Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. VIII e IX. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. ou.J. . mas norma normata. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. Consagra-se. liberdades e garantias fundamentais. não são meras normas para a produção de outras normas. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. Significa também que eles valem directamente contra a lei. garantias. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. não havendo como divorciá-los. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. III. integrantes do sistema normativo. econômicos e culturais. II. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. §1º da CF/88. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. liberdades. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais. são hoje. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. O art. Se. ou. por um lado.as pessoas são um fim em si mesmas. tampouco. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. Sendo assim.II). Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. ainda. nos termos do art. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. De fato. ineditamente. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. Já no plano do constitucionalismo local. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. Para Canotilho. 5º. ainda.. A interpretação das normas constitucionais advém. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. 4º. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. Os princípios morais. pois. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. para Kant. Na realidade. A Carta Magna de 1988 reforça. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. inc. ao mesmo tempo. desse modo. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. Não são simples norma normarum. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. seja no âmbito internacional ou interno. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. não podendo ser usadas como meios. Nesta ótica. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. Ao tratar do tema J. Canotilho afirma que “os direitos. por meio da ampliação de direitos sociais. incluindo. isto é. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. (. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. dotados de especial força expansiva. Sendo assim. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. mas simplesmente se moveu perante a vida. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. sendo certo. os direitos sociais. a Constituição de 1988. A prevalência dos direitos humanos. além dos direitos civis e políticos. não é uma pessoa autônoma”. O sistema jurídico define-se. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. da autodeterminação dos povos. unifica e centraliza todo o sistema normativo. teve consciência dela. assim. assim. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. Os direitos e garantias fundamentais são.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. assumindo especial propriedade. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. Implica. ademais. é um direito de princípios. nos termos do art.

que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. que os celebra. ratificação. 52 da Convenção de Viena. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. 49. ou seja. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. quando se sua aplicação naquele Estado”. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. que os aprova por meio de decreto legislativo. conclusão e assinatura. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. adesão ou aprovação de um tratado. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. nesta concepção. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. É o aceito definitivo. ao aceitá-los. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. sob a competência do Poder Executivo. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. por sua excelência. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. por exemplo. Importante ressalta que. Enfatize-se que os tratados são. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. I).Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. Sendo assim. como foi. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. Logo. Como etapa formal. No Brasil. VIII e o art. nos termos do art. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. inc. é o que prevê o art. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. Para os constituintes. Em geral. quais sejam. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. CAPÍTULO IV . o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. acessão. o que aconteceu na Convenção de Viena. haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. Para o estudo do trabalho do livro. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. inc. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. prevenindo o abuso desse poder. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. em virtude do movimento pós positivista. por exemplo. Tal como no âmbito interno. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. o art. expressão de consenso. e a do Congresso Nacional. pelo Estado brasileiro. Os direitos humanos. convenções e acordos internacionais. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. uma vez que Estados soberanos. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. que são de competência do Poder Executivo. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. compromete-se a respeitá-lo. ou um prazo para que o Presidente da . Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. Sendo assim. ainda. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. 19 da Convenção de Viena. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. sem haver uma normatização. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. modificando-os. não podendo criar obrigações para os demais Estados. acordos e atos internacionais. como era então a experiência européia. 84. Nos termos da Convenção de Viena. Entretando. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. concluída em 1969. Via de regra. ainda. consolidando os costumes internacionais ou. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. A Convenção de Viena determina. quando da assinatura. os tratados internacionais demandam. 27 da Convenção de Viena). A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo.

explicitamente individuados no art. Os direitos internacionais integrariam. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. Ela. Canotilho. ao fim da Declaração de Direitos. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. elásticos. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. em especial ao princípio do art. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. enumerados e claramente elencados. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados.. a Carta de 1988 está a incluir. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. conforme art. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. no parágrafo 2º do art. 5º. por conseguinte. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. Observe-se que. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. diferentemente da Constituição Portuguesa. ao ‘texto’ da Constituição. torna-se inevitável.J. “(. 5º. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. 5º da CF. uma natureza de norma constitucional. a contrario sensu. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. caracterizada como cláusula constitucional aberta. É de suma importância enfatizar que. A Carta de 1988. Há que densificar. mas sim bastante pragmática. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. “(. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. a cada norma constitucional é preciso conferir. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. A Constituição assume expressamente no seu art. Para Konrad Hesse. Logo. subentendidos nas regras de garantias.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. No dizer de Jorge Mirando. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. Deste modo. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. especialmente tratando-se de norma de direito fundamental. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. de forma positivista. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma. Caso ela venha a faltar. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. quando.. §2º da CF/88. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias. §2º da CF/88. a ruptura da situação jurídica vigente”. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado.. assim. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. portanto. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. vagos. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. os direitos implícitos são imprecisos. 5º. o máximo de capacidade de regulamentação”. ligada a todas as outras normas. ao efetuar a incorporação. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. de sua estabilidade. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. 5º. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. Pois bem. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. em profundidade. b) os implícitos. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. 5º. Para J.. Observe-se que a hierarquia . especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. qual seja. Sendo assim. 5º. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. as normas e princípios da constituição. A Constituição de 1967. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. sendo de difícil caracterização a priori. cedo ou tarde. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. Para Canotilho. o chamado “bloco de constitucionalidade”. Contudo.

em que.004. a doutrina brasileira. como os fundamentos de uma sociedade internacional. que na interpretação do art. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. alínea b da CF. aceita em todas as nações. em verdade. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. 102. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra.esta última a corrente adotada pelo STF . e não das prerrogativas dos Estados. bem como com a sua racionalidade e principiologia. 102. Contudo. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. b da CF. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. como expressão de uma convicção. §2º da CF/88. uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. Acredita-se que. 5º. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. 5º. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. porém supralegal. pois. são normas supranacionais. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. e um outro regime para os demais tratados internacionais. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. contudo. 5º. O fundamento utilizado para. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. Sustenta-se.há duas outras correntes. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. conferido pelo art. denominada jus cogens. Este tratamento diferenciado. mas também afronta a própria Convenção de Viena. por força do art. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. para o regime do direito internacional. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. §2º da CF justifica-se na medida em que. inc. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. Contudo. sem dúvida. além das duas correntes já mencionadas. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. apresentam hierarquia de norma constitucional. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. Em relação ao tema. Vale dizer que. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. §2º da CF em relação à Carta Magna. sem os quais a inteira estrutura se romperia. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. §2º não . Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. Importa salientar que. assim. Observe-se que. 5º. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. Em seu voto. Em suma. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. e que tem reflexo no art. III. defende posicionamento contrário. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. III. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. O STF. O livro. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. Com base nestes argumentos.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. contudo com força supralegal. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. Sendo assim. insiste-se que. ao revés. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. Sem o mencionado ato de denúncia. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. 27 da Convenção de Viena. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional.

Sendo assim. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. em dois turnos. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. §2º da CF/88. Contudo. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. devendo ser este último que deve prevalecer. qual seja. Para os defensores da última corrente. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. 5º. §2º da CF. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. 5º da CF. 5º. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. que são os que possuem. Sendo assim. que. 5º da CF/88. Neste último caso. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. a norma será formalmente constitucional. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. não há como se admitir que. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. Atente-se. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. 5º da CF. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. contudo. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. Por força da indigitada norma. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. após a passagem por um difícil processo de aprovação. 5º. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. sem qualquer participação do Legislativo. tornar-se-ão cláusulas pétreas. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. § 4º da CF. nos termos do art. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. se para a ratificação é necessário um ato complexo. Para finalizar. . mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. 5º da CF/88. com o advento do §3º do art. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. que por força do § 2º do art. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. defendendo a tese de que o art. Sendo assim. já que o último não revogou o primeiro. mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. ainda. Cabe apontar. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. além de natureza material constitucional. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. O quorum requerido pelo §3º do art. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. ou seja. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. e não o contrário. ao clarificar a lei existente. §4º da CF. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. porém supralegal. Devido à peculiaridade mencionada. em face das argumentações já expostas. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. No direito brasileiro. 60. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. b) os materialmente e formalmente constitucional. Para a doutrina. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. Celso Lafer. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. 60. Entretanto isso não ocorre no Brasil.

com a ratificação. Sendo assim. § 2º da CF/88. por atos. Porém para o trabalho. há a sistemática da incorporação legislativa. para quem. ações ou omissões de sua país. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. Pela primeira. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. haja vista que. prevalece a norma de direito internacional. Em outras palavras. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. No primeiro caso. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. após a reforma constitucional de 1994. 5º. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. adicionando. Na Constituição da Venezuela. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. §§ 2º e 3º. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. uma única ordem jurídica. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. É o que se extrai da interpretação do art. Na Nicarágua. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. invalidá-la. ainda. 5º. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. porém supralegal. prevalece a norma interna. já no segundo caso. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. inicialmente. conforme determina o art. os mesmos têm aplicação imediata. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. a da CF. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista.Na Constituição da Argentina. É nesse contexto que se insere a inovação do art. reformada em 1989. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. para os tratados internacionais de direitos humanos. No Peru. têm vigência imediata. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. Também a Constituição do Chile. por sua vez. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. no plano interno”. conseqüentemente. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. 5º. 5º. 5º. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. ou seja. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. não será mais possível a sustentação da tese a qual. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. por força do art. § 1º da CF/88. “não apenas o Tribunal nacional. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. § 1º da CF/88. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. qual a sistemática adotada pelo país. . d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente. §§ 1º e 2º da CF. a monista ou a dualista. Ademais. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. na qual. Já na sistemática da incorporação legislativa. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. Diante dessas duas sistemáticas. 5º. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. Ora. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. 105. nos termos do art. III. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. há de ser perquirir. mas não geram direitos subjetivos. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. art. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. os tratados obrigam diretamente os Estados. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna.

em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. como primeira alternativa. mas também internacional. havendo a necessidade. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. com outras. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. em determinados casos. na alemã. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. conferindo-lhes. § 1º.Em síntese. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. b) integrar. . todavia. Vários são os casos em que direitos. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. além de não possuírem força hierárquica constitucional. na holandesa. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. a Constituição. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. passando a incorporar ao direito brasileiro. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. em qualquer grau. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. 5º. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. complementem ou ampliem as normas constitucionais. embora não previstos no âmbito nacional. Os indivíduos tornam-se. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. na francesa. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. O regime diferenciado. o status de norma constitucional. em seu art. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. respectivamente. portanto. Diante do que foi exposto. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. na espanhola. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. ainda. refletindo a sistemática monista. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. nunca a restringir ou deliberar. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. representativa da categoria profissional ou econômica. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. §§ 2º e 3º. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. 5º. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. Nesse caso. encontram-se enumerados nesses tratados. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. Porém. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. Sendo assim. relator para o acórdão. assim. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. É a escolha da norma mais favorável à vítima. titular do direito. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. O próprio art. pode-se imaginar. acolhe a sistemática da incorporação automática. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. de modo a ajustá-lo. da expedição de uma norma interna. com harmonia e consonância. quais sejam. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. na mesma base territorial. ou c) contrariar preceitos internos. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. três são as hipóteses que podem ocorrer. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. Logo. por força do art. como ocorre na Constituição portuguesa.

O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. a dívida de créditos alimentícios. qual seja. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. Por fim. tanto do âmbito global quanto no regional. ainda. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. direitos positivos. Pois bem. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. náufragos. ora adicionando novos direitos. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. como na Convenção Americana. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. A proteção humanitária se destina. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. doentes. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. se eles são naturais e inatos. no Brasil. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. 7º da Convenção Americana. a militares postos fora de combate (feridos. Vale dizer.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. Observe-se que se a situação fosse inversa. Na primeira hipótese. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. e sim o de protegê-los”. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. Na segunda. uma invenção humana. incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. Foi preciso. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. ou seja. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. Criada após a Primeira Guerra Mundial. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. paz e segurança internacional.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. mas construído. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. na medida em que estes não são um dado. Preleciona ainda Bobbio que. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. . conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. em casos de guerra. em constante processo de construção e reconstrução. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. Em todas as três hipóteses. contudo admite não apenas uma exceção. três hipóteses poderão ocorrer. aplicar-se-ia Constituição Federal. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. quanto à terceira hipótese. presioneiros) e à população civil. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. acrescendo apenas uma exceção. Pela norma. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. Enunciado semelhante é o do art. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. possuindo como finalidade promover a cooperação. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. Na lição de Norberto Bobbio. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. ora reforçando sua imperatividade.

não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. de detenções arbitrárias. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra... 38 do Estatuto da Corte Internacional. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. entre outras práticas. da Liga das Nações e do Direito Humanitário. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. (. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. Hans Kelsen. previstos no Acordo de Londres. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. de desaparecimento forçado. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos.. assim. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. que haja o censo de obrigação. cada qual ao seu modo. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. com as decisões judiciais. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. Para a existência do costume internacional. Com a decadência do nazismo. Simultaneamente. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica.). ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. seja pelos oficiais militares. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. Steiner.. porque revela tema de legítimo interesse internacional. o costume internacional é fonte do direito internacional. juntamente com os tratados internacionais. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei.. Nesse contexto. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. Neste prisma. Sendo assim. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. seja pelos líderes do partido. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas. ainda. As condenações do Tribunal de Nuremberg. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes.. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. Nesse cenário. lecionou o seguinte: “Contudo. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. Com o advento dos institutos supramencionados. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. Os novos institutos rompem. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. ou seja. (. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. conseqüentemente. tem sido repensada. não resta dúvidas de que a prática de tortura. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. pode-se concluir que tais institutos.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. o direito a ser sujeito de direitos. No fim do século XX. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. Diante dessa ruptura. ou seja. Note-se que. com importantes exceções”. mas é válido apenas no plano do direito interno. mas também sujeito do Direito Internacional. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. segundo o art.

promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. cresce o movimento social e da cidadania. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. Conselho Econômico e Social. Três anos após o advento da Carta das Nações. A não-atuação estatal significava liberdade. Rússia.Após a Segunda Guerra Mundial. com direito a um voto. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. em que os principais são: Assembléia Geral. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. Os membros permanentes são China. entre outras. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. sociais e culturais. posteriormente. neste sentido. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. À luz de uma perspectiva histórica. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. de 1948. e o direito à abstenção do Estado. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. consagravam a ótica liberal. Estados Unidos e. . Reino Unido. O art. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. desde 1992. com suas agências especializadas. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. O Conselho Econômico e Social. que substituiu a antiga União Soviética. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. (. incluindo os direitos humanos. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. composto por quinze juízes. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. sociais e culturais. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. sociais e culturais. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. Conselho de Segurança.)”. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. Com a vitória do Aliados. composto por vinte e sete membros. Caminhando na história. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. No final do Século XVIII. ao lado do discurso liberal da cidadania. Neste momento histórico. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. complementados pela resistência à opressão. as Declarações de Direitos. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. Deste modo. especialmente após a Primeira Guerra. converte-se em direito à atuação estatal. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. seja a Declaração Americana (1776).. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. A criação das Nações Unidas. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. que foi anexado à Carta. Para a consecução dos objetivos supramencionados. Conselho de Tutela e o Secretariado. ao consagrar valores básicos universais. Sendo assim. com a emergência dos direitos à prestação social. segurança e propriedade. Corte Internacional de Justiça. à proteção das minorias. que é o principal funcionário administrativo da ONU. Em definitivo. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. Importante salientar que. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. verifica-se que. Desde seu preâmbulo. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. Além da universalidade dos direitos humanos. titular de direitos iguais e inalienáveis. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. seja a Declaração Francesa (1789). viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. na então República Soviética da Rússia. social e cultural. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. ela não define o conteúdo dessas expressões.. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. em 1918. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que. França.

defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. defensor da corrente relativista. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. como ocorre. importará em violação a direitos humanos. há diversas correntes relativistas: “No extremo. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. Na análise dos relativistas. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. direitos civis e políticos. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. direitos sociais. nessa visão. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. por exemplo. independentemente de seu alcance. como valor intrínseco à própria condição humana. a Declaração Universal. por sua vez. Nesse sentido. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. constante da Carta das Nações Unidas. a defesa. ainda. No entanto. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas.. força jurídica vinculante. ao tratamento cruel. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. (. interdependentes e inter-relacionados. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. econômicos e culturais. à destruição da diversidade cultural... indivisíveis. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. No entendimento de Jack Donnelly. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. Para os relativistas. econômico. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. que.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. A Declaração de Viena. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. mas é obrigação dos Estados. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. de 1993. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. Há. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. apresentando. contudo. por sua vez. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. (. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. o debate ganha força. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. desse mínimo ético. As três gerações se interagem. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo.. por esse motivo. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais. independentemente de seu sistema político. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. apresentando. Para essa corrente. à tortura. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. força jurídica vinculante. “Compreendeu-se finalmente que a . c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. que tenta universalizar suas próprias crenças. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. cultural. pelo contrário. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. O propósito da Declaração. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. O universalismo induz. mas a Declaração traz a definição. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. de maneira justa e equânime. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. ainda que em nome da cultura. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. Ela não é um tratado. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. Ademais. por si só. social e moral vigente em determinada sociedade. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. e cultural. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. econômicos e culturais. assim. Sendo assim.) Um relativismo cultural fraco. Para esse trabalho. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. forte ou fraco.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. Considerando neste contexto. de outro. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. Argumentam. como proclama seu preâmbulo. bem como seu peculiar sistema moral. único e indivisível. econômico. culturais e religiosas devem ser consideradas. Exemplo é a proibição à escravidão. não apresenta força de lei.

destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. Adotando-se a lição de Jack Donnelly. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. por exemplo. quando falham as instituições nacionais. em 1951. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências. nas palavras do doutrinador. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal. Posteriormente. os direitos econômicos. quais sejam. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. International Bill of Rights. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. O sistema global. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. sociais e culturais. o sisyema global de proteção desses direitos. sob o enfoque estritamente legalista. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. Ao revés. mas são incompletas. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos.. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. sob a influência dos países ocidentais. sobre o genocídio. os direitos . a Assembléia Geral. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. Sociais e Culturais. bem como que sem os direitos econômicos. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. africano. “(.. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. quando alcançaram o número de ratificações necessário. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. Todavia. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. Primeiramente. sociais e culturais. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. Neste debate. como. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. a) Introdução O processo de universalização. Sociais e Culturais entraram em vigor. alcançado por um universalismo de confluência.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. não visam substituir o sistema nacional. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos.). discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. por sua vez. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. que conjugava as duas categorias de direitos. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. nos âmbitos europeu. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. a tortura e a violação dos direitos das crianças. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. Diversamente dos tratados internacionais comuns. discursivo de diálogo (... respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. assim. posteriormente. interamericano e. Para iniciar este estudo. com seus inúmeros instrumentos. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. como pressuposto para um diálogo intercultural. Inicialmente. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana.

econômicos. um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. como. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. Em relação aos direitos econômicos. Ao comitê cabe analisar os relatórios. Contudo. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. o vínculo exigido. Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. Sociais e Culturais. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional. Por essa sistemática. Por esse mecanismo. em se tratando de cláusula facultativa. vindo posteriormente a encaminhá-lo. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. Neste raciocínio. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. língua. O pacto permite. com maior detalhamento. sociais e culturais. Sociais e Culturais. como também estende o elenco desses direitos. Segundo Antônio Augusto Cançado. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. ainda. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). tecendo comentários e observações gerais a respeito. bem como toda vez que o comitê solicitar. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. instituído pelo pacto. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. Contudo. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Vale dizer. opcional. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. além de conquista de transcendência histórica”. por exemplo. ao invés da nacionalidade. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. Ao ratificar o pacto. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. religião ou origem social. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. . mediante proposta de solução amistosa. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. raça. com os comentários. administrativas e judiciárias adotadas. sexo. cada qual relativo a uma categoria de direitos. para os direitos civis e políticos. sendo adotados dois pactos internacionais. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. impondo obrigações aos Estados-partes. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. Contudo. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. limitações em relação a determinados direitos. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. sociais e culturais são direitos programáticos. o sistema de petições. das comunicações interestatais. primeiramente. Esse argumento ganhou força a partir de que. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. para o exercício da sistemática das petições. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. que devem ser implementados de forma progressiva. sociais e culturais. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. Além da sistemática dos relatórios. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. Resta salientar que. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. adotando medidas necessárias para esse fim. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). sociais e culturais seriam programáticos. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto.

devendo. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. trabalhista. por vezes. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. no prazo de 180 dias. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. Como bem observa Thomas Buergenthal. Contudo. Como resultado de fortes pressões. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. Trata-se de uma idéia adotada. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. o Pacto de Direitos Econômicos. ainda. o Comitê “é importante. Contudo. como o direito de petição. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. por todas as nações.”. nas quais todos nós vivemos. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . sociais e culturais não são direitos legais. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a.Ao receber a petição individual. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. As decisões do Comitê não possuem força vinculante. entre outros. todavia. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. mediante o chamado power of embarrassment. até o máximo dos recursos disponíveis. um mínimo standart técnico-econômico. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. pela ótica normativa internacional. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. Ressalte-se. em parte. mediante Protocolo Facultativo. Nos ensinamentos de Martha Jackman.. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. Além disso. apesar de sempre buscar uma votação unânime. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos. O Comitê solicita informações. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social.”. Sociais e Culturais. o Comitê adotou. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. continua. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. para a sua aplicação. o Comitê. distinguir entre . sociais e culturais. Assim. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. Ao decidir. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. apresentam realização progressiva. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. permite a sistemática das comunicações individuais. os direitos econômicos. Contudo. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. por meio de protocolo adicional. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. além do que. após analisar a sua admissibilidade. além do que. por sua vez. Em suma. Ao revés. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. pelo menos no âmbito global. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. mas também por diversos outros tratados internacionais. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. o Pacto de Direitos Econômicos. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais.. em 1990.. sociais e culturais. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. econômicos e culturais. Sociais e Culturais são direitos que exigem. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes.. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. os Estados que não satisfizeram a decisão. repousa uma visão social do bem-estar individual. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. Social e Cultural. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. além de declarar a caracterização da violação alegada. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. ao menos. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados.. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. de condições econômicas. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. “Ao ratificar esta Pacto. que pode causar constrangimento político e moral. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. econômicos e culturais.. ambientalista.. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. nesse aspecto. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. Porém. é que no Pacto Econômico. tampouco. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado.” ou “ninguém poderá. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos.

conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. considerando categorizações relativas ao gênero. idade. orientada pelos critérios gênero. dente outros. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. alargando o conceito de sujeito de direitos. a discriminação significa toda distinção. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. Acrescente-se que. b) a igualdade material. refletindo o próprio temor da diferença. Na esfera internacional. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. Destaca-se. ou seja. §4º a possibilidade de discriminação positiva. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. o Estado assume a obrigação internacional de. ser considerado como possuidor de. Social and Cultural Rights.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). econômicos. Sob o ângulo pragmático. assegurando a efetiva igualdade. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral.. etnia. independentemente da retórica. mas também aumentou a titularidade de direitos. etc. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. As violações aos direitos econômicos. o qual concluiu que “(. raça. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. políticos.) Direitos sociais. buscada na Convenção. fundamentalmente. mas sim para promoção de direitos. Logo a discriminação significa desigualdade. posteriormente. em recente relatório. . do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. c) igualdade material. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. as entidades de classe. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. Pala Convenção. em igualdade de condições. raça. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. segundo dados da própria Nações Unidas. que merecem tutela especial. orientação sexual. Compartilha-se. etnia e demais critérios. também conhecidas como ações afirmativas. orientada pelo critério sócio-econômico. o sujeito é visto em sua abstração. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. No combate à discriminação. alimente ou reproduza as desigualdades”. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. ao menos. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. Até o próprio BIRD. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. na grande maioria dos ordenamentos. algumas sobre direitos novos. mas ao indivíduo “especificado”. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. Após o advento da International Bill of Rights. A igualdade. exclusão. Ao ratificar esta convenção. além do combate à própria discriminação. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. assim. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado.. Convenção sobre os Direitos das Crianças. em face de sua própria vulnerabilidade. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. em regra. sociais e culturais] que não poderia. Boaventura de Sousa Santos. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. significa a inclusão social. Percebe-se. Convenção contra a Tortura. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. as organizações sindicais. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. Desde o seu preâmbulo. resultou um complexo sistema internacional de proteção. pois. em 21 de dezembro de 1965. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. eliminar a discriminação racial. idade. Não basta a legislação repressiva. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. mister. progressivamente. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. sociais e culturais. Essas Convenções mencionadas apresentam. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. O processo de internacionalização dos direitos humanos. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. Fico. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. buscam responder a uma específica violação de direito. 1º. Na visão de Bobbio. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. incluindo os indivíduos.

com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. esta Convenção estabelece os três mecanismos. direta ou indiretamente. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. quais sejam. também são pautadas nas informações coletadas. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades.buscando remediar um passado discriminatório. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. c)a vinculação do agente ou responsável. adicionalmente. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. sendo certo que. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. Para que seja admitida a petição individual. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. as petições individuais. bem como para realizar investigações in loco. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. à luz dessas informações. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). Em relação ao seu sistema de monitoramento. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. caso conclua pela existência de violação. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. o Estado assume o compromisso de. aplicação de castigo. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. mas também alcança o domínio privado. objetivam acelerar o processo de igualdade. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. Na Convenção há a previsão em seu art. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). Em suma. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. dentre os direitos. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. que cause morte. progressivamente. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. No art. ambos em 1975. assegurando a efetiva igualdade. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. integral e indivisível dos direitos humanos universais. fazendo recomendações às partes. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. As suas decisões. não invocando qualquer costume. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. embora a violência seja uma grave discriminação. que é. ainda. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. igualmente às decisões dos demais Comitês. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. Quanto aos mecanismos de monitoramento. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. Contudo. cabendo a este examinar as petições individuais. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. Ao longo da Convenção. Em relação ao sistema de monitoramento. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. além da habilitação do Comitê. os relatórios e as comunicações interestatais. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. cultural ou mesmo legal. seja qual for. baseado no gênero. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. são consagrados. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. formula a sua opinião. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. 1º da Convenção há a definição de tortura. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. Ao ratificar esta convenção. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. desumanos ou degradantes. Apenas em 1999. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. por sua vez. com o Estado. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. A Declaração estabelece.

contrariamente. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. políticos. no que concerne à matéria dos Protocolos. econômicos. Ao fazê-lo. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. na devida consideração. em face de seu alcance. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. Pelo seu art. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. Vale ressaltar que. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. foram adotados.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. tal como: a) assassinato de membros do grupo. por sua gravidade. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. afronta a ordem internacional. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. Apenas em 17 de julho de 1998. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. que. em 15 de maio de 2000. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. contudo. no todo ou em parte. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. um grupo nacional. respectivamente. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. para erradicar. e considerando ainda que. sejam governantes. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. cometidos com a intenção de destruir. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. Porém. consciência e religião. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. racial ou religioso. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. maiores informações sobre aquelas implementações. Importa observar. Nos termos da Convenção. a não ser que. a requerer. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. étnico. ainda. Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. em 1993 e 1994. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. ainda. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). em Roma. pela legislação aplicável. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. datado de 9 de dezembro de 1948. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. O Comitê fica autorizado. 6º. funcionários ou particulares. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. sociais e culturais. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. O art. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. a maioridade seja atingida mais cedo”. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. a opinião dos interessados. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. de forma definitiva. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. a prática da tortura. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. Note-se que a Conferência de Viena. levando. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados.

Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. o Conselho Econômico. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. no tema do tópico. de caráter permanente. a própria Promotoria agir de ofício. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. isto é. controle e garantia. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. em ações conflitantes no tocante aos Estados. em último caso. Em todas as hipóteses. pois. seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. ou seja. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). em contraste. o 1235 e o 1503. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. não o eximirá da responsabilidade penal. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). deixando de operar dentro dos Estados. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. a escolha de mecanismos não convencionais. Timor Leste. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. ilustrativamente. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. Kosovo. a fim de que esta investigue o crime. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. Por fim. é do Estado. . III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. em 17 de julho de 1998. II) crimes contra a humanidade. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. propondo a ação pena cabível. já mencionados. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. cumpre assinalar. Social e a Comissão de Direitos Humanos. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. Em relação às penalidades. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. primeiramente. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. ficando. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. como a Assembléia Geral. ainda. Adentrando. Além da sanção de natureza penal. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. agora. Ruanda. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. a responsabilidade primária. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência.direitos humanos foi revigorada na década de 90. competente para receber as denúncias sobre crimes. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. Desse modo. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. tampouco importará em redução da pena. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. Porém. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. 5º do Estatuto de Roma. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. Nesta linha. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. sendo novamente eleito em 2000. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. dentre outros. em face dos genocídios que a marcaram. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. examiná-las. conclui-se que. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. Conforme o art. Neste sentido. Pode. o cargo oficial de uma pessoa. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. Já o sistema não-convencional. entre outros. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio).

seja quanto aos mecanismos de monitoramento. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. contudo. b) manter a situação sob análise. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. pelo sistema interamericano. Shimth destaca que. existindo. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. podendo. ainda. surge o sistema regional. assim. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. em tese. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. segundo critérios de admissibilidade. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. 1503. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). atualmente. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. às tradições. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. 1503. estabelecido em 1980. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. Consolida-se. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. M. existir ou não em construir precedentes normativos. que apresentam características consideravelmente diversas. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. Ao lado do sistema global. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. portanto. por vezes.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. integrado. entre outras medidas. o consenso político se torna mais facilitado. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. seja com relação aos textos convencionais. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. com respeito à cultura. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. em mecanismos convencionais e não convencionais. em 1950. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. particularmente na Europa. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. de um relator especial com mandato para países específicos. Muitas regiões são ainda homogêneas. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. 1235. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. Ao apontar as vantagens do sistema regional. A análise dos casos pode ensejar. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. as medidas urgentes são. o que oferece vantagens”. possuindo. para que seja efetivada a proteção buscada. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. Rhona K. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. América e África. pela Comissão de Direitos Humanos. No sistema europeu. Fundamentalmente. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. o relator especial transmite a apelação aos governos. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. à língua. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. c) apontar um especialista independente. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. no sistema nãoconvencional. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos.Vários foram os mecanismos temáticos criados.

Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. cultural ou econômico. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. Para tanto. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. Dos três. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. podendo ser reeleito apenas uma vez. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. “diversamente do que ocorre no âmbito universal.. (. do debate internacional. aperfeiçoando outros. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. Substancialmente. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. e de outro. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. no sistema interamericano. superando essa obrigação negativa. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas.) Por outro lado. . precisar e difundir a objetividade de uma situação. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. apresentam o trabalho da Comissão. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global.. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. sem qualquer discriminação. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. mas sim complementares. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. a depender do caso. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. tendo em vista que. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O mais incipiente é o sistema africano. Teoricamente. O que importa é o grau de eficácia da proteção. enquanto o instrumento regional deve ir além. através do debate interno que eles proporcionam ou. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana. em relação aos direitos nela consagrado. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. a plena realização dos direitos. em 1998. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. em que o sistema de informes é um método de controle regular. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. concernente aos direitos sociais. Ante esse universo de instrumentos internacionais. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. Posteriormente. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados.Européia de Direitos Humanos. progressivamente. adicionando novos direitos. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. pelo contrário. Ambos são úteis e complementares. limitando a determinar aos Estados que alcancem. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. eventualmente. 3) quando os parâmetros conflitam. econômicos e culturais. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. Além de se constituir em um método para determinar atos.

A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. f) protetora. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. ou ainda entidades não governamentais.). a Comissão julgará o mérito. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. atual presidente da Comissão Interamericana. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. eventualmente. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. No plano consultivo. Além do que foi descrito. a Comissão examinar as alegações do peticionário. em retrospecto. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. para evitar dano irreparável à pessoa. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. nunca deveria ter sido recebido. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório. 44. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. quando além das atividades anteriores. tal decisão ficou mais vinculada. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. ela pode rejeitar o caso que. a qualquer membro da OEA. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. parte ou não da convenção. após a investigação. buscar informações do respectivo governo. como ocorre nos sistemas globais. d) legitimadora. Porém. e toda vez que resulte necessário. Na sua função consultiva. Se alcançado o acordo. em matéria ainda não submetida à Corte. salvo no caso de injustificada demora processual. ou seja. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. com o novo regulamento. recomendações ao Estado-parte. adotada em 1º de maio de 2001. contra o qual se tenha apresentado queixa. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. como. mediante declaração expressa e específica.. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. Por fim. por maioria absoluta de votos. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. determinará a . Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. em seu art. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. Não sendo alcançado o acordo. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. Na lição de Thomas Buergenthal. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. sendo observado todos os casos de admissibilidade. a Comissão poderá. de acordo com as informações disponíveis. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. a Comissão buscará uma solução amistosa. b) assessora. em caso de extrema gravidade e urgência. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. A Corte. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. por exemplo. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. efetuando. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. Caso. o caso será submetido à Corte Interamericana. Durante esse período. de acordo com César Sepúlveda. eleitos a título pessoal. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. o “controle da convencionalidade das leis”. A petição. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. Feito o exame do caso. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. por iniciativa própria ou mediante petição da parte. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. a Comissão.. quando um Governo. dano uma maior tônica de juridicidade. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. a Corte tem desenvolvido.Conforme Hector Fix-Zamudio. Em relação ao plano contencioso. c) crítica. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. a fim de promover seu respeito. e) promotora. em casos de gravidade e urgência. Se anteriormente. ainda. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. “(. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. o prévio esgotamento dos recursos internos. não estando prevista a legitimação do indivíduo. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. assim. Vencido o prazo.

o desenvolvimento e os direitos humanos. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. mas também na agenda internacional do Brasil. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. da Constituição de 1988. embora recente a sua jurisprudência. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. Pelo art. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. conquanto denunciados. com recursos financeiros. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. poderá atuar a pedido da Comissão. em 1º de fevereiro de 1984. pode-se concluir que. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. técnicos e administrativos suficientes. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. ainda. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. Ainda que crescente a justicialização do sistema. em particular. a decisão valerá como título executivo. Rondônia. os problemas de direitos humanos. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. assim. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. Dentre os casos já decididos pela Corte. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. desenvolvimento e direitos humanos. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. em Porto Velho. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. Com a Guerra Fria. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. Com exceção dos casos mais gritantes. Neste caso. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. descumprir decisões internacionais. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. haverá uma concentração no período de democratização. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. podendo. promovido em face do Brasil.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. como o da África do Sul. da Convenção sobre a Eliminação de . A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. 63 da Convenção. III) Uma maior democratização do sistema.

é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. não se encontrar um acordo. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. o Brasil é o único a fazer tal declaração. ainda que em situação de emergência. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. Depois desse vários outros se seguiram. . de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. De todo modo. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. que trouxe importantes inovações jurídicas. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. que faça da forma mais restritiva possível. Sociais e Culturais. Em razão dessa interação. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. Assim. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. não foi objeto de qualquer declaração. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. O Brasil buscou. Além das inovações constitucionais. no âmbito nacional. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. por sua vez. Além da eliminação das reservas. se ainda assim. Primeiramente. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. ainda. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. até porque é uma situação anacrônica. por exemplo. A partir da Constituição de 1988. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. como país respeitador dos direitos humanos. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. o Brasil assume. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. um núcleo de direitos básicos. Adicione-se. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. ainda. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. ainda. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. mediante a declaração feita. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. Desumanos ou Degradantes. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. Aceita. perante a comunidade internacional. Por fim. ainda. É importante. quando formulá-las. Acrescente-se que. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. haja vista que. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. que estabelecem. O Brasil deve. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. Sendo assim. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher.

por força do art. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. em 1998. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. importando em responsabilização do Estado. combate e erradicação da violência contra a mulher. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. Essa opção deveu-se ao fato de que. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. Como já se ressaltou. 5º. iria incluir em sua legislação normas penais. a falta. ainda. que junho em 2002. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. em 1998. Viola ainda a própria Constituição Federal. de tipificação do crime de tortura. Para tanto. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. a responsabilidade pelas violações são da União. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. desde junho de 2002. De acordo com o direito internacional. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. sem demora. Logo. Como já mencionado anteriormente. punir e erradicar a violência contra a mulher. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. até a presente data. porém. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. No âmbito do sistema regional. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. o Brasil assumiu que. que ocorreu em 1998. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. mas também no internacional. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. até o presente momento. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. além da omissão importar. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. civis e administrativas necessárias para prevenir. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. ratificada pelo Brasil em 1989. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. XLIII. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. até porque. devendo ter aplicabilidade imediata. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. que definiu o crime de tortura. Embora o Brasil. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. que no seu art. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. §2º da CF. ocorria em Bogotá no ano de 1948. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. em violação à própria Constituição. não houve a elaboração de tal legislação. como já abordado. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. previsto pelo Estatuto de Roma. No entanto. Atente-se que o Brasil. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. 5º.Ressalte-se. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. Diante desse quadro. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. verifica-se.455/97. e ratificado pelo Brasil em 2002. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. Deste modo. A título de exemplo. Além das providências supramencionadas. para o Brasil. até abril de 1997.

que apontavam à prática autoritária do regime militar. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. já que não dispõe da competência de investigar. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. sem sucessos. Desse total. em face da sistemática até então vigente. sob o risco de deslocamento de competência. não é responsável em âmbito nacional. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. uma vez mais. entre outros). Todavia. que foram privadas de sua liberdade”. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. ainda. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. introduzida pela EC 45/2004. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. 2) violação dos direitos indígenas. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. lideranças da Igreja Católica. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. em qualquer fase do inquérito ou do processo. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. Segundo Louis Henkin. que foi submetido no ano de 1997. entretanto. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. Contudo. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. a federalização encoraja firme atuação dos Estados. líderes de trabalhadores. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. que foram privadas de sua liberdade. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. particularmente. A federalização. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. Dentre os casos. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. há casos que já foram apreciados pela Comissão. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. nesse sentido. 4) violência policial. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. 1) Casos de detenção arbitrária. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. as vítimas eram professores universitários. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. que na época era território federal. paradoxamente. Além do Caso 1684. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. Importa salientar. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. da comunidade Yanomami. Adicionou. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. em 1970. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. merece destaque o caso 1684. e o caso 1835. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. 6) violência contra a mulher. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. 3) violência rural.000 presos políticos. a União. além do que. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. sendo certo que desse universo. Primeiramente. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. entre outros. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. Constata-se que nesses nove casos. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. sendo os mais contundentes o caso 1788. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. em 1980. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. 7) discriminação racial. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República.

Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. à segurança. A respeito. com uma população de 10. e por isso sob o regime de confidencialidade. à saúde e bem-estar. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. Em todos os 34 casos. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. levaram o caso à Comissão. sem justificativa. 34 são relativos a violência policial. Recomendou. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. Denunciam. na há como tecer comentários mais aprofundados. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. à liberdade.000 a 12. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. conduzisse programas de educação. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. A impunidade viola o dever de garantir. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. Com respeito à obrigação de investigar. a plenitude de seus direitos. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. ainda. por vezes adolescentes. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. em virtude do abuso e violência da polícia militar. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. que implica o assassinato. em 1989. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. Primeiramente. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais. o que estava a levar a extinção daquela comunidade. do direito à residência e ao movimento. Diante desse quadro. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. no âmbito da Justiça Militar. ratificanda pelo Brasil em 1992. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso.000. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. Nesta denúncia. Em 1982. de vítimas inocentes. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. à segurança. sob pressão internacional. 13 envolvem situações de violência rural. À luz dessas considerações. à educação. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. o livre exercício do direito afetado. Além do caso 7615. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir.internacional contra o Brasil. Em 1984. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. ainda. assim. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. à liberdade. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. no Estado do Pará. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. Esses fatos. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. Como os casos ainda encontram-se pendentes. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. o esgotamento dos recursos internos. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. Pelos denunciantes. à integridade e à justiça. foi levado o caso à Comissão interamericana. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. não restaurando à vítima. que corresponderia ao território desses índios. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. por completo. à liberdade. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. O povo Yanomami.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. todos ocorridos a partir de 1982. à segurança.

culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. processados e punidos. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. dezenove meninos. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. no Estado do Maranhão. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. . será analisado quem são os proponentes das denúncias. Na mesma direção aponta o terceiro caso. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. e o outro concernente ao processo de transição democrática. observa-se que durante o regime militar. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. sexual ou psicológico à mulher. Por fim. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. ainda.afronta ao direito á vida. sem terem cumprido qualquer pena. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. por duas vezes a licença foi indeferida. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. por grupo de extermínio. requerem o combate à impunidade. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. Já no segundo período. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. acentuado o dever do Estado investigar. relativo ao processo de democratização. em São Paulo. por vezes. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. de âmbito nacional ou internacional. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. seja na esfera pública seja na esfera privada. assim. e. sem qualquer discriminação. Desses três casos. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. capaz de causar morte. para que os responsáveis sejam investigados. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. Requere. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. compleição física e gravidade da infração. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. os que merecem relevância cinco casos. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. às garantias judiciais. foram vítimas dessa grave violação. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. maus tratos e violência sexual. entre nove e catorze anos. dano ou sofrimento físico. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. No período de 1991 a 2001. deflagrado a partir de 1985. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil. Recomenda-se. vítimas de espancamentos. Segunda a denúncia. pela atuação conjunta dessas entidades. Trata-se da violência baseada no gênero. à integridade pessoal. do mesmo modo. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. processar e punir os agentes responsáveis. assegurados pela Convenção Americana. O primeiro é o da “Candelária”. o que resultou no envio do caso à Comissão. com o fim da impunidade. 3 denunciam a violência contra a mulher. marcado pela violência e abuso sexual. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. Contudo. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. Além desses três casos. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. De pronto. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. de 1964 a 1985. entendeu por encaminhar o caso à Corte. em janeiro de 2005.

ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. passa-se a analisar. Não mais pelo critério político. examinar quem são as vítimas dessas violências.299/96. surge como significado fator para a proteção dos . é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. Considerando o primeiro período. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. as mulheres. pela profundidade e extensão de seu alcance”. Já no segundo período. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. as crianças e os adolescentes. não são mais dos setores da classe média. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. professores universitários. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. Verificou-se. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. sociais e culturais. agora. vendedores. Já no período de democratização. nesse sentido. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. motivou o encaminhamento. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. 3 são denúncia contra a mulher. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. mas pessoas pores. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. a população negra. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. seja no primeiro ou no segundo período. foi essencial para a aprovação da Lei 10. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. ainda. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. I) os casos de violência policial. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. lesões corporais. culturais. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. por caracterizar-se pela permanência. pelo Poder Executivo. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. advogados. Dessa análise. tortura. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. agora. dos dez casos apreciados. Nesse sentido as vítimas. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. dos 68 casos analisados. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. mas sim como uma omissão do Estado. 34 envolvem violência policial. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. No entanto. nacionais e internacionais. sociais. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. via de regra. por si sós. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. 90% dos casos denunciaram violência policial. Também notável é perceber. Se no período de autoritarismo militar. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. A título ilustrativo. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. como os povos indígenas. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. e um menciona violação aos direitos da população indígena. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. e. integrantes da classe média brasileira. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. líderes de trabalhadores. haja vista que. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. as vítimas. definitivamente. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais.421/2002. relativo ao processo de democratização. No segundo período. 13 revelam violência rural. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. estudantes. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. foram 67 as proposituras. Dessa estatística. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. todos. a partir da democratização. 87% dos casos examinados. pode-se extrair que no primeiro período.Estes dados. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. políticas. No período do regime autoritário militar. no período de 1970 a 1992. em geral. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. sem qualquer liderança destacada. Já no período de 1992 a 2004. economistas e outros profissionais. mas sim pelo critério econômico. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. Mister analisar. não se verifica a punição dos responsáveis. com o qual se conjuga um componente sócio-político. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. Tal como no regime militar.

novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. isto é. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. surgindo no pós-guerra. além do Estado. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. com base em toda a análise desenvolvida. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. interagindo como sistema nacional. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. § 2º da CF. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. Nesse sentido. como os indivíduos e as organizações não governamentais. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. No Brasil. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. Como foi demonstrado. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. Ademais. Adotando a primazia da pessoa humana. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. 5º. por sua vez. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. todos os tratados internacionais de direitos humanos. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. assim. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). Enfim. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. exige nova interpretação de princípios tradicionais. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. pode-se afirmar que. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. considerando a experiência brasileira. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. passam a integrar o Texto Constitucional. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. já que. Por força do art. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. são materialmente constitucionais. impondo a flexibilização e relativização desses valores. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. iniciado em 1985. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. esses sistemas se complementam. ainda. Ao acolher o aparato internacional de proteção. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. ao mesmo tempo. de âmbito global e regional. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. Enfatize-se que a Constituição de 1988. como também de âmbito geral e específico. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. tendo em vista que. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . independentemente do quorum de sua aprovação. Neste sentido. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. Nessa condição.direitos humanos. compondo o bloco de constitucionalidade. vindo a contribuir para reformas internas. Conclui-se. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. como a soberania nacional e a não-intervenção. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. Nesta hipótese. Atentouse. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância.

nacional e internacional assegurados. ampliado. por vezes. permitindo. assim. ainda. embora seja incipiente no Brasil. Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. a permitir a tutela. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. jamais a restringir ou deliberar. Em suma. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. A sistemática internacional de proteção vem. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. A ação internacional constitui. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. mas também direitos internacionalmente anunciados. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. . a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. O conceito de cidadania se vê. portanto.internacional. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. acrescente-se que os direitos internacionais. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. salientes e públicas. elas se tornam mais visíveis. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos.

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