Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. ineditamente. os direitos sociais. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. O sistema jurídico define-se. por um lado. mas simplesmente se moveu perante a vida. Consagra-se. Nesta ótica. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. inc. ademais. da autodeterminação dos povos. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. §1º da CF/88. liberdades. pois. desse modo. dotados de especial força expansiva. isto é. Já no plano do constitucionalismo local. ainda. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. Ao tratar do tema J. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. sendo certo. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. Se. não é uma pessoa autônoma”. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. Os princípios morais. A interpretação das normas constitucionais advém. assim. não podendo ser usadas como meios. Significa também que eles valem directamente contra a lei. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. ou. liberdades e garantias fundamentais. Na realidade. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. seja no âmbito internacional ou interno. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. são hoje. garantias. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Sendo assim. (. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. unifica e centraliza todo o sistema normativo. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. A prevalência dos direitos humanos. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. O art. incluindo. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. por meio da ampliação de direitos sociais. II. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. . há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais.as pessoas são um fim em si mesmas. é um direito de princípios. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços.II). com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. a Constituição de 1988. mas norma normata. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos.. assim. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. Os direitos e garantias fundamentais são. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. A Carta Magna de 1988 reforça. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. Não são simples norma normarum. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva. integrantes do sistema normativo. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. 5º. Canotilho afirma que “os direitos. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. teve consciência dela. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. VIII e IX. ainda. não são meras normas para a produção de outras normas. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos. tampouco. não havendo como divorciá-los. De fato. Sendo assim. III.J. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. nos termos do art. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser.. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. assumindo especial propriedade. para Kant. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. ou. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. econômicos e culturais. além dos direitos civis e políticos. ao mesmo tempo.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. 4º. Para Canotilho. Implica. nos termos do art.

Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. sem haver uma normatização. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. em virtude do movimento pós positivista. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. concluída em 1969. os tratados internacionais demandam. nesta concepção. prevenindo o abuso desse poder. ainda. ratificação. convenções e acordos internacionais. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. expressão de consenso. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. consolidando os costumes internacionais ou. Enfatize-se que os tratados são. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. 84. por exemplo. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. compromete-se a respeitá-lo. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. Importante ressalta que. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. Os direitos humanos. inc. o que aconteceu na Convenção de Viena. ao aceitá-los. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. A Convenção de Viena determina. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). adesão ou aprovação de um tratado. pelo Estado brasileiro. por sua excelência. uma vez que Estados soberanos. que os celebra. nos termos do art. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. que são de competência do Poder Executivo. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. Sendo assim. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. que os aprova por meio de decreto legislativo. Para os constituintes. Tal como no âmbito interno. No Brasil. como foi. 49. CAPÍTULO IV . VIII e o art. conclusão e assinatura. quais sejam. É o aceito definitivo. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. 52 da Convenção de Viena. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. Nos termos da Convenção de Viena. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. I). Sendo assim. Como etapa formal. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. como era então a experiência européia. ou um prazo para que o Presidente da . 27 da Convenção de Viena). inc. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. sob a competência do Poder Executivo. e a do Congresso Nacional. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. Para o estudo do trabalho do livro. Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. 19 da Convenção de Viena. haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. quando se sua aplicação naquele Estado”. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. modificando-os. o art. por exemplo. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. Via de regra. ainda. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. acordos e atos internacionais. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. Em geral. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Entretando. é o que prevê o art. ou seja. Logo. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. quando da assinatura. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. acessão. não podendo criar obrigações para os demais Estados.

conforme art. Para J. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. A Constituição de 1967. ligada a todas as outras normas. qual seja. no parágrafo 2º do art. “(. 5º.. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. subentendidos nas regras de garantias. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. vagos. Os direitos internacionais integrariam. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos.. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. os direitos implícitos são imprecisos. sendo de difícil caracterização a priori. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. Caso ela venha a faltar. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. as normas e princípios da constituição. 5º. Observe-se que a hierarquia . diferentemente da Constituição Portuguesa.J. elásticos.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. ao fim da Declaração de Direitos. 5º. A Constituição assume expressamente no seu art. b) os implícitos. torna-se inevitável. A Carta de 1988. “(.. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. quando. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. Observe-se que. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. o chamado “bloco de constitucionalidade”. 5º da CF. Para Konrad Hesse. cedo ou tarde. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. uma natureza de norma constitucional. Ela. Canotilho. §2º da CF/88. assim. a Carta de 1988 está a incluir. Há que densificar. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. a contrario sensu. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. 5º. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. Deste modo. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. a ruptura da situação jurídica vigente”. Sendo assim. portanto. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. ao efetuar a incorporação. em especial ao princípio do art. Para Canotilho. mas sim bastante pragmática. por conseguinte. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. Pois bem. de sua estabilidade. explicitamente individuados no art. No dizer de Jorge Mirando. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma. Logo. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos. a cada norma constitucional é preciso conferir. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. 5º. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. de forma positivista. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. em profundidade. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. ao ‘texto’ da Constituição. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. §2º da CF/88. especialmente tratando-se de norma de direito fundamental. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. É de suma importância enfatizar que. enumerados e claramente elencados. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. o máximo de capacidade de regulamentação”. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. Contudo. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. caracterizada como cláusula constitucional aberta.. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. 5º.

conferido pelo art. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. III. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. §2º não . persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional.há duas outras correntes. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. contudo. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. e que tem reflexo no art. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. Contudo. 5º. O livro. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. denominada jus cogens. sem os quais a inteira estrutura se romperia. uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. Com base nestes argumentos. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados. b da CF. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. §2º da CF/88. Vale dizer que. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda). os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. 102. 102. §2º da CF em relação à Carta Magna. Sem o mencionado ato de denúncia. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. §2º da CF justifica-se na medida em que. como expressão de uma convicção. sem dúvida. apresentam hierarquia de norma constitucional. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. Este tratamento diferenciado. Acredita-se que. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. O STF. O fundamento utilizado para. ao revés. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. insiste-se que. Sustenta-se. Importa salientar que. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. bem como com a sua racionalidade e principiologia. pois. a doutrina brasileira. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. são normas supranacionais. 5º. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. Observe-se que. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. e um outro regime para os demais tratados internacionais. e não das prerrogativas dos Estados. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. aceita em todas as nações. III. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional.esta última a corrente adotada pelo STF . em que. Em seu voto. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . além das duas correntes já mencionadas. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. como os fundamentos de uma sociedade internacional. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. alínea b da CF. Em suma. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. para o regime do direito internacional. 5º. mas também afronta a própria Convenção de Viena. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. em verdade.004. por força do art. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. porém supralegal. Contudo. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. Sendo assim. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. assim. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. contudo com força supralegal. esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. 5º. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. que na interpretação do art. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. 27 da Convenção de Viena. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. defende posicionamento contrário. inc. Em relação ao tema.

qual seja. que são os que possuem. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. após a passagem por um difícil processo de aprovação. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. Para os defensores da última corrente. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. Atente-se. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. não há como se admitir que. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. Celso Lafer. § 4º da CF. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. nos termos do art. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. Devido à peculiaridade mencionada. que. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. §2º da CF/88. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. Sendo assim. com o advento do §3º do art. Para a doutrina. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. já que o último não revogou o primeiro. que por força do § 2º do art. ao clarificar a lei existente. §2º da CF. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. 5º. 5º da CF. 5º. devendo ser este último que deve prevalecer. Por força da indigitada norma.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. 60. em face das argumentações já expostas. 5º. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. 5º da CF/88. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. ou seja. defendendo a tese de que o art. tornar-se-ão cláusulas pétreas. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. Contudo. em dois turnos. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. e não o contrário. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. b) os materialmente e formalmente constitucional. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. Cabe apontar. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. No direito brasileiro. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. . Sendo assim. O quorum requerido pelo §3º do art. Neste último caso. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. se para a ratificação é necessário um ato complexo. Para finalizar. a norma será formalmente constitucional. ainda. 5º da CF. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. sem qualquer participação do Legislativo. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. 60. 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. 5º da CF/88. porém supralegal. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. além de natureza material constitucional. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. Entretanto isso não ocorre no Brasil. contudo. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. §4º da CF. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. Sendo assim. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º.

passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. porém supralegal. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. conseqüentemente. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. têm vigência imediata. III. por força do art. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. Ademais. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. 5º. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. haja vista que. há a sistemática da incorporação legislativa. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. § 1º da CF/88. por atos. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. adicionando. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. há de ser perquirir. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. para os tratados internacionais de direitos humanos. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente. É o que se extrai da interpretação do art. no plano interno”. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. a da CF. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. os tratados obrigam diretamente os Estados. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. para quem. na qual. “não apenas o Tribunal nacional. §§ 2º e 3º. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. Sendo assim. ações ou omissões de sua país. 5º. 105. 5º. É nesse contexto que se insere a inovação do art. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. não será mais possível a sustentação da tese a qual. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. prevalece a norma de direito internacional. 5º. Já na sistemática da incorporação legislativa. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. Pela primeira. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. já no segundo caso. Na Constituição da Venezuela.Na Constituição da Argentina. Na Nicarágua. art. ainda. § 1º da CF/88. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. com a ratificação. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. reformada em 1989. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. Porém para o trabalho. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. . por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. prevalece a norma interna. § 2º da CF/88. qual a sistemática adotada pelo país. No primeiro caso. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. §§ 1º e 2º da CF. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. Também a Constituição do Chile. inicialmente. os mesmos têm aplicação imediata. após a reforma constitucional de 1994. nos termos do art. Em outras palavras. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. ou seja. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. mas não geram direitos subjetivos. Diante dessas duas sistemáticas. a monista ou a dualista. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. invalidá-la. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. uma única ordem jurídica. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. No Peru. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. conforme determina o art. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. Ora. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. 5º. 5º. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. por sua vez. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais.

refletindo a sistemática monista. quais sejam. representativa da categoria profissional ou econômica. acolhe a sistemática da incorporação automática. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. havendo a necessidade. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. relator para o acórdão. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. §§ 2º e 3º. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. da expedição de uma norma interna. É a escolha da norma mais favorável à vítima. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. § 1º. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. como ocorre na Constituição portuguesa. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. portanto. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. Nesse caso. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. como primeira alternativa. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. todavia. Vários são os casos em que direitos. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. Os indivíduos tornam-se. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. pode-se imaginar. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. o status de norma constitucional. . como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. complementem ou ampliem as normas constitucionais. na mesma base territorial. Sendo assim. assim. três são as hipóteses que podem ocorrer.Em síntese. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. 5º. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. O regime diferenciado. ainda. em determinados casos. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. encontram-se enumerados nesses tratados. titular do direito. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. com harmonia e consonância. com outras. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. O próprio art. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. na alemã. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. nunca a restringir ou deliberar. a Constituição. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. na holandesa. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. conferindo-lhes. em seu art. passando a incorporar ao direito brasileiro. na francesa. de modo a ajustá-lo. além de não possuírem força hierárquica constitucional. na espanhola. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. 5º. mas também internacional. Logo. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos. por força do art. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. em qualquer grau. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. Porém. Diante do que foi exposto. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. respectivamente. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. b) integrar. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. embora não previstos no âmbito nacional. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. ou c) contrariar preceitos internos. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional.

na medida em que estes não são um dado. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. tanto do âmbito global quanto no regional. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. Por fim. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . Em todas as três hipóteses. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. qual seja. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. quanto à terceira hipótese. Pois bem. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. se eles são naturais e inatos. Na primeira hipótese. náufragos. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. Na segunda. uma invenção humana. . os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. Enunciado semelhante é o do art. mas construído. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. acrescendo apenas uma exceção. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. ou seja. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. A proteção humanitária se destina. incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. doentes. Foi preciso.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. Vale dizer. no Brasil. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. possuindo como finalidade promover a cooperação. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. direitos positivos. Preleciona ainda Bobbio que. como na Convenção Americana. Pela norma. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. em casos de guerra. em constante processo de construção e reconstrução. paz e segurança internacional. presioneiros) e à população civil. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. contudo admite não apenas uma exceção. aplicar-se-ia Constituição Federal. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. e sim o de protegê-los”. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. Na lição de Norberto Bobbio. três hipóteses poderão ocorrer. Criada após a Primeira Guerra Mundial. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. ora adicionando novos direitos. ainda. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. ora reforçando sua imperatividade. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. a dívida de créditos alimentícios. 7º da Convenção Americana. a militares postos fora de combate (feridos. Observe-se que se a situação fosse inversa.

emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. Neste prisma. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. tem sido repensada. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo.. conseqüentemente. (. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. porque revela tema de legítimo interesse internacional.. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade.. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. Com a decadência do nazismo. cada qual ao seu modo. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. Sendo assim. com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). o costume internacional é fonte do direito internacional. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. ou seja. Nesse contexto. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo.). da Liga das Nações e do Direito Humanitário. seja pelos líderes do partido. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. mas também sujeito do Direito Internacional. não resta dúvidas de que a prática de tortura. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. de desaparecimento forçado. com importantes exceções”. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal.. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas. Simultaneamente. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. Note-se que. Nesse cenário.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. Diante dessa ruptura. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. juntamente com os tratados internacionais. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. Steiner. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei. lecionou o seguinte: “Contudo. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. Os novos institutos rompem. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados. previstos no Acordo de Londres. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. segundo o art. (. ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal.. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. que haja o censo de obrigação. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. Para a existência do costume internacional. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(. mas é válido apenas no plano do direito interno. entre outras práticas. No fim do século XX. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional.. com as decisões judiciais. 38 do Estatuto da Corte Internacional. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . ainda. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. o direito a ser sujeito de direitos. ou seja. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. de detenções arbitrárias. assim. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada. Hans Kelsen. pode-se concluir que tais institutos. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. Com o advento dos institutos supramencionados. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. As condenações do Tribunal de Nuremberg. seja pelos oficiais militares.

relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. titular de direitos iguais e inalienáveis. que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional.. ao consagrar valores básicos universais. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Estados Unidos e. Os membros permanentes são China. Importante salientar que. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. especialmente após a Primeira Guerra. entre outras. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. as Declarações de Direitos. Deste modo. . em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. Com a vitória do Aliados. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. composto por vinte e sete membros. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. Rússia. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que.. No final do Século XVIII. em que os principais são: Assembléia Geral. de 1948. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. À luz de uma perspectiva histórica. na então República Soviética da Rússia. Para a consecução dos objetivos supramencionados. sociais e culturais. seja a Declaração Americana (1776). consagravam a ótica liberal. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. posteriormente. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. ao lado do discurso liberal da cidadania. França. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. e o direito à abstenção do Estado. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. segurança e propriedade. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. que foi anexado à Carta. Além da universalidade dos direitos humanos. O art. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. Desde seu preâmbulo. verifica-se que. com a emergência dos direitos à prestação social. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento.Após a Segunda Guerra Mundial. desde 1992. com suas agências especializadas. Neste momento histórico. A criação das Nações Unidas. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana. sociais e culturais. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. complementados pela resistência à opressão. Conselho Econômico e Social. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. incluindo os direitos humanos. social e cultural. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. Corte Internacional de Justiça. converte-se em direito à atuação estatal. a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. que substituiu a antiga União Soviética. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. (. Reino Unido. seja a Declaração Francesa (1789). Sendo assim. Caminhando na história. composto por quinze juízes. Três anos após o advento da Carta das Nações. sociais e culturais. ela não define o conteúdo dessas expressões.)”. A não-atuação estatal significava liberdade. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. cresce o movimento social e da cidadania. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. Em definitivo. à proteção das minorias. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. que é o principal funcionário administrativo da ONU. O Conselho Econômico e Social. em 1918. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. com direito a um voto. neste sentido. Conselho de Tutela e o Secretariado. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. Conselho de Segurança.

de 1993. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. (. pelo contrário. apresentando. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. nessa visão. por esse motivo. Para esse trabalho.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. constante da Carta das Nações Unidas. não apresenta força de lei. a defesa. por si só. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. econômicos e culturais. por sua vez. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. econômico. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. há diversas correntes relativistas: “No extremo. Argumentam. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. desse mínimo ético. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. mas a Declaração traz a definição. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. e cultural. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. social e moral vigente em determinada sociedade.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. culturais e religiosas devem ser consideradas. único e indivisível. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. No entendimento de Jack Donnelly. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. defensor da corrente relativista. como proclama seu preâmbulo. direitos civis e políticos. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. mas é obrigação dos Estados. ao tratamento cruel. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração.. de maneira justa e equânime. “Compreendeu-se finalmente que a . que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. direitos sociais. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. A Declaração de Viena. As três gerações se interagem. independentemente de seu sistema político. interdependentes e inter-relacionados. econômico. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. força jurídica vinculante. Exemplo é a proibição à escravidão. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. Há. importará em violação a direitos humanos. (. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. o debate ganha força.. ainda que em nome da cultura. econômicos e culturais. independentemente de seu alcance.. de outro. assim. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. Ela não é um tratado. apresentando. Ademais. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. à tortura. Sendo assim. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. ainda. indivisíveis. Para essa corrente. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. cultural. como valor intrínseco à própria condição humana. a Declaração Universal. O universalismo induz. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. que. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente. que tenta universalizar suas próprias crenças. forte ou fraco. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais.) Um relativismo cultural fraco. Para os relativistas. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. à destruição da diversidade cultural. contudo. bem como seu peculiar sistema moral. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais.. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. No entanto. força jurídica vinculante. O propósito da Declaração. Nesse sentido. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. como ocorre. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. Na análise dos relativistas. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. por sua vez. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. Considerando neste contexto. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. por exemplo.

haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. alcançado por um universalismo de confluência. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. nos âmbitos europeu. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos.. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. interamericano e.. em 1951. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. Posteriormente. A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. a tortura e a violação dos direitos das crianças. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. os direitos econômicos. a) Introdução O processo de universalização. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. Ao revés. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. Todavia. Adotando-se a lição de Jack Donnelly. posteriormente. discursivo de diálogo (. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. por exemplo. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. “(. a Assembléia Geral. como. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. sob a influência dos países ocidentais. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. Sociais e Culturais. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. bem como que sem os direitos econômicos. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. quando falham as instituições nacionais. que conjugava as duas categorias de direitos. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. sobre o genocídio. assim. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. quando alcançaram o número de ratificações necessário. sociais e culturais. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. com seus inúmeros instrumentos. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. sob o enfoque estritamente legalista. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. O sistema global. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. International Bill of Rights. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966.). CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. os direitos . Neste debate. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. não visam substituir o sistema nacional. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. como pressuposto para um diálogo intercultural. por sua vez. o sisyema global de proteção desses direitos. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. Primeiramente.) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. mas são incompletas. Sociais e Culturais entraram em vigor. quais sejam. Para iniciar este estudo. africano. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores.. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. nas palavras do doutrinador. sociais e culturais. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. Inicialmente. Diversamente dos tratados internacionais comuns. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências.. Assumindo a forma de declaração e não de tratado.

A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. Resta salientar que. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. como também estende o elenco desses direitos. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). em se tratando de cláusula facultativa. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. das comunicações interestatais. Ao comitê cabe analisar os relatórios. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. sociais e culturais. constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. Sociais e Culturais. O pacto permite. Sociais e Culturais. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. Por esse mecanismo. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. com maior detalhamento. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. limitações em relação a determinados direitos. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. tecendo comentários e observações gerais a respeito. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. para os direitos civis e políticos. um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. Além da sistemática dos relatórios. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). ainda. Contudo. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. Contudo. instituído pelo pacto. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Vale dizer. administrativas e judiciárias adotadas. vindo posteriormente a encaminhá-lo. sendo adotados dois pactos internacionais. adotando medidas necessárias para esse fim. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. Segundo Antônio Augusto Cançado. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. bem como toda vez que o comitê solicitar. . Ao ratificar o pacto. Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. como. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. opcional. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. cada qual relativo a uma categoria de direitos. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. além de conquista de transcendência histórica”. com os comentários. Esse argumento ganhou força a partir de que.econômicos. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. Por essa sistemática. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. primeiramente. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. para o exercício da sistemática das petições. sociais e culturais seriam programáticos. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. Contudo. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração. raça. Em relação aos direitos econômicos. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. que devem ser implementados de forma progressiva. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. sociais e culturais. mediante proposta de solução amistosa. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. impondo obrigações aos Estados-partes. ao invés da nacionalidade. o sistema de petições. religião ou origem social. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. o vínculo exigido. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. sociais e culturais são direitos programáticos. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. por exemplo. Neste raciocínio. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado. língua. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. sexo. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional.

Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. o Comitê “é importante. trabalhista. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. Social e Cultural. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. O Comitê solicita informações. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. por meio de protocolo adicional. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. distinguir entre . por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. no prazo de 180 dias. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas.” ou “ninguém poderá. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. Nos ensinamentos de Martha Jackman. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. repousa uma visão social do bem-estar individual. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. entre outros. apresentam realização progressiva. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views. todavia. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. pela ótica normativa internacional.”. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. para a sua aplicação. Como resultado de fortes pressões. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados.. sociais e culturais. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. Em suma. mas também por diversos outros tratados internacionais. em parte. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. Sociais e Culturais são direitos que exigem. Como bem observa Thomas Buergenthal. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. ao menos. Contudo. como o direito de petição. de condições econômicas. além do que.. por sua vez. Contudo. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. ambientalista. continua. além do que. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. pelo menos no âmbito global. o Pacto de Direitos Econômicos. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. o Pacto de Direitos Econômicos.. apesar de sempre buscar uma votação unânime. é que no Pacto Econômico. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. que pode causar constrangimento político e moral. Porém. sociais e culturais não são direitos legais. Assim. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. Ressalte-se. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. Contudo. econômicos e culturais. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos. Sociais e Culturais. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. As decisões do Comitê não possuem força vinculante... por vezes. Trata-se de uma idéia adotada. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. mediante o chamado power of embarrassment. permite a sistemática das comunicações individuais. os direitos econômicos.Ao receber a petição individual. o Comitê. em 1990. até o máximo dos recursos disponíveis. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. além de declarar a caracterização da violação alegada. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. Além disso. o Comitê adotou.”.. devendo. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. Ao revés. os Estados que não satisfizeram a decisão. tampouco. nesse aspecto. após analisar a sua admissibilidade. econômicos e culturais. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. por todas as nações. Ao decidir. mediante Protocolo Facultativo. sociais e culturais. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos.. um mínimo standart técnico-econômico. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. “Ao ratificar esta Pacto. nas quais todos nós vivemos. ainda. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social.

alimente ou reproduza as desigualdades”. também conhecidas como ações afirmativas. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais.) Direitos sociais. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. pois. Convenção contra a Tortura. Não basta a legislação repressiva. a discriminação significa toda distinção. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. mas sim para promoção de direitos. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. Até o próprio BIRD. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos.. alargando o conceito de sujeito de direitos. independentemente da retórica. Na esfera internacional. as entidades de classe. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. considerando categorizações relativas ao gênero. sociais e culturais] que não poderia. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. Fico. A igualdade. O processo de internacionalização dos direitos humanos. etc. orientada pelos critérios gênero. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. Logo a discriminação significa desigualdade. exclusão. b) a igualdade material. Desde o seu preâmbulo. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. Compartilha-se. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. etnia. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. em face de sua própria vulnerabilidade. econômicos. raça. fundamentalmente. o qual concluiu que “(. em 21 de dezembro de 1965. Percebe-se. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. incluindo os indivíduos. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. segundo dados da própria Nações Unidas. No combate à discriminação. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. etnia e demais critérios. na grande maioria dos ordenamentos. eliminar a discriminação racial. sociais e culturais. buscam responder a uma específica violação de direito. raça. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. Essas Convenções mencionadas apresentam. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. . marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. Pala Convenção. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. o Estado assume a obrigação internacional de. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. resultou um complexo sistema internacional de proteção. assim. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. Após o advento da International Bill of Rights. Convenção sobre os Direitos das Crianças. Social and Cultural Rights. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. refletindo o próprio temor da diferença. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. As violações aos direitos econômicos. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. posteriormente. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. progressivamente. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. orientação sexual. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. o sujeito é visto em sua abstração. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. significa a inclusão social. 1º. idade. ao menos. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. mister. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. Acrescente-se que. Destaca-se. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. em recente relatório. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. que merecem tutela especial. Sob o ângulo pragmático. c) igualdade material. assegurando a efetiva igualdade. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. em igualdade de condições. buscada na Convenção. §4º a possibilidade de discriminação positiva.. idade. as organizações sindicais. Boaventura de Sousa Santos. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. ser considerado como possuidor de. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. além do combate à própria discriminação. em regra. Na visão de Bobbio. mas também aumentou a titularidade de direitos. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. Ao ratificar esta convenção. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. algumas sobre direitos novos. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. ou seja. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. dente outros. políticos. mas ao indivíduo “especificado”. orientada pelo critério sócio-econômico. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. Por essas razões a Convenção prevê em seu art.

Ao longo da Convenção. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família.buscando remediar um passado discriminatório. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. A Declaração estabelece. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. esta Convenção estabelece os três mecanismos. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. Quanto aos mecanismos de monitoramento. Para que seja admitida a petição individual. embora a violência seja uma grave discriminação. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. objetivam acelerar o processo de igualdade. formula a sua opinião. ambos em 1975. Em relação ao seu sistema de monitoramento. Na Convenção há a previsão em seu art. dentre os direitos. 1º da Convenção há a definição de tortura. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. Apenas em 1999. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. Em relação ao sistema de monitoramento. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. os relatórios e as comunicações interestatais. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. as petições individuais. progressivamente. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. direta ou indiretamente. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. com o Estado. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. aplicação de castigo. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. sendo certo que. assegurando a efetiva igualdade. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. desumanos ou degradantes. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. Contudo. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. Ao ratificar esta convenção. igualmente às decisões dos demais Comitês. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. além da habilitação do Comitê. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. As suas decisões. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. que cause morte. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. integral e indivisível dos direitos humanos universais. caso conclua pela existência de violação. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. seja qual for. à luz dessas informações. A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. baseado no gênero. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. que é. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. bem como para realizar investigações in loco. quais sejam. c)a vinculação do agente ou responsável. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. por sua vez. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. fazendo recomendações às partes. também são pautadas nas informações coletadas. ainda. são consagrados. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família. cabendo a este examinar as petições individuais. Em suma. mas também alcança o domínio privado. adicionalmente. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. No art. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. o Estado assume o compromisso de. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. cultural ou mesmo legal. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. não invocando qualquer costume.

ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. contudo. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. afronta a ordem internacional. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. em Roma. Porém. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. ainda. em 15 de maio de 2000. tal como: a) assassinato de membros do grupo. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. de forma definitiva. a maioridade seja atingida mais cedo”. cometidos com a intenção de destruir. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. 6º. Apenas em 17 de julho de 1998. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. na devida consideração. étnico. é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. pela legislação aplicável. para erradicar. O art. em 1993 e 1994. políticos. Vale ressaltar que. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. no que concerne à matéria dos Protocolos. Nos termos da Convenção. consciência e religião. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. um grupo nacional. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. Ao fazê-lo. levando. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. a opinião dos interessados. que. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. racial ou religioso. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. funcionários ou particulares. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. Pelo seu art. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. Importa observar. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. em face de seu alcance. maiores informações sobre aquelas implementações. econômicos. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. sociais e culturais. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. no todo ou em parte. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. a não ser que. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. por sua gravidade. O Comitê fica autorizado. contrariamente. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. a prática da tortura. respectivamente. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. datado de 9 de dezembro de 1948. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. sejam governantes. ainda. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. a requerer. e considerando ainda que. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. Note-se que a Conferência de Viena. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. foram adotados.

devendo o Estado ratificá-la na íntegra. ainda. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. Social e a Comissão de Direitos Humanos. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. dentre outros. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. deixando de operar dentro dos Estados. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. Em relação às penalidades. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. . d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). a própria Promotoria agir de ofício. Desse modo. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. primeiramente. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. em ações conflitantes no tocante aos Estados. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. Conforme o art. Porém. determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. Nesta linha. II) crimes contra a humanidade. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. o Conselho Econômico. de caráter permanente. tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos.direitos humanos foi revigorada na década de 90. Kosovo. entre outros. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. tampouco importará em redução da pena. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. Ruanda. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. conclui-se que. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). ou seja. já mencionados. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. é do Estado. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. propondo a ação pena cabível. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. sendo novamente eleito em 2000. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. ilustrativamente. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. 5º do Estatuto de Roma. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. a fim de que esta investigue o crime. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. Já o sistema não-convencional. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. Por fim. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. agora. a responsabilidade primária. em contraste. em último caso. a escolha de mecanismos não convencionais. o 1235 e o 1503. ficando. como a Assembléia Geral. isto é. em 17 de julho de 1998. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. cumpre assinalar. controle e garantia. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. não o eximirá da responsabilidade penal. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. examiná-las. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. Pode. em face dos genocídios que a marcaram. Em todas as hipóteses. Além da sanção de natureza penal. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. no tema do tópico. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. competente para receber as denúncias sobre crimes. pois. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). Timor Leste. Adentrando. Neste sentido. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. o cargo oficial de uma pessoa. na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art.

em mecanismos convencionais e não convencionais. à língua. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. 1503. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. pelo sistema interamericano. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. por vezes. para que seja efetivada a proteção buscada. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. segundo critérios de admissibilidade. existir ou não em construir precedentes normativos. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. as medidas urgentes são. pela Comissão de Direitos Humanos. Muitas regiões são ainda homogêneas. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. Ao apontar as vantagens do sistema regional. Rhona K. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. podendo. o que oferece vantagens”. em tese. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. integrado. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. Shimth destaca que. particularmente na Europa.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. que apresentam características consideravelmente diversas. No sistema europeu. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. às tradições. A análise dos casos pode ensejar. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. possuindo. surge o sistema regional. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. o consenso político se torna mais facilitado. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. Ao lado do sistema global. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. Consolida-se. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. com respeito à cultura. c) apontar um especialista independente. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. contudo. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. entre outras medidas. M. Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). b) manter a situação sob análise. América e África. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. no sistema nãoconvencional. portanto. 1235. além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. assim. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. o relator especial transmite a apelação aos governos. de um relator especial com mandato para países específicos. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. ainda. seja com relação aos textos convencionais. 1503. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. atualmente. existindo. estabelecido em 1980. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos.Vários foram os mecanismos temáticos criados. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. em 1950. Fundamentalmente. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos.

o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. do debate internacional. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. Teoricamente. Além de se constituir em um método para determinar atos. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. Dos três. (. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. concernente aos direitos sociais. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. . ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. 3) quando os parâmetros conflitam. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. cultural ou econômico. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos. superando essa obrigação negativa. O que importa é o grau de eficácia da proteção. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981.) Por outro lado. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. Substancialmente. em 1998. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. em relação aos direitos nela consagrado. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. limitando a determinar aos Estados que alcancem. adicionando novos direitos. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. progressivamente. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. podendo ser reeleito apenas uma vez. O mais incipiente é o sistema africano. a depender do caso. em que o sistema de informes é um método de controle regular. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. eventualmente.. mas sim complementares. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. a plena realização dos direitos. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. e de outro. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. precisar e difundir a objetividade de uma situação. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. econômicos e culturais. Ante esse universo de instrumentos internacionais. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. sem qualquer discriminação. tendo em vista que. enquanto o instrumento regional deve ir além. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. aperfeiçoando outros. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. apresentam o trabalho da Comissão. Ambos são úteis e complementares. Posteriormente. através do debate interno que eles proporcionam ou. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos.. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. pelo contrário. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. Para tanto. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. no sistema interamericano.Européia de Direitos Humanos. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948.

sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. o caso será submetido à Corte Interamericana. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. em casos de gravidade e urgência. tal decisão ficou mais vinculada. assim. por maioria absoluta de votos. reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. Se anteriormente. dano uma maior tônica de juridicidade. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. “(. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. a Comissão buscará uma solução amistosa. Além do que foi descrito. determinará a . eventualmente. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. Porém. No plano consultivo. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. por exemplo. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. parte ou não da convenção. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. Vencido o prazo. A petição. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. ela pode rejeitar o caso que. a fim de promover seu respeito. eleitos a título pessoal. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. nunca deveria ter sido recebido. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos..Conforme Hector Fix-Zamudio. e toda vez que resulte necessário. adotada em 1º de maio de 2001. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”.. a qualquer membro da OEA. em seu art. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. como ocorre nos sistemas globais. o “controle da convencionalidade das leis”. em matéria ainda não submetida à Corte. 44. buscar informações do respectivo governo. não estando prevista a legitimação do indivíduo. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. efetuando. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. recomendações ao Estado-parte. mediante declaração expressa e específica. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. Durante esse período. Não sendo alcançado o acordo. ainda. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. a Corte tem desenvolvido. com o novo regulamento. a Comissão examinar as alegações do peticionário. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. quando um Governo. Feito o exame do caso. sendo observado todos os casos de admissibilidade. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. Na lição de Thomas Buergenthal. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. quando além das atividades anteriores. Caso. c) crítica. d) legitimadora. b) assessora. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. Em relação ao plano contencioso. o prévio esgotamento dos recursos internos. contra o qual se tenha apresentado queixa. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. a Comissão. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. de acordo com César Sepúlveda. Se alcançado o acordo. como. salvo no caso de injustificada demora processual. de acordo com as informações disponíveis. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais. atual presidente da Comissão Interamericana. ou ainda entidades não governamentais. por iniciativa própria ou mediante petição da parte.). A Corte. e) promotora. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. a Comissão julgará o mérito. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. em retrospecto. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. para evitar dano irreparável à pessoa. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. ou seja. em caso de extrema gravidade e urgência. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. Por fim. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. f) protetora. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. a Comissão poderá. após a investigação. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. Na sua função consultiva.

ainda. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. III) Uma maior democratização do sistema. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. promovido em face do Brasil. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. haverá uma concentração no período de democratização. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. em Porto Velho. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. Neste caso. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. assim. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. Ainda que crescente a justicialização do sistema. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. da Constituição de 1988. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. Com exceção dos casos mais gritantes. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. da Convenção sobre a Eliminação de . O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. Rondônia. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. Dentre os casos já decididos pela Corte. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. conquanto denunciados. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. Com a Guerra Fria. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. como o da África do Sul. com recursos financeiros. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. a decisão valerá como título executivo. poderá atuar a pedido da Comissão. embora recente a sua jurisprudência. mas também na agenda internacional do Brasil. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. em 1º de fevereiro de 1984. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. em particular. podendo. técnicos e administrativos suficientes. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. os problemas de direitos humanos. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. desenvolvimento e direitos humanos. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. o desenvolvimento e os direitos humanos. 63 da Convenção. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. descumprir decisões internacionais. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. Pelo art. pode-se concluir que. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global.

haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Adicione-se. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. . dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. ainda. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. Por fim. perante a comunidade internacional. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. mediante a declaração feita. o Brasil assume. que faça da forma mais restritiva possível. ainda que em situação de emergência. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. Sociais e Culturais. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. ainda. por exemplo. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. ainda. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. não se encontrar um acordo. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. no âmbito nacional. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. ainda. De todo modo. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. O Brasil deve. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. Assim. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. haja vista que. um núcleo de direitos básicos. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. o Brasil é o único a fazer tal declaração. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. como país respeitador dos direitos humanos. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que. É importante. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. Acrescente-se que. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. se ainda assim. O Brasil buscou. Depois desse vários outros se seguiram. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Além das inovações constitucionais. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. que trouxe importantes inovações jurídicas. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. Sendo assim. quando formulá-las. cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. Além da eliminação das reservas. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. A partir da Constituição de 1988. Desumanos ou Degradantes. não foi objeto de qualquer declaração. Em razão dessa interação. por sua vez. até porque é uma situação anacrônica. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. Primeiramente. Aceita. que estabelecem. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça.

A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. importando em responsabilização do Estado. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. iria incluir em sua legislação normas penais. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. a falta. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção.Ressalte-se. verifica-se. além da omissão importar. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. a responsabilidade pelas violações são da União. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano.455/97. Diante desse quadro. que ocorreu em 1998. que no seu art. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. até o presente momento. de tipificação do crime de tortura. desde junho de 2002. sem demora. mas também no internacional. em violação à própria Constituição. No entanto. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. civis e administrativas necessárias para prevenir. Atente-se que o Brasil. A título de exemplo. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. para o Brasil. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. Logo. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana. XLIII. porém. Viola ainda a própria Constituição Federal. por força do art. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. previsto pelo Estatuto de Roma. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. até abril de 1997. Como já mencionado anteriormente. até porque. não houve a elaboração de tal legislação. ocorria em Bogotá no ano de 1948. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. Essa opção deveu-se ao fato de que. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. devendo ter aplicabilidade imediata. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. No âmbito do sistema regional. até a presente data. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. ratificada pelo Brasil em 1989. Embora o Brasil. Como já se ressaltou. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. o Brasil assumiu que. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. Para tanto. e ratificado pelo Brasil em 2002. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. Além das providências supramencionadas. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . que junho em 2002. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. §2º da CF. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. punir e erradicar a violência contra a mulher. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. De acordo com o direito internacional. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. 5º. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. como já abordado. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. ainda. combate e erradicação da violência contra a mulher. em 1998. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente. em 1998. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Deste modo. o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. que definiu o crime de tortura. 5º.

A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. além do que. lideranças da Igreja Católica. a União. da comunidade Yanomami. “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. entretanto. Importa salientar. uma vez mais. sem sucessos. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. 7) discriminação racial. em 1980. que na época era território federal. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. paradoxamente. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. que apontavam à prática autoritária do regime militar. que foi submetido no ano de 1997. já que não dispõe da competência de investigar. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar.000 presos políticos. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . sendo os mais contundentes o caso 1788. em 1970. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. entre outros). A federalização. Desse total. a federalização encoraja firme atuação dos Estados. ainda. Adicionou. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. sendo certo que desse universo. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. em qualquer fase do inquérito ou do processo. Constata-se que nesses nove casos. 4) violência policial. merece destaque o caso 1684. entre outros. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. em face da sistemática até então vigente. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. Primeiramente. as vítimas eram professores universitários. há casos que já foram apreciados pela Comissão. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. nesse sentido. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. 3) violência rural. introduzida pela EC 45/2004. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. Além do Caso 1684. Dentre os casos. líderes de trabalhadores. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. que foram privadas de sua liberdade. 2) violação dos direitos indígenas. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. que foram privadas de sua liberdade”. Todavia. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. Segundo Louis Henkin. 6) violência contra a mulher. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. particularmente. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. e o caso 1835. sob o risco de deslocamento de competência. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. não é responsável em âmbito nacional. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. 1) Casos de detenção arbitrária. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. Contudo. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte.

ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. Além do caso 7615. À luz dessas considerações. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. do direito à residência e ao movimento. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. não restaurando à vítima. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. à saúde e bem-estar. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. em virtude do abuso e violência da polícia militar. com uma população de 10. Em 1984. em 1989. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. à liberdade. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. Esses fatos. Como os casos ainda encontram-se pendentes. Com respeito à obrigação de investigar. o que estava a levar a extinção daquela comunidade. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. ainda. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. à educação. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. que corresponderia ao território desses índios. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. O povo Yanomami. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. à segurança. levaram o caso à Comissão. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. Nesta denúncia. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. todos ocorridos a partir de 1982. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. sob pressão internacional. à segurança. 13 envolvem situações de violência rural. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido. no âmbito da Justiça Militar. à liberdade. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. o esgotamento dos recursos internos. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. à integridade e à justiça. conduzisse programas de educação. de vítimas inocentes. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. no Estado do Pará. por completo. Denunciam. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis.000 a 12. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. sem justificativa. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. ainda. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. Em 1982. Recomendou.internacional contra o Brasil. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. A respeito. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. ratificanda pelo Brasil em 1992. na há como tecer comentários mais aprofundados. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. A impunidade viola o dever de garantir. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. por vezes adolescentes. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. à segurança. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. foi levado o caso à Comissão interamericana. Diante desse quadro. Pelos denunciantes. Primeiramente. a plenitude de seus direitos. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. Em todos os 34 casos. o livre exercício do direito afetado. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. 34 são relativos a violência policial. e por isso sob o regime de confidencialidade. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. assim.000. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. à liberdade.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. que implica o assassinato. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações.

5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. . adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. Contudo. em janeiro de 2005. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. sexual ou psicológico à mulher. do mesmo modo. De pronto. com o fim da impunidade. No período de 1991 a 2001. maus tratos e violência sexual. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. Recomenda-se. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. Além desses três casos. por duas vezes a licença foi indeferida. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. marcado pela violência e abuso sexual. Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. deflagrado a partir de 1985. Desses três casos. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato. 3 denunciam a violência contra a mulher. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. O primeiro é o da “Candelária”. compleição física e gravidade da infração. e o outro concernente ao processo de transição democrática. Requere. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. processados e punidos. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. Por fim. os que merecem relevância cinco casos. acentuado o dever do Estado investigar. sem terem cumprido qualquer pena. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. Já no segundo período. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. Na mesma direção aponta o terceiro caso. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. no Estado do Maranhão. às garantias judiciais. seja na esfera pública seja na esfera privada. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. de âmbito nacional ou internacional. por vezes. de 1964 a 1985. capaz de causar morte. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. relativo ao processo de democratização. Trata-se da violência baseada no gênero. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. sem qualquer discriminação. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. processar e punir os agentes responsáveis. à integridade pessoal. por grupo de extermínio. assim. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes. para que os responsáveis sejam investigados. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. Segunda a denúncia.afronta ao direito á vida. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. dezenove meninos. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. foram vítimas dessa grave violação. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. entendeu por encaminhar o caso à Corte. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. pela atuação conjunta dessas entidades. o que resultou no envio do caso à Comissão. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. requerem o combate à impunidade. será analisado quem são os proponentes das denúncias. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. entre nove e catorze anos. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. assegurados pela Convenção Americana. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. em São Paulo. e. dano ou sofrimento físico. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). ainda. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. vítimas de espancamentos. observa-se que durante o regime militar. A petição alega que os responsáveis são policiais militares.

que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. mas sim pelo critério econômico. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. Se no período de autoritarismo militar. Não mais pelo critério político. por si sós. Já no período de democratização. ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. em geral. Já no período de 1992 a 2004. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. surge como significado fator para a proteção dos . que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. as crianças e os adolescentes. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. sociais e culturais. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. e um menciona violação aos direitos da população indígena. tortura. mas sim como uma omissão do Estado. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. definitivamente. No entanto. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados. pode-se extrair que no primeiro período. a população negra. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. No período do regime autoritário militar. estudantes. políticas. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. Dessa estatística. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. relativo ao processo de democratização. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. passa-se a analisar. 87% dos casos examinados. 90% dos casos denunciaram violência policial. 34 envolvem violência policial. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. Verificou-se. sem qualquer liderança destacada. foram 67 as proposituras. Já no segundo período. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. nesse sentido. pela profundidade e extensão de seu alcance”. agora. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. examinar quem são as vítimas dessas violências. economistas e outros profissionais. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. dos 68 casos analisados. Considerando o primeiro período. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. dos dez casos apreciados. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. 13 revelam violência rural. como os povos indígenas. I) os casos de violência policial. haja vista que. A título ilustrativo.299/96. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. não se verifica a punição dos responsáveis. no período de 1970 a 1992. Nesse sentido as vítimas. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. integrantes da classe média brasileira. advogados. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. motivou o encaminhamento. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. todos. mas pessoas pores.Estes dados. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. com o qual se conjuga um componente sócio-político. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. as mulheres. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. e. por caracterizar-se pela permanência. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. agora. professores universitários. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. não são mais dos setores da classe média. Mister analisar. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. seja no primeiro ou no segundo período. foi essencial para a aprovação da Lei 10. pelo Poder Executivo. líderes de trabalhadores. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. sociais. No segundo período. IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. nacionais e internacionais. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. culturais. via de regra. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. lesões corporais. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. a partir da democratização. as vítimas. 3 são denúncia contra a mulher. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. Também notável é perceber. vendedores. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. Dessa análise. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. Tal como no regime militar. contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. ainda. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais.421/2002.

para o processo de democratização do próprio cenário internacional. tendo em vista que. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas.direitos humanos. Nesta hipótese. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. Ademais. Conclui-se. iniciado em 1985. considerando a experiência brasileira. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. interagindo como sistema nacional. assim. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. já que. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. além do Estado. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. Como foi demonstrado. com base em toda a análise desenvolvida. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. 5º. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. Nessa condição. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. esses sistemas se complementam. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. § 2º da CF. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. de âmbito global e regional. Enfim. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. Enfatize-se que a Constituição de 1988. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. ainda. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. Atentouse. isto é. compondo o bloco de constitucionalidade. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. Adotando a primazia da pessoa humana. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. surgindo no pós-guerra. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. como os indivíduos e as organizações não governamentais. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). passam a integrar o Texto Constitucional. a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. todos os tratados internacionais de direitos humanos. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. pode-se afirmar que. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território. impondo a flexibilização e relativização desses valores. Ao acolher o aparato internacional de proteção. como a soberania nacional e a não-intervenção. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. Por força do art. são materialmente constitucionais. como também de âmbito geral e específico. que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. por sua vez. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. vindo a contribuir para reformas internas. No Brasil. exige nova interpretação de princípios tradicionais. independentemente do quorum de sua aprovação. Neste sentido. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. Nesse sentido. ao mesmo tempo. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização .

o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. mas também direitos internacionalmente anunciados. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. O conceito de cidadania se vê. por vezes. nacional e internacional assegurados. portanto. salientes e públicas. tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. ainda. ampliado. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. A sistemática internacional de proteção vem. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. apenas vêm a aprimorara e fortalecer. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. a permitir a tutela. A ação internacional constitui. permitindo. embora seja incipiente no Brasil. acrescente-se que os direitos internacionais. a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. Em suma. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. jamais a restringir ou deliberar. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. elas se tornam mais visíveis. assim. . Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais.internacional.