Direitos_Humanos - Resumo Do Livro Da Flavia Piovesan[1]

Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. ou. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções.. Canotilho afirma que “os direitos. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. 5º. O sistema jurídico define-se.as pessoas são um fim em si mesmas. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. §1º da CF/88. A interpretação das normas constitucionais advém. assim. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. isto é. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. Na realidade. ao mesmo tempo. teve consciência dela. não é uma pessoa autônoma”. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. Significa também que eles valem directamente contra a lei. ainda. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. Consagra-se. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. unifica e centraliza todo o sistema normativo.. II. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. integrantes do sistema normativo. Se. 4º. De fato. não havendo como divorciá-los. Os princípios morais. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. por meio da ampliação de direitos sociais. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. a Constituição de 1988. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. é um direito de princípios. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. (. assumindo especial propriedade. ineditamente. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. Nesta ótica. VIII e IX. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. ademais. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. nos termos do art. tampouco. Sendo assim. Implica. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. inc. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. liberdades. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. ainda. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. pois. econômicos e culturais. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. ou. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. incluindo. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. não podendo ser usadas como meios. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. por um lado. para Kant. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. Os direitos e garantias fundamentais são. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. Para Canotilho. Já no plano do constitucionalismo local. A Carta Magna de 1988 reforça. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. não são meras normas para a produção de outras normas. nos termos do art. além dos direitos civis e políticos. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser. Sendo assim.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. garantias. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. mas simplesmente se moveu perante a vida. Não são simples norma normarum. são hoje. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. O art. os direitos sociais. . mas norma normata. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. Ao tratar do tema J. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. dotados de especial força expansiva.J. assim. sendo certo. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios.II). A prevalência dos direitos humanos. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. da autodeterminação dos povos. liberdades e garantias fundamentais. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. III. desse modo. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. seja no âmbito internacional ou interno. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional.

consolidando os costumes internacionais ou. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. o que aconteceu na Convenção de Viena. haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. que são de competência do Poder Executivo. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. Como etapa formal. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. 84. por exemplo. Nos termos da Convenção de Viena. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. que os celebra. Importante ressalta que. que os aprova por meio de decreto legislativo. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. ainda. Sendo assim. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. Sendo assim. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. acordos e atos internacionais. como era então a experiência européia. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. ainda. nesta concepção. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. 52 da Convenção de Viena. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. prevenindo o abuso desse poder.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. e a do Congresso Nacional. quais sejam. nos termos do art. No Brasil. inc. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. modificando-os. Entretando. não podendo criar obrigações para os demais Estados. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. acessão. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. pelo Estado brasileiro. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. quando da assinatura. uma vez que Estados soberanos. 27 da Convenção de Viena). está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. Em geral. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. ratificação. I). por exemplo. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. sem haver uma normatização. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. CAPÍTULO IV . constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. conclusão e assinatura. Enfatize-se que os tratados são. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. ou um prazo para que o Presidente da . Para os constituintes. VIII e o art. Logo. Os direitos humanos. A Convenção de Viena determina. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. como foi. em virtude do movimento pós positivista. É o aceito definitivo. ou seja. Via de regra. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. por sua excelência. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. o art. 49. é o que prevê o art. sob a competência do Poder Executivo. adesão ou aprovação de um tratado. inc. os tratados internacionais demandam. expressão de consenso. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. concluída em 1969. compromete-se a respeitá-lo. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. convenções e acordos internacionais. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. Para o estudo do trabalho do livro. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). ao aceitá-los. 19 da Convenção de Viena. quando se sua aplicação naquele Estado”. Tal como no âmbito interno.

cedo ou tarde. em profundidade. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. qual seja. Pois bem. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. Ela. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. 5º. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. sendo de difícil caracterização a priori. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. Para Konrad Hesse. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. A Constituição assume expressamente no seu art. ao fim da Declaração de Direitos. Observe-se que a hierarquia . 5º. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. Canotilho. Para J. ao efetuar a incorporação. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. por conseguinte. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. explicitamente individuados no art. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. 5º da CF. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. enumerados e claramente elencados. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. Observe-se que. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. vagos. ao ‘texto’ da Constituição.J. A Carta de 1988. conforme art. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. Contudo. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. mas sim bastante pragmática. em especial ao princípio do art. a ruptura da situação jurídica vigente”. no parágrafo 2º do art. No dizer de Jorge Mirando. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte.. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. o chamado “bloco de constitucionalidade”. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. uma natureza de norma constitucional. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. Para Canotilho. a Carta de 1988 está a incluir. Deste modo. de sua estabilidade. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. 5º. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. o máximo de capacidade de regulamentação”.. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma.. b) os implícitos. de forma positivista. É de suma importância enfatizar que. especialmente tratando-se de norma de direito fundamental. Há que densificar. Caso ela venha a faltar.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. diferentemente da Constituição Portuguesa. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art.. 5º. 5º. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. os direitos implícitos são imprecisos. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. torna-se inevitável. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. Sendo assim. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado. Os direitos internacionais integrariam. “(. a contrario sensu. A Constituição de 1967. “(. assim. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias. 5º. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. quando. subentendidos nas regras de garantias. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. §2º da CF/88. a cada norma constitucional é preciso conferir. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. portanto. ligada a todas as outras normas. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. elásticos. Logo. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. as normas e princípios da constituição. caracterizada como cláusula constitucional aberta. §2º da CF/88. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais.

sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. bem como com a sua racionalidade e principiologia. 102. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. defende posicionamento contrário. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. §2º da CF justifica-se na medida em que. além das duas correntes já mencionadas. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. Em seu voto. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. §2º da CF em relação à Carta Magna. Em suma. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. Este tratamento diferenciado. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. O livro. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. §2º não . ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. assim. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. são normas supranacionais. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. como expressão de uma convicção. 27 da Convenção de Viena. aceita em todas as nações. em que. 5º. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. O STF. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. contudo. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. insiste-se que. porém supralegal. e um outro regime para os demais tratados internacionais. Sem o mencionado ato de denúncia. 5º. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. sem dúvida. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. por força do art. III. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. Sustenta-se. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. e que tem reflexo no art. e não das prerrogativas dos Estados. III. alínea b da CF. uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. apresentam hierarquia de norma constitucional. Contudo. pois. em verdade. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. §2º da CF/88. b da CF. Com base nestes argumentos. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. contudo com força supralegal.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. 5º. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. Observe-se que.há duas outras correntes. mas também afronta a própria Convenção de Viena. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. denominada jus cogens. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. ao revés. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. para o regime do direito internacional. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. como os fundamentos de uma sociedade internacional. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé.004. Contudo. a doutrina brasileira. Sendo assim. Em relação ao tema. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados.esta última a corrente adotada pelo STF . Acredita-se que. O fundamento utilizado para. sem os quais a inteira estrutura se romperia. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. conferido pelo art. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. Importa salientar que. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. inc. que na interpretação do art. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. Vale dizer que. 102. 5º. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei .

5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. já que o último não revogou o primeiro. . §2º da CF/88. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. Para a doutrina. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. Para os defensores da última corrente. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. 5º da CF. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. 5º da CF/88. 5º. com o advento do §3º do art. tornar-se-ão cláusulas pétreas. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. Sendo assim. Cabe apontar. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. O quorum requerido pelo §3º do art. ao clarificar a lei existente. que são os que possuem. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. que. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. Entretanto isso não ocorre no Brasil. b) os materialmente e formalmente constitucional. sem qualquer participação do Legislativo. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. defendendo a tese de que o art. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. 5º da CF. 5º. ou seja. Por força da indigitada norma. nos termos do art. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. se para a ratificação é necessário um ato complexo. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. No direito brasileiro. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. 5º. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. contudo. §4º da CF. § 4º da CF. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. Devido à peculiaridade mencionada. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. Sendo assim. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. e não o contrário. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. além de natureza material constitucional. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. §2º da CF. Sendo assim. 60. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. porém supralegal. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. Atente-se. mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. ainda. Neste último caso. 5º da CF/88. a norma será formalmente constitucional. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. qual seja. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. após a passagem por um difícil processo de aprovação. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. Contudo. Celso Lafer. que por força do § 2º do art. devendo ser este último que deve prevalecer. em dois turnos. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. não há como se admitir que. 60. Para finalizar. em face das argumentações já expostas. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado.

por força do art. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. Na Constituição da Venezuela. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. . conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. III. §§ 1º e 2º da CF. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. os mesmos têm aplicação imediata. invalidá-la. com a ratificação. Em outras palavras. mas não geram direitos subjetivos. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. na qual. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. Pela primeira. § 2º da CF/88. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. haja vista que. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. conseqüentemente. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. no plano interno”. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. prevalece a norma de direito internacional. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. 5º. a monista ou a dualista. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. porém supralegal. adicionando. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. § 1º da CF/88. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. É nesse contexto que se insere a inovação do art. “não apenas o Tribunal nacional. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. há de ser perquirir. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. ou seja. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. No Peru. 105. § 1º da CF/88. Já na sistemática da incorporação legislativa. art. §§ 2º e 3º. há a sistemática da incorporação legislativa. por atos. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. reformada em 1989. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. nos termos do art. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente.Na Constituição da Argentina. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. têm vigência imediata. uma única ordem jurídica. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. É o que se extrai da interpretação do art. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. Ora. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. Porém para o trabalho. para os tratados internacionais de direitos humanos. já no segundo caso. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. Também a Constituição do Chile. por sua vez. Na Nicarágua. os tratados obrigam diretamente os Estados. para quem. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. 5º. Ademais. qual a sistemática adotada pelo país. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. No primeiro caso. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. 5º. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. ainda. após a reforma constitucional de 1994. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. não será mais possível a sustentação da tese a qual. conforme determina o art. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. 5º. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. a da CF. 5º. inicialmente. Diante dessas duas sistemáticas. prevalece a norma interna. ações ou omissões de sua país. 5º. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. Sendo assim. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art.

em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. assim. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. por força do art. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. Logo. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. como ocorre na Constituição portuguesa. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. . de modo a ajustá-lo. complementem ou ampliem as normas constitucionais. na alemã. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. Nesse caso. §§ 2º e 3º. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. É a escolha da norma mais favorável à vítima. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. ainda. quais sejam. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. § 1º. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. além de não possuírem força hierárquica constitucional. respectivamente. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. da expedição de uma norma interna. 5º. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. Vários são os casos em que direitos. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. mas também internacional. três são as hipóteses que podem ocorrer. nunca a restringir ou deliberar. embora não previstos no âmbito nacional. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. passando a incorporar ao direito brasileiro. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. como primeira alternativa. titular do direito. em determinados casos. Sendo assim. ou c) contrariar preceitos internos. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. havendo a necessidade. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. 5º. Diante do que foi exposto. Os indivíduos tornam-se. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. na espanhola. O próprio art. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. o status de norma constitucional. a Constituição. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. na francesa. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. na mesma base territorial. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. encontram-se enumerados nesses tratados. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. refletindo a sistemática monista. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”.Em síntese. com outras. pode-se imaginar. em seu art. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. relator para o acórdão. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. b) integrar. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. todavia. portanto. representativa da categoria profissional ou econômica. Porém. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. O regime diferenciado. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. com harmonia e consonância. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. em qualquer grau. conferindo-lhes. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. acolhe a sistemática da incorporação automática. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. na holandesa.

para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. três hipóteses poderão ocorrer. na medida em que estes não são um dado. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. a militares postos fora de combate (feridos. uma invenção humana. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. Criada após a Primeira Guerra Mundial. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. em constante processo de construção e reconstrução. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. se eles são naturais e inatos. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. em casos de guerra. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. Na primeira hipótese. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. Preleciona ainda Bobbio que. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. presioneiros) e à população civil. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. e sim o de protegê-los”. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. ora reforçando sua imperatividade. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. ora adicionando novos direitos. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. Enunciado semelhante é o do art. direitos positivos. paz e segurança internacional. quanto à terceira hipótese. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. 7º da Convenção Americana. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. ainda. como na Convenção Americana. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. contudo admite não apenas uma exceção. aplicar-se-ia Constituição Federal. Por fim. Vale dizer. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. ou seja. Foi preciso. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. mas construído. náufragos. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. Observe-se que se a situação fosse inversa. Na segunda. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. . doentes. no Brasil. Pois bem. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. Pela norma. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. acrescendo apenas uma exceção. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. possuindo como finalidade promover a cooperação. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. qual seja. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. A proteção humanitária se destina. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. tanto do âmbito global quanto no regional. incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. a dívida de créditos alimentícios. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. Em todas as três hipóteses. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. Na lição de Norberto Bobbio.

especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. que haja o censo de obrigação. o direito a ser sujeito de direitos. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial. Steiner. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos.. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo. As condenações do Tribunal de Nuremberg. seja pelos líderes do partido. mas é válido apenas no plano do direito interno.. Diante dessa ruptura. porque revela tema de legítimo interesse internacional. Sendo assim. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. não resta dúvidas de que a prática de tortura. ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal. Com o advento dos institutos supramencionados. mas também sujeito do Direito Internacional.. Neste prisma. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados.. Para a existência do costume internacional. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos.. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo. Hans Kelsen.). na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. cada qual ao seu modo. Note-se que.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . da Liga das Nações e do Direito Humanitário. com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. Nesse contexto. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. de detenções arbitrárias. 38 do Estatuto da Corte Internacional. Nesse cenário.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas. juntamente com os tratados internacionais. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. assim. Os novos institutos rompem. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. pode-se concluir que tais institutos. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. lecionou o seguinte: “Contudo. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. ou seja. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada.. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). No fim do século XX. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. (. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. tem sido repensada. segundo o art. entre outras práticas. com importantes exceções”. conseqüentemente. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. com as decisões judiciais. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. ou seja. previstos no Acordo de Londres. por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. (. ainda. de desaparecimento forçado. Simultaneamente. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal. seja pelos oficiais militares. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. Com a decadência do nazismo. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. o costume internacional é fonte do direito internacional.

social e cultural. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. em 1918.. de 1948. Rússia. Conselho Econômico e Social. segurança e propriedade.)”. especialmente após a Primeira Guerra. com direito a um voto. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. Os membros permanentes são China. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. incluindo os direitos humanos. posteriormente. sociais e culturais. consagravam a ótica liberal. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Conselho de Segurança. converte-se em direito à atuação estatal. as Declarações de Direitos. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. em que os principais são: Assembléia Geral. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. França. entre outras. Para a consecução dos objetivos supramencionados. e o direito à abstenção do Estado. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. sociais e culturais. O art. complementados pela resistência à opressão. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. À luz de uma perspectiva histórica. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. titular de direitos iguais e inalienáveis. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. desde 1992. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. com suas agências especializadas. composto por quinze juízes. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. Reino Unido. que substituiu a antiga União Soviética.Após a Segunda Guerra Mundial. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. composto por vinte e sete membros. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. (. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. No final do Século XVIII. Sendo assim. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. ao consagrar valores básicos universais. à proteção das minorias. com a emergência dos direitos à prestação social. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. A não-atuação estatal significava liberdade. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento. Desde seu preâmbulo. verifica-se que. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. Neste momento histórico. Três anos após o advento da Carta das Nações.. que foi anexado à Carta. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. . O Conselho Econômico e Social. sociais e culturais. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. que é o principal funcionário administrativo da ONU. Importante salientar que. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. Corte Internacional de Justiça. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. Deste modo. Com a vitória do Aliados. ela não define o conteúdo dessas expressões. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. Caminhando na história. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que. Estados Unidos e. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. na então República Soviética da Rússia. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. A criação das Nações Unidas. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. cresce o movimento social e da cidadania. Além da universalidade dos direitos humanos. Em definitivo. ao lado do discurso liberal da cidadania. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. neste sentido. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. seja a Declaração Francesa (1789). seja a Declaração Americana (1776). as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. Conselho de Tutela e o Secretariado. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”.

nessa visão. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. No entanto. Sendo assim. o debate ganha força. a defesa. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. contudo. ao tratamento cruel. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. força jurídica vinculante. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. mas a Declaração traz a definição. Para os relativistas. desse mínimo ético.) Um relativismo cultural fraco. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. por si só.. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. à tortura. importará em violação a direitos humanos. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional.. de 1993. de maneira justa e equânime. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. pelo contrário. (. As três gerações se interagem. Para esse trabalho. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. O universalismo induz. Na análise dos relativistas. força jurídica vinculante. à destruição da diversidade cultural. por exemplo. ainda que em nome da cultura. Para essa corrente. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. único e indivisível. forte ou fraco. (. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. Considerando neste contexto.. interdependentes e inter-relacionados. Argumentam. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. “Compreendeu-se finalmente que a . que. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. que tenta universalizar suas próprias crenças. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. direitos civis e políticos. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. não apresenta força de lei. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. Nesse sentido. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. por sua vez. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. econômico. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. cultural.. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. independentemente de seu sistema político. culturais e religiosas devem ser consideradas. independentemente de seu alcance. mas é obrigação dos Estados. de outro. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. Ela não é um tratado. social e moral vigente em determinada sociedade. por sua vez. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. No entendimento de Jack Donnelly. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. há diversas correntes relativistas: “No extremo. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. econômicos e culturais. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. defensor da corrente relativista. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. O propósito da Declaração. bem como seu peculiar sistema moral. Ademais. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. como proclama seu preâmbulo. apresentando. econômicos e culturais.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. assim. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. como valor intrínseco à própria condição humana. direitos sociais. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. Exemplo é a proibição à escravidão. A Declaração de Viena. como ocorre. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. econômico. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. e cultural. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. apresentando. constante da Carta das Nações Unidas. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. indivisíveis. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas. por esse motivo. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. a Declaração Universal.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. Há. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. ainda.

haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. o sisyema global de proteção desses direitos.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. como pressuposto para um diálogo intercultural. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. Sociais e Culturais entraram em vigor. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. por exemplo. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. interamericano e. Ao revés. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura.. Inicialmente. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. “(.. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. quando falham as instituições nacionais. nos âmbitos europeu. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. alcançado por um universalismo de confluência. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. mas são incompletas. Para iniciar este estudo. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. Posteriormente. Sociais e Culturais. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. em 1951. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. como.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. sobre o genocídio. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. sob a influência dos países ocidentais. quando alcançaram o número de ratificações necessário. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. International Bill of Rights. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. os direitos econômicos. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos.. quais sejam. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. assim. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. Neste debate. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. Adotando-se a lição de Jack Donnelly. Diversamente dos tratados internacionais comuns. nas palavras do doutrinador. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. sociais e culturais. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos. posteriormente. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. sob o enfoque estritamente legalista. a Assembléia Geral. bem como que sem os direitos econômicos. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. a) Introdução O processo de universalização. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. não visam substituir o sistema nacional. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Todavia. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. africano. Primeiramente. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. a tortura e a violação dos direitos das crianças. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. O sistema global. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. que conjugava as duas categorias de direitos. por sua vez. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. discursivo de diálogo (. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos.. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos.). os direitos . com seus inúmeros instrumentos. sociais e culturais. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências.

cada qual relativo a uma categoria de direitos. Além da sistemática dos relatórios. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. Ao comitê cabe analisar os relatórios. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. o vínculo exigido. sendo adotados dois pactos internacionais. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. Contudo. ao invés da nacionalidade. para os direitos civis e políticos. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. primeiramente. das comunicações interestatais. que devem ser implementados de forma progressiva. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. . a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos.econômicos. por exemplo. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. Por essa sistemática. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. tecendo comentários e observações gerais a respeito. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). administrativas e judiciárias adotadas. religião ou origem social. adotando medidas necessárias para esse fim. além de conquista de transcendência histórica”. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. como. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. sociais e culturais são direitos programáticos. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. raça. opcional. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. sexo. para o exercício da sistemática das petições. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. Neste raciocínio. Vale dizer. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. como também estende o elenco desses direitos. bem como toda vez que o comitê solicitar. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. instituído pelo pacto. vindo posteriormente a encaminhá-lo. o sistema de petições. O pacto permite. um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. ainda. sociais e culturais. com maior detalhamento. Segundo Antônio Augusto Cançado. Contudo. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. impondo obrigações aos Estados-partes. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. língua. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. Sociais e Culturais. em se tratando de cláusula facultativa. Contudo. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. mediante proposta de solução amistosa. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. Por esse mecanismo. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. Sociais e Culturais. Ao ratificar o pacto. Resta salientar que. Em relação aos direitos econômicos. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Esse argumento ganhou força a partir de que. com os comentários. sociais e culturais seriam programáticos. limitações em relação a determinados direitos. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. sociais e culturais. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto.

não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. Sociais e Culturais. o Pacto de Direitos Econômicos. além de declarar a caracterização da violação alegada. Nos ensinamentos de Martha Jackman. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. os Estados que não satisfizeram a decisão. nesse aspecto.. após analisar a sua admissibilidade. em parte. Contudo. apresentam realização progressiva. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. trabalhista. Assim. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. ambientalista. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional.. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. econômicos e culturais. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. Porém.. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. tampouco.Ao receber a petição individual. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. Ressalte-se. O Comitê solicita informações. “Ao ratificar esta Pacto. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. o Pacto de Direitos Econômicos. os direitos econômicos. distinguir entre . por sua vez. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. o Comitê “é importante.. ao menos. permite a sistemática das comunicações individuais. sociais e culturais. devendo. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social.. ainda. que pode causar constrangimento político e moral. Ao decidir. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. As decisões do Comitê não possuem força vinculante. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. por vezes. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. repousa uma visão social do bem-estar individual. nas quais todos nós vivemos.”. mas também por diversos outros tratados internacionais. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. pela ótica normativa internacional. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. sociais e culturais. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. Como resultado de fortes pressões. para a sua aplicação. Trata-se de uma idéia adotada. Sociais e Culturais são direitos que exigem. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. sociais e culturais não são direitos legais. todavia. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. Além disso. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. Como bem observa Thomas Buergenthal. o Comitê. Contudo. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. Social e Cultural. Ao revés. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. além do que. por meio de protocolo adicional. além do que. como o direito de petição. em 1990.” ou “ninguém poderá. econômicos e culturais. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. de condições econômicas. um mínimo standart técnico-econômico. Em suma. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. mediante Protocolo Facultativo. o Comitê adotou. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados.. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. entre outros. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. até o máximo dos recursos disponíveis. Contudo. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos.”. apesar de sempre buscar uma votação unânime. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. mediante o chamado power of embarrassment.. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. por todas as nações. continua. no prazo de 180 dias. pelo menos no âmbito global. é que no Pacto Econômico.

Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. sociais e culturais. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. Até o próprio BIRD. em face de sua própria vulnerabilidade. Pala Convenção. Ao ratificar esta convenção. Na visão de Bobbio. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. mas ao indivíduo “especificado”. segundo dados da própria Nações Unidas. exclusão. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. também conhecidas como ações afirmativas. buscam responder a uma específica violação de direito. o Estado assume a obrigação internacional de. alimente ou reproduza as desigualdades”. as entidades de classe.. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. Sob o ângulo pragmático. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. c) igualdade material. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. econômicos. O processo de internacionalização dos direitos humanos. incluindo os indivíduos. em regra. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. fundamentalmente. Acrescente-se que. o qual concluiu que “(. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. Na esfera internacional. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. mas também aumentou a titularidade de direitos. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. Fico. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. considerando categorizações relativas ao gênero. Essas Convenções mencionadas apresentam. resultou um complexo sistema internacional de proteção. 1º. a discriminação significa toda distinção. etnia e demais critérios. pois. Desde o seu preâmbulo. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. Convenção contra a Tortura. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. em igualdade de condições. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. que merecem tutela especial. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. buscada na Convenção. b) a igualdade material. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. algumas sobre direitos novos. Compartilha-se. Destaca-se. raça. eliminar a discriminação racial. refletindo o próprio temor da diferença. Social and Cultural Rights. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. A igualdade. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. em recente relatório. em 21 de dezembro de 1965. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. orientada pelo critério sócio-econômico. ao menos. significa a inclusão social. além do combate à própria discriminação. mas sim para promoção de direitos. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. Convenção sobre os Direitos das Crianças. Logo a discriminação significa desigualdade. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. §4º a possibilidade de discriminação positiva. independentemente da retórica. orientação sexual. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza.) Direitos sociais. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. Não basta a legislação repressiva. assim. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”.. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. raça. idade. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. na grande maioria dos ordenamentos. alargando o conceito de sujeito de direitos. políticos. progressivamente. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. Boaventura de Sousa Santos. ou seja.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). sociais e culturais] que não poderia. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. dente outros. idade. assegurando a efetiva igualdade. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. etc. etnia. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. ser considerado como possuidor de. o sujeito é visto em sua abstração. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. No combate à discriminação. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. Percebe-se. . as organizações sindicais. Após o advento da International Bill of Rights. As violações aos direitos econômicos. orientada pelos critérios gênero. posteriormente. mister.

quais sejam. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . adicionalmente. aplicação de castigo. Quanto aos mecanismos de monitoramento. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. direta ou indiretamente. caso conclua pela existência de violação. que é. Em relação ao seu sistema de monitoramento. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. assegurando a efetiva igualdade. Contudo. o Estado assume o compromisso de. os relatórios e as comunicações interestatais. No art. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. cultural ou mesmo legal. Para que seja admitida a petição individual.buscando remediar um passado discriminatório. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. não invocando qualquer costume. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. sendo certo que. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. igualmente às decisões dos demais Comitês. desumanos ou degradantes. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. cabendo a este examinar as petições individuais. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. integral e indivisível dos direitos humanos universais. Em relação ao sistema de monitoramento. 1º da Convenção há a definição de tortura. esta Convenção estabelece os três mecanismos. bem como para realizar investigações in loco. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. Ao ratificar esta convenção. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. por sua vez. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. fazendo recomendações às partes. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. formula a sua opinião. ambos em 1975. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. dentre os direitos. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. à luz dessas informações. A Declaração estabelece. que cause morte. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. mas também alcança o domínio privado. baseado no gênero. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. As suas decisões. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. Na Convenção há a previsão em seu art. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. com o Estado. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. Apenas em 1999. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. ainda. c)a vinculação do agente ou responsável. objetivam acelerar o processo de igualdade. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. progressivamente. Em suma. embora a violência seja uma grave discriminação. são consagrados. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. Ao longo da Convenção. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. além da habilitação do Comitê. seja qual for. também são pautadas nas informações coletadas. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. as petições individuais.

Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. foram adotados. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. consciência e religião. cometidos com a intenção de destruir. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. afronta a ordem internacional. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. contudo. e considerando ainda que. em Roma. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. a opinião dos interessados. ainda. por sua gravidade. em 15 de maio de 2000. O Comitê fica autorizado. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. maiores informações sobre aquelas implementações. no que concerne à matéria dos Protocolos. é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. sejam governantes. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. Ao fazê-lo. racial ou religioso. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. um grupo nacional. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. econômicos. na devida consideração. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. para erradicar. ainda. a maioridade seja atingida mais cedo”. em face de seu alcance. a não ser que. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. Porém. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. sociais e culturais. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. tal como: a) assassinato de membros do grupo. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. pela legislação aplicável. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. respectivamente. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. políticos. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. Importa observar. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. a requerer. Apenas em 17 de julho de 1998. datado de 9 de dezembro de 1948. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. funcionários ou particulares. de forma definitiva. Pelo seu art. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. que. Vale ressaltar que. em 1993 e 1994. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. contrariamente. O art. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. levando. Note-se que a Conferência de Viena. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . o direito a um nível adequado de vida e segurança social). c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. étnico. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. 6º. Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. a prática da tortura. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. Nos termos da Convenção. no todo ou em parte. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional.

na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. competente para receber as denúncias sobre crimes. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. Timor Leste. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. tampouco importará em redução da pena. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. Kosovo. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. Pode. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. é do Estado. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. Em todas as hipóteses. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. 5º do Estatuto de Roma. em face dos genocídios que a marcaram. isto é. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. Além da sanção de natureza penal. a própria Promotoria agir de ofício. ficando. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. Nesta linha. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. conclui-se que. pois. . com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. agora. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. em 17 de julho de 1998. primeiramente. Já o sistema não-convencional. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. cumpre assinalar. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. em contraste. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. no tema do tópico. determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. o cargo oficial de uma pessoa. dentre outros. propondo a ação pena cabível. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. Neste sentido. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. de caráter permanente. ainda. entre outros. não o eximirá da responsabilidade penal. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. o 1235 e o 1503. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. a fim de que esta investigue o crime. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. ilustrativamente.direitos humanos foi revigorada na década de 90. Ruanda. examiná-las. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. Em relação às penalidades. Desse modo. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). a responsabilidade primária. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). a escolha de mecanismos não convencionais. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). como a Assembléia Geral. já mencionados. controle e garantia. em ações conflitantes no tocante aos Estados. o Conselho Econômico. Conforme o art. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. sendo novamente eleito em 2000. em último caso. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. Porém. ou seja. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. deixando de operar dentro dos Estados. Adentrando. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. II) crimes contra a humanidade. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. Por fim. Social e a Comissão de Direitos Humanos. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). o Estatuto impõe sanções de natureza civil. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes.

M. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. no sistema nãoconvencional. pela Comissão de Direitos Humanos. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. o que oferece vantagens”. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas.Vários foram os mecanismos temáticos criados. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. estabelecido em 1980. em 1950. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. 1235. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. em mecanismos convencionais e não convencionais. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. com respeito à cultura. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. que apresentam características consideravelmente diversas. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. o relator especial transmite a apelação aos governos. Fundamentalmente. pelo sistema interamericano. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. o consenso político se torna mais facilitado. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. particularmente na Europa. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. Ao lado do sistema global. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. atualmente. à língua. c) apontar um especialista independente. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. Consolida-se. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. às tradições. segundo critérios de admissibilidade. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. No sistema europeu.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. assim. Muitas regiões são ainda homogêneas. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. podendo. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. 1503. América e África. portanto. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. ainda. existindo. por vezes. Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. entre outras medidas. surge o sistema regional. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. Ao apontar as vantagens do sistema regional. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. para que seja efetivada a proteção buscada. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. de um relator especial com mandato para países específicos. A análise dos casos pode ensejar. as medidas urgentes são. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. integrado. Rhona K. 1503. possuindo. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. existir ou não em construir precedentes normativos. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. seja com relação aos textos convencionais. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. Shimth destaca que. contudo. b) manter a situação sob análise. em tese. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região.

Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. tendo em vista que. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. em que o sistema de informes é um método de controle regular. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. limitando a determinar aos Estados que alcancem. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Teoricamente. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana.. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. cultural ou econômico. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. eventualmente. do debate internacional. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. O que importa é o grau de eficácia da proteção. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. em 1998. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. superando essa obrigação negativa. Para tanto. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. a plena realização dos direitos. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra.. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. Substancialmente.Européia de Direitos Humanos. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. progressivamente. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. em relação aos direitos nela consagrado. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. podendo ser reeleito apenas uma vez. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. enquanto o instrumento regional deve ir além. a depender do caso. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos.) Por outro lado. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. apresentam o trabalho da Comissão. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. (. no sistema interamericano. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. Além de se constituir em um método para determinar atos. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. . De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. através do debate interno que eles proporcionam ou. O mais incipiente é o sistema africano. econômicos e culturais. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. mas sim complementares. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. aperfeiçoando outros. Dos três. Ambos são úteis e complementares. Ante esse universo de instrumentos internacionais. concernente aos direitos sociais. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. 3) quando os parâmetros conflitam. Posteriormente. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. e de outro. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. pelo contrário. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. adicionando novos direitos. sem qualquer discriminação. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. precisar e difundir a objetividade de uma situação.

investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. com o novo regulamento. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. após a investigação. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. em caso de extrema gravidade e urgência.. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. eventualmente. por maioria absoluta de votos. eleitos a título pessoal. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. f) protetora. nunca deveria ter sido recebido. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. a fim de promover seu respeito. ou seja. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. A petição. 44.. efetuando. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. recomendações ao Estado-parte. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório. o “controle da convencionalidade das leis”. para evitar dano irreparável à pessoa. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. b) assessora. em matéria ainda não submetida à Corte. Caso. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. assim. ou ainda entidades não governamentais. ainda. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. a Comissão buscará uma solução amistosa. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. Porém. Se anteriormente. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. sendo observado todos os casos de admissibilidade. a qualquer membro da OEA. atual presidente da Comissão Interamericana. por iniciativa própria ou mediante petição da parte. de acordo com César Sepúlveda.). será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. a Comissão. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. mediante declaração expressa e específica. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. A Corte. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. Não sendo alcançado o acordo. em retrospecto. tal decisão ficou mais vinculada. Se alcançado o acordo. Além do que foi descrito. ela pode rejeitar o caso que. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. não estando prevista a legitimação do indivíduo. Vencido o prazo. como ocorre nos sistemas globais. c) crítica. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. a Comissão poderá. o caso será submetido à Corte Interamericana. Feito o exame do caso. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. Na sua função consultiva. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. determinará a . Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. Durante esse período. Na lição de Thomas Buergenthal. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente.Conforme Hector Fix-Zamudio. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. em casos de gravidade e urgência. a Comissão julgará o mérito. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. parte ou não da convenção. salvo no caso de injustificada demora processual. “(. reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. a Comissão examinar as alegações do peticionário. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. em seu art. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. e) promotora. por exemplo. No plano consultivo. d) legitimadora. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. buscar informações do respectivo governo. adotada em 1º de maio de 2001. Em relação ao plano contencioso. de acordo com as informações disponíveis. a Corte tem desenvolvido. e toda vez que resulte necessário. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. dano uma maior tônica de juridicidade. Por fim. quando um Governo. o prévio esgotamento dos recursos internos. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. como. contra o qual se tenha apresentado queixa. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. quando além das atividades anteriores.

Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. Com a Guerra Fria. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. desenvolvimento e direitos humanos. da Constituição de 1988. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. ainda. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. assim. Neste caso. o desenvolvimento e os direitos humanos. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. técnicos e administrativos suficientes. da Convenção sobre a Eliminação de . 63 da Convenção. conquanto denunciados. III) Uma maior democratização do sistema. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. haverá uma concentração no período de democratização. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. Ainda que crescente a justicialização do sistema. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. Com exceção dos casos mais gritantes. podendo. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. como o da África do Sul. com recursos financeiros. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. Pelo art. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. Dentre os casos já decididos pela Corte. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. mas também na agenda internacional do Brasil. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. pode-se concluir que. descumprir decisões internacionais. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. Rondônia. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. a decisão valerá como título executivo. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. em 1º de fevereiro de 1984. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. embora recente a sua jurisprudência. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. os problemas de direitos humanos. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. em particular. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. poderá atuar a pedido da Comissão. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. promovido em face do Brasil. em Porto Velho. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos.

o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. por exemplo. que faça da forma mais restritiva possível. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. perante a comunidade internacional. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. O Brasil buscou. o Brasil assume. não se encontrar um acordo. ainda. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. haja vista que. ainda. .todas as formas de Discriminação contra a Mulher. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. o Brasil é o único a fazer tal declaração. Além das inovações constitucionais. Assim. Primeiramente. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. ainda. A partir da Constituição de 1988. Adicione-se. como país respeitador dos direitos humanos. ainda. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. mediante a declaração feita. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. Por fim. Sendo assim. não foi objeto de qualquer declaração. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. De todo modo. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. até porque é uma situação anacrônica. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Em razão dessa interação. Sociais e Culturais. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. no âmbito nacional. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. que estabelecem. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Aceita. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. O Brasil deve. É importante. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. ainda que em situação de emergência. Depois desse vários outros se seguiram. Acrescente-se que. por sua vez. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. se ainda assim. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. um núcleo de direitos básicos. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. quando formulá-las. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. que trouxe importantes inovações jurídicas. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. Desumanos ou Degradantes. Além da eliminação das reservas. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais.

CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. §2º da CF. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. como já abordado. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. e ratificado pelo Brasil em 2002. Viola ainda a própria Constituição Federal. que junho em 2002. De acordo com o direito internacional. Diante desse quadro. No entanto. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. Atente-se que o Brasil. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. Embora o Brasil. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. importando em responsabilização do Estado. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. em 1998.455/97. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. até abril de 1997. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. até porque. de tipificação do crime de tortura. devendo ter aplicabilidade imediata. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. que no seu art. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. desde junho de 2002. Além das providências supramencionadas. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. ocorria em Bogotá no ano de 1948. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. XLIII. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. para o Brasil. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. por força do art. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. A título de exemplo. mas também no internacional. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. 5º. em violação à própria Constituição. a responsabilidade pelas violações são da União. porém. o Brasil assumiu que. previsto pelo Estatuto de Roma. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir.Ressalte-se. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. civis e administrativas necessárias para prevenir. em 1998. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. a falta. Como já se ressaltou. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. Logo. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. 5º. até a presente data. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. punir e erradicar a violência contra a mulher. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. iria incluir em sua legislação normas penais. ainda. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. Como já mencionado anteriormente. além da omissão importar. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. verifica-se. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. ratificada pelo Brasil em 1989. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. Essa opção deveu-se ao fato de que. Para tanto. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . até o presente momento. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. não houve a elaboração de tal legislação. No âmbito do sistema regional. Deste modo. combate e erradicação da violência contra a mulher. sem demora. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. que definiu o crime de tortura. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. que ocorreu em 1998.

exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. A federalização. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. não é responsável em âmbito nacional. Primeiramente. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . Segundo Louis Henkin. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. Importa salientar. Todavia. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. 3) violência rural. já que não dispõe da competência de investigar. que na época era território federal. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. que foram privadas de sua liberdade”. 7) discriminação racial. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. que foram privadas de sua liberdade. e o caso 1835.000 presos políticos. da comunidade Yanomami. lideranças da Igreja Católica. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. Contudo. Desse total. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. introduzida pela EC 45/2004. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. sendo certo que desse universo. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. ainda. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. em 1970. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. entre outros). que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. entre outros. em 1980. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. as vítimas eram professores universitários. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. a União. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. que apontavam à prática autoritária do regime militar. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. sem sucessos. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. a federalização encoraja firme atuação dos Estados. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. em qualquer fase do inquérito ou do processo. 1) Casos de detenção arbitrária. 4) violência policial. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. que foi submetido no ano de 1997. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. sob o risco de deslocamento de competência. Além do Caso 1684. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. uma vez mais. particularmente. 2) violação dos direitos indígenas. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. nesse sentido. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. merece destaque o caso 1684. Adicionou. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. além do que. líderes de trabalhadores. há casos que já foram apreciados pela Comissão. entretanto. sendo os mais contundentes o caso 1788. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. em face da sistemática até então vigente. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. paradoxamente. Dentre os casos. Constata-se que nesses nove casos. 6) violência contra a mulher. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes.

Em 1982. e por isso sob o regime de confidencialidade.000. assim. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. ainda. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. à liberdade. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. em virtude do abuso e violência da polícia militar. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. À luz dessas considerações. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. ainda. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. no âmbito da Justiça Militar. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. 34 são relativos a violência policial. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. à liberdade. levaram o caso à Comissão. na há como tecer comentários mais aprofundados. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. de vítimas inocentes. por completo. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. à segurança. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. do direito à residência e ao movimento. todos ocorridos a partir de 1982. à liberdade. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais. o esgotamento dos recursos internos. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”.internacional contra o Brasil. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. O povo Yanomami. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. Além do caso 7615. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. Recomendou.000 a 12. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. que corresponderia ao território desses índios. Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. Primeiramente. sob pressão internacional. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. por vezes adolescentes. à integridade e à justiça. Em todos os 34 casos. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. Como os casos ainda encontram-se pendentes. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. Com respeito à obrigação de investigar. no Estado do Pará. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. sem justificativa. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. que implica o assassinato. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. A impunidade viola o dever de garantir. à educação. à segurança. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. foi levado o caso à Comissão interamericana. não restaurando à vítima. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. à saúde e bem-estar. ratificanda pelo Brasil em 1992. 13 envolvem situações de violência rural. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. o livre exercício do direito afetado. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. Esses fatos. com uma população de 10. conduzisse programas de educação. A respeito. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da .299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações. Pelos denunciantes. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. Diante desse quadro. à segurança. Denunciam. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. a plenitude de seus direitos. Em 1984. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. Nesta denúncia. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. em 1989. o que estava a levar a extinção daquela comunidade.

dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. sexual ou psicológico à mulher. dezenove meninos. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. Desses três casos. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. entendeu por encaminhar o caso à Corte. ainda. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. vítimas de espancamentos. assim. Na mesma direção aponta o terceiro caso. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. dano ou sofrimento físico. o que resultou no envio do caso à Comissão. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil.afronta ao direito á vida. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. capaz de causar morte. Já no segundo período. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. de âmbito nacional ou internacional. pela atuação conjunta dessas entidades. entre nove e catorze anos. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. no Estado do Maranhão. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. Segunda a denúncia. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. assegurados pela Convenção Americana. Requere. e o outro concernente ao processo de transição democrática. por vezes. foram vítimas dessa grave violação. Contudo. sem qualquer discriminação. do mesmo modo. Além desses três casos. compleição física e gravidade da infração. sem terem cumprido qualquer pena. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. para que os responsáveis sejam investigados. à integridade pessoal. requerem o combate à impunidade. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. seja na esfera pública seja na esfera privada. Por fim. e. Recomenda-se. 3 denunciam a violência contra a mulher. relativo ao processo de democratização. os que merecem relevância cinco casos. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. com o fim da impunidade. No período de 1991 a 2001. de 1964 a 1985. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. por duas vezes a licença foi indeferida. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. em janeiro de 2005. deflagrado a partir de 1985. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. O primeiro é o da “Candelária”. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). em São Paulo. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. processar e punir os agentes responsáveis. processados e punidos. observa-se que durante o regime militar. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. às garantias judiciais. Trata-se da violência baseada no gênero. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. De pronto. será analisado quem são os proponentes das denúncias. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. . c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. maus tratos e violência sexual. marcado pela violência e abuso sexual. por grupo de extermínio. acentuado o dever do Estado investigar.

não se verifica a punição dos responsáveis. Verificou-se. lesões corporais. as crianças e os adolescentes. tortura. No segundo período. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. agora. todos. Dessa análise. I) os casos de violência policial. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. Tal como no regime militar. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. sem qualquer liderança destacada. No período do regime autoritário militar. A título ilustrativo. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares.421/2002. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. sociais e culturais. Não mais pelo critério político. políticas. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. Já no período de democratização. motivou o encaminhamento. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. Já no segundo período. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. e. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. como os povos indígenas. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. 87% dos casos examinados. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. mas pessoas pores. líderes de trabalhadores. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. no período de 1970 a 1992. definitivamente. Nesse sentido as vítimas. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. surge como significado fator para a proteção dos . IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. as vítimas. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. por caracterizar-se pela permanência. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. vendedores. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. professores universitários. foram 67 as proposituras. dos 68 casos analisados. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. por si sós. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. dos dez casos apreciados. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. examinar quem são as vítimas dessas violências. mas sim pelo critério econômico. passa-se a analisar. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. nesse sentido. ainda. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. mas sim como uma omissão do Estado. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. a partir da democratização. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. advogados. agora. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. estudantes. e um menciona violação aos direitos da população indígena. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. as mulheres. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. Dessa estatística. foi essencial para a aprovação da Lei 10. via de regra. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. pelo Poder Executivo. com o qual se conjuga um componente sócio-político. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. sociais. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. Mister analisar. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. 3 são denúncia contra a mulher. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. Considerando o primeiro período. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. em geral. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. culturais. pode-se extrair que no primeiro período. relativo ao processo de democratização. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. a população negra.Estes dados. pela profundidade e extensão de seu alcance”. haja vista que. No entanto. economistas e outros profissionais. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. Já no período de 1992 a 2004. Também notável é perceber. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. 13 revelam violência rural. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos.299/96. integrantes da classe média brasileira. seja no primeiro ou no segundo período. 34 envolvem violência policial. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. não são mais dos setores da classe média. nacionais e internacionais. Se no período de autoritarismo militar. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. 90% dos casos denunciaram violência policial.

Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. por sua vez. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Enfim. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. No Brasil. iniciado em 1985. vindo a contribuir para reformas internas. como a soberania nacional e a não-intervenção. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. Enfatize-se que a Constituição de 1988. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. considerando a experiência brasileira. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . passam a integrar o Texto Constitucional. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. são materialmente constitucionais. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. assim. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. ao mesmo tempo. como também de âmbito geral e específico. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. todos os tratados internacionais de direitos humanos. isto é. Ao acolher o aparato internacional de proteção. impondo a flexibilização e relativização desses valores. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. já que. Neste sentido. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88.direitos humanos. Nesta hipótese. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. Atentouse. tendo em vista que. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. ainda. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. esses sistemas se complementam. como os indivíduos e as organizações não governamentais. além do Estado. Nesse sentido. § 2º da CF. Adotando a primazia da pessoa humana. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. Por força do art. Ademais. independentemente do quorum de sua aprovação. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. pode-se afirmar que. surgindo no pós-guerra. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. exige nova interpretação de princípios tradicionais. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. com base em toda a análise desenvolvida. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). compondo o bloco de constitucionalidade. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. Nessa condição. de âmbito global e regional. Como foi demonstrado. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. interagindo como sistema nacional. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. 5º. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. Conclui-se.

elas se tornam mais visíveis. embora seja incipiente no Brasil. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. A sistemática internacional de proteção vem. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. A ação internacional constitui. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. por vezes. tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. portanto. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. nacional e internacional assegurados. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. salientes e públicas. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. . Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. a permitir a tutela.internacional. jamais a restringir ou deliberar. permitindo. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. mas também direitos internacionalmente anunciados. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. acrescente-se que os direitos internacionais. ampliado. assim. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. O conceito de cidadania se vê. ainda. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. Em suma.

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