Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

são hoje. Consagra-se. Os direitos e garantias fundamentais são. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. ineditamente. Nesta ótica. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. teve consciência dela. mas norma normata. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. unifica e centraliza todo o sistema normativo. desse modo. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. ao mesmo tempo. §1º da CF/88. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. assim. assumindo especial propriedade. não são meras normas para a produção de outras normas.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. mas simplesmente se moveu perante a vida. II. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. a Constituição de 1988. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. ainda. Já no plano do constitucionalismo local. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. por um lado. dotados de especial força expansiva. Canotilho afirma que “os direitos. ou. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. Na realidade. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. ainda. Se. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. Os princípios morais. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. garantias. liberdades e garantias fundamentais. enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. assim. ademais. 5º. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. Para Canotilho.II). mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. nos termos do art. os direitos sociais. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. inc. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Implica. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. além dos direitos civis e políticos. não havendo como divorciá-los. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. é um direito de princípios. não podendo ser usadas como meios. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais. O art. tampouco. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. VIII e IX. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. A prevalência dos direitos humanos. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. isto é. 4º. Significa também que eles valem directamente contra a lei. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. não é uma pessoa autônoma”. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. O sistema jurídico define-se.. por meio da ampliação de direitos sociais. ou. sendo certo. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional.J. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. Sendo assim. seja no âmbito internacional ou interno. econômicos e culturais. da autodeterminação dos povos. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. Sendo assim. nos termos do art. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. integrantes do sistema normativo. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. III. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. (. Não são simples norma normarum. Ao tratar do tema J. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. para Kant. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. A Carta Magna de 1988 reforça. incluindo. . conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. liberdades. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico.as pessoas são um fim em si mesmas. pois.. A interpretação das normas constitucionais advém. De fato. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos.

Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. inc. uma vez que Estados soberanos. por sua excelência. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. em virtude do movimento pós positivista. por exemplo. CAPÍTULO IV . acessão. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. Enfatize-se que os tratados são. Sendo assim. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. A Convenção de Viena determina. sob a competência do Poder Executivo. como foi. 19 da Convenção de Viena. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. convenções e acordos internacionais. e a do Congresso Nacional. Para o estudo do trabalho do livro. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. prevenindo o abuso desse poder. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. ou seja. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. quando da assinatura. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. quando se sua aplicação naquele Estado”. Tal como no âmbito interno. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. o que aconteceu na Convenção de Viena. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. Via de regra.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. Em geral. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. não podendo criar obrigações para os demais Estados. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. por exemplo. constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. pelo Estado brasileiro. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. ainda. 52 da Convenção de Viena. quais sejam. Para os constituintes. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. que são de competência do Poder Executivo. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. é o que prevê o art. acordos e atos internacionais. ao aceitá-los. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. Nos termos da Convenção de Viena. compromete-se a respeitá-lo. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. adesão ou aprovação de um tratado. Entretando. concluída em 1969. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. Como etapa formal. que os celebra. Os direitos humanos. que os aprova por meio de decreto legislativo. Importante ressalta que. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. I). ou um prazo para que o Presidente da . No Brasil. VIII e o art. modificando-os. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. Logo. nesta concepção.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. 49. conclusão e assinatura. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. ainda. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. É o aceito definitivo. inc. o art. expressão de consenso. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. consolidando os costumes internacionais ou. Sendo assim. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. 27 da Convenção de Viena). haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. 84. ratificação. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. os tratados internacionais demandam. sem haver uma normatização. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. como era então a experiência européia. nos termos do art. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação.

especialmente tratando-se de norma de direito fundamental.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. “(. elásticos. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. A Constituição de 1967. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. caracterizada como cláusula constitucional aberta.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. diferentemente da Constituição Portuguesa. 5º da CF. uma natureza de norma constitucional. 5º.. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. No dizer de Jorge Mirando. torna-se inevitável. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. ao efetuar a incorporação. §2º da CF/88. Para Canotilho. Sendo assim. Ela. 5º. Caso ela venha a faltar. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. ligada a todas as outras normas. o máximo de capacidade de regulamentação”. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. 5º. em especial ao princípio do art. Canotilho. quando. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. §2º da CF/88. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. ao ‘texto’ da Constituição. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. vagos. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. os direitos implícitos são imprecisos. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. qual seja. ao fim da Declaração de Direitos. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê.. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. Observe-se que. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. sendo de difícil caracterização a priori. 5º. no parágrafo 2º do art. Contudo. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. Logo. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. a contrario sensu. por conseguinte. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. cedo ou tarde. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. Observe-se que a hierarquia . 5º. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. o chamado “bloco de constitucionalidade”. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. subentendidos nas regras de garantias. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. portanto. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias.. A Carta de 1988. A Constituição assume expressamente no seu art. Para Konrad Hesse. explicitamente individuados no art. em profundidade. Pois bem. Para J. de sua estabilidade. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. conforme art. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. Há que densificar. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. Deste modo. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. a Carta de 1988 está a incluir. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma.J. Os direitos internacionais integrariam. de forma positivista. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. 5º. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. b) os implícitos. assim. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado. mas sim bastante pragmática. a cada norma constitucional é preciso conferir.. enumerados e claramente elencados. a ruptura da situação jurídica vigente”. as normas e princípios da constituição. “(. É de suma importância enfatizar que.

segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. contudo. pois. Com base nestes argumentos. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. O fundamento utilizado para. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. sem os quais a inteira estrutura se romperia. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. Observe-se que. Contudo. §2º da CF em relação à Carta Magna. sem dúvida. aceita em todas as nações. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. conferido pelo art. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. para o regime do direito internacional. Vale dizer que. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. insiste-se que. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. Em seu voto. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. defende posicionamento contrário. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. III. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. 102. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. a doutrina brasileira. que na interpretação do art. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. como os fundamentos de uma sociedade internacional. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. Acredita-se que. denominada jus cogens. O livro. III. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. Sustenta-se. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. inc. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . Sendo assim. alínea b da CF. e que tem reflexo no art. uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos.esta última a corrente adotada pelo STF . na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. contudo com força supralegal. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. Contudo. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. bem como com a sua racionalidade e principiologia. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. O STF. porém supralegal. e não das prerrogativas dos Estados.há duas outras correntes. §2º não .004. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. são normas supranacionais. 5º. ao revés. Sem o mencionado ato de denúncia. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). em verdade. em que. 27 da Convenção de Viena. apresentam hierarquia de norma constitucional. Em relação ao tema. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. por força do art. §2º da CF/88. como expressão de uma convicção. mas também afronta a própria Convenção de Viena. Este tratamento diferenciado. §2º da CF justifica-se na medida em que. 102. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. b da CF. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. 5º. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. além das duas correntes já mencionadas. Importa salientar que. e um outro regime para os demais tratados internacionais. 5º. assim. 5º. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. Em suma. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”.

mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. Neste último caso. sem qualquer participação do Legislativo. §2º da CF. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. 60. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. Contudo. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. 5º. §2º da CF/88. Para finalizar. se para a ratificação é necessário um ato complexo. No direito brasileiro. Para os defensores da última corrente. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. Devido à peculiaridade mencionada. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. ou seja. 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. que por força do § 2º do art. 5º da CF. além de natureza material constitucional. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. 5º da CF. Sendo assim. qual seja. e não o contrário. mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. ao clarificar a lei existente. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. Para a doutrina. devendo ser este último que deve prevalecer. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. O quorum requerido pelo §3º do art. b) os materialmente e formalmente constitucional. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. Sendo assim. defendendo a tese de que o art. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. em face das argumentações já expostas. § 4º da CF. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. Entretanto isso não ocorre no Brasil. Por força da indigitada norma. já que o último não revogou o primeiro. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. não há como se admitir que. nos termos do art. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. Sendo assim. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. §4º da CF. Atente-se. 5º. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. 60. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. tornar-se-ão cláusulas pétreas. que são os que possuem. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. em dois turnos. 5º da CF/88. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. . lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. a norma será formalmente constitucional. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. ainda. que. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. 5º da CF/88. porém supralegal. 5º. Celso Lafer. contudo. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. Cabe apontar. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. com o advento do §3º do art. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. após a passagem por um difícil processo de aprovação.

Na Constituição da Venezuela. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. Na Nicarágua. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. no plano interno”. 5º. ações ou omissões de sua país. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. reformada em 1989. os tratados obrigam diretamente os Estados. há a sistemática da incorporação legislativa. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. ou seja. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista.Na Constituição da Argentina. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. qual a sistemática adotada pelo país. No primeiro caso. Diante dessas duas sistemáticas. inicialmente. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente. por atos. No Peru. 105. para os tratados internacionais de direitos humanos. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. têm vigência imediata. Em outras palavras. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. art. a da CF. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. haja vista que. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. 5º. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. . conforme determina o art. Pela primeira. 5º. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. Sendo assim. não será mais possível a sustentação da tese a qual. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. ainda. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. após a reforma constitucional de 1994. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. invalidá-la. É o que se extrai da interpretação do art. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. com a ratificação. Ademais. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. § 2º da CF/88. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. 5º. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. na qual. §§ 2º e 3º. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. para quem. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. Também a Constituição do Chile. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. prevalece a norma de direito internacional. § 1º da CF/88. É nesse contexto que se insere a inovação do art. adicionando. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. porém supralegal. § 1º da CF/88. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. a monista ou a dualista. os mesmos têm aplicação imediata. conseqüentemente. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. uma única ordem jurídica. Porém para o trabalho. 5º. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. prevalece a norma interna. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. nos termos do art. III. Já na sistemática da incorporação legislativa. há de ser perquirir. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. já no segundo caso. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. §§ 1º e 2º da CF. por sua vez. Ora. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. mas não geram direitos subjetivos. “não apenas o Tribunal nacional. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. por força do art. 5º.

Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. conferindo-lhes. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. três são as hipóteses que podem ocorrer. de modo a ajustá-lo. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. mas também internacional. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. como primeira alternativa. Porém. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. É a escolha da norma mais favorável à vítima. O regime diferenciado. O próprio art. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. na espanhola. na francesa. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. Logo. refletindo a sistemática monista. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. em determinados casos. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. acolhe a sistemática da incorporação automática. 5º. ainda. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. como ocorre na Constituição portuguesa. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. assim. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. em seu art. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. todavia. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. Nesse caso. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. a Constituição. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. § 1º. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. por força do art. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Diante do que foi exposto. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. Vários são os casos em que direitos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. Os indivíduos tornam-se. na mesma base territorial. complementem ou ampliem as normas constitucionais. Sendo assim. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. §§ 2º e 3º. ou c) contrariar preceitos internos. na alemã. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. titular do direito. passando a incorporar ao direito brasileiro. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. além de não possuírem força hierárquica constitucional. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. relator para o acórdão.Em síntese. . o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. representativa da categoria profissional ou econômica. nunca a restringir ou deliberar. em qualquer grau. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. embora não previstos no âmbito nacional. com harmonia e consonância. havendo a necessidade. com outras. pode-se imaginar. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. o status de norma constitucional. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. b) integrar. respectivamente. da expedição de uma norma interna. encontram-se enumerados nesses tratados. na holandesa. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. portanto. 5º. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. quais sejam.

em casos de guerra. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. e sim o de protegê-los”. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. doentes. quanto à terceira hipótese. incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. . desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. ou seja. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. Na lição de Norberto Bobbio. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. Em todas as três hipóteses. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. se eles são naturais e inatos. três hipóteses poderão ocorrer. possuindo como finalidade promover a cooperação. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . em constante processo de construção e reconstrução. Na primeira hipótese. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. Pela norma. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. uma invenção humana. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. A proteção humanitária se destina. Observe-se que se a situação fosse inversa. qual seja. no Brasil. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. tanto do âmbito global quanto no regional. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. náufragos. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. Por fim. 7º da Convenção Americana. a militares postos fora de combate (feridos. Pois bem. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. contudo admite não apenas uma exceção. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. na medida em que estes não são um dado. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. direitos positivos. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. Criada após a Primeira Guerra Mundial. Na segunda. como na Convenção Americana. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. Preleciona ainda Bobbio que. ora reforçando sua imperatividade. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. Vale dizer. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. acrescendo apenas uma exceção. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. Enunciado semelhante é o do art. presioneiros) e à população civil. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. mas construído. ainda. paz e segurança internacional. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. a dívida de créditos alimentícios. aplicar-se-ia Constituição Federal. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. Foi preciso. ora adicionando novos direitos. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos.

por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal. pode-se concluir que tais institutos. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. assim. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. mas é válido apenas no plano do direito interno. porque revela tema de legítimo interesse internacional. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. Os novos institutos rompem. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. Com a decadência do nazismo. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. de detenções arbitrárias. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. entre outras práticas. da Liga das Nações e do Direito Humanitário.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática. o costume internacional é fonte do direito internacional. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa.. cada qual ao seu modo. com as decisões judiciais. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. lecionou o seguinte: “Contudo. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. juntamente com os tratados internacionais. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. ainda. Steiner. ou seja. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. Sendo assim. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. Neste prisma. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. Com o advento dos institutos supramencionados. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial.. (. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento.. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados. conseqüentemente. Nesse contexto. seja pelos oficiais militares. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo.). chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. tem sido repensada. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. (. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. Nesse cenário. que haja o censo de obrigação. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. com importantes exceções”.. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. Para a existência do costume internacional. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. 38 do Estatuto da Corte Internacional. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. segundo o art. previstos no Acordo de Londres. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. de desaparecimento forçado. não resta dúvidas de que a prática de tortura. ou seja. o direito a ser sujeito de direitos. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. mas também sujeito do Direito Internacional. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. Diante dessa ruptura. Note-se que. Simultaneamente.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. As condenações do Tribunal de Nuremberg. na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas.. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada. seja pelos líderes do partido. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal.. Hans Kelsen. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. No fim do século XX. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto.

É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. à proteção das minorias. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. Com a vitória do Aliados. Conselho de Tutela e o Secretariado. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. com a emergência dos direitos à prestação social. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. No final do Século XVIII. incluindo os direitos humanos. Caminhando na história. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. consagravam a ótica liberal. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. seja a Declaração Francesa (1789). Em definitivo. posteriormente. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. Além da universalidade dos direitos humanos. O Conselho Econômico e Social. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. com direito a um voto. em que os principais são: Assembléia Geral. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. ela não define o conteúdo dessas expressões. sociais e culturais. Conselho Econômico e Social. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. Corte Internacional de Justiça. Deste modo. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado.)”. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. neste sentido. O art. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. de 1948. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. Os membros permanentes são China. especialmente após a Primeira Guerra. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. Sendo assim.. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. . A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos.. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade.Após a Segunda Guerra Mundial. Importante salientar que. na então República Soviética da Rússia. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. França. complementados pela resistência à opressão. Reino Unido. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. as Declarações de Direitos. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. A criação das Nações Unidas. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. ao consagrar valores básicos universais. que foi anexado à Carta. desde 1992. que substituiu a antiga União Soviética. ao lado do discurso liberal da cidadania. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde seu preâmbulo. Estados Unidos e. segurança e propriedade. Conselho de Segurança. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. converte-se em direito à atuação estatal. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. cresce o movimento social e da cidadania. entre outras. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. verifica-se que. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. que é o principal funcionário administrativo da ONU. composto por vinte e sete membros. sociais e culturais. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. Três anos após o advento da Carta das Nações. social e cultural. sociais e culturais. A não-atuação estatal significava liberdade. titular de direitos iguais e inalienáveis. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. composto por quinze juízes. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. com suas agências especializadas. Neste momento histórico. À luz de uma perspectiva histórica. Para a consecução dos objetivos supramencionados. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. (. Rússia. seja a Declaração Americana (1776). e o direito à abstenção do Estado. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. em 1918. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta.

buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. a defesa. “Compreendeu-se finalmente que a . Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. assim. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas. mas é obrigação dos Estados. que. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. As três gerações se interagem. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. por sua vez. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. à destruição da diversidade cultural. direitos sociais. Ela não é um tratado. No entendimento de Jack Donnelly. forte ou fraco.) Um relativismo cultural fraco. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. como proclama seu preâmbulo. por esse motivo. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos.. Sendo assim. (. O universalismo induz. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade.. econômicos e culturais. força jurídica vinculante. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. ainda. Argumentam. Exemplo é a proibição à escravidão. bem como seu peculiar sistema moral.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. à tortura. Considerando neste contexto. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade.. indivisíveis. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. de outro. como valor intrínseco à própria condição humana. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. ainda que em nome da cultura. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. de maneira justa e equânime. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. interdependentes e inter-relacionados. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. nessa visão.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. Para essa corrente. e cultural. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. defensor da corrente relativista. contudo. pelo contrário. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. apresentando. não apresenta força de lei. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. força jurídica vinculante. econômicos e culturais. desse mínimo ético. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. econômico. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. O propósito da Declaração. único e indivisível. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. de 1993. apresentando. ao tratamento cruel. Ademais. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. o debate ganha força. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. por si só. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. A Declaração de Viena. Na análise dos relativistas. que tenta universalizar suas próprias crenças. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. culturais e religiosas devem ser consideradas. direitos civis e políticos. há diversas correntes relativistas: “No extremo. mas a Declaração traz a definição. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. constante da Carta das Nações Unidas. independentemente de seu sistema político. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. Para os relativistas. Nesse sentido. por exemplo. Para esse trabalho. por sua vez. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. cultural. No entanto. econômico. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. importará em violação a direitos humanos. social e moral vigente em determinada sociedade. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. independentemente de seu alcance. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. Há. a Declaração Universal. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado.. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. como ocorre. (. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade.

