Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

por meio da ampliação de direitos sociais. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. isto é. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos.II). Se. Sendo assim. enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. garantias. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. 4º. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. os direitos sociais. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. além dos direitos civis e políticos.as pessoas são um fim em si mesmas. ou. A prevalência dos direitos humanos. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. não é uma pessoa autônoma”. Os direitos e garantias fundamentais são. A interpretação das normas constitucionais advém. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. (. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. ineditamente. Ao tratar do tema J. . de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. Consagra-se. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. inc. econômicos e culturais. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. desse modo. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. a Constituição de 1988. ao mesmo tempo. 5º. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. teve consciência dela. Canotilho afirma que “os direitos. Os princípios morais. II. incluindo. não podendo ser usadas como meios. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. ademais. ainda. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. liberdades. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. assim. por um lado. assim. assumindo especial propriedade.J. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. não havendo como divorciá-los. sendo certo. III. mas simplesmente se moveu perante a vida. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. da autodeterminação dos povos. §1º da CF/88. Já no plano do constitucionalismo local. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. Nesta ótica. Significa também que eles valem directamente contra a lei. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império.. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. seja no âmbito internacional ou interno. A Carta Magna de 1988 reforça. pois. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. ou. liberdades e garantias fundamentais. Não são simples norma normarum. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. Sendo assim. Implica. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. são hoje. O sistema jurídico define-se. De fato. para Kant. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. ainda. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. tampouco.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. nos termos do art. nos termos do art. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. é um direito de princípios. O art. integrantes do sistema normativo. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. não são meras normas para a produção de outras normas. Para Canotilho. Na realidade. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. unifica e centraliza todo o sistema normativo. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. mas norma normata. VIII e IX.. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. dotados de especial força expansiva. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos.

ainda. I). haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. Sendo assim. Sendo assim. 19 da Convenção de Viena. é o que prevê o art. que os celebra. quando da assinatura. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. No Brasil. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. sem haver uma normatização. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. por sua excelência. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. Para o estudo do trabalho do livro. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. por exemplo. em virtude do movimento pós positivista. Tal como no âmbito interno. constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. expressão de consenso. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. concluída em 1969. não podendo criar obrigações para os demais Estados. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. que são de competência do Poder Executivo. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. Enfatize-se que os tratados são. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. inc. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. nos termos do art. quando se sua aplicação naquele Estado”. 52 da Convenção de Viena. Para os constituintes. Logo. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. É o aceito definitivo. pelo Estado brasileiro. consolidando os costumes internacionais ou. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. como foi. acordos e atos internacionais. nesta concepção. quais sejam. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. acessão. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. A Convenção de Viena determina. ainda. o que aconteceu na Convenção de Viena. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). conclusão e assinatura. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. ou um prazo para que o Presidente da . A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. ao aceitá-los. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. o art. e a do Congresso Nacional. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. prevenindo o abuso desse poder. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. compromete-se a respeitá-lo. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. uma vez que Estados soberanos. convenções e acordos internacionais. Em geral.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. Entretando. adesão ou aprovação de um tratado. sob a competência do Poder Executivo. inc. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. VIII e o art. os tratados internacionais demandam. Os direitos humanos. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. modificando-os. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. por exemplo. Importante ressalta que. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. 84. Como etapa formal. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. como era então a experiência européia. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. ratificação. 27 da Convenção de Viena). ou seja. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. Nos termos da Convenção de Viena. CAPÍTULO IV . A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. que os aprova por meio de decreto legislativo. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. Via de regra.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. 49.

Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. Pois bem. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. Deste modo. 5º da CF. ao efetuar a incorporação. diferentemente da Constituição Portuguesa. cedo ou tarde. vagos. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. a ruptura da situação jurídica vigente”. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. a cada norma constitucional é preciso conferir. caracterizada como cláusula constitucional aberta.. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. especialmente tratando-se de norma de direito fundamental. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. 5º. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. A Carta de 1988. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. Caso ela venha a faltar. Canotilho. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. §2º da CF/88. Os direitos internacionais integrariam. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. É de suma importância enfatizar que. mas sim bastante pragmática. explicitamente individuados no art. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. portanto. 5º. 5º. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. No dizer de Jorge Mirando.. qual seja.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. sendo de difícil caracterização a priori. Ela. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. os direitos implícitos são imprecisos. quando. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. de forma positivista.J.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. de sua estabilidade. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. ao ‘texto’ da Constituição. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. enumerados e claramente elencados. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. Observe-se que. as normas e princípios da constituição. Logo. “(. ligada a todas as outras normas. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. a contrario sensu. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado. o chamado “bloco de constitucionalidade”. Há que densificar. Sendo assim. “(. assim. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. em especial ao princípio do art. conforme art. Contudo. subentendidos nas regras de garantias. por conseguinte. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. torna-se inevitável.. a Carta de 1988 está a incluir. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. uma natureza de norma constitucional. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. §2º da CF/88. Observe-se que a hierarquia . a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. Para J. b) os implícitos. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. em profundidade. 5º. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. ao fim da Declaração de Direitos. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. 5º. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. Para Canotilho. Para Konrad Hesse. o máximo de capacidade de regulamentação”. A Constituição assume expressamente no seu art. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. 5º. elásticos. A Constituição de 1967. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte.. no parágrafo 2º do art. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias.

102. bem como com a sua racionalidade e principiologia. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. O livro. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. em verdade. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado.esta última a corrente adotada pelo STF . enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. mas também afronta a própria Convenção de Viena. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. como expressão de uma convicção. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. Contudo. §2º da CF/88. O STF. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. defende posicionamento contrário. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados. III. III. como os fundamentos de uma sociedade internacional.há duas outras correntes. Em suma. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . contudo com força supralegal. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. §2º da CF em relação à Carta Magna. Importa salientar que. §2º da CF justifica-se na medida em que. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. e que tem reflexo no art. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. assim. b da CF. 5º. insiste-se que. a doutrina brasileira.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. Observe-se que. contudo. sem os quais a inteira estrutura se romperia. Este tratamento diferenciado. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. denominada jus cogens. 102. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. Contudo. 5º. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. que na interpretação do art. e um outro regime para os demais tratados internacionais. Com base nestes argumentos. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. O fundamento utilizado para. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. Vale dizer que. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. Sem o mencionado ato de denúncia. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. Sustenta-se. conferido pelo art. Em relação ao tema. pois. sem dúvida. e não das prerrogativas dos Estados. são normas supranacionais. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. 27 da Convenção de Viena. §2º não . ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. porém supralegal. Em seu voto. Acredita-se que. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. inc. 5º. apresentam hierarquia de norma constitucional. ao revés. por força do art. além das duas correntes já mencionadas. em que. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. 5º. aceita em todas as nações. Sendo assim. para o regime do direito internacional. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. alínea b da CF.004.

Entretanto isso não ocorre no Brasil. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. ainda. contudo. sem qualquer participação do Legislativo. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. que são os que possuem. nos termos do art. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. ao clarificar a lei existente. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. Para finalizar. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. tornar-se-ão cláusulas pétreas. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. ou seja. O quorum requerido pelo §3º do art. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. e não o contrário. Celso Lafer. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. após a passagem por um difícil processo de aprovação. com o advento do §3º do art. 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. §4º da CF. 5º da CF. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. 60. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. §2º da CF. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. não há como se admitir que. qual seja. porém supralegal. Para os defensores da última corrente. já que o último não revogou o primeiro. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. devendo ser este último que deve prevalecer. b) os materialmente e formalmente constitucional. 5º. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. 60. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. Cabe apontar. em face das argumentações já expostas. 5º da CF/88. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. em dois turnos. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. §2º da CF/88. que por força do § 2º do art. Contudo. a norma será formalmente constitucional. além de natureza material constitucional. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. § 4º da CF. 5º. que. se para a ratificação é necessário um ato complexo. Devido à peculiaridade mencionada. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. No direito brasileiro. Sendo assim. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. 5º. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. Sendo assim. Atente-se. . Neste último caso. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. 5º da CF/88. 5º da CF. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. Por força da indigitada norma. defendendo a tese de que o art. Sendo assim. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. Para a doutrina. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada.

inicialmente. já no segundo caso. “não apenas o Tribunal nacional. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente.Na Constituição da Argentina. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. ainda. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. §§ 1º e 2º da CF. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. prevalece a norma interna. Porém para o trabalho. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. na qual. conseqüentemente. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. Pela primeira. os tratados obrigam diretamente os Estados. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. Ora. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. Sendo assim. 5º. porém supralegal. 5º. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. . os mesmos têm aplicação imediata. haja vista que. §§ 2º e 3º. invalidá-la. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. 105. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. a monista ou a dualista. há a sistemática da incorporação legislativa. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. Ademais. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. adicionando. com a ratificação. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. conforme determina o art. para os tratados internacionais de direitos humanos. Na Constituição da Venezuela. nos termos do art. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais. há de ser perquirir. 5º. No primeiro caso. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. 5º. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. É o que se extrai da interpretação do art. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. no plano interno”. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. por força do art. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. § 1º da CF/88. No Peru. 5º. por atos. Já na sistemática da incorporação legislativa. Na Nicarágua. por sua vez. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. 5º. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. após a reforma constitucional de 1994. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. para quem. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. § 1º da CF/88. ações ou omissões de sua país. reformada em 1989. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. uma única ordem jurídica. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. Diante dessas duas sistemáticas. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. § 2º da CF/88. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. a da CF. mas não geram direitos subjetivos. têm vigência imediata. prevalece a norma de direito internacional. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. Também a Constituição do Chile. III. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. qual a sistemática adotada pelo país. É nesse contexto que se insere a inovação do art. art. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. ou seja. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. Em outras palavras. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. não será mais possível a sustentação da tese a qual.

em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. na francesa. conferindo-lhes. É a escolha da norma mais favorável à vítima. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. na alemã. pode-se imaginar. com harmonia e consonância. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. três são as hipóteses que podem ocorrer. §§ 2º e 3º. na mesma base territorial. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. complementem ou ampliem as normas constitucionais. além de não possuírem força hierárquica constitucional. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. Diante do que foi exposto. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. na holandesa. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. embora não previstos no âmbito nacional. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. titular do direito. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. a Constituição. assim. 5º. mas também internacional. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. quais sejam. o status de norma constitucional. havendo a necessidade. como ocorre na Constituição portuguesa. passando a incorporar ao direito brasileiro. portanto. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. Porém. refletindo a sistemática monista. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. todavia. Sendo assim. como primeira alternativa. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. em determinados casos. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. em qualquer grau. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. em seu art. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. encontram-se enumerados nesses tratados. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. § 1º. O próprio art. Vários são os casos em que direitos. 5º. nunca a restringir ou deliberar. . representativa da categoria profissional ou econômica. da expedição de uma norma interna. relator para o acórdão. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. O regime diferenciado. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. ainda.Em síntese. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. Logo. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. Nesse caso. na espanhola. Os indivíduos tornam-se. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. de modo a ajustá-lo. respectivamente. acolhe a sistemática da incorporação automática. b) integrar. com outras. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. por força do art. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. ou c) contrariar preceitos internos. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. ou para proteger os direitos e liberdades alheias.

