Rascunho: Edição Abril 2021
Rascunho: Edição Abril 2021
Abr. 2021
6
Entrevista
34
A rebelião silenciosa
Heloisa Buarque de Hollanda de Leonardo Padura
Leandro Reis
17 40
desde 8 de abril de 2000
24 42
rascunho@rascunho.com.br
www.rascunho.com.br
twitter.com/@jornalrascunho
facebook.com/jornal.rascunho
Marcos Pasche
EDITOR
Rogério Pereira
EDITOR-ASSISTENTE
Luiz Rebinski
SOMBRA DA
do, todas as janelas da percepção,
Olhar atento com o ritmo ditado pelo autor, no
Mal comecei a ler o Rascunho 251 e resolvi que momento imediatamente anterior
PALAVRA
desta vez ia lhes escrever, para elogiar a coluna de à escritura do original, a fim de re-
José Castello sobre o livro de Rico Lins, destacando tratar no novo texto os movimen-
sua obra gráfica poderosa e filosófica. Raro ver um tos autorais. Conseguiria fazê-lo
jornal de literatura prestar atenção no design dessa o leitor? Tampouco o tradutor, o
maneira. Aproveito para saudar as presenças de que não o exime de tentar.
D
Eric Nepomuceno e Ferlinghetti, e o olhar atento Escrever é também explorar
sobre essas duas obras importantes em nossa ficção e Lispector, um livro tradução: “Provar que compreen- ao máximo, em toda a sua exten-
contemporânea, de Michel Laub e Eliana Alves Cruz. singelo: a reunião de de, só traduzindo”. O autor, co- são e profundidade, sentimen-
Sejam ainda louvadas a reflexão de Nilma Lacerda crônicas semanais pu- mo o tradutor, tenta inscrever no tos que de outro modo ficariam
sobre literatura e criança e a revisita a Cornélio Pena. blicadas no Jornal do texto sua compreensão da reali- guardados, sufocados ou apenas
Enfim, obrigada e parabéns por tudo. Brasil entre 1967 e 1973. O títu- dade e/ou da ficção, das múlti- vislumbrados. É de certa manei-
Ana Maria Machado • Rio de Janeiro – RJ lo: La découverte du monde, tra- plas alternativas que a realidade ra esforço de pesquisa interior, um
duzido “du brésilien” por Jacques e o original apresentam. Há tam- mergulho no fundo da alma, que
e Teresa Thiériot. Na verdade, não bém, e de maneira muito clara, o talvez só se consiga operar quando
Somos fantásticos apenas crônicas propriamente di- esforço de autocompreensão, al- se aceita o desafio de traduzir em
Simplesmente fantásticas as duas últimas edições tas — como destaca Paulo Gurgel go que certamente sobressai em palavra escrita toda uma torrente
do Rascunho! Cada vez mais robusto em páginas e Valente, filho da autora, na intro- Clarice e que não deve ficar fora de pensamento que nem sempre é
conteúdo e contemplando uma literatura diversa, dução —, mas também reflexões, do foco da tradução. coerente e organizada.
potente e de altíssimo nível. notas e contos, alguns dos quais No ato da escrita, é preciso Assim também, na tradu-
Sofia de Paula Lopes • Recife – PE apareceriam em outras obras, mais interpretar, pôr ordem na horda ção, sente-se fundo a dificuldade
ou menos modificados. Um labo- desgovernada de ideias que trans- de exprimir os sentidos e os sen-
ratório, enfim, como bem quali- bordam a mente. Assim também, timentos mais complexos, que na
Bela entrevista ficaram os tradutores, no qual na tradução, importa organizar os simples leitura geram impulsos
Parabéns pela bela entrevista com José Luís Peixoto Clarice testava seus textos. sentidos que pululam entre as pa- inefáveis, mas perceptíveis e con-
[#250]. Perguntas nada óbvias. Respostas idem. Na coluna de 14 de setem- lavras, ora ligando-se a elas, ora re- cretos. Ao tradutor, resta perfurar a
Inspiradora. Também estou amando a curadoria da bro de 1968, Lispector discor- negando os velhos elos. pele, o osso do texto; penetrar-lhe
Mariana Ianelli — bom ver poetas de todo o Brasil. reu sobre o ato de escrever, entre Escrever é também procurar o tutano e inventar ali, num in-
Valéria Martins • Rio de Janeiro – RJ outros temas. A autora o defi- reproduzir o irreproduzível. Bus- tenso esforço de pesquisa, seu no-
ne assim, em minha tradução do car proteger, conservar, trasladar vo sentido.
francês: “Escrever é procurar com- a fala e/ou o pensamento — que Não será tarefa fácil, claro.
No Twitter preender, reproduzir o que não é são, a rigor, irreproduzíveis no tex- Escrever é ofício pedregoso, assim
A vontade de ler esse texto — Porta e espelho, de reproduzível, é sentir até o fundo to escrito, em razão, da estreiteza como traduzir, em especial quando
Fabiane Secches — me fez finalmente assinar o o sentimento que ficaria apenas estática deste e da dinâmica elas- se procura fazê-lo bem. Os pensa-
Rascunho. E só posso dizer que valeu a pena! vago e sufocante”. Não sei se foi ticidade daqueles. A brusca mu- mentos são esquivos, breves relâm-
Augusto Teixeira exatamente o que Clarice escreveu dança de meio provoca confusão pagos na mente, e nem sempre é
no original, que deliberadamen- natural e permanente sentimento simples captá-los em sua inteireza.
te prefiro não consultar. Mas creio de insatisfação com os resultados As palavras são ariscas, na mente
No Facebook que o sentido todo não se perde- dessa pobre translação. e no papel. Cada palavra é muito
A curadoria poética da Mariana Ianelli na edição de rá nessas idas e voltas da tradução. Traduzir, tarefa sabidamen- mais que ela mesma. Como tam-
fevereiro ficou particularmente especial! Parabéns! Escrever é buscar entender. te impossível, é também tentar bém diria Clarice, “toda palavra
Babi Borghese Lembra-me uma frase de Le- reproduzir o irreproduzível. O tem a sua sombra”. E essa sombra
minski/Cartesius, só que sobre tradutor busca sintonizar o ouvi- também impacta a tradução.
A série do Alcir Pécora sobre o Barroco está
fenomenal. Parabéns ao crítico que faz belíssimas
pontuações também em outras edições do jornal.
Luis Marcio Silva
No Instagram
Assinei por alguns anos e sou completamente
rinaldo de fernandes
apaixonado pelo Rascunho. Uma qualidade incrível! RODAPÉ
Lidiane Bach
C
arlos Ribeiro, que já in- son de Oliveira, é um dos melho- desconfiança, confusão, e mobili-
tegrou inúmeras co- res contos brasileiros dos últimos za a memória afetiva — como é
letâneas nacionais de tempos. De técnica sofisticada, o caso de A cidade revisitada, en-
contos, é um autor re- cinematográfico, tem no foco focando Salvador. Os riscos da vi-
conhecido pela crítica, tendo sido narrativo e na densidade dos per- da urbana, a insegurança que cria
objeto de estudos acadêmicos e da sonagens o seu ponto alto. O foco paranoia nos indivíduos tem em
apreciação de nomes altos da lite- narrativo se desloca de cima para Mão-inglesa um exemplo marcan-
ratura brasileira. Passo a comentar baixo, de uma panorâmica para te. A cidade é sobre a distopia do
alguns contos do autor (membro um close, flagrando tipos de uma urbano — o caos, o vazio dos se-
da Academia de Letras da Bahia) Salvador metropolitana. Tipos an- res, o mal-estar que se alastra com
que integram os seus Contos re- gustiados, dilacerados, marcados o crescimento da metrópole. O su-
unidos, com base na tipologia de por uma urbanidade problemá- foco, a asfixia do urbano tem em
Alfredo Bosi constante do ensaio tica. De enredo circular, o conto Eliezer, de Corredores, um sinto-
Situação e formas do conto brasilei- desce ao inferno pessoal de ca- ma. O sujeito multifacetado pro-
arte da capa:
NELSON CRUZ ro contemporâneo. A quase crônica da um dos protagonistas, sendo tagoniza O visitante onírico. E o
da vida urbana — “Imagens ur- o desvelamento da interioridade dramático Esse entardecer flagra,
banas”, que constou da antolo- deles a força principal dessa nar- num consultório médico, uma das
gia Geração 90: manuscritos de rativa. A cidade do presente, con- fobias do indivíduo atual — o da
ESTUDO DE ILUSTRAÇÃO PARA O LIVRO O EDIFÍCIO, DE MURILO RUBIÃO, EDITORA POSITIVO computador, organizada por Nel- frontada com a do passado, gera doença incurável.
Fazemos seu
livro/e-book
l Diagramação
l Ilustrações exclusivas
l Capas
l Revisão
l Edição
l Fechamento de arquivo
l E-book em PDF ou Epub
l Impressão
(com tiragem sob medida para seu projeto)
A marca do seu
próximo livro!
Peça um orçamento!
(41) 99933-4883
www.thapcom.com
ABRIL DE 2021 | 5
OVERDOSE DE REALIDADE
lhança mais profunda, que é mais
real do que a realidade”. Por estra-
nho que pareça, o resultado des-
sa busca é algo que não se limita
a reproduzir o real, mas que o ul-
trapassa. Que o atravessa — com
Ilustração: Paula Calleja a violência de uma faca. Também
E
nos relatos de Carrero, o real não
m sua apresentação de só se estampa, mas sangra.
Estão matando os me- Diz Saer que as grandes fic-
ninos, perturbador li- ções não se limitam a refletir ou
vro de contos que está imitar o mundo, elas “o contém”.
lançando pela Iluminuras, Rai- O mundo é o mesmo, é aquele
mundo Carrero, sem poupar pa- que todos vemos na TV. O que
lavras, sem disfarces inúteis, nos se altera é o olhar. O realismo que
diz: “Possuído de uma dor cres- o interessa — do mesmo modo
cente e cada vez mais dilaceran- que aquele que interessou a Pa-
te, resolvi escrever essas histórias blo Picasso — é um realismo que
que, em sua maioria, me chegam desvenda o que, sob as luzes da
através do choro de pais e paren- realidade, permanece escondido.
tes, debruçados sobre corpos di- Uma coisa é assistir na te-
lacerados”. A dor do real, mais do levisão a uma reportagem sobre
que qualquer “projeto literário”, meninos assassinados. Apesar do
o levou a escrever. horror que carrega, ela parecerá
A pandemia da Covid-19, sempre uma repetição, sempre a
que nos afasta do mundo, no ca- mesma realidade que se desdobra.
so de Carrero produz um segundo Tudo muda quando a literatura
efeito, contrário. Isolado em seu entra em cena. Mesmo debruçada
apartamento no bairro do Rosa- sobre o real, ainda que arrastada
rinho, no Recife, logo que acor- por ele, a ficção escancara e joga
da ele sintoniza a TV nos canais sobre nós tudo aquilo pelo qual,
de notícias. Abnegado, passa seus na TV, apenas “passamos” — co-
dias exposto aos murros desferi- mo quem folheia uma revista, ou
dos pelos telejornais. Não recua, gira a tela do Instagram.
não diminui o volume, não des- Na definição de Saer: é nes-
liga a televisão. Só na hora de se atravessamento que a literatu-
dormir. É ali, diante dos fatos me- ra produz “o sabor do irrepetível
donhos, que Raimundo Carrero e do único — isto é, do real”. Em
escreve. Foi ali que escreveu Es- uma premonição, alerta-nos Juan
tão matando os meninos, um li- José Saer — que faleceu em 2005,
vro impregnado pelo real. em Paris, aos 68 anos: “hoje temos
Com essa postura, ele des- que viver presos à realidade mate-
mente a figura do escritor “puro” rial bruta e temos que reconhecer
que, enquanto o mundo se agita que fomos simbolicamente der-
e se consome, protege-se trancado rotados”. Só a ficção nos permite
em uma Torre de Marfim. Sim, ultrapassar a simulação de realida-
as circunstâncias o impedem de de que a TV e a internet nos ofe-
sair às ruas e de respirar a realida- recem. Só ela nos permite parar,
de. Mas, pela janela escandalosa da olhar de verdade e enfrentar.
TV, a realidade invade seu cotidia- A televisão — o jornalismo
no e se impregna em seus escritos. em geral — “edita” seus produtos.
Brutalmente vivo, o novo livro de Isto é: ela os recorta e os seleciona.
Carrero — o mais forte que já es- No turbilhão de suas anotações,
creveu — pulsa nas mãos do leitor. também o escritor escolhe cami-
“Não posso silenciar diante nhos e faz opções. Contudo, ao
deste revoltante genocídio que se contrário do que ocorre no jorna-
abate sobre o Brasil”, ele diz. O as- Só a ficção nos permite ultrapassar a lismo, o ficcionista não é obrigado
sassinato diário de meninos e me-
ninas, arrancados de seu cotidiano simulação de realidade que a TV e a a saber aonde quer chegar. Um es-
critor trabalha sem objetivos e sem
pelas unhas da morte, é hoje a sín- internet nos oferecem. Só ela nos permite destino. “Essa indeterminação de
tese do país medonho em que vi- sentido se mostra muito mais ve-
vemos. Matar crianças nos leva à parar, olhar de verdade e enfrentar. rossímil do que o discurso preten-
esfera do insuportável. Contudo, samente racional”, alerta Saer.
esses crimes desfilam, diariamen- Um escritor não precisa
te, na televisão, entre jogos de fu- “ter razão”. Deve, ao contrário,
tebol, programas humorísticos e permanecer fora do domínio da
anúncios de automóveis. razão, ou se limitará a escrever o
Não é só Carrero quem ex- que outros já escreveram. Não de-
perimenta esse sentimento de es- los jornais impressos, pelas men- uma realidade fora de controle. ve também se submeter à tirania
tupor, de invasão, até de possessão sagens dos amigos, pelo falatório Esse desassossego me faz lembrar dos gêneros. Lembra Saer que o
pelo real. Com sua fidelidade fe- das ruas. Parece não haver mais lu- de Santo Ambrósio que, no sécu- relato de ficção “não é só um ob-
roz aos fatos, de peito aberto, ele gar para o sonho e para a solidão. lo quarto, foi o primeiro homem jeto verbal, mas também um ob-
reproduz em seus escritos uma ex- Para o segredo. Como um vírus no Ocidente a ler em voz baixa. jeto mental”. Fechado o livro, o
periência que todos hoje, de al- — mais um vírus funesto a nos A ler em silêncio. A partir dele, a relato continua a arder na men-
guma forma, vivemos. Estamos atormentar — a overdose de rea- leitura se tornou silenciosa. Ain- te do leitor. É ali, no espírito do
todos contaminados pelo real. Já lidade corrompe e degrada a vida. da era possível cultivar a introspec- indivíduo solitário, que a realida-
não existem paliativos, atenuantes, A realidade se torna nosso casti- ção. Há uma bela reflexão sobra a de ferve. O escritor não é um re-
véus que nos protejam. O vírus go. Intoxicados pelos fatos, já não arte da leitura em Santo Ambrósio pórter de guerra, mas alguém que,
mortal da realidade devasta nossa conseguimos respirar. em um ensaio do argentino Juan depois de sobreviver ao campo de
vida. Basta sair da cama pela ma- Com sua escrita ardente, José Saer. A narração-objeto, ele batalha, sangrando, relata o que
nhã e ele inicia seu bombardeio. Raimundo Carrero transforma a se chama. Eu o li na edição espa- viveu. Já não são apenas palavras.
Não é preciso que seja pela tragédia contemporânea em fic- nhola da Seix-Barral. É um pedaço do real que ele car-
TV — pode ser pela internet, pe- ção. Ele captura com as palavras Saer me ajuda a pensar es- rega dentro de si.
6 | ABRIL DE 2021
CHICO CERCHIARO
entrevista
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
O lírico vespeiro
Quarenta e cinco anos depois de organizar a antologia que lançou Ana Cristina
Cesar, Heloisa Buarque de Hollanda reúne nova geração de poetas
H
á 45 anos, em 1976, Nas prateleiras nacionais de profunda entre as mulheres, vez seja a forma mais clara desse
a antologia 26 poetas desde fevereiro, ainda é cedo para suas experiências, dores, deman- ativismo poético. A poesia des-
hoje — organizada definir o impacto que As 29 poe- das. Temos ainda outras diferen- liza do livro para o corpo como
por Heloisa Buarque tas hoje terão sobre os rumos lite- ças e semelhanças entre as duas instrumento expressivo e se quer
de Hollanda — reuniu nomes rários. Heloisa, no entanto, parece antologias como seria de se espe- como mensagem (na definição de
como Ana Cristina Cesar, Cha- preparada para o que der e vier: rar, mas essas duas me parecem Luna Vitrolira, slamer pernam-
cal, Roberto Piva, Zulmira Ribei- “Vivo mexendo em vespeiro, a as mais estruturantes. bucana). O slam ainda potencia-
ro Tavares, Torquato Neto e Waly polêmica faz parte do show”. To- liza a força original da oralidade,
Salomão, entre outros. Figuras do bafafá causado pela antologia • A nova antologia foi moti- que tradicionalmente estrutu-
que hoje são reconhecidas e in- 26 poetas hoje, afinal, definiu a vada, em alguma medida, pe- rou a poesia. Enfim, imagino
fluentes no meio literário. No en- agenda de pesquisa que estrutu- la nostalgia? Pensa ter alguma que sim, a academia vai abrir es-
tanto, nem sempre foi assim. rou a carreira da paulista. obrigação ou responsabilidade paço para o estudo dessa expres-
Na época da publicação des- Para além das dores de ca- ao fazer esses recortes? são. Neste sentido, já temos uma
te conjunto que se tornou históri- beça que podem vir a reboque, Não. Responsabilidade ne- tese excelente de Roberta Estre-
co, “a academia, o jornalismo mais e sabendo de antemão que um nhuma. Acontece que pesquisa é la D’Alva, pioneira do slam en-
conservador e os poetas mais reco- recorte como o proposto por uma caixinha de surpresa que se tre nós, com um estudo vertical
nhecidos receberam o lançamento uma seleta desse tipo é “violen- desdobra de formas muitas vezes sobre a vocalização nas apresen-
como uma peça de ‘não literatu- to” e “como qualquer forma de inesperadas. Fui estudar as no- tações do gênero.
ra’”, explica Heloisa no texto de violência, gera reação”, Heloi- vas linguagens políticas do ati-
introdução à reedição do volume, sa afirma que “a poesia hoje está vismo da quarta onda feminista • Quarenta e cinco anos depois,
publicada neste ano pela Compa- se democratizando e alcançando e me defrontei com essas poetas, como avalia a repercussão e a
nhia das Letras. mais poetas, leitores, ganhando as que vieram em direção a mim co- influência da antologia 26 po-
A “crítica ranzinza” dos anos ruas, multiplicando-se em várias mo uma onda gigante. Eu, des- etas hoje no meio literário e na
1970, porém, não deu conta de práticas da palavra”. de sempre viciada em poesia, não sociedade brasileira?
aplacar o movimento natural das É provável que daqui algu- resisti e mergulhei de cabeça, se- A antologia tornou-se his-
coisas. Aquela forma de expressão mas décadas seja possível avaliar guindo o canto das sereias. tórica. Provavelmente por con-
poética mais livre e marcadamen- com maior precisão qual foi o sal- ta da articulação entre os poetas
te contracultural, a qual Heloi- do desse trabalho — e se a ree- • Desde Ana C., que é tida co- marginais e outros que tinham
sa considera que tenha sido uma dição do livro 26 poetas hoje, mo pioneira e influenciou no- uma opção menos formal, que
forma de enfrentamento eficaz aos aliás, teve algum tipo de impacto mes incontornáveis da poesia era como a poesia daquela hora
“anos de chumbo” no Brasil, deu como à época de seu lançamen- contemporânea, o trabalho fei- estava se definindo. O trabalho
muitos frutos — a incontornável to. A organizadora das antolo- to por mulheres encontrou um de João Cabral, o concretismo, a
influência de Ana Cristina Cesar gias deixa os leitores com uma rumo próprio e sólido? poesia-práxis, o poema/proces-
nas formas que as poetas foram pergunta inquietante: “Será que Certamente. Mas demo- so eram não apenas a novidade,
encontrando para lidar com dife- daqui a 45 anos a poesia vai ser rou... Ana é do início dos anos mas também um modelo poéti-
rentes temas, por exemplo. nosso esperanto?”. 1980. Já se passaram 40 anos. co bastante prestigiado naquela
Depois de quase meio sécu- Mas essa trajetória coletiva foi lin- hora. Assim, a poesia marginal,
lo, o inimigo agora é outro. Em • O que espera da repercussão da. Foram tantas poetas aparecen- articulando herdeiros do alto
meio a um cenário em que os ha- da antologia As 29 poetas ho- do no pós-Ana, cada uma dando modernismo e da contracultura,
ters e canceladores da internet je? Há alguma mensagem prin- um passo à frente, mexendo com foi recebida como alternativa às
parecem exercer um papel mais cipal que o conjunto pretende a suposta linguagem feminina, vanguardas literárias. O que não
violento e destruidor do que os passar? apertando cada vez mais o cer- era 100% correto. Sobretudo, a
barões do bom-tom do passado Toda antologia é polêmi- co de um suposto feminino, esti- poesia da contracultura ou mar-
— e que o governo se apresenta ca. Essa é uma regra que não tem cando os limites do que pode ser ginal já apresentava um vínculo
como um inimigo mais brutal —, exceção. Imagino que as polêmi- dito, do que seria esse misterio- com as vanguardas, mais preci-
a pesquisadora lança As 29 poe- cas girem em torno de represen- so universo de mulheres. Pouco samente a vanguarda concretista,
tas hoje — trazendo nomes como tatividade — o que, certamente, a pouco, uma enorme linhagem através de seus poemas oswaldia-
Mel Duarte, Ana Frango Elétrico, não consegui dominar — e em de poetas mulheres romperam a nos. Mas foi assim, como tendên-
Bell Puã, Bruna Mitrano, Yasmin torno da abertura temática e de barreira do som. Agora, já é. Não cia antiformalista, que a chegada
Nigri e Nina Rizzi, entre outros. linguagem que essa poesia está tem caminho de volta. A poesia dos marginais foi experimentada.
“Ambas antologias são ge- trazendo. Ela é forte, substanti- de mulheres ganhou voz, liberda- E foi assim que foi precocemen-
racionais, marcam a voz de poe- va, não está para brincadeiras. E de e espaço. te “cancelada” como não literatu-
tas jovens, com a diferença que a isso provoca reação. Se não pro- ra. Mas, pouco a pouco, a própria
primeira, de 1976, trazia a pala- vocar, alguma coisa errada acon- • As 29 poetas hoje traz nomes história e o tempo foram desa-
vra de uma classe média branca, teceu. Estou curiosa e antenada do slam. Quais novidades ou tando as articulações que fiz na
predominantemente masculina. com a recepção da antologia. Te- ingredientes esse gênero adi- composição da antologia e as di-
A segunda já exibe a diversida- nho uma escuta forte para a críti- ciona à poesia contemporânea? ferentes poéticas ali aglomeradas
de profunda entre as mulheres, ca. Não rejeito críticas, nem me Trata-se de um movimento que foram seguindo caminhos pró-
suas experiências, dores, deman- ofendo. Aproveito as críticas no pode se solidificar dentro da prios, marcando suas diferenças,
das”, explica Heloisa. “A poesia que elas têm de melhor. A recep- academia, por exemplo? e se aproximando, cada uma a seu
de mulheres ganhou voz, liber- ção negativa dos 26 poetas hoje, O slam é um exemplo vi- modo, do cânone literário.
dade e espaço.” em 1976, de certa forma, definiu goroso do compromisso da no-
Desse novo recorte, sur- a agenda de pesquisa que estrutu- va poesia com a transformação • Devido à pecha de “poesia
gido quando a organizadora foi rou minha carreira. social. O formato da poesia po- marginal”, você recebeu uma
estudar a quarta onda feminista, lítica do passado se reformula e indireta do Chacal em um poe-
uma das novidades é a presen- • Quais principais diferenças e ganha na poesia de mulheres a ma do livro Quampérios (1977).
ça das mulheres do slam — “um semelhanças têm As 29 poetas forma de atitude, viés ou mesmo Nos anos que se seguiram à pu-
exemplo vigoroso do compro- hoje com os nomes da antolo- de um pressuposto político bem blicação de 26 poetas hoje, qual
misso da nova poesia com a gia de 1976? mais eficaz do que um conteúdo foi sua relação com a turma da
transformação social” e que “po- As duas refletem respos- explicitamente político com dic- antologia? E com aqueles que
tencializa a força original da ora- tas a governos conservadores e ção de propaganda. E o slam tal- tentaram diminuir seu trabalho?
lidade”, comenta Heloisa. autoritários. A primeira regis-
Nessa maneira relativamen- trando a memória e a experiên-
te nova de se organizar e produ- cia da “geração AI” ou “geração
zir, que pode ser caracterizada do sufoco” e a segunda marcan-
como uma competição de poe- do posição e espaço na guerra do
sia falada na qual corpo e voz governo contra a “ideologia de
são fundamentais, “a poesia des-
liza do livro para o corpo como
gênero”. Ambas são geracionais,
marcam a voz de poetas jovens, A poesia de mulheres
ganhou voz, liberdade
instrumento expressivo e se quer com a diferença que a primei-
como mensagem”, esclarece a or- ra, de 1976, trazia a palavra de
ganizadora da obra, emprestando uma classe média branca, pre-
a definição da slammer pernam-
bucana Luna Vitrolira.
dominantemente masculina.
A segunda já exibe a diversida- e espaço.”
8 | ABRIL DE 2021
CHICO CERCHIARO
noemi jaffe
GARUPA
Ilustração: Denise Gonçalves
CHATO É CHATO
O
uço com certa frequên- Acredito que seja porque lê-los dá muito trabalho: é no contrato proposto pelo livro e Algo difícil pode vir a se
cia: “Samuel Beckett é preciso prestar muita atenção, reler muitas vezes, tra- suspender a descrença, como diz tornar mais simples, como afir-
bom, mas é chato. Ja- balhar com o não entendimento, com aquilo que foge [Samuel Taylor] Coleridge. O lei- ma [Lev] Vigotsky, pedagogo,
mes Joyce é um gênio, às expectativas, suportar uma leitura que não convida tor é também um recebedor, al- com sua “zona de desenvolvi-
mas é chato. Thomas Mann é o leitor a uma viagem em que ele possa se esquecer de guém que acolhe o texto com mento proximal”. Para educar
bom, mas é muito cabeçudo. Tal que está lendo. Penso que chato, em muitos casos, tem credulidade. E, nesse sentido, verdadeiramente, é preciso que o
livro é bom, mas não tem uma a ver com o pedido do texto para que o leitor abando- conversas altamente intelectuais, educador apresente problemas mi-
história”. Se frases como essas fo- ne uma atitude puramente receptiva, ou reativa, e ado- como no caso de A montanha nimamente conhecidos pelos es-
rem pronunciadas por leitores te uma atitude participativa e indagadora. mágica, por exemplo, são rece- tudantes, mas com certa carga de
com pouco repertório de leitu- Chato é arrastado e demorado. Entendo menos bidas como novidades que me- desafio. Uma vez que o estudan-
ra, eu me disponho e, junto com ainda. Quem realmente gosta de ler sabe que o tempo recem escuta e curiosidade. Por te processe aquele problema, uma
a pessoa, embarco em conversas, da leitura é subversivo em relação ao tempo cronoló- que falam assim, o que dizem, nova zona será criada com um de-
discussões, análises e práticas con- gico e ao tempo acelerado dos resultados e da publici- como dizem, por que discordam safio maior. Isso é aprendizado e
juntas. Mas se quem emite esses dade. Vivemos aceleradamente, porque apressamos o Leo Naphta e Lodovico Settem- quem espera que a literatura lhe
juízos for alguém com experiên- tempo na direção de um objetivo que, assim que con- brini? Como faço para distin- ofereça o mesmo e não o diferen-
cia e bagagem de leitura, sincera- quistado ou frustrado, é imediatamente substituído guir, em discursos conceituais e te, desculpe, mas não está interes-
mente, fico irritada. por outro. Vivemos com pressa porque estabelecemos abstratos, o que é necessário e o sado em literatura.
Para começar, acho chato nosso tempo cotidiano no futuro e não no presente. que pode ser exibicionismo retó- Em conversas privadas, ín-
dividir as coisas em “chato” e “le- É assim e é muito difícil, infelizmente, que seja dife- rico? Trata-se de uma dificulda- timas, num bate-papo com ami-
gal”. Chato é um juízo tão defini- rente. Mas a leitura é prazerosa, entre outras coisas, de importante e proceder a ela gos, na linguagem oral, é claro
tivo — quase beirando o absoluto porque seu tempo é o da própria leitura — o presen- é dispor-se a jogar com o que se que não há problemas em se qua-
— que já contém, em si mesmo, te processual. Ler demora e demorar é bom porque é lê, entrar no jogo e não simples- lificar qualquer coisa ou mesmo
uma recusa à escuta do que po- morar lentamente, morar com afeto e conhecimento. mente dizer: é chato. pessoa como “chato” ou “legal”.
de contrariá-lo. A pessoa pode até É claro que deve haver espaço para a leitura de entre- Chato é difícil. Pronto. Aqui A questão é que esses adjetivos
dizer, tudo bem, entendo e con- tenimento ou para os livros em que o leitor quer sim- chegamos no epítome do chato, não podem servir para dar cabo
cordo com seu ponto, ok, mas é plesmente conhecer o desfecho. Mas isso não é e não seu núcleo duro. Mas o que é difí- de uma opinião, especialmen-
chato. E todos em volta dão risa- pode ser suficiente para quem quer realmente mer- cil? É aquilo que não entendemos te para quem ama a literatura e
da, porque com a palavra chato gulhar em literatura. de pronto, aquilo que demanda ama ler e escrever.
não sobra discussão. Chato é cabeçudo, intelectualizado demais; chato esforço de concentração e de pa- E, sobretudo, é preciso que
Chato é sem volume, plano, é quem se acha. Antes de tudo, vejo uma falácia aqui. ciência. Aquilo, enfim, que exige o “chato” seja acompanhado de
raso. O que me dá a entender que O discurso intelectualizado é supostamente chato e, caminhos mais longos e que não desconfiança. Por que achei cha-
a expectativa desses leitores é ler por ser chato, faz do orador alguém que “se acha”. Tra- tem como ser atingido por ata- to? Será que isso basta? Não estou
romances acidentados, surpreen- ta-se de um duplo preconceito, em que o emissor da lhos. É provável que tudo o que sendo excessivamente condescen-
dentes e profundos. Tudo o que opinião provavelmente se defende de algum possível foi dito até aqui sirva para explicar dente comigo mesmo?
certamente se aplica a Beckett e sentimento de inferioridade. Para ler com verdade é a recusa generalizada ao que é difí- Sei que devo soar “chata”. É
a James Joyce, por exemplo. Mas preciso ter humildade e vontade de inauguração, de cil. Mas é importante dizer que o o preço a pagar. Mas não quero vi-
então por que eles são tão facil- conhecer as palavras e as coisas como se pela primei- difícil em si mesmo não existe; tra- ver num mundo de “chatos” e “le-
mente etiquetados como chatos? ra vez, quase como uma criança. É preciso acreditar ta-se de um adjetivo relativo. gais”. Isso é muito chato.
10 | ABRIL DE 2021
Péssimas
Todo dia é preciso fazer como
no dia anterior para que os pon-
teiros não se atrasem. E mais es-
mero em dar corda no relógio do
companhias
amor deles fora dado após Santiago
anunciar querer um filho e perce-
ber a reação causada à namorada.
(...) A cada manhã, Maria se es-
forçava para repetir “já vou, meu
amor”, e se o continuava fazendo
Contos de Com a corda no pescoço, de André era porque se via presa à máqui-
Nigri, abordam as consequências lamentáveis na daquele relógio. E quanto mais
Santiago a mima, mais ela sente
do machismo estrutural em relações amorosas raiva de si mesma, mas também
dele, pois ela intui que por trás do
mimo ele só disfarçava a vontade
CARLA BESSA | BERLIM – ALEMANHA de domesticá-la.
“P
dependência emocional e incapa-
or que fazemos es- bar do hotel, ele passa em revis- cidade de libertação. Mariana,
colhas que sabemos ta sua história com ela enquanto amor antigo que o narrador reen-
não ser as melhores? observa a estátua do malogrado contra, também parece uma mu-
Por que parecemos inconfidente: tiveram um rela- lher que interiorizou o machismo
aquilo que não somos?” Estas são cionamento cheio de paixão, mui- a tal ponto que só sabe reproduzi-
as frases motoras do segundo li- tos anos atrás, enquanto Helena -lo. Ela vai de uma relação abusi-
vro de ficção de André Nigri, que vivia num casamento fracassa- va à outra, sempre se prometendo
chega depois de o autor ter publi- do. Ela, porém — como as outras que não incorrerá mais nos mes-
cado um romance e uma biografia personagens mulheres do livro —, mos erros. Tudo se repete e cada
de Adoniran Barbosa. A questão não consegue se desvencilhar do vez é a última.
das escolhas é mais complexa do marido, atada que está à ideia de Com a corda no pescoço
que pode parecer à primeira vista se definir através de seu papel de ANDRÉ NIGRI Padrões
e está ligada à controversa dobra- companheira, e procura refúgio Reformatório Nestes dias em que escrevo
95 págs.
dinha dos conceitos de livre-arbí- numa aventura amorosa. No en- esta resenha, o escândalo envol-
trio e determinismo, investigados tanto, quando Antônio lhe pro- vendo o cantor Marilyn Manson
há séculos por filósofos, religio- põe partirem e recomeçarem uma volta às manchetes dos jornais.
sos, psicanalistas e, mais recente- vida juntos em outro lugar, ela re- Sua ex-namorada, uma atriz de
mente, neurocientistas. Discuti-la conhece que isso seria uma mera grande sucesso, ativista pelos di-
aqui extrapolaria a minha compe- troca de prisões: “Você quer que reitos LGBTQIA+ e conhecida
tência e o âmbito de uma resenha eu deixe meu marido para me ca- por falar abertamente sobre te-
literária, mas fato é que todos co- sar com você. Isso não é apenas mas tabu, como os problemas de
nhecemos situações em que agi- mudar a corda de pescoço?”. saúde mental, denunciou o artis-
mos de forma incongruente com Em Na ponta dos pés, o nar- ta por abusos sexuais e emocionais
nosso estilo de vida, nosso status e rador é o amante de Francesca, ao longo da relação que tiveram,
nossas convicções, como se apenas uma ex-bailarina que traz no cor- que durou três anos. Penso em
reproduzíssemos padrões sociais po as chagas de um amor tão fra- Tina Turner, Nina Simone, Anne
internalizados desde a infância e cassado quanto sua carreira como Sinclair, Whitney Houston, Ri-
que foram repassados de geração integrante de um balé russo. Ela hanna… A lista poderia seguir ad
a geração. Não há racionalização. não consegue se desfazer de seu infinitum. O que leva essas mulhe-
É o que parece acontecer passado nem de suas decepções res bem-sucedidas, ricas, bonitas
com os personagens envolvidos afetivas. Em Francesca, a incorpo- e independentes se submeterem a
nas confusões amorosas — todas ração da subserviência é tamanha uma relação assim por tanto tem-
O AUTOR
heteronormativas, diga-se de passa- que se confunde com seu dese- po? Seria por incapacidade de
gem — dos quatro contos de Com jo. Porém, ao mesmo tempo que ANDRÉ NIGRI partir, medo da solidão, hábito
a corda no pescoço, relatados em reconhece a armadilha, ela não ou por desejo de serem amadas?
É escritor e jornalista. Publicou uma
sua maioria a partir do ponto de possui os instrumentos para se li- Ou mesmo por nem reconhece-
biografia de Adoniran Barbosa, Se
vista do personagem masculino en- bertar e faz exatamente o contrá- o senhor não tá lembrado (2002),
rem o abuso? Ou será que não
volvido no imbróglio sentimental rio, enreda-se ainda mais. e o romance Paralisia (2018). estão simplesmente repetindo pa-
em questão (uma exceção é o ter- drões como outras tantas mulhe-
ceiro conto, onde temos um nar- Era a dor; a dor como o mais res nem tão independentes assim?
rador onisciente). No entanto, este poderoso afrodisíaco. Mas não al- Pois se, por um lado, já avança-
narrador-personagem revela-se, guma forma de masoquismo. Pe- mos um bom pedaço no caminho
antes de mais nada, um ouvinte lo menos não era o que eu pensava. de nossa emancipação profissio-
atento e estimulador das torrentes Minha suposição, com base em to- nal e financeira, adquirindo di-
fabulatórias de suas companheiras, da uma vida sacrificada à dança — reitos firmados por lei, por outro,
cujas insatisfações e contradições com excruciantes e longos períodos não devemos esquecer que fomos
determinam as relações e confi- de dolorosa disciplina e raríssimos Já em Se não fosse a lua, Ma- educadas e influenciadas sobretu-
guram o cerne das histórias. São instantes de êxtase ao se apresentar ria e Paulo, duas pessoas pratica- do por mães e avós e bisavós, e são
sobretudo elas que parecem estar como solista —, era a de que Fran- mente desconhecidas, marcam de os seus modelos que espelhamos,
tão presas às amarras dos padrões cesca possuía a inabalável certeza de passar uma semana de férias num ainda que inconscientemente. E is-
“herdados” como o pescoço de Ti- que só alcançaria a felicidade após lugarejo distante do cotidiano de so vale igualmente para os homens.
radentes — coadjuvante no relato atravessar um penoso e demorado ambos. Aqui, o conflito femini- Não estariam eles também repri-
de abertura — à corda. tormento. Aquilo estava embutido no é aumentado pelo confronto sando modelos sociais? A cineas-
nela como a bonequinha encapsu- com a maternidade — Santiago, ta britânica Leslee Udwin, autora
Pontos de vista lada nas suas ocas irmãs maiores. companheiro de Maria, anseia por do premiado documentário so-
No primeiro conto, que dá um filho, mas ela reconhece nes- bre um estupro coletivo em Nova
nome ao livro, o caso amoroso en- Neste conto, a sobreposição se desejo apenas uma tentativa de Déli, conversou com vítimas, mas
tre Helena e o narrador, Antônio de estratos temporais é especial- prendê-la e podar sua liberdade, também entrevistou os estuprado-
Vilela, é apresentado em retros- mente dinâmica, pois acrescida de sentindo-se desrespeitada em seu res, e chegou à conclusão: “Não são
pectiva por ele. Provando grande uma terceira camada: alternamos direito de escolha. Ela parece en- monstros, estão programados”.
domínio descritivo e do vaivém constantemente entre o momen- tender que o seu amor cedera às Estes questionamentos cer-
temporal entre narração do pas- to atual do casal numa casinha no imposições do tempo, transfor- tamente vão bastante além do
sado e do presente, Nigri traz o campo, a lembrança de quando mando-se “num mecanismo de contexto do livro de Nigri, mas
personagem de volta à sua cida- se conheceram, assim como ima- relógio de corda”, ao qual tam- estão no cerne de suas histórias e
de natal, onde foi para o enter- gens do segundo encontro numa bém ela será obrigada a aderir se são uma possível resposta à ques-
ro da própria Helena. Sentado no casa de chá. quiser manter a relação: tão das más escolhas.
ABRIL DE 2021 | 11
PERSONAGENS
PENSAM?
1. um episódio e outro. Mas atenção:
Personagens não têm vida essas conexões são um constructo
própria. Fazem o que o ficcionista intelectual do leitor, que entretan-
deseja que façam. E por isso agem to parte de uma elaboração prévia
de maneira muito aproximada de do ficcionista, isto é: é o ficcionis-
como nós, seres humanos, agi- ta, com sua arte, que vai propiciar
mos. Uma das características mais ao leitor a oportunidade de fazer es-
visíveis do ser humano é sua capa- sas conexões a partir dos indícios
cidade de pensar e imaginar. Essa que são inseridos na história. E
faculdade levou o homo sapiens a com isto, o presente parágrafo não
dominar a Terra e, convenhamos, diz nada de novo, mas foi mantido
a estragá-la. Se nós pensamos, é, apenas para que não se perca do fio
portanto, implícito que a perso- da meada lógica.
nagem pense. Isso, na mão do fic-
cionista amador, é uma solução. 4.
Na mão do ficcionista profissio- Um bom exemplo das ope-
nal, é um problema. rações de intuição e imaginação
pode ser aplicado no conto A missa
2. do galo, de Machado de Assis. Nu-
Literatura é questão de me- ma primeira leitura, temos a intui-
dida. Para não haver mal-entendi- ção de que aconteceu alguma coisa
dos, é bom reiterar, como se preciso entre a “boa” Conceição e o jovem
fosse, que o escritor não tem me- Nogueira, que vai além dos epi-
dida alguma para criar o que bem sódios ali narrados, aliás, de uma
entender, não tem medida alguma aparente trivialidade. Muitas pes-
para expressar-se, nem ideológica, soas, por preguiça, falta de sensibi-
nem estética, nem ética. A medi- lidade ou impaciência, ficam por
da de que se fala é apenas determi- aí: “não gostei”. Outras, mais aten-
nada pelo que funciona e pelo que tas e intrigadas, podem ir a uma
não funciona, sob o ponto de vista segunda leitura — ou terceira,
da técnica, da estética e da econo- etc. — quando, propiciado pela
mia textual. A medida, nesse senti- imaginação, revela-se o que de fa- na tudo do fazer literário e escreve paciência, conhecimento, prática e senso do real.
do, não é “o que devo mostrar para to aconteceu: um intenso drama dez livros sem nenhuma autocrí- Sim, é possível que todo um romance se passe em
o leitor”, mas, sim, “o que não de- de paixão, interdição moral, ten- tica e sem atentar para a crítica pensamentos da personagem, e a história literária
vo mostrar para o leitor”, e disso vai tativa de sedução, tudo o mais que alheia]. O pensamento da per- tem centenas de bons exemplos disso, mas o fascí-
depender a história que está sen- se segue dentro desse infortunado sonagem pode ser uma “solução” nio que pode exercer está naquilo que o leitor irá
do contada. Numa história de cri- campo semântico. O mesmo pro- pois o amador coloca ali tudo o descobrir no subtexto, no não-dito. Dostoiévski
mes e detetives, o escritor tem um cesso pode ser aplicado a qualquer que a personagem sente, percebe, começa o Memórias do subsolo com a seguinte
imenso trabalho para ocultar infor- conto de Hemingway ou Carver. raciocina e, não contente com is- afirmação: “Sou um homem doente... Um homem
mações que, trazidas à luz, pode- so, coloca na cabeça da persona- mau. Um homem desagradável”. Claro que nin-
riam desfazer o mistério de quem 5. gem, inclusive, fatos da própria guém acredita que essa personagem esteja a dizer
é o assassino e, ao mesmo tempo, Aqui se retoma a questão do história. [E Luma pensou: “Oh, essas coisas acreditando nelas. O romance o confir-
mostrar dados irrelevantes, que le- pensamento da personagem, e isso como estou apaixonada por De- ma. Há, portanto, uma disparidade entre o que a
vam o leitor ao engano. Claro, esse está ligado à quantidade de acesso nis, mesmo que ele não me dê a personagem pensa e o que o leitor sabe. Em A náu-
é um exemplo grosseiro. A questão que o ficcionista deseja dar à in- menor atenção. Ontem, na esco- sea, de J.P. Sartre, aparece uma passagem em que a
é bem mais refinada. terioridade da personagem. [Esse la, tentei falar com ele e ele fugiu personagem central pensa: “Quando se vive, nada
processo é indiferente se se trata de de mim”.] Quem lê isso sente-se acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram
3. uma focalização interior em pri- um tolo. Resulta desse desastrado e saem, eis tudo. Nunca há começos. Os dias se su-
A questão refinada implica meira ou terceira pessoa; em am- procedimento que a personagem cedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma
o leitor e sua capacidade de intui- bas, o leitor poderá ter esse acesso. [e a história] não deixa nenhuma monótona e interminável”. Claro, perante o caráter
ção e imaginação. Com essas duas Não subsiste, portanto, a afirma- margem de interpretação ao lei- categórico dessa reflexão, Sartre dá ao leitor a pos-
capacidades, ele vai “entender” a ção ligeira de que só com uma fo- tor, que se vê, assim, uma entida- sibilidade de pensar de modo totalmente diverso,
história, não no plano banal dos calização em primeira pessoa é que de passiva. Se não a abandonar em ademais porque essa ideia de Antoine Roquentin
episódios, “a personagem fez tal o leitor conhece o pensamento da meio, chegará ao fim da história está datada por um momento filosófico do Existen-
coisa e depois fez aquilo”, pois is- personagem]. O problema, redi- sem o menor interesse em relê-la. cialismo, ou, quem sabe, por uma depressão aguda.
so um ficcionista razoável vai lhe zemos, é o grau desse acesso. Há
oferecer, ou espera-se que ofereça casos em que o autor deseja que o 7. 8.
com nitidez; refere-se a algo mais leitor saiba tanto quanto a perso- O pensamento da persona- Para quem se considera iniciante, a melhor
profundo, que vem a ser o propó- nagem; noutros, que saiba menos gem, entretanto, será um proble- sugestão será fazer com que a personagem pense
sito do texto, em suma: por que es- que a personagem e, por fim, há os ma para o ficcionista profissional, o menos possível, deixando que suas ações deixem
se texto existe, o que o texto conta? casos, que saiba mais do que a per- e isto porque será necessário esta- entrever seus pensamentos. O sofrimento de amor
Aí é que entra em cena, em primei- sonagem. Isso implica o controle belecer uma diferença — entre o da jovem Luma, do parágrafo 6, pode ser trazido ao
ro lugar a intuição do leitor acerca sobre a medida, e esta é: devo des- que o leitor sabe e a personagem leitor por algo concreto: “Luma tinha escondido o
da história que está lendo. Essa in- cobrir e delimitar algumas ques- sabe. Essa assimetria de saberes re- retrato de Denis na mochila, e olhava-o a toda ho-
tuição dá-se desde logo num plano, tões, referentes a esse grau. flete o conflito, que dará todo o ra. Num intervalo, procurou falar com ele, e De-
digamos, epidérmico, certa “pal- interesse à leitura. E aqui estamos nis, percebendo-a vindo pelo corredor, correu para
pitação” que ocorre no sentimen- 6. naquele jogo de esconde-esconde dentro da cantina da escola”. Funciona melhor, não?
to do leitor. Num segundo plano, No parágrafo 1 afirmou-se com o leitor. O que posso reve- Deixe que o leitor imagine os tristes sentimentos de
mais relevante e construtivo, está que o pensamento da personagem lar a ele de modo explícito — via Luma. Aliás, uma sugestão prática: no seu texto, uti-
a imaginação, que vai recriar essa é uma solução para o ficcionista pensamento da personagem — e lize o recurso “localizar”, e ponha ali o verbo “pen-
história a partir das conexões — amador. [Diferente do ficcionis- o que devo ocultar? E aí é que en- sar” em suas várias declinações. Aparecerá centenas
na maior parte implícitas — que ta iniciante, que deseja aprender tra a arte literária e suas peculiari- de vezes. Elimine-os. As frases terão de ser reescritas,
a mesma história estabelece entre o ofício, o amador acha que domi- dades, adquirida com autocrítica, mas brilharão de originalidade e força.
12 | ABRIL DE 2021
Um marxista
Mas aí eu te pergunto:
quantas camisa uma pessoa pre-
cisa fazer por dia pra ter um pa-
drão de vida igual ao padrão de
na periferia
vida do dono desta porra desta re-
de de supermercado, por exemplo?
Hem? Já pensou nisso? Quantas
malditas camisa, Marques? Qual
de Porto Alegre
é a quantidade de trabalho neces-
sária para uma pessoa merecer um
padrão de vida que nem o dele?
Pensa bem, cupincha. Tenta cal-
cular. (...) Esse cara ganha, num
só mês, mais do que todo o dinhei-
No romance de estreia Os supridores, o gaúcho José ro que já passou na tua mão em
toda a tua vida! E cumé que isso
Falero elabora uma trama politizada sobre desejo é possível, Marques? Será que ele
e consumo com linguagem da quebrada é o Super-Homem?
“Q
O plano é vender maconha, já
uem foi Karl Marx?”, exemplo, é pai de uma criança de que o tráfico resolveu lucrar com conversava sobre marxismo com
pergunta Audino três anos e descobre que sua com- o crack e a cocaína. A divisão dos seus colegas.
Vilão, em seu ví- panheira está grávida novamente. lucros, obviamente, é igualitária. Como disse Xico Sá em seu
deo Traduzindo Karl Ter a casa cheia de crianças não Marques logo topa o plano e a du- Twitter, Falero descreve um tiro-
Marx para gírias paulistas, e logo seria um problema para ele, mas pla procura sua trupe, agora com- teio como poucos, sabe e conse-
responde: “Foi um veinho barbu- a condição econômica em que vi- posta por seis companheiros, que gue escrever sobre a realidade
dão, gordinho, que falou assim: ve faz com que haja pouco espaço começa a construir sua indepen- da vida periférica. Vivências as-
‘É tudo nosso e o que não for, a para o amor paterno. O que flo- dência financeira. sim são necessárias para não nos
gente toma’”. Audino é pseudô- rescem são a rispidez, violência e acostumarmos com o ponto de
nimo de Marcelo Marques, um preocupação. Ritmo e consequência vista padrão do nosso mercado.
universitário que cursa Licen- Pedro está igualmente can- Os supridores Próximo dos malandros Já é conhecido o estudo de Re-
ciatura em História e faz vídeos sado. Sem dinheiro nem para con- JOSÉ FALERO brasileiros e do romance pica- gina Dalcastagnè sobre os per-
de filosofia no YouTube. A pro- sertar uma maçaneta, a esperança Todavia resco, onde um personagem da sonagens e autores da literatura
304 págs.
posta do apresentador é traduzir — cega e infundada — de dias classe oprimida consegue ma- brasileira, mas ainda ressoa forte
conceitos filosóficos para uma melhores, que sua mãe insiste em nipular e sobreviver no mundo a reflexão que faz sobre o paralelo
linguagem coloquial, repleta de repetir, causa profundo desânimo. graças a sua astúcia e suas men- entre a vida de uma pessoa pobre
gírias das periferias de São Paulo. Isso porque Pedro é um cara que tiras, Pedro dribla a manutenção como uma pessoa “simples”, co-
De maneira simplificada, pegou prazer pela leitura. Entre do capitalismo e conquista a vida mo se fosse pouco complexa ou
o vídeo continua assim: ele apre- as longas viagens que faz, aperta- almejada, tanto para ele quanto uma pessoa rasa.
senta o papel do proletariado, res- do no ônibus que o leva ao traba- para os amigos. Por isso, em Os supridores
ponsável por “produzir a camiseta, lho, leu uma coisa ou outra sobre No entanto, Os suprido- vemos a dificuldade da expressão
o pisante, a bombeta”, mostra o teoria marxista. Ele sabe que o sis- res não deixa de ser uma tragédia. de sentimentos entre os homens
que são os meios de produção, co- tema não vai melhorar se eles con- Pedro tem a húbris do herói gre- do grupo, os conflitos que envol-
mo a firma ou o iFood, e explica o tinuarem resignados. Seu discurso go disposto a desafiar a ordem dos vem a criação de um lar afetuo-
ideal marxista: “A fábrica tem que é politizado, mas ele também es- deuses. Seu orgulho e confiança so e a própria complexidade em
ser da quebrada, coletivizar o ne- tá ansioso para colocar a teoria em não o impedem de investir contra um personagem como Pedro: am-
gócio. Sem playboy. Tomar não é prática e sair dessa situação. a entidade sagrada de nossa socie- bíguo, o grande confronto que
chegar no mano com a peça e to- Em um dos seus falató- dade, o capital, nem de se conta- enfrenta diariamente é o descom-
mar. É sem atrasar o lado de nin- rios frequentes, Pedro explica ao minar por uma certa ganância e passo entre sua ideologia e as suas
guém. É chegar no playboy que amigo a maneira que entende o desejo de consumo. vontades materiais. Ainda que ali-
paga de mala porque o pai é o do- status quo e a exploração do tra- Nesse quesito, Falero foi nhado com o pensamento mar-
no da empresa e tomar esse equi- balho. O exemplo é simples: a mestre em estabelecer ritmo na xista, não deixa de ter vontade de
pamento, o torno, a máquina de limitação humana. Em seu diá- narrativa. Ficamos presos até o fazer parte de uma sociedade de
solda, por exemplo, porque a gen- logo, Pedro diz que: último momento, ansiosos para consumo, de ter dinheiro.
te vai fazer as nossas moedinhas”. o desfecho que deve vir, o desas- Esse desequilíbrio surge,
Em sua proposta de expli- As pessoa tudo gosta de es- tre que se alimenta da violência também, na relação do narrador
car filosofia e sociologia, Audino quecer que o ser humano é limi- iminente e espreita em cada es- com a trama. Alcir Pécora, em re-
não está sozinho. Outros perfis tado, porque essa limitação, que é quina e viela. Por isso, apesar de senha para a Folha de S. Paulo, e
apresentam propostas parecidas, um fato fácil de demonstrar, ela é a Pedro saber contornar os proble- Luís Augusto Fischer, na live de
como o canal Chavoso da USP, prova de que tem gente com grana mas e resolver os problemas dos lançamento do livro no canal da
organizado por Thiago Torres, demais por aí. Tendeu? Tem gente colegas, ele não sai impune das es- Todavia, comentam sobre o tom
ou o perfil Funkeiros Cults, de que é dona de coisa demais, quan- colhas que fez. machadiano que vem das diferen-
Dayrel Azevedo, que ganhou um do tu é dono de coisa demais, sem ças entre o protagonista e o nar-
dos prêmios de Influenciador Li- ter feito por merecer tudo o que Entre vielas e gôndolas rador: são duas inteligências que
terário do Ano no Prêmio Ma- tem, isso significa que os nego que Falero faz muitos acertos em atuam de forma diferente e em
chado Darkside. Os supridores, fizero por merecer tão a ver navio, seu romance de estreia. Além da tempos diferentes.
primeira narrativa de fôlego do por culpa tua. construção do ritmo, é certeira a O fato de lermos hoje Jo-
escritor José Falero, não tem a mão que nos guia pela narrativa. sé Falero em uma grande editora
mesma intenção, mas, ainda que A partir daí, ele compara a Em Os supridores, não há uma não nega que diversas vozes pe-
não queira ensinar marxismo, é riqueza produzida por uma pessoa glamorização do tráfico, da po- riféricas continuam isoladas, que
mais ou menos isso que Pedro, o que vende camisetas com o salá- breza. São escolhas pragmáticas e a literatura marginal (cujo pró-
protagonista, faz ao seu fiel com- rio do dono da rede de supermer- necessárias, sem a moralização, a prio termo problemático já nasce
panheiro Marques. cados. Pedro diz que, se você faz estereotipação ou o apelo estético a partir de um centro pré-deter-
O AUTOR
No romance, acompa- uma camiseta, é justo que o lu- da violência tão comuns em nar- minado) só se faz presente quan-
nhamos Pedro e Marques, dois cro seja seu, já que trabalhou sozi- JOSÉ FALERO rativas desse gênero. do é interesse da elite. Mas é,
amigos que trabalham como su- nho. No entanto, é impossível que Talvez, nenhum desses pon- sim, um respiro. Uma esperança
Nasceu em 1987, em Lomba do
pridores (repositores ou esto- um homem só tenha construído Pinheiro, periferia de Porto Alegre.
tos fossem relevantes na discussão de que diversas experiências e vo-
quistas, a depender da região) uma rede de supermercados. Pe- Antes da narrativa de fôlego, publicou sobre a obra caso não tivéssemos zes que conquistaram seu espaço
na rede de supermercados Fênix. dro abre os olhos do amigo para a os contos de Vila Sapo (2019) e um círculo literário fechado, eli- nos últimos anos ainda podem
Eles moram na periferia de Porto exploração da mão de obra e em participou das coletâneas À margem tista. O que ganha força é a veros- sobreviver em meio às diversas
Alegre e estão cansados da vida de como a noção de trabalho e de di- da sanidade (2018) e Ancestralidades: similhança da vida de um escritor tentativas de silenciamento que
pobreza que levam. Marques, por nheiro se afastaram: escritores negros (2019). que já foi, sim, um supridor que estão ressurgindo.
ABRIL DE 2021 | 13
BANDEIRA 2, DE
quando uma parte da máquina do poema se entrea-
bre no neologismo: eu teodoro (em vez de “eu te
adoro”). O verso final se articula, circular, ao títu-
RAIMUNDO CARVALHO
lo — Bandeira 2, e somos levados ao célebre poema
Neologismo, de Manuel Bandeira:
Conteúdo exclusivo
Notícias diárias
Edição impressa com 48 páginas
O JORNAL DE LITERATURA DO BRASIL
Novos colunistas
Crônicas diárias
ABRIL DE 2021 | 15
QUARTA
ros repetindo tendências.
Ramiro Giroldo
ONDA?
Tenho, em diversas oca-
siões, apontado que a ficção
científica brasileira constitui um
sistema literário à margem do ca-
nônico. É claro, o sistema dá mos-
tras de precariedade por conta do
relativamente pequeno alcance
entre o público leitor, mas em de-
terminada medida, tal é a condi-
ção da literatura brasileira como
um todo — conforme sinaliza-
do pelo próprio pensador que
cunhou o conceito de sistema a
que me refiro, Antonio Candido.
A divisão da nossa ficção científi-
ca em ondas, conforme proposto
pelo Causo, permite observar os
momentos em que o sistema fun-
cionou de maneira bem azeitada
— como quando foi travado o po-
sitivo contato entre André Carnei-
ro e Gumercindo Rocha Dórea,
um autor e um editor da Primeira
Onda, com o pessoal da Segunda
Onda — e também os momentos
em que as engrenagens chegaram
perto de travar, diante da escassez
de editoras interessadas e, conse-
quentemente, de leitores.
Bem, embora a Terceira
Onda tenha como uma de suas
marcas o manejo do meio digital
para publicar e estabelecer cone-
xões entre autores, leitores e edi-
toras, e tal característica tenha
depois se intensificado sobrema-
neira, definitivamente estamos em
outro momento. De novo pode-
mos observar como algumas das
dinâmicas da literatura de gêne-
ro têm profundas relações com a
C
produção literária como um to-
oncluindo a brevíssima Dessa forma, haveria uma chaeology, pela Luna Press (no punk, steampunk, new weird, etc. do. Não existe, afinal, uma produ-
e informal enquete ini- alteração suficiente no horizon- prelo); a criação da Eita! Magazi- E queriam conquistar o grande ção artística que consiga se isolar
ciada na edição de mar- te histórico brasileiro para con- ne, difundindo literatura nacional público. Fácil chamá-la de Tercei- do mundo e das demais produ-
ço deste Rascunho, a seguirmos delimitar uma Quarta em inglês, e o festival internacio- ra Onda. Mas pensar numa Quar- ções — mesmo que tente, ela está
respeito da Quarta Onda da FCB Onda? Acredito que a ascensão da nal Relampeio, cuja segunda edi- ta Onda é mais difícil. Não há um necessariamente inserida em um
— mito ou realidade? —, segue o direita ao poder, etapa que pode- ção ocorre de 1º a 4 de abril. novo meio — a internet veio pra contexto cultural mais amplo.
depoimento de mais três ficcionis- mos marcar com o golpe contra Agora aguardo as pessoas do ficar, a mídia móvel não a subs- O momento atual é de dis-
tas-pesquisadores da ficção cientí- Dilma Rousseff em 2015, assina- futuro me dizerem quão fora de tituiu. Recorre-se à subjetividade persão, com uma multiplicação de
fica brasileira. la uma nova guinada na História ângulo foi meu chute. para encontrar a distinção. A ten- propostas grande o bastante para
brasileira e irá perturbar a pro- dência atual mais forte é a diver- inviabilizar a delimitação de “ca-
Ana Rüsche dução da ficção científica. Livros Roberto de Sousa Causo sidade e o afrofuturismo, com a racterísticas gerais” da nossa ficção
Adoro exercícios de futuro- sobre o autoritarismo voltam ao Entre 1957 e 1972, a ficção cultura pop como o novo palco científica. Em diversos sentidos, o
logia. Paradoxalmente entregam gosto popular, é a onda das dis- científica como gênero literário das guerras culturais e ações de va- momento é da diversidade. Sim, a
muito mais sobre o nosso presen- topias nas prateleiras, a exemplo era uma novidade, e um movi- lorização. Mas a tendência já exis- variedade já se observa na Terceira
te histórico e as nossas limitações de Ninguém nasce herói, de Eric mento editorial, puxado por Gu- tia com Cristina Lasaitis e Erick Onda e até nas ondas anteriores,
imaginativas do que sobre o fu- Novello. Assim como despontam mercindo Rocha Dorea, amparou Novello, Jim Anotsu e Alliah — mas hoje não é comum encontrar
turo mesmo. Assim, deste imen- demandas “por diversidade na li- os brasileiros. Alguns desses auto- desde 2015 o Movimento Irradia- grandes grupos de autores reunidos
so período pandêmico, vamos ao teratura especulativa nacional”, res sabiam que lutavam para es- tivo existe para promovê-la. Seria em torno de uma proposta estéti-
desafio. A ideia das ondas parte de como prega o Manifesto Irradiati- tabelecer o novo gênero — fácil agradável imaginar (mais como ca comum. As agremiações servem,
uma proposta de Andrea L. Bell e vo, de Jim Anotsu e Vic Vieira, de chamá-lo de Primeira Onda. En- wishful thinking do que como pos- mais do que nunca, para fomentar
Yolanda Molina-Gavilán na anto- 2015, ideias se materializam em tre 1982 e 2015, a maioria dos sibilidade real) que estes anos de a leitura e gerar visibilidade, mas
logia Cosmos Latinos: An antho- livros como A cientista guerrei- autores da Primeira Onda esta- direita ressurgente inspirassem um dificilmente para unificar diretri-
logy of science fiction from Latin ra do facão furioso, de Fábio Ka- va ausente, o país saía da ditadura ciclo robusto de distopias brasucas, zes criativas de maneira consisten-
America and Spain, de 2003. As bral; Isegún, de Lu Ain-Zaila, e a e os autores-fãs que liam FC in- ou que a crise climática assentas- te. Isso não só na ficção científica.
autoras contextualizam uma pro- coletânea de contos Violetas, uni- ternacional — que haviam cresci- se entre nós, inspirando obras rele- Estamos, portanto, na
dução mais ampla, da América La- córnios & rinocerontes, organi- do lendo livros populares, revistas vantes — mas depois de acontecer Quarta Onda? Para responder,
tina e da Espanha, reconhecendo zada por Claudia Dugim. em quadrinhos e vendo filmes — primeiro no exterior, como tem si- primeiro é preciso rever a noção
“a polinização cruzada e o apoio Quando tudo aqui parece queriam expressar essa influência do a norma. Talvez a Quarta Onda de sistema literário, verifican-
mútuo entre as diferentes comu- ser desesperança, a busca por um — mesmo que em fanzines. Cla- da FCB se apresente quando al- do de que maneira ela é de fato
nidades da ficção científica nessas lugar ao sol no mercado anglófono ro que era uma Segunda Onda. A guém realizar a ambição maior da de auxílio para pensar a produ-
regiões”, tendo em vista ditaduras é mais intensa. Exemplos seriam partir de 2004, novatos apresenta- Terceira: sucesso de público. Aí os ção de agora. Depois, precisamos
e perturbações sociais. A nomen- narrativas de Clara Madrigano, ram-se como um grupo amparado autores da Terceira seriam os no- pensar se estamos em uma onda
clatura pegou, sendo utilizada por H. Pueyo, Jana P. Bianchi, Renan pela nova via da internet. Chama- vos dinossauros e o futuro estaria ou, na verdade, em uma gigan-
M. Elizabeth Ginway, Ramiro Gi- Bernardo e Sérgio Motta em revis- vam os antecessores de dinossauros em qualquer tendência com cam- tesca e indistinta massa de água
roldo e Roberto de Sousa Causo, tas estadunidenses; o lançamento e declaravam a intenção de atuali- peões de vendas disputados pelas que avança ininterruptamente,
entre outros pesquisadores. de Fabio Fernandes, Love. an ar- zar a FC com as tendências cyber- grandes editoras… Mas é a previ- sem fazer intervalos.
16 | ABRIL DE 2021
Perdido entre
coisas e linguagem
Nos poemas de O enigma das ondas, Rodrigo Garcia O AUTOR
realidade como ela é e sua possível representação Nasceu em 1965, em Londrina (PR). É poeta, romancista
e compositor. Também é tradutor, tendo vertido para o
português obras de escritores como Sylvia Plath e Arthur
Rimbaud. O enigma das ondas é seu sétimo livro.
RAFAEL ZACCA | RIO DE JANEIRO – RJ
N
ão se contam poemas, mas eu vou con- E por falar em Rimbaud, é verdade que, enquan-
tar este mesmo assim: uma pilha Philips to Rodrigo Garcia Lopes comenta a realidade brasileira
à beira-mar é recolhida por uma turista (tanto a literária — para a qual o poeta dirige palavras
e depois é atirada novamente na areia. bastante duras — quanto a política — que se lhe asse-
Sabemos que provavelmente é noite, pois está es- melha ao Império Romano, com suas catástrofes e tra-
curo quando a mulher vai embora e a pilha sobre a gédias), traça diálogos explícitos com a tríade francesa
areia, como que num passe de mágica, “se acende/ que esgarçou o verso na modernidade — Rimbaud,
rebrilha// água-viva”. O poema, de Rodrigo Gar- Baudelaire e Mallarmé.
cia Lopes, chama-se Verão. Este último comparece como sombra do poema
Num primeiro momento, com uma leitura que abre o livro, Aéreo reverso (o título se refere a uma
mais apressada, poderíamos dizer que ele se apoia manobra em que o surfista salta, chuta a rabeta da pran- O enigma das ondas
na forma do haikai (embora não a sua fôrma: não cha, começa a girar no ar e termina na água — ou, dito RODRIGO GARCIA LOPES
se apresenta em três versos justamente metrificados, de outra forma, começa o giro numa realidade e precisa Iluminuras
152 págs.
mas em vinte e três). Claro, somos apresentados a terminar em outra), que identifica na palavra “surfista”,
uma imagem (a pilha queimada), que é submetida e no seu uso no poema, uma realidade estritamente li-
a um desenvolvimento lógico da cena (a chegada terária (forma cética da comunicação; “a palavra surfis-
da turista, que a toma nos dedos e a atira na areia) ta desce a onda verso”) capaz de realizar, não obstante,
do que se segue uma transformação mágica (a me- uma “manobra clássica” que faz com que ela, a palavra,
tamorfose em água-viva). O título, referindo-se a atinja “o lábio da onda” e “voe” (forma mágica da co-
uma estação, sustenta a interpretação de uma espé- municação). E no poema Canto único, que fecha a pri-
cie de modernização da forma japonesa. meira seção do livro, o poeta, que começa “no alto e à
E, no entanto, Verão é um texto que nos apre- esquerda da página oceânica”, termina designando “o
senta uma “arte poética”, e de certa maneira nos dá poema como uma zona de arrebentação”.
uma leitura de O enigma das ondas, livro do qual Esse estado de espírito, de suspensão entre ce- Por fim, e não mais a título de comparação, po-
faz parte. Ele designa o estado ambíguo em que se ticismo e crença em algum poder mágico, se afirma, demos ainda destacar a elasticidade plástica de seus
encontra a voz desses poemas: entre o ceticismo de em Lopes, como resposta à sensação de que a vida é poemas: indo do soneto ao verso espalhado na pági-
uma existência em absoluta inconformidade com o (e aqui há também uma paráfrase francófona, embo- na, seu livro se configura como uma espécie de “labo-
mundo e o testemunho dos eventos mágicos da “vi- ra, nesse caso, de alguma filosofia contemporânea) re- ratório das formas”, ao mesmo tempo em que sustenta
da, este mal-entendido”, nas palavras do poeta. Isto petição e diferença: um discurso direto e não hermético, o que causa cer-
não é apenas um “estado de espírito”, mas efetiva- to choque, ao fazer comparecerem, ao mesmo tempo,
mente um projeto poético: uma proposital indeci- E o que é a vida senão essa sequência, uma postura formalista e uma vontade de comunica-
são entre dois âmbitos da realidade, o do canto (que repetição e diferença, ção. Como no poema homônimo de seu livro, em que
se faz na “aceitação das coisas”) e o do papel (onde suel iridescente, nadador anônimo que alcança Lopes destaca certa embriaguez das formas dentro da
não existem janelas senão “as janelas das palavras”). o espaço que o separa de uma linha que já retorna, aparente repetição das ondas:
Perdido entre coisas e linguagem, sem se deci- imprevisível cesura (...)
dir se a realidade de onde extrai poesia é ela mesma Porque se repetem, sempre se repetem
substância ou letra, o poeta dá à luz textos suspen- Só peço que olhem para nós alguns segundos bêbadas de formas, ideias, de lucidez.
sos entre as duas coisas, tais como: escombros sobras assombros sombras restolhos Porque estão em toda parte, como da primeira vez,
ouçam e escutem sintam percebam respondam pedindo a nossos filhos que infinitem.
O mundo passa [estes brancos
pela janela da palavra estrondos É tentador terminar uma resenha com uma res-
para tocar a realidade posta para um livro que propõe um enigma. Não o fa-
o verde-água que veste e desveste esta muralha de rei. O enigma das ondas não é um ponto de chegada
mas a realidade [afetos da leitura, mas um ponto de partida, de onde o “barco
de repente se fecha bêbado” parte, e para o qual não há retorno. Mas ain-
na imagem de uma concha: A embriaguez das formas da é preciso dizer que essas ondas que o balançam são
Como ler este que é o sétimo livro de Lopes na uma estratégia de contrastes. Para todos os efeitos, bas-
uma concha cena da poesia contemporânea? As comparações a que ta o leitor se atentar para o fato de que, dos ceticismos
é um mundo onde procedemos não são a título de valoração, senão mera- que ajudam os poetas a separar palavras de coisas e a
coube uma palavra mente que de estabelecimento de critérios para desig- esmerarem o que chamam de técnica (o apuro da pa-
nar semelhanças e dessemelhanças entre o poeta e seus lavra autônoma, livre de suas ditas amarras com o su-
Isto nos basta: pares. Certamente, trata-se de um livro atípico. A co- posto real — as correntes que a prendem ao referente,
fechamos as palavras das janelas meçar pelo volume, numa época em que os livros ten- numa palavra), Lopes bebeu provavelmente de quase
e abrimos as janelas das palavras. dem a ser cada vez mais breves. todos. E se o poeta designa a “luz de outono como em-
Tematicamente, O enigma das ondas se asseme- blema do real”, é em outro poema que nos apresentará
Podemos chamar isso de indecisão ontológi- lha a Mais cotidiano que o cotidiano, de Alberto Pu- esse retorno mágico das coisas na forma de uma fábula:
ca. Ou estadia no inferno — para citar um título cheu, que realizou alguns experimentos com a imagem
do poeta francês Arthur Rimbaud, para quem es- do surfe e dos surfistas, enquanto também comentava a Uma tarde um tigre
sa estadia significou não apenas a alquimia do ver- vida política do país; mas nos procedimentos “ontoló- caçou o sol de outono;
bo (modificando o tempo do “metal” das palavras), gicos” (ou seja, de manipulação dos níveis de realidade Ele coube em sua pata
como também uma posição de indecisão sobre o entre linguagem e coisas), Lopes se aproxima de livros mas o deixou fugir.
ser das coisas. Em Rimbaud, isso o preparava para como Escala Richter, de Leonardo Gandolfi, ou Ano
uma grande saída da literatura para a vida, o que novo, de Leila Danziger. À parte este procedimento, O sol raiou bem cedo
permitiu bagunçar um pouco as coisas depois dis- em muito pouco se aproximam as poéticas destes dois pelo bosque de cedros.
so — quer dizer, a vida deixou de ser vida e a lite- últimos à do autor de O enigma das ondas — são, em Deixou o tigre
ratura deixou de ser literatura. realidade, projetos quase opostos. raiado também.
ABRIL DE 2021 | 17
inquérito
DIVULGAÇÃO
MARÍLIA ARNAUD
ATÉ O FIM
DA VIDA
E
m fevereiro, a paraibana Marília Arnaud le- Honestamente, não me
vou o Nordeste ao centro dos holofotes li- lembro. Poderia inventar, afinal
terários ao vencer a 5ª edição do Prêmio de contas, sou uma ficcionista, e
Kindle com O pássaro secreto. A obra, dis- ninguém poderia me desmentir.
ponível em formato digital pela Amazon, será lançada
pela Record e ganhará edição especial pela TAG. Para • Quando a inspiração não
a autora, cuja paixão pela palavra surgiu pouco depois vem...
de ser alfabetizada, essa “brincadeira” de escrever his- Vou ler, enquanto espero ela
tórias não iria lhe conduzir ao universo dos escritores. voltar. E ela sempre volta.
Foi aos 17 anos, após suas primeiras publicações, que
Marília se considerou ficcionista — caminho que pre- • Qual escritor — vivo ou mor-
tende seguir até o fim da vida, “mesmo que isso signifi- to — gostaria de convidar para
que nenhuma publicação ou leitura”. Liturgia do fim um café?
(2016), Suíte de silêncios (2012) e A menina de Ci- Marguerite Yourcenar. Pos-
pango (1994) são algumas de suas obras. so imaginá-la muito lúcida, sábia,
assertiva, com um tanto de ternu-
ra nos olhos azuis. Passaria horas
ouvindo-a falar sobre a infância
e adolescência, a relação com o
pai, as viagens, os livros que a im-
pressionaram ao longo da vida, as
• Quando se deu conta de que queria ser escritora? influências, amor, religião, femi-
Minha paixão pela palavra surgiu muito cedo, nismo, etc.
poucos anos após ser alfabetizada. Àquele tempo, não sim me parece. Às vezes ouço ou
me passava pela cabeça que um dia a “brincadeira” de leio julgamentos baseados sim- • O que é um bom leitor?
escrever histórias em cadernos pudesse me conduzir ao plesmente na fala dos autores. O Aquele que sabe ler nas en-
mundo dos escritores, criaturas que eu enxergava co- autor pode blefar quando fala de trelinhas, nos silêncios do narrador.
mo sagradas. Somente aos 17 anos, quando entrei na si ou de suas impressões sobre is-
universidade, e passei a escrever crônicas e contos para so ou aquilo. Alguns chegam a • O que te dá medo?
jornais da minha cidade, fui me dando conta de que ficcionalizar seus processos criati- A morte dos que amo.
nada me dava mais prazer do que mergulhar naquele vos, e até a própria vida, a fim de
universo de imaginação e palavras. torná-la mais atraente a quem os • O que te faz feliz?
ouve ou lê suas entrevistas. Acre- O contato com a natureza,
• Quais são suas manias e obsessões literárias? O pássaro secreto dito que o que de fato importa, a especialmente, o campo.
Passar meses com o (a) protