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Cabeça.

Guilherme de Santa-Rita
c.1910, óleo sobre tela.

(Secretaria de Estado da Cultura/


Ministério da Cultura)

AMENDOEIRA EM FLOR
Ano 1 (2021)
Nº 4 Março/ Abril

A INVENÇÃO DO DIA CLARO


Propriedade
Amendoeira em flor, grupo literário.

Direção/Edição
Ariana Sanches
Cristiana Correia

Colaboradores
Ana Filipa Correia
Ana Rafaela Madureira Damas
Eduarda Magalhães
Isabel Lameirão
Joel Oliveira
Rita Guimarães
Romen

Participações de
Walter Rego

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José Sobral de Almada Negreiros
7 de Abril 1893 – 15 de Junho 1970

«Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração
constructiva.»
Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Séc. XX (1917)

«As palavras teem moda. Quando acaba a moda para umas começa a moda para outras. As
que se vão embora voltam depois. Voltam sempre, e mudadas de cada vez. De cada vez mais
viajadas.»

«Mãe! a minha estrella é doida! Coube-me nas sortes a Estrella-doida!»

«Estou a espera de ser grande para ver se o que penso é verdade ou não. Se não fôr, mato-
me!»
A Invenção do Dia Claro (1921)

«O seu empenho era misturar-se com a multidão, fazer parte da humanidade.»


Nome de Guerra (1925)
Louvor da motivação
Nota editorial
Cristiana Correia
SUMÁRIO ______________________________________________________________

NOTA EDITORIAL Tirando proveito de todas as ilusões cultivadas por influenciadores


Louvor da Motivação ……………… p.5 bem-intencionados, cheios de promessas de felicidade, decidi atribuir à ideia
de Tzara um sentido prático, recortando as páginas de dois livros
PREÂMBULO motivacionais que me ofereceram no Natal, há cinco anos. Depois de
Ao Comité para a Igualdade «dos recortadas, coloquei as várias palavras em cima de uma mesa escura, fi-las
nossos poetas» ………………………. p. 6 voar e cair desordenadamente. Baralhei-as mais uma vez. Podia ter piedade
delas; afinal de contas, nelas não deve recair a culpa da falsidade que podem
transmitir. Não tive! Fi-las cair no chão; recuperei cada uma delas
aleatoriamente, tal como indicara Tzara, e este foi o resultado:
I. A INVENÇÃO DO DIA CLARO
Respirar ordem tinha vida, pois Versalhes, claro, perturbada, fazia no chão
Dispersas reflexões sobre o poder
escuro esquecer os seus males e abstrair literalmente os nossos inimigos.
de pensar as palavras …….……… p.10
Marinetti ter-me-ia aconselhado a colocar os verbos no infinitivo, a não
usar adjetivos, a destruir a sintaxe, mas precisava das minhas adoradas
Narcisismo, individualismo e vírgulas e de uns quantos artifícios, para que a destruição de dois livros
indiferença: condições humanas em desgraçados resultasse numa frase com um mínimo de harmonia. Ironia do
progresso ……………………….……. p. 11 acaso, a minha frase ganhou um sentido que as lições ensinadas pelas páginas
O Século ……………………………….. p.14 recortadas nunca terão.
Dez direitos do leitor moderno . p.16 Eterna França, lugar das boas ideias modernistas, foste palco da
Perda da criação ……………………. p.17 desordem, provocaste o escândalo e foste adorada! Marco da liberdade e da
Senti(n)do ……………………………… p.18 imaginação, como permites agora a circulação do previsível e arrebatador
As I Lay Dying: retrato de uma contentamento fantástico e momentâneo, presente em livros ocos e
família à beira da rutura ………… p.19 açucarados?
Desabafos de um Holden Caulfield ***
………………………………………………. p.20 Depois de um momento de perturbação, apercebi-me de que os escritores
das felicidades infinitas seguiram alguns modelos e regras determinadas por
André Breton no Manifeste du surréalisme: a ausência do controlo da razão, a
ausência da preocupação estética e moral, a abstração do génio, a escrita
– INTERMEZZO –
rápida, sem releitura, a influência dos sonhos, o caráter alucinatório, etc. Que
UNREAL REFLECTIONS ………….. p.21
grande surpresa a minha quando o percebi! Nem Marinetti teria levado tanto
à letra a ideia de fazer corajosamente ‘o feio’...
Caros autores de livros motivacionais,
II. POESIA 1. É preciso recorrer ao sono mais frequentemente (não para recolher ideias
Vertigens (I) ………………………….. p.24 para a produção de novos livros, mas para garantir o descanso das almas
PARIS, divagações …………………. p.26 perturbadas).
FUTURO CERTO …………………….. p.27 2. Deve-se controlar o génio. O leitor comum não tem facilidade em decifrar
O rio flui em ti ………………………. p.28 as imagens cuidadosamente construídas nem as ideias complexas bem
pensadas.... Privilegiem as ideias simples!
3. Não devem existir senão ilusões brandas! Quanto maior a promessa de
felicidade e sucesso, menor a preocupação com o estado social, cultural,
III. ENSAIO político, económico e financeiro da sociedade, que é o mesmo que dizer: mais
Da sexualidade da arte Futurista: fácil e garantido estará o acesso de cada um à sua luz interior (seja lá o que
identidade e pátria no Ultimatum isso for...). E, afinal de contas, não é esse o propósito da vida humana?
Futurista às Gerações Portuguesas Quanto a nós, caros leitores, gritemos: «que se faça da motivação o
do séx. XX ……………………………… p.30 micróbio de cada dia! Louvada seja a motivação, eterna perdição dos já
perdidos…»

IV. OPEN CALL Sugestões de leitura:


O futurismo (1909), Marinetti.
Ensaio sobre a nacionalidade .. p.34
Manifesto Técnico da Literatura Futurista (1912); Marinetti
Exéquias ……………………………….. p.35 Suplemento ao Manifesto Técnico da Literatura Futurista (1912), Marinetti
Diário ……………………………………. p.35 Manifesto Dadá (1918), Tzara
Manifesto do Surrealismo (1924), Breton.
(Traduções em português disponíveis em: Teles, Gilberto Mendonça (1972),
Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro, Rio de Janeiro: Editora Vozes)

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PREÂMBULO
Ao Comité para a Igualdade «dos nossos poetas»
Ariana Sanches
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Amigo Castanheira,
O que era para ser uma carta formalíssima escrita ao comité de que o meu amigo é Vice-
Presidente tornou-se em meio da escrita isto que às suas mãos chegou – palavras torpes, pensadas e
copiadas para o papel em meio de uma tempestade de riso. Tê-la-á em suas mãos ainda húmida das
lágrimas que chorei sobre ela. Castanheira, caro amigo, não sabe, não pode imaginar!…
Esteve na nossa editora, há dias – também o Antunes lhe escreve uma carta, que, ao menos
espero, será um pouco mais séria –, a mamã do Dantas, que vinha pedir-nos que lhe escrevêssemos
uma nota, por pequena que fosse, na nossa «magnífica revista» (palavras suas), e «ilustríssima». Está
bom de ver, Castanheira, que a gente quando roga, não roga senão em meio das mais disparatadas
bajulações. «Como outra não há no país, no que ao fazer jus aos seus heróis diz respeito». Patriotas
nos chamava, quando já não há pátria, e nacionalistas, cheios do espírito dos nossos pais e reis, que é
neste tempo a moda. E de que serve um sangue de rei em terra de deputados e ministros? O sangue
azul destoa hoje neste Mar Vermelho de burgueses e socialistas. Cá nós somos todos
republicaníssimos, respondi-lhe, esclarecendo depois: cá a gente está interessada em parecer bem e
iguais, pelo que temos todos, independentemente do partido, uma cor vermelhíssima de sangue.
Como não troçar, Castanheira? A pobre choramingava, como nestas ocasiões convém, e trajava de
preto, do negro mais lutuoso que o país já viu, como se nela tivesse morrido Portugal inteiro. E era
disso que queria falar, a pobre mamã, ferida no extenso orgulho que vota ao filho:
- O meu Julinho, sr. Fonseca…. O pobre do meu Julinho, insultado por extenso! Que afronta,
que humilhação!...
- Que quer que lhe faça, senhora? respondia-lhe eu, encolhendo os ombros, evidentemente. Um
paninho para as lágrimas, quer? Um copinho de água? Olhe lá se não me desmaia aí, não há quem a
acuda, desgraçadamente. Olhe que cá não houve quem tivesse estudado na Escolinha Médico-
Cirúrgica, entende? Cá só há letrados, e mal letrados, como pode ver. A que veio cá, senhora?
- Por extenso, repetia ela, há esse detalhe tão importante, tão cruel.
- Mas isso foi há tanto tempo, senhora! Porque não esquece? Faça isso; esqueça.
Ó Castanheira, esquecia-me eu de lhe dizer o nome da infeliz mulher, poupando-lhe assim o
trabalho de uma averiguação, tão necessária à prossecução (é assim que se diz? – olhe você que eu de
leis sei menos do que de cozinha, que não é dizer pouco) da queixa. Aí vai, um riquíssimo nome, e
esclarecedor: Maria Augusta Pereira de Eça. De Eça, veja lá. Não é que o nosso Dantas, ó
Castanheira, é na linha materna aparentado dessa linha augusta de escritores a que pertenceu o autor
da Comédia Humana lusitana? Mas o génio herda-se por linha paterna, evidentemente, de modo que
um é Queiroz e o outro Dantas…
A mãe do «nosso Dantas» – que é como a boa mulher lhe chama, falando em seu nome e em
nome do marido – vinha, pois, ao meu gabinete como ia noutros tempos ao gabinete do diretor escolar
queixar-se das malvadezes que os colegas faziam ao seu «filhinho querido». Imagina a figura que eu
fazia há três dias, então, sentado nesta mesma cadeira, oferecendo-lhe um paninho para as lágrimas e
copinho de água açucarada.... O rapazinho de escola travesso era o Almada Negreiros, que a mãe do
Dantas queria que castigássemos.
- E que fez o Almada desta vez?
E ela lá tirou da carteira um dos muitos exemplares do Manifesto que o autor das Rosas de Todo
o Ano adquirira e mo mostrou. Eu, pela muito boa educação que tenho, vi-me obrigado a fingir que
não o lera, que não soubera o que todos sabiam, evidentemente, que me escandalizava, por certo, que
não podia ser, que não podia aceitar-se, e todo um alarido que não tratarei aqui de repetir. A cada
gesto meu de indignação a senhora ajuntava um parzinho de lágrimas mais. Creia-me, Castanheira:
com o que chorou nessa tarde a mamã do Dantas enchia-se todo um Atlântico.
- Não se aflija, senhora. Entramos o século quase à luz dessa ceia magnífica que foi A Ceia dos
Cardeais, e é à luz dela que percorreremos – Portugal, digo – todos os milénios que o Senhor permita
à humanidade viver. Que alexandrinos primorosos! Três monólogos saborosíssimos. E a cenografia –
de encher o olho: tanta prata, tanto cristal, mais o tapete oriental, o Möet et Chandon, claro, mais o
maravilhoso faisão. O Pina, como sempre, excelente. E a temática amorosa, percebe você, que fica
sempre tão bem em língua portuguesa. O Dantas tem crédito! Tem muito crédito a cobrar às nossas

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letras, não há jornal que não o afirme. E o Dantas tem presença cultural, tem encanto institucional,
tem nobreza intelectual…
Não sabia eu que mais barbaridades dizer-lhe.
- Portugal é Dantas, desde 1902. E o estrangeiro sabe-o. Por isso não cessam as traduções, as
imitações. Já se fala em França do dantisme, que viria a ser um novo fôlego parnasiano, uma nova
poética, correta, sólida, mas suave, ainda assim, colorida, alegre, como convém ao espírito
verdadeiramente nacional, tão dado ao riso. De entre os três, é certíssimo que o mais digno cardeal
era o nosso, o português, o …
E tentava a todo o esforço recordar-me o nome, quando a senhora, que conhecia a obra como
neta que lhe era, me ajudou, quase gritando:
- Gonzaga de Castro!
- Gonzaga de Castro, nem mais… Esse é que é um bom cardeal, um português, um nosso, de
nos encher o orgulho. Melhor figura faz ele entre os cardeais que o Amaro entre os padres seus iguais.
No sentimento português é que há verdade. E o país, Sr.ª D.ª Maria Augusta, pagou ao seu Dantas
muito bem o jantarinho e o mais que fez pelo país: deram-lhe assento e presidência na Academia,
encheram-lhe de medalhinhas o pescoço e os bolsos de ouro e prata, deram-lhe lugar no
Conservatório… Quantas ordens não lhe deram? Que comissão lhe recusaram? E o seu lugarzinho na
Revista dos Centenários? Que jornal lhe fechou as portas…? Diga tudo, Sr.ª, só não diga que foi
ingrato o país ao seu Julinho. O Dantas está como ninguém – famosíssimo, ricalhão, louvado, como
no caso convém. Que mais desejaria a Sr.ª D.ª Maria Augusta para o seu Julinho?
- O Manifesto, insistia a senhora.
Tinha eu, que sou muito seu amigo, que escrever uma carta ao Comité para a Igualdade «dos
nossos poetas», como dizia a Sr.ª D.ª Maria Augusta, a exigir que se proibisse o Almada da atividade
literária, por práticas abusivas e desconformes à lei. Fizera jogo sujo, o Almada, jogara barato. Porque
não gastava o Almada tempo em escrever também alexandrinos rigorosos? Porque não gastava
dinheiro preparando a cena? Porque não pagava a atores? E se não escrevia teatro, porque não
respeitava as leis da decência? Não era infame o que escrevia? Tudo aquilo tinha pouco de literário,
era ilegítimo. Cigano, o Dantas? Pois o Almada era Santomense.
- Então responda-lhe, senhora. Escreva um manifesto também, atire que «o Almada é
Santomense. Pim». «Morra o Almada. Pim». Olhe que não faltará quem a acuda no seu grito, não
obstante o peso que têm os decadentistas entre nós, estes dias. Dirão que Portugal é verdadeiramente
aqui a capital, já nem o Porto, nem Guimarães, já nem Coimbra. O Dantas ao menos é algarvio, não
precisou atravessar o mar para se fazer português. Escreva isso, porque não escreve?
Tinha eu, então, que escrever uma carta reclamatória ao Comité para a Igualdade «dos nossos
poetas» em que expusesse, como primorosa argumentação, as razões pelas quais Almada deveria ser
erradicado da cena literária: não deveria escrever mais, e tudo o que tivesse escrito não deveria constar
dos anais da história. Em cem anos, ninguém deveria saber da existência de um Negreiros, de um
José Sobral de Almada Negreiros. José, por ser o nome de um dos pais de Cristo, safaria. Mas Sobral,
Almada, Negreiros, seriam proibidos. E um Sobral que tenha um filho ou uma filha deveria desde
então chamá-lo Pinhal. Almada se tornaria Seixal, Negreiros se tornaria Neves – no futuro, não
poderia por esta determinação existir um Sobral de Almada Negreiros em Portugal – capital e demais
portugais –, só um José Pinhal de Seixal Neves, que é um nome horroroso, como o Manifesto de que
ninguém terá memória.
Tudo isto me exigia a boa senhora. E contava que eu, que sou muito seu amigo, escrevesse com
tamanha indignação, com tamanha razão, que não se pudesse o Comité furtar ao cumprimento da
sentença. Tudo isto, Castanheira!...
- Que importa o Manifesto, Sr.ª D.ª Maria Augusta? Ao Dantas não importa. E quem, de resto,
o leu, se o Dantas comprou todos os exemplares? Fala-se de uma afronta ao Dantas, é certo, mas são
rumores vagos, ondulações de um rio tímido, quase seco. Ninguém lhe dá mais atenção do que a uma
folha que se vê cair num dia triste de outono. O seu Dantas, por seu lado, é folha de árvore perene. O
seu Dantas – o seu Julinho, perdão – caminha pelos salões, pelos Comités, pelas Academias, com o
maior à-vontade, recebendo a honra que se lhe deve. O Dantas escreveu as Rosas de Todo o Ano,
caramba! E mais, senhora: as «Rosas de Toda a Eternidade». O Dantas é perpétuo!
- Mas o Manifesto é uma mancha indelével no seu currículo, insistia a mamã do Dantas. E a
eternidade é tão longa, tem talvez má memória: quem sabe o que se lembra o povo daqui a cem anos?
Quem sabe não fica o Manifesto e se perde o mais que foi o Dantas?
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- E ao Dantas que lhe importa? Se o Dantas não escreveu para o povo, nem para a eternidade,
que se avenha com o que a eternidade e o povo lhe reservarem. Além disso, é lá o povo que faz a
história!? De uma forma ou de outra, o Dantas fica. Como grande poeta ou um cigano, ao menos fica.
- O meu filho não é cigano, repetia D.ª Maria Augusta, indignadíssima.
- Claro que não – o Dantas é tão cigano como quem não o é. Entende? O Dantas é um exemplar
riquíssimo de português, de nos fartar o orgulho. Portugal é Dantas.
- E o que será Portugal em cem anos? O grande Dantas ou o Dantas cigano?
- Outra coisa que não o Dantas, porque não?
Como ela se assustasse, tentei o mais que pude aquietá-la. Ia dizendo, muito seguro de mim:
- O Dantas é perpétuo, não se preocupe. Hão de chamar-lhe «o segundo Camões», não tanto
em ordem de mérito, quanto temporal. Se o Dantas tivesse nascido primeiro que o outro, ter-lhe-iam
chamado «o primeiro Camões». O Dantas escreveu O Reposteiro Verde. O Dantas escreveu A Severa. E
pergunte aí: quem não comungou da ceia magnífica dos cardeais? Pergunte. O Almada é um pateta,
não sabe o que diz, mesmo que o diga por extenso. E hão de lembrar as traduções excelentíssimas do
nosso Dantas – quem se lembrará dos trabalhinhos de escola do Almada? O Dantas é um português
como deve ser, e tem nome próprio, caramba, não anda usando o nome de outros para se afamar. A
eternidade é sábia, guarda os melhores – e quem melhor que o Dantas para guardar?
- Mas leia aqui, sr. Fonseca: não há decoro, não há respeito. É um atentado que não deverá
passar impune. O meu filho encolhe os ombros, é verdade, não se lhe faz mais leve o bolso nem menos
dourada a fama. Mas eu, sua mãe que sou, condoo-me por ele, por mor da eternidade que como
portugueses lhe devemos. Quero preso o Almada. Quero o Almada arrancado das páginas da história!
Olhe lá, Castanheira, o que eu não ria depois que a senhora saiu, cá com o Antunes e o Barbosa.
- E umas incompreenssibilidades grosseiras, tais como «parir abaixo de zero» que fazem mossa,
mas não dizem nada. E insultos do mais grosseiro que há, sem elevação, sem Romantismo, sem
alexandrinos, sem aquele parzinho de rimas bem construídas, sem esse cenário primoroso e real, que
houve que guardar que o público admirado não furtasse, como lembrança de uma ceia que atrás fica
somente à ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo. E agora esse Almada, esse Judas, comendo à mesa do
banquete. Pagam os Românticos, sempre. Que culpa há em ser Romântico?
- Escreva-o, senhora. Escreva-o por extenso, também. Não faltará quem a acuda no seu grito,
insistia eu. O Dantas tem nome, tem gente que o defenda. Acredite é que o Comité muito não poderá
fazer. Escreverei, claro; escreverei. Mas asseguro-lhe que nem mesmo o Dantas escrevendo, e sabemos
que bem escreve o Dantas, os poderia convencer. É preciso trabalhar com casos mais importantes,
dizem os entendidos. O Almada é um josé-ninguém, que não importa a ninguém. Há que trabalhar
com casos mais difíceis. O Almada faz mossa, mas é mentiroso. Todos vimos o Dantas passear pelo
Chiado. E que bem que ia, bem vestido, bem penteado, elegante como convém – e o bigode em
excelente estado. O Almada faz mossa, é claro, porém mente. E o Comité não trabalha com
mentirosos, não há nada a fazer. Que pode fazer-se, Sr.ª D.ª Maria Augusta? É comprar os exemplares
todos e olhar para o lado, que desse lado a que se olham chovem bênçãos, com certeza – uma medalha,
uma presidência, quem sabe?
Escrevo-lhe ainda rindo: pobre Dantas, com uma mamã assim… Tivesse-o sabido a tempo, o
Almada ainda teria escrito uma coisa do género «O DANTAS É UM MENINO DA MAMû, que
não dói tanto, sim, mas é, ao menos, verdade. Há que jogar-se com a verdade, sempre. Ou não?
Faça como quiser, Castanheira; atenda a súplica da santíssima mãe do Dantas ou ignore-a. De
igual modo, com o que a preocupa, nem eu nem você temos muito que ver: quem escreve a eternidade?
quem sabe quem dura, entre o Almada e o Dantas? Não aposto numa parte nem noutra.
Lá a despedi, pobre senhora, procurando consolá-la, ainda:
- Olhe que o Dantas cobrou em vida o que lhe poderia ter dado a eternidade: tem nome, tem
estatuto, tem fortuna. O Dantas cobrou tudo em vida. E se não ganhar a eternidade, será porque não
calha. Mas cobrou bem, que mais importa?
- O Almada é um invejoso. Que lhe fez o meu Julinho que o insultasse assim? O Almada é um
invejoso.
O que eu não ri, ó Castanheira, esta quarta-feira. Sem poder dizer-lhe que o nosso novo número
era sobre o Almada, Castanheira, e não sobre o Dantas, por que não se escandalizasse e me morresse
ali no cadeirão…
I. A invenção do dia claro
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Dispersas reflexões
sobre o poder de pensar as palavras
Romen
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Raras são as vezes em que não penso nas minhas palavras, nas que digo ou, com mais
frequência, nas que disse ou hei de dizer. Todos o fazem, julgo eu. Para mim, elas são indispensáveis
à vida. Pensar as minhas palavras, se é que são só minhas, é inevitavelmente pensar nas palavras dos
outros, conhecidos ou não, porque as palavras são uma construção coletiva e, por isso mesmo, não
podem ser marcadas apenas pela individualidade.
Para ser honesto, penso nas palavras – já sabem, minhas ou não – não só porque tenho a
consciência da mortalidade a que estamos sujeitos, mas, sobretudo, porque estou vivo e sei que o que
digo ou o que os outros dizem pode influenciar a minha maneira de sentir, pensar e ver o mundo.
Chamamos a isto decisões coletivas. Por sermos humanos, vivemos reconstruindo pensamentos.
Vivemos mais de palavras do que de ações. Aliás, se as palavras podem ser, antes de mais,
sentimentos, elas são, de um certo modo, a razão das nossas ações, a razão de tudo quanto existe.
Teria dito o mesmo a Bíblia, a base do pensamento e da cultura ocidental. Com as palavras elogiamos,
criticamos, dizemos o quanto amamos ou odiamos algo. Com as palavras expomos todo o nosso ser,
correndo o risco de contagiarmos quem nos ouve.
Deve ser, então, esta a razão de se dizer que com elas – as palavras – temos uma relação
intrínseca. Se não existissem – quem nos dirá o contrário? – não teríamos existido, enquanto Homens,
nem enquanto nada. Não dependem de nós, antes pelo contrário, nós é que dependemos delas. Nós
criamos coisas e, para as nomear, usamos as palavras. No entanto, convém lembrar: foram elas antes
que nos criaram a nós, não nós a elas. «As palavras já foram inventadas», diz Almada Negreiros.
Contudo – que magnífico poder humano! – criamo-las também, caso contrário, esta máquina com a
qual escrevo não se chamaria computador. Crerei, até que alguém me diga o contrário, que das
primeiras palavras criadas não fazia parte a palavra «computador». Nós evoluímos no que elas
evoluem, ou vice-versa! E talvez seja esta a razão de Almada ter assegurado que «nós não somos do
século d’inventar as palavras»; mas sim «nós somos do século d’inventar outra vez as palavras já foram
inventadas» (NEGREIROS, 1921: 18).
Verdade seja dita: pronunciarmos uma certa quantidade de palavras depende, antes demais,
do número de palavras que antes ouvimos e das que somos capazes de, a partir dessas, produzir. Dito
de outra forma: quem mais teve a oportunidade de ouvir pronunciar várias palavras, terá, se for
minimamente criativo, capacidade de dizer mais palavras, boas ou más, quando estiver a falar. Tudo
depende do contexto. Contudo, neste sistema binário, há sempre outro(s) elemento(s), há sempre
outras possibilidades: dizer poucas palavras, mais palavras, ou nada. É uma questão de decidirmos
pensar nelas– ainda que tenhamos ouvido poucas, ou que tenhamos pouco jeito para as utilizar,
podemos transformá-las.
Até aqui, nada de novo. São coisas que, melhor ou pior, já todos sabemos. Admitamos então
o seguinte: muitos de nós vivem apenas das palavras de outros sem, no entanto, poderem transformá-
las em suas próprias palavras. E isso não é ser livre! E quem não é livre, diz ou faz as coisas, não
porque as queira dizer ou fazer, mas porque os outros querem que as diga ou faça. O que resta então
é saber que não há maior liberdade do que o poder de decidir dizer e fazer o que se quer, ainda que,
em algumas circunstâncias, se possa ferir as decisões coletivas. Isto só é possível quando se pensa de um
modo diferente, independentemente do tempo, do espaço e de quem nos ouve.
A decisão é minha. Penso, digo e acredito que os outros também o possam fazer, com boa ou
má qualidade.
P.S.- Lembro-me de que, na minha primeira aula da História do Teatro Português, quase um
mês depois de ter escrito estas palavras, em resposta à pergunta “Quais são as suas expetativas para
esta cadeira?”, respondi: “Gosto de palavras”. Registo, com agrado, o facto de a professora ter escrito,
como que em obediência à minha liberdade, exatamente estas três palavras, na sua ficha de controle,
ao lado do meu nome: “Gosto de palavras”.

Res. Univ. Alberto Amaral, 24/01/2021 – 23h

10 | P á g i n a
Narcisismo,
individualismo e indiferença: condições humanas em progresso
Eduarda Magalhães
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A política segundo Mafalda, Quino (2013)

Criada em 1964 pelo cartunista argentino Quino, e tendo marcado os anos 60 e 70, a
“Mafaldinha” não deixou de ter uma importância significativa na educação dos Millennials (geração
em que me incluo). Mafalda, personagem que teve Umberto Eco como seu fã, é uma criança
impertinente e curiosa relativamente aos mais variados assuntos. Não se limita a adorar os Beatles e a
detestar sopa; também questiona – e faz-nos questionar – a realidade que nos rodeia, o mundo
constantemente adoentado e uma humanidade igualmente doente. Faz-nos rir quando reflete sobre a
possível existência de OVNIS e exclama com indignação: “E, havendo mundos mais evoluídos,
porque é que eu tive de nascer neste?” [QUINO, 2013: 3]. Apesar da aparente simplicidade das suas
palavras, retraímo-nos em desconforto com a verdade nua e crua das suas expressões imaculadas.
Mafalda é uma de muitas criações que apelam ao humanismo, à justiça, ao equilíbrio, ao altruísmo e
ao bom senso, através do humor e da autocrítica. Em cinquenta e sete anos de existência, nunca caiu
no esquecimento, talvez porque a sua crítica social e política, na generalidade, continua bastante atual.
Na tira acima colocada, a questão ingénua, mas oportuna, de Mafalda sobre a percentagem de
“verdadeiros seres humanos” existente no planeta Terra não difere muito das minhas indagações
relativamente aos tempos modernos. Quase cedo à tentação de me dirigir a uma farmácia e pedir um
nervocalm, como Mafalda fazia para apaziguar a mente do pai, após fazer-lhe perguntas difíceis, de
cariz existencialista. Algo de enervante e desconcertante ocorre há algum tempo; uma pandemia
silenciosa que atingiu o seu pico nos últimos anos. Refiro-me ao culto do narcisismo e do
individualismo, que despe o Homem da sua humanidade, cobre-o de um profundo egoísmo e de
vaidade e embala-o de mansinho, sussurrando-lhe ao ouvido a lullaby do “eu”.
O substantivo "narcisismo" tem a sua origem no mito grego de Narciso, um jovem belo e
indiferente ao amor, que, ao ver-se refletido na lagoa de Eco, se apaixona pela sua própria imagem.
Narciso acaba por ser engolido pelas águas da lagoa e morre; mesmo depois de morto, continua a
contemplar-se nas águas do rio Estige. O termo generalizou-se e hoje utilizamo-lo para descrever
qualquer comportamento que valorize mais o “eu” do que o “outro”.
Em psicologia, o Narcisismo é um transtorno de personalidade que provoca nos indivíduos um
sentido exagerado da sua própria importância, uma forte necessidade de atenção e admiração e pouca
empatia por terceiros, distúrbios causadores de relacionamentos conturbados. Atrás desta máscara de
extrema confiança, existe uma autoestima intermitente, vulnerável à menor crítica. Atualmente,
torna-se difícil perceber onde se inicia a simples metáfora e onde termina o transtorno psicológico. O
Narcisismo, que considero um signo do individualismo, parece ser o novo normal. Para este
“problema”, já nos tinha avisado Fradique Mendes, numa carta que escreveu a Bento de S.:

Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! […] Nas
nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do
jornal” e acrescenta que para verem a sua imagem impressa, as pessoas praticavam “todas
as ações – mesmo as boas. [QUEIRÓS, II, 1979: 1093]

Estão longe os tempos em que somente a alta sociedade tinha o privilégio de se expor numa
folha de jornal. O vírus sofreu mutações e hoje surge nas redes sociais. Todos nos tornamos pequenos
burgueses que rejubilam ao ver a sua imagem publicada. Muitos praticam o bem, mas alguns somente
quando ligam a câmara do telemóvel e se filmam a praticar o ato bendito. Ora, um mendigo na rua

11 | P á g i n a
12 | P á g i n a

com fome? Sim, senhor, deixa-me ir comprar umas sandes e preparar o telemóvel para filmar a minha
boa ação. Um gatinho a afogar-se num rio? Espera aí, bichano! Engole só mais uns centilitros de água
doce enquanto eu desbloqueio o telemóvel e mostro à câmara o grande herói que sou. Black Lives
Matter? Esperem aí! Deixem-me só vestir a melhor roupa preta, colocar alguma maquilhagem, sair à
rua fingir que simpatizo com a causa, enquanto empino ligeiramente a perna e faço uma expressão de
tristeza ou revolta. Ao fim de cinco ou dez fotografias, volto para casa e cancelo figuras públicas que
disseram, há 10, 15, 100 anos!, algo com que discordo. Se estraguei a vida de alguém com os meus
laivos de justiça conveniente, não me importo! Quase sempre ignoro o contexto, porque “eu” quero,
“eu” sonho e a obra tem de nascer!
Assim vivem; cegos, com um caráter inventado, idealizado para conquistar o mundo. Muitos
conseguem-no. Conquistam um mundo pequenino, tão pequenino, quanto o seu bom senso. Já
nababos, no seu reino, riem e esfregam a sua sorte, como quem esfrega incansavelmente uma sertã
cheia de gordura, na cara dos perdedores. Mas, quando a noite cai e as estrelas se levantam, tropeçam
nos seus lençóis, acariciam a sua almofada e dormem sob o vazio. Um vazio que não corresponde só
ao seu caráter, mas também à sua situação: estão sós. A solidão é uma boa conselheira, mas não é
uma parceira que se queira para toda a vida. Para além da pura exposição, do culto à imagem e da
colheita forçada de boas ou más ações, encontramos outro lado do narcisismo: o individualismo
carpideiro e maldizente. Já dizia Almada Negreiros, na peça S.O.S, nos anos 30 do passado século:

O mundo inteiro está dividido em tantos mundozinhos individuais, pequeníssimos,


microscópicos, quantos são os seus habitantes. Mas aquele mundo de colaboração de
todos, o único mundo real afinal de contas, esse já não existe. Veio cada qual roubar-lhe o
seu pedacito e o mundo ficou feito em migalhas, reduzido a pó, nada! [NEGREIROS,
1997: 766]

Em oitenta e poucos anos, o mundo de colaboração não voltou. Continuamos a viver no


nada! Os mais sensatos e esperançosos mergulham no pó e buscam estouvadamente pedaços que
possam ter sobrado desse mundo, numa tentativa desesperada de o consertarem. Vão encontrando
alguns retalhos de matéria e com eles geram altruísmo e empatia, mas o egoísmo, esse hábito pegajoso
que se cola à mente mais debilitada, espreita sempre com presunção e, quando damos por isso, a
conveniência e a indecência multiplicam-se como ninhadas descontroladas, ofuscando aqueles que
ainda possuem vontade de amar o outro. Onde está o bom senso? O bom senso que já Eça de Queirós
pedia ao leitor da sociedade portuguesa oitocentista?

O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão


dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a
conveniência […]. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os
cidadãos [QUEIRÓS, 1979: 959].

Não estamos longe da sociedade que Eça descrevia, com certa desilusão. Como é que
evoluímos tanto, tecnológica e socialmente, e, mesmo assim, continuamos tão pequeninos na nossa
bolha? No mundo contemporâneo, certos indivíduos continuam a mostrar-se imersos na própria
subjetividade, em posição fetal, a chuchar o dedo num universo particular, paralelo, ridículo e
somente seu. Não abrem espaço para se colocarem nos passos do outro, não abdicam de um
pedacinho de si para que alguém tenha umas sobras da sua felicidade, não conseguem ignorar a
“pujança” de quem ousou ter uma opinião contrária! Insultam, couceiam, zurram e perseguem a
abelhinha que os picou. Se são desprezados e desarmados fazem birras, como as crianças que ouviram
o “Não!”, pela primeira vez, da sua mãe. Tudo isto está à vista de todos, bate-nos no nariz com uma
força thoriana (existe? ou acabei de inventar o adjetivo?), sempre que ligamos o ecrã mágico. Sim,
meus amigos. As conversas que antigamente se limitavam ao café e que, algumas vezes, geravam
belas batalhas gregas – se essas lutas do passado fossem imbuídas de um Tawny – hoje multiplicaram-
se numa Rede!
Uma vez ouvi alguém dizer: “Sempre existiram idiotas, a internet só deu uma oportunidade
para que a idiotice e a estupidez fossem expressas em maior escala e chegassem a um maior número
de pessoas”. Infelizmente, aqueles que ainda possuem alguma réstia de sensatez estão quase obrigados
a suportá-lo. Claro que podemos, simplesmente, ignorar e assobiar para o lado, apreciar uma boa
paisagem, ler um livro extraordinário, ouvir um “jazz-zinho” da Billie Holiday ou do Louis
P á g i n a | 13

Armstrong, sabendo que existem milhares de sujeitos, muitos deles no nosso país, a carpirem que a
sua desgraça é maior do que o sofrimento de pessoa X e que, por isso, merecem mais atenção do que
a pessoa X. Gritam pelo teclado fora – sujeitos a descolarem uma tecla – “Eh lá! Pela Pátria, homens
de Deus! Primeiro os nossos!”, mas depois sacodem com o guarda-chuva um mendigo português que
lhes pede uma sopa, na rua, enquanto dizem, entre dentes, “Tens bom cabedal para ir trabalhar! Tu
queres é facilitismos!”. Derramam pilhérias e sarcasmos – achando-se bons comediantes – sobre
meninas violadas por moços que apenas se interessaram pelo recorte da minissaia (também existem
homens com bom olho para a moda!). Invocam não sei quantos direitos constitucionais, gracejam
com superioridade “Vocês é que caminham com o resto do rebanho” e constroem teorias da
conspiração para não usarem uma simples e patética máscara em tempos de pandemia. Qual Bill Gates
qual quê, Tó Zé?! Tu queres é ser do contra e fantasiar uma resistência, seu chalupa! Nunca vi tanta gente com
vontade de apanhar um vírus, porque, para eles, o problema é individual. Não é individual, Gertrudes!
Não estás a decidir se vais ter filhos ou não, estás a colocar em risco a saúde de outras pessoas! Ter a noção de
que também há quem se ataque constantemente, ad hominem, desde a pata torta do seu gato até ao
bigode mal aprumado dos seus ancestrais, simplesmente pelas diferentes cores políticas – todos nós
sabemos que a Esquerda alimenta os esgazeados de charro na mão e a direita acaricia as cabecinhas
dos betinhos que conduzem os Mercedes dos papás! – deixa-me vencida. Sinto-me desgastada, com
apenas 26 anos… perdi até a coragem de referir as guerrilhas futebolísticas e afins...
A solidariedade está em vias de extinção. Ainda borbulha por aí, é certo. Existem boas almas
que, em momentos cruciais, se apressam a esticar a mão e a puxar desgraçados que bracejam no fundo
de um poço, mas são cada vez menos. Estamos num constante “progresso da decadência”, como o
jovem Eça dizia. Perdemos o mundo da colaboração, como Almada acrescentaria. Tudo mudou, mas
as mudanças contribuíram sempre para a contínua e desagradável indiferença, para o individualismo
mesquinho e para o narcisismo desordeiro. Vivemos sós e iremos morrer sós, se assim continuarmos
(parece, realmente, uma frase retirada da escola existencialista; não tenciono, no entanto, plagiar aqui
os pensamentos de Jean Paul-Sartre...).
Meus caros, a vida é madrasta para com todos nós. Todos sofremos, uns mais do que outros.
Rebaixar a infelicidade alheia não é solução. Não seríamos mais felizes se costurássemos mantinhas
de empatia e se simplesmente disséssemos: “Eu não passei pelo que passaste. Não compreendo a tua
dor, pois é diferente da minha, mas, como conheço os infortúnios ligados à existência humana, o
mínimo que poderei dizer é que sou solidário(a). Juntos encontraremos um alívio físico e/ou mental”?
Insultar e agredir quem pensa de forma diferente não é o mais sensato. Se o que dizem não pisa a
liberdade alheia, não façamos inimigos. Ódio gera ódio. Violência gera violência. Não fiquemos pelos
juízos vagos, nem pelas simplicidades mentais. O que consideramos verdade ou mentira, torna-se a
nossa realidade, mas a realidade é diferente para cada um de nós; é subjetiva e dualista e, por vezes,
uma ilusão. Deixemos de lado o ego, conversemos e discutamos assuntos com bom senso. Da direita
à esquerda, do doutor ao operário, quem resolve pela palavra vigora no futuro. Mas isto são tudo
utopias de alguém que ainda é jovem, que mal viveu um quarto de século; ânsias de uma mulher que
ainda tem alguma esperança na espécie humana.
Estamos em plena pandemia, barricados em casa, como belos mandarins em gaiolas
aprumadas, com mais tempo para observar quem nos rodeia. Por isso é que cada um de nós deve
respirar fundo e colocar a mão na consciência, perceber de que modo contribuímos para o mundo
estar cada vez mais narcisista e individualista. Devemos relembrar a massa de que somos feitos e
perceber se somos verdadeiros seres humanos, de carne e osso, para que a pobre Mafalda tenha
finalmente acesso a uma percentagem exata.
Poderia continuar com mais exemplos e mais argumentações embebidas em sarcasmo e
ironia, mas já se faz tarde… e eu estou cansada, só e triste. Publicarei um autorretrato no Instagram, o
que talvez faça disparar os meus níveis de dopamina….
Nota ao leitor: Os nomes próprios referidos, Tó Zé e Gertrudes, foram escolhidos de forma espontânea e
aleatória. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Referências:
Quino (2013). A política segundo Mafalda. Lisboa: Edições ASA;
Negreiros, Almada (1997). Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguiar;
Queirós, Eça (1979). Obras de Eça de Queirós. I, II, III Volumes. Porto: Lello & Irmãos.
O século
Joel Oliveira
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“Então explica lá como se escreve um poema. Ou até um romance.”


“A primeira palavra é sempre a mais custosa. Metade do labor da escrita encerra-se aí, nessas
poucas sílabas iniciais. Depois é ir colocando palavras umas após as outras, e, quando deres por isso,
difícil é largar a pena. Inércia literária, no fundo.”
Tudo isto disse ela sem nunca despregar o seu olhar da calçada que ia calcando, enquanto ele
estudava o perfil da sua face. O sol já se havia posto, contudo, a cidade não estava menos radiante,
luz escapava por cada janela, candeeiro e vitrine que ladeavam as ruas. As ruas encontravam-se
atravancadas por magotes de gente, caras caídas e estafas, não pelo dia que se expira, mas pelo
próximo que se avizinha.
Ele permaneceu alguns minutos com um ar pensativo, mão cerradas dentro dos bolsos do seu
casaco, nunca abandonando o seu lugar junto dela. Finalmente, como desenrolasse aquela breve
afirmação na sua mente, para a compreender até às suas últimas consequências, desembucha:
“Bem, podes descrever a Literatura como uma fila de palavras que continua pela folha abaixo,
mas eu e tu sabemos que há mais para além isso. Há que saber selecionar as palavras, dispô-las numa
ordem digna delas mesma. Aí entra o sentido estético. Não pode ser uma fila, tem que ser um desfile!”
“Pff!”, ela lança-lhe um olhar breve e com uma atitude altiva, “Só mesmo tu para me criares
essas imagens. Devias utilizar essas metáforas, por muito estúpidas que sejam, para escrever, não para
me enfadar com as tuas pretensões literárias que não passam disso. Mas, sim, concordo contigo em
relação a isso.”
Subiam a rua, rodeava-os uma noite da civilização moderna. O movimento dominava as ruas
e inundava os sentidos. As imagens fulguravam e sumiam nos vários ecrãs de onde se tornara
impossível desviar o olhar; atingimos por fim o limite de informação que somos capazes de ingerir. A
azafama universal dos transeuntes é um sintoma da escassez de tempo; parece ter-se tornado
insuficiente para todos e estes temem que se esgote antes que alcancem o próximo autocarro. Se isso
se passasse, ficariam ali, a flutuar num ponto atemporal e dormente, deixados para trás. Mas, ai, como
o homem moderno não aprova (Não pode aprovar!) este tipo de clausura temporal. É o homem do
progresso e, como este, mantem no seu horizonte o seu inescapável futuro.
“Onde é essa tal livraria para onde nos dirigimos já há tanto tempo?”
“Não falta muito. É já ali à frente. Mas não resmungues muito. Foste tu que decidiste
acompanhar-me até lá.”, diz ela, com a cara tingida pelos raios de luz saturados e coloridos que são
disparados pelas lojas por que passam.
“Calma! Mas admite, mesmo custando-te muito, que está frio suficiente a cavalgar por estas
estrada para congelar até à alma, e olha que a minha é bem calorosa. Não é noite para passear.”
“Tens uma venda de pessimismo a tapar-te esses olhos. Prestas atenção só ao que te é
roubado, nunca ao que ganhas. Repara, se tivesses ido já para casa, como é o teu costume, não
teríamos tido esta conversa e não terias aprendido comigo como escrever. Quem sabe, poderá ser esta
mesmo conversa a tua inspiração. Podes até mesmo escrever acerca dela.”
“Esta ventania arrebata-me a inspiração...”
Ali, sob cobertores rotos e sobre cartão ensopado, estava o homem moderno, ah, mas este é
diferente, outro tipo desse. Este é, provavelmente, o real e verdadeiro homem moderno: sente essa
modernidade na pele, dorme sob o poste elétrico, as suas músicas de embalar são os ruídos dos
autocarros que nunca se cansam de passar pelas mesmas ruas de sempre. Não pertence àquele mundo;
vê-o passar e, ao contrário dos outros homens, não integra a ilusão de que eles participam. Ele é
realmente verdadeiro. Sem-abrigo, sim, mas sem falsidades.
“Mas este é o meu problema com a literatura.”, ele gesticula com a cabeça em direção àquele
homem sem-abrigo, “Nenhuma palavra, frase ou texto vai algum dia transmitir o que aquele homem
sente, sentiu e sentirá. Não há metáfora, não há métrica, que seja capaz de me contar a brutalidade e
crua realidade que aquele homem sofreu. Quanto mais, tudo isso impede-me de o ver, distraindo-me
com aqueles mundos verosímeis, mas nem um pouco verdadeiros. Só há uma forma de conhecer
aquele homem: é sê-lo. Isso nenhuma arte me possibilita. A literatura leva deste mundo as figuras que
transfigura e dispõem nos seus quadros. Nada pode fazer pela realidade, apenas pode escapulir-se
dela.”

14 | P á g i n a
Ela continuava a olhar em frente, não deu indicação de sequer ter ouvido o que tinha acabado
de ser dito. Um silêncio inesperado que o deixou fixado no pouco que via dos olhos dela. Finalmente,
ela levanta a cabeça, olha-o gravemente:
“Isso é errado. Muito errado. A literatura é literatura, é arte. A definição extingue-se aí. Ela
não te deve nada a ti, àquele homem ali ou até mesmo à verdade. Ela pode discursar acerca do que
quiseres, pode criticar a sociedade que lhe pedem para escrutinar, pode mesmo ser-te toda ouvidos
para lhe contares as tuas desinteressantes mágoas, dessas estamos todos repletos: mas não tem de ser
nada disso. A literatura é. A sua essência não se encontra nos temas, na sua atuação no mundo, ou
na sua evasiva fantasia, encontra-se na verdade entre cada palavra, nas linhas que as formam, nos
sons que delas emanam. A literatura vem de dentro para fora.”
Pois bem, amigo leitor, nem mesmo eu sou capaz de decidir com quem mais concordo.
Ambos os argumentos são válidos. Tão válidos que estão os dois próximos de me convencer, mas
falta aquela pequena distância entre a dúvida e a zelosa crença. Cá para mim, e julgo que o leitor já o
deve ter pensado, falta aquele rigor académico para que estas teorias sejam realmente decisivas. Como
podemos nós confiar num discurso não pautado por notas de rodapé e bibliografias extensas?
Contudo, e não tenho reservas em admitir-lhe isto, são me inúteis esses sofismas. Que me
interessa o rigor quando concluem irrefutavelmente e cientificamente que a literatura é definição
fugidia, é oculta pela sua própria complexidade?
Enfim, é uma questão sem resposta. O leitor, sábio como o sei que é, pode ainda julgar quem
lançou a afirmação mais categórica. Só é justo! Afinal de contas, eu mesmo acabei de o fazer.
Continuarei então a contar-lhe o que estes dois iam fazendo na sua demanda ao livro.
Iam os dois juntamente com a multidão solitária que os rodeava. Por entre artistas de rua e
vozes mescladas num grande e monótono ruído de fundo, o som dos passos na calçada era esquecido.
O mundo era apenas um barulho ensurdecedor que tomava conta de todos os sentidos; era um tanto
que expulsava tudo o que não lhe dizia respeito. Os cheiros, as imagens, os toques e os sabores
prostravam-se diante daquele som reinante, e era permitido aos homens apenas permanecer para o
ouvirem. Eram testemunhas da sua hegemonia.
Então ele, exausto das complexidades com que a literatura tem o hábito de se fazer
acompanhar e, num ato de revolta contra aquele ruído chato e maçador, fala:
“Honestamente, eu gosto de ser parte de uma multidão. É agradável renunciar a minha
individualidade de vez em quando; ser mais um. Ser eu próprio, tu certamente que compreendes,
torna-se cansativo de vez em quando e sabe bem pôr-me de parte para ser um todo. Não sentes o
mesmo?”
Era visível a surpresa na cara dela devido ao carácter inesperado do que ele tinha acabado de
proferir. Olhou-o uns segundos, para perceber se foi uma afirmação séria ou mais uma das suas
brincadeiras sem humor, e disse então:
“Eu não sinto o mesmo. Há dias que era mais fácil não ser eu, admito tal. Contudo, é
preferível estar comigo a fugir de mim; não sei se é mesmo possível deixar-se a si próprio
completamente, mais rapidamente é um fingimento da separação. Uma multidão não é tanto um meio
para me desconstruir em nada, é, na verdade, um reforço à minha individualidade. Demonstra a largo
fosso que se estende entre todos vocês e eu.”
“Isso é bem mais difícil do que o que eu faço. Prefiro sentir-me mais um ao oposto, que é não
ser nenhum deles.”
“Talvez seja mais custoso, sim. E também, e acho que é isso que me faz preferir isto, torna
impossível negar-me, posso estar separada dos que me rodeiam, mas tenho o conhecimento claro de
que estou e sou.”
Como a multidão adquiriu um carácter etéreo neste século XXI em que participamos!
Tornou-se tal paradoxo: tanto fornece o sentimento de pertença que nos é tão caro, como desvenda o
muro que nos separa de todos os outros. Situação ainda mais visível quando olhamos a cidade
moderna. Entre paredes elevadas de prédios aglomerados que sujam o azul do firmamento com a sua
imagem ridiculamente reta, entre estradas rompidas por uma ininterrupta corrente de automóveis que
perturbam o ar com a sua insolência, entre toda aquela forma hiperbólica de viver, há a solidão da
multidão. No quadro pintado da cidade, vemos homens, mulheres todos unidos na sua irremediável
separação; há lá uma multidão de pessoas, multidão de pessoas que não são essa multidão que veem.
A cidade é o significante oblíquo da solidão.
16 | P á g i n a

Chegados por fim à livraria, enquanto ela se dirigira ao balcão, ele olhava todos aqueles
nomes impressos em todas a cores imagináveis. Cada uma daquelas pessoas havia desperdiçado parte
da sua vida a redigir um monte de textos que agora se encontravam ali em exposição. Ele tateava o
frontispício dos vários livros, parecia procurar compreender qual seria o melhor. Os seus gestos iam
ficando cada vez mais impulsivos e incompletos: como era de esperar, não o conseguia perceber.
Afinal de contas, de que serve ler o melhor? Isso nem existe; ideia clássica que já morreu há muito.
Ela aproxima-se e dá-lhe um pequeno empurrão:
“Era bom que estivesse aí o teu nome? Primeiro tens que começar a escrever.”
“Começar é o mais difícil. Certamente que após começar, chegar aqui é nem metade do
esforço. De qualquer das formas, não quero o meu nome aqui. O nome pode ficar comigo, o que eu
escrever, se escrever, é que pode correr por todas as páginas que por aí andam”.
“Acerca disso, posso finalmente concordar contigo. O texto vive, o autor, mesmo que vivo,
morre”.
Já no exterior da livraria, com a lua a estudá-los no topo da abóbada celeste,
intermitentemente bloqueada pelos objetos opacos que constroem a cidade, chega a hora da
despedida. Ele começa:
“Eu vou para ali. Tu caminhas para o lado oposto, não é?”
“Sim. Parece que ficamos por aqui.”
“A conversa foi boa. Discutimos arte, literatura, e o que viesse à cabeça.”
“Que havíamos mais de fazer? Somos jovens!”

Dez direitos
do leitor moderno
Cristiana Correia
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1. O direito de não ler na presença do monstro sábio-académico-excelentíssimo-senhor-doutor


dos assentos de comboio que desfruta o seu Prometo tudo e mais alguma coisa.
2. O direito de não ler os livros que se confundem com as descrições das publicações de fotos
nas mais diversas redes sociais, principalmente se os livros forem de tal modo angelicais que
nos provoquem uma vontade imensa de voar e falecer.
3. O direito de cremar o livro e de transportar as suas cinzas num saco de tule cor de rosa com
lantejoulas brilhantes (deve-se ter o cuidado de não permitir que as cinzas contaminem as
mentes de eventuais transeuntes – tratam-se de livros perigosíssimos, pelo que a cremação
deve ser feita em local apropriado).
4. O direito de não seguir as recomendações de leitura de comentadores políticos (sobretudo
quando eles reiteram que «os livros são muito bons!»)
5. O direito de ignorar as palavras dos jornalistas.
6. O direito de tornar um livro realidade: apaixone-se, inicie uma relação encantadoramente
manipuladora, grite, esbofeteie, traia, procure o seu propósito de vida, envolva-se em boas
energias, seja felizmente miserável!
7. O direito (e dever moral) de não incentivar o amigo com depressão a ler livros cujo título seja
composto de como + problemática em causa, bem como aqueles nos quais as palavras “sucesso”
e “poder” se destaquem.
8. O direito de se recusar a ler na praia, enquanto uma criança grita e o seu pai corre para a
impedir de lançar areia para a sua toalha, enquanto os jovens atiram a bola para o seu espaço
pessoal repetidamente, desculpando-se a cada tentativa fracassada de o irritar.
9. O direito de não ver as adaptações cinematográficas dos livros.
10. O direito de atirar um livro à cara daquele que sabe muito e não lê.

(Baseado em Como um romance (1997), de Daniel Pénnac, ed. ASA)


Perda da Criação
Cristiana Correia
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«Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo.


Todas as palavras juntas formam o Universo.»

–A Invenção do Dia Claro (1921), Almada Negreiros

Depois de tanto tormento, encontro a paz na minha morte.


Sei que os leitores não gostam da página em branco. Quando o escritor se senta à minha
frente, temo a força que exerce sobre mim e amedrontam-me os movimentos bruscos, rápidos,
assertivos ou pouco confiantes e desiludidos que prolonga eternamente.
Não gosto da tinta fria num primeiro impacto. Retira toda a beleza da minha palidez e obriga-
me a absorvê-la rapidamente, deixando-me impura. Sei que para ti é indiferente a cor da caneta que
usas, mas a verde tende a ser mais carinhosa comigo, a vermelha é amarga e insiste em deixar marcas
e pontos desnecessários só para se destacar em relação às outras, ao contrário da preta, a escolhida
dos poetas, que gosta de ser discreta. Resta a azul com a qual começo a desenvolver uma boa amizade,
já que é a preferida daquele que vê alguma paz em mim.
O lápis a carvão, aliado à borracha, são os meus piores inimigos. Exercem uma força
insuportável sobre mim, destroem-se a si mesmos para me conseguirem também destruir; pintam-me
de cinzento, a cor das nuvens que trazem a chuva que me desfaz. Combinam jogos e truques, que
consistem em repetições constates em que os dois dançam sobre mim à vez até me rasgarem. O lado
positivo de toda esta inflição de dor são as palavras que nunca me magoam, instalando-se em mim
profundamente, pedindo-me desculpa pela dor que o seu processo de construção me provoca e
dialogando comigo mesmo depois de alguém as apagar. Por vezes, criam uma enorme confusão em
mim, mas, por norma, apenas querem brincar, construir formas, dar algum preto ao meu branco. Sem
elas seria inútil...
Entristece-me saber que nem o melhor escritor repara bem em mim. Quando me olha
atentamente, pensa já nas palavras e, se repara em mim, é porque me sujou com as suas distrações.
Apesar das razões que disponho para me sentir insignificante, vivo. Gosto de sentir as mãos quentes
das crianças, mas odeio-as por me sujarem com líquidos pegajosos; gosto do cuidado dos jovens
estudantes, que me querem limpa, organizada, ao contrário de toda a desorganização de emoções que
me confidenciam através da expressão como me olham. Gosto sobretudo daqueles que me encaram
como amiga, que me levam a ver o céu, o teto da biblioteca e do café. Todos esses momentos de
encantamento são efémeros, porque, no seguimento das minhas maiores emoções, chega a minha
morte...
Hoje estava colocada em cima de uma secretária negra, juntamente com as minhas
companheiras. Elas não costumam refletir sobre o que são e limitam-se a ser. Não sei porque é que eu
teorizo... Em mim tenho poucas, mas fortes palavras, e por elas morro hoje. Em mim tenho a marca
de uns dedos compridos, duas gotas de água caídas do copo por descuido de um alguém insignificante,
uma mancha escura da camurça de um estojo e algumas dobras causadas pela mala de couro. Tudo é
parte de mim e continuo sem valor...
Fui tocada com cuidado, olhada com cuidado, corrigida com cuidado e fui levada a ver o céu
azul uma última vez. A palavra vento garantiu-me a liberdade e as folhas confirmaram-no. Fui lida
uma última vez e colocada em cima de um banco quente. Apercebi-me de que, se não queria deixar
de existir, tinha de confiar no vento, que rapidamente se apoderou de mim. Voei, ouvi de perto o
cantar dos passarinhos, vi o trabalho das formigas, senti os pés atarefados e cai num lago... As minhas
palavras borraram-se, o negro consumiu-me, a água engoliu-me e desfiz-me em pedaços, como
nenúfares esbranquiçados, desorganizados, dispersos, desligados...
Perdi a unidade, perdi a existência. Encontrei a paz no oceano das palavras perdidas.

17 | P á g i n a
SENTI(N)DO
Rita Sofia Guimarães
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Já alguma vez se sentiram insuficientes? Como se, por mais que tentassem, nada conseguiam
fazer para mudar isso? Se sim, convido-vos a prosseguir a leitura; se não, peço que parem de ler e que
mudem de página.
Mais do que palavras soltas, os meus rascunhos, muitas vezes, funcionam como um diário,
no qual escrevo terrivelmente mal, sem atenção à sintaxe nem à semântica. Quando lá escrevo, sinto
o meu coração a bater rápido, como se do meu peito ele quisesse sair, e as minhas mãos a tremer,
porque não conseguem acompanhar a velocidade do meu pensamento. Lá procuro a libertação destas
lágrimas frias que escorrem pela minha cara. Lá procuro o meu sentido, sentindo o vazio da minha
existência. Lá escondo a minha insuficiência. Agora, talvez fosse um bom momento para enumerar
todos os motivos que me fazem sentir assim, mas escolho não o fazer, prefiro que essa parte de mim
permaneça invisível; que permaneça minha.
Palavra após palavra, rua após rua, interrogo-me se este é o meu sentido, se estou a caminhar
na direção certa. E, neste momento, ao mesmo tempo que a minha cabeça fica em água, a minha
ansiedade começa a fervilhar. E, numa desesperada e fútil tentativa de me acalmar, olho para o que
me rodeia e procuro o ar, mas este permanece escasso e tudo o que encontro são os constantes
encontrões que me apertam o coração e, lentamente, me deitam ao chão.
Sabem, caros leitores, antes eu não era assim, não era esta pessoa insuficiente. Não era
perfeita, mas era suficiente. Infelizmente, sem eu reparar, a soma dos encontrões, subtraiu a minha
suficiência e resultou na insuficiência. Mas, sabem qual é a pior parte? É que eu permiti, deixei-me
caminhar naquelas ruas brilhantes que me agarraram o olhar e, passo após passo, perdi uma parte de
mim e, só no fim da rua é que vi que nada sobrou. Tudo me tinha sido tirado e, agora, nem força eu
tinha para voltar atrás, porque as luzes já se tinham apagado e aquela rua, que outrora foi brilhante,
tinha se tornado num beco inconstante.
No meio do caos das multidões estáticas, encontro a minha paz. Imagino que, tal como eu,
aqueles rostos cansados e fatigados com expressões fingidas procuram exaustivamente, naqueles
caminhos, os seus sentidos e propósitos. Observo-os e, nas minhas folhas soltas, escrevo,
freneticamente, linhas que se transformam em parágrafos e, posteriormente, em excertos de uma
realidade que eu nunca conhecerei completamente e de uma sociedade que permanecerá fora do meu
alcance durante a minha busca pela verdade. Quando, por um segundo, esqueço-me da ausência de
luz, da minha presença no beco e da minha insuficiência, subitamente, ouço gritos angustiados que
se espalham e substituem o ar.
- "As paredes! As paredes" - gritavam.
As paredes estavam a encolher. Corri. Cai. Levantei-me. Corri. Os gritos escalavam à medida
que o cimento ruía. Sem fôlego, sem força, sem energia, parei, aceitando o meu destino. Sentei-me no
chão, peguei na minha velha caneta e, na perversa escuridão, enquanto ouvia o desespero crescente.
Continuei a escrever. Naquele momento, relembrei quem costumava ser e, ali, a tinta da minha caneta
deixou de ser preta, tornou-se ainda mais clara do que a luz e as minhas palavras soltas mostraram-
me o sentido.
Sabem o que mudou, caros leitores? Para encontrar o meu sentido de volta, eu permiti-me
sentir o sentido e, apercebi-me de que, afinal, não era do vazio que eu tinha medo, mas da tristeza.
Assim, os meus tristes rascunhos tornaram-se a minha luz e, iluminando o meu caminho, as paredes
pararam de encolher e aquele beco inconstante transformou-se numa rua insignificante.

18 | P á g i n a
As I Lay Dying:
Retrato de uma família à beira da rutura
Ana Rafaela Damas
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Quando penso no Modernismo na América, relembro-me de imediato da “Lost Generation”,


que sempre me fascinou. O termo é habitualmente associado à geração que assistiu ou participou na
Primeira Guerra Mundial e que viveu toda a loucura dos anos 20 até à Grande Depressão, a enorme
crise de 1929. Dela fazia parte um conjunto de artistas que se sentiram desenquadrados, perdidos,
traumatizados, com tudo o que estava a acontecer, tendo abandonado os Estados Unidos para vir
para a Europa. Foram uma geração crítica, desassossegada, inquieta, mas absolutamente genial, que
gerou alguns dos maiores nomes da literatura norte-americana. Eram expatriados, que em Paris
apreenderam todo um novo contexto sociocultural. Eventualmente, voltaram para o seu país de
origem, ao qual deram obras que até hoje são consideradas canónicas. De facto, foi uma época de
grande experimentalismo. Os autores viam no Modernismo a melhor maneira de expressão possível
– afinal, era um novo estilo de arte, que espelhava um novo estilo de vida. Por trazerem toda esta
bagagem do Modernismo europeu, quando retornaram a casa, estes escritores influenciaram a
sociedade artística americana, inevitavelmente, e foi com a introdução de uma nova forma de escrever
e de novos temas literários que surgiram textos brilhantes.
A obra de que me ocuparei faz parte deste mo(vi)mento cultural – que serve de tema a este
quarto número da bonita “Amendoeira em Flor” –e é da autoria de William Faulkner. As I Lay Dying,
publicado em 1930, é um romance polifónico, que se foca na morte de Addie Bundren e na viagem
que é feita pela sua família até Jefferson, onde desejava ser enterrada. Esta família reside em
Yoknapatawpha, um local fictício criado pelo autor, mas cujo simbolismo não poderia ser mais
pertinente. O nome tem origem índia e remete para a ideia de fluxo, que se articula com os monólogos
interiores das personagens a que assistimos na obra. Esta técnica literária é usada para exprimir a
corrente de consciência das mesmas – ou, se preferirmos, o fluxo de consciência, um processo
psicológico em movimento, continuidade. São esses monólogos, aos quais vamos tendo acesso, que
permitem entender a realidade desta família.
A obra está dividida em secções que correspondem à visão das diferentes personagens
(membros da família e pessoas suas conhecidas, os denominados “outsiders”) sobre uma mesma
situação, já referida. Foi este “espetáculo de vozes”, como referiu muitas vezes o professor que me
deu a conhecer o romance, que me cativou, por ser algo tão diferente de tudo aquilo com que já me
cruzei. Esta característica apresenta um caráter marcadamente modernista, que lembra o cubismo,
por termos acesso a perspetivas diferentes do mesmo objeto, e também o cinema, por colocar lado a
lado todas essas distintas visões, como que fazendo uma montagem, para que o leitor consiga
visualizar e interiorizar toda a informação que lhe vai sendo dada.
Contudo, as secções não estão distribuídas de igual forma por todas essas vozes, o que é
justificável por uma problemática que assombrou Addie durante anos, a desconfiança das palavras e
a incompatibilidade entre palavra e ato. Isto levou-a a separar os seus cinco filhos em crianças que
considerava suas, por terem surgido de algo que ela considerava genuíno ou, então, por terem nascido
numa altura em que ela ainda não se tinha confrontado com essa questão, e crianças que pertenciam
ao seu marido, as quais tinham sido concebidos apenas como uma compensação para ele. Aliás, os
filhos não poderiam ser mais diferentes. Cada um reflete as condições do seu nascimento, e, portanto,
há alguns que são mais palavras do que atos (como é o caso de Darl, que tem o maior número de
secções), e outros que representam mais atos do que palavras (Jewel, por exemplo, que só fala uma
vez, de forma rígida e violenta). Por ser óbvio o favoritismo da mãe, surgem grandes tensões familiares
que vão sendo expostas ao longo do livro.
Sendo uma obra complexa, não me poderei alongar sobre todas as personagens como gostaria.
Ainda assim, pretendo destacar duas: Darl e Anse.
Darl é um dos filhos negligenciados por Addie e é, definitivamente, uma figura marginalizada
pelo restante seio familiar. Ninguém o compreende – tenho, para mim, que nem ele próprio, por vezes.
É dado como louco após incendiar o caixão da mãe com o propósito de terminar aquela viagem
bizarra, mas esta insanidade acaba por ser discutível, porque há quem o considere o mais lúcido de
todos os intervenientes. Para além disso, conhece todos os segredos da família, mesmo que ninguém
lhos conte – sabe sem palavras e o seu olhar parece invadir o espaço dos outros. A determinado
momento, parece querer sair de si mesmo para se observar de fora, o que sublinha a crise existencial

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e identitária que vive. O seu riso confirma que tem plena consciência do absurdo que o rodeia, afinal:
“This world is not his world; this life his life” [FAULKNER, 2004: 248].
Anse é o pai, marido de Addie, uma personagem extremamente passiva: as coisas acontecem,
simplesmente, sem que faça nada por isso. Nem sequer se apercebe do ódio que Addie lhe tem ou do
seu plano de vingança, que consistia em acabar com a inércia que o caracterizava, obrigando-o a levar
o caixão até Jefferson com os filhos. Sendo uma figura definida pela sua mesquinhez e egoísmo, faz
uso da morte e funeral da esposa para ir àquela cidade cortar o cabelo, arranjar uma nova dentadura,
e, no final, consegue ainda uma nova Mrs. Bundren, vingando-se de Addie sem se aperceber.
A obra é dominada pela presença dos quatro elementos fundamentais – água, terra, ar e fogo –
e mostra as dificuldades pelas quais os Bundrens passam para concretizar o desejo da matriarca da
família. A natureza é a principal antagonista, pois é ela que está na base de todas as adversidades que
surgem naquela espécie de peregrinação.
A presença do grotesco é evidente através de situações como os abutres que pairam em círculos,
o cheiro que domina todo o ambiente, proveniente da crescente decomposição do corpo, Cash, um
dos filhos favoritos, levado em cima do caixão da mãe por ter partido a perna, quase como se a
cavalgasse, e Vardaman, o filho mais novo, que, com uma visão inocente e apenas entendendo o
fenómeno da morte no mundo animal, faz buracos no caixão para que Addie possa respirar, acabando
por perfurar o seu rosto.
Esta é, de facto, uma obra marcante do Modernismo americano. Partindo de uma família
específica oriunda do Sul, caracterizada pelas tensões familiares e pela disfuncionalidade, o romance
de Faulkner constitui um retrato da condição humana sob determinadas condições, tendo, assim, um
caráter universal.

Desabafos
de um Holden Caulfield
Ana Rafaela Damas
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Sinto-me esgotado. Esteja onde estiver, só vejo falsidade, hipocrisia, conformismo. São todos
iguais, deixam-se corromper e partem, sem retorno, crentes na complexidade de uma identidade que
já lhes foi retirada.
Já nada há a fazer em relação a eles, mas a ela…. A ela ainda a posso – e tenho de – proteger;
apanhá-la antes que desça ao inferno do qual não há saída possível. Sonho com isso demasiadas vezes,
e, no meio daquele campo de centeio em que brinca tão livremente, parece que a perco de vista e sinto-
me cair. No fim, o destino troca-me as voltas e é ela que me salva.
Andei tanto tempo consumido pela angústia de não ser capaz, mascarado por uma rebeldia que
poucos toleraram e que ninguém parecia entender. Foi sempre assim; eu, o meu boné vermelho e o
meu medo incessante de não saber o que fazer... As minhas fantasias sobre a morte pareciam não
terminar, mesmo que reconhecesse em mim o medo de não sobreviver por desafiar o que nunca esteve
certo aos meus olhos. O dilema permanecia, junto da minha obsessão, da minha confusão: manter-
me fiel àquilo em que acreditava e revoltar-me pela inocência? Ou admiti-la causa perdida? Pelo
caminho, sinto que me perdi a mim mesmo.
Batalho interiormente para deixar de ser apenas fragmentos. Estremeço, choro, sofro. Estarei
a caminho do fim que tanto temo?
Enquanto deambulo, penso em ti, desespero por ti. Pedi-te tantas vezes que não me deixasses
desaparecer, Allie. Tantas! Tantas que lhes perdi a conta, mas sei que sempre menos do que as que te
pedi que voltasses.
- INTERMEZZO -
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UNREAL
REFLECTIONS

Isabel Lameirão
II. POESIA
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VERTIGENS (I)
Walter Rego
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Ah estas tardes de inverno


em que o Sol
do topo do seu
alto trono celeste
de céu limpo
se derrete e
como uma cera suave e quente se g
o
t
e
j baixo
a para

vertendo uma cal de calor na v


e
r
t
i
c
a
l

(um murmúrio
sem som
que não se cala
que ouço na pele
e me reconforta
com a altura
l
t
u
r
a quentura
das suas palavras)
vertendo o seu calor
a sua vida
(que aquece a minha)
zi
gue
za
gue
an
do
até mim

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E eu
perdido
(sem procurar saída)
(sem poder procurá-la)
(sem querer procurá-la)
(sem querer)
me estendo
na relva
aturdido
zi
gue
za
gue
an
do
an
do
an
do
an
do

dentro da Cidade

e de mim.

VERTIGENS (II)
Walter Rego
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Ver-te – e calor
Ver-te – e calar-me
(Vertical ar me
lança em densa dança
e afunda em funda
q
u
e
d
a

imóvel dentro de mim.)


Paris, divagações
Ao amigo e primeiro leitor Francisco Topa
Ariana Sanches
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Paris – cidade ereta todo o ano,


Um pouco mais ereta no verão.
CE(N)SURA
Teu falo, num esforço sobre-humano,
Ereto – sem carne nem proporção…
Paris – pénis sem dano e sem engano!
Abro uma palavra ao meio
Em ti, cidade-luz – cintilação –
para ver como é
Em ti, símbolo do progresso urbano,
por dentro (o
Numa despudorada ostentação,
cinzel espancando afiado
Dos homens, a primitiva ambição…
a pedra em que espreita
a estátua).
É certo que existe em qualquer cidade
Um moimento, como o teu elevado,
Abre-se a ferida (a
Ícone macho da virilidade
fechadura para que faltam
E de todos os homens estimado:
todas as chaves).
Nenhum que exponha com tanta vaidade
O moderno órgão – agigantado,
A palavra, sobre a mesa de trabalho,
Férreo, rijo e forte em qualquer idade –
esventra-se(-me) em pedaços
Tal como pelos homens é sonhado,
de mundo
Tal como p’las mulheres adorado.
que engole e regurgita,
e vai-me apontando
Paris – banhada numa luz dourada –
com o dedo
Cidade erguida sobre dois testículos…
coisas que lhe justifiquem
Contra um céu de imenso azul recostada,
a existência.
Guarda fiel da sucessão dos séculos,
Velando a esposa, no leito deitada,
Tem a voz de um condenado
A torre – de ferro, já não de músculos –
(caço em flagrante delito)
Do Futuro, da Era anunciada,
a voz de quem a lê e
Da Aurora que sucede aos crepúsculos,
por que entra adentro
Às noites, e que não conhece obstáculos…
ribombante.
Mas penetra sempre num mau futuro,
Aponta, desesperada (o brilho
Numa horrível e decadente Aurora,
lacrimoso
Porque é homem – como as guerras, escuro,
nos olhos), observa, absorve,
E bruto. No campo de Marte mora;
e diz, diz, diz:
É símbolo dos homens – nu e duro –,
repentina,
É como homem que a virgem paz desflora,
remota,
E nenhum sonho está a seus pés seguro.
assertiva,
É sua esposa quem desperta e chora
obtusa,
E no seu choro o mundo revigora.
abstrusa,
absoluta,
Paris industrial, Paris frustrada
obsoleta-
Que não ejacula nunca, que sofre.
Paris que não dorme, Paris cansada,
mente.
Paris fechada em si como num cofre.
A tua feia torre, sempre inchada,
A tua torre suja fede – é pobre.
Walter Rego
Paris, mulher que chora – violada:
À sombra do falo, que tudo cobre,
A virgem nobre e bela o rosto encobre.

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Ou ejacula, muito raramente,


Com a força de uma revolução,
Em que desperta a cidade dormente.
No êxtase dessa ejaculação,
Instado pela luz dum sol fulgente,
Cada homem descobre o seu irmão,
Do qual irmão se torna – realmente. FUTURO CERTO
Paris, de todo o mundo inspiração,
Paris – tempo da nova criação…

Mas que digo que és homem, se és mulher? Ao imortal Amílcar Cabral


És o perfume dos jardins floridos,
A Primavera, quando o homem quer, Ó, Liberdade!, do nada e de tudo,
Adornada de cantos coloridos Porque é que te escondes de nós,
Que as aves cantam ao escurecer…. E te tornas, dia a dia, em entrudo,
Pl’os teus vários encantos seduzidos Deixando-nos – coitados – à sós?
Olhando o teu rosto, ao anoitecer,
Na luz morna do teu céu entretidos, Ergue-te, e a nós nos dê a viva voz,
Se encontram consigo os homens perdidos. Que na mata deste aos nossos avós.
Quem fez que já não exista o sentido
Paris, co’os seus perfis gregos, romanos, Em nós do compromisso que era tido,
Inda com os arcos da Antiguidade, Pelos sangues para a Pátria vertidos?
Com as suas catedrais de mil anos,
Que não duram a sua eternidade. Quer se inventem novas histórias –
Paris – poetas santos e profanos, Não existem, venha sem demora –
Vates do povo, da Fraternidade, Agitar o Espírito da Revolução
Das gárgulas, dos seres inumanos; E ecoa, sempre, as nossas memórias
Vates obreiros da Modernidade, Para sabermos quando forem horas.
Já não só do belo – da fealdade!... Ó, Liberdade, é preciso uma ação!

Cidade grotesca, prostituída!, Quando é ou será isso, senão agora,


Cidade vil, industrializada, Esse dia que não seja frio nem mudo
Aburguesada, do povo esquecida, Quando é esse dia em que será erguida
Branca, elitista, suja, endinheirada… (nem morna nem fria, mas com vida)
Paris multicolor, enegrecida. A voz que, verdadeiramente, é sentida,
Por mais que sejas p’lo mundo louvada, Que não se cala nunca por condição
Quem, se não cego – como tu – olvida De ter sido sempre e sempre oprimida?
A tua plebe marginalizada,
Que tanto nos teus cantos foi cantada? Ó, Liberdade, até quando serão ferozes
E continuarão a sê-lo, em nome do povo?
Como todas as cidades, mecânica. E em nome da democracia, não foges,
Por demais distraída – digital. Ó, Liberdade, mãe do tempo novo
Cidade calada, talvez disfónica? Que, aqui, ainda há de chegar em boa hora…
Gritas muito, Paris, mas gritas mal…
Foi tua voz, porém, outrora eufónica –
Onde morreu o teu canto imortal? Res. Univ. Alberto Amaral, 25-26/02/2021
Quando cedeu a tua força titânica?
É um homem menor que o seu igual? Romen
Paris, Paris – em que estivemos mal?

Em permitir que te sujasse a face,


O sémen da tua ejaculação?
Se ao menos lavar-te o rosto bastasse!…
O teu mal é d’alma, do coração.
Teu mal foi permitir que se gastasse
A tua força, a tua pulsação,
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Foi permitir que o teu canto cessasse,


Foi ignorar o ímpeto, a emoção,
O amor fraterno, a vida em comunhão…

És bem do teu séc’lo – de força e ferro.


És bem do passado – do sexo forte.
Escuta, Paris, pois nisto não erro:
será o teu sexo a tua morte.
Quando os olhos lacrimejantes cerro,
Só uma imagem há que me conforte –
O sonho que condenaste ao desterro…
O sonho – um dia tua estrela-norte,
Que um dia talvez tenha melhor sorte.

Porto, 2 de fevereiro de 2021

O RIO FLUI EM TI
Eduarda Magalhães
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Beijar-te é como beijar o rio


E o rio flui em ti e irrompe em mim
Para depois me embalar de mansinho
Com as suas águas límpidas.
A areia que navega pelas tímidas ervas
Infiltra-se entre nós,
para poder sentir o teu toque.
E as folhas que dançam nas margens,
Foram escritas por mim
Na egoísta e insana esperança
De te tornar imortal.

Quando no Adeus
Ariana Sanches
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Quando no adeus os teus olhos verdes choram,


Húmidos duma melodia já saudosa,
Amor – à curva dos meus lábios afloram
Rumores duma fala final, belicosa.

Quando na despedida as tuas faces coram,


Banhadas numa melancolia morosa,
À curva dos meus lábios, amor, afloram,
Falas cruas, duma verdade impiedosa.

Quando no adeus os teus lábios imploram


Dos meus, um novo beijo – numa voz chorosa,
À curva dos meus frios lábios afloram
Verbos duma sinceridade desditosa…

Palavras de quem conhece o gesto que mata,


E, do amor, somente a face insensata.
III. Ensaio
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Da sexualidade da arte futurista:
identidade e pátria no Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do séc. XX

Ariana Sanches
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«Eu sou um poeta portuguez que ama a sua patria.»

Reside, com certeza, na aplicação do vocábulo ultimatum, e, evidentemente, na sua exploração,


a singularidade do texto de Almada em relação ao que lhe serve de base – o «Manifeste du Futurisme»
(MARINETTI, 1909), do qual não se limita a ser uma mera cópia. De facto, a interpretação que dá
Almada NEGREIROS (1917) a este vocábulo, à época ainda tão significativo, confere ao seu texto
um caráter marcadamente nacional/ista, em tudo conforme às pretensões da «nouvelle école
littéraire», tornando a posterior alusão «às gerações portuguesas» praticamente redundante. Não
devemos passar sem notar, também, a importância significativa do marco temporal estabelecido pelo
autor no título que atribuí ao seu texto, o qual estabelece com o campo lexical de «futuro» uma
interessante relação de incompatibilidade, de que teremos oportunidade de escrever com mais detalhe
adiante.
Falemos, antes disso, dos vários lugares do texto de Marinetti com que o de Almada estabelece
uma relação de semelhança, notando que é sobretudo a proximidade temporal entre as duas escritas
(de resto, nenhum movimento estético conheceu em Portugal uma tão significativa atualidade em
relação aos seus modelos europeus quanto o Modernismo), ou o fascínio, melhor, que o tempo e a
distância não haviam ainda esmorecido, desnudando eventuais erros, que explicam a fidelidade do
português ao texto do italiano. Afigura-se-nos importante realçar que os pontos [4] e [11],
concernentes, respetivamente, ao elogio da velocidade e da(s) máquina(s) os únicos que não
encontram representação no «Ultimatum Futurista», ou, ao menos, representação explícita, estando
os pontos [1] e [2] contemplados nas referências, por exemplo, à «intensidade», à «força» (1917: 143),
ao «momento sublime do perigo» (ibid.: 144) e ao «heroísmo» (ibid.: 146); o ponto [3] contemplado na
constatação da necessidade de «substituir na admiração e no exemplo os velhos nomes de Camões,
de Victor-Hugo, e de Dantes pelos Génios da Invenção» (ibid.: 146) e na «apologia da Fôrça»; o ponto
[5], entre outros passos, na afirmação da individualidade consciente – «Eu sou o resultado consciente
da minha propria experiencia» (ibid.: 143). Devemos, sobre os demais, destacar a importância
concedida por Almada ao ponto [9] do «Manifeste» , importância essa que não pode ser dissociada do
momento da escrita, coincidente com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Se no Manifesto o
louvor da guerra pode ser lido como cedência à sua inevitabilidade – tendo em conta os
desenvolvimentos políticos que o precederam –, ela é no «Ultimatum» uma cedência à sua
factualidade; o primeiro dos dois textos tem, portanto, uma dimensão mais profética do que o
segundo, que explora aquilo que considera serem as oportunidades abertas pela ocasião bélica. O
ponto [10], e a mulher, mais concretamente, merecem também a atenção do modernista português,
que a insta a ser uma mulher da sua época (ibid.: p.147).
O Futurismo é sem dúvida (um)a arte do masculino, do feio e da temporalidade. Notemos que
a guerra é, ainda hoje, um universo masculino, no qual a mulher tem um lugar – como, de resto, nos
demais setores político-sociais – um lugar secundário. A sociedade, notemos, era à época, nos seus
bastidores, ainda mais masculina do que hoje, porquanto os decisores políticos eram inevitavelmente
masculinos. O universo material a que este movimento estético faz referência – as cidades, com os
seus comboios, as suas fábricas, os seus carros, aviões, a sua iluminação, e demais símbolos da
modernidade [«la vibration nocturne», «lunes électriques», «les gares gloutonnes avaleuses de serpents
qui fument» (1909: s/p)] – é também masculino, como são os meios da sua produção e conceção e os
seus utilizadores (referimo-nos aqui de modo particular aos carros, cujo acesso estava vedado ao sexo
feminino). Os atributos positivamente valorados pelo Futurismo são os tipicamente associados ao
homem: a força e a brutalidade. A desconsideração do sexo feminino é mais do que transparente no
Manifeste de Marinetti, em que o italiano afirma: «Nous voulons glorifier . . . le mépris de la femme»;
«Nous voulons démolir . . . le féminisme…» (1909: s/p). Para Almada Negreiros, o papel da mulher
na construção da nova pátria é pouco mais do que o de reprodução: «É preciso educar a mulher
portugueza na sua verdadeira missão de fêmea para fazer homens» (1917: 146).
A presença da guerra – a que inevitavelmente está ligada a morte – parece, não obstante a sua
valorização positiva, apartar um e outro texto da estética do belo, e aproximá-la de uma estética do
feio, tanto quanto do sublime, enquanto expoente de uma sensibilidade, enquanto debate do homem

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com o poder e a imensidão do universo: «A guerra é a grande experiencia» (1917: 144); «Todo aquele
que conhece o momento sublime do perigo tem a concepção exacta de ser completo e colabora na
emancipação universal porque intensifica todas as suas mais robustas qualidades na inminencia da
explosão. E na nossa sensibilidade actual tudo o que não fôr explosão não existe» (ibid.: 144). São
evidentemente parte desta estética as referências de Marinetti à «gangrène», e à necessidade de limpeza
da humanidade, ideias, visível está, de índole eugenista.
O louvor da guerra é parte de um quadro mais amplo de inversão axiológica, de sentido,
podemo-lo dizer, fascista, de que parte a construção da nacionalidade, feita, como concluirá Almada
Negreiros, quer das qualidades quer dos defeitos dos seus homens. Estamos, portanto, ante uma
estética da imperfeição e da imoralidade (melhor, de uma nova moralidade, inversa à dita tradicional):
«Car l'art ne peut être que violence, cruauté et injustice»; «Il n’y a plus de beauté que dans la lutte»
(1909: s/p). A esta luz se entende, então, que Almada condene a sua pátria, e noutra parte a elogie,
pela ausência dos seus ódios (notemos que o Futurismo procurou em tudo a pulsação: a intensidade,
o caráter temperamental, de que comungaram os nacionalismos que conduziram à Primeira Grande
Guerra): «porque o sentimento-synthese do povo portuguez é a saudade e a saudade é uma nostalgia
mórbida dos temperamentos exgotados e doentes»; «porque Portugal não tem odios, e uma raça sem
odios é uma raça desvirilisada porque sendo o odio o mais humano dos sentimentos é ao mesmo
tempo uma consequencia do domínio da vontade, portanto uma virtude consciente» (1917: 145).
Tanto o feio quanto o imperfeito fazem parte, de acordo com o dualismo proposto por Platão
n’A República, do mundo sensível. O Futurismo comunga, está visto, da nova axiologia que subjaz ao
Romantismo – a grande estética da modernidade –, aprendida de John Locke. Isto na medida em que
valoriza o sujeito, como centro da experiência, e a experiência como centro do conhecimento; é,
consequentemente, uma estética da temporalidade ou, se quisermos, da atualidade, atenta à face do
seu Tempo, ainda que afirme que «Le Temps et L’espace sont morts hier» (1909: s/p). A sua fidelidade
à atualidade de que fez parte [«É preciso ter a consciência exacta da Actualidade» (1917: 146)] permite-
nos interrogar em que consiste a dimensão de futuro a que o nome dado por Marinetti ao movimento
faz alusão. De facto, é sobretudo por ser tão fiel ao seu tempo que o Futurismo nos parece hoje datado;
por lhe faltar, entenda-se, uma certa universalidade, desligada do tempo e da História. Sob o risco de
cair naquilo a que H. Bloom chama de «Escola do Ressentimento» (1994:s/p), diremos que o
Futurismo não tem hoje futuro, especialmente pela sua vinculação a ideias de índole fascista,
nacionalista – de difícil conciliação com o nosso “mundo sem-fronteiras”, dito democrático –
eugenista. Mais ainda, notando que o valor artístico é tanto no «Manifeste» quanto no «Ultimatum»
secundário – não inexistente, note-se – podemos até mesmo questionar até que ponto eles são parte
do fenómeno literário e não apenas propaganda política (condenável, ou censurável, à luz do nosso
quadro democrático), questão a que a impossibilidade (aparente?) de responder à pergunta O que é a
literatura nos impede também de dar resposta.
Voltemos à análise da ideologia futurista, constatando como ela é particularmente injusta no
tratamento que dá aos mais velhos, agrupados, com os doentes e as mulheres, no universo dos fracos.
A construção da nacionalidade, da pátria – enquanto terra de homens –, parte dos homens sãos, fortes,
ousados; do passado, contra o qual os jovens futuristas endereçam grande parte da sua revolta, fazem
parte estes fracos, tidos já por mortos. A guerra é tida por uma espécie de seleção natural, responsável
por distinguir dos fracos os fortes, pela morte: «Contra o que toda a gente pensa a guerra é a melhor
das selecções porque os mortos são suprimidos pio destino, aqueles a quem a sorte não elegeu,
emquanto que os que voltam têm a grandeza dos vencedores e a contemplação da sorte que é a maior
das forças e o mais belo dos optimismos» (1917: 144). Uma tal conceção não pode deixar de ser ligada
às teorias eugenistas, que viriam a ter um impacto ainda mais significativo anos mais tarde (no regime
Social-Nacionalista alemão, nomeadamente), que pretenderam, numa linguagem errada ou
imperfeitamente vinculada a Nietzsche, a construção do super-homem, ou daquilo a que Almada
apelida de «Homem-Definitivo» (ibid.: 147), procurando a hierarquização das raças, a exterminação
das raças inferiores e dos homens débeis. Daí, sem dúvida, é que resulta a vinculação do movimento
futurista à juventude – «Les plus âgés d'entre nous ont trente ans : nous avons donc au moins dix ans
pour accomplir notre tâche» –, o que explicará, por sua vez, o estilo maniqueísta, agressivo e exaltado,
que desacorda com o derrotismo que marcou a literatura finissecular (debateremos adiante a
importância – negativa – desta literatura do desânimo e da descrença na construção do «Ultimatum»),
atacando-a ferozmente. Como sucedeu com a generalidade das primeiras décadas de cada século, o
clima era de entusiasmada espera (somos da opinião, já se terá notado, de que o tempo e a época
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marcam o texto e ajudam à sua compreensão). Não é – como nada num texto o pode ser – isenta de
significação a referência do autor do «Ultimatum» à sua idade e estado de saúde: «Eu tenho 22 anos
fortes de saude e de inteligencia.» (1917: 143).
A paridade entre os dois textos é também, e naturalmente, de índole lexical. É particularmente
notório no Ultimatum de Negreiros a recuperação da ideia da guerra como «higienização».
Tentemos agora uma análise mais detalhada daquilo no Ultimatum Futurista que diz respeito à
identidade nacional, centrando-nos em primeiro lugar nas críticas do autor e, seguidamente, nas suas
“propostas”. Devemos, antes de mais, notar que a crítica de Almada é uma crítica que procura ser
geral, atacando o passado, cuja destruição é necessária à construção do futuro, nas suas diferentes
esferas. O vocábulo construção, aparentemente dissonante neste quadro bélico, visa na verdade
engrandecer a revolta, dotando-o da finalidade de que as grandes causas sempre carecem, de modo
que o ato de destruir não termina em si mesmo (não tendo um sentido anárquico, ou vão), visando,
sim, o futuro (aqui, talvez, se faça mais claro o sentido de «futurismo»): «Eu pertenço a uma geração
constructiva» (ibid.: 143).
«É a guerra que proclama a patria como a maior ambição do homem». De facto, o louvor da
guerra é já parte da construção da identidade nacional, no masculino, como já vimos, dado que ela
não se faz de homem contra homem, mas de uma nação contra a outra (se é que são pertinentes o
termos «nação» e «nacionalidade»).
No caso português, a rejeição do passado passa pela rejeição do saudosismo e do sebastianismo
(também ele saudosista, em parte) – de que até a Mensagem de Pessoa comungou – e de todos os
traumas do passado:

«. . . o sentimento-synthese do povo portuguez é a saudade e a saudade é uma nostalgia


mórbida dos temperamentos exgotados e doentes. O fado, manifestação popular da arte
nacional, traduz apenas esse sentimento-synthese. A saudade prejudica a raça tanto no seu
sentido atávico porque é decadencia, como pelo seu sentido adquirido porque definha e
estióla» (1917: 145)

Estamos, então, perante um «Ultimatum» claramente anti-desnacionalização,


contrário ao ânimo que marcou a escrita, por exemplo, de Finis Patriae («Que é da nação? -
Morreu na história.») – a qual não termina, veja-se, sem incitar ao erguer da juventude em
prol da (re)construção da pátria, a qual para Almada deverá ser a do seu tempo [«é preciso
criar a patria portugueza do seculo XX» (1917: 147). «Ultimatum», como tivemos já
oportunidade de dizer, possui uma significação particular na história e na literatura nacional,
referindo-se a um dos acontecimentos mais traumáticos da nossa nacionalidade – atrás,
somente, da fatídica batalha de Álcacer Quibir. Almada aproveita-o, imitando o que
Marinetti fizera com os grandes valores da civilização moderna (Liberdade, Igualdade,
Justiça, etc) –, e inverte o seu valor, fazendo da derrota uma oportunidade de futuro.
Ao leitor moderno pouco mais cabe do que apreciar, principalmente no «Ultimatum»,
a profunda ironia e talento de Almada – de que o último parágrafo é, sem dúvida, o melhor
exemplo (ironia e mordacidade semelhantes àquelas com que escrevera o Manifesto Anti-
Dantas, de 1915); em tudo o mais, ele surge como fóssil de uma época.
Haverá quem nos acuse de uma leitura excessivamente ideológica; restar-nos-á
responder que o texto pouco mais nos oferece do que isso – ideologia. É o que a condena, e
a impede de fazer jus ao seu nome, sendo hoje verdadeira literatura do passado – como em
parte quis ser. O próprio Marinetti, centrado no seu tempo, meditava já na morte do
movimento que criava, indissociável do envelhecimento dos artistas que dela tomaram parte.
A evolução literária de Almada Negreiros mostrar-nos-á isto mesmo.

Bibliografia (sumária):
MARRINETTI, Filippo Tommaso (1909). Manifesto Futurista
NEGREIROS, José Sobral de Almada (1917) Ultimatum Futurista às gerações portuguesas do séc. XX

Este ensaio é o esboço de um trabalho de investigação ainda em desenvolvimento.


Iv. Open call
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ENSAIO SOBRE A NACIONALIDADE
1º Lugar
Débora Magalhães
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Não sou brasileira. Sou fruto do estupro; sou o que restou de uma massa de escravas índias,
portuguesas, italianas, japonesas, ucranianas, hispânicas, chinesas, alemãs, suíças e espanholas que,
na busca vã de uma existência menos árdua e dolorosa, assentaram-se nesse território que hoje
conhecemos como Brasil.
Não sou brasileira. Nas minhas veias corre o sangue dos colonizadores que escravizaram
meus antepassados e oprimiram meus anciãos. Neta de portugueses, sim. Mas também de camponeses
italianos, de tupinambás, africanos e ribeirinhos nordestinos. Minha identidade não é homogênea, é
heterogênea como o tecido social de minha pátria. Verdadeiro carnaval genético, formada de pálidas
feições europeias, escondendo embaixo da minha pele minha genealogia mista.
Não sou brasileira. Gosto de nossa literatura. Delicio-me com Alencar, concordo com
Machado, choro com Augusto dos Anjos, enfureço-me com Graciliano e apaixono-me com Vinícius.
Fora Cecília e Clarisse, não leio mulheres. Elas, coitadas, não têm espaço em livros didáticos.
Não sou brasileira. Falo um português correto. Conheço a transitividade dos verbos, sei
utilizar as vozes e classificar orações. Conjugo perfeitamente a segunda pessoa e sei aplicar com
mestria a diferença entre os pronomes pessoais retos e oblíquos. Faço o uso de vocábulos rebuscados:
párvulo, laticolo, cândido, por obséquio. Não sou capaz, contudo, de diferenciar o tupi do jê, o aruak
do guarani kaiowá. Ignara, desprezo as línguas africanas enquanto compro fubá na quitanda. Esqueço
também dos 11,8 milhões de analfabetos pelas calçadas.
Não sou brasileira. Não sigo os dogmas católicos ou protestantes, embora estude em
instituições que atuam sob a graça do senhor. Jamais assisti a uma missa de domingo, não rezo o terço
tampouco enalteço santos. Como carne vermelha na páscoa, comemoro o dia das crianças sem
lembrar de Nossa Senhora Aparecida, troco presentes no Natal, visto branco no Réveillon e pulo as
Sete Ondas de Iemanjá. Desconheço a umbanda, o candomblé, o judaísmo e o islamismo. Doo roupas
a centros espiritas, mas não tomo, no entanto, passe.
Não sou brasileira. Jamais provei do acarajé baiano ou escutei o canto do uirapuru ao cair da
tarde. Filhote da selva cinza, sou cria urbana. Ouço a orquestra de buzinas e freios automotores, corro
atrás do tempo, observo o mar apenas de relance, ao longe, na tumultuada rotina urbana. Impressiono-
me com o ar límpido, com as estrelas abundantes e o silêncio da mata. Bicho da cidade, ingiro sódio,
gorduras saturadas e milho transgênico, chamo por táxis, desculpo-me pelo atraso devido ao trânsito
e, por fim, grito com entusiasmo, torcendo pela seleção nos mundiais, sem conhecer nada que
transpasse o quintal do Sudeste.
Não sou brasileira. Chamo a Ditadura Militar pelo seu nome, sem fazer uso de eufemismos.
Não enalteço a Getúlio, a Prestes, a Juscelino e a Jango. Descrente e cética, reservo meu nostálgico
escapismo político apenas para o Segundo Reinado, embora, menina tola, saiba eu que nesses 500
anos de um país em construção, nós, brasileiros, jamais presenciámos um governo tão íntegro e apto
quanto aquele presente nas minhas idealizações de Dom Pedro II. Voto com lágrimas nos olhos,
exercendo o meu dever de cidadão, tendo ciência de como meu ato é vão em uma democracia tão
falhada quanto a nossa. Vivo entre o pão e o circo, conheço meus privilégios e a história de onde
nasci. Decoro datas tolas e leio livros velhos. Creio no envolvimento inglês na Guerra do Paraguai.
Não sou brasileira porque não o posso. Pois ser Brasil é ser genocídio. Ser Brasil é ser
escravista. Ser Brasil é ser Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. É lutar pela demarcação de
sua terra e falsificar documentos de posse latifundiária. É nascer na favela e morrer no Leblon. É ser
analfabeto e ter pós no exterior. É deixar de comer para emagrecer e morrer de fome no sertão
nordestino. É ser misógino, cristão, conservador, feminista, negro, pardo, nipônico, agrário, moderno,
rico, indígena, desigual, miserável. Brasil é Ordem e Progresso. Ambíguo, antitético e paradoxal.
Não sou brasileira, porque o brasileiro não existe.

34 | P á g i n a
Exéquias
2º Lugar
Pedro Lopes Adão
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Se morrer, estarei de fato preto, camisa branca,


Prostrado a eito – e vermelho: das rosas à gravata,
Na minha face um beijo,
Nas minhas têmporas, halo e adoração
E o gelo oculto p`las candeias.

Em breve o eterno etéreo,


A cura do delírio
A vetusta do meu ser;
E as cruzes e o martírio,
A brancura do sudário…

Derramado o sangue do meu princípio:


tudo se encontra

Em lágrimas cadentes, visão do céu.


Como que por magia, a alma enobreceu.

Diário
3º Lugar
Daniela Nogueira
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6.11.2020, sexta
13:05

Querido Michael:
às vezes dou por mim a pensar em como o que escrevo parece tão deslavado em comparação com a
profundidade e complexidade de tudo o que existe em mim. não sei se é incapacidade, estilo ou falta
de tempo.

22:55

desde que estivemos juntos, a vontade de escrever (sobre ele e sobre tudo na vida) multiplicou-se. sinto
vontade de me entregar às palavras e à criação.
quero ligar-lhe mas não sei bem o que lhe quero dizer. pergunto-me se me dá tão pouca atenção para
me provar que consegue ser independente – como eu era e lhe pedia tanto para ser – ou porque tem o
raio de uma namorada? sim, ele namora: eu sei! ou porque tem uma vida para além de mim? também
sei disso.
não tenho receio de iniciar interações e de ir buscar a atenção dele. mas o quê que isso lhe vai mostrar?
que continuo a não saber o que quero porque se passaram anos e agora, só porque sim, “estou aqui”?
que estou loucamente apaixonada? não lho quero revelar sem ter a oportunidade de o entender.
será errado procurar a atenção dele, estando ciente de que namora? ou será que lhe vou mostrar assim,
de forma subtil, que o quero junto de mim, que é importante tê-lo na minha vida? sempre senti que
ele queria ou precisava dessa certeza para se entregar sem reservas.

35 | P á g i n a
também me pergunto o que acharia ele de tudo o que já escrevi a seu respeito? será que pareço...
ridícula? e se tiver interpretado mal os sinais e as palavras dele e eu já não for mais, eu ou que sentiu
por mim, do que uma memória de um passado distante? pergunto-me, mas no fundo sei que acharia
cada palavra deliciosa, que as beberia uma a uma, tal a sede de respostas, de alguma coisa que me
explique.

há coisas que estão para lá da minha capacidade de análise e este fio que nos une é uma delas.
em 2018, no verão, houve um eclipse lunar. o tempo estava ameno e lembro-me de decidir que o
queria ver como se fosse um espetáculo. deitei-me numa espreguiçadeira e fiquei ali, a observar o
fenómeno, encantada. enviei-lhe mensagem a perguntar se também estava a olhar o céu naquele
momento. ele disse que sim e ficámos a conversar enquanto admirávamos a mesma realidade,
carregada de misticismo e do inexplicável. lembro-me de me sentir tão conectada com ele, como se
fôssemos um triângulo em que ambos somos vértices e depois há um terceiro ponto que é esse eclipse,
a lua/o sol, algo imaterial que nos mantém unidos. não me lembro porquê que mesmo sentido isso
na altura, não fiz por estar com ele.
eu sei que ele sempre trouxe uma intensidade maior ao que nos liga, e que se não fosse o esforço
constante dele, o tempo que passamos afastados teria sido muito maior – o que na altura me aborrecia,
mas que hoje admiro; sou eternamente grata por essa persistência –, porém o que sinto agora parece-
me ter a força de água a ser libertada de uma barragem prestes a transbordar. sabes que sou feita de
nadas muito vazios ou de tudos muito cheios. o que podia ter construído aos poucos, ao longo dos
anos, vem-me agora como uma enxurrada de sentimentos e emoções. imagina sentir cinco anos em
três semanas. o quê que era a minha barragem? eu não sei ao certo, ainda...
era esta ideia de que ninguém seria alguma vez capaz de me compreender e se é para estar com alguém
que me obriga a desconstruir-me – processo que me cansa e satura – para tornar a relação mais fácil e
ligeira, mais vale não estar com ninguém. e por isso, fui-me tornando incapaz de amar profundamente.
fui-me ficando pela rama das pessoas, que geralmente é tudo o que há nelas – e quando me aborrecia,
ia embora. nunca me ocorreu que alguém me pudesse querer pela impossibilidade de me compreender.
há beleza em ser assim; uma fonte inesgotável, contraditória, sim, mas rica também, de ideias e
pensamentos: Eu sou a lua e sou o sol. como nunca tal coisa me passou pela cabeça, ficaram todas as
pessoas do mundo negadas por defeito.
para quê o esforço? pela companhia para o cinema? para ter de ir até lá a falar do quão bom é poder
tomar a porcaria do pequeno almoço no trabalho (chato e aborrecido, de escritório) e depois, ao vir,
levar com um “sim, o filme era engraçado e está muito bem feito” e um “agora vamos beijar-nos
loucamente durante dez minutos porque isso é o que os namorados fazem e nós somos namorados e
ainda não o fizemos hoje”, quando ainda estou nas nuances da história, nos detalhes da interpretação,
no significado do final, no que aprendi e absorvi, no que mudou aquele filme em mim e me dar nojo
estar a beijar aquela pessoa e estar a beijá-la enquanto procuro desenfreadamente uma desculpa para
poder ir embora – o sono, o maldito sono! – e dar uma desculpa e ir embora e chegar ao meu quarto
e finalmente sentir paz e conversar comigo própria sobre o filme, que na falta de melhor companhia é
o que há? é que não é a falta de debate sobre aquela experiência em particular, não é como se eu só
me conseguisse entregar em corpo depois de uma entrega em mente – embora esse seja o meu cenário
ideal –, é a certeza da impossibilidade absoluta dessa entrega em mente seja quando for.
é como se todas as pessoas fossem uma poça de água estagnada e eu um peixe a morrer por lhe faltar
o oxigénio. o ????? é um oceano e eu não lhe conheço ainda o fundo. às vezes tenho medo, não minto.
não consigo perceber onde estou a pôr os pés ou ver o que está à minha frente, a uns metros. quando
olho para ele não consigo ver o raio-x claro e completo da sua essência, como consigo sempre com o
resto das pessoas.
o medo que me provoca, é o que me faz gostar dele.

36 | P á g i n a

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