Por fim.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. Na lição de Norberto Bobbio. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. Pois bem. Enunciado semelhante é o do art. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. Na segunda. doentes. como na Convenção Americana. . Preleciona ainda Bobbio que. Pela norma. ora reforçando sua imperatividade. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. ou seja. Na primeira hipótese. qual seja. possuindo como finalidade promover a cooperação. acrescendo apenas uma exceção. contudo admite não apenas uma exceção. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. três hipóteses poderão ocorrer. náufragos. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. mas construído. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. em constante processo de construção e reconstrução. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. tanto do âmbito global quanto no regional. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. Observe-se que se a situação fosse inversa. Vale dizer. ora adicionando novos direitos. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. a dívida de créditos alimentícios. 7º da Convenção Americana. aplicar-se-ia Constituição Federal. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. ainda. Criada após a Primeira Guerra Mundial. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. paz e segurança internacional. na medida em que estes não são um dado. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. direitos positivos. Foi preciso. presioneiros) e à população civil. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. em casos de guerra. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. se eles são naturais e inatos. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. e sim o de protegê-los”. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. no Brasil. uma invenção humana. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. quanto à terceira hipótese.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. A proteção humanitária se destina. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. a militares postos fora de combate (feridos. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. Em todas as três hipóteses.

ou seja. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. (. assim. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. que haja o censo de obrigação. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. da Liga das Nações e do Direito Humanitário. 38 do Estatuto da Corte Internacional. Nesse cenário. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas.. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. Simultaneamente. Os novos institutos rompem. Hans Kelsen. previstos no Acordo de Londres.. não resta dúvidas de que a prática de tortura. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. lecionou o seguinte: “Contudo.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. entre outras práticas. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. Sendo assim. porque revela tema de legítimo interesse internacional. Com a decadência do nazismo. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. Steiner. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes.. Diante dessa ruptura. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. ou seja. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. As condenações do Tribunal de Nuremberg. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. No fim do século XX.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser.). Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. (. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo. conseqüentemente. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. com importantes exceções”. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática.. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. cada qual ao seu modo.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. seja pelos oficiais militares. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. Com o advento dos institutos supramencionados. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal. o direito a ser sujeito de direitos. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. mas é válido apenas no plano do direito interno. pode-se concluir que tais institutos. com as decisões judiciais. de detenções arbitrárias. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. Neste prisma. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo. Nesse contexto. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. Para a existência do costume internacional. seja pelos líderes do partido. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas).. de desaparecimento forçado. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. juntamente com os tratados internacionais. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. mas também sujeito do Direito Internacional. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa.. o costume internacional é fonte do direito internacional. com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. ainda. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. tem sido repensada. por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. segundo o art. Note-se que. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial.

consagravam a ótica liberal. No final do Século XVIII. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. Rússia. ao consagrar valores básicos universais. posteriormente. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. ela não define o conteúdo dessas expressões. O Conselho Econômico e Social. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. titular de direitos iguais e inalienáveis. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. composto por vinte e sete membros. Conselho Econômico e Social. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. de 1948. neste sentido. Importante salientar que. em 1918. A não-atuação estatal significava liberdade. em que os principais são: Assembléia Geral. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. sociais e culturais. Neste momento histórico. Deste modo. converte-se em direito à atuação estatal. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. cresce o movimento social e da cidadania. Estados Unidos e. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. Os membros permanentes são China. que é o principal funcionário administrativo da ONU. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. . Três anos após o advento da Carta das Nações. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. Reino Unido. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender.. Sendo assim. verifica-se que. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. com suas agências especializadas. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. Conselho de Tutela e o Secretariado. Desde seu preâmbulo. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. Caminhando na história. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. Para a consecução dos objetivos supramencionados. na então República Soviética da Rússia. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. sociais e culturais.)”. A criação das Nações Unidas. as Declarações de Direitos. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. incluindo os direitos humanos. ao lado do discurso liberal da cidadania. Conselho de Segurança. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. com a emergência dos direitos à prestação social. Além da universalidade dos direitos humanos. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que. sociais e culturais. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. desde 1992. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. Em definitivo. com direito a um voto. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. especialmente após a Primeira Guerra. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta.Após a Segunda Guerra Mundial. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. Corte Internacional de Justiça. que substituiu a antiga União Soviética. seja a Declaração Francesa (1789). complementados pela resistência à opressão. À luz de uma perspectiva histórica. O art. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. composto por quinze juízes. e o direito à abstenção do Estado. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. social e cultural.. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. Com a vitória do Aliados. segurança e propriedade. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. que foi anexado à Carta. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. à proteção das minorias. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. entre outras. França. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. seja a Declaração Americana (1776). (. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”.

mas a Declaração traz a definição. Argumentam. O universalismo induz. contudo. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. Na análise dos relativistas. constante da Carta das Nações Unidas. No entendimento de Jack Donnelly. (. Para essa corrente. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. Ela não é um tratado. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. à tortura.. forte ou fraco. por esse motivo. de 1993. ainda que em nome da cultura. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. As três gerações se interagem. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. independentemente de seu sistema político. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais.. social e moral vigente em determinada sociedade. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. No entanto. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. de maneira justa e equânime. culturais e religiosas devem ser consideradas. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. econômicos e culturais. apresentando.. e cultural. por sua vez. único e indivisível. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas. Considerando neste contexto. o debate ganha força. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. independentemente de seu alcance. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. a defesa. Nesse sentido. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. Exemplo é a proibição à escravidão. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. Ademais. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. econômico. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. não apresenta força de lei. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. Sendo assim. por exemplo.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. força jurídica vinculante. desse mínimo ético. ao tratamento cruel. de outro. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. Para os relativistas. indivisíveis. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. importará em violação a direitos humanos.. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado. como ocorre. assim. mas é obrigação dos Estados. que. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. (. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. nessa visão. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. por sua vez. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. bem como seu peculiar sistema moral. Para esse trabalho. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. econômicos e culturais. por si só. força jurídica vinculante. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. cultural. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. O propósito da Declaração. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. direitos civis e políticos. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. como valor intrínseco à própria condição humana. direitos sociais.) Um relativismo cultural fraco. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. a Declaração Universal. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. há diversas correntes relativistas: “No extremo. como proclama seu preâmbulo. à destruição da diversidade cultural. interdependentes e inter-relacionados. Há. A Declaração de Viena. econômico. que tenta universalizar suas próprias crenças. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. ainda. pelo contrário. apresentando. defensor da corrente relativista. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. “Compreendeu-se finalmente que a .

