Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. seja no âmbito internacional ou interno. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. A interpretação das normas constitucionais advém. pois. os direitos sociais. unifica e centraliza todo o sistema normativo. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. A prevalência dos direitos humanos. inc. Canotilho afirma que “os direitos. Sendo assim. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. §1º da CF/88. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. 5º. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. econômicos e culturais. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. assumindo especial propriedade. ou. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. Implica. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. Sendo assim. assim.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. a Constituição de 1988. incluindo. são hoje. dotados de especial força expansiva. por um lado. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. para Kant. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. O sistema jurídico define-se.II). que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa.as pessoas são um fim em si mesmas. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. teve consciência dela. é um direito de princípios. ainda. VIII e IX.. não são meras normas para a produção de outras normas. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. O art. Os princípios morais.. não havendo como divorciá-los. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. (. assim. Ao tratar do tema J. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser.J. mas norma normata. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. Se. isto é. Já no plano do constitucionalismo local. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. além dos direitos civis e políticos. ineditamente. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. II. Os direitos e garantias fundamentais são. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. A Carta Magna de 1988 reforça. De fato. integrantes do sistema normativo. garantias. . na medida em que salvaguardam valores fundamentais. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. nos termos do art. por meio da ampliação de direitos sociais. não é uma pessoa autônoma”. liberdades e garantias fundamentais. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. sendo certo. Significa também que eles valem directamente contra a lei. mas simplesmente se moveu perante a vida. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Na realidade. III. Não são simples norma normarum. ademais. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. desse modo. nos termos do art. tampouco. liberdades. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. da autodeterminação dos povos. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. ainda. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. Nesta ótica. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. 4º. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. não podendo ser usadas como meios. Para Canotilho. Consagra-se. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. ao mesmo tempo. ou. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios.

Logo. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. os tratados internacionais demandam. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. sob a competência do Poder Executivo. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. inc. adesão ou aprovação de um tratado. haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. e a do Congresso Nacional. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. conclusão e assinatura.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. Em geral. que são de competência do Poder Executivo. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. como foi. Importante ressalta que. Os direitos humanos. Entretando. não podendo criar obrigações para os demais Estados. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. nesta concepção. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. Para o estudo do trabalho do livro. por sua excelência. Sendo assim. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. consolidando os costumes internacionais ou. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. 49. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. A Convenção de Viena determina. I). acordos e atos internacionais. quando se sua aplicação naquele Estado”. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. inc. sem haver uma normatização. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. quais sejam. No Brasil. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). prevenindo o abuso desse poder. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. em virtude do movimento pós positivista. ou seja. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. VIII e o art. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. o art. Para os constituintes. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. convenções e acordos internacionais. 84. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. ao aceitá-los. É o aceito definitivo. que os aprova por meio de decreto legislativo. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. Como etapa formal. nos termos do art. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. pelo Estado brasileiro. Nos termos da Convenção de Viena. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. 19 da Convenção de Viena. quando da assinatura. Sendo assim. ratificação. acessão. CAPÍTULO IV . 52 da Convenção de Viena. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. ainda. constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. concluída em 1969. que os celebra. ainda. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. compromete-se a respeitá-lo. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. ou um prazo para que o Presidente da . Enfatize-se que os tratados são. 27 da Convenção de Viena). por exemplo. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. modificando-os. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. o que aconteceu na Convenção de Viena. Tal como no âmbito interno. uma vez que Estados soberanos. como era então a experiência européia. expressão de consenso. é o que prevê o art. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. Via de regra. por exemplo. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José.

Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. No dizer de Jorge Mirando. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. subentendidos nas regras de garantias.. quando. no parágrafo 2º do art. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias. o máximo de capacidade de regulamentação”. Logo. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. ligada a todas as outras normas. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. em especial ao princípio do art. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. os direitos implícitos são imprecisos. a contrario sensu. cedo ou tarde. Para Canotilho. Observe-se que a hierarquia . Caso ela venha a faltar. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma. conforme art. ao efetuar a incorporação. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. Canotilho.. a cada norma constitucional é preciso conferir. 5º.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. A Constituição de 1967. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. 5º. sendo de difícil caracterização a priori. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. assim. uma natureza de norma constitucional. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. o chamado “bloco de constitucionalidade”. Os direitos internacionais integrariam.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. diferentemente da Constituição Portuguesa. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. especialmente tratando-se de norma de direito fundamental. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. A Carta de 1988. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. Para J. elásticos. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. “(. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. 5º. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. Pois bem.. a Carta de 1988 está a incluir. Para Konrad Hesse. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. ao fim da Declaração de Direitos. por conseguinte. Deste modo. ao ‘texto’ da Constituição. b) os implícitos. em profundidade.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. portanto. 5º. §2º da CF/88. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. Ela. Observe-se que. qual seja. enumerados e claramente elencados.J. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. 5º. as normas e princípios da constituição. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. Há que densificar. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. a ruptura da situação jurídica vigente”. “(. 5º. Sendo assim. torna-se inevitável. §2º da CF/88. 5º da CF. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. de sua estabilidade. vagos. É de suma importância enfatizar que.. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. caracterizada como cláusula constitucional aberta. Contudo. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. mas sim bastante pragmática. de forma positivista. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. explicitamente individuados no art. A Constituição assume expressamente no seu art.

Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . Sem o mencionado ato de denúncia. Em suma. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados. uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. defende posicionamento contrário. porém supralegal. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. 5º. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. Sustenta-se. sem os quais a inteira estrutura se romperia. alínea b da CF. 102. ao revés. III. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. contudo com força supralegal. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. para o regime do direito internacional. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. O STF. Contudo. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. apresentam hierarquia de norma constitucional. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. e um outro regime para os demais tratados internacionais. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. Sendo assim. Acredita-se que. contudo. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. 5º. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. a doutrina brasileira. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. §2º da CF/88. sem dúvida. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. denominada jus cogens. 5º. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. 5º. como expressão de uma convicção. 27 da Convenção de Viena. além das duas correntes já mencionadas. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). §2º da CF em relação à Carta Magna. inc. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. b da CF. e não das prerrogativas dos Estados. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. como os fundamentos de uma sociedade internacional.esta última a corrente adotada pelo STF . aceita em todas as nações. Em relação ao tema. pois. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. insiste-se que. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. §2º da CF justifica-se na medida em que.há duas outras correntes. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. que na interpretação do art. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. Observe-se que. 102. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. Vale dizer que. Este tratamento diferenciado. Com base nestes argumentos. em que. III. bem como com a sua racionalidade e principiologia. Contudo. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado.004. Importa salientar que. O livro. Em seu voto. conferido pelo art. por força do art. são normas supranacionais. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. O fundamento utilizado para. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. mas também afronta a própria Convenção de Viena. em verdade. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. e que tem reflexo no art. assim. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. §2º não .

mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. que por força do § 2º do art. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. Contudo. que são os que possuem. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. 5º da CF/88. Para a doutrina. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. e não o contrário. Atente-se. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. Por força da indigitada norma. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. Devido à peculiaridade mencionada. devendo ser este último que deve prevalecer. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. 5º da CF/88. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. com o advento do §3º do art. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. além de natureza material constitucional. que. Neste último caso. 5º. já que o último não revogou o primeiro. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. Para os defensores da última corrente. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. defendendo a tese de que o art. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. porém supralegal. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. 5º da CF. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. No direito brasileiro. 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. 5º. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. b) os materialmente e formalmente constitucional. Sendo assim. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. Celso Lafer. §2º da CF. . embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. ou seja. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. após a passagem por um difícil processo de aprovação. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. 60. mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. em face das argumentações já expostas.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. contudo. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. Sendo assim. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. Cabe apontar. 5º da CF. se para a ratificação é necessário um ato complexo. sem qualquer participação do Legislativo. Sendo assim. §4º da CF. ainda. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. não há como se admitir que. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. Entretanto isso não ocorre no Brasil. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. a norma será formalmente constitucional. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. tornar-se-ão cláusulas pétreas. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. § 4º da CF. O quorum requerido pelo §3º do art. em dois turnos. ao clarificar a lei existente. §2º da CF/88. 60. qual seja. 5º. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. Para finalizar. nos termos do art.

enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. com a ratificação. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. há de ser perquirir. É o que se extrai da interpretação do art. Também a Constituição do Chile. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. 105. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. nos termos do art. já no segundo caso. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. §§ 2º e 3º. ou seja. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. “não apenas o Tribunal nacional. conforme determina o art. conseqüentemente. por atos. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. Diante dessas duas sistemáticas. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. inicialmente. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. uma única ordem jurídica. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. os mesmos têm aplicação imediata. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. por força do art. Sendo assim. É nesse contexto que se insere a inovação do art. após a reforma constitucional de 1994. prevalece a norma de direito internacional. invalidá-la. no plano interno”. qual a sistemática adotada pelo país. Já na sistemática da incorporação legislativa. 5º. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. prevalece a norma interna. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte.Na Constituição da Argentina. têm vigência imediata. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. na qual. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. para os tratados internacionais de direitos humanos. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. por sua vez. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. a monista ou a dualista. 5º. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. § 2º da CF/88. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. porém supralegal. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. a da CF. . se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. Porém para o trabalho. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. No Peru. ações ou omissões de sua país. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. 5º. há a sistemática da incorporação legislativa. Na Nicarágua. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. art. 5º. No primeiro caso. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. adicionando. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. haja vista que. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. § 1º da CF/88. Ora. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. mas não geram direitos subjetivos. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. não será mais possível a sustentação da tese a qual. reformada em 1989. Pela primeira. para quem. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. Em outras palavras. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. §§ 1º e 2º da CF. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. § 1º da CF/88. Ademais. os tratados obrigam diretamente os Estados. III. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. 5º. Na Constituição da Venezuela. ainda. 5º. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais.

na holandesa. ainda. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. conferindo-lhes. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. Vários são os casos em que direitos. além de não possuírem força hierárquica constitucional. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. §§ 2º e 3º. complementem ou ampliem as normas constitucionais. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. com harmonia e consonância. Diante do que foi exposto. 5º. O regime diferenciado. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro.Em síntese. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. três são as hipóteses que podem ocorrer. como primeira alternativa. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. na alemã. b) integrar. em seu art. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. Os indivíduos tornam-se. refletindo a sistemática monista. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. É a escolha da norma mais favorável à vítima. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. portanto. Logo. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. por força do art. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. de modo a ajustá-lo. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. embora não previstos no âmbito nacional. com outras. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. encontram-se enumerados nesses tratados. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. quais sejam. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. respectivamente. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. na mesma base territorial. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. o status de norma constitucional. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. todavia. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. ou c) contrariar preceitos internos. Porém. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. em determinados casos. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. nunca a restringir ou deliberar. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. acolhe a sistemática da incorporação automática. mas também internacional. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. na espanhola. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. 5º. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. titular do direito. § 1º. em qualquer grau. O próprio art. havendo a necessidade. Sendo assim. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. passando a incorporar ao direito brasileiro. da expedição de uma norma interna. como ocorre na Constituição portuguesa. a Constituição. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. assim. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. . Nesse caso. pode-se imaginar. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. relator para o acórdão. representativa da categoria profissional ou econômica. na francesa.

em casos de guerra. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Enunciado semelhante é o do art. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. acrescendo apenas uma exceção. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. e sim o de protegê-los”. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. Criada após a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. ainda. possuindo como finalidade promover a cooperação. aplicar-se-ia Constituição Federal. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. quanto à terceira hipótese. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. Pela norma. A proteção humanitária se destina. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. 7º da Convenção Americana. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. Foi preciso. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . três hipóteses poderão ocorrer. Pois bem. uma invenção humana. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. . a dívida de créditos alimentícios. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. ora reforçando sua imperatividade. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. náufragos. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. se eles são naturais e inatos. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. ou seja. como na Convenção Americana. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. direitos positivos. Preleciona ainda Bobbio que. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. qual seja. Por fim. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. na medida em que estes não são um dado. Na lição de Norberto Bobbio. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. ora adicionando novos direitos. doentes. a militares postos fora de combate (feridos. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. em constante processo de construção e reconstrução. tanto do âmbito global quanto no regional. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. contudo admite não apenas uma exceção. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. presioneiros) e à população civil. Vale dizer. Na segunda. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. paz e segurança internacional. mas construído. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. Em todas as três hipóteses. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. no Brasil. Na primeira hipótese. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. Observe-se que se a situação fosse inversa. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais.

na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. mas é válido apenas no plano do direito interno. ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal.. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. seja pelos líderes do partido. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal. Diante dessa ruptura. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . o pósguerra deveria significar sua reconstrução. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”.. previstos no Acordo de Londres. segundo o art. o costume internacional é fonte do direito internacional. conseqüentemente. Note-se que. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. Hans Kelsen. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo. pode-se concluir que tais institutos. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. Nesse cenário. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. com as decisões judiciais. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. que haja o censo de obrigação. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. Neste prisma.. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. Os novos institutos rompem. Para a existência do costume internacional.. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. Steiner. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. ou seja. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. Simultaneamente. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo. juntamente com os tratados internacionais.). mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática. cada qual ao seu modo. de desaparecimento forçado. tem sido repensada. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. No fim do século XX. As condenações do Tribunal de Nuremberg. 38 do Estatuto da Corte Internacional. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. mas também sujeito do Direito Internacional. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial. Sendo assim. lecionou o seguinte: “Contudo. seja pelos oficiais militares. entre outras práticas. ou seja. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. (. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. de detenções arbitrárias. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. assim. o direito a ser sujeito de direitos. com importantes exceções”. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. não resta dúvidas de que a prática de tortura. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. ainda. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. (. porque revela tema de legítimo interesse internacional.. Com o advento dos institutos supramencionados. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. Nesse contexto.. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. Com a decadência do nazismo. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. da Liga das Nações e do Direito Humanitário. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada.

. social e cultural. converte-se em direito à atuação estatal.)”. de 1948. na então República Soviética da Rússia. (. em que os principais são: Assembléia Geral. ao lado do discurso liberal da cidadania. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. segurança e propriedade. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. desde 1992. que substituiu a antiga União Soviética. composto por quinze juízes. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. cresce o movimento social e da cidadania. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. composto por vinte e sete membros. Caminhando na história. Corte Internacional de Justiça. No final do Século XVIII. e o direito à abstenção do Estado. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. A não-atuação estatal significava liberdade. Além da universalidade dos direitos humanos. Reino Unido. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. especialmente após a Primeira Guerra. que foi anexado à Carta. O art. Conselho de Tutela e o Secretariado. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. incluindo os direitos humanos. Estados Unidos e. sociais e culturais. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. A criação das Nações Unidas. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. consagravam a ótica liberal. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral.. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. ela não define o conteúdo dessas expressões. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. ao consagrar valores básicos universais. neste sentido. titular de direitos iguais e inalienáveis. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. Para a consecução dos objetivos supramencionados. à proteção das minorias. sociais e culturais. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. sociais e culturais. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. que é o principal funcionário administrativo da ONU. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. Desde seu preâmbulo. Conselho de Segurança. Importante salientar que. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. as Declarações de Direitos. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. Conselho Econômico e Social. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. Com a vitória do Aliados. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Sendo assim. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. seja a Declaração Francesa (1789). A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. . o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. com suas agências especializadas. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. Rússia. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. em 1918. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. verifica-se que. entre outras. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. À luz de uma perspectiva histórica. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que. com a emergência dos direitos à prestação social. O Conselho Econômico e Social. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais.Após a Segunda Guerra Mundial. seja a Declaração Americana (1776). foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. Neste momento histórico. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. Três anos após o advento da Carta das Nações. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. Em definitivo. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. posteriormente. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. Deste modo. complementados pela resistência à opressão. França. Os membros permanentes são China. com direito a um voto.

a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. apresentando. nessa visão. defensor da corrente relativista. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. pelo contrário. Na análise dos relativistas. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. Nesse sentido. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. No entanto. econômicos e culturais. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. O propósito da Declaração. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais.. independentemente de seu sistema político. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. bem como seu peculiar sistema moral. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. econômico. que tenta universalizar suas próprias crenças. desse mínimo ético. que. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. social e moral vigente em determinada sociedade. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. como ocorre. a Declaração Universal. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. No entendimento de Jack Donnelly. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. a defesa. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. por sua vez. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. ao tratamento cruel. (. de maneira justa e equânime. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. apresentando. único e indivisível. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. Exemplo é a proibição à escravidão. indivisíveis. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. força jurídica vinculante. mas é obrigação dos Estados. há diversas correntes relativistas: “No extremo. Há. contudo. Para essa corrente. interdependentes e inter-relacionados. Para esse trabalho. cultural. de outro. de 1993. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. constante da Carta das Nações Unidas. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. econômicos e culturais.. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. ainda que em nome da cultura. As três gerações se interagem. A Declaração de Viena. por si só. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações.. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. O universalismo induz. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas. como valor intrínseco à própria condição humana. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. Considerando neste contexto. assim. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. culturais e religiosas devem ser consideradas. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. por esse motivo. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. independentemente de seu alcance. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. ainda. por sua vez. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. como proclama seu preâmbulo. e cultural. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. Para os relativistas. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. Argumentam. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. à destruição da diversidade cultural. Sendo assim. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. à tortura. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. (. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. Ela não é um tratado. importará em violação a direitos humanos. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível.. direitos civis e políticos. forte ou fraco. “Compreendeu-se finalmente que a . quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. não apresenta força de lei. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. direitos sociais. o debate ganha força. por exemplo. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. força jurídica vinculante.) Um relativismo cultural fraco. Ademais. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. econômico. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. mas a Declaração traz a definição. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental.

quando alcançaram o número de ratificações necessário. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. sociais e culturais. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. Para iniciar este estudo. bem como que sem os direitos econômicos. interamericano e. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. a Assembléia Geral. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. com seus inúmeros instrumentos. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. Ao revés. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. Sociais e Culturais entraram em vigor. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. sociais e culturais. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. sobre o genocídio. alcançado por um universalismo de confluência. Inicialmente. O sistema global. Neste debate. nos âmbitos europeu. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. Posteriormente. o sisyema global de proteção desses direitos. por exemplo.). que conjugava as duas categorias de direitos. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. como. não visam substituir o sistema nacional. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. discursivo de diálogo (.. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. assim. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. os direitos . A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. quais sejam. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Sociais e Culturais. como pressuposto para um diálogo intercultural. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. por sua vez. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. africano. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. sob o enfoque estritamente legalista. Adotando-se a lição de Jack Donnelly.. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. mas são incompletas.. posteriormente. Primeiramente. quando falham as instituições nacionais. nas palavras do doutrinador. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. International Bill of Rights. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. a tortura e a violação dos direitos das crianças. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. os direitos econômicos. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. Todavia. Diversamente dos tratados internacionais comuns. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. “(. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida.. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. em 1951. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. sob a influência dos países ocidentais. a) Introdução O processo de universalização.

A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. bem como toda vez que o comitê solicitar. impondo obrigações aos Estados-partes. . o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas.econômicos. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. sociais e culturais seriam programáticos. Além da sistemática dos relatórios. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. o vínculo exigido. para os direitos civis e políticos. com maior detalhamento. sociais e culturais. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. administrativas e judiciárias adotadas. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. opcional. primeiramente. Contudo. instituído pelo pacto. raça. que devem ser implementados de forma progressiva. sociais e culturais são direitos programáticos. em se tratando de cláusula facultativa. cada qual relativo a uma categoria de direitos. o sistema de petições. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. Sociais e Culturais. como também estende o elenco desses direitos. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. Vale dizer. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. Segundo Antônio Augusto Cançado. língua. mediante proposta de solução amistosa. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. Ao ratificar o pacto. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. vindo posteriormente a encaminhá-lo. sociais e culturais. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. religião ou origem social. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. Por essa sistemática. por exemplo. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. para o exercício da sistemática das petições. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. Por esse mecanismo. Esse argumento ganhou força a partir de que. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. Neste raciocínio. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. como. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. com os comentários. adotando medidas necessárias para esse fim. Contudo. além de conquista de transcendência histórica”. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. tecendo comentários e observações gerais a respeito. ainda. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. das comunicações interestatais. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. Contudo. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. sendo adotados dois pactos internacionais. Sociais e Culturais. limitações em relação a determinados direitos. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional. O pacto permite. Resta salientar que. Em relação aos direitos econômicos. ao invés da nacionalidade. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. sexo. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. Ao comitê cabe analisar os relatórios. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto.

uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. Além disso. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. distinguir entre . mas também por diversos outros tratados internacionais. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. continua. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. que pode causar constrangimento político e moral. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. Em suma. nesse aspecto. permite a sistemática das comunicações individuais. o Comitê adotou. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. um mínimo standart técnico-econômico. “Ao ratificar esta Pacto.” ou “ninguém poderá. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. por todas as nações.Ao receber a petição individual.”. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. além de declarar a caracterização da violação alegada. de condições econômicas. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla.. Como resultado de fortes pressões. o Pacto de Direitos Econômicos. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos.. além do que. Assim. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . As decisões do Comitê não possuem força vinculante. Contudo. Sociais e Culturais. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. apresentam realização progressiva. todavia. após analisar a sua admissibilidade. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. os direitos econômicos. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. por vezes. O Comitê solicita informações. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. nas quais todos nós vivemos. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. econômicos e culturais. Nos ensinamentos de Martha Jackman. econômicos e culturais. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. Sociais e Culturais são direitos que exigem. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. em parte. Trata-se de uma idéia adotada. Ao decidir. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. o Comitê. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. ambientalista. repousa uma visão social do bem-estar individual. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. apesar de sempre buscar uma votação unânime. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. Ao revés. devendo. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos.. em 1990. tampouco. por sua vez. Contudo. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. pela ótica normativa internacional. entre outros. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal... mediante Protocolo Facultativo. Porém. é que no Pacto Econômico. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. Como bem observa Thomas Buergenthal. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. como o direito de petição. sociais e culturais. pelo menos no âmbito global. no prazo de 180 dias. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social. sociais e culturais não são direitos legais. os Estados que não satisfizeram a decisão. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto.. o Comitê “é importante.”. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. por meio de protocolo adicional. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. sociais e culturais. Contudo. mediante o chamado power of embarrassment.. o Pacto de Direitos Econômicos. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. Social e Cultural. ainda. para a sua aplicação. até o máximo dos recursos disponíveis. além do que. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Ressalte-se. ao menos. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. trabalhista.

em recente relatório. incluindo os indivíduos. mas ao indivíduo “especificado”. assim. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. algumas sobre direitos novos. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. Destaca-se. buscam responder a uma específica violação de direito. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. O processo de internacionalização dos direitos humanos. Convenção sobre os Direitos das Crianças. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. Boaventura de Sousa Santos. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). As violações aos direitos econômicos. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. na grande maioria dos ordenamentos.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). alargando o conceito de sujeito de direitos. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. também conhecidas como ações afirmativas. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. b) a igualdade material. Logo a discriminação significa desigualdade. ou seja. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. §4º a possibilidade de discriminação positiva. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. a discriminação significa toda distinção. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. Sob o ângulo pragmático. econômicos. posteriormente. A igualdade. Compartilha-se. No combate à discriminação. etnia e demais critérios. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. Ao ratificar esta convenção. etc. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. ao menos. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. etnia. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. além do combate à própria discriminação. o Estado assume a obrigação internacional de. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. c) igualdade material. em face de sua própria vulnerabilidade. orientada pelos critérios gênero. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. Na esfera internacional. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. Convenção contra a Tortura. progressivamente. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Acrescente-se que. refletindo o próprio temor da diferença. Não basta a legislação repressiva. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. alimente ou reproduza as desigualdades”. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. eliminar a discriminação racial. considerando categorizações relativas ao gênero. Fico. em regra. significa a inclusão social. buscada na Convenção. em 21 de dezembro de 1965. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. idade. em igualdade de condições. Social and Cultural Rights. mister. Essas Convenções mencionadas apresentam. segundo dados da própria Nações Unidas.. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. Desde o seu preâmbulo. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. . e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. resultou um complexo sistema internacional de proteção. dente outros. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. orientação sexual. orientada pelo critério sócio-econômico. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. Pala Convenção.) Direitos sociais. as entidades de classe. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. políticos. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. mas também aumentou a titularidade de direitos. exclusão. o qual concluiu que “(. o sujeito é visto em sua abstração. sociais e culturais. ser considerado como possuidor de. raça. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. sociais e culturais] que não poderia. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. Na visão de Bobbio. Até o próprio BIRD. assegurando a efetiva igualdade. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. que merecem tutela especial. idade. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. raça. mas sim para promoção de direitos. pois. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. independentemente da retórica. Percebe-se.. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. 1º. Após o advento da International Bill of Rights. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. fundamentalmente. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. as organizações sindicais. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza.

Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. baseado no gênero.buscando remediar um passado discriminatório. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. igualmente às decisões dos demais Comitês. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. ainda. A Declaração estabelece. desumanos ou degradantes. os relatórios e as comunicações interestatais. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. Em relação ao sistema de monitoramento. quais sejam. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. integral e indivisível dos direitos humanos universais. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. cabendo a este examinar as petições individuais. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). progressivamente. No art. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. assegurando a efetiva igualdade. as petições individuais. mas também alcança o domínio privado. esta Convenção estabelece os três mecanismos. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. embora a violência seja uma grave discriminação. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. aplicação de castigo. ambos em 1975. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. Para que seja admitida a petição individual. com o Estado. Quanto aos mecanismos de monitoramento. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. direta ou indiretamente. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. bem como para realizar investigações in loco. seja qual for. formula a sua opinião. Em relação ao seu sistema de monitoramento. além da habilitação do Comitê. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. As suas decisões. não invocando qualquer costume. que é. são consagrados. por sua vez. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . objetivam acelerar o processo de igualdade. Apenas em 1999. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. também são pautadas nas informações coletadas. dentre os direitos. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. cultural ou mesmo legal. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. fazendo recomendações às partes. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. sendo certo que. o Estado assume o compromisso de. 1º da Convenção há a definição de tortura. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Contudo. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. c)a vinculação do agente ou responsável. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. Ao ratificar esta convenção. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. Ao longo da Convenção. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. à luz dessas informações. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. caso conclua pela existência de violação. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. Em suma. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. que cause morte. Na Convenção há a previsão em seu art. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. adicionalmente. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade.

é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. políticos. Note-se que a Conferência de Viena. ainda. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. de forma definitiva. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. a maioridade seja atingida mais cedo”. funcionários ou particulares. sejam governantes. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. em face de seu alcance. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. que. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. foram adotados. Ao fazê-lo. por sua gravidade. afronta a ordem internacional. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. em Roma. Vale ressaltar que. Nos termos da Convenção. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. Apenas em 17 de julho de 1998. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. Pelo seu art. econômicos. em 1993 e 1994. na devida consideração. O Comitê fica autorizado. para erradicar. contudo. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. e considerando ainda que. pela legislação aplicável. datado de 9 de dezembro de 1948. Porém. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. tal como: a) assassinato de membros do grupo. c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. contrariamente. étnico. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). racial ou religioso. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. a opinião dos interessados. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. consciência e religião. um grupo nacional. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. em 15 de maio de 2000. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. 6º. no que concerne à matéria dos Protocolos. a requerer. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. ainda. Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. levando. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. maiores informações sobre aquelas implementações. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. Importa observar. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. respectivamente. O art. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. a prática da tortura. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. a não ser que. no todo ou em parte. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. cometidos com a intenção de destruir. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. sociais e culturais. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática.

em face dos genocídios que a marcaram. . competente para receber as denúncias sobre crimes. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. Timor Leste. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. Desse modo. agora. não o eximirá da responsabilidade penal. Social e a Comissão de Direitos Humanos. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. como a Assembléia Geral. Porém. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. sendo novamente eleito em 2000. determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. já mencionados. ilustrativamente. Ruanda. isto é. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. cumpre assinalar. tampouco importará em redução da pena. Nesta linha. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. Por fim. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. a escolha de mecanismos não convencionais. a fim de que esta investigue o crime. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). em 17 de julho de 1998. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. entre outros. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. é do Estado. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. ainda. em contraste. a própria Promotoria agir de ofício. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. ou seja.direitos humanos foi revigorada na década de 90. o Conselho Econômico. controle e garantia. no tema do tópico. dentre outros. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). Em relação às penalidades. Kosovo. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). conclui-se que. o cargo oficial de uma pessoa. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. em último caso. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. de caráter permanente. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. a responsabilidade primária. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. 5º do Estatuto de Roma. com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. propondo a ação pena cabível. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). em ações conflitantes no tocante aos Estados. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. ficando. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. Conforme o art. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. o 1235 e o 1503. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. Em todas as hipóteses. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. Neste sentido. Pode. deixando de operar dentro dos Estados. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. Já o sistema não-convencional. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. primeiramente. pois. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. II) crimes contra a humanidade. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. Adentrando. examiná-las. seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. Além da sanção de natureza penal.

seja quanto aos mecanismos de monitoramento. América e África. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. 1503. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. A análise dos casos pode ensejar. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. contudo. atualmente. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. podendo. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. seja com relação aos textos convencionais. Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. Consolida-se. com respeito à cultura. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. possuindo. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. 1235. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. Shimth destaca que. estabelecido em 1980. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. existir ou não em construir precedentes normativos. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. as medidas urgentes são. c) apontar um especialista independente. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. em tese. portanto. Muitas regiões são ainda homogêneas. à língua. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. em 1950. Rhona K. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. no sistema nãoconvencional. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. Ao apontar as vantagens do sistema regional. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. assim. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. No sistema europeu. por vezes. Ao lado do sistema global.Vários foram os mecanismos temáticos criados. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. pelo sistema interamericano. em mecanismos convencionais e não convencionais. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. segundo critérios de admissibilidade. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. surge o sistema regional. às tradições. M. entre outras medidas. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. particularmente na Europa. integrado. o que oferece vantagens”. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. o relator especial transmite a apelação aos governos. para que seja efetivada a proteção buscada. pela Comissão de Direitos Humanos. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. b) manter a situação sob análise. que apresentam características consideravelmente diversas. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. ainda. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. o consenso político se torna mais facilitado. Fundamentalmente. existindo. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. 1503. de um relator especial com mandato para países específicos.

a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. pelo contrário. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. Substancialmente. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. a plena realização dos direitos. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. (. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. concernente aos direitos sociais. precisar e difundir a objetividade de uma situação. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. em que o sistema de informes é um método de controle regular. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. tendo em vista que. Ambos são úteis e complementares. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. limitando a determinar aos Estados que alcancem. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. em relação aos direitos nela consagrado. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. e de outro. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. Além de se constituir em um método para determinar atos. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. Teoricamente. em 1998. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. aperfeiçoando outros. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. Para tanto. econômicos e culturais. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. Posteriormente. sem qualquer discriminação. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. .Européia de Direitos Humanos. O mais incipiente é o sistema africano. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. do debate internacional. mas sim complementares. progressivamente..) Por outro lado. cultural ou econômico. apresentam o trabalho da Comissão. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. O que importa é o grau de eficácia da proteção. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. superando essa obrigação negativa. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. através do debate interno que eles proporcionam ou. no sistema interamericano. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. Dos três. enquanto o instrumento regional deve ir além. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos.. podendo ser reeleito apenas uma vez. eventualmente. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. a depender do caso. adicionando novos direitos. Ante esse universo de instrumentos internacionais. 3) quando os parâmetros conflitam. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia.

reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. Na lição de Thomas Buergenthal. nunca deveria ter sido recebido. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. em seu art. a Comissão julgará o mérito. Durante esse período. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. recomendações ao Estado-parte. “(. assim. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. como ocorre nos sistemas globais. Se alcançado o acordo. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. em matéria ainda não submetida à Corte. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. a Comissão examinar as alegações do peticionário. ou seja. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. buscar informações do respectivo governo. não estando prevista a legitimação do indivíduo. Feito o exame do caso. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. e) promotora. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. como. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. c) crítica.. por exemplo. Na sua função consultiva. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. Não sendo alcançado o acordo. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. Além do que foi descrito. para evitar dano irreparável à pessoa. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. a Comissão buscará uma solução amistosa. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. contra o qual se tenha apresentado queixa. ou ainda entidades não governamentais. com o novo regulamento. d) legitimadora. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. eleitos a título pessoal.. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. em caso de extrema gravidade e urgência. em casos de gravidade e urgência. eventualmente. ela pode rejeitar o caso que. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. após a investigação. dano uma maior tônica de juridicidade. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. quando além das atividades anteriores. Por fim. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. Se anteriormente. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. a fim de promover seu respeito. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. efetuando. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. o prévio esgotamento dos recursos internos. de acordo com César Sepúlveda. determinará a . sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. e toda vez que resulte necessário. a Comissão. sendo observado todos os casos de admissibilidade. b) assessora. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. tal decisão ficou mais vinculada. A petição. a Comissão poderá. o “controle da convencionalidade das leis”. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. f) protetora. Vencido o prazo. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. ainda. Porém. adotada em 1º de maio de 2001. a qualquer membro da OEA. parte ou não da convenção. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. salvo no caso de injustificada demora processual. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal.). que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. a Corte tem desenvolvido. de acordo com as informações disponíveis. 44. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. atual presidente da Comissão Interamericana. por iniciativa própria ou mediante petição da parte. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. Em relação ao plano contencioso. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. quando um Governo. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. o caso será submetido à Corte Interamericana. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. Caso. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. em retrospecto. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. mediante declaração expressa e específica. A Corte. No plano consultivo. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. por maioria absoluta de votos.Conforme Hector Fix-Zamudio. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório.

a decisão valerá como título executivo. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. Pelo art. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. Dentre os casos já decididos pela Corte. em Porto Velho. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. Neste caso. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. promovido em face do Brasil. embora recente a sua jurisprudência. em particular. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. Com exceção dos casos mais gritantes. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. em 1º de fevereiro de 1984. com recursos financeiros. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. descumprir decisões internacionais. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. desenvolvimento e direitos humanos. podendo. como o da África do Sul. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. ainda. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. 63 da Convenção. haverá uma concentração no período de democratização. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. Com a Guerra Fria. técnicos e administrativos suficientes. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. conquanto denunciados. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. poderá atuar a pedido da Comissão. Ainda que crescente a justicialização do sistema. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. pode-se concluir que. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. o desenvolvimento e os direitos humanos. assim. Rondônia. os problemas de direitos humanos. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. da Convenção sobre a Eliminação de . III) Uma maior democratização do sistema. da Constituição de 1988. mas também na agenda internacional do Brasil.

por sua vez. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. por exemplo. que trouxe importantes inovações jurídicas. A partir da Constituição de 1988. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. Acrescente-se que. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. no âmbito nacional. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Em razão dessa interação. Além da eliminação das reservas. Primeiramente. até porque é uma situação anacrônica. como país respeitador dos direitos humanos. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. Adicione-se. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. É importante. não se encontrar um acordo. O Brasil buscou. Desumanos ou Degradantes. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. o Brasil é o único a fazer tal declaração. De todo modo. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. haja vista que. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. quando formulá-las. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. Aceita. mediante a declaração feita. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. Depois desse vários outros se seguiram. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. Por fim. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. não foi objeto de qualquer declaração. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. que estabelecem. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. perante a comunidade internacional. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. ainda que em situação de emergência. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. . se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. ainda. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. ainda. que faça da forma mais restritiva possível. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. Sendo assim. O Brasil deve. ainda. Assim. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. ainda. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. o Brasil assume. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. se ainda assim. Sociais e Culturais. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. um núcleo de direitos básicos. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Além das inovações constitucionais. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos.

de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. em 1998. Deste modo. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. devendo ter aplicabilidade imediata. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. mas também no internacional. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Como já mencionado anteriormente. até abril de 1997. em violação à própria Constituição. 5º. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. Essa opção deveu-se ao fato de que. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. Atente-se que o Brasil. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. desde junho de 2002. de tipificação do crime de tortura. por força do art. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. ainda. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. porém. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. para o Brasil. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. até o presente momento. em 1998. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. XLIII. Para tanto. 5º. iria incluir em sua legislação normas penais. e ratificado pelo Brasil em 2002.Ressalte-se. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos.455/97. Além das providências supramencionadas. civis e administrativas necessárias para prevenir. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. além da omissão importar. até a presente data. o Brasil assumiu que. Embora o Brasil. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. ocorria em Bogotá no ano de 1948. verifica-se. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. que no seu art. a falta. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. que ocorreu em 1998. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. punir e erradicar a violência contra a mulher. a responsabilidade pelas violações são da União. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. que junho em 2002. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . Diante desse quadro. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. não houve a elaboração de tal legislação. previsto pelo Estatuto de Roma. que definiu o crime de tortura. importando em responsabilização do Estado. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. como já abordado. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. §2º da CF. No entanto. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. A título de exemplo. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. De acordo com o direito internacional. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. No âmbito do sistema regional. combate e erradicação da violência contra a mulher. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. Como já se ressaltou. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. Viola ainda a própria Constituição Federal. até porque. Logo. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. ratificada pelo Brasil em 1989. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. sem demora.

Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. A federalização. 6) violência contra a mulher. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. Além do Caso 1684. lideranças da Igreja Católica. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. Primeiramente. 3) violência rural. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. entretanto. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. Dentre os casos. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. 1) Casos de detenção arbitrária. Segundo Louis Henkin. Constata-se que nesses nove casos. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. entre outros). tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. a União. Importa salientar. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. sendo certo que desse universo. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. 7) discriminação racial. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. entre outros. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. Contudo. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. sob o risco de deslocamento de competência. a federalização encoraja firme atuação dos Estados. Adicionou. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. que apontavam à prática autoritária do regime militar. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. as vítimas eram professores universitários. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. em face da sistemática até então vigente. ainda. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. da comunidade Yanomami. que foi submetido no ano de 1997. que foram privadas de sua liberdade”. sem sucessos. líderes de trabalhadores. além do que. que na época era território federal. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. em 1970. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. já que não dispõe da competência de investigar. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. não é responsável em âmbito nacional. uma vez mais. Todavia. particularmente. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. que foram privadas de sua liberdade.000 presos políticos. 2) violação dos direitos indígenas. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. e o caso 1835. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. em qualquer fase do inquérito ou do processo. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. 4) violência policial. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. paradoxamente. sendo os mais contundentes o caso 1788. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. há casos que já foram apreciados pela Comissão. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. em 1980. merece destaque o caso 1684. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. Desse total. nesse sentido. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. introduzida pela EC 45/2004.

Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. Em 1982. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. a plenitude de seus direitos. à liberdade. o esgotamento dos recursos internos. O povo Yanomami. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . Com respeito à obrigação de investigar. ratificanda pelo Brasil em 1992. sem justificativa. 13 envolvem situações de violência rural. à saúde e bem-estar. à segurança. A impunidade viola o dever de garantir. assim. à liberdade. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. Primeiramente.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. todos ocorridos a partir de 1982. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. Em todos os 34 casos. Diante desse quadro. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. conduzisse programas de educação. ainda. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. à educação. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. Em 1984. no âmbito da Justiça Militar. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. Além do caso 7615. o livre exercício do direito afetado. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. à segurança. Esses fatos. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. na há como tecer comentários mais aprofundados. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. Pelos denunciantes. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. levaram o caso à Comissão. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais. que implica o assassinato. à liberdade.000. à segurança. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. A respeito. por completo. sob pressão internacional. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. com uma população de 10. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. ainda. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. em virtude do abuso e violência da polícia militar. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. o que estava a levar a extinção daquela comunidade.internacional contra o Brasil. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. 34 são relativos a violência policial. em 1989. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. por vezes adolescentes. não restaurando à vítima. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. Como os casos ainda encontram-se pendentes. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. no Estado do Pará. Recomendou. que corresponderia ao território desses índios. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. Denunciam. do direito à residência e ao movimento. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. de vítimas inocentes. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados.000 a 12. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. Nesta denúncia. Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. foi levado o caso à Comissão interamericana. À luz dessas considerações. à integridade e à justiça. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. e por isso sob o regime de confidencialidade.

e. observa-se que durante o regime militar. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. sexual ou psicológico à mulher. marcado pela violência e abuso sexual. Requere. ainda. maus tratos e violência sexual. Desses três casos. capaz de causar morte. processar e punir os agentes responsáveis. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil.afronta ao direito á vida. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. De pronto. acentuado o dever do Estado investigar. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. com o fim da impunidade. No período de 1991 a 2001. em São Paulo. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. Na mesma direção aponta o terceiro caso. dezenove meninos. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. de 1964 a 1985. compleição física e gravidade da infração. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. 3 denunciam a violência contra a mulher. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. por grupo de extermínio. requerem o combate à impunidade. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. seja na esfera pública seja na esfera privada. vítimas de espancamentos. . entre nove e catorze anos. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. no Estado do Maranhão. e o outro concernente ao processo de transição democrática. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. em janeiro de 2005. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. sem qualquer discriminação. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. relativo ao processo de democratização. o que resultou no envio do caso à Comissão. dano ou sofrimento físico. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. Contudo. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. entendeu por encaminhar o caso à Corte. de âmbito nacional ou internacional. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. Segunda a denúncia. deflagrado a partir de 1985. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. será analisado quem são os proponentes das denúncias. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. Já no segundo período. c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. assim. Além desses três casos. foram vítimas dessa grave violação. pela atuação conjunta dessas entidades. Recomenda-se. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. os que merecem relevância cinco casos. Trata-se da violência baseada no gênero. às garantias judiciais. Por fim. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. assegurados pela Convenção Americana. do mesmo modo. para que os responsáveis sejam investigados. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. sem terem cumprido qualquer pena. por vezes. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. à integridade pessoal. por duas vezes a licença foi indeferida. processados e punidos. O primeiro é o da “Candelária”. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas.

Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. seja no primeiro ou no segundo período. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. I) os casos de violência policial. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. mas sim como uma omissão do Estado. como os povos indígenas. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. mas sim pelo critério econômico. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. agora. 3 são denúncia contra a mulher. IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. No período do regime autoritário militar. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. mas pessoas pores. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. Nesse sentido as vítimas. definitivamente. economistas e outros profissionais. pelo Poder Executivo. com o qual se conjuga um componente sócio-político. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. por caracterizar-se pela permanência. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. Se no período de autoritarismo militar. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares.Estes dados. Verificou-se. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. surge como significado fator para a proteção dos . sem qualquer liderança destacada. a população negra. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. não são mais dos setores da classe média. Já no período de democratização. ainda. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. integrantes da classe média brasileira. pela profundidade e extensão de seu alcance”. passa-se a analisar. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. 87% dos casos examinados. estudantes. Dessa estatística. nacionais e internacionais. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. No segundo período. Já no período de 1992 a 2004. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. culturais. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. relativo ao processo de democratização. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. Considerando o primeiro período. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção.299/96. agora. em geral. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. no período de 1970 a 1992. 13 revelam violência rural. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. Tal como no regime militar. foram 67 as proposituras. Mister analisar. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. foi essencial para a aprovação da Lei 10. tortura. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. No entanto. nesse sentido. motivou o encaminhamento. examinar quem são as vítimas dessas violências. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. haja vista que. pode-se extrair que no primeiro período. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. e um menciona violação aos direitos da população indígena. professores universitários. as vítimas. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. Não mais pelo critério político. não se verifica a punição dos responsáveis. as mulheres. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. políticas. lesões corporais. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. 90% dos casos denunciaram violência policial. dos 68 casos analisados. Já no segundo período.421/2002. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. as crianças e os adolescentes. A título ilustrativo. por si sós. líderes de trabalhadores. dos dez casos apreciados. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. a partir da democratização. via de regra. Dessa análise. sociais e culturais. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. Também notável é perceber. advogados. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. e. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. todos. sociais. vendedores. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. 34 envolvem violência policial. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos.

Neste sentido. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. ao mesmo tempo. vindo a contribuir para reformas internas. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. surgindo no pós-guerra. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. No Brasil. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. § 2º da CF. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. Conclui-se. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional.direitos humanos. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. impondo a flexibilização e relativização desses valores. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. tendo em vista que. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. Ademais. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. como os indivíduos e as organizações não governamentais. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. são materialmente constitucionais. 5º. considerando a experiência brasileira. Nesse sentido. de âmbito global e regional. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. Nesta hipótese. por sua vez. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. Enfim. assim. Nessa condição. Adotando a primazia da pessoa humana. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. Ao acolher o aparato internacional de proteção. Atentouse. como também de âmbito geral e específico. como a soberania nacional e a não-intervenção. pode-se afirmar que. com base em toda a análise desenvolvida. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. além do Estado. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. Enfatize-se que a Constituição de 1988. esses sistemas se complementam. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. ainda. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. exige nova interpretação de princípios tradicionais. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). Como foi demonstrado. Por força do art. todos os tratados internacionais de direitos humanos. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. passam a integrar o Texto Constitucional. isto é. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. independentemente do quorum de sua aprovação. interagindo como sistema nacional. já que. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. iniciado em 1985. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. compondo o bloco de constitucionalidade. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno.

Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. jamais a restringir ou deliberar. ampliado. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. O conceito de cidadania se vê. nacional e internacional assegurados. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. mas também direitos internacionalmente anunciados. permitindo. a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro.internacional. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. acrescente-se que os direitos internacionais. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. ainda. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. A ação internacional constitui. portanto. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. a permitir a tutela. embora seja incipiente no Brasil. por vezes. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. Em suma. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. salientes e públicas. assim. elas se tornam mais visíveis. . tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. A sistemática internacional de proteção vem. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas.

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