O sistema global. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. os direitos . o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. africano. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. quais sejam. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos. sociais e culturais. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. Sociais e Culturais entraram em vigor. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. International Bill of Rights. Primeiramente. que conjugava as duas categorias de direitos. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. “(.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. sobre o genocídio. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida.. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. com seus inúmeros instrumentos. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. Ao revés. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. por sua vez. sob a influência dos países ocidentais. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. sob o enfoque estritamente legalista. a tortura e a violação dos direitos das crianças. por exemplo. mas são incompletas. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. quando alcançaram o número de ratificações necessário. nas palavras do doutrinador. em 1951. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. Para iniciar este estudo. não visam substituir o sistema nacional. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. Sociais e Culturais.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. Inicialmente. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. nos âmbitos europeu. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. quando falham as instituições nacionais. sociais e culturais. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. interamericano e. Diversamente dos tratados internacionais comuns. alcançado por um universalismo de confluência. Todavia. os direitos econômicos. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. discursivo de diálogo (. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. Adotando-se a lição de Jack Donnelly.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. a Assembléia Geral. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. como pressuposto para um diálogo intercultural. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos. bem como que sem os direitos econômicos.. como. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos.). no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências.. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. assim. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. a) Introdução O processo de universalização. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. posteriormente. Posteriormente. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS.. Neste debate. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. o sisyema global de proteção desses direitos. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability.

vindo posteriormente a encaminhá-lo. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. Em relação aos direitos econômicos. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. Resta salientar que. O pacto permite. das comunicações interestatais. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. como também estende o elenco desses direitos. Segundo Antônio Augusto Cançado. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. para os direitos civis e políticos. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. Neste raciocínio. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. Por esse mecanismo. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. Por essa sistemática. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. ao invés da nacionalidade. um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. Sociais e Culturais. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. cada qual relativo a uma categoria de direitos. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. sexo. língua. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. sociais e culturais. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. mediante proposta de solução amistosa. Esse argumento ganhou força a partir de que. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. primeiramente. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. Contudo. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. que devem ser implementados de forma progressiva. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. com maior detalhamento. impondo obrigações aos Estados-partes. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. administrativas e judiciárias adotadas. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. limitações em relação a determinados direitos. opcional. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. como. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. . Sociais e Culturais. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. sociais e culturais. Contudo. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. Ao comitê cabe analisar os relatórios. Ao ratificar o pacto. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. o vínculo exigido. Vale dizer. com os comentários. instituído pelo pacto. tecendo comentários e observações gerais a respeito. Além da sistemática dos relatórios. sendo adotados dois pactos internacionais. por exemplo. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. adotando medidas necessárias para esse fim. raça. bem como toda vez que o comitê solicitar. Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. sociais e culturais são direitos programáticos. ainda. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. em se tratando de cláusula facultativa. para o exercício da sistemática das petições. o sistema de petições.econômicos. religião ou origem social. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. Contudo. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. sociais e culturais seriam programáticos. além de conquista de transcendência histórica”.

por meio de protocolo adicional. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. após analisar a sua admissibilidade. Sociais e Culturais são direitos que exigem. por vezes. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. apresentam realização progressiva. Contudo. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional.. para a sua aplicação. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. sociais e culturais.. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. por sua vez. o Comitê. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. o Pacto de Direitos Econômicos. nas quais todos nós vivemos.”. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. além do que. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. repousa uma visão social do bem-estar individual. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. sociais e culturais não são direitos legais. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. todavia. ainda. devendo. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. “Ao ratificar esta Pacto. nesse aspecto. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. Ressalte-se. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos.. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico.. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. o Pacto de Direitos Econômicos. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. Sociais e Culturais. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. o Comitê “é importante. de condições econômicas. As decisões do Comitê não possuem força vinculante. O Comitê solicita informações. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos. Além disso. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político.” ou “ninguém poderá.. mas também por diversos outros tratados internacionais. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. mediante Protocolo Facultativo. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. Ao decidir. Assim. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. continua. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. é que no Pacto Econômico. Como resultado de fortes pressões.. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social. tampouco. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . Em suma. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. distinguir entre . ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos.. Contudo. os Estados que não satisfizeram a decisão. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. Social e Cultural. Nos ensinamentos de Martha Jackman. o Comitê adotou. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. permite a sistemática das comunicações individuais. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição.Ao receber a petição individual. entre outros. por todas as nações. apesar de sempre buscar uma votação unânime. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. em 1990. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. como o direito de petição. econômicos e culturais. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. um mínimo standart técnico-econômico. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. até o máximo dos recursos disponíveis. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. pelo menos no âmbito global. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados. além de declarar a caracterização da violação alegada. mediante o chamado power of embarrassment. os direitos econômicos. ambientalista. trabalhista. em parte. Trata-se de uma idéia adotada. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. pela ótica normativa internacional. ao menos. no prazo de 180 dias. Como bem observa Thomas Buergenthal. Porém. econômicos e culturais. que pode causar constrangimento político e moral. Contudo. Ao revés.”. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. além do que. sociais e culturais.

Destaca-se. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. Ao ratificar esta convenção. o sujeito é visto em sua abstração. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. etnia. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. pois.. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Convenção contra a Tortura. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. considerando categorizações relativas ao gênero. significa a inclusão social. o qual concluiu que “(. na grande maioria dos ordenamentos. sociais e culturais] que não poderia. Logo a discriminação significa desigualdade. raça. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. em face de sua própria vulnerabilidade. em regra. mas ao indivíduo “especificado”. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. Percebe-se. Sob o ângulo pragmático. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. orientada pelos critérios gênero. também conhecidas como ações afirmativas. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual.) Direitos sociais. em recente relatório. alimente ou reproduza as desigualdades”. progressivamente. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. segundo dados da própria Nações Unidas. em igualdade de condições. as entidades de classe. posteriormente. sociais e culturais. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. Social and Cultural Rights. Na esfera internacional. O processo de internacionalização dos direitos humanos. buscam responder a uma específica violação de direito. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. algumas sobre direitos novos. resultou um complexo sistema internacional de proteção. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. ou seja. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. econômicos. alargando o conceito de sujeito de direitos. mas sim para promoção de direitos. mister. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados.. mas também aumentou a titularidade de direitos. exclusão. buscada na Convenção. o Estado assume a obrigação internacional de. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. etc. orientada pelo critério sócio-econômico. Desde o seu preâmbulo. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. Até o próprio BIRD. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. idade. eliminar a discriminação racial. independentemente da retórica. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. assim. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. orientação sexual. Acrescente-se que. Convenção sobre os Direitos das Crianças. As violações aos direitos econômicos. 1º. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. Após o advento da International Bill of Rights. Pala Convenção. raça. Essas Convenções mencionadas apresentam. Fico. as organizações sindicais. fundamentalmente. §4º a possibilidade de discriminação positiva. ser considerado como possuidor de. que merecem tutela especial. refletindo o próprio temor da diferença. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. Na visão de Bobbio. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. ao menos. etnia e demais critérios. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. b) a igualdade material. além do combate à própria discriminação. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. . c) igualdade material. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. No combate à discriminação. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. dente outros. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. Não basta a legislação repressiva. assegurando a efetiva igualdade. A igualdade. a discriminação significa toda distinção. Boaventura de Sousa Santos. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. políticos. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. Compartilha-se. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. idade. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. incluindo os indivíduos. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. em 21 de dezembro de 1965. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção.

a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. dentre os direitos. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. progressivamente. Ao ratificar esta convenção. ambos em 1975. cultural ou mesmo legal. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. também são pautadas nas informações coletadas. desumanos ou degradantes. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. igualmente às decisões dos demais Comitês. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. por sua vez. são consagrados. 1º da Convenção há a definição de tortura. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. as petições individuais. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). baseado no gênero. assegurando a efetiva igualdade. Em suma. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. seja qual for. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. caso conclua pela existência de violação. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . que é. bem como para realizar investigações in loco. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. objetivam acelerar o processo de igualdade. os relatórios e as comunicações interestatais. c)a vinculação do agente ou responsável. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. cabendo a este examinar as petições individuais. com o Estado. aplicação de castigo. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. ainda. além da habilitação do Comitê. Apenas em 1999. Na Convenção há a previsão em seu art. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. As suas decisões. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. Em relação ao sistema de monitoramento. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. sendo certo que. A Declaração estabelece. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. não invocando qualquer costume. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. direta ou indiretamente. formula a sua opinião.buscando remediar um passado discriminatório. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. adicionalmente. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. o Estado assume o compromisso de. que cause morte. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. mas também alcança o domínio privado. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. quais sejam. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). aprovada pelas Nações Unidas em 1979. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. Contudo. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. à luz dessas informações. Ao longo da Convenção. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. Para que seja admitida a petição individual. Em relação ao seu sistema de monitoramento. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. Quanto aos mecanismos de monitoramento. embora a violência seja uma grave discriminação. esta Convenção estabelece os três mecanismos. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. integral e indivisível dos direitos humanos universais. fazendo recomendações às partes. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. No art. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional.

é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. Vale ressaltar que. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. cometidos com a intenção de destruir. em Roma. levando. Nos termos da Convenção. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. consciência e religião. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . para erradicar. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. em face de seu alcance. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. Ao fazê-lo. a não ser que. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. O Comitê fica autorizado. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. de forma definitiva. no que concerne à matéria dos Protocolos. um grupo nacional. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. econômicos. a requerer. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. a maioridade seja atingida mais cedo”. maiores informações sobre aquelas implementações. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. contrariamente. datado de 9 de dezembro de 1948. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. que. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. em 1993 e 1994. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. sejam governantes. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. ainda. Apenas em 17 de julho de 1998. respectivamente. na devida consideração. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. em 15 de maio de 2000. a prática da tortura. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. Note-se que a Conferência de Viena. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. funcionários ou particulares. ainda. Importa observar. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. afronta a ordem internacional. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. racial ou religioso. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. políticos. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. e considerando ainda que. contudo. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. O art. c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. Pelo seu art. sociais e culturais. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. étnico. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. foram adotados. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. tal como: a) assassinato de membros do grupo. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. pela legislação aplicável. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. a opinião dos interessados. por sua gravidade. 6º. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. Porém. no todo ou em parte. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo.

O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. no tema do tópico. ainda. agora. conclui-se que. II) crimes contra a humanidade. pois. o 1235 e o 1503. em 17 de julho de 1998. ou seja. isto é. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. deixando de operar dentro dos Estados. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. tampouco importará em redução da pena. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. Em relação às penalidades. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. entre outros. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. dentre outros. Ruanda. Além da sanção de natureza penal. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. Neste sentido. em ações conflitantes no tocante aos Estados. a escolha de mecanismos não convencionais. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. Timor Leste. . ilustrativamente. já mencionados. ficando. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. a própria Promotoria agir de ofício. Já o sistema não-convencional. com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. Social e a Comissão de Direitos Humanos. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. primeiramente. Por fim. Adentrando. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. sendo novamente eleito em 2000. Em todas as hipóteses. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. não o eximirá da responsabilidade penal. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. de caráter permanente. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. examiná-las. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. Kosovo. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. em contraste. 5º do Estatuto de Roma. Pode. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. cumpre assinalar. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. o cargo oficial de uma pessoa. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. Porém. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. é do Estado. seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). a fim de que esta investigue o crime. propondo a ação pena cabível. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. em último caso. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. em face dos genocídios que a marcaram. como a Assembléia Geral. o Conselho Econômico. Conforme o art. controle e garantia. a responsabilidade primária.direitos humanos foi revigorada na década de 90. Desse modo. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. Nesta linha. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. competente para receber as denúncias sobre crimes. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado.

além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. com respeito à cultura. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. b) manter a situação sob análise. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. podendo. Shimth destaca que. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. por vezes. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. integrado. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. em 1950. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. portanto. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. Muitas regiões são ainda homogêneas. às tradições. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. as medidas urgentes são. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. M. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. pelo sistema interamericano. Ao apontar as vantagens do sistema regional. possuindo. em tese. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. à língua. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. o relator especial transmite a apelação aos governos. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. A análise dos casos pode ensejar. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. pela Comissão de Direitos Humanos. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. estabelecido em 1980. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. o consenso político se torna mais facilitado. contudo. de um relator especial com mandato para países específicos. Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. surge o sistema regional. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. seja com relação aos textos convencionais. No sistema europeu. Ao lado do sistema global. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. particularmente na Europa. Rhona K. o que oferece vantagens”. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. atualmente. assim. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. existir ou não em construir precedentes normativos. a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. Consolida-se. América e África. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes.Vários foram os mecanismos temáticos criados. c) apontar um especialista independente. para que seja efetivada a proteção buscada. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. existindo. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. 1503. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. em mecanismos convencionais e não convencionais. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. Fundamentalmente. 1235. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. entre outras medidas. que apresentam características consideravelmente diversas. 1503. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. segundo critérios de admissibilidade. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. no sistema nãoconvencional. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. ainda. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos.

pelo contrário. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. mas sim complementares. cultural ou econômico. a plena realização dos direitos. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. podendo ser reeleito apenas uma vez.) Por outro lado.Européia de Direitos Humanos. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. Para tanto.. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. 3) quando os parâmetros conflitam. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. Ante esse universo de instrumentos internacionais. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. (. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. econômicos e culturais. em 1998. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. e de outro. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. Ambos são úteis e complementares. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. progressivamente. Substancialmente. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. em relação aos direitos nela consagrado. no sistema interamericano. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. do debate internacional. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. limitando a determinar aos Estados que alcancem. adicionando novos direitos. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. Além de se constituir em um método para determinar atos. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. concernente aos direitos sociais. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. Teoricamente. Dos três. Posteriormente. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. a depender do caso. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. em que o sistema de informes é um método de controle regular. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. apresentam o trabalho da Comissão. eventualmente. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. tendo em vista que. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. sem qualquer discriminação. através do debate interno que eles proporcionam ou. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. aperfeiçoando outros. O que importa é o grau de eficácia da proteção. superando essa obrigação negativa. enquanto o instrumento regional deve ir além. O mais incipiente é o sistema africano. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. precisar e difundir a objetividade de uma situação. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. . que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos.. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima.

f) protetora. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso.). análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. assim. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. em matéria ainda não submetida à Corte. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. parte ou não da convenção. após a investigação. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. em seu art. “(. por maioria absoluta de votos. por exemplo. No plano consultivo. e) promotora. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. eventualmente. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. e toda vez que resulte necessário. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. a Comissão poderá. determinará a . A petição. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos.. atual presidente da Comissão Interamericana. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. ou ainda entidades não governamentais. efetuando. Além do que foi descrito. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. Se anteriormente. como. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. quando um Governo. ela pode rejeitar o caso que. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. Na sua função consultiva. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. Porém. tal decisão ficou mais vinculada. o caso será submetido à Corte Interamericana. de acordo com as informações disponíveis. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. a Corte tem desenvolvido. em caso de extrema gravidade e urgência. o “controle da convencionalidade das leis”. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. por iniciativa própria ou mediante petição da parte. c) crítica. a Comissão examinar as alegações do peticionário. para evitar dano irreparável à pessoa. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. Por fim. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. d) legitimadora. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. Se alcançado o acordo. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. a Comissão julgará o mérito. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. Vencido o prazo. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. ainda. a qualquer membro da OEA. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. de acordo com César Sepúlveda. b) assessora. mediante declaração expressa e específica. Não sendo alcançado o acordo. sendo observado todos os casos de admissibilidade. A Corte. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. o prévio esgotamento dos recursos internos. a Comissão. recomendações ao Estado-parte. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. salvo no caso de injustificada demora processual. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. Em relação ao plano contencioso. adotada em 1º de maio de 2001. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais.. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. a fim de promover seu respeito. nunca deveria ter sido recebido. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. buscar informações do respectivo governo. eleitos a título pessoal. Durante esse período. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. como ocorre nos sistemas globais. não estando prevista a legitimação do indivíduo. contra o qual se tenha apresentado queixa. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. Feito o exame do caso. Caso. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. 44. com o novo regulamento. em casos de gravidade e urgência. ou seja. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. em retrospecto. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte.Conforme Hector Fix-Zamudio. quando além das atividades anteriores. dano uma maior tônica de juridicidade. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. a Comissão buscará uma solução amistosa. Na lição de Thomas Buergenthal. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório.

ainda. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. 63 da Convenção. haverá uma concentração no período de democratização. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. Neste caso. conquanto denunciados. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. promovido em face do Brasil. da Convenção sobre a Eliminação de . a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. Com a Guerra Fria. como o da África do Sul. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. descumprir decisões internacionais. com recursos financeiros. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. Rondônia. assim. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. os problemas de direitos humanos. podendo. em 1º de fevereiro de 1984. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. em particular. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. desenvolvimento e direitos humanos. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. pode-se concluir que. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. Pelo art. o desenvolvimento e os direitos humanos. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. III) Uma maior democratização do sistema. Com exceção dos casos mais gritantes. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. técnicos e administrativos suficientes. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. poderá atuar a pedido da Comissão. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. Ainda que crescente a justicialização do sistema. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. da Constituição de 1988. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. a decisão valerá como título executivo. em Porto Velho. mas também na agenda internacional do Brasil. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. embora recente a sua jurisprudência. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. Dentre os casos já decididos pela Corte. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos.

A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. se ainda assim. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. quando formulá-las. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. que trouxe importantes inovações jurídicas. Assim. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. Sociais e Culturais. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. como país respeitador dos direitos humanos. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. não se encontrar um acordo. por exemplo. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. o Brasil é o único a fazer tal declaração. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. que faça da forma mais restritiva possível. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. um núcleo de direitos básicos. que estabelecem. De todo modo. ainda. ainda. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. Em razão dessa interação. Sendo assim. Aceita. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. haja vista que. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. A partir da Constituição de 1988. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. até porque é uma situação anacrônica. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. O Brasil buscou. Acrescente-se que. É importante. ainda. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. perante a comunidade internacional. Além da eliminação das reservas. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. o Brasil assume.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Adicione-se. Além das inovações constitucionais. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. Por fim. ainda. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. no âmbito nacional. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. O Brasil deve. Depois desse vários outros se seguiram. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. . Primeiramente. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. ainda que em situação de emergência. Desumanos ou Degradantes. por sua vez. mediante a declaração feita. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. não foi objeto de qualquer declaração.

Como já se ressaltou. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. a falta. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. No âmbito do sistema regional. devendo ter aplicabilidade imediata. 5º. mas também no internacional. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. desde junho de 2002. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. importando em responsabilização do Estado. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. o Brasil assumiu que. ainda. De acordo com o direito internacional. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. que definiu o crime de tortura. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. punir e erradicar a violência contra a mulher. previsto pelo Estatuto de Roma. a responsabilidade pelas violações são da União. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. No entanto. até o presente momento. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. em 1998. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. além da omissão importar. até porque. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. até a presente data. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. ratificada pelo Brasil em 1989. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. Logo. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. ocorria em Bogotá no ano de 1948. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. XLIII. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. e ratificado pelo Brasil em 2002. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. iria incluir em sua legislação normas penais.455/97. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. A título de exemplo. que ocorreu em 1998. civis e administrativas necessárias para prevenir. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. Diante desse quadro. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. verifica-se. em 1998. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. por força do art. Embora o Brasil. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. 5º. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. combate e erradicação da violência contra a mulher. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana.Ressalte-se. de tipificação do crime de tortura. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. até abril de 1997. como já abordado. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. Viola ainda a própria Constituição Federal. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. porém. não houve a elaboração de tal legislação. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. para o Brasil. §2º da CF. Deste modo. Para tanto. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. Além das providências supramencionadas. Essa opção deveu-se ao fato de que. em violação à própria Constituição. Como já mencionado anteriormente. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. Atente-se que o Brasil. sem demora. que junho em 2002. que no seu art.

4) violência policial. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. em 1970. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. em 1980. da comunidade Yanomami. nesse sentido. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. sendo certo que desse universo. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. além do que. sob o risco de deslocamento de competência. Dentre os casos. líderes de trabalhadores. entretanto. lideranças da Igreja Católica. sem sucessos. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. Importa salientar. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. 1) Casos de detenção arbitrária. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. Primeiramente. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. Todavia. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. que na época era território federal. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. em face da sistemática até então vigente. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. a União. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. a federalização encoraja firme atuação dos Estados. e o caso 1835. entre outros. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. Desse total. merece destaque o caso 1684. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. Contudo. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. paradoxamente. as vítimas eram professores universitários. A federalização. há casos que já foram apreciados pela Comissão. uma vez mais. 2) violação dos direitos indígenas. que apontavam à prática autoritária do regime militar. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. entre outros). já que não dispõe da competência de investigar. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. não é responsável em âmbito nacional.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. Além do Caso 1684. que foram privadas de sua liberdade”. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. particularmente. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. 6) violência contra a mulher. Segundo Louis Henkin. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. ainda. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. que foi submetido no ano de 1997. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. 7) discriminação racial. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. em qualquer fase do inquérito ou do processo. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. sendo os mais contundentes o caso 1788. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental.000 presos políticos. introduzida pela EC 45/2004. 3) violência rural. Adicionou. que foram privadas de sua liberdade. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. Constata-se que nesses nove casos.

sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima.000. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. À luz dessas considerações. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. A respeito. Recomendou. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. à segurança. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. levaram o caso à Comissão. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. com uma população de 10. sem justificativa. em virtude do abuso e violência da polícia militar. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. em 1989. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. ainda. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . à educação. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. à saúde e bem-estar. à liberdade. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. Esses fatos. ainda. o livre exercício do direito afetado. e por isso sob o regime de confidencialidade. Diante desse quadro. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. por completo. O povo Yanomami. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. do direito à residência e ao movimento. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. Em 1982. assim. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. por vezes adolescentes. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. à segurança.000 a 12. de vítimas inocentes. todos ocorridos a partir de 1982. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. o esgotamento dos recursos internos. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. sob pressão internacional. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. à liberdade. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. a plenitude de seus direitos. foi levado o caso à Comissão interamericana. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. à liberdade. 13 envolvem situações de violência rural. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. ratificanda pelo Brasil em 1992. no Estado do Pará. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. Com respeito à obrigação de investigar. à segurança. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. Como os casos ainda encontram-se pendentes. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais. o que estava a levar a extinção daquela comunidade. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. Além do caso 7615. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. Em 1984. A impunidade viola o dever de garantir. Primeiramente. Denunciam. Nesta denúncia. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. que implica o assassinato. não restaurando à vítima. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. Pelos denunciantes. à integridade e à justiça. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações.internacional contra o Brasil. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. conduzisse programas de educação. que corresponderia ao território desses índios. Em todos os 34 casos. 34 são relativos a violência policial. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. no âmbito da Justiça Militar. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. na há como tecer comentários mais aprofundados.

de 1964 a 1985. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais.afronta ao direito á vida. Desses três casos. compleição física e gravidade da infração. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. capaz de causar morte. por duas vezes a licença foi indeferida. com o fim da impunidade. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. por vezes. no Estado do Maranhão. maus tratos e violência sexual. e. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. entre nove e catorze anos. Por fim. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. Na mesma direção aponta o terceiro caso. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. será analisado quem são os proponentes das denúncias. seja na esfera pública seja na esfera privada. deflagrado a partir de 1985. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. processados e punidos. processar e punir os agentes responsáveis. c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. de âmbito nacional ou internacional. e o outro concernente ao processo de transição democrática. em janeiro de 2005. em São Paulo. vítimas de espancamentos. Segunda a denúncia. Além desses três casos. . O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. à integridade pessoal. No período de 1991 a 2001. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. relativo ao processo de democratização. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. sem terem cumprido qualquer pena. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil. Contudo. requerem o combate à impunidade. do mesmo modo. por grupo de extermínio. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. pela atuação conjunta dessas entidades. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. observa-se que durante o regime militar. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. sem qualquer discriminação. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. para que os responsáveis sejam investigados. Já no segundo período. Trata-se da violência baseada no gênero. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. O primeiro é o da “Candelária”. foram vítimas dessa grave violação. Requere. De pronto. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. dano ou sofrimento físico. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. ainda. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. às garantias judiciais. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. dezenove meninos. o que resultou no envio do caso à Comissão. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. acentuado o dever do Estado investigar. assim. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. Recomenda-se. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. os que merecem relevância cinco casos. entendeu por encaminhar o caso à Corte. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. sexual ou psicológico à mulher. marcado pela violência e abuso sexual. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. assegurados pela Convenção Americana. 3 denunciam a violência contra a mulher.

as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. Se no período de autoritarismo militar. foi essencial para a aprovação da Lei 10. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. sociais e culturais. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. por si sós. 13 revelam violência rural. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. políticas. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. A título ilustrativo. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. Dessa análise. Já no período de 1992 a 2004. Tal como no regime militar. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. haja vista que. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. examinar quem são as vítimas dessas violências. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. sem qualquer liderança destacada. estudantes. 3 são denúncia contra a mulher. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. relativo ao processo de democratização. lesões corporais. dos 68 casos analisados. as mulheres. não se verifica a punição dos responsáveis. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. via de regra. por caracterizar-se pela permanência. Verificou-se. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar.Estes dados. foram 67 as proposituras.421/2002. Nesse sentido as vítimas. Já no período de democratização. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. todos. mas sim como uma omissão do Estado. definitivamente. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. Também notável é perceber. a população negra. mas sim pelo critério econômico. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. culturais. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. líderes de trabalhadores. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. No segundo período. Não mais pelo critério político. e um menciona violação aos direitos da população indígena. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. como os povos indígenas. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais. Já no segundo período. agora. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. no período de 1970 a 1992. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. em geral. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. No entanto. não são mais dos setores da classe média. as crianças e os adolescentes. nesse sentido. 34 envolvem violência policial. I) os casos de violência policial. sociais. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. pela profundidade e extensão de seu alcance”. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. com o qual se conjuga um componente sócio-político. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. Dessa estatística. dos dez casos apreciados. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. motivou o encaminhamento. No período do regime autoritário militar. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. professores universitários. Mister analisar. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. mas pessoas pores. nacionais e internacionais. pode-se extrair que no primeiro período. as vítimas. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. tortura. surge como significado fator para a proteção dos . IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. passa-se a analisar. vendedores. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos. integrantes da classe média brasileira.299/96. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. 87% dos casos examinados. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. a partir da democratização. advogados. 90% dos casos denunciaram violência policial. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. seja no primeiro ou no segundo período. pelo Poder Executivo. ainda. agora. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. e. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. economistas e outros profissionais. Considerando o primeiro período.

Nesse sentido. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. Nesta hipótese. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. por sua vez. Ao acolher o aparato internacional de proteção. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. Enfim. são materialmente constitucionais. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. Como foi demonstrado. com base em toda a análise desenvolvida. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. Enfatize-se que a Constituição de 1988. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. iniciado em 1985. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. todos os tratados internacionais de direitos humanos. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. interagindo como sistema nacional. exige nova interpretação de princípios tradicionais. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. Conclui-se. como a soberania nacional e a não-intervenção. compondo o bloco de constitucionalidade. § 2º da CF. impondo a flexibilização e relativização desses valores. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. passam a integrar o Texto Constitucional. independentemente do quorum de sua aprovação. tendo em vista que. ao mesmo tempo. assim. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. surgindo no pós-guerra. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. Adotando a primazia da pessoa humana. Atentouse. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. Ademais. além do Estado. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. considerando a experiência brasileira. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. pode-se afirmar que. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . Neste sentido. esses sistemas se complementam. 5º. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. de âmbito global e regional. No Brasil. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. Nessa condição. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição.direitos humanos. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. ainda. Por força do art. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. como os indivíduos e as organizações não governamentais. já que. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. isto é. como também de âmbito geral e específico. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. vindo a contribuir para reformas internas. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro.

. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. nacional e internacional assegurados. O conceito de cidadania se vê. ampliado. por vezes. assim. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. ainda. embora seja incipiente no Brasil. a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. a permitir a tutela. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. elas se tornam mais visíveis. A sistemática internacional de proteção vem. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. acrescente-se que os direitos internacionais. A ação internacional constitui. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. Em suma. salientes e públicas. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. portanto. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro.internacional. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. mas também direitos internacionalmente anunciados. jamais a restringir ou deliberar. permitindo.