Todavia. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal.. não visam substituir o sistema nacional. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. Primeiramente. como. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. os direitos econômicos. posteriormente. sob o enfoque estritamente legalista. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. mas são incompletas. por sua vez. Inicialmente.. nos âmbitos europeu. que conjugava as duas categorias de direitos. quando falham as instituições nacionais. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. a) Introdução O processo de universalização. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos. em 1951. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. “(. por exemplo. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. bem como que sem os direitos econômicos. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. nas palavras do doutrinador. Adotando-se a lição de Jack Donnelly. discursivo de diálogo (. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. Sociais e Culturais. International Bill of Rights.. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. a tortura e a violação dos direitos das crianças. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. Neste debate. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. Diversamente dos tratados internacionais comuns. sob a influência dos países ocidentais. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. sociais e culturais. sociais e culturais. sobre o genocídio. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. Posteriormente. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida. africano.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. Para iniciar este estudo. interamericano e.). sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. como pressuposto para um diálogo intercultural. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. os direitos . Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos. com seus inúmeros instrumentos. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências. quais sejam.. assim. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. o sisyema global de proteção desses direitos. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. quando alcançaram o número de ratificações necessário. O sistema global. Sociais e Culturais entraram em vigor. alcançado por um universalismo de confluência. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. Ao revés. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. a Assembléia Geral.

sociais e culturais. Contudo. o sistema de petições. um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. opcional. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. impondo obrigações aos Estados-partes. o vínculo exigido. Resta salientar que. sexo. sociais e culturais. administrativas e judiciárias adotadas. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. além de conquista de transcendência histórica”. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. Vale dizer. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. ao invés da nacionalidade. Contudo. limitações em relação a determinados direitos. adotando medidas necessárias para esse fim. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. Esse argumento ganhou força a partir de que. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. das comunicações interestatais. . embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. Segundo Antônio Augusto Cançado. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. sociais e culturais são direitos programáticos. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. Sociais e Culturais. para o exercício da sistemática das petições. para os direitos civis e políticos. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. bem como toda vez que o comitê solicitar. ainda. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. religião ou origem social. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. Ao comitê cabe analisar os relatórios. Neste raciocínio. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. O pacto permite. raça. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. Por essa sistemática. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. Por esse mecanismo. vindo posteriormente a encaminhá-lo. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. cada qual relativo a uma categoria de direitos. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Além da sistemática dos relatórios. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. Contudo. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. em se tratando de cláusula facultativa. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. Em relação aos direitos econômicos. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. Ao ratificar o pacto. como. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. com os comentários. mediante proposta de solução amistosa. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. com maior detalhamento. que devem ser implementados de forma progressiva. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). tecendo comentários e observações gerais a respeito. como também estende o elenco desses direitos. primeiramente. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. sendo adotados dois pactos internacionais.econômicos. instituído pelo pacto. Sociais e Culturais. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. sociais e culturais seriam programáticos. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. língua. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. por exemplo.

Social e Cultural. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. que pode causar constrangimento político e moral. de condições econômicas. por vezes. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. o Pacto de Direitos Econômicos. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. no prazo de 180 dias. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. Contudo.Ao receber a petição individual. por meio de protocolo adicional. Ressalte-se.. após analisar a sua admissibilidade. até o máximo dos recursos disponíveis. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. os direitos econômicos. em parte. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos. Além disso. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. Nos ensinamentos de Martha Jackman. Contudo. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. pelo menos no âmbito global. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. As decisões do Comitê não possuem força vinculante. além do que. ao menos. devendo. nas quais todos nós vivemos. para a sua aplicação. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. o Pacto de Direitos Econômicos.. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. ainda. é que no Pacto Econômico. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. trabalhista. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. mediante o chamado power of embarrassment. Porém.. entre outros. econômicos e culturais. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. por todas as nações. apesar de sempre buscar uma votação unânime.. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. Ao decidir. todavia. distinguir entre . Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. tampouco. econômicos e culturais. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. o Comitê “é importante. além de declarar a caracterização da violação alegada.” ou “ninguém poderá. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. mediante Protocolo Facultativo. pela ótica normativa internacional. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. sociais e culturais. Sociais e Culturais. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais são direitos que exigem. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. por sua vez. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. permite a sistemática das comunicações individuais. Contudo. “Ao ratificar esta Pacto.”. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . Trata-se de uma idéia adotada. os Estados que não satisfizeram a decisão. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. Assim. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. Ao revés. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. sociais e culturais. em 1990. como o direito de petição. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais.. além do que.”. continua. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. sociais e culturais não são direitos legais. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. nesse aspecto. O Comitê solicita informações. o Comitê adotou.. Em suma. apresentam realização progressiva. repousa uma visão social do bem-estar individual. o Comitê. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. mas também por diversos outros tratados internacionais. ambientalista. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional. um mínimo standart técnico-econômico. Como resultado de fortes pressões.. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. Como bem observa Thomas Buergenthal. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos.

O processo de internacionalização dos direitos humanos. buscada na Convenção. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais.. Logo a discriminação significa desigualdade. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. Percebe-se. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. Sob o ângulo pragmático. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. alargando o conceito de sujeito de direitos. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. c) igualdade material. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. alimente ou reproduza as desigualdades”. em igualdade de condições. além do combate à própria discriminação. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. em regra. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. Fico. sociais e culturais. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. 1º. a discriminação significa toda distinção. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. o sujeito é visto em sua abstração. também conhecidas como ações afirmativas. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. etnia e demais critérios. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. ao menos. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. Destaca-se. na grande maioria dos ordenamentos. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. significa a inclusão social. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. Convenção contra a Tortura. Não basta a legislação repressiva. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. em face de sua própria vulnerabilidade.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. o qual concluiu que “(. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. exclusão. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. Essas Convenções mencionadas apresentam. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. buscam responder a uma específica violação de direito. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. progressivamente. sociais e culturais] que não poderia. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. considerando categorizações relativas ao gênero. orientada pelos critérios gênero. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. mas sim para promoção de direitos. econômicos. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). independentemente da retórica. No combate à discriminação. em 21 de dezembro de 1965. algumas sobre direitos novos. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. Após o advento da International Bill of Rights. Desde o seu preâmbulo. Boaventura de Sousa Santos. assegurando a efetiva igualdade. etc. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. Na esfera internacional. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. etnia. mister. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. A igualdade. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. incluindo os indivíduos. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. assim. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. Na visão de Bobbio. mas ao indivíduo “especificado”. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. raça. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. eliminar a discriminação racial. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. ser considerado como possuidor de. Acrescente-se que. Convenção sobre os Direitos das Crianças. mas também aumentou a titularidade de direitos. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos.. as organizações sindicais. fundamentalmente. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. posteriormente. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. orientada pelo critério sócio-econômico. em recente relatório. o Estado assume a obrigação internacional de. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. As violações aos direitos econômicos. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. . Por essas razões a Convenção prevê em seu art. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. segundo dados da própria Nações Unidas. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. Até o próprio BIRD. Social and Cultural Rights. as entidades de classe. pois. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. que merecem tutela especial. b) a igualdade material. §4º a possibilidade de discriminação positiva. Compartilha-se. resultou um complexo sistema internacional de proteção. orientação sexual. dente outros. idade. idade.) Direitos sociais. Pala Convenção. políticos. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. refletindo o próprio temor da diferença. raça. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. Ao ratificar esta convenção. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. ou seja.

são consagrados. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. Na Convenção há a previsão em seu art. as petições individuais. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. também são pautadas nas informações coletadas. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. desumanos ou degradantes. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. bem como para realizar investigações in loco. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. por sua vez. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. integral e indivisível dos direitos humanos universais. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. com o Estado. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. A Declaração estabelece. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. embora a violência seja uma grave discriminação. baseado no gênero. Quanto aos mecanismos de monitoramento. No art. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. aplicação de castigo. Apenas em 1999. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). Contudo. formula a sua opinião. ambos em 1975. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. fazendo recomendações às partes. não invocando qualquer costume. Ao ratificar esta convenção. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. seja qual for. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. Para que seja admitida a petição individual. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . cabendo a este examinar as petições individuais. progressivamente. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. dentre os direitos. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Em relação ao seu sistema de monitoramento.buscando remediar um passado discriminatório. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. igualmente às decisões dos demais Comitês. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. c)a vinculação do agente ou responsável. assegurando a efetiva igualdade. ainda. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. objetivam acelerar o processo de igualdade. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. quais sejam. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. Em relação ao sistema de monitoramento. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. sendo certo que. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. 1º da Convenção há a definição de tortura. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. que cause morte. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. caso conclua pela existência de violação. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. os relatórios e as comunicações interestatais. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. além da habilitação do Comitê. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. o Estado assume o compromisso de. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). esta Convenção estabelece os três mecanismos. cultural ou mesmo legal. As suas decisões. mas também alcança o domínio privado. à luz dessas informações. Ao longo da Convenção. adicionalmente. direta ou indiretamente. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. que é. Em suma. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. contudo é publicada no relatório anual do Comitê.

Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. no todo ou em parte. políticos. a não ser que. de forma definitiva. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. 6º. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. a opinião dos interessados. em 15 de maio de 2000. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. racial ou religioso. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. ainda. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. contudo. Ao fazê-lo. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. Note-se que a Conferência de Viena. para erradicar. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. Nos termos da Convenção. em 1993 e 1994. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. no que concerne à matéria dos Protocolos. que.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. datado de 9 de dezembro de 1948. funcionários ou particulares. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. O Comitê fica autorizado. ainda. O art. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. sociais e culturais. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. contrariamente. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. na devida consideração. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. Apenas em 17 de julho de 1998. cometidos com a intenção de destruir. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. a prática da tortura. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. em face de seu alcance. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. sejam governantes. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. afronta a ordem internacional. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. um grupo nacional. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. foram adotados. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. consciência e religião. e considerando ainda que. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. por sua gravidade. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. respectivamente. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. em Roma. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. Porém. tal como: a) assassinato de membros do grupo. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. levando. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. maiores informações sobre aquelas implementações. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. pela legislação aplicável. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. econômicos. étnico. Vale ressaltar que. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. a requerer. Pelo seu art. Importa observar. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. a maioridade seja atingida mais cedo”. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos.

Pode. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. Timor Leste. seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. 5º do Estatuto de Roma. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. primeiramente. tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. Por fim. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. II) crimes contra a humanidade. a fim de que esta investigue o crime. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. Ruanda. . mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. ainda. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. Além da sanção de natureza penal. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. em contraste. agora. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. cumpre assinalar. já mencionados. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. Nesta linha. Adentrando. deixando de operar dentro dos Estados. em último caso. propondo a ação pena cabível. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. Conforme o art. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. Porém. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos.direitos humanos foi revigorada na década de 90. é do Estado. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). de caráter permanente. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. ilustrativamente. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. o cargo oficial de uma pessoa. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. entre outros. no tema do tópico. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. o Conselho Econômico. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. em 17 de julho de 1998. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. Em todas as hipóteses. isto é. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. a própria Promotoria agir de ofício. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. conclui-se que. pois. Em relação às penalidades. controle e garantia. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. dentre outros. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. ou seja. em face dos genocídios que a marcaram. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. como a Assembléia Geral. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. o 1235 e o 1503. não o eximirá da responsabilidade penal. a responsabilidade primária. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. sendo novamente eleito em 2000. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. Neste sentido. a escolha de mecanismos não convencionais. Já o sistema não-convencional. tampouco importará em redução da pena. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. competente para receber as denúncias sobre crimes. Social e a Comissão de Direitos Humanos. examiná-las. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. Kosovo. ficando. em ações conflitantes no tocante aos Estados. com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. Desse modo. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação).

existindo. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. portanto. com respeito à cultura. de um relator especial com mandato para países específicos. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. Fundamentalmente. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. surge o sistema regional. por vezes. Ao lado do sistema global. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. para que seja efetivada a proteção buscada. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. América e África. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. pela Comissão de Direitos Humanos. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. integrado. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. Muitas regiões são ainda homogêneas. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. que apresentam características consideravelmente diversas. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. b) manter a situação sob análise. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. No sistema europeu. existir ou não em construir precedentes normativos. o consenso político se torna mais facilitado. Shimth destaca que.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. entre outras medidas. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. o que oferece vantagens”. M. 1503. pelo sistema interamericano. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. à língua.Vários foram os mecanismos temáticos criados. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. c) apontar um especialista independente. A análise dos casos pode ensejar. possuindo. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. o relator especial transmite a apelação aos governos. a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. segundo critérios de admissibilidade. em tese. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. Rhona K. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. seja com relação aos textos convencionais. Ao apontar as vantagens do sistema regional. 1235. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. podendo. assim. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. as medidas urgentes são. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. 1503. em mecanismos convencionais e não convencionais. além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. particularmente na Europa. em 1950. ainda. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. atualmente. no sistema nãoconvencional. estabelecido em 1980. Consolida-se. contudo. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. às tradições.

A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. a depender do caso. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. 3) quando os parâmetros conflitam. concernente aos direitos sociais. econômicos e culturais. mas sim complementares. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. superando essa obrigação negativa. O que importa é o grau de eficácia da proteção. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. através do debate interno que eles proporcionam ou. Dos três. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. Ante esse universo de instrumentos internacionais. Posteriormente. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. pelo contrário. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. sem qualquer discriminação. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”..Européia de Direitos Humanos. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. progressivamente. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. e de outro. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. em que o sistema de informes é um método de controle regular. Teoricamente. tendo em vista que. precisar e difundir a objetividade de uma situação. podendo ser reeleito apenas uma vez. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. em 1998. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. a plena realização dos direitos. aperfeiçoando outros. O mais incipiente é o sistema africano. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. eventualmente. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. no sistema interamericano. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. Para tanto. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. adicionando novos direitos. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. Além de se constituir em um método para determinar atos.) Por outro lado. enquanto o instrumento regional deve ir além. Ambos são úteis e complementares. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. em relação aos direitos nela consagrado. apresentam o trabalho da Comissão. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. (. . vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos.. cultural ou econômico. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. do debate internacional. Substancialmente. limitando a determinar aos Estados que alcancem. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica.

após a investigação. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção.. assim. Durante esse período. o “controle da convencionalidade das leis”. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. a Corte tem desenvolvido. quando além das atividades anteriores. de acordo com as informações disponíveis. como. a qualquer membro da OEA. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. salvo no caso de injustificada demora processual. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações.Conforme Hector Fix-Zamudio. quando um Governo. em seu art. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. ou seja. parte ou não da convenção. dano uma maior tônica de juridicidade. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. Em relação ao plano contencioso. a Comissão buscará uma solução amistosa. Vencido o prazo. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. d) legitimadora. a Comissão. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. em caso de extrema gravidade e urgência. mediante declaração expressa e específica. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. eleitos a título pessoal. Porém. Não sendo alcançado o acordo. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. a Comissão julgará o mérito. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. ainda. nunca deveria ter sido recebido. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. Na lição de Thomas Buergenthal. c) crítica. a fim de promover seu respeito. para evitar dano irreparável à pessoa. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. buscar informações do respectivo governo. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. em casos de gravidade e urgência. por iniciativa própria ou mediante petição da parte. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. Caso. Se anteriormente. ou ainda entidades não governamentais. f) protetora. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. a Comissão poderá. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. No plano consultivo. adotada em 1º de maio de 2001. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. não estando prevista a legitimação do indivíduo. Por fim. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. A petição. e) promotora. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. 44. recomendações ao Estado-parte. efetuando. com o novo regulamento. a Comissão examinar as alegações do peticionário. de acordo com César Sepúlveda. determinará a . Feito o exame do caso. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. e toda vez que resulte necessário. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. “(. ela pode rejeitar o caso que. Se alcançado o acordo.. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. em retrospecto. o caso será submetido à Corte Interamericana. por maioria absoluta de votos. sendo observado todos os casos de admissibilidade. por exemplo. atual presidente da Comissão Interamericana. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. como ocorre nos sistemas globais. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. Além do que foi descrito. o prévio esgotamento dos recursos internos. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório. eventualmente. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. em matéria ainda não submetida à Corte. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. b) assessora. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. A Corte. Na sua função consultiva. contra o qual se tenha apresentado queixa.). reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. tal decisão ficou mais vinculada. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais.

A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. 63 da Convenção. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. embora recente a sua jurisprudência. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. da Constituição de 1988. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. como o da África do Sul. ainda. o desenvolvimento e os direitos humanos. descumprir decisões internacionais. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. os problemas de direitos humanos. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. pode-se concluir que. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. em particular. mas também na agenda internacional do Brasil. em Porto Velho. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. haverá uma concentração no período de democratização. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. Com exceção dos casos mais gritantes. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. III) Uma maior democratização do sistema. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. Pelo art. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. promovido em face do Brasil. poderá atuar a pedido da Comissão. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. da Convenção sobre a Eliminação de . Com a Guerra Fria. Dentre os casos já decididos pela Corte. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. em 1º de fevereiro de 1984. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. Ainda que crescente a justicialização do sistema. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. Rondônia. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. podendo. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. desenvolvimento e direitos humanos. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. Neste caso. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. técnicos e administrativos suficientes. conquanto denunciados. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. com recursos financeiros. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. a decisão valerá como título executivo. assim. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte.

principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. Primeiramente. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. A partir da Constituição de 1988. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. Depois desse vários outros se seguiram. como país respeitador dos direitos humanos. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. não foi objeto de qualquer declaração. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. não se encontrar um acordo. que estabelecem. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. o Brasil assume. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. Acrescente-se que. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. que faça da forma mais restritiva possível. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. ainda.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. ainda. por sua vez. Adicione-se. ainda. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. O Brasil deve. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. Sendo assim. no âmbito nacional. um núcleo de direitos básicos. Em razão dessa interação. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. Desumanos ou Degradantes. ainda que em situação de emergência. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. que trouxe importantes inovações jurídicas. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. mediante a declaração feita. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. haja vista que. quando formulá-las. até porque é uma situação anacrônica. por exemplo. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Aceita. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. . o Brasil é o único a fazer tal declaração. É importante. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. perante a comunidade internacional. Assim. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. Além das inovações constitucionais. Além da eliminação das reservas. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. De todo modo. Sociais e Culturais. O Brasil buscou. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. se ainda assim. Por fim. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. ainda. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou.

ocorria em Bogotá no ano de 1948. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. Deste modo. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. em violação à própria Constituição. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. §2º da CF. por força do art.Ressalte-se. Logo. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. além da omissão importar. como já abordado. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. que no seu art. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. em 1998. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. punir e erradicar a violência contra a mulher. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. Essa opção deveu-se ao fato de que. em 1998. ratificada pelo Brasil em 1989. devendo ter aplicabilidade imediata. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. Embora o Brasil. No entanto. verifica-se. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. Além das providências supramencionadas. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. Como já mencionado anteriormente. até porque. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. 5º. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional.455/97. Como já se ressaltou. que junho em 2002. iria incluir em sua legislação normas penais. Diante desse quadro. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. que definiu o crime de tortura. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. XLIII. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. de tipificação do crime de tortura. previsto pelo Estatuto de Roma. até a presente data. que ocorreu em 1998. para o Brasil. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. Atente-se que o Brasil. a responsabilidade pelas violações são da União. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. mas também no internacional. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. No âmbito do sistema regional. Viola ainda a própria Constituição Federal. Para tanto. sem demora. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. a falta. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. desde junho de 2002. não houve a elaboração de tal legislação. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. De acordo com o direito internacional. ainda. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. o Brasil assumiu que. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. porém. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. 5º. combate e erradicação da violência contra a mulher. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. e ratificado pelo Brasil em 2002. até abril de 1997. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. A título de exemplo. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. até o presente momento. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . importando em responsabilização do Estado. civis e administrativas necessárias para prevenir. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil.

a federalização encoraja firme atuação dos Estados. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. que foram privadas de sua liberdade”. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. líderes de trabalhadores. que foi submetido no ano de 1997. já que não dispõe da competência de investigar. particularmente. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. paradoxamente. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. Contudo. além do que.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. entre outros. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. Adicionou. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. entretanto. a União. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. A federalização. Constata-se que nesses nove casos. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. entre outros). acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. que na época era território federal. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. da comunidade Yanomami. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. que apontavam à prática autoritária do regime militar.000 presos políticos. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. 6) violência contra a mulher. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. em 1980. Importa salientar. merece destaque o caso 1684. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. lideranças da Igreja Católica. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. sendo os mais contundentes o caso 1788. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. 4) violência policial. e o caso 1835. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. sendo certo que desse universo. Desse total. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. em qualquer fase do inquérito ou do processo. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. uma vez mais. Além do Caso 1684. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. há casos que já foram apreciados pela Comissão. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. 2) violação dos direitos indígenas. as vítimas eram professores universitários. 7) discriminação racial. que foram privadas de sua liberdade. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. 3) violência rural. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. sob o risco de deslocamento de competência. ainda. Segundo Louis Henkin. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. 1) Casos de detenção arbitrária. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. não é responsável em âmbito nacional. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. Primeiramente. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. Todavia. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. em face da sistemática até então vigente. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. em 1970. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. introduzida pela EC 45/2004. sem sucessos. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. Dentre os casos. nesse sentido.

sob pressão internacional. a plenitude de seus direitos. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. Nesta denúncia. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. com uma população de 10. na há como tecer comentários mais aprofundados. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. Primeiramente. assim. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. Com respeito à obrigação de investigar. o livre exercício do direito afetado. Denunciam. à segurança. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. por vezes adolescentes. que implica o assassinato. à educação. à segurança.internacional contra o Brasil. do direito à residência e ao movimento. levaram o caso à Comissão. Recomendou. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. e por isso sob o regime de confidencialidade. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. em 1989. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. 13 envolvem situações de violência rural. Em 1984. Além do caso 7615. Em 1982. que corresponderia ao território desses índios. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. em virtude do abuso e violência da polícia militar. ratificanda pelo Brasil em 1992. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. foi levado o caso à Comissão interamericana. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. o esgotamento dos recursos internos. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. à liberdade. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. à saúde e bem-estar. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. sem justificativa. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. por completo. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores.000. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. não restaurando à vítima. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. Esses fatos. à liberdade. À luz dessas considerações. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. Em todos os 34 casos. à integridade e à justiça. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. O povo Yanomami. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. A impunidade viola o dever de garantir. ainda. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. no Estado do Pará. ainda. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. o que estava a levar a extinção daquela comunidade. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. 34 são relativos a violência policial. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações. Pelos denunciantes.000 a 12. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. no âmbito da Justiça Militar. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. A respeito. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. Diante desse quadro. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. conduzisse programas de educação. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. à liberdade. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. Como os casos ainda encontram-se pendentes. todos ocorridos a partir de 1982. de vítimas inocentes. à segurança. afirmaram que os direitos dessas populações à vida.

sexual ou psicológico à mulher. Já no segundo período. Trata-se da violência baseada no gênero. entendeu por encaminhar o caso à Corte. em São Paulo. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. sem terem cumprido qualquer pena. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. por vezes. Segunda a denúncia. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. entre nove e catorze anos. seja na esfera pública seja na esfera privada. pela atuação conjunta dessas entidades. Na mesma direção aponta o terceiro caso. O primeiro é o da “Candelária”. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. os que merecem relevância cinco casos. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. No período de 1991 a 2001. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. do mesmo modo. Além desses três casos. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. às garantias judiciais. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. assegurados pela Convenção Americana. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. Contudo.afronta ao direito á vida. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. capaz de causar morte. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. . com o fim da impunidade. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. Por fim. marcado pela violência e abuso sexual. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. de 1964 a 1985. processar e punir os agentes responsáveis. Desses três casos. para que os responsáveis sejam investigados. dano ou sofrimento físico. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. por duas vezes a licença foi indeferida. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. maus tratos e violência sexual. e. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. processados e punidos. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. e o outro concernente ao processo de transição democrática. vítimas de espancamentos. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. requerem o combate à impunidade. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. em janeiro de 2005. assim. Requere. no Estado do Maranhão. sem qualquer discriminação. Recomenda-se. acentuado o dever do Estado investigar. De pronto. c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. deflagrado a partir de 1985. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. observa-se que durante o regime militar. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. relativo ao processo de democratização. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. o que resultou no envio do caso à Comissão. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. por grupo de extermínio. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). à integridade pessoal. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. ainda. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. de âmbito nacional ou internacional. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. foram vítimas dessa grave violação. será analisado quem são os proponentes das denúncias. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. dezenove meninos. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. 3 denunciam a violência contra a mulher. compleição física e gravidade da infração. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra.

culturais. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. as crianças e os adolescentes. Se no período de autoritarismo militar. haja vista que. Verificou-se. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. Também notável é perceber. lesões corporais. em geral. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. por si sós. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. foram 67 as proposituras. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. 87% dos casos examinados. não são mais dos setores da classe média. estudantes. ainda. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. economistas e outros profissionais. com o qual se conjuga um componente sócio-político. Mister analisar. examinar quem são as vítimas dessas violências. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. e. Já no período de 1992 a 2004. tortura. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. líderes de trabalhadores. relativo ao processo de democratização. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. 3 são denúncia contra a mulher. No entanto. 90% dos casos denunciaram violência policial. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. pela profundidade e extensão de seu alcance”. sociais. e um menciona violação aos direitos da população indígena. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. Já no período de democratização. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. Dessa análise. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. sociais e culturais. Dessa estatística. Nesse sentido as vítimas. sem qualquer liderança destacada. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. mas pessoas pores. agora. as vítimas. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. nacionais e internacionais. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. A título ilustrativo. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. surge como significado fator para a proteção dos . contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. nesse sentido. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. Considerando o primeiro período.299/96. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. políticas.Estes dados. dos dez casos apreciados. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. as mulheres. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. como os povos indígenas. motivou o encaminhamento. a população negra. IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. seja no primeiro ou no segundo período. no período de 1970 a 1992.421/2002. pode-se extrair que no primeiro período. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. não se verifica a punição dos responsáveis. I) os casos de violência policial. por caracterizar-se pela permanência. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos. pelo Poder Executivo. agora. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. foi essencial para a aprovação da Lei 10. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. a partir da democratização. mas sim como uma omissão do Estado. Tal como no regime militar. todos. advogados. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. mas sim pelo critério econômico. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. via de regra. professores universitários. dos 68 casos analisados. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. Já no segundo período. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. 13 revelam violência rural. integrantes da classe média brasileira. No período do regime autoritário militar. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. 34 envolvem violência policial. vendedores. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. passa-se a analisar. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. No segundo período. definitivamente. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Não mais pelo critério político.

CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. Como foi demonstrado. são materialmente constitucionais. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. interagindo como sistema nacional. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. por sua vez. Adotando a primazia da pessoa humana. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. Nesse sentido. Atentouse. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. considerando a experiência brasileira. como também de âmbito geral e específico. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. exige nova interpretação de princípios tradicionais. Por força do art. Ademais. como a soberania nacional e a não-intervenção. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. vindo a contribuir para reformas internas. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. surgindo no pós-guerra. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. 5º. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. impondo a flexibilização e relativização desses valores. tendo em vista que. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. Neste sentido. compondo o bloco de constitucionalidade. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. Ao acolher o aparato internacional de proteção. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. todos os tratados internacionais de direitos humanos. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. ainda. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). No Brasil. pode-se afirmar que. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. independentemente do quorum de sua aprovação. de âmbito global e regional. § 2º da CF. Enfatize-se que a Constituição de 1988. como os indivíduos e as organizações não governamentais. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. Nesta hipótese. assim. Conclui-se. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. já que. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. com base em toda a análise desenvolvida. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. esses sistemas se complementam. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. iniciado em 1985. ao mesmo tempo. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. passam a integrar o Texto Constitucional. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. isto é.direitos humanos. Nessa condição. Enfim. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. além do Estado.

a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. portanto. tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. nacional e internacional assegurados. assim. elas se tornam mais visíveis. acrescente-se que os direitos internacionais. O conceito de cidadania se vê. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. mas também direitos internacionalmente anunciados. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. A sistemática internacional de proteção vem. Em suma. ampliado. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. A ação internacional constitui. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. a permitir a tutela. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. salientes e públicas. jamais a restringir ou deliberar. . No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. embora seja incipiente no Brasil. permitindo. por vezes. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. ainda. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado.internacional. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful