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ANDREWS CORREIA DE AMORIM

CRIMINALIDADE URBANA, VIOLÊNCIA E POLÍTICAS DE


SEGURANÇA:

As Permanências do Estado de Exceção e da Violação dos Direitos


Humanos após a Consolidação Democrática no Brasil

GUARULHOS

2008
FACULDADES INTEGRADAS DE CIÊNCIAS HUMANAS SAÚDE E
EDUCAÇÃO DE GUARULHOS

ANDREWS CORREIA DE AMORIM

CRIMINALIDADE URBANA, VIOLÊNCIA E POLÍTICAS DE


SEGURANÇA:

As Permanências do Estado de Exceção e da Violação dos Direitos


Humanos após a Consolidação Democrática no Brasil

Monografia apresentada ao curso de História


da Faculdades Integradas de Guarulhos, para
obtenção do grau de licenciado em História.

GUARULHOS

2008
ANDREWS CORREIA DE AMORIM

CRIMINALIDADE URBANA, VIOLÊNCIA E POLÍTICAS DE


SEGURANÇA:

As Permanências do Estado de Exceção e da Violação dos Direitos


Humanos após a Consolidação Democrática no Brasil

Monografia apresentada ao curso de História


da Faculdades Integradas de Guarulhos, para
obtenção do grau de licenciado em História.

Aprovada em ___/___/___

BANCA EXAMINADORA

_________________________
(1° Examinador)

_________________________
(2° Examinador)
“(...) não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores,
da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico. (...) Não
posso deixar de pensar em uma crítica que não procure criticar, mas
fazer existir uma obra, uma frase, uma idéia; ascenderia fogos,
olharia a grama crescer, escutaria o vento e imediatamente tomaria a
espuma do mar para a dispensar. Reproduziria, ao invés de juízos,
sinais de vida; invocá-los-ia, arrancá-los-ia do seu sono. Quem sabe
os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica sentenciosa faz-
me adormentar; gostaria de uma crítica feita com centelhas de
imaginação. Não seria soberana, nem vestida de vermelho. Traria
consigo os raios de possíveis tempestades” (Michel Foucault)
RESUMO

O presente trabalho analisa a emergência das chamadas “demandas por lei e ordem”
na sociedade brasileira a partir das problemáticas do crime, da violência e das políticas de
segurança após a consolidação democrática. Tal investigação procura compreender as
variadas formas que os direitos humanos foram violados, desrespeitados e suspendidos da
ordem jurídica na atual democracia. Nesse sentido, busca problematizar as práticas de
punição, os abusos de poder e autoridade por parte das instituições policiais e judiciárias e o
modo como a violência se relaciona com a razão de Estado e as micropolíticas do cotidiano.
Assim, a pesquisa pretende estudar as concepções sobre o corpo e a pena de morte no debate
público. Na segunda parte, faço um estudo em torno das políticas antidrogas no Brasil e o
estado de exceção permanente como uma técnica de governo aplicada pelo Estado brasileiro
em conjunto com as políticas e legislações internacionais para se promover as operações de
“guerra às drogas” através da manutenção das medidas emergenciais normalizadas como uma
questão de segurança interna e da ordem pública.

Palavras-Chave: Autoritarismo, Democracia, Direitos Humanos, Estado de Exceção e


Segurança.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 7

CAPÍTULO I

CRIME, VIOLÊNCIA E CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA: O AUTORITARISMO E A

CONTINUIDADE DAS VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS NA SOCIEDADE

BRASILEIRA

1.1 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O AUTORITARISMO E A DEMOCRACIA NO

BRASIL................................................................................................................................................ 11

1.2 IMPUNIDADE, CRESCIMENTO DA CRIMINALIDADE, CONFLITOS E PROBLEMAS DA

“LEI E ORDEM” NO PENSAMENTO SOCIAL DE RALPH DAHRENDORF .............................. 21

1.3 OBSESSÃO SECURITÁRIA E PUNITIVA: O CONTROLE SOCIAL E A SOCIEDADE DE

RISCO .................................................................................................................................................. 39

1.4 A REJEIÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS COMO “PRIVILÉGIOS DE BANDIDOS”: PENA

DE MORTE, CORPO, VIOLÊNCIA E DESRESPEITO AOS DIREITOS DE CIDADANIA APÓS A

CONSOLIDAÇÃO DEMOCRÁTICA BRASILEIRA ....................................................................... 44

CAPÍTULO II

O ESTADO DE EXCEÇÃO COMO PARADIGMA DE GOVERNO: A DECISÃO DO PODER

SOBERANO NO CONTEXTO BIOPOLÍTICO DE “GUERRA ÀS DROGAS” NO BRASIL

2.1 DA TECNOLOGIA DA EXCEÇÃO: AS RELAÇÕES DE PODER SOBRE O MERCADO DAS

DROGAS .............................................................................................................................................. 66

2.2 BIOPOLÍTICA, ESTADO DE EXCEÇÃO, VIDA NUA E HOMO SACER .................................. 76

2.3 DISPOSITIVO DE SEGURANÇA (PÚBLICA) E DEMOCRACIA: O TRÁFICO DE DROGAS E

A EXCEÇÃO NORMALIZADA A PARTIR DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 ............. 98

À GUISA DE CONSIDERAÇÕES GERAIS (LIMIAR) .............................................................. 114

FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 120


INTRODUÇÃO

A presente pesquisa tem por objetivo problematizar as “demandas por lei e ordem” na
sociedade brasileira contemporânea diante da prática discursiva sobre o crescimento da
“violência urbana” durante as décadas de 1970 e 1980. Pode-se constatar que as emergências
dessas demandas ganham relevo em dois processos na contemporaneidade. Primeiramente, no
processo de transição e consolidação democráticas. Em segundo lugar, nas políticas de
combate ao “narcotráfico” a partir das disposições constitucionais para se estabelecer medidas
provisórias à metáfora bélica das operações de “guerra às drogas”, em particular na cidade do
Rio de Janeiro.

Procuro demonstrar o quanto as medidas de “lei e ordem” na sociedade


contemporânea respondem a processos gerais em simultaneidade com os impasses dos fluxos
da democracia brasileira. No decorrer da pesquisa pretendo discutir os obstáculos à
consolidação da sociedade democrática no Brasil contemporâneo e as políticas de segurança e
controle social no enfrentamento à criminalidade urbana e à complexa rede do crime
organizado em sua modalidade de “tráfico de drogas”. Também pretendi analisar o debate
atual sobre a violência e o crime na sociedade brasileira fortemente influenciada por essas
demandas por ordem, segurança e punição, o que caracteriza o aspecto contínuo do
autoritarismo social, cultural e político no terreno de um Estado Democrático de Direito.

De acordo com a análise da pesquisa em referência aos estudos realizados sobre o


crime e a violência no Brasil no contexto da redemocratização, levanto a problemática de que
na transição democrática, após o regime autoritário (1964-1985), o modo como o Estado veio
a lidar com as transformações da criminalidade urbana, com o crime organizado e a despeito
das política públicas penais formuladas e implementadas pelos governos democráticos, não se
diferem das medidas executadas pelos governos autoritários anteriores. Os mecanismos
punitivos do Estado foram adotados como respostas oferecidas ao forjamento de um crescente
sentimento de medo e insegurança próprios das fantasmagorias intrínsecas às “demandas por
ordem social”. Nesse processo se faz notar a continuidade da violação dos direitos humanos,
mesmo após a consolidação dos princípios democráticos de convivência política e social.

As violações aos direitos fundamentais são executados sob a forma de casos


sistemáticos de torturas e de execuções extra-judiciais que são cometidos por agentes policiais
e militares contra a integridade do corpo do indivíduo. Para as categorias sociais de baixa
renda, sobretudo os estratos trabalhadores, o fim da ditadura militar e o “florescimento” da
reabertura democrática teve muito pouco efeito e significado de mudança, pois esses
segmentos sociais foram expostos às intensas repressões, violações e até mesmo suspensão de
direitos fundamentais, antes, durante e depois do regime ditatorial. A partir disso, penso que o
Estado de direito supostamente democrático não se afirmou e nem sequer se logrou ao
princípio de universalização da cidadania. No atual governo democrático, parece que as
exigências próprias da cidadania se restringem numa questão cruamente biológica (vida nua),
ao ponto de ser reduzida à mera decisão de expor vidas à uma política de morte
(tanatopolítica), à imposição de castigos físicos, à uma filtragem seletiva (homeóstase de
regulação populacional para se “combater” a criminalidade) do vivente em detrimento
daquele que perdeu absolutamente os direitos mais fundamentais de humanidade, sendo
assim, suspenso de qualquer proteção e estatuto da jurisdição humana e desprovido de leis
positivas que garantem a vida do sujeito nas normas jurídicas-políticas como portador de
direitos humanos.

Na democracia brasileira, tais violações de direitos humanos podem ser analisadas nos
aspectos disjuntivos da cidadania no Brasil (CALDEIRA & HOLSTON, 1998). Partindo
dessa consideração, pretendo analisar a violência associada ao desrespeito dos direitos civis
que vieram à tona depois do início do regime democrático na década de 80: a obtusidade e a
ampla oposição aos defensores dos direitos humanos e também a campanha que foi feita para
tentar introduzir a pena de morte na Constituição Federal brasileira. O que estava em
discussão nesse momento eram os limites que poderiam ser impostos ao corpo do criminoso o
qual deveria ser castigado e punido sem ser protegido por nenhum aparato legal, opondo-se
aos direitos humanos atacados e considerados como uma proteção legítima que assegura
“privilégios de bandidos”.

Não se pretende estudar aqui as políticas de segurança a partir dos limites


“terapêuticos” e diagnosticadores, muito próximos das posturas de sociólogos como Ralph
Dahrendorf (1987) e os demais juristas que se concentram e encerram “soluções” apenas no
âmbito das instituições policiais, prisionais e da legislação penal. No entanto, há também os
discursos sobre a segurança pública que envolve as questões de planejamento urbano. O poder
público adota as medidas preventivas e securitárias associadas aos serviços de infra-estrutura
urbana, como se os bairros que não obtiverem asfalto, iluminação pública, esgoto, creches,
posto de saúde e etc., estariam mais “vulneráveis” aos problemas da criminalidade. Penso que
tal discurso de segurança pública ligado às questões de marginalidade urbana e pobreza
sustenta os estigmas da criminalização de grupos sociais que são revistos como “classes
perigosas” por habitar os espaços urbanos localizados em lugares periféricos. Considero esse
discurso como uma estratégia governamental para se punir a pobreza com a justificativa de
estarem promovendo um suposto “bem-estar social”.

O argumento administrativo da municipalidade, dos seus moradores e do poder


público local e seus discursos sobre a “qualidade habitacional”, por não levarem em
consideração a própria historicidade do processo de exclusão urbanística a partir do fenômeno
que ficou conhecido como “periferização” por conta das intervenções que são realizadas pelos
poderes públicos no gerenciamento das “cidades”, associam de forma mecânica os espaços
favelizados e os cortiços à figura da “violência urbana”, da marginalidade, da pobreza e da
“origem” da criminalidade ou da “sujeira” e que tendem a enquadrar as moradias coletivas e
populares como áreas que concentram maiores “índices criminológicos, de risco e
vulnerabilidade” por meio de georeferenciamentos, Portanto, indo em direção aos cálculos
que deverão ser racionalizados para se efetivar uma melhor atuação panóptica e repressiva do
chamado “policiamento comunitário” com base nas argumentações de que urbanizar a
periferia seria garantir o “direito de sua segurança” e proteger de maneira geral a sociedade.
As reais pretensões dessas práticas não residem em propostas de como resolver os problemas
gerados pela insegurança social (CASTEL, 2005) acerca dos seguros doença, invalidez,
acidentes de trabalho, velhice, desemprego, alocações familiares e ajuda de custo social,
políticas estas que partem do domínio da proteção social, de “luta contra a exclusão”, de
políticas locais de inserção e assistência aos mais desprovidos que emergiu durante o início
dos anos 80 em diversos países, mas giram em torno do maior reforço da segurança policial
nesses mesmos espaços desatendidos, potencialmente, por serem tidos como um risco para a
sociedade e proteger outras categorias sociais por meio de técnicas que estruturam os padrões
de segregação socioespacial no espaço público e a inclusão incentivada pela política de
Estado para se intervir com o devido controle entre as comunidades-campo de concentração.

Contudo, os interesses que estão na base da formação e da aplicação do direito penal


no Brasil são, sobretudo, os interesses dos grupos sociais que estão no alto da hierarquia
social que influem sobre os processos de criminalização, sendo assim, os interesses protegidos
por meio do direito penal não são de modo algum os interesses comuns a todos “cidadãos”.
Desse modo, a criminalidade, no seu conjunto de dispositivos, é uma “realidade social” criada
por meios de processos complexos de criminalização, ou seja, não são isentas dos interesses
políticos. Podemos pensar então que o crime, os criminosos e a criminalidade são criações
sociais e um exercício de poder sobre aqueles que infringem, perturbam e ameaçam o
ordenamento social e o “progresso” de uma nação no afã de entrar de uma maneira ou de
outra na modernidade.
Tais propostas restritas ao caráter reformistas das instituições de “lei e ordem” tendem
a enxergar os fenômenos da violência através de uma patologização do crime nas sociedades
modernas. Portanto, não pretendo estudar o crime, a violência e as políticas de segurança a
partir desses vieses, que a meu ver não passa de frustradas contribuições acadêmicas e
conveniências departamentais na tentativa de oferecer um receituário de tipo institucional que
visa aprimorar o policiamento e a reforma do sistema penal e prisional, o que não muda muito
das atuais “demandas por ordem” no qual o debate sobre o crime se encontrava enclausurado.

A escolha do tema partiu de estudos e discussões realizadas pelo projeto “Raça e


Etnia, Ciências e Humanidades: Pesquisas e Estudos Históricos e Historiográficos” o qual foi
organizado na forma de um trabalho em conjunto e que me possibilitou variáveis caminhos e
perspectivas de pesquisas vindouras que em parte já estão sendo iniciadas, portanto, não serão
encerradas aqui.

No capítulo I, analiso a emergência das chamadas “demandas por lei e ordem” na


sociedade brasileira a partir das problemáticas do crime, da violência e das políticas de
segurança após a consolidação democrática. Tal investigação procura compreender as
variadas formas que os direitos humanos foram violados, desrespeitados e suspendidos da
ordem jurídica na atual democracia. Nesse sentido, pretendo problematizar as práticas de
punição, os abusos de poder e autoridade por parte das instituições policiais e judiciárias e o
modo como a violência se relaciona com a razão de Estado e as micropolíticas do cotidiano.

No Capítulo II, analiso as políticas antidrogas no Brasil e o estado de exceção


permanente como uma técnica de governo aplicada pelo Estado brasileiro em conjunto com as
políticas e legislações internacionais para se promover as operações de “guerra às drogas”
através da manutenção das medidas emergenciais normalizadas como uma questão de
segurança interna e da ordem pública.
CAPÍTULO I
CRIME, VIOLÊNCIA E CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA: O AUTORITARISMO
E A CONTINUIDADE DAS VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS NA
SOCIEDADE BRASILEIRA

“(...) a violência, tanto civil quanto de aparatos do Estado, aumentou


consideravelmente desde o fim do regime militar. Esse aumento no
crime e na violência está associado à falência do sistema judiciário, à
privatização da justiça, aos abusos da polícia, à fortificação das
cidades e à destruição dos espaços públicos. Em outras palavras, no
Brasil, a democracia política não trouxe consigo o respeito pelos
direitos, pela justiça e pela vida humana, mas, sim, exatamente os
seus opostos. Nesse contexto, o crime não só expressa e articula
outros processos negativos de mudança, mas também representa os
limites e desafios da democratização brasileira. Na verdade, o
universo do crime indica o caráter disjuntivo da democracia
brasileira de duas maneiras: em primeiro lugar, porque o crescimento
da violência em si deteriora os direitos dos cidadãos; e em segundo,
porque ele oferece um campo no qual as reações à violência tornam-
se não apenas violentas e desrespeitadoras dos direitos, mas ajudam
a deteriorar o espaço público, a segregar grupos sociais e a
desestabilizar o estado de direito” (CALDEIRA, 2000, p. 56).

1.1 Breves Considerações Sobre o Autoritarismo e a Democracia no Brasil

O estudo sobre o crime e a violência no Brasil no contexto da redemocratização, nos


permite apresentar os possíveis contrastes das configurações históricas que definiram (não
apenas no campo simbólico) o caráter identitário da nação a partir da cordialidade e
pacificidade do “homem brasileiro”1. Segundo Maria Victória Benevides, as crenças
populares e de grupos sociais distintos acerca das construções míticas e mitêmicas da
brasilidade contrastam, desse modo, com o “lado escuro da alma brasileira: a prática da
violência em nome da ordem, da moral, da religião... enfim, da própria segurança nacional.
(...) Como nos tempos bárbaros da escravidão, o brasileiro pode matar, torturar, linchar.
Quando não o faz diretamente, muitas vezes justifica e aprova” (BENEVIDES, 1983;
ADORNO, 1996). No limiar das formas variadas da violência na sociedade brasileira, nota-se
cada vez mais o comprometimento da continuidade do Estado de Direito2 vigente tanto na

1
Sobre a formação do caráter nacional brasileiro consultar os estudos de Dante Moreira Leite (1976).
2
De acordo com a análise de Bobbio, Estado de Direito é o “Estado no qual todo o poder é exercido no âmbito
de regras jurídicas que delimitam sua competência e orientam (ainda que freqüentemente com certa margem de
discricionaridade) suas decisões. Ele corresponde àquele processo de transformação do poder tradicional,
sucessão de golpes na estabilidade político-institucional quanto no âmbito cotidiano de
freqüentes agressões, por exemplo, contra mulheres, idosos e crianças nos silenciosos espaços
domésticos; os modos de vida no entre e intramuros dos estabelecimentos de isolamento e de
suposta “reabilitação social” como ensejam os manicômios judiciários, prisões, instituições de
tutela para crianças e adolescentes e os silenciamentos que envolvem as práticas de tortura,
inclusive nas delegacias de polícia.
Procurarei argumentar e buscar reflexões no que concerne às permanências da
violência na sociedade brasileira e levantar hipóteses acerca desse campo ambivalente da
intensificação de uma subjetividade autoritária após o processo de reconstrução democrática
no início dos anos 80 até os dias atuais.
Conforme Sérgio Adorno (1996), as questões da impunidade contemporânea (no
sentido de associação ao uso excessivo da força) na sociedade brasileira não resultam da
falência de lei e autoridade, mas de uma história e um painel inconcluso de uma democracia
não-consolidada3. A tradição de abusos por parte das instituições de ordem é cometida de
forma impunemente e na maioria das vezes com o apoio popular, contribuindo para o
aumento das violências policiais e os descréditos do sistema judiciário. O que faz com que as
pessoas recorram cada vez mais a meios privados de segurança, atendendo a uma lógica de
mercado que pode ser vendida e comprada para garantir a proteção contra o crime violento,
pelo menos essa é a justificativa utilizada para produzir o medo e o sentimento de insegurança
como táticas de poder em razão de suas inscrições nas subjetividades e mentalidades coletivas
para autorizar a violência do Estado brasileiro.
A paradigmática declaração do Coordenador dos Estabelecimentos Penitenciários do
Estado (COESPE) e ex-delegado de polícia em 1986 após a ocorrência de 16 mortes entre
funcionários e presos como conseqüência da rebelião na Penitenciária Presidente Wenceslau
localizada no interior do estado de São Paulo4, demonstra a indiferença dos “cidadãos” e do
poder público diante das mortes nos presídios. A enfática expressão “Não temos mortos a
lamentar” declarada pelo ex-delegado, não provocou nenhuma manifestação injuriosa nas

fundado em relações pessoais e patrimoniais, num poder legal e racional, essencialmente impessoal” (BOBBIO,
1992, p. 148).
3
Para um estudo mais aprofundado nessas questões sobre violência, crime, criminalidade urbana e justiça penal
na sociedade brasileira contemporânea, pesquise os estudos de Sérgio Adorno sobre “a gestão urbana do medo e
da insegurança” (1996).
4
Essa informação foi extraída como fonte secundária que teve como referência o relatório de pesquisa do
programa de pós-graduação do sociólogo Sérgio Adorno junto ao Centre de Recherches Sociologiques sur le
Droit et les Institutions Pénales/CESDIP e ao Group Européen de Recherches sur les Normativités/GERN. O
resultado desse relatório de pesquisa está intitulado como “Criminalidade Violenta, Estado de Direito e Controle
Social, 1994-1995. São Paulo, 1995, mimeo. 72p. (CNPQ).
pessoas e nem sequer a Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo censurou, “puniu” ou
repreendeu tal afirmação. Os efeitos paradoxais da impunidade nas relações intersubjetivas
passam a organizar uma estreita ligação entre o sentimento coletivo de ódio e vingança
daqueles que se atribuem como “cidadãos iguais” em relação ao “outro” como inimigo ou
diferenciado por juízos de valores morais que sustentam a dicotomização de grupos sociais
heterogêneos e as autoridades públicas que se convertem aos olhos dos mais incautos como
“vingadoras” ao manifestarem abusos de poder e autoridade, de modo a isentar-se do papel de
asseguração de direitos para estabelecer um desejo cada vez maior de punir em acomodação
com os apelos da população, ou seja, a punição exemplar em rigor por certas “demandas por
lei e ordem”. Podemos considerar também a maneira como as pessoas apreciam conviver
cotidianamente com uma imagem construída da violência, disseminada seja na forma de
produto massificado pela indústria cultural, seja pela exploração econômica e fotogênica do
corpo numa sociedade de consumo, transformando a própria violência e as representações
simbólicas da força em mercadorias na lógica de uma economia política neoliberal.
Essas características deixam entrever o quanto se tornou costumeiro e banal nas
práticas discursivas sobre o medo do crime, da insegurança e nas medidas de prevenção as
ações violentas na sociedade brasileira na alçada da “modernidade”, a tradição da violência
passou a ser ou sempre foi correlativa a um “autoritarismo socialmente implantado”
(O’DONNELL, 1986; PINHEIRO, 1991a) em ressonância com os arbítrios de punição e
controle disseminados nas micro-relações de forças e poder que não se limitam aos domínios
do Estado.
No Brasil, após a alternância de regimes autoritários e regimes democráticos,
decorrentes imprecisamente durante cem anos de governo republicano, o país caminhou rumo
às experiências mais amplas de reconstrução democrática. Vivenciamos formalmente uma
democracia em via para uma transição política, sócio-econômica e cultural. Porém, depois das
mudanças nas formas democráticas de convivências sociais e políticas e o avanço de direitos
individuais, assim como foram escritas sobre as “Cartas de Direitos” da Constituição de 1988,
ainda convivemos com profundos problemas de disparidades sociais e as dificuldades e
obstáculos de determinados segmentos sociais de terem acesso ao sistema de justiça,
promovendo no interior das relações de poder e dos procedimentos formais da democracia a
continuidade das violações de direitos humanos que sobreviveram enquanto práticas de
autoritarismos mesmo após o regime militar como um dos principais paradoxos da
consolidação democrática5.

5
A discussão a respeito dos dilemas e perspectivas da democracia no Brasil e na América Latina pode ser
consultada a partir de estudos feitos por Guillermo O’Donnell & Fábio Wanderley Reis (1988), e também os
Para analisarmos os legados autoritários da violência e das violações dos direitos
humanos no horizonte das transições políticas na sociedade brasileira, partirei brevemente de
uma análise do processo de democratização dando a devida ênfase aos aspectos marcados
tanto pelos avanços como os constrangimentos antepostos aos dilemas e perspectivas da atual
conjuntura.
Na dinâmica das transições políticas não houve uma total ruptura com as decisões
políticas que caracterizaram as conjunturas precedentes. As distensões políticas provocadas
pela abertura à transição democrática desencadearam-se através de negociações entre as elites
e as iniciativas de mudanças que partiram dos próprios setores militares. Trata-se de dizer
que, ainda pesa sobre o funcionamento dos governos democráticos uma continuidade
histórica, política, econômica e institucional dos regimes ditatoriais. Os conjuntos maquínicos
de suas experiências perduraram e foram reativados nos contornos formais da democracia por
vias não democráticas em convívio com os aspectos moleculares tipicamente autoritários que
se transmutaram no interior dessa nova máquina administrativa6.
A reconstrução democrática não se desencadeou em direção a um rompimento com o
governo militar. A restauração de um governo civil implicou numa acomodação de práticas
no entrelaçamento com as novas estruturas e em combinação com as opções do sistema
político da antiga ordem. As experiências autoritárias assentaram-se sob os fatores de longo
prazo na democratização, influenciando as operações do governo militar referentes às
instituições políticas e as conseqüências do modelo de desenvolvimento econômico.
Após o golpe civil-militar que depôs João Goulart em 1964, as Forças Armadas
enquanto instituição passaram a dirigir o país. Os militares começaram a disputar o poder
político, o que proporcionou nos 21 anos de governo militar intensos conflitos entre oficiais
moderados e radicais, tendo como conseqüência, expressivas alterações na coesão interna da
organização, pungindo então assíduas instabilidades políticas. Situava-se em funcionamento
entre esse processo, os mecanismos e procedimentos de uma democracia representativa.
Segundo Maria D’Alva G. Kinzo (2001):

O Congresso e o Judiciário continuaram em funcionamento, a despeito


de terem seus poderes drasticamente reduzidos e de vários de seus

estudos de Paulo Sérgio Pinheiro acerca da democracia, violência, injustiça e o não-estado de direito na América
Latina (2000). Como principal referência de estudos produzidos sobre essas temáticas, indico um grupo de
pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência – NEV/USP.
6
Cf. Guattari. Micropolítica do fascismo, In: Revolução molecular: pulsações políticas do desejo, São Paulo,
Brasiliense, 1981. LENHARO, Alcir, Apresentação, In: Sacralização da Política, São Paulo, Ed. Papirus, 1986.
membros serem expurgados; manteve-se a alternância na presidência
da República; permaneceram as eleições periódicas, embora mantidas
sob controles de várias naturezas; e os partidos políticos continuaram
em funcionamento, apesar de a atividade partidária ser drasticamente
limitada (KINZO, 2001, p. 4).

As sucessivas crises políticas atravessadas pelas alternâncias entre as características do


regime militar-autoritário e os democráticos, compuseram o assentamento de períodos que
oscilavam entre a repressão e a liberalização política, resultando na instabilidade que
acompanhou o governo militar durante os conflitos internos do exército e os grupos de
oposição democrática, na medida em que esses fatores foram decisivos para delinear-se nos
arranjos políticos da transição brasileira7.
Nos anos de 1968 a 1974, foram instituídos pelos governos burocrático-autoritários os
esquadrões da morte (OBAN). Esse novo sistema articulava forças policiais militares e
paramilitares que atuavam sem qualquer limitação no exercício da repressão:

(...) censura, prisões arbitrárias, cassação de mandatos eletivos,


torturas, mortes, guerra psicológica contra organizações populares e
de esquerda, limites impostos às prerrogativas dos poderes Legislativo
e Judiciário, esfacelamento dos partidos de oposição, cerceamento às
liberdades civis e políticas, esvaziamento intelectual das principais
universidades e centros de produção científica e cultural críticas,
exílio e clandestinidade de lideranças políticas (CARDOSO, 1988 e
1990; DASSIN, 1982 e 1987; O’DONNELL, 1986; SANTOS, 1988).

A “terceira fase” da transição à democracia no Brasil entre 1985 a 1990, com a posse
do vice José Sarney após a repentina morte de Tancredo Neves, percorreu em um contexto
que ficou conhecido na esfera política como o caminho para a intensificação da
democratização. A despeito das frágeis circunstâncias da Nova República, que teria de
enfrentar uma agravante crise econômica e social, seus problemas de governabilidade no que
tange na situação vulnerável do Estado em governar sob os efeitos das pressões internas
estimuladas pelas forças políticas heterogêneas e os impulsos dos partidos da oposição e dos
setores organizados que lutavam contra os obstáculos à participação e representação políticas,
se tornavam cada vez mais visíveis no cenário político as instituições pela qual buscavam
pressionar os órgãos governamentais com o objetivo de reformas administrativas para maior
eficiência dos serviços públicos e estabelecer as condições livres de participação e
contestação.

7
Para um estudo mais denso entorno da experiência militar-autoritária no Brasil, ver Cardoso (1972), Stepan
(1973, 1975 e 1988) e Skidmore (1988). E sobre a transição brasileira, consulte as pesquisas de Martins (1986),
Stepan (1989), Lamounier (1988 e 1989), Velasco e Cruz e Martins (1983) e Diniz (1985).
Com a revogação dos limites impostos sobre o direito de voto e organização política,
os movimentos sociais aos poucos foram ganhando mais espaços nos variáveis conflitos da
transição democrática, uma vez que suas ações não são suficientes para explicar as complexas
relações que envolvem esse processo. Deve-se considerar que as pressões externas da
democratização no país vinham de diferentes dimensões após a década de 70 quando se
articulavam em ligação com a conjuntura econômica internacional, entre elas se encontram “a
política dos direitos humanos do governo Carter, os organismos internacionais de luta contra
torturas e maus tratos impostos aos presos políticos, os governos que se recusavam a apoiar
projetos de desenvolvimento onde vigiam regimes autoritários” (ADORNO, 1996, p. 64).
Nesse contexto de transição política em conjunto com o modelo de desenvolvimento
da economia internacional, as elites políticas e econômicas, para garantir a importação de
recursos necessários para o Brasil, começaram a exigir novas alianças políticas que não mais
se apoiavam nos estritos acordos com a ordem dos militares, pelo devido fato de que, a
imagem externa do país estaria comprometida internacionalmente se os atos do regime
autoritário e a forma como atuavam contra as dissidências políticas viessem a ser divulgados
pela imprensa a outros países. Segundo Stepan (1988), esse processo conduziu a uma abertura
na estrutura fechada da hegemonia de poder restringido e que foi ampliado pelos arranjos
sociais, econômicos e políticos ao serem estabelecidos para um aprofundamento da
democratização.
Ao mencionar as ambigüidades entre o estabelecimento desse arranjo político híbrido
da “transição pactuada” (O’DONNELL, 1988a e 1988b) e o conservadorismo que marca esse
processo, no caso brasileiro, o qual se mistura componentes da continuidade autoritária
associados com as perspectivas democráticas, sobretudo como produto das negociações entre
as elites, reporto-me a considerar que “não houve transição imposta pela oposição ou por
ruptura, não ocorreu colapso completo do regime autoritário” (CARDIA, 1999, p. 23). Essa
colocação põe em evidência as permanências da crise econômica e os obstáculos para a
consolidação da democracia como as principais características que também dificultaram a
transição em todos os países latino-americanos e nas regiões do Leste Europeu, apesar de suas
especificidades (RIAL, 1991 e O’DONNELL, 1993). Contudo, esses obstáculos para a
consolidação na América Latina consistiram na presença e proteção aos membros do antigo
regime (FRANCO, 1990), pouca participação da maioria no processo de tomada de decisão
(GARRETÓN, 1991; RONIGER, 1989; CARDIA, 1999) e na manutenção de resistências à
redemocratização tanto por parte das elites consolidadas que não queriam ver nos assuntos
políticos as exigências de grupos mais pobres e partidos organizados para uma política social
quanto aos descréditos e desconfianças da população diante dos princípios democráticos.
Esses fatores desdobraram na sociedade brasileira mudanças razoavelmente
consolidadas, pois as permanências do período autoritário se exercem em diferentes práticas
de poder e de negociação na institucionalização da democracia, mas essas crises sociais e
político-institucionais fizeram insurgir os ânimos para normalizar os procedimentos
constitucionais do governo civil na nova experiência democrática:

Parcela das elites políticas, familiarizadas com o trato da coisa


pública, atirou-se a um novo empreendimento: a procura de novos
interlocutores que assegurassem a estabilidade do sistema político a
despeito do quadro institucional de incertezas. Nesse panorama,
resgataram-se fórmulas liberais que apelavam para o retorno do
Estado de Direito, por isso entendendo-se um regime político que
assegurasse os direitos individuais, civis e de participação e
representação assim como fomentasse a distribuição de justiça social.
Nesse horizonte, a agenda de reivindicações não era desprezível:
incluía a inviolabilidade do domicílio, a proibição de prisões ilegais, o
instituto do habeas-corpus, a garantia de ampla defesa aos acusados, a
extinção de foros privilegiados ou tribunais especiais para o
julgamento de crimes de abusos de poder praticados por policiais e
autoridades públicas8.

Depois do governo militar, o país aos poucos foi reajustando seus procedimentos
legais à nova situação democrática. Apesar de seus impasses, a reconstrução da democracia
no Brasil em curso desde o início da década de 1980 avançou em termos razoáveis ou apenas
em termos formais para a:

(...) ampliação dos canais de participação e representação políticas;


alargamento do elenco dos direitos (civis, sociais e políticos);
desbloqueio da comunicação entre sociedade civil e Estado;
reconhecimento das liberdades civis e públicas; abolição das
organizações para-militares ou organismos paralelos à segurança
pública; maior transparência nas decisões e procedimentos políticos;
sujeição do poder público ao império da lei democraticamente votada;
existência de eleições livres (ADORNO, Op. Cit., p. 66).

A culminância dessas mudanças institucionais será definida a partir da refundação da


estrutura constitucional brasileira com o advento da promulgação de uma nova Constituição
em 5 de Outubro de 1988.

8
Adorno, 1991: 35; vd. Tb. Velasco Cruz & Martins, 1984; Dreifuss & Dulci, 1984; Figueiredo & Cheibub,
1986-87; Instituto Interamericano de Direitos Humanos, 1988; Lebrun, 1987; Pinheiro, 1984, O’Donnell & Reis,
1988.
Com a nova Constituição, foi reconhecido o direito ao voto aos analfabetos e com o
pluripartidarismo. Foram declaradas garantias aos direitos fundamentais e proteções
constitucionais à integridade física e a ampliação do direito à defesa. O racismo e a tortura
foram considerados crimes inafiançáveis e imprescritíveis. Tal Constituição pretende
assegurar os direitos de privacidade, igualdade e liberdade (física, de locomoção, de
circulação, de pensamento e de convicções políticas e religiosas, de reunião e de associação
coletiva), alegando inovações concernentes aos direitos sociais e ampliação de proteção aos
direitos de trabalho e ao trabalhador, à infância, à maternidade, ao consumidor e ao meio
ambiente. Em termos políticos, se dispõe a conceder maior autonomia ao Ministério Público e
consagrar o acesso à justiça com a criação das Defensorias Públicas para aqueles que se
encontravam desprovidos de recursos e assistências judiciárias.
Porém, o aperfeiçoamento constitucional da consolidação democrática no Brasil não
foi suficiente para conter as persistências da violência nas relações intersubjetivas e as
conseqüentes violações de direitos humanos profundamente projetadas nos costumes, na
política e no campo das relações sociais, assim como eram praticadas pelos regimes
autoritários anteriores. Pelo contrário, houve, no entanto, um recrudescimento dessas práticas
de arbitrariedade que também se multiplicaram para fora dos funcionamentos e repartições
macropolíticas das instituições do Estado. Essa “estatização contínua” (DELEUZE, 1988) de
práticas violentas produzidas numa rede de poder se configurou localmente nos espaços
sociais e foram suscitadas entre as manifestações diárias de racismos, violências cometidas
contra mulheres, idosos, crianças e jovens, assassinatos, homicídios, intolerâncias religiosas,
linchamentos, execuções sumárias, justiçamentos cotidianos e privatizados e práticas
constantes de extermínio intensificadas, por um lado, pelas instituições encarregadas de
garantir “a lei e a ordem”, por outro, pela própria “sociedade civil”. A tortura, que era uma
prática coordenada pela ditadura militar, no atual Estado Democrático e de direito passou a
ser exercida de maneira sistemática, principalmente nas delegacias de polícia e nas prisões em
todo o país. Como discute Alcir Lenharo:

Sob a capa dos contornos formais restam o continuísmo e as alianças


obstacularizadoras da gestação do novo. (...) É constrangedor, em
plena época do exercício democrático da ‘nova república’, deparar e
conviver com aspectos moleculares tipicamente fascistas, uma
demonstração de que eles permanecem, transmutam-se no interior da
máquina em se engendrando (LENHARO, 1986, p. 12).

Parece óbvio que, as mudanças no ordenamento jurídico não afetam diretamente, de


imediato e com o mesmo ritmo as complexas situações que caracterizam a sociedade
brasileira. Desse modo, apesar de a nova Constituição ter conseguido garantir o
reconhecimento formal dos direitos individuais, e no período democrático os movimentos
sociais diversos, partidos políticos, organizações não-governamentais, sindicatos e grupos
religiosos assumirem um posicionamento significativo na cena política, criando novos
espaços de debate político e diálogo com o poder público através dos conselhos e fóruns
populares, houve, no entanto, o que Teresa Pires do Rio Caldeira e James Holston (1998)
indicaram como “o caráter disjuntivo da democratização brasileira” entre o respeito aos
direitos políticos e sociais e o desrespeito aos direitos individuais, disjunção sobre a qual se
associa ao não acompanhamento das instituições na dinâmica desse processo, sobretudo
aquelas direcionadas para as políticas de segurança pública e os chamados sistemas de
accountability9.
Portanto, os novos padrões estabelecidos no país pelo constitucionalismo democrático
tiveram pouco efeito ao lidar com os valores de longa duração fomentados durante a ditadura
militar e a continuidade de práticas arbitrárias, experiências tradicionais da violência,
persistências e aumento de abusos e violações de direitos humanos, principalmente em relação
às resistências provocadas pelos aparatos policiais e prisionais que não queriam aderir às
decisões administrativas e opções políticas dos governos democráticos em assunção desde o
início da década de 1980. Como explica Fernando Salla (2003):

Policiais e funcionários do sistema penitenciário provocaram


instabilidade na área de segurança pública ao enfrentarem as
autoridades superiores por meio de greves das corporações,
incitamento às rebeliões de presos, recusa no cumprimento de ordens
e no atendimento de normas destinadas a reformar as práticas
institucionais (SALLA, 2003, p. 420).

Nisso se revela os aspectos impermeáveis desses setores em conjunto com as novas


exigências do contexto democrático, nas dificuldades do sistema político em tentar diminuir
os índices da “violência oficial” e práticas criminosas dos agentes do Estado, em particular a
atuação do policiamento com a morte sistemática de “delinqüentes e suspeitos” e os maus
tratos impostos no âmbito do sistema prisional, comumente exercidos com o devido rigor
pelas práticas corruptas dessas instituições que intervém pela força em apoio e garantia tanto
da população como do corporativismo.
Os freqüentes casos de civis mortos em confronto com as forças policiais, o uso
rotineiro da tortura como instrumento de investigação e punição em concomitância com a

9
Responsabilidade, dever de uma instituição de prestar contas diante da sociedade.
prisão arbitrária e ilegal, espancamentos, assassinatos extrajudiciais, envolvimento policial
com as organizações criminosas dentro e fora dos sistemas penitenciários, a facilitação de
fugas de presos, a permissão para entrada, nas prisões, de drogas, de armas de fogo, de
telefones celulares, demonstram a banalidade de práticas de corrupção e crimes oficiais dos
agentes do Estado e a proporção de um eminente sentimento de descrédito com as instituições
de segurança, com a eficácia da polícia e da legitimidade do sistema judiciário e da justiça
criminal que provocam reações de revoltas populares, cujos efeitos se radicalizam nas ações
violentas coletivas de punição sumária e “justiça popular” praticadas por atos de linchamentos
incorporados como respostas da população ao crescente sentimento de medo e insegurança
frente ao abandono do aparato institucional10.
Para se entender como isso foi possível, vale discutir a seguinte questão: Como os
direitos humanos teoricamente garantidos pelo princípio de valor universal, mas interpretados,
modificados em contextos socioculturais e políticos específicos, foram ao decorrer desse
processo desrespeitados no Brasil não somente pelos restritos abusos policiais e que se
capilarizaram num campo social mais amplo? E na medida em que a proliferação da
violência, as conseqüências da deslegitimação da justiça e dos direitos civis vistos como
ineficientes em seu funcionamento, o uso da vingança privada e imediata associada à idéia de
que a lei e o sistema judiciário são benefícios de poucos, produziram estratégias discursivas e
concepções diversas no espaço público sobre quais limites de punição e dor devem ser
executados na intervenção de corpos, sobretudo do “criminoso” em defesa da pena capital
adotada sob a justificativa de medidas severas consideradas como “exemplos pedagógicos”
para não se cometer crimes, como os direitos humanos passaram a ser contestados, atacados e
foram identificados após o regime democrático como uma proteção e direitos legítimos em
“privilégios de bandidos”? E que o argumento da impunidade, nesse âmbito generalizado de
desencantos e desalentos, serve para sustentar o debate acerca da implementação da pena de
morte e prisão perpétua na Constituição Federal Brasileira, comumente articulado nas
propostas políticas, nas instâncias micropolíticas, na posição popular e nas conversas e
impressões do cotidiano.
A naturalização da “fala do crime” e do medo (CALDEIRA, 2000), da insegurança
social e do aumento da criminalidade associada ao viés mecanicista com os estereótipos da
pobreza e marginalidade urbana sobre o qual as pessoas decidem em tirar ou não a vida do
“outro”, reduz a qualificação da cidadania à condição de Vida Nua, como definiu Agamben
(2002), isto é, à crua materialidade biológica e incluída no ordenamento jurídico-político

10
Sobre as questões de práticas de linchamentos no Brasil como respostas populares à violência urbana,
consultar os estudos de Maria Victória Benevides e Rosa Maria Fischer Ferreira (1983).
moderno sob a forma de suspensão de direitos e exclusão como regra de sua absoluta
matabilidade nas relações interpessoais.
A análise aqui apresentada teve o esforço de não recorrer às significações ideais, tipos
gerais ou essências daquilo que veio a se moldar e significar como “democracia”. Esse “tipo
ideal” (característica dos pressupostos metodológicos Weberianos) freqüentemente é utilizado
pela maioria de historiadores e cientistas sociais como um artifício retrospectivo para se
explicar o objeto estudado e uma variedade de considerações históricas a partir da convicção
axiológica e do esclarecimento de essencialismos (DREYFUS & RABINOW, 1995). Não
tenho a menor pretensão de levantar os elementos paradoxais da realidade concreta dos fatos e
opor práticas históricas específicas de poder meramente para destacar a relativização de um
modelo idealizado de governo. Minha tarefa analítica terá por prerrogativa a Problematização
do Acontecimento pela qual a democracia veio a se tornar um dispositivo da sociedade de
controle, em que sustentar a base da soberania nas democracias modernas Ocidentais, seria
viver permanentemente numa estrutura de exceção que se transformou no paradigma
biopolítico dos governos atuais amplamente utilizado como medida de segurança pelos
Estados democráticos cada vez mais punitivos (FOUCAULT, 1975-76; DELEUZE, 1995;
WACQUANT, 2001; AGAMBEN, 2004).

1.2 Impunidade, Crescimento da Criminalidade, Conflitos e Problemas da “Lei e


Ordem” no Pensamento Social de Ralph Dahrendorf

Ao se analisar as questões sobre a erosão da lei e da autoridade e um sentimento


generalizado de insegurança e medo diante da escalada do crime na sociedade contemporânea,
vale destacar algumas idéias e argumentos – que, no entanto, se mantêm atuais – contidos nos
ensaios do sociólogo alemão Ralph Dahrendorf, em particular, no seu livro intitulado de Law
and Order (editado no Brasil pelo Instituto Tancredo Neves em 1987) que é composto por
quatro ensaios cuja discussão reside em refletir sobre os dilemas e os impasses da ordem
social e da liberdade no futuro da sociedade contemporânea. Em suas pesquisas e objetos de
estudos, Dahrendorf se dispõe em elaborar análises que contribuam para uma compreensão do
conflito social e da teoria política do liberalismo, afirmando que seus objetivos intelectuais
não sustêm contribuições acerca de debates criminológicos sobre prisões e polícia.
Entre meados da década de 1950 até a primeira metade de 1970, no conjunto de
trabalhos produzidos, sobretudo nos escritos de As Classes e seus Conflitos na Sociedade
Industrial (1957) e na coletânea de ensaios publicados no Brasil que recebeu o título de
Sociedade e Liberdade, Dahrendorf procura construir uma teoria do conflito social mais
adequada para o entendimento da sociedade contemporânea, confrontando os pressupostos
teóricos fundamentados pela lógica Parsoniana e Marxista. No que se refere às teorias de
Parsons, contesta os alicerces que conduzem para a tese do consenso social. Nesse momento,
ele se baseia nas concepções de Marx a partir da natureza dos conflitos de classes nas
sociedades industriais durante o século XIX. No entanto, para justificar sua argumentação,
Dahrendorf investiga certos dados empíricos de desenvolvimento social que não diz respeito à
teoria de classes formulada por Marx, assim, inapropriada para se compreender as
características das sociedades industriais avançadas. É justamente nesse ponto que o autor se
refere a sua teoria do conflito social mais consistente para se explicar não só as sociedades
capitalistas, mas também que seja aplicada às sociedades industriais em geral
(DAHRENDORF, 1982).
Conforme o argumento empírico do autor, o desenvolvimento industrial posterior a
Marx estabeleceu uma intensa separação entre propriedade e o controle dos meios de
produção, engendrando-se no surgimento de sociedades anônimas, de cooperativas e de
empresas estatais, cujos efeitos marcam o advento do século XX. Nesse processo, são
reduzidos os distanciamentos na relação entre gerentes e operários; os proprietários se
distanciam do controle dos meios de produção que passam cada vez mais a ser encarregados
pelas funções dos “managers”; diferenças estabelecidas não mais no âmbito de proprietários e
gerentes, mas na diferenciação de papéis entre acionistas e executivos; houve mudanças nas
bases de legitimidade empresarial, ao invés de se sustentar em direitos de propriedade, agora
se fundamenta em um modelo de autoridade similar com os diretores de instituições públicas;
para compor a classe empresarial, não necessariamente precisa ser herdeiro de bens capitais,
como também se abrem caminhos de acessibilidade para se construir carreiras burocráticas
ligadas à educação especializada. As mudanças acentuadas pela decomposição do capital
foram decisivas para alterar a composição dos grupos sociais em conflitos.
De acordo com Dahrendorf, tais transformações das sociedades industriais avançadas
fragmentaram a concepção homogênea de classe trabalhadora concebida por Marx para
descrever o desenvolvimento social e os projetos políticos dessa categoria social.
Primeiramente, a natureza dos conflitos na sociedade contemporânea se modificou a partir da
heterogeneização da classe trabalhadora, cujas diferenças internas são perceptíveis pelo
aumento de trabalhadores com um alto grau de qualificação que se aproximam dos cargos de
engenheiros e trabalhadores de escritórios; Outra diferença a destacar entre os trabalhadores
seria a especialização e a experiência de trabalho nas indústrias, cuja dissensão se sucede no
crescimento de trabalhadores semi-especializados e na redução participativa de trabalhadores
que não possuem uma especialização considerável por ingressar recentemente na experiência
industrial.
Seguindo Dahrendorf, este processo acompanha o surgimento de uma classe média
ambígua em sua composição social. Essa ambigüidade é caracterizada pela impossibilidade de
definí-la a partir do tradicional modelo marxista de classe social. Por um lado, não podemos
mais classificar esse agrupamento social por meio de critérios conceituais estratificadores. Por
outro, com o aumento vertiginoso dos trabalhadores de escritório, os componentes identitários
da classe média se dividem em comportamentos sociais e políticos de trabalhadores que se
identificam com a burguesia e outra camada se reconhecem como classe operária. Essas
transformações no interior das composições sociais desencadearam conseqüências incisivas
sobre a natureza dos conflitos contemporâneos.
Assim, as mudanças decorridas nas sociedades industriais contemporâneas
promoveram maiores condições e oportunidades propostas pelo mercado de mobilidade social
para os diferentes grupos e suas complexas relações internas. Nessa perspectiva, o autor
defende a idéia de que se inauguram na história social moderna os possíveis caminhos para
que realmente a igualdade possa se efetivar em práticas concretas. Porém, Dahrendorf
considera que a emergência dessa equalização de status na sociedade industrial
contemporânea dificulta e na maioria das vezes podem atenuar os projetos políticos
revolucionários. As promoções da igualdade social em termos de papéis institucionalizados
acabam por abrandar a tensão dos conflitos de classe, o que o autor denominou como uma de
suas teses principais sobre a institucionalização dos conflitos sociais.
Segundo suas observações, a partir da institucionalização dos conflitos, as lutas de
classe entre operariado e empresariado travadas desde os fins do século XVIII e meados do
XIX na Inglaterra e Europa Continental, sofreram um abrandamento durante as
transformações no século XX. O autor reconhece que esse amortecimento do embate entre
grupos sociais opostos delineou-se tanto no âmbito das relações industriais como no campo
jurídico e político. De acordo com ele, se desenvolveram as negociações coletivas, os
sistemas de conciliação, mediação e arbitramento nas experiências industriais; os mecanismos
legislativos e tribunais de justiça passaram a exercer funções semelhantes nas esferas jurídicas
e políticas. Contudo, Dahrendorf aponta para questões de disputa de legalidade e poder
baseada em lutas entorno da desigualdade social de controles normativos e de autoridade na
sociedade. O que está em pauta nos conflitos contemporâneos seria o nível de influências
entre grupos distintos em sua maior ou menor atuação sob o contrato social e com o princípio
da lei e da ordem, não somente acerca dos limites de distribuição escassa de recursos:
Tanto nas empresas industriais post-capitalistas quanto nas
capitalistas, existem algumas pessoas cuja tarefa é controlar as ações
de outros e emitir ordens e outras pessoas que devem deixar-se
controlar e obedecer. Hoje, assim como há cem anos atrás, há
governos, parlamentos e tribunais cujos membros têm a faculdade de
tomar decisões que afetam a vida de muitos cidadãos, e há cidadãos
que podem protestar e modificar seu voto, mas que têm de obedecer à
lei. Na medida em que estas relações podem ser descritas como
relações de autoridade, eu afirmaria que as relações de subordinação e
dominação perduraram através das mudanças do último século.
Acredito mesmo que podemos avançar ainda mais. A autoridade
exercida tanto na sociedade capitalista quanto na post-capitalista é do
mesmo tipo; nos termos de Weber, é uma ‘autoridade racional’
baseada ‘na crença na legalidade das normas institucionalizadas e do
direito de comando por parte daqueles que, através dessas normas,
foram investidos com autoridade’. A partir desta condição seguem-se
muitas outras, inclusive a necessidade de administração burocrática.
Mas estas últimas baseiam-se, sobretudo, na desigualdade social
fundamental da autoridade, que pode ser mitigada por seu caráter
racional, mas que, não obstante, permeia a estrutura de todas as
sociedades industriais e proporciona o determinante e a substância da
maioria dos conflitos e choques” (DAHRENDORF, 1982, p. 73;
ADORNO, 1996, pp. 8-9).

No segundo momento da obra de Dahrendorf, se deslocam algumas inquietações que


assentam sobre os problemas de anomia social na contemporaneidade correlativos às questões
de liberdade, progresso e o novo liberalismo em vigor no alargamento das oportunidades de
vida, expansão das liberdades de escolha e o preço de romper com as ligaduras constitutivas,
cujo liame garante os laços do indivíduo com a sociedade (DAHRENDORF, 1991). É a partir
desses temas que sua obra Law and Order irá buscar reflexões diante do dilema da sociedade
contemporânea. Em seus estudos, ao relatar sobre o aumento de crimes e suas tendências
mundiais e as taxas que sugerem um significativo retraimento da capacidade punitiva do
Estado, Dahrendorf se baseia quase que exclusivamente em fatos históricos para indicar que
as lutas entorno do contrato social, legalidade, poder normativo e autoridade, nos conduziram
para seu sentido inverso, ou seja, rumo ao processo inexorável da anomia e para a erosão da
lei e da ordem na sociedade contemporânea, cujo o maior problema se torna mais visível na
atual incapacidade do Estado em mobilizar esforços contra o crime e a violência e garantir os
cuidados de segurança para os cidadãos e proteção de seus bens.
De acordo com as constatações do sociólogo alemão, desde a década de 1950 e ao
longo dos anos 60, averiguou-se um crescimento expressivo de crimes contra a pessoa,
duplicaram no período as taxas de assassinatos, principalmente nos Estados Unidos, Grã-
Bretanha, Alemanha, Países Baixos e Suécia. Agravam-se os casos de assaltos, roubos e
estupros; em trinta anos, cresce o número de pessoas que vivem do crime e aumenta o número
de vítimas. Portanto, nota-se um crescimento considerável de pessoas que estão violando as
leis penais, conforme mencionado, é agravante o número de vítimas e, segundo os dados
levantados pelo autor, fica mais vulnerável os comportamentos e bens defendidos pelas leis
penais diante de ataques e as demais ofensas; em relação à prosperidade e a circulação de
riquezas, surgem novas práticas de crimes, inclusive aquelas envolvidas com o tráfico de
drogas. Dahrendorf ressalta que o problema não está relacionado simplesmente com o
aumento de crimes, mas a respeito do grau de tolerância e aceitação da sociedade em conviver
com eles. Por isso, ele nos chama atenção para os limites de tolerância na contemporaneidade,
em seu extremo, as pessoas começaram a reagir diante da alarmante ameaça de crimes. Neste
sentido, a erosão da lei e da ordem se reflete nessa fomentação de ansiedades públicas. Uma
de suas conseqüências assinala para a maior probabilidade de um criminoso se manter oculto
em seus crimes cometidos. Com base em dados estatísticos em comparação com o passado, o
autor supõe o seguinte fato de que, a despeito do afrouxamento das práticas punitivas,
incapacidade e descaso da polícia em lidar com as infrações, desistência deliberada de
punições e desatenção aos delinqüentes mais conhecidos, apenas uma pequena parcela de
crimes são reconhecidos e registrados.
Dahrendorf argumenta, por conseguinte, que a realidade do problema de lei e ordem
na sociedade contemporânea não condiz apenas com aspectos conjunturais entre crescimento
de crimes e “cifras negras” (crime oculto), embora possam estar relacionados, o fator
principal reside nas violações sistemáticas das normas e não somente sob os efeitos do
enfraquecimento punitivo das normas violadas. No que diz respeito à anomia, o autor afirma
que, antes um estado de espírito, na contemporaneidade ela se tornou um estado de sociedade.
De acordo com Adorno (1996), ao descrever a concepção de Dahrendorf:

Anomia é uma condição social em que as normas reguladoras do


comportamento das pessoas perderam sua validade. Onde prevalece a
impunidade, a eficácia das normas está em perigo. As normas parecem
não mais existir ou, quando invocadas, resultam sem efeito. Tal
processo aponta no sentido da transformação da autoridade legítima
em poder arbitrário e cruel (ADORNO, 1996, p. 11).

Assim, Dahrendorf irá identificar esses fatores de declínio das sanções em alguns
espaços da convivência social que ele denominará como as áreas de exclusão. Para ele, essas
áreas elucidam o caráter cotidiano da impunidade e da isenção de penas por crimes praticados.
Nessas “áreas de exclusão”, assim como aponta Dahrendorf, verifica-se que em
diferentes sociedades são escassos os registros feitos sobre os furtos e grande parte desses
casos nem sequer são investigados. A baixa probabilidade da investigação e o crescente caso
de furtos não registrados se assemelham aos casos de evasão fiscal. Ao fazer menção às novas
modalidades de crimes, sobretudo aquelas relacionadas ao narcotráfico, o autor adverte sobre
os indícios da desistência sistemática de punição contra a instituição dessa economia paralela.
Nesse processo, se considera os efeitos sobre o qual as pessoas incorporaram o ato de
executar a justiça e fazer valer a lei com suas próprias mãos.
No que se refere como a segunda área, Dahrendorf dirige-se aos problemas da
juventude e sobre as causas do aumento da delinqüência juvenil. Segundo suas observações,
as sanções aplicadas aos jovens tendem para uma gradativa debilitação, redução e isenção de
penalidades, justamente para aqueles que respondem pela maioria de crimes violentos
cometidos em diversas sociedades modernas.
Na terceira, o sociólogo remonta as questões a respeito do processo de anomia parcial.
Para ele, a privatização dos sistemas de segurança está associada, por um lado, ao
consentimento pela qual os cidadãos tomaram pra si em evitar determinados espaços urbanos
projetados como lugares perigosos ou que se tornaram isentos à normalidade garantida pela
manutenção da lei e ordem, por outro, aos desafios que esses serviços securitários privados
estabelecem para o monopólio do uso legítimo da força pelo Estado e suas instituições.
Não obstante, a quarta área de exclusão é voltada para a própria perplexidade e
dificuldades das sanções diante do extenso dimensionamento e vastidão de normas violadas,
cuja repercussão se manifesta sobre as diferentes formas de distúrbios civis, por exemplo, nos
motins de ruas, tumultos, rebeliões, revoltas, insurreições, demonstrações violentas, invasões
de edifícios, piquetes agressivos de greve e entre outros. Segundo as constatações de
Dahrendorf, as aplicações das sanções penais perdem a direção e ficam desnorteadas frente às
vastas violações das normas.
Para compor suas propostas e argumentação acerca do enfraquecimento das sanções
penais e das “ligaduras” sociais existentes na sociedade contemporânea, partimos então para o
segundo ensaio de Dahrendorf sob o título de “Buscando Rousseau, Encontrando Hobbes”.
Nesse ensaio, ele destaca em fatos os problemas do declínio das sanções e do rompimento dos
liames sociais. Retomando o caso da reforma do direito penal na Alemanha logo no início dos
anos 60, critica as reformas favoráveis às condições de vida nas prisões que propuseram novas
“alternativas” para a política criminal em não aceitar penalizações que reconduziriam o
homem à natureza de sua “dessocialização”, suavizando as penas a partir do princípio de
cuidado dos criminosos e não a aplicação mais dura de punições. Para o autor, essas
concepções e práticas empregadas nos mecanismos do direito penal conduziram para uma
decomposição das sanções efetivas de tal modo ao ponto de levá-las aos limites da
impunidade.
Dahrendorf utiliza as concepções de Habermas sobre as estruturas normativas da
sociedade e se opõe às representações de homem implicadas no pensamento de Kant para
concluir que os devidos impasses e perigos da sociedade contemporânea ganham respaldo
pela “impossibilidade de sustentar a sociabilidade insociável do homem”, cuja solução
consiste em reconstruir as instituições para assegurar os vínculos sociais reconstituídos pelo
modelo contratual de organização societária.
A contextualização dessa proposta de Dahrendorf será apresentada no seu terceiro
ensaio intitulado “A Luta pelo Contrato Social”. Procurando destacar em três direções o
processo histórico e os efeitos que possibilitaram o surgimento dos novos antagonismos da
sociedade industrial após a institucionalização ou “democratização” dos conflitos sociais, o
sociólogo descreve as conseqüências do fracasso do Welfare State (Estado Social) que
instaurou a universalização dos programas sociais para prover os benefícios na distribuição de
recursos e assegurar a todos os cidadãos a qualidade dos serviços sociais; indica o surgimento
de uma nova pobreza constitutiva em sete categorias sociais, entre elas, se encontram
desprovidos dos mecanismos de transferência de renda os desempregados, idosos, famílias
monoparentais, doentes e incapazes, os de baixa renda, mulheres solteiras com dependentes
mais velhos e pobres internados em instituições. Sem a proteção do Estado Social, esses
grupos se situam numa posição de vulnerabilidade diante das reduções de benefícios das
políticas providenciais. Em seguida, Dahrendorf nos chama a atenção para uma nova explosão
de litigiosidades, não mais sobre os estreitos conflitos entre o operariado e o empresariado,
mas a partir dos litígios que gravitam sobre os direitos de cidadania e entre aqueles que
possuem empregos e por isso gozam de uma posição privilegiada, e os que se vêem excluídos
e não dispuseram de cidadania, como é o caso de imigrantes, de idosos que não possuem em
sua totalidade e os jovens que ainda não usufruíram por conta dos difíceis acessos aos direitos
do cidadão.
Tais conflitos sociais contemporâneos nos levam em direção ao fenômeno indicado
pelo autor como uma crise de legitimidades e a falência de lealdade que se traduz na falta de
confiança sobre a eficácia de seus valores fundamentais. Por isso, Dahrendorf insiste na
ordem social estabelecida a partir da reconstituição do contrato. Suas propostas giram em
torno das saídas viabilizadas por um liberalismo radical, cuja empreitada consiste em
enfrentar as questões ligadas à inserção dos jovens, o futuro do trabalho e o problema da lei e
da ordem.
A resolução dos problemas voltados sobre a lei e a ordem, segundo as assertivas do
autor, não devem se limitar aos tradicionais meios rousseuniano ou se deter em substituições
que elevam políticas econômicas encarregadas de promover uma justiça distributiva. Segundo
Dahrendorf, o liberalismo radical terá que caminhar no sentido de defesa às instituições com
uma atitude ao mesmo tempo rígida e moderada. Embora seja reconhecido que o aumento do
crime está associado com os problemas de fundo social, sobretudo aqueles em conjunto com a
falência do Estado de bem-estar, isso não significa que deva ser favorecida a isenção das
sanções para criminosos provenientes das camadas mais pobres da população. Em seu último
ensaio intitulado “A Sociedade e a Liberdade”, o autor arquiteta suas proposições e
argumentos baseados nesse liberalismo radical em via para defender as instituições que
asseguram “a sociabilidade insociável do homem”, garantem os direitos humanos e efetivam o
controle sistemático do poder. É nesse sentido que o sociólogo sustenta a idéia de liberdade.
Dahrendorf chega a propor direcionamentos para as políticas públicas que deveriam
intervir nas “áreas de exclusão” com o escopo de prescrever punições aos crimes atualmente
não punidos; Ampliar as condições de oportunidades para os jovens sem abrir mão das
exigências sobrepostas ao respeito às autoridades; conceder apoio às instituições de lei e
ordem partindo da estreita ligação entre polícia e comunidades locais. A partir daí, o
liberalismo radical de Dahrendorf atribui para si a função de regulamentação da norma que
impeça tanto a anomia quanto a hipernomia para não comprometer o exercício da liberdade.
Desse modo, o contrato social deve garantir o mínimo de respostas normativas e institucionais
proporcionando, assim, a “justiça com eqüidade”.
Após destacar e descrever algumas questões, interpretações e principais propostas de
Dahrendorf a respeito dos conflitos contemporâneos, do contrato social, da anomia e
hipernomia, erosão da lei e da ordem, áreas de exclusão e liberalismo radical, me proponho a
analisar, fazer considerações, problematizar e estabelecer críticas em relação a alguns dos
pressupostos concluídos pelo sociólogo no decorrer de seu sofisticado texto.
Em primeiro lugar, ao analisar os novos antagonismos sociais na contemporaneidade
os quais giravam entorno das lutas pelo contrato e dos problemas que implicaram no modo
como a lei e a ordem estavam sendo efetivadas, Dahrendorf busca compreender o presente em
comparação com o passado opondo-os para se explicar fatos contemporâneos.
Freqüentemente ele recorre às lutas sociais do século XVIII e XIX comparando-as com os
conflitos do século atual. Compara também o aumento da criminalidade e das sanções penais
nos últimos trinta anos. Percebe-se daí que o presente é visto a partir da recorrência
comparativa ao passado. Dessa forma, os problemas contemporâneos são tratados sob uma
ótica tipicamente anacrônica, pois o presente nesses termos sempre é contemplado em relação
contraditória com o passado numa permanente crise em variáveis aspectos, como por
exemplo, crise de legitimidade e das normas, crise de autoridade e intervenção do poder, cujo
sentido nos encaminharia para uma inexorável decadência, tendo como conseqüências, as
inconvenientes ameaças e riscos difundidos pelo campo social em que o autor expôs enquanto
crimes em excessos e criação de situações de intolerância, enfraquecimento das sanções não-
aplicadas e geração de “áreas de exclusão”.
Esse anacronismo histórico, tácito nas leituras intertemporais e migratórias de
Dahrendorf, recai não por acaso no paradoxo de restabelecer uma linguagem característica do
século XIX para a reconstrução de fatos contemporâneos. Quando o autor evoca a fala que
versa sobre os problemas de anomia, crise de autoridade, erosão da lei, manutenção da ordem
social e recuperação das instituições, ele acaba por resgatar as formulações clássicas mais
remotas encontradas no âmbito sociológico Durkheimiano relativas ao período em que foram
elaboradas para diagnosticar os elementos anômicos da sociedade moderna e igualmente aos
fenômenos da divisão social do trabalho. A sociologia de Durkheim, assim como a de
Dahrendorf, também se deteve em temas e pesquisas empíricas particularmente ligadas ao
crime, os sistemas de sanções e os mecanismos gerais da sociedade empregados para lidar
com as desobediências das normas sociais e manter a ordem.
Nessa articulação entre as linguagens de fins do século XIX e final do século XX,
assim como observaram Lagrange e Roché (1993), os temas criminais ganham uma notável
atenção como problema público, adquirem relevância nos debates e preocupações coletivas,
se constituem como objeto privilegiado nas reflexões de diferentes analistas e soa trivialmente
na agenda da moralidade pública voltada para os princípios da organização social, cuja
associação de linguagens díspares não considera as especificidades dos contextos sociais e
políticos que em certos momentos são incomparáveis. Os sinais ininterruptos de um presente
visto numa constante crise e comparado a fatos passados deram vazão para os jornalistas,
literatos, historiadores, sociólogos, artistas e entre outros observadores do final do século
XIX, sobretudo da sociedade francesa, em apontar o advento de uma era de degradação da
ordem e da segurança em liame com os fatores do século passado. Conseqüentemente, a partir
do século XIX, foram construídos inúmeros saberes, abordagens científicas, deterministas,
médicas e jurídicas e suas interfaces, práticas normalizadoras e penais que irão se estabelecer
em campos discursivos sob o tratamento, por exemplo, na assim chamada “degenerescências
raciais”, “vícios morais” e a degradação dos valores desembocada pelos esquadrinhamentos
das “perturbações mentais” e seus estigmas.
Lagrange e Roché (1993) apontam algumas interpretações sobre o aumento da
criminalidade contidas nas investigações de analistas como Tarde e Joly, para ambos esse
fenômeno está relacionado com o forte crescimento da delinqüência juvenil como um efeito
referente aos descuidos no cumprimento dos deveres e dos costumes. Conforme indica Joly, o
crime na cidade se comporta sobre a perda de referenciais territoriais e morais por parte
daqueles que emigram do campo para se estabelecer em outros espaços, percurso que leva o
emigrante em direção a pequenos intervalos de tempo ao estágio da vagabundagem para a
delinqüência. Diante dessa lógica, o crime na cidade se transforma em atividade racional que
permite calcular custos e benefícios.
Lagrange e Roché também destacam a existência de setores sociais nos diferenciados
espaços urbanos que eram desconhecidos e motivo de interesses pela maioria de criminólogos
e sociólogos do início do século XX, a título de exemplificação, Weber, Tönnies, Durkheim e
Simmel, todos eles preocupados em estudar os temas indissociáveis com as questões da
alteridade. Deste modo, o tema da multidão exemplifica os conjuntos das transformações da
cidade com a emergência de novos sujeitos e práticas na nova dimensão do espaço urbano
associada aos problemas da metrópole moderna. De acordo com Ianni (1989), o interesse em
compreender as multidões nas grandes metrópoles do período surge com as preocupações de
controlá-las diante da urgência de conflitos, percepções, protestos e revoluções populares e
constantes transformações na sociedade urbano-industrial moderna que estimulará novas
questões para o pensamento social, para o Estado e as elites políticas.
Assim, no panorama das duas metrópoles do período, Rio de Janeiro e São Paulo, os
conflitos sociais em face numa sociedade cada vez mais diversificada são vistos pelas elites
republicanas, no caso das cidades que concentram um maior volume demográfico, como uma
população insubordinada em excesso ou “multifacetada e disforme” (ADORNO, 1990, p. 9).
Para as instituições republicanas essa mesma população seria um entrave para os ideais de
organização social fundados pelo modelo jurídico-político contratual de sociedade. Aos olhos
das elites, o processo acelerado da urbanização, também constatado nas experiências de
outros países, aumenta a gravidade dos “perigos” impostos ao futuro da nação que são
inerentes às particularidades locais tais como já haviam atrapalhado a marcha do progresso
nacional. Ou seja, o medo das elites diante dessa nova dimensão social se coloca sobre a
presença da pobreza urbana após o fim da escravidão, cujo passado escravista vem à tona em
conjunto com as “diversidades raciais”, incivilidades, a falta de formação moral dos pobres
que demarcaram a contraposição e os atavismos aos projetos políticos, sociais e científicos do
novo regime.
Seguindo os estudos de Maria Stella Bresciani (1987), nas grandes metrópoles
européias, sobretudo Londres e Paris do século XIX, o crime no meio urbano passou a ser
visto como um dos inúmeros problemas procedentes da desagregação social e associado à
pobreza e às condições de vida do proletariado industrial. O amedrontamento das elites frente
aos perigos disseminados pelas novas condições de vida que são estabelecidas no âmbito
urbano é acompanhado com uma crescente preocupação em relação ao crime e a
criminalidade. No Brasil, especificamente nas grandes metrópoles no final do século XIX, as
transformações sociais e urbanas em São Paulo e no Rio de Janeiro são tematizadas por
diversos juristas preocupados em questionar as mudanças da criminalidade local. Os juristas
locais estavam preocupados em formular respostas e questionamentos ligados à progressiva
onda de crimes e o crescimento da criminalidade relacionado com os temas do progresso da
sociedade. O medo da escalada do crime e da criminalidade nas cidades brasileiras reside no
acelerado processo de urbanização e o envolvimento de segmentos sociais específicos com as
práticas criminais, assim, o saber jurídico se deterá em questões como o aumento do crime e
da criminalidade, progresso e civilização e o problema da convivência entre as diferentes
“raças”. Por exemplo, o jurista Viveiros de Castro defende a tese que a imigração tem um
efeito decisivo no entrecruzamento das “raças”, diversificando a composição racial das
sociedades. No prefácio de seu livro publicado em 1894, ele descreve essa situação no caso do
Rio de Janeiro:

(...) O Brasil oferece nesse momento de sua evolução histórica, a um


observador competente, um fenômeno curioso a estudar, uma raça que
se forma pela fusão de três raças diferentes, o português, o africano e
o índio. E aqui na Capital Federal o problema mais se complica pela
concorrência de estrangeiros, vindos de toda a Europa, que aqui se
demoram nas explorações da indústria e do comércio. (...) (CASTRO,
1932, p. VII).

Contudo, para os juristas, elites políticas, intelectuais do período e quase todos aqueles
que estavam preocupados em reformar as instituições jurídico-penais, consolidar o novo
regime e combater a criminalidade, o problema da convivência entre as diferentes “raças” se
torna uma problemática a mais para as pesquisas criminais, pois ao se vincular tanto aos
quadros gerais do desenvolvimento econômico e social das metrópoles locais e de outros
países, quanto às particularidades de um contexto local, a diversidade racial soma e dificulta
as necessidades de combate ao crime e contenção do crescimento da criminalidade para a
consolidação da ordem política e social da Primeira República. Percebesse que a manutenção
da ordem pelas elites republicanas não visava a expansão dos direitos civis, políticos e sociais
para a maioria da população, mas é sustentada por meio de uma deliberada violência contra os
movimentos populares, vigilância, repressão direta e controle social cotidiano contra os
inimigos da ordem política e desviantes da ordem social. Na mesma direção, a criminologia se
constitui como um saber normalizador voltado para o conhecimento positivo não mais do
crime, mas incide sobre o homem criminoso e será estabelecida como uma política
“científica” para se combater a criminalidade como um instrumento ou mecanismo de
controle social para conter a criminalidade local (ALVAREZ, 2003).
Houve criminólogos que criticaram as falhas da instituição familiar como responsável
à expansão dos crimes. As crises familiares traduzidas na diminuição de números de seus
membros, dissolução dos laços do casamento, os casos de abortos e do divórcio, para a
maioria das observações criminológicas tinham a mesma carga de atos suicidas e criminosos.
Noutro momento, acentuaram os conflitos políticos como causador da elevação dos crimes,
em particular, os governos democráticos e suas dissensões ou a instabilidade político-
institucional gerada pela falta de uma elite moderada no poder, cuja alusão é feita com base na
Revolução Francesa. Segundo Tarde e Joly, o egoísmo, os levantes revolucionários e a
presença das multidões no cenário político fazem elevar os números estatísticos de crimes e
conduzem para a decomposição da sociedade, da escola e dos sindicatos (LAGRANGE &
ROCHÉ, 1993, p. 83-98).
Portanto, podemos até considerarmos pertinentes as reflexões de Durkheim e de outros
autores do século XIX, como Tarde e Joly, quando privilegiavam os problemas relativos à
manutenção da ordem social a partir de um diagnóstico da sociedade moderna. No entanto, de
igual modo, não teria como deixarmos de reconhecer e de ressaltar as indispensáveis
diferenças entre a sociedade que esses autores investigaram e as sociedades contemporâneas.
De acordo com o argumento de Adorno, “os fatos contemporâneos precisam ser vistos senão
com os olhares da contemporaneidade” (ADORNO, Op. cit., p. 18).
Em referência à abordagem de Michel Foucault (1977) sobre a escrita da “história do
presente”, pretendo indicar o modo nada convencional como ele emprega e tenta realizar uma
análise histórica. Em Vigiar e Punir, ao estudar as transformações das práticas penais da
época clássica ao século XIX, a revolta das prisões na atualidade e seus mecanismos
disciplinares sobre o corpo e a alma, Foucault afirma:

É desta prisão, com todos os investimentos políticos do corpo, que


reúne em sua arquitetura fechada, que eu gostaria de fazer a história.
Por um puro anacronismo? Não, se compreendermos com isto fazer a
história do passado nos termos do presente. Sim, se compreendemos
com isto fazer a história do presente (FOUCAULT, 1977, p. 32).

A perspectiva Foucaultiana para os procedimentos historiográficos se coloca a partir


de sua proposta de história genealógica que se desloca para o ponto de partida de uma análise
das configurações históricas, discursivas e não-discursivas problematizadas como produções
culturais e não sobre a explicação objetiva da totalidade do real de que a “história dos
historiadores” tenta sucessivamente resolver como necessárias ao “desvelamento” ou
revelação de objetos naturais tomados pelo princípio de encontro à essência da época, do
passado e conhecimento da “origem” das coisas. Assim, a análise de uma “história do passado
em termos do presente” questiona a atualidade (problemática Kantiana da Aufklärung) e os
acontecimentos a partir do presente como “diferença histórica” e uma possibilidade filosófica
para uma ontologia crítica de nós mesmos, e não partindo de uma “história do presente” que
ilustra a realidade objetiva dos fatos para se revelar ou capturar o fotograma de um passado
simplesmente dado.
O acontecimento para Foucault, então, não está dado como fato, mas se configura num
emergente campo de relações de forças e diagramas que constituem jogos de poder. Concordo
com Margareth Rago (1995) quando ela afirma que:

A história genealógica se diferencia das ‘história dos historiadores’,


isto é, de uma forma de procedimento histórico atravessada pela
referência hegeliana, que procurava recuperar o que os documentos
diziam, como se um passado deles emanasse e pedisse para ser
revelado. Abandonam-se, portanto, as idéias de necessidade,
finalidade e totalização. A tarefa do historiador já não será encontrar a
finalidade de todo processo histórico, sua necessidade objetiva inscrita
em leis que organizariam a ordem natural do mundo, realizando uma
operação de totalização, construindo uma história global (RAGO,
1995, p. 77-78).

Foucault ao mencionar o anacronismo convencionalmente cometido pelos


procedimentos habituais de reconstrução histórica a partir das falácias do “presentismo”, nos
propõe a pensar sobre esse erro reiteradamente utilizado pelos historiadores na leitura do
passado, o qual parte de seu presente não para pensá-lo historicamente, mas para capturar o
significado ou a significação de uma época passada na tentativa de apreender o seu quadro
completo com vista a explicitar os fatos presentes indo de encontro ao esclarecimento das leis
subjacentes da história. Nesses termos, parece que a história se fixa numa atadura circular do
tempo sob a série de passado, presente e futuro na qual o historiador se dispõe a organizar,
periodizar e indicar o seu percurso que retorna eternamente ao “exagero metafísico” da
origem para encontrar o seu estado essencial e perfeito no início de todas as coisas como o
lugar da verdade. A eterna repetição do mesmo nos fatos previamente dados como naturais
nega a possibilidade do acontecimento, da atualidade, da mudança ao novo e o imprevisível
como se a explicação histórica fosse meramente uma espécie de profecia que se auto-realiza.
Assim, conforme analisa Foucault, os fatos objetivos não são mais que discursos produzidos
sobre o real e construções históricas através do qual se investem em um regime de verdade e
técnicas de poder.
Após essas considerações de Foucault, cabe questionar as construções históricas e
culturais que se configuraram entre os regimes de verdade e jogos de poder sobre o qual a
atualidade e a contemporaneidade foram construídas para se explicar os fatos
contemporâneos. Reporto-me às interpretações de Dahrendorf, pois seus argumentos se
pautavam justamente nessas narrativas sobre a atualidade e contemporaneidade para expor os
fatos tidos como objetivos. Portanto, abrem-se possibilidades para Problematizar as
interpretações e fatos reconstituídos por Dahrendorf partindo da seguinte questão: Quais as
implicações desses regimes de poder e verdade que se exercem numa relação microfísica que
incita, suscita e combina-se às estratégias para sustentar na atualidade essas “demandas”
contemporâneas por ordem social? Dentre outros, esse questionamento perpassará as análises
da pesquisa e que me ocuparei detidamente mais adiante, por enquanto procurarei opor
algumas interpretações com os fatos levantados por Dahrendorf.
Primeiramente, parece haver um consenso por parte dos analistas a respeito da
proporção estável das taxas de criminalidade e posteriormente o aumento dos crimes no
período que se estendeu entre os anos de 1860 a 1950. Segundo os dados indicados pelos
autores, o crescimento dos crimes adquire maior propensão em princípio nos países de língua
inglesa e tradição anglo-saxã, logo em seguida, se desdobraram progressivamente para os
países latino-americanos de tradição católica (ROBERT & VAN OUTRIVE, 1993; ROBERT
e outros, 1994; WEINER & WOLFGANG, 1985; WRIGHT, 1987). É bastante curiosa a
concordância que existe entre Dahrendorf e os diferentes analistas, ao passo que suas
conclusões factuais são capazes de convergirem com áreas de saber distintas, sobretudo a
Sociologia Criminal e a Criminologia em que o autor fez questão de recusar o debate sobre os
conflitos sociais contemporâneos e a ordem social entorno dessas disciplinas. Certamente,
resta-nos retomar as reflexões nesses campos de conhecimento não para contrariar com cifras
os dados figurados por Dahrendorf, mas porque há questões que não podem ser deixadas de
lado, principalmente aquelas relacionadas ao saber jurídico e a escola penal que se
repercutiram no âmbito epistemológico e nas pesquisas empíricas das Ciências Humanas e
Sociais.
Os dados coletados pelos especialistas partem de crimes conhecidos que foram
registrados pelos órgãos incumbidos de manter o controle da ordem pública e conter a
delinqüência. No interstício entre crime conhecido e desconhecido, há um gap que, pela
literatura especializada recebeu a nomenclatura de “cifras negras”. A extensão desse gap
ainda consiste em resultados imprecisos. Após duas décadas de aprimoramento das pesquisas
vitimológicas, os deslocamentos da criminalidade passaram a ser apurados do ponto de vista
das vítimas e com a finalidade de mensuração do gap. Apesar de se valerem de metodologias
amplamente sofisticadas, as pesquisas em vitimologia se deparam circunstancialmente com
enormes falhas, pois lidam necessariamente com as memórias das vítimas. O tratamento
científico na coleta dos dados precisa ser considerado com suas devidas ressalvas. Adorno
chega a destacar alguns dados proporcionais desse gap em referência às mensurações
realizadas por uma instituição de pesquisa sobre a condução de veículos sob efeitos do álcool:

(...) um instituto de pesquisas sobre o tráfico observou, há alguns anos,


que apenas 1 caso entre 20.000 era conhecido pela polícia. Talvez
essas taxas sejam análogas no que concerne ao uso de drogas ilícitas.
Nos Países Baixos, sabe-se que o volume de denúncias de violência
em locais públicos corresponde a cerca de 20% de todos os casos
verificados (ADORNO, Op. cit., p. 20).

Portanto, não há como comprovar realmente um aumento da criminalidade nos últimos


trinta ou quarenta anos a partir de fundamentos científicos que até agora não mostraram serem
dignos de total confiança, o que enseja a pensar em outras tendências: mudanças nos
comportamentos dos indivíduos ou maiores predisposições dos “cidadãos” em denunciar os
crimes de que foram vítimas. Tal perspectiva requer pensar o sentimento de medo e
insegurança dos indivíduos diante do crime e que tendem a favorecer as “demandas por
ordem social” no sentido de apontar para o enrijecimento dos mecanismos de controle
repressivo da ordem pública e um desejo maior de punições e intervenções penais
ultrapassando os estritos domínios da delinqüência.
Em segundo Lugar, Dahrendorf afirma que a causa direta do aumento dos crimes seria
o enfraquecimento ou isenção de punições. Não vem ao caso, estabelecer uma outra lógica de
causalidade para confrontar com a do autor, se fossemos utilizar esse tipo de encadeamento ao
considerar esse fenômeno a partir de determinações causais, o aumento dos crimes poderia
estar relacionado com diversas “causas”, como por exemplo, as mudanças sobre os
comportamentos fabricados numa categoria do efeito “delinqüente” e as mudanças nos
comportamentos das vítimas, dos indivíduos nas relações sociais que exercem seus efeitos na
pressão sobre os ilegalismos por intermédio da delinqüência (FOUCAULT, 1977). Do mesmo
modo, o aparelho penal e os nexos entre agências policiais e agências de acusação (Ministério
Público), os tribunais de justiça e o complexo prisional e também o desempenho das
autoridades na apuração dos crimes, são fatores variáveis que interferem no modo como as
sanções são aplicadas e estão sendo distribuídas entre a função desse dinamismo. Contudo,
Pode ser relativo a correspondência entre o crescimento de crimes em acompanhamento ou
não de um crescimento de sanções.
Conforme verificaram os especialistas, foi ganhando relevo na sociedade
contemporânea um progressivo processo de privatização dos serviços públicos de segurança,
ou seja, meios privados de serviços preventivos e de vigilância policial contra o crime que
podem ser vendidos e comprados para atender a uma lógica de mercado (ERBÈS, 1990-91;
OCQUETEAU, 1988, 1990-91; OCQUETEAU & POTTIER, 1995). Assim, seria uma das
características que se opõe aos fatos objetivos elucidados por Dahrendorf para assinalar a
erosão da lei e da ordem na contemporaneidade, cujos estudos se encerraram numa tendência
apresentada na estatização do controle penal e da sanção desde o século passado (CUSSON,
1990). Com efeito, se há de fato um declínio das taxas de condenação à prisão, isso não quer
dizer que a redução seria o resultado de um afrouxamento dos controles penais ou do sistema
de sanções. Pode ser que essa depressão estaria associada à “relativa diminuição da pena de
supressão da liberdade no conjunto do arsenal penal” (ADORNO, Op. cit., p. 21). Por outro
lado, foi constatado um crescimento das taxas de encarceramento sob as incumbências de
policiais.
Em contrapartida aos argumentos de Dahrendorf relativos à erosão da lei e da ordem
que se resume, em última instância, na incidência sistemática da impunidade como
fundamento da crise da justiça penal na contemporaneidade, não há evidências que, nas
democracias ocidentais, tenha havido efetivamente uma suavização, amortecimento ou
enfraquecimento das sanções penais contra a delinqüência e da violência do Estado a partir do
controle da criminalidade. Conforme indicou Hulsman (1990), em países como os Estados
Unidos, Inglaterra e Países Baixos, estudos constataram nas duas últimas décadas um
aumento vertiginoso da severidade das penas.
Não é verdade também que, nas sociedades contemporâneas as sanções estariam
protegendo, reduzindo ou até mesmo isentando as punições efetivas à jovens delinqüentes
assim como observou Dahrendorf. Na mesma direção, não existe nenhuma prova empírica
incontestável a respeito da maior ou menor contribuição dos jovens como os maiores
responsáveis pelo crescimento da criminalidade. Segundo Adorno e outros autores:

Diversos estudos mostram que as tendências da legislação da infância


e da adolescência, perfilando a orientação de organismos normativos
internacionais, têm sido no sentido de evitar abusos na aplicação de
medidas ou na distribuição de sanções. Essa exigência requer de parte
dos agentes encarregados de implementar normas estatutárias o
discernimento rigoroso de situações, determinando-se medidas
diferenciadas segundo a gravidade das infrações, as quais inclusive
prevêem limitação de direitos e supressão de liberdade. Além do mais,
em não poucos países, a maioridade penal ocorre aos quinze ou
dezesseis anos, fazendo com que muitos jovens estejam, ainda
adolescentes, sujeitos aos rigores da legislação penal aplicável aos
adultos (ADORNO, 1996, p. 22; LAHALLE & outros, 1994).

Portanto, será imprescindível um questionamento contundente sobre as concepções


teóricas de Dahrendorf o qual se encontra vigente tanto nas noções do senso comum, na
imprensa escrita e na mídia eletrônica, quanto na produção acadêmica e no conhecimento
científico e que se correlacionam com a razão penal e as políticas públicas, para então
problematizar o debate atual sobre o crime na sociedade brasileira visceralmente ancorado
pelas “demandas por ordem social”: Por que na penalidade neoliberal (WACQUANT, 2001) o
uso da força e segurança policial são instrumentos da violência para se conter a “desordem”,
riscos e inseguranças, desregulamentação da economia, dessocialização do trabalho
assalariado e pauperização que ela mesma produziu? Por que o Estado penal brasileiro utiliza
práticas punitivas para controlar os problemas sociais gerados pelas desigualdades, diferenças
e pela manutenção das assimetrias, dissociações e hierarquias? Por que as reações punitivas
seriam mais apropriadas do que as não-punitivas e aderidas convenientemente para a
resolução de problemas como de conflitualidade e litigiosidade nas sociedades
contemporâneas? Como o crime tornou-se um teste, um desafio ou um campo de
inteligibilidade e decifração para a ordem social e políticas governamentais, para a
democracia, para a sociedade civil e os direitos humanos nessa cultura obsessiva por controle
securitário do crime na “modernidade tardia” a partir de uma perspectiva reacionária das
políticas criminais em direção a um maior rigor e intolerância com o criminoso?
(GARLAND, 2001) Com o neoliberalismo e a partir da mensuração, filtragem estatísticas,
monitoramentos e registros de um suposto aumento da criminalidade, como o crime passou a
ser gerenciado em regularidades específicas por uma razão governamental de Estado?
(FOUCAULT, 1977-1979) Por que as estratégias de segurança numa “sociedade de risco” que
possui uma economia política globalizada fizeram com que as prisões se convertessem em
verdadeiros escoadouros e depósitos de “refugos humanos”? (EWALD, 1986; GIDDENS,
BECK e LASH, 1997; BAUMAN, 2005) Como as funções do sistema prisional que a partir
do panoptismo como instrumento símbolo da vigilância máxima para as sanções
normalizadoras, cuja punição se investia sobre o corpo para torná-lo útil, treinado e dócil, seja
para o trabalho ou para a norma da disciplina e suas técnicas de esquadrinhamento, se
deslocaram para o Biopoder na sociedade de controle que correlaciona o deixar morrer
(inversão do direito de vida e morte da soberania clássica) nas instituições de confinamento as
vidas desperdiçadas? (FOUCAULT, 1975, 1976, 1977; DELEUZE, 1995; BAUMAN, 2005)
Por que esse poder que tomou posse sobre a vida humana no centro de suas estratégias se
estendendo da disciplina do corpo para a regulamentação populacional exerce o fazer viver
somente aos seletivos na decisão daquilo que deve viver e o que deve morrer, inclui os
normalizados em seu estatuto biológico, político-econômico, jurídico e sócio-cultural e exclui
da sociedade de normalização as vidas indignas de serem vividas (AGAMBEN, 2002) vistas
como excesso e que perderam suas funções sociais o qual foi preciso neutralizá-las em sua
reintegração, retirá-las de circulação como desnecessárias na economia pós-industrial e
imobilizá-las em condições precárias e espaços aglomerados para então criminalizá-las nas
cidades? (BAUMAN, 1999; WACQUANT, 2001) Por que a biopolítica produz essa
profilaxia e homeóstase social para conter a “patologia” de crimes? (FOUCAULT, 1978,
1979) Por que nas democracias neoliberais o Estado de direito cedeu lugar para o estado de
exceção como paradigma de combate ao “inimigo da sociedade” no campo de um modus
operandi da “força de lei sem lei”? (AGAMBEN, 2004) Em suma, por que esse desejo
obsessivo de punir? Tentarei responder a essas indagações no decorrer da pesquisa.

1.3 Obsessão Securitária e Punitiva: O Controle Social e a Sociedade de Risco

Conforme os argumentos de Dahrendorf, o crescimento da criminalidade e o suposto


aumento da impunidade seriam os resultados de uma erosão da lei e da ordem nas sociedades
contemporâneas. Diante da ausência crescente de punições efetivas que se tornou sistemática
no maior número de pessoas que violam as normas penais e de normas violadas, as políticas
de controle repressivo da ordem pública e o Estado em torno do crime e da violência
aparecem como incapazes de atender as políticas securitárias de “lei e ordem” e de proteger os
bens materiais e simbólicos dos cidadãos. Dessa incapacidade de atendimento às necessidades
dos cidadãos que se vêem desprovidos dos cuidados e do direito à “seguridade” assegurados
pelo Estado e pelas políticas públicas penais, emergem-se nesse contexto social e político as
“demandas por ordem social” no âmago da difusão de um sentimento de medo e insegurança
frente à perda e a falta de sentido do passado e das crises do presente proporcionados pela
decadência do “progresso histórico”. Esse declínio se reflete sob a forma de pânico moral
fomentado pela concentração urbana, pela “crise da família”, pela irrupção das multidões na
arena política e também por conta da falta de solidariedade, o rompimento de laços morais
dos indivíduos com as instituições e pela ausência de autoridade devido ao seu eminente
enfraquecimento. Ainda segundo Dahrendorf e outros analistas, esses sintomas se
desencadearam como conseqüências dos interesses egoístas que se sobrepõem ao bem comum
da solidariedade e integração entre os membros da sociedade. Esse egoísmo seria o principal
causador da explosão de litigiosidade entre o indivíduo e a sociedade, assim como foi
apontada por Durkheim como problemas relativos à manutenção da ordem e que
apresentavam ameaças de desobediência civil à garantia da organização e regulação social e
na perda do sentimento que determinava os princípios morais de “agir bem é obedecer bem”
(DURKHEIM, 1963. apud FERNANDES, 1994, p. 83; ADORNO, 1996, p. 23).

Neste sentido, no centro da “demanda por ordem” se encontram os apelos paradoxais


da reivindicação por “mais legalidade” que intentam em reafirmar com maior vigor a
supressão dos déficits de legitimidade no cerne dos problemas sociais moderno em meio a
ávidas críticas e reclamações ao Estado democrático e de direito. Só que na realidade, os
propósitos favoráveis a essa ordem reclamam a ampliação da lei e do direito não como
instrumentos de limitação do poder numa sociedade democrática. Muito pelo contrário, ao
invés de garantia de direitos fundamentais, no interior dessa sociedade procuram o controle a
partir de uma lei como veículo de imposição autoritária da ordem em função de técnicas
punitivas.

Por isso, foram empreendidos aqui os questionamentos dos fatos defendidos


objetivamente pela leitura histórica e conservadora de Dahrendorf. Comecei por levantar
controvérsias a respeito dos dados apurados que consistiam em revelar um aumento da
criminalidade nos últimos trinta anos. Logo em seguida, procurou-se problematizar a relação
de causalidade ou um mecanicismo contido nas observações de Dahrendorf entre o
movimento da criminalidade e o movimento das punições. Assim, ressaltamos que não houve
de fato uma tendência para a suavização, redução ou enfraquecimento dos sistemas de
sanções nas democracias ocidentais tal qual afirmou Dahrendorf. Outra contraposição
consistiu em desestabilizar os argumentos que indicavam um abrandamento das penas em
benefício ao aumento da delinqüência entre os jovens.

Mesmo após os avanços globais acerca das conquistas e respeito aos direitos humanos,
as forças repressivas em enfrentamento ao crime tenderam a ser mais agressivas e violentas
nas últimas três décadas. Isso se constata em sociedades que passaram por uma tradição
autoritária ou que se encontravam num processo de transição democrática (O’DONNEL,
1988; PINHEIRO, 1991a). Outra consideração a se fazer sobre as análises de Dahrendorf é
que, ao destacar as questões da erosão da lei e da ordem como principal problema na
contemporaneidade, ele não se questiona sobre qual o significado da lei e dos direitos em
relação aos diferentes grupos sociais. No Brasil, com base em alguns estudos e pesquisas,
demonstram que diferentes segmentos sociais não se sujeitam à obediência dos estatutos
legais, seja qual forem os princípios morais ou éticos o qual se fundam através da convivência
política pacífica.

Dahrendorf em sua proposta sobre o que ele denominou de liberalismo radical encerra
as soluções dos problemas contemporâneos nos limites de uma reforma institucional. Essa
tendência reformista das instituições da “lei e da ordem” reside em apresentar propostas que
poderiam conferir maior racionalização aos serviços públicos de segurança ou estreitamento
de laços entre polícia e cidadãos. A maioria de suas propostas se restringem na maior eficácia
operacional das agências de controle da ordem pública. Em divergência com o autor, levanto
a hipótese de que não há sequer nenhuma garantia dessas reformas institucionais a respeito
das possibilidades de baixar as taxas de criminalidade e oferecer aos “cidadãos” proteção de
seus bens materiais e simbólicos, por mais que desejem que isso aconteça. Todas essas
propostas estão vigentes nas chamadas “demandas por lei e ordem social”, seja no discurso do
autor aqui analisado, seja no mass media, nas falas do senso comum, seja na produção
acadêmica e na agenda das instituições públicas de segurança.

Em face de um crescente sentimento de insegurança e medo do crime, no horizonte


intransponível de um Estado supostamente fragilizado em conceder proteção e segurança aos
cidadãos e seus bens materiais e simbólicos, no âmbito dos confrontos entre defensores e
opositores dos direitos humanos, sobretudo daqueles que se encontram encarcerados, julgados
e condenados pela justiça criminal, todos se dirigem para um único propósito: o desejo
obsessivo e securitário da punição exemplar. Tais propósitos se manifestam em meio às
demandas, por exemplo, de maior policiamento nas ruas e nos locais de concentração
populacional, nas cidades, principalmente nas habitações populares que foram demarcadas
como “áreas de risco e de vulnerabilidade” para sustentar o estigma de lugares que
concentram maiores “índices de crime” e maior volume de criminosos; reivindicações que
invocam uma polícia mais intolerante para com os criminosos; menos condescendência da
justiça criminal em relação aos “direitos” dos bandidos e mais rigorosa quando se trata de
distribuir as sanções penais; medidas apelativas que exigem o recolhimento de todos
condenados às prisões que não devem se incumbir de propostas humanistas de reabilitação
social, mas um meio exemplar de execução dos mecanismos punitivos e disciplinares; há
aqueles mais radicais e conservadores que advogam a pena de morte e a imposição de castigos
físicos aos “delinqüentes”, outros mais “liberais” que reivindicam o aperfeiçoamento de
instrumentos legais de contenção repressiva dos crimes; todas essas “demandas por ordem”
giram em torno do mesmo mote: a enfática obsessão punitiva contra a criminalidade e a
violência como objetos de uma pura dominação de fato.
Após uma análise crítica feita aos ensaios de Dahrendorf, percebemos o quanto são
complexos os problemas sociais contemporâneos, muito mais do que sugeriu o autor em seus
argumentos sobre a erosão da lei e da ordem. A explosão de litigiosidade não se adéqua aos
moldes da “institucionalização dos conflitos” na sociedade industrial. Desse modo, os
problemas contemporâneos que envolvem o crime, não advêm da erosão da lei e da ordem, o
que seria apenas os efeitos da inadequação dos tradicionais modelos de controle social numa
“sociedade de risco” (EWALD, 1986; GIDDENS, BECK e LASH, 1997). Proponho então
uma reflexão sobre o estatuto do controle social na contemporaneidade, nesse capítulo irei
fazer uma discussão sobre o conceito ou a noção de “controle social” no interior do
pensamento social contemporâneo.

Nos estudos sobre a criminalidade, o controle social tem que ser pensado como algo
mais amplo do que o controle da ordem pública. Nas sociedades contemporâneas, as suas
funções não mais se esgotam em modelos tradicionais, e nem na maior ou menor eficácia
operacional das agências de controle da ordem pública. Ao se esgotar os modelos
convencionais de controle social abrem-se possibilidades de repensá-lo a partir de sua
trajetória conceitual no pensamento social, desde as discussões mais remotas da teoria
sociológica clássica até as suas implicações em diferentes sociedades. Com efeito, pensar na
complexa problemática do controle social na contemporaneidade seria considerá-lo muito
mais do que simplesmente como algo encerrado no domínio exclusivo dos mecanismos
repressivos de Estado. Portanto, a análise crítica e problemática das chamadas “demandas
contemporâneas por ordem social” precisa deslocar sua investigação sobre os mecanismos de
controle social do eixo referencial do poder político para o poder social, ou seja, do Estado
para a sociedade.

Isso não quer dizer que devemos ignorar o papel do Estado no controle social, muito
pelo contrário, ao se repensar o estatuto do controle social contemporâneo não mais em suas
funções tradicionais e no deslocamento de seu âmbito de referência e reflexão, convém pensar
o papel do Estado no controle dos comportamentos sociais e no controle da ordem pública não
mais em termos dicotômicos de eficácia/fracasso. Em seus ensaios, Dahrendorf afirma que o
controle da ordem pública na sociedade moderna foi inspirado em Locke e Rousseau, o
principal problema reside na forma de sua implementação, colocando essa mesma sociedade
face a face ao Estado leviatã de Hobbes. Parece que o autor está se referindo aos
antagonismos das forças de controle da criminalidade, tanto a anarquia social quanto o
autoritarismo. O primeiro se traduz nas propostas irrealistas e concepções messiânicas de
justiça social. Enquanto o segundo se propõe a suspender ou até mesmo violar os direitos
fundamentais.

Minha proposta consiste em extrair as questões desse quadro dicotômico, inferindo


problematizações no que tange nas funções do Estado nas sociedades contemporâneas fora do
modelo convencional e contratual da organização societária. Segundo estudos de diferentes
autores, entre eles Boaventura de Souza Santos (1995), o Estado na atualidade se caracteriza
cada vez mais por um pluralismo jurídico na qual coexistem diversas ordens jurídicas no
mesmo espaço geopolítico. Contudo, vivenciamos um momento na qual poderíamos chamar
de uma “sociedade securitária”, cuja preocupação se detém quase que totalmente no direito à
segurança dos indivíduos, uma busca incessante diante do aparecimento de novos riscos, ou
melhor, de novas formas inflacionárias de sensibilidades aos riscos sociais. Essas sociedades
securitárias trazem consigo uma sofisticada tecnologia de seguros e sistemas de proteção que
se investem incisivamente nas formas de controle social penal, ações que se desdobram na
multiplicação de discursos incitados pelo mote de “segurança a qualquer preço” e na
institucionalização de um Estado de Prevenção. No contexto pós-disciplinar que ficou
conhecido como a transição para uma sociedade que produz mecanismos de controle e
técnicas de normalização, sobretudo nos sistemas de comunicação, de monitoramento e nas
redes de informação onde se “democratizam” os dispositivos de comando imanentes no
campo social, a organização estatal se volta à prioridade de um governo que se ocupa no
cálculo de riscos e na defesa da sociedade para aprimorar seus sistemas preventivos e
securitários que tendem a operar incessantemente as normas emergenciais como força reativa
às situações de urgência estrutural e conjuntural (estado de sítio ou de exceção). Tais
mecanismos de prevenção e segurança generalizada são calcados na idéia de que é necessário
um Estado armado contra o perigo eminente, e que é preciso combater e punir a presença ou
uma noção abstrata de “inimigo” no interior do tecido social.

Assim, podemos levantar uma hipótese acerca da problemática em questão: a obsessão


securitária e punitiva na sociedade contemporânea vigente nas “demandas por ordem social”
poderia estar relacionada justamente com o funcionamento da sociedade de risco o qual
promove a edificação de toda uma superestrutura de prevenção e segurança, proliferando
dispositivos tecnológicos de seguros e vigilância nos espaços privados e o monitoramento
seletivo entre as esferas públicas das relações sociais. O arsenal preventivo e securitário é
utilizado como meio, cobertura ou recurso de proteção contra o medo, o sentimento de
insegurança, os perigos, os riscos sociais e as ameaças que infligem a vida dos indivíduos na
relação intersubjetiva, tornando-a incerta frente ao futuro. Trata-se de dizer que, a inflação de
sensibilidades às novas ameaças produz o que muitos autores denominaram como a “cultura
do risco” que suscita as demandas e os devaneios de segurança para a fabricação dos perigos.
Diante da frustração e da impotência de erradicar os perigos que o futuro nos traz, a segurança
se transforma numa mercadoria que concentra altos lucros, pois o uso constante da ciência e
das tecnologias produzidas para atender as demandas securitárias, instrumentalizou o
desenvolvimento econômico para suportar os triunfos globais da modernidade. A busca da
segurança na sociedade moderna se torna uma necessidade para se solucionar problemas
locais produzidos globalmente (CASTEL, 2005; BAUMAN, 2005).

Portanto, se faz imprescindível questionar a “arquitetura argumentativa” de


Dahrendorf em relação aos problemas contemporâneos. Além de seus conservadorismos
liberais pulsarem, pulularem e sustentarem as freqüentes falas sobre o crime e o controle
social da “violência urbana”, baseada por essa espécie de metáfora para o autoritarismo e um
non-sense sociológico e estatístico como guia e retórica da ação atual das práticas
governamentais e do viés policial e penal contra os grupos sociais que são criminalizados em
questão do signo democrático da autoridade do Estado, cabe-nos então retirar desse campo
apelativo por “demanda de lei e ordem” o debate sobre a criminalidade urbana e as políticas
de segurança e justiça no Brasil após a reconstrução da normalidade democrática no contexto
das transformações históricas na economia mundial e na reorganização global dos Estados.

1.4 A Rejeição aos Direitos Humanos como “Privilégios de Bandidos”: Pena de Morte,
Corpo, Violência e Desrespeito aos Direitos de Cidadania após a Consolidação
Democrática Brasileira

A experiência da violência está associada ao desrespeito e violação de direitos


individuais e civis que continuaram a ser violados mesmo após o processo de consolidação
democrática. A cidadania brasileira foi marcada pelo que James Holston e Teresa Pires do Rio
Caldeira (1998) chamaram de caráter disjuntivo da democracia no Brasil, um processo
contraditório entre a expansão e o desrespeito aos direitos da cidadania. Um dos aspectos
cruciais da disjunção da cidadania brasileira seria a associação da violência com os
desrespeito aos direitos civis e uma certa concepção de “corpo incircunscrito” que circulava
nesse período.
Após a consolidação do regime democrático, ocorreu uma ampla oposição aos
defensores dos direitos humanos e também uma campanha em torno dos debates sobre a
introdução da pena de morte na Constituição Federal Brasileira. Nesse processo se encontram
as questões do aumento do crime violento e do medo do crime que levam às tendências
urbanas de fortificação de novos padrões de segregação social e espacial11.

O debate que se colocava nesse momento, era o tema central sobre os limites ou a falta
de limites para a intervenção que poderia ser imposta ao corpo do criminoso através de seu
tratamento punitivo. Ao se estudar a relação que se estabelece entre violência, direitos e
corpo, procuro ressaltar a associação da violência com as experiências de violação e
desrespeito aos direitos civis como um processo contraditório que marca um dos principais
dimensionamentos da cidadania disjuntiva em diversas democracias do mundo atual. Assim,
qual o papel que a violência desempenha em conjunto com a cidadania democrática
brasileira?

Na sociedade brasileira, a desintegração de “velhas” relações de autoridade e poder foi


acompanhada, de um lado, pela expansão da cidadania política, expressa no direito de
participação de organizações políticas, de votar e de candidatar-se a cargos políticos, de outro,
pela deslegitimação da cidadania civil, manifestada sob a forma da não garantia das
liberdades individuais e da igualdade perante a lei o qual se encontram articulados aos
processos indicativos do aumento da violência e do crime, aos abusos por parte das
instituições da ordem, aos descréditos do sistema judiciário e à privatização da segurança que
construiu novas fórmulas de separação de grupos sociais nos espaços das cidades, cuja
reprodução das desigualdades e da discriminação social, muitas vezes incorporada aos
estigmas raciais e preconceitos de classe, reordenam uma outra relação e concepção de espaço
público a partir de tecnologias de exclusão e apartamento urbanos, tendo como valor
estruturante as diferenças e hierarquias que se valem de novas técnicas de distanciamento
entre as relações intersubjetivas e cercamentos de moradias, da privatização e do policiamento
de fronteira, reforçando de tal modo nas transformações políticas da democratização um
espaço público não-democrático. Tal modelo de segregação social e espacial da vida na
cidade projetam a discriminação e a hierarquia nos projetos de remodelamento urbano que se
pautam da manutenção das assimetrias ou dissociações nas sociedades contemporâneas
recentemente “democratizadas”.

11
Sobre os novos padrões de segregação urbana que cria enclaves fortificados a partir do processo de
privatização da segurança e a justificação da fala do crime e do medo na cidade de São Paulo, ver Caldeira
(2000, p. 211).
A abordagem de temas ligados à cidadania e a violência serão analisados do ponto de
vista das experiências vividas em São Paulo, sem deixar de considerar os problemas gerais
que envolvem as noções de cidadania e democracia. Nesse sentido, problematizarei a maneira
pela qual os paulistanos se relacionam com as noções disponibilizadas no que diz respeito aos
direitos, justiça, punição e dor e o modo como constroem um certo modelo de corpo político
na medida em que se pretende intervir fisicamente à uma certa concepção de corpo
amplamente tolerada para a manipulação incircunscrita da violência e pela falta de limites às
intervenções punitivas, de dor e castigos físicos que vem a ser aplicados ao corpo indigno de
ser protegido ou vivido.

No Brasil, os direitos sociais e políticos são historicamente muito mais legitimados,


isso se for compararmos com os direitos civis e individuais, ou seja, área sobre a qual a
violência e as intervenções no corpo são amplamente toleradas. Seria a lógica ambivalente
entre uma intolerância-tolerante em relação ao corpo que se quer punir ao mesmo tempo em
que permite sem restrições a prática da violência. Contudo, a tolerância existente em relação à
manipulação de corpos, à proliferação da violência e à deslegitimação da justiça e dos direitos
civis estão estreitamente interligados. Os direitos humanos foram comumente desrespeitados
em várias dimensões da sociedade brasileira, sobretudo pelas abusivas violações de direitos
cometidas pela ação policial que persistiram e se elevaram como algo rotineiro no cotidiano
da cidade durante o contexto democrático. Embora tais violações dos direitos humanos
passaram a ser comuns no mundo contemporâneo, analisar o quanto os direitos humanos
sofreram com os ataques, oposições e as reprovações que eram feitas a ele como algo ruim em
pleno contexto de uma democracia política, é procurar entender como isso foi possível e como
os direitos humanos foram considerados por uma parcela considerável da população como um
direito legítimo em “privilégios de bandidos”.

Os direitos humanos estão articulados em contextos socioculturais e políticos


específicos e podem ser modificados e interpretados de diferentes maneiras em seus
princípios de universalidade. No caso de São Paulo durante a ditadura militar, os direitos
humanos contribuíram para a ampliação do reconhecimento de direitos. Enquanto que no
regime democrático, os direitos humanos passaram a ser incisivamente contestados. No início
do processo de abertura política, os defensores dos direitos humanos não sofreram pelos
estigmas que veio a ser impostos logo após a consolidação da democracia pelos movimentos
de oposição. No caso eles defendiam apenas os direitos humanos para presos políticos de
classe média. O respeito aos direitos humanos era uma reivindicação importante para os
movimentos políticos que levaram ao fim o governo dos militares.
No final dos anos 70, diversos movimentos políticos estavam exigindo o respeito aos
direitos de prisioneiros políticos, entre eles se encontravam os grupos que estavam sendo
acompanhados pelas lideranças intelectuais, políticos filiados a partidos de centro e esquerda,
a Igreja Católica em conjunto com a Comissão de Justiça e Paz, os movimentos de minorias e
as associações civis, como o Movimento Feminino Pela Anistia e a OAB (Ordem dos
Advogados do Brasil). Conforme observa Caldeira:

A atenção aos direitos de prisioneiros comuns não era incluída nas


exigências, apesar de a violação a seus direitos ser rotineira. A
campanha pela anistia de presos políticos – muitos dos quais foram
torturados e mantidos como prisioneiros sem um julgamento ou
mesmo um mandado judicial – interligou-se a outros movimentos
políticos que exigiam o retorno a um regime constitucional, eleições
livres e diretas, liberdade de expressão, fim da censura, liberdade de
organização de partidos políticos e sindicatos e assim por diante, que
culminaram na derrocada do regime militar (CALDEIRA, 2000, p.
345).

Após a aprovação da Lei da Anistia em 1979, da libertação de presos políticos e do


processo de consolidação da democracia eleitoral, os presos comuns começaram a ter os seus
direitos defendidos pelos grupos organizados, pois esses prisioneiros continuaram a sofrer até
os dias de hoje com as torturas e com as condições precárias dos presídios. Tal atividade dos
grupos que defendem os direitos humanos não foi aceita pela maioria dos moradores de São
Paulo, a idéia de garantia aos direitos humanos para “criminosos” demonstrou ser algo
inadmissível para todas as categorias sociais, inclusive as trabalhadoras. Portanto, no decorrer
da década de 80, a população não rejeitava os direitos humanos em si ou de uma forma geral,
eles só passaram a ser contestados quando se tratou de defender direitos a presos não
políticos.

Os ataques aos direitos humanos começaram a se tornar mais intensos durante o


governo de Franco Montoro no estado de São Paulo. Montoro foi o primeiro governador a ser
eleito após a derrocada do regime militar, em seu mandato, lutou pelo retorno ao Estado de
direito, tentou controlar os abusos policiais e melhorar as condições das prisões em São Paulo.
No decorrer de sua administração houve um aumento do crime e da violência na cidade, fator
que desencadeou em preocupações voltadas ao crime como um dos principais debates no
cenário político.
As oposições políticas ao partido de Montoro (o PMDB e depois o PSDB) estavam se
tornando cada vez mais expressivas, como também as resistências em torno do processo de
consolidação democrática e as questões dos direitos humanos. Dado o fato de Montoro ser
apoiado pelos partidos de centro e esquerda no período, os políticos de direita levantavam
acusações ao governador, ao seu partido e suas campanhas, denunciando-os de concederem
proteções aos criminosos. Nesse momento, os direitos humanos passaram a ser atacados e
chamados de “privilégios de bandidos”.

O secretário da justiça José Carlos Dias, que foi escolhido por Montoro para defender
os presos políticos e os direitos humanos, desenvolveu uma política de “humanização de
presídios” o qual foi intensamente criticada pela oposição, principalmente manifestada pelos
meios de comunicação de massa, em particular os programas de rádio na época dedicados a
narrar diariamente os crimes (entre eles o mais conhecido programa de Afanasio Jazadji) e o
jornal O Estado de S. Paulo. Dias procurou defender os direitos de presos a partir da:

(...) criação de comissões de representantes dos presos eleitas


oficialmente; a instalação de caixas de correio dentro de prisões para
os reclusos enviarem reclamações diretamente para a Corregedoria
sem a intermediação da administração da prisão; e a adoção de ‘visitas
íntimas’ para presos (nas quais eles poderiam ter relações sexuais com
suas parceiras) (ibidem, p. 346).

Desse modo, a questão dos direitos humanos para presos comuns acabou se tornando
uma política de Estado e debate público.

Os opositores aos direitos humanos articulam os meios de comunicação de massa para


difundir seus estereótipos e preconceitos bastante acolhidos pela simpatia de uma parcela
considerável da população. Seus discursos podem ser analisados, por exemplo, em um
manifesto da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo no dia 4 de
outubro de 1985. Tal manifesto foi proferido num contexto de reformas policiais operadas
pelo governo Montoro um mês antes das eleições à prefeitura de São Paulo, vejamos:

Os tempos atuais são de intranqüilidade para você e de total garantia


para os que matam, roubam, estupram. A sua família é destroçada e o
seu patrimônio, conseguido à custa de muito sacrifício, é
tranqüilamente subtraído. E por que isto acontece? A resposta você
sabe. Acreditando em promessas, escolhemos o governador errado, o
partido errado, o PMDB. Quantos crimes ocorreram em seu bairro e
quantos criminosos foram por eles responsabilizados? Esta resposta
você também sabe. Eles, os bandidos, são protegidos pelos tais
‘direitos humanos’, coisa que o governo acha que você, cidadão
honesto e trabalhador, não merece.

Outro exemplo a se destacar, seria o programa diário de Afanasio Jazadji, radialista


famoso de São Paulo que se autodefinia como sendo o “repórter policial” no qual apresentava
diariamente um programa que se detinha na narrativa de crimes. Esse radialista era notório
pela maneira depreciativa de se referir aos indivíduos considerados suspeitos, defendia
abertamente a pena de morte e a polícia e se opunha radicalmente aos direitos humanos.
Numa campanha realizada contra os direitos humanos e as políticas de Montoro, Jazadji foi o
candidato mais votado para a Assembléia Legislativa com 300 mil votos só na cidade de São
Paulo e mais de meio milhão nos outros estados:

Tinha que pegar esses presos irrecuperáveis, colocar todos num


paredão e queimar com lança-chamas. Ou jogar uma bomba no meio,
pum!, acabou o problema. Eles não têm família, eles não têm nada,
não têm com que se preocupar, eles só pensam em fazer o mal; e nós
vamos nos preocupar com eles!? (...) Esses vagabundos, eles nos
consomem tudo, milhões e milhões por mês; vamos transformar esse
dinheiro em hospital, creches, orfanatos, asilos, dar uma condição
digna a quem realmente merece ter essa dignidade. Agora, para esse
tipo de gente... gente? Tratar como gente!, estamos ofendendo o
gênero humano!

Esta citação foi extraída de um programa na Rádio Capital em 25 de abril de 1984 no


dia em que o Congresso Nacional votou em negação ao direito de voto para presidente à
população. Uma das estratégias discursivas que são utilizadas contra os direitos humanos
partem da negação da humanidade dos criminosos. A exortação “ofender o gênero humano”
demonstrado no discurso acima, representa os presos como aqueles que vieram a cometer os
crimes mais hediondos e violentos, como os casos de homicídios e estupros ou assassinato de
crianças que na maioria das vezes é seguido de abusos sexuais. Esses criminosos passam a ser
considerados como aqueles que violaram a natureza humana, se tornando “monstros” através
da codificação de certo perigo social que eles vieram a representar não simplesmente por
violar as leis da sociedade como também terem violado as leis da natureza infringindo a sua
própria existência12, portanto, reservados exclusivamente ao espaço do crime como a ausência

12
Para uma análise das práticas discursivas sobre o “anormal” enquanto a figura do monstro humano, o
indivíduo a ser corrigido e a criança masturbadora a partir das relações de poder que envolve as práticas
de família e a falta de ligação com as outras pessoas. Reconfigura-se então a sanção penal e
normalizadora e a classificação psiquiátrica e jurídico-biológica do criminoso indiciado como
o “anti-social” ou o “sociopata”.

Os criminosos passam a ser colocados à margem do modelo de “humanidade”,


distantes do convívio social ou de certa “comunidade” política. Dessa maneira, os crimes
menos sérios nunca são mencionados nos discursos de opositores dos direitos humanos, já que
as prisões não estão ocupadas somente por assassinos e estupradores. Fica patente a
simplificação estereotipada sem deixar de considerar os seus aspectos simbólicos de
associação do criminoso às categorias sociais “naturalmente” perigosas ou ontologicamente
“degeneradas” as quais personificam toda a “essência do mal”. Segundo Caldeira (2000), a
fala do crime tenta reordenar o espaço urbano e o espaço público se valendo de uma
construção simplista do mundo dicotomizado em um maniqueísmo da “luta do bem contra o
mal”.

O ataque aos direitos humanos se baseia recorrentemente em argumentos que


comparam as políticas de humanização das prisões com a concessão de privilégios para
bandidos. O recente uso do sistema judiciário pelos setores trabalhadores que começaram a
utilizar a lei e o aparato legal após a consolidação democrática brasileira, não foi suficiente
para alterar a imagem negativa construída às instituições da ordem e decorrente aos
descréditos do sistema de justiça para a maioria da população.

A percepção vigente nas crenças das pessoas era de que a polícia e o sistema judiciário
privilegiavam apenas os ricos e que raramente favoreciam ou eram justos com as classes
trabalhadoras. Sendo assim, os adversários dos direitos humanos aproveitavam essas
argumentações para formular a seguinte pergunta: se a maioria das pessoas, até mesmo as
classes trabalhadoras não tem os seus direitos respeitados, por que os criminosos deveriam ter
esse privilégio? Freqüentemente, comentários desse tipo são emitidos à opinião pública
através de apresentadores de programas sensacionalistas que se pautam da narração repetitiva
de crimes por meio do espetáculo midiático e alinha-se a posição de políticos conservadores
que opõem os direitos humanos de presos a direitos sociais da maioria da população,
argumentando que a garantia de condições decente aos reclusos seria um gasto muito alto do

psiquiátricas, a medicina, a psicopatologia, as instituições judiciárias, as tecnologias de correção, a criminologia,


a classificação dos desvios, as teorias eugênicas e evolucionistas e as estratégias de defesa social contra aqueles
indivíduos ou grupos considerados “perigosos”, ver o curso “Os Anormais” ministrado no Collège de France em
1975 por Michel Foucault.
dinheiro público o qual poderia ser bem mais utilizado para o fornecimento de serviços muito
mais necessários para a maior parte da população.

Contudo, o “bem-estar” dos “cidadãos” passou a ser contraposto aos privilégios


daqueles que não são considerados como tal, ao ponto de quem se dispor a defender os
direitos humanos são logo criticados como pessoas que trabalham contra os direitos de
“cidadãos honestos” em favor de criminosos. O discurso que contrariava os direitos humanos
no limiar da redemocratização incluiu em suas reivindicações as punições severas para os
criminosos, entre elas as práticas de tortura, execução sumária e a própria defesa à pena de
morte. Para a maioria da população, a adoção de métodos humanitários e o respeito à lei por
parte da polícia contribuíram para que o crime e a violência aumentassem, responsabilizando
a própria democratização dado ao esforço que se tinha de impor o Estado de direito, controlar
a polícia e reformar prisões.

O aumento de crimes fez com que a população começasse a exigir punições mais
pesadas e uma polícia mais violenta, desconsiderando totalmente os direitos humanos. O
massacre na Casa de Detenção do Carandiru em 1992 foi um dos exemplos das tendências da
população em conceder apoios às execuções sumárias praticadas pela polícia. Depois da
administração de Montoro, a idéia de respeito aos direitos humanos foi abandonada pelos
governos que veio a apoiar e investir numa política rígida em torno da segurança pública. A
partir daí, os abusos policiais aumentaram significativamente, demorando quase uma década
depois de os direitos humanos tornarem a estar presente nos discursos e práticas políticas.
Porém, ainda persistem o apoio aos abusos policiais, as práticas privadas de violência e,
sobretudo a pena de morte que se configura de variadas formas e se metamorfoseando
segundo relações de poder, interesses e estratégias particulares de setores específicos e certos
grupos coletivos e não homogêneo da sociedade brasileira.

A recolocação do debate público sobre a legalização da pena capital no Brasil entre o


final dos anos 80 é composto por um quadro que contrasta, por um lado, as práticas de
violência exercida contra os supostamente criminosos, de outro, a proibição dessas
intervenções violentas de punição pela legislação que não dá forma legal para a pena capital à
crimes não-políticos, embora tenham se tornado comuns a violência policial e a violência
privada praticadas no cotidiano pelos justiceiros, grupos de extermínio, polícia e na esfera
social, pública, doméstica, urbana e rural.

No contexto brasileiro durante o Império (1822-1889), a pena de morte por


enforcamento era executada de forma legal aos casos de insurreição de escravos, homicídios e
latrocínio, no entanto, não era aplicada à crimes políticos. Em 1855, foi aplicada legalmente
pela última vez a pena de morte para o fazendeiro Manoel Mota Coqueiro que foi condenado
à morte por ser o mandante do massacre de uma família de camponeses. Nesse caso,
evidenciou-se a ocorrência de um erro judicial logo após a execução do condenado, pois havia
sido descoberto as irregularidades de seu julgamento, as negligências com as provas durante o
processo em meio às exigências das massas que pressionavam as ações judiciais e a
constatação de que ele não era o instigador do crime, mas a sua mulher que havia ordenado o
massacre. Em seguida, o imperador outorgou clemência para todos aqueles que estavam
condenados à morte. A pena de morte veio a ser eliminada no início da República em 1890,
com as devidas exceções aos crimes de guerra de acordo com as determinações do código
militar.

A partir do ano 1890, a execução de penas capitais torna-se proibida conforme o


conjunto de leis que foram escritas em termos similares nas quatro constituições promulgadas
sob regimes democráticos (entre elas estão as de 1891, 1934, 1946 e a de 1988). Nos regimes
autoritários, duas constituições foram escritas contendo leis de exceções. Durante a ditadura
de Vargas em 1937, a pena capital é retomada por uma nova Constituição que previa a
execução de morte para seis tipos de crime, cinco deles eram reservados à crimes políticos e o
sexto era “homicídio por motivo fútil ou com extremos de perversidade”. O código penal não
introduziu a pena de morte em seu conjunto de leis e sistema de punição.

A pena de morte foi reintroduzida pelo regime militar em 1969 a partir do Ato
Institucional 14 com fins exclusivos para crimes políticos. Tal regime criou uma legislação
para casos excepcionais entendidos como a guerra contra o terrorismo e a denominada
“guerrilha urbana”. Todavia, nesses dois períodos não aconteceu efetivamente as execuções
legais para presos políticos. Como analisou Caldeira:

Na história da República brasileira, a pena capital foi um instrumento


concebido mas não utilizado pelas ditaduras para lidar com presos
políticos. Em contraste, a pena de morte foi proibida mas usada
ilegalmente (sob a forma de execuções sumárias) e com relativa
freqüência para lidar com o crime comum” (ibidem, p. 351).

Como já foi mencionado, o crime violento, o medo do crime e a violência policial


aumentaram durante o processo de redemocratização, sendo assim, houve uma reintrodução
da idéia de pena de morte nos debates públicos no final dos anos 80, tendo como pano de
fundo as concepções diversas por ampla parcela da população a partir da possibilidade de sua
adoção oficial. A pena de morte tornou-se um componente reiterativo para as propostas que a
defende como uma técnica punitiva a qual deveria ser aplicada aos chamados crimes
hediondos como o latrocínio, o estupro seguido de morte, seqüestro seguido de morte e crimes
envolvendo atos de crueldade, assim como são reconhecidos pelos projetos e discussões no
Congresso Nacional.

A pena capital é constantemente defendida por aqueles que outrora atacavam os


direitos humanos, sendo eles os políticos de direita, os “cidadãos de bem” que se autodefinem
como “indignados” e desprotegidos pelo sistema judiciário e os projetos políticos
conservadores que favorecem o regime militar e a polícia. A proposta de introdução da pena
de morte na Constituição Federal Brasileira não foi aprovada durante os trabalhos da
Assembléia Constituinte em 1987, não sendo aceita por 392 votos contra 90 (CALDEIRA,
2000). No artigo 5, inciso XLVII da atual Constituição promulgada em 1988, a pena de morte
é proibida, assim como a prisão perpétua, estabelecendo um limite máximo de 30 anos para o
período possível de aprisionamento.

Embora as propostas de adoção legal da pena de morte como uma disposição


constitucional do direito de punir terem sido rejeitadas pelo Congresso Nacional, com
freqüência alguns políticos ou líderes de várias associações reelaboram suas proposições toda
vez que a opinião pública é surpreendida com um caso mais grave de crimes que implicam,
por exemplo, em homicídios cometidos violentamente ou contra as vítimas mais vulneráveis,
como crianças e adolescentes. Os grupos que defendem a pena capital e atacam os direitos
humanos estendem suas opiniões conservadoras na máquina do mass media, cuja produção de
subjetividades se capilarizam em micro-relações autoritárias, dominando os debates públicos
que envolvem sobretudo a imprensa e a mídia eletrônica de tal modo arraigados ao imaginário
da fala do crime.

O debate público nos jornais e nos programas de televisão evoca, de maneira repetitiva
e na maioria das vezes acompanhado por imagens simplistas sobre o universo do crime, o
discurso em defesa da pena capital por meio de estereótipos e preconceitos que se propagam
na opinião pública. Comumente a discussão em torno das questões políticas, econômicas e
sociais nos veículos de comunicação são fechadas no debate entre as elites, embora recorrem
com freqüência à categoria homogênea de “o povo” que acabam por incorporar um sentido
paternalista para justificar os seus apanágios argumentativos.
A projeção de um certo “sentimento popular” compõe os argumentos mais recorrentes
que favorecem a pena capital na sociedade brasileira. No jornal Folha de S. Paulo publicado
em 12 de janeiro de 1993, o proprietário e presidente da Rede Globo Roberto Marinho
responde que é a favor da pena de morte (divulgada ao público pelo seu jornal e estação de
TV) porque ela “refletia a indignação popular”.

Os políticos de direita na época alegavam que a pena de morte seria uma medida
extrema só que solucionaria de forma imediata os problemas da violência e da falência do
sistema judiciário. Em seus discursos, a questão da diminuição da criminalidade reside em
termos de vingança pessoal e não em termos de legalidade. Para eles, executar o criminoso
irredimível consiste no impedimento de futuros crimes que possivelmente ele viria a cometer.
Nesse sentido, a pena de morte se inscreve numa retórica de autoritarismo que tenta prever a
“salvação da vida de inocentes”.

Assim como os adversários aos direitos humanos, os defensores da pena de morte


utilizam os argumentos que opõe direitos de presos a direitos sociais dos cidadãos por meio
de afirmações de ordem econômica. Chamam a atenção para o alto custo dos investimentos
aplicados para manter um preso irrecuperável na prisão e que o dinheiro público que é
investido em presídios deveria ser utilizado para as políticas sociais que beneficiam os pobres.
Percebemos o quanto é vigente nas práticas discursivas da penalidade a justificativa de um
suposto “bem-estar social” à pobreza, mas ao mesmo tempo visando o corte de investimentos
para os programas sociais para aumentar a aplicação de capitais em políticas de segurança e
administrar as estratégias neoliberais da “tolerância zero” que levam à própria criminalização
dos pobres, desempregados e sem-tetos.

Segundo Caldeira: “Os defensores da pena de morte e oponentes aos direitos humanos
manipulam com destreza o imaginário que compõe o repertório da fala do crime. Falam
sempre em termos empíricos, apoiando-se em exemplos e casos individuais” (ibidem, p. 352).
Quando são questionados pelos defensores dos direitos humanos pela possibilidade de haver
um erro judicial incorrigível depois de executada a pena de morte e por isso desrespeitando o
direito humano mais fundamental que é o direito à vida, eles respondem que o caso de um
possível erro da pena capital seria garantido em quatro instâncias de apelação vindo a ser
esporádico qualquer equívoco judicial. Determinam que não estão preocupados em defender
direitos de bandidos, mas das pessoas inocentes e das vítimas, repetindo os argumentos de que
a atual Constituição estaria concedendo proteção aos criminosos. O juiz estadual de São Paulo
Alberto Marino Júnior escreveu um artigo para a Folha de S. Paulo em 16 de janeiro de 1993
sobre o caso de um crime cometido a uma menina de 5 anos que foi raptada e assassinada
pelo simples fato de chorar demais:

Uma criancinha, vítima de seqüestro, é executada pelo seu algoz


porque, afastada dos pais, chorava muito. O homicídio, praticado com
requintes de perversidade, emocionou a nação e reabriu a polêmica em
torno da aplicação da pena de morte (...) No que tange aos direitos
humanos, é preciso que se atente mais para os direitos humanos dos
homens de bem, e não, como se vem fazendo, das feras em forma de
gente, que trucidam a esmo suas indefesas vítimas. O nosso povo é
naturalmente dócil e disposto ao sacrifício. Basta-lhe um pouco de
pão, o futebol, o carnaval, um lugar para morar e um trabalho simples
e honesto. Todavia, de certo tempo para cá o homem se sente acuado
pelos criminosos. Várias vezes tem recorrido até ao linchamento, que
é a aplicação da pena de morte imediata, sem processo nem
julgamento, adotando um péssimo remédio, que pode dar margem ao
equívoco irreparável (...) É preciso impedir que dezenas de vítimas
indefesas sejam massacradas por um pequeno bando de covardes
facínoras, poupados em nome de discutíveis ‘direitos humanos’. É
preciso punir exemplarmente o energúmeno que seqüestrou a
criancinha e se outorgou o direito de matá-la.

Sempre é reforçado o aspecto dramático da narrativa, nota-se uma evidente lógica de


vingança pessoal como tentativa de adoção legal da pena de morte que pretende ser aplicada
sob a forma de “solução final” para se vingar o crime. O criminoso passa novamente a ser
representado como aquele que infringiu a lei natural do homem e que, portanto, são postos à
margem do modelo de “humanidade” e identificados através dos traços inumanos de uma
“fera” enquanto natureza patológica da criminalidade. Assim, ao serem considerados como
incorrigíveis, os criminosos se tornam os candidatos por excelência e ontologicamente
degenerados para a execução de morte. Também passaram a ser visto em contraposição “ao
povo” numa clara polarização reducionista entre o bem e o mal. Para o juiz, a pena capital
deve ser permitida apenas de maneira legal e não a partir do linchamento. O caráter de
cordialidade do “homem brasileiro” é ressaltado no discurso como a figura do “povo” dócil,
conformado e ao mesmo tempo amedrontado diante da escalada do crime ao ponto de
recorrerem ao linchamento como um ato de “fazer justiça com as próprias mãos”. Por
conseguinte, o desejo obsessivo da punição exemplar é manifestado sob a forma de vingança
privada que apela a legalização da pena de morte para intervir e marcar o corpo do criminoso
sem as barreiras estabelecidas pela circunscrição de um conjunto de leis que o protegem a
partir dos direitos humanos.
Há também os grupos que tomam uma posição contrária a pena de morte, entre eles as
pessoas que defendem os direitos humanos. O argumento contra a pena de morte parte de um
princípio que pode ser apresentado num artigo publicado na Folha de S. Paulo em 21 de
março de 1991 pelo advogado, professor e membro da Comissão de Justiça e Paz Fábio
Konder Comparato, em suas palavras:

Não há democracia sem o respeito aos direitos fundamentais da pessoa


humana. O regime da soberania popular, quando desligado dos
direitos humanos, não é democrático (...) Ora, a pena de morte não
implica a violação de um direito qualquer, mas representa a negação
do mais fundamental dos direitos humanos, aquele que constitui a raiz
ou fonte de todos eles: o direito à vida. A idéia de direitos humanos
nasceu de uma exigência de proteção individual contra atos do poder
público. Não é pelo fato de a pena ter sido criada por lei, ou aplicada
mediante processo oficial regular, que ela deve ser considerada
legítima quando viola um direito fundamental do homem.

Os defensores dos direitos humanos afirmam que a pena de morte viola o direito mais
fundamental do homem: o direito à vida. Para eles, a pena capital é ilegítima, mesmo quando
se situa no código da lei, de modo que argumentam sobre as causas sociais e estruturais do
crime e da violência. Assim, o tratamento da pena de morte é inviabilizado para se resolver
problemas que é da ordem da estrutura social. As reformas institucionais do sistema judiciário
e prisional fazem parte de suas propostas de transformação da sociedade, do Estado e da
resolução de problemas sociais como a pobreza e as injustiças do país.

Ao fazer a leitura sócio-estrutural sobre “as causas” do crescimento da criminalidade


violenta na sociedade brasileira, sobretudo nas áreas metropolitanas, os argumentos contra a
pena de morte e dos defensores dos direitos humanos podem recair no axioma presente nos
termos empregados pela “fala do crime” segundo a qual implica nas demandas por lei e ordem
e nos discursos de alguns políticos de esquerda que se identificam com os interesses
populares, mas quando explicam sobre os problemas de justiça social do crime e do
sentimento de insegurança passam a reproduzir os mesmos estereótipos das camadas
trabalhadoras como aquelas que seriam facilmente influenciadas pelas persuasões da “classe
dominante” que manipula a opinião a favor da pena de morte. Nesses termos, é uma idéia
corrente que a maioria da classe trabalhadora apóia a pena de morte, isso não quer dizer que
sejam incapazes de refletirem por si mesmas sobre os problemas sociais e tomando um
posicionamento diferenciado daquele que foi previamente estabelecido a ela, assim como são
retratadas por grande parte dos políticos de esquerda.
Nos dias atuais, parece que esses mesmos políticos não se deram conta que estão
reforçando os mesmos discursos que eram utilizados pelos políticos de direita sobre a
“manutenção da ordem” e a hierarquia social. Ao colocarem “a segurança” como um direito
fundamental – supondo que assim estão defendendo os direitos humanos como um elemento
fundamental – para as categorias sociais menos favorecidas, vitimizam os pobres, apóiam
projetos reformistas e de reforço de segurança policial ou penal e que acabam sendo
repressivas a esses mesmos grupos populares; priorizam a ação pública securitária e
penalizante a partir da correspondência entre crime e a ausência de “justiça social”, essa
máxima canônica utilizada para fundar as promessas messiânicas e naturalistas da revolução
que, no entanto, não passam de contemplação de uma ordem evolucionista do Estado e das
sociedades.

Retomando a consideração feita sobre os argumentos sócio-estruturais, há um


consenso solidificado na literatura, sobretudo de cientistas sociais, a respeito dos estudos
sobre a temática da violência e da criminalidade urbana no Brasil que partem da percepção
generalizada de uma associação do crime com a marginalidade, na maioria das vezes
reforçando os estereótipos que ligam diretamente o comportamento criminoso com a pobreza.
Esse raciocínio sociológico parte da associação empírica entre o processo acelerado do
crescimento urbano com o aumento das taxas de criminalidade e da violência nas cidades –
freqüentemente no uso de estatísticas oficiais13 – argumentando que a velocidade do processo
de industrialização e urbanização fez com que uma forte corrente migratória desloca-se uma
leva significativa de contingentes para as áreas periféricas dos grandes centros urbanos.
Assim, esses lugares passaram a concentrar experiências intensas de desigualdade, extremas
condições de pobreza e desorganização social que expõe os indivíduos em certos estratos
sociais a qualquer tipo de “riscos”, entre eles as pressões de um suposto “desvio” para o crime
e a violência como conseqüências da miséria. Segundo as concepções sociológicas e variáveis
estruturais de alguns analistas, as mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas
tornaram a cidade o ambiente propício para a expansão do crime. Vale ressaltar que essas
argumentações postulam uma relação causal e mecanicista da criminalidade urbana que a
associa de maneira positiva à marginalidade social. Dessa forma, não podemos deixar de
mencionar que tais consensos sócio-estruturais tendem a reproduzir o estereótipo da anomia e
da criminalização de grupos sociais ou a identificar uma certa marginalidade urbana com a

13
Para um estudo mais detalhado sobre o crime e a violência, o argumento convencional que associa a
criminalidade urbana com a pobreza e marginalidade social, o uso das estatísticas oficiais e as distorções que são
feitas na contabilidade criminal pelos membros de organização policial, consulte o texto de Antônio Luiz Paixão,
“Crimes e Criminosos em Belo Horizonte, 1932-1978”. In: Crime, Violência e Poder, Ed. Brasiliense, 1983.
categoria das chamadas “classes perigosas”, ou seja, uma estratégia classificatória da
periculosidade social, cuja objetivação procura estabelecer uma suposta afinidade dos setores
específicos de moradores de favelas e cortiços, desempregados e trabalhadores não-
especializados com as atividades criminosas.

Um outro ponto a se destacar é o argumento sobre a impunidade que foi usado tanto
pelos defensores quanto pelos adversários da pena de morte. O primeiro, invoca o enunciado
da impunidade para exigência de leis mais rígidas e para atacar a Constituição de 1988. Já o
segundo, pretende reformar o sistema judiciário e o sistema prisional para garantir a “certeza”
de métodos sofisticados de punição como um meio de intimidar a atividade criminal. O
secretário da Justiça José Carlos Dias afirma essa medida punitiva de impedimento ao crime
como necessária para “mexer no sistema judiciário e no sistema carcerário, porque hoje você
só tem a certeza da impunidade” (Folha de S. Paulo, 18 de janeiro de 1993).

O poder punitivo ainda é presente mesmo entre aqueles que se opõe à pena de morte,
ele se exerce enquanto propostas liberais que pretendem recuperar as instituições da ordem a
partir de uma sofisticação das penas sem abandonar a sua retórica de humanismo moderno e
contemporâneo. Compreende-se o quanto adquiriu uma certa “naturalidade” da prática
prisional como a pena por excelência nas sociedades modernas. A forma-prisão se torna a
peça-chave das práticas penais que colonizou as instituições sociais e judiciárias ao
secundarizar outros sentidos da punição.

Foucault estuda a tecnologia de poder das práticas penais analisando a função


importante que a prisão desempenha nas relações de poder na sociedade disciplinar. A prisão
como um dispositivo de controle social permite uma gestão dos ilegalismos produzidos pelo
efeito-delinqüência. Apesar das críticas que são feitas aos disfuncionamentos do sistema
prisional moderno, como não diminuir a taxa de criminalidade, provocar reincidência e
fabricar delinqüentes, nunca se colocou em xeque a causa da própria existência da prisão e o
seu papel central na organização política da penalidade. Os efeitos da prisão que eram antes
denunciados e criticados, ao longo do século XIX até os dias de hoje foram endossados como
dados fundamentais para uma análise científica e “física política” da criminalidade. Para
Foucault:

Aquilo que, no início do século XIX, e com outras palavras, criticava-


se em relação à prisão (constituir uma população ‘marginal’ de
‘delinqüentes’) é tomado hoje como fatalidade. Não somente é aceito
como um fato, como também é constituído como dado primordial. O
efeito ‘delinqüência’ produzido pela prisão torna-se problema da
delinqüência, ao qual a prisão deve dar uma resposta adequada.
Reversão criminológica do círculo carcerário (FOUCAULT, 1997, p.
31).

A prisão enquanto um sistema punitivo moderno que tem a função de investir uma
tecnologia política do corpo nos indivíduos a serem adestrados num conjunto de técnicas
disciplinares, o qual ordena em uma rede difusa de dispositivos e mecanismos que regulam,
normatizam e normalizam os costumes, os hábitos, as intervenções sociais e práticas
produtivas não dissociadas da moral, consegue espalhar suas práticas disciplinares para além
do espaço prisional propriamente dito, difundindo-se por toda a sociedade em instituições
como as fábricas, hospitais, escolas, universidades e etc., na medida em que transforma a
criminalidade numa engrenagem essencial da maquinaria do poder disciplinar que permeia
por uma rede de instituições e práticas de poder-saber que não tem simplesmente a função
primária de sancionar, mas também de produzir efeitos de subjetividades. Os mecanismos de
punição neste sentido, ganham uma “função social complexa” como táticas políticas que
investem sobre o corpo efeitos positivos da tecnologia de poder e não necessariamente se
opera através da violência ou efeitos “repressivos”. A positividade das técnicas punitivas nas
relações de poder produzem a realidade e a verdade “na alma do indivíduo” antes de reprimir
e ideologizar, portanto, ela seria também uma tecnologia moral, vindo a produzir
comportamentos em indivíduos e grupos sociais e não somente restringindo ou controlando
suas ações.

A Constituição de 1988 comumente é criticada pelas pessoas de todas as categorias


sociais e representantes políticos por exigir procedimentos legais que impedem um processo
imediato e vingativo para se condenar supostos criminosos. Ela é atacada ou colocada sob
propostas de modificação por acharem que tal carta constitucional estaria protegendo
bandidos ao introduzir exigências que previnem a arbitrariedade policial e a prisão ilegal.
Nesse contexto, as pessoas atribuem à vingança imediata ou defendem a pena de morte como
uma medida pragmática para se proteger os cidadãos tornando-os menos “vulneráveis” em
relação aos sujeitos que vieram a ser criminalizados. No entanto, condenam as instituições
legais que coíbem o afã vingativo da punição imediatista.

Existem aqueles que criticam o sistema penal brasileiro opondo a legalização da pena
de morte aos valores de uma “nação moderna”, a qual deveria se valer de métodos punitivos
com dispositivos mais sofisticados e efeitos positivos de humanização da penalidade, ao invés
de “regredir” com a adoção da pena capital que comprometeria o “processo civilizador” da
modernidade (ELIAS, 1993) ao retroceder à violência e ao ciclo de ações violentas. Uma
sociedade dita “civilizada” rejeita em teoria qualquer punição que inflija dor e o uso
indiscriminado da violência que supostamente não são mais toleradas no cotidiano da esfera
pública. Se caso vierem apoiar a pena de morte, “toleram” apenas por meio da injeção letal
em vez de cadeira elétrica, um método bastante sugerido pela maioria da população.

Por outro lado, há também os sujeitos que incorporam os símbolos diários das ações
violentas por meio de fetiches e modas massificadas pelo consumo hedonista, se satisfazendo
com uma estetização da violência, por exemplo, através de adesivos de carros que simulam
furos à tiros de armas, adestramento de pitbulls, imagens marciais estilizadas, cultivo
narcisista à músculos, ascéticas marcações dos corpos por tatuagens e piercings, músicas pop
erotizadas e ostentativas (seja qual for o seu gênero musical), filmes, jogos eletrônicos,
desenhos animados e etc. A violência tornou-se líquida ou um significante flutuante do
“sonho moderno” de publicidade e infoentretenimento. A partir das práticas positivas de
poder não são apenas produzidos os prazeres, saberes, discursos e subjetividades, como
também os emblemas e símbolos que revelam os sinais ou os indícios de imaginários e
mentalidades (GINZBURG, 1989).

Tal argumento sobre a modernidade associa evolução histórica com o refinamento de


técnicas punitivas, atribui uma concepção liberal à humanização de penas como um avanço
moderno às formas brutais de punição da era pré-moderna. Esta visão se baseia numa regra
etapista, homônoma e universal do desenvolvimento das sociedades equiparadas ao modelo
Ocidental de civilização e que, portanto, a pena capital viria a representar um atraso histórico
e sócio-cultural dos países subdesenvolvidos sempre em comparação com os países dito de
primeiro mundo.

Assim como Foucault, que analisou a passagem dos rituais públicos de punição física
para as punições privadas e disciplinares que deixam de ser expostos como espetáculo público
quando a pena do suplício passa da marcação de corpos para o disciplinamento da alma e do
corpo dos indivíduos, David Garland (1995) estuda o refinamento das técnicas punitivas, que
a partir de um processo civilizador das sensibilidades e mentalidades retiram da esfera pública
a percepção do sofrimento dos condenados, permanecendo de maneira mais sutil, devagar e
duradouro sem que a própria sociedade tome conhecimento:

Porque o público não escuta a angústia dos prisioneiros e suas


famílias, porque o discurso da mídia e da criminologia popular
apresenta os criminosos como ‘diferentes’, e menos que totalmente
humanos, e porque a violência das penas é geralmente sanitária,
situacional e de pouca visibilidade, o conflito entre as sensibilidades
civilizadas e a freqüentemente brutal rotina da punição é minimizada e
feita tolerável. A punição moderna, portanto, é ordenada
institucionalmente e representada em um discurso que nega a
violência inerente das suas práticas (GARLAND, 1995, p. 243).

Esse processo levou a uma estratégia de ampliação da punição institucionalizada na


sociedade de controle no qual passou a corresponder com as medidas de segurança que
legalizaram discriminações e o uso legítimo da tortura, ambos disfarçados sob a forma de
privação de liberdade. Por exemplo, as metodologias de tortura utilizadas como instrumento
de investigação, tormento psicológico e produção de verdade confessional nas delegacias
policiais, sistemas penitenciários e instituições médicas no interior de um Estado de direito no
Brasil, cujas práticas acredito que seja do conhecimento da sociedade brasileira, mas se
situam no que chamo de regime de silenciamento ao negar ou ensurdecer através de um ethos
politicamente correto, departamental e corporativista, os maltratos físicos, corrupções,
segregação e humilhações cruéis e sórdidas que persistem nesses estabelecimentos, sobretudo
as instituições de produção de saberes, assim como nos manicômios judiciários que em tese
negam o tratamento de choque ou eliminação física no tratamento da loucura pela psiquiatria,
mas que o desprezo racista, os preconceitos, a moral psiquiátrica, os discursos e práticas
eugênicas continuam existindo até hoje. Para afirmar isso não preciso recorrer a uma fonte
documental, pois ela é perceptível, sentida na própria vivência e nas micropolíticas do
cotidiano, sendo assim, tão importante quanto analisar as relações de poder a partir dos
registros documentais, questionar a ausência de registros e fontes ou o difícil acesso a elas
também se faz pertinente. Só pra ressaltar, tal exposição, de maneira alguma conduziria a um
empirismo, apenas não me expresso por meio de um asfixiante recato moral acadêmico
impregnado pelo discurso de uma ciência asséptica ou que tenta esterilizar pensamentos,
inquietações e inspirações antes mesmos de serem lidos atenciosamente com a devida
seriedade.

Na reforma das instituições carcerárias foram introduzidos mecanismos que ampliou


as práticas de punir com maior rigor e flexibilidade, abrindo um modelo variado para o
nivelamento da moralização de condutas entre os indivíduos que são selecionados pelo
sistema penal como os novos infratores ao adquirirem respaldo jurídico de encarceramento ao
menor sinal de “delinqüência”. O humanismo moderno se coloca na tática de penalização
flexível ao passo de fazer com que abrange novas possibilidades para se exercer a justiça
penal. Na mesma direção, o tal sistema de penas alternativas o qual argumenta que a sua
aplicação geral viria a reduzir o uso indevido da prisão, articulou-se em um regime político de
tolerância zero, principalmente nos EUA, em expansão na Europa e correlato ao Estado penal
brasileiro – a partir do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) – que vem sendo utilizado
como um instrumento para controlar sobretudo as camadas populares e espaços demarcados
das cidades, cujo resultado levou ao surgimento das unidades especiais de encarceramento, os
sistemas prisionais de segurança máxima nomeados de special units, supermax (BAUMAN,
1999; WACQUANT, 2001).

Assim, com o regime de penalizações variáveis em ligação com as políticas de


tolerância zero, houve um aumento vertiginoso da população carcerária que ficaram lotadas
não por confinar os criminosos considerados como os mais “perigosos”, mas aqueles
indivíduos que foram presos por furto, por atentados à ordem pública ou por serem usuários
de drogas. Esta situação paradoxal que marca, por um lado, o redimensionamento dos direitos
humanos, as reformas das condições das prisões e flexibilização das penas, por outro, as
práticas penais que tornam cada vez mais rigorosas com as políticas estatais de segurança e
tolerância zero, ampliou o controle das penalidades para os menores tipos de infrações, de
modo a unir-se com o princípio de participação democrática, criando um consenso
participativo de cidadania ao inibir as resistências. Segundo Edson Passetti, diante desse fluxo
não houve uma redução dos encarceramentos e nem das punições, apenas estabilizaram-se em
um regime moderado de penas que são aplicadas mediante as variações conservadoras:

A sociedade de controle, assim, une fluxos contínuos de participação


de indivíduos e grupos desde o trabalho até o controle das
penalidades; combina direitos e exceções em arranjos democráticos
que incorporam eleições, influências e tomada de decisão, desde a
vida de cada um até o âmbito estatal; institucionaliza a participação
democrática, a ampliação das punições e a governamentalização com
máquinas cibernéticas. (...)As reformas penais não abriram mão do
regime da penalização universal, até mesmo quando considerou o
infrator como vítima; em poucas palavras, a noção de vítima, dilatou
ainda mais o controle sobre a população considerada vulnerável, seja
por viver em supostas áreas de risco, seja por ser composta,
potencialmente, por pessoas tidas como risco para a sociedade.
Apareceram os georeferenciamentos, as políticas de inclusões sociais,
as ações ampliadas de ONGs, as parecerias público-privadas e, aos
poucos, as zonas de riscos, periferias, favelas ou comunidades se
constituíram em campos de concentração governados por elites
minoritárias, suas polícias, organizações não-governamentais e
Estado. A punição na sociedade de controle se expandiu e é
governada, democraticamente, por meio do incentivo à participação
não só na política de Estado, mas na vida da comunidade-campo de
concentração. Formou-se uma consensual cultura cidadã dos direitos e
das penas.14

No Brasil, apesar das estratégias de reforma e flexibilidade das penas serem correlatas
aos arranjos democráticos de participação cidadã que vieram a ampliar os mecanismos de
punição e controle do Estado ao produzir um consenso de tomada de decisão dos direitos e
exceção à penalidade no comportamento de indivíduos e grupos, com isso, em negociação
com as normas e práticas de poder das instituições sociais e, sobretudo do próprio sistema
penal, elas coexistem com as diversas percepções que se tem no âmbito de sociabilidade em
relação à aplicação da pena capital como uma abordagem truculenta da punição e inflição da
dor sobre o corpo, tida como medida necessária para se punir democraticamente os
criminosos e resolver o problema do crime e da violência na vida social brasileira.

O debate sobre a adoção da pena capital na Constituição de 88 foi proposto novamente


no início dos anos 90, só que agora por intermédio de uma decisão tomada pela arrecadação
de votos em plebiscito. De acordo com Caldeira:

A proposta foi feita por defensores da pena de morte que calcularam


que não conseguiram juntar votos suficientes no Congresso para fazer
passar uma emenda constitucional, mas que teriam apoio popular
suficiente para um plebiscito bem-sucedido (CALDEIRA, Op. cit., p.
357).

Para a tentativa de legalização da pena capital, políticos partidários do antigo regime


militar-autoritário começaram a exigir esse instrumento democrático recém-incorporado na
Constituição da qual foram críticos ao longo do tempo de ditadura. A situação inverteu a
lógica política ao fazer com que setores militares de outrora apoiasse os instrumentos
populares para o debate público e compelir os grupos adversários da pena capital à oposição
desses procedimentos democráticos que antes lutaram pela sua implementação na carta
constitucional. No artigo 5, inciso XLVII, da Constituição de 1988, é decretada a proibição da
pena de morte, adotada só em caso de guerra externa, assim como é prevista no artigo 84,
inciso XIX. O plebiscito foi criticado por aqueles que defendem a inviolabilidade do direito à
vida e a garantia de direitos individuais, considerando-o como um meio demagógico para se
atingir a opinião pública que seria motivada a decidir por impulsos emotivos ao se sensibilizar

14
Artigo de Edson Passetti intitulado de “Punição e Sociedade de Controle”.
com os crimes espetacularizados nos meios de comunicação de massa. Essa posição é
defendida pelo advogado e secretário da Segurança Pública Miguel Reale Júnior publicada
pela Folha de S. Paulo em 20 de abril de 1991 durante o governo Montoro:

Submeter a nação a um debate emocional, outorgando, neste instante


de profunda crise social, a cada brasileiro a decisão de ser implantada
ou não a pena de morte, é uma irresponsabilidade. (...) Com o
plebiscito, instalar-se-á um clima de paixão em torno de tema
reduzido, cujo exame exige, exatamente o que mais falta aos
brasileiros neste momento de sérias carências. A dramatização da
violência, especialmente pelos meios de comunicação de massa,
permitirá a avalanche dos instintos e a satisfação do pior dos
sentimentos, o ressentimento. (...) Além disso, se o Estado detém o
monopólio do uso legítimo da violência, ou seja da punição, deve esta
se revestir de racionalidade. Com o plebiscito, ao contrário, a razão
submeter-se-á à opinião emocional e irrefletida do indivíduo, e o
resultado pode ser a autorização do assassinato oficial, a aprovação
apaixonada de um burocrático e frio extermínio da vida.

Percebe-se no discurso dos defensores dos direitos humanos e oponentes à pena capital
que a violência e a punição não devem destituir-se da racionalidade política de Estado. Para se
fundamentar um sistema de penalidade o uso da violência estatal não foi devidamente
desconsiderado, sustentando assim, as implicações entre uma suposta força legítima e o
projeto genocida de Estado que percorreu ao longo de nossa trajetória histórica a partir de um
sistema penal colonial-mercantilista, imperial-escravista, republicano-positivista e o
contemporâneo-neoliberal15. É interessante destacar a maneira como o secretário da Justiça se
refere aos indivíduos envolvidos com o debate público sobre a pena de morte em plebiscito.
Eles são representados como incapazes de tomarem decisões racionais por si próprios junto
com suas escolhas, pois estariam sob influência da “dramatização da violência” nos
programas de televisão pela qual poderiam ser movidos por um “embate emocional”. De
qualquer forma, essa visão reproduz estereótipos sobre os sujeitos ao tratá-lo como um ser
bestializado, irracional e expectador passivo diante dos veículos de informação e do debate
político.

Há uma tensão no debate brasileiro sobre a defesa dos direitos humanos e o apoio da
pena de morte em relação aos métodos de punição e seus procedimentos. Para uns, eles são

15
Em torno das questões a respeito da existência de sistemas penais de caráter genocida na realidade histórica
brasileira e que articula variáveis racistas para aplicação de políticas criminais, ver os estudos de Ana Luiza
Pinheiro Flauzina que analisa historicamente os sistemas penais no Brasil, especificamente no livro “Corpo
Negro Caído no Chão: O Sistema Penal e o Projeto genocida do Estado Brasileiro”, ed. Contraponto, 2008.
visto sob o ponto de vista da lei, da justiça e do sistema judiciário. Para outros, associados à
idéia de execução sumária e imediata, vingança individual e coletiva e inflição de dor sobre o
corpo desprotegido de direitos. Defensores de direitos humanos criticam o sistema judiciário e
penitenciário com vistas a reformá-lo sempre na perspectiva de sua legitimidade, bastante
comprometida por grande parte dos segmentos sociais. Enquanto os que são a favor da pena
capital criticam os disfuncionamentos do sistema judiciário e das prisões para organizar
políticas que poderiam ignorar totalmente qualquer ordem legal. Em seus aspectos culturais, a
punição tornou-se aceita como práticas disciplinares, a mesma lógica que se usa para bater em
crianças para impor limites é justificada em argumentos pedagógicos da pena de morte como
uma metodologia de dar exemplo e impor limites ao crime. O disciplinamento e o uso da dor
como práticas punitivas que infligem castigo e sofrimento ao corpo exposto às intervenções
físicas ilimitadas, parece terem sido transformadas em algo corriqueiro e tolerados
normalmente não só contra os criminosos, mas também contra crianças, idosos, mulheres,
negros, pobres e “loucos”, bem como a naturalidade e a facilidade que as pessoas têm de falar
que vai tirar a vida dos outros, quando não se elegem ao primado de executor direto, mandam
a morte ou aprovam em nome da ordem social, moral, religiosa, nacional e securitária.
CAPÍTULO II
O ESTADO DE EXCEÇÃO COMO PARADIGMA DE GOVERNO: A DECISÃO DO
PODER SOBERANO NO CONTEXTO BIOPOLÍTICO DE “GUERRA ÀS DROGAS”
NO BRASIL

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em


que vivemos é na verdade a regra geral. Preci-samos construir um
conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento,
perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de
exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o
fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o
enfren-tam em nome do progresso, considerado como uma norma
histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no
séculos XX ‘ainda’ sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele
não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a
concepção de história da qual emana semelhante assombro é
insustentável” (BENJAMIN, 1992, p. 161-162).

2.1 Da Tecnologia da Exceção: As Relações de Poder Sobre o Mercado das Drogas

Começarei com o seguinte questionamento: Por que no Brasil, após uma transição
conservadora para um suposto Estado Democrático e de direito, o estado de exceção foi
mantido como um dispositivo metajurídico na Constituição de 88 como uma disposição
constitucional do Estado para se operar uma política antidrogas na produção legislativa
nacional e infraconstitucional e que hoje se constitui em conjunto com o ordenamento de
controle social como um paradigma bélico de governo em intervenção à determinados
espaços estratégicos nas cidades? E que a regra da exceção se torna vigente na violência
institucional, sobretudo nas atividades letais das forças policiais no combate às drogas e no
controle às práticas consideradas ilícitas, vem se configurando e sendo aplicada como uma
técnica mortífera – seria uma tanatopolítica (AGAMBEN, 1985), ou seja, uma política
voltada para a morte ou a vida exposta a ela, assim, consiste em um sistema político-
institucional que opera a prática de matar para se manter a ordem social através da força de
lei/sem lei – do poder soberano no contexto biopolítico das sociedades contemporâneas?
Podemos constatar essa metáfora bélica do estado de exceção manifestada sob a forma
de “guerra às drogas” na cidade do Rio de Janeiro16. Os dispositivos de controle social nas
sociedades contemporâneas produzem discursos para determinados fármacos nomeados como
“drogas”17. Como mercadorias em um regime jurídico diferenciado, o mercado das “drogas”
teriam a capacidade de promover um sistema de poder que operaciona constantes situações de
emergência e também os operadores ilícitos que poderiam proporcionar e construir um “poder
paralelo” ao Estado.
Segundo o SENAD (Secretaria Nacional Antidrogas), o tráfico de drogas internacional
em suas modalidades atuais agrega práticas e atividades externas para sua rede de ilícitos, se
configurando num sistema extremamente complexo de redes criminosas, que foi categorizado
pelos organismos de segurança como “crimes conexos” o qual são apreciados como
externalidades da atividade de tráfico de drogas. Tal categoria reduz, assim, outras redes de
ilícitos – como por exemplo o de roubo de celulares e automóveis, ou de seqüestros
relâmpagos – a atividades subsidiárias do “tráfico de drogas”. Dessa forma, para os
dispositivos institucionais de controle e organização do espaço urbano, a “boa ordem na
Pólis” se encontra ameaçada pelos efeitos de violência caótica, desestabilização das
instituições da sociedade civil e do Estado de direito e suas crises de autoregulação e as
fragilidades da segurança pública em que o tráfico de “drogas” veio a promover nas cidades.
Segundo relatório da UNODC (sigla que significa em português: Escritório das
Nações Unidas para Drogas e Crimes):

Com base nos dados do levantamento domiciliar de 2002 sobre


prevalência anual e no mês anterior do uso de maconha, cocaína e
anfetaminas pela população, encomendada pela Secretaria Nacional
Antidrogas, o Brasil pode ser considerado um país de consumo médio.
No caso dos opiáceos e do ecstasy, a prevalência é baixa neste
momento18.

16
Sobre poder soberano, controle biopolítico, “guerra às drogas” e o estado de Exceção como dispositivo de
controle social a partir da política antidrogas no Brasil, ver a dissertação de mestrado de André Saldanha Costa
(2007) intitulada como “A Regra da Exceção: Poder Soberano e Biopolítica na “Guerra às Drogas”.
17
Segundo a concepção da criminóloga Rosa Del Olmo este conceito ou palavra não tem uma definição, sendo
impreciso por excessivas generalizações, “por que em sua caracterização não se consegue diferenciar os fatos
das opiniões nem dos sentimentos. Criam-se diversos discursos contraditórios que contribuem para distorcer e
ocultar a realidade social da ‘droga’, mas que se apresentam como modelos explicativos universais. (...) a palavra
‘droga’ não pode ser definida corretamente porque é utilizada de maneira genérica para incluir toda uma série de
substâncias muito distintas entre si, inclusive ‘em sua capacidade de alterar as condições psíquicas e/ou físicas’
que tem em comum exclusivamente a o fato de haverem sido proibidas” (DEL OLMO, 1990, p. 22).
18
Essa informação pode ser extraída no site www.unodc.org
Apesar dos dados levantados pelos órgãos internacionais para o combate e controle de
drogas afirmarem que o Brasil tem uma demanda considerada moderada em relação a outros
países ocidentais e sulamericanos, os efeitos produzidos pelas técnicas de redução da oferta e da
demanda, anunciadas nos estatutos jurídicos em regência nacional e internacional, estabeleceu o
que poderíamos chamar de “guerra civil não declarada”. É a partir daí que a violência institucional
em controle de certas atividades consideradas ilícitas parece não se constituir como uma exceção,
mas se torna no decorrer da história uma regra das instituições no Brasil mobilizadas para o
combate às drogas, e nunca é demais mencionar a realidade dos altos índices de letalidade da
atividade policial em meio a esse processo.
Utilizando o conceito de Willian da Silva Lima (1991), as atividades ilícitas são
praticadas no Brasil como “técnica de sobrevivência na adversidade” ou “metodologias de
subsistência” diante de uma situação de exclusão sumária do processo produtivo legal e na
periferia do capitalismo. Entre essas técnicas cotidianas de subsistência se encontram as
práticas sociais que se expressam sob a forma do “tráfico” de drogas, a prostituição e o
aliciamento, a cafetinagem, o “jogo do bicho” considerado exploração de jogos ilegais, o
comércio ambulante dos camelôs, guardadores de automóveis, exploração de menores e o
trabalho infantil. Essas práticas na maioria das vezes são apropriadas pelas camadas sociais
que se encontram na lógica ambivalente da inclusão-excludente do capitalismo, sobretudo nos
aglomerados urbanos denominados como favelas e que são comumente estigmatizados como
“classes perigosas” e lugares “anômicos” no interior de uma hipotética “cidade ordenada e
legal”. As visões criminalizantes ou vitimizadoras tendem a enxergar esses espaços como
segregados na cidade e não ligadas ao devir urbano da sociedade em seu todo.
Os grupos sociais que compõem e habitam os espaços favelizados são constantemente
pressionadas pelas medidas de lei e ordem reforçadas estrategicamente em áreas sobre a qual
a “vulnerabilidade” se tornou um espaço de intervenção da “inteligência” de contenção dos
“riscos” em que projetam o imaginário social da exclusão e do locus da “desordem” e do
crime, por isso sendo o alvo de um rigoroso controle social exercido sobre estas populações.
Conforme analisa Cerqueira Filho (2002), os dispositivos de controle social postos
sobre essas “populações e suas atividades ilícitas”, adotaram um sistema institucional que
opera sob a forma de uma “máquina mortífera”. Este caráter mortífero do Estado,
principalmente desenvolvido na política antidrogas na cidade do Rio de Janeiro nos últimos
vinte anos, demonstra a insuficiência das tentativas empreendidas por diversos autores de
fornecer limites ao poder soberano, prevenindo-o do genocídio e regular a sociedade civil a
partir da institucionalização do “monopólio da violência legítima do Estado” (tal qual se
preocupou Max Weber).
Assim, os direitos constitucionais que seriam marcos jurídicos que procuram
estabelecer um conjunto mínimo de regras para ordenar, garantir, proibir e mediar os conflitos
entre o Estado e a sociedade civil, no atual estado de exceção esses ordenamentos se
processam permanentemente no sentido de permitir sem restrições os agentes estatais de
operarem uma “guerra civil não declarada” contra segmentos sociais específicos da cidade
nos interstícios da transição conservadora em via para um suposto Estado Democrático e de
direito durante a abertura política, lenta e gradual à Nova República. Nesta transição, o estado
de exceção atuante no contexto do regime militar foi conservado como um dispositivo
metajurídico da política antidrogas para se operacionar um combate irrestrito ao
“narcotráfico”. Contudo, em referência às análises do jusfilósofo italiano Giorgio Agamben
(2002; 2004), o estado de exceção permaneceu como um dispositivo político-jurídico e social
nas democracias ocidentais. Trata-se de dizer que, o estado de exceção perdurou após a
redemocratização brasileira não como uma medida provisória ou emergencial, e sim como
uma estrutura político-jurídica estável que se manteve na legislação e na ação da política
antidrogas se configurando numa técnica de governo e um dispositivo de controle social que
procura estabelecer formas de assujeitamento irrestrito ao poder soberano e construir uma
organização biopolítica da sociedade através de uma política voltada para a morte inscrita na
metáfora bélica de “guerra às drogas” na contemporaneidade.
Autores como Cerqueira Filho e Neder (1980), ao analisarem o processo de abertura
política, atentam para o modo em que se configuravam as formas de regulação da sociedade a
partir do processo de transição política. Segundo eles, a percepção da violência urbana e o
tratamento convencional das agências do Estado no controle da criminalidade nos anos 80,
fizeram reportar à sociedade civil sua própria condição de vulnerabilidade diante do uso
excessivo da força nas novas modalidades de violência institucional em procedimento para se
reprimir a criminalidade urbana.
Devido o entusiasmo vivido no processo de transição política, Cerqueira Filho e Neder
nos chamam a atenção para os aspectos tipicamente autoritários e conservadores que se
camuflavam no interior da sociedade brasileira, desmascarando os estratagemas da
redemocratização no que se refere ao fenômeno crescente da violência no meio urbano. Em
meio às excitações da época, foram negligenciados ou postos em silêncio as práticas de
autoritarismo no interior do regime pretensamente democrático na qual a percepção do
crescimento da violência urbana indicava a transferência para a atual conjuntura de transição
ao “retorno da democracia”, de um certo modus operandi de um sistema político-institucional
e estrutural característicos dos anos da ditadura. Portanto, a análise das práticas discursivas da
política antidrogas no período da redemocratização brasileira consiste em investigar as
permanências do estado de exceção como regra e dispositivo político-jurídico que permite a
existência de práticas autoritárias simultâneas e coabitadas no interior dos regimes
democráticos, principalmente entre as práticas institucionais policiais o qual (re)direcionaram
suas estruturas normativas e autoritárias a partir do aumento dimensional desenvolvido pelo
mercado capitalista das drogas que serviram de canal para a configuração de um sistema de
poder na atualidade.
O mercado internacional de drogas articula um processo produtivo industrial e
também artesanal e semi-artesanal no conjunto diversificado de suas atividades e operações,
cuja circulação, distribuição e consumo em intercâmbio com uma mercadoria proibida na
maioria das sociedades, estabelecem a mobilização da chamada “economia subterrânea”. Esse
tipo de economia se caracteriza, por exemplo, a partir de distintos mecanismos de
acumulação, combinação de formas de assalariamento, semi-assalariamento e pagamentos de
toda a ordem; na geração de uma renda que remunera diferentes suportes e atividades
subsidiárias à rede do tráfico de drogas. Ou seja, essas atividades se dimensionam sob a forma
de abastecimento de armas, manutenção de milícias locais particulares, treinamento e
formação de atiradores profissionais, tudo para se manter e ampliar a rede de colaboradores
que são incumbidos de facilitar o fluxo ou a transportação da droga no uso variado de meios
para fazer circular a mercadoria nas fronteiras entre os países. Cabe analisar que, para o
mercado de drogas garantir seus postos privilegiados de circulação, foi necessário consumir
um enorme volume de capitais para se produzir campos particulares de pouso, o que
poderíamos destacar uma precisa funcionalidade corrupta por parte dos aeroportos, portos e
zonas aduaneiras e alfandegárias em relação com a rede complexa da “economia subterrânea”
(LABROUSSE, 1994; SALAMA, 1994; KOZEL & LAMBERT, 1992; ARRIETA e outros,
1991; SCHIRAY, 1989,1992 e 1994; FONSECA, 1992; ADORNO, 1996).
As estratégias de corrupção desempenhada por essas sedes que exercem papéis no
circuito produção/circulação/consumo em conexão com a economia subterrânea e a oficial são
raramente colocadas sob suspeição, ainda mais a respeito do papel fundamental da circulação
monetária nessa economia subterrânea, uma vez que a “lavagem” de dinheiro opera redes
financeiras complexas em função vitalícia ao tráfico de drogas. Daí porque seria pertinente
indagar sobre qual o papel desempenhado pelas instituições bancárias em cumplicidade com o
narcotráfico, até hoje muito pouco questionado (ARLACCHI, 1992; LEWIS, 1994;
ADORNO, 1996).
Outro aspecto a acentuar seria a modalidade da economia subterrânea e sua dimensão
verticalizada e verticalizadora, cujo dimensionamento coloniza diferentes modalidades
delituosas, entre elas estão articuladas as práticas de roubo, seqüestro e o contrabando de
armas que alimenta o arsenal bélico para os operadores do tráfico e também proporcionar uma
fonte de renda adicional. Assim, nunca é demais ressaltar as conexões que se estabelecem
entre o narcotráfico, o mercado, o Estado e as micro-relações e os emergentes desarranjos no
campo social. O que era antes reconhecido distintamente como uma ordem legal e os
ilegalismos, trabalho e delinqüência, hoje o tráfico de drogas promoveu uma
indiscernibilidade a essas tradicionais distinções. Essa zona de indistinção que o tráfico
organiza, pode ser percebida em suas estratégias de aliciamento, no modo como ele recruta
massivamente os jovens como trabalhadores assalariados sob as perspectivas e promessas de
ascensão social na escala da desigualdade e um meio rápido e eficaz para se alcançar um
enriquecimento de “ganho fácil”, assim, muito mais eficiente e pragmático do que o ganho
salarial do operário industrial, de construção civil, professor, empregado estatal ou gerente
multinacional. Com a difusão de armas e o desenvolvimento de uma economia estruturada na
comercialização das drogas articulada ao tráfico de nível internacional, a juventude dos
bairros populares se viram pressionadas pela torrente de desemprego e de subemprego
crônicos no capitalismo moderno, passaram a enxergar o tráfico como alternativa, meio de
sobrevivência, culto aos valores do código de honra masculino e linha de escapatória à
miséria do cotidiano. A repressão policial se associa ao crime organizado produzindo efeitos
que pouco influenciam nos mecanismos dessa engrenagem econômica, resultando nos
vínculos estabelecidos entre o bandido pobre e a corrupção policial como componentes dessa
rede maquínica:

(...) que o aprisiona à quadrilha pela lealdade devida, que o submete à


hierarquia da organização, que o usa como condenado sem julgamento
e como bode expiatório e que o faz pagar com sua própria morte os
crimes dessa gigantesca rede organizada, a qual ele próprio
desconhece, deixando os poderosos chefes impunes (ZALUAR, 1994,
p. 12).

O tráfico se converte num atrativo de concentração de lucros para todos aqueles que
estão envolvidos em suas atividades, seria um ramo de negócios sem as limitações de leis
trabalhistas ou impostos. Na microfísica deste empreendimento capilarizado em escala
internacional e que amplia suas redes em espaços favelizados e bairros pobres na cidade,
forja-se no universo simbólico dos envolvidos com o tráfico a disputa pelo poder
independente dos postos que vem a se ocupar a partir da competitividade e o individualismo
como meio instrumental para o sucesso oferecido, segundo as disposições que se tem para
assaltar como medida necessária para a manutenção do comércio ou matar em garantia à
condição básica daquele que se situa na posição do “bem-sucedido” às custas do poder (de
fogo).
Conforme Alba Zaluar (1994), ao relatar a cultura violenta e guerreira, o estilo de
poder e o individualismo moderno nas favelas e bairros pobres no Rio de Janeiro, analisa que:

A quadrilha de traficantes e assaltantes se forma, aqui, em torno de um


traficante que é o dono da mercadoria e traz a droga para o local. É ele
quem tem o capital inicial, conseguido no comércio e nos assaltos,
diretamente ou via empréstimo de armas; é ele quem tem as armas e o
poder sobre a boca-de-fumo, que ele conseguiu na guerra, demarcando
o seu território. Se é considerado um ‘cabeça forte’ e, portanto, um
‘homem’, um líder, seu poder só se mantém às custas do poder de
fogo de que dispõe, matando ou expulsando os chefes anteriores.
Mostrar disposição para matar é condição básica para tornar-se bem-
sucedido nesse empreendimento, pois é através dela que se obtém o
medo dos outros, sejam comparsas bandidos, sejam trabalhadores
(ibidem, pp. 98-99).

O forjamento simbólico do atributo e ostentação do poder nesse imenso


empreendimento lucrativo do tráfico como atividade comercial, institui a lógica da inclusão-
excludente na promoção do sucesso individual, competitivo e imediato em detrimento ao
valor de um ethos vocacional para o trabalho, cujos efeitos sociais, especificamente para os
jovens na periferia urbana, acabam engendrando a perseguição e repressão policial, a
estratégia diária de guerra e as mortes constantes de contingentes que na maioria das vezes
compõem a situação de explorados e não diretamente envolvidos com a montagem
empresarial organizada na complexa rede do crime organizado.
Nesse processo, as intervenções penais são pouco eficazes, pois seus efeitos afetam
apenas acusados, consumidores, pequenos e médios “traficantes” que não possuem as regalias
de um sistema privado de proteção e imunidade contra a ação da justiça. Ao intervir, a justiça
penal não consegue resultados efetivos que viriam a desencadear a desmontagem dessa
organização que se recompõe em variáveis lugares e com diferentes recursos e movimentada
por outros indivíduos que foram aliciados para exercerem as distintas funções de transporte,
vigilância, venda e outras atividades subsidiárias.
Para aqueles mais incauto diante da incapacidade de compreender essa rede complexa
de relações sociais político-institucional e econômica a qual articula a corrupção de Estado e o
tráfico de influências ao mercado das drogas, a justiça penal aparenta ser enfraquecida,
amortecida, inoperante, ineficiente, deslegitimada em sua autoridade, cúmplice e negligente
frente à violência e o aumento da criminalidade urbana. Por isso que decorrem as “demandas
por lei e ordem social” tanto por parte da população, dos meios de comunicação, da produção
acadêmica e científica e da racionalização das políticas públicas de segurança e controle
social que invocam concepções favoráveis ao justiçamento privatizado o qual se manifesta
sob a forma ortopédica de desejos obsessivos de punição e vingança privada; apelação às
políticas importadas de “tolerância zero” e limpeza social em aplicação na sociedade
brasileira; e nos mecanismos constitucionais de castigos físicos, pena de morte e prisão
perpétua aos indesejáveis sociais, “classes perigosas”, indivíduos “periculosos” e criminosos;
o qual operaciona o estado de exceção como técnica de governo e um dispositivo de poder
institucional na política de controle social e ordem biopolítica de “guerra às drogas”.
Os discursos correntes sobre os “problemas das drogas” na sociedade contemporânea
procuram evidências factuais para contrapô-las à situação atual do Estado Democrático e de
direito que através do crime e o mercado de drogas estaria comprometido e sujeito às crises de
legitimidade e “degenerescência”. A abordagem habitual vê as drogas como um problema
inconveniente e (in)justificável pelo capitalismo que prejudica a representatividade do Estado
de direito caso não vem a ser combatida ou abolida.
Ao invés de reproduzir esses discursos habituais sobre o “problema das drogas”, a
proposta aqui procurará entender como a política antidrogas produz mecanismos de controle
social exatamente para serem aplicados pelo poder soberano, estratégia sobre a qual a
democracia cada vez mais se confunde com um estado de exceção permanente e regra geral
das instituições e da sociedade mobilizadas a favor da intolerância e do caráter genocida do
Estado, modificando radicalmente o sentido do valor e “direito à vida”, democracia,
liberdade, igualdade, justiça, direitos humanos e as balelas do universalismo do projeto de
modernidade. A cidadania eqüitativa da democracia não estatui direitos fundamentais às
sociedades humanas, mas assujeita e dirige a conduta dos indivíduos no governo dos vivos
(FOUCAULT, 1979-1980), na exigência e permissão de morte das alteridades para se gerar a
vida em nome e regulação de uma dada ordem biopolítica.
A pesquisa tentará analisar a política de drogas no Brasil, de modo geral e
particularmente no Rio de Janeiro após a reconstrução da normalidade democrática em curso
desde o início dos anos 80, procurando entender como ela se tornou um dispositivo de
controle social por excelência que possibilitou o exercício de intervenção policial em todas as
categorias sociais, porém de maneira diferenciada. Conforme as análises de Nilo Batista
(2003), a conduta penal dos operadores jurídicos diferencia suas intervenções a determinados
segmentos sociais, pois os estereótipos produzidos distinguem o perfil dos usuários de drogas
de acordo com sua posição e estratificação socioeconômica; entre os grupos sociais mais
pobres são construídas rotulações que o identificam como “traficantes”; na classe média eles
são reconhecidos como “viciados”. O sistema penal funciona como uma máquina seletiva na
produção de estigmas dualistas, reconhecendo nos setores médios e altos da sociedade os
estereótipos médicos e nas camadas populares o estereótipo criminal. Na mobilidade do
espaço público, em particular nas metrópoles modernas, o “olhar treinado” para a
identificação de indivíduos como objeto da suspeita, procura classificá-los através de registros
dos traços morfológicos ou a partir de determinismos sociais e econômicos. Daí podemos
levantar uma hipótese acerca das persistências e as reconfigurações históricas da mentalidade
da Antropologia Criminal implicada nos enquadros policiais nas ruas e também no modo
como as pessoas se relacionam nos diferenciados espaços urbanos e que exercem
cotidianamente as práticas de poder da estigmatização e criminalização, sob o forjamento de
um suposto “mal-estar” e fobia aos “caos” e o “risco” na qual determinados espaços e
segmentos sociais são os alvos privilegiados para a suspeição generalizada. Pode-se dizer que,
o emprego de uma metáfora bélica vigente nas práticas discursivas sobre as drogas implicam
mais numa estratégia de assujeitamento e dominação aos setores sociais que se encontram
numa posição menos favorecida do que realmente se promover com eficácia a redução da
oferta e demanda por drogas.
Noutro momento, pretendo questionar a crise do paradigma do Estado Democrático e
de direito, sua ordem jurídica e a perda do caráter de excepcionalidade do estado de exceção
que veio a se tornar uma regra de medidas que atendem ao apelo do restabelecimento da “lei e
da ordem”, sustentando assim, a justificativa de práticas de arbitrariedade e mecanismos
extrajudiciais para nutrir os devaneios e os sentimentos de insegurança pública fabricados
pelas situações emergenciais em torno da sociedade e os arbítrios do Estado.
Desse modo, o estado de exceção se configura como um mecanismo jurídico-político a
partir da gestão de indeterminação entre democracia e autoritarismo, na zona de indistinção
entre violência e direito, na indiscernibilidade entre democracia política e fascismo social
(SOUZA SANTOS, 2003), o que nos permite levantar os seguintes questionamentos: Por que
a suspensão do ordenamento jurídico autoriza o uso sem limites das “forças de lei” operadas
de forma seletiva e genocida pelas práticas judiciais e policiais no Rio de Janeiro? Com base
em estudos feitos por Cerqueira Filho, convém indagar como se estabeleceu em nossa
formação social brasileira essa interface entre o “problema das drogas” e a “questão social”?
Tal relação de complementaridade correlaciona as práticas judiciárias e penais com as ordens
de saúde e sanitarismo e que se articulam no conjunto estratégico da complexa combinação
entre a polícia e a política em simbiose com as normas biológicas e eugenéticas, cujos
princípios de tutela da saúde e a luta contra o “inimigo” se combinam em relação
complementares e indiscerníveis ao exercício de poder. Neste sentido, como foi forjado a
versão contemporânea do homo Sacer conferido aos “traficantes” como um inimigo na
sociedade de controle19? Isto é, seria uma vida sacra que estabelece a impunidade da matança
e a exclusão do sacrifício na qual o “ritual” da violência não sacraliza o corpo, mas profana a
vida daquele que pode ser morto impunemente e de forma insacrificável. Em outras palavras,
seria um sujeito ou um vivente que não é condenado a morte, e sim condenado a perda
absoluta das formas legais de proteção e o abandono do direito e que pode ser morto por
qualquer um sem que se cometa um homicídio:

Homo sacer é, portanto, aquele que o povo julgou por um delito; e não
é lícito sacrificá-lo, mas quem o mata não será condenado por
homicídio; na verdade, na primeira lei tribunícia se adverte que ‘se
alguém matar aquele que por plebiscito é sacro, não será considerado
homicida’. Disso advém que um homem malvado ou impuro costuma
ser chamado sacro (AGAMBEN, Op. cit., p. 79 [tradução: p. 196]).

Isso nos faz lembrar uma seguinte exortação difundida em um lema de autoritarismo
que ficou conhecido a partir das palavras de um político local na cidade do Rio de Janeiro que
foi proferido como “bandido bom é bandido morto”. Portanto, pretenderei discutir o modo
como o sistema de drogas e o processo histórico da legislação antidrogas estabeleceram um
estado de exceção permanente em vigor no ordenamento jurídico que propõe a “redução da
oferta e da demanda por drogas” como dispositivo de controle social desenvolvido nos
projetos políticos do poder soberano na medida em “que seres humanos fossem tão
integralmente privados de seus direitos e de suas prerrogativas, até o ponto em que cometer
contra eles qualquer ato não mais se apresentasse como delito (a esta altura, de fato, tudo
tinha-se tornado efetivamente possível)” (ibidem, p. 178).

2.2 Biopolítica, Estado de Exceção, Vida Nua e Homo Sacer

O estado de exceção foi criado pela Assembléia Constituinte Francesa em 1791 como
um mecanismo jurídico nomeado de “estado de sítio” – quando surge a idéia de inimigo

19
“A sociedade de controle, em contraste com aquela (que se desenvolve nos limites da modernidade e se abre
para a pós-modernidade) na qual os mecanismos de comando se tornam cada vez mais ‘democráticos’, cada vez
mais imanentes ao campo social, distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos. Os comportamentos de
integração social e exclusão próprios do mando são assim cada vez mais interiorizados pelos próprios súditos. O
poder agora é exercido mediante máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de comunicação,
redes de informação etc.) e os corpos (em sistemas de bem-estar, atividades monitoradas, etc.) no objetivo de um
estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo de criatividade. A sociedade de controle pode,
dessa forma, ser caracterizada por uma intensificação e de uma síntese dos aparelhos de normatização e
disciplinaridade que animam inteiramente nossas práticas diárias e comuns, mas em contraste com a disciplina,
esse controle estende bem para fora os locais estruturados de instituições sociais mediante redes flexíveis e
flutuantes” (HARDT & NEGRI 2005, p. 42-43).
criminalizado em nome da “humanidade” – visando a suspensão da ordem jurídica para
estabelecer uma medida excepcional em casos extremos, sendo aplicado na Alemanha como
política de governo um pouco antes da eclosão da primeira guerra mundial.
No decorrer dos séculos XIX e XX, o uso do estado de sítio como operação jurídica
foi se desenvolvendo em diversas “democracias Ocidentais” e seus governos constitucionais,
por exemplo, na Alemanha, Itália, Reino Unido e no EUA. Para esses governos o estado de
sítio era utilizado como um dispositivo na lei para a contenção das várias situações de caos,
desordem ou emergência política e econômica.
Agamben analisa as permanências do dispositivo do estado de exceção nos regimes
democráticos o qual veio a se transformar em uma técnica de governo na perda de seu caráter
provisório em apelo à segurança, em defesa da paz e da sociedade, e no combate à violência,
que leva o poder soberano a agir fora dos mecanismos jurídicos e suspender o direito, a norma
e a lei. Segundo ele, o estado de exceção em seu funcionamento deixa de ser um dispositivo
de excepcionalidade para se tornar um paradigma de governo, funcionando como regra geral
sob a justificativa de instauração da ordem soberana. Contudo, o que era pra ser uma medida
emergencial funciona como “uma técnica de governo [que] ameaça transformar radicalmente
– e, de fato, já transformou de modo muito perceptível – a estrutura e o sentido da distinção
tradicional entre os diversos tipos de Constituição” (AGAMBEN, 2004a, p. 13).
O trabalho de Agamben procurou elaborar um percurso histórico-filosófico para
entender a problemática do estado de exceção a partir da confluência entre os estudos de
Thomas Hobbes, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Hannah Arendt, Michel Foucault, Slavoj
Zizek, Carlo Ginzburg e entre outros. Convém destacar o pensamento de alguns autores que
foram as principais referências de Agamben, entre elas se encontram as obras de Foucault,
Arendt e Benjamin. Agamben se propôs a continuar o legado deixado por Foucault e Arendt
para possibilitar sua analítica sobre as questões da assunção da vida pelo poder que a expôs
numa categoria de “vida nua”. Portanto, falar da obra dele é falar indiretamente sobre os
trabalhos desses dois filósofos, fazendo de sua obra o canal de conversação entre eles.
Durante os cursos no Collège de France em 1977-78, Foucault apresenta a idéia de
Biopoder para propor um estudo sobre o surgimento de uma nova tecnologia de poder no
século XVII que relacionava os problemas entre “segurança, território, População” (2008), ou
seja, seria uma racionalidade governamental que desloca os mecanismos e técnicas utilizadas
pelo poder soberano para o princípio de autolimitação da governamentalidade20 liberal e

20
A respeito das questões da governamentalidade, surgimento de uma nova racionalidade governamental,
governo dos homens, organização do pastorado e as principais características da razão de Estado em meados dos
séculos XVII e XVIII, procure estudar o curso proferido no Collège de France nos anos de 1977-1978 por
Michel Foucault, “Segurança, Território, População” recentemente traduzido para o português.
neoliberal contemporânea, uma razão governamental para se “governar o menos possível para
se governar melhor”. No ano seguinte, Foucault se dedicou a dar continuidade ao curso
denominado como “nascimento da biopolítica” (2008), procurando entender como a vida e a
população se tornaram problemas específicos para essa racionalidade política, assim,
propondo “estudar o liberalismo como moldura geral da biopolítica”.
No curso de 1977, Foucault analisou a gênese de um saber político a partir da noção
de “governo”, procurando estudar os procedimentos e meios utilizados que asseguraram numa
determinada sociedade o “governo dos homens”. Em seguida, o filósofo francês nos mostra
como a noção de população foi se colocando como uma questão central aos mecanismos de
regulação da “razão de Estado”21. Não se tratava da substituição de um “Estado-territorial”
para um “Estado-população”, mas sim uma nova “arte de governar” cuja racionalidade produz
novas técnicas ao exercício do poder soberano. Foucault envereda suas análises sobre os
procedimentos de governo a partir das sociedades gregas, perpassando o tema do poder
pastoral no Oriente, sobretudo na sociedade hebraica, a introdução desse tipo de poder no
Ocidente pelo cristianismo, até chegar à crise geral do pastorado com a emergência de novas
maneiras de “governar”. A partir disso, se dedica totalmente ao estudo sobre a biopolítica para
constituir apenas sua introdução, procurando compreender o tema da população no quadro da
racionalidade política do “liberalismo”.
Com o conceito de biopolítica, Foucault se refere a uma tecnologia política das forças
estatais que desde o século XVIII tratou de gerir a população como uma estratégia geral de
poder e racionalizar os problemas próprios aos fenômenos populacionais como um conjunto
de seres vivos em coexistência; de se ocupar das características biológicas dentro de uma
estratégia política e uma questão econômica e constituir a população como “espécie-humana”:
por isso foi preciso nas sociedades ocidentais modernas o biopoder produzir um conjunto de
mecanismos que se ocupava da gestão de políticas de saúde, diminuição da mortalidade
infantil, seguro-velhice, contenção da morte jovem, prevenção de epidemias, diminuição de
taxas de endemias, intervenção nas condições de vida para normalizar a alimentação, o
habitat, a organização das cidades, asseguração de equipamentos médicos suficientes,
problemas de higiene, natalidade e das “raças”. Foucault encontra no termo alemão de

21
“A ‘razão de Estado’ não é o imperativo em nome do qual pode-se ou deve-se infringir todas as outras regras;
é a nova matriz de racionalidade segundo a qual o Príncipe deve exercer sua soberania governando os homens.
Está-se longe da virtude do soberano de justiça, longe também dessa virtude que é a do herói de Maquiavel. (...)
Assim a razão de Estado, fora das teorias que a formularam e justificaram, toma forma em dois grandes
conjuntos de saber e de tecnologia políticas: uma tecnologia diplomático-militar que consiste em assegurar e
desenvolver as forças de um Estado por um sistema de alianças e pela organização de um aparelho armado; (...)
A outra é constituída pela ‘polícia”, no sentido que então se dava a esse termo: o conjunto dos meios necessários
para fazer crescer, no interior, as forças do Estado” (FOUCAULT, 1997, p. 83).
Polizeiwissenschaft para se referir ao fenômeno que estava interessado, este termo designa
uma teoria e a análise de:

(...) tudo aquilo que tende a afirmar e a aumentar a potência do


Estado, a fazer bom emprego de suas forças, procurar a felicidade dos
seus súditos e, principalmente, a manutenção da ordem e da disciplina,
os regulamentos que tendem a lhes tornar a vida mais cômoda e a lhes
dar aquilo que necessitam para a subsistência (FOUCAULT, 1997, p.
90).

A biopolítica seria assim, o poder que “se situa e exerce ao nível da vida, da espécie,
da raça e dos fenômenos maciços de população” (FOUCAULT, 1988, p. 129) e não mais uma
questão simplesmente jurídica da soberania, mas uma questão biológica se refletindo no
político, de corpo como máquina de adestramento, de disciplina e de anátomo-política para os
controles reguladores no corpo-espécie, de nascimento, de mortalidade, do nível de saúde
individual e coletiva, das campanhas e planejamentos de práticas sanitaristas, da longevidade,
da habitação, migração, medição estatística e demográfica e de investimento ao ser vivo no
conjunto biológico populacional: administração dos corpos pela gestão calculista da vida,
mais do que da ameaça da morte. Para Foucault, é a partir desta nova governamentalidade22,
que emerge no decorrer do século XVIII, que a estratégia biopolítica se desloca para além da
soberania, dando passagem ao capitalismo de investir sobre o corpo enquanto força de
produção e força de trabalho e sobre a vida da própria sociedade, ajustando os fenômenos da
população aos processos econômicos:

O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera


simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no
corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que,
antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma
realidade biopolítica. A medicina é uma estratégia biopolítica
(FOUCAULT, 1979, p. 47).

22
Governamentalidade para Foucault seria “a maneira como a conduta de um conjunto de indivíduos esteve
implicada, de modo cada vez mais marcado, no exercício do poder soberano”. Estudá-la seria uma questão de
abordar o problema do Estado e da população; sair da problemática “institucional-centrismo” para substituí-la a
uma visão global da tecnologia de poder; passar para o ponto de vista externo das estratégias e táticas, e não
apenas o ponto de vista interno das funções; passagem para o exterior da relação ao objeto dado no sentido de
recusá-lo como algo natural e pronto na história. Essa palavra para Foucault é entendida como “o conjunto
constituído pelas instituições, os procedimentos, análises e reflexões, os cálculos e as táticas que permitem
exercer essa forma bem específica, embora muito complexa, de poder que tem por alvo principal a população,
por principal forma de saber a economia política e por instrumento técnico essencial os dispositivos de
segurança” (FOUCAULT, 1997, p. 82; 2008, p. 143).
A modernidade foi o momento pela qual a perspectiva biopolítica toma como objeto
de poder a vida humana no centro de suas estratégias, de suas técnicas de controle, de
esquadrinhamentos, de docilização dos corpos pelo disciplinamento se capilarizando para o
controle normalizador dos múltiplos corpos e não apenas individualizados. Neste contexto
biopolítico, vale ressaltar que a medicina social nasce como um investimento complementar
do próprio capitalismo sobre a vida dos indivíduos e sobre os cálculos estratégicos de
regulamentação populacional gerenciados pelo poder estatal. Nas palavras de Foucault, “a
medicina moderna é uma medicina social que tem por Background uma certa tecnologia do
corpo social”, seja ela consolidada como medicina do estado, na Alemanha, ou como
medicina urbana, na França, e a medicina da força de trabalho na Inglaterra.
Assim, na biopolítica a vida passa a ser administrada, gerida e distribuída sob a regra
do Estado que em nome do “futuro da espécie”, do “bem comum”, da “saúde das populações”
e da “vitalidade do corpo social”, investe sua regulamentação em “cuidado” à saúde e higiene
das pessoas. Foucault demonstra o modo como as estratégias de poder da disciplinarização do
corpo individual, que surgiu nos fins do século XVII, se deslocam para o “cuidado” de um
novo corpo, não individualizado e com uma escala de normalização geral: será a noção de
população na qual a biopolítica irá trabalhar. Em suas palavras, Foucault denomina a noção de
população como um corpo “múltiplo, com inúmeras cabeças”. Na mesma direção, a
biopolítica não apenas disciplina corpos individuais, como também controla a população
segundo padrões de normalização investidos sobre a vida para forjar comportamentos
convenientes e fabricar corpos ajustados à processos desejados.
As práticas de poder de normalização e suas técnicas de esquadrinhamento estipulam a
seleção daqueles que em prol da vida de uns, outros terão que morrer; são os padrões
normalizadores do biopoder que em nome dos que devem viver determina-se quem deve
morrer: “a morte do outro, a morte da raça ruim, da raça inferior (ou do degenerado, ou do
anormal), é o que vai deixar a vida em geral mais sadia; mais sadia e mais pura”
(FOUCAULT, 2002, p. 305).
Nesta perspectiva, a reflexão foucaultiana sobre a analítica do poder nos indica um
deslocamento das práticas repressivas e negativas de poder para suas estratégias produtivas. O
aspecto positivo de poder é entendido como prática social que produz saberes, estimula e
multiplica discursos e práticas, orienta instituições, instiga pensamentos e prazeres, produz
subjetividades. Foi a partir dessa concepção produtiva de poder que Foucault cunhou o
conceito de biopoder, cujo exercício abrange a gestão da vida em si (o bios) como objeto de
poder. A sociedade disciplinar23 exerce o poder através da vigilância, da prevenção e do
tratamento de comportamentos desviantes, pervertidos ou potencialmente perigosos ao nível
das relações individuais, sobre o corpo do indivíduo. Enquanto que o biopoder numa relação
global produz em conjunto com as tecnologias disciplinares, a complementaridade das
tecnologias de regulação da população e maximização da vida do corpo social.
Para Michael Hardt e Antonio Negri (2005), o “nascimento da biopolítica” marca o
momento histórico onde:

Na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle,


um novo paradigma de poder é realizado, o qual é definido pelas
tecnologias que reconhecem a sociedade como o reino do poder (...)
quando o poder se torna inteiramente biopolítica, todo o corpo social é
abarcado pela máquina do poder e desenvolvido em suas virtualidades
(...) o poder é dessa forma expresso como um controle que se estende
pelas profundezas da consciência e dos corpos da população – e ao
mesmo tempo através da totalidade das relações sociais (HARDT &
NEGRI, 2005, p. 43-44).

No regime de soberania, a preocupação se detinha nas questões de poder dependentes


do corpo político. O poder estava ligado ao corpo do rei, a sua presença física era necessária
para o funcionamento do próprio sistema político. Ao retomar a teoria clássica da soberania,
Foucault analisa que o exercício do poder soberano decretava a morte de seus súditos ao
mesmo tempo em que exercia o poder sobre a vida. Ou seja, o soberano só exerce o direito
sobre a vida exercendo seu direito de matar, seria um poder simbolizado pela força do gládio,
um poder de decisão e direito político de fazer morrer e deixar viver. Entre soberano e
súditos, o suplício e outros rituais de punição era aplicado como um direito de réplica, quando
a integridade do corpo do monarca era ameaçada por inimigos externos que viriam a tentar
derrubá-lo ou pelas infringências internas que iam contra os interesses da monarquia,
exercendo um poder direto e indireto sobre a vida, seja pela sua exposição à defesa do Estado
ou pelo castigo de morte.
Foi durante o século XIX que o poder soberano se transformava em um poder inverso,
o corpo político não será mais o único objetivo de proteção da soberania, vai ser preciso

23
“Sociedade disciplinar é aquela na qual o controle social é construído mediante uma rede difusa de
dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam os costumes, os hábitos e as práticas produtivas. Consegue-se
pôr para funcionar essa sociedade, e assegurar obediência a suas regras e mecanismos de inclusão e/ ou exclusão,
por meio de instituições disciplinares (a prisão, a fábrica, o asilo, o hospital, a universidade, a escola e assim por
diante) que estruturam o terreno social e fornecem explicações lógicas adequadas para a ‘razão’ da disciplina. O
poder disciplinar manifesta-se, com efeito, na estruturação de parâmetros e limites do pensamento e da prática,
sancionando e prescrevendo comportamentos normais e/ ou desviados” (HARDT & NEGRI, 2005, p. 42-43).
proteger o corpo social, muito mais do que uma questão política, mas uma questão biológica e
de cuidado da saúde da população:

Serão aplicadas receitas, terapêuticas como a eliminação dos doentes,


o controle dos contagiosos, a exclusão dos delinqüentes. A eliminação
pelo suplício é, assim, substituída por métodos de assepsia: a
criminologia, a eugenia, a exclusão dos ‘degenerados’ (FOUCAULT,
1988, p. 82).

Portanto, não cabe mais ao poder funcionar apenas como um “mecanismo de retirada,
de subtração, de extorsão, seja de riqueza, de tempo, de corpos, de vida”, assim como era
exercido no regime de soberania. O biopoder irá tratar de “gerir a vida, mais do que exigir a
morte. E quando exige a morte, é em nome da defesa da vida que ele se encarregou de
administrar” (PELBÁRT, 2003, p. 56). O poder de vida e morte da soberania sofre uma
inversão: o que era um direito político de fazer morrer e deixar viver, com a assunção da vida
no centro das decisões política, o poder passa a ser biopolítica, surge a estratégia inversa do
poder soberano de fazer viver e deixar morrer. Assim, o fazer viver e deixar morrer na
estratégia do biopoder consiste em permitir matar em nome da vida:

O poder disciplinar, que já em fins do século XVII centrava-se no


corpo individual (organizando, esquadrinhando, vigiando),
possibilitou à biopolítica implantar-se em uma outra escala. Tomando
a vida como elemento político por excelência, a biopolítica perpassou
o antigo poder soberano. Com os investimentos de poder centrados no
homem-espécie, a vida passou a ser administrada e regrada pelo
Estado. Em nome da proteção das condições de vida da população,
preserva-se a vida de uns, enquanto autoriza-se a morte de outros
tantos. Se o poder soberano já expunha a vida humana individual à
morte, ainda que de maneira limitada, o biopoder expõe a vida de
populações e grupos inteiros (FOUCAULT, Op. cit., loc. cit.).

Em sua genealogia do poder, Foucault analisa como a guerra havia sido retomada na
forma de racismo de Estado e que somente foi possível a partir do biopoder como a
manutenção da morte possível e desejada no interior de uma política da vida, pela tomada de
poder sobre o homem enquanto ser vivo em conjunto com a “espécie”. Neste sentido,
Foucault nos mostra que no século XIX, com o “nascimento da biopolítica”, o racismo não
poderia ser considerado apenas como um fruto do ódio entre as “raças”, mas como uma
doutrina estatal, um mecanismo seletivo e genocida dos Estados modernos o qual justificavam
sua atuação violenta através do direito de eliminação da vida no “limiar da modernidade
biológica” e do ingresso da “espécie-humana” no jogo das estratégias políticas.
No decorrer do século XIX, podemos perceber a construção dos vínculos entre
biopoder, racismo biológico, evolucionismo darwinista e direito de aniquilação do outro.
Tratava-se de um racismo que foi utilizado como técnica de governo, permitindo os Estados
modernos exercerem – tanto em sua política externa quanto interna – o poder genocida da
colonização, a destruição não só do adversário político como também da “raça” adversa,
forjando os discursos de regeneração e purificação da própria “raça”. Na mesma direção,
Foucault questiona:

Então, nessa tecnologia de poder que tem como objeto e como


objetivo a vida (e que me parece um dos traços fundamentais da
tecnologia de poder desde o século XIX), como vai se exercer o
direito de matar e a função do assassínio, se é verdade que o poder de
soberania recua cada vez mais e que, ao contrário, avança cada vez
mais o biopoder disciplinar ou regulamentador? Como um poder
como este pode matar, se é verdade que se trata essencialmente de
aumentar a vida, de prolongar sua duração, de multiplicar suas
possibilidades, de desviar seus acidentes, ou então de compensar suas
deficiências? Como, nessas condições, é possível, para um poder
político, matar, reclamar a morte, pedir a morte, mandar matar, dar a
ordem de matar, expor à morte não só seus inimigos mas mesmo seus
próprios cidadãos? Como esse poder que tem essencialmente o
objetivo de fazer viver pode deixar morrer? Como exercer o poder da
morte, como exercer a função da morte, num sistema político centrado
no biopoder? (FOUCAULT, 1999, pp. 303-304).

De acordo com Foucault, o biopoder irá exercer a função assassínia e o poder de morte
através do racismo inserido nos mecanismos fundamentais de poder do Estado. Foi a partir do
biopoder que o racismo se insere no funcionamento moderno do Estado. A primeira função do
racismo no exercício do biopoder procura estabelecer um corte entre o que deve viver e o que
deve morrer no contínuo biológico da “espécie humana”. Trata-se de distinguir, qualificar,
hierarquizar por “raças” os superiores/inferiores no interior da população enquanto campo
biológico que permite fragmentá-la para melhor subdividir em “espécie” e fazer cesuras nos
grupos em relação aos outros. A segunda função do racismo irá atuar como uma relação de
tipo biológica semelhante a uma relação guerreira e militar de enfrentamento. Nessa relação o
racismo se torna um dispositivo da sociedade de normalização, onde tirar a vida de alguém se
mostra aceitável no sistema de biopoder. A admissão do imperativo de morte, o poder de tirar
a vida dos outros e a eliminação do inimigo, não incidem apenas na vitória ou em mandar
matar os adversários políticos, mas sim eliminar a “raça” que implica num perigo biológico
externo e interno para a população em direção ao próprio fortalecimento. É pelo racismo que
o biopoder de Estado funciona sem dispensar a sua função assassínia. O poder de
normalização nesses termos passa a ser a condição do poder soberano de exercer o direito de
matar, ou melhor, de tirar a vida em meio à tecnologia normativa e asseguradora do racismo:

(...) por tirar a vida não entendo simplesmente o assassínio direto, mas
também tudo o que pode ser assassínio indireto: o fato de expor à
morte, de multiplicar para alguns o risco de morte ou, pura e
simplesmente, a morte política, a expulsão, a rejeição, etc. (ibidem, p.
306).

Em linhas gerais, no final do século XIX, o racismo de guerra se encontra numa


necessidade de ser assegurado pelos mecanismos do biopoder, quando foi preciso destruir não
só os adversários políticos, mas expor à morte milhares de cidadãos no meio da guerra e
eliminar a “raça” adversa como perigo biológico e canal para o fortalecimento e regeneração
da própria “raça” no conjunto da população. Foucault analisa que:

O racismo é ligado ao funcionamento de um Estado que é obrigado a


utilizar a raça, a eliminação das raças e a purificação da raça para
exercer seu poder soberano. A justaposição, ou melhor, o
funcionamento, através do biopoder, do velho poder soberano do
direito de morte implica o funcionamento, a introdução e a ativação do
racismo. E é aí, creio eu, que efetivamente ele se enraíza (ibidem, p.
309).

O exemplo por excelência desse Estado assassino e ao mesmo tempo racista, sem
dúvida, foi desenvolvido pela sociedade nazista que, segundo Foucault, foi a sociedade mais
disciplinar e mais previdenciária, porque o poder de vida e morte e o controle regulamentador
dos processos biológicos nessa sociedade, tinha se estendido para além dos limites de Estado,
sendo exercidos por uma série de indivíduos em seu todo no corpo social.
Assim como Foucault, Hannah Arendt (2004) alguns anos antes também acentuou a
apropriação da vida biológica pelo poder político nos regimes totalitários. Para ela, a
“glorificação da violência em si” no mundo moderno é procedente dessa assunção da vida no
centro dos interesses políticos, ou seja, da vida biológica sendo gerenciada politicamente pelo
poder de subordinação. Nas palavras de Arendt, no campo da política “a vida é o critério
supremo ao qual tudo o mais se subordina” (ARENDT, 2004, p. 324).
Segundo a filósofa alemã, com o surgimento dos Estados nazi-fascistas, os direitos
humanos deixaram de existir na prática, perdendo totalmente a legitimidade e o seu valor
universal. Desse modo, Arendt questionava se haveria algum sentido para a política enquanto
exercício da liberdade no espaço público no contexto dos Estados totalitários. Para analisar a
liberdade na esfera do político, ela destaca três atividades básicas que compõe a condição
humana: o labor, o trabalho e a ação. O labor seria a atividade ligada aos processos biológicos
e da preservação física do indivíduo e da espécie. O trabalho é a capacidade de produzir um
mundo artificial, está ligado ao próprio “fazer” da atividade do artesão e do artista. A ação
estava ligada à condição de pluralidade, ela era exercida a partir da liberdade na esfera do
domínio público como atividade política.
O labor e o trabalho eram executados na comunidade privada e familiar, espaço de
resolução das necessidades do tirano e da pólis. A oikia permitia as organizações despóticas
sobre as quais escravos e familiares conviviam no controle do patriarcado. Já a pólis era o
espaço de diálogo entre os iguais e livres, considerado como a esfera da ação política e do
“propriamente humano” na qual se reuniam os tiranos.
Arendt analisa as implicações da política dos iguais, cujo exercício da liberdade
consiste em privar a liberdade do outro. Portanto, era no domínio público que se exercia a
liberdade, como também era na esfera privada que se privava a liberdade. Para ela, o
problema maior da política moderna surge com o advento dos Estados totalitários, apontando
a crise da esfera pública nesse período e a decadência do espaço político quando se
despontavam espaços de privação total da liberdade. Nesse contexto, é o homo laborans que
entra na arena política, uma vida biológica e natural em primazia da ação política e sem
qualquer mediação e que, portanto, desprovida de qualquer direito e submetida a uma tirania
ilimitada:

Toda lei cria, antes de mais nada, um espaço no qual ela vale, e esse
espaço é o mundo em que podemos mover-nos em liberdade. O que
está fora desse espaço, está sem lei, e, falando com exatidão, sem
mundo; no sentido do convívio humano é um deserto. Está na essência
das ameaças tanto da política interna como da externa, com as quais
estamos confrontando desde o advento das formas de dominação total,
que elas fazem desaparecer a verdadeira coisa política tanto da política
interna como da externa. Se as guerras deviam tornar-se de novo
guerras de extermínio, então desde os romanos a coisa política
específica da política externa desapareceu e as relações entre os povos
caíram de novo naquele espaço sem lei e sem política, que destrói o
mundo e produz o deserto (ibidem, p. 123).

Assim, Arendt propõe para a política moderna uma forma de realizar operações
partindo da ampliação do espaço público, da ação política e da participação de todos na esfera
da liberdade. Essa seria a condição de pluralidade da ação humana que se realiza no âmbito da
vida ativa e participativa como uma garantia de exclusão da violência (ARENDT, 1993).
Dado o fato de que a pesquisa de Arendt não teve um seguimento, e Foucault ter
analisado as questões da biopolítica sem ao menos fazer alguma referência aos estudos da
filósofa alemã que o precedeu nas investigações sobre a tomada da vida pelo poder político no
centro de suas estratégias, Agamben aponta as dificuldades e resistências que teve esses
pensamentos de não conseguirem superar os problemas teóricos. Em sua obra intitulada de
The human condition, Arendt não faz referência aos seus estudos anteriores sobre o regime
político estabelecido pelo totalitarismo, sem atentar para as questões que envolvem a
perspectiva da ordem biopolítica da sociedade. E Foucault, curiosamente não desloca sua
investigação para as áreas por excelência da biopolítica moderna, manifestada nos campos de
concentração e na estrutura dos estados totalitários do Novecentos. No entanto, deve-se
considerar que a morte impediu Foucault de dar continuidade aos seus trabalhos dedicados a
estudar o controle biopolítico nas sociedades modernas, sendo recentemente retomado por
Agamben em seus estudos sobre o estado de exceção como paradigma de governo na
contemporaneidade. Para ele, os fenômenos político-jurídicos contemporâneos (por exemplo,
a ascensão do nazismo) estão estritamente ligados à relação entre poder soberano, estado de
exceção, vida nua e ordenamento biopolitico da sociedade24.
Em 1921 foi publicado pela primeira vez uma análise sobre a teoria do estado de
exceção elaborada por Carl Schmitt, sendo retomada com vigor após as ruínas das
democracias européias entre os anos de 1934 e 1948. Agamben faz referência às obras de
Schmitt, em particular os livros Dier Diktatur, de 1921 e o Politiche Theologie, de 1922, onde
“o estado de exceção é apresentado na figura da ditadura” (AGAMBEN, 2004, p. 53). De
acordo com Schmitt, as ditaduras e o estado de sítio podiam estabelecer a suspensão da
vigência do direito.
Segundo Schmitt (1992), o soberano era aquele que podia decidir sobre o estado de
exceção, tendo o monopólio de tomar a decisão de suspender a ordem legal se fosse
necessário25. A partir da suspensão do ordenamento jurídico, a soberania poderia decretar a

24
“Poder-se-ia dizer que o obstáculo que tradicionalmente é oposto à soberania pela necessidade de
consentimento, submissão e obediência, torna-se um adversário ativo e inelutável. Uma abordagem inicial da
questão pode ser colocada em termos daquilo que chamamos de biopoder, ou seja, a tendência da soberania para
tornar-se poder sobre a própria vida. Um novo aspecto da atual ordem global é que, bem de acordo com os
processos da globalização, ela tende a confundir as fronteiras entre as formas políticas, econômicas, sociais e
culturais do poder e a produção. Por um lado, o poder político já não se orienta simplesmente para a legislação
de normas e a preservação da ordem nas questões públicas, devendo promover a produção de relações sociais em
todos os aspectos da vida. (...) a guerra deixou de ser um instrumento da política usada como último recurso,
para tornar-se o próprio alicerce da política, a base da disciplina e do controle. (...) O poder soberano não deve
apenas dominar a morte, mas também produzir vida social” (HARDT & NEGRI, 2005, p. 418).
25
“Carl Schmitt é o filosofo moderno que mais claramente colocou o caráter central da soberania para a política,
renovando as primeiras teorias européias modernas da soberania absoluta, articuladas por autores como Hobbes e
Jean Bodin. É particularmente interessante, com efeito, a maneira como Schmitt consegue associar as diferentes
teorias medievais e feudais de soberania do antigo regime às modernas teorias da ditadura: das velhas noções do
carisma divino do monarca às teorias jacobinas da autonomia do político, das teorias das ditaduras burocráticas
às das tiranias populistas e fundamentalistas. Schmitt insiste em que, em todos os casos, a soberania mantém-se
acima da sociedade, transcende, e portanto a política baseia-se sempre na teologia: o poder é sagrado. Em outras
guerra contra seus inimigos, fundado pelo princípio do Juss Belli. Todavia, o nascimento da
ordem soberana não foi possível a partir de um contrato, mas sim da própria exceção, do
poder de decretar a suspensão da ordem jurídica sempre que quiser ou quando a paz,
entendida como homogeneidade nacional, estiver sendo ameaçada. Após a Revolução
Francesa, esse poder de decisão deixou de existir com o ocaso da soberania. No lugar da
decisão soberana surge o conceito de “guerra humanitária”, cujas justificativas de guerra não
residiam na inimizade entre os Estado, passaram a ser declaradas em prol do “bem da
humanidade”. Conforme a concepção Schmittiana, esse processo resultou na criminalização
do inimigo, ou seja, que não é mais um “inimigo do Estado”, mas da própria humanidade.
Ainda segundo o autor, esse conceito de humanidade não pode fazer a guerra pois ela não tem
um inimigo, mas essa mesma humanidade pode tirar do inimigo seu status de homem e,
assim, engendrar a guerra em extremos. Para inimigos da humanidade o ordenamento jurídico
comporta a exceção, a anomia.
De acordo com Agamben, a concepção de Schmitt sobre o estado de exceção estava
encerrada na conjuntura de “emergência” vivida na República de Weimar e comprometida
com as ideologias que serviram de justificativas para a ascensão do nazismo, no entanto,
insuficientes para suas propostas analíticas sobre a centralidade da vida biológica e natural
nos cálculos do poder soberano, da vida nua incluída no ordenamento constituinte sob a forma
de sua absoluta suspensão e abandono pelo direito, a vida no interior do campo jurídico, o
controle biopolítico26 das sociedades através do estado de exceção:

O estado de exceção é um espaço anômico onde o que está em jogo é


uma força de lei sem lei (que deveria, portanto, ser escrita: força de
lei), tal força de lei, em que potência e ato estão separados de modo
radical, é certamente algo como elemento místico, ou melhor, uma
fictio por meio da qual o direito busca se atribuir sua própria anomia.
Como se pode pensar tal elemento ‘místico’ e de que modo ele age no
estado de exceção é o problema que se deve tentar esclarecer (ibidem,
p. 61).

palavras, o soberano é definido positivamente como aquele acima do qual não existe poder e que portanto é livre
para decidir, e, negativamente, como é potencialmente eximido de todas as normas e regras sociais. O conceito
teológico-político de “Estado total” enunciado por Schmitt, que coloca a soberania acima de toda a forma de
poder, como única possível fonte de legitimação, desenvolve a concepção moderna de soberania em direção a
uma forma coerente com a ideologia fascista.” (HARDT & NEGRI 2005: 414)
26
“Pode-se dizer, aliás, que a produção de um corpo biopolítico seja a contribuição original do poder soberano.
A biopolítica é, nesse sentido, pelo menos tão antiga quanto a exceção soberana. Colocando a vida biológica no
centro de seus cálculos, o Estado moderno não faz mais, portanto, do que reconduzir à luz o vínculo secreto que
une o poder à vida nua...” (AGAMBEN, 2004, p. 14).
Em 1942, Walter Benjamin (1992) retoma e contrapõe algumas idéias de Schmitt,
afirmando que o estado de exceção, ao invés de constituir como uma medida excepcional,
tinha se tornado a regra, ou melhor, uma técnica de governo constitutiva da própria ordem
jurídica. Encontramos essa afirmação de Benjamin em suas “teses sobre a história”, mais
precisamente no texto da tese VIII, apresentada na epígrafe deste capítulo. Sob a ameaça de
ser preso pelos fascistas, Benjamin se suicidou em 1942:

(...) que análise faria ele, então, se tivesse sobrevivido à segunda


guerra quando tantas vozes se ergueram chocadas com o genocídio
perpetrado pelos nazistas, sem, talvez, compreender a dimensão da
catástrofe que não foi apenas localizada, mas que já se esboçava há
mais tempo por um estado de exceção tornado regra? (ROSA, 2007, p.
7)

Segundo Hardt & Negri (2005), “quando o estado de exceção torna-se a regra o tempo
de guerra é interminável, a tradicional distinção entre guerra e política fica cada vez mais
obscura” (HARDT & NEGRI, 2005, p. 33). Assim, o fato e a norma se tornam indistinguíveis
e indiscerníveis.
As ações do governo norte-americano no cenário pós-11 de setembro assinalam a
vigência do estado de exceção na política contemporânea, que em nome da democracia, as
medidas excepcionais são propugnadas como “soluções imediatas”, seja ela nas áreas
internacionais, constitucionais, penais e sociais. Os permanentes mecanismos de suspensão da
ordem jurídica estabelecido pelo estado de exceção funcionam no interior de um Estado
Democrático e de direito, aproximando-o cada vez mais às características dos estados
autoritários. As questões da segurança não se restringe ao Brasil, que o imperativo do medo se
impôs nas marcas da reclusão como a palavra de ordem da prevenção ao crime, a violência e a
insegurança social; dos carros blindados aos enclaves fortificados construídos numa cidade
que se protege no levantamento de muros, produzindo no espaço urbano e nas relações
públicas um padrão de segregação e desigualdade social reforçadas pelas escolhas de
segurança e justiça privada, compreendidas a partir dos descrédito aos aparelhos institucionais
da “ordem” judiciária e policial e o surgimento de matadores de aluguel denominados como
“justiceiros”. O paradigma da segurança se coloca como tópico principal na agenda política
dos Estados, que pretendem aumentar o “direito à segurança” (obsessão de partidos políticos
tanto de direita quanto de esquerda) relegada à dimensão criminal, diminuindo investimentos
no campo econômico e social. Tal discurso ou ideologia de mercado são convertidos a uma
gestão do medo, da insegurança e da indeterminação pela qual será necessário impor novas
medidas de segurança, mesmo que para isso seja preciso contrariar os direitos fundamentais
dos cidadãos.
No governo norte-americano, a política de ataques preventivos foi transformada em
doutrina de Estado, a guerra passa a ser estabelecida em nome da democracia e dos direitos
humanos. No processo de globalização, a política de “tolerância zero” instituída pelo prefeito
Giuliani, de Nova York, aumentou vertiginosamente a população carcerária na qual se
expandiu em escala internacional. Esses fatores implicaram no surgimento de um Estado
penal (WACQUANT, 2001), cuja relação com o desenvolvimento do neoliberalismo e a
doutrina do “laissez-faire” produz a diminuição e o enfraquecimento dos gastos e proteção
social, a manutenção das desigualdades, precariedade e pobreza massiva para operar e
enrijecer mecanismos punitivos como o principal meio de lidar com os problemas sociais, no
qual as categorias populares são os alvos privilegiados do “tratamento penalizado”. O medo
nesse processo passa a ser administrado para se manter a ordem estabelecida e estigmatizar os
grupos sociais concentrados em espaços desatendidos, reiterando o estereótipo das “classes
perigosas”. Poderíamos até afirmar que, o medo é constantemente forjado como o “fantasma
do caos” pela razão de Estado para justificar a repressão policial e militar, a criminalização da
pobreza e o controle social da população urbana.
Agamben utiliza o conceito de estado de exceção para definir um regime político
(democrático) marcado por uma zona de indistinção entre vida política e direito, fato e norma,
ordenamento jurídico e vida abandonada pelo poder soberano, portanto, indigna de ser vivida,
sem valor político algum. A guerra contra o Afeganistão ou a chamada “guerra contra o
terror” defendida como prioridade pelo Secretário de Defesa dos EUA, Ronald Rumsfeld, que
pretendia garantir os direitos humanos das vidas americanas e não de terroristas, é um
exemplo desse Estado em que prepondera uma ordem biopolítica calcada na noção de vida
nua e matável sem que se cometa um crime.
Contudo, a coexistência entre o Estado Democrático e de direito e o estado de exceção
do direito, produz um estado político de indeterminação, onde não se sabe quando funciona a
violência e quando funciona o direito, a zona de indistinção entre transgressão da lei ou a sua
execução por meio da morte. A vida como objeto do poder soberano e seu critério de decidir
se ela é útil ou não, se faz notar, por exemplo, na exortação de um jornalista brasileiro numa
entrevista à revista “época”, Paulo Francis, quando ele alega que as mortes na candelária em
1993 não foi uma chacina, mas uma “limpeza”. Os valores constitutivos da modernidade, a
universalidade dos direitos humanos e da liberdade e o direito mais fundamental entre eles
que seria o “direito à vida”, estão sendo eminentemente abandonados pelos “valores
insacrificáveis” da própria democracia, pelo ordenamento jurídico e pelo Estado. É só
verificarmos a ocorrência da morte de um brasileiro pela polícia britânica por achar que ele
era um “terrorista”, justificando seu ato através da legitimidade de segurança nacional. O
dispositivo de exceção inclui os procedimentos para a desnacionalização do cidadão que
produz um indivíduo juridicamente inominável e inclassificável por meio da destruição total
de seu estatuto jurídico. Esse dispositivo de lei foi criado pelos EUA após o 11 de setembro
pelo ato do Patriot Act I e ao Patriot Act II.
De acordo com Agamben, o homem livre não compõe a base da democracia moderna,
não é ele “com suas prerrogativas e os seus estatutos, e nem ao menos simplesmente o homo,
mas o corpus é o novo sujeito da política” (AGAMBEN, Op. cit., pp. 129-130). O que
constitui o novo corpo político e social moderno é a ascensão, a reivindicação e a exposição
da vida nua enquanto “corpos matáveis” na formação do corpo político do Ocidente. A partir
daí poderemos entender como, no século XX:

As democracias parlamentares puderam virar Estados totalitários, e os


Estados totalitários converter-se quase sem solução de continuidade
em democracias parlamentares. Em ambos os casos, estas reviravoltas
produziam-se num contexto em que a política já havia se
transformado, fazia tempo, em biopolítica, e no qual a aposta em jogo
consistia então apenas em determinar qual forma de organização se
revelaria mais eficaz para assegurar o cuidado, o controle e o usufruto
da vida nua (ibidem, p. 131).

A expressão “vida nua” é encontrada nos escritos de Benjamin, que estuda a vida nua
como portadora do nexo entre violência e direito. Na interpretação de Agamben, a vida nua é
o vivente que foi abandonado totalmente pelo direito ao mesmo tempo em que é incluído no
ordenamento jurídica como a vida que pode ser banida. Ele compõe a lógica ambivalente da
inclusão-exclusão, na relação entre o político e o jurídico e entre o direito e o vivente. A vida
nua é a vida que pode ser exterminada sem que se cometa um crime, homicídio ou sacrifício.
Em termos biopolíticos, seria a vida que se pode deixar morrer, na forma de “vida matável”,
“sobra humana” e insacrificável.
Em sua análise sobre a vida nua, Agamben recorre à figura jurídica existente no antigo
direito romano, para então investigar a sua forma contemporânea: o homo sacer enquanto
vida que se tornou indigna de ser vivida tanto em relação aos vivos quanto na esfera divina,
portanto, posto para fora da jurisdição humana e privado dos direitos mais básicos de
humanidade, podendo ser assassinado e excluído sem que os rituais sagrados ou a violência
possa retirá-lo dessa condição, ao ponto de quem o matar não será condenado por homicídio.
O homo sacer é destituído da proteção jurídica, “a-bandonado” pelo soberano, despojado de
todo direito e isento de humanidade e sacralidade na medida em que o seu direito humano é
inexistente ou violável legitimamente pelo vazio jurídico.
Ao retomar a idéia de soberania, Agamben afirma que a vida no “bando soberano” se
torna uma vida nua ou vida sacra. No “bando soberano” a vida é sujeitada e exposta a um
poder de morte. A sacralidade da vida se torna matável e “insacrificável”:

O que temos hoje diante dos olhos, é, de fato, uma vida exposta como
tal a uma violência sem precedentes, mas precisamente nas formas
mais profanas e banais (...) se é verdadeiro que a figura que o nosso
tempo nos propõe é aquela de uma vida insacrificável, que, todavia,
tornou-se matável em uma proporção inaudita, então a vida nua do
homo sacer nos diz respeito de modo particular. A sacralidade é uma
linha de fuga ainda presente na política contemporânea, que, como tal
desloca-se em direção a zonas cada vez mais vastas e obscuras, até
coincidir com a própria vida dos cidadãos. Se hoje não existe mais
figura predeterminável do homem sacro, é, talvez, porque somos
todos, virtualmente, homines sacri (AGAMBEN, 2002, p. 121).

A título de exemplificação, vale destacar alguns poucos casos em meio à


multiplicidade de tantos outros, para apresentar essa estrutura de exceção contemporânea que
se transformou no paradigma biopolítico dos governos atuais: a condição dos prisioneiros da
baía de Guantánamo, os territórios sob ocupação militar, as zonas de espera dos aeroportos
internacionais onde são detidos os estrangeiros; as instituições carcerárias, os manicômios
judiciários, a eutanásia nos hospitais, as estratégias políticas e econômicas de contenção dos
excessos e da contingência, a redução dos custos e dos recursos socioeconômicos, a filtragem
e o controle estatístico das massas; a condição dos guetos afro-americanos, os sans-papiens na
França, os moradores das favelas no Brasil, a convocação do Exército para combater os
“traficantes” de drogas invadindo os espaços que para o biopoder são tidos como
“aglomerados urbanos” ao declarar a política de combate e “guerra às drogas” no Rio de
Janeiro; os acontecimentos pós-11 de setembro, a “guerra ao terrorismo”, o jovem brasileiro
morto pela polícia britânica como uma ação legítima de segurança nacional; as práticas de
grupos de extermínio em São Paulo, as violentas incursões policiais nos bairros pobres da
cidade, os serviços de “justiceiros” promovidos pelo processo de privatização da segurança; o
massacre do Carandiru logo após o impeachment do presidente Collor, a chacina na
candelária e no vigário geral, os discursos que afirmam serem os direitos humanos
“privilégios de bandidos”, a vertiginosa difusão da doutrina do “direito penal do inimigo”
formulada por Günter Jakobs (2005) e entre outros, são meramente alguns dos inúmeros
exemplos de como a vida se torna descartável e banida absolutamente da relação com outros
viventes, se percebe o quanto a vida nua passa pela regra da exceção como uma vida matável
desprovida de qualquer direito.
O que me chama a atenção é o fato de o estado de exceção, assim como as penas
capitais, não precisarem ser constitucionalmente decretados, pois eles coexistem com o
Estado Democrático e de direito, praticados diariamente seja no ordenamento jurídico-político
que suspende a jurisdição humana, seja por policiais ou grupos de extermínio, seja na
microfísica do campo social, até chegar às reivindicações dos “cidadãos de bem” e aos
defensores da “lei e da ordem” que buscam maior legalidade, mas ao ponto de enxergarem o
próprio direito como um empecilho para a aplicação “mais dura” das punições. Mas na
sociedade de controle, as penas de morte (fazer morrer) e o fato de não serem declaradas,
constituem a própria regra de regulação da vida (fazer viver). Ao invés de condenar a morte, a
lógica do biopoder prefere mandar seus inimigos para as instituições de confinamento que não
tem somente a função de discipliná-los ou torná-los corpos dóceis e treinados para a mão-de-
obra do trabalho, agora os locais servem de depositários de corpos confinados expostos a uma
série de perigos naturais, doenças infecto-contagiosas, suicídio, homicídio entre colegas e
integrantes de facções e grupos rivais, todos estrategicamente deixados morrer quase que
naturalmente como uma questão de política homeostática e de despejo, abdicando-se dos
investimentos biopsicossociais dos presos para descartá-lo como refugo à iminência da morte,
às doenças e à retirada de circulação do convívio social. De acordo com Edson Passetti
(2003), a política do “equilíbrio seleto” e de imobilização de indesejáveis sociais nos locais de
aglomeração e confinamento tratou de reescrever a pena de morte sob a forma de um exemplo
desmensurado de prisão perpétua e dos investimentos em mais policiamento, prisões e
controle penal a céu aberto. Para Bauman, “a florescente ‘indústria da segurança’ se torna
rapidamente um dos principais ramos da produção de refugo e fator fundamental no problema
de sua remoção” (BAUMAN, 2005, p. 14).
O que seria o tal do “monopólio da violência legítima do Estado” – do qual se
incumbiram diferentes autores na tentativa de racionalizar limitações ao genocídio de Estado
– no campo da reconfiguração da soberania que propiciou uma indistinção entre exceção e
normalidade, vida, violência e direito, suspensão da jurisdição humana e execução de uma
política de morte que implica na aplicação da força de lei/sem lei, e que compõem a própria
lógica da exceção? A indeterminação não seria uma estratégia da própria democracia para se
operar o dispositivo metajurídico do estado de exceção como uma técnica de governo que
elimina fronteiras para se garantir uma política de segurança?
Parece que a democracia Ocidental não consegue e nem irá conseguir, ou melhor, não
pretende atingir o seu princípio universalizante, pois os próprios valores democráticos se
tornam “insacrificáveis” pelo estado de exceção operado por ela, uma vez que essa ausência
de sacrifício só é mencionada porque o Estado Democrático e de direito, ele mesmo incluído
no bando soberano, foi banido constantemente pelo estado de exceção do direito, e o próprio
ideal de democracia não conseguiu por ele mesmo ultrapassar para o campo divino do
teológico-político, permanecendo no fundamento místico de governo, da política, do “direito
à vida”, do direito e da justiça27 que funda a violência do direito estatal a partir de sua
dimensão mitológica ao mesmo tempo em que é a-bandonado sem sacrifício pelo estado de
exceção que lhe confere um novo sentido, não mítico e nem divino, mas justamente num
campo ou expediente em que o poder soberano poderá atuar na realidade social e política. Em
linhas gerais, se a vida nua do homo sacer ou a vida sacra seria o vivente que foi suspendido
da jurisdição humana, tornando-se indigno de ser vivido tanto no governo entre os vivos
quanto na esfera do valor divino, e que, portanto, desprovido da proteção de direitos
fundamentais da humanidade e do ritual de sacrifício, com a suspensão dos princípios
democráticos na política contemporânea operada pelo próprio Estado de direito, a democracia
se transforma em sua idealização teológica e política, o governo sacro banido em nome da
regra da exceção e do paradigma da segurança. Esse modelo teológico-político de governo é
simplesmente um forjamento simbólico e missionário da política Ocidentalista que recorre à
legitimação de sua violência, ao recurso à força armada e destruição do outro para contemplar
a “globalização da guerra” na ilusão de achar que está salvando a humanidade destruindo
parte dela. Esse mesmo modelo teológico-político que retorna em função da difusão dos
“valores democráticos do Ocidente” ao assim designado “resto do mundo” ou os países
inseridos no tal “Eixo do mal”, não é mais do que uma tática ou uma crença que ganha na
contemporaneidade sua versão neoliberal através da sustentação de uma idéia de destruição e
“genocídio sacrificial” a favor da política do neoliberalismo enquanto o “sacrifício coletivo do
terceiro mundo”. Tais fatores combinam a democracia política com o fascismo social, assim
como analisou Boaventura de Souza Santos (2003) em sua reflexão sobre o “suicídio
coletivo” vigente na máquina de guerra dos governos supostamente democráticos, em sua
“pulsão de morte” e destruição sacrificial e maciça da alteridade através de um “heroísmo de
catástrofe” decorrente dos devaneios totalitários de salvação por parte das potências
hegemônicas:

Na sua versão genocida sacrificial, o neoliberalismo é uma mistura de


radicalização do mercado, neoconservadorismo e fundamentalismo
cristão. A sua pulsão de morte tem assumido várias formas, desde a

27
“A justiça é o princípio de toda a instituição divina de fins, o poder (march) é o princípio de toda a
institucionalização mítica do direito” (BENJAMIN, 1983, p. 166).
ideia das "populações descartáveis" para referir os cidadãos do
Terceiro Mundo inaptos para serem explorados como operários e
consumidores até ao conceito de "danos colaterais" para designar a
morte de milhares de civis inocentes em consequência da guerra. (...)
Tenho caracterizado esta situação como uma combinação de
democracia política com fascismo social. Uma manifestação actual
desta combinação reside no facto de a fortíssima opinião pública
mundial contra a guerra se revelar incapaz de parar a máquina de
guerra posta em marcha por governantes supostamente democráticos.
Em todos estes momentos domina uma pulsão de morte, um heroísmo
de catástrofe, a ideia da iminência de um suicídio colectivo só
prevenível pela destruição maciça do outro. Paradoxalmente, quanto
mais ampla é a definição do outro e eficaz é a sua destruição, tanto
mais provável é o suicídio colectivo. (...) O genocídio sacrificial
decorre de uma ilusão totalitária que se manifesta na crença de que
não há alternativas à realidade presente e de que os problemas e as
dificuldades que esta enfrenta decorrem de a sua lógica de
desenvolvimento não ter sido levada até às últimas consequências. (...)
Cabe sobretudo perguntar se a nova ilusão não anunciará a
radicalização e perversão última da ilusão ocidental: destruir toda a
humanidade com a ilusão de a salvar (SOUZA SANTOS, 2003, p. 13-
14).

O paradigma da segurança ativa os dispositivos de “defesa da sociedade” contra a


ameaça do inimigo como uma necessidade de filtragem social e “guerra às drogas e ao
terrorismo”. Agamben, diz na entrevista para a Folha de São Paulo no Caderno Mais em 2003
que, “a segurança como paradigma de governo, não nasce para instaurar a ordem, mas para
governar a desordem”. A idéia de “manutenção da ordem” está ligada à noção de “desordem”,
presumidas pelas políticas de segurança não para se prevenir os eventos, mas deles tirar algum
proveito. Para levar adiante essa análise, Agamben cita uma entrevista dada por um policial
italiano acerca das investigações que foram feitas sobre o comportamento da polícia no caso
da morte de um jovem em Gênova, no encontro do G8 em 2001. Ao estranhar o motivo de
tais investigações, o policial afirma que “o governo não espera a ordem, mas que organizemos
a desordem” (AGAMBEN, 2003). Tais alegações sobre a manutenção da ordem a partir da
gerência da desordem são encontradas nos depoimentos dos policiais do BOPE (Batalhão de
Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro) – a meu ver uma corporação
fascista – o qual atestam a atribuição da polícia de gerir a desordem: “a polícia vive do que é
ilegal; quanto mais desordem houver, maior o lucro dos convencionais” (SOARES,
BATISTA e PIMENTEL, 2006, p. 117).
Conforme as análises de Heuillet (2004), a polícia no contexto da guerra urbana não
seria apenas um meio da política, como também “um elemento constitutivo da sua estrutura
que participa na definição dos seus fins e não desprovida de sentido” (HEUILLET, 2004, p.
11). Ou seja, para o autor a polícia se encontra sob a política, recobrindo o seu campo real.
Nesse sentido, o relato de um ex-policial acerca do desempenho do BOPE como a melhor
tropa de guerra urbana do mundo, demonstra o cenário cotidiano da violência nas principais
cidades brasileiras, onde a disputa pelo poder de vida e morte gravita em torno dos conflitos
entre política e polícia ou quando o policial atribui para a corporação esse status pelo seguinte
fato de que “em nenhum lugar do mundo se pode praticar todos os dias” (SOARES,
BATISTA e PIMENTEL, Op. cit., p. 26), se referindo ao Brasil em relação aos outros países.
Podemos constatar em outro relato dos policiais do BOPE, o modo como eles atuam
em incursões nos espaços favelizados: “com os marginais não tem apelação; à noite, por
exemplo, não fazemos prisioneiros; nas incursões noturnas, se toparmos com vagabundo, ele
vai pra vala” (idem, p. 26). Outro relato é do ex-capitão do BOPE, que exorta as práticas de
extermínio seletivo da seguinte maneira:

A violência a gente comete. Alguns chamam tortura (...) não me


envergonho de não me envergonhar de ter dado muita porrada em
vagabundo. Primeiro, porque só bati em vagabundo, só matei
vagabundo. Isso eu posso afirmar com toda certeza. Sinto minha alma
limpa e tenho a consciência leve, porque só executei bandido. E, para
mim, bandido é bandido, seja ele moleque ou homem feito.
Vagabundo é vagabundo (ibidem, pp. 35-36).

Fica evidente o quanto a vida humana nessa situação é exposta ao estatuto de vida nua
ou vidas descartáveis (BAUMAN, 2005) na qual se desvela o estado de exceção vivido
cotidianamente por inúmeros brasileiros, cuja regra se pauta explicitamente em fazer viver
para deixar morrer. Tal política de morte e as operações militares-policiais de “guerra ao
tráfico” são aplicadas com mais freqüência nas disposições espaciais da exceção que
conceituo como campo favelizado. As favelas se tornam o território colocado para fora do
ordenamento jurídico como o próprio espaço da exceção. Esse território, de modo algum está
inserido numa relação de exterioridade, mas se inscreve em um espaço ordenado pela norma,
capturado dentro dela por meio da exclusão inclusiva da exceção. Somente a norma pode
conceder um lugar para a exceção atuar, para que a suspensão temporal da ordem se constitua
ela mesma como uma norma, incluindo o que a partir dela é excluído pelo ordenamento
jurídico-político da exceção.
Assim, os espaços urbanos marginalizados não estão somente à margem do
ordenamento político-jurídico como se costumam acreditar, eles se transformam
estrategicamente em campo, ou seja, uma estrutura concentrada na qual o estado de exceção
pode ser executado normalmente. Quero dizer que, no campo a norma e a exceção se tornam
indiscerníveis, determinados espaços se estabelecem numa lógica de inclusão-excludente e a
lei encontra e delimita o seu locus daquilo que pode ser excluído fora do domínio do
permitido como uma condição de sua auto-suspensão, onde a vida será capturada pela norma
suspensa e a exceção poderá cometer atos de atrocidades que não é assunto e nem dependem
mais do direito. O campo favelizado compõe o paradigma oculto do espaço político
contemporâneo, o lugar da indistinção jurídica-política enquanto a própria materialização do
estado de exceção. O campo da exceção normalizada se converte em uma forma de
expediente para os agentes do poder soberano atuarem e operarem o tal “monopólio da
violência legítima de Estado” sem que haja limites jurídicos para suas ações e para as práticas
de extermínio das instituições policiais.
É possível discutir o conceito contemporâneo de cidadania a partir desse campo que
seleciona a vida de uns como desprovida de valor e a inclui na política e no estatuto jurídico
através de sua exclusão e na condição de vida matável? De acordo com Vera Malaguti:

A vida nua continua incluída na política através da sua exclusão. É um


pouco este o formato da cidadania no Brasil, no que Nilo Batista
denominou ‘cidadania negativa’. Os setores vulneráveis, ontem
escravos, hoje massa de marginais urbanas, só conhecem a cidadania
pelo seu avesso, na trincheira defensiva da opressão e dos organismos
do nosso direito penal. (...) Esse contingente de trabalhadores
informais, do subemprego, do tráfico de drogas são a vida nua dos
campos de concentração contemporâneos (VERA MALAGUTI, 2002,
p. 387-8).

No campo, o estado de exceção funciona como uma técnica normal e estável de


governo, na política democrática contemporânea passa a ser substituído por uma
generalização sem precedentes do paradigma da segurança.

2.3 Dispositivo de Segurança (Pública) e Democracia: o Tráfico de Drogas e a Exceção


Normalizada a partir da Constituição Federal de 1988

Nesse capítulo, minha proposta foi estudar, a partir das análises de Foucault e
Agamben, como o estado de exceção vem sendo aplicado através das legislações e nas
práticas executivas como um paradigma de governo dominante na política contemporânea.
Busquei ressaltar a estreita relação existente entre o poder soberano e as medidas de
emergência, analisando o quanto se tornou freqüente a utilização das medidas de exceção,
principalmente após o processo de “consolidação democrática” nas diferentes sociedades
contemporâneas, sobretudo no Brasil a partir da declaração legislativa da política antidrogas e
das disposições constitucionais à chamada investida de “guerra às drogas”, em particular na
cidade do Rio de Janeiro.
Sob as diversas alegações de “risco” eminente que supõe as constantes ameaças às
instituições do Estado, à sociedade e ao próprio regime democrático, o estado de exceção se
deslocou de sua técnica provisória e excepcional para se constituir numa estrutura normativa
utilizada pelos gabinetes governamentais para promover a manutenção e o controle da ordem
social, seja em caso de guerra internacional, seja em casos permanentes de distúrbios internos.
A tecnologia da exceção produz um campo – lugar onde a norma poderá atuar pela força de
lei a partir da suspensão do próprio direito – de indistinção entre os diversos tipos de
Constituição promulgadas em regimes antecedentes e as medidas emergenciais funcionando
na atividade dos Estados como uma norma quase que exclusiva de segurança. Dessa forma, a
normalização das medidas de exceção apresenta-se por meio da gestão que ela estabelece no
patamar da indeterminação entre democracia, autoritarismo, fascismo social e tirania política,
ao ponto de suspender indefinidamente os valores democráticos tendo como base a política e
a violência como a continuação da guerra por outros meios.
A suspensão da democracia pela continuidade histórico-política das técnicas
permanentes da exceção é a conseqüência das tarefas de um Estado que adotou como
princípio fundamental e único a segurança para reconfigurar o ordenamento social e legitimar
a sua atuação política. O que está patente no governo democrático não é apenas a justificativa
de um estado de guerra e de sítio solicitado sob a forma de defesa às agressões externas ou
prorrogado temporariamente ao nível das ameaças que repercutiram como uma questão de
segurança nacional, assim como foi decretado na Constituição de 88, no título V, capítulo I,
seção I e II dedicadas ao estado de defesa e o estado de sítio executado em tempo de guerra
armada estrangeira, mas é o argumento impreciso da “segurança pública” que toma corpo e se
torna a prática discursiva do Estado democrático contemporâneo:

Conforme uma tendência em ato em todas as democracias ocidentais,


a declaração do estado de exceção é progressivamente substituída por
uma generalização sem precedentes do paradigma da segurança como
técnica normal de governo (...) Ao longo de uma gradual neutralização
da política e a progressiva capitulação das tarefas tradicionais do
Estado, a segurança tornou-se o princípio básico da atividade do
Estado. O que costumava ser uma entre diversas medidas definidas da
administração pública até a primeira metade do século XIX agora se
tornou o único critério de legitimação política. O pensamento da
segurança traz, dentro de si, um risco essencial. Um estado que tem a
segurança como única tarefa e origem de legitimidade é um organismo
frágil; ele sempre pode ser provocado pelo terrorismo para se tornar
ele próprio terrorista. (...) Quando a política do modo como era
compreendida pelos teóricos da “ciência da polícia” do século XVIII,
se reduz à polícia, a diferença entre Estado e terrorismo corre o risco
de desaparecer. No fim, a segurança e o terrorismo podem formar um
sistema fatalmente único, no qual justificam e legitimam todas as
ações uns dos outros (...) Uma vez que exigem constante referência a
um estado de exceção, as medidas de segurança funcionam no sentido
de uma crescente despolitização da sociedade. A longo prazo, elas são
irreconciliáveis com a democracia (AGAMBEN, 2004, pp. 28-9;
2002, pp. 145-6).

A enfática administração pública à segurança tornou-se não só o mote político-


ideológico para se gerir o terror, mas uma prática governamental que torna possível numa
democracia o Estado racionalizar suas maneiras de fazer e investir no estado de exceção como
paradigma de governo e um dispositivo de controle social calculado pela razão de Estado para
a contenção de recorrentes problemas domésticos. Uma dessas questões internas de segurança
se processa no Rio de Janeiro quando se instaura a política antidrogas na qual o Estado
promove a sujeição de determinados grupos sociais na lógica da inclusão-excludente e exerce
suas prerrogativas irrestritas na medida em que os indivíduos são cerceados de assumir a sua
posição política e impedidos de exercerem os direitos mais básicos de cidadania, concedida
atualmente pela democracia como mera identidade de Estado. A política armada externa e
interna da democracia, seja pelo Estado, seja pela suas instituições de “lei e ordem” e a
própria “sociedade civil”, procura defender um Estado sem povo (Kuwait) ao mesmo tempo
em que oprime e extermina com impunidade um “povo” sem a legitimidade reconhecida e
identificada pelo Estado (AGAMBEN, 2000; BAUMAN, 2005).
As características autoritárias do Estado brasileiro fazem com que a segurança pública
incorpore de tal forma a política voltada para a morte (tanatopolítica), aproximando cada vez
mais a democracia com os regimes autoritários que o precederam e hoje se engendram em
diferentes práticas sociais e instituições no interior de sua conjuntura.
O estado de exceção pode ser considerado como uma prática social que se alicerça em
diferentes estruturas e instituições, precisando de um discurso sobre a qual lhe garantiria uma
legitimidade constituinte para se suspender “temporariamente” os direitos constitucionais e os
princípios que vigoram na própria Constituição. A Constituição implica na representação de
uma nação organizada pela soberania a partir da declaração e diretrizes gerais que servem de
base para outras leis infraconstitucionais do país, ela estabelece a ordenação pela qual as
demais legislações poderão ser aplicadas de acordo com os arranjos institucionais e os
critérios estabelecidos para a mutuação entre os respectivos poderes a serem regulados.
A atual Constituição de 88 foi promulgada a partir da declaração de ser o documento
oficial que advogaria a nova “Constituição cidadã”. Tal Constituição foi declarada como um
marco formalizado entre o processo de transição e as investiduras políticas que caminhavam
rumo à consolidação da democracia e do Estado de direito na sociedade brasileira. As novas
disposições e garantias do constitucionalismo democrático se baseiam, desde o ato de sua
promulgação, em princípios positivos, liberais e democráticos, sobretudo na proteção dos
direitos humanos tidos como inalienáveis no novo regime.
Na formação social brasileira o autoritarismo e a intolerância se manifestaram como
um fenômeno de longa duração. As formas autoritárias presentes no Brasil perpassam como
um complicador intrínseco entre os princípios jurídicos de um Estado que teria a capacidade
de outorgar direitos positivos e democráticos e no conjunto de leis que circunscrevem a
inviolabilidade/sacralidade do corpo dos indivíduos, isso de acordo com as definições formais
declaradas na Constituição Federativa do país. Mesmo com os indicativos de um horizonte
democrático brasileiro e com o processo de anistia política, foram corroboradas de maneira
difusa as práticas de violência institucional e dos sistemas de controle social e da ordem
pública.
Segundo as análises de Cerqueira Filho (1987) sobre a conjuntura política e ideológica
do processo de abertura política e democrática no Brasil, as estruturas e instituições
autoritárias perduraram no interior do atual Estado de direito. Nota-se que estas permanências
se deram por conta da incidência sobre o debate popular em torno das questões da violência
urbana. Como já foi mencionado, o tema criminal adquiriu enorme relevância enquanto
problema público ao longo das distensões políticas proporcionadas pela transição
democrática. Nesse momento, a preocupação se detinha no modo como se poderia ajustar as
instituições de controle social na nova experiência democrática sem prejudicar a intervenção
do Estado para a manutenção da ordem na sociedade brasileira. Em outras palavras, a questão
que se colocava era de como normatizar os procedimentos institucionais das políticas de
controle social e da ordem pública – do “serviço” de informação para as polícias e ao poder
judiciário – em conformação com as novas diretrizes que impunham padrões de convivência
democrática, com vista em não perder o controle político da sociedade no processo de
configuração das instituições e da transição política para a institucionalização da democracia e
do Estado de direito:

(...) o restabelecimento da legalidade, ou pelo menos, de determinadas


normas da legalidade, esbarram na manutenção de instituições e
organismos encravados na estrutura do Estado (a “comunidade de
informação”) que precisam ser desativados. A questão que se coloca
para o Estado é a de encontrar formas de desativação que garantam
uma transição das funções políticas destes setores para as instituições
tradicionais de controle social (polícia e justiça) de forma a permitir o
fim da arbitrariedade e o restabelecimento da legalidade, sem atingir
politicamente este setores (o grande capital e os militares) e, ao
mesmo tempo, (e o que é mais importante) sem perder o controle
político da sociedade. Quer dizer, vemos neste processo uma tentativa
de construir, através da legitimação da repressão, que se quer
aumentada, num momento de transição para a legalidade, através da
reorganização e reestruturação da polícia e da justiça (CERQUEIRA
FILHO, 1987, p. 59).

No contexto da abertura política o que estava em pauta não era simplesmente a


promoção da igualdade e da liberdade como princípios organizadores da vida social e pública
ou na legitimidade conferida aos direitos humanos para se construir um modelo de cidadania
em respeito aos direitos civis e individuais, ao contrário, as funções políticas procuravam os
meios dentre as quais as instituições da “lei e ordem” poderiam se restabelecer por intermédio
da maior ênfase nos mecanismos repressivos do Estado no sentido de reestruturar e
redimensionar o aparato policial e da justiça criminal. O que estava em questão não era o
respeito e a garantia de direitos fundamentais que deveriam ser exercidos cotidianamente
pelas forças políticas e sociais para além dos restritos formalismos partidário-governamentais,
mas recorriam à legalidade que implicaria na hipertrofia e no processo que previa a
magnificação do sistema penal e da segurança policial no ângulo da “nova” administração
democrática enfatizados como resolução “em curto prazo” dos problemas sociais gerados pela
desigualdade ao ponto de desconsiderar o valor da vida humana no campo de uma guerra civil
não declarada contra os setores da população.
De certa forma, na abertura política para a consolidação da democracia, o
posicionamento e as práticas conservadoras e autoritárias ficaram subsumidas diante da
celebração entusiasta ao novo regime, uma vez que o debate sobre a violência urbana nesse
momento se pautava em estratégias que mobilizavam propostas e até mesmo os consensos em
prol do controle autoritário da sociedade e principalmente na vigência das “demandas por
ordem social” que reivindicavam medidas ainda mais repressivas sobre as classes populares
nos últimos vinte anos. Para Cerqueira Filho, esse debate sustentou os efeitos ideológicos que
resultaram no ofuscamento das formas autoritárias no interior do Estado supostamente
democrático em garantia da universalidade do direito aos cidadãos:

(...) posturas e práticas conservadoras e autoritárias acabaram por se


ocultar no discurso ‘liberal’ da ‘abertura política’ (ibidem, p. 68).

Percebemos então que, no processo de transição a questão da violência urbana assume


estrategicamente uma importância para as atividades do Estado. Basta notar a transvaloração
do significante que se desloca do mote da “segurança interna do Estado” para as questões de
“segurança pública”. Esse deslocamento discursivo incide no significado impreciso,
tautológico e na confusão entre os problemas de segurança pública evocados pelas campanhas
de “lei e ordem”, cuja justificativa de segurança interna passa pela esfera da defesa nacional e
através das alegações que visam manter a ordem pública. A ambigüidade do discurso
securitário se inscreve justamente na agenda política o qual passou a meditar sobre as
“questões” da violência urbana em simultaneidade com o surgimento da “questão das drogas”
no panorama internacional, estabelecendo alternativas ao Estado brasileiro exercer o poder no
âmbito da penalidade e viabilizar a continuidade autoritária na forma de um projeto
inconcluso da democracia no Brasil. Contudo, as drogas como uma questão de segurança
interna ou de segurança pública reside de forma ambígua no discurso sobre o tráfico e o porte
dessas substâncias psicoativas ilegais enquanto mercadorias políticas comercializadas na
lógica capitalista, permitindo ao Estado e os operadores do ordenamento político-jurídico
decidir se fazem ou não o uso legítimo da tanatopolítica ou se intervêm sem as restrições do
direito em determinados espaços tornados campos pelo estado de exceção aplicado como
norma de segurança.
O estado de exceção tem a sua continuidade normalizada e se manifesta com maior
constância mediante as práticas discursivas e a metáfora bélica de “guerra às drogas” que
adquire forte saliência entre as instituições nacionais e internacionais. A “questão das drogas”
torna-se o locus pela qual as medidas emergenciais poderão intervir de forma permanente e se
reestruturar na conjuntura dos governos democráticos que acabaram por incorporar a matéria
da segurança (interna ou pública) como principal critério de legitimação política.
No limiar da década de 80, o Brasil passou por um processo de re-configuração
política em relação com o cenário internacional. Nesse momento, a “questão das drogas” se
transformava num problema de ordem e responsabilidade mundial, cabendo às três esferas
federativas e os demais países signatários da Convenção das Nações Unidas Contra o Tráfico
Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas de 1988 se incumbirem do “combate ao
narcotráfico” preconizado como uma missão da política internacional que instaurou a
metáfora do War on Drugs evocada pelo presidente norte americano Ronald Reagan. O
objetivo da “guerra” se resume na idealização de um mundo livre das drogas, conforme nos
mostra um fragmento extraído do item 2.1 dos pressupostos básicos da PNAD (Política
Nacional Antidrogas) que visa:

Buscar incessantemente, atingir o ideal de construção de uma


sociedade livre do uso de drogas ilícitas e do uso indevido de drogas
lícitas (PNAD, 2001, p. 13).
Os operadores político-jurídicos têm se valido da flexibilização dos direitos dos
cidadãos garantidos nos preceitos fundamentais da Constituição federal de 1988 para efetivar
esse pressuposto. No capítulo I, artigo I da lei 6.368/76 decretada em 21 de outubro de 197628
fica patente a estratégia da política preventiva e de repressão ao tráfico de drogas articulada na
legislação nacional como um dever de cidadania e prestação de apoio ao Estado na medida em
que a disposição constitucional institui um sistema antidrogas como uma responsabilidade
não só dos órgãos federativos, estaduais e municipais, mas da própria sociedade. Pode-se
dizer que, a política contida na legislação nacional de tóxicos e das instituições que
implementam tal política, se valem dos poderes de emergência constitucional para definir de
forma subjetiva a segurança pública como uma estratégia capilar de “defesa da sociedade”.
Levanto a hipótese de que a implementação das leis de tóxicos, especificamente aquelas
formuladas no texto jurídico da lei 6.368/76, foi uma articulação estratégica de legisladores e
operadores político-jurídicos de confeccionarem um dispositivo de controle capaz de manter
na estrutura social um constante “estado de emergência” para uma conjuntura que possibilita a
extensão do poder de Estado para o campo social sob a forma de uma governabilidade
totalizante e se projetando como um dever social conferido aos direitos dos cidadãos. Tal
conjuntura seria a democracia, ou seja, fato político sobre a qual o estado de exceção irá
assegurar o controle soberano por meio dos mecanismos de aliciamento estatal que ilude os
sujeitos na criação de um ambiente fictício de participação política da liberdade na esfera
pública (ARENDT, 1989), recrutando-os na tática de uniformização e indiferenciação
enquanto “massas” na expectativa de serem “cidadãos portadores de direitos”, sendo que na
realidade não passam de instrumentos afastados das reais propostas políticas e proteção
jurídica garantidos sob os efeitos do estatismo (os “interesses” confidenciais do Estado na
interface entre transparência pública e opacidade privada), compondo apenas a
superficialidade da reivindicação de direitos e o olhar seletivo da soberania que elege aqueles
“reconhecidos” como potencialmente clientes do sistema penal na ordem normativa da
inclusão-excludente29. No panorama brasileiro, o sistema penal não garante a inviolabilidade e
a integridade do corpo de seus sujeitos, seja pelo submetimento às torturas, seja pelo caráter

28
“É dever de toda pessoa física ou jurídica colaborar na prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido
de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica”. In: Lei 6.368/76, Cap. I, Art. I,
1976.
29
Hoje, se faz imprescindível indagarmos sobre uma questão em aberto acerca dos conflitos de contra-
insurgências que produzem novas subjetividades em diferentes sociedades e em meio aos problemas
contemporâneos da democracia na escala da globalização: em que medida, a partir de uma análise histórica e
crítica dos limites que são impostos a nós mesmos, atualmente o primado das resistências não estariam sendo
capturadas pelos dispositivos que impedem as “multidões” de estabelecer suas linhas de fugas através de uma
tendência governamental da democracia que as organiza no jogo ambivalente da inclusão-excludente e na
relação de forças e poder?
seletivo do biopoder que exerce seu papel de deixar morrer nos sistemas carcerários os
detentos em locais que antes tinham a função de disciplinamento, hoje complementam as
estratégias políticas e socioeconômicas de neutralização e esquecimento dos chamados
“párias sociais” expostos às mais precárias condições de salubridade em espaços amontoados.
O funcionamento do sistema penal brasileiro promove a violência real, simbólica e
imaginária através de um processo incessante de inclusão-exclusão na sociedade
contemporânea. Do mesmo modo que, na permanência do estado de exceção como uma
tendência de longa duração na formação social brasileira, o poder soberano pode decidir sobre
o valor da vida e da morte dos indivíduos na própria vigência do dispositivo da exceção.
Atualmente, o poder estatal tem utilizado as medidas excepcionais para se aplicar uma técnica
governamental duradoura contra os conflitos internos e confeccionar as legislações nacionais
enquanto um expediente permanente para se implantar de forma autoritária a manutenção
constante de um “estado de emergência” segundo as definições próprias da política de
segurança pública, conformando as linhas discursivas da política dominante nos debates e
práticas institucionais, sobretudo no que diz respeito ao “problema das drogas” no território
nacional e internacional que emerge no contexto da década de 80 como um problema de
Estado e assim permanece até os dias de hoje.
Numa sociedade que se postula como “liberal, democrática e de direito”, a venda e o
consumo de certas mercadorias e fármacos foram sujeitas à uma legislação diferenciada e que
passa a ser um meio para se constituir o próprio paradigma da ordem jurídica a partir de uma
máquina de exceção política que apresenta à tanatopolítica a sua forma legal daquilo que não
pode ter forma legal (AGAMBEN, 2004). Nilo Batista descreve a política criminal de drogas
no Brasil como “política criminal com derramamento de sangue”30. Nesse sentido, quais são
os procedimentos que correlacionam os fenômenos político-jurídicos da legislação antidrogas
com o estado de exceção? Quando o “problema local” das drogas se desloca para um
“problema global” de Estado como um dos principais itens na agenda política doméstica e
internacional?
No Brasil a prática de produção, distribuição e consumo de psicofármacos foi
considerada como crime de tráfico de drogas a partir do reconhecimento da lei 6.368/76 no
capítulo III, art. 12:

Importar ou exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir,


vender, expor à venda ou oferecer, fornecer ainda que gratuitamente,

30
BATISTA, Nilo. Política criminal com derramamento de sangue. In: Revista Brasileira de Ciências
Criminais, nº 20, São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais, 1997.
ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever,
ministrar ou entregar, de qualquer forma, a consumo substância
entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar.

Nos termos da lei 8.072/ 90, a prática de produção e distribuição de drogas passou a
ser considerada como crime hediondo. A partir daí, o mercado das drogas se efetiva como um
problema de Estado que o qualifica como uma ameaça à segurança nacional, à democracia, às
próprias instituições da sociedade civil e da ordem estatal. Não pretendo discutir se as drogas
constituem ou não em um “problema”. Considero que as “drogas” são mercadorias orientadas
por uma racionalidade capitalista, dependendo dos interesses objetivos e subjetivos de seus
operadores numa escala ou rede socioeconômica e cultural que pode se diferenciar pelo seu
valor de uso ou pelo seu valor de troca. O uso político das drogas como mercadorias31 nas
sociedades capitalistas contemporâneas não implica num “poder paralelo” ao Estado, mas se
complementa como a sua própria extensão nas relações de poder. Na década de 80, o “tráfico
de drogas” se colocava como o segundo maior mercado mundial em volume de capital32.
Nesse momento, o discurso médico-jurídico e moral-religioso característicos da
política de drogas antes do golpe militar de 64 que tinha uma concepção sanitária e higienista
do tráfico e do consumo de psicofármacos, sem precisamente ter uma significação econômica,
se coloca numa complementaridade com o problema do “tráfico” visto sob a perspectiva
econômica e estratégica, segundo um argumento que irá fundamentar um problema
econômico-militar.
O argumento econômico sobre o “problema das drogas” se torna um imperativo que
anunciará o alicerce ideológico da lei de tóxicos pela qual se exorta o mote reificador da
máxima de que “quem compra drogas financia a violência”. Com a devida atenção e

31
Segundo as análises de Michel Misse, as mercadorias políticas são: “o conjunto de diferentes bens ou serviços
compostos por recursos ‘políticos’ (não necessariamente bens ou serviços políticos públicos ou de base estatal)
que podem ser constituídos como objeto privado de apropriação para troca (livre ou compulsória, legal ou ilegal,
criminal ou não) por outras mercadorias, utilidades ou dinheiro. O que tradicionalmente se chama de ‘corrupção’
é um dos tipos principais de ‘mercadoria política’ ilícita ou criminal. O ‘clientelismo’ é, por sua vez, uma forma
de poder baseada na troca de diferentes mercadorias (políticas e econômicas), geralmente legal ou tolerada, mas
moralmente condenada por seu caráter hierárquico e sua estrutura assimétrica. As fronteiras entre “clientelismo”
e “corrupção” por serem moralmente tênues, no Brasil, tendem a reforçar e ampliar o mercado informal político
ilegal e criminal.” (MISSE, 2006, p. 180).
32
“Em 1988 a OUN estimava que o volume anual do comércio de drogas chegava a 300 bilhões de dólares o que
representava 10% de todo o comércio mundial. Alguns especialistas estimam em 200 bilhões, todavia a ONU
manteve seu cálculo original e acresceu mais, atingindo 500 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do valor, o
PIB da África está em torno de 250 bilhões, correspondente a 600 milhões de africanos” (ROIO apud
FERNANDES 1997: 120). Conforme a afirmação de Arbex Junior, o mercado de drogas só fica atrás do
mercado de armas (ARBEX JR, 1993, p. 6).
importância econômica dada ao mercado de drogas nos desdobramentos dos anos 80, esta
exortação se torna um dos principais veículos publicitários para a divulgação de uma
campanha internacional contra o “tráfico de drogas” e para a legitimação dos procedimentos
violentos dos sistemas de controle militar e policial sobre a sociedade calcados no argumento
da necessária manutenção de uma constante “guerra às drogas”.
A doutrina bélica do War on Drugs foi cunhada pelo presidente norte americano
Ronald Reagan em sua campanha de intolerância contra as drogas o qual passou a ensejar os
interesses geopolíticos da política interna e da atuação diplomática do EUA com outros
países. Segundo Malaguti Batista, no decorrer da década de 80, a diplomacia internacional
norte-americana difundiu os termos de “narcoguerrilha”, “narcoterrorismo” e “inimigos
externos” para compor o eixo central da política americana no continente e o eixo das
políticas de segurança nacional:

(...) ao mesmo tempo em que o capital financeiro e a nova divisão


internacional do trabalho os obriga a serem os produtores da valiosa
mercadoria. Os países andinos se transformam em campo de batalha e
nossas cidades se transformam em mercados brutalizados para o
varejo residual das drogas ilícitas (MALAGUTI BATISTA, 2003, p.
5).

O estado de exceção manifestado tanto na política doméstica quanto na diplomacia


internacional proferida pela “guerra às drogas” não consegue esconder o seu princípio de
intolerância em relação ao “outro”, pois tal “guerra” seria inconcebível se caso fosse
executado apenas contra as mercadorias sem atingir as pessoas que as operam ou as
consomem:

A ‘guerra às drogas’ fornece um pretexto para intervenções.


Internamente, tem pouco haver com as drogas, mas muito haver com a
distração da população, aumentando a repressão nos centros urbanos e
apoiando o ataque às liberdades civis (CHOMSKY, 1996, p. 107).

Para desenvolver uma tecnologia de controle político-jurídico sistemático contra o


mercado das drogas com base na necessidade de uma “defesa social” das instituições do
Estado e da própria democracia, o discurso econômico-político sobre as drogas conferiu à
razão de Estado o poder de suspensão duradoura e a dissolução dos limites formais que lhe
foram impostos, ao ponto de se sobrepor ou contrariar os princípios fundamentais da
Constituição e de outras legalidades que competia ao próprio poder estatal zelar. Essa “pura
dominação de fato” de um Estado que age somente pela força e não pela lei, passa por cima
de outras construções discursivas (moral, ética, religiosa e científica) para fazer valer as
prerrogativas de um estado policial que coordena a exceção como norma em espaços urbanos
convertidos em campos onde a força de lei e os dispositivos preventivos de segurança poderão
ser aplicados com eficácia e com pleno desenvolvimento, e que se inscrevem numa política
exclusiva do Estado na regulação da morte de seus sujeitos (tanatopolítica) e no ataque às
liberdades civis.
Sob a justificação de controle da ordem pública, cada vez mais as normas jurídicas se
submetem ou se articulam no conjunto da ordem política que acaba permitindo maiores
desenvolturas para as forças de segurança. Percebe-se que, os decretos legislativos estão
caminhando para a vigência da aplicabilidade permanente dos estados de exceção em diversos
países, sempre em apoio aos discursos de emergência que produzem a eminência de um
direito penal e uma política criminal configurada em torno das questões de prevenção
securitária. Portanto, a legislação penal de drogas no Brasil e seus dispositivos abusivos de
normas penais que reeditam a figura do “inimigo interno” da sociedade e banaliza a morte em
determinados extratos sociais, “acabam por legitimar sistemas de total violação das garantias
individuais” (CARVALHO, 1996, p. 10).
Na assembléia geral da ONU em 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso
afirmou que: “desde a assinatura da Convenção de Viena contra o Tráfico Ilícito de Drogas,
em 1988, alcançamos um novo plano na cooperação internacional”. Desde o processo de
harmonização jurídica na escala do direito internacional operada nos anos anteriores em
diferentes países com o pretenso ideal de união política nas Américas no processo de
globalização, sobretudo no campo da economia política no sistema mundial, a conjuntura
brasileira nesse momento se dispôs significativamente ao compromisso de produzir os
dispositivos político-jurídicos de controle social necessários para se “defender a sociedade” e
prever os riscos de vulnerabilidade que a demanda e a oferta por drogas propiciava às
democracia ocidentais ou na tentativa de “livrar” a sociedade das drogas ilícitas, criando
assim, a SENAD (Secretaria Nacional Antidrogas), uma agência específica empenhada ao
“combate” contra o “problema das drogas”:

O fato mais evidente é a desordem jurídica que se produziu no interior


destes países, ao entrar em clara contradição com as constituições e
outras leis, mas sobretudo, com os princípios fundamentais do direito
penal e o devido processo, vigentes nestes países. O direito penal
liberal está caminhando para converter-se em um direito penal de
segurança nacional, submetendo-se a ordem jurídica à ordem política
e dando carta branca às forças de segurança. Observa-se uma
expedição sistemática de decretos legislativos com base nas
faculdades dos estados de exceção (Gaitán García, 1999)
particularmente em países como Colômbia e Peru e apoiando-se no
discurso de emergência (Malamud Goti, 1998:129) o que vai
configurando uma política criminal preventiva de segurança e o que o
penalista colombiano Jesús Antonio Muñoz qualifica como justiça de
exceção, ou de ordem pública... (DEL OLMO, 2002, p. 73).

A lei 6.368/76 inscrita no Código Penal Brasileiro em vigor como a “lei de tóxicos”
foi confeccionada na forma de uma peça jurídica subordinada ao duplo processo de pressão
política na qual equacionou a situação doméstica do uso das drogas com a conjuntura
internacional. Desse modo, considero a legislação antidrogas promulgada em 1976 como um
instrumento de controle social por excelência, uma vez que sua confecção deu-se justamente
no período em que o estado de exceção marca a sua vigência entre os anos de 1964 e 1986,
perdurando até os dias atuais a partir de seu estabelecimento paradoxal nos interstícios das
leis constitucionais com as leis infraconstitucionais em conjunto com as resoluções
internacionais. Tal produção legislativa nacional antidrogas em correlação com a construção
histórica de sistemas político-jurídicos de controle social com vista a cumprir os desígnios do
poder judiciário e executivo, contradiz diretamente os princípios fundamentais formalizados
na Constituição de 198833, pois estabelece o estado de exceção no próprio ordenamento
jurídico dando legalidade para aquilo que não pode ter forma legal.
Tendo em vista que a lei antidrogas no Brasil veio a ser executada pelo Estado em
contradição e incompatibilidade com os princípios fundamentais garantidos pela Constituição,
é notório que o poder soberano investe contra esses mesmos direitos que eram da sua alçada
zelar por todos eles, aplicando seu poder onde não deveria ser aplicado. Contudo, a
normalidade da exceção executada pela força de lei soberana desaplica outras normas que em
tese deveriam representar sua máxima conduta. A permanência de um estado de exceção
coexistente a um Estado democrático de direito, aplica a norma desaplicando-a no processo da
inclusão-excludente, agindo politicamente sobre a vida em relação à ordem ou à suspensão do
jurídico na zona incerta entre violência e direito na política ocidental. Em linhas gerais, a
legislação antidrogas na sociedade brasileira se torna uma das serventias para que a exceção

33
“Em 30 de abril de 1987, a Egrégia Terceira Câmara Criminal e o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul já
se pronunciava neste sentido, em acórdão proferido na Apelação nº 686.062.340, sendo o relator o
desembargador Milton Santos Martins. Afirmando que o uso de drogas diz respeito à liberdade individual,
decidiu aquela Egrégia Câmara suscitar a inconstitucionalidade do art. 16 da Lei nº 6.368/76 constando da
ementa o seguinte: se não se quer reconhecer no consumidor da droga entorpecente uma vítima e um doente,
como viciado, dando lhe tratamento adequado, pelo menos há de se reconhecer então sua liberdade garantida
pela Constituição” (KARAM, 1993, p. 131).
funcione como regra no atual governo democrático. O “tráfico de drogas” aparece como uma
disposição constitucional no Título V, Capítulo III, art. 144, inciso II, nos seguintes termos:

II – Prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas


afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária
e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência.

Ao analisar este arranjo, vale ressaltar que o combate ao “tráfico de drogas” passa a
ser uma prerrogativa constitucional para se defender as instituições democráticas do Estado
contra as práticas ilícitas exercidas na sociedade. Nota-se como estas disposições estão muito
próximas uma das outras, basta vermos o título proposto a tratar da “Defesa do Estado e das
Instituições Democráticas” na qual a “questão das drogas” se localiza. Esse procedimento
deflagra o conteúdo intolerante e autoritário que se encontra taciturno no discurso antidrogas.
Por conseguinte, assinala-se também que, neste mesmo título se encontram os termos
normalizados para se proceder ao decreto do Estado de Defesa (art. 136) e do Estado de Sítio
(art. 137; 138 e 139). Não obstante, essa organização jurídica nos mostra os indícios que
permite aproximar o estado de exceção com a “questão das drogas”.
Ainda segundo as procedências legislativas, no Rio de Janeiro a função preventiva e
repressiva ao “tráfico de drogas” é desempenhada pelos policiais militares e civis por meio de
um policiamento ostensivo e de grupos de operação especial, sendo que a legislação atribui
essa competência para a polícia federal como sua tarefa exclusiva.
Retomando as análises de Cerqueira Filho e Gizlene Neder (1982; 1992), a formação
social brasileira foi incisivamente marcada pela hibridação entre conservadorismo e
autoritarismo. Após considerar essa argumentação, penso que o art. 144 da Constituição de 88
reconfigura as permanências desse processo de longa duração. O título constitucional mascara
o conteúdo discursivo de outrora ao mesmo tempo em que o conserva numa “roupagem
democrática” de antigas instituições paternalistas e autoritárias.
A aproximação da “questão das drogas” como um problema de Estado pode ser
analisado a partir da organização institucional em escala federativa que centraliza a regulação
estatal do mercado ilícito de drogas, cuja instituição-chave vai ser estruturada como a
Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD). A SENAD34 é uma instituição encarregada de
promover a Política Nacional Antidrogas (PNAD). A atual Secretaria Nacional de Políticas
sobre Drogas foi criada pela Medida Provisória n° 1669 e pelo Decreto n° 2632 em 19 de

34
Atualmente o nome foi alterado pela lei 11.754 em 23 de julho de 2008 publicado no Diário Oficial da União
(DOU) que também alterou o nome do Conselho Nacional Antidrogas para Conselho Nacional de Políticas sobre
Drogas (CONAD).
junho de 1998. O presidente da República Fernando Henrique Cardoso discursa sobre a sua
criação no Palácio da Alvorada na Cerimônia de Assinatura da Medida Provisória de Criação
do Conselho Nacional Antidrogas e da Secretaria Nacional Antidrogas e Assinatura do
Decreto de Regulamentação:

Vou assinar hoje, como havia prometido, no discurso que fiz, na


Assembléia Geral da ONU que tratou da questão das drogas, uma
medida provisória que vai criar a Secretaria Nacional Antidrogas,
assim como o Conselho Nacional Antidrogas. Ambos estarão
vinculados, diretamente, à Presidência da República, através da Casa
Militar. (...) Os senhores sabem - aqui há ministros, por exemplo, o
Ministro-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas – que uma parte
desse combate está localizado, precisamente, no Estado-Maior. O
Ministro da Educação, porque a educação, a questão da prevenção,
são tão importantes quanto a repressão. Não se resolve a questão as
drogas somente com repressão, há a prevenção. Aqui há
representantes do Ministério da Saúde, do Itamaraty, da Secretaria de
Assuntos Estratégicos, para que possamos ter o sentimento efetivo de
que, juntamente, especialmente, com o Ministério da Justiça, que e
onde mais existe, digamos, atribuição constitucional para o combate
às drogas, existe hoje, portanto, todo esse conjunto articulado, e o
governo quer dar relevo a ação antidrogas. Sendo assim, eu pediria
que pudesse passar à assinatura do ato. Estamos, portanto, criando um
sistema nacional antidrogas: uma medida provisória, uma mensagem e
um decreto.

A ordem discursiva enunciada pelo presidente articula os signos sobre a qual os


termos empregados irão evidenciar a declaração de um estado de exceção permanente como
paradigma de governo. Na passagem do ato para a assinatura de criação de um “sistema
nacional antidrogas”, o discurso proferido pela Presidência da República se investe no campo
simbólico do poder na medida em que se pronuncia a performance da função soberana na
mobilização de um aparato institucional operado contra o “problema das drogas”, valendo-se
por excelência da instauração de um dispositivo de exceção manifestado sob a forma de
medida provisória com força de lei que se dá através de decretos presidenciais ou até mesmo
policiais.
O “problema das drogas” situado na articulação das agências governamentais não
implica somente num problema individual, familiar, “comunitário” ou social, ele se comporta
como um problema estatal que faz uso da política como um meio de se estabelecer a “guerra”
do Estado contra a própria sociedade com o intuito descarado de defendê-la contra os efeitos
das drogas vistas como uma “ameaça à humanidade”:
O uso indevido de drogas constitui na atualidade, séria e persistente
ameaça à humanidade e à estabilidade da estruturas e valores político,
econômicos, sociais e culturais de todos os Estados e sociedades. (...)
A questão de relevância, na discussão dos efeitos adversos gerados
pelo uso indevido da droga, é a associação do tráfico de drogas ilícitas
com os crimes conexos, geralmente de caráter transnacional, com a
criminalidade e a violência. Esses fatores ameaçam a soberania do
País e afetam a estrutura social e econômica interna, exigindo que o
governo adote uma postura firme no combate a tais ilícitos,
articulando-se internamente com a sociedade, de forma a aperfeiçoar e
otimizar seus mecanismos de prevenção e repressão e garantir o
envolvimento e a aprovação dos cidadãos (PNAD, 2001, 16).

Portanto, a pesquisa se deteve na problematização da relação entre poder soberano,


estado de exceção e biopolítica que produz os dispositivos da ordem jurídica e da prática
política para se aplicar o estado de exceção como uma técnica normalizada de governo a partir
da manutenção constante de um estado de emergência na sociedade contemporânea, cuja
política antidrogas no Brasil é investida por meio de uma tecnologia de controle social que
inclui a vigência de um direito de polícia35 para se atender as necessidades de um discurso
voltado ao princípio de (in)tolerância zero da segurança pública que tomou o lugar dos
valores de tolerância democrática. Com a aplicação da política de “guerra às drogas”,
sobretudo no Rio de Janeiro, a declaração de direitos fundamentais e inalienáveis do cidadão
garantidos pela Constituição está cada vez mais sujeita à suspensão para fazer valer outro
conjunto de leis (infraconstitucionais do Código Penal Brasileiro), atingindo todas os setores
sociais de maneira diferenciada, seja a partir do medo como um condutor das subjetividades
aliado aos dispositivos de controle social e da manutenção emergencial da administração da
(in)segurança pública, seja pela aplicabilidade metodológica de uma prática de extermínio
seletivo contra as camadas mais pobres da sociedade. Porém, o estado de exceção aproxima
todas as categorias sociais independentes de suas disparidades socioeconômicas na medida em
que o poder soberano decide sobre o valor da vida e da morte e os limites de intervenção que
deve ser conferido ao corpo dos indivíduos.
Enfim, analisei os fundamentos da política antidrogas na sociedade brasileira, suas
práticas governamentais e discursivas, seus suportes ideológicos e o modo como é operada
pelo estado de exceção não como medida provisória, e sim como uma tecnologia duradoura
de Estado, principalmente nas operações policiais de “busca e apreensão de drogas” em

35
“A polícia aparece como uma administração que encabeça o Estado, juntamente com o judiciário, o executivo
e o erário. Certo. Mas na realidade, abrange tudo. Diz Turquet: Ela se ramifica por todas as circunstâncias da
vida do povo, por tudo que o povo faz ou empreende. Seu campo de ação inclui o judiciário, as finanças e o
exército. A polícia inclui tudo” (FOUCAULT apud Hardt & Negri 2005, p. 41).
morros e favelas na cidade, sendo uma característica não só dos regimes ditatoriais ou
totalitários, mas também dos regimes democráticos que intensificaram as demandas e as
medidas de “lei e ordem” a partir da continuidade da suspensão e da violação de direitos e leis
positivas que acabaram por resultar em práticas violentas e rotineiras do poder estatal e suas
instituições incumbidos de aplicar a norma da segurança (pública) por meio da letalidade
policial e da força de lei36 promovidos pelos termos de paradigma bélico e estratégico de
“guerra às drogas”.

36
Sobre as relações entre direito, justiça, poder, autoridade e violência, ver os estudos produzidos por Jacques
Derrida que foi apresentado primeiramente num colóquio organizado por Drucilla Cornell na Cardozo Law
School em outubro de 1989, sob o título “Desconstruction and the Possibility of Justice. No ano seguinte, no dia
26 de abril de 1990, a segunda parte da conferência foi apresentada em outro colóquio organizado por Saul
Friedlander na Universidade da Califórnia em Los Angeles sob o título “Nazism and the ‘Final Solution’:
Probing the Limits of Representation”. No Brasil foi publicado como livro pela editora Martins Fontes intitulado
como “Força de Lei” (2007).
À GUISA DE CONSIDERAÇÕES GERAIS (LIMIAR)

No decorrer da pesquisa procurei problematizar as “demandas por lei e ordem” na


sociedade brasileira contemporânea após a consolidação democrática a partir do estudo sobre
o crime, a violência e as políticas de segurança que produzem mecanismos de controle social
para combatê-los e adequar medidas de tratamento penal a serem impostas à criminalidade e
os criminosos. Busquei compreender a maneira como as práticas de punição não se restringem
às instituições sociais, judiciárias e prisionais, como também se deslocam para as micro-
relações num campo social mais amplo, não se limitando aos domínios de Estado.
Compreende-se que os mecanismos de controle aplicados pelo Estado, as instituições e o
próprio sistema penal para lidar com os problemas da criminalidade, não produzem efeitos de
poder que tem por finalidade única sancionar e reprimir os indivíduos e grupos sociais que
estão submetidos ao seu controle, como também produzir comportamentos e subjetividades
que se adéquam às normas, às instituições sociais, aos projetos estatais e práticas políticas as
quais recebem apoio de uma parcela considerável da população, seja incorporando os valores
e os símbolos no seu cotidiano, seja na forma que se relacionam no espaço público e nos
diferenciados espaços urbanos. Constatou-se que até mesmo as práticas de extermínio seletivo
e repressivo de policiais são compartilhadas pelos sujeitos sociais pela qual passaram a
admitir medidas mais severas e autoritárias no tratamento do crime, dos criminosos e da
criminalidade, ao ponto de acolherem concepções favoráveis à aplicação de penas capitais,
execuções sumárias e inflição de castigos físicos e torturas sobre o corpo como uma medida
necessária e imediata para vingar as práticas do crime violento na vida social brasileira.

Assim, pretendi analisar a forma como a gestão do medo do crime e do sentimento de


insegurança se desdobrou como uma tática de poder que se torna um condutor de produção de
subjetividades e mentalidades aliadas aos mecanismos de controle social e a manutenção
emergencial das políticas de segurança pública que autoriza a intervenção ou a violência de
Estado. Do mesmo modo, minha pesquisa buscou perceber as práticas de abuso de poder e
autoridade por parte das instituições da ordem, sobretudo a violência policial, em que
implicou numa eminente perda de legitimidade do sistema judiciário para a maioria das
pessoas pertencentes a todas as categorias sociais, os quais acabaram recorrendo à meios
privados de segurança com a justificativa de se protegerem do crime e da violência. Esse
processo resultou no surgimento de um novo padrão de segregação social e espacial nas
cidades com a produção de enclaves fortificados, configurando um novo tipo de
relacionamento no espaço público e urbano que valoriza as formas de apartamento e de
desigualdade como valores estruturais da ordem social. Nesse sentido, o modo como os
indivíduos e grupos sociais tentam se proteger da criminalidade e da violência os levaram a
criar formas segregatórias de convivência em variáveis espaços na cidade, a começar pelos
remodelamentos de moradias e a reclusão de setores médios e altos da sociedade em
condomínios fechados e as projeções de discriminações de classe, na maioria das vezes
seguidas de estigmatizações raciais e criminológicas, sobre determinados espaços e estratos
sociais identificados como lugares a serem evitados e por habitarem as chamadas “classes
perigosas”.

No transcorrer da pesquisa foram discutidas as variadas formas que os direitos


humanos vieram a ser violados e desrespeitados logo após o processo de consolidação
democrática no início dos anos 80. A partir dessa problemática, analisei os dois processos que
evidenciaram os paradoxos e o aspecto disjuntivo da cidadania brasileira no que diz respeito
ao considerável respeito dos direitos políticos e o desrespeito aos direitos civis e individuais.
O primeiro se perfaz entre as intensas oposições que atacaram e identificaram os direitos
humanos como uma proteção legítima em “privilégios de bandidos” no seio de um governo
pretensamente democrático. O segundo processo é analisado a partir das campanhas que
foram realizadas com vistas a implementar oficialmente a pena de morte na Constituição
Federal de 1988, propostas que foram levantadas não apenas pelos políticos partidários, mas
também pelos sujeitos sociais em participação do debate público. Foram investigados os
discursos tanto daqueles que defendem ou se opõem aos direitos humanos e à pena capital,
demonstrando suas possíveis contradições e afinidades políticas. Os grupos que defendiam a
pena capital criticavam a atual Constituição e os direitos humanos como um conjunto de leis
que beneficiam os criminosos. Enquanto aqueles que eram adversários à pena de morte por
lutar pela garantia de direitos fundamentais, criticavam o sistema judiciário e penitenciário
sempre sob perspectiva da legitimidade e da reforma institucional. No entanto, constatei que
em ambos os argumentos os métodos punitivos estavam em pauta, mesmo entre aqueles que
defendem valores humanistas e modernos. As deficiências de um Estado de direito estão
sendo criticadas pelas “demandas por lei e ordem” em termos de uma legalidade que sirva não
para limitar as práticas de poder e controle das instituições, do Estado e da sociedade, mas
para utilizar o direito como um instrumento de punição, na medida em que ele mesmo passa a
ser tido como um impedimento à medidas mais duras, preconizando assim, as emergências de
sua suspensão supostamente provisória. O discurso da impunidade é invocado para se
racionalizar as tecnologias de punição, seja ela com rigor mais rígido, seja se valendo de
medidas mais sofisticadas. Analisei as estratégias do refinamento das penas que ficaram
conhecidas como um processo de “humanização das sanções penais”, ressaltando que essas
técnicas se articularam com as políticas de “tolerância zero” executadas no EUA e na Europa
e que estão sendo cada vez mais importadas para o Brasil através de uma política neoliberal
de Estado voltado para o aumento nos investimentos de política securitária em detrimento dos
programas sociais. Tal prática de punição flexível levou a um processo contrário no qual
resultou no aumento vertiginoso da população carcerária que estão sendo lotadas por
indivíduos que foram penalizados pelo menor indício de infrações. Com efeito, a flexibilidade
das penas e as propostas de reforma dos sistemas judiciários e prisionais consistem em
democratizar o direito de punir sem abandonar a retórica do humanismo e da participação
cidadã às políticas de Estado e do sistema penal o qual a democracia estimula, ao mesmo
tempo capturando ou até mesmo inibindo as práticas de resistência.

No segundo momento da pesquisa, pretendi estudar as políticas antidrogas no Brasil a


partir das disposições constitucionais que o Estado concedeu às demais legislações para se
promover as operações de combate e “guerra às drogas”, especificamente na cidade do Rio de
Janeiro. O mercado das drogas recebeu uma legislação especial depois de ter sido
formalmente consolidada a democracia no Brasil. Nesse contexto de “retorno à democracia”
em rumo para a Nova república, o que estava em questão era o debate em torno da “violência
urbana”. A partir dessas preocupações, as estruturas normativas que caracterizavam os
aspectos conjunturais de um regime autoritário tiveram a possibilidade de serem transferidos
para o atual governo democrático, inclusive as operações de medidas emergenciais que antes
eram aplicadas para atender problemas de ordem nacional e que, na conjuntura democrática
passou a ser utilizadas como uma técnica de governo para intervir em problemas internos e da
ordem da segurança pública. Sendo assim, as medidas de um estado de sítio permaneceram na
Constituição que dispõe os meios legais para se exercer uma política de combate ao problema
que as drogas vieram a representar no território nacional em conjunto com as políticas
internacionais. Tais características marcam o aspecto contínuo do autoritarismo social,
cultural e político no terreno de um Estado Democrático e de direito sobre a qual se tornou
coexistente com um estado normalizado da exceção do direito. A exceção tornou-se uma
técnica permanente para a prática governamental do Estado. As políticas de segurança
produzidas para se combater o mercado das drogas vem sendo aplicadas não como uma
medida provisória, assim como são declaradas na Constituição, mas na forma de suspensão da
ordem jurídica que permite a intervenção irrestrita à determinados espaços convertidos em
campos onde as medidas emergenciais poderão ser executadas normalmente, estabelecendo
uma indistinção entre violência e direito, norma e exceção, democracia e autoritarismo.
Ao analisar a política de drogas no Brasil, de modo geral e em particular no Rio de
Janeiro a partir da doutrina estatal de “guerra às drogas” em rigor desde o início dos anos 80
após a consolidação da democracia, compreende-se que ela se tornou um dispositivo de
controle social por excelência para que as intervenções policiais e militares executem as
medidas de exceção por meio de uma política voltada para a morte de indivíduos e grupos
sociais específicos sob a justificativa de defender a sociedade e a vida de outros sujeitos. O
uso das medidas excepcionais como uma regra governamental de combate ao “tráfico de
drogas”, incluiu a vida e os lugares georeferenciados no ordenamento político-jurídico para
selecionar quais sujeitos poderão ser mortos sem qualquer proteção legal ou quais territórios
poderão ser surpreendidos pela força de lei. A lógica da inclusão-excludente do estado de
exceção incluiu o indivíduo na jurisdição para excluí-lo na forma de vida matável e
insacrificável, portanto, banido sem valor humano de qualquer direito; Ela inscreve os campos
de atuação da exceção em seu ordenamento social, principalmente os espaços considerados à
margem do cenário urbano.

A perda do caráter de excepcionalidade do estado de exceção ocorreu em diferentes


sociedades contemporâneas, sobretudo no Brasil, quando o Estado passou a adotá-lo como
uma regra para se atender as medidas de “lei e ordem” e na forma de um mecanismo
extrajudicial que complementa com freqüência as políticas de segurança pública em vigência
desde o processo de consolidação da democracia. Contudo, as políticas antidrogas no Brasil
foi um dos dispositivos que possibilitaram os fatores de permanência do estado de exceção
presente nas disposições constitucionais e legislações antidrogas, nas políticas de segurança,
nas operações do Estado e nas instituições penais como um paradigma de governo dominante
na política contemporânea.

Nas democracias contemporâneas, a própria antropologia, o humanismo, o discurso do


homem sobre o homem ou sobre os direitos do homem não irão resgatar o fundamento
místico de sua autoridade, pois constituem as estratégias biopolíticas para os problemas de
governamentalidade da exceção que passou a regular o excesso de governo como princípio
neoliberal de autolimitação interna da razão governamental.

A questão que poderia ser colocada atualmente seria que, a aplicação do estado de
exceção como regra não teria como objetivo levar o Estado ao seu máximo de força, mas
limitar os objetivos da razão de Estado para não governar demais. Ela se preocupará com a
regra da exceção a partir das necessidades intrínsecas às operações de governo, ou seja, a
razão de Estado não irá interrogar suas práticas em termos de direito ou daquilo que pode ou
não fazer dentro de um certo limite contrabalanceado por princípios externos que autoriza a
soberania agir conforme sua legitimidade, mas sua sanção penal vai girar em torno da exceção
efetivada como objeto de transações indefinidas, e sobre as próprias práticas governamentais
que irão interrogar os seus efeitos não para saber se são legítimas ou não, mas irá questionar
sobre o fracasso ou sucesso da naturalidade própria de sua prática de governo; ela irá se
limitar em função da natureza do que ela faz e daquilo sobre o que ela age.

Vemos daí em diante que, o estado de exceção passa a ser não apenas uma técnica
utilizada a partir dos regimes de veridição, como também se coloca num regime de verdade
que se preocupa em saber quais vão ser, nos objetos que a prática governamental trata e
manipula, as conseqüência naturais do que é empreendido, de dizer na verdade a um governo
quais são os mecanismos naturais do que ele manipula. O dispositivo da exceção calcula uma
razão governamental de Estado preocupado em governar dentro de um certo limite para
melhor governar e se projetar sem correr o “risco” de governar demais.

A normalidade da exceção se torna a prática governamental de um Estado que não


existe suficientemente, estabelecendo-a como a regra e a racionalização do dever-fazer do
governo para identificar o dever-ser do Estado. Em conseqüência, o estado de exceção como
princípio de limitação interna da razão governamental se aplica de forma indefinida nos
regimes democráticos atuais, levando-os à sua própria indeterminação. Ele estabelece um
limite daquilo que se deve fazer e o que convém não fazer, demarcando sua atuação não em
seus súditos, em seus direitos fundamentais ou liberdade fundamental dos indivíduos, a
soberania não vai se objetar aos seus abusos e violências quando ela mesma desconsidera as
leis que garantem sua “força legítima”, mas é no fundamento com o estado de exceção que a
prática governamental de Estado irá se prevenir ao excesso de governo, como um princípio de
sua auto-regulação de fato, de cálculo, de respeito aos processos naturais de seus efeitos reais,
de operação de governo como um regime de transação indefinida, de normalização.
Atualmente vivemos em um tempo de indeterminação das democracias inscritas numa lógica
de reestruturação do império, bem como num estado de exceção normalizado mesmo quando
não se alarma diante da guerra silenciada pelos meios da política. E é justamente aí que se
constitui um problema, e eu acho que continua a ser esse o problema. (...)
Fontes

CÓDIGO PENAL BRASILEIRO. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005.

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988.

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