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Demorou, mas aconteceu.

Nos últimos meses, o racismo tem estado sob os holofotes do


Mundo.

Da primeira vez ninguém os viu. Aproveitaram a calada de noite para pintar a frase “Guerra
aos inimigos da minha terra” nos muros da sede do SOS Racismo, em Lisboa. Na segunda
investida, foram mais ousados. Esconderam-se sob máscaras brancas, empunharam tochas e
marcharam em frente ao mesmo edifício, numa espécie de parada dos supremacistas brancos
Ku Klux Klan, conhecidos pelos linchamentos de afro-americanos nos Estados Unidos. (…)

O processo de uma explosão, grosso modo, é simples de entender. Trata-se de um fenómeno


caracterizado pela libertação rápida de energia, geralmente acompanhado por altas
temperaturas e um forte estrondo, que provoca ondas de pressão no local onde ocorre. Foi
assim com o racismo, depois de anos de silêncio ou de falta de microfones que lhe dessem voz
efetiva. Foram os acontecimentos dos últimos tempos que geraram esse aumento de energia,
fizeram subir a temperatura e o estrondo das notícias têm produzido a tal pressão, com o
fundamental impulso da internet, que tanto atuou como rastilho como serviu de prova. Houve
um emaranhado de factos que explodiram nas redes. Primeiro, um. Depois, outro. Tantos que
se torna difícil negar: o racismo existe mesmo.

(…)

Portugal não escapou ao efeito dominó. Quando o monumento em honra do Padre António
Vieira, em Lisboa, foi vandalizado com a palavra “descoloniza” pintada a vermelho, Marcelo
Rebelo de Sousa declarou o ato “verdadeiramente imbecil”, defendendo que a História deve
ser assumida como um todo.

Fernando Rosas, professor catedrático no Departamento de História da Universidade Nova de


Lisboa e Investigador Integrado do Instituto de História Contemporânea, diz à NM que a
explicação para o que está a acontecer assenta em dois pilares. Deve-se ao passado de
Portugal e à conjuntura que o Mundo atravessa. “É preciso ver que a sociedade portuguesa
acabou com a guerra colonial, mas não com a ideologia que sustentava o colonialismo, que era
profunda, com mais de um século.” Um lastro cultural e ideológico que se tornou menos visível
com os anos, “mas que nunca desapareceu”.

Por outro lado, o historiador refere que “a Europa e o Mundo atravessam uma conjuntura de
revivescência das ideias do ódio, da violência, da discriminação racial”, fruto do “desemprego,
da angústia do futuro, do medo”. Sentimentos que ganham mais espaço no atual ambiente de
pandemia. Tudo junto “contribuiu para que as ideias racistas venham ao de cima”. Por
enquanto, em Portugal “são uma minoria”.

Para o historiador Fernando Rosas, “só se ataca o problema do racismo resolvendo os


problemas sociais”. Para isso, “é preciso dar uma enorme atenção às condições de vida das
pessoas, ao desemprego, ao salário”. Já para a psicóloga Fátima Lobo, o momento “de grande
conflitualidade social que decorre não tem muito a ver com o Chega”. No ponto de vista da
também professora na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica de
Braga, “é fácil canalizar para um partido a responsabilidade de uma dinâmica social”. O
problema está à Direita e à Esquerda. “Ou não tínhamos manifestações e
contramanifestações”. Trata-se “não de um problema político, mas de uma questão mal
resolvida do ponto de vista da consciência coletiva. O que perdemos não é ideológico é ético.
Perdemos as nossas referências mais profundas, faltam-nos desígnios. A globalização
descentrou do humano e colocou o foco no dinheiro, na economia.” Por isso, defende que
“enquanto não existir um governo global as fraturas sociais serão muito significativas”. Afinal,
“o racismo também é uma questão de recursos escassos, distribuição assimétrica e domínio
dos países ricos sobre os pobres”.

Filomena Abreu 04/09/20

Notícias magazine, O racismo subiu de tom. O antirracismo também.

A opressão é algo muito negativo. É também uma ferramenta social. Como todas as forças
newtonianas, quanto menor é a superfície em que ela se exerce, maior é o efeito exercido.
Assim, também nas povoações humanas, quanto mais pequena é a povoação, maior é a
opressão sentida. Desta realidade surgem frases como “quem fala é prejudicado”, “quem é
diferente não alcança”, entre outras que tornam manifesta as emoções que as pessoas sentem
em relação ao grupo. Sentem a pressão para se comportarem de determinadas formas, de se
arranjarem e vestirem de determinadas maneiras e de organizarem a sua vida de acordo com
essas pressões. É a opressão social que é responsável por manter os “bons costumes” e que
acaba também por manter os “maus costumes”.

A mesma força que conduz a população a se comportar de determinada forma, cria emoções
negativas e verdadeiro mal-estar, que conduzem as pessoas para maus caminhos. Isto
acontece porque temos inerente ao nosso ser a necessidade de liberdade. A liberdade do
indivíduo. Quando a liberdade de responder aos impulsos primários é travada pelas regras da
boa etiqueta e outros costumes sociais, ou pela superioridade hierárquica de outros, surgem
emoções como a raiva e a tristeza. Não são as únicas, mas servem para mostrar a dicotomia
habitual – lutar contra as normas vs. conformar-se com elas. Assim, qualquer pessoa que
tenha um pensamentos e comportamento divergente das normas, acaba por se isolar e ser
isolado. Infelizmente a mentalidade cega da manada, da sociedade em geral, não permite
mudanças. Porque mudanças perturbam o status quo geral. E a sociedade rejeita a mudança,
da mesma forma que o corpo rejeita um órgão que não é seu.

Mas felizmente e infelizmente a mudança é a única constante da vida, para além da morte. Só
sabemos que tudo mudará. Quanto tempo demora? Quanto mais conservadora for a
sociedade, maior será a demora e mais custos essa demora terá para essa sociedade se
integrar no resto do mundo. Esta é uma das principais razões de Portugal estar em tantos
campos atrasado em relação a outros países e da Madeira, em relação a Portugal continental,
pelo menos na saúde mental. E a sociedade será tão mais conservadora, quanto mais antiga e
maior for o diferencial das classes. Porque os ricos e os privilegiados da sociedade têm aversão
a serem pessoas “normais”. E as pessoas “normais” acreditam inconscientemente que nunca
terão direito a ser de forma diferente. A pirâmide social está tão bem implementada no nosso
inconsciente, que achamos certo que existam sempre pessoas acima e abaixo de nós. Pessoas
a quem damos o direito de decidirem o que está certo e errado por nós e que damos o direito
de decidirem que vida é que teremos.

Deste pensamento complexo, surge apenas este exemplo para dar. Se todos, e quando digo
todos, é mesmo todos, todos os humanos de todo o mundo, não tivéssemos férias, hipótese
de sermos turistas, de passear por outros locais, de podermos adquirir bens não essenciais até
que um problema grave da humanidade como o aquecimento global, a fome, a guerra ou
qualquer outro estivesse resolvido, quanto tempo demoraríamos a resolvê-lo? Só existem
problemas, porque há quem viva confortável com os problemas dos outros e pior, os que
beneficiam em criar problemas aos outros. Como é que vender armas, drogas ou pessoas pode
dar dinheiro? Como podemos vender substâncias processadas que sabemos que provocam
mal, para ganhar dinheiro? Todo o tecido social do mundo está doente e estamos a adoecer o
nosso maior bem, o planeta terra.

E sim, pela opressão, tudo se vai manter mais ou menos igual, porque a verdadeira mudança
implica deixar de haver privilegiados.

Daniel Neto

07/09/22

https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/6786/Opressao_social

Lê o texto e as notas.

A falar é que "a gente" se entende? O que é escrever e comunicar bem? Não dar erros
ortográficos e cumprir as regras da gramática? Conquistar pela palavra? Conseguir
persuadir? As recomendações da linguista Sandra Duarte Tavares.
De uma vez por todas: falamos e escrevemos melhor do que no tempo da “outra
senhora”?
Gosto de ser otimista. Creio, porém, que, cada vez mais, usamos a língua da pior
forma, quer na escrita quer na oralidade. E julgo que isso tem que ver com o facto de
não termos boas referências. Por exemplo, nos rodapés televisivos, uma incorreção
linguística, gramatical ou ortográfica tem um impacto muito grande. Se lá aparecer
“açoreano” em vez de “açoriano”, ao olharem para aquela palavra, mal escrita ou mal
grafada, as pessoas ficam com aquela imagem gráfica no seu armazém lexical…
… E reproduzem o erro. No seu entender, a internet e as redes sociais vieram
melhorar ou piorar essa situação?
A internet e as redes sociais propiciam1 que as pessoas leiam muito. E a leitura
contribui, de facto, para que possamos fazer um bom uso da língua. Acrescento, no
entanto, que é essencial tratar-se de leitura de qualidade, o que nem sempre
acontece.
Quem são as suas boas referências?
Ricardo Araújo Pereira, que na escrita é de um rigor incrível. Também o nosso
Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, faz um uso exímio 2 da língua. Acho que, no
fundo, quem domina a mensagem (seja ela de que área for, direito, farmácia,
nutrição, cultura…) tende sempre a descomplicar o discurso. Isto apesar de eu ter tido
muitos professores a quem reconhecia grande sapiência3 e que, quando ensinavam,
não conseguiam sair do seu trono.
Porque é tão importante escrever e falar bem se, no País e no mundo, há muitas
pessoas bem-sucedidas que falam mal e escrevem ainda pior?
A meu ver, é fundamental fazermos um bom uso da língua porque é assim que
revelamos credibilidade. Cada vez mais, somos avaliados pela forma como
escrevemos e pela forma como falamos. O primeiro passo para uma comunicação de
sucesso é, efetivamente, esse cuidado e esse rigor – porque esse cuidado e esse rigor
são uma porta aberta para haver credibilidade e, à credibilidade, está associada a
confiança.
Concorda que, muitas vezes, se confunde boa escrita com escrita formal e
rebuscada?
Comunicar com eficácia não é comunicar de forma hermética 4, usando palavras
“caras” e complicadas. É possível dar ao outro uma mensagem interessante, relevante
e pertinente de forma simples. Preciso de ter consciência de quem é o meu
interlocutor, de ter noção das suas preferências, das suas necessidades e do que sabe
sobre o assunto, para adequar o meu registo linguístico, o meu vocabulário, a
dimensão da minha mensagem.

https://visao.sapo.pt/atualidade/2019-11-02-de-que-falamos-quando-falamos-em-escrever-e-comunicar-bem-as-respostas-da-
linguista-sandra-duarte-tavares/ (textos com adaptações e supressões)

A língua roça, mas não sai do papel. A língua ama, mas não dá beijo. A língua
prova, mas não demora. A língua é nossa, mas não decola. As vezes não colabora.
A língua é uma, mas não é una. A língua é portuguesa, mas não é de Portugal.
A língua é dos falantes que não têm geografia. Nem noite, nem dia.
A língua é do inverno, mas agora é verão. A língua é primavera e não tem
outono. A língua é do João e da Maria. A língua é dor e alegria.
A língua é dos negócios e dos afetos. Das pautas dos alfabetos. Do trade dos
mares da china, do menino e da menina. Dos amantes sem dinheiro. Da Eugénia
e o Ribeiro.
A língua é afiada e agiota. É calada e poliglota. Mesmo dentro da mesma
língua como Faro Ramos escrevia no Correio Brasiliense. Citando Vinícius Terra
do lado do Dino D"Santiago e da Sara Correia. "Meu bairro, minha língua" e a
terra inteira.
A língua é grana e é dinheiro. Cumbu, dim-dim, bom mealheiro. Tem vil metal,
tem muita massa. Papel moeda, capim, tutu, pila e prata.
Mas a língua é a primeira poesia, na fila que nunca anda, na vida que logo passa.
Nas baladas e nos fados nos lugares inesperados da nossa geografia.
A língua tá na padoca de São Paulo. Na Belezura do Rio. A língua é do Roque e do
Santeiro em cada lado do mar. É gazela de Luanda, Dama de Inhambane.
Kanimambo obrigado. Kanimamba obrigada. Mulher que melhor sabe amar.
A língua é a cara da rede, dos tuítes, das postagens, dos blogues e das viagens, do
charme das vadiagens, da ligação ao Senhor.
A língua é também Jesus. Com Cristo pregado na cruz, jesuíta pregador, sermão
aos peixes, senhor. É rota de tormentas, história de vergonhas, mas é perdão sem
rancor, desculpa de mau pagador.
A língua também tem dia. Dá cá mais cinco. Em maio.
https://www.jn.pt/opiniao/jose-manuel-diogo/dia-da-lingua-13689363.html

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