Você está na página 1de 14

Ciências humanas: pesquisa em comunicação e linguagem

Francismar Formentão 1

Resumo:

No campo da pesquisa em ciências humanas, em suas diversas esferas de produção, destacam-se contradições como a transformação da ciência em produto de consumo, sua produção em massa, sua fragmentação e a ausência de rigor ético, epistemológico e metodológico, na maioria, resultado de crises na cultura contemporânea. Face a isso, conflitam compreensões unilaterais de métodos e o emprego hegemônico de idéias que produzem conhecimentos unívocos e superficiais. Assim, é importante afirmar para as pesquisas em ciências humanas, a valorização do sujeito humano em sua relação de alteridades e o emprego de métodos com rigor ético. Uma alternativa para a condução de pesquisas em ciências humanas encontra-se no entendimento da linguagem como movimento que constituiu a existência humana, uma compreensão semiótica sobre todo objeto de pesquisa, um movimento de sentido existente na linguagem, que é o principio, meio e fim de toda consciência e existência social. Um estudo na pluralidade de sentidos da sociedade contemporânea, valorizando a diversidade e promovendo a diferença e o respeito a interdisciplinaridade, numa sociedade cada vez mais tecnológica e midiatizada. Também é importante a compreensão de uma comunicação prevalente, seja social (mais ampla e mediada) ou face a face, com a valorização da linguagem e da comunicação em seus conteúdos e formas. Movimentos que constituem uma filosofia da linguagem, como possibilidades de estudos, epistemológicos, éticos, estéticos, ontológicos e cognitivos, numa dialogia de conhecimentos nas ciências humanas.

Palavras-chaves: Ciências Humanas, Filosofia da Linguagem, Comunicação.

Neste estudo busca-se promover algumas reflexões sobre a produção de

conhecimento em ciências humanas além de discutir a possibilidade de pesquisa na

comunicação e algumas proposições da filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin. Em

momento algum esta pesquisa busca absolutizar algum conhecimento ou proposta, em

um eterno devir e inacabamento, pede ao leitor, que promova um dialogismo do texto

apresentado. Pois,

No mundo dos acontecimentos da vida, campo próprio do ato ético, estamos sempre inacabados, porque definimos o presente como conseqüência de um passado que construiu o pré-dado e pela memória de um futuro com que se definem as escolhas no horizonte das possibilidades. Nosso acabamento atende a uma necessidade estética de

1 O autor é jornalista, Especialista em Comunicação, Educação e Artes, Mestre em Letras – Linguagem e Sociedade (Unioeste); docente do curso de jornalismo da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) Guarapuava – PR. E-mail: fformentao@yahoo.com.br.

totalidade, e esta somente nos é dada pelo outro, como criação e não como solução. A vida, concebida como acontecimento ético aberto, não comporta acabamento e, portanto, solução. (GERALDI, p. 47, 2003).

As ciências humanas, em suas diversas esferas de produção, destacam-se contradições como a transformação da ciência em produto de consumo, sua produção em massa, sua fragmentação e a ausência de rigor ético, epistemológico e metodológico. Num tempo de diversidades, as ciências apontam para as instabilidades e indeterminações, principalmente ligadas a impossibilidades e limitações.

Aqueles que se beneficiam com a exclusão, os únicos rumores que ouvem são os humores do mercado. E no mercado atuam seus pares. A estes não interessa pensar o inimaginável e arriscar-se a extrair dos acontecimentos os conteúdos para o futuro. Interessa-lhes transmitir o conhecido para que o já acontecido permaneça como o único acontecimento possível para o futuro. (GERALDI, p. 49, 2003).

Uma reflexão sobre a condução de pesquisas em ciências humanas encontra-se no entendimento da linguagem como movimento que constituiu a existência humana, uma compreensão semiótica sobre todo objeto de pesquisa, um movimento de sentido existente na linguagem, que é o princípio, meio e fim de toda consciência e existência social. A filosofia da linguagem existente em Mikhail Bakhtin, está na encruzilhada de múltiplas formas de interpretação teórica e metodológica; questões relacionadas a autoria e a traduções de seus textos; as suas raízes epistemológicas – entre outros aspectos – reiteradamente salientadas por inúmeros autores (Cristóvão Tezza, Katerina Clark, Michael Holquist, Irene Machado, Diana Luz Pessoa de Barros, Robert Stam, Beth Brait, Edward Lopes, por exemplo). Todos autores que dialogizam o estudo bakhtinano, mesmo a existência de perspectivas diversas, em nada desabona a reflexão sobre a filosofia da linguagem, e sim, na diversidade se cria um campo rico e pertinente de estudos e produção do conhecimento. A pertinência e a atualidade teórica e metodológica de Mikhail Bakhtin são demonstradas pelo acúmulo de pesquisas realizadas no Brasil nos últimos anos, assumindo esses aspectos salientados, uma condição de enfrentamento necessário ao pesquisador e não um óbice. De fato, a

responsáveis pela sua repercussão, está a formulação de uma complexa malha conceitual, construída nos interstícios de diversos domínios das Ciências Humanas (a Filologia, a Filosofia da Linguagem, a Lingüística, a Sociologia, a Estética, a História, a Antropologia) e, por isso mesmo, capaz de produzir questões, de orientar abordagens e de apontar caminhos de pesquisa que não se esgotam em uma única disciplina acadêmica. Essa natureza interdisciplinar pode explicar o fato de que a obra do Círculo tenha sido incorporada e articulada a diversos outros teóricos, das formas as mais variadas. (GRILLO. In: BRAIT, 2006, p. 133).

Ressaltada essa multiplicidade, a produção temática, a riqueza de conteúdo e método, permitem uma concentração temática fundada em Bakhtin, acompanhada de relevante fecundidade em diferentes áreas do conhecimento científico. A lógica dialética, ou um dialogismo da própria dialética, existente nos textos de Bakhtin e o encadeamento interativo de seus conceitos-chave são relevantes por sua coerência e alcance conceitual nos estudos em ciências humanas, linguagem e comunicação. Os conceitos/categorias deste autor enfeixam dialogicamente as diretrizes nucleares

existentes nas várias áreas científicas, possibilitando a detectação, o registro e o estudo de sua diversidade, de seus fundamentos, de suas interconexões na interdisciplinaridade.

A concepção dialógica da criação verbal engloba a relação vida/cultura, o

real concreto, a formação da consciência dos indivíduos e a materialidade sígnica de todas as produções humanas, dotadas de valor; descentraliza o sujeito e o reconduz à

situação de agente ativo em interação constante e fluída, um sujeito responsivo e responsável. Nessa concepção, a mediação é integrante teórico-prático no plano

volitivo-emocional e ético-cognitivo, unindo o mundo sensível e o mundo inteligível em conteúdo-forma-processo.

A originalidade da filosofia da linguagem não desconsidera a tecnologia

contemporânea. Discurso, enunciado, enunciado concreto e alteridade, são elementos nucleares dessa concepção explicitados em sua materialidade histórica, social e cultural da interação comunicativa. As relações entre linguagem-sociedade-ideologia são examinadas por Bakhtin considerando-se o discurso em sua forma e conteúdo como objeto de significação na cultura social e histórica, que inclui a enunciação (contexto) em suas particularidades (enunciações anteriores e posteriores que são o fluxo de circulação de discursos) e conecta sujeitos interlocutores que se integram em um

processo verbal e extraverbal.

O discurso (produção verbal e não verbal) é mediação para a apreensão do mundo e para a apreensão de si mesmo e do outro no mundo; nos discursos, texto e contexto se envolvem dialogicamente. O discurso:

encontra aquele objeto para o qual está voltado sempre, por assim

dizer, já desacreditado, contestado, avaliado, envolvido por sua névoa escura ou, pelo contrário, iluminado pelos discursos de outrem que já

falaram sobre ele. O objeto está amarrado e penetrado por idéias gerais, por pontos de vista, por apreciações de outros e por entonações. Orientando para o seu objeto, o discurso penetra neste meio dialogicamente perturbado e tenso de discursos de outrem, de julgamentos e de entonações. Ele se entrelaça com eles em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando com terceiros; e tudo isso pode formar substancialmente o discurso, penetrar em todos os seus estratos semânticos, tornar complexa a sua expressão, influenciar todo o seu aspecto estilístico (BAKHTIN, 1998, p. 86).

] [

Determina-se, nesse processo, o horizonte social do enunciador e do enunciatário, o horizonte espacial, o conhecimento e a compreensão-avaliação que ambos têm de uma situação. Bakhtin apresenta a compreensão da importância sígnica, entendendo que o signo está presente em enunciados e enunciados constituem-se signos e são resultados de uma relação com campo social e esfera ideológica definidos. Assim, a totalidade se determina historicamente nas mediações e pelas mediações “pelas quais suas partes específicas ou complexas – isto é, as ‘totalidades parciais’ – estão relacionadas entre si, numa série de inter-relações e determinações recíprocas que variam constantemente e se modificam” (BOTTOMORE, 1988, p. 381). Ou seja, as esferas/campos que se dialogizam, estabelecendo conteúdo e forma sígnica na produção de sentido.

O conceito de esfera da comunicação discursiva (ou da criatividade ideológica, ou da atividade humana, ou da comunicação social, ou da utilização da língua, ou simplesmente da ideologia) está presente ao longo de toda a obra de Bakhtin e de seu Círculo, iluminando, por um lado, a teorização dos aspectos sociais nas obras literárias e, por outro, a natureza ao mesmo tempo onipresente e diversa da linguagem verbal humana. (GRILLO. In: BRAIT, 2006, p. 133-134).

Os signos materializados nas esferas/campos sócio-históricos refratam as relações comunicativas existentes na linguagem e, através da linguagem, refletindo e refratando a própria materialidade ideológica sígnica.

No domínio dos signos, isto é, na esfera ideológica, existem diferenças profundas, pois este domínio é, ao mesmo tempo, o da representação, do símbolo religioso, da fórmula científica e da forma jurídica etc. Cada campo da criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua maneira. Cada campo dispõe de sua própria função no conjunto da vida social. (BAKHTIN, 1995, p. 33).

Eixo central do pensamento baktiniano, o dialogismo (relações discursivas entre homem-mundo, homem-natureza e sujeito-objeto do conhecimento) ocorre entre discursos que interagem na comunicação e, nessa interação, produzem o processo de significação. “O discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio etc”. (BAKHTIN, 1995, p. 123). Através da linguagem, os discursos são produzidos em condições específicas (enunciação), estabelecendo formas num intercurso social (enunciados) que, além de instaurar relações entre o eu e os outros, veicula o universo ideológico. No dialogismo percebe-se que todo enunciado refuta, confirma, complementa e depende dos outros, levando em consideração o outro. O lugar onde brota o discurso ou a enunciação está determinado por uma situação social imediata independentemente da existência real do interlocutor. O meio social concreto propicia a emissão de discursos, tendo em vista um horizonte social do outro, da classe social do contexto histórico de tal sorte que os discursos irão se aproximar “do auditório médio da criação ideológica” sem “ultrapassar as fronteiras de uma classe e uma época bem definidas”. (BAKHTIN, 1995, p. 113). Para o autor, “a situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação”. (BAKHTIN, 1995, p. 113). Compreende-se as enunciações quando “reagimos àquelas (palavras) que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida”. (BAKHTIN, 1995, p. 95). Assim, a filosofia da linguagem de Bakhtin aparece no dialogismo, que, nas palavras de Diana Luz Pessoa de Barros, é o principio constitutivo da linguagem e a condição do sentido do discurso. (BARROS. In: FARACO et alii, 2001, p. 33). O dialogismo nos textos de Bakhtin e seu Círculo trata do “princípio geral do agir” dos seres humanos, pois toda interação comunicativa tem como ponto de referência o “contraste com relação a outros atos de outros sujeitos” (SOBRAL. In: BRAIT, 2005, p. 106).

O pesquisador ao participar do evento observado constitui-se parte

dele, mas ao mesmo tempo mantém uma posição exotópica que lhe possibilita o encontro com o outro. E é esse encontro que ele procurar descrever no seu texto, no qual revela outros textos e contextos. Dessa forma, vejo a situação de campo como uma esfera social de circulação

de

discursos e os textos que dela emergem como um lugar específico

de

produção do conhecimento que se estrutura em torno do eixo da

alteridade. (FREITAS, p. 32, 2003).

O dialogismo celebra a alteridade, a necessidade do outro, tornando-se, deste

modo, a categoria primordial através da qual Bakhtin pensará as relações culturais. Todos

os fenômenos analisados à luz do dialogismo são considerados em sua multidirecionalidade, a orientação de um eu para o outro (MACHADO, 1995, p. 310).

Enquanto pesquisador, minha tarefa é tentar captar algo de modo como ele se vê, para depois assumir plenamente meu lugar exterior e dali configurar o que vejo do que ele vê. Exotopia significa desdobramento de olhares a partir de um lugar exterior. Esse lugar exterior permite, segundo Bakhtin, que se veja do sujeito algo que ele próprio nunca pode ver. (AMORIM, p.14, 2003)

O movimento de produção de conhecimento em ciências humanas pode ser

compreendido como ato/atividade/evento em que o objeto de estudo e o pesquisador se integram à teoria do conhecimento e à “ação concreta (ou seja, inserida no mundo

vivido) intencional [

BRAIT, 2005, p.20); coloca o sujeito que age no mundo em atos sucessivos de modo participativo e responsável, respondendo a situações reais, nelas se incluindo. Dessa forma, “o ato responsável envolve o conteúdo do ato, seu processo, e, unindo-os, a valoração/avaliação do agente com respeito ao seu próprio ato, vinculada com o pensamento participativo” (SOBRAL, In: BRAIT, 2005, p. 21).

]

praticada por alguém situado, não transcendente” (SOBRAL. In:

) (

a ser correto. (

termos, de modo a assumir seu lugar no mundo atual. Fazer pesquisa lidando com a questão da diversidade convoca um pensamento ético, mas não há ética sem arena e confronto de valores. (AMORIM, p. 25,

2003)

fora das normas vigentes, mas ressignificando seus

hoje, o desafio do pensamento para poder tornar-se ato é renunciar

)

O sujeito, no evento de ser, processo de devir existencial, constitui-se como

tal na cultura em tempo e espaço dinâmicos que entrelaçam passado, presente compartilhados pelos demais sujeitos sociais e principalmente, num espaço ou arena de

confronto de valores. Define-se, desse modo, o produtor do discurso, todo e qualquer sujeito, as criações artísticas, culturais e científicas, o tempo homogêneo/heterogêneo nas esferas da comunicação. Os parâmetros epistemológicos da semiótica de Bakhtin formam uma arquitetura que dimensiona as relações homem-mundo, sujeito-objeto do conhecimento e conectados à ação humana. A arquitetônica do conhecimento semiótico incorpora dialogicamente o processo histórico e as condições de elaboração de epistemes no processo de transformação contínua, na dinâmica das forças vivas sociais que se determinam ética e esteticamente. Esta filosofia da linguagem permite ainda estudos, epistemológicos, ontológicos e cognitivos, em um movimento dialógico de conhecimentos nas ciências humanas. Bakhtin une dialógicamente sua fundamentação do signo ideológico e da alteridade das relações sociais com essa arquitetônica vinculada a diversas categorias conceituais, como dialogismo, cronotopo, exotopia, polifonia, palavra, esfera, campo, enunciação, entre outras. As ciências humanas, sua produção e condição não deixam de serem verificadas em uma sociedade que produz-se e faz existir, organizada no caos e em relações na pluralidade dos diversos níveis dos movimentos sociais, sejam de códigos lingüísticos como de domínios dos instrumentos cognitivos, tudo já fetichizado, reificado e alienado 2 , este cuidado do pesquisador é essencial a produção de qualquer estudo.

2 O sentido de alienação aqui empregado foi de “ação pela qual (ou estado no qual) um indivíduo, um grupo, uma instituição ou uma sociedade se tornam (ou permanecem) alheios, estranhos, enfim, alienados aos resultados ou produtos de sua própria atividade (e à atividade ela mesma), à natureza na qual vivem e/ou a outros seres humanos, e – além de, e através de, também a si mesmos (às suas possibilidades humanas constituídas historicamente). Assim concebida, a alienação é sempre alienação de si próprio ou auto-alienação, isto é, alienação do homem (ou de seu ser próprio) em relação a si mesmo (às suas possibilidades humanas), através dele próprio (pela sua própria atividade)” (BOTTOMORE, 1988, p. 5); já fetichização constitui forma e conteúdo com que se conferem propriedades aos objetos materiais, características e sentidos atribuídos que são constituídos socialmente, mas determinados como sendo naturais (BOTTOMORE, 1988, p. 149); e reificação “é o ato (ou resultado do ato) de transformação das propriedades, relações e ações humanas em propriedades, relações e ações de coisas produzidas pelo homem, que se tornaram independentes (e que são imaginadas como originalmente independentes) do homem e governaram sua vida. Significa igualmente a transformação dos seres humanos em seres semelhantes a coisas, que não se comportam de forma humana, mas de acordo com as leis do mundo das coisas. A reificação é um caso “especial” de “alienação”, sua forma mais radical e generalizada, característica da moderna sociedade capitalista (BOTTOMORE, 1988, p. 314). Uma crítica a estes conceitos pode ainda ser observada em: MAAR, Wolfgang Leo. Formação social em Lukács: dialética de reificação e realização – A perspectiva marxista como consciência de classe e crítica ontológica. In: BOITO JR, Armando et al. A obra teórica de Marx: atualidade, problemas e interpretações. São Paulo: Xamã, 2000; e EAGLETON,

Os signos produzidos em pesquisas nas ciências humanas podem ser discutidos em sua unidade conteúdo-forma, acrescentando-se a “natureza do material” e

os “procedimentos por ele condicionados” (BAKHTIN, 2003, 177-178). A forma é dependente do conteúdo e do material. Nos signos ideológicos, o objetivo é o conteúdo. Este conteúdo ético-cognitivo será enformado e apresentado, subordinando o material ao próprio objetivo. Concluir ao apresentar um resultado destes estudos em ciências humanas, implica a subordinação do material a alcançar o objetivo ético-cognitivo ou “tensão ético-cognitiva”. Há assim, necessidade de superar o material na tarefa comunicativa. Para compreender como o signo é resultado de um consenso da interação social, “razão pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social de tais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece”(BAKHTIN, 1995, p. 44), é necessário estudar a ideologia como fator que

influencia as relações entre os signos e indivíduos. “[

é apenas sob esta condição que

o processo de determinação causal do signo pelo ser aparece como uma verdadeira passagem do ser ao signo, como um processo de refração realmente dialético do ser no

signo” (BAKHTIN, 1995, p. 44). Bakhtin apresenta como questão indispensável para compreensão da ideologia

no signo:

]

1. ão separar a ideologia da realidade material do signo

(colocando-a no campo da “consciência” ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível). 2. ão dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto físico). 3. ão dissociar a comunicação e suas formas de sua base material

]. [

(BAKHTIN, 1995, p. 44).

Assim, é importante a compreensão de uma comunicação prevalente, meio de circulação de pesquisas e pesquisadores, seja social (mais ampla e mediada) ou face a face, com a valorização da linguagem e da comunicação em seus conteúdos e formas.

Terry. O sublime no Marxismo. In: EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. Ver ainda MARX, Karl, 1818-1883. Mercadoria e dinheiro. In: O capital: critica da economia política: livro primeiro o processo de produção do capital. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 1987, p. 79-93).

O pesquisador busca superar a linguagem (métodos científicos, objeto estudado) afim de um sentido, ou a superação do próprio objeto para a conclusão de um discurso, evidencia a obediência de uma lógica criativa, “uma lógica imanente da criação”, com os valores da produção de sentido, o contexto do “ato criador”.

antes de tudo precisamos compreender a estrutura dos valores e do

sentido em que a criação transcorre e toma consciência de si mesma por via axiológica, compreender o contexto em que se assimila o ato

nunca coincide com a consciência

lingüística, a consciência lingüística é apenas um elemento, um

criador. A consciência criadora [

] [

]

material [

].

(BAKHTIN, 2003, 179).

O conteúdo apresenta os elementos do mundo, da vida, forjado em parâmetros éticos e cognitivos. Interligado à forma, conteúdo e forma são mutuamente condicionados, produzindo sentido na própria criação. Aquele que cria é o artista e a arte (no caso deste estudo, o pesquisador que apresenta um discurso, uma visão, uma realidade materializada em seu estudo). A atividade estética (apresentada no estudo) agrega sentidos de forma a buscar acabamento em uma interação, e auto-suficiente. Trata-se de um ato que passa a existir em um novo campo axiológico (científico), num devir da interação comunicativa. Assim, também o material condiciona-se com forma e conteúdo, em que o signo é o meio de expressão; numa “lógica imanente da criação”, o material deve ser superado, aperfeiçoado num contexto de criação em que forma e conteúdo revelam o signo em sua superação. De um contexto empírico, para a interpretação científica, revelando conteúdos que provocam a “tensão” entre o criador e este contexto de criação.

Nas Ciências Humanas conjugam-se as dimensões ética e estética para dar origem a uma outra dimensão que é a epistemológica. Desse modo, a produção de conhecimentos e o texto em que se dá esse conhecimento são uma arena onde se confrontam múltiplos discursos. (AMORIM, p. 12, 2003).

Diálogos, muitas vezes ignorados podem produzir conhecimentos férteis para as pesquisas em ciências humanas, os físicos Alan Sokal e Jean Bricmont em seu livro Imposturas intelectuais (Nome original em inglês: Fashionable onsense), promovem críticas a personalidades intelectuais como Jacques Lacan, Julia Kristeva, Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Félix Guattari entre outros, diálogos que em se

tratando de ciências, principalmente ciências humanas, não devem ser censurados, podemos não concordar com posicionamentos epistemológico e metodológicos deste ou aquele pesquisador, mas a propósito da ciência, o único caminho possível não é ignorar a adversidade de métodos, e sim o dialogismo destes discurso. Como exemplo disso, eis um posicionamento da dupla de críticos das ciências:

] [

aproximadamente a mesma para as ciências naturais e para as ciências sociais estou perfeitamente ciente, é lógico, que muitas questões metodológicas especiais (e muito difíceis) surgem nas ciências sociais

a partir do fato que os objetos de pesquisa são seres humanos

(incluindo o seu estado de espírito subjetivo); que esses objetos de

investigação têm objetivos (incluindo em certo casos a dissimulação das evidências ou a colocação de evidência deliberadamente a seu serviço); que a evidência Oe expressa (habitualmente) em linguagem humana, cujo significado pode ser ambíguo; que o sentido das categorias conceituais (por exemplo, infância, masculinidade,

feminilidade, família, economia etc.) muda no decorrer do tempo; que

o objetivo da pesquisa histórica não são simplesmente fatos, mas sua

interpretação etc. De modo algum pretendo que meus comentários sobre física sejam aplicados diretamente sobre a história ou às ciências sociais – isto seria um absurdo. Dizer que “a realidade física é uma construção social e lingüística” é uma tolice rematada, porém dizer que “a realidade social é uma construção social e lingüística” é virtualmente uma tautologia. (SOKAL, p. 287, 2006).

Embora a epistemologia básica da investigação deva ser

A relação de diversidade de discursos, o conflito entre o ser analisado, o discurso do pesquisador e o próprio conhecimento faz surgir uma grande diversidade de sentidos,

] [

Ciências Humanas implica renunciar a toda ilusão de transparência:

tanto do discurso do outro quanto do seu próprio discurso. É portanto trabalhando na opacidade dos discursos dos textos, que a pesquisa contemporânea pode fazer da diversidade um elemento constituinte do pensamento e não apenas um aspecto secundário. (AMORIM, p. 12,

2003).

Assumir esse caráter conflitual e problemático da pesquisa em

Infelizmente, naquilo que deveria ser a busca de conflitos e tensões de conhecimentos, alguns pesquisadores procuram pensadores que com eles concordam e assim dizem produzir conhecimentos, quando de fato deveriam também buscar pensadores com quem não concordam, promovendo diálogos, e assim, efetivamente produzir conhecimento na diferença e no embate de ideias.

Partindo de uma crítica sobre aquilo que Sokal e Bricmont dizem ser cinco temas bem distintos, e apresenta de forma a questionar a pesquisa de Harding (1991) 3 , apresentam questões que podem promover reflexões nos campos do pensamento científico-filosófico:

1)

Ontologia. Que objetos existem no mundo? Que afirmações sobre

2)

estes objetos são verdadeiras? Epistemologia. Como os seres humanos podem obter

3)

conhecimento das verdades sobre o mundo? Como eles podem avaliar o grau de confiabilidade deste conhecimento? Sociologia do conhecimento. Até que ponto as verdades

4)

conhecidas (ou conhecíveis) pelos seres humanos em determinada sociedade são influenciadas (ou determinadas) pelos fatores sociais, econômicos, políticos, culturais e ideológicos? A mesma questão vale para as afirmações falsas que se julgou erroneamente serem verdadeiras. Ética individual. Que tipos de pesquisa deve um cientista (ou

5)

técnico) assumir (ou se recusar a assumir)? Ética social. Que tipos de pesquisa deve a sociedade estimular, subsidiar ou financiar como fundos públicos (ou, por outro lado, desencorajar, taxar ou proibir)? (SOKAL, p. 288-289, 2006).

A leitura destes tópicos para o estudo da física parece evidente em tais

estudiosos, então por que não fecundar diálogos que parecem tão distintos e

inseparáveis como o mundo da ciências humanas e das ciências exatas; vivemos no mesmo mundo, somos todos sujeitos humanos numa mesma sociedade, este diálogo, resulta em semelhanças como as destes cinco tópicos apresentados com o próprio método da filosofia.

A produção de estudos em ciências humanas, em sua gênese, carrega a

objetivação de um conteúdo produzido segundo esferas e campos específicos

constituídos em determinado tempo/espaço na interação comunicativa. Pela mediação desses signos ideológicos, os valores axiológicos, presentes no conteúdo em dialogismo com métodos, conhecimentos, e leitores de tais estudos, produzem sentido como síntese reflexiva de um pensamento e posicionamento perante a um objeto na busca de um

acabamento, mesmo que precário, para a interpretação e entendimento. Assim, ( nesse jogo dialógico que o pesquisador constrói uma compreensão da realidade

é

)

3 Leituras de Sokal e Bricmont (2006) em: Harding, Sandra. 1996. “Science is “good to think with”. Social Text 46/47 (primavera/verão):15-26.

investigada transformando-a e sendo por ela transformado. (FREITAS, p. 37, 2003).

Um espaço de tensão, que

Em síntese, o que este conceito quer dizer é que a obra de arte é lugar de tensão porque entre o eu e o outro, entre o retrato que faço de alguém e o retrato que ele faz de si mesmo, há sempre uma diferença fundamental de lugares e, portanto, de valores. (AMORIM, p. 14, 2003)

É importante afirmar para as pesquisas em ciências humanas, a necessidade

da valorização do sujeito humano em sua relação de alteridades e o emprego de métodos

com rigor ético. Este estudo, ainda em caráter experimental, busca acabamentos e

refrações de sentido, e mesmo ancorado em estudiosos e pesquisadores renomados,

trata-se de um diálogo inicial e, sempre, inacabado.

Nossa liberdade maior, aquela que a arte nos ensina, é precisamente a

Esta liberdade de darmo-nos

uma lei remete à noção de responsabilidade tal como definida por Bakhtin e certamente não tendo compromissos ontológicos outros que não como o próprio princípio supremo do ato ético – a relação concreta entre o eu e o outro, inscreve a lei a nos darmos na complementaridade

que o excedente de visão do outro permite, porque diferente seu posto de observação; calculados nossos horizontes de possibilidades, defendendo, ainda que conflituosamente enquanto vivemos entre desiguais, a sociedade que nossa memória do futuro projetou, dando- nos acabamentos provisórios para com eles construirmos nossos roteiros de viagens: eles dirão de nós o que fomos. (GERALDI, p. 55,

2003).

capacidade de nos darmos uma lei (

)

Referências

AMORIM, Marília. A contribuição de Mikhail Bakhtin: a tripla articulação ética, estética e epistemológica. In: FREITAS, Maria Teresa; SOUZA, Solange Jobim e; KRAMER, Sonia. (orgs.). Ciências humanas e pesquisa: leituras de Mikhail Bakhtin. São Paulo: Cortez, 2003

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento:

contexto de François Rebelais. São Paulo: Hucitec. 1987.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BAKHTIN, Mikhail. Discurso na vida e discurso na arte: sobre a poética sociológica. In: Freudism – a marxist critique. Tradução de FARACO, C. e TEZZA, C. (UFPR) para fins didáticos. New York: Academic Press, 1976.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995.

BAKHTIN, Mikhail. O freudismo: um esboço crítico. São Paulo: Perspectiva, 2004.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Editora UNESP, 1998.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Contribuições de Bakhtin às teorias do texto e do discurso. In: FARACO, Carlos Alberto et alii. Diálogos com Bakhtin. Curitiba: Editora da UFPR, 2001.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Dialogismo, polifonia e enunciação. In: BARROS, Diana Luz Pessoa de; FIORIN, José Luiz (Orgs.). Dialogismo, polifonia, intertextualidade: em torno de Bakhtin. São Paulo: Edusp, 2003.

BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2001.

EAGLETON, Terry. O sublime no Marxismo. In: EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

FIORIN, Jose Luz. O romance e a representação da heterogeneidade constitutiva. In:

FARACO, Carlos Alberto. TEZZA, Cristóvão; CASTRO, Gilberto de. Diálogos com Bakhtin. Curitiba: UFPR, 2001.

FORMENTÃO, Francismar. Palavra e imagem: signos do presidente Lula na mídia impressa. Cascavel: Editora Coluna do Saber, 2008.

FREITAS, Maria Teresa. A perspectiva sócio-histórica: uma visão humana da construção do conhecimento. In: FREITAS, Maria Teresa; SOUZA, Solange Jobim e; KRAMER, Sonia. (orgs.). Ciências humanas e pesquisa: leituras de Mikhail Bakhtin. São Paulo: Cortez, 2003

GERALDI, João Wanderley. A diferença identifica. A desigualdade deforma. Percursos bakhtinianos de construção ética e estética. In: FREITAS, Maria Teresa; SOUZA, Solange Jobim e; KRAMER, Sonia. (orgs.). Ciências humanas e pesquisa: leituras de Mikhail Bakhtin. São Paulo: Cortez, 2003.

GRILLO, Sheila V. de Camargo. Esfera e campo. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin:

outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2006.

MAAR, Wolfgang Leo. Formação social em Lukács: dialética de reificação e realização – A perspectiva marxista como consciência de classe e crítica ontológica. In: BOITO JR, Armando et alii. A obra teórica de Marx: atualidade, problemas e interpretações. São Paulo: Xamã, 2000.

MACHADO, Irene A. O romance e a voz - a prosaica dialógica de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro, São Paulo: Imago - FAPESP, 1995. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Moraes, 1984.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo:

Martin Claret, 2004.

MARX, Karl. 1818-1883. Mercadoria e dinheiro. In: O capital: crítica da economia política: livro primeiro o processo de produção do capital. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 1987.

MARX, Karl. O 18 brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

1997.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, 1980.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Prefácio à “Contribuição à Crítica da Economia Política”. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. v. 1. São Paulo:

Alfa-Omega, 1980.

MASIP, Vicente. História da filosofia ocidental. São Paulo: EPU, 2001.

MIOTELLO, Valdemir. Ideologia. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005.

MORAES, Dênis de (Org). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

SOKAL, Alan D. e BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 2006.

STAM, Robert. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo, Ática, 2000.

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.