Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

Nesta ótica. mas norma normata. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. Se. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. Consagra-se. II. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. Para Canotilho.. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. além dos direitos civis e políticos. ademais. Não são simples norma normarum. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional. inc. III. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. isto é. não é uma pessoa autônoma”. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. assim. ou. O sistema jurídico define-se. da autodeterminação dos povos. garantias. por meio da ampliação de direitos sociais. Canotilho afirma que “os direitos. 4º. Na realidade. nos termos do art. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. sendo certo. A prevalência dos direitos humanos. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. econômicos e culturais. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. Significa também que eles valem directamente contra a lei. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. é um direito de princípios. A Carta Magna de 1988 reforça. desse modo. ainda. A interpretação das normas constitucionais advém. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. ineditamente. ao mesmo tempo. assumindo especial propriedade. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. Sendo assim. liberdades. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade.II). enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. Ao tratar do tema J. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. Implica. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. nos termos do art. Sendo assim. De fato. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. dotados de especial força expansiva. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional.. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. ainda. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. assim. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. para Kant. integrantes do sistema normativo. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais.as pessoas são um fim em si mesmas. liberdades e garantias fundamentais.J. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. VIII e IX. não são meras normas para a produção de outras normas. . Os direitos e garantias fundamentais são. O art.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. teve consciência dela. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. 5º. a Constituição de 1988. mas simplesmente se moveu perante a vida. não havendo como divorciá-los. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. pois. Os princípios morais. seja no âmbito internacional ou interno. tampouco. são hoje. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. os direitos sociais. ou. por um lado. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. não podendo ser usadas como meios. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. incluindo. (. Já no plano do constitucionalismo local. §1º da CF/88. unifica e centraliza todo o sistema normativo. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais.

É o aceito definitivo. conclusão e assinatura. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. 27 da Convenção de Viena). constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. Sendo assim. Nos termos da Convenção de Viena. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. Logo. ainda. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. Importante ressalta que. por sua excelência. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. Tal como no âmbito interno. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. No Brasil. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. o que aconteceu na Convenção de Viena. acessão. uma vez que Estados soberanos. inc. quais sejam. que os celebra. ainda. ao aceitá-los. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. é o que prevê o art. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. ratificação. por exemplo. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. ou seja. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. Como etapa formal. em virtude do movimento pós positivista. modificando-os. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. Sendo assim. como era então a experiência européia. Via de regra. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. que são de competência do Poder Executivo. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. ou um prazo para que o Presidente da . A Convenção de Viena determina. quando se sua aplicação naquele Estado”. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. Enfatize-se que os tratados são. consolidando os costumes internacionais ou. pelo Estado brasileiro. Para os constituintes. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. e a do Congresso Nacional. quando da assinatura. inc. Para o estudo do trabalho do livro. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. 49. A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. adesão ou aprovação de um tratado. expressão de consenso. acordos e atos internacionais. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). Os direitos humanos. os tratados internacionais demandam. Entretando. haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. 52 da Convenção de Viena. nos termos do art. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. 84. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. concluída em 1969. CAPÍTULO IV . 19 da Convenção de Viena. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. prevenindo o abuso desse poder. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. nesta concepção. VIII e o art. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. sob a competência do Poder Executivo. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. não podendo criar obrigações para os demais Estados. o art. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. como foi. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. para contribuir para a adesão do maior número de Estados.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. por exemplo. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. I). Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. Em geral. sem haver uma normatização. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. convenções e acordos internacionais. que os aprova por meio de decreto legislativo. compromete-se a respeitá-lo. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil.

Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. no parágrafo 2º do art. a Carta de 1988 está a incluir. Logo. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. especialmente tratando-se de norma de direito fundamental. uma natureza de norma constitucional. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. de sua estabilidade. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. as normas e princípios da constituição. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. sendo de difícil caracterização a priori.J. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. Há que densificar. por conseguinte. Para J. Deste modo. o máximo de capacidade de regulamentação”. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. §2º da CF/88. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. elásticos. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. b) os implícitos. a cada norma constitucional é preciso conferir. A Constituição de 1967. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. portanto.. ligada a todas as outras normas. Os direitos internacionais integrariam. 5º. Canotilho. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. Contudo. 5º da CF. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. torna-se inevitável. 5º. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. Caso ela venha a faltar. qual seja. diferentemente da Constituição Portuguesa.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. assim. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. 5º. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. É de suma importância enfatizar que. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. Para Canotilho. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias. em profundidade. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. 5º. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. 5º. vagos. mas sim bastante pragmática.. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. de forma positivista. Para Konrad Hesse.. “(. enumerados e claramente elencados. ao ‘texto’ da Constituição. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos.. Sendo assim. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. a contrario sensu. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. ao efetuar a incorporação. explicitamente individuados no art. ao fim da Declaração de Direitos. cedo ou tarde. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma. o chamado “bloco de constitucionalidade”. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. Pois bem. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. quando. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. caracterizada como cláusula constitucional aberta. A Carta de 1988. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. A Constituição assume expressamente no seu art. conforme art. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. Observe-se que a hierarquia . a ruptura da situação jurídica vigente”. “(. §2º da CF/88. subentendidos nas regras de garantias. em especial ao princípio do art. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. No dizer de Jorge Mirando. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. Observe-se que. 5º. os direitos implícitos são imprecisos. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. Ela.

bem como com a sua racionalidade e principiologia. Acredita-se que. alínea b da CF. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. inc. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. mas também afronta a própria Convenção de Viena. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. contudo com força supralegal. Em relação ao tema. 5º. insiste-se que. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. Contudo. e não das prerrogativas dos Estados. 5º.há duas outras correntes. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . O fundamento utilizado para. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. III. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. O STF. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. ao revés. uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. Em suma. Em seu voto. em que. são normas supranacionais. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. Observe-se que.004. Sendo assim. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. para o regime do direito internacional. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. 102. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. por força do art. como expressão de uma convicção. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. sem dúvida. pois. Importa salientar que. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. aceita em todas as nações. conferido pelo art.esta última a corrente adotada pelo STF . pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. Sustenta-se. porém supralegal. Contudo. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. assim. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. 27 da Convenção de Viena. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. III. denominada jus cogens. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. §2º da CF em relação à Carta Magna. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. O livro.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). 5º. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. 5º. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. a doutrina brasileira. §2º não . apresentam hierarquia de norma constitucional. sem os quais a inteira estrutura se romperia. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. e um outro regime para os demais tratados internacionais. Vale dizer que. Sem o mencionado ato de denúncia. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. além das duas correntes já mencionadas. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. defende posicionamento contrário. 102. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. b da CF. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. contudo. que na interpretação do art. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. e que tem reflexo no art. em verdade. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. §2º da CF justifica-se na medida em que. Este tratamento diferenciado. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. Com base nestes argumentos. §2º da CF/88. como os fundamentos de uma sociedade internacional.

§4º da CF. Contudo. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. Neste último caso. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. Para a doutrina. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. Sendo assim. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. já que o último não revogou o primeiro. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. Sendo assim. § 4º da CF. devendo ser este último que deve prevalecer. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. §2º da CF. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. ou seja. e não o contrário. que. O quorum requerido pelo §3º do art. mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. se para a ratificação é necessário um ato complexo. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. além de natureza material constitucional. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. Por força da indigitada norma. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. contudo. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. que são os que possuem. Devido à peculiaridade mencionada. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. 5º da CF/88. 5º. em face das argumentações já expostas. qual seja. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. . 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. porém supralegal. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. Celso Lafer. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. com o advento do §3º do art. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. defendendo a tese de que o art. 5º. 60. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. a norma será formalmente constitucional. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. 5º da CF/88. 60.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. que por força do § 2º do art. ao clarificar a lei existente. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. 5º da CF. em dois turnos. após a passagem por um difícil processo de aprovação. Entretanto isso não ocorre no Brasil. Cabe apontar. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. Para finalizar. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. 5º da CF. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. Atente-se. Para os defensores da última corrente. sem qualquer participação do Legislativo. §2º da CF/88. nos termos do art. Sendo assim. 5º. b) os materialmente e formalmente constitucional. tornar-se-ão cláusulas pétreas. No direito brasileiro. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. ainda. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. não há como se admitir que. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica.

pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. após a reforma constitucional de 1994. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. Já na sistemática da incorporação legislativa. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. É o que se extrai da interpretação do art. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. para quem. Ademais. os mesmos têm aplicação imediata. 5º. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. Sendo assim. Na Nicarágua. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. na qual. mas não geram direitos subjetivos. prevalece a norma de direito internacional. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. haja vista que. nos termos do art. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. No Peru. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional.Na Constituição da Argentina. 5º. a monista ou a dualista. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. III. § 2º da CF/88. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. ações ou omissões de sua país. já no segundo caso. por sua vez. Na Constituição da Venezuela. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. 5º. 5º. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. conforme determina o art. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. ou seja. reformada em 1989. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. inicialmente. prevalece a norma interna. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. É nesse contexto que se insere a inovação do art. Ora. “não apenas o Tribunal nacional. No primeiro caso. os tratados obrigam diretamente os Estados. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. no plano interno”. há de ser perquirir. § 1º da CF/88. 5º. por atos. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. uma única ordem jurídica. §§ 1º e 2º da CF. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. Em outras palavras. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. a da CF. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. Diante dessas duas sistemáticas. ainda. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. Porém para o trabalho. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. Também a Constituição do Chile. têm vigência imediata. por força do art. §§ 2º e 3º. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. 5º. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. § 1º da CF/88. não será mais possível a sustentação da tese a qual. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. invalidá-la. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. há a sistemática da incorporação legislativa. qual a sistemática adotada pelo país. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. com a ratificação. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. 105. . adicionando. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. conseqüentemente. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. para os tratados internacionais de direitos humanos. porém supralegal. Pela primeira. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. art.

com outras. acolhe a sistemática da incorporação automática. refletindo a sistemática monista. a Constituição. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. b) integrar. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. relator para o acórdão. Logo. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. como ocorre na Constituição portuguesa. Porém. embora não previstos no âmbito nacional. Os indivíduos tornam-se. conferindo-lhes. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. mas também internacional. com harmonia e consonância. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. É a escolha da norma mais favorável à vítima. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano.Em síntese. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. titular do direito. em seu art. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. O regime diferenciado. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. na francesa. na holandesa. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. na espanhola. representativa da categoria profissional ou econômica. Nesse caso. por força do art. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. havendo a necessidade. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. Sendo assim. 5º. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. todavia. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. Diante do que foi exposto. quais sejam. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. pode-se imaginar. passando a incorporar ao direito brasileiro. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. Vários são os casos em que direitos. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. em qualquer grau. O próprio art. como primeira alternativa. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. de modo a ajustá-lo. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. §§ 2º e 3º. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. na mesma base territorial. encontram-se enumerados nesses tratados. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. da expedição de uma norma interna. na alemã. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. . às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. ainda. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. o status de norma constitucional. além de não possuírem força hierárquica constitucional. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. ou c) contrariar preceitos internos. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. assim. respectivamente. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. em determinados casos. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. 5º. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. portanto. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. nunca a restringir ou deliberar. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. § 1º. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. três são as hipóteses que podem ocorrer. complementem ou ampliem as normas constitucionais.

A proteção humanitária se destina. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. direitos positivos. em casos de guerra. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. Vale dizer. quanto à terceira hipótese. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. Por fim. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. . no Brasil. 7º da Convenção Americana. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. presioneiros) e à população civil. tanto do âmbito global quanto no regional. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. três hipóteses poderão ocorrer. se eles são naturais e inatos. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. doentes. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. Na primeira hipótese. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. qual seja. Na segunda. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. uma invenção humana. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. contudo admite não apenas uma exceção. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. ou seja. ainda. a militares postos fora de combate (feridos. Observe-se que se a situação fosse inversa. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. aplicar-se-ia Constituição Federal. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. Pois bem. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. possuindo como finalidade promover a cooperação. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. como na Convenção Americana. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. Preleciona ainda Bobbio que. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. ora adicionando novos direitos. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. Criada após a Primeira Guerra Mundial. acrescendo apenas uma exceção. ora reforçando sua imperatividade. e sim o de protegê-los”. mas construído. a dívida de créditos alimentícios. Foi preciso. em constante processo de construção e reconstrução. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. paz e segurança internacional. Pela norma.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. náufragos. na medida em que estes não são um dado. Em todas as três hipóteses. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. Enunciado semelhante é o do art. Na lição de Norberto Bobbio. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais.

que tiveram como fundamento os costumes internacionais.. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. pode-se concluir que tais institutos. 38 do Estatuto da Corte Internacional. que haja o censo de obrigação. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. não resta dúvidas de que a prática de tortura. juntamente com os tratados internacionais. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. ou seja. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática. ainda. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas. No fim do século XX. Para a existência do costume internacional. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. Neste prisma.. Hans Kelsen. previstos no Acordo de Londres. com importantes exceções”. seja pelos oficiais militares. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo. assim. Nesse contexto. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. As condenações do Tribunal de Nuremberg. segundo o art. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo. seja pelos líderes do partido. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. (. o direito a ser sujeito de direitos. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. (. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. porque revela tema de legítimo interesse internacional. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. Com a decadência do nazismo.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. lecionou o seguinte: “Contudo. Sendo assim. ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal.. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. da Liga das Nações e do Direito Humanitário. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. Steiner. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. com as decisões judiciais. entre outras práticas. conseqüentemente. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas.. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. de detenções arbitrárias. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. Nesse cenário. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional.. o costume internacional é fonte do direito internacional. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. cada qual ao seu modo. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. mas também sujeito do Direito Internacional. com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. ou seja. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. mas é válido apenas no plano do direito interno. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. Os novos institutos rompem. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. Note-se que. Diante dessa ruptura. Simultaneamente.. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente.). de desaparecimento forçado. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. tem sido repensada.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. Com o advento dos institutos supramencionados.

O art. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. incluindo os direitos humanos. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. entre outras. desde 1992. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. especialmente após a Primeira Guerra. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. Estados Unidos e. Os membros permanentes são China. neste sentido. Três anos após o advento da Carta das Nações. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. À luz de uma perspectiva histórica. que substituiu a antiga União Soviética.. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. cresce o movimento social e da cidadania. que é o principal funcionário administrativo da ONU. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. Reino Unido. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. . Sendo assim. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. seja a Declaração Francesa (1789). Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. ela não define o conteúdo dessas expressões. em 1918. A criação das Nações Unidas. ao lado do discurso liberal da cidadania. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. de 1948. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. à proteção das minorias. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos.Após a Segunda Guerra Mundial. Corte Internacional de Justiça. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. A não-atuação estatal significava liberdade. consagravam a ótica liberal. e o direito à abstenção do Estado. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. Conselho de Segurança. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento. O Conselho Econômico e Social. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. na então República Soviética da Rússia. ao consagrar valores básicos universais. França. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.)”. com suas agências especializadas. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. com a emergência dos direitos à prestação social. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. seja a Declaração Americana (1776). Desde seu preâmbulo. sociais e culturais. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. Conselho de Tutela e o Secretariado. converte-se em direito à atuação estatal. composto por quinze juízes. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. posteriormente. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. titular de direitos iguais e inalienáveis. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. que foi anexado à Carta. composto por vinte e sete membros. sociais e culturais. Conselho Econômico e Social. a Declaração Universal dos Direitos Humanos.. Importante salientar que. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. sociais e culturais. com direito a um voto. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. verifica-se que. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. Deste modo. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. Além da universalidade dos direitos humanos. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. complementados pela resistência à opressão. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. Rússia. (. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. as Declarações de Direitos. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. Neste momento histórico. em que os principais são: Assembléia Geral. Para a consecução dos objetivos supramencionados. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. segurança e propriedade. No final do Século XVIII. Com a vitória do Aliados. social e cultural. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. Caminhando na história. Em definitivo. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista.

de 1993. que. (. Exemplo é a proibição à escravidão. Na análise dos relativistas. apresentando. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. Ademais. econômico. direitos sociais. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. bem como seu peculiar sistema moral. O propósito da Declaração. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. ainda.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. direitos civis e políticos. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. apresentando. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. por sua vez. por esse motivo. assim. por sua vez. A Declaração de Viena. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. As três gerações se interagem. Argumentam. desse mínimo ético. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. à tortura. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. constante da Carta das Nações Unidas. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. há diversas correntes relativistas: “No extremo. “Compreendeu-se finalmente que a . social e moral vigente em determinada sociedade. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. contudo. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. Há. de maneira justa e equânime. e cultural. interdependentes e inter-relacionados. nessa visão.. No entanto. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. importará em violação a direitos humanos. independentemente de seu sistema político. Considerando neste contexto. forte ou fraco. Nesse sentido. à destruição da diversidade cultural. por exemplo. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. econômico. Ela não é um tratado. força jurídica vinculante. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. (. a defesa. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. pelo contrário.. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados.. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. a Declaração Universal. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Para esse trabalho. mas é obrigação dos Estados. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. mas a Declaração traz a definição. como proclama seu preâmbulo. Sendo assim. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. Para os relativistas. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. cultural. econômicos e culturais. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. por si só. único e indivisível. Para Antônio Augusto Cançado Trindade.) Um relativismo cultural fraco. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. independentemente de seu alcance. culturais e religiosas devem ser consideradas. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. indivisíveis.. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. como valor intrínseco à própria condição humana. de outro. Para essa corrente. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. o debate ganha força. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. não apresenta força de lei. defensor da corrente relativista. No entendimento de Jack Donnelly.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. econômicos e culturais. ainda que em nome da cultura. ao tratamento cruel. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. como ocorre. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. O universalismo induz. que tenta universalizar suas próprias crenças. força jurídica vinculante.

com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. como pressuposto para um diálogo intercultural. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. Inicialmente. International Bill of Rights. o sisyema global de proteção desses direitos. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. nas palavras do doutrinador.. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. Sociais e Culturais.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. “(. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. Posteriormente. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. em 1951. interamericano e. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. Adotando-se a lição de Jack Donnelly. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. Neste debate. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores.. sob o enfoque estritamente legalista. nos âmbitos europeu. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. sob a influência dos países ocidentais.. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. não visam substituir o sistema nacional. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. sobre o genocídio. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal.. Sociais e Culturais entraram em vigor. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. os direitos econômicos. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. a) Introdução O processo de universalização. quando falham as instituições nacionais. alcançado por um universalismo de confluência. por exemplo. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. a tortura e a violação dos direitos das crianças. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. Primeiramente. com seus inúmeros instrumentos. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. por sua vez. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida. Todavia. posteriormente. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. a Assembléia Geral. Ao revés. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. O sistema global. africano. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. sociais e culturais. como. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. quais sejam. bem como que sem os direitos econômicos. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. quando alcançaram o número de ratificações necessário. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos.). como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. Para iniciar este estudo. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. assim. sociais e culturais. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos. discursivo de diálogo (. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. Diversamente dos tratados internacionais comuns. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. os direitos . mas são incompletas. que conjugava as duas categorias de direitos.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros.

no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. sociais e culturais. Contudo. o sistema de petições. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. Em relação aos direitos econômicos. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. com maior detalhamento. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. . Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. em se tratando de cláusula facultativa. para o exercício da sistemática das petições. Resta salientar que. sendo adotados dois pactos internacionais. Contudo. sexo. tecendo comentários e observações gerais a respeito. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. Contudo. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. sociais e culturais. Por esse mecanismo. instituído pelo pacto. um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. o vínculo exigido. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. Ao comitê cabe analisar os relatórios. por exemplo. sociais e culturais seriam programáticos. Neste raciocínio. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional.econômicos. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Vale dizer. para os direitos civis e políticos. mediante proposta de solução amistosa. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. como. O pacto permite. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. como também estende o elenco desses direitos. língua. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Esse argumento ganhou força a partir de que. ao invés da nacionalidade. ainda. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. com os comentários. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Ao ratificar o pacto. das comunicações interestatais. além de conquista de transcendência histórica”. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Além da sistemática dos relatórios. limitações em relação a determinados direitos. que devem ser implementados de forma progressiva. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). cada qual relativo a uma categoria de direitos. sociais e culturais são direitos programáticos. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. vindo posteriormente a encaminhá-lo. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. primeiramente. administrativas e judiciárias adotadas. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. impondo obrigações aos Estados-partes. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. Segundo Antônio Augusto Cançado. Por essa sistemática. opcional. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. adotando medidas necessárias para esse fim. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. religião ou origem social. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. Sociais e Culturais. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. bem como toda vez que o comitê solicitar. raça. Sociais e Culturais.

Contudo.. em 1990. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. distinguir entre . O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. mediante Protocolo Facultativo. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. sociais e culturais. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. ao menos. apesar de sempre buscar uma votação unânime.. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. econômicos e culturais. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. Nos ensinamentos de Martha Jackman. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. Ao decidir. permite a sistemática das comunicações individuais. econômicos e culturais. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. Como resultado de fortes pressões. além de declarar a caracterização da violação alegada. entre outros. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. é que no Pacto Econômico. Contudo. devendo. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. em parte. Porém. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto.. As decisões do Comitê não possuem força vinculante. trabalhista. Trata-se de uma idéia adotada. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . Social e Cultural. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos.”. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. pela ótica normativa internacional. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. os direitos econômicos. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. por meio de protocolo adicional. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. além do que. tampouco. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos. apresentam realização progressiva. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. por sua vez. Como bem observa Thomas Buergenthal. “Ao ratificar esta Pacto. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. por todas as nações. o Pacto de Direitos Econômicos. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político.” ou “ninguém poderá. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. mediante o chamado power of embarrassment. repousa uma visão social do bem-estar individual. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. de condições econômicas. o Comitê. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. Ao revés. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes.. pelo menos no âmbito global. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. Em suma. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. além do que. todavia. Além disso.. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. que pode causar constrangimento político e moral. nesse aspecto. o Comitê adotou. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”.. um mínimo standart técnico-econômico. nas quais todos nós vivemos. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto.. o Comitê “é importante. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. ainda. Sociais e Culturais são direitos que exigem.”. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. ambientalista. continua. mas também por diversos outros tratados internacionais. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. Contudo. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. os Estados que não satisfizeram a decisão. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. sociais e culturais.Ao receber a petição individual. Assim. como o direito de petição. o Pacto de Direitos Econômicos. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. sociais e culturais não são direitos legais. Ressalte-se. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. para a sua aplicação. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional. por vezes. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. após analisar a sua admissibilidade. O Comitê solicita informações. no prazo de 180 dias. até o máximo dos recursos disponíveis. Sociais e Culturais.

Convenção contra a Tortura. em face de sua própria vulnerabilidade. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. eliminar a discriminação racial. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. Compartilha-se. Convenção sobre os Direitos das Crianças.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. na grande maioria dos ordenamentos. o Estado assume a obrigação internacional de. em recente relatório. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. Desde o seu preâmbulo. c) igualdade material. incluindo os indivíduos. Percebe-se. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. progressivamente. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. Na visão de Bobbio. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). sociais e culturais] que não poderia. Até o próprio BIRD. 1º. posteriormente. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. pois. ser considerado como possuidor de. Ao ratificar esta convenção. Logo a discriminação significa desigualdade. resultou um complexo sistema internacional de proteção. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. mister. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. as entidades de classe. Boaventura de Sousa Santos. dente outros. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. etc. além do combate à própria discriminação. em 21 de dezembro de 1965. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. ou seja. Na esfera internacional. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. raça. Sob o ângulo pragmático. sociais e culturais. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. fundamentalmente. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. econômicos. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. refletindo o próprio temor da diferença. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. idade. significa a inclusão social. Essas Convenções mencionadas apresentam. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. alimente ou reproduza as desigualdades”. a discriminação significa toda distinção. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. Após o advento da International Bill of Rights. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. . Não basta a legislação repressiva.. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. mas também aumentou a titularidade de direitos. idade. algumas sobre direitos novos. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. em regra. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. o sujeito é visto em sua abstração. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. alargando o conceito de sujeito de direitos. segundo dados da própria Nações Unidas. assegurando a efetiva igualdade.. As violações aos direitos econômicos. mas ao indivíduo “especificado”. buscada na Convenção. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. o qual concluiu que “(. raça. as organizações sindicais. Social and Cultural Rights. independentemente da retórica.) Direitos sociais. buscam responder a uma específica violação de direito. No combate à discriminação. §4º a possibilidade de discriminação positiva. orientada pelo critério sócio-econômico. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. Pala Convenção. considerando categorizações relativas ao gênero. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. orientada pelos critérios gênero. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. orientação sexual. ao menos. Destaca-se. Fico. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. exclusão. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. em igualdade de condições. Acrescente-se que. b) a igualdade material. mas sim para promoção de direitos. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. que merecem tutela especial. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. etnia e demais critérios. assim. etnia. também conhecidas como ações afirmativas. O processo de internacionalização dos direitos humanos. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. políticos. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. A igualdade. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão.

não invocando qualquer costume. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. seja qual for. c)a vinculação do agente ou responsável. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). cultural ou mesmo legal. também são pautadas nas informações coletadas. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. fazendo recomendações às partes. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. desumanos ou degradantes. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. à luz dessas informações. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . igualmente às decisões dos demais Comitês. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. direta ou indiretamente. 1º da Convenção há a definição de tortura. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. Para que seja admitida a petição individual. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. embora a violência seja uma grave discriminação. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. Na Convenção há a previsão em seu art. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. baseado no gênero. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. Em relação ao seu sistema de monitoramento. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. os relatórios e as comunicações interestatais. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. são consagrados. que é. progressivamente. esta Convenção estabelece os três mecanismos. objetivam acelerar o processo de igualdade. que cause morte. ainda. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. caso conclua pela existência de violação. por sua vez. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. Ao ratificar esta convenção. ambos em 1975. cabendo a este examinar as petições individuais. assegurando a efetiva igualdade. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. integral e indivisível dos direitos humanos universais. A Declaração estabelece. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. com o Estado. formula a sua opinião. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. No art. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. As suas decisões. o Estado assume o compromisso de. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. Em suma. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. sendo certo que. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. adicionalmente. Contudo. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. dentre os direitos. Ao longo da Convenção. Apenas em 1999. as petições individuais. Quanto aos mecanismos de monitoramento. Em relação ao sistema de monitoramento. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade.buscando remediar um passado discriminatório. quais sejam. além da habilitação do Comitê. mas também alcança o domínio privado. bem como para realizar investigações in loco. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. aplicação de castigo. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família.

ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. que. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. maiores informações sobre aquelas implementações. em 1993 e 1994. levando. para erradicar. Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. respectivamente. no todo ou em parte. Note-se que a Conferência de Viena. Vale ressaltar que. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. foram adotados. um grupo nacional. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. ainda. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. em face de seu alcance. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. contudo. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. cometidos com a intenção de destruir. contrariamente. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. a não ser que. racial ou religioso. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. no que concerne à matéria dos Protocolos. ainda. c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. afronta a ordem internacional. e considerando ainda que. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. a maioridade seja atingida mais cedo”. Importa observar. Nos termos da Convenção. por sua gravidade. sejam governantes. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. datado de 9 de dezembro de 1948. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. de forma definitiva. Pelo seu art. consciência e religião. a opinião dos interessados. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. O art. Apenas em 17 de julho de 1998. sociais e culturais. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . pela legislação aplicável. na devida consideração. Porém. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. tal como: a) assassinato de membros do grupo. 6º. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. econômicos. a prática da tortura. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. em 15 de maio de 2000. a requerer. O Comitê fica autorizado. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. étnico. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. funcionários ou particulares. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. em Roma. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). Ao fazê-lo. políticos. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional.

e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. Em relação às penalidades. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. o Conselho Econômico. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. controle e garantia. como a Assembléia Geral. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. agora. entre outros. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). como por exemplo nos conflitos da Bósnia. a própria Promotoria agir de ofício. Em todas as hipóteses. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. Além da sanção de natureza penal. 5º do Estatuto de Roma. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. propondo a ação pena cabível. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. o cargo oficial de uma pessoa. em 17 de julho de 1998. Adentrando. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. de caráter permanente. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). Por fim. seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado.direitos humanos foi revigorada na década de 90. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. Ruanda. primeiramente. Kosovo. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. conclui-se que. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. Pode. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. já mencionados. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. ou seja. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. competente para receber as denúncias sobre crimes. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. . Porém. a responsabilidade primária. não o eximirá da responsabilidade penal. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). deixando de operar dentro dos Estados. Já o sistema não-convencional. isto é. Timor Leste. em ações conflitantes no tocante aos Estados. Conforme o art. cumpre assinalar. com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. a fim de que esta investigue o crime. em face dos genocídios que a marcaram. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. em último caso. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. o 1235 e o 1503. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). Desse modo. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. II) crimes contra a humanidade. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. Nesta linha. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. ilustrativamente. é do Estado. tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. pois. dentre outros. sendo novamente eleito em 2000. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. tampouco importará em redução da pena. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. ficando. em contraste. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. Social e a Comissão de Direitos Humanos. a escolha de mecanismos não convencionais. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). Neste sentido. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. examiná-las. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. ainda. no tema do tópico. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência.

surge o sistema regional. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. ainda. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. particularmente na Europa. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. Fundamentalmente. b) manter a situação sob análise. no sistema nãoconvencional. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. Rhona K.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. em mecanismos convencionais e não convencionais. em tese. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. segundo critérios de admissibilidade. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. A análise dos casos pode ensejar. possuindo. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. 1235. o consenso político se torna mais facilitado. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. Muitas regiões são ainda homogêneas. as medidas urgentes são. portanto. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. à língua. seja com relação aos textos convencionais. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. Ao lado do sistema global. Shimth destaca que. No sistema europeu. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. em 1950. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. contudo. integrado. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. o relator especial transmite a apelação aos governos. entre outras medidas. c) apontar um especialista independente. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. podendo. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. de um relator especial com mandato para países específicos. com respeito à cultura. que apresentam características consideravelmente diversas. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. para que seja efetivada a proteção buscada. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. Ao apontar as vantagens do sistema regional. América e África. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. assim. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. o que oferece vantagens”. existindo. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. por vezes. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. estabelecido em 1980. pelo sistema interamericano. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. existir ou não em construir precedentes normativos. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. 1503. M. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. pela Comissão de Direitos Humanos. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. às tradições. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. 1503. Consolida-se. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. atualmente.Vários foram os mecanismos temáticos criados.

. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. em que o sistema de informes é um método de controle regular. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. O mais incipiente é o sistema africano. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. Ante esse universo de instrumentos internacionais. através do debate interno que eles proporcionam ou. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. tendo em vista que. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais.. concernente aos direitos sociais. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. em 1998. precisar e difundir a objetividade de uma situação. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. Teoricamente. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. apresentam o trabalho da Comissão. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. aperfeiçoando outros. e de outro. pelo contrário. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. Para tanto. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. do debate internacional. limitando a determinar aos Estados que alcancem. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. enquanto o instrumento regional deve ir além. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. Dos três. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia.Européia de Direitos Humanos. adicionando novos direitos. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. eventualmente. (. Ambos são úteis e complementares. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. podendo ser reeleito apenas uma vez. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. superando essa obrigação negativa. a depender do caso. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. sem qualquer discriminação. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. Substancialmente. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. econômicos e culturais. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 3) quando os parâmetros conflitam. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. no sistema interamericano. a plena realização dos direitos. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. progressivamente. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. cultural ou econômico. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. O que importa é o grau de eficácia da proteção. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. em relação aos direitos nela consagrado. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana.. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos.) Por outro lado. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. Posteriormente. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. Além de se constituir em um método para determinar atos. mas sim complementares. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos.

e toda vez que resulte necessário. não estando prevista a legitimação do indivíduo. Se anteriormente. a qualquer membro da OEA. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. Além do que foi descrito. em matéria ainda não submetida à Corte. parte ou não da convenção. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana.Conforme Hector Fix-Zamudio. a Comissão buscará uma solução amistosa. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. contra o qual se tenha apresentado queixa. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. f) protetora. Se alcançado o acordo. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. como. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. A petição. por exemplo. para evitar dano irreparável à pessoa. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. Caso. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. buscar informações do respectivo governo. efetuando. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. a Comissão julgará o mérito. d) legitimadora. em retrospecto. Na lição de Thomas Buergenthal. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. tal decisão ficou mais vinculada. determinará a . eleitos a título pessoal. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. “(. ou seja. adotada em 1º de maio de 2001. Feito o exame do caso. o caso será submetido à Corte Interamericana. a Comissão. o “controle da convencionalidade das leis”. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. de acordo com César Sepúlveda. a fim de promover seu respeito. em casos de gravidade e urgência. por maioria absoluta de votos. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. dano uma maior tônica de juridicidade. a Comissão poderá. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. c) crítica. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. ou ainda entidades não governamentais. em caso de extrema gravidade e urgência. Vencido o prazo. b) assessora. e) promotora. Porém. o prévio esgotamento dos recursos internos. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. a Comissão examinar as alegações do peticionário. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Durante esse período. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. assim. a Corte tem desenvolvido. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. quando um Governo. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. No plano consultivo. recomendações ao Estado-parte.. A Corte. Em relação ao plano contencioso. sendo observado todos os casos de admissibilidade. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. por iniciativa própria ou mediante petição da parte. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. Por fim. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. nunca deveria ter sido recebido. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. mediante declaração expressa e específica. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais. após a investigação. salvo no caso de injustificada demora processual. ainda. com o novo regulamento. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. ela pode rejeitar o caso que. de acordo com as informações disponíveis. como ocorre nos sistemas globais. em seu art. eventualmente. 44. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. atual presidente da Comissão Interamericana..). quando além das atividades anteriores. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório. Não sendo alcançado o acordo. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. Na sua função consultiva.

destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. os problemas de direitos humanos. a decisão valerá como título executivo. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. Rondônia. 63 da Convenção. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. descumprir decisões internacionais. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. III) Uma maior democratização do sistema. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. em particular. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. Pelo art. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. embora recente a sua jurisprudência. da Constituição de 1988. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. Com exceção dos casos mais gritantes. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. haverá uma concentração no período de democratização. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. ainda. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. poderá atuar a pedido da Comissão. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. conquanto denunciados. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. Dentre os casos já decididos pela Corte. com recursos financeiros. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. podendo. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. como o da África do Sul. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. Com a Guerra Fria. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. assim. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. promovido em face do Brasil. Neste caso. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. técnicos e administrativos suficientes. mas também na agenda internacional do Brasil. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. em Porto Velho. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. pode-se concluir que. Ainda que crescente a justicialização do sistema. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. o desenvolvimento e os direitos humanos. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. da Convenção sobre a Eliminação de . em 1º de fevereiro de 1984. desenvolvimento e direitos humanos.

que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. haja vista que. Depois desse vários outros se seguiram. . Assim. como país respeitador dos direitos humanos. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. que trouxe importantes inovações jurídicas. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. Desumanos ou Degradantes. Por fim. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. Aceita. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. Além das inovações constitucionais. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. o Brasil é o único a fazer tal declaração. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. De todo modo. não se encontrar um acordo. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. Acrescente-se que. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. um núcleo de direitos básicos. ainda. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. mediante a declaração feita. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. Em razão dessa interação. É importante. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. por sua vez. que faça da forma mais restritiva possível. Além da eliminação das reservas. até porque é uma situação anacrônica. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. no âmbito nacional. se ainda assim. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. Primeiramente. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. O Brasil buscou. A partir da Constituição de 1988. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. perante a comunidade internacional. Sociais e Culturais. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. O Brasil deve. Sendo assim. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. não foi objeto de qualquer declaração. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. que estabelecem. ainda. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. o Brasil assume. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. ainda que em situação de emergência. ainda. ainda. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. por exemplo. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. quando formulá-las. Adicione-se.

foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. 5º. até a presente data. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. o Brasil assumiu que. A título de exemplo. Viola ainda a própria Constituição Federal. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. verifica-se. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. para o Brasil. não houve a elaboração de tal legislação. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. Diante desse quadro. desde junho de 2002. civis e administrativas necessárias para prevenir. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. em 1998. ocorria em Bogotá no ano de 1948. mas também no internacional. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. além da omissão importar. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. No âmbito do sistema regional. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 5º. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. e ratificado pelo Brasil em 2002. De acordo com o direito internacional. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. punir e erradicar a violência contra a mulher. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. por força do art. Como já mencionado anteriormente. a responsabilidade pelas violações são da União. Atente-se que o Brasil. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. Como já se ressaltou. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. Embora o Brasil. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. iria incluir em sua legislação normas penais. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. em 1998. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. de tipificação do crime de tortura. até porque. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. ainda. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. §2º da CF. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . até o presente momento. ratificada pelo Brasil em 1989. Essa opção deveu-se ao fato de que. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. até abril de 1997. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. sem demora. que ocorreu em 1998. que no seu art. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. No entanto. previsto pelo Estatuto de Roma.455/97. Para tanto. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. como já abordado. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. que definiu o crime de tortura. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. porém. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. Além das providências supramencionadas.Ressalte-se. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. devendo ter aplicabilidade imediata. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. importando em responsabilização do Estado. em violação à própria Constituição. XLIII. a falta. que junho em 2002. combate e erradicação da violência contra a mulher. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. Deste modo. Logo.

6) violência contra a mulher. há casos que já foram apreciados pela Comissão. nesse sentido. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. Todavia. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. lideranças da Igreja Católica. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. líderes de trabalhadores. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. já que não dispõe da competência de investigar. Constata-se que nesses nove casos. particularmente. 3) violência rural. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. em 1980. entre outros). que foram privadas de sua liberdade. que foram privadas de sua liberdade”. introduzida pela EC 45/2004. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. sendo certo que desse universo. que apontavam à prática autoritária do regime militar. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. além do que. que na época era território federal. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. 2) violação dos direitos indígenas.000 presos políticos. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. em qualquer fase do inquérito ou do processo. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. entre outros. Desse total. a federalização encoraja firme atuação dos Estados. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. as vítimas eram professores universitários. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. Segundo Louis Henkin. A federalização. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. Importa salientar. 4) violência policial. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. sob o risco de deslocamento de competência. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. 7) discriminação racial. Dentre os casos. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. em face da sistemática até então vigente. ainda. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. uma vez mais. Além do Caso 1684. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. sem sucessos. e o caso 1835. sendo os mais contundentes o caso 1788. paradoxamente. a União. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. em 1970. Primeiramente. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. merece destaque o caso 1684. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. não é responsável em âmbito nacional. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. Contudo. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. Adicionou. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. que foi submetido no ano de 1997. da comunidade Yanomami. entretanto. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. 1) Casos de detenção arbitrária. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento.

Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. por vezes adolescentes. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis.000 a 12. ainda. ratificanda pelo Brasil em 1992. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. o que estava a levar a extinção daquela comunidade. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. e por isso sob o regime de confidencialidade. assim. à segurança. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. Em todos os 34 casos. à liberdade. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. conduzisse programas de educação. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. à liberdade. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. Recomendou. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. a plenitude de seus direitos. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. Primeiramente. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. com uma população de 10. Além do caso 7615. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais.internacional contra o Brasil. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. em 1989. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. à liberdade. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações. O povo Yanomami. não restaurando à vítima. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. 13 envolvem situações de violência rural. do direito à residência e ao movimento. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. Diante desse quadro. à segurança. Pelos denunciantes. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. 34 são relativos a violência policial. todos ocorridos a partir de 1982.000. que implica o assassinato. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. Em 1984. por completo. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. à educação. sob pressão internacional. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. Como os casos ainda encontram-se pendentes. em virtude do abuso e violência da polícia militar. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. o livre exercício do direito afetado. Esses fatos. o esgotamento dos recursos internos. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. que corresponderia ao território desses índios. Com respeito à obrigação de investigar. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. Em 1982. A impunidade viola o dever de garantir. ainda. foi levado o caso à Comissão interamericana. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. sem justificativa. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. Denunciam. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. À luz dessas considerações. à segurança. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. à integridade e à justiça. à saúde e bem-estar. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. de vítimas inocentes. no âmbito da Justiça Militar. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. na há como tecer comentários mais aprofundados. no Estado do Pará. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. Nesta denúncia. A respeito. levaram o caso à Comissão. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas.

c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. às garantias judiciais. Desses três casos. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. para que os responsáveis sejam investigados. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. sexual ou psicológico à mulher. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. vítimas de espancamentos. deflagrado a partir de 1985. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. capaz de causar morte. Recomenda-se. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. observa-se que durante o regime militar. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. no Estado do Maranhão. marcado pela violência e abuso sexual. Contudo. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. De pronto. O primeiro é o da “Candelária”. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. Na mesma direção aponta o terceiro caso. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. dezenove meninos. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. Por fim. assegurados pela Convenção Americana. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. de 1964 a 1985. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. de âmbito nacional ou internacional. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. Já no segundo período. por duas vezes a licença foi indeferida. entendeu por encaminhar o caso à Corte. entre nove e catorze anos. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. Segunda a denúncia. relativo ao processo de democratização. Requere. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. o que resultou no envio do caso à Comissão. do mesmo modo. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. por vezes. e. pela atuação conjunta dessas entidades. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. sem terem cumprido qualquer pena. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. processados e punidos. em São Paulo. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. compleição física e gravidade da infração. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. e o outro concernente ao processo de transição democrática. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. em janeiro de 2005. os que merecem relevância cinco casos. à integridade pessoal. foram vítimas dessa grave violação. assim. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. Trata-se da violência baseada no gênero. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. por grupo de extermínio. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. 3 denunciam a violência contra a mulher. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. requerem o combate à impunidade. seja na esfera pública seja na esfera privada. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. dano ou sofrimento físico. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. ainda. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. será analisado quem são os proponentes das denúncias. com o fim da impunidade. maus tratos e violência sexual. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. Além desses três casos. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. acentuado o dever do Estado investigar. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva.afronta ao direito á vida. . processar e punir os agentes responsáveis. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. sem qualquer discriminação. No período de 1991 a 2001.

contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. sociais. surge como significado fator para a proteção dos . a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. 34 envolvem violência policial. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais. líderes de trabalhadores. não são mais dos setores da classe média. mas sim pelo critério econômico. Verificou-se. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. sem qualquer liderança destacada. Já no período de 1992 a 2004. IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. estudantes. foi essencial para a aprovação da Lei 10. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. Já no segundo período. foram 67 as proposituras. Considerando o primeiro período. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. professores universitários. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. via de regra. A título ilustrativo. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. 87% dos casos examinados. e. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. sociais e culturais. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. agora. motivou o encaminhamento. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos. tortura. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. Tal como no regime militar. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. políticas. em geral. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. dos dez casos apreciados. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. nesse sentido. integrantes da classe média brasileira. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. lesões corporais. por caracterizar-se pela permanência. 90% dos casos denunciaram violência policial. 13 revelam violência rural. dos 68 casos analisados. pela profundidade e extensão de seu alcance”. 3 são denúncia contra a mulher. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. nacionais e internacionais. as vítimas. mas pessoas pores. No período do regime autoritário militar. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário.299/96. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. passa-se a analisar. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. Dessa análise. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos.Estes dados. e um menciona violação aos direitos da população indígena. a partir da democratização. por si sós. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. com o qual se conjuga um componente sócio-político. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. todos. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. pode-se extrair que no primeiro período. relativo ao processo de democratização. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. não se verifica a punição dos responsáveis. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. Nesse sentido as vítimas. haja vista que.421/2002. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. as mulheres. mas sim como uma omissão do Estado. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. Já no período de democratização. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. agora. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. as crianças e os adolescentes. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. Mister analisar. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. No entanto. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. Dessa estatística. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. pelo Poder Executivo. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. como os povos indígenas. advogados. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. Se no período de autoritarismo militar. no período de 1970 a 1992. a população negra. Não mais pelo critério político. Também notável é perceber. I) os casos de violência policial. ainda. seja no primeiro ou no segundo período. definitivamente. economistas e outros profissionais. No segundo período. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. examinar quem são as vítimas dessas violências. vendedores. culturais.

passam a integrar o Texto Constitucional. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. isto é. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. de âmbito global e regional. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. independentemente do quorum de sua aprovação. compondo o bloco de constitucionalidade. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. esses sistemas se complementam. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. todos os tratados internacionais de direitos humanos. No Brasil. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. Enfim. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. exige nova interpretação de princípios tradicionais. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. Enfatize-se que a Constituição de 1988. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. assim. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. tendo em vista que. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. como também de âmbito geral e específico. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais.direitos humanos. novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. interagindo como sistema nacional. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. já que. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. Adotando a primazia da pessoa humana. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. Atentouse. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. iniciado em 1985. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. Ademais. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). como a soberania nacional e a não-intervenção. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. vindo a contribuir para reformas internas. pode-se afirmar que. Neste sentido. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. 5º. § 2º da CF. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. Conclui-se. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. considerando a experiência brasileira. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. ao mesmo tempo. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. impondo a flexibilização e relativização desses valores. como os indivíduos e as organizações não governamentais. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. surgindo no pós-guerra. por sua vez. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. Nesta hipótese. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. com base em toda a análise desenvolvida. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. Nessa condição. ainda. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. Nesse sentido. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. Como foi demonstrado. além do Estado. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. Ao acolher o aparato internacional de proteção. são materialmente constitucionais. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. Por força do art.

um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. acrescente-se que os direitos internacionais. A ação internacional constitui. a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. elas se tornam mais visíveis. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro.internacional. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. permitindo. assim. jamais a restringir ou deliberar. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. ainda. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. nacional e internacional assegurados. . embora seja incipiente no Brasil. A sistemática internacional de proteção vem. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. por vezes. a permitir a tutela. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. salientes e públicas. ampliado. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. portanto. Em suma. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. mas também direitos internacionalmente anunciados. O conceito de cidadania se vê.

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