Les valeurs de I' école et I' esprit d' entTeprise" (Os valores da escola e o espírito de
4. Exemplo dessa operação de tradução sistemática: um diretor de colégio em um número da revista Éducation empresa).
et management, apresenta assim sua missão: "Gerenciar é levar em conta todos os parametros materiais e 6. Alain LOUVEAU, "À quand le professeur-manager?" , Educarion et management, no 10, novembro
humanos) avaliar para atingir a melhor rentabilidade possível quer dizer o sucesso escolar da maior quanridade
J
1992. Para uma exposição sobre do uso do telmo no mundo educativo, Cf. MaTcelle STROOBANTS,
de alunos", cartas dos leitores em Éducation et management, nQ 19, p.3 2. "Autour des mot5 "gestion" et "compétence"", Recherche et formarion, n' 30, 1999, p. 61-64.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

representação essencialmente prática do saber útil e graças a trabalhador aprende sobretudo a operar as escolhas otimizadas que são
categorias mentais homogêneas. A constituição dessas categorias com esperadas dele, a empresa deve procurar tornar-se uma organização
dupla face, educativa e produtiva, não deve ser negligenciada. A "qualificante" ou "que ensina"7. Essa concepção dá à empresa um
mudança se apega ao fato de se querer pensar de modo contínuo "ponto de vista" sobre a educação e uma legitimidade para intervir na
aquilo que era até então descontínuo, ou seja, a passagem do estado "formação inicial"s. Dessa maneira, vê-se o meio patronal pleitear
de escolarizado ao de ativo. que o ensino deixe um lugar cada vez maior para as maneiras de ser e
de fazer, para que ele coloque ênfase nas operações, nas atividades, nas
o aprendizado ao longo de toda a vida produções e mobilize todos os aspectos da personalidade. O ensino,
Mascarada pelo debate sempre muito apaixonado entre os renovado segundo as vontades dos chefes de empresa, deve permitir
adeptos da "instrução" e os partidários da "educação", se operou uma ao trabalhador, assimilar os discursos e reproduzi-los em situação de
mutação quando o termo genérico "formação" se impôs com um interação com outros membros da empresa ou nas relações com os
sentido particular. Certamente, a noção é antiga e suas raízes, que clientes e os fornecedores; aderir a retóricas mobilizadoras, buscar e

evocam a constituição do caráter do ser humano pela ação utilizar novas informações; de serem, assim, capazes de responder às

pedagógica, são profundas. Mas, na utilização recente do termo, a exigências de autonomia controlada que a organização espera do

finalidade profissional parece comandar, de modo teleológico, as assalariado.


Em íntima ligação com o uso especial do termo "formação", a
etapas que levam à "formação". O ensino escolar é, cada vez mais,
expressão" aprendizado ao longo de toda a vida" lançada desde os anos
visto como uma "formação inicial", quer dizer, preparatória à
1970 e retomada em 1996 pela OCDE, torna-se um dos discursos
formação profissional e assim, apta a receber, legitimamente, em
dominantes. A nova palavra de ordem exaltada pela OCDE, a
"feedback" suas injunções, especialmente em matéria
Comissão Européia ou Unesco, parece ser muito louvável. Dentro de
"comportamental". A escola está presente para assegurar um tipo de
uma perspectiva humanista poderia traduzir um avanço na difusão de
acumulação primitiva de capital humano. A cultura geral não deve
conhecimentos mais amplos a um maior número de pessoas. Em
mais ser guiada por motivos desinteressados quando, na empresa, não
aparência, a idéia central do "novo paradigma" escolar é ao mesmo
é mais uma especialização muito restrita que é solicitada, mas uma
tempo sedutora e marcada pela justiça: aprende-se durante toda a
base de competências necessárias ao trabalhador polivalente e
existência, o que supõe preparar para si caminhos de aprendizagem
flexível.
contínua permitindo aperfeiçoamentos, recuperações e retomada de
A "formação inicial", devendo servir à aquisição de uma estudos 9. Além disso, é o que parece sugerir a OCDE: "o aprendizado
"cultura" de base orientada em função de motivos profissionais durante a vida deve responder a vários objetivos: favorecer o
amplamente compreendidos, reclama uma pedagogia governada pelos
imperativos da inserção profissional, da comunicação em grupo, da
apresentação pessoal e, sobretudo, da resolução de problemas em
7. C. SAURET, " Les organizations qualifiantes, processus de développement des compétences
situação de incerteza. Mas, não se compreenderia inteiramente, o professionnellesH, Entreprise et personnel, abril 1989.
8. Cf. Lucie TANGUY, " Rationalisation pédagogique et légitimité politique" in Françoise ROPÉ e lucie
novo alcance que a expressão "formação" encerra, se não se visse que
TANG UY( dir) , Savoirs et compétences. De l' usage de ces notions dans l' école et l' entreprise,
a empresa quer ser formadora e busca associar mais estreitamente, L'Harmattan, Paris, 1994, p.23-61.
9. Estar-se-ia enganado ao acreditar em uma novidade radical. Cf. Lê Thành KHÓI, I:lndustrie de
produção e formação. Uma vez que é no exercício da atividade que o l'enseignement, op.cit., p. 2 I I.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

desabrochar pessoal; enriquecer os lazeres (em particular durante a Presume-se que a escola inicial dote o jovem de um "pacote de
aposentadoria); reforçar os valores democráticos; encorajar a vida competências de base" segundo a expressão empregada pela Comissão
coletiva; manter a coesão social e favorecer a inovação, a produção e Européia e ela deve sobretudo se consagrar a "aprender a aprender",
o crescimento econômico" 10. ir! tipo de quadro geral sem substância muito definida. O conteúdo desse
As evoluções econômicas, quer se tratem da
saber é remetido em essência aos costumes produtivos ulteriores, de
internacionalização das trocas ou das novas organizações do trabalho,
acordo com uma lógica instrumental do saber.
conduziriam, ao mesmo tempo, a um progresso social e cultural. Com
A Comissão Européia, a OCDE ou o ERT não estão alheios a
essa retórica generosa, o capitalismo flexível se apresenta
certa representação do que deveria ser a cultura escolar e têm
voluntariamente como, cada vez mais, "libertador". Essa noção seria,
intenção de influenciar quando a ocasião lhe é dada. O importante
assim, o eixo de uma reconstrução do sistema global de ensino, a qual
não é a quantidade e a qualidade dos conhecimentos adquiridos,
implicaria em parceria; na formação inicial adaptada à formação
ainda mais que esses podem ser inúteis e mesmo um estorvo. O
contínua; na validação das experiências adquiridas por unidades
essencial repousa na capacidade do trabalhador de continuar, durante
capitalizáveis!!. Suporia, igualmente, uma redefinição do papel dos
toda sua existência, a aprender o que lhe será útil profissionalmente.
poderes públicos e uma nova repartição das funções entre Estado
central e coletividades territoriais como entre setor público e setor Essa capacidade de "aprender a aprender" não pode ser separada de

privado. outras competências profissionais e das relações mantidas com outra


A expressão e a idéia são em realidade profundamente pessoa no grupo de trabalho. Criatividade, desembaraço no grupo,
ambivalentes. Tanto a proposição de não limitar a educação apenas ao manejo dos códigos de base, são outras dessas faculdades permanentes.
início da vida é rica em perspectivas democráticas, quanto é Em outros termos, as análises convergentes dos meios industriais e das
necessário se interrogar sobre o sentido real do emprego que dela esferas políticas consistem em pensar que a escola deve fornecer as
fazem a OCDE, a Comissão Européia e os diferentes governos ferramentas suficientes para que o indivíduo tenha autonomia
ocidentais e sobre as políticas que dela decorrem!2. A significação que necessária para uma autoformação permanente, para uma "auto-
as esferas dirigentes propõem é claramente utilitarista. A ordem dos aprendizagem" contínua. A escola deve, em função disso, abandonar
objetivos não pode, com efeito, enganar: o esforço de conhecimento tudo o que se pareça com uma "acumulação" de saberes supérfluos,
é exigido por razões de interesse pessoal e de eficácia produtiva. A impostos, aborrecidos.
Comissão Européia situa a aposta sem subterfúgios: trata-se de fazer da Nessa perspectiva, o "life long learning", prepararia menos
Europa "a economia do conhecimento mais competitiva e mais para o "diploma" o qual permitia o acesso ao emprego e a fazer uma
dinâmica do mundo", o que passa pela constituição de um "espaço carreira, do que para as competências de base comercializáveis
europeu de educação e de formação ao longo de toda a vida" 13. (marktable skills,) permitindo a adaptação permanente do assalariado
às transformações econômicas e às necessidades do mercado. Não é
10. OCDE, Apprendre à tou' âge, 1995, p. 15.
muito difícil perceber que em uma economia onde, diz-se, o
11. Pierre LADERRIÉRE, L'Enseignement: une réforme impossible? Analyse comparée, L'Harmattan, Paris, assalariado permanente está condenado a desaparecer, o trabalhador
1999, p.17.
12. Cf. sobre esse ponto, Yves BAUNAYe Annie CLAVEL (coord.) , Tome la vie pour apprendre, un slogan deve ser capaz de se reciclar o mais facilmente e o mais rapidamente
ou un véritable droi, pour tou'es e' pour tous?, Nouveaux Regards/Syllepse, Paris, 2002.
13. Comunicação da COMMUNAUTÉ EUROPÉENNE, "Réaliser um espace européen d' éduca,ion e'
possível. A noção de "aprendizagem ao longo de toda a vida" permite,
de forma'ion <ou, au long de la vie», 21 de novembro de 2001 . assim, articular, de maneira sintética, a elevação do nível de

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

competência do assalariado e a flexibilidade dos modos de aquisição possíveis: ao lado da educação formal (a escola), existe uma educação
dos saberes correspondentes às rápidas mutações tecnológicas e formal? (a experiência profissional) e uma educação informal (a
econômicas do capitalismo moderno. experiência social), que compõem uma "lifewide learning", um
Se o objetivo permanece essencialmente econômico, os "aprendizado que engloba todos os aspectos da vida".
diferentes textos de referência desse "espaço da educação e da Os mundos familiares, locais e profissionais devem ser
formação ao longo de toda a vida" dão uma definição muito ampla da interpretados, por exemplo, reforçando "a iniciação prática ao
expressão, incluindo a plenitude pessoal, a cidadania ativa, a trabalho nos programas ordinários" e multiplicando as ofertas de
integração social e não somente a inserção profissional e a formação para os assalariados que já estejam com uma ocupação. Em
performance no trabalho. Mas de que vale essa retórica, geralmente uma palavra, a via proposta, dita "sistêmica", é aquela da flexibilização
confinada aos fins de parágrafo ou notas de rodapé, se o objetivo do sistema de formação, de sua não-especialização e de sua integração
principal é tão claramente predominante? A política educativa da em um "processo" contínuo de adaptação a situações complexas e
Comissão Européia está, na realidade, subordinada a objetivos de mutantes. Na "sociedade cognitiva" não pode mais existir lugar
adaptação da mão-de-obra às novas condições do mercado de separado do mundo profissional, exclusivamente consagrado aos
trabalho, como mostra o Memorando sobre a Educação e a Formação saberes acadêmicos. Na verdade, não existe mais lugar "gratuito"
ao Longo de Toda a Vida (30 de outubro de 2000) que coloca independente da categoria totalizadora da aprendizagem, não pode
deliberadamente a educação e a formação ao longo de toda a vida em haver mais do que "pontes", "redes de aprendizado", "rotas flexíveis",
uma lógica de emprego. "parcerias", e todas as formas de interpenetração facilitadas pelo uso
O novo paradigma está repleto de perigos: de confusão de das novas tecnologias.
lugares, de dissolução de conteúdos e de empobrecimento cultural, Esse "novo paradigma" quer responsabilizar os cidadãos por seu
quando é interpretado na lógica restritiva do capital humano. Supõe- dever de aprender. Nesse sentido, mais do que uma resposta às
se, com efeito, que toda a estrutura da educação se recomponha a necessidades de autonomia e de expansão pessoal, é uma obrigação de
partir dessa noção. A concepção conduz a colocar no mesmo plano,
sobrevivência no mercado de trabalho que comanda essa forma
múltiplas "formas de aprendizagem permanente" que devem se
pedagógica da existência. Assim, autodisciplina e auto-aprendizado se
articular, mesmo se subjugar, de modo ao mesmo tempo leve e
completam. Se os indivíduos não são mais capazes de "gerenciar a
complexo, a uma "estrutura de oferta de formação" diversificada 14 .
incerteza" e de "assegurar sua empregabilidade" em uma sociedade
Essa combinação passa pela abertura da escola em direção ao exterior
onde o risco de marginalização é cada vez maior, a eficácia global da
e a conduz a construir "parcerias" múltiplas e duráveis com outros
economia será diminuída. Os custos gerados por uma fração
interventores: famílias, coletividades locais, empresas, todas,
demasiadamente grande da população, economicamente inútil,
instâncias consideradas como "organizações aprendizes". Segundo o
sobrecarregarão as contas sociais e as taxas fiscais. Além disso, a
Memorando europeu, diversos modos de aquisição de saberes são
expansão pessoal não é "gratuita", ao contrário, é vista como fonte de
ganho para a empresa e a sociedade 1S . Trata-se de permitir aos

14. A OCDE já tinha avançado tais perspectivas. "É admitido que a aprendizagem de desenvolva em
múltiplos contextos, formais e infonnais", OCDE, Analyse des poli tiques d'éducation, 1997. 15. OCDE, Analyse des poli tiques d'éducation, 1997.

5O 5 I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

indivíduos se "garantir contra o risco" a que se expõem, cada vez mais, humano tem de criar e explorar os conhecimentos de maneira eficaz
no mercado de trabalho ao satisfazer as expectativas das empresas em e inteligente, em um ambiente em perpétua evolução."
matéria de inovação e criatividade i6 . Essas aparentes banalidades não devem ocultar o conceito que
Efetuado dentro e fora das instituições, o aprendizado ao longo as trama: uma oferta diversificada ao mesmo tempo em seus
da vida está por toda parte e em nenhuma, ele se confunde com a vida conteúdos, seus níveis e seus métodos deve responder às demandas
de um eterno aprendiz "responsabilizado" por seu dever contínuo de individuais. Longe de estabelecer garantias coletivas no quadro das
aprender 17 . Aí está o coração de uma estratégia desreguladora que instituições, essa visão da formação quer ser, fundamentalmente, não-
coloca no mesmo plano, instituições escolares, empresas, institucional. É o indivíduo "responsabilizado", quer dizer, consciente
aprendizados em domicílio e associações em uma noção genérica que das vantagens e dos custos do aprendizado que deve fazer as melhores
pretende, em nome das necessidades do indivíduo e da lógica da escolhas de formação para seu próprio bem. Isso supõe que, para
demanda, criar um vasto mercado da educação no qual ofertas e escolher de modo lúcido, o que ele deve aprender, ele seja bem
financiamentos seriam, cada vez mais, numerosos e diversificados 18 . informado pelas "agências de orientação". Elas liberarão sua
Os textos da Comissão Européia e em particular o Memorando motivação, lhe fornecerão informações pertinentes e lhe "facilitarão a
sobre a educação e a formação, são muito reveladores desse processo tomada de decisão"19. Quanto aos professores, eles se tomarão "guias,
individualista. No quadro de uma vida mais arriscada e mais aberta às tutores e mediadores" que deverão acompanhar os indivíduos isolados
escolhas individuais, o indivíduo é colocado perante suas no seu processo de formação.
responsabilidades de "aprendiz". Não é o caso para uma instituição de
educação a obrigar nem mesmo construir um curso, são os indivíduos o uso estratégico das competências
que constroem, planificam e escolhem segundo sua vontade e seu As palavras não são neutras mesmo quando elas pretendem ser
interesse pessoal compreendendo: "A vontade individual de aprender somente técnicas, operatórias, descritivas. Não é sem importância a
e a diversidade de oferta, tais são as condições indispensáveis a um substituição da palavra "competência" por "conhecimento".
trabalho bem-sucedido de educação e de formação ao longo de toda a Certamente a palavra "competência" em si mesma, tomada fora das
vida", destaca o texto. Ele se faz ainda mais claro: "No seio das relações que mantém com suas vizinhas habituais ou com aquelas que
sociedades do conhecimento, o papel principal é dado aos próprios substitui e fora do contexto da ação social, não está em questão.
indivíduos". O fator determinante é essa capacidade que o ser Percebendo objetivos tão vastos quanto "aprender a ser", "aprender a
fazer", "aprender a viver em grupo" além do objetivo de "aprender a
conhecer"20, poder-se-ia ainda ler essas expressões segundo as
16. Cf. COMISSION EUROPÉENNE, RappoTt Reifers, Accomplir l' Europe par l' éducarion et la
formarion, 1991 , p. 270
17. Como indica a OCDE, essa noção "está em adequação com as necessidades engendradas pelas
mutações que transformam profundamente os países da OCDE, as quais se atem a fenômenos tais como 19. O Memorando da Comissão EuroPéia compara o ofício de orientador ao do corretor da bolsa: "O futuro
05 períodos contínuos de crescimento econômico, a inovação tecnológica, a internacionalização , a papel dos profissionais de orientação e do conselho poderia ser descrito como um papel de "corretagem".
desregulamentação dos mercados, a evolução demográfica e o impulso das novas economias", in Analyse des Guardando presentes no espírito os interesses do cliente, o corretor em orientação é capaz de explorar e de
/I

poliriques d'éducation, 1997. adaptar um vasto leque de informações que o ajudam a decidir o melhor caminho a seguir no futuro"(p.33).
18. O Memorando sobre a educação e a formação ao longo de toda a vida de outubro de 2000 fala de 20. São os "quatro Pilares da educação" segunda o relatório à Unesco da Comissão internacional sobre a
"osffiose" entre os setores de ensino formais, não formais e infonnais (esse último se confunde com lia vida educação para o século XXI, presidida por Jacques DELORS (L'Éducarion, un trésor est caché dedans,
cotidiana") . Odile Jacob, Paris, 1996).

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

perspectivas humanistas mais tradicionais. Poder-se-ia mesmo manter Poder-se-ia, igualmente, sustentar que a noção, quando visa a
que a "entrada pelas competências" permite remeter ao domínio associar o conhecimento à prática, recoloca em questão a divisão,
jurídico no qual o termo implica uma ligação muito definida entre os freqüentemente, muito rígida entre o "abstrato" e o "concreto",
poderes e os status. No entanto, o sucesso atual do termo só se atém divisão na qual se fundem a triagem escolar e a distribuição dos
de muito longe a uma reativação dos ideais de Erasmo ou de Rabelais empregos. Mas ela se inscreve, sob outro ponto de vista, no conjunto
e tem bem pouco a ver com uma consolidação dos direitos dos das ferramentas de avaliação e de remuneração, de controle e de
assalariados. O emprego estratégico que dele é feito tanto na empresa vigilância à disposição dos empregadores que buscam racionalizar da
quanto na escola é inseparável da nova "gestão de recursos humanos" maneira mais justa sua mão-de-obra, concebida como "estoque de
na qual a escola tem o papel inicial. Esse uso é mesmo competências". A "competência" como lembram Françoise Ropé e
preferencialmente destinado a questionar as tarefas tradicionais da Lucie Tanguy, designa um conhecimento inseparável da ação, ligado
a um savoir-faire que depende de um saber prático ou de uma
escola, a transmissão de conhecimentos e a formação intelectual e
faculdade mais geral, que o inglês designa pelo termo "agency". Dessa
cultural no sentido mais amplo do termo.
maneira, designa-se capacidade em realizar uma tarefa com ajuda de
Essa noção de "competência" é a aposta dos debates numerosos
ferramentas materiais e/ou de instrumentos intelectuais. Um
e possivelmente embaralhados nos quais não entraremos 21 . A noção é
operador, um técnico, um homem de arte possuem competências
polissêmica (tem um sentido em direito, em lingüística, em psicologia
profissionais. Nesse sentido, a competência é aquilo pelo qual o
cognitiva) e se presta então a múltiplos usos sociais, o que reforça sua
indivíduo é útil na organização produtiva.
evidência e sua aparente neutralidade. A dificuldade prende-se aqui
A noção teria mais fortemente pertinência nos dias atuais,
ao fato de que o termo pode designar realidades variadas, tanto
quando as transformações do trabalho, em particular com a difusão
encerrar incontestáveis progressos democráticos quanto conduzir a
das novas tecnologias de informação, rompem a antiga ligação entre
verdadeiros retrocessos. "Noção encruzilhada" para alguns, "atrativo
um ofício, uma especialidade e um diploma ou, ainda, permitem
estranho" para outros, a competência permite por exemplo que os
transcender a oposição antiga entre trabalhadores intelectuais e
assalariados tenham reconhecidos alguns savoir-faire não
operadores de máquinas. Tudo isso tem sua porção de verdade, mas o
sancionados por diplomas, que os empregadores não estão,
uso predominante que determina seu significado principal e sua
espontaneamente, prontos a reconhecer. Certos sindicatos são eficácia simbólica se atém a considerações estratégicas. No contexto
favoráveis à valorização e à validação de competências profissionais atual, a noção está no princípio dos discursos que constroem as
quando não foram reconhecidas socialmente pela tradução simbólica relações de força entre grupos sociais. A competência está
através de um diploma ou de um outro título. Uma grande parte da estreitamente conectada com a exigência de eficácia e de
qualificação profissional, quando não foi sancionada flexibilidade solicitada aos trabalhadores na "sociedade da
institucionalmente, não encontra, efetivamente, no empregador seu informação" .
justo reconhecimento nem sua retribuição correspondente. No campo econômico e profissional, se a noção de
"competência" vem, assim, cada vez mais, substituir a noção de
qualificação, isso se prende a que, na antiga sociedade salarial, a
21 . É uma das noções dúbias, cuja palidez favorece o uso grandioso que é feito por agemes diversos. [ .. ]
qualificação funcionava como uma categoria imediatamente social à
É forçoso reconhecer que a plasticidade desse termo é um elemento da força social de que ele se reveste e das
idéias que ele veicula", escrevem F. ROPÉ e L. TANGUY, op. cit., p. 14. qual estava atrelado um conjunto de garantias e direitos. Desde a

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

Liberação, ela estava codificada em grades por acordos nacionais ou espaço para as direções na apreciação da eficácia de seu pessoal e que
particulares, definida em referência a diplomas e constituía a base das a evolução das tecnologias permite medir muitas vezes mais
remunerações. Esse reconhecimento da qualificação nas convenções estreitamente os rendimentos efetivos dos empregados. A
coletivas equivalia a uma formalização coletiva dos julgamentos competência não é validada por um título permitindo fazer valer de
sociais sobre o valor das pessoas e dos trabalhadores, por intermédio modo seguro e estável seu valor, ela justifica, antes de tudo, uma
de um estado detentor, graças ao sistema educativo, da avaliação avaliação permanente no quadro de uma relação não igualitária entre
legítima 2Z • A qualificação certificada por um diploma dava, assim, ao o empregador e o assalariado.
Estado educador uma função de garantia, em última instância, do Passa-se, assim, de um sistema onde o julgamento sobre o valor
valor pessoal. Isso dava um poder às vezes muito grande aos veredictos de uma pessoa era atividade de uma instituição pública, para um
escolares, o que a sociologia crítica de Pierre Bourdieu salientou sistema onde a avaliação pertence, mais diretamente, ao jogo do
abundantemente. mercado de trabalho. O mercado se toma assim, no lugar do Estado a
instância mediadora vista como responsável por fixar os valores
Mas essa sociedade salarial se desfaz, as dimensões
profissionais dos indivíduos.
institucionais e coletivas das relações salariais se decompõem. A
Definida como uma característica individual, a categoria de
função mediadora do Estado é questionada em nome de uma maior
"competência" participa da estratégia de individualização perseguida
transparência do mercado e de uma maior individualização das
pelas novas políticas de gestão de "recursos humanos". Qualidade
relações sociais. A contestação que contém implicitamente a
pessoal reconhecida em um dado momento, ela não suporta nenhum
promoção da noção de competência se inscreve nessa tendência. O
direito, não liga o trabalhador a nenhum grupo, a nenhuma história
patronato mantém doravante um discurso de desconfiança com
coletiva, ela tende preferencialmente a seu isolamento e despedaça
relação ao título escolar. Segundo ele, o diploma congela a hierarquia
seu percurso profissional. O empregador não compra mais somente
profissional, bloqueia a mobilidade e a atualização constante dos um serviço produtor com uma duração definida, nem mesmo uma
savoir-faire, prejudica a avaliação e a recompensa dos resultados qualificação reconhecida dentro de um quadro coletivo como no
efetivos. tempo da regulação fordista de pós-guerra, ele compra sobretudo um
Denunciando apenas o efeito de "casta" do diploma - que, "capital humano", uma "personalidade global" combinando uma
paradoxalmente, diz respeito particularmente às direções das grandes qualificação profissional stritu sensu, um comportamento adaptado à
empresas - mas esquecendo muito facilmente quanto o diploma pode empresa flexível, um gosto pelo risco e pela inovação, um
ser um meio de resistência ao arbítrio patronal para os trabalhadores engajamento máximo na empresa, etc.
da base ou do meio da escala, os chefes de empresa querem fazer da Como mostraram Luc Boltanski e Eve Chiapello, o
"competência" uma ferramenta permitindo a análise fina da gerenciamento moderno introduz na relação salarial a dimensão
empregabilidade, a vigilância constante da mão-de-obra e a empresa "pessoal", retornando assim em seu benefício o que havia sido
mais fechada no trabalho. Essa ferramenta de poder é ainda mais evidenciado contra o taylorismo, a preocupação com o fator
utilizada quando as relações de força na empresa deixam um grande human0 23 . Essa "personalização" reúne uma tendência à
desmaterialização da produção que modifica todas as atividades e as

22. Cf. Danielle COLARDYN, Lagestion des compétences, PUF, Paris, 1996, p. 57. 23. Luc BOLTANSKI e Eve CHIAPELLO, Le Nouvel Esprit du capitalisme, Gallimard, Paris, 1999.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

aproxima de serviços nos quais são as pessoas que são diretamente iniciativa - essas qualidades e outras competências "genéricas" - são,
fornecedoras de satisfação e não produtos fornecidos pelos agora, essenciais para assegurar a competitividade das empresas. Ora,
trabalhadores. essa tendência corresponde, sob outro ponto de vista, à evolução pela
qual a pedagogia passa. Numerosos docentes desejam abandonar a
A pedagogia das competências tradição que consiste principalmente em transmitir conhecimento a
Por trás dessa substituição da qualificação pela competência, se seus alunos e preferem fazê-los aprender a refletir e a aprender por si
joga a substituição de uma validação do valor pessoal pelo Estado, por mesmos. Felizmente, para esses docentes e seus alunos, deixar os
um "mercado do valor profissional" mais flexível e mais transparente. jovens tomar iniciativas e decisões na sala de aula constitui uma
A contradição não é no entanto levantada: é necessária uma norma excelente preparação para o moderno mundo do trabalho. É verdade
geral que torne visível a competência, que assegure uma "medida que os professores não estão todos dispostos a enfatizar essas atitudes,
comum", função que justamente a certificação escolar preenche. Na assim como muitas empresas não sabem, ainda, utilizá-las. Mas as
medida em que não se pode dispensar totalmente o sistema educativo, empresas que têm as políticas mais avançadas em matéria de recursos
a tendência consiste em introduzir na escola a "competência lógica" e humanos, caminham, freqüentemente, no mesmo sentido que as
combinar assim a marca do sistema educativo e a determinação mais escolas que desenvolvem programas de estudos mais inovadores"24. O
rígida da formação da mão-de-obra pelas empresas que delas se Memorando da Comissão Européia, já citado, diz a mesma coisa. Os
utilizam. docentes solicitados a se tornarem "guias, tutores e mediadores do
Seria necessário, então, que a escola passasse de uma "lógica de aprendizado" deverão se adaptar a demandas de indivíduos e de grupos
conhecimentos" para uma "lógica de competência". É suficiente pluriculturais, os mais variados, o que supõe rever completamente os
lembrar aqui as propostas mantidas pelos peritos da OCDE, da Mesa objetivos e métodos de ensino.
Redonda Européia ou da Comissão Européia para se perceber a Nos Estados Unidos, uma comissão composta por dirigentes
importância dada a essa mutação pedagógica. A OCDE, por exemplo, econômicos e educativos, o SCANS (Secretary's Comission on
alia a lógica gerencial e a nova pedagogia de maneira particularmente Achieving Necessary Skills) redigiu em 1991 um relatório intitulado
explícita: "Quando os professores começaram a colaborar com as "O que o mundo do trabalho espera da escola" ("What Work Requires
empresas, descobriram uma outra razão importante para não mais from School"). Nesse documento, cinco competências fundamentais
desconfiar do mundo dos negócios: os objetivos dos dois parceiros são esperadas dos futuros assalariados, concernentes à geração de
eram, freqüentemente, muito mais próximos do que um ou outro recursos, ao trabalho em equipe, à aquisição e utilização de
pudesse imaginar. Supôs-se, durante longo tempo, que havia um informação, à compreensão das relações complexas, ao uso de diversos
conflito inevitável entre a finalidade precisa de preparar uma criança tipos de tecnologias. Nesse, como em outros textos, a escola recebe
para o trabalho e o objetivo de cultivar seu espírito. Na medida em por missão principal dotar os futuros trabalhadores de atitudes que
que as empresas têm necessidade de trabalhadores com qualificações possam transpor contextos profissionais variáveis: "ler, escrever,
técnicas ligadas a tarefas específicas, esse conflito é sempre muito real. contar" são competências indispensáveis para comunicar mensagens.
Porém, cada vez mais, as qualidades mais importantes exigidas no
mundo do trabalho e aquelas que as empresas querem encorajar as
escolas a ensinar, são de ordem mais geral. A adaptabilidade, a 24. Centro para a pesquisa e a inovação no ensino (CERI) , Écoles et entreprises: un nouveau partenariat,
faculdade da comunicação, a de trabalhar em equipe, de mostrar OCDE, 1992, p. 11.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

Se "refletir" é uma competência importante, é para melhor "resolver múltiplas. Hervé Boillot assinala que "os saberes disciplinares são
problemas" e ter meios de aprender a aprender. As qualidades morais assim recompostos em uma multiplicidade de atos e de operações
adquiridas devem permitir se integrar em um grupo. Trata-se de mentais que, para o aprendiz, significa identificar e dominar, quer
incutir um "espírito de empresa" que um relatório da OCDE define dizer, poder reproduzir em situação". A aprendizagem tem por objeto
como a aquisição de "certas disposições, atitudes e competências do a aqulslçao de competências cognttlvas, de competências
indivíduo: criatividade, iniciativa, aptidão para a resolução de fragmentadas que servem de suporte à determinação pedagógica de
problemas, flexibilidade, capacidade de adaptação, exercício de objetivos. Esses descrevem, de maneira detalhada, as tarefas a cumprir
responsabilidades, aptidão ao aprendizado e à reciclagem"25. que mobilizem essas competências às quais, para as necessidades de
Desde que a "competência profissional" não é redutível apenas avaliação, deve poder corresponder, a cada vez, um comportamento
aos conhecimentos escolares mas depende de "valores observável 26 .
comportamentais" e de "capacidades de ação", a escola é intimada a Além do ensino técnico e profissional, são todas as vias de
adaptar seus alunos aos comportamentos profissionais que lhes são ensino que são "reformatadas" segundo a "lógica da competência".
reclamados mais tarde. Muitos administradores e criadores de Algumas grandes datas marcam essa generalização. Se já o relatório
programas se lançaram com zelo nessa tarefa de "modernização" dos Bourdieu-Gros de 1989 (Princípio para uma Reflexão sobre os
conteúdos e dos métodos de ensino. O ensino técnico foi Conteúdos do Ensino) se aventurava em desenvolver a idéia de uma
particularmente afetado por essa maneira de conceber as missões da "tecnologia intelectual" sob forma de "ferramentas de pensamento" e
escola. As comissões profissionais consultivas, que reúnem de métodos separados dos conteúdos, é sobretudo a criação do
representantes do mundo escolar e do mundo industrial, receberam a Conselho Nacional dos Programas, em seguida à grande consulta de
função de estabelecer referenciais de formação a partir de referências 1989 que marca uma virada. O regulamento dos programas publicado
no Jornal Oficial de 6 de fevereiro de 1992, formula a nova doutrina
de cargos, fundamentadas nos recenseamentos finais e exaustivos das
da matéria, como mostrado por L. Tanguy. Os conhecimentos são
competências teóricas, comportamentais e práticas, requeridas. Não é
reinterpretados no léxico das competências, dos objetivos, das
que os saberes sejam suprimidos, a tendência é de não ver neles mais
avaliações, dos contratos. Ele redefine o programa escolar como uma
do que ferramentas ou um estoque de conhecimentos operatórios,
soma de "competências terminais exigíveis no final do ano, de ciclos,
mobilizáveis para resolver um problema, tratar uma informação,
ou de formação, às quais associa as modalidades de avaliação
realizar um projeto.
correspondentes "2 7.
A competência, que presumidamente permite levar em conta
O Relatório Faroux retomou essa idéia propondo instituir um
uma situação concreta, não pode ser descrita e julgada sem as tarefas
referencial nacional de competências associado a uma bateria de
prescritas observáveis e objetiváveis segundo critérios precisos. A
provas, "verdadeira armadura" de instrumentos de medida, pouco
avaliação, se possível em situação operacional, torna-se
dispendiosos em tempos de correção. Na escola primária são impostas
verdadeiramente, o centro do processo de aprendizado e impulsiona a
cadernetas de competência que aprisionam a atividade docente
decompor os saberes em tarefas separadas e em realizações e operações

27. Citado por L. TANGUY, op. cit., p.33.


25. Ibid., p. 30. Cf. no mesmo espilito, COMISSION DES COMMUNAUTÉS EUROPÉENNES, 26. Hervé BOILLOT, "La "démocratization» , simu/acre et démocratie» , in]. PLANTIER (dir.) ,
Livre blanc, Enseigner et apprendre vers la société cognitive, 1995, p. 31 esq. Comment enseigner? Les dilemmes de la culrure et de la pédagogie, L'Harmattan, Paris, 1999, p. 56.

6O 6I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

dentro de prescrições restritas. Desde o maternal, a avaliação modifica os saberes e os savoir-faire em elementos isoláveis analiticamente e,
o olhar dos professores e seu trabalho com as crianças. Durante os no final das contas, por colocar em pedaços o "aprendiz", segundo os
anos 1990, os boletins trimestrais e as cadernetas escolares introduzem diversos registros de competência que se acredita poder distinguir na
a "lógica competência" nos julgamentos e veredictos escolares. Mais avaliação. Essa "lógica da competência", dando mais prioridade às
amplamente, os grandes programas de avaliação trazidos pela OCDE qualidades diretamente úteis da personalidade empregável do que a
apelam para essa noção de competências sociais na "vida real", a partir conhecimentos realmente apropriados, mas que não seriam
das quais os governos são convidados a julgar e a corrigir os sistemas necessariamente e imediatamente úteis economicamente, comporta
educativosz 8 . um sério risco de desintelectualização e de desformalização do
Os programas mudam de significado e se transformam em guias processo de aprendizagem.
prescrevendo objetivos detalhados e explicitados, chegando, por vezes A pedagogia das competências, supostamente, segundo seus
até a indicar o tempo que corresponde a cada um e as diversas etapas promotores, responde ao imperativo geral de controle fino e de
que cada lição deve seguir. A elaboração de referenciais sobre o avaliação rigorosa segundo normas idênticas para todos, eliminando,
modelo da formação contínua foi sistematizada na formação inicial portanto, o que poderia ser um traço de classe ou um código implícito
com a criação dos bacs* profissionais em 1985. Desde então, foi do meio social. No entanto, introduzir a noção de competência na
aplicada a todas as disciplinas e todos os níveis. Esse método que escola não contribui, necessariamente, para melhorar a relação com o
consiste em analisar detalhadamente os conteúdos ensinados e a saber das crianças de famílias populares: tais competências são, com
traduzi-los em "savoir-faire" e em "competências" participa de uma efeito, sejam muito especializadas, perdendo então todo o sentido
padronização pedagógica que é, supostamente, fonte de eficácia. intelectual, sejam muito amplas (saber tomar a palavra, trabalhar em
Referenciais de diferentes disciplinas, tipos de exercícios propostos equipe ... ) o que as envia novamente a maneiras de ser implícitas, a
aos estudantes, sistemas de avaliação, critérios de julgamento nos competências socialmente herdadas z9 . Uma das contradições
boletins e cadernetas, conteúdos de diplomas, todas essas ferramentas pedagógicas da nova ordem escolar está nisso: como mobilizar a
escolares subordinadas à categoria de competência, ao mesmo tempo atividade intelectual dos estudantes, desvalorizando as disciplinas
em que tornam técnico, taylorizam e burocratizam o ensino, científicas e culturais e deixando pensar que a experiência prática,
estabelecem, de modo progressivo e quase automático, uma coerência espontânea e "informal", os engajamentos associativos ou as boas
com o mundo das empresas para definição dos perfis de cargos e das intenções caritativas são da mesma ordem que os estudos escolares e
listas de competências construídas para selecionar, recrutar, formar a educação física e cultural que eles proporcionam30 ?
mão-de-obra. Em suma, ela permite articular racionalmente a "gestão Examinamos aqui apenas algumas das maneiras de falar dos
dos fluxos escolares" com a gestão de recursos humanos na empresa. reformadores "modernos". Outras noções, mais clássicas, são objeto de
Esse ensino às migalhas utiliza todas as novas tecnologias de
avaliação que, sob pretexto de racionalização, terminam por recortar

29. Bernard CHARLOT, "Le rapport au savoir", in Jean BOURDON e ClaudeTHÉLOT (dir.) ,
28. Cf. o relatório do Programa Internacional para o acompanhamento das conquistru dos alunos (PISA- Éduacation et formation, CNRS, Paris, 1999, p. 33·34.
Programme International pour le suivi des acquis des éleves) , Knowledge and Skills for Life, publicado em 30. Essa equivalência falaciosa falsamente equalizadora, preside a instalação do novo sistema de créditos das
dezembro de 2001 e sua análise em Nouveaux Regards, no 16, inverno 2002. unidades de ensino batizado por Jack Lang, o antigo ministro da Educação nacional (da França), o "euro
"Nota tradutor: bac significa baccalauréat, exame nacional a que são submetidos os estudantes no fim do das Universidades". Cf. Emmanuel DAVIDEN KOFF, "I.:université française entre en classe européenne.
secundário (na França) e que dá acesso a Universidade. Le ministre crée um systeme favorable aux échanges", Libération, 24 de abril de 2001.

62 63
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 4

mutações igualmente significativas. Seria necessário, por exemplo, se


interrogar sobre o destino de um termo como "serviço" para revelar os
A ideologia da profissionalização
desvios e deslizes que sofre na nova ortodoxia. Se, por um lado se faz
uma concessão de que o financiamento do sistema escolar deva
permanecer público, é para logo afirmar que sua missão de "serviço
público" o obriga a se tomar uma empresa assegurando um "serviço"
de formação para cliente/-usuário que formulam uma demanda a ser
satisfeita. Mas, defini-la como um "serviço" prestado aos indivíduos é,
"A época onde a formação inicial era
muitas vezes, analisar sua destinação em termos de capital humano.
um território proibido para a empresa
Daí uma postura insustentável dos reformadores "modernistas" de está terminada. Saibamos
esquerda que, depois de quase vinte anos, acreditam que, importando extrair todas as conseqüências"
essas categorias do mundo da empresa e da teoria liberal, defenderão CNPF, Jornadas de Deauville
8 de outubro de 1990
melhor o serviço público em face da extensão da lógica de mercado.
O balanço pode ser estabelecido: essa importação antes solapou os
fundamentos simbólicos e morais da instituição escolar do que os
consolidou. Compreende-se, inversamente, que as concepções Repete-se, freqüentemente, como uma evidência, que os dois
"modernas" do serviço público, respondendo apenas aos critérios de mundos, da economia e da escola enfim se descobriram e é possível
eficácia e rentabilidade, sejam altamente apreciadas pelos aos poucos sobrepujar seus preconceitos. Além dos estereótipos
ultraliberais, que nela vêem uma propedêutica necessária à gestão idílicos do "reencontro" e do "casamento da razão", importa
privada, senão de toda a escola, pelo menos de suas atividades e de compreender a natureza da profissionalização da escola que está em
seus segmentos mais rentáveis. Esse raciocínio enviesado, que curso. A confusão das linguagens econômica e educativa facilitou a
pretende a objetividade e a eficácia, facilitou a transformação do implantação de uma ideologia poderosa na França que, bem antes das
sistema educativo em um apêndice da máquina econômica tomando palavras de ordem da Comissão Européia, do ERT, do CNPF depois do
naturais as novas finalidades que lhe são atribuídas. MEDEF que querem colocar a escola a serviço da economia,
influenciou a evolução das estruturas mas, sobretudo, começou a
transformar a representação da função da escola,
A profissionalização é um dos embasamentos da nova ordem
da escola. Se a tendência é antiga e se apega à forma das sociedades
salariais, o neoliberalismo se apresenta hoje como uma radicalização
dessa lógica. O fenômeno mais significativo depende do fato de que
todos os níveis e todos os cursos, e não somente seus anos terminais,
nem somente os cursos profissionais e tecnológicos, são atingidos por
essa finalização. A profissionalização tomou-se um imaginário que
gostaria de reinterpretar todos os atos e todas as medidas pedagógicas
em função de um fim único. Essa ideologia, que transforma a política

64 65
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

educativa em uma política de adaptação ao mercado do trabalho, é Essa nova ideologia escolar pretende responder a um
uma das principais vias de perda de autonomia da escola e da verdadeiro problema em uma economia moderna, a formação da mão-
universidade. Sem dúvida, ela geralmente se apresentou como uma de-obra. Desde os anos 1960, a problemática da inserção social
via de modernização do sistema escolar e mesmo como a via régia de começou a levar a melhor no ensino sob a visão da integração política
sua democratização. Mas ela constituiu sobretudo uma reabilitação da dos futuros cidadãos. Como assinala, justificadamente, Bernard
empresa, quando não, estigmatiza a educação pública!. Charlot: "A escola da Terceira República devia integrá-los ao corpo
A França não é um caso à parte. Em todo o ocidente desde os da nação evitando, ao mesmo tempo, abalar sua dependência social.
anos 1980, o objetivo foi de reaproximar ou de "casar" a escola com o A escola que se instala nos anos 1960 não pensa mais nem em termos
mundo econômico, por uma operação de hibridação generalizada. A de dependência social (todos os cursos são, pelo menos em direito,
universidade foi sem dúvida a mais exposta a essa tendência. Ao invés abertos a todos), nem em termos de integração, mas em termos de
das críticas formuladas em Maio de 68 denunciando as ligações inserção, que se torna a palavra mestra. A escola deve inserir o jovem
perigosas entre a universidade e o capitalismo, a situação econômica, em uma sociedade onde a classe assalariada se generalize, onde os
a penúria de emprego e a conjuntura ideológica dos anos 1980 ofícios, repousando na posse de um patrimônio (agricultura,
contribuíram amplamente para banalizar a idéia segundo a qual a comércio .... ) se rarefazem e onde o nível de inserção profissional e
universidade devia estar estreitamente subordinada às necessidades social dependem, cada vez mais, do nível escolar atingido"4.
econômicas de mão-de-obra. Desde 1984, a lei Savary sobre o ensino De fato, a profissionalização dos estudos é uma dimensão sem
superior dava, assim, o status de Estabelecimento Público com dúvida incontornável em nossas sociedades. A escola prepara para o
Caráter Científico, Cultural e Profissional (EPSCP) aos ofício e o sucesso escolar parece sempre garantia de sucesso social e
estabelecimentos superiores e integrava explicitamente sua missão na profissional. A maior parte das famílias, em todos os meios , sustenta
política do empreg0 2• a escolarização de suas crianças na esperança do "bom ofício" que,
Nos últimos 20 anos, o consenso em favor de uma tal presum~damente, deve se encontrar ao fim de uma escolaridade
orientação parece muito amplo. Assim, quando a Comissão Européia completada. Além disso, o imperativo da profissionalização da escola
afirma que "a escola e a empresa são locais de aquisição de saberes pode se apoiar em uma angústia social massiva, em um período de
complementares, que é necessário aproximar"3, parece tratar-se de desemprego crescente. Um dos argumentos mais freqüentemente
uma asserção perfeitamente inocente e evidente. Aquele que ainda repetido pelos "realistas" para "aproximar a escola e a empresa" foi, ao
ousa se perguntar se esse gênero de proposta não tende a colocar no longo dos anos 1980, a alta taxa de desemprego dos jovens. Esse
mesmo plano dois "ambientes" com lógicas muito diferentes ou, argumento convenceu ainda mais porque, segundo os estudos
mesmo, a submeter um ao outro, arrisca fortemente passar por um estatísticos, o risco do desemprego cresce efetivamente quando não se
conservador, um elitista e um nostálgico. é ou é pouco diplomado. Isso explica, em parte, o aumento de
demanda de escolarização e profissionalização dos estudos, por parte

1. Cf. solYre esse ponto, Jean-Pierre OBIN, La face cachée de la fonnation professionnelle, Hachette, Paris,
1995.
2. Cf. R. BOURDONCLE, "Profession et professionnalisation", in Recherche et professionnalisation,
relatórios para DRED, MEN, junho de 1992.
3. COMMISSION DES COMUNAUTÉS EUROPÉNES, op. cit., p.60. 4. Bemard CHARLOT, ICÉcole et le territoire ,op. cito ,p.31 .

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

das famílias e dos alunos. O pressuposto da tese oficial é, portanto, servir as empresas com mão-de-obra "adaptada". É possível, então, se
discutível. Ela sustenta que o emprego não falta, que há mesmo um interrogar sobre o seguinte paradoxo: enquanto o "técnico" como
excesso de ofertas de emprego. O que faltaria seria a qualificação currículo que leva ao emprego, continua a ser desprezado, enquanto
adequada para os ocupar. A escola é, em decorrência, acusada de seu ensino específico é marginalizado ou ignorado, ele se tomou uma
preparar mal para a vida profissional, de estar muito afastada das espécie de "chefe geral" sobre o qual deveriam se calcar todas as outras
preocupações do emprego. A política seguida pelos poderes públicos a formas de saberes e de estudos, pelo próprio fato de estar
partir dos anos 1970 seguirá, então, uma lógica de melhoramento da estreitamente articulado ao "profissional", segundo a máxima
formação dos jovens que demandam emprego, sob a forma de estágios proposta por Roger Faroux de acordo com a qual toda formação deve
e outros "pactos para emprego", enquanto a política social e urbana ser profissionalizante6.
tentará remediar uma "socialização enfraquecida".
Como nós havíamos tido a ocasião de relembrar, o objetivo da A escola englobada
escola republicana se desviou segundo o tríptico do homem, do Essa interpretação dos objetivos da escola tem um alcance
cidadão e do trabalhador. Uma das principais reivindicações dos geral, ao mesmo tempo moral e político. Segundo os advogados dessa
movimentos sindicais, associativos e políticos progressistas foi, e mutação, a escola é, doravante, incapaz de assegurar sua obra
ainda permanece, aquela de uma educação geral, verdadeiramente formadora sem o socorro da empresa. Desde 1988, Yves Cannac,
completa, não negligenciando nem a inserção nem a promoção antigo funcionário e homem de negócios, o diz sem rodeio nas
profissionais. Esses movimentos, se desconfiam, legitimamente, dos Jornadas de Deal\ville do CNPF, as quais vão consagrar a noção de
modos de exploração dos jovens aprendizes por patrões pouco "empresa formadora": "Hoje em dia é o mundo do ensino que chama
escrupulosos, não esquecem que muitos dos jovens dos meios a empresa. É ele que pede à empresa para aconselhá-lo e ajudá-lo.
populares devem receber a qualificação profissional a mais sólida Como, em nome do que, poderíamos recusar ajuda e conselho?" O
possível no âmbito escolar, para ter mais trunfos no mercado de mesmo Yves Cannac define assim a nova missão "salvadora" da
trabalhoS. Além disso, na tradição mais constante do movimento empresa: "No fundo, se tomamos uma certa distância, é patente que a
operário, o trabalho e a técnica são vistos como fontes importantes de escola republicana não está apta a manter sozinha, mesmo
cultura, tempo demais esquecidos por uma concepção idealista do aproximativamente, sua promessa de desenvolvimento das aptidões
conhecimento. de cada um e de igualdade de chance para todos.[ ... ] O remédio para
Essa reivindicação, que na época se voltou contra uma visão essa situação prejudicial para todos deve ser procurado na empresa
etérea da educação herdada do desprezo aristocrático pelo trabalho, é, pelo menos por causa tanto de seus valores quanto de seus meios"7. A
hoje em dia, recuperada pelos mantenedores da escola neoliberal que OCDE diz a mesma coisa nos seus relatórios que convidam ao
fazem da inserção profissional o principal fundamento da reforma que desenvolvimento de parcerias: "O ensino colocado sob a influência
eles desejam. Mas eles não o fazem para promover o valor do trabalho, exclusiva do Estado apresentou carências graves, notadamente na
para melhor defender a dignidade dos "profissionais", mas para melhor

6. Roger FAROUX, Pour l'école, Calmann-Lévy, Paris, 1996, p. 23.


5. Cf. Chamai NICOLE-DRANCOURT e Laurence ROULLEAU-BERGER, Les jeunes et le travai!,
7. Cf, o relatório em Éducation-Économie, n' 10, março de 1991, p. 15 et sq.
1950-2000, PUF, Paris, 2001.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

preparação dos alunos para a vida ativa"8. A base do raciocínio é o Alto Comitê não é somente uma instância de observação, de
simples: se não se pode mais conceber uma escola como uma ilha estudos e de previsões, necessária para compensar a miopia do
separada da sociedade e da economia, é preciso aceitar que as mercado quanto aos empregos futuros. Pela sua própria finalidade,
empresas contribuam na definição do conteúdo e dos métodos de tende a desenvolver o mundo escolar na lógica econômica
ensin0 9. construindo, entre outras instâncias e outros lugares, o novo ideal
Segundo os defensores da integração completa da escola nessa normativo para se impor ao sistema educativo.
lógica econômica, a intervenção das empresas se tornou possível a As publicações do Alto Comitê, fornecendo, freqüentemente,
partir do momento em que os professores abandonaram, quase em uma apresentação idealizada da empresa, parecem feitas para
toda parte, sua prevenção "ideológica" com respeito à empresa e justificar o imperativo da adaptação às necessidades das empresas. O
compreenderam, com a ajuda do desemprego, que eles tinham por argumento parte de algumas evidências e tira conclusões unilaterais:
missão adaptar a oferta de mão-de-obra à demanda: "O capitalismo e se três jovens em quatro têm por destino a empresa, conviria prepará-
a empresa, fora de moda nos anos 1960, se tomaram respeitáveis nos los, e mesmo pré-adaptá-los o mais cedo possível. Nenhuma outra
anos 1980. Quanto aos professores, o desemprego que os maltratou dimensão da personalidade diferente da atividade profissional saberia
nos anos 1980 lhes deu uma razão suplementar para admitir as dar importância ou, mais exatamente, nenhum tipo de emancipação
prioridades, assim como as críticas, dos empregadores sobre as intelectual saberia se destacar sobre a finalidade profissional. A
insuficiências do ensino"lO. A antiga primeira ministra Edith Crésson necessária profissionalização dos estudos que se pode deduzir e que se
podia declarar na tribuna da Assembléia Nacional em maio de 1991, apresenta sob o exterior do bom senso, em uma sociedade salarial,
no seu discurso de posse: "Eu desejo encorajar, desde o colégio, a não é mais, então, uma finalidade, entre outras, da escola, ela tende
abertura real ao mundo das empresas". a se tomar uma representação dogmática e exclusiva, que não quer
Nesses últimos anos, certas instâncias tiveram igualmente um ver nos alunos mais do que futuros trabalhadores a formar segundo as
papel no mínimo ambíguo, como o Alto Comitê Educação- necessidades da economia 11 •
Economia. Essa instância (rebatizada atualmente como Alto Comitê Em todos os países capitalistas, os desejos do patronato e de
Educação-Economia-Emprego) instalada por René Monory em 1986 suas organizações têm o mesmo sentido: determinar de maneira mais
recebeu por missão reaproximar o sistema educativo e o mundo da precisa o conteúdo das formações a fim de dispor de uma mão-de-obra
empresa. Reagrupando administradores e representantes do mundo mais "empregável" e mais capaz de utilizar as ferramentas técnicas
econômico e social, ele teve um grande papel no objetivo de levar mais modernas. Na França, para se "adaptar" ao mercado de trabalho,
80% de uma faixa etária ao "baccalauréat*", em particular com a em um contexto de incerteza exacerbada e na ausência das previsões
criação, seguida de expansão, dos "baccalauréats*" profissionais. Mas anteriormente fornecidas pelo Plano, a estratégia consistiu em

8. Centro para a pesquisa e a inovação no ensino (CERI) , Écoles et entreprises: um nouveau partenariat,
OCDE, 1992, p. 7. 11. No mesmo espírito, Jacques Lesourne não hesita em assimilar os q!tatorze milhões de crianças e de
9. Ibid., p. 9-10. jovens escolarizados a ativos potenciais: "Se se considera 05 alunos e estudantes como ativos que trabalham
10. Ibid., p. 10 para se formar, o sistema educativo emprega 14,5 milhões de pessoas em uma população ativa ampliada de
35 milhões de pessoas, ou seja 41 %! ", in Jacques LESOURNE, Le Modele français, Odile Jacob, Paris,
* Aspas do tradutor, por não existir equivaleme em português. 1998, p. 162-163.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

reforçar, tanto nos cursos como na pedagogia, o lugar dos falamos anteriormente. As instâncias encarregadas de gerir a
"profissionais" com enfoque direto nas evoluções dos mercados e das articulação emprego/formação (em particular o secretariado das
técnicas. A solução mais freqüentemente avançada, retomada por comissões profissionais consultivas) se lançaram na construção de
exemplo no relatório Faroux, remete a uma co-educação escola- "referenciais de emprego", aplicando à formação, a lógica das
empresa para o conjunto dos caminhos profissionais. Assistiu-se, desse situações de trabalho, em detrimento das coerências disciplinares.
modo, a uma reaproximação mais estreita que se manifestou, entre Como salienta Catherine Agulhon, "há finalização da formação e
outras, pela instauração de procedimentos de "consulta" a fim de instrumentalização dos saberes" em uma perspectiva estritamente
definir o conteúdo das formações e o tipo de diplomas e multiplicar, operaciona11 2•
em nível tanto local como nacional, ações de "parceria" entre
empresas e estabelecimentos de formação profissional (sociedades, A reviravolta
regionalização dos programas de formação profissional, definição das Como explicar a reviravolta do discurso oficial que se pôs a
formações nas comissões profissionais consultivas, atividade do Alto pregar a profissionalização de todos os tipos de curso? Essa tendência
Comitê Educação-Economia, etc.). Igualmente se viu multiplicar o à profissionalização da escola não é nova, mas havia encontrado, até
número e o tipo de estágios de formação, de inserção e de o fim do século 20, seus limites na aspiração a fazer da escola a fábrica
requalificação dos jovens nos locais de trabalho. Em outros termos, se do homem moral e do cidadão. Na França, a tendência que
instalou, progressivamente, uma "partilha do poder pedagógico", prevaleceu historicamente foi a de uma escolarização dos
segundo as aspirações expressas há muito tempo pelo patronato. aprendizados profissionais, testemunho da primazia dos interesses
A escolha decisiva foi feita no início dos anos 1980 pela gerais sobre as estritas necessidades econômicas e individuais. Aqueles
generalização da alternância na formação profissional. Não é que que denunciam a escola de Ferry como uma "escola burguesa",
tenha havido uma completa novidade. Mas o ensino alternado esquecem, freqüentemente, que uma grande parte do patronato de
concernia, até então, aos cursos de escolarização destinados aos setores com forte utilização de mão-de-obra, na área têxtil ou de
alunos em situação de fracasso escolar. Daí em diante, são as construção em particular, só aceitou a escolarização, mesmo primária,
formações qualificantes que obedecem a esse princípio. Os com a mais extrema repugnância, criticando o "esvaziamento da mão-
"baccalauréats*" profissionais são seu melhor exemplo, posto que as de-obra" e reclamando a volta ao mercado de uma força de trabalho
formações que levam a ele, alternam períodos passados na empresa e dócil e adaptada às suas necessidades, que ele não encontrava na saída
períodos passados no liceu, da mesma maneira que as classes de da escola primária.
técnicos de nível superior e de IUT que sistematizam os estágios em Em 1910, Villemin, presidente da Federação Nacional da
empresas. Além disso, o aprendizado se ampliou para novos cursos e Construção e dos Trabalhos Públicos, desejava a criação de escolas
ciclos de estudos, sem esquecer as múltiplas iniciativas locais organizadas e financiadas pelas indústrias em função de suas
consistindo em enviar colegiais em estágios curtos para "descobrir o necessidades: por esse aprendizado, o operário "não terá um excedente
mundo da empresa".
As adaptações necessárias de diplomas às mutações
profissionais se fizeram, muitas vezes, de modo muito mecânico, a
12. Cf. Catherine AGULHOW, "Les relations fonnation-emploi: une quête sans fin?» in François CAROI
partir dos anos 1980, se apoiando na "lógica da competência" de que e André CHAMBON (coord.), Métamorphoses de lafonnation, L'Hannattan, Paris, 1997, p. 35.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

de bagagem teórica; porque é isso que nós tememos ver dar aos das aprendizagens profissionais, afirmando que ela devia repousar em
operários", uma vez que essa formação geral impele o operário a "se dois pilares da formação geral e da formação técnica de alto nível,
evadir de sua situação" 13. Por suas divisões e sua profunda adquirida fora do atelier l5 .
desconfiança em relação à escola, o patronato francês se encontrou na A linha mestra que comandou essa política repousa no ideal
incapacidade de instituir um ensino profissional digno desse nome, e humanista da escola que emancipa, o qual se reconhece por seus
as tentativas de imitar o modelo alemão de formação por alternância ascendentes, tanto Diderot quanto Condorcet. As Luzes devem
falharam por falta de mobilização e de estruturação suficiente das libertar das ligações de dependência pessoal o que explica que, na
empresas. Foi o Estado que assegurou a formação profissional doutrina republicana, a preocupação com a cultura geral e a retomada
indispensável em um mundo econômico dominado por muito tempo dos princípios científicos sejam sempre reafirmadas, apesar das
por pequenos patrões, freqüentemente rotineiros e "com visão de acusações regulares do "enciclopedismo". Assim, Hippolyte Luc,
curto prazo" . Apesar dos temores e das recusas dos meios patronais, do diretor de ensino técnico a partir de 1933, dizia que era necessário, ao
operariado e da pequena empresa que viram sempre com maus olhos lado da preocupação "da utilidade e da utilização", sustentar o "ideal
a ingerência do Estado na formação e na certificação das aptidões imperioso da cultura" 16.
profissionais, é a idéia "bem francesa" da escolarização da formação Essa concepção se chocou com os interesses dos meios políticos
profissional, como a qualificava pejorativamente, um patrão do início e industriais sustentados pelo Ministério do Comércio que, favorável
do século, que se impôs, muito diferente do modelo alemão em certa medida à escolarização da formação profissional, pretendia,
construído sobre o princípio da alternância. no entanto, restringir a parte da cultura geral vista como uma perda
A missão republicana da escola consistindo em assentar a de tempo e de eficácia. O essencial era a formação de uma aristocracia
República na difusão dos saberes, deixou sua marca no ensino profissional compreendendo os "suboficiais do exército do trabalho",
profissional, da forma com que ele foi estruturado no final do século capaz de dar à indústria francesa uma mão-de-obra tão qualificada
19. Foi nessa época que um debate opôs os reformadores republicanos quanto aquela de que dispunham, na época, a Alemanha e a
e os industriais liberais, um debate que, de resto, nunca cessou Inglaterra. Segundo essa concepção, o imperativo da concorrência
inteiramente. Para os primeiros, formar um operário qualificado não econômica devia primar nos objetivos de um ensino técnico
dispensava fazê-lo um bom cidadão. Como dizia Ferdinand Buisson, "autônomo, descentralizado e elitista", com o Estado se contentando
"uma escola profissional não é, antes de tudo, um estabelecimento com o papel de "engenheiro conselheiro da iniciativa privada",
industrial, é, antes de tudo, um estabelecimento de educação e de segundo uma fórmula do diretor geral do ensino técnico em 1925 17 . É
instrução"14. Em um relatório sobre as escolas de aprendizes em 1871, o que justificou a presença dos representantes da profissão nos júris
Octave Gerard, inspetor geral e diretor de ensino primário da região (nas bancas) e nos corpos de inspeção, presença que foi sempre um
de Seine, havia formulado essa doutrina republicana de escolarização princípio da organização do ensino técnico a fim de dar conta das
necessidades econômicas, incluindo regionais.

13. Citado em Guy BRUCY, Histoire des dipl8mes de I'enseignement technique et professionel (1880-
15. Cf., Guy BRUCY, Histoire des diplómes de l'enseignement technique et professionel, op. cit., p. 29 et
1965), Belin, Paris, 1998, p.56.
sq.
14. Citado por Pamce PELPEL e Vincent TROGER, Histoire de I' enseignement technique, Hachette, Paris, 16. Citado pen' Patrice PELPEL e Vincent TROGER, op. cit., p. 71.
1993, p. 49. 17. Ibid, p. 55.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

o ensino técnico não cessou depois de viver na tensão entre a da padronização dos empregos e das qualificações e de seu
lógica econômica da adaptação e a preocupação republicana de relacionamento, sob a égide do Estado organizador. Essa dupla
emancipação do cidadão, entre duas concepções da formação mas colocação, profissional e escolar, que começou desde o período antes
também duas concepções da relação salarial, tendo por aposta o da guerra, se acelerou e generalizou durante o período de crescimento
domínio ou não de um ofício reconhecido por uma certificação fordista. A hierarquia no trabalho vai, cada vez mais, corresponder a
independente do empregador. Os fatos se impuseram além das diferentes níveis de formação, certificados pela instituição escolar.
divergências de representações: diante das carências do patronato A reforma Berthouin de 1959 faz da inserção profissional um
francês em matéria de formação profissional, o Estado não parou de imperativo declarado. As reformas dos ciclos curtos, do colégio
promover e de enquadrar o ensino técnico e profissional, com mais ou único, da formação pós-"baccalauréat", guiadas por imperativos
menos felicidade. econômicos e elaboradas conjuntamente pelo patronato e o governo,
Mesmo se até a 2ª Guerra Mundial uma ampla autonomia foi visam reforçar a formação geral dos futuros operários qualificados e
dada aos estabelecimentos, às profissões e às municipalidades para dos técnicos. Essa ambição de relevar o nível dos ativos está
responderem às necessidades locais, o Estado por intermédio dos fundamentada em uma idéia da necessária polivalência dos futuros
professores e dos diretores dos estabelecimentos manteve sempre um trabalhadores, idéia partilhada amplamente pelos administradores e
papel poderoso nesse domínio. De fato, foi constituído um sistema de os representantes dos setores mais modernos do patronato. A
ensino diverso e hierarquizado, desde as grandes escolas formadoras adaptabilidade tecnológica e mesmo social toma-se, pouco a pouco,
dos dirigentes e engenheiros, passando pelo ensino técnico um tema dominante.
intermediário fornecido nas escolas profissionais, até a organização do Durante os anos 1970, vê-se melhor ainda aparecer nos
ensino técnico elementar destinado aos operários e empregados. discursos patronais e governamentais todos os temas que passarão,
Com a modernização do capitalismo de pós-guerra, parcialmente, pelos fatos: ao lado do aumento quantitativo do
especialmente na época gaulista, é todo o sistema escolar que será número de alunos e da criação de um "colégio único" em nome da
solicitado pelo imperativo do desenvolvimento industrial e que "adaptabilidade da mão-de-obra pela polivalência", assiste-se à
começará a se transformar, muito mais diretamente, em função das promoção de um "ensino alternado" e, mais amplamente, de uma
necessidades econômicas explicitadas e sistematizadas pelo Plano. É a "abertura para a vida"; à presença mais influente dos representantes
época onde novas ferramentas estatísticas de previsão (os níveis de das empresas nas instâncias de consultoria e de avaliação da educação
saída do sistema escolar, por exemplo) permitem estabelecer, nacional; à definição de um cartão escolar em função das necessidades
antecipadamente, as distribuições de alunos nos diferentes tipos de locais de mão-de-obra. Assim, desde o fim dos anos 1960 e durante a
classes, compreendendo inclusive os cursos especiais, em função das década seguinte, uma estratégia de adaptação mas estreita com a
previsões econômicas 18 . Esse período, considerado por alguns como estrutura previsível de empregos, se instalou, relativamente velada,
"idade de ouro" do ensino técnico e profissional, é o da normalização, atrás de um discurso suavizante sobre a escola única, a igualdade das
chances, a diversidade das atitudes e o desabrochar da criança
segundo seus gostos. Em uma palavra, a doutrina clássica da
escolarização do ensino profissional começou a se transformar em um
18. Cf. As análises de Bemard CHARLOT e de Madeleine FIGEAT, L'École aux encheres, Payot, Paris,
1979, p. 62 et sq. discurso sobre a profissionalização da escola, a qual se tomou um

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

imperativo maior e uma das principais linhas mestras de todas as dos jovens de classes populares ao secundário e o peso do fracasso
reformas a partir de então. escolar sobre eles"21.
A lei qüinqüenal de 1993 previu, explicitamente, um "direito
A profissionalização para todos à experiência de iniciação profissional destinado a desviar os jovens
como nova ideologia do ensino geral e a equilibrar os fluxos entre esse ensino e o ensino
O novo dogma impõe uma universalização do modelo profissional". Essa visão profissional, quando se aplica ao colégio, por
profissional que se toma, pouco a pouco, a norma da escola. Essa exemplo, longe de ampliar o campo dos conhecimentos, engendra
oscilação é, por outro lado, apresentada freqüentemente pelos altos confusões muito lamentáveis que fazem, por exemplo, com que, no
funcionários da Educação nacional ou pelos jornalistas como a maior discurso dominante, a cultura técnica em vez de ser um meio de
revolução da escola nas últimas décadas. Trata-se, doravante, de inteligência do mundo moderno se torne um modo de orientar os
pensar o ensino na sua totalidade em termos de saídas profissionais e alunos em direção às vias profissionais.
mesmo, mais longe, de pensar toda a educação como um simples A reivindicação em favor da profissionalização não cessa de
momento em uma formação contínua "do berço à tumba", segundo a refletir contradições. De um lado, cresce-se de bom grado em direção
fórmula muitas vezes empregada nas publicações da OCDE ou da a uma especialização estreita e precoce das formações quando, de
Comissão Européia. outro, se quereria questionar as correspondências entre diplomas e
Assim que o ministro Christian Beullac introduz as empregos em nome de uma profissionalização generalista e, de certo
"seqüências educativas em empresa" em 1979, ele as instala para todos modo, mais comportamentalista do que técnica. Com efeito, uma
os alunos dos liceus e dos colégios e não somente para os alunos das fração do patronato, sob o pretexto de que a instabilidade do novo
seções profissionais. Aos olhos desse homem vindo da empresa, essa capitalismo não permite mais a previsão das especializações
última é vista como um lugar de formação universal, permitindo profissionais como se tentava fazer durante as Trinta Gloriosas,
combinar a preocupação igualitária com a da eficácia. Dez anos mais pretende fazer da relação com a empresa, não uma questão de escolha
tarde, a lei de orientação de 1989 retoma a idéia de alternância para profissional particular, mas um processo de aclimatação a valores e a
todos, mesmo se ela só a toma obrigatória para as formações comportamentos esperados de todos os "colaboradores" da empresa.
tecnológicas e profissionais 19 . A posição de Edith Cresson em 1991, A palavra "profissionalização" muda então de sentido. Ela não
vinda igualmente dos meios empresariais, será mais nítida ainda: "A remete mais a uma especialização articulada a um posto, mas a
alternância deve, igualmente, ser generalizada. A mistura do tempo "atitudes" e a "socialização" na empresa. Para alguns, a hora seria a de
passado no estabelecimento de formação e na empresa, deve tomar-se um profissionalismo de operadores que só poderia ser adquirido
a regra e isso para todas as formações, sejam elas profissionais, técnicas "dentro" da empresa. Não se trataria mais, com efeito, de visar a
ou gerais"20. Essa nova doutrina encontra seu pretexto na "chegada qualificações determinadas para empregos repertoriados, mas de
preparar o futuro trabalhador para situações profissionais muito

19. Em seu artigo 7, instaura a obrigação feita ao sistema escolar de fornecer a todos os alunos, seja qual for
o nível de ensino atingido, uma formação profissional antes de sua saído do sistema escolar.
20. Édith CRESSON, "Le développement de I' altemance et de I' aprentissage dons Ie programme Marignon", 21. Marie-Claude BETBEDER, "Une solide formarion de l'esprit cririque", Écoles et entreprises,
Éducarion-Économie, n' 13, dezembro de 1991. Autrement, nº118,janeirode 1991, p. 172.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

"evolutivas". Daí o sentido da formação não só em empresa mas para muito simples de fazer com que os professores acessem essa "cultura de
a empresa. Como dizem F. Dalle e J. Bounine, tratar-se-ia de "aprender empresa", que consiste em impregná-los da idéia de projeto já que a
a empresa" e não de aprender um ofício 22 . A maior parte dos alunos empresa moderna se define, essencialmente, por essa noção.
deverá "aprender a viver em uma comunidade mais ou menos ampla, O termo "empresa" não é sinônimo de "executar um desenho"?
com estruturas hierarquizadas, cuja atividade é subentendida pela Para a OCDE, igualmente, a pedagogia do projeto aparece como o
persecução de um objetivo de realização: produzir e vender mais, melhor aprendizado da empresa: "Um empreendimento pode ser toda
aumentar o lucro, ampliar a fatia de mercado, criar novos produtos"23. a forma de operação ou de projeto e não somente um negócio
Essa profissionalização da educação como um todo atém-se a comercia12 6 . Esse jogo de palavras é bem feito para naturalizar a
um duplo imperativo formulado pelas empresas desde os anos 1980: de realidade econômica: "visitas de empresas bem preparadas, estágios
um lado o conhecimento deve estar no centro da reorganização do mesmo curtos [... ] podem iniciar os professores na estratégia da
trabalho, o que passa pelo aumento do nível escolar de todos os mudança e dar consistência ao conceito de "projeto" que se utiliza
assalariados, enquanto de um outro lado, uma maior eficácia e uma bastante atualmente no sistema educativo sem que a lógica e os
maior "flexibilidade" são esperadas dos assalariados. procedimentos correspondentes tenham sido realmente ensinados. A
Se todo ato pedagógico deve ser orientado pelo fim da inserção palavra "projeto" não é quase sinônimo da palavra "empresa?"27.
na empresa, é necessário, logicamente, começar pelos professores, De modo complementar, o direito a uma informação sobre a
formando-os no espírito de empresa, em graus diversos segundo sua orientação, prevista pela lei de orientação de 1989, se transformou em
implicação no fato "empresa"24. Quer eles ensinem uma disciplina uma injunção feita aos alunos de elaborar, o mais cedo possível, um
tecnológica ou geral, não é o conteúdo dos saberes que deve importar "projeto de orientação escolar e profissional" de sorte que nenhum
para os professores, mas a percepção e a avaliação da utilidade deles possa ignorar, hoje em dia, qual é o sentido único da
profissional dos cursos, das disciplinas e dos métodos, aos olhos das escolaridade. Essa coação, que alguns dentre os responsáveis pela
exigências requeridas pelo mundo econômico. Para alguns autores orientação escolar qualificam atualmente de "terrorista", tem
são, de resto, os professores das disciplinas que tirarão o maior precisamente, por princípio, destruir todo desejo subjetivo sob os
proveito dessa preocupação constante da finalidade profissional, imperativos pesados da "escolha de uma profissão", negando assim
colocando enfim em relação suas abstrações mais ou menos vãs com a tudo o que uma tal elaboração tem de complicado e de não linear.
"verdadeira realidade", com apenas o concreto da vida econômica: "O
ensino fundamental da leitura, da escritura e do cálculo deverá ser o caso da universidade
tratado diferentemente: os assalariados deverão ser capazes de ler Com o ensino técnico e profissional, a universidade é muito
manuais e de compreender as fichas técnicas e não somente ler livros diretamente afetada por essa ideologia. Nesse domínio, igualmente, a
e compreender a álgebra"2s. Segundo Daniele Blondel, há um meio tendência à obra não pode ser separada do campo político e social nos
quais se desenvolve. Os Estados Unidos constituem ainda o caso que
permite melhor compreender a evolução na França. O modelo da
22. François DALLE e]ean BOUNINE, L'Éducation en entreprise, Odile Jacob, Paris, 1993, p. 14.
23. Daniele BLONDEL, "Fonner des enseignants", Écoles et entreprises, op. cit., p. 47.
24. Ibid., p. 48.
25. Centro para a pesquisa e a inovação no ensino (CERI) , Écoles et entreprises: um nouveau partenariat, 26. lbid., p. 30.
OCDE, 1992, p. 27. 27. Daniele BLONDEL, artigo citado, p. 49.

8O 81
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A nova linguagem da escola

profissionalização teve, até hoje, um papel essencial na impulsão da humanas, começaram a contestar nos campi nos anos 1960 em nome
universidade americana 28 . Ela foi, efetivamente, desde sua criação, da luta contra a alienação da universidade e da subordinação do saber
submetida ao modelo instrumental do saber a "serviço da unicamente aos interesses econômicos do big business, crítica que se
comunidade". Tanto no desenvolvimento da sociedade industrial propagou na Europa no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970.
como na difusão de uma ideologia pragmatista, a concepção Essa ideologia instrumental da universidade terminou, no
dominante lhe atribuía uma dupla função de formação profissional e entanto, por se impor na França por níveis sucessivos, em nome da
de produção de conhecimentos úteis às empresas 29 . democracia, do emprego e da modernidade 33 . Do relatório Laurent de
Em 1963 o economista americano Clark Kerr, então presidente 1995 ao relatório Attali, passando pelo Plano Universidades 2000 e
de Berkeley, teorizava o fim da universidade como lugar autônomo e pela multiplicação recente das licenças profissionais34 , é a mesma
unitário de saber e anunciava a emergência de uma "multiversidade" representação que se aplica com perseverança e que transforma, cada
que justaporia as formações profissionais e dos centros de pesquisa sem vez mais profundamente, a missão da universidade, a qual não
outra relação a não ser administrativa, uns com os outros 30 . Não sem encontra mais outras razões legítimas a não ser o fim profissional dos
humor, esse autor via na universidade americana "uma série de escolas estudantes, o benefício que as empresas podem tirar das pesquisas e a
e de departamentos reunidos por um sistema comum de calefação", formação que podem receber os assalariados, especialmente aqueles
ou, melhor ainda, como "uma série de empreendedores individuais de do vasto continente terciário.
ensino, agrupados pelo fato de reivindicar estacionamentos em A lei Savary de 1984 preparou a virada ao afirmar que a
comum"3l. Seria dizer, em termos mais sociológicos, que a universidade devia contribuir para a "política de emprego".
universidade "aberta para a vida" devia ser concebida como um Suprimindo muito sintomaticamente o Doutorado de Estado,
decalque, o mais exato possível, da divisão econômica e técnica do diploma julgado muito pouco eficaz profissionalmente, ela indicou o
trabalho, que ela devia ser composta de células onde cada uma não é caminho a seguir. Mais recentemente, o Relatório Attali salientou
mais do que um apêndice externalizado do tronco, até da empresa que que "todo estudante deverá ser assegurado de poder deixar o ensino
utiliza seus serviços de pesquisa e sua produção de mão-de-obra. C. superior com um diploma com valor profissional, se ele está pronto a
Kerr dizia bem: a nova universidade americana não é, na verdade, envidar os esforços necessários para obtê-lo. [... ] A preparação para a
nem pública nem privada, nem desvinculada da sociedade nem vida profissional deve se tomar um dos eixos principais do projeto
totalmente inserida. Ela tomou-se uma "loja de conveniência para o pedagógico de todo estabelecimento de ensino superior"35. Sempre
grande público"32. É precisamente essa evolução que os estudantes, segundo esse texto, a universidade deverá relacionar
especialmente aqueles engajados nos cursos de literatura e ciências sistematicamente a formação e sua finalidade, no modelo das grandes
escolas. Em decorrência disso, é a organização completa dos cursos
que é comandada pela idéia de que todo diploma universitário é um

28. Alain RENAUT, Les révolutions de l'université, Essai sur la modernisation de la culture, calmann-Lévy,
Paris, 1995.
29. Cf. Michel FRE1TAG, Le naufrage de l'université, op. cit., p. 41. 33. O que faz Alain Renaut dizer que "a França descobre a América" quando a universidade faz da inserção
30. Cf. Clark KERR, Métamorphose de l'Universitee, Éditions ouvriêres, Paris, 1967 (o título americano é profissional seu fim principal, até exclusivo (Les Révolutions de l' université, op. cit., p. 204).
mais eloqüente: The uses of the University 34. Universités 2000, Quelle université pour demain?, Sorbonne 26-29 de junho de 1990, La
31 1bid., p. 27-28. Documentation française, Paris, 1991.
32. Ibid., p. 15. 35. Jacques ATTALI, Pour um modele européen d'enseignement supó;eur, op. cit., p. 5.

82 83
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A ideologia da profissionalização

diploma profissiona13 6 . Não há mais fronteira entre uma licença geral Numerosos, à esquerda, foram os que viram na massificação do
e uma licença profissional: "O titular da licença adquirirá um corpo de ensino o meio de quebrar o que eles chamam "o modelo cultural
conhecimentos de base e uma capacidade de análise e de dominante" próprio à elite intelectual e burguesa e de introduzir
questionamento profissionalmente utilizáveis"37. Mais ainda, a outras dimensões, ao mesmo tempo práticas e cognitivas, mais aptas a
licença profissional não é um diploma como os outros, é, doravante, fazer os jovens dos meios populares terem sucesso. É nesse sentido que
o modelo de todo diploma universitário. seria necessário introduzir de pleno direito e estender o ensino de uma
"A universidade deve se tornar o motor da Educação ao longo cultura técnica desde o colégio e em todos os cursos do ensino em
de toda a vida. A licença profissional responde a esse objetivo", geral, que seria necessário desenvolver os cursos tecnológicos e
sustenta o Ministério da Educação Nacional. Não se saberia dizer profissionais e dotar os alunos de qualificações sólidas, lhes
melhor. A desregulamentação que ela introduz, a dependência com permitindo se defender no mercado de trabalho e no emprego.
relação aos interesses locais dos empregadores e das coletividades, o Essa argumentação não é desprovida de fundamento, e não
lugar dos "profissionais" no ensino superior, delineiam o futuro teria certamente havido o alongamento da duração média dos estudos
previsível da universidade se poderosas contratendências não no século 20 e, mais recentemente, a progressão do número de
surgirem nos próximos anos. Mesmo o Relatório Faroux, no entanto, bacharéis, sem o crescimento dos cursos em questão. Além do mais,
pouco suspeito de idealismo desinteressado, havia denunciado esse permanece, como referido acima, muito caminho a percorrer para
"adequacionismo" que tinha chegado, segundo o autor, a uma espécie reconhecer o valor intelectual e formador dos conhecimentos
de superadaptação da escola à divisão do trabalho. "A escola técnicos e dos domínios práticos que estão ligados aos diversos
desenvolveu, nos últimos trinta anos, sua oferta de formações campos profissionais, na mesma medida em que um dos grandes
profissionais e especializadas - mais de 600 diplomas - a um ponto tal fatores de crise do ensino francês se atém a esse desprezo no qual é
que se pode recriminá-la não por ser excessivamente fechada às tido o ensino técnico e profissional, desprezo a relacionar com a
demandas dos ramos profissionais mas de lhes ser permeável.3 8" dominação à qual foi submetida a classe operária e à ausência de
Permanece a questão de saber se a universidade é feita para reconhecimento de suas qualificações e de seus trabalhos. Em função
distribuir uma formação muito especializada e estreitamente ajustada desse desprezo, os jovens pagam muito caro a condição operária de
às necessidades imediatas das empresas, então sem grande horizonte seus pais, inclusive quando eles querem dela se afastar39 .
temporal ou, ao contrário, se ela não estaria mais no seu papel, Há no entanto uma confusão a evitar: defender a necessidade
dotando os alunos por ela acolhidos, atualmente, de uma formação
de uma cultura técnica para todos não significa a subordinação às
geral, permitindo-lhes uma maior autonomia na vida. Os "herdeiros",
exigências das empresas em matéria de profissionalização. Além disso,
como se sabe, encontraram refúgio em outros lugares, precisamente
muitas técnicas e saberes ditos tecnológicos não têm apenas
nas classes preparatórias e nas grandes escolas onde não se regateia
destinação profissional, mas têm ou podem ter hoje em dia um uso
sobre os conteúdos culturais mais exigentes e os mais amplos.
social muito mais extenso como mostra o exemplo da informática. Por
deslocamentos sucessivos chega-se rapidamente, no entanto, a
36. Ibid., p. 27. confundir cultura técnica e fim profissional. O risco é real, com a
37. Ibid., p. 28.
38. Roger FAROUX, op. cit., p. 109. É que, efetivamente essa super especialização fruto da vontade de
"colar" às demandas das empresas, provocou mais dificuldade no acesso ao emprego do que facilidades (cf. 39. Cf. Stéphane BEAUD, 80% du bac .. et apres? Les enfants de la démocratisation scolaire, La
p.lJ3). Découverte, Paris, 2002.

84 85
A ESCOLA NÃO li UMA EMPRESA

difusão dessa ideologia, de reduzir o ensino geral e profissional apenas


às competências úteis às empresas, de negar o valor da cultura técnica
e mesmo muitos dos seus usos sociais, e de obedecer, assim, a um
utilitarismo que impede os jovens de achar o menor interesse no que
parece não ser vendável no mercado de trabalho. A ilusão consistiria
em crer que a profissionalização tal como é levada constitui uma
estratégia democrática em si mesma.
Se é verdade que a educação nacional estaria enganada em
deixar o seu lugar para um sistema de formação privada onde
reinariam escolhas arbitrárias, desigualdades sociais e todas as
limitações inerentes a uma formação orientada segundo as
necessidades muito imediatas das empresas, não é suficiente, para
resistir à onda neoliberal, que o serviço público vá na frente dos PARTE II
desejos das empresas, profissionalizando todas as formações e todos os
níveis. A questão, compreende-se, atém-se à capacidade que tem a A escola sob o dogm.a
instituição escolar de definir o campo dos saberes e a organização dos do Illercado
estudos que qualificam autenticamente os futuros assalariados, sem
abdicar de visões culturais mais amplas. Isso supõe que a instituição
seja suficientemente forte para não obedecer às demandas e às
restrições avançadas pelas empresas, cuja lógica é necessariamente
diferente, senão oposta à da escola.
O perigo de obedecer a essa lógica do rendimento e das
competências que as empresas querem impor, é ainda maior quando
nós temos que tratar com um capitalismo cada vez mais instável, no
qual os ciclos econômicos, mas também os ciclos de emprego e as
"ondas tecnológicas", determinam flutuações dificilmente previsíveis
das demandas das empresas em matéria de "competências". Defender
a universalidade das certificações expedidas pela escola é necessário
para resistir à fragmentação, acrescida por uma oferta de formação
profissional. Mas é necessário também defender a autonomia da
escola em face de um neoliberalismo que considera que todas as
instituições, inclusive as públicas, devem ser colocadas a serviço da
máquina econômica em detrimento de qualquer outra finalidade.

86
CAPÍTULO 5

A grande onda neoliheral

A representação da educação trazida pelo neoliberalismo pode


parecer de uma simplicidade bíblica: como toda atividade, ela é
assimilável a um mercado competitivo no qual as empresas, ou as
quase-empresas, especializadas na produção de serviços educativos,
submetidas a imperativos de rendimento, pretendem satisfazer os
desejos de indivíduos livres nas de suas escolhas, pelo fornecimento de
mercadorias ou quase-mercadorias. Essa concepção quer fazer com que
as instituições admitam naturalmente que devem, doravante, ser
"gerenciadas" pelas demandas individuais e necessidades sociais de
mão-de-obra, e não por uma lógica política de igualdade, de
solidariedade ou de redistribuição em nível de nação na escala do
território nacional!. Nesse novo modelo, a educação é considerada
como um bem de capital.
Essa representação deve ser vista com uma "demanda" social
muito forte de educação: muitas famílias numerosas, para dotar seus
filhos de competências julgadas indispensáveis, entraram em luta para

1. Como notava Robert BALLlON, La Bonne École, Hatier, Paris, 1991, "A instituição escolar se
transformou com o espírito de seus usuários, em uma organização prestadora de serviços".

89
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

colocar suas crianças nas melhores escolas, colégios, cursos, contraditórias: a exigência dos alunos e de suas famílias de dispor de
universidades ou grandes escolas. No plano social, mais do que um condições dignas e iguais de ensino, que levam à mobilização coletiva
consumo, a "boa educação" aparece como um investimento: ir para dos cidadãos por um direito fundamental, e a promoção da "demanda"
uma boa escola, um bom curso, uma boa classe, se tomou mais do que individual e da concorrência, que se supõe trazer a estimulação e a
nunca o fator essencial do sucesso escolar e da ascensão social. Toda inovação de que terá necessidade a escola, que por sua vez depende de
a sociedade é arrebatada por essa procura por melhores estudos e uma estratégia de clientes e consumidores.
melhores estabelecimentos e a escola, mais do que nunca, se
transforma em um campo vasto de competição. O neoliberalismo não Um programa de privatização
cria esse fenômeno, ele o acentua e o justifica ideologicamente: a Um dos fatores que contribuíram para naturalizar a idéia de
competição para ter acesso a um bem raro, ao mesmo tempo intensa que a educação poderia ser objeto de escolha em um mercado livre foi,
e mais desigual, vem por si própria. evidentemente, o sucesso político do neoliberalismo nos anos 1980.
Não é necessário professar uma fé neoliberal fanática e querer, A ideologia do livre mercado encontrou nos Estados Unidos e
a todo custo, desenvolver o mercado da escola para que esse se Inglaterra seu terreno clássico de aplicação antes de se difundir
desenvolva. Muitas vezes é suficiente não interferir nessa competição universalmente.
entre famílias e indivíduos ou se opor apenas formalmente e com Ronald Reagan em seu programa eleitoral de 1980, prometia a
pouca energia. O mercado da escola é, assim, o resultado de uma desregulamentação da educação pública, a eliminação do
indiferença às estratégias ou de uma inibição no agir, passividade que departamento federal de educação e a supressão do transporte escolar
é, em realidade, o efeito indireto dessa onda neoliberal que, em toda públic0 3 . As escolas deviam se transformar em empresas com fim
parte, deslegitimou o voluntarismo do estado e questiona todo esforço lucrativo na medida em que a eficiência do mercado seria
de limitação do jogo dos interesses privados. presumidamente capaz de melhorar o acesso à educação e à qualidade
Esses efeitos de dominação ideológica foram muito poderosos de ensino, desembaraçando-o dos regulamentos burocráticos e dos
na França e se traduziram por muita incoerência e fatalismo, sintomas sindicatos. Esse desengajamento do país ampliava o papel das
de uma política sob influência. Lionel ]ospin tinha mostrado uma autoridades locais diminuindo, ao mesmo tempo, os créditos alocados
certa confusão quando dizia que "a infelicidade da escola é ter se aos programas em favor dos pobres e das minorias. Abria às famílias
tomado um serviço público como qualquer outro, como os correios ou maiores possibilidades de escolha para favorecer a competição entre
os serviços ferroviários. Os usuários - alunos, estudantes, pais, os estabelecimentos. Esta escolha supostamente elevaria a qualidade
empresas, administrações - pedem professores, locais, máquinas, das escolas e favoreceria o financiamento das escolas privadas que
pedagogias ajustadas às suas necessidades, tal como eles as vêem. É deviam se beneficiar da ajuda do Estado, da mesma maneira que as
necessário gerenciar, obter os meios, operar as transformações escolas públicas. Em 1983, ele propunha uma legislação instaurando
necessárias, sob o risco de esquecer o sentido profundo da missão da um sistema de bônus e de créditos, os vouchers, permitindo aos alunos
escola"2. Ele confundia duas lógicas muito diferentes e mesmo desfavorecidos se inscrever em escolas de sua escolha, sistema

2. Lionel]OSPIN, );Invention du possible, Flammarion, Paris, 1991, p. 267, citado por Jean-Pierre LE
GOFF, "Les impasses de la modernisation", Nouveaux Regards, n' 6, p. 21. 3. Malie MONTAGUTELLI, Histoire de l'enseignements aux États-Unis, Belin, Paris, 2000, p.242.

9O 9I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

inspirado nas proposições do economista liberal Milton Friedman4. Se as famílias melhor dotadas saem com vantagem, não se deve
A outorga de fundos públicos às famílias, sob forma de bônus esquecer que a livre escolha da escola é igualmente desejada por
de formação utilizáveis nas escolas privadas, toma solvível o exercício algumas famílias americanas dentre as mais modestas, por ter a escola
de escolha do consumo. No entanto, nada impede essas famílias de pública se tomado, em alguns locais, verdadeiramente repulsiva.
acrescentar o complemento que quiserem para adquirir "produtos Longe de ser composto somente por "estratégias de colocação
educativos" mais caros, nas melhores escolas, se elas puderem e escolar", o impulso em favor da privatização se explica, em grande
desejarem. parte, pela ruína da escola pública, tanto no nível das condições
Instaurado em grande escala a partir de 1980 no Chile de materiais quanto no das condições pedagógicas deploráveis que
Pinochet, adepto das receitas dos Chicago Boys, é esse mesmo sistema reinam em certos casos. Isso é particularmente verdadeiro nos Estados
que George Bush pai depois George Bush filho buscaram instalar em Unidos, mas ocorre igualmente em outros países. Segundo um círculo
escala nacional. Para alcançar todo o país, uma mobilização vicioso, os contribuintes recusam os impostos para uma escola tão
importante de lobbies foi constituída, agrupando associações medíocre e acabam por aceitar as soluções liberais. A fuga dos alunos
conservadoras e representantes de escolas privadas em uma coalizão mais privilegiados das más escolas acentua a constituição de guetos e
nacional, Americans for Educational Choice, criada em 1988. favorece o setor privado.
Algumas experiências limitadas foram feitas em Milwaukee,
Winsconsin e em Cleveland, Ohio, antes de serem estendidas numa Argumentação da ideologia neoliheral
escala mais ampla para a Flórida e a Califórnia, sem que os resultados O liberalismo em matéria educativa é, hoje em dia, a doutrina
tenham sido muito eloqüentes em matéria de progressão dos dominante que inspira, nas suas grandes linhas, seguidas políticas no
resultados escolaresS. O plano educativo de G. W. Bush anunciado em ocidente. Mas, trata-se de qual liberalismo? Não há pensamento
janeiro de 2001, faz desse sistema uma obrigação para as escolas liberal unificado em matéria de educação. Seguindo certas passagens
públicas que não atingiram os objetivos fixados. O exemplo do Chile de Adam Smith, pode-se deduzir que o Estado tem um papel mais
demonstra que os resultados de um sistema de bônus, no caso da importante na instrução intelectual e moral do povo, o que, além do
performance escolar, são mais negativos e que eles aumentam mais, não escapou a Condorcet, que se apóia no autor da Riqueza das
nitidamente a segregação social, os pobres ficam nas escolas públicas Nações para defender seu projeto de instrução republicana.
enquanto as classes média e alta se dirigem mais prazerosamente para Ao contrário, no meio do século 19, um Frédéric Bastiat chega
o setor privad0 6 . até a refutar a própria legitimidade das grades universitárias, e em
particular do baccalauréat, a seus olhos um dos principais vetores do
socialismo, em nome da liberdade plena e completa dos conteúdos
ensinados nas instituições livres de ensino, cujo desenvolvimento ele
4. o sistema dos vouchers consiste em pagar às famílias uma soma como empréstimo, equivalente ao custo médio
de escolaridade no distrito, a fim de lhes pennirir exercer uma escolha livre da escola. Posterionnente, serão
desejava? É uma versão radical da doutrina liberal, relançada e
analisados os pressupostos e os efeitos de tal sistema. desenvolvida pelos teóricos americanos, como Milton Friedman e,
5. Malie MONTAGUTELLl, ibid., p. 245.
6. Cf. Mardn CARNOY, "Lessons of Chile's Refonn Voucher Movement", ardgo publicado em Educadon
Week, reproduzido na página <http://www.rethinkingschools.org/SpecPub/sos/sosintl.htm. > Cf. Igualmente,
Teresa Mariano LONGO, Philosophies et politiques neo-libérales de l'éducadon dons le Chili de Pinochet 1973- 7. F. BASTlAT, "Baccalauréat et socialisme" (Obras completas, tomo IV, Sophismes économiques, petits
1983: l'école du marché contre l'école de l'égalité, I:Hannattan, Paris, 2001. pamphlets I, Guillaumin, Paris, 1863, p. 442-503.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

mais recentemente, por]. Chubb e T. Moe que tendem, hoje em dia, positiva". Daí a participação pública no financiamento de uma
a legitimar a ofensiva das empresas no grande mercado educativo. A demanda, que deve permanecer livre, de escolher o estabelecimento
constatação essencial permanece aquela feita por Stephen ]. Ball: "O ou até a classe e o professor. Era o que projetava, por outro lado, o
mercado considerado como uma política alternativa ao monopólio grande economista escocês, quando propunha que o Estado
público da educação dá, muito claramente, o tom à política educativa financiasse em parte as escolas paroquiais destinadas às crianças das
da década, em todo o mundo ocidental"8. Esse é um dos aspectos mais classes populares 11.
notáveis do neoliberalismo contemporâneo. Mas, para os defensores atuais do liberalismo educativo, se é
O neoliberalismo, de forma geral, contesta a ingerência do efetivamente necessário um aporte de fundos públicos, é igualmente
Estado na produção de bens e serviços, quer se trate de saúde, forçoso instaurar uma verdadeira concorrência entre os
transporte ou educação. É a intervenção em si do Estado na oferta de estabelecimentos, até nos conteúdos e nos métodos. Tal seria,
ensino que é colocada em questão do modo mais radical, o que não justamente, a vantagem do sistema de créditos proposto por Milton
impede, bem ao contrário, de prever que, necessariamente, a Friedman. Desde 1955, ele salientava em um famoso artigo, que a
demanda em termos da educação de base seja solvível9. Segundo a intervenção do Estado nas primeiras etapas da educação poderia ser
doutrina, não há qualquer razão para que os benefícios que se podem justificada economicamente pelas "externalidades" positivas ou
esperar do mercado e da concorrência, em particular no tocante à negativas produzidas por uma boa ou má educação, pela existência de
performance, não possam ser esperados também no domínio da um "monopólio natural" impedindo a competição normal entre
escola, onde despesas tão consideráveis estão em jogo. unidades de produção, pela irresponsabilidade das crianças
Essa concepção leva a ver em toda escola, quer ela seja pública submetidas à tutela paterna e, portanto, incapazes de uma escolha
ou privada, uma empresa em situação de concorrência buscando livre 12 . Essas três considerações não justificam de maneira alguma
captar uma clientela, por uma oferta atrativa. Gary Becker, o teórico uma participação pública no financiamento, do ensino mais avançado
do "capital humano", não partia do postulado de que uma escola pode e da formação profissional, nas quais os frutos são apropriados pelo
ser tratada como um tipo particular de firma lO ? No entanto, de acordo beneficiário e para os quais há uma grande diversidade de escolhas
com uma idéia já esboçada por Adam Smith no século 18, a educação possíveis. As primeiras etapas da escolaridade pedem uma ajuda
não interessa apenas ao próprio indivíduo mas, igualmente, à financeira a ser fornecida às famílias, mas não convidam de maneira
coletividade. Ela possui uma dimensão social pelos efeitos coletivos nenhuma a criar ou a defender um sistema educativo diretamente
benéficos que gera, que os economistas designam "externalidade administrado pelo Estado.
No passado, por uma razão econômica legítima, o Estado quis
dirigir a educação dos mais jovens mas ele confundiu a necessidade do
8. Stephen]. BALL, "Education Markets, Choice and Social Class: the Market as a Class Strategy in the financiamento público com a administração do ensino de base. É
UK and the USA", BritishJoumal of Sociology of Education, vaI. 14, no 1, 1993.
9. Cf. David FRIEDMAN, 'The Weak Case fOT Public Schooling", discurso feito para a Société du Mont
Pelerin, 7 de julho de 1993, na qual o autor questiona toda a legitimidade da "escola regida pelo governo",
<http://www.best.com/-ddfr/Libertarian/Public_Schools.Html>. O autor conclui que um sistema
totalmente privado deve sobretudo trazer a liberdade de crença, mas toda a sua argumentação é de natureza 11 . Adam SMITH, op. cit., Livro V, capítulo I , seção 3, p. 409.
econômica. 12. Milton FRIEDMAN 'The Role ofGovemment in Education", in Robert A. Solow (dir.) ,
10. Gary BECKER, Human Capital. A Theoretical and Empirical Analysis, with Special Reference to Economics and The Public Interest, Rutgers University Press, Piscataway, 1955. Reproduzido no site
Education, Columbia University Press, New York, 1964, p. 31. http://www.schoolchoices.org/200/friedI.htm .

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

dessa última que é preciso se livrar, no quadro de uma verdadeira inovação, produtividade, melhor satisfação da demanda. Se
economia de livre empresa. Convém introduzir uma concorrência imediatamente, como assinala Milton Friedman, o sistema de
sadia entre as escolas, desnacionalizando a educação, instaurando a vouchers corre o risco de introduzir uma maior desigualdade, as
livre escolha graças ao sistema de vouchers que os pais poderiam melhores soluções se difundiriam em todas as empresas educativas e
utilizar nas instituições educativas credenciadas, não sem o aporte de beneficiariam, assim, a todos, segundo a lógica da concorrência.
um suplemento, se elas o quiserem, vendendo as escolas a empresas ou Outros autores, na mesma linha, vão mais longe. Para David
a comunidades locais. O papel do Estado se limitaria então a garantir Friedman, o Estado não tem mais obrigação de financiar a educação
a qualidade do serviço prestado pelas escolas privadas, por uma como não tem de financiar a compra do carro da família ou de
avaliação dos estabelecimentos, a exemplo da inspeção sanitária que qualquer outro bem de consumo. Nem os argumentos em termos de
fiscaliza os restaurantes. Milton Friedman conclui assim: "O resultado "externalidades", nem aqueles em termos de especificidade do "capital
dessas medidas acarretaria uma redução no tamanho das atividades humano" e nem mesmo a questão da igualdade são suficientes. A
diretas do governo abrindo mais amplamente as escolhas possíveis educação é um bem de capitalização privada que traz benefícios
para a educação de nossas crianças. Elas trariam um crescimento essencialmente pessoais mas que supõe também sacrifícios por parte
desejável na variedade das instituições educativas disponíveis e na da família. Mesmo os mais pobres, diz esse autor, são capazes de
concorrência entre elas. A iniciativa e a empresa privadas acelerariam financiar os estudos de suas crianças se elas aceitam fazer os esforços
a marcha do progresso nesse domínio como nos outros, favorecendo, necessários. A ausência de financiamento público colocará as famílias
sobretudo, a inovação pedagógica e organizacionaL O governo frente a frente com suas responsabilidades e a falta de educação das
satisfaria sua função própria, que é favorecer a operação da mão crianças só será devida à despreocupação dos pais que escolhem um
invisível, sem a substituir pela mão morta da burocracia" 13. bem-estar imediato às expensas do bem-estar futuro de seus filhos.
Em 1995, em um artigo do Washington Post intitulado
"Escolas Públicas: Torne-as privadas "14, Milton Friedman voltou à A promoção da escolha
carga de maneira muito mais polêmica, em um contexto de Outros autores quiseram demonstrar que os vouchers e a livre
desconfiança com relação à escola pública. A deterioração do ensino escolha dos pais deviam indiscutivelmente resultar na "excelência"
seria, essencialmente, devida aos efeitos da centralização excessiva do para todos. Essa foi a proposta, em 1990, da obra de John E. Chubbs
sistema escolar antigo, bem como ao grande poder do sindicato dos e Terry M. Poe, " Políticas, Mercados e Escolas Americanas", muito
professores. Para enfraquecê-los, como o exemplo do Chile mostrou, influente na América do Norte ls . A idéia central do livro é que, se as
a privatização é um meio muito eficaz: os professores sob contrato reformas do ensino até então fracassaram foi porque não atacaram a
poderiam ser despedidos como qualquer empregado do setor privado. raiz do problema. O restabelecimento, oficialmente tão desejado, de
Desembaraçadas dos sindicatos, as escolas estariam, desde então, mais um mínimo de excelência acadêmica tem por único caminho uma
aptas a responder aos desejos das famílias, adotando dispositivos transformação institucional fazendo da escolha a solução global para
inovadores. Ali, como em outros lugares, a concorrência geraria os males dos quais sofre a escola americana. Nesse novo quadro

13. Ibid. 15. John E. CHUBB e Terry M. MOE, Politics, Markets and America's Schools, The Brookings
14. Washington Post, 19 de fevereiro de 1995. Institution, Washington D.C., 1990.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

institucional, os alunos e as famílias elegeriam as escolas a seu modo. protegendo por outras regras formais, de forma que a burocratização é,
Essas, escolheriam seus alunos, seus programas e seus professores. ao mesmo tempo, uma tendência fatal de todo sistema politicamente
Idealmente, estar-se-ia próximo de um grande mercado no qual se administrado e a principal causa da deterioração escolar nos Estados
fariam contratos diretos, uma vez que as escolas receberiam alocações Unidos. Os autores se pronunciam pela constituição de um verdadeiro
escolares de acordo com o número de alunos que as escolheriam l6 . É mercado, no qual as escolhas dos pais seriam determinantes. Só esse
preciso compreender, dizem os autores, que o nível intelectual muito novo quadro estaria em condições de despolitizar e desburocratizar o
fraco dos escolares americanos é o resultado não desejado de um ensino para tomá-lo, verdadeiramente, um negócio privado de
número infinito de decisões individuais, tomadas em um contexto consumidores buscando maximizar seus interesses. Trata-se, de fato,
institucional. de retirar a educação da esfera pública, regida pela autoridade política,
Contrariamente ao que é afirmado por numerosas pesquisas para confiá-la inteiramente ao mercado no qual cada um - o que
sociológicas, a questão principal não está no ambiente social das oferta e o que demanda - age por si mesmo, sem que as decisões dos
escolas ou nos meios desiguais que lhes são alocados, ela reside na que vencem as eleições lhes sejam impostasl 7.
resposta organizacional que é dada a essas dimensões sociais e Todos os defeitos inerentes ao "sistema político de educação"
políticas. Em um certo quadro institucional e regulamentar, as seriam suprimidos com a extensão dos mercados educativos uma vez
decisões individuais, por mais que um espaço lhes seja outorgado, que, sobre esses, os consumidores têm efetivamente mais poder que os
levam à ineficácia enquanto, em outro, conduzem a uma melhora eleitores na esfera pública, pelo fato de que podem escapar aos
contínua. É necessário então modificar as regras do jogo para que as fornecedores do serviço que não lhes convenha e escolher um outro,
decisões individuais modelem um sistema cada vez mais eficaz. Os o que leva os proprietários privados a satisfazê-los para manter seus
autores, fundamentando-se em diversas pesquisas e questionários de clientes. Os alunos são reconhecidos de acordo com suas necessidades
motivação, acreditam poder concluir desses dados que a eficácia próprias e apreciados na sua singularidade. A concorrência apela à
depende de qualidades gerais como o fato de ter fins culturais claros - autonomia dos estabelecimentos para que eles sejam o mais reativos
professores bem formados, ambições culturais elevadas para os alunos possível aos sinais dos mercados e, assim, constituir o principal fator
-, e depende mais ainda da autonomia das escolas frente à burocracia de eficácia. Os autores desenvolvem uma verdadeira ideologia de
e às instâncias de controle na escala da "comunidade", no sentido combate. A criação de um mercado educativo gerará uma
americano do termo. Estas escolas têm o defeito de politizar a gestão descentralização das decisões, dará poder aos chefes dos
das escolas e reforçar a burocracia. O sistema político e burocrático estabelecimentos completamente livres para formar a equipe que
conduz a uma centralização das decisões e um controle hierárquico convenha de verdadeiros profissionais e se desembaraçar, assim, dos
produtor de normas não aplicadas porque são, geralmente, sindicatos. Essa visão "idílica" exclui a dimensão do conflito e faz da
inaplicáveis. Por um círculo vicioso, o fracasso das reformas chama sindicalização uma hipótese absurda, uma vez que ela suporia
outras reformas do mesmo tipo, que têm o mesmo destino. Aqueles professores suficientemente irracionais para se dotar de uma
que detêm o poder provisoriamente, buscam conservá-lo se organização que tomaria sua própria escola não competitiva no

16, 1bid, , p, 219, 17, 1bid, , p, 28 et sq,

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
A grande onda neo!ibera!

mercado escolar l8 . As escolas privadas, enfim, serão mais eficazes se O mercado e a livre escolha dos pais tornaram-se tipos de
concentrando nos fins precisos correspondentes a um "nicho" panacéias consideradas capazes de sobrepujar, quase magicamente, a
particular, quer dizer, a um segmento especializado do mercado l9 . crise da educação. Em todos os fóruns internacionais, nas grandes
A demonstração de John Chubb e de Terry Moe sofre de uma organizações econômicas e financeiras (FMI, Banco Mundial, OCDE,
fraqueza: a atuação da escola é justificada porque ela produz mais Comissão Européia), a mesma vulgata é repetida sem cessar, os
eficácia; mas, em todos os casos estudados, os autores se contentam mesmos ataques contra o Estado educador são retomados, a mesma
em mostrar que, se uma escola reúne os fatores de êxito, ela o terá apologia do mercado escolar é repisada.
mais do que as outras! Assim, dando o poder aos "líderes" e aos Não esqueçamos que, se essa concepção apareceu nos países
professores motivados e bem formados, centra-se a escola nas mais ricos, a tendência à privatização dos sistemas de ensino concerne
exigências escolares elevadas e se obriga a rever as condições também, se não mais, aos países menos desenvolvidos 2o . O Banco
pedagógicas do êxito na classe, o que melhora os resultados dos Mundial, cuja missão geral é "reforçar as economias e estender os
alunos. Quanto mais as escolas recrutam alunos motivados, quanto mercados para melhorar, em toda parte, a qualidade de vida das
mais elas são sustentadas pelas famílias, quanto mais elas se pessoas e, sobretudo, dos mais pobres", pensa colocar todos os meios
encontram em zona peri urbana favorecida ou no campo, melhor elas necessários para favorecer essa orientação. Os teóricos liberais muito
funcionam. Além dessas tautologias*, a tese leva a um sofisma que influentes no Banco Mundial desenvolvem análises extremamente
assimila o sistema público ao laxismo, à fraca ambição cultural, à favoráveis à privatização dos serviços de ensino. Aplicando sem
primazia do lúdico sobre o acadêmico, à gestão puramente grande originalidade os dogmas em vigor, um dos peritos no assunto
burocrática, à ausência de todo espírito de equipe e de solidariedade, do Banco Mundial, Harry Patrinos, sustenta que essa via permitirá o
etc. aumento do nível geral da educação e melhorará a eficácia do sistema
Essa argumentação teórica da qual nós apresentamos alguns educativ0 21 . Constatando que até aqui a expansão escolar foi
momentos fortes, participou de uma ofensiva política de grande sobretudo efeito da "oferta" de escola por parte dos governos, ele
amplitude contra os sistemas de educação pública. Em um grande imputa todas as lacunas e todas as insuficiências dos países
número de países ocidentais os dirigentes políticos e econômicos subdesenvolvidos em matéria de educação, ao papel do Estado. Sem
responsabilizam os professores, denunciam o "mamute" burocrático, se interrogar sobre os fatores mais profundos da situação desses países,
convidam a seguir o modelo de empresa e de mercado. Quase por toda que fazem com que os governos não tenham mais os meios de
parte a retórica conservadora questionou os profissionais do ensino, a desenvolver uma escola pública e de ampliar a escolarização, o Banco
quem se recriminou ficar ao abrigo da concorrência pelas regras Mundial apela para uma mobilização dos fundos privados no nível do
burocráticas mas também do controle das autoridades centrais ou
ensino secundário e superior 22 .
locais, por uma autonomia muito mais importante. Os conservadores
britânicos lançaram vastas campanhas nesse sentido desde os anos
1990. 20. Cf. Chrisdan LAVAL e Lo"is WEBER (coord.) , op. cit.. p. 47 et sq.
21. Harry PATRINOS. The Global Market for Education, AUCC Imemational Conference, Montréal.
outubro de 2000, site do Banco Mundial:<httj)//econ.worldbanck.org/files/1808LtvjJS2881.pdf>. Cf.
igualmente Shobhana SOSALE, Trends in Priva te Sector Oevelopment in Bank Education Projects, World
18. Ibid., p. 53 e 224. Bank.
22. Harry Patnno5 propõe assim que, "nos anos recentes, as condições macroeconômicas desfavoráveis e
19. Ibid., p. 55.
uma concorrência muita viva entre os setores, para acesso aos fundos públicos, reduziram a capacidade da
* Vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa. maior parte dos governantes de financiar a educação" libid., p. 7).

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

A ofensiva liberal da direita francesa repousava, inicialmente, em um determinismo tecnológico: as novas


A direita francesa, ou ao menos uma grande parte dela, foi ferramentas (televisão, computadores) reclamavam um trabalho de
muito influenciada por essas doutrinas neoliberais e integrou, em seu equipe, conduziam a penetração da "informação mundial" ,
programa, suas aplicações no domínio educativo. Mas não se trata de modificavam a relação dos professores com os alunos e o lugar do
uma simples importação das teorias americanas. O vento do Oeste a saber escolar na escola. Mas, sobretudo, era urgente iniciar o
favor do mercado escolar teve como efeito principal reforçar as "desmonte do quadro estatal da educação" e de "questionar o papel do
proposições que a direita francesa tinha avançado cedo demais. No Estado e de seu monopólio de fato"25. Olivier Giscard d'Estaing
pós-68, a ordem do dia não era mais a manutenção das tradições, a delineava duas direções prioritárias a fim de realizar as condições da
conservação das instituições e dos valores franceses mas, ao contrário, liberdade de ensino: a desnacionalização da educação pela criação de
a "contestação" de todos os arcaísmos da sOciedade, dirigida em um entidades escolares independentes, por um lado, e a regionalização da
sentido conservador. O progresso havia trocado de lado, ao menos era gestão dos locais e das pessoas, por outro lad0 26 .
o que a direita liberal gostava de fazer acreditar desde essa época. No A liberdade de escolha das famílias e a liberdade pedagógica
pensamento da direita, encontra-se, com efeito, uma mistura, deixada aos estabelecimentos devem favorecer a concorrência e a
diferentemente dosada segundo os momentos e as pessoas, de eficácia. Convém, pela descentralização, transferir o essencial do
modernização descentralizadora - e diferencialista - da escola e do poder de decisão e de gestão às regiões. A diversidade, tema comum
retorno a uma ordem moral e escolar antiga. Essa mistura testemunha, da direita e da esquerda modernizadora, se torna o princípio que
por um lado, preocupação de ordem social em nome da tradição (que suplanta aquele da igualdade: "A uniformidade do ensino,
os pensadores de direita gostam de chamar "republicana") e, por outro conseqüência do monopólio, esteriliza o lado criativo e imaginativo
lado, preocupação com a liberdade de escolha das famílias. O que de uma sociedade"27. A não-setorização do recrutamento é exaltada
unifica ideologicamente os autores de direita é a denúncia da assim como a "descompartimentação" entre a escola e a economia. A
"uniformidade", apresentada como um insuportável "igualitarismo", regionalização e a privatização devem elevar a produtividade do
em nome da liberdade e da diversidade dos talentos naturais. É, em sistema, permitindo adaptações mais rápidas às necessidades da
realidade, a igualdade como finalidade política concreta que é economia. Os estabelecimentos devem gozar de maior autonomia e
contestada 23 . poder decidir ao menos uma parte de seu currículo, em função de suas
Desde 1981, Olivier Giscard d'Estaing, o irmão do futuro características próprias, ampliando o campo das opções específicas
presidente, proclamava a necessidade de uma "revolução escolar" e para um estabelecimento 28 • Olivier Giscard d'Estaing propunha
mesmo de uma "revolução liberal do ensino" em uma obra reunindo reduzir ao mínimo os serviços centrais pela descentralização: cada
todos os temas de nossos modernos reformadores. Esse precursor,
muito influenciado pela sociologia das organizações de Michel
Crozier, pretendia aplicar ao ensino os métodos que ele havia, em
outra época, sugerido para o setor privad0 24 . A "reforma liberal" 25. Olivier GISCARD D' ESTAING, Éducation et civillisation, PaUl' une révolution libérale de
I' enseignement, Fayard, Paris, 1971, p. 12·13.
26. Ibid., p. 72 et sq.
27. Ibid., p. 78.
23•. Para a análise da ideologia de direita em matéria escolar, cf. Edwy PLENEL, La RéPubllique inachevée, 28. Por um santo terror do "maoísmo e para as necessidades da ordem social, esse autor via os limites da
11

l'Etat et I école em France, Payot, Paris, 1997, p. 401.428. autonomia dos estabelecimentos na ameaça de um doutrinamento político levado a efeito pelos professores de
24. Olivier GISCARD D' ESTAING, La Décentralisation des pouvoirs dans I'entreprise, Éditions esquerda. O Estado, se devia ceder suas prerrogativas escolares às regiões e às fmmlias, devia, ainda, zelar
d'Organisation, Paris, 1966. para que "a liberdade espiritual e intelectual das crianças" fosse respeitada.(p.129!.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

região teria então seus próprios estabelecimentos e seu próprio diferencialismo educativo é claramente formulado: "As diferenças de
"ministério da educação nacional"29. atitudes, de ritmos de aprendizado ou de maturação intelectual
Essas temáticas, precocemente formuladas, vão se impor ao pleiteiam, além do mais, um sistema educativo diversificado e
conjunto da direita como tantas evidências naturais. Nos anos 1980, diferenciado, onde não se buscará mais fazer com que as crianças da
o Clube do Relógio, famoso "thinktank" de uma direita dura, França aprendam todas as mesmas coisas, no mesmo momento,
administradora da restauração conservadora de Reagan, retrabalhou pretendendo fazê-los seguir o mesmo caminho e obter no final das
seus temas para os difundir amplamente e constituir um embasamento contas os mesmos resultados"32.
ideológico comum, da direita e da extrema direita. As metáforas Roger Faroux e Alain Minc não inventaram nada quando
animalescas e pré-históricas de Claude Allegre (próxima ao animal) afirmaram que em Neully e Aubervilliers não se deve ensinar nem os
já tinham servido: "Do corpo social como do vivo: quanto mais um mesmos programas, nem segundo os mesmos métodos. Reencontra-se,
organismo é diferenciado, melhor ele se adapta. O dinossauro no meio dos anos 1980, o mesmo tom em Alain Madelin, que
educativo francês não está mais adaptado ao mundo de hoje"3o. pretendia "liberar o ensino" dos grilhões opressivos do igualitarismo e
O Clube do Relógio conclamava os partidos de direita a propunha receitas simples que brilhariam depois: "Devemos inverter
atacarem o "grande monopólio" igualitarista e uniforme a começar a pirâmide escolar e construir um sistema onde a base, quer dizer, a
pelos "feudos sindicais", fontes de todos os males: "é preciso opor à demanda de educação, decida enfim"33.
lógica do monopólio estatizante, uma lógica da concorrência e da Se a educação de tempos passados respondia a uma "lógica de
rivalidade"31. Ele pensava, para tal, promover "uma dinâmica de oferta", isso se justificava pelas oposições dirigidas contra a educação
escolha, quer dizer, uma concorrência, a mais livre possível, entre do povo. Ela se torna inútil, se existe uma demanda espontânea de
produtos de valor diferente". Nessa doutrina, a diversidade e a instrução para se ascender na escala social. Além disso, a demanda
diferença dos alunos tornam inevitável a educação separada que é a mudou. Para as crianças diferentes, tanto "superdotadas" quanto
exata e necessária reação a uma política de equalização. Trata-se de "difíceis", são necessários métodos pedagógicos adaptados. "Todas as
substituir um "sistema educativo descentralizado e burocratizado" por análises convergem: a luta contra o fracasso escolar passa pela
um ensino pluralista e diversificado onde cada um terá a possibilidade utilização de pedagogias diferenciadas"34. Alain Madelin concluía que
de seguir no seu ritmo o caminho que escolher. O "cheque-educação" "a educação do futuro é uma educação dirigida de baixo, pela
versão francesa dos vouchers, depositado em função das "atitudes" e demanda. Ora a demanda supõe a escolha e a escolha, a liberdade, a
dos "gostos", assim como a seleção na entrada em todos os concorrência das escolas." E, se de agora em diante seguimos o
estabelecimentos escolares, a abolição da gratuidade dos manuais, "princípio da eficácia", dizia ele, o ensino concebido como serviço
seriam os meios. Não se saberia dizer melhor, apesar dos eufemismos, "pode ser indiferentemente o produto de uma iniciativa privada ou o
que se trata de dar mais àqueles que querem e podem mais. O fruto de uma ação pública"35. O sistema escolar deveria então tirar as

29. Vê-se que os temas defendidos por Claude AllegJ'e ou Luc Ferry sobre a descentralização são retomadas
tardias de certos lugares comuns "modemizadores". 32.lbid.
33. Alain MADELlN, Pour libérer l'école, l'enseignement à la carte, Robert Laffont, Paris, 1984, p. 25.
30. Didier MAUPAS e o Clube do Relógio, I:École en accusation, Albin Michel, Paris, 1983, p. 189.
31. Ibid., p.182. 34.lbid., p.35.
35. Ibid., pAI.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A grande onda neoliberal

conseqüências de sua entrada, apresentada como irreversível, nessa adoção, pelo discurso interno da instituição escolar de uma ideologia
nova era consumidora e se adaptar às demandas das famílias, dos dócil às lógicas de mercado, a ponto de, por uma operação de
alunos, das empresas. Toda resistência seria não somente vã, mas metaforização eficaz, assimilar a escola a um mercado escolar. E,
arcaica ou corporativista. A escola não está a serviço das famílias, das naturalmente, as categorias tornadas "evidentes" do liberalismo
crianças e das empresas? Interroga-se Alain Madelin, sem se perguntar encorajam as práticas e os comportamentos que terminam por criar
se essas "demandas" são compatíveis entre si. uma realidade que parece se aproximar de outros mercados existentes.
Essa posição liberal se estendeu bem além das fronteiras A impossibilidade de pensar uma instituição de outra maneira que
políticas clássicas. Ela se tomou, no curso dos anos 1980 e 1990, o não seja como uma relação contratual e mercantil com os clientes ou
horizonte da política de "esquerda". Os apoios recebidos por Claude usuários é, além do mais, um dos traços característicos do espírito
Allegre por parte dos representantes do liberalismo mais em evidência dominante da época.
e mais fortes em matéria escolar, Alain Madelin ou Charles Milton, O desconhecimento de qualquer outra instância da existência,
como de resto do conjunto da imprensa de direita, não são acidentes que não o interesse pessoal, se lê nos trabalhos mais sérios e nos mais
ou equívocos, mas prendem-se a efeitos de dominação ideológica reconhecidos a respeito de instituições, quer se trate do Estado, da
sobre o mundo político, administrativo e mediático. Hoje em dia família, de religião, de ciência, de direito, etc.
ainda, a continuidade entre as reformas de esquerda e de direita A importação mais ou menos consciente dos modelos
podem impressionar. Diante das dificuldades, parece que não havia utilitaristas nas análises sociológicas e políticas reforça o efeito das
mais do que uma única solução plausível: se aproximar o máximo atitudes sociais, cada vez mais individualistas, pelo mecanismo da
possível de uma estruturação em mercado, começando por empurrar descrição prescritiva. Toma-se difícil, se não impossível, pensar que
para mais longe a descentralização e a autonomia dos uma instituição seja outra coisa que não um simples instrumento à
estabelecimentos. É importante lembrar que esses remédios que se disposição do indivíduo-consumidor, que não um serviço proposto a
apresentam com prazer como transformações técnicas e uma clientela. Essa primazia da demanda individual está associada
organizacionais, sob a pluma das responsabilidades administrativas e com um questionamento da legitimidade de uma cultura que não seria
dos experts, dependem, historicamente, de programas políticos "escolhida" pelo indivíduo ou que não teria ligações estreitas com um
liberais que se espalharam no mundo inteiro e que constituem, hoje interesse pessoal ou uma dependência comunitária.
em dia, uma vulgata mundial, da qual será muito difícil se Se a escola é vista como uma empresa agindo sobre um
desembaraçar. mercado, uma recomposição simbólica se impõe além dos círculos dos
ideólogos liberais: tudo o que é da escola deve poder ser parafraseado
A escola como mercado: em linguagem comercial. A escola deve ter uma lógica
um novo senso comum mercadológica, ela é convidada a empregar técnicas mercantis para
O sucesso da ideologia neoliberal não se vê melhor em outra atrair o cliente, deve desenvolver a inovação e esperar um "retomo de
parte do que na identidade traçada entre a "reforma" da escola e sua imagem" ou financeiro, deve se vender e se posicionar no mercado,
metamorfose em mercado ou quase-mercado. Uma das mudanças mais etc. A literatura sociológica, administrativa e pedagógica alimenta a
importantes na evolução dos sistemas educativos, freqüentemente nova fala de "demanda" e de "oferta" escolares. A instituição da escola
ocultada pela massificação dos efetivos, fixa-se precisamente na que era até então entendida como necessidade moral e política,

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 6

tomou-se uma oferta interessada por parte de uma organização o grande mercado da educação
pública ou privada. E, se os adeptos desse léxico admitem que essa
oferta estatal pode ter em certas épocas um efeito de apelo sobre a
demanda, eles consideram que, doravante, a demanda é o fator
fundamental de toda política educativa. Ela deveria se "adaptar" ao
mercado generalizado, segundo o verbo em vigor, posto que se trata de
um estado natural da sociedade e não de "resistir" como se poderia
esperar de uma escola pública. É por tais maneiras comuns de falar
sem pensar, que se instala nos espíritos esse "market-education" e que
se constroem na realidade os "market driven schools".
Essa representação da educação como relação de mercado
tomou-se uma vulgata das organizações financeiras internacionais e
de muitos governos. A educação e o comércio já estão associados em
numerosos países: as funções essenciais à vida dos estabelecimentos já
A ideologia liberal acompanha, reforça e legitima as diversas
são delegadas ao setor privado (as refeições, as ajudas escolares, as
formas de desregulamentação, cuja característica geral consiste em
creches, os transportes, etc.) e a tendência é para a privatização,
deixar no espaço escolar um lugar crescente para os interesses
muito mais completa, das atividades de ensino em si3 6.
particulares e para os financiamentos privados, quer sejam de
Estabelecendo para a escola, "roteiros do futuro", a OCDE
empresas ou de indivíduos. Apesar dos desmentidos oficiais, a
assinala algumas dessas mutações: "reforço do exercício de escolha dos
modernização liberal da escola passa por uma extinção progressiva das
pais, algumas vezes pela atribuição de cheques-educação; participação
fronteiras entre domínio público e interesses privados, o que na
do setor privado na gestão das escolas, ou de partes do sistema;
tradição administrativa francesa representa uma ruptura considerável.
importantes contribuições de casais para financiar cursos particulares
Alguns dizem abertamente o que ele é. Assim, Bertrand Cluzel,
complementares como no Japão ou na Coréia, ou para escolarizar suas
executivo de uma filial da Vivendi, Educinvest, uma das principais
crianças nas escolas privadas (tais como as escolas privadas britânicas
empresas privadas de ensino na França e na Europa, afirmava há um
curiosamente chamadas "public schools"); financiamento público de
certo tempo que "daqui para frente é preciso aprender a falar de
estabelecimentos privados fundados por grupos culturais, religiosos ou
dinheiro em educação, tanto sob o ângulo do investimento quanto de
de cidadãos; desenvolvimento, pelas empresas, do mercado da
rentabilidade. Por fim, a educação deve entrar no setor mercantil"l.
cyberformation, etc. 3 ?". Essas são as práticas múltiplas que nós
Segundo a fórmula preciosa de um responsável de formação
precisamos agora localizar e analisar mais em detalhe.
continuada, "a formação é um negócio"2. O que é verdade desde há

1. Bertrand CLUZEL, "De l'éducation marchande" , Gérer et comprendre, março, 1993, no 30. Esse
36. Na Grã Bretanha, a inspeção das escolas primárias é amplamente asseguracla desde 1993, por autor propunha passar para um regime de concessão deixado para gerentes, o essencial do aparelho
organIsmos privados. educativo, à maneira da "Fac Pasqua "(Universidade Leonardo da Vinci) da qual ele foi um dos promotores.
37. OCDE, Analyse des politiques d'éducation, 2000, p. 146. 2. Le Monde, 26 de maio de 2000.

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muito tempo nesse domínio, amplamente abandonado ao mercado, de pureza do saber de acordo com o idealismo difuso que animava a
tende a sê-lo também na formação inicial e universitária. moral professoral e mais profundamente fiel às fontes religiosas da
Uma fatalidade à qual seria preciso se resignar e que Claude ideologia administrativa na França. O mercado não estava
Allegre apresenta assim: "O saber será a matéria-prima do século 2I. inteiramente proscrito na medida em que ele era garantia de uma
O que se via chegar com uma lógica invencível, que justificava todos liberdade intelectual. Assim o comércio dos manuais escolares sempre
os raciocínios intelectuais, está aí, a nossa frente, realidade ofuscante foi admitido, mediante um respeito dos autores ao programa.
e perturbadora. Realiza-se de repente que essa matéria cinza Sem dúvida, a sociologia tem razão em duvidar tanto do
intelectual arrasta com ela as mesmas conseqüências de toda matéria- alcance dessa separação como em insistir sobre os fatores sociais da
prima: comércio, dinheiro, poder, tentação do monopólio, enfim, o hierarquia escolar. Não se pode, no entanto, esquecer que a
que transforma todo objeto - mesmo intelectual - em mercadoria. O gratuidade escolar constituiu um meio de democratização da cultura,
comércio dessa mercadoria virtual que é o espírito terá lugar - já tem certamente muito insuficiente por si só, enquanto para muitos a
lugar - em escala mundial, sem fronteiras e, no momento, sem manutenção de um sistema privado de educação escolar constituía
controle claro. Mercadoria impalpável, que só se transfere de cérebro sempre uma fonte de deSigualdade e de discriminação,
a cérebro, se transporta facilmente de um ponto ao outro do planeta, freqüentemente subestimada pelos políticos comprometidos. O
com um custo, um preço, um valor mercantil" (Le Monde, sexta-feira, dinheiro continuou, é claro, a ter um papel diferenciador, inclusive na
17 de dezembro de 1999). educação pública, sob múltiplas formas, pela importância dos passeios
Certamente, não se pode ignorar que o ambiente da escola é culturais, das viagens lingüísticas a cargo das famílias, das formações
composto para partes do mercado que lhe fornecem ferramentas de musicais e por muitas outras atividades praticadas fora da escola. Esse
funcionamento e de trabalho: de início, livros escolares, obras e complexo emaranhado dos domínios público e privado é reforçado,
documentos para escolares, máquinas, instalações de todos os gêneros. hoje em dia, pelos numerosos fenômenos que se podem agrupar sob o
No final, o mercado do emprego é mais do que nunca o receptáculo termo de "mercantilização". A escola francesa está engajada em uma
obrigatório dos "recursos humanos" e do "capital humano", formados secularização de peso legal e se ela não está no mesmo estágio da
pela escola. Mais globalmente, a escola existe no seio de uma escola americana, múltiplos sinais mostram que ela recupera esse
economia de mercado na qual, para empresas poderosas, os jovens atraso.
constituem um "alvo" comercial a atingir por estratégias específicas,
através de mídias particulares, que consistem em transformar, desde a As formas da mercantilização
primeira infância, os espíritos ainda pouco experientes em A "mercantilização da educação" é uma noção que deve ser
consumidores de mercadorias cada vez mais numerosas e variadas. entendida de diversas formas. Vimos, anteriormente, que a escola é
A escola pública, laica, gratuita e obrigatória, teve outrora a olhada, mais do que nunca, como uma escola com finalidade
ambição de separar o reino do talento escolar do reino do poderio profissional, destinada a fornecer uma mão-de-obra adaptada às
econômico: o dinheiro não devia mais ser o critério principal de necessidades da economia. Essa intervenção mais direta e mais ativa
distinção entre os alunos. Valores cívicos e culturais deviam reinar das empresas em matéria de pedagogia, de conteúdos e de validação
sozinhos, destinados a forjar os cidadãos de amanhã. A antiga das grades curriculares e dos diplomas constitui uma pressão da lógica
representação dominante da escola mantinha naturalmente um ideal do mercado do trabalho sobre a esfera educativa. Mas está longe de ser

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a única fonte de mercantilização da escola. Por menos que se esteja lucro, fazem concorrência entre si e mesmo se vendem e se compram,
atento ao assunto, na França mesmo, os fatos são inúmeros. A como se fossem qualquer outro tipo de empresa4 .
imprensa às vezes faz eco dessas práticas: aqui é o Mc Donald's que se Nos inspirando nessa abordagem, distinguiremos dois grandes
instala em um colégio para recrutar jovens empregados e formá-los na tipos de fenômenos. O primeiro consiste na estratégia das empresas
administração alimentar3 ; acolá é a Microsoft que propõe seus que querem penetrar no domínio escolar, seja por razões publicitárias
programas educativos para ajudar a "revolução copérnica" da (mercado indireto), seja para a venda de produtos (mercado direto).
pedagogia; em numerosos estabelecimentos são as publicidades que À medida que as empresas vão, assim, encontrando cada vez mais
financiam atividades e aquisições escolares dos professores que são facilidade para penetrar no mundo da escola, teremos que lidar com
solicitados a utilizar na aula, suportes meio-pedagógicos, meio- uma comercialização do espaço escolar.
promocionais (o coelho Quick da Nesquick, o Doutor Quenotte da O segundo grande tipo de fenômeno, simétrico ao primeiro,
Colgate até às lições de nutrição de Mc Donald's); mais além são remete à transformação das escolas em empresas produtoras de
universidades que são incitadas a tirar proveito de suas grades mercadorias específicas. Será possível distinguir a mercantilização dos
curriculares vendidas muito caras, em particular, aos países menos produtos educativos, quer dizer, a transformação em mercadorias dos
desenvolvidos, ou a se unir, sob pretexto de parceria, com empresas de suportes e conteúdos do ensino, e a colocação no mercado ou
comunicação em pesquisa de conteúdos educativos. mercantilização da escola que favorece a expansão da concorrência
Sem dúvida, não se pode confundir essas múltiplas formas de entre estabelecimentos e a instauração da livre escolha escolar das
intervenção das lógicas mercantis na escola, especialmente porque famílias. Quando cada vez mais produtos educativos passam pelo
elas variam segundo os países e segundo os momentos. Alex Molnar, mercado, quando as escolas têm tendência a se transformarem em
grande especialista do "comercialismo" nos Estados Unidos, distingue empresas concorrentes, nos deparamos com uma comercialização da
três grandes vias de "transformação comercial" da escola americana atividade educativa. Isso, sem dizer que esses fenômenos são ligados
que, por sua vez, se subdividem em estratégias diferentes: o entre si de múltiplas maneiras, na medida em que de início são regidos
"marketing to schools" que é, de certo modo, inevitável uma vez que pela tendência que quer que nenhuma atividade, nenhum espaço e
as escolas, os alunos e suas famílias dependem da compra de produtos nenhuma instituição escapem à integração no capitalismo. O que é
provenientes do setor mercantil; o "marketing in schools", fenômeno questionada a cada vez, é a autonomia tanto do espaço como da
mais recente quando considerada a maneira mais aberta e a grande atividade educativa, autonomia que se toma difícil de defender em
escala em que ele se dá, como nos Estados Unidos hoje em dia, e que um mundo inteiramente regido não somente pelo comércio real, mas
passa por múltiplas formas de patrocínio, de presença publicitária, de pelo imaginário do comércio generalizado.
vendas com exclusividade na própria escola, etc. e, enfim, o
"marketing of schools", que corresponde a uma etapa superior na qual
as escolas, como empresas de produtos mercantis destinados a gerar 4. Alex MOLNAR, "The Commercial Transfonnation of American Public Education ", 1999 Phil Smith
Lecture, Ohio Valley Phillosophy os Education Conference, Bergamo, Ohio, 15 de outubro de 1999. Alex
Molnar, um dos pesquisadores mais ativos sobre o comercialismo na educação pública, é professor na
University of Wisconsin-Milwaukee, autor de Giving Kids the Business: the Commercialism of America's
Schools; ele dirige o Center for Education Research, Analysis, and Innovation (CERAI)
(<http://www.educationanalysis.org/>) e o Center for the Analysis of Commercialism in Education
(CACE) «http:www.uwm.Edu/Oept/CACE/».Cf. igualmente as numerosos ligações com sites
3. "Quand Mc Oonald's recruteses futurs managers au college", Le Monde, 23 de maio de 2000. americanos no site da APEO, <http://users.skynet.be/aped>.

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Um mercado promissor elas permaneceram estáveis (até em regressão brutal como nos países
As múltiplas formas de envolvimento da educação pelo mais pobres) relativamente ao PIB e por aluno, o que acarreta uma
capitalismo global fazem dessa atividade o domínio de grandes degradação global das condições de acolhimento e de ensino para as
esperanças para as empresas. "Bem superior de consumo" para o "crianças (filhos) da democratização escolar" saídas de meios
economista, a educação é objeto de despesas que crescem mais rápido modestos. Essa "crise das tesouras" cria uma situação muito favorável
que o nível de vida, nos países ricos. "Bem de investimento", ela é e ao setor privado do ensino, que pode se prevalecer do mau estado da
será causa de despesas crescentes das empresas, dos casais, dos Estados, escola pública, em muitos países.
com vistas a um aumento de rendimento futuro. O mercado é ainda Como dizia em 1998, Glen Jones, criador americano de um
mais atrativo, uma vez que, no nível da OCDE, as despesas de ensino império de multimídia educativa, "a educação é o mais vasto mercado
são, desde já, tão importantes em volume quanto aquela que capta do planeta, aquele que cresce mais rápido e onde os atores atuais não
uma indústria de massa como a automobilística. Daniel Rallet dá as respondem à demanda"8. De acordo com os peritos nesse assunto,
seguintes cifras: "As despesas públicas com educação representam parece que a parte das despesas privadas no total das despesas
cerca de 5% do PIB dos países desenvolvidos e 4% nos países em educativas, muito desigual segundo as situações nacionais, teve
desenvolvimento [... ] Na OCDE, o montante das despesas anuais de tendência a aumentar na maior parte dos países durante os anos 1990.
seus estados membros em favor do ensino se eleva a mil bilhões de Segundo a OCDE, na Austrália ela teria passado de 15% a 23%, no
dólares: quatro milhões de professores, 80 milhões de alunos e Canadá de 14% a 18%, na Espanha de 14% a 17%, de 1990 a 1997.
estudantes, 320.000 estabelecimentos escolares"5. A UNESCO Ela teria baixado ligeiramente na França e no Japão (respectivamente
fornece cifras igualmente significativas, situando em 2.000 bilhões o de 9% a 8% e de 25% a 24%9).
montante das despesas educativas no mund0 6 . Os Estados Unidos As despesas educativas representam entre 20% e 30 % das
representariam, sozinhos, um terço desse mercado global e os países despesas públicas segundo os países e numerosos autores e
em desenvolvimento, apenas cerca de 15 %7. responsáveis políticos consideram que as finanças públicas não podem
A progressão dos efetivos é, por toda parte, considerável. suportar, sozinhas, seu crescimento futuro, especialmente no nível dos
Desde 1950, os efetivos escolares no mundo aumentaram duas vezes estudos superiores e da formação profissional. Segundo a OCDE, o
mais rápido que a população mundial, passando de 250 milhões de aprendizado pela vida suporia um apelo cada vez mais maciço a fontes
alunos e estudantes a cerca de 1,2 bilhões, no fim dos anos 1990. de financiamento privadas, quer se tratem de empresas ou de famílias.
Apenas para o ensino superior, os efetivos foram multiplicados por Uma vez que "indivíduos e parceiros sociais podem aceitar investir
quase 14, passando de 6,5 a 88,6 milhões. Em vista desse crescimento mais no aprendizado e na aquisição de competências" com vistas à
impressionante dos efetivos, se as despesas cresceram em valor melhora da situação do indivíduo ou da empresa, que é sua
absoluto em numerosos países desenvolvidos e não desenvolvidos, conseqüência, é preciso que os poderes públicos, ao lado de sua missão

8. Citado por "L'éducation, nouveau marché mondial» , Alternatives économiques, n' 187, dezembro de
5. Daniel RALLET, "I..:éducation un nouveau marché?", Nouveau Regards, n' 7, setembro de 1999, p. 4. 2000.
6. Cf. "Éducation: um marché de 2 000 milliards de dollars", Courier de l'Unesco, novembro de 2000. A 9. Na França, as despesas privadas aumentaram 5% entre 1990 e 1996, ligeiramente menos que as despesas
estimativa em questão vem do Instituto MerryU Lynch. públicas. Esse aumento foi sensível, sobretudo ao nível "pos-bac" onde o setor privado está bem implantado.
7. Cifras fornecidas por Harry Patrinos, "The Global Marketfor Education", artigo citado. CF. OCDE, Regards sur l'éducation, 2000, p. 67-75.

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de "controle" e de "comando", reflitam na "criação de mercados da entre os grandes países industriais e que impõem uma uniformização
formação ou na intervenção sobre esses mercados e a formas de das formas e dos conteúdos dos estudos ll . Esses tipos de formação são,
privatização mais completas"lo. Segundo essa lógica, se o saber é um além disso, refúgios eficazes do novo pensamento gerencial, no
bem privatizado, apropriado seja pelo indivíduo seja pela empresa e conjunto das elites dirigentes há uma vintena de anos, inclusive na
uma fonte de rendimentos particulares, é conveniente prever um função pública. Na França, as escolas de ciências políticas e o ENA se
financiamento privado em grande escala, cujas modalidades poderiam consideram como espécies de super-business schools e têm um
ser uma elevação dos direitos de escolaridade dos estudantes, um importante papel nessa conversão simbólica e política l2 .
sistema generalizado dos empréstimos reembolsáveis, um incentivo Essa tendência à mundialização dos serviços e à expansão dos
fiscal para as empresas investirem na formação continuada. fluxos transnacionais de capitais e de "recursos humanos" produz, no
mesmo movimento, uma comercialização dos serviços educativos 13 .
A glohalização do mercado educativo Cada nação desenvolvida busca, assim, por um lado, atrair os
A evolução mercantil do serviço educativo público não se estudantes estrangeiros e por outro, exportar "pacotes" educativos. À
explica somente pelo aspecto ideológico. Ela se inscreve no processo internacionalização progressiva do mercado do emprego, corresponde
em curso de liberalização das trocas e no desenvolvimento das novas uma internacionalização dos centros e das grades curriculares de
tecnologias de informação e de comunicação em escala mundial. A formação. Os responsáveis pelo comércio exterior nesses países
grande tendência do período é colocar em competição mais direta os buscam, ao mesmo tempo, vender a formação e o savoir-faire, vender
sistemas educativos nacionais, em um mercado global. Essa evolução produtos e a desenvolver oportunidades de investimento ao mesmo
encoraja a aplicação ao domínio educativo dos dogmas de livre-troca tempo drenando os cérebros freqüentemente formados, em parte, às
e estimula a utopia de uma vasta rede educativa mundial expensas dos países mais pobres. O essencial das receitas nesse
transfronteiras e pós-nacional. Segundo essa concepção, a instituição mercado mundial apega-se, ainda, no momento, à vinda de estudantes
escolar estatal seria senão inteiramente enviada para o lixo da estrangeiros, os quais trouxeram, em 1998, 7,5 bilhões de dólares para
história, pelo menos recortada segundo os segmentos mais ou menos a economia americana. Atualmente, as universidades americanas
rentáveis que a compõem. acolhem cerca de 500.000 estudantes estrangeiros. Se são professores
A constituição de um "mercado mundial da educação" não de nível superior e sobretudo de formação para adultos que
afeta efetivamente da mesma maneira todos os níveis e todos os representam hoje em dia os domínios mais abertos ao setor privado e
domínios do ensino. É principalmente o nível superior e são os primeiros alvos da liberalização comercial em escala mundial,
sobretudo as matérias mais próximas da atividade econômica, pode-se esperar que um mercado se desenvolva no futuro para os
voltadas para a concorrência mundial e cujos códigos são, poder-se-ia ciclos primário e secundário em certas áreas, em particular na do
dizer, os mais universais (administração e tecnologia), que estão mais
avançados nesse caminho. Já existe um verdadeiro mercado
internacional da formação em gestão que promove a concorrência
11 . Cf. sobre esse ponta, GiUes LAZUECH, ~ Exception française, Le modele des grandes écoles à I' épreuve
de la mondialisation, Presse Universitaires de Rennes, Rennes, 1999.
12. Cf. Alain GARRIGOU, Les Elites contre la République, La Découverte, Paris, 2002.
13. Relatório da Organização Intemacional do Trabalho, La fonnation permanente au XXle siecle: l' évolution
10. OCDE, Apprendre à taut âge, 1996.
des rôles du personnel enseignant, 2000.

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ensino de idiomas, graças às possibilidades oferecidas pelas novas


acordo retomou completamente os grandes princípios do GATT sobre
tecnologias. A "explosão" dessas novas tecnologias da informação e
a liberdade do comércio e os meios de atingi-la: o princípio da nação
da comunicação (NTIC), a crer em certos autores, deveria permitir
mais favorecida postulando um tratamento igual de todos os países e
um aumento considerável das "mercadorias educativas" em livre
o princípio do tratamento nacional prescrevendo uma igualdade entre
circulação no mundo.
firmas nacionais e estrangeiras no mercado de cada país. Segundo esse
Certamente, há ainda um grande caminho a percorrer entre o
acordo, os serviços educativos devem ser considerados produtos como
sonho liberal e a realidade 14 . A educação, mesmo superior, permanece
os outros, se eles não são dispensados exclusivamente pelo Estado a
ainda, em boa parte, dependente das tradições e estruturas nacionais.
título de funções régias. Ora, esse não é evidentemente o caso da
O Estado continua a ter, no momento, um papel preponderante na
educação para a qual já existe um setor privado. Assim, os serviços
organização dos estudos e na definição dos diplomas. O exemplo das
educativos entram bem no campo de competência do acordo, apesar
business schools e de algumas das formações de ponta em informática
das interpretações tranqüilizadoras que bem se quer dar à OMC ou à
está longe de ser generalizada. Pode-se, no entanto, esperar a
Comissão Européia sobre o assunto 16 . Os serviços educativos referidos
emergência mais franca do mercado educativo em diversos domínios,
pelo acordo podem ser de naturezas variadas, desde os estudos feitos
com a ajuda de organizações internacionais especializadas, visando a
no exterior até a instalação de toda a empresa com fins educativos nos
estruturar o novo mercado. Os organizadores do WEM (World
diferentes países, passando evidentemente pelos cursos à distância.
Education Market) de Vancouver, no fim do mês de maio de 2000,
Suspeita-se que essa tendência é suscetível de colocar em questão
delineavam claramente a estratégia a seguir: trata-se de "favorecer o
todas as estruturas de enquadramento nacional da educação, desde os
desenvolvimento de transações comerciais" no domínio educativo
princípios regulamentando as obrigações escolares dos alunos e
com o objetivo de 90 bilhões de dólares em 2005. Os objetivos são, de
estudantes até o valor dos diplomas entregues no território. É todo um
todo modo, explícitos: "Na hora em que entramos na sociedade do
mercado de grades curriculares e de títulos que poderia então se abrir
conhecimento, é forçoso constatar que a educação entra na era da
no interior de um espaço mundial desregulamentado, dando meios
mundialização. A emergência de economias que privilegiam o acesso
suplementares de imposição simbólica e de dominação econômica às
ao saber e a chegada de uma ampla gama de novas tecnologias a
nações e às firmas dispondo de um potencial educativo já bem
serviço da aprendizagem são seus motores" 15.
desenvolvido. A educação mundializada, se vem a se desenvolver
A constituição de um tal mercado global da educação é
como alguns prevêem, escaparia à soberania das nações para entrar de
desejada pelas grandes organizações de inspiração liberal. A
modo mais decisivo em uma era de homogeneização mundial dirigida
Organização Mundial do Comércio (OMC) inscreveu em sua agenda
pelas lógicas de mercado.
desde 1994, a liberalização das trocas de serviços no âmbito do acordo
A delegação americana na OMC, aliás, anunciou claramente
chamado GATS (General Agreement on Trade in Services) ou, em
os objetivos estratégicos e as expectativas comerciais que os Estados
português, AGCS (Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços). Esse
Unidos mantêm no domínio escolar: "Uma das vantagens mais
fundamentais da liberalização do comércio dos serviços de educação é

14. Cf. Amaine REVERCHON, "Le marché mondial de I' enseignement supérieur reste un fantasme", Le
Monde, 7 de setembro de 1999.
15. Proposições citadas por Le Monde, 26 de maio de 2000. 16. Cf. Christian LAVAL e Louis WEBER (coord.!, op. cit., p. 24 et sq.

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de aumentar o número e a diversidade dos serviços de educação à países menos desenvolvidos, é o principal critério de recrutamento,
disposição dos membros da OMe. Esses serviços são cruciais para considerando-se o alto custo dos estudos na França.
todos os países, inclusive as economias emergentes, que têm A liberdade de circulação, a igualdade frente à educação e a
necessidade de uma mão-de-obra corretamente formada e fraternidade entre os povos, valem pouco em face das considerações
familiarizada com a tecnologia, para poderem ser competitivos na "realistas". Como em outras áreas, a posição oficial francesa obedece
economia mundial. O desenvolvimento dos serviços de educação a um liberalismo mimético: contra a mercantilização, "não há
estimula o investimento estrangeiro e a transferência de outras escolha", é preciso fazer a mesma coisa que os outros e, sobretudo, a
tecnologias importantes. Aumenta, igualmente, a demanda de toda mesma coisa que os americanos. Claude Allegre mostrou o exemplo,
uma gama de bens e serviços conexos, incluindo a produção e a venda fazendo da exportação de produtos educativos um dos grandes eixos
de manuais e de material pedagógico destinados ao ensino e à de sua política: "Nós vamos vender nosso savoir-faire ao exterior e
formação" 17. fixamos um objetivo de 2 bilhões de francos de vendas em três anos.
A França, que é o segundo exportador mundial dos serviços Eu estou convencido que se trata do grande mercado do século 21"19.
educativos depois dos Estados Unidos (levando em conta a presença Essa foi, aliás, a missão atribuída à agência EduFrance criada em 1998
de estudantes estrangeiros no país, que pode ser comparada a uma ("uma agência no mercado mundial da educação"), cujos objetivos,
venda ao exterior de um serviço), se vê nos postos avançados dessa segundo seu responsável François Blamont, eram e são ainda, de
batalha mundial. Bem colocada com seus 195.000 estudantes vindos introduzir lógicas de mercado no sistema educativo: "Nós não temos
de fora, a universidade se toma uma componente não negligenciável a cultura dos anglo-saxões e muitos dos atores do ensino têm medo de
do comércio exterior da França. Em todos os domínios, as dizer que ganham dinheiro. Universidades e escolas não crêem sempre
universidades francesas são convidadas a se lançar à conquista de nisso. Nós estamos ainda engatinhando"20.
mercados. Como salientava o jornal Le Monde, "a caça ao estudante A Comissão Européia não dizia coisa diferente quando, em um
estrangeiro atinge seu auge" 18. As instituições públicas de ensino dos seus documentos de trabalho, escrevia: "Uma universidade aberta
superior organizam universidades de verão pagas, propõem "viagens é uma empresa industrial e o ensino superior à distância é uma nova
xxxx", organizam "estadias ao mesmo tempo de estudo e lúdicas". indústria. Essa empresa deve vender seus produtos no mercado do
Certamente, os argumentos divulgados são gerais: a França se abre ensino contínuo o qual é regido pelas leis da oferta e demanda"21.
para o mundo e difunde sua cultura além das fronteiras. O "mercado Quanto à OCDE, ela prevê que a mundialização será a força que fará
do estudante estrangeiro" quebra o imobilismo, as intrigas pender os sistemas de ensino para "redes" muito mais abertas, que
administrativas, o racismo latente das autoridades públicas. Por trás associarão múltiplos parceiros e tomará arcaica a existência de escolas
das boas intenções, a realidade é menos bela: nesse mercado, o poder públicas e de professores profissionais: "a mundialização - econômica,
de compra dos estudantes estrangeiros, sobretudo quando eles vêm de

19. Les Échos, 3 de fevereiro de 1998.


20. Nathalie GUIBERT, "EduFrance tente de vendre l'école à la française " , Le Monde, 26 de maio de 2000.
17. Nota infonnal da delegação dos Estados Unidos aos membros do ConseUm do Comércio de Serviços (20 Cf. Igualmente XXIe siecle no 7, março-abril de 2000. O título do dossiê dessa revista do ministério da
de outubro de 1998). Educação nacional é esclarecedor: "Des échanges paUl" être plus comPéririfs" (As trocas para ser competirivo).
18. NataUe GUIBERT, Tuniversité française séduit enfin les étudiants étrangers", Le Monde, setembro de 21. L'Éducarion et la formarion à distance, sec (90)479, março de 1990, citada por N. HIRT e G. De
2002. SÉLYS, op. cit., p. 31.

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política e cultural - torna obsoleta a instituição implantada Education Management Organizations, EMOs) encarregadas de
localizadamente e ancorada em uma cultura determinada que se rentabilizar essas escolas, as quais continuam financiadas por fundos
chama "a Escola" e, concomitantemente, "o professor"22. No entanto, públicos. Essas escolas colocadas em gestão direta tanto no plano
nada foi apostado. Há risco das grandes esperanças de livre-troca administrativo quanto no pedagógico, tornam-se, por esse meio, filiais
serem frustradas. As manifestações de resistência à globalização de sociedades cotadas em Bolsa, cujo objetivo é de resgatar benefícios.
liberal, especialmente em matéria educativa, se multiplicaram desde o O Center for Education Research, Analysis, and Innovation
fracasso de Seattle em 1999, que marcou uma virad a 23. Quanto aos (CERA!) identificou um total de 21 grandes empresas gerindo 285
universitários, sua tomada de posição espetacular contra a "educação- escolas no país 25 . Esse mercado, ainda relativamente limitado, é
mercadoria" em outubro de 2001, anuncia talvez uma mobilização de destinado a se estender, segundo os especialistas financeiros da Wall
maior amplitude dos meios acadêmicos 24 . Street encarregados de estimar e de colocar na Bolsa as ações dessas
sociedades. Mesmo se poucas entre elas já são beneficiárias, as
A privatização da educação esperanças de rentabilidade continuam grandes, para alguns. A
A forma mais direta da constituição de um mercado do ensino empresa nova-iorquina Edison, à frente da qual está Christopher
consiste em encorajar o desenvolvimento de um sistema de escolas Whittle, igualmente promotor da cadeia escolar publicitária Channel
privadas, como faz por exemplo o Banco Mundial para os países One, da qual trataremos mais tarde, conheceu, assim, uma expansão
pobres, ou de privatizar em parte ou totalmente, as escolas existentes. fulgurante no setor escolar, gerindo mais de cem estabelecimentos em
Foi dito anteriormente, quanto o neoliberalismo prentendia aliviar o 2001 enquanto contava com apenas 25 em 1997 26 • Segundo as
custo da educação para os orçamentos públicos encorajando a estimativas atuais de Merryl Lynch, 10% dos fundos públicos alocados
"diversificação" de seu financiamento. Essa privatização se estende em à escola, do maternal até a high school, deveriam transitar por essa
numerosos países, seja pelo que é da escola seja pelo que é tutelar. Os indústria do gerenciamento privado nos próximos 10 anos, ou seja,
Estados Unidos são um bom exemplo da primeira tendência, marcada um mercado de 30 bilhões de dólares Z7.
além disso pela concentração do capital graças à tutela administrativa Criados pela demanda das famílias, desorientadas pela
de centenas de Charter Schools (escolas sob contrato criadas há uma degradação de numerosas escolas, esses estabelecimentos oferecem
dezena de anos) por algumas grandes empresas especializadas (as uma pedagogia fundamentada nas técnicas de gerenciamento por
"objetivos" e na motivação do pessoal interessado nos benefícios.
Pretendendo obter resultados mais elevados que os outros, essas
22. OCDE, Analyse des politiques éducatives, 1998. escolas freqüentemente são melhor equipadas, graças aos fundos
23. Cf. Susan GEORGE, "À l'OMC, trois ans pour achever", Le Monde diplomatique, julho de 1999. públicos que lhes são alocados e oferecem cursos mais numerosos,
"Cycle du millénaire, I;éducation, un nouveau marché?" Cf. Nouveaux Regards, setembro de 1999, nº 7,
Cf. Igualmente a nota de reflexão da 1ntemationale de l' éducation sobre o asSUnto, in Questions em débats,
no 2, maio de 1999.
24. Nathalie GUIBERT, "Les universités [rançaises et américaines contre la libéralisation de l' enseignement
supérieur", Le Monde, 6 de outubro de 2001. As principais instâncias representativas das universidades
euroPéias e seus homólogos americanos assinaram em 28 de setembro, uma Declaração comum sobre o ensino 25. Cf. o relatório do CERAI sobre as escolas geridas pelos EMOs (Education management organisation)
superior e o acordo geral sobre o comércio dos serviços (acordo da AGCS) que se opõe à liberalização do ensino 1999-2000 no site <http://www.uwm.edu/Dept/CERAII>.
superior como prevê a OMC. Segundo o autor do artigo, a declaração reafirmou que o "ensino superior deve 26. Coumer de l'Unesco, dassiê citado, p. 30.
servir o interesse públlico e permanecer regulada pelas autoridades públicas, a fim de garantir a qualidade, o 27. Alex MOLNAR, "Ca/culating the Benefits and Costs of For-Profit Public Education", Education Policy
acesso e a eqüidade da educação". Analysis Archives, vol9, n' 15, 24 de abril de 2001 .

122 123
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o grande mercado da educação

centrados nas materiais fundamentais. Prometendo serem destruição dos sistemas escolares públicos. Por comparação, as
"laboratórios de inovação pedagógica", elas convenceram muitos empresas de instrução privadas são menos desenvolvidas no Oeste
jornalistas e responsáveis políticos locais que sua flexibilidade os Europeu, na América do Norte e na Austrália, mas pode-se esperar
liberaria de todas os entraves burocráticos da escola pública, sua expansão. Na França no entanto, a atividade dos "pequenos
supostamente responsáveis pelos maus resultados. Os efeitos cursos" parece em nítido aumento. 30 Uma empresa de cursos
prometidos estão, no entanto, longe de serem atingidos, tanto no particulares como a Academia realiza 1 milhão de horas de curso em
plano pedagógico como no financeiro. O grupo Edison viu o valor de domicílio, sem contar os estágios e suportes de toda natureza. É a
sua ação cair rapidamente e perdeu um número importante de primeira no mercado em crescimento com 52 agências, 15.000
contratos entre 2001 e 2002 por não poder manter em todos os professores e 50.000 alunos 3l .
lugares suas promessas de sucesso. Como dizem dois pesquisadores que Esse setor absorve uma parte crescente das despesas das
efetuaram uma enquete sobre as escolas Edison, não se padronizam famílias com educação. Mark Bray estima o valor de 20% no Egito em
"produtos escolares" como se pode fazer nas cadeias de fast food. As 1994, para os alunos das cidades. Na Coréia do Sul, as somas
situações locais, o nível dos alunos, as condições sociais são muito despendidas para a instrução privada representavam 150% do
diferentes para permitir programar os resultados escolares e garantir orçamento governamental para a educação em 1997 32 . Esse fenômeno
aos investidores o rendimento prometid0 28 . tende a transformar o próprio sistema educativo. Os efeitos negativos
Um dos aspectos menos discutidos da privatização do ensino são sentidos nas desigualdades entre alunos, no desenvolvimento de
está ligado à expansão da "segunda escola", da "educação da mentalidades consumistas, na alienação dos alunos, no conteúdo dos
obscuridade", aquela dos pequenos cursos e da instruçã0 29 . Milhões de conhecimentos (as matérias mais rentáveis em termos de progressão
alunos através do mundo seguem um percurso escolar paralelo, no social e profissional como o inglês, as matemáticas e as ciências são
quadro de uma instrução privada paga, que tomou as dimensões de um valorizadas em detrimento de outras), nas maneiras de aprender
vasto mercado capaz de drenar fundos cada vez mais importantes. No (método mecânico, compreensão superficial, culto da eficácia e da
Japão, 70% dos alunos da escola média receberam uma ajuda escolar rapidez). É uma verdadeira industrialização da formação que se
privada, freqüentemente em empresas especializadas (juku), das quais instala, cujos efeitos tanto nos alunos (aumento do estresse) como nas
algumas são já grandes sociedades cotadas em Bolsa. O fenômeno está finalidades da educação (produtos e exercícios diretamente
em expansão em numerosos países asiáticos, na China em particular. assimiláveis, padronizáveis, normalizáveis, reprodutíveis) não devem
Ele se desenvolve na África, na América Latina, no Leste Europeu. ser subestimados.
Verdadeiras multinacionais foram criadas como a Kumon Educational
Institute, empresa japonesa presente hoje em dia em cerca de trinta
países. No Leste Europeu o fenômeno cresceu rapidamente com a

30. "O número de horas de curso passou de 881.000 em 1997 para 1,058,000 em 1998 [. .. ] Valores que
28. Cf. Heidi STEFFENS e Peter W COOKSON ]r., "Limitarions of the Market Model", Educarion Week incitaram o ministério da educação nacional a prever uma ajuda individualizada para os jovens em dificuldade
on the Web, 7 de agosto de 2002, <http://www.edweek.org/ew/news-tory.cfm!slug=43steffens.h21> no liceu", Lé Monde, 7 de abril de 2000.
29. Mark BRAY, The Shadow Educarion System: Private Tutoring and its Implicarions for PIanners, Unesco, 31. Cf.ATTAC Saim-Nazaire, I'Éducarion n'est pas une marchandise, 2002, p. 16-19.
Imemarional Insritute for Educarional PIanning, 1999. 32. Segundo o jornal Asiaweek, "Banning tutors", vaI. 23, no 17, p. 20.

124 125
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o grande mercado da educação

Mercado das novas tecnologias e com que a Comissão Européia adotou as principais recomendações
ilusões pedagógicas dos industriais da área34 . A ERT (Mesa-Medonda Européia dos
Um dos fenômenos mais significativos que apareceram na Industriais) lançou o movimento, publicando um relatório intitulado
Europa nos anos 1990 reside na criação de um mercado das novas "Educação e competência na Europa" em janeiro de 1989, que
tecnologias de uso educativo. Para as empresas em busca de novas preconizava o "aprendizado à distância", especialmente em matéria de
saídas, o ensino apareceu como uma espécie de Eldorado, pelo seu formação permanente. Em março de 1990, a Comissão Européia
tamanho e a importância dos equipamentos de informática que lhe tomava o lugar da ERT com um documento de trabalho sobre "a
são necessários. Os Estados Unidos mostraram o caminho desde o fim educação e a formação à distância". Ela escrevia: "O ensino à
dos anos 1980, tanto no nível dos contratos unindo universidades e distância [... ] é particularmente útil [... ] para assegurar um ensino e
colégios a grandes firmas como Microsoft, quanto em nível de uma formação rentáveis." Em maio de 1991, a Comissão
experimentação com os Apple Classrooms of Tomorrow (ACOT33). acrescentava, em um novo relatório: "A revolução informática
Nos Estados Unidos, uma formidável concorrência entre os desloca uma grande parte do ensino [... ]. Os conhecimentos úteis têm
fornecedores e um discurso de mobilização intensa, impulsionado uma meia vida de 10 anos, o capital intelectual se deprecia 7% ao
pelos lobbies e pela grande imprensa, aceleraram o provimento das ano, acompanhado por uma redução correspondente de eficácia da
escolas. mão-de-obra". O ensino à distância permite, então, renovar o "capital
Nesse domínio, a Europa não ficou atrás. No início de 1994, a humano" necessário, transmitindo os "conhecimentos úteis" graças ao
Comissão propunha "estimular a pesquisa" sobre "os programas impulso do teletrabalho. Falando de "produtos" e "clientes", a
educativos multimídias" e aumentar o orçamento que já havia sido a Comissão assegurava querer fazer do e-Iearning uma alavanca de
ela destinado. A "Parceria Européia para a Educação" (1997) transformação da escola: "A realização desses objetivos exige
pretendia levar para as escolas os materiais e os programas necessários estruturas de educação que deveriam ser concebidas em função das
com a ativa colaboração dos industriais do setor. No mesmo ano, Tony necessidades dos clientes".
Blair lançava um vasto plano patrocinado por Bill Gates para Em 1994 a ERT publicava um novo relatório intitulado
conectar 32.000 escolas britânicas. Em março de 1997, Jacques "Construir as auto-estradas da informação" no qual os industriais
Chirac solicitava solenemente que todos os estabelecimentos de previam a criação de um sistema educativo virtual, associando o setor
ensino secundário fossem conectados à rede, objetivo que ia se tomar privado e o setor público em escala européia. No seu "Livro Branco
uma prioridade no governo Lionel Jospin. sobre a Educação e a Formação", a Comissão explicava que o tempo
Mas, o movimento já havia sido lançado há muito tempo. onde os Estados regulamentavam a atribuição dos diplomas estava
Nico Hirt e Gerard de Sélys descreveram de modo circunstanciado, a terminado e que era necessário passar para a "carta pessoal de
conversão dos governantes europeus às virtudes desse grande mercado competências" destinada a validar as competências adquiridas no
das novas tecnologias. Eles salientaram, em particular, a solicitude emprego e expedidas por organismos privados habilitados. Nessa visão
futurista da Comissão, a introdução das novas tecnologias no ensino

33. ACOT Apple Classrooms of Tomorrow é o nome de uma experiência efetuada em 13 escolas americanas
durante perto de uma dezena de anos, que é relatada no livro de Judith HAYMORE SANDHOLTZ, Cathy
RINGSTAFF, David C. OWYER, La classe branchée, CNDP, Paris, 1998. 34. Cf. N. HlRTT e G. de SÉLYS, Tableau noir, EPO, Bruxelles, p. 29-30.

126 127
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA ogrande mercado da educação

deveriam resultar em uma gigantesca "rede de tele-ensino" e a uma efeito, de um rendimento muito fraco, quase nulo, como já o havia
profissionalização muito mais intensa de grades curriculares demonstrado nos Estados Unidos a experiência das Apple Classrooms
adaptadas, de modo flexível, às necessidades das empresas. A of Tomorrow (ACOT). Seria necessário, então, difundir a idéia de
interpenetração da Comissão Européia com os interesses privados vai que o ensino deveria mudar de natureza, que ele era principal e
muito longe nesse campo. Chegou-se mesmo, com o pretexto da essencialmente uma coleta "autônoma" de documentos e um
construção do e-Europe, a que as empresas construíssem elas mesmas, tratamento da informação, que o papel do professor devia, por
os programas escolares e universitários necessários à expansão de seu conseqüência, ser totalmente revisto.
próprio mercado. O consórcio Career Space, agrupando onze grandes Para a ERT, a evolução se resume da seguinte maneira: graças
empresas do setor de TIC, européias e principalmente americanas às novas tecnologias, nós passamos de um "modelo de ensino" a um
(são encontradas Cisco Systems, IBM, Microsoft, Intel, e também "modelo de aprendizagem". O professor não tem mais que transmitir
Phillips ou Siemens entre outras), redigiu, em uma publicação oficial conhecimentos mas motivar, guiar, avaliar. Ele se toma, ao mesmo
das Comunidades Européias, um "guia para o desenvolvimento de tempo, "treinador" e "pesquisador". Os "educationalleaders" à frente
programas de formação" visando a definir os "novos currículos de dos estabelecimentos, formados no gerenciamento privado, terão a
formação aos TIC para o século 21" que devem implementar as missão de introduzir essa perturbação do modelo pedagógico e
universidades européias35 . favorecer a difusão das tecnologias novas na nova "organização que
O desenvolvimento do mercado das novas tecnologias aprende".
educativas é acompanhado por um discurso "pedagógico" que anuncia Fazer acreditar que o professor deve se tornar um
"o fim dos professores"36. A informática e a Internet não são vistas acompanhante de pesquisas pessoais e de exercícios padronizados em
como objetos técnicos a estudar e a compreender, nem mesmo como material informatizado permite justificar as compras massivas de
ferramentas suplementares úteis na aprendizagem, mas como equipamentos em nome de uma inelutável "substituição do capital ao
alavancas "revolucionárias" que servirão para mudar radicalmente a trabalho". A educação deveria se tomar afinal, uma futura indústria
escola e a pedagogia3? Jogadas comerciais e métodos pedagógicos se capitalista funcionando com a ajuda de "professores em silício",
embaralham aqui de um modo totalmente inédito. Se os adeptos das segundo a imagem proposta por um dos mais ferrenhos defensores
pedagogias de projeto, do ensino mútuo ou das técnicas Freinet foram, dessa revolução tecnológica 38 . Os peritos prognosticam, mais
assim, incensados, tanto por uma parcela da hierarquia administrativa radicalmente, o enfraquecimento mais ou menos rápido dos sistemas
e ministerial, quanto pelos grandes construtores de material escolares da maneira como são construídos desde há muitos séculos,
informático, é porque a supressão das relações pedagógicas para dar lugar a um face-a-face da oferta e da demanda que,
tradicionais e a utilização das novas "máquinas de ensinar" estão, para
os promotores dessa "revolução", estreitamente ligadas. A introdução
das novas tecnologias no quadro do ensino tradicional revela-se com 36. Louis ROSSETO, o diretor da revista Wired consagrada na Web, explicava no seu primeiro número em
março de 1993 que "as escolas são obsoletas. Nós devíamos fazer tudo o que puclessemos para liberar as
cnanças da eSCTavidão das salas de aula" (citado por Panice FLlCHY, L' Imaginaire d' lntemet, La Découverte,
Paris, 2001, p. 209.
37. Phi/.ippe RIVIERE, "Lés sirenes du muldmédia à l'école, Quelles priorités pour l'enseignement?», Le
35. Career space (Future Skills for Tomorrow's World), Guide pour le cleveloppement de programmes de Monde diplomadque, amil de 1998.
formarion, nouveaux cursU5 de formadon aux TIC pour le XXle siecle: concevoir les formadons de demain, 38. Cf. Michel ALBERGANTI, À l'école des robots, l'informadque, l'école et vos enfants, Calmann-Lévy,
Office des publicadons officielles des Communautés Européennes, Luxemburgo, 2001. Paris, 2000.

128 129
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o grande mercado da educação

supostamente, gera a "formação mais rentável". Essa concepção As novas fronteiras do e-learning
pedagógica mistura a utopia de uma "nova cultura escolar" construída Ninguém duvida que as novas tecnologias em questão
pelos alunos graças a um "tatear experimental", o uso intensivo dos poderiam servir de suporte a uma grande ambição cultural se
NTIC na classe e a adaptação da escola à globalização econômica e propondo a difundir gratuitamente o patrimônio humano dos
cultural. Seria, assim, assegurada ao mesmo tempo a vitória do conhecimentos ao maior número de pessoas. Certas proposições de
construtivismo pedagógico ("os alunos constroem seu próprio saber") um grande serviço público mundial de Internet formulado na Unesco
sobre a transmissão dos conhecimentos, o fim do mestre, a abertura da por Philippe Quéau mostram que a mercantilização da educação em
escola para o mundo, a comunicação horizontal entre os alunos. série - o e-Iearning - não tem absolutamente nada de fatal. Ela só se
Alguns se precipitam para ver nessas ferramentas, alavancas de uma dá pela abstenção e demissão dos poderes públicos. N a França, a
desescolarização geral: por que se deslocar, se dobrar a horários autoridade pública poderia, perfeitamente, criar redes de campus
restritivos, sofrer a autoridade de um professor quando se pode virtuais endossadas por instituições existentes e financiadas por
aprender em casa, nos momentos desejados, em pé de igualdade com fundos públicos. Mas, essa ambição supõe vontade política e meios
os parceiros? O "home schooling" seria mesmo o futuro, posto que ele financeiros. Ela vai contra o encantamento habitual em se adaptar ao
resolveria o problema da escola, suprimindo-a. "comércio mundial do espírito". Na falta de querer utilizar essas
O jornal Le Monde, por ocasião do WEM (World Education técnicas para fazer dos saberes verdadeiros, bens comuns da
Market) de Vancouver, descrevia, assim, as próximas transformações, humanidade, nunca em semelhante escala, a educação apareceu como

ao menos as que os marchands (mercadores) da educação imaginam: dependente de uma lógica diretamente comercial. Numerosos
administadores da universidade, dirigentes de agências especializadas
"Quer se trate de emprego de tempo, de lugar ou de condições de
no e-Iearning ou responsáveis políticos, consideram, doravante, que
estudo, o WEM promete um futuro radicalmente novo, não somente
os serviços universitários devem ser vendidos, que os cursos dos
ao estudante do século 21, mas também ao professor. Fim dos
professores disponíveis em série podem ser submetidos ao regime da
anfiteatros onde os alunos tomam notas durante horas, páginas e
propriedade intelectual, que as administrações universitárias devem
páginas de cursos magistrais. O estudante poderá seguir sua formação
receber direitos sobre as vendas.
em sua casa, sobre a tela, a seu ritmo. Ele poderá completá-la durante
A globalização da educação em série parece abrir um mercado
toda a sua vida"39. O professor seria logo substituído por "clones
considerável às empresas pela venda de produtos educativos. O
virtuais", muito mais eficazes que os antigos arquivos auto corretivos
mercado mundial do ensino superior em série teria passado de 1996 a
da pedagogia Freinet40 .
2002, segundo as estimativas, de 97 milhões de dólares a 3,9 bilhões,
o mercado de programas educativos de 1996 a 2000 já passou de 2,3 a
6,2 bilhões; quanto ao número de títulos de CD-Rom educativos,
triplicou de 1998 a 2000. O mercado potencial é estimado em muitas
centenas de bilhões de dólares pela firma de investimento Lehman
39. Sandrine BLANCHARD, "L'enseignement multimédia à distanee s'impose au marehé mondial de Brothers41 . Desde já, a criação das primeiras universidades americanas
l'éducation de Vancouver. Les nouvelles teehniques vont bouleverser la vie universitaire", Le Monde, 30 de
maio de 2000.
40. Cf, Miehel ALBERGANTl, "Les "pro!s en silicium" au bane d'essai", Le Monde, 29 de setembro de
1999. 41 . Courier de I' Uneseo, dossiê eitado, p. 21 .

130 I 3 I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o grande mercado da educação

de prestígio, gratuitas para o utilizador mas patrocinadas pela "uma formação em tecnologia da informação dispensada pela
publicidade são prognosticadas 42 . Microsoft tem, hoje em dia, mais valor do que um certificado
Com as tecnologias da informação e sobretudo com a Internet, científico obtido em uma universidade cotada".
a utopia neoliberal de supressão das fronteiras e de enfraquecimento Alianças entre grandes universidades públicas para oferecer
gradual das instituições públicas de ensino crê ter encontrado uma via cursos, parcerias com sociedades privadas, abertura de filiais das
ideal. Pegando o exemplo dos Estados Unidos, onde se desenvolveram universidades para vender cursos em série para empresas e
as formações em série no ensino superior e o destino dos assalariados particulares, criação de universidades virtuais totalmente privadas
das empresas, operadores privados multiplicaram na Europa as ofertas prolongando a atividade de grandes grupos no mercado da formação
de parceria com as escolas na Inglaterra, Bélgica e Alemanha, com o permanente (como o Grupo ApoIlo), as combinações diversas que se
apoio ativo da Comissão Européia e dos governos ocidentais. A podem atualmente observar no domínio de e-Iearning reforçam a
França, com a criação do EduFrance, se engajou igualmente nessa via. permeabilidade, cada vez maior, do mundo da produção e o da
Um enorme mercado estaria em jogo, o qual viria a crescer formação.
rapidamente nos próximos anos 43 . O acordo secreto firmado entre a Universidade da Califórnia e
Naquilo que se anuncia para alguns como um "supermercado a sociedade de mídias THEN (The Home Education Network) para a
mundial das formações em série"44, universidades privadas já reprodução e a difusão de cursos em série em 1994, mostra a que
oferecem cursos e formações prontas para uso e os start-ups propõem ponto o emaranhado dos interesses comerciais com os da burocracia
grades completas com aprendizado por instrução. As vantagens acadêmica podem conduzir a uma profunda revisão de todas as
econômicas de uma tal fórmula são evidentes: sem paredes a construir, tradições de autonomia da universidade. Não somente essa sociedade
uma grande flexibilidade de utilização, uma mundialização da oferta e pode usar do carimbo da universidade, mas ela goza igualmente de
da demanda. A baixa nos recursos relativos ou absolutos no entanto, exclusividade de direitos de copyright. Acordos muito semelhantes
necessários para enfrentar as necessidades crescentes de formação, foram assinados entre a Universidade de Berkeley e AOL em 1995,
impulsiona as universidades a desenvolver parcerias com operadores entre a Universidade do Colorado e uma empresa privada, Real
privados para vender, o mais amplamente possível e ao melhor preço, Education Inc., em 1996. A cada vez, o problema da propriedade dos
os cursos em série. As grandes universidades americanas, a começar cursos e dos conteúdos dos fórums e do correio eletrônico é colocado:
pela da Califórnia, se associaram com grupos de imprensa privada para a universidade é proprietária e pode transferir os direitos a uma
colocar em linha cursos e explorá-los comercialmente. Universidades empresa privada com fins de comercialização dos conhecimentos 45 ?
empresariais, ligadas a um savoir-faire particular, se desenvolvem Certamente, nesse campo, deve-se desconfiar das crenças que
igualmente em paralelo. As grandes empresas privadas propõem conduziram às ilusões da "nova economia". O mercado da educação
cursos pagos e certificados caseiros. Como salienta Robin Mason, não é necessariamente tão rentável quanto muitos crêem. Os modelos

42. Libération, 28 de maio de 2000.


43. Robin MASON, "Les universités happées par la Net-économie» , Courrier de l'Unesco, novembro de 45. Cf. David NOBLE, Digital DiPloma Mills, Part li, "The Coming Battle Over Online lnstruction,
2000. Confidencial Agreements Betwee Universities and Private Companies Pose Serious Challenge to Faculty
44. Alternatives économiques, nº 187, dezembro de 2000. lntellectual Property Rights" <hup://www.communication. ucsd. Edu/dl/ddm2.hem!>

132 133
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 7

econômicos hoje em dia em vigor no e-learning não mostraram, A colonização mercantil


todos, sua pertinência. As empresas intervenientes podem ter
da educação
desvantagens por causa da relativa autonomia dos professores e da
dinâmica das práticas profissionais. O recurso a sites genéricos
gratuitos (imprensa), às práticas de divisão dos recursos pedagógicos
entre professores e entre alunos, poderia frustrar muitas das grandes
esperanças, salvo se os professores fossem obrigados, de um modo ou
de outro, a se conectarem aos sites pagos e aos materiais
comercializados para assegurar o retomo do investimento e atingir os
limites de rentabilidade esperados das novas técnicas. Isso, na
situação atual, não é mais possível. Daí as campanhas de persuasão e
de culpabilização que visam a exercer uma pressão em favor do
consumo dos novos serviços e a compra maciça de materiais.
Apesar dessa bandeira ideológica, numerosos trabalhos
americanos e canadenses desde já fragmentaram o mito da Internet e Longe do ideal do saber puro e desinteressado, julgado
da informática como solução para os problemas da escola (o que não "envelhecido", a ideologia da nova escola legitima a entrada da
impede a Europa de continuar a "descobrir a América" com os atividade comercial e publicitária no seio da escola, quando ela não o
complexos de inferioridade que caracterizam suas elites). Na institui como "parceiro" da ação educativa, sob o pretexto de que os
realidade, o essencial mantém-se ligado aos consideráveis interesses jovens são "muito sensíveis à cultura publicitária" e que eles são
"motivados pelas marcas". A comercialização do espaço escolar é um
econômicos que transformam a educação em mercado e as escolas em
dos aspectos mais significativos do desaparecimento das fronteiras
indústrias de "competências".
entre escola e sociedade de mercado, da liquefação progressiva dos
quadros mentais e ideológicos que, durante muito tempo, fizeram com
que publicidade e educação, lógica comercial e ensino parecessem,
senão antinômicos, pelo menos bastante estranhos um ao outro. Mas,
as mutações simbólicas e subjetivas que acompanham o capitalismo
global, a aceitação, sobretudo pelos jovens, da invasão publicitária,
são de tal forma, plenas, que as defesas imunitárias do sistema
educativo se enfraqueceram, progressivamente. Isso pode ser visto na
atitude de numerosos responsáveis locais ou professores que não
resistem, ou resistem pouco, à ofensiva comercial das empresas, mas
pode ser visto, sobretudo nesses últimos anos, no comportamento
tímido dos responsáveis do Ministério da Educação Nacional que, sob
pretexto de serem modernos e "próximos dos jovens", participam
dessa comercialização do espaço escolar.

134 135
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

Os motivos principais dessa colonização são, sem dúvida, menção ao patrocinador; a distribuição de amostras e a proposição de
comerciais para as empresas e freqüentemente financeiros para a concursos e jogos com visão mais ou menos educativa. A promoção
escola que aceita a presença de empresas e da publicidade em seu seio. publicitária pode ser discreta ou, ao contrário, impositiva desde
Deve-se, igualmente, perguntar qual é a concepção educativa logotipos nos cardápios de refeições ou nas vestimentas, até faixas
subjacente, o que os sociólogos anglo-saxões chamam o currículo instaladas em pleno meio do hall de entrada ou nos corredores.
escondido, que preside a essa entrada das marcas e das mercadorias no A variedade das estratégias de penetração comercial é grande.
espaço escolar. Se o axioma apregoa que a escola tem por finalidade O School Board da cidade de Nova York, por exemplo, assinou um
principal se adaptar à sociedade de mercado, é então bastante lógico contrato publicitário de 53 milhões de dólares para colocação de
formar consumidores que lhe sejam familiares desde cedo a ponto de cartazes nos ônibus escolares durante nove anos. Numerosas firmas
não mais conhecerem um único momento, nem um único lugar que fornecem "estojos pedagógicos" como a firma de lápis Crayol,
permita escapar a esse encarceramento. Se, por outro lado, apregoa-se contendo jogos e questionários. A chocolateria Hershey's convida os
que a escola, no fundo, não é mais do que um lugar de socialização alunos a passar os pedidos on-line e a calcular o custo das taxas e
entre muitos outros, se ela não é mais do que uma "experiência despesas de manutenção, à guisa de exercíci0 2• A publicidade pode,
educativa" no meio de tantas outras, não se vê porque os educadores eventualmente, utilizar manuais escolares como suporte, como foi o
_ que são chamados a se fundir na massa dos assalariados- caso de uma edição, particularmente controvertida, de um livro
consumidores renunciando à sua culpável independência e mudando escolar das edições McGraw-Hill's, no qual os exercício de cálculo
de ofício o maior número de vezes possível - renunciariam a apelar faziam referência às marcas de produtos alimentares consumidos pelos
para produtos que se dizem" educativos", para" conceitos" mercantis, jovens americanos. No mesmo gênero, certar firmas de doces como
para "comunicações" mais ou menos lúdicas que, no dizer dos M&M, nos Estados Unidos e Canadá distribuem bombons
partidários da "abertura", valem mais do que as lições aborrecidas e a acompanhados por exercícios de matemática. Outros casos se tomam
leitura de livros. O avanço que a escola na América do Norte teve quase ridículos quando, por exemplo, companhias petrolíferas como a
nesse aspecto, justifica o desvio do item seguinte. Exxon, distribuem cassetes pedagógicos mostrando as belezas da fauna
e da flora dos Parques Naturais do Alaska.
Preocupadas em atrair a atenção dos jovens consumidores,
o desfraldar publicitário na escola: todas as grandes empresas desenvolvem campanhas de marketing
o exemplo norte-americano destinadas às escolas. Por contrato, às empresas de bebidas ou de
Segundo a organização americana de luta contra a
alimentos (as quais se assemelham, freqüentemente, a junk food
comercialização no meio escolar, o Center for Commercial-free
geradora de obesidade) é concedida a autorização exclusiva para
Public Education 1, a penetração das firmas no espaço escolar segue
comercializar os produtos nos estabelecimentos escolares. Assim, as
três formas distintas: a exposição direta à publicidade por intermédio
escolas americanas foram a última fronteira da guerra geral entre
de cartazes publicitários ou por difusão de spots nas escolas e nas
classes; o fornecimento de material escolar ou lúdico portando

2. Cf. o site canadense <http://www.media-awareness.ca/fre/prof/educenjeux/pub/cas.htm>.


1. Cf. o site dessa organização <http://comercialfree.org>.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

Coke, Pepsi e Dr Pepper3 . A essa série de exemplos poderia ser materiais e programas, distribuídos aos três ganhadores bem como a
acrescentada a gestão de restaurantes escolares e universitários por três escolas definidas por sorteio. O fenômeno se tomou tão
certas firmas como Mc Donald's ou Burger King. Pizza Hut fornece importante nos Estados Unidos que alguns observadores falaram de
para 4.000 escolas e 20.000 escolas estão ligadas aos "burritos "alunos à venda" para descrever a intensa afluência de publicitários
congelados" da Taco BeU, nos informa Naomi Klein 4. nas escolas5 .
Os campi universitários se cobrem de publicidades até nos A dependência em face dos financiamentos publicitários é,
bancos das salas de aula e nos banheiros. Guichês de bancos e cadeias particularmente, sensível nos distritos mais pobres, onde as
de livrarias se implantam fazendo com que, dia a dia, as universidades subvenções às escolas são muito fracas para satisfazer às necessidades
se pareçam mais com centros comerciais como os outros. As pedagógicas. Muitos administradores e professores se deixam seduzir
atividades esportivas e os clubes de lazer para estudantes são tomados pelas proposições de atividade ou de material que lhes fazem as
por patrocinadores que fornecem materiais e equipamentos. Uma empresas, para aumentar seus recursos pedagógicos. Eles obtêm, assim,
prática em pleno desenvolvimento consiste em propor jogos- em troca de afixar um cartaz publicitário ou de patrocínio de uma
concursos aos alunos e estudantes, o que permite às firmas coletar atividade, computadores, móveis e, às vezes mesmo novos estádios de
informações preciosas sobre os jovens e suas famílias para futuras futebol americano ou, mais modestamente, nova pintura das salas de
operações de venda em domicílio e para entrar na escola, com uma aula.
imagem de benfeitor, para recompensar os ganhadores e consolar os Esse foi o tipo de contrato feito com as redes privadas de
perdedores, distribuindo prêmios ou amostras grátis. Algumas televisão. Em 40% das Middle e High Schools dos Estados Unidos, a
campanhas se consideram educativas como a da Pizza Hut que jornada de aulas começa pelo telejornal e os anúncios publicitários do
pretende favorecer a leitura. Implantado em 53.000 escolas Canal Um, a rede de atualidades para os alunos, que é financiada
americanas, esse programa recompensa com pizzas o sucesso nos pelas campanhas de publicidade. Lançado em 1989 por Chris
exercícios de leitura propostos pelo livro distribuído pela firma aos Whittle, um executivo muito controvertido, Canal Um é,
jovens alunos. Para obter o material de informática que lhe falta, 450 provavelmente, o programa de marketing escolar mais conhecido e
escolas no Quebec participaram do concurso "A educação acima de um dos meios mais eficazes de penetração da comercialização nas
tudo" da firma de cereais Kellogg. A finalidade do jogo é de conseguir escolas. Por contrato, as 12.000 escolas elementares e médias que
o maior número de provas de compras de quaisquer dos produtos da aceitaram receber o programa (o número é dado pela firma, a qual tem
companhia desde os cereais mais clássicos até as mais duvidosas interesse em expandir) aceitam fazer com que os alunos assistam a
tortinhas. O concurso é dotado de um prêmio de 40.000 dólares em cada dia, pelo menos 12 minutos de programas - ou seja, o
equivalente a seis dias de aula por ano - contendo vários spots
intercalados, representando dois minutos de publicidade por dia, em
90% dos dias de aula e em 80% das classes da escola. Atualmente, 8
milhões de escolares americanos são submetidos a esse tratamento e
3. Cf. Education Week, 8 de abril de 1988. Desde então Coca-Cola abandonou a prática dos contratos
exclusivos em face da intensificação das críticas. leffrey T. Dunn, presidente da Coca-Cola para a América
do Norte anunciou, em 14 de março de 2002 a mudança de política da firma: "A exclusividade desviou os
educadores de sua missão primordial" Encorajando os distribuidores locais a terem uma presença mais
discreta nas escolas, ele acrescentou que "as escolas constituem um ambiente específico". "O Pêndulo do
comercialismo foi muito longe", confessa ele. (Education Week, 21 de março de 2001). 5. Steven MANNING, "Éli!ves à vendre", Courier Internacional, 27 de setembro de 1999 (artigo tirado
4. Naomi KLEIN, No Logo, La tyrannie des marques, Actes Sud, Arles, 2001, p. 125. de The Nation, "Students for sale".

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

transformados em "público cativo", sobretudo nas escolas mais 12 minutos por dia, o que deve ser um recorde mundial". No mesmo
desguarnecidas que estão escolarizando os meios pobres e as minorias espírito, a publicidade via Internet também entra na escola. Uma
étnicas. firma denominada The Zapme ! Corporation, criada em 1998,
Le Monde descrevia da seguinte maneira a vida cotidiana em fornece às escolas materiais, programas e acesso a um "Netspace"
um colégio desse tipo: os alunos "não podem se esquivar do programa composto de sites nos quais as empresas parceiras podem colocar suas
cujo conteúdo, criticado às vezes por sua violência, escapa, no faixas publicitárias em troca de pagamentos substanciais. A escola
entanto, ao controle do corpo de professores e dos pais dos alunos. Os "beneficiária" da conexão e do material deve utilizar os computadores
adolescentes geralmente não têm o direito de ler ou ir ao banheiro ao menos quatro horas por dia e a deixá-los em livre acesso fora das
enquanto a televisão está ligada". É verdade que o contrato estipula a horas de aula.
proibição de desligar a televisão ou baixar o volume. O Canal Um O diretor do Centro para Análise do Comercialismo na
pode, dessa maneira, assegurar a seus anunciantes que ele atinge "uma Educação, na Universidade de Wisconsin, Alex Molnar, explica que
audiência cativa, incluindo os adolescentes que vêem pouca televisão "as empresas adoram dizer que promovem a educação e a parceria
em casa". Graças a essa estratégia ele pode vender seus spots por cerca escola-empresa, mas elas na verdade se lançam ao ataque do mercado
de 200.000 dólares cada trinta segundos, ou seja, o equivalente ao dos jovens consumidores". Ele acrescenta que a única razão verdadeira
preço do spot em prime time6. Em troca, as escolas recebem de seu interesse pela escola é que" é lá que estão as crianças". Ora, essa
gratuitamente aparelhos de televisão e ligações por satélite a redes de entrada da publicidade no espaço da escola atinge um grupo social
televisão! A oposição das principais organizações de professores dotado de um poder de compra não negligenciável. Nos Estados
baseia-se na grande pobreza dos programas e da ausência de controle Unidos, os tennagers gastam, cada um, 3.000 dólares por ano. Além
que eles têm sobre esses programas. Em 1997, dois pesquisadores, disso, eles exercem um forte poder prescritivo sobre todos os tipos de
William Hoynes e Mark Crispin Miller, analisaram os conteúdos da compras familiares. A penetração da publicidade é estratégica para as
programação proposta pela rede entre 1995 e 1996. Somente 20% dos empresas: os 31 milhões de adolescentes que representam um
programas diziam respeito às áreas cultural, social, econômica e formidável potencial de consumo, "só" vêem televisão 3 horas por dia,
política recentes. Os 80% restantes foram consagrados à publicidade, quer dizer relativamente menos que os de mais de 50 anos (em média,
ao esporte, a previsões meteorológicas e aos desastres naturais, aos 5 horas e meia por dia). A publicidade na escola permite reequilibrar
personagens conhecidos e à auto-celebração do Canal Um. William a duração de exposição à publicidade entre as diferentes faixas etárias
Hoynes concluiu: "É duvidoso que tais informações tragam qualquer e romper o fechamento da escola à empresa comercial.
benefício educativo ou cívico aos alunos e aos educadores". O A contestação dessas práticas nos Estados Unidos é importante
argumento do Canal Um é particularmente cínico quando, em suas na falta, ainda, de ser eficaz. As grandes organizações de professores e
próprias publicidades, ele se vangloria junto dos produtores as principais associações de consumidores protestam contra essa
publicitários de ser "o meio mais eficaz para atingir o jovem invasão publicitária nas escolas e sustentam que a propaganda
consumidor" ou quando ele afirma em seu site, sem complexo, que publicitária e a educação são antinômicas, que se trata de "matéria e
"nós captamos a atenção exclusiva de milhões de teenagers durante antimatéria", como gosta de dizer Alex Molnar 7. Muitos pais

6. Le Monde, 3 de dezembro de 1999. 7. Entrevista dada a revista Stay Freei, janeiro de 1997.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

repudiam o fato de que suas crianças sejam, assim, tomadas como A situação francesa
reféns, na escola, por marcas ou firmas que se reservam, por contrato, Esse tipo de marketing se expande, na maior parte dos países,
a distribuição exclusiva de seus produtos no campus e nos cursos de com a globalização das estratégias de marketing difundidas pelas
recreação. Muitos sites Web destinados aos pais americanos Business Schools globalizadas. Na Alemanha, a venda de espaço
"responsáveis" são consagrados a denúncia dos conteúdos do Canal publicitário nas escolas fez muito barulho. A Áustria e a Holanda
Um. As associações de consumidores nos Estados Unidos mostraram desde algum tempo facilitaram esse gênero de prática. Segundo o
que 80% dos materiais ditos educativos distribuídos pelas sociedades FinanciaI Times de Londres, uma empresa batizada Imagination for
privadas continham informações falsas, incompletas ou disfarçadas School Media Marketing se comprometeu a entregar a 300 escolas
sobre os produtos fabricados e vendidos pelos patrocinadores. secundárias 5.000 livros por ano em troca de liberdade para afixar
Essa invasão publicitária está de acordo com a ideologia do free propaganda em todos os locais da escola. Na Grã-Bretanha, a
market que não conhece nenhuma limitação, nenhuma fronteira. No McDonald's oferece estojos pedagógicos dirigidos às matérias de base.
fundo, ela só tem vantagens do ponto de vista dos partidários do livre Neles se encontram questões "instrutivas": em geografia: situe os
comércio. O consumo é encorajado e com ele a prosperidade das restaurantes McDonald's na Grã-Bretanha; em história: o que existia
empresas. O maná financeiro injetado nas escolas dos distritos mais no terreno do McDonald's antes que ele fosse construído? Em música:
pobres tem a vantagem de aliviar os impostos pagos pela comunidade com os instrumentos de música recrie os sons ambientes de um
ao trazer o complemento dos recursos. Melhor ainda, mais do que restaurante McDonald's: em matemática: quantas fritas existem em
financiar pelo imposto a educação pública da qual as empresas se uma porção? Em inglês, identifique e explique as seguintes expressões:
beneficiam pela qualificação da mão-de-obra, elas contribuem McCroquetes, leite batidos. Segundo o Center for the Analysis of
também para esse financiamento, mas por um investimento Comercialism in Education, casos semelhantes podem ser
publicitário do qual podem esperar um retomo pelas compras diretas, encontrados em numerosos países, na América Latina, na Ásia, na
por uma melhor imagem e por uma fidelidade dos futuros clientes. A Austrália, na Nova Zelândia.
publicidade permite a abertura da escola e o religamento com a "vida Poder-se-ia pensar que, na França, a escola, pelo apego à
real" tal como a consideram os defensores dessa ideologia. Graças à separação entre espaço público e interesses comerciais, colocaria as
entrada das marcas, a escola não é mais esse universo estranho à vida crianças e os adolescentes ao abrigo das agressões publicitárias. A
cotidiana nas sociedades de mercado, ao contrário, ela se inscreve em Frente Popular havia esclarecido as coisas pela lei de 19 de novembro
uma continuidade perfeita com o universo da mercadoria no qual se de 1936, que, estipula que "em nenhum caso e de nenhuma maneira,
banham as crianças, especialmente as das classes desfavorecidas, os professores e os alunos devem, diretamente ou indiretamente,
quando estão na rua ou em casa. Ela contribui, sem dúvida, para uma servir a alguma publicidade comercial". É sem dúvida por causa dessa
melhor adaptação dos jovens à "civilização moderna". Alguns velha filosofia laica que, hoje em dia, a escola francesa está nesse
acrescentam até que, essa presença familiar da publicidade na escola ponto "em atraso" com relação a outras nações ocidentais. Esses
teria a virtude de tomar o universo do conhecimento menos estranho últimos anos, no entanto, as revelações sobre a utilização, em classe,
e menos "hostil" aos jovens. Nesse sentido, o comercialismo de materiais e suportes publicitários, se multiplicaram na França.
publicitário é bastante emblemático da empresa que exerce sobre a
escola um capitalismo cada vez mais, total e, cada vez mais,
interiorizado. 8. <http; //www.media-awareness.ca/fre/prof/educenjeux/pub/cas.htm>

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

Mesmo se não dispomos de uma enquete global, podemos suspeitar de


com auxílio de um suporte pedagógico e com a participação ativa de
uma certa extensão do fenômeno, observando a abundância e a
professores, de documentalistas e de diretores de estabelecimentos.
variedade da oferta publicitária. Marcas de dentifrício propõem
Numerosas animações ocorreram sem que, segundo nosso
módulos de iniciação à higiene dentária, os produtores de absorventes
conhecimento, nenhum recenseamento tenha sido feito: Miko,
higiênicos doam amostras para as enfermarias de escolas e liceus,
Coca-Cola sempre, McDonald's propõem intervenções coloridas e
marcas bem conhecidas de refrigerantes ou de junk food organizam
sonorizadas nas cantinas e organizam "eventos educativos" na época
animações nas horas das refeições e propõem jogos-concursos.
do Halloween ...
Inumeráveis ofertas promocionais por parte de empresas chegam, a
A publicidade9 também entra na escola pelos financiamentos
cada dia, nas escolas, colégios e liceus: ações de animação, vídeos,
das atividades mais diversas: jornal do liceu, viagens e passeios,
maletas pedagógicas, brochuras, todos os meios e suportes são
espetáculos a serem realizados, atividades esportivas pela Coca-Cola
empregados para fazer com que as marcas entrem nas salas de aula.
ou Orangina, etc ... Certos estabelecimentos conseguiram mesmo
Do lado das empresas, o cenário é sempre o mesmo. O setor
driblar a lei e afixam nas suas paredes externas grandes cartazes
"infância" do departamento de marketing de uma firma propõe
publicitários, muito remuneradores para a escola, o colégio e o liceu.
gratuitamente ou quase gratuitamente, material "lúdico e instrutivo".
Todo o domínio da orientação tende a se tomar, hoje em dia, um meio
Se, no nível elementar, os produtos ao mesmo tempo pedagógicos e
de publicidade. Contornando os serviços da educação nacional e
comerciais das grandes firmas se referem à vida cotidiana e às grandes
aproveitando a ausência de vigilância dos administradores e dos
funções fisiológicas ou sociais (conselhos de higiene pelas marcas de
professores, muitas sociedades, através dos delegados de classe,
shampoo e de dentifrício, conselhos nutritivos pelas firmas agro-
distribuem fascículos e revistas aos alunos de liceu, lançam
alimentares produtoras de bebidas, de biscoitos, de cereais, etc.), em
questionários, elaboram listas de "clientes" potenciais para atrair os
nível secundário, a implantação se dá através de material mais
alunos para as escolas privadas de engenharia e de comércio, cuja
engenhoso e mais especializado. Aqui, uma maleta sobre o euro,
importância no ensino superior é conhecida. Assim, são encontradas
realizada por um banco e distribuída generosamente nos liceus, lá,
na França as mesmas técnicas que as denunciadas por Alex Molnar
conferências e passeios financiados por uma grande empresa
nos Estados Unidos, desde a publicidade clandestina para os cereais
especializada na distribuição de água ou na produção de energia
nos livros escolares até a profusão de concursos para ganhar somas de
nuclear, ou, ainda, filmes que, supostamente, mostram a realidade do
dinheiro necessárias a projetos pedagógicos. Um dos mais recentes é
trabalho, as proezas da tecnologia, o convívio nas empresas, para
o de Orangina que lança uma campanha conjunta com a União
ilustrar os cursos de economia. Os fins pedagógicos servem,
Nacional do Esporte Escolar (UNSS, "uma Federação esportiva a
freqüentemente, de álibi, sempre instrumentalizados pela estratégia
serviço dos jovens"), colégios e liceus para sustentar financeiramente
promocional. Para o ano 2000, a Coca-Cola propunha atividades
os projetos pedagógicos.
pedagógicas (2.000 iniciativas para o esporte) que deviam ser
Se na França a permeabilidade à influência publicitária cresce,
coordenadas pelos professores de EPS em tomo dos valores do esporte
é principalmente porque muitas dessas operações de marketing
(lealdade, respeito ao próximo, tolerância, cidadania). A Coca-Cola
organizou, igualmente, em grande escala, um programa de
sensibilização às técnicas de multimeios ("L'Equipée multimédia") 9. É possível, além disso, se espantar que um tal organismo reconhecido oficialmente apele, no meio escolar,
para um patrocínio semelhante ao das outras grandes federaçães esportivas, em lugar de propor aos jovens
abrangendo 550 classes de colégio e liceu na França em 1998-1999
uma imagem menos mercantil do esporte (<http://www.orangina.fr/unss/index.htrnl>)

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

permanecem confinadas às classes e às salas dos professores e não são deveres escolares a fazer, as figuras de distração e as mais aduladoras
objeto de protesto dos alunos e das famílias. Elas recebem, promessas de futuro. Os sindicatos de professores estão hoje em dia
igualmente, com freqüência, o aval das autoridades locais ou muito mais vigilantes, da mesma forma que grupos como a ATTAC.
nacionais. Dessa maneira as campanhas de higiene buco-dentária sob Esses protestos obrigaram o poder público a reagir.
a égide da Colgate ou de Signal têm o apoio do Comitê Francês de
Educação para a Saúde. Numerosos estabelecimentos tentaram Regular a publicidade na escola?
conquistar ou manter uma boa "imagem de marca" durante os anos A fim de lutar mais eficazmente contra as intervenções
1990 dentro da concorrência que mantêm entre si. Entre outras "intempestivas" das empresas no meio escolar, um código de boa
práticas, procuraram melhorar seus "catálogos de apresentação" conduta foi estabelecido pelo Ministério da Educação Nacionall o. Se
fazendo com que fossem financiados por sociedades especializadas do esse texto tem a vantagem de reconhecer a multiplicação e a
Departamento de Produção Publicitária Estatal, que servem de diversidade das intervenções mercantis e publicitárias no espaço
intermediárias entre as empresas e os estabelecimentos. Quando as escolar e de querer restabelecer, pelo menos as aparências de uma
famílias ou os alunos pesquisam o nome do diretor, da enfermeira ou aplicação do princípio de neutralidade, permanece tímido e ambíguo
dos professores de inglês, eles devem antes navegar no meio de em muitos pontos. Essa "prudência" e essa "preocupação com o
encartes publicitários sem nenhuma relação com a missão do equilíbrio" reproduzem, de fato, a posição da Comissão Européia, que
estabelecimento escolar. O exemplo vem de muito alto. Numerosas estabeleceu um estudo sobre o marketing na escola, salientando bem
publicações oficiais do Ministério da Educação Nacional são alguns abusos mas, relevando também o "valor adicionado" da
ostensivamente financiados por empresas privadas, que colocam seu publicidade em matéria de abertura para o exterior ll .
logotipo nas brochuras de orientação e outros documentos de O texto do ministério francês relembra os seguintes princípios:
informação endereçados aos alunos e suas famílias. O Ministério, em "os estabelecimentos escolares, que são os locais específicos de difusão
dezembro de 2001, lançou igualmente uma operação através da mídia do saber, devem respeitar o princípio de neutralidade comercial do
a favor do "respeito" em parceria com a marca de roupas para serviço público de educação e a ele submeter suas relações com as
adolescentes Morgane e fez publicidade em seu próprio site para
empresas". É mesmo indicado, com desprezo a qualquer coerência,
camisetas com o slogan da campanha, as quais são vendidas nas lojas
que os "estabelecimentos de ensino profissional podem aceitar as
da empresa associada.
publicidades das empresas que aceitem estagiários, devendo as
Alguns casos de intrusão publicitária no entanto, suscitaram
mensagens publicitárias acentuar o papel que a empresa tem na
protestos nesses últimos anos. Assim, só para dar um exemplo, a
formação dos alunos". Se o que não é pedagógico, é limitado ou
secção parisiense da FCPE denunciou em 1996 o fato de que os alunos
proscrito, em teoria tudo (placas publicitárias de apresentação,
de colégios e liceus da região parisiense receberam, no dia do início
afixação de cartazes, etc.) o que, ao contrário, apresente um "interesse
das aulas, de seus principais professores ou de representantes da
pedagógico" - termo indistinto - fica autorizado. Essa noção de
administração, "agendas" gratuitas cuja característica mais marcante
era o lugar ocupado, em cada página, pela publicidade de produtos
"jovens" ou de empresas privadas de educação, de forma que os
utilizadores desses instrumentos, indispensáveis à vida escolar, não 10. Bulletin officiel de l'Éducation Nationale, n' 14,5 de abril de 2001.
11. COMISSION EUROPÉENNE, Relatório final, Étude de GMV Conseil, Le Marketing à l'école,
podiam deixar de ter sob os olhos, várias vezes por dia, ao lado de seus outubro de 1998. Esse estudo, disponível no site da APED, está repleto de exemplos muito significativos.

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A colonização mercantil da educação
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

"interesse pedagógico" é, evidentemente, utilizada como argumento pela mesma brochura publicitária enviada às escolas e colégios afirma:

pelas empresas há muito tempo. É na maior parte do tempo, um "Fiquei estupefato ao ver o interesse de meus alunos pela história, o

disfarce para estratégias publicitárias, como o mostram numerosos artesanato, a vida dos golfinhos e tantas outras coisas. Tudo lhes

exemplos. Os serviços de marketing das empresas e as agências de parecia tão simples e muito mais vivo do que em um livro. Aprender

publicidade sabem justamente tomar mais alegres as lições, mais se divertindo, é muito mais agradável.l4"

divertidas as atividades escolares, menos longas as horas de curso. Numerosos outros lugares oferecem esse tipo de material: Parc

Muitos professores, sensíveis a essas dimensões lúdicas e preocupados Bagatelle, Puy de Fou, Mer de Sable, etc. Ora, esse tipo de visitas, se

em não aborrecer os alunos, se deixam então persuadir do "interesse por um lado permite um momento de escape e de "respiração"

pedagógico" dos kits, fitas cassete, passeios e outras manifestações freqüentemente úteis no ano escolar, se eles dão eventualmente
pretexto para uma saída de fim de ano, não são, enquanto "atividades
publicitárias.
As ações pedagógicas da Disneylândia Paris, levando em conta pedagógicas", aquelas que permitiriam melhorar os problemas

só essas, correspondem aos critérios mantidos pelo Ministério. A colocados pela apropriação dos saberes, apesar dos milagres

responsável pelo departamento de educação do parque assinala: Do prometidos pelo Departamento de Educação da Disneylândia:

maternal ao BTS, não existe idade na Disneylândia Paris para "aprender como por encantamento".

aprender mil coisas se divertindo [... ] Tudo foi previsto! De Jules


Verne ao meio ambiente, passando pelos ofícios da imagem, o Publicidade e objetividade:
programa é rico: é sua a escolha para fazer um curso verdadeiramente o exemplo da Renault
surpreendente 12 ". É verdade que, acreditando no programa O princípio da escola pública estabelece que as atividades
pedagógico 2000-2001, os alunos acorrem ao parque para visitar a escolares não sejam financiadas ou patrocinadas por empresas
exposição "Trens de ontem e de hoje" (concebido e realizado com a privadas, mas que o poder público assegure e controle o
SNCF), "Artes e tradições da China" (do qual o filme Mulan é o financiamento, a realização e a responsabilidade. A extinção desse
suporte e o pretexto), o inevitável "Halloween e suas origens" para as princípio conduz a uma certa confusão entre a lógica promocional dos
crianças "do maternal ao colégio"!, sem contar as fichas práticas em produtos e as exigências de verdade e objetividade que se tem direito
inglês que ajudarão os alunos a praticar, no Parque de Disney, a língua de esperar da escola pública. O menos que se pode dizer é que
de Shakespeare, ou melhor, a de Mickey 13. acontece das campanhas publicitárias transgredirem, mesmo por
Não foi obrigado, que o Parque Asterix desenvolveu os omissão, à veracidade ou à objetividade histórica, quando elas
cadernos "Parque Astérix-Nathan" cujo lado "lúdico permite às aparecem como contribuição ao ensino.
crianças aprofundar, facilmente e eficazmente, as noções de história, Tomemos um exemplo entre outros. Durante os anos 1990, aos
de geografia, de ciências ... estudadas em classe". Um professor citado professores de economia ou de história dos liceus foi, regularmente,
proposta uma maleta contendo uma fita de vídeo, uma brochura, um

12. Marie-Pierre LEGRAND, "Apprendre em s' amusant à Disneyland Paris», publicação do


Departamento de educação do Parque, outubro 2001-2002.
13. Cf. DÉPARTEMENT ÉDUCATION DE DISNEYLAND PARIS, "Programmes éducatífs et
14. Extratos de umfolder do Parque Astérix.
ludiques au service de vorre Pédagogie» , outubro 2000-julho 2001.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

guia de informação, um mapa da fábrica e um CD-Rom, realizados por de projetos para conceber e difundir os módulos pedagógicos
professores em colaboração com membros da empresa Renault. Esse pilotos"15. Não se saberia melhor salientar a estratégia de imagem que
material tecnicamente notável foi concebido para preparar uma visita impôs a supressão dos episódios e dos aspectos que não se
acompanhada a um ou outro dos sites da empresa. O filme, de enquadrariam com a restauração "modernista" da representação da
excelente qualidade, comporta, todavia, alguns esquecimentos. Se a Renault. Mas, o ensino de economia deve ser um suporte para a
palavra é dada abundantemente à direção, procurar-se-ia em vão a "comunicação" das empresas?
menor expressão livre dos trabalhadores, sem falar do ponto de vista A "reconstrução da imagem" das empresas em direção ao
sindical, o que, é preciso admitir, é bastante curioso quando se mundo educativo toma às vezes formas curiosas. Certas empresas,
pretende descrever a história social dessa empresa. Se o passado do nocivas, ou de risco para o seu meio ambiente, desenvolvem
trabalho tayloriano é objeto de uma evocação muito sombria, é para campanhas de sensibilização ao meio ambiente. Assim, os aeroportos
melhor ressaltar, por contraste, um presente e um futuro do trabalho, de Paris, para contrariar o aumento das queixas dos habitantes
muito idealizados. O documento apresenta, assim, um discurso próximos, abriram uma "Casa do Meio Ambiente" em 1996 e criaram
unilateral, mascarando a dimensão conflituosa das relações sociais na uma parceria com a inspeção da academia para desenvolver um
empresa. Mais estranho ainda, quando o comentário se dedica à verdadeiro produto pedagógico l6 . "Sem medo de que lhes seja
narração da história da Renault, ele passa da crise dos anos 1930 à censurado seu cinismo, os mesmos aeroportos de Paris instigaram em
reconstrução, deixando no mais completo silêncio a colaboração com 2001, os estabelecimentos escolares vizinhos a fazerem exposições e
os nazistas e a nacionalização-sanção de 1945. O documento de filmes sobre a "qualidade do ar", "convidando todo cidadão a assumir
história e de economia aparece de repente, como um instrumento de suas responsabilidades" e ajudando o aluno a "se tornar um eco-
promoção da imagem da empresa, pela ocultação de uma face tão cidadão do ar" 17.
essencial da história da Renault. As razões desse silêncio são, de resto, A EDF continua a propor para os escolares, conferências e
claramente confessadas por um dos responsáveis pelo projeto. visitas destinadas a explicar o programa eletronuclear francês e, além
Argüindo o fato de que desde 1984 a Renault havia se empenhado em disso, a tranqüilizar as populações ("A radioatividade liberada pelo
uma mudança tecnológica e gerencial mas guardava sua antiga combustível está perfeitamente confinada e os rejeitos produzidos são
imagem, ele justifica e explica assim esse procedimento: "A Renault condicionados, estocados e supervisionados."18).
desejava explicar essa mudança e mostrar seu savoir-faire sob uma Mais audaciosas, instituições públicas ou empresas privadas
nova luz para um público que até o presente era pouco ou mal não hesitam mais em apresentar sob exterior inocente, materiais
solicitado pela comunicação da empresa. Essa operação é "pedagógicos" que tomam naturais fatos ou políticas, os quais deviam
indispensável para a empresa.[ ... ] Um jovem deve compreender que a ser objeto de uma apresentação problemática. No domínio
empresa industrial mudou e deve dizer que trabalhar em uma firma de
automóveis é interessante porque nela se passam coisas interessantes.
Uma colaboração com o mundo da educação não é, portanto, uma obra
15. Jean-Marie ALBERTINI, in Économie et Éducation, n' 19, junho de 1993, p. 31-32.
filantrópica mas uma consideração dos interesses bem compreendidos da 16. ADP, Bilan environment 1990, p. 26.
empresa (salientado pelo autor). Esses diversos contatos culminaram 17. Carta convite enviada aos estabelecimentos vizinhos pela Casa do Meio ambiente de Orly, Aeroportos
de Paris, em outubro de 2001.
com a criação de uma verdadeira parceria a fim de constituir grupos 18. Extraído do folder gratuito da EDF "Énergie, le choix de la France".

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A colonização mercantil da educação

econômico, a coisa tende a se tomar corrente. A Associação ATTAC públicas de inspiração muito keynesiana, de acordo com Jean-Pierre
denunciou publicamente o jogo-concurso dos "Mestres da Economia" Boisivon, um dos responsáveis pelo Instituto. Em nome da "abertura"
criado pelo Banco ClC, que consiste em apadrinhar "times" de e da "parceria", chega-se a uma situação onde múltiplos "atores"
escolares que jogam como se especulassem na Bolsa19. A equipe desejosos de contribuir com a grande obra educativa praticam
vencedora é a que conseguiu realizar as mais importantes mais-valias. alegremente intervenção ideológica e estipulação de programas ... 2l
O jogo do ClC não dá lugar algum ao questionamento sobre a Bolsa Não se pode queixar das empresas privadas pelo fato de fazerem
como instituição, ou sobre seu lugar no conjunto do sistema aquilo para o que elas são feitas: encontrar clientes em toda parte para
econômico. Ele não abre mais espaço para a reflexão sobre a suas mercadorias. Por outro lado, devemos interrogar sobre a
especulação na Bolsa, que é apresentada como um jogo natural e permeabilidade da escola às estratégias de marketing escolar. A razão
inofensivo sem conseqüências sociais, políticas ou econômicas. A dessa entrada, ainda limitada, das empresas nas classes, deve-se
ATTAC denunciou igualmente o fato de que um CD-ROM sobretudo à perda de vigilância das administrações locais, acadêmicas
intitulado "Ganhar na Bolsa" havia recebido em 1991 o certificado e nacionais, anestesiadas por um discurso brando e apologético sobre
RIP (reconhecido como de interesse pedagógico). Ora, esse suporte o universo mercantil. Esse enfraquecimento da consciência está
multimídia apresenta parcialmente, ou mesmo de modo parcial, as ligado ao empobrecimento relativo da escola, às suas necessidades de
apostas dos mercados das bolsas e das lógicas que neles atuam 20 . financiamento em matéria de equipamentos e de materiais novos,
Mas poderiam ser analisados muitos outros materiais mais complexos, mais caros. Está igualmente relacionado com
fornecidos por bancos, caixas econômicas, ou mesmo o Banco da preocupações de divertimentos, de viagens, de comunicação no
França, o qual propôs nesses últimos anos uma série de cassetes contexto de crise da relação pedagógica e de adaptação aos alunos, tal
apresentando os instrumentos monetários, as instituições e sobretudo como se crê, muitas vezes, que eles são. Alex Molnar, que mantém há
a política monetária da França e da Europa, de modo a esvaziar todo 20 anos um combate sem trégua contra a mercantilização da educação
o debate possível sobre sua natureza e suas conseqüências. Na mesma nos Estados Unidos, resume bem o problema: "As implicações da
ocasião, o Instituto da Empresa, organização patronal que agrupa 120 transformação comercial da educação pública americana são
grandes sociedades na França, lançou um concurso on line para as importantes por um grande número de razões. O mercantilismo erode
classes de Economia e Ciências Sociais, centrado na empresa e na os valores políticos democráticos que guiaram a educação pública
microeconomia. O projeto consiste em trocar a orientação de nesse país desde que ela foi criada. Os valores mercantis, quer dizer, os
programas muito centrados, na macroeconomia e nas políticas valores de despesa e de aquisição, tomaram seu lugar. Assim, em lugar
de uma educação pública guiada por uma concepção de igualdade
política e de justiça social, nós tivemos que tratar com uma concepção
de mercado na qual a obra da escola é corrompida e onde as escolas
19. A Associação ATTAC através de seu presidente Bernard Cassen escrevia em março de 2000: "Trata-
se de um concurso dotado de prêmios entregues no exterior dos estabelecimentos e com fins exclusivamente
promocionais) mas que recruta um público cativo no interior dos mesmos estabelecimentos. Ainda mais, nós
estamos em presença de uma foTl1ta insidiosa de proselitismo, incompatível com o princíPio republicano de
laicidade: não par partidos, igrejas ou seitas mas em benefício de um outro dogma, o dogma liberal, aquele
da "democracia acionária". Os cidadãos que nós somos têm portanto legitimamente o que dizer sobre esse
negócio. " Courrier d' Attac, nº 117, sexta-feira 10 de março de 2000. 21. Cf. Amoine REVERCHON, "Les patrons veulent entrer dans les c/asses", Le Monde interactif, 6 de
20. <http://www.local.attac.org/35/ml-attac35-archive> março de 2000.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 8

podem ser compradas como qualquer produto do comércio" 22 . A :mercantilização da escola


Evitar essa deriva supõe quebrar a lógica de imitação e o
e seus efeitos segregacionistas
questionamento da autonomia da instituição escolar para as quais
contribuem até as mais altas autoridades da educação. Mas isso supõe,
sobretudo, a reafirmação de que o eixo central da escola não é, e não
deve ser, a adaptação à sociedade de mercado, salvo se renegar suas
opiniões, obedecendo a lógicas e restrições que não são aquelas da
verdade e do conhecimento. Transmissão e consumo não poderiam se
misturar sem conseqüências.

A passagem da administração da escola de uma regulação


estatal para um mercado no qual se exerce uma "liberdade de escolha"
aparece como uma das mais importantes transformações que
acompanham a constituição da sociedade de mercado. A política
educativa seguida em muitos países, nos últimos 20 anos, consistiu em
desenvolver a autonomia, a originalidade, a diversidade dos
estabelecimentos escolares, que, supostamente, respondem melhor a
diferentes demandas dos usuários, convidados a escolher "livremente"
as ofertas educativas mais atraentes a seus olhos. Esses dois grandes
eixos políticos que são a diversidade e a liberdade da demanda foram
aplicados, conforme graus muito variáveis, segundo os países, as
tradições e as relações de forçaI. Mas, a idéia comum, fortemente
liberal, que se espalhou e se afirmou com mais ou menos clareza,
procurou, em toda parte, aumentar a eficácia de cada escola pela
pressão dos consumidores, o que supunha uma maior autonomia dos
estabelecimentos no plano dos financiamentos, dos programas

22 Alex MOLNAR, "The Commercial Transformation of American Public Education", 1999 Phil Smith
Lecture, Ohio Valley Philosophy of Education Conference, Bergamo, Ohio, 15 de outubro 1999. 1. lea-Michel LECLERC, "Projets sans frontieres", Éducation et management, setembro de 1996, no 17.

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oferecidos, dos métodos de recrutamento dos professores 2. Essa domínios, ela segue um movimento mais vasto, como mostram os
política é acompanhada, freqüentemente, por medidas muito fortes de estudos comparativos 4 .Tradicional nos Estados Unidos, ela se
desregulamentação, tais como a não-setorização do recrutamento dos expandiu na Itália, na Inglaterra, na Espanha, nos Países Baixos.
alunos, abrindo espaço para uma "educação de mercado", como na Segundo o país, preferiu-se começar por "experiências piloto", ou pela
Inglaterra e na Suécia3. autonomia pedagógica e financeira, ou, ainda, pela atribuição da
No setor educativo como de resto nos outros, o mercado foi personalidade jurídica e moral aos estabelecimentos, como na França.
apresentado como uma construção que permite obter resultados mais A OCDE integrou nos seus indicadores uma medida do grau de
eficazes. Na realidade, em todo lugar onde se desenvolveu uma lógica autonomia dos estabelecimentos, calculando a parte das decisões
de concorrência, viu-se a expansão dos fenômenos segregacionistas tomadas em diferentes níveis administrativos. Se os estudos da OCDE
que constituem, hoje em dia, um fator novo e específico de mostram que a maior parte das decisões é, em realidade, tomada em
reprodução social. Os fatos do "ambiente", quer dizer, de diversos níveis, a tendência é a uma "descida" da decisão em direção
recrutamento social das escolas, se tomam, então, primordiais nas a escalões inferiores do aparelho escolarS . Como assinala por sua vez
estratégias dos pais e dos estabelecimentos. A composição social e a Organização Internacional do Trabalho, as estruturas de gestão e de
érnica dos estabelecimentos se toma uma vantagem comparativa para direção, com diferenças de ritmo e de amplitude segundo o país,
alguns e um handicap para outros. A escolha não é uma escolha livre, conheceram um "processo contínuo de descentralização e de
como queriam fazer crer os partidários do mercado escolar. É a criação transferência para as autoridades locais e para as escolas, de um poder
de um mercado e de uma oferta desigual que forçam a escolher, que de decisão que concerne não mais somente ao financiamento, mas
encorajam mesmo os mais reticentes, a comportamentos estratégicos. também às questões de organização e de gestão"6.
E nesse mercado, os recursos que orientam e permitem a "boa escolha" Toda descentralização não é um primeiro passo em direção ao
são evidentemente muito desiguais. Na falta de uma vontade coletiva mercado. Tudo depende, ao mesmo tempo, do papel que se quer que
de melhora, a escola toma-se objeto de práticas de desvio e de não- ela tenha e das regras que são fixadas para o sistema escolar, no
engajamento comandadas pelos interesses particulares, sobretudo por tocante ao recrutamento dos alunos e professores, aos programas e aos
parte das frações sociais relativamente mais favorecidas. diplomas. Quer-se descentralizar privilegiando a escolha individual
das famílias ou o controle democrático da "comunidade política"
Da descentralização à não-regulação local? Deseja-se aumentar o poder do chefe do estabelecimento ou
A França não é primeiro nem o país mais engajado no ampliar o lugar e o poder efetivo dos professores? As opções são
caminho da descentralização escolar. Nesse, como em outros numerosas, desde as mais democráticas até as mais comerciais. É
forçoso constatar que, depois de muito tempo, a descentralização foi
muito mais freqüentemente concebida como um avanço em direção à

2. A CERI (Centro para a pesquisa e inovação no ensino) analisou por sua vez, a tendência: "A maior
liberdade reconhecida aos pais e aos alunos na escolha da escola está prestes a modificar o equilíbrio de forças
na tomada de decisão no campo da educação, favorecendo os "consumidores" em detrimento dos 4. Em um pró:âmo capítulo, nós examinamos mais em detalhe o caso especial da França, em matéria de
"fornecedores", CERI, LEcole: une affaire de choix, Paris, 1994, p.7. descentralização.
3. Cf. Le Monde de l'éducation, nº 200, 1993 e Pascal BRESSOUX, "Lémergence des systemes de 5. OCDE-CERI, Regards sur l'éducation, 1998.
contrôle en éducation : le cas de la Grande-Bretagne» , École e!ficace. De l'école primaire à la université, 6. Relatório da Organização Internacional do Trabalho, La formation permanente au XXIe siécle:
Armand Colin, Paris, 1995, p. 66. l'évolution des rôles du personnel enseignant, 2000.

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constituição de um mercado escolar do que em direção a uma uma "escolha ativa" das famílias, que veio reforçar os fenômenos de
intensificação da democracia nos estabelecimentos. É em nome da segregação social. Esse tipo de política "esquece" geralmente que a
concorrência, do papel do consumidor, da eficácia, da redução dos escolha do consumidor, que é sua justificativa fundamental, oculta a
custos, da colaboração escola-empresa, que a descentralização é, na desigualdade muito concreta das possibilidades de escolha em matéria
maior parte do tempo, exaltada. Para dar um exemplo, é nesse espírito de informação e de dinheiro, sem contar que as desigualdades de
que a OCDE lamentava que "o sistema francês permaneça por um "poder de compra" escolares são redobradas pela desigualdade dos
lado muito centralizado e regulamentado e, por outro lado, não sucessos escolares, segundo as classes sociais. A diversificação da
autorize uma concorrência suficiente". E a organização internacional oferta, em si legítima, suscita a prática da "boa escolha", variável
acrescentava: "De toda maneira, o "consumidor" não pode mais segundo as classes e não permite igualar, por ela mesma, as condições
exercer pressão sobre a oferta na medida em que, no seio do setor de ensino. Assim, para a Inglaterra, estudos que recapitulam um
público, as possibilidades de escolha do estabelecimento são relatório do CERI mostraram que, se os pais das classes médias
limitadas, de um lado pelos mecanismos administrativos e, por outro privilegiavam na sua escolha o sucesso escolar, os pais dos meios
lado, pela insuficiência de informação sobre a avaliação das populares tinham tendência a escolher um estabelecimento no qual
performances"7. A Comissão Européia salienta quanto a seus filhos "se sentiriam à vontade"IO. Segundo esse estudo, as famílias
descentralização é pensada como uma fonte de flexibilidade e como das minorias étnicas tendem a escolher os estabelecimentos onde os
uma possibilidade de introduzir a lógica de mercado: "O que mostra a jovens de mesma origem seriam majoritários. Algumas vezes, é a
experiência, é que os sistemas mais descentralizados são também
oportunidade para os partidários do mercado escolar, que não querem
aqueles que são os mais flexíveis, que se adaptam mais rápido e que
levar em conta essas diferenças de valor, de procurar estigmatizar os
permitem desenvolver novas formas de parceria com visão social"8.
pais provenientes das classes populares e de comunidade de imigrados,
No total, longe de ser essa "sábia descentralização"9 dando mais
como "maus pais" incapazes de fazer o esforço de uma escolha
iniciativa à base, um verdadeiro movimento de fundo foi estimulado,
judiciosa. Inversamente, como foi salientado antes, em um sistema de
o qual transformou a maior parte dos sistemas educativos e os
livre escolha ou mesmo de escolha restrita, as escolas podem definir
conduziu a estabelecer uma não-regulação mais ou menos intensa,
os critérios de recrutamento ainda mais facilmente, quando elas são
fator de uma segregação social entre estabelecimentos.
objeto de uma forte demanda.
Essas políticas de livre escolha foram instauradas e defendidas
As políticas do liberalismo escolar
tanto por forças políticas conservadoras quanto pelas social-
Como em outros domínios, as políticas adotadas contribuíram
democracias, como na Nova Zelândia, na Suécia, na Inglaterra com o
amplamente com a construção dos mercados, suscitando ou tolerando
New Labor, ou na França, desde o início dos anos 1980. O exemplo
sueco é muito interessante nesse aspecto. As leis de descentralização
do início dos anos 1990, fundamentadas em um amplo consenso
7, OCDE, Systeme éducatif: quelle efficacité ?, retomado em Problemes économiques, n' 2295, 14 de político, encorajaram a livre escolha da escola e seu financiamento
outubro de 1992,
8, COMISSION DES COMMUNAUTÉS EUROPÉENES, Enseigner et Apprendre, vers la société
cognitive, 1995, p, 48,
9, Segundo a expressão empregada no relatório a Unesco, da Comissão IntelTlf'cional sobre a Educação
para o século XXI , presidida por Jacques Delors Uacques DELORS, L:Educarion, um trésor est
cachêédedans, op, cit., p, 26), 10, CERI, op, cit" p, 75,

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local. Os sociais-democratas queriam diversificar o perfil das escolas, utilizar um marketing freqüentemente excessivo e a se dotar, quando
oferecendo uma possibilidade de escolha segundo os "gostos" e as possível, de uma imagem de respeitabilidade por imitação dos sinais
"atitudes" dos alunos. Quanto aos conservadores, pretendiam por essa de prestígio social das antigas public schools (uniformes, ritos, códigos
mesma política acentuar o "direito de retirada" das famílias para que de vestimenta, atividades esportivas e bom "clima moral"). A
elas pudessem exercer um verdadeiro poder de sanção do consumidor. imprensa se entrega a lances constantes, erigindo quadros de honra
A Grã-Bretanha dos conservadores foi longe na construção de um tal das melhores escolas, resultados brutos traduzindo, na maior parte do
mercado segregacionista. Esses últimos se apegaram primeiramente às tempo, uma "boa freqüentação" social. Não é, então, muito difícil de
"comprehensive schools", criadas no meio dos anos 1960 e que compreender por que as enquetes mostram que essa "livre escolha"
correspondiam a um sistema unificado destinado a dar ao maior tem como resultado essencial homogeneizar socialmente um pouco
número possível de pessoas o máximo de conhecimentos. Duas séries mais os estabelecimentos, segundo os bairros 14 . Como mostram as
de medidas quebraram o quadro antigo, o Education Act de 1980 e a pesquisas britânicas sobre vários mercados locais, os asiáticos, os
Educational Reform Act de 1988. Essas leis previam ajudas imigrados das Caraíbas e os africanos são, particularmente, vítimas de
financeiras para escolarizar crianças das classes populares em boas uma segregação manifesta.
escolas particulares, a criação de "colégios tecnológicos citadinos" O caso inglês mostra que a lógica competitiva, hierárquica e
independentes, financiados em parte pelas empresas, e a instauração segregacionista pode prevalecer sobre a lógica pluralista e
de um local management of schools que toma os estabelecimentos "democrática" que certos responsáveis políticos.e experts quiseram
amplamente autônomos, financeiramente. Na Inglaterra, a escolha ver na promoção sistemática da "diversidade de oferta". Esse erro de
parental é vivamente encorajada pela liberalização das regras de diagnóstico refere-se ao fato de que eles subestimaram,
inscrição ("open enrolment") e pela difusão, junto aos pais, dos sistematicamente, a importância dos efeitos social e eticamente
resultados de testes e de exames previstos na Carta dos Pais de 19911 1. seletivos da escolha e que eles negaram a existência de uma
O financiamento das escolas depende amplamente do número de preferência em favor da segregação social, até racial, em matéria de
alunos inscritos, o que se assemelha a um programa de bônus de escola em uma sociedade de mercado. Não é tanto por razões de
educação. O New Labor não questionou a fundo as orientações método pedagógico, de criatividade e de inovação que os pais
liberais. Ele inclusive afastou, para mais longe ainda, as sanções escolhem, como os inovadores pedagógicos queriam acreditar ainda
contra as escolas em falência e apelou muito mais maciçamente às há pouco, mas por razões de "freqüentação", quer dizer, do meio social
empresas privadas, pretendendo defender o serviço público 12 . de recrutamento, que, aos olhos das famílias, condiciona o clima da
A argumentação oficial na Inglaterra que associa a "choice" e aprendizagem escolar e da educação.
a "diversity" segundo o título de um Livro branco redigido pelo
governo inglês 13 , encoraja desde a lei de 1988, a concorrência das
escolas que são convidadas a desenvolver "estratégias de atração", a 12. Cf. o dassier "Poli tiques d' éducation prioritaire: l' expérience britannique" , Revue française de
pédagogie, n 9 133, outubro-novembro-dezembro de 2000. Ken fONES nota que a "terceira via" de Tony
Blair se traduz por um apelo maciço a uma "parceria" em nível local com as empresas privadas nas zonas
de ação educativa (EAZ) afim de conduzir um "vasto programa de educação organizado em torno tanto de
11 . A Carta prevê informações das famílias quanto à qualidade da escola mas sob a forma de resultados objetivos de coesão social, quanto de produtividade econômica" ("Patemariats et conflits dans la troisieme
brutos e não sob a forma de um cálculo de "valor agregado" levando em conta o nível de entrada das alunos voie: le cas des zones d'action éducative", p. 16).
e, portanto, das características da população escolarizada. Isso tende a desviar ainda mais a informação e a 13. "Gouvernment White Paper", Choice and Diversity, DepaTtment for Education, 1992.
dar vantagem às escolas cujo público já é privilegiado. 14. CERI, op. cit., p. 77.

I 6O I 6I
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A mercantilização da escola e seus efeitos segregacionistas

Essa tendência é particularmente visível nos países que têm sistema de livre escolha total em matéria de escola por um sistema de
uma tradição de liberdade de escolha escolar. Nos Países Baixos, onde destinação (distribuição) por setor de habitação. Essa transformação
essa liberdade é muito grande desde o início do século 20, as foi feita em um contexto mais amplo de privatização de numerosos
observações empíricas mostram que o fator de escolha mais serviços sociais concernentes à saúde, habitação e proteção social. O
importante atualmente não é aquele da liberdade de consciência e da resultado não se fez esperar. Os chefes de estabelecimentos, bastante
"visão de mundo", mas um critério social e racia[ls. Também se favoráveis à reforma, tiveram as mãos livres para escolher seus alunos
constata nesse país, no entanto, erigido como modelo por certos na base de critérios particularmente frouxos. Os pais pertencente aos
responsáveis "de esquerda" (ao menos antes da "surpresa" do voto grupos sociais favorecidos viram seu papel crescer na gestão e na
xenófobo e populista mássico nas eleições legislativas de maio de política das escolas. Muito rapidamente, a concorrência entre
2002), uma "fuga dos brancos" de certas escolas nas grandes cidades estabelecimentos os impeliu a lutar para legitimar sua imagem e
dos Países Baixos, fenômeno até então pouco significativo l6 . Nessas conduziu à sua maior hierarquização, onde a transferência de um
escolas, as taxas dos alunos que são oriundos da imigração foram, número significativo de alunos de uma escola a outra foi possível, quer
algumas vezes, multiplicadas por dois, atingindo proporções entre 70 dizer, essencialmente em zona urbana. A concorrência levou ao
e 100% dos efetivos. A OCDE salienta, com sua arte habitual do fechamento de pequenas escolas progressivamente privadas de alunos
eufemismo, que "o agrupamento social e étnico se efetua, em boa e à limitação de acesso às boas escolas, para as famílias que nelas
parte, livremente, mais por meio da escolha do que por intermédio de queriam colocar seus filhos. Esses alunos se encontraram, então, em
um obstáculo oficial ou de fato. Isso indica que uma possibilidade real escolas piores do que aquelas em que estariam, sem a livre escolha. O
de escolha não é incompatível com uma segregação de fato"I? Em exemplo Neozelandês mostra que a concorrência leva ao
termos menos escolhidos e mais diretos, a separação entre a escola dos desaparecimento da escola socialmente mista e acarreta a
alunos brancos e a escola dos alunos "mais coloridos" se acentua por diferenciação social e sobretudo étnica dos estabelecimentos. Aqueles
toda a parte onde a "livre escolha" é instaurada. que recrutam os alunos mais pobres e as minorias étnicas são
A Nova Zelândia foi igualmente muito longe na via do arrebatados em uma "espiral descendente", como dizem os
mercado escolar, mesmo se foi um governo trabalhista que a neozelandeses. "Assim julgados melhores, os estabelecimentos que
inaugurou. As Tomorrow Schools Reforms representam, segundo a acolhem uma maioria de alunos de origem européia prosperam
Unesco, "o programa de liberalização da educação mais audacioso durante os anos 1990. A lei do mercado vira a seu favor. Incapazes de
jamais colocado em prática em um país rico IS ". Por razões de eficácia atrair os professores mais competentes e os alunos mais motivados, as
e de economia nos serviços públicos, o governo trabalhista inaugurou outras vêem sua eficácia decrescer I9 ".
a partir de 1984, uma política de liberalização, substituindo um As enquetes da OCDE mostram que, na maior parte dos países,
a lógica do mercado escolar conduz, do mesmo modo, ao
15. 1bid., p. 83. desaparecimento do estabelecimento de bairro, poli valente e
16. Na Bélgica, observa-se a mesma tendência e particularmente em Bruxelas. Cf. Denis MEURET , socialmente misto e acentua, inversamente, a polarização social e
Sylvain BROCCOLlCHI, Marie DURU-BELLAT, « Autonomie et choix des établissements scolaires :
finalités, modalités, effets ", Cahiers de 1'!REDU, fevereiro de 2001, p. 220. racial, seja nos Países Baixos, na Inglaterra, na França ou nos Estados
17. lbid, p. 83.
18. Edward B. FISKE e Helen F. LADO, "Nouvelle-Zélande: les exclus de I' école libérale ", Courrier de
I' Unesco, novembro de 2000. 19.1bid.

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Unidos. De acordo com a OCDE, "quando as políticas facilitam a direita que, desde os anos 1980, preconizou uma não-setorização
escolha, seja oferecendo a possibilidade de se inscrever livremente nas tota12 3 . Essa orientação, mesmo se não foi generalizada, contribuiu
escolas públicas, seja tomando o ensino privado menos custoso, até para transformar "o usuário cativo em consumidor de escola" mesmo
mesmo gratuito, um número não desprezível de indivíduos aproveita se, como salientam alguns pesquisadores, a escolha em favor de uma
para escolher suas escolas". A OCDE acrescenta: "segundo a flexibilização desigual segundo as regiões e negociada em nível
experiência, averigua-se que a proporção de "decidi dores ativos" não acadêmico impediu todo grande debate político sobre essa questão.
deve, necessariamente, ser enorme para ter um impacto significativo Nem a extensão dessa política "desconcentrada", nem sua amplitude
sobre os sistemas escolares 20. O caso francês o ilustra bem. diferente segundo as zonas urbanas, periurbanas ou rurais, e, ainda
menos seus efeitos, não foram objeto de exame geral ou de enquetes
A hipocrisia francesa locais suficientemente detalhadas, embora todos os atores do ensino
A França não escapou à guinada desreguladora. Mas, a estejam conscientes de sua importância. Alguns pesquisadores
particularidade francesa prende-se ao fato de que os responsáveis chegam a dizer sobre essa política "não escrita", que ela foi "conduzida
jamais o assumiram, de modo pleno, politicamente e às escondidas, como se soubessem que ela era contrária aos princípios,
ideologicamente. O governo socialista introduziu uma maior mas que era necessário fazer concessões à atmosfera do moment0 24".
possibilidade de escolha no que concerne à escola pública, e, de início Em uma palavra, a questão na França permanece até hoje tabu.
em caráter experimental, flexibilizou as regras de inscrição que, desde Uma certa hipocrisia prevaleceu, igualmente, no início dos
1963 definiam uma "carta escolar" prescrevendo os estabelecimentos anos 1990 na construção e na publicação das avaliações dos liceus.
das diferentes zonas de residência. Por etapas sucessivas, mais da Em lugar de relatá-las como um sistema de "preço" mais justo,
metade dos colégios e um terço dos liceus conheceram uma permitindo uma escolha racional às famílias, o que é a justificativa
liberalização semelhante, especialmente nas zonas urbanas. Criada em desse gênero de exercício nos países que seguiram essa política, a alta
1963, a carta escolar correspondia então à preocupação de evitar que administração e os experts pretenderam ver nela apenas um meio para
os novos CES (colégios de ensino secundário) não reconstituíssem a as famílias e os profissionais se mobilizarem a fim de melhorar os
divisão social estabelecida entre os CEG (Colégios de Ensino Geral) estabelecimentos cujo recrutamento permanecia regulado pela carta
populares e os primeiros ciclos do liceu, mais burgueses 21 • Pelo fato do escolar. Em outros termos, só a lógica da mobilização era vislumbrada
Estado não conseguir garantir uma igualdade de tratamento entre os e absolutamente não a de evitar 25 . De fato, essas avaliações dos liceus
alunos, a carta perdia sua legitimidade junto a um grande número de e dos colégios deram, sobretudo, lugar a um excesso de publicações e
famílias. comentários na imprensa - e sobretudo na que é lida pelos pais mais
Foi sob a pressão do setor privado que, na França, Alain Savary informados e os mais capazes de decifrar a informação complexa que
deu início à não-setorização e respondeu, assim, ao desejo aparente de
uma maioria da opinião 22 . Essa política da esquerda foi seguida pela
23. Democracia liberal e algumas personalidades do RPR (atualmente da UMP) como Guy Bourgeois
sustentam tal programa educativo, plenamente liberal.
24. Denis MEURET, Sylvain BROCCOLICHl, Marie DURU-BELLAT, op. cit., p. 45.
20. CERI, op. cit., p.27.
21. Cf. Robert BALLION, La Bonne École, op. cit., p. 163. 25. Segundo uma tipologia proposta por Albert Hirsehman, distinguem-se o·és atitudes possíveis dos usuários
22. Em uma sondagem comandada por A. Savary em 1982, 85% dos pais dos alunos do ensino público de um serviço: a mobilização ("voiee") , a fuga ("exit") e a lealdade. A primeira só tem chance de se
desejavam poder escolher seu estabelecimento. Cf. Alain SAVARY, En toute liberté, Hachette, Paris, manifestar, se há um discurso político forte e coletivo e se há uma esperança qualquer de ver a instituição
1985. mudar, em curto prazo. Nenhuma dessas duas condições é hoje em dia reunida no que conceme à escola.

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esses dados fornecem. Se eles não tiveram um papel maciço no "consumistas" que explicam mais freqüentemente essas transferências
desenvolvimento do consumismo (porque existem outras fontes de e não preocupações morais ou religiosas como o prova a baixa
informação a começar pelas características sociais e étnicas do bairro constante de fidelidade ao ensino privado, das famílias que passam do
e do público recrutado), essas listas de honra tiveram mais um efeito público ao privado e inversamente, sem problemas de consciência28 •
de legitimação das práticas de escolha entre os estabelecimentos. Por É essa mudança de significado, que traduz a intensificação do
que não escolher um outro estabelecimento, inclusive privado, se o "zapping" entre os dois setores, que faz do setor privado uma alavanca,
ministério se dá ao trabalho de fornecer dados "objetivos" sobre as hoje em dia muito importante, do mercado escolar. Se ele nunca
diferenças entre estabelecimentos? Sob esse ponto de vista, a cessou de ser objeto de uma escolha socialmente determinada 29 , o
manutenção da carta escolar aparece em contradição com essa setor privado constituía uma espécie de "consolação" para as religiões
política de avaliação pública e só pode ser, aos olhos dos pais, uma tradicionais frente ao papel voluntarista do Estado educador na
restrição absolutamente injustificável 26 . França3o , em nome da "liberdade de consciência". Ora, uma das
Para ter uma idéia mais completa do fenômeno, seria características do período consiste precisamente na modificação dessa
necessário recuar bastante no tempo. A concorrência no sistema função do ensino privado que se integra a uma lógica de mercado para
educativo não é nova, pelo fato de existir um importante setor a qual não são nem essa liberdade de consciência nem a fé religiosa
privado de ensino que recebe uma ajuda considerável do Estado. As que importam, mas o "cálculo egoísta" da boa colocação escolar. No
famílias descontentes com a escola pública, às vezes por razões limite, o caráter religioso da escola se torna um "sinal" entre outros de
puramente sociais e étnicas, não se privam de recorrer a esse meio, há qualidade social e pedagógica. Nesse domínio também, o liberalismo
muito tempo. A escola francesa, como se sabe e se esquece tão mudou de sentido.
facilmente, se caracteriza por um importante setor privado
amplamente financiado pelos fundos públicos e em competição com A segregação à francesa
o setor públiço. Esse setor privado escolariza cerca de 18% dos alunos, Certamente, a França não foi tão longe quanto outros países
mas ele constitui, sobretudo, um freqüente recurso em caso de nesse caminho não-regulador. Por um lado, a carta escolar foi mantida
dificuldade: perto de duas crianças em cinco são usuárias do setor
ao menos parcialmente; por outro lado, a política das Zonas de
privado durante sua escolaridade do maternal ao fim do secundário.
Educação Prioritárias (ZEP) pretendeu reequilibrar as condições de
Essa possibilidade de recurso é mais utilizada pelas famílias
ensino entre os estabelecimentos e, se essa política é modesta, ela não
privilegiadas do que pelas outras. Se ele é por vezes uma verdadeira
foi, sem dúvida, totalmente nula em seus efeitos. A situação é de
"segunda chance", a existência de um setor subvencionado tende a
qualquer modo complexa: o princípio constitutivo das ZEP, a
acentuar as desigualdades de currículos, permitindo contornar os
"discriminação positiva" importada da Inglaterra dos anos 1960 e dos
julgamentos escolares e se distanciar do meio popular.
Como mostraram os trabalhos sociológicos, a escolha das
famílias em favor do ensino privado é, cada vez menos, religiosa e, 28. Cf. Gabriel LANGOUET e Alain LÉGER, Le choix des familles, École publique ou éco1e privé ?
Éditions Fabert, Paris, 1997.
cada vez mais, determinada por outros fatores 27 . São razões 29. Os clientes que passam de um setor a outro são mais freqüentemente provenientes de grupos mais
favorecidos e essas estratégias aumentam as desigualdades escolares mesmo se se constata hoje em dia, uma
diversificação social muito relativa do recrutamento do ensino privado.
26. Cf. "Entretien avec Agnes van Zanten", Nouveau Regards, no 16. 30. Em outros países, como a Bélgica ou os Paises Baixos, segundo as histórias e aos compromissos pr6vrios
27. Cf. Gabriel LANGOUET e Alain LÉGER, École publique ou école privée ? Trajectoires et réussites de cada um, a manutenção do setor Privado e a liberdade de escolha estão muito ligados a dimensões políticas
scolaires, Éditions Fabert, Paris, 1994. e morais.

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políticos democratas americanos (dar mais aos que têm menos), ia não levadas em consideração, dos domicílios fictícios. Mas, sobretudo,
oficialmente contra a criação de uma escola com duas velocidades, não se pode ignorar que doravante as escolhas de residência das
mas uma "discriminação negativa", mais silenciosa, cujos efeitos famílias são em grande parte determinadas pela presença de
aparecem cada vez mais devastadores, se desenvolvia paralelamente estabelecimentos socialmente "bem freqüentados 34 ".
devido ao evitar crescente pelas classes médias dos estabelecimentos Certas observações feitas nas cidades como Paris parecem
julgados "mal freqüentados 3l ". A flexibilização da carta escolar, a mostrar, no entanto, que a diferenciação social dos colégios e dos
manutenção de um importante setor privado amplamente financiado liceus só cresce, fazendo desaparecer, pouco a pouco, os
pelo Estad0 32 , a publicação pela mídia das avaliações dos estabelecimentos mistos de bairro. Ao lado de alguns
estabelecimentos, as violações da carta escolar, a constituição de estabelecimentos monopolizados por uma clientela favorecida,
micromercados locais ligados a uma segregação residencial que a observa-se uma degradação concomitante de numerosas escolas,
política do habitat reforçou, contribuíram para uma polarização social colégios e, agora, de liceus que escolarizam as crianças das populações
cada vez mais nítida dos estabelecimentos (e que excede em mais carentes, mesmo marginalizadas. Desde as primeiras pesquisas
amplitude a diferenciação social dos bairros 33 ). Os comportamentos sobre os efeitos da não-setorização, era possível perceber, no entanto,
do evitar reforçam essa mesma polarização segundo um processo as conseqüências não igualitárias prováveis da política da não-
cumulativo muito inquietante. O simples deixar fazer torna-se então, intervenção que foi seguida. Os trabalhos de Robert Ballion, no fim
em si mesmo, uma política liberal. dos anos 1980, sobre a não-setorização, já mostravam os
É certamente difícil se fazer uma idéia de conjunto das posicionamentos diferenciados dos colégios sobre os mercados locais
tendências na França, tanto a discrição do Ministério e a fraqueza, até e assinalavam, precocemente, a polarização entre estabelecimentos
pouco tempo, das pesquisas permaneceram muito tempo patentes muito procurados e estabelecimentos recusados35 . O autor mostrava,
nessa área. A literatura oficial é, geralmente, tranqüilizadora. Assim, igualmente, que os diretores e os professores eram super representados
foi dada grande importância em agosto de 2001 a uma nota de nas demandas de mudança de estabelecimento, fenômeno que
informação do ministério que mostrava que as violações à carta traduzia o afastamento entre os locais de residência designados, pela
escolar não haviam aumentado nos anos 1990. Além de o recurso ao estrutura dos rendimentos e dos patrimônios e o conhecimento das
setor privado ter aumentado ligeiramente, percebe-se a constituição diferenças entre estabelecimentos, bem como o nível de aspiração das
de verdadeiros mercados escolares nas zonas geográficas determinadas famílias.
pela facilidade de transporte; observa-se que a noção de zona A teoria sociológica dos "capitais" econômico, cultural e social
geográfica com relação à qual é medida a intensidade das violações, de Pierre Bourdieu esclarece as estratégias ou as ausências de
deve ser vista de maneira relativa, considerando-se as práticas ocultas, estratégia dos grupos sociais36. Os quadros superiores, profissões
liberais, comerciantes e industriais não têm geralmente necessidade
de solicitar um outro estabelecimento, uma vez que eles têm os meios
31 . O balanço das ZEP é, na realidade, decepcionante como mostram numerosos observadores. As ZEP
tomaram-se antes "a porção escolar de um dispositivo global de gestão dos bairros em dificuldade" e as
crianças mais desfavorecidas são, relativamente, desfavorecidas por pertencerem a uma ZEP, como salienta
Marie DURU-BELLAT e Agnes VAN ZANTEN, La Sociologie de l'école, Arrnand Colin, Paris, 2000, 34. Cf. Christelle CHAUSSERON, "Le choix de l'établissement au début des études secondaires", Nota
de informação 01.42
p. 104-105.
32. Cf. Marie DURU-BELLATe Agnes VAN ZANTEN, La Sociologie de l'école, op. cit., p. 123. 35. Cf. La Bonne École, p.lS1 etsq.
33. Ibid., p. 100. 36. Cf. Ives CAREIL, École libérale, école inégale, Nouveaux Regards/Syllepse, Paris, 2002.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A mercantilizaçào da escola e seu.s efeitos segregacionistas

de morar nos belos bairros e enviar seus filhos aos estabelecimentos médios são os mais numerosos e os estabelecimentos difíceis os mais
"bem freqüentados". Enquanto as profissões independentes optam raros. Ao contrário, aquelas que se situam abaixo da média nacional
mais facilmente pelo privado, os professores, mas também todos os se caracterizam por seu grande número de colégios em dificuldade 3?
outros assalariados dotados de diplomas de terceiro grau, mas não A escolha da "boa escola" passa por meios que não são restritos
dispondo de recursos financeiros que lhes permita viver nos bairros apenas às oportunidades legais internas ao setor público. Múltiplas
mais caros, utilizam, ativamente, as possibilidades de escolha entre formas de evitar existem nas zonas urbanas e periurbanas, desde a
estabelecimentos públicos e mobilizam para isso recursos em troca de endereço obtido graças a membros da família melhor
informação que vêm compensar um lugar de residência nitidamente "situados" geograficamente, a escolha de opções raras ou de línguas,
menos favorável. As pesquisas realizadas depois não desmentiram as quando não a compra de um quarto de empregada em um "belo
primeiras observações de Robert Ballion, bem ao contrário, As bairro". Existe, assim, um "mercado negro" da escola no qual intervêm
enquetes efetuadas durante os anos 1990 mostraram que os estratégias complexas das famílias, incluindo a escolha do local de
recrutamentos entre colégios públicos tenderam a se tomar cada vez residência ou a mobilização familiar e de suas relações. Um dos
mais segregativos, seja para os grupos sociais desfavorecidos seja para fenômenos mais marcantes reside no fato de que o mercado
os grupos de estrangeiros. Esses trabalhos são confirmados pelas imobiliário tende a se tomar um mercado escolar indireto. O lugar de
enquetes mais recentes do Ministério sobre o assunto. Segundo um residência é escolhido pelas famílias que têm crianças em idade
estudo da Direção da Programação e do Desenvolvimento (DPD) do escolar e dispondo de trunfos financeiros correspondentes ao valor
Ministério, publicado em outubro de 2001, os colégios conhecem uma dos estabelecimentos oferecidos, o que transfere, além do mais, ao
diferenciação social cada vez mais marcada, entre eles. Essa pesquisa, capital econômico uma certa primazia sobre o capital cultural, dentre
baseada nos 4.956 colégios públicos, estabeleceu uma tipologia dos os fatores de sucesso escolar38 . Os estabelecimentos, do lado da oferta,
estabelecimentos escolares, que considera simultaneamente a multiplicam as maneiras de atrair os bons alunos pelo jogo das opções
categoria sócio-profissional dos pais, a proporção de crianças e as maneiras de mantê-los pela constituição de "boas classes"
estrangeiras, a porcentagem dos alunos em atraso. A partir de seis segundo uma estratégia defensiva, freqüentemente praticada pelos
categorias distintas de colégios ("favorecidos", "médios", "operários", estabelecimentos menos bem colocados no mercado.
"em atraso", "difíceis" e "muito difíceis"), o estudo mostra que se 25% A polarização social não se atém, portanto, apenas à
dos colégios estão em situação difícil, um pouco mais de 10% dos flexibilização da carta escolar. No entanto, na ausência de uma
colégios aparecem "favorecidos", perfazendo oito vezes mais crianças política muito voluntarista visando a equilibrar a composição social
muito favorecidas com relação aos colégios "muito difíceis". Certas dos estabelecimentos e a igualar as condições concretas de ensino, as
academias como as de Paris e Versailles apresentam os mais fortes margens deixadas à escolha das famílias reforçam, inexoravelmente,
contrastes. Nelas, os colégios "favorecidos" de um lado e "muito as desigualdades e constituem, assim, uma escolha, ao menos por
difíceis" de outro estão super representados. Em um grande número de abstenção, a favor do laisser-faire. Como assinala o relatório da
academias, existem "bolsões de dificuldade" como diz pudicamente a
DPD, que influem no sucesso global das mesmas. Mostra-se que as
37. Daniele TRANCART, "I.:évolution des disparités entre col/eges publics", Révue Française de
academias de Rennes, Limoges ou Nantes, freqüentemente citadas Pédagogie, n' 124, 1998, p. 43-54.
38. Cf. Marco OBERTI, "Ségrégarion dans l' école et dans la vil/e", Mouvements, nº 5, setembro-outubro
como as mais eficazes, são também aquelas nas quais os colégios 1999.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A mercantilização da escola e seus efeitos segregacionistas

OCDE já citado, essa utilização diferenciada das escolhas se encontra, favorecidos, os segundos se distribuem entre meios favorecidos e
da mesma maneira, na maior parte dos países onde ela se tomou meios populares e os terceiros são recrutados quase exclusivamente na
possível. A conclusão da organização econômica internacional é sem classe operária. Os primeiros têm uma forte inclinação à escolha como
apelo: "O resultado da ampliação da escolha é acentuar as diferenças valor, têm também a capacidade intelectual, social e material. Eles
entre os colégios que se dirigem a populações diferentes 39 ". O efeito sabem como funciona a escola, fazem contatos, mobilizam recursos de
da instauração de um quase mercado é por toda parte uma segregação toda natureza. Têm a capacidade de conceber a trajetória escolar não
reforçada: o estabelecimento melhora se ele já possui um "capital como uma série de experiências desconectadas e heterogêneas, mas
social" importante entre a população que ele escolariza, mensurável como uma verdadeira carreira temporariamente orientada e com
pela porcentagem de alunos provenientes das classes favorecidas, e se ganhos acumuláveis: "ganhar" e "perder" tempo, saber utilizar ou não
deteriora em caso inverso. as chances escolares, são termos importantes para eles. Como
salientam os pesquisadores ingleses, essa categoria é também aquela
A escolha como novo modo de reprodução que, porque deve levar em conta um grande número de fatores, tem
Os liberais apresentam, de bom grado, a liberdade de escolha mais dificuldades para hierarquizá-los e realizar uma arbitragem
em matéria de escola como um meio eficaz de regulação. Na verdade, complexa entre os desejos que se tem para a criança e aqueles da
é sobretudo um modo eficaz de reprodução. O mercado educativo é, criança, as qualidades da atmosfera da escola e as do trabalho que nela
com efeito, uma máquina para discriminar as crianças das classes se tem que cumprir, etc. Apenas alguns pais, mais especificamente
populares. A desigualdade frente à escola não é mais somente o fruto orientados somente pelos resultados, desejarão a melhor escola em
de uma seleção pela escola, ela é o resultado das condições desiguais eficácia e levarão menos em conta a impressão que têm do clima
de escolha da escola. Segundo a importância dos recursos econômicos reinante na escola.
e culturais, a possibilidade de fazer escolhas, a capacidade que se pode Os semi-skilled choosers, os semi-instruídos e semi-
dizer estratégica, é desigualmente distribuída na população. competentes são os que gostariam de escolher mas eles não têm todas
Contrariamente ao que pretende a ideologia do mercado, não há nem as capacidades para tal, seja porque não têm todas as informações
formação homogênea das preferências, nem igualdade de chances pertinentes, seja porque não dispõem de meios materiais ou, ainda,
necessárias para construir escolhas racionais segundo os grupos porque eles não têm toda a tenacidade e segurança para exercer
sociais. Essa fabricação das escolhas é socialmente determinada. efetivamente uma escolha que demanda uma mobilização, às vezes
Sharon Gewirtz, Stephen J. Ball e Richard Bowe, na intensa. Graças à análise dos questionários passados aos pais e cujos
apresentação de sua enquete sobre diversos micromercados locais na resultados serviram para estabelecer essa distinção, os autores incluem
Inglaterra, distinguem finamente três grandes tipos de "choosers". Os aqui os que se confessam vencidos mais rapidamente em face dos
privileged/skilled choosers, os semi-skilled choosers e os disconnected obstáculos a enfrentar para obter a escola de seu desejo e são eles
choosers 4o . Os primeiros pertencem, preferencialmente, aos meios também que não dispõem de todos os meios para distinguir entre as
escolas de modo claro.

39. CERI, op. cit., p. 159.


Os disconnected, que se poderia crer "desinteressados" pela
40. ShaTOn GEWIRTZ, Stephen]. BALL, Richard BOWE, Markets, Choice and Equity in Education, escola ou, pior, indiferentes à sorte de seus filhos, não conseguem na
Open University Press, Buckinghan Philadelphia, 1995. Cf. Agnes VAN ZANTEN, VÉcole de la
Périphérie, PUF, Paris, 2001, p.93 et sq. realidade entrar no quadro imposto pela lógica da escolha. Eles

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A mercantilização da escola e seus efeitos segregacionistas

percebem as escolas como sendo bastante semelhantes umas às outras são do domínio do ensino privado. Do mesmo modo, na outra
e limitam seu horizonte às escolas próximas. É mais um procedimento extremidade da sociedade, pais provenientes da classe operária e que
de confirmação do que de comparação, que pode parecer como uma têm a priori menos chances e menos recursos para poder evitar o
forma de resignação ou de fatalismo, consistindo em "fazer da estabelecimeilto do bairro, o fazem todavia, freqüentemente aliás, por
necessidade, virtude" pensando que a escola do bairro fará, pelo razões expressas de violência e/ou de presença maciça de alunos de
menos, a felicidade da criança na medida em que ele permanece com origem estrangeira 41 .
seus camaradas de brincadeiras. No fundo, esses pais, saídos da classe Um grande número de pais não são, espontaneamente,
operária e muitas vezes de origem estrangeira, querem, assim como os "consumidores de escola" aos quais deveria ser imputada a
outros, uma boa educação para seus filhos, mas em uma boa escola de responsabilidade de transformação crescente dos estabelecimentos em
bairro. Seu afastamento social da escola, juntamente com o fato de guetos e não pertencem de modo simples e unívoco a uma ou outra
que as habitações das classes pobres se situam em zonas encravadas das categorias mencionadas. A maior parte está, sem dúvida,
mal servidas por transportes em comum, os conduzem a uma "não- fragmentada e sua "escolha" de escolher está longe de ser feita de bom
escolha" pela escola mais próxima geograficamente. grado e com boa consciência pelo fato único que muitos sabem que
Essa tipologia deveria, naturalmente, ser afinada. A liberdade tais decisões só podem reforçar a desigualdade das condições
de "escolha" que a lógica de mercado encerra não é, decerto, a escolha concretas de ensino, ao menos no estado atual das políticas escolares.
de todos. Certamente, as sondagens parecem indicar, desde os anos Eis porque seria simplificar concluir, como têm tendência a fazer os
1980, uma preferência da opinião pela "liberdade de escolha". Mas, pesquisadores ingleses, que "o mercado é um modo de engajamento
isso não é um referendum para o livre mercado escolar, salvo talvez social próprio à classe média42 ". É mais importante lembrar que a
pela fração das classes médias e superiores mais apegada à cultura de "livre escolha" é uma obrigação de escolher e não uma liberdade da
interesse pessoal. Em uma situação de deSigualdade crescente entre as qual os pais disporiam naturalmente ou à qual eles teriam sempre
condições de existência e de renda, cada vez mais desiguais entre aspirado. É uma obrigação feita a "jogadores" mais ou menos de
grupos sociais, não é surpreendente que aqueles que podem, mas que acordo em "jogar" o jogo da competição de todos contra todos, quer
não o querem forçosamente escolham evitar os piores eles queiram ou nã0 43 . Se a teoria econômica considera escolhas sem
estabelecimentos e as piores classes. A liberdade de demanda pelas constrangimentos, seu ponto cego atém-se, precisamente, à sua recusa
famílias responde, assim, paradoxalmente, a uma preocupação de em considerar o próprio constrangimento da escolha. Em uma
igualdade, na mesma medida em que elas não escolhem ser lesadas situação onde existem, cada vez mais claramente, situações de ensino
voluntariamente pelas más condições a que teriam que se submeter e de socialização muito desiguais, segundo o recrutamento dos alunos,
suas crianças. Como diz justamente Robert Ballion, ter a liberdade de da escola primária até a faculdade, não é muito surpreendente que
não ser destinado a um mau estabelecimento é uma "liberdade de cada vez mais pais "joguem o jogo" de modo metade imposto, metade
recurso". Isso conduz a que os pais militantes eleitos de partidos de voluntário.
esquerda, ou, por vezes mesmo intelectuais professando idéias
progressistas se sentem obrigados, contra suas convicções ideológicas
e éticas, mas no interesse aparente e imediato da escolaridade de seus 41 . As escolhas da escola. social e racialmente marcadas, são eufemizaclas nos discursos de jus tificativa dos
pais. Sem negar a realidade dos fenômenos evocados pelas famílias, é também sob esse ângulo que seria
filhos, a retirá-los de escolas nas quais as condições estão mais necessário analisar a questão da "violência da escola".
degradadas e colocá-los em melhores estabelecimentos que às vezes 42. S. GEWIRTZ etal., op. cit., p. 181.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
A mercantilização da escola e seus efeitos segregacionistas

A segregação social e racial existia antes da instauração das A idealização do mercado escolar e a realidade
políticas neoliberais de escolha, como foi lembrado, mas a lógica do A vulgata tirada do argumentário dos economistas liberais
mercado tende, de agora em diante, a reforçar essa segregação pre- tende a idealizar o mercado como uma entidade ao mesmo tempo
existente em uma base geográfica, pela liberdade para evitar os natural e voltada para produzir automaticamente a melhor alocação
estabelecimentos que permaneciam socialmente mistos. O efeito de recursos. Se essa idealização já é uma ilusão para os mercados
principal não incide sobre os estabelecimentos que já eram, seja clássicos de bens de fatores de produção, ela o é a um grau
majoritariamente "burgueses" seja majoritariamente "populares", mas suplementar para a educação. Como se pode observar, toda a teoria
sobre os estabelecimentos de bairro onde há ainda uma certa mistura está fundamentada em uma suposta soberania do consumidor
social e escolar. Quer se tratem de escolas primárias, de colégios ou convidado a escolher, em total liberdade, os produtos. Mas de que
liceus, há destruição progressiva da mistura quando ela estava, até produtos se trata? Qual consumo está em questão? O que é um
então, preservada. Se as políticas de laisser-faire são amplamente estabelecimento escolar que dá satisfação a um consumidor? De que
responsáveis por essa "não-mistura" das escolas, a situação de natureza é a informação necessária à escolha? O consumidor isolado,
mercado, colocando em concorrência as famílias, torna difícil o átomo entre outros átomos, sabe, de resto, o que é necessário para ele?
debate e a mobilização coletiva eficaz por parte dos alunos, dos pais e Ele tem os meios de calcular as conseqüências, a longo termo, de suas
dos professores. A privatização dos interesses é uma situação que por escolhas? Os poderes públicos pretendem estar aptos a fornecer uma
natureza bloqueia a politização coletiva das necessidades e dos direitos
"informação de clientela" leal, em outros termos, um sistema de preço
legítimos. Daí o sentimento crescente de impotência dos profissionais
justo. Um mercado leal, segundo a doutrina idealizada do
da educação, daí também o enfraquecimento de todo ideal coletivo,
consumidor-rei, supõe uma política de informação e de rotulação para
de todo projeto político, característico do pós-modernismo liberal:
"igualar as chances de ser informado sobre os valores reais de um
cada um deve se arranjar de seu lado, com as "soluções locais", de
estabelecimento". Daí a instalação de um sistema de avaliação
preferência. Existe o risco de que cada vez menos pessoas, inclusive
complementar, de livre escolha das famílias, e que, por afixar a
entre os professores, não acreditem ser ainda possível fazer uma
performance dos estabelecimentos, as classes e até os professores, deve
"escola comum", misturando os jovens de diferentes classes sociais. O
atuar como um indicador das performances dos "produtores". Tal é o
grande projeto histórico da escola da igualdade, pelo fato em si do
caso por exemplo das League Table na Inglaterra (quadro de
abandono pela esquerda governamental de seu ideal, está moribundo,
resultados das escolas publicados na imprensa) e das IPES
o que deixa o monopólio aos políticos de mercado e ao "cada um por
(Indicadores de Gestão dos Estabelecimentos Secundários) na
si" generalizado. A propósito dos Estados Unidos, os pesquisadores da
OCDE disseram claramente as conseqüências a esperar: "A escola França.
Na realidade, considerar a educação como um bem privado, do
pública "para todos", grande contrapeso ao individualismo no sistema
educativo americano, desmorona como instituição, enquanto a fuga qual um indivíduo pode se apropriar, supõe uma alta dose de

das classes médias para fora das circuncrições urbanas, em particular, irrealismo. Os termos econômicos são freqüentemente empregados de
faz dessa instituição um guet0 44 . uma maneira muito metafórica no discurso oficial, pleno de
referências à "oferta" e à "demanda" de educação. Além do fato de
que os consumidores não são nem livres nem iguais, convém lembrar
43. Cf. sobre esse ponto as observações de Robert BALLION, La Bonne École, op. cit., p. 240.
44. CERI, op.cit., p. 103. que, no "mercado educativo", não são apenas os consumidores que

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escolhem mas que, para escolher efetivamente, eles devem se esforçar americano evidenciam que o aumento na força do Estado avaliador é
em se fazer escolher pelos estabelecimentos demandados, os quais uma transformação maior do período. Longe de suprimir os controles
estão em posição de força em face de uma demanda excedente. Com centralizados nos conteúdos e métodos ensinados, assiste-se a
efeito, posto que o "produto" é raro, quer dizer que os lugares nos bons ascendência de um Estado, cada vez mais autoritário e prescritivo, em
estabelecimentos são caros, são esses que estão em situação de fazer a nome da eficácia econômica ou da "democratização", quando não é
seleção dos alunos. Seus critérios de escolha são, então, determinados em nome da "restauração moraI46 ".
pelo interesse próprio e egoísta dos administradores, dos professores e Assiste-se, em numerosos países, a uma centralização crescente
dos pais de alunos do estabelecimento que retém os bons alunos, os e uma regulamentação cada vez mais ampliada, não mais talvez no
mais estudiosos, os que estão mais de acordo com a imagem de domínio da intendência, do financiamento ou mesmo dos
prestígio que a escola quer manter. Devia-se, então, concluir que o recrutamentos, mas no centro estratégico da escola, no próprio
"mercado educativo" é, em realidade, um dispositivo social oficioso de domínio pedagógico. Assim, existe uma intensificação da potência
auto-seleção que, por trás dos argumentos falaciosos da racionalidade das prescrições pedagógicas elaboradas "de cima para baixo" e vêem-
do interesse próprio, permite triar socialmente, até mesmo se mesmo casos onde a definição dos programas, a escolha dos
etnicamente, os alunos, em sociedades hierarquizadas que têm a dupla métodos e a ordem de exposição das matérias são colocadas fora do
característica de conhecer uma escola de massa e de afixar valores que controle dos professores, mesmo dos inspetores, em nome da eficácia
interditam uma segregação oficial aberta. A invocação das virtudes da econômica e social. Como mostra o exemplo inglês onde a definição
descentralização, da autonomia da escola e do papel de escolha dos e a hierarquia dos objetivos fixados para as escolas são
pais mascara, assim, a nova "aliança" social formada em tomo dos particularmente explícitos, o "mercado" é acompanhado por uma
membros das classes superiores e das novas classes médias que normalização da produção educativa atestada pelas avaliações
partilham os valores gerenciais de eficácia, de competição e dispõem centralizadas, calibradas por critérios padronizados. Na Inglaterra,
de recursos materiais e culturais suficientes para se sair bem da cada escola recebe, assim, "metas" que ela deve atingir sob pena de
situação delicada do jogo em um sistema de livre escolha. sanção mas com esperança, em outro sentido, de recompensas ao
O mercado é uma construção retórica dos teóricos neoliberais mérito para os professores julgados mais eficazes. Numerosos Estados
que têm também razões políticas 45 . Os idealistas do mercado apesar de Americanos reforçaram o papel dos testes de final de curso e
utilizarem o léxico do liberalismo clássico e retomarem os antigos instituíram sistemas de recompensa para as escolas de melhor
argumentos elaborados desde Smith, isso não faz da escola um performance. Certas escolas em dificuldade foram submetidas a uma
verdadeiro mercado econômico. O argumento de eficácia, avançado "reconstituição", procedimento particularmente radical consistindo
entre outros por J. Chubb e T. Moe, é um engodo que encobre uma em substituir a totalidade do pessoal do estabelecimento. O mercado
burocratização intensificada do ensino. O exemplo inglês e o impõe, por toda parte, uma "profissionalização" dos professores e uma
transformação de escolas em empresas eficazes segundo o modelo

45. Cf. Michael W. APPLE, "Rethorical Refonns: Markets, Standards and Inequality", Current Issues in
Comparaove Education, vol.J , n' 2, 30 de abril de 1999. Tomando sobre esse ponto exatamente o contrário
de lohn Chubb e de Terry Moe, M. Apple mostra que a competição entre as escolas se opera em um quadro 46. Não se pode esquecer que os conservadores mitanicos (mas também os americanos), se eles se
cada vez mais definido pelo Estado, desde o currículo nacional até uma avaliação centralizada onde os apresentam como modernizadores, são igualmente autoritários, defendendo a família e a Igreja e sempre
diretores e professores devem se fazer servidores eficazes. prontos a reforçar o controle moral e religioso sobre as escolas.

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A mercantilização da escola e seuS efeitos segregacionistas
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

de que a escola toma a centrar-se em sua missão primordial, o


industrial. A liberdade de escolha, nesse caso, é também um modo de
inscrever todas as escolas, e de disciplinar todos os professores no aprendizado dos saberes. Não esqueçamos, sob esse olhar, que, nos

"espírito do capitalismo". Estados Unidos, por trás do dogma liberal, trata-se também de uma
vontade muito mais pragmática de "desvio dos objetivos do ensino e
do tempo de ensino, em favor do domínio das disciplinas
o mercado eficaz?
A doutrina do mercado escolar repousa sobre o argumento da fundamentais" por razões de poderio econômico global48 .
De modo geral, a autonomia não tem todas as virtudes que lhe
eficácia. Esse já havia sido avançado por Adam Smith, que queria que
o governo financiasse uma boa parte da educação dos pobres, mas imputaram os liberais e os militantes pedagógicos dos anos 1960 e

queria também que esses pudessem escolher a escola e que eles 1970 ou, mais tarde, os responsáveis políticos e administrativos pela
educação na França. "O discurso liberal dos anos 1980 estipulando
pagassem a outra parte. Era, a seus olhos, a condição para fazer
desaparecer a rotina das corporações educativas, para responder à que, liberados de seus grilhões burocráticos, os atores iam empregar
uma criatividade e uma eficácia insuspeitáveis, é invalidad0 49 ",
demanda e para inovar. Impõe-se, hoje em dia, a mesma doutrina da
mão invisível, que quer que o bem comum seja produto dos interesses concluem secamente os pesquisadores do IREDU.
Não é muito difícil de compreender as razões.
locais e particulares. É, ainda, a idéia segundo a qual, por exemplo, os
diretores dos estabelecimentos mais autônomos, controlando seu Supervalorizando o que é visível e o que é quantificável, o modelo do
mercado vai exatamente contra a lógica educativa que exige tempo,
orçamento e dependendo para sua renda e sua carreira da reputação e
o que todos os pedagogos sabem desde Rousseau. O mercado é de
do bom funcionamento de seu estabelecimento, fizessem com que as
curto termo e as soluções às quais ele conduz são soluções superficiais,
escolas fossem menos custosas, mais flexíveis e mais inovadoras, no
molde das empresas privadas. O principal argumento dos autores e das imediatas, com efeitos rápidos, como se quereria. O mercado supõe

organizações internacionais que preconizam a liberalização e a uma "reatividade" muito forte enquanto as soluções a muitos

privatização do domínio escolar é verificado através dos fatos? problemas educativos demandam decisões que operem em longa

Apesar da heterogeneidade das enquetes sobre os diferentes duração. Também, como foi evocado mais acima, na Inglaterra onde
os fundos alocados dependem diretamente e imediatamente do
sistemas escolares, os pesquisadores que tentaram uma síntese
número de alunos recrutados, para atrair as "boas famílias" as escolas
constatam a ausência de correlação nítida entre o grau de autonomia
recorreram, cada vez mais, a medidas repressivas expeditivas aos
e a eficácia47 . Se, por exemplo, certas formas de autonomia nos
alunos perturbadores, mesmo fracos, cuja exclusão imediata é
Estados Unidos, que dão o controle aos professores na gestão de
decidida por motivos que não são todos da mais extrema gravidade.
escolas, parecem suscitar uma maior motivação, outras, que dão mais
poder aos administradores, não mostram uma tal melhora. De modo As escolas submetidas a uma concorrência intensa, temendo as

geral, segundo as enquetes americanas não seria a autonomia em si a sanções ligadas à publicação dos quadros de resultados dos exames, em
suma, impelidos a seguir seu próprio interesse, se concentram nos
fonte de uma melhora dos resultados obtidos pelos alunos, mas o fato
sintomas mais do que nas causas dos problemas encontrados. As

47. Denis MEURET, Sylvain BROCCOLlCH, Marie DURU-BELLAT, op. cit., p. 140. Os autores
escrevem que "o grau de autonomia de um estabelecimento não figura claramente entre os fatores de eficácia 48. Ibid., p. 165.
mais imediatos e mais decisivos". 49. Ibid., p. 164.

I 8O
I 8 I
A ESCOLA NÃO li UMA EMPRESA o grande mercado da ed ucação

escolhas pedagógicas são então as menos "eficazes" para os alunos do ensino dependa apenas das características sociais dos alunos e
mais fracos na escola. Mesmo na França, se acumulam os testemunhos contribua, assim, ao mesmo tempo para o crescimento das
de comportamentos clientelistas e particularistas por parte de desigualdades e o enfraquecimento da ação institucional sobre elas.
estabelecimentos que recusam as más seções e os alunos muito fracos Enquanto antigamente se podia crer que "o ensino era oferecido aos
para privilegiar, ao contrário, os tipos de ensino que melhorem sua cidadãos pelos governos ou instituições benevolentes", deve-se
imagem e atraiam bons alunos. Robert Ballion notava há muito aceitar uma lógica nova que não é mais a do estado educador mas a
tempo que os dirigentes, na situação de concorrência onde são do serviço privado oferecido a um cliente 52 . Começou-se, assim, a
colocados, são conduzidos a lutar contra o serviço público na medida substituir a função arbitral do Estado em matéria de orientação ou de
em que devem seu sucesso ao despojamento dos alunos que teriam afetação escolar, por exemplo, por um livre mercado sobre o qual cada
mais necessidade da escola e à seleção de sua clientela50 . A obsessão um deve fazer jogar seus trunfos, suas informações e suas qualidades
dos resultados pode, igualmente, provocar efeitos perversos sobre a estratégicas. Por esse tipo de privatização sociológica, o
motivação dos alunos, reduzindo o ensino à pura fabricação sem neoliberalismo faz do sistema escolar, mesmo quando ainda público,
alegria, sem investimento pessoal, de um capital humano um sistema segregacionista.
performático. A tendência à separação dos grupos SOCIaiS e étnicos no
Os experts da OCDE que nós já citamos podiam concluir por espaço, nas práticas sociais, no habitat, na escolarização, não é nova,
essas palavras que constituem uma condenação radical do "mercado" mas, sem dúvida é intrínseca a toda sociedade de classe. Contudo,
escolar: "A escolha, associada ao aparecimento de uma hierarquia de passado um certo limite, essa tendência se toma a lei geral de uma

escolas fundamentadas na qualidade, constitui então uma ameaça sociedade em vias de esquartejamento social cada vez mais
potencial para um sistema muito amplamente percebido como capaz pronunciado, como mostram a Inglaterra e, com mais forte razão, os

de dispensar um ensino de um nível aceitável 5l ". Os argumentos de Estados Unidos 53 .

inspiração liberal que crêem poder estabelecer uma relação entre a A política da livre escolha em matéria de escola, pela
autonomia dos estabelecimentos, a livre escolha dos pais e a eficácia, crescente desigualdade que ela engendra nas condições concretas do
esquecem que essa eficácia, na medida em que é procurada em um ensino, exprime e reforça, ao mesmo tempo, uma lógica social que
nível global e não somente para determinadas categorias de alunos, é separa os ganhadores e os perdedores, que obriga a jogar e a escolher,
inseparável da equalização das condições de ensino. Ora, o simples que organiza a dinâmica de distanciamento dos grupos, uns com

fato de colocar os bons alunos e os maus em estabelecimentos relação aos outros. Esse universo de concorrência tem o efeito
separados, melhora os resultados dos melhores, posto que o contexto objetivo de favorecer ainda mais os que já são dotados de melhores

de aprendizagem é, em si mesmo, melhor pela composição social do atributos econômicos, sociais e culturais, que lhes permitem escolher
público, tem também a chance de arrastar os outros em uma espiral
declinante, o que só pode resultar em uma ineficácia global. Em suma,
o "laisser faire, laisser passer" faz com que, cada vez mais, a qualidade 52. CERI, op.cit., p. 14.
53. Segundo três relatórios encomendados pelo ministro do Interior BritJnico, a segregação na Inglaterra
atingiu um ponto extremo. Segundo Le Monde, que fez eco "suas conclusões ressoam como uma constatação
de fracasso do integração racial e cultural entre as comunidades branca, sul-asiáticas, das Antilhas ou
50. Robert BALLlON, La Bonne École, op. cit., p. 240. africana que vivem lado a lado nas cidades mas, raramente, juntas", Jean-Pierre LANGELLlER, "Le
51. CERI, op.cit., p. 90. racism et la ségrégation s' étendent dons plusieurs villes britanniques", Le Monde, 12 de dezembro de 2001 .

182 183
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

e se fazerem escolher pelos estabelecimentos prestigiosos e, portanto,


de funcionar, na época do individualismo triunfante e da massificação
escolar, como um sistema de diferenciação e de exclusão legítima, ou
seja, como um mecanismo suplementar de reprodução de classes
particularmente temível 54 .
O problema geral do sistema escolar, ao qual o neoliberalismo
responde por uma lógica de mercado, é duplo: como assegurar a
elevação do nível de saber para o conjunto dos futuros assalariados,
reproduzindo as diferenças e as desigualdades de posições profissionais
e sociais? Mantendo, no momento, os "excluídos do interior" mais
tempo no sistema escolar, trata-se de permitir aos melhores
candidatos fortuna e poder de usufruir das melhores condições
escolares. Os efeitos segregacionistas, a constituição de guetos
PARTE I I I
escolares reservados às crianças pobres e estrangeiros, a deterioração
das condições de ensino que se observa, correspondem a uma maneira Poder e gerenciamento
renovada, reforçada, indireta, mobilizando todos os recursos
na escola neoliheral
familiares de reproduzir as desigualdades sociais55 .

54. Stephen BALL, artigo citado, p. 13-17.

184
CAPÍTULO 9

A ~~ modernização" da escola

o neoliberalismo não se confessa francamente, onde ele se


disfarça, geralmente, sob eufemismos, onde ele pede emprestados suas
formas e seu léxico a outros domínios ou a outras correntes de
pensamento. Tanto quando que se examinam os discursos do Banco
Mundial, da Comissão Européia, da OCDE, é muito fácil de cercar a
vulgata, tanto quando se considera a ideologia educativa, é mais
difícil recompor as lógicas que a norteiam. Certamente, o discurso dos
responsáveis não questiona francamente as grandes linhas da reforma
mundial da educação, preconizada pelos organismos. Ele importou daí
o vocabulário e não fez mais do que acrescentar alguns bemóis para
uso interno. Se limitar a essa constatação seria, no entanto, evitar o
trabalho necessário de análise dos subterfúgios, dos álibis e das
autojustificativas cuja eficácia ideológica se revela temível. Seria,
igualmente, ignorar as formas específicas que essa reforma mundial da
educação toma, quando ela se aplica à situação nacional. Em outros
termos, a versão francesa da reforma é elástica, retorcida,
incompreensível, construída a partir de evidências indiscutíveis:
quem seria contra a "eficácia", a "avaliação", a "inovação", e,
sobretudo, quem ousaria se dizer contra a "modernização"? Com suas
grandes palavras e seus grandes temas decalcados no universo da

187
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

empresa, é sempre o liberalismo que orienta a mutação da escola, simples questão técnica, conduz a uma autocegueira. "Modernização",
mesmo se se está longe da brutal franqueza de um Silvio Berlusconi e "eficácia", "avaliação", "tecnologias novas", todos esses temas são, em
de seu programa para a escola resumido pelos três Is: "Inglese, realidade, estreitamente dependentes das pressões que se exercem
Internet, Impresa" (Inglês, Internet, Empresa). sobre o sistema educativo e constituem manchas que lhe são
A imitação do mundo da empresa privada tem por justificativa atribuídas pela lógica do novo curso das sociedades. Em uma palavra,
a pesquisa da eficácia. Esse tema da "escola eficaz" deve ser seu significado e seu emprego são amplamente determinados pelas
relacionado à redução ou, pelo menos, ao controle dos custos forças dominantes que, hoje em dia, fazem as sociedades se moverem.
educativos, tornados prioritários com o questionamento da A escola na França, contrariamente à pretensão de sua "exceção", é
intervenção do Estado: "fazer mais com menos", esta é a linha. A intimada, como as outras, a se integrar na grande competição global
massificação escolar, segundo essa abordagem, invocaria técnicas de das economias. A "reforma" não é somente moderna, ela tem como
gestão que tivessem sido testadas no setor privado. Uma análise geral significado principal, como razão final, a concorrência mundial dos
partilhada pelos responsáveis dos sistemas educativos nos países capitalismos. Sua manifestação é a presença e a força ampliada dos
europeus quer, assim, que depois de ter assegurado um aumento do experts, dos administradores, e dos "calculadores" que tendem a
número de alunos e um prolongamento da duração média das monopolizar a palavra legítima sobre a educação.
escolaridades, se tenha chegado a um limite a partir do qual é preciso Por trás das mudanças que se quereria que fossem somente
antes procurar uma performance qualitativa mais importante. Os técnicas, a "modernização" anuncia uma mutação da escola que toca
conhecimentos devem ser melhor adquiridos, os fracassos escolares, não somente sua organização mas seus valores e seus fins. No
fontes de exclusão e de "sobrecustos intoleráveis", menos numerosos, momento em que a imprensa, a sociologia e o mercado editorial
a formação, adaptada ao mundo econômico moderno. Se não se pode proclamavam o "fim da escola republicana", a "morte de Jules Ferry",
mais aumentar os recursos por causa da redução desejada das despesas o "declínio do modelo escolar francês", o "fim das utopias escolares",
públicas e das retiradas obrigatórias, o esforço prioritário deve incidir se operou uma redefinição oficial tanto dos fins e dos meios da escola
sobre a gestão mais racional dos sistemas escolares graças a uma série como das identidades profissionais dos professores. Para além das
de dispositivos complementares: a definição de objetivos claros, a evidências e dos lugares comuns ("a escola deve se mexer em um
coleta de informações, a comparação internacional dos dados, as mundo em movimento), é necessário, então, se interrogar com rigor
avaliações e o controle das mudanças. Em suma, pela importação da sobre o sentido de uma tal injunção.
abordagem do gerenciamento, se deveria passar, como na indústria,
das técnicas de produção de massa a formas de organização
fundamentadas no "caminho da qualidade".
o sentido da modernização
Entre todos os temas discutíveis que dizem e escondem, ao
Os sofismas que estruturam a argumentação modernizadora
mesmo tempo, a mutação da escola francesa, o da "modernização" faz
têm por princípio uma abstração: os objetivos perseguidos seriam
independentes das forças sociais, econômicas e ideológicas que fazem papel de lugar comum supremo. É mesmo, sem dúvida, a primeira e a

o ambiente da escola. Mediante isso, essa tendência irrepreensível à última palavra da argumentação reformadora. Essa noção de

abstração dos discursos reformadores dominantes, que se encontra em "modernização", vaga mas acolhedora, constitui o fio diretor de uma

toda tecnocracia cuja característica é de reduzir todo problema a uma retórica de combate, diante da qual o espírito crítico parece,

188 189
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

freqüentemente, capitular l . Quaisquer que sejam a natureza e o teor de racionalização contínuo desde as origens da escola no Ocidente:
de uma "reforma" ou de uma "inovação", é suficiente dizer que ela conteúdos disciplinares e intelectuais, formas de transmissão e de
traduz uma "modernização" da escola para que, no espírito de muitos, controle, organização de divisões e de níveis, materiais e locais, foram
ela seja sinônimo de progresso, de democracia, de adaptação à vida todos' transformados no sentido de uma normalização e de uma
contemporânea, etc. De sorte que aqueles que, por uma razão ou outra padronização que permitiram o desdobramento da ação educativa sob
se oponham, se expõem a uma estigmatização brutal por parte dos a forma de uma "burocracia mecânica 3". Essa forma organizacional
modernizadores. E não é muito difícil mobilizar a opinião, os pais, os centralizada e composta de células de base idênticas, constituiu um
"jovens", enfim todos aqueles que pensam que é preciso ser meio muito eficaz de expansão e de racionalização da educação até o
"absolutamente moderno" para estar do lado do progresso e da momento onde pareceu que ela não permitiria mais resgatar ganhos
democracia e apoiar, assim, as transformações cujo balanço, é preciso de produtividade suficientes, que se tomava, inclusive, um obstáculo
dizer, nunca é analisado mesmo pelos adeptos da ideologia da à persecução da racionalização pedagógica.
avaliação. A forma burocrática de organização escolar nacional também
O termo "modernização" não é tão neutro quanto os engendrou seus efeitos negativos: uniformidade, restrições
partidários da reforma queriam fazer acreditar. Lembremos primeiro exageradamente minuciosas, mentalidade de caserna, mesquinharia
para registro que, no vocabulário das ciências sociais conquistadoras dos "pequenos chefes" (chefinhos) e das "secretarias", medo das ondas
dos anos 1960, "modernizar" significava converter as sociedades ou e das novidades e talvez, sobretudo, esforço constante para controlar
setores da sociedade ainda tradicionais à modernidade rompendo os politicamente os espíritos, levando-os por exemplo, ao respeito pelas
costumes, eliminando maneiras de ser e de fazer que repugnavam a "autoridades constituídas", e até mesmo à adesão aos "valores
primazia da eficácia e da racionalidade. Mas, o verbo "modernizar" nacionais". O estilo antigo da escola alimentou uma crítica legítima,
significa, igualmente, em um sentido mais restrito, procurar um mesmo uma "contestação" de massa, que não se poderia negar hoje
aumento de eficácia nas organizações e nas instituições para colocá- em dia. Mas, a burocratização escolar deixou nichos, o que em
los no nível de produtividade - supondo que o termo tenha um linguagem de gestão se chamaria de "caixas negras" escapando à
sentido universal- das empresas privadas mais performantes 2• vigilância, à padronização e à formalização. As lições, as aulas, os
Na realidade, em todos os domínios da sociedade, o que Max cursos, as disciplinas, os relatórios pedagógicos concretos
Weber chamava o "espírito do capitalismo" ganhou terreno: a ação permaneceram, pelo menos em parte, exteriores à empresa
pedagógica é uma boa ilustração. A educação é objeto de um processo administradora. Nesses nichos, geralmente para o melhor da relação
humana mas, às vezes, para o pior, uma certa liberdade e uma certa
diversidade se mantiveram, tanto nos conteúdos ensinados quanto
nos modos de fazer.
1. Cf. Jean Piem LE GOFF, La Barbarie douce, la modemisation aveugle des entreprises et de l'école, La
Découverte, Paris, 1999. Ora, o que está em jogo, especialmente na reorganização
2. "Esquece-se facilmente, que o mundo moderno sob uma outra face é o mundo burguês, o mundo
capitalista. É mesmo um espetáculo divertido ver como nossos socialistas anticnstãos, particulannente, gerencial da escola, não é tanto o desaparecimento da burocracia,
anticatólicos, despreocupados com a contradição, incensam o mesmo mundo sob o nome de moderno e o
difamam, ao mesmo tempo sob o nome de burguês e de capitalista." Charles PEGUY, De la situation faite
au parti intellectuel dons le monde modeme devant les accidents de la gloire temporelle (1907), <Euvres en
prose completes, 11, "Bibliotheque de la Pleiade" , Gallimard, Paris, 1988, p. 699-700. 3. Henri M1NTZBERG, Structure et dynamique des organizations, Éditions d'Organization, Paris, 1982.

19 O 191
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

como é muitas vezes afirmado, quanto uma nova etapa no controle do bem comunicar) rechaça, no mesmo passo, a "legitimidade
poder de gestão, o qual deve penetrar mais na definição dos conteúdos substancial" que fazia até então o sentido da escola, sentido que era
e, até, no coração das relações pedagógicas. Os discursos atuais sobre geralmente incorporado na pessoa dos professores sob a forma de uma
a necessidade de uma "cultura da avaliação" na escola ou a aplicação ética profissional e que englobava ao mesmo tempo os gestos do ofício
do cálculo econômico ou de problemáticas contábeis na esfera e os valores que eles pretendiam partilhar8. Esse capital simbólico
educativa, o testemunham. A eficácia administrativa é erigida como composto de referências e de valores para partes comuns, partes
norma suprema até o ponto em que a ação pedagógica propriamente antagônicas (a coesão social, a cidadania republicana, o progresso
dita é considerada como passível de avaliação como uma produção de humano, a emancipação do povo, etc.) desaparece do discurso oficial
"valor agregad0 4". Um verdadeiro culto da eficácia e da performance da instituição ou, mais exatamente, não é mais do que uma fachada
se instaura, o qual dá lugar à marcação e à calibragem das "boas que "salva as aparências", especialmente necessária nos momentos
práticas" inovadoras que deverão ser transferidas e estendidas a todas onde aquela que se chama pudicamente, a "perda de referências",
as unidades de ensinoS. Tudo é visto no novo discurso de provoca pânico entre os próprios "modernizadores". Essa destituição
modernização sob o ângulo da técnica. As dimensões políticas que dos valores faz desse mesmo capital ético um simples recurso privado,
impliquem em conflitos de interesse, de valores e de ideais são um tipo de opção particular que vale uma outra. Desse ponto de vista,
esvaziadas. A escola é intimada a ser "competitiva". Ela deve se a "modernização" é um sucedâneo de sentido. No plano das
adaptar ao desejo do usuário, segundo um procedimento de "serviço- referências simbólicas, o gerencialismo substitui, pouco a pouco, o
cliente6". humanismo como sistema de inteligibilidade e legitimidade da
A inovação em matéria de pedagogia é, cada vez mais, pensada atividade educativa, justificando, assim, o peso crescentemente dado
como um progresso linear de métodos propostos pelos "laboratórios" aos administradores, aos experts, aos estatísticos. Esse gerencialismo é
de pesquisadores e de experts, o que parece legitimar sua imposição um sistema de razões operacionais que pretende suportar o significado
uniforme e autoritária. De acordo com os mais altos dirigentes do da instituição, pelo único motivo de que tudo parece dever se
Ministério da Educação Nacional da França desde 20 anos atrás, o racionalizar segundo o cálculo das competências e a medida das
toyotismo e a "qualidade total" parecem ter se tornado as novas performances.
Tábuas da lei 7. Como salienta Use Demailly, esse desencanto da
escola que, por toda parte, utiliza como argumento uma "legitimidade A modernização do ensino americano
de procedimento" (bem gerir, bem organizar, bem medir, bem comer, A comparação com o caso americano é aqui ainda útil na
medida em que ele mostra, por um lado, que a "modernização" não é
um tema recente e que, por outro lado, esse imperativo é muito ligado
às exigências do mundo econômico e às ideologias que as suportam.
4. Cf. sobre esse tema Jean ANDR/EU, Les perspectives de'évolution des rapports de l'école et du monde
économique face à la nouvelle révolution industrielle, Consei! économique et social, J.0.,/4 de outubro de Quando Hannah Arendt, no seu famoso artigo "A crise da
1987.
5. Béatrice COMPAGNON e Anne THÉVEN/N, VÉcole française et la société française, Complexe,
Paris, 1995, p. 183.
6. Pierre BLANC, "Services privés, service public", Éducation et Managemem, n' 5, julho de 1990, p.
25. 8. Lise DEMAILLY, "Enjeux de l'évaluation et régulation des systemes scolaires", Évaluer les politiques
7. Alain MICHEL, 'Vers une stratégie du renouveau ", Éducation et management, n' 5, julho de 1990. éducatives, De Boeck Université, 2001 , p. 18.

I 92 193
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

educação"9, trazia um balanço particularmente sombrio da evolução principais da "tragédia americana no domínio da educação", segundo
da escola americana, ela dirigia um olhar retrospectivo sobre o a expressão de R. Callahan 10.
fracasso do ideal republicano de uma escola feita para todos, No início do século então, jornalistas e dirigentes denunciam
atribuindo a cada um igual oportunidade de sucesso. É necessário na grande imprensa popular, o desperdício dos fundos públicos, a má
seguir o diagnóstico de Hannah Arendt e ver na América ao mesmo gestão das instituições em geral e da escola em particular. O ataque
tempo o país mais moderno, aquele que mostra aos outros o caminho não se dirige somente aos aspectos financeiros e orçamentários, ele
na aplicação das crenças mais "avançadas", e aquele que, entre os concerne, igualmente, à pedagogia. Na escola há ainda mais
países desenvolvidos, reconheceu o mais manifesto fracasso da escola. desperdício na medida em que ela transmite um saber inútil,
Uma das explicações relaciona-se com a aplicação sistemática e puramente livresco ("mere booklearning", "mere scolastic

mecânica na escola americana dos valores e dos modos de pensar education"l1), sem ligação com a vida prática, incapaz de fornecer a
mão-de-obra da qual a economia tem necessidade. R. Callahan
próprios à esfera econômica e industrial. Dito de outra maneira, desde
mostra bem que a exigência de gerenciar a escola como uma empresa
o início do século 20, quer dizer, bem antes das "inovações" dos
forma um todo com a reivindicação de um "currículo" mais prático,
reformadores da escola atual, a idéia de que uma escola devia ser
mais profissional, em uma palavra, mais útil. A idéia de que a
gerenciada como uma "empresa educativa" se tornou corrente nos
massificação da escola e a integração de um grande número de jovens
Estados Unidos.
provenientes de imigração recente, exigindo uma modificação radical
Na mesma ocasião dos grandes fundadores republicanos, os
da cultura escolar, se expande muito rápido a partir dos anos 1910. A
americanos procuraram instaurar no século 19 uma educação
vulgaridade ambiente, eco longínquo do utilitarismo de Benjamin
universal. Ela se impunha com mais intensidade, uma vez que
Franklin ("Time is Money"), vê o ensino do latim e do grego como
correspondia à necessidade de americanização dos imigrantes e que
simples vestígio aristocrático que não é de nenhuma utilidade para as
respondia, igualmente, às inquietações meritórias de promoção social
atividades profissionais dos americanos. Os homens de negócios
que impregnam tão fortemente as representações populares nos solicitam que seja dada aos alunos uma formação em contabilidade,
Estados Unidos. Mas esse esforço para generalizar e estender o acesso em direito comercial, em técnicas de venda, em lugar de uma cultura
à cultura foi, em grande parte combatido, e seus fins modificados em geral que eles vêem como "inútil" para 70% dos jovens 12 . As
decorrência do peso importante dos meios de negoclOs, competências práticas e sociais (skills) são vangloriadas como de
particularmente poderosos depois da fase do "capitalismo selvagem" maior utilidade que os conhecimentos livrescos, com prejuízo de
do fim do século 19. A escola americana sofreu desde os anos 1890 muitos professores e intelectuais. Esse anti intelectualismo com
uma tal pressão tanto por parte dos meios patronais, quanto por parte pretensão "democrática" reencontra um argumento mais
de uma porção da opinião pública, que ela teve que adotar os especificamente liberal quanto à necessidade de reduzir as despesas do
"padrões" da indústria em vista de sua adaptação às necessidades
econômicas. Essa forma de capitulação constituiu uma das causas 10. Raymond CALLAHAN, Educarion and the cult of Efficiency, The University of Chicago Press,
Chicago e Landon, 1964. Mais recentemente, }eremmy R1FKIN relembrou a importância do princiPio de
eficácia na sociedade americana em geral e no mundo escolar em particular, desde o século passado (La Fin
du travail, La Découverte, Paris, 1997, p. 80 et sq).
9. Texto de 1958. Traduzido para o francês e publicado in La crise de la culture, Gallimard, Coll. "Folio ", 11. Ibid., p. 8.
Paris, 1989, p. 223. 12. Ibid., p. 10.

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A "modernização" da escola
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

Estado e os custos da educação, para não prejudicar o então como "experts em eficiência" fornecem novos modelos de
desenvolvimento industrial. Enfim, o tema recorrente da competição organização, propõem técnicas de "gerenciamento das classes",
econômica - nessa época com a Alemanha - vem sustentar a buscam impor métodos de medida e de avaliação inspirados na
reivindicação de uma escola mais eficaz. O conjunto das medidas indústria. Esses princípios e essas receitas são amplamente difundidos
tomadas vai desembocar tanto em um profundo questionamento dos para todas as profissões por uma imprensa especializada e pelos cursos
objetivos próprios da escola, sobre uma desvalorização da cultura de formação de professores, dados por grandes figuras do movimento
clássica e da formação cultural geral, quanto em uma transformação de racionalização educativa.
da concepção do ofício de professor. A eficácia é, primordialmente, o reino da medida e da
Existem, sem dúvida, nessa evolução, aspectos especificamente quantificação. Um reformador, Frank Spaulding, se notabilizou,
americanos, tal como a grande vulnerabilidade dos professores e dos particularmente, por um plano de renovação que permitia traduzir
administradores da escola colocados sob o estreito controle dos boards todos os aspectos do ensino pelo custo monetário. Como diz R.
- quer dizer, dos conselhos locais representando a fração remediada da Callahan, "o dólar se toma então o principal critério educativo 14 ".
"comunidade" - e, assim, obrigados a adotar estratégias defensivas Essa equivalência bem típica de uma economia mercantil
para assegurar sua posição profissional. Uma dessas estratégias desenvolvida se traduz pela tentação de uma medida geral de eficácia
consistiu justamente em imitar as normas e os modos de pensar do educativa, já concebida a essa época como a relação de um "produto
mundo industrial, a fim de provar que a escola podia sustentar a acabado" com uma "matéria-prima". De onde vem a mania do teste,
comparação com a empresa e que os professores e administradores a prática da avaliação quantificada e padronizada dos resultados
podiam se parecer com "homens de organização", diretores e gerentes. escolares e sua comparação com o investimento escolar, para medir o
Esse discurso utilitarista sobre a "escola eficaz" se traduz desde os anos "rendimento"? Como salientava na época um dos grandes partidários
1910 por um conjunto de novas práticas institucionais. Os do taylorismo aplicado à vida social, em geral, e à educação, em
"superintendentes" não hesitaram em identificar o estabelecimento particular, William Allen, "alguns reacionários afirmam que não se
que eles dirigiam com uma fábrica e querer aplicar a ele os princípios pode medir a eficácia, mas a maior parte de nós sabe que há tantas
taylorianos cujo sucesso era vangloriado pela imprensa. A referência coisas que podemos medir que não se deve se inquietar
ao gerenciamento científico facilitou a constituição de uma elite verdadeiramente, com o pequeno número de coisas que não se pode
profiSSional de administradores e de universitários muito unidos em medir15". R. Callahan insiste na crença segundo a qual "não existia
tomo de novos ideais e formando uma rede a partir de alguns centros nenhum limite aos benefícios que se podiam obter graças à adoção de
de formação universitária, como o famoso Teachers College da padrões. Os professores saberiam, instantaneamente, quando os
Universidade de Colúmbia em Nova Iorque ou como os estudantes se enganavam. Os diretores saberiam quando os professores
departamentos de pedagogia e de administração escolar em Harvard, fossem eficazes e poderiam, assim, determinar a situação de seu
Stanford e Chicago que constituirão modelos para todos os Estados estabelecimento em comparação com os dos outros, não de uma
Unidos e o Canadá. 13 Numerosos personagens que se apresentam maneira geral e vaga mas precisamente e absolutamente 16".

14. Roy CALLAHAN, op. cit., p. 68.


13. Cf. MaUe MONTAGUTELLI, Histoire de l'enseignement aux États-Unis, BeUn, Paris, 2000, p. 15. Citado por R. CALLAHAN, op. cit., p. 63.
151 et sq. 16. Ibid. p. 82.

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A "modernização" da escola
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

Os americanos saíram muito na frente no uso em grande escala uma nova profissão especializada, a dos "administradores escolares"
dessa quantificação escolar como atesta o sucesso notável dos formados nas técnicas da "efficiency" em institutos especiais e
trabalhos de Alfred Binet nos Estados Unidos. Edward Thomdike, convertidos aos ideais industriais. A literatura consagrada à gestão do
desde 1918, se tomou o campeão das medidas dos "produtos ensino que se desenvolveu nos anos 1920 bem como a formação
educacionais" tendo por palavra de ordem "Tudo o que existe, existe especial que eles receberam, isolaram os detentores dessa função
em uma certa quantidade I 7". Levando em conta a escala de Binet- administrativa da cultura e dos valores dos professores. Isso permitiu
Simon, os psicólogos americanos desenvolvem amplamente testes de reforçar sua posição profissional perante o exterior da instituição e se
inteligência e competência nas matérias escolares (aritmética, impor, no interior, como "verdadeiros chefes". Afastados do conteúdo
redação, leitura, expressão oral, etc.). Em 1918, certos estudos já cultural dos estudos, não obedecendo aos cânones da lógica
tinham recenseado mais de uma centena de testes diferentes administrativa, muito sensíveis às pressões dos meios econômicos, eles
utilizados nas escolas americanas. Um autor da época fala de uma se definiram socialmente como peritos especialistas do ensino ao
verdadeira "orgia de tabulação" para descrever esse entusiasmo que mesmo tempo em que cortavam as dimensões estéticas, morais ou
acompanha a avaliação das aquisições, ao lado da qual os atuais científicas dos estudos.
esforços na França parecem ainda tímidos. Graças a essa conversão profissional, a lógica de gestão se
Esse ideal da medida exaustiva e perfeita supõe uma aceitação impôs em detrimento dos objetivos de formação intelectual geral e
e uma cooperação por parte dos "agentes de execução". Se os dos significados culturais e políticos da escola. Mesmo se essa
reformadores americanos do início do século pretendiam desenvolver ideologia da burocracia escolar e os valores do business foram em
tipos de auditoria feitos pelos boards locais, eles estavam igualmente parte questionados no momento da Grande Depressão, um momento
conscientes que uma grande parte do trabalho de medida devia ser onde o capitalismo não podia se vangloriar tão acintosamente de sua
realizada pelo próprio pessoal da área da educação. Ora, a resistência eficácia social, o mal já estava feito, em parte. As posições de poder
desses à taylorização burocrática não foi negligenciável. Diante da nas escolas e sobretudo nos institutos de formação de professores já
recusa de muitos professores em serem engolidos no conjunto dos estavam ocupadas - e elas ficarão por muito tempo - pelos "experts"
"trabalhadores em cadeia", os modemizadores tentaram quebrar a convertidos ao espírito gerencial.
oposição de todos que se estigmatizavam como "intelectuais", Essa taylorização culminou com uma profunda modificação do
"individualistas", "retrógrados" e "antidemocratas", transformando ofício de professor. A "profisSionalização do ensino" que consistiu,
profundamente a formação e a seleção dos professores na base de sobretudo, na prescrição de bons métodos e no aprendizado dos
critérios profissionais padronizadosl 8• processos de controle da "qualidade dos produtos", conduziu a uma
divisão vertical do trabalho em conformidade com o esquema
Os efeitos da racionalização tayloriana tayloriano, o qual oP9s o pólo dos peritos em ciência da educação,
A aplicação nos Estados Unidos desses princípios de detentores dos bons métodos de padronização do ato educativo e de
gerenciamento científico teve principalmente como efeito produzir sua medida e o pólo dos simples executores encarregados de aplicar as
inovações e de aplicar os procedimentos normalizados do ensino. A
17. Lawrence A.CREMIN, The Transformation of the School, Progressivism in American School, Vintage medida padronizada das performances, colocada à disposição dos
Books, New York, 1964, p. 185.
18. R. CALLAHAN,op. cit., p. 86.
conselhos de administração, permitia, igualmente, um controle mais

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

estreito dos professores. Esforços de organização das classes e dos escola pela "satisfação das necessidades da sociedade, a educação do
cursos, dos ritmos e ocupações dos locais se multiplicaram a fim de caráter dos indivíduos, a disponibilidade de conhecimento da teoria e
baixar os custos, com, muitas vezes, efeitos pedagógicos desastrosos. A da prática educativa". Os Princípios Gerais distinguem as finalidades
pesquisa de economias de escala levou a construir escolas maiores, a da escola segundo as grandes atividades e funções da vida social e
aumentar o tamanho das classes, a eliminar por preocupação com a pessoal de acordo com um procedimento já presente em Herbert
rentabilidade os pequenos grupos e as disciplinas julgadas inúteis. O Spencer no meio do século 19. Encontra-se aí, na ordem: a saúde, o
ofício do professor americano se complicou e se burocratizou. Sua domínio dos processos fundamentais, a contribuição à vida doméstica,
carga de trabalho ficou mais pesada pelo aumento do tamanho das a profissão, a cidadania, a utilização dos lazeres, o caráter moral20.
classes. A transmissão de conhecimento foi parasitada pela aplicação Essa tendência utilitarista culminará com a doutrina da "Life-
sistemática de testes, pela manutenção de um painel de controle e Adjustment Theory" que dominou a modernização à americana em
pela atualização das estatísticas. O professor americano, daí em diante seguida à Segunda Guerra Mundial. Essa teoria define uma educação
definido como um "técnico do ensino", foi, cada vez menos, visto que visa à adaptação mecânica à vida social tal qual ela é. Todos os
como um trabalhador intelectual encarregado da transmissão dos temas da escola moderna, todas as palavras de ordem que se acreditou
conhecimentos. O esforço em favor da redução dos custos encontrou por longo tempo progressistas (a "criança no centro", as "necessidades
uma pressão pretensamente "democrática" em favor de uma outra da criança", "ensinar as crianças não as disciplinas", "reconhecer as
redução, a dos conteúdos ensinados e das exigências culturais. diferenças individuais", a "pedagogia do interesse", "adaptar a escola
Tudo se passou como se a educação de massa que os Estados à criança"), se tomaram os princípios fundamentais e oficiais da
Unidos tinham implantado, fosse devedora da mesma lógica que a educação americana 21 • Essa concepção de uma parte da esquerda
aplicada à produção de massa das fábricas da Ford em Detroit. No intelectual, política e social, promovida com um certo entusiasmo na
momento onde as cadeias de produção não tinham mais nada a ver América como o modelo escolar correspondente aos ideais da nação,
com a fabricação de carros de luxo, o sistema escolar não podia mais conduziu, no entanto, a uma escola cuja "eficácia" foi objeto de
e não devia mais transmitir o mesmo tipo de cultura no mesmo quadro debates tanto numerosos quanto virulentos desde 3 ou 4 decênios
e segundo as mesmos formas de antes. Desde o fim do século 19, atrás. Fracas esperas cognitivas e desigualdades muito fortes entre
numerosos esforços foram feitos para tomar os programas mais leves e alunos e entre estabelecimentos, reforçadas pela prática da escolha
toda uma série de comissões oficiais se reuniram com essa finalidade. das matérias e deterioração do clima em numerosas escolas e classes,
Uma das mais famosas, a Comission on the Reorganization of levou a uma degradação da escola pública e a uma valorização paralela
Secondary Education, formulou os "Princípios Gerais da Educação das escolas privadas mais orientadas para os ensinos acadêmicos. O
Secundária" em 1918, que são, claramente, de inspiração progressismo reformador do início se transformou em uma teoria
utilitarista 19 . Esses princípios visam determinar as finalidades da adaptativa, plenamente conservadora no plano social.

19. Diane RAVITCH, The troubled Crusade, American Education, 1945-1980, Basic Books, Inc.
Publishers, New York, 1983. Esses Princípios Gerais da Educação Secundária, correspondem à tendências 20. Como diz muito justamente D. Ravitch, a referência à formalização intelectual tende a desaparecer,
reencontradas em certas correntes pedagógicas com pretensão "progressista". Trata-se de se adaptar aos inundadas nas "tarefas sociais". D. RAVITCH, op. cit., p. 48.
alunos, de partir de suas necessidades para ajuda-los a "se integrar" e a se "socializar". 2I. L. CREMIN, op. cit., p. 328-329.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

Apesar dos efeitos negativos da imposição das categorias e dos progressivamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com
"business values" na educação americana, a ideologia gerencial acelerações nos anos 1960, como atestam, então, o sucesso social de
continuou, por vias diversas, a se estender para se impor à maioria dos revistas modernistas como L'Express ou a importância do tema,
países. Os organismos internacionais, meios e vetores desse discurso famoso em seu tempo, do Desafio Americano de Jean-Jacques Servan-
de modernização tiveram, nesse domínio, um papel mais importante Schreiber24 . O apelo para imitar o setor privado, já muito intenso à
desde os anos 1960 e 1970. A ironia da história atém-se ao fato de que direita, ao menos desde os anos 1970, só foi verdadeiramente
são os representantes dos Estados Unidos na OCDE que iniciaram, em compreendido com a "reabilitação da empresa" empreendida pela
escala mundial, esse movimento de "modernização do ensino", para esquerda no meio dos anos 1980. É a partir desse momento que são
responder a sua própria crise do ensino. 22 O desenvolvimento do introduzidos os ideais da gestão eficaz, o modelo do "gerente" e as
mesmo tipo de preocupações gerenciais em Québec no Canadá, em promessas das novas tecnologias informáticas (plano "Informática
particular onde a formação, no estilo das escolas antigas, teve para todos"). A esquerda francesa, muito tempo detentora de uma
igualmente uma influência sobre as concepções européias, na França, espécie de monopólio do discurso legítimo sobre a escola, contribuiu
na Bélgica ou na Suíça, notadamente. Para além da filiação direta ou amplamente para essa conversão da instituição escolar aos valores da
indireta, o exemplo americano permite colocar em dúvida uma empresa, sobre a base de pressupostos cuja validade está, ainda, longe
representação linear dos progressos da racionalização burocrática em de ser confirmada hoje em dia: a extinção do taylorismo e a
educação. Ele indica também que querer imitar o setor industrial e se emergência de um poder de natureza "mais humana" nas organizações
inspirar na empresa sob a pressão dos imperativos de custos não afeta produtivas. 25 Os velhos fundos são-simonianos do socialismo se
somente a utilização dos meios, ela concerne também às finalidades amalgamaram, assim, ao discurso neoliberal. O espírito de empresa e
da educação. a lógica de gestão tomaram-se, então, o "coração" da nova doutrina
da esquerda governamental. Como afirmava Laurent Fabius: "Setor
A fascinação da administração público ou setor privado: o espírito de empresa é indivisível. [... ] uma
escolar pela empresa das maiores mudanças das mentalidades no curso dessa legislatura é o
Com atraso sobre os Estados Unidos, a administração francesa, declínio dos prejulgados sobre a empresa e das falsas oposições entre
confrontada ela também com críticas e pressões do mundo setor público e setor privado. É um grande passo. É preciso, doravante,
econômico, buscou assimilar os modos de gerenciamento do setor vir a adotar esse mesmo espírito empreendedor na solução dos
privado e definiu uma via de "reforma da escola" que tem como problemas industriais que nos separam, ainda, de uma estrutura
referência a empresa e cujo princípio consiste na analogia sistemática industrial completamente moderna 26 ". Os problemas escolares
com o mundo econômico, sua organização, seus modos de avaliação, deviam, então, poder se regular pelo recurso ao espírito de empresa.
sua produtividade 23 . A difusão da ideologia empresarial se fez

24. Jean-Jacques SERVAN-SCHRElBER, Le Défi Américain, Denod, Paris, 1967.


22. Cf. Pierre LADERRIERE, "Les objectifs et /es méthodes de I' OCDE", Nouveaux Regards, nº 14, 25. Para a permanência do taylorismo sob a forma da "disciplina de fluxo", cf. Guillaume DUVAL,
verão de 2001 . I.:Entreprise e!ficace à I'heure de Swatch et McDonald's, La seconde vie du taylorisme, Syros, 1998.
23. Cf. Pierre LADERRIERE, L'enseignement : une réforme impossible ? Analyse comparée, 26. Le Creur du futur, em 1985, citado por Jean-Pierre LE GOFF, Le mythe de I'entreprise, La
L'Harmattan, Paris, 1999, p.275. Découverte, Paris, 1992.

2 O2 203
A "modemização" da escola
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

Essa interiorização da imagem da empresa eficaz e em expansão Thelema, alto lugar de desabrochamento integral, de felicidade
se fez de várias maneiras: por uma via interna, a partir de um certo completa, da vida tota12 8 . E, se esse lugar não fosse mais um local de
número de reflexões e de práticas renovadoras no seio da Educação "cultura", ele podia, sem inconveniente, servir de "paradigma" a todas
nacional, mas também pela importação direta de noções e de as instituições que, até lá, acreditavam ter uma função primordial
representações valorizadas que o gerenciamento privado, ia ele nesse domínio, e, em primeiro lugar, à escola.
mesmo buscar na literatura americana da época. Foi assim que o Essa veneração retórica não é de pequeno porte na França, país
"método do projeto" foi supostamente aplicável à escola, para melhor no qual a escola parece garantia de sua identidade nacional e que foi,
servir os clientes no espírito da "qualidade total". Mais ainda, não era muito tempo, para a esquerda, o vetor de progresso social. Um
somente o "espírito de empresa" que devia penetrar na educação e propósito que se pode achar praticamente angélico, pronunciado em
constituir o motor da mudança, era a escola que se tomava uma 1984, testemunha a conversão subjetiva operada por alguns
empresa e, mesmo "a empresa do futuro", como indicava no fim dos administradores "modernos" dentre os quais alguns continuavam a se
anos 1980 a máxima oficial da Educação nacional. Muitos viram nisso proclamar da esquerda autogerencial: na ocasião de um colóquio da
apenas um dos múltiplos slogans dos renovadores, empregando Associação Francesa dos Administradores da Educação Nacional
técnicas de mobilização publicitária. No entanto, a substituição dos (AFAE), Madame Gentzbittel, uma diretora do ensino secundário
emblemas e dos slogans nunca é um negócio inocente. Essa mística que teve sua hora de glória na mídia se dirigindo à representante do
não tinha nada a ver com um conhecimento real da empresa, apesar CNPF, afirmava assim: "A empresa é uma escola e, inversamente, a
das suas pretensões ao "realismo". Era mais um discurso de escola é uma empresa. Nós estamos aqui, na maioria administradores:
encantamento, mesmo de evangelização, que pretendia mostrar aos nós podemos, em conseqüência, ter com os chefes de empresa uma
atores do sistema educativo que "as empresas conseguiram propor linguagem comum". E, mais adiante, essa diretora acrescentava: "Na
modelos de gestão e de organização eficazes" suscetíveis de reformar o marcha rumo à co-gestão, rumo à responsabilização da base na
sistema educativ0 27 . Além disso, essa empresa mítica era apresentada empresa, vocês podem introduzir sua linguagem inclusive no
como um lugar onde todas as dimensões do homem são, funcionamento de nossas escolas. Não esqueça que as escolas são
miraculosamente levadas em conta: paixões, afetos diversos e realmente empresas dentro da nação". Ao que a representante do
impulsos múltiplos, necessidades de amor e de reconhecimento, CNPF, Madame Vigneron, um pouco embaraçada por uma tal
valores morais pessoais, espírito de solidariedade, sentimentos capitulação intelectual, respondeu: "Acho sua linguagem fantástica e
humanitários, gostos estéticos, etc. Muitos esforços foram feitos, espero um dia ter uma platéia de chefes de empresa para fazê-la ouvir
então, para mostrar que a empresa não é mais um vulgar local profano (sic) sua linguagem. Faço, no entanto, uma pequena ressalva sobre a
onde se contentava em produzir bens e serviços, mas, sim, que ela era co-gestão, a qual mereceria desenvolvimentos muito longos (sic)29".
antes de tudo um local "cultural". Uma impressionante literatura É bem graças a essa "linguagem fantástica" que a empresa do terceiro
abordou esse tema usando e abusando de analogias pseudo-sábias
("cultura de empresa", etc.). A empresa se tornava, assim, uma nova
28. Seria possível referir aqui as análises de Luc BOLTANSKI e de Eve CHIAPELLO, Le novel Esprit du
capitalisme, Gallimard, Paris, 1999. ,
27. François PERIGOT, Éducation et Économie, dezembro de 1990, p. 6. 29. V Colóquio AFAE, 27-29 de janeiro de 1984, in Administration et Education, no 23, agosto de 1984.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

tipo se tomou o paradigma central dos discursos escolares, um modelo "democratização", é constantemente colocada na frente. A eficácia se
a imitar sem discutir30 . constituiu como valor último suplantando o ideal, doravante
Essa imitação retórica e essa interiorização subjetiva desclassificado, da emancipação pelo saber. Longe de ser uma
terminaram por se impor a uma escala social mais ampla até o ponto referência nova e original, como foi visto, ela se instala quando a
em que as próprias forças que teriam podido e devido se opor, escola é colocada sob a pressão dos meios econômicos. Ela se tomou
entraram algumas vezes em uma lógica de sobrelanço (sobreoferta ou o mantra de uma vasta coalizão indo dos chefes de empresa às
lances sucessivos). Certos sindicatos convertidos ao modernismo federações de parentes dos alunos, passando por certos meios sindicais
participaram, assim, à sua maneira, dessa nova representação da e associativos "modernistas", sem falar de todos para quem a inovação
escola, pretendendo nela colocar algumas barreiras tão tímidas quanto se tomou um valor em si. Esse tema se distingue, entre todos, pelo que
verbais. Yannick Simbron, então dirigente da FEN, pedia por deve ser chamado sua "eficácia simbólica".
exemplo em 1991 em uma tribuna do jornal Le Monde uma melhora Como toda ação humana, a ação pedagógica visa um fim e
da "abertura da escola sobre o mundo da empresa" se felicitando que dispõe para atingi-lo de meios que devem ser selecionados e dispostos
a FEN tenha tido a esse respeito uma posição de ponta, nos anos 1970, com vistas a esse fim. Mas, o artista pintor, o médico, o agricultor, o
com a promoção das "seqüências educativas em empresa3!". Claude artesão ou o engenheiro têm, cada um, um modo de eficácia que tem
Allegre situou bem a questão quando, ratificando o fracasso ao mesmo suas particularidades. A concepção de eficácia que se impôs
tempo político e cultural do discurso de esquerda, tirou uma progressivamente na educação, como foi visto para o caso americano,
conclusão tanto sobre a luta de classes quanto sobre o ideal de uma considera que a eficácia é sempre mensurável, que ela pode ser
autonomia do ensino e da pesquisa em face da lógica do lucro. Em relacionada a dispositivos, a métodos e técnicas inteiramente
uma entrevista à L'Expansion o antigo ministro afirmava, com seu definidas, padronizadas e reprodutíveis em grande escala, com a
estilo muito pessoal: "Há seis anos ainda, os professores não queriam condição, todavia, de uma "formação", de uma "profissionalização",
ouvir falar de trabalho com as empresas. Não há mais nenhum de uma "avaliação" e de um controle dos agentes de execução, no caso
problema hoje em dia, o vidro foi quebrado.[... ] A modernização da os professores. Essa concepção supõe, igualmente, a construção de
linguagem dos sindicatos (Notat, mas também Viannet e Thibault) aparelhos de medida, de teste e de comparação dos resultados da
que falam da empresa não somente como lugar de luta social mas atividade pedagógica. Em outros termos, ela é inseparável de uma
como lugar de produção de riqueza, contribuiu para essa evoluçã032". burocratização da pedagogia.
A temática da avaliação da escola está inscrita na própria
o culto da eficácia lógica da educação de massa e de sua organização administrativa,
Quando se considera o discurso dos "modernizadores" desde o século 19. Os defensores do cálculo em educação não deixam
franceses, a temática da eficácia, assimilada geralmente à da nunca de lembrar que os professores consagram uma grande parte de
seu trabalho a fazer observações sobre seus alunos para justificar a

30. Nós fazemos aqui alusão ao título da obra de G. ARCHIER e H. SÉRIEYX (L'Entreprise du troisiéme
extensão dessa prática. A avaliação ganhou, com efeito, uma
type, Seuil, Paris, 1984), transformada raPidamente em Brblia da mitologia empresarial na França, entre importância considerável desde o início do século 20 com a expansão
outras, no mundo da administração.
31. "École-entreprise: nous sommes prêts à discuter », Le Monde, quinta-feira 6 de junho de 1991. dos testes em grande escala, como nos Estados Unidos. Os resultados
32. L'Expansion, no 608, 4-7 de novembro de 1999.
cifrados e fetichisados aparecem ao mesmo tempo como um critério

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

de qualidade das diferentes escolas e como a medida do nível cultural avaliação anuais em "bases científicas confiáveis", espalhadas pela
da população. O "testing" se tornou mesmo uma prática comercial imprensa. A DEP concebeu e realizou avaliações de massa em escala
muito lucrativa graças a um vasto mercado no qual intervêm grandes nacional, quer se tratassem de conjuntos de alunos, de níveis
empresas especializadas. Mais globalmente, se assistiu a uma vasta escolares, de políticas particulares como as das ZEP, ou de avaliação
atividade de institucionalização e de padronização de avaliação e viu- dos estabelecimentos33 .
se proliferar as empresas de benchmarking, quer dizer, de aferição, em Esse vasto movimento de avaliação e de comparação
nível mundial. A produção de normas de qualidade e de critérios de internacional é inseparável da subordinação crescente da escola aos
comparação, pelo caminho das categorias estatísticas, é objeto de um imperativos econômicos. Ela acompanha a "obrigação de resultados"
verdadeiro mercado, no qual intervêm múltiplos organismos conhecida por se impor tanto à escola como a toda organização
nacionais e internacionais tais como a IEA (International produtora de serviços. Nisso, ela participa das reformas "centradas na
Association for the Evaluation of Educational Achievement). A competitividade" visando a fixar e elevar os níveis escolares esperados
OCDE se inscreve no movimento com os indicadores internacionais e, para isso, a normalizar os métodos e os conteúdos do ensino. Esse
da educação (INES) e as grandes enquetes comparativas sobre as movimento em favor da avaliação padronizada é particularmente
competências dos alunos (PISA). Essa atividade é encorajada pela visível nos países mais tradicionalmente descentralizados. Todas as
Comissão Européia com a criação de uma rede de agências de universidades, todos os departamentos são considerados
avaliação dos quinze países membros da União. Tanto as "accountable", quer dizer, ao mesmo tempo responsáveis e contáveis
administrações nacionais quanto os organismos internacionais dentre das somas alocadas. Alguns dentre os peritos e os administradores
os quais a OCDE e o Banco Mundial, todos procuraram desenvolver vêem mesmo hoje em dia no "assesment" (avaliação), o momento-
ferramentas que permitissem medir o "rendimento dos investimentos chave da empresa educativa. Essa avaliação seria, ao mesmo tempo,
educativos", avaliação julgada necessária a seu crescimento e à caução de eficácia, de convergência das expectativas e dos resultados
eficácia econômica global. de democratização. Evidente para todos, a avaliação conduziria ao
Essa "cultura da avaliação" ostentada há vinte anos na Europa, consenso dos que oferecem e dos que demandam educação. Esse
se desenvolveu, igualmente, na França de modo significativo. No fim gerenciamento pelos resultados supõe que se concorde em considerar
dos anos 1980, o movimento conheceu uma aceleração com a criação os dispositivos de avaliação como técnicas neutras de controle do
da Direção de Avaliação e da Prospectiva (DEP) em 1987, seguida do cumprimento dos objetivos que são, em si mesmos, consenso. Os
colóquio organizado conjuntamente pela OCDE e o Ministério da controles e prescrições da administração tradicional, respeitosa das
Educação Nacional em 1988 em Poitiers. A inspeção geral, velha regras do direito público, seriam, em suma, substituídas por uma outra
instância criada em 1802 para controlar os professores, se consagrou, racionalidade formal guiada por princípios práticos de eficiência. A
cada vez mais, à avaliação do sistema educativo. Instrumentos "organização" poderia maximizar seus efeitos sem prescrever, em
pioneiros, tocando na medida da eficácia dos estabelecimentos, foram
introduzidos desde o meio dos anos 1990 (IPES, "Indicadores para a
Gestão dos Estabelecimentos do Secundário"), não sem efeitos
33. Cf. }ean-Louis DEROUET, "La constitution d'un espace d'interéssement entre recherche,
perversos, tal como a intensificação da concorrência dos administration et poli tique en France dans les trente dernieres années", in Yves DUTERQ (dir.). Comment
estabelecimentos no mercado escolar, pela publicação de listas de peut-on administres l'école ?, PUF, Paris, 2002, p. 38-39.

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A "modernização" da escola
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

detalhe, os meios e os procedimentos deixados para apreciação É hoje em dia uma lógica econômica que determina o modo
daqueles que operam no terreno. como se entende o sentido de eficácia. O discurso atual sobre a
Ter boas ferramentas seria, no fundo, o meio universal de "escola eficaz" insiste no único fato que parece contar: ela deve ser
remediar a crise de ensino, a qual seria, essencialmente, um problema gerida com ainda mais rigor porque coloca em jogo uma despesa
de subeficácia dos recursos empregados. Por uma melhor "gestão" da pública importante, que não deve ser desperdiçada sob pena de
ação educativa e dos estabelecimentos, seriam diminuídos os custos prejudicar outros domínios da ação pública34 . A pesquisa de eficácia
financeiros mas também os custos sociais do fracasso escolar. Em uma tal como é compreendida hoje em dia, de modo muito redutor visa
palavra, bem "avaliar" seria a condição de bem agir, segundo um aumentar os objetivos quantificados, levando em conta os meios raros
esquema de feedback. Além desses objetivos globais, a avaliação tal dos quais os agentes podiam dispor. A eficácia do ensino em questão
como foi introduzida na França, é um instrumento-chave na tende então a se confundir com o que os economistas chamam
reorganização da escola. eficiência, que consiste em maximizar resultados numéricos -
avaliados mais ou menos com precisão - utilizando, da melhor forma,
Os efeitos redutores da os meios financeiros limitados atribuídos pela autoridade pública ou
avaliação e da eficácia os "consumidores" da escola. De sorte que o horizonte dos fins de
Esse procedimento supõe saber o que é a "eficácia" no ensino, educação se obscurece, recoberto por objetivos geralmente cifrados
antes mesmo de se perguntar o que faz com que um professor seja por números de diplomas, taxas de sobrevida ou taxas de sucesso, eles
eficaz e se essa eficácia depende de técnicas e métodos reprodutíveis. mesmos relacionados com os investimentos engajados e as
Essa questão da natureza da eficácia depende, sobretudo, das necessidades de mão-de-obra da economia. O Banco Mundial se
finalidades que se persegue. Sem dúvida poder-se-ia concordar com o tomou um especialista nesse modo de cálculo para os investimentos
fato de que a escola é uma instituição encarregada, historicamente, da escolares nos países subdesenvolvidos. O que o conduziu, por
formação intelectual e da transmissão dos saberes formalizados e exemplo, a preconizar uma baixa nos salários dos professores africanos
legítimos e que sua "eficácia" deve ser avaliada nesse plano. O que para aumentar o número ou, para aumentar o número de alunos por
sabem os alunos? Mas que saberes reter? E os conhecimentos podem classe, em nome de cálculos que pretendem abarcar o conjunto dos
ser separados dos valores com os quais eles foram relacionados? custos/vantagens de uma tal decisão.
Embora a escola seja essa instituição especializada na transmissão dos É preciso, então, olhar de perto a argumentação dos
saberes, ela participa da educação "fato social total" que engaja todas "calculadores", especialistas da econometria educativa. Certos dentre
as dimensões humanas e que é o domínio, por excelência, do eles se queixam da exceção que reivindicaria o mundo educativo: "O
complexo. Ora, sabe-se que, muito freqüentemente, as críticas que são mundo educativo é aquele do inefável. Ele repudia a objetivização e,
feitas à escola de ser ineficaz querem, na realidade, dizer que ela não sobretudo, ele estima que no que conceme ao princípio que garante a
persegue as "boas finalidades", as quais variam: o emprego, a validade da comparação de duas medidas (todas coisas iguais, por
adaptação às empresas, a integração dos imigrantes ou a luta contra a outro lado) lhe é totalmente inaplicável, enquanto, paradoxalmente,
violência. A eficácia não tem a evidência que se crê. Ela é uma
construção social, fruto de opiniões pedagógicas, de ideologias, de 34, Cf. as propostas de Piem LADERRIERRE, "Gestion et production: abus de langage ou nouvelle
relações de força. réaUté?", Nouveaux Rçgards, n' 9, primavera de 2000, p, 35,

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

é um mundo no qual a avaliação e a objetivação são quotidianos se vê nessas propostas, somente os resultados mensuráveis, e em
através da notação e da orientação dos alunos 35 ". particular aqueles que estão na articulação da escola e do mercado de
Assim, na educação, "o desenvolvimento da avaliação trabalho, importam, verdadeiramente, para uma tal análise
moderna tem aparência de verdadeira revolução cultural"36. Com a "objetiva". Seria, por exemplo, o tempo que um aluno leva para
introdução de critérios de eficácia e produtividade, com os trabalhos atingir o nível de bac, ou os resultados no diploma ou no BEP em um
de análise econométrica das ações educativas, a quantificação das conjunto de alunos ou por estabelecimento, ou, ainda, os resultados
ações educativas "oferta de numerosas vantagens tanto no plano obtidos em testes idênticos aplicados a todos os alunos de um mesmo
instrumental (recurso a análises estatísticas permitindo a separação da nível. Esse movimento de quantificação, de acordo com o movimento
influência de cada um dos diferentes fatores) quanto no conceitual mais geral de racionalização própria ao espírito do capitalismo, é
(raciocínio à margem, arbitragem, otimização)37". Essa generalização apresentado às vezes como o máximo da modernidade, que
da análise custojbenefício supostamente reduz os preconceitos dos supostamente previne as desigualdades, os desperdícios, as
atores: ela deve mesmo permitir superar os conflitos de valores e de insuficiências profissionais. É necessário ver mais de perto o que ele
interesses posto que a medida e os cálculos são "objetivos". Essa na verdade é.
problemática "desencantada" da quantificação repousa na dupla Se é, certamente, útil dispor de dados quantitativos sobre os
crença na perfeita neutralidade da ciência e na sua capacidade de resultados dos estabelecimentos, das grades curriculares e finalmente,
escolher senão todas, pelo menos as dimensões mais importantes da do sistema educativo, o espírito autenticamente científico deveria
ação educativa. Que isso não se dê sem afetar o sentido, não entra nos levar a se interrogar sobre os limites dessas avaliações, sobre os usos
cálculos dos custos/benefícios. que deles se podem fazer e sobre as conseqüências práticas que se pode
Os autores gabam assim o procedimento: "Opondo-se a uma tirar, especialmente no plano pedagógico. Precisaria, por exemplo, se
seleção das ações a executar, baseado apenas nas opiniões dos atores, perguntar se, por esse tipo de procedimento não se tende a medir
os processos de justificativa das ações educativas se referem a somente o que é mais facilmente quantificável e assim, medir a
dimensões operacionais mensuráveis da produção dos sistemas de "eficácia" segundo critérios que são por si mesmos redutores. É
formação (as aquisições dos alunos e o desenvolvimento de carreiras necessário ter no espírito que a avaliação é, em si, comandada por um
escolares, a inserção profissional ou o nível de salário dos formados). imperativo de eficácia econômica, o investimento na avaliação só
Essa operacionalização do produto, se permanece perfectível, sendo consentido na condição de chegar à definição e à generalização
modifica totalmente a maneira de abordar as escolhas de política dos "bons métodos39 ". O real, medido, tende então a ser para sempre
educativa. Ela permite a introdução do raciocínio marginalista que a parte da realidade que se pode medir e que se quer e acredita poder
estava quase sempre ausente, e autoriza a comparação direta de ações modificar. Mesmo se não se apega aos diplomas ou às passagens para
concorrentes anteriormente incomensuráveis"38. Na realidade, como
classes superiores e que se procure avaliar os conhecimentos ou as
competências, sempre se escolhe uma parte do que os alunos sabem ou
35. SECRÉTAR/AT D'ÉTAT AU PLAN, Éduquer pour demain, La Découverte, Paris, /991, p. 133. ignoram. Mais geralmente, a habilidade técnica de quantificação, se
36. Jean-Piem JAROUSSE e Chrisdne LEROY-AUDOU/N, "Les nouveaux outils d'évaluation : quel
intérêtpour I'analyse des effets-classe?", in Jean BOURDON e Claude THÉLOT (dir.) , op. cit., p. 163.
37. /bid., p. 167.
38. /bid., p. 163-164. 39. Cf. PhilippeJOUTARD e Claude THELOT, Réussirl'école, Le Seui/, Paris, 1999.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
A "modernização" da escola

ela é desejável, não saberia apagar o quanto o valor de uma educação conta a experiência do professor e a complexidade das interações que
não se deixa encerrar simplesmente em uma medida de sucesso, por têm lugar na sala de aula. A ação educativa deve, portanto, ser objeto
mais fina, modesta e prudente ela seja. Para dar um exemplo simples, de uma avaliação que se ajuste ao que ela é, com o que realmente se
pode-se constatar ano por ano uma certa evolução do número ou da passa entre o professor e os alunos em uma ação finalizada pelo acesso
taxa de bacharéis, mas para conhecer a realidade que esses dados a certos objetos de conheciment041. O esforço de racionalização
cobrem, em particular em termos de aquisições intelectuais, seria contábil encontra seu limite na relação pedagógica em si mesma e se
preciso empregar outras abordagens que não aquelas do revela paradoxalmente ineficaz porque não pertinente. A relação da
recenseamento dos bacharéis. Esse tipo de racionalização quantitativa educação é tão complexa e variável, tão "incerta" como diz, ainda,
impele a transformar a "cifra" em fetiche, até mesmo "produzir cifras" Elisabeth Chatel, que seu resultado "é irredutível à idéia de um bem,
sem se preocupar com seu significado. de uma utilidade ou de um escore mensurável".
Na realidade nós temos que discutir uma verdadeira ideologia Como lembra Lucie Tanguy, a "avaliação se torna um
da avaliação que nós já vimos operar nos Estados Unidos e que ganha, instrumento de política educativa suscetível de modificar os modelos
agora, o mundo inteiro. Ela depende desse constante impulso da cognitivos e culturais que dominam na escola42 ". Quais são, com
racionalidade contábil que, não sem força persuasiva, assimila toda efeito, as conseqüências dessa ideologia da avaliação sobre aquilo que
ação humana a uma ação técnica mensurável por seus efeitos, graças é ensinado, no sentido do que é aprendido, sobre os conteúdos e o
a indicadores quantitativos. A analogia com a Produção das empresas valor desses conteúdos para os próprios alunos? Como, por exemplo,
é, além disso, freqüentemente utilizada como argumento. Assim, medir a parte crítica e cívica da cultura transmitida? Como apreciar a
pretende-se calcular o "produto", ou melhor, o "valor agregado" de um integração dos valores de igualdade, de honestidade, de verdade, de
estabelecimento escolar, exatamente como se calcula a receita de tolerância que se dizem, muitas vezes, no coração da escola? E se
negócios ou o valor agregado de uma empresa ou de uma sucursal de soluções segregacionistas produzissem resultados escolares melhores
grupo. Na ausência de preço de mercado, trata-se, em suma, de que os de uma organização escolar socialmente ou eticamente mista,
fabricar um substituto. seria preciso adotá-las em nome da "eficácia"? É suficiente, além disso,
A avaliação tal como é praticada e utilizada traz problemas na considerar a lógica da deSigualdade atuante no universo da formação
medida em que ela só conhece o "código da economia" que compara permanente dos adultos, que é apresentada, no entanto, às vezes,
custos e benefícios 40 . Como mostrou Élisabeth Chatel, não se pode como modelo para a formação inicial, para se inquietar com as
avaliar uma ação assentando sobre ela uma grade que obliteraria o que conseqüências que pode acarretar a imposição dos imperativos da
ela tem de específico. Ora, a avaliação da forma que foi concebida eficácia do tipo econômico no sistema escolar. Esse modo de avaliação
leva muito freqüentemente à realidade do ato educativo em toda sua arrisca-se a estimular um tipo de normalização do ensino, dos
complexidade e tende a medir apenas uma ficção. O autor que nós conteúdos e dos métodos, na medida em que só se julgaria o processo
acabamos de citar, lança a hipótese de que é possível estabelecer uma educativo a partir dos resultados apreciados quantitativamente
avaliação do ato educativo com a condição expressa de levar em

41 .Elisabeth CHATEL, Comment évaluer I' éducation ? Pour une théorie sociale de l'action éducative, op.
40. David HARVEY, "University, Inc. ", The Atlantic Monthly, outubro de 1998. cit., p. 305.
42. L. TANGUY, artigo citado, p. 38.

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A "modernização" da escola

segundo exercícios, eles mesmos normalizados. A educação seria desordem". Se a sociedade e a economia se caracterizam pela
então ameaçada de se parecer a uma criação (criação de animais, inovação permanente, a escola deve estar à altura dos ideais e dos
como a pecuária) industrial.
funcionamentos dos outros universos da sociedade. Ela deve ser
Dois autores mostraram como, em nome de um álibi "inovadora", sem consideração do fato de que uma inovação de
democrático, a lei de orientação de 1989 introduziu, desde o estrutura, de conteúdo, ou de método pode ter resultados benéficos ou
maternal, os princípios de observação e de avaliação segundo "itens" negativos, sem consideração do fato de que uma rotina pode ser eficaz
rígidos de "competências adquiridas" e de "competências não ou ineficaz, relativamente a certos critérios ou a certos valores.
adquiridas 43 ". O registro de observações que os professores devem Esse tema da inovação na escola conheceu um sucesso
manter em dia não recenseia menos do que 89 competências, considerável a partir dos anos 1980 graças ao prestígio do "novo" na
distribuídas em grandes rubricas: "competências transvers:;üs"; nossa sociedade e graças à importância da "desnutrição criadora" na
"competências no domínio da linguagem"; competências dinâmica capitalista44 . Seu prestígio e sua legitimidade permitiram
matemáticas"; "competências em ciências e tecnologia"; mobilizar espíritos inventivos e boas vontades militantes mascarando
"competências em educação cívica"; "educação artística"; "educação suas ligações com os imperativos da eficácia e da competição
física". De uma aplicação impossível (89 competências a observar em econômica, que são suas instâncias profundas. A ideologia da
30 crianças ... de dois em dois meses), esse registro permanece uma inovação é a conseqüência de um empobrecimento dos ideais
tentativa vã, mas muito emblemática de objetivação integral da progressistas da esquerda política e pedagógica. Por falta de poder
criança, que traz sérios problemas não somente pedagógicos e éticos "mudar a vida", crendo, no entanto, manter a flama dos desejos de
mas também psíquicos. Uma avaliação muito diferente é, sem dúvida, revolução e permanecer fiéis à "contestação" de sua juventude, alguns
possível e desejável, porque seria mais "eficaz", mas ela passa pela se dobraram sobre esse sucedâneo sem se perguntar o que essa
reflexão e deliberação coletiva dos professores sobre sua própria ideologia cobria, no que ela consistia, se ela continuava "progressista"
prática e não pelo poder dos experts e dos administradores. nos seus motivos e seus resultados. Daí alianças curiosas entre a fina
flor dos movimentos pedagógicos e os porta-vozes da alta
A ideologia da inovação administração "modernizada". Quer se trate de um efeito de contexto
O culto da inovação encontra nesse contexto sua verdadeira ou de uma sucessão de deslizes profissionais de tipo individual ou, sem
razão. As transformações operadas nesses últimos decênios se fizeram dúvida, de uma combinação dos dois, pode-se em todo caso constatar
em nome do que se chama a "inovação" constituída como referência que as transformações pedagógicas se despolitizaram amplamente e
metafísica ou como norma profissional. Esse novo culto é um dos foram despojadas de seu significado social, salvo nos
aspectos da conversão aos imperativos da guerra econômica operada "estabelecimentos difíceis", os mais mobilizados.
pela burocracia centralista, longo tempo muito hostil, como se sabe, Foi pouco perguntado, por exemplo, se as "inovações"
aos "espíritos subversivos", aos "agitadores" e aos "criadores de

44. Certos especialistas da inovação escolar, como Françoise Cras, notam que a "origem da inovação
escolar reside nessa concepção schumpeteriana de uma visão economista de eficácia, de rentabilidade, de
43. Cf. Annick SAUVAGE e Odile SAUVAGE-DÉPREZ, Matemelles sous contTôle, les dangers d'une
évaluation précoce, Syras, 1998. relação custo/qualidade ou de satisfação da cliente que é, seja o aluno diretamente, seja indiretamente os
pais", in Françoise CROS, L:1novation scolaire, INRP, Paris, 2001, p. 19.

2I 6
2I 7
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

introduzidas no colégio ou no liceu nesses últimos anos tiveram ou certa avaliação "sociológica", leva a que os problemas não resolvidos
não virtudes democratizantes. Seu valor parecia ater-se a sua pareçam ter como causa principal o "imobilismo" dos professores. Daí
novidade. Contrariamente ao que se poderia pensar e contrariamente a injunção centralizada, mas contraditória com as premissas, de uma
à argumentação dominante, a inovação tem pouco a ver com a inovação uniforme cujos efeitos democráticos não têm nada de
pesquisa de uma eficácia avaliável. Sem dúvida, se quereria crer que a evidente. Mais ainda, a inovação, supostamente, resolve todos os
inovação tecnológica ou pedagógica é sempre uma melhora ao menos males da sociedade: droga, violência, racismo, insegurança nas
em força, que toda reforma de estrutura, toda prática nova é mais estradas, perda de parâmetros, desigualdades, etc. Essa homenagem
"eficaz" do que a que ela substitui. Como assinalava, muito tecnocrática ao "fato social total" ainda é mais perigosa: se a educação
justamente, um inspetor da Educação Nacional, Jean Ferrier, "a é atravessada por todas as dimensões da vida social e individual, ela
promoção das inovações repousa na idealização das novidades sempre não está em condição de modificar toda a sociedade. E, sobretudo,
mais ou menos ligadas ao espírito de progresso [... ] mas essas inovações não se vê como os professores inovadores sozinhos, apesar de seus
não foram até então jamais submetidas a validação. Ninguém se tesouros de boas intenções, poderiam mudar precisamente o que as
preocupa em verificar que o "mais" esperado se concretize nas políticas não querem acima de tudo, mudar, a saber; a desigualdade
aquisições para os alunos, sem repercutir em um "menos" com relação social crescente na sociedade de mercado.
ao que era antes; acredita-se fazer o bom mas, faz-se o melhor?45" Na Essa transformação da "inovação" em fetiche iniciou-se ligada
interpretação gerencial dominante, a inovação se tomou um fim em com a excelência humana, colocada implicitamente como referência
si mesma, que deve ser objeto de uma "gestão" particular, na qual se da ação pedagógica. Trata-se, através do aluno, de formar um
reencontram experts em pedagogia e administradores. A inovação, inovador permanente que terá que gerenciar situações de incerteza
nesse sentido, define uma norma de funcionamento para a cada vez mais numerosas. E como melhor formá-los do que os
organização escolar como para todas as instituições sejam quais forem inserindo nos novos projetos pedagógicos, do que lhes pedindo para
sua natureza e seu objetivo, norma que é a das empresas sobre um inventar, provar seu espírito de iniciativa e de imaginação? A OCDE
mercado concorrencial. Daí a combinação muito liberal do tema da deu sem dúvida a chave salientando que, se uma das condições da
inovação e da argumentação em favor de um mercado que obrigaria à competitividade e do emprego era a flexibilidade do mercado em
inovação perpétua, daí, igualmente, o casamento dessa ideologia com todos os domínios, ela devia ser acompanhada por uma transformação
o grande discurso das novas tecnologias, presumidamente capazes de das mentalidades com a qual a escola devia contribuir. A organização
revolucionar as relações pedagógicas. internacional faz, assim, da simulação do espírito de empresa um dos
A metafísica da inovação funciona, para dizer a verdade, como objetivos maiores das políticas educativas 46 . Esse
um engodo. A escola neoliberal, confrontada a contradições maiores, "empreendedorismo" é essencialmente ligado à inovação. E essa
em particular sociais, reenvia para a periferia e para a base a resolução última não será nunca tão valorizada quanto quando ela é "abertura",
dos problemas. A inovação, supostamente, resolve todos os males da "parceria" e "contato com a empresa". A inovação não é, portanto, ou
escola, o que, por um sofisma bastante geral nas altas esferas e em uma não é mais, vista como o resultado de intenções transgressivas de uma

45. Jean FERRIER, Améliorer l'efficacité de l'école primaire, MEN, julho de 1998, p. 24. 46. OCDE, Srimuler l'esprit d'entTeprise, 1998, p. 95.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA A "modernização" da escola

base mobilizada, de iniciativas pessoais, de necessidades íntimas ou de argumento foi amplamente empregado nesses últimos anos, pelo
ideais políticos, ela é uma "ardente obrigação", uma política em si, menos até a derrocada financeira da primavera de 2000. As novas
uma norma institucional que deve, além disso, passar por medidas tecnologias permanecem, em todo caso, para alguns, o motor
uniformes e que toma, cada vez mais, o aspecto de "reformas pelo alto principal de transformação da escola, tanto nas suas formas como em
(vindas de cima)". Para retomar a linguagem dos especialistas, a seus conteúdos. Sob pretexto da adaptação às "revoluções
lógica em curso vai "de alto a baixo" (top down) e não de "baixo para tecnológicas", seria desejável que nascesse imediatamente uma outra
o alto" (bottom up). A introdução no colégio dos "itinerários de concepção de escola, de sua função e de seu lugar na sociedade.
descoberta" ou no liceu dos "Trabalhos pessoais enquadrados", dos Dando ouvidos a muitos experts, tem-se o sentimento de que na
quais a gestão centralizada e burocratizada é um exemplo, entre "sociedade da informação" a escola não tem mais que educar, que
outros, qualquer que seja o desejo subjetivo que nele possam inscrever instruir, formar o pensamento justo, mas que ela deve aprender a
professores e alunos. A ideologia da inovação e a burocratização de coletar, selecionar, tratar, memorizar "informações". É a tecnologia
sua aplicação, fazendo perder o que uma transformação das práticas que ditaria não somente novas maneiras de aprender mas, mais
tem precisamente de essencial para um indivíduo e uma coletividade, profundamente novas maneiras de "pensar", um pensar que, ao
esgotam uma fonte maior de criatividade subjetiva e apagam a ocorrer, se identificaria mais com um "fazer" e um "comunicar" no
significação política e ética da mudança. Desse ponto de vista, apesar espaço virtual e que estaria na mais perfeita continuidade com o novo
da confusão das aparências, a mobilização pedagógica e política dos ambiente profissional. Se, como escreve Manuel Castells, "a criação,
professores, à qual se assiste, por exemplo, nos estabelecimentos o tratamento e a transmissão de informação se tomam fontes
vítimas da segregação social, não tem nada a ver, ao menos principais da produtividade48", seria conveniente que a escola fizesse
diretamente, com a inovação normalizada imposta do alto, a qual tem dessas novas competências reclamadas pelas empresas, a primeira de
geralmente por característica negar a complexidade do real em nome suas prioridades. Pela confusão terminológica e conceitual entre
de um modelo preestabelecid0 47 • informações e saberes, entre comunicação e reflexão, tende-se a fazer
crer que a cultura que a escola transmite e a maneira como ela deve
A modernização tecnológica fazê-lo são de mesma ordem que a atividade dos profissionais quando
A imitação da empresa gera outras derivações. Não são eles utilizam as NTIC. Ora, a ferramenta de comunicação é,
somente as "quantidades" que fascinam, são igualmente as evidentemente, tudo menos neutra, sobretudo se ela tende a rebaixar
"máquinas". O "novo" não se materializa nos equipamentos que todo o saber a um conjunto de informações, como sustentam seus
forçarão os utilizadores a inovar? Um dos meios elogiados por responsáveis.
aumentar a eficácia dos sistemas educativos é um puro decalque da A promoção dessas tecnologias vai ao encontro das
maneira de pensar no universo da indústria: as novas tecnologias preocupações daqueles que querem reorganizar o ensino colocando
deveriam aí se difundir para ganhar em produtividade. Esse um fim no face-a-face do professor com seus alunos. Seria necessário
romper com uma "atividade artesanal", com uma "profissão liberal"

47. C.f. sobre esse ponto enquetes sugestivas e as conclusões de Agnes VAN ZANTEN, Marie-France
GROSPIRON, Martine KHERROUBI, André D. ROBERT, Quand /'école se mobilise, La Dispute,
Paris, 2002. 48. Manuel CASTELLS, La Société en réseaux, tomo I, Fayard, Paris, 1998, p. 43.

220 221
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA ogrande mercado da educação

Prever a amplitude das mutações, seu impacto real e os


ultrapassada, porque muito pouco "racionaI49 ". A ERT avança nesse
resultados do que se apresenta com antecedência como a "revolução
mesmo espírito: "Já é tempo de transformar a sala de aula com os
copérnica" (de Copérnico) da pedagogia ultrapassa os princípios da
mesmos benefícios tirados da tecnologia e das técnicas de gestão que
prudência intelectual. Christian Janin, secretário federal do SGEN-
revolucionaram cada lugar de trabalho, na indústria e nos negócios".
CFDT, interrogado pelo jornal Le Monde, à questão "qual professor
À imagem dos Estados Unidos, querer-se-ia resolver os problemas
para a sociedade da informação?", respondia que os professores iam se
educativos por ferramentas "revolucionárias" que obrigariam a
transformar em "engenheiros do saber, em organizadores do processo
subverter a pedagogia magistral introduzindo a não-diretividade que
de aquisição dos conhecimentos 51 ". Outros, ainda, vêem nas NTIC o
permitiria motivar os alunos e remediar o fracasso escolar dos mais
remédio miraculoso para ultrapassar as desigualdades escolares.
desprivilegiados socialmente. Em outro capítulo, foi visto quanto esse
Relatórios oficiais demandavam, há alguns anos, que se colocasse, de
tipo de preocupações encontrava a simpatia de todos aqueles que tem
preferência, a rede da Internet à disposição dos estabelecimentos
interesse na redução de despesas públicas em matéria de ensino. Na
desfavorecidos dos subúrbios. Graças a um novo "ambiente de
realidade, esses ganhos, tão freqüentemente evocados, não estão
trabalho (com carteiras network para cada aluno)", a "escola do
sempre presentes no momento desejado e não constituem, além disso,
século 21" permitirá a verdadeira "redistribuição dos saberes e das
o interesse propriamente escolar de sua utilização. O tempo de
chances que está em sua própria essência, e hoje em dia é o mais
preparação, de instalação, de seqüência reclamado pela high tech se
urgente de seus deveres", declarava assim o relatório do reitor Fortier,
revela muitas vezes mais importante que os métodos tradicionais. Se
consagrado à situação em Seine-Saint-Denis 52 . Esse gênero de
os industriais visam um mercado de massa de produtos padronizados
declaração peremptória não se fundamenta, evidentemente, em
segundo os processos industriais, os professores seguem uma lógica
nenhuma enquete empírica séria. "Internet" não é nunca mais do que
pedagógica que tem suas razões e seus ritmos próprios.
o nome de uma mesma ilusão tecnológica, um tipo de varinha mágica
Se em numerosas disciplinas, em particular científicas e
suposta capaz de transformar toda a pedagogia e resolver, assim, as
técnicas, o recurso à informática é indispensável, se uma integração
contradições da escola como se supôs que a televisão faria nos anos
progressiva da ferramenta multimídia como instrumento de trabalho
é, ao mesmo tempo, desejável e provável, nada veio provar até o
1950.
A retórica triunfalista da modernização, da eficácia, da
presente, que a introdução maciça de computadores nas classes tenha
avaliação e da produtividade industrial encontra seus limites na
sido suficiente para aumentar os níveis escolares dos alunos, como o
própria natureza do ato pedagógico. Como ele se deixaria reduzir à
prometiam os industriais e os adeptos da pedagogia high tech. Isso não
função de produção que permitiria calcular um "valor agregado"? Os
impediu que da informatização escolar fosse esperada uma resolução
professores, por ofício, podem saber que a modernidade de um
quase mágica de todos os problemas atuais, com o risco evidente de
método, de um dispositivo, de um modo de avaliação, de uma técnica
ser fortemente decepcionad0 5o .
não é suficiente para definir seu uso pedagógico pertinente. Eles

49. ERT, Educatio!, for Europeans, towards the Leaming Society (1994). 51. Le Monde, 8 de dezembro de 1999.
50. Cf. Ph. RIVIERE, "Les sirenes du multimedia à l'école », Le Monde Diplomatique, abril de 1998. 52. Jean-Claude FORTlER, Les conditions de réussite scolaire en Seine-Saint-Denis, MEN, 1997

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 10

podem saber, pelo próprio fato da multiplicidade de parâmetros, que


Descentralização, poderes e
eles devem levar em conta e da inumerável singularidade dos sujeitos
humanos com os quais eles têm que manter uma relação pedagógica,
desigualdades
que aquilo que pode ser um ganho aqui, pode ser uma perda acolá.
Não é que o ato de ensinar poderia ou deveria escapar à observação e
a um saber específico, à toda avaliação e ao progresso da prática, é que
um ato tão complexo não pode ser simplesmente objetivado por uma
abordagem econômica ou tecnológica restritiva, que ele não poderá
jamais, sem dúvida, não mais ser totalmente racionalizado segundo a
crença cientista. Ele é, doravante, sustentado por um meio de experts, "Descentralizar a educação é libertá-la"
Alain PEYREFITIE, Pouvoirs Locaux, nº 31,
de administradores, de estatísticos, mesmo de universitários, que
Dezembro de 1996, p. 50.
encontram nele uma legitimidade. Deve-se, em todo caso, esperar dos
professores, ao menos enquanto eles não se tomem por "homens da
organização" - técnicos, chefes, contramestres, gerentes - que fixem
limites ao domínio gerencial sobre os alunos, reduzindo-o ao mínimo Uma das palavras-chave que caracterizam a nova forma de
necessário, solicitado pelo funcionamento geral da instituição. escola é a da "diversidade" que se opõe à da "uniformidade" do antigo
modelo. No entanto, a ambivalência da evolução em curso é
surpreendente. Observa-se, de uma parte, uma descentralização
intensificada l , com maior autonomia deixada aos estabelecimentos
nos domínios financeiro, pedagógico, administrativo e, de outra parte,
certa centralização dos objetivos, dos programas, das prescrições
metodológicas e dos exames 2. Qual é o sentido exato dessa evolução
paradoxal?
A mutação da escola apela para rodeios retóricos e argumentos
autoritários que, se estão muito próximos do conteúdo e do estilo dos
relatórios e textos de orientação das grandes organizações
internacionais e da Comissão Européia, não se distinguem menos pelo
regime permanente do eufemizar que se atém à hibridação do
liberalismo e da lógica burocrática, como às reticências oficiais ao

1. Entendemos aqui descentralização e desconcentração no sentido técnico dos termos (transferência dos
poderes às coletividades territoriais e delegação dos competências aos serviços periféricos do Estado).
2. l. DAVIES e T. GUPPY, "Globalization and Educational Refonns in Anglo-American Democracies",
Compara tive Education Review, 41,4.

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Descentralização. poderes e desigualdades
A ESCOLA NÃO li UMA EMPRESA

encontro do ultraliberalismo anglo-saxão. Não se passa diretamente apropriada, cidadão que, segundo o discurso, é, ao mesmo tempo, o
da "República do Direito Divino" (Dominique Schnapper) a uma ator, o usuário, o contribuinte, o eleitor, etc. Deter-se nessas fórmulas
fascinação pelo mercado sem mediação, sem véu e sem desvios. A prontas seria, todavia, se proibir de considerar que, no contexto
linha de ação que se impôs na junção dos anos 1980 e 1990, e que neoliberal, em um momento onde se impõem lógicas consumistas e
recapitula, na França, a lei de orientação de 1989, esboça a imagem onde a educação se torna ao mesmo tempo um fator econômico e um
idealizada de um serviço público de educação mais descentralizado, argumento eleitoral, a descentralização, não em si mesma, mas no
graças à transferência de competências às coletividades locais; mais modo como ela foi aplicada, acelerou a perda de autonomia da
desconcentrado, graças à reorganização dos estabelecimentos e dos instituição escolar e conduziu a abandonar a referência a seu ideal de
serviços para os quais "redes" e "parcerias" são encorajadas; mais igualdade, notadamente na sua dimensão territorial.
aberto à lógica econômica; mais diversificado segundo as clivagens A convergência entre a direita e a esquerda na escola é notável
sociais e culturais reconhecidas institucionalmente pelos "projetos" e nesse ponto. A sustentação política quase unânime aos projetos
"contratos", e que se deixaria, de agora em diante, guiar mais pela descentralizadores de Claude Allegre entre 1997 e 2000 foi seu
demanda do usuário do que pelos imperativos da construção política momento mais significativo, projetos esses que o governo Raffarin
e cultural da nação como corpo. É esse equilíbrio ideal, esse retomou amplamente por sua conta3 . O antigo Ministro da Educação
compromisso entre a lógica da "demanda" e a manutenção de um se pronunciou no dia seguinte à sua exclusão, por "uma
quadro republicano, que foi expresso no slogan da "renovação do descentralização e um maior engajamento dos usuários e dos eleitos",
serviço público" que prentendia casar eficácia e democratização na qual "as escolas seriam confiadas às comunas*, os colégios aos
graças à diversificação e à gestão "periférica" da heterogeneidade departamentos, os liceus às regiões, incluindo todo o pessoal". Mesmo
social. propondo a manutenção dos diplomas nacionais e das subvenções do
A descentralização foi apresentada como a grande reforma de Estado para assegurar a igualdade entre as regiões, o projeto do antigo
esquerda do início dos anos 1980, "pondo fim a séculos de ministro insistia sobretudo na instalação de tantos ministérios da
centralização francesa". Um mesmo termo pode designar políticas Educação quanto o número de regiões 4. A direita liberal e ultraliberal
diferentes, ou remeter a políticas semelhantes mas que têm efeitos aplaudiram naturalmente essa concepção que reencontra, de fato, seu
diferentes segundo o contexto. No domínio da Educação, a aspiração próprio programaS. O RPR depois a UMP não estão em débito sobre
a mais democracia na base e à reivindicação de "direitos à iniciativa" a descentralização do sistema educativo, muito influenciada pelas
dos atores locais, se manifestou de maneira cada vez mais viva, ao teses de seu principal inspirador Guy Bourgeois, o qual queria separar
menos desde os anos 1960. A percepção das necessidades em o Estado "coordenador" e as regiões, academias e estabelecimentos

equipamento escolar também se tomou mais aguda no nível local e que seriam os "operadores".

vontades políticas de desenvolvimento da escolaridade apareceram,


em resposta à demanda dos habitantes. O nível local parecia, * Comuna é uma divisão telíiwrial francesa administrada por uma Mailie, semelhante um município.
igualmente, favorecer a expansão de uma verdadeira democracia de 3. Discurso na Sorbonne, 24 de setembro de 2002.
proximidade. A esquerda teve então a legítima preocupação de 4. Cf. Le Nouvet Observateur, n" 1848, 6-12 de abril de 2000.
5. Cf. Pascal BOUCHARO, "Guy Bourgeois: la logique des propositions du RPR pour l'éducation est la
"aproximar a decisão do cidadão", para retomar uma expressão séparation des fonctions de maitre d' ouvrage et de maitre d' oevre", AEF, 8 de janeiro de 2002.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigualdades

A questão a ser colocada é de saber como a esquerda que teve necessidades econômicas e tecnológicas, é necessário, então, adaptar
que gerir, na França, o essencial da guinada em direção a um sistema a escola à diversidade da população e à variedade da demanda,
descentralizado, pode justificá-la, como conseguiu transformar certas aproximá-la do meio local e do mundo da empresa.
reivindicações legítimas, certas aspirações democráticas, em reformas Numerosos foram os trabalhos mostrando a crise do modo de
com efeitos mais do que problemáticos. gestão da administração em geral e da escola em particular, gestão que
parecia, cada vez mais, indiferente à diversidade das situações
As críticas, cada vez mais engendradas pela massificação. A crítica mais corrente consiste em
numerosas, quanto à uniformidade dizer que a centralização burocrática francesa revelou seus
A estratégia descentralizadora respondeu a uma insatisfação inconvenientes, sobretudo quando se tratou de introduzir mudanças
crescente acerca da burocracia centralista. A crítica, ainda que nos modos de ensinar, nos programas, nas relações com os alunos. O
freqüentemente simplificadora para as necessidades da "reforma", visa sistema anterior de comando estava destinado à inércia, à ineficácia e
à própria organização da instituição e toca uma questão muito real. A ao corporativismo. O professor de base, na sua classe, era julgado
escola antiga, dizem os partidários mais declarados do novo curso, era muito isolado, muito resistente à mudança, colocado fora do alcance
uma escola que, do alto ao centro, impunha conhecimentos, valores de uma hierarquia supostamente portadora de um projeto ao mesmo
e métodos uniformes a um conjunto social e cultural cada vez mais tempo moderno e democrático.
heterogêneo, a uma sociedade cada vez mais complexa6. A política O crescimento econômico, a divisão mais avançada do
escolar respondia, com efeito ao duplo ideal de "fazer a França" sobre trabalho, a necessidade de acolher alunos de origens sociais mais
uma base unitária e de difundir as luzes emancipadoras em benefício variadas e a necessidade de inovação pedagógica obrigavam a
do povo, e isso por via de uma administração imponente. repensar a organização do aparelho do ensino. O aumento dos
O estabelecimento, nesse tipo de organização, era um degrau "fluxos" e dos "estoques" de alunos, para empregar o estilo gestionário,
abaixo da cadeia hierárquica e obedecia a normas impostas em colocou consideráveis problemas materiais (locais, recrutamento,
cascata, mesmo se tradições locais e uma certa independência dos gestão de pessoal, etc.) mas, sobretudo, pedagógicos. As relações entre
grandes estabelecimentos atenuavam a uniformização. Essa professores e alunos por vezes se degradaram consideravelmente e, em
transcendência do Estado educador fundia e legitimava o isolamento face da impotência da política central, as dificuldades engendradas
simbólico que fazia da escola uma instituição que possuía seus próprios por essa massificação pareceram, sobretudo, solicitar remédios
imperativos, sua temporalidade, seus ritos. Se as críticas modernistas urgentes em escala local. Além disso, a crise econômica e social
do antigo modelo insistem na "mentira republicana", elas sublinham, colocou de maneira cada vez mais urgente a questão das saídas
igualmente, a "obsolescência" dessa ficção política: nós teríamos profissionais, daí o problema das relações entre o estabelecimento
definitivamente saído dessa época de uniformidade nacional. Com o escolar e a região, até a "nicho de emprego" na qual ele está inserido,
antigo isolamento se tornando um obstáculo à democratização, e a na medida em que se baseia na suposição de que a questão de emprego
escola muito "autônoma", não podendo mais responder às se coloca, essencialmente, no plano local? Enfim, não esqueçamos

6. Pode ..se constatar, retrospectivamente, que essa unifonnidade era muitas vezes mais aparente que real 7. Bernard CHARLOT, "La territorialisation des poli tiques éducatives : une politique nationale", Bernard
mas, também, que suas virtudes equalizadoras não eram tão assegurados quanto a ideologia republicana Charlot (coord.) , I.:École et Ie territoire ; nouveaux espaces, nouveaux enjeux, Armand Colin, Paris,
pretendia. 1994, p. 32.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigualdades

que as restrições orçamentárias, em um quadro de política de desejava ser porta-voz. A convicção era, então, que, de uma maior
austeridade, incitaram a transferência de problemas de financiamento diversidade, de uma autonomia intensificada, devia sair mais
e de planejamento escolar em direção às coletividades territoriais e igualdade pelo único fato da adaptação da pedagogia às necessidades
aos estabelecimentos locais. A descentralização necessária era e às diferenças sociais e culturais dos alunos. Essa diversificação era
também destinada a facilitar a tomada de consciência do custo da mesmo vista como uma fonte possível de criatividade acompanhando
educação e a obrigar as coletividades locais a escolhas e a prioridades8 . uma revolução permanente de modos de viver. O que foi chamado
Ela caminhava de mãos dadas com uma contratualização dos meios nos anos 1980 a "segunda esquerda", vasta esfera de influência e
que não poderiam mais ser obtidos a não ser em troca de "sensibilidade" difusa, em tomo da CFDT, da corrente de Michel
engajamentos particulares, projetos precisos, resultados visados, etc. Rocard no seio do OS, da escola de Alain Touraine em sociologia,
prolongou à sua maneira essa reivindicação, percebida não mais como
A diversidade contra o centralismo um momento na transformação revolucionária da sociedade burguesa
Anteriormente, viu-se que os grandes temas do "mercado mas, ao contrário, como a caracterização de uma sociedade "moderna"
educativo" já haviam sido trazidos a discussão desde o fim dos anos desembaraçada das restrições e das proteções do Estado lO •
1970, pela direita francesa. Mas não foi ela, apesar da dominação Com a chegada da esquerda ao poder em 1981, pareceu soar a
ideológica que exerceu, quem, na maior parte do tempo, dirigiu hora para a grande reforma descentralizadora. Pelas leis de 1982, ela
politicamente a mutação da escola. A esquerda é que foi sua grande se referiu a domínios muito numerosos da organização dos poderes e
ordenadora. Convém, então, explicar como e por que a política que da ação pública, mas teve efeitos específicos no ensino, cuja
essa última conduziu pôde chegar à introdução e expansão das ambigüidade merece ser salientada. Como enfatizava o ministro Alain
práticas gerenciais na escola. As críticas da esquerda sobre a Savary, tratava-se inicialmente de "liberar as iniciativas encorajando
uniformidade e o autoritarismo burocrático desabrocharam os professores à inovação". Alain Savary apresentava assim essa nova
particularmente depois de 1968 e quiseram favorecer a "tomada da orientação: "A correção das desigualdades não passa por uma pretensa
palavra" e a experimentação local, a partir da "base". O combate dos "igualdade de chances" da qual viram-se os efeitos nefastos mas, bem
militantes pedagógicos dos anos 1960 e 1970 tinha consistido em ao contrário, pelo reforço seletivo da ação educativa nas zonas e nos
alargar as margens de manobra, a mudar as práticas, a quebrar as meios sociais onde a taxa de fracasso é a mais elevada 11 ". E
rotinas, a levar em conta os "alunos tais como são". A democratização acrescentava: "É claro que as necessidades e, portanto, a pedagogia
do ensino, uma maior responsabilização dos professores para com o adaptada, estão longe de serem as mesmas em todos os
caminho dos alunos, uma mobilização social em favor da escola, estabelecimentos, em todas as regiões e não demandam uma resposta
pareciam reclamar uma descentralização administrativa 9 . Nesse centralizada 12".
sentido, essa última era esperada por numerosos "atores" de base, em
particular pedagogos inovadores dos quais a esquerda francesa
/O. Para uma análise de uma evolução semelhante na Bélgica, cf. Nico HIRITT, L'École sacrifiée, EPO,
Bruxelas, 1996. Hoje em dia, ainala, os socialistas ou os Verdes continuam a defender uma política de
8. Relatório ala Comissão diligiala por Luc SOUBRE, La Décentralisation et la Démocratisation des autonomia mais ampla dos estabelecimentos escolares inspirados pela mesma desconfiança em relação ao
Intitutions Scolaires, MEN, 1982. Estado.
9. Cf. Suzanne CitTOn publicou uma minuta que testemunha o estado de espÍlito ala época. Suzanne 11. Alain Savary, En toute liberté, Hachette, Paris, 1985, p. 54.
CITRON, L:École Bloquée, Bordas, Paris, 1971. 12. Ibid, p. 54.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigualdades

A renovação dos colégios em uma base experimental, com um estabelecimento é que determinava, em particular, a identidade do
tutorado e grupos de nível, e a criação das ZEP constituíam dois dos estabelecimento, fosse ela espiritual, pedagógica ou cultural". Para
eixos importantes dessa política. É em nome desse princípio da integrar o privado em um grande serviço público unificado, seria
diversidade, considerado como a própria condição da igualdade que necessário que o setor público oferecesse a mesma diversidade de
Alain Savary abrandou a carta escolar, no início dos anos 1980: "a escolha que a escola privada, a qual se tornava, paradoxalmente, um
rigidez da carta escolar me parece em contradição com a necessária modelo de liberdade para os estabelecimentos públicos e mostrava
diversidade do sistema educativo. Os pais vêem nisso, por um lado um que uma escola podia perfeitamente, até mesmo devia, funcionar
atentado à liberdade pois eles não podem inscrever seus filhos no como uma empresa. A escola privada se via, além disso, reconhecida
estabelecimento de sua escolha, e por outro lado, freqüentemente, como uma "missão de serviço público", prefiguração das políticas de
uma causa de fracasso escolar", afirma o ministro l3 . Como se sabe delegações e de concessões aos parceiros e "agências" privadas. Esse
melhor atualmente, com o recuo de que hoje dispomos, a via do foi, sem que se pudesse ver naturalmente nele um projeto consciente,
consumismo escolar estava, assim, justificada antecipadamente. É um passo decisivo em direção ao mercado escolar efetuado em nome
ainda em nome da diversidade das situações locais que Alain Savary da diversidade das crianças e da inovação dos atores.
encorajou a instalação de "projetos de estabelecimento", a distinção O alcance efetivo dessa política foi mascarado por uma
dos perfis de estabelecimentos e dos "gêneros de educação", doutrina pedagógica com intenções progressistas. O Relatório
apresentados como as contrapartidas necessárias da negociação com o Legrand sobre a renovação dos colégios é um texto importante que
setor privado. Foi, então, melhor reconhecida a necessidade de marcou o debate escolar dessa época 15 . Coleção das idéias
"diversificar o percurso dos alunos" levando em conta a personalidade reformadoras "democráticas", condensado das idéias da "nova escola",
da criança, a livre escolha dos pais - inclusive no setor público - do esse relatório legitímamente marcou época, especialmente pelas
tipo de educação que eles querem dar a suas crianças. Pela primeira oposições que ele suscitou no professorado. Louis Legrand
vez, o serviço público invocava o "caráter próprio" dos questionava o "sistema nacionalmente normatizado" e afirmava que,
estabelecimentos, no molde das escolas privadas, como se a liberdade para seu dispositivo, "a heterogeneidade das populações ensinadas é
concedida a essas últimas devesse, por preocupação de igualdade, ser considerada como normal, assim como a grande diversidade dos
igualmente concedida ao setor público 14 . Na sua obra, o antigo estabelecimentos". Ele pedia um ajuste dos programas nacionais às
ministro explicava: "A unidade do serviço público não é sinônimo de realidades locais "engajando as ações interdisciplinares que
uniformidade [... ] cada estabelecimento - público ou privado - correspondem aos interesses, às atitudes e às competências
cooperando com o serviço público devia dispor de uma margem de constatadas nos aprendizes 16 ". Era necessário levar em conta as
responsabilidade expressa em seu projeto. O projeto de diversidades sociais e as diferenças territoriais antes de querer impor
saberes vindos de fora e de cima, era necessário organizar as

13, Ibid, p, 54-55,


14, Claude LELIEVRE, L:École "à la française" en danger, Nathan, Paris, 1996, p, 87 et sq, O autor
lembra que a lei Guermeur de 1977 estabelece que os professores do setor privada são obrigadas a respeitar 15, Cf, Louis LEGRAND, Pour um college démocratique, relatório ao ministro da Educação Nacional,
O "caráter próprio" do estabelecimento e que de agora em diante, eles são nomeados pelo reitor por La Documentation Française, Paris, 1983,
"proposição" do chefe do estabelecimento e não mais "de acordo" com ele, 16, Ibid, , p, 113,

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigualdades

"atividades", seus conteúdos e seus métodos, em parceria com os valores de esquerda mais tradicionais da universalidade, de
usuários. emancipação e de igualdade, julgadas "fora de moda", mesmo
Mas, essa exigência de levar em conta os alunos "tais como eles "totalitárias" .
são" à qual os pedagogos progressistas são apegados, por mais
necessária que seja, pode rapidamente se transformar em uma posição
muito perigosa, se essas "diferenças" são julgadas fatais. Uma certa
o gerenciamento como horizonte
" realista" da esquerda
apologia dessas mesmas "diferenças" pode conduzir à aceitação passiva
A utopia da transformação social, no seio da qual a reforma da
das desigualdades entre as classes e entre alunos. O que, de início,
escola tinha um papel maior a desempenhar como instância de
parece ser um procedimento fazendo seu papel nas dimensões
"liberação" dos espíritos e de promoção das classes populares, se
sociológicas do ensino e apelando para uma mobilização política, se
degradou, pouco a pouco, em uma simples "renovação" em nome da
transforma em um procedimento caritativo para com os pobres cujo
eficácia. Essa derrota da esquerda no dossiê do ensino privado, o
problema deve ser visto singularmente, caso a caso, ou em um
afundamento da renovação dos colégios, o fracasso do "pedagogismo"
procedimento de adaptação aos espíritos mais "concretos" e às
do Relatório Legrand favoreceram e aceleraram, no curso dos anos
experiências vividas. Esse diferencialismo moralizante, nutrido de
1980, a implantação do discurso gerencial à esquerda. A evolução dos
boas intenções, arrisca-se a esconder os fenômenos sociais que estão
temas é particularmente evidente tanto nos escritos do Partido
na base das desigualdades escolares. A "atenção às diferenças" se
Socialista como nas orientações do SGEN-CFDT e mesmo da FEN.
transforma então em "consignação às diferenças" no espírito dos
Um bloco "modernizador" pode se constituir, do qual não se deve
teóricos que encerram rápidamente os alunos em categorias
subestimar a influência ao menos ideológica, até hoje. Essa insistência
miserabilistas e estigmatizantes 17 .
sobre os problemas de organização e de estrutura parece responder às
Se se faz o balanço dessas evoluções ideológicas e políticas,
insatisfações e aos desejos de mudança no mundo do ensino, mas a
observa-se que a esquerda sofreu no domínio escolar um efeito de
resposta, misturando vestígios de ideais autogestionários dos anos
dominação ao mesmo tempo maciço e muito difuso. Novos valores (o
1970 e das técnicas do novo gerenciamento, rebaixa as vontades
diverso, a diferença, o individual e o local) se impuseram, os quais, se
políticas de transformação do período precedente em aspirações
correspondem a certas aspirações legítimas tanto dos professores
modernizadoras e em "soluções" pedagógicas, ao mesmo tempo mais
quanto dos alunos, foram interpretados por muitas famílias como
decepcionantes e mais complacentes. O encantamento com a
fontes de expansão pessoal mas, sobretudo, como meios de melhor
inovação pedagógica e organizacional ("trabalhar de outra maneira")
defender interesses próprios na Instituição e não como os
mostra muito bem a decomposição dos temas progressistas em
fundamentos de uma comunidade mais igual de cidadãos. Em vez de
benefício de uma fé modernista, ao mesmo tempo muito mais
se fundir nos valores mais substanciais da tradição republicana e
"realista" e muito mais vazia politicamente.
socialista, esses "valores modernos" tiveram tendência a suplantar os
O refluxo político e cultural das idéias de esquerda durante os
anos 1980 - a despeito ou por causa das vitórias eleitorais dos
socialistas - conduziu à recuperação dessas reivindicações por uma
17. Cf. Sandrine GARClA, "La marchandisation du systéme éducatif et ses ressorts idéologiques", texto
no sIte da APED. teoria do novo gerenciamento, profundamente desconfiado à vista da

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização, poderes e desigualdades

autonomia da base (o "corporativismo") e favorável à lógica do política tendo relação com identidades individuais e coletivas. Essa
mercado (a "demanda"). Se a crítica da centralização burocrática sociologia das organizações é marcada por uma desconfiança dos
constituiu um tema de convergência muito importante entre os atores de base, suspeitos de manifestar comportamentos de proteção e
gerentes modernistas e os reformadores pedagógicos, é uma doutrina de dissimulação a fim de aumentar sua liberdade. O ideal do interesse
de inspiração gerencial que triunfa, nesse domínio como em outros, geral e o sentido da missão são vistos como engodos destinados a
sob a pressão da ideologia liberal e não a aspiração igualitária e mascarar estratégias corporativistas. Não é difícil, com o recuo de que
democrática de uma base mobilizada para a transformação social. O dispomos, ver quanto essa sociologia era um modo "técnico" de pensar
eixo principal da política seguida não foi portanto aquele que e de impor as mudanças institucionais que supunha o fim de um
esperava Alain Savary, que tinha querido dar o poder aos "atores", capitalismo enquadrado e sustentado pelo Estado. Somente a
liberar as iniciativas e dar, assim, missão aos professores inovadores de oposição entre os "modernos" e os "conservadores" parecia, então,
arrastar o resto do professorado por um processo de "mancha de óleo". pertinente.
A política levada por seus sucessores foi mais no sentido do A "reforma da escola", nesse quadro, tomava-se um mero caso
liberalismo burocrático cujo princípio constante é que a de "organização", isolado da análise política e econômica, relacionada
transformação não vem, não pode e não deve vir da base do a uma "mudança social" apresentada, ao mesmo tempo, como um fato
professorado, considerada como definitivamente recalcitrante à em si e como um imperativo absoluto. Ela não era jamais relacionada
mudança. Ela é esperada da pressão externa dos consumidores ou dos
à finalidade específica da escola - a entrada na cultura erudita - e às
"parceiros", da instalação da contratualização e da impulsão dada pela
dimensões múltiplas da educação. A crítica da burocracia
hierarquia intermediária.
permanecia, então, apenas no terreno da organização e conservava
Sob esse ponto de vista, o grande inspirador dessa mudança,
intactos, sem confessá-lo, os mesmos pressupostos da burocracia que
aquele cujas teses tiveram o maior sucesso tanto à direita como à
dá, por constituição, a primazia à dimensão da "eficácia". O
esquerda, é Michel Crozier cuja obra O Fenômeno Burocrático
embasamento do consenso do qual nós não saímos, estava colocado.
(1964) constituiu o breviário de muitas gerações de reformadores.
A leitura retrospectiva dessa literatura de renovação
Crendo-se nele, no programa desse sociólogo das organizações,
tecnocrática dos anos 1960 e 1970, toda construída contra "as
exposto desde 1969 em A Sociedade Bloqueada, a tarefa mais urgente
ideologias" cujo fim anunciava, permite compreender como as críticas
devia ser a "descolonização" de uma sociedade estufada pela
do centralismo, cheias de intenções libertárias ("liberar a iniciativa e
burocracia. O Estado deve recuar para que possa se desenvolver a
a criatividade da base"), puderam chegar a proposições de reformas
"mudança social". A modernização social é apresentada como um
que deviam criar, no lugar da "velha máquina napoleônica e ferrysta",
processo ao mesmo tempo inevitável e desejável, sem ligação com a
uma rede de "comunidades descentralizadas 18 " e para as quais o risco
natureza do sistema econômico e sem relação com as apostas das lutas
de uma explosão dos objetivos, de uma desigualdade intensificada
sociais. Não somente o sentido da evolução econômica e social não é
entre os grupos sociais ou da instalação de uma concorrência entre os
levado em conta, mas a própria definição de Estado é objeto de uma
estabelecimentos não foi, em nenhum instante, prevista. A mutação
confusão permanente, posto que ele é tanto identificado unicamente
com a atividade administrativa, quanto assimilado à mística
monárquica, mas não é jamais considerado como uma instituição 18. S. C1TRON, op. cit., p. 156.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigu.aldades

gerencial dessas posições e o acordo entre esquerda moderna e direita sistemas de controle das performances são característicos das unidades
liberal que ela permitiu, levou à definição de uma nova organização e organizadas na base de mercados 2o ".
de novos princípios de gestão, muitas vezes pomposamente intitulada A descentralização, a "colocação em rede" dos
"a gestão do sistema educativo". estabelecimentos e de seus múltiplos parceiros horizontais, a
constituição de micromercados, fazem, em todo caso, da avaliação o
Uma nova organização descentralizada modo de regulação típico da nova forma escolar, vista como capaz de
O novo modelo de gerenciamento público consiste em deixar evitar uma fragmentação do sistema pela fixação de objetivos
ao Estado o cuidado de fixar as grandes linhas e os fins últimos e a dar nacionais, sem entravar por isso o movimento de diferenciação dos
às unidades autônomas de base a missão de os atingir ou de se estabelecimentos 21 . Por um duplo golpe de força são evacuados e a
aproximar deles com uma maior latitude no uso dos meios. Assim vai dimensão sócio-histórica das evoluções escolares e a dimensão da
a nova forma escolar que deve repousar, segundo os experts em ação política geral, suscetíveis de responder a isso de modo adequado.
organização, em uma nova articulação do centro e da periferia. O O novo gerenciamento é, sob essa visão, objeto de uma repressão do
Estado guarda a definição dos objetivos, dos conteúdos, das massas político procurando transferir para entidades locais mais ou menos
orçamentárias, ele continua, em grande parte, a recrutar, organizar e autônomas, e em última instância para indivíduos intimados a
formar os "recursos humanos" (ainda que isso seja objeto de ruptura "inovar", tarefas antes de competência do Estado. Esse último conta,
entre os centralizadores), mas ele deixa à periferia tudo o que se refere portanto, com os inovadores de base e os empreendedores dinâmicos
à gestão territorial e quotidiana segundo uma partilha das tarefas que para inventar remédios inéditos para os males sociais e psicológicos
se queria "técnicas" mas que contêm grandes apostas políticas 19 . O das sociedades de mercado, desobrigado de assegurar um "serviço pós-
dogma do novo gerenciamento público quer que as soluções se venda" junto daqueles que foram deixados por sua própria conta. "A
encontrem na periferia, o mais perto da "demanda" dos usuários. Em escola é seu próprio recurso", repete-se, para dizer que cada
face da singularidade das questões nenhuma estratégia uniforme é estabelecimento, caso a caso, deve se auto-superar, mesmo se os
suficiente, diz-se. Eficácia e diversidade estariam, assim, estreitamente problemas que ela suporta atêm-se principalmente a um estado social
ligadas. Mais se está próximo, mais se está implicado, mais se é capaz geral e, bem freqüentemente, às lógicas de mercado a que ele se
de encontrar soluções locais adaptadas. O pressuposto é que os submete diretamente. Compreende-se por que essa ideologia se
problemas devem ser tratados lá onde eles se colocam "concretamente apoiou em um empirismo ao mesmo tempo sociológico e
e visivelmente". A avaliação tornou-se, em um determinado administrativo, fazendo do estabelecimento objeto de enquete
momento, como essencial do dispositivo. Realizada a posteriori sobre pertinente e o terreno de resolução eficaz dos problemas.
os resultados e não mais a partir de regras e de normas a seguir, a Por trás das justificativas da descentralização e as
avaliação é valorizada por assegurar um autocontrole das unidades de considerações pragmáticas, se opera uma reconfiguração da ação
base e a coerência do conjunto. Como o diz H. Mintzberg, "tais pública, tanto de suas modalidades quanto de seu perímetro. A

20. Henry MINTZBERG, Seruceure ee dynamique des organisaeion, op. cie., p. 150
21. Yves DUTERCQ, PoIieiques éducaeives ee évaluation, PUF, Paris, 2000, p. 158. Cf. Agnes VAN
19. Cf. Louis SAISI, "L:Étae, le " local" ee I'école : reperes historiques" , in Bemard CHARLOT (coord.) , ZANTEN, "Le rôle de I' évaluaeion dans les stratégies cUnctLlTeneielles des établissements ee dans les
L'École ec le temtoire : nouveaux espaces, nouveaux enjeux, op. cie., p. 24. seraeégies de choix des parems en France ee en Grande-Bretagne", inL. DEMAILLY, op. cie., p. 31.

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A ESCOLA NÀO É UMA EMPRESA Descentralização, poderes e desigualdades

questão não é mais de saber o que, qual aspecto da vida social e diversificação e de descentralização, eles se defendem querendo
econômica, é de alçada do Estado, mas de saber, apenas do ponto de distinguir a lógica do serviço público, e a problemática do mercado.
vista da eficácia, como a ação se distribui entre o Estado e as Mas, acrescentam, o serviço público para melhorar, deveria ser regido
coletividades locais por um lado, e entre as instituições públicas e por uma lógica de demanda. Ela obrigaria a afixar os objetivos de
"agências", "serviços", "parcerias", chamadas genericamente "atores" melhora da relação custo-performance e a uma avaliação permanente,
- quer eles sejam marchands, associativos, individuais - aos quais da qual o usuário seria o principal beneficiário. Uma vez colocado o
delega-se uma "missão de serviço público". A teoria decorrente princípio de que a escola é um serviço descentralizado, satisfazendo
gostaria que, em uma época de enfraquecimento do Estado e do uma clientela diferenciada e não, de início, uma instituição
questionamento da ação pública, só uma ação negociada entre encarregada de educar todos os membros de uma sociedade segundo
múltiplos parceiros obedecendo a interesses e a lógicas que lhes são os valores e as regras comuns e de instruir cidadãos capazes de se
próprias poderia, hOje, definir e realizar o bem público 22 . A lei, na encarregarem dos negoclOs coletivos, suprimiram-se muitos
medida em que é uniforme e fruto de uma vontade geral, veria então obstáculos à privatização de fato dos estabelecimentos escolares, quer
inexoravelmente seu espaço diminuir em proveito de uma dizer, sua subordinação a todo tipo de interesses privados. Os liberais
contratualização generalizada das relações sociais. parecem, sobre esse ponto, mais coerentes. Se eles aplaudiram todos
Essa nova "govemança" quer que em toda parte se passe do os avanços feitos pela esquerda em direção à diversificação e à
administrado passivo ao usuário. Mas o usuário, no contexto das descentralização do sistema educativo, eles consideram que, se a
sociedades de mercado, se toma um quase-cliente que compra um demanda individual é o fator fundamental, convém ir até o fim dessa
serviço à coletividade pública e espera que ela lho retribua de um lógica, executando a descentralização mais completa. No meio dos
modo contratual e utilitarista: "A legitimidade da ação pública nasce anos 1980, as coisas já estavam anunciadas claramente. Desde 1983,
de sua utilidade verificada para o bem de cada um 23 ". Pode-se estimar os administradores reunidos em congresso tinham antecipado a
que aí existe a marca de uma época individualista. Resta que a dinâmica liberal dos projetos descentralizadores: "No centro do
vontade dos indivíduos de não se deixar dirigir sem possibilidade de fenômeno de descentralização se encontrará o projeto de
intervenção, não significa que eles querem ser transformados em estabelecimento e seu animador, o chefe do estabelecimento. A
consumidores. Reconhecer direitos coletivos em matéria de educação, comissão estima que a própria noção de projeto de estabelecimento
não tem nada a ver com o consumismo escolar e o aprofundamento implica a supressão da carta escolar (em particular em suas restrições
das desigualdades entre grupos sociais que ele acarreta, como um certo de setor escolar entre estabelecimentos de mesma natureza), a livre
fatalismo gostaria de fazer crer. escolha para os alunos e seus pais de um estabelecimento em função
Quando se recriminam certos teóricos ou responsáveis de de seu projeto (idem para os professores de fora) e a determinação do
esquerda por terem feito a cama do liberalismo por essa política de perfil do cargo de chefe de estabelecimento em função, ainda, do
projeto a desenvolver"24.
22. A "terceira via" do New Labor faz, assim, um grande caso do sistema do PPP (Private-Public
Partnership) em particular no domínio escolar.
23. Catherine GRÉMION e Robert FRAISSE, Le Service public en recherche : quelle modemisa~"on " La 24. Col6quio da AFAE (Association Française des Administrateurs de l'Éducation Nationa/e) , comissão
Docummentationfrançaose, Paris, 1996. Cf. igualmente sobre esse ponto, Claude PAIR et a!. Rénovation 25-27, fevereiro de 1983 in Administration et Éducation, nº 19, 3,
nº 4, relatório de Henri Legrand,
du service public de I' Éducation nationale: responsabilité et démocratie, MEN, fevereiro 1998. 1983, p. 88.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigualdades

o estabelecimento escolar aprofundamento do que se denomina tecnicamente a


no centro do dispositivo "desconcentração administrativa" até a lei de orientação de 1989 que
A idéia de fazer do estabelecimento a "célula de base" do consagra a estratégia do projeto do estabelecimento, primo do projeto
sistema educativo não é nova. O movimento se delineou desde o de empresa, em moda no meio dos anos 1980. A "descentralização"
colóquio de Amiens (18 de março de 1968)25. Esse colóquio que se dos poderes, no sentido aqui também técnico do termo, acompanha o
tomou uma verdadeira bíblia dos reformadores "modernistas" no pós- movimento dando mais competência a coletividades territoriais. No
maio, anunciou a nova via descentralizadora. N a conclusão do fio das medidas tomadas no quadro político geral de descentralização
relatório preparatório da comissão consagrada aos estabelecimentos começada em 1982, a lei de 25 de janeiro de 1985 define as regras
escolares, encontram-se os grandes temas da reforma iniciada há mais relativas à repartição das competências entre as comunas, os
de 30 anos, em particular a associação da autonomia e da inovação. departamentos, as regiões e o estado no domínio do ensino.
Depois de ter lembrado a necessidade de diferenciar a pedagogia e de Paralelamente, se desenvolvem numerosos trabalhos que vão
individualizar o ensino a fim de adaptá-lo aos alunos, o relatório buscar trazer à luz um "efeito-estabelecimento", o qual se torna um
continua: "A palavra de ordem é, doravante, a flexibilidade. Para "paradigma" suposto capaz de suplantar as análises sociológicas
realizar essa flexibilidade de adaptação às necessidades do momento e anteriores que insistiam muito mais no efeito de dependência social
às condições locais, é importante atribuir uma ampla autonomia aos na deSigualdade dos resultados escolares 27 . Segundo essa "nova
estabelecimentos escolares. É indispensável que os responsáveis por sociologia da escola", os mecanismos da reprodução social expostos
cada escola possam tomar decisões rápidas e adaptadas. E como pela sociologia crítica nos anos 1960, não são suficientes para dar
suscitar a participação se o terreno que lhe é oferecido é inconstante, conta das diferenças observadas entre alunos pertencentes a
se não há poder a exercer em comum. Breve, qualquer que seja o diferentes estabelecimentos. Foi esse novo "paradigma" que veio
ponto de vista adotado, a mesma conclusão é resgatada. A justificar a estratégia política definida pela máxima: "a escola é seu
transformação do estabelecimento escolar supõe uma revolução próprio recurso" e que, às vezes, incentivou certos autores a vangloriar
administrativa (sublinhada no texto). O bom emprego do pessoal que os méritos do "gerenciar educativo" eficaz, único capaz de "encarnar
ensina, a utilização judiciosa dos créditos, a eficácia de nosso ensino e o estabelecimento e de exprimir seu projeto"28. Da constatação à
sua modernização têm esse preç026". É, portanto, muito cedo que é conclusão prática, não havia sempre necessidade. Muitos desses
definida a estratégia consistindo em dar muito mais autonomia às trabalhos, interessantes embora limitados, revelam as práticas muito
unidades de base, a dotá-las de uma personalidade própria, e a lhes diferentes dos estabelecimentos sob o efeito do meio e do tipo de
deixar uma margem de iniciativa quanto aos conteúdos do ensino. Os alunos que eles pretendiam recrutar. Mas, longe de mostrar que os
anos 1970 e 1980 vão, sob essa visão, ser marcados pelo

27. Cf. Olivier COUSIN, "L' " effet-établissement», construction d'une problémanque", Revue Française
25. Cf, sobre esse pontol-P. OBIN, La 01se de l'organization scolaire, Hachette Éducation, Paris, 1993, de Sociologie, XXXIV, 1993, p. 395-419.
p.31. 28. Robert BALLlON, "Les chefs d'établissements e[ficaces", in Éducation et management, outubro de
1993, p. 60. Cf. Igualmente, Le lycée une cité à construire, Hachette Éducation, Paris, 1993, 227-228.
26. ASSOCIATlON D-ÉTUDE POUR J;EXPANSION DE LA RECHERCHE SCIENTlFIQUE,
Essa autonomia dos estabelecimentos é compreendida como a "autonomia dos chefes de estabelecimentos"
Pour une école nouvelle, fonnation de maftres et recherche en éducation, Atas do colóquio nacional,
Amiens, 1968, Dunod, Pal1S, 1969, p. 213. pelos primeiros interessados segundo uma fórmula de Yves GRELLlER, Profession, chef d'établissement,
ESF, Paris, 1998, p. 120.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização, poderes e deSigualdades

estabelecimentos não se adaptam suficientemente a seu ambiente, dominação por demais direta dos poderes locais, que arriscavam
esses estudos tendem a demonstrar, ao contrário, que eles se adaptam explodir o sistema. As coletividades eram chamadas a financiar o
muitas vezes demais e que se tornam, rapidamente, tanto esforço escolar permanecendo no exterior da ação pedagógica, salvo
instrumentos nas mãos dos meios mais favorecidos, tanto vítimas mais uma presença nos conselhos de escola e administrativos. O Relatório
ou menos anuentes (aquiescentes) das estratégias de afastamento. Em Soubré de 1982 dava uma fórmula simples: "A poderes locais fortes,
todo caso, uma verdadeira ideologia do estabelecimento se constituiu, estabelecimentos fortes 30". Mas essa divisão das tarefas que dava aos
fazendo mesmo, às vezes, da descentralização sinônimo de poderes locais a tarefa de pagar e de se ocupar apenas das atividades
democratização. peri-escolares foi, pouco a pouco, questionada. Os poucos trabalhos
O deslize mais notável que se pode observar foi o que permitiu disponíveis consagrados às ações das municipalidades, dos conselhos
identificar esse estabelecimento mais autônomo a uma empresa com gerais e regionais colocam em evidência os novos desequilíbrios e
um dono, assalariados e clientes. Tudo se passou como se, sob o efeito desigualdades que se delineiam. Os projetos (não realizados) de
da atmosfera do momento, todo organismo tendo ganho uma certa Claude Allegre e os projetos (em via de realização) da equipe de
independência não podia ser outra coisa a não ser uma empresa. Raffarin-Ferry mostram que as próximas etapas, se elas ocorrerem,
Enquanto os primeiros argumentos descentralizadores relacionavam consistirão em dar às coletividades territoriais, e em particular às
essa autonomia a um acréscimo de democracia, como o indicam, aliás, regiões, um poder maior de definição da política educativa
os textos de orientação do início dos anos 1980 (o Relatório Soubré (recrutamento, gestão de pessoal, implantação de estabelecimentos e
em particular), se chegou rapidamente a ligar essa descentralização a de formações).
uma mutação "empresarial". O reitor Daniel Mallet foi bastante Um dos grandes argumentos adiantado pelos promotores da
explícito quanto à evolução previsível da reforma que consistiria, descentralização é que os financiamentos das coletividades em favor
segundo ele, em dar aos estabelecimentos públicos locais de ensino "o da educação foram mais elevados que as somas transferidas do Estado
domínio dos meios essenciais de toda a empresa, a saber; a escolha e para essas mesmas coletividades. As despesas das coletividades
a gestão de seu pessoal, e o domínio dos meios essenciais de um territoriais em matéria educativa representam já quase um quarto das
estabelecimento escolar, a saber; a gestão e a escolha de seu corpo de despesas públicas para o ensino e mais de um quinto das despesas
professores 29 " • interiores com educação (incluindo as despesas das famílias), e
continuarão, sem dúvida, a crescer como a isso convidam, de resto, os
Escolas ricas, escolas pobres responsáveis políticos de direita e de esquerda. Esse esforço financeiro
A intenção que animou os descentralizadores dos anos 1980 permitiu um certo reequilíbrio entre as academias, mensurável, por
consistiu em limitar a ascendência das coletividades locais sobre os exemplo, pelo aumento das taxas de bacharéis nas regiões mais
estabelecimentos escolares. Acreditava-se, então, que o status público atrasadas. Sem questionar as carências passadas do estado, se vê nisso,
desses estabelecimentos e a definição central dos objetivos educativos freqüentemente, a prova de uma superioridade definitiva da
que lhes seriam atribuídos seriam suficientes para protegê-los de uma descentralização em matéria de igualdade. Os contribuintes pagaram,

~9. Daniel MALLET, "La nouvelle réalité administrative et pédagogique de l'EPLE ", Administration et
30. Luc SOUBRÉ, Décentralization et Démocratisation deslnstitutions Scolaires, MEN, 1982, p. 24.
Education, 55, 3, 1992, p. 100.

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Descentralização, poderes e desigualdades

assim, mais pela educação em termos do imposto local do que em da contabilidade pública, que distribui nos postos orçamentários
termos do imposto nacional, a fim de assegurar o desenvolvimento da muito variáveis as somas alocadas aos estabelecimentos de diversos
escolarização de massa dos últimos vinte anos3l. níveis. Todavia, a importância do fenômeno é indiscutível. Olhando
Ora, esse acréscimo de financiamento se fez em bases cada vez apenas o financiamento das escolas primárias pelas comunas, sabe-se
mais igualitárias tanto do lado da coleta quanto da despesa. Sabe-se, que essas últimas já contribuem com cerca de 38% dos fundos das
com efeito, que a balança fiscal local é muito injusta socialmente, que escolas das comunas (sem transporte). Segundo uma sondagem da
a pressão fiscal é muito diferente segundo os lugares e que, bem SOFRES citada pelo jornal Le Monde que trata apenas dos créditos
freqüentemente, ela é nitidamente menor nas coletividades mais ricas pedagógicos, cada aluno francês recebeu, em média, 239 francos por
do que nas mais pobres 32 . A descentralização não seria an0 34 . Mas, acreditando nos testemunhos dos professores recolhidos
intrinsecamente desigual, se ela fosse acompanhada por regras claras pelo SNUipp, o sindicato majoritário dos professores do primeiro
e respeitadas, não somente por igual "repartição", mas por verdadeira grau, as somas iriam de 70 a 700 francos segundo os lugares. Outros
redistribuição entre coletividades locais ricas e coletividades pobres. recursos provenientes das coletividades locais vão, às vezes, muito
Isto suporia uma intervenção ativa do Estado árbitro. Ora, é forçoso além das obrigações legais em matéria de construção e de manutenção
constatar que a descentralização acentuou as diferenças de riqueza dos edifícios, a começar pelo financiamento de ateliês, de saídas,
entre as comunas*, departamentos e regiões, portanto entre os viagens e habitações escolares. Isso pode, igualmente, tomar forma de
estabelecimentos que estão longe de receber os mesmos atividades culturais múltiplas animadas por interventores externos ou
financiamentos. a presença de agentes mediadores para lutar contra a violência como
Segundo uma enquete da Federação dos delegados na região Hauts-de-Seine 35 .
departamentais da Educação Nacional, a porcentagem do orçamento Certas municipalidades, conselhos gerais ou regiões também
comum atribuída às despesas com educação era muito variável indo desbloquearam fundos importantes para o equipamento em
de 7% (para 10% das comunas) a 20% (para 5% das comunas). O multimeios dos diferentes tipos de estabelecimento. A diversidade
montante alocado para compra de provisões, pequenos materiais, crescente dos objetivos atribuídos à escola elementar em matéria de
livros escolares, é igualmente muito diferente: menos de 200 francos línguas estrangeiras, de tecnologias, de literatura contemporânea,
para 255 das comunas até mais de 500 francos para 10% das mais recentemente sublinha um pouco mais as desigualdades de
comunas 33 . Certamente as comparações são difíceis pelo próprio fato meios. Os equipamentos das escolas são muito variáveis: assim,
segundo uma pesquisa recente do SNUipp sobre a metade dos
departamentos franceses, se 72% das escolas possuem um computador,
31. O relatório Mauroy sobre o futuro da descentralização (outubro de 2000) nota, assim, que "a face da
França ,-scolar mudou, radicalmente, nesse ponto graças a ação das coletividades territoriais "(p.51) . As são apenas 8% que possuem mais do que 1036 . Em certas regiões, os
cifras sao eloquentes quanto ao desengajamento do Estado: em 1983, o Estado assumia 90% do
finanCiamento livros escolares dos alunos são financeiramente patrocinados pelas
. 'bu' imobiliário dos colégios e liceus com 6,3 bilhões de francos enquanto departamento s e regzoes
. _ '-
so contn Iam com 0,8 bllhoes. Em 1998, o Estada contribuiu com 9,9 bilhões, mas essa soma não
representa maIS do que 32% do investimento total. Departamentos e regiões contribuíram com 21 bilhões
dos qUalS 2,1 bilhões para o ensino superior.
32. Cf. F:ançois CASTA/NG, "Décentralisation: un maillon d'une nouvelle régulation?, Nouveaux
Regards, n- 18, verão 2002. 34. Marie-Laure PHÉLIPPEAU, "École riche, école pauvre, dem"i!re les réalités le choix des maires", Le
33. Bemard TOULEMONDE, Lagratuité de l'enseignement, passé, présent, avenir, MEN, 2002, p. 19. Monde, 22 de novembro de 2001 .
35. Yves DUTERCQ, Politiques éducatives et évaluation, PUF, Paris, 2000, p. 136 et sq.
* Comuna é Uma divisão territorial francesa administrada por uma Mairie, semelhante um município.
36. CE Nicole GENE/X, "Enquête d' argent", Fenêtres sur cour, nº 227, 31 de agosto de 2002.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e deSigualdades

regiões e em outras partes não. A abertura dos estabelecimentos para múltiplas no funcionamento do estabelecimento, nem sempre, de
o exterior favorece a ativação de múltiplos canais pelos quais podem resto, com uma finalidade de melhora coletiva da escolarização de
transitar os financiamentos mais diversos 37 . Os meios socialmente todos ou para favorecer os alunos mais fracos, mas, bem
desiguais das famílias não são negligenciáveis no aporte financeiro às freqüentemente, por cálculo estratégico para defender o interesse de
escolas, graças à cooperativa, aos bingos, às viagens escolares, às seu próprio filho (colocação em boas classes, escolha do professor tido
compras de fotos, às doações de livros, de documentos até mesmo de como o mais competente aos olhos dos pais, mobilização contra os
materiais de informática. Diversas atividades ou produções artesanais cursos de sábado de manhã, etc.). Para Yves Careil, não há dúvida
da escola, a mobilização das cooperativas, amigos, associações de pais, alguma de que a escola pública é assim "colocada em leilã0 39 ". Essa
as diferentes formas de patrocínio das festas e concursos podem, desregulação dos financiamentos é um dos vetores que, pela
igualmente, contribuir para alimentar o caixa das escolas. A enquete adaptação às dimensões locais, quer dizer, freqüentemente sociais do
da SOFRES citada anteriormente indica que 20% dos recursos público, permite diferenciar a "oferta escolar" segundo os meios
pedagógicos das escolas provêem desses diversos expedientes. sociais. A igualdade de tratamento dos alunos no território francês
Se a coisa não é nova, pode-se, todavia, se preocupar pelos não somente não se tornou uma realidade mas, com a
efeitos da "localização" cada vez mais afirmativa do sistema escolar. descentralização, ela não é nem mesmo mais um ideal regulador.
Com a dependência crescente em face dos financiamentos privados Passando da igualdade abstrata à desigualdade assumida, o progresso
ou locais, observa-se, em matéria de condições materiais, uma não é evidente.
polarização cada vez mais profunda entre as escolas pobres para os Controle local e mutação dos valores
filhos de pobres e as escolas luxuosas para as crianças dos ricos. Do Essa territorialização não igualitária tem um papel não
mesmo modo, o custo suportado pelas famílias, às vezes muito elevado negligenciável na transformação do sistema de valores no interior do
no momento do início das aulas, é muito variável. Segundo a enquete sistema educativ0 40 . Se a intervenção das municipalidades não é
da Confederação Sindical das Famílias (custo da escolaridade 2000 , recente, uma ruptura aparece assim que se considera não somente a
agosto de 2000), o custo do início das aulas para um aluno em BEP amplitude do financiamento descentralizado como se acaba de fazer,
terciário era de 3.000 francos, em BEP industrial de mais de 4.000 mas também a implantação de verdadeiras políticas educativas
francos 38 • Essas desigualdades múltiplas devem ser recriminadas pela territoriais.
parte crescente que nela tomam certos pais muito mobilizados e cada As coletividades locais são logicamente pressionadas a não
vez mais profissionais na vida da escola, fazendo de sua participação mais se contentarem em ser simples figurantes, privados do controle
no conselho da escola ou da administração, meio de pressão sobre os dos conteúdos e dos resultados e a se engajar, ao contrário, nas novas
professores, intervindo a diferentes títulos e por ocasião de atividades ações situadas no centro da atividade pedagógica. Hubert
Chardonnet, presidente da rede francesa de cidades educadoras, dizia

37. Sobre o conjunto desses aspectos, cf. Yves CAREIL, De i' école pubiique à i' écoie iibérale, socioiogie d'um
changement, Presses universitaires de Rennes, rennes, 1998, e parriculannente, p. 167 et sq. O autor mostra 39. Yves CAREIL, "L'école pubiique à i'encan", Le Monde dipiomarique, novembro de 1998.
bem que em certas escolas "o dinheiro surge das paredes" e que os excedentes de tesouraria são aplicados 40. Cf. Agnes VAN ZANTEN, "L: acrion éducative à l' échelon municipai : rappoTt aux vaieurs, orientarions
enquanto para outros faltam, mtelmente, os meios. et modes d'intervention", in François CARDI e André CHAMBOM, Métamorphoses de la formation,
38. Cf. Bernard TOULEMONDE, OI'. cit., p. 17. L:Hartmattan, Paris, 1997.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização. poderes e desigualdades

nesse sentido: "Nós não queremos mais ser considerados como caixa, utilizar o projeto para ampliar sua margem de intervenção, para
mas como verdadeiros parceiros. Isso significa participar na definição "gerir" a evolução das práticas de ensino e para tomar visível seu
dos projetos, determinar os objetivos, o método e os meios, depurar as "investiment044 ". As empresas locais são igualmente solicitadas a
competências e as responsabilidades de cada um, no respeito dos intervir mais quer se trate de formação profissional, de parceria
programas definidos em escala nacional"41. Desde as leis de "cultural" ou às vezes mesmo de ação de formação destinada aos
descentralização, as coletividades investiram em um novo campo que professores, sob a forma de convites a colóquios e a seminários onde
lhes traz uma grande legitimidade, na medida em que a escolaridade eles encontram os dirigentes e os chefes de empresa, encontros que
das crianças é uma preocupação essencial de muitos eleitores. Como permitem difundir novos valores das competências e um léxico
salientam, rivalizando os porta-vozes das coletividades territoriais, "modern045 ". As ações locais se acompanham, às vezes, por discursos
esses são os limites e as lacunas das políticas nacionais que propiciam anti burocráticos primários que denunciam "a hierarquia que
essas intervenções locais, com o risco de transgredir o próprio quadro bloqueia" e "os regulamentos que paralisam", etc., para melhor
da lei, como dá exemplo o Conselho Geral de Hauts-de-Seine, valorizar as virtudes da flexibilidade e da proximidade. Além disso, as
avançando sobre o assunt042 . Segundo seu Plano para o Sucesso na atividades propostas nos "ateliês" municipais são às vezes apresentadas
Escola (PRE), esse conselho geral quer instalar "ateliês inovadores" como mais capazes de interessar os alunos do que os cursos da escola,
para a sustentação escolar, tenciona tratar as questões de incivilidade e isso, no momento onde os "contratos educativos locais" legitimando
e de violência e projeta mesmo "equipar todos os colégios com um o papel educativo das coletividades locais, tendem a colocar as
sistema de fiscalização telemonitorada". atividades sócio-culturais das coletividades locais no mesmo nível das
Essa evolução está longe de ter os efeitos positivos geralmente atividades escolares, até mesmo em concorrência com elas 46 . As
apregoados, em particular em termos de eficácia e de igualdade. Os coletividades locais amam se apresentar como portadoras de
pais mais mobilizados e os mais disponíveis se põem a "colonizar a modernização, enquanto os reformadores do sistema escolar contam,
escola", enquanto os professores são convidados a se converter em por seu lado, com essa intervenção na escola para favorecer a
"empreendedores associativos ou políticos locais". A multiplicação mudança pedagógica e organizacional. O Conselho Geral de Hauts-
das intervenções exteriores, que podem talvez satisfazer as aspirações de Seine se define, voluntariamente, como um "laboratório de
à "abertura" e à "expansão" de certas faixas favorecidas de pais e inovação educativa" aplicando políticas que respondem a uma
obedecer também à preocupação eleitoreira das municipalidades, demanda e servem de alavanca para fazer todo o sistema se mover47 .
pode diminuir o tempo de aprendizado fundamental e prejudicar os Salientando as carências do Estado, deslegitimando sua função e suas
alunos mais fracos 43 . pretensões, essas políticas territoriais conduzem a "soluções"
Agnes van Zanten, sobre os "projetos de ação educativa" discutíveis como as que consistem em recrutar os "grandes irmãos" das
salienta que "as municipalidades têm prioritariamente tendência a

41. Citado por Dominique GLASMAN, "Refléxions sur les "contTats" en éducadon", Ville-École- 44. Agnés VAN ZANTEN, artigo citado, p. 179.
Intégration, nº II7, junho de 1999, p. 89. 45. Ibid., p. 180-181.
42. Cf. as enquetes efetuadas por Yves DUTERCQ, op. cito 46. Yves DUTERCQ, op. cit.,p. 126-127.
43. Cf. RelatÓTiodeJean FERRIER, op. cito 47. Ibid., p. 145.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Descentralização, poderes e desigualdades

cidades para resolver os problemas de violência nos colégios e nos "serviços" definidos pelas coletividades territoriais e, em particular, a
liceus. produzir competências para as empresas.
No total, as políticas locais em matéria de educação aceleram O governo de Jean-Pierre Raffarin pretende acelerar o processo
as transformações gerenciais e desreguladoras da escola que vê, assim, de descentralização em matéria educativa, seguindo as
sua autonomia reduzida. Elas dão um poder de controle sobre os recomendações do relatório da Comissão para o futuro da
conteúdos e os métodos e reforçam as avaliações mais quantitativas da descentralização (outubro 2000) presidida por Pierre Mauroy49. A
ação educativa. Desse modo, impõem aos professores restrições ligadas "organização descentralizada" da República terá conseqüências sobre
à lógica eleitoral de visibilidade máxima (criar o acontecimento) e de o sistema educativo. Sem prejulgar as experimentações plurianuais
rendimento político dos resultados escolares. Elas as submetem aos previstas pelo governo, pode-se esperar que os eleitos das regiões dêem
jogos complexos dos interesses sociais e econômicos locais, que a conhecer os votos de ampliação de suas competências em matéria de
conduzem a condicionar, às vezes, certas ajudas e subvenções à educação e de formação. Desde o dia seguinte ao anúncio do projeto,
manifestação de uma lealdade política. Ainda mais, essa os responsáveis da região Rhône-Alpes, pela boca da presidente
descentralização, especialmente em nível regional, pressiona a Anne-Marie Comparini, davam a conhecer seu desejo de uma
transformar sempre mais a escola em fornecedora de "competências" transferência global do "bloco educativo" para a região, dizendo-se

para as empresas locais. A legitimidade das políticas locais em termos prontos a exercer "uma competência exclusiva, plena e inteira" sobre

de prosperidade e de emprego, que determinam por um lado a sanção todos os níveis, do primário até o superior, sem esquecer a formação

eleitoral, conduz muito rapidamente os eleitos a se tomar por quase- continuadaSo . O aprofundamento da descentralização em proveito das
regiões, se arrisca fortemente a aumentar a dependência das
patrões, com direito de fazer dobrar todo funcionário que ousasse
formações em face dos financiamentos do setor privado e de acentuar
resistir às vontades das coletividades locais. Como salienta Yves
ainda mais a lógica de adaptação às características do mercado local
Dutercq a propósito da nova forma escolar experimentada pelo
de emprego, sob a pressão dos meios econômicos e por razões
Conselho Regional de Hauts-de-Seine, chega-se, assim, à
eleitorais evidentes.
constituição "de um verdadeiro pequeno Estado-nação" capaz de
Não é seguro que essa transferência das competências do
substituir o poder central graças a seus consideráveis meios
"bloco educativo" seja objeto do grande debate político que ele
financeiros 48 . A descentralização é um modo de modificar o próprio
merece, tal o consenso até o presente, entre a esquerda ex-
sentido do trabalho, o status e a ética do pessoal que o realiza. Em
governamental e a direita, sobre o assunto. Isso não devia, no entanto,
outros termos, ela não é somente um modo inteligente de encontrar
impedir de se perguntar sobre o sentido e os efeitos da localização da
novos financiamentos ou de definir os meios, permitindo melhor
ação educativa. Não é possível, hoje em dia, raciocinar sem dar lugar
atingir os fins da escola pública como queria a esquerda
descentralizadora, mas, pela retirada do Estado, tende a modificar
esses últimos fazendo da escola uma agência local destinada a prestar
49. Esse relatório foi pronunciado por um poder Tegional fortemente beneficiário de impoTtantes
transferências de competência, notadamente em matéria de universidade, de pesquisa, de fonnação
profissional. Isso devia ser em particular a região que decidiria, financiaria a construção das univeTsidades e
como ela telia a plenitude dos meios da formação profissional.
50. Jean-Baptiste MONTVALON, "Rhône-Alpes veut expérimenteT un transfert de compétences sur
48. Ibid., p. 153.
l'ensemble du "b/oc éducatif' , Le Monde, 5 de outubro de 2002.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
A "modernização" da escola

à dimensão territorial das políticas de educação. Mas essa igualdade sobre o território, tanto no que conceme às contribuições
preocupação do local, serve para acentuar as desigualdades ou visa a fiscais e às ajudas às famílias quanto no que conceme aos meios de que
reduzi-las? Serve para aumentar ainda a mistura dos poderes opacos dispõem os estabelecimentos escolares. Notemos que os responsáveis
sob pretexto de "govemança" onde mais ninguém, coletividades, políticos não assumem a escolha e os efeitos dessa não-regulação -
Estado, famílias, empresas, é claramente responsável em matéria de visto que esses efeitos vão de encontro aos votos da população - e que
educação? Ou visa aplicar uma democracia local mais efetiva? A eles não se precipitam para remediar essa desigualdade territorial da
valorização do local por si mesma é fonte de confusão. Numerosas qual os meios populares são as primeiras vítimas.
lutas e reivindicações em favor de uma educação pública de melhor À força de colocar ênfase na "autonomia do estabelecimento"
qualidade se exprimem em nível local, como se viu nesses últimos face aos escalões superiores da administração, negligenciou-se a
anos tanto nas grandes greves de 1998 em Seine-Saint-Denis quanto "autonomia da escola" em relação às empresas locais e familiares, por
em 1999 e 2000 nos departamentos de Gard e de Hérault. conseqüência deixaram-se jogar múltiplas formas de desigualdade,
Constatemos igualmente que o espaço local tomou-se um espaço como se os combates antigos para o direito universal à educação
privilegiado da não-regulação, na qual se exprimem lógicas de estivessem ultrapassados. A vontade política de defender a igualdade
privatização da educação pública e onde se defrontam, diretamente, não implica dizer que todos os estabelecimentos devam ser idênticos.
relações de força políticas e econômicas. Quer, sobretudo, dizer que os responsáveis e os agentes da instituição
O exemplo do ensino profissional é, sob essa visão, para se escolar, no quadro da missão de interesse geral que lhes é confiada,
meditar51 . Os empregadores têm geralmente preferido o caráter local, devem se beneficiar de liberdades reais para levar adiante essa
mesmo regional, desse currículo na medida em que o controle de equalização, não para dela se afastar. Vê-se então que a autonomia da
proximidade sobre a formação é muito mais eficaz que o controle escola, maior liberdade de organização e objetivo político de
longínquo por via das ramificações profissionais e pelas diversas equalização poderiam se pôr de acordo e abrir um outro caminho.
comissões paritárias que estabelecem as certificações nacionais. A Condições iguais de educação, ao menos o mais iguais possível,
regionalização do "bloco educativo" se arrisca fortemente a acentuar supõem uma redistribuição importante de meios e de soluções
os fenômenos de regionalização de oferta, mas talvez também de organizacionais e pedagógicas diferentes mas cuja diferença seja
diplomas, fragmentando assim, um pouco mais, os modos de sempre subordinada à missão de universalização dos saberes. Não mais
certificação e fazendo-os perder sempre mais de seu caráter universal. do que a uniformidade, a diversidade não cria a igualdade. É a própria
A desigualdade geográfica - e indiretamente social também - igualdade que solicita, em certos domínios e em certos momentos,
em matéria de prestações e de despesas escolares cresce diferenças práticas e materiais.
consideravelmente na França e pode-se temer que essa tendência se
acentue com o aprofundamento da descentralização. A questão se
coloca, então, de saber se o Estado ainda tem por missão assegurar a

51. Cf. Gilles MOREAU (coard.) , Les Patrans, I'État et lafonnarian desjeunes, La Dispute, Paris, 2002.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAPÍTULO 11

o novo ~~gerenciamento educativo"

A função atribuída à escola na formação das competências e os


objetivos de eficácia que lhe são fixados encontram no sistema
educativo sua seqüência lógica sob os auspícios da "revolução
gerencial"!. Essa última tem por objetivo gerir a escola como uma
empresa. Essa evolução é ainda apresentada como uma resposta às
aspirações da base a mais liberdade, mesmo a mais democracia. Mas,
os hábitos do novo gerenciamento não devem enganar. Certamente
os argumentos fundamentados nos defeitos do centralismo têm peso,
assim como a aspiração dos "atores" a mais autonomia. Mas, sob
pretexto de descentralizar e de desburocratizar, nós assistimos a
transferências de poder que não correspondem às lógicas oficiais e que
também não têm os efeitos esperados. Não é a democracia que triunfa,
não é nem mesmo a iniciativa de base que é diretamente encorajada,
concepções que permanecem fundamentalmente estrangeiras ao
léxico da burocracia francesa, mas evoluções que reforçam a empresa

1. Michel CROZIER, "Le systeme escolaire face à la révolution manageriale", Éducation et Management,
n' 7, junho d '991. Cf. Igualmente Claude DURAND-PRINBORGNE, L'Éducation nationale, Nathan
Université, Paris, 1992, p. 30. Luc BOLTANSKI, "America, America .. .Le plan Marshall etl'importation
da management", Actes de la recherche en sciences sociales, nº 38, maio de 198, p. 19-41 .

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o novo "gerenciamento educativo"

de controles e prescrições sobre os professores e, por conseqüência, universidade americana, gigantesca e fragmentada, estava, ela
sobre os alunos. também, sob o jugo dos administradores 4.
Na realidade, a imitação da empresa teve como É a hora, portanto, para reforço das hierarquias intermediárias
prolongamento lógico a vontade de colocar no comando das unidades na França. Os administradores devem se converter em gerentes
descentralizadas, "verdadeiros chefes" encarregados de aplicar capazes de encarnar, graças à sua nova identidade profissional, a
eficazmente as políticas de modernização decididas pelas altas esferas escola neoliberal, gerentes que "fazem prevalecer a utilidade e a
e capazes de mobilizar as energias; de introduzir as inovações e de eficácia em todos os seus domínios como valores pertinentes 5". Mas,
controlar os professores na base. Os partidários mais autênticos do na realidade, está sob as ordens dos decididores de alto nível
neoliberalismo escolar insistem muito sobre a importância de um (gabinetes ministeriais, diretores e reitores) todo o enquadramento
verdadeiro "leader" no comando das escolas, contrapartida que deve formar um bloco nessa estratégia modernizadora. Isso supõe
organizacional essencial à constituição de um mercado escolar2. uma linha de comando mais eficaz, a consolidação de uma "cultura
Compreende-se bem a lógica: se a escola é uma empresa produtora de comum" do enquadramento graças a uma formação semelhante e a
um serviço, se ela depende de uma eficácia mensurável, se seu custo referências idênticas e, enfim, um poder ampliado do responsável
deve ser controlado ou reduzido, é preciso instalar no comando da local para impor, na base, as "inovações".
"organização aprendiz" um verdadeiro organizador que seja capaz de O novo espírito do enquadramento se impõe em detrimento da
dirigir uma "equipe" e que possa ser tido como responsável pela autonomia profissional relativa que a tradição concedia aos
produção de "valor agregado" de sua "empresa". professores mas que é vista hoje em dia como muito cara. A mutação
Apesar das repetidas declarações sobre a "modernização", essa não se limita à França. Nos anos 1980, os trabalhos do ISIP (Projeto
"reorganização gerencial da Educação NacionaP" não é original, internacional para melhora do funcionamento da escola) financiado
como o mostram as evoluções que outros sistemas escolares pela OCDE definiram o quadro dessa reorganização centrada nos
conheceram. Viu-se quanto a escola americana tinha, precocemente, chefes de estabelecimento como vetores de inovaçã0 6 . Mesmo se é
seguido essa via desde a época do taylorismo triunfante. Os sobretudo nos colégios e liceus que se vê mais claramente essa
administradores da escola se tornaram novos "capitães de educação" transformação, ela se anuncia também no nível da escola elementar
cuja identidade estava construída sobre o modelo dos capitães de bem como no da universidade. Certamente, há ainda distância da
indústria. Admiradores dos chefes de empresa, de seus métodos bem mitologia nova e a realidade e seus implementadores. Numerosos
como de seus sucessos comerciais e financeiros, eles partilhavam as chefes de estabelecimento estão, no mínimo, céticos quanto ao novo
mesmas concepções da sociedade e do indivíduo e apresentavam
muitas vezes as mesmas características sociais e mentais. A

4. Clark KERR constatava desde os anos 1960 que a era dos "gerentes" era chegada para a universidade como
para o resto da sociedade, in MétamOlphose de l'Université, Les Édirions ouvrieres, Paris, 1967, p. 35.
5. Cf. Yves GRELLlER, ");encadrement: force ou faiblesse de l"ecole française", Adminiso-arion et
éducarion, n' 77, I º Trimestre, 1998, p. 25.
6. Cf. C. HOPES (dir.) Le chef d'établessement et améliorarion du foncrionnement de l'école. Études de cas
2. Cf. lhon E, CHUBB e Terry M. MOE , Polirics, Markets, and America's Schools, op. cit., p. 56 et sq. dans dixpays de l'OCDE, Economica, Paris, 1988 e N. ESK1LSTEGO, K. GIELEN, R. GLATTER, S.
3. Cf. Lise DEMAILLY, T évolurion actuelle des méthodes de mobilisarion et d' encadrement des HORD, Le Rôle des chefs d'établissements dans l'amélliorarion du foncrionnement de l'école, Economica,
enseignantes", Savoir, 5, janeiro-março de 1993. Paris, 1988.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o novo "gerenciamento educativo ..

curso imposto pela alta administração, sobretudo se seu papel se permanece com a regra, o mercado e a concorrência só sendo aceitos
traduz por novas "responsabilidades" que a cúpula teima em lhes com a condição de que não recoloquem radicalmente em questão o
impor. poder da alta administração.
O fim político é, com efeito, fazer da escola uma máquina
Democracia ou hurocracia? eficaz a serviço da competitividade econômica. Não é mais a
As aparências enganosas que caracterizam a situação francesa vigilância moral e política sobre os professores que importa,
conduzem a perguntar se a reforma empresarial da escola atinge bem principalmente. Se é preciso aumentar as vigilâncias de detalhe,
o objetivo oficial que lhe atribuiu a esquerda no poder, há vinte anos, impor um poder de proximidade, é sobretudo para aumentar a
a desinchação da hipertrofia administrativa e a delegação do poder à "performance" dos professores e melhor fazê-los servir aos novos
base. A descentralização das responsabilidades e dos controles, a objetivos econômicos e sociais da escola. O critério de avaliação,
maior autonomia deixada ao estabelecimento com relação ao centro, afirma-se, não é mais tanto a conformidade às normas intelectuais,
a transferência de mais poder para a periferia, foram apresentadas morais ou simplesmente administrativas como na escola antiga, mas a
como progressos democráticos realizados para aproximar o cidadão "produtividade" pedagógica dependente de uma avaliação
dos locais de tomada de decisão. Por trás das grandes palavras, é supostamente objetiva do "valor agregado", pelo estabelecimento
sempre preciso considerar as verdadeiras jogadas do poder, as escolar. Em outros termos, a administração escolar, em sua
estruturas e as crenças políticas, as estratégias dos "atores", em preocupação de racionalização mais potente do ensino, empresta
particular da alta administração. remédios e retóricas do gerenciamento privado pretendendo, assim,
A descentralização e a desconcentração não fizeram crescer melhor adaptar a escola à "demanda social". Afirmando responder à
em nada a democracia, que permanece uma palavra freqüentemente aspiração por mais liberdade dos "atores", ela estende seu direito de
desconhecida no "campo de batalha". Tiveram antes tendência a olhar e suas prescrições ao domínio pedagógico, e pretende
dissolvê-la nas engrenagens complicadas e obscuras da "governança" desenvolver os "métodos de mobilização" do pessoal em um desejo de
onde os níveis de poder se confundem7. Se, como se acaba de ver, a eficácia9 . Se essa eficácia social e econômica provém, em grande
evolução recente conduz de um lado a uma desconstrução da ação parte, da pedagogia, toda a administração deve se organizar a fim de
pública concreta, à sua fragmentação e a desigualdades crescentes no poder modificar e controlar as práticas profissionais o mais próximo,
território nacional, por outro lado parece ser uma realização autêntica e se possível dentro, das próprias salas de aula.
do projeto burocrático. A não-concentração permite, com efeito, ao No ensino secundário, sobretudo, as hierarquias intermediárias
Estado, manter o poder de decisão estratégico remetendo-se aos seus tornadas mais "responsáveis" são assim consideradas capazes de
níveis intermediários ou a agências externas, para melhor fazer retomar o controle dos professores julgados muito autônomos, muito
executar as diretivas e as instruções as quais ele controla mal ou cuja solitários, muito anárquicos. Ao mesmo tempo, pela centralização do
realização não pode mais controlars . O controle pela cúpula corpo de chefes de estabelecimento e pela concentração do

7. Cf. François CASTAING, art. cito


8. Michel SOUSSAC, "I.; émergence d'une politique de l' encadrement", Administration et éducation, n' 45, 9. De modo muito sintomático, certos representantes das administrações íntennediárias se queixam de não
p.16-17. poder penetrar a "caixa preta" das salas de aula.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
o novo "gerenciamento educativo ..

recrutamento, da formação, da gestão de enquadramento, a alta autonomia e de resolver assim a crise do recrutamento e os problemas
administração quer dispor de um corpo composto de "funcionários de colocados pela "motivação I2 ".
autoridade de proximidade", fiéis executores das ordens centrais. Essa "filosofia" foi amplamente retomada nas novas correntes
Tudo se passa como se o essencial para a administração central fosse do "gerenciamento público". Como dirigir de outra maneira, uma vez
dispor de um revezamento mais eficaz e sobretudo mais "leal" no que não se deve mais se contentar em aplicar as ordens vindas do alto
controle da base de professores a fim de bem executar as mas deixar os atores da base encontrarem soluções ad hoc? E como
transformações do modelo educativo, decididas do alto. A nova adaptar as receitas do privado em um quadro educativo que não é
organização permite estabelecer as ligações de dependência mais totalmente assimilável a uma produção de mercadoria? Numerosas
estreitas e mais diretas entre a direção central, os reitores e os reflexões, contidas em uma literatura destinada à edificação de novos
estabelecimentos. Longe de ser "moderna" essa reforma, que reforça o quadros, procuraram melhor cercar a essência do novo chefe do qual
escalão intermediário da administração integrando-o melhor em uma teria necessidade o estabelecimento autônomo: ao mesmo tempo
cadeia de comando única e racionalizada, tem todas as chances de gerente mas também qualquer coisa "a mais", uma vez que conviria
reforçar o conformismo e a obediência esperados dos funcionários satisfazer à especificidade do ensino. É a um trabalho de compromisso
executores, na França, em vez de incitá-los a confiar nas iniciativas do que se deve, portanto, uma ambiciosa "filosofia do gerenciamento
pessoal que está na linha de frente. educativo" (sic).
Nessa literatura do "gerenciamento educativo", o hábito é
Filosofia do gerenciamento educativo geralmente uma retórica prolixa, como se fosse preciso dar um pouco
A reorganização do poder faz oficialmente apelo a "formas de sublime ao triste vocabulário da gestão. O gerenciamento é ao
suaves" de gerenciamento, às vezes qualificado de cooperativo, de mesmo tempo a liberdade reconquistada, a ética reencontrada, a
participativo, mesmo de educativo 10 . No espírito desse novo justiça realizada, a democracia realizada, em uma palavra, o fim do
gerenciamento alastrado desde os anos 1980 no setor privado, trata-se velho mundo l3 . Os gerentes no máximo da modernidade proclamam,
de liberar as iniciativas pessoais para colocar a serviço da perto de dois séculos depois da fundação da religião industrial por
produtividade e da performance toda a energia física, intelectual e Saint-Simon e nos próprios termos do grande profeta, que o
afetiva de que é capaz o indivíduo "liberado", instaurando ao mesmo gerenciamento vai pôr fim ao "princípio da autoridade" e fazer a
tempo, para impedir todo desregulamento atípico das escola entrar na era da troca generalizada: "A filosofia do
individualidades sem freios, um modo novo de sujeição gerenciamento se apma nos valores do contrato, da negociação, do
fundamentado na aceitação de uma cultura de empresa, a assinatura consertar, do projeto. Ela permanece, todo o tempo, em perfeita
de um "contrato", a definição de objetivos avaliados ex post. À coerência com os objetivos educativos e a necessidade de organizar a
primazia da unidade periférica e local acrescenta-se a valorização do vida eminentemente complexa das "comunidades" escolares. É por
individuaPl. Trata-se de colocar a serviço da organização os desejos de

10. Cf. Francis BÉGYN, Yves DUTERCQ e Jean.Louis DERQUET, in L'Évolurion des mériers de 12. Cf. o dossier "Lo logique managéliale en question », Nouveau Regards, no 18, verão 2002 e em particular
l' encadremem de I' éducation, des savoirs académiques QUX compétences stratégiques, MEN, université d' été, o arrigo de Daniel Rallet, " Management éducarif et managemera d' entreprise ".
28·31 de outubro de 2000, p. 23. 13. Esse discurso vanglmia, por toda parte a felicidade no trabalho, tema eminentemente político, bem afastado
11. Cf. Sobre esse ponto, Luc BOLTANSKI e Eve CHIAPELLO. das constatações realistas estabelecidas pelos sociólogos e psicólogos da trabalho.

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A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA o novo "gerenciamento educativo"

esse desvio que a noção de autoridade pode encontrar todo o seu todos os males. Suas virtudes são múltiplas: adaptação local,
sentido e sua legitimação. É também o que faz a superioridade descoberta de soluções originais pelas equipes pedagógicas e,
metodológica do gerenciamento: ele é ao mesmo tempo coerente, sobretudo, instauração de um consenso ao qual devem aderir os
mais caloroso e mais eficaz. [... ] O gerenciamento é a perspectiva final "partidários" do estabelecimento. Tem ainda a vantagem de poder
da educação (ênfase do autor)!4". No mesmo espírito, Guy Delaire ligar a gestão administrativa geral do estabelecimento e o que se
nota que "o chefe do estabelecimento pratica uma forma de desenvolve na "caixa preta" da sala de aula.
gerenciamento indissociável do ato pedagógico na medida em que o Em todo caso, no "gerenciamento participativo" não se decreta
fim visado é a revelação do indivíduo a si mesmo, pela descoberta mais. Os chefes são animadores. Eles suscitam e dinamizam a
depois pela melhoria de suas potencialidades!5". confiança, eles mobilizam os afetos ("um projeto deve ser escrito com
A chave da "desburocratização" à qual são convidados os palavras que ressoem no coração daqueles a quem ele concerne!8").
administradores apega-se ao bom uso das ferramentas do Nesse universo o eufemismo é rei. O poder é doravante uma "gestão",
"gerenciamento participativo" cujo aspecto principal é o projeto!6. o comando é uma "mobilização", a autoridade é uma "ajuda": "dirigir,
Cada estabelecimento em função de suas características locais, de suas hoje em dia, não é mais comandar mas motivar; não é mais vigiar mas
necessidades, dos meios sociais de onde são provenientes os alunos, ajudar; não é mais impor mas convencer; não é mais se perder na
tem que elaborar um documento que define sua política específica, o complexidade mas delegar!9". Dirigir é "assegurar um leadership*", é
qual, uma vez avalizado pelas instâncias da reitoria, lhe serve de "gerenciar", é "animar", e sobretudo é "educar". Esse novo estilo de
"bússola". Introduzida primeiramente a título experimental, a "gestão dominação fundamenta do no " batamento " e no "
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por projeto" tomou-se uma obrigação dos estabelecimentos na lei de proclama que o tempo do "fim da autoridade" é chegado: "Nós
1989. Sustentado de início pelas preocupações democráticas do vivemos uma época histórica de descondicionamento à autoridade",
ministro Savary, fundamentando-se, progressivamente, em uma massa dizem os reformadores modernistas. Essa negação do poder teve por
de referência cada vez mais heteróclitas, o projeto se tomou no fim virtude principal recuperar a contestação libertária dos anos
dos anos 1980 a panacéia supostamente capaz de introduzir a precedentes e de encontrar a complacente neutralidade das correntes
mudança radical da qual o sistema educativo teria necessidade!? ex-autogestionárias (SGEN, grupos de renovação pedagógica,
Tema central da nova concepção, principal ferramenta do novo sociólogos seguidores de Tourain, etc.). No entanto, o
poder, o projeto supostamente combate o centralismo dos programas neogerenciamento escamoteia a verdadeira questão política, a única
e métodos em matéria pedagógica, endemoniado como a fonte de questão que incomoda: onde está a democracia na escala dos
estabelecimentos, das disciplinas, das instituições em geral?
Para melhor justificá-lo, o gerenciamento participativo foi
14. Christian V1TALI, "La vie scolaire et le management", Cansei/ler d'éducation, n' 102, outubro de 1990. confundido com a democracia. Ora, essas duas formas de poder têm
15. Guy DELAIRE, Le Chef d'étab1issement, Berger.Levrault, Paris, 1993, p. 259. Cf. Também Guy
DELAIRE, " Diriger, est·ce commander ? ", Éducation et management, n" 3, janeiro de 1990.
16. Luc Boltanski e Eve Chiapello fazem do l}fojeto o corQ{ão do "novo esPírito do capitalismo". Na Educação
Nacional, é uma noção genérica que permite articular diferentes planos sem nenhum respeito por sua
18. Christian BEULLAC e Bernard MALCOR, "UH projeto pour l'entreprise", Politique industrielle, n" 1,
autonomia: projeto de estabelecimento, projeto pessoal de ensino, projeto do aluno mas também projeto do
Estado, da região, do departamento, da comuna .... outono 1985. .
19. Segundo a palavra de Maurice BERRARD, é "mais fácil dizer do que fazer", Education et management,
17. Para um estudo dos projetos e cartas(esattuto) , das empresas, cf. Jean·Pierre LE GOFF, op. cito
janeiro de 1990, no 3, p. 3.

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pouco em comum. A dominação, a subordinação, o comando e empresa 22 ". Mas de que tipo de empresa se trata? Que modelo de
mesmo a autoridade tomam-se palavras tabu: trata-se, mascarando o gerenciamento é preciso importar nos serviços públicos?
poder exterior, de obter do assalariado uma adesão a um poder A estratégia empresarial busca passar de uma definição ainda
invisível, de obter que ele se discipline, se motive, se sancione e não "artesanal" ou "liberal" dos ofícios a uma concepção racionalizada das
esconda mais nada do que ele faz 20 . Esses métodos de poder estão tarefas. Essa definição tradicional dos ofícios e das profissões é julgada
destinados não a extrair, por uma livre deliberação, uma política efetivamente, por essência, ineficaz. Mas, os procedimentos propostos
plenamente ou parcialmente autônoma, mas a mobilizar recursos podem parecer contraditórios, afastados entre uma via neotayloriana
individuais para aumentar a eficácia do trabalho dando a aparência de e uma via pós-tayloriana. A primeira se traduz pelos: crescimento dos
uma "consulta" e de uma "participação" dos subordinados. Permitindo controles, prescrição incrementada das taxas, a padronização dos
"fazer passar" as reformas 21 , visam à interiorização dos objetivos e das procedimentos, centralização da informação, aumento do tempo
restrições da empresa e não a uma estimulação do conflito ou a um restrito, por uma fiscalização mais rígida e um peso crescente dos
desenvolvimento das capacidades de auto-organização coletiva em peritos externos. A segunda se manifesta pelo gerenciamento
tomo de uma ética partilhada. É o ponto de vista da eficácia e da participativo do qual falamos anteriormente. Lise Demailly e Olivier
mobilização para a empresa que domina e não o dos conflitos fecundos Dembinski23 mostram que essa contradição no processo de
e regrados da democracia. Esses conflitos são, ao contrário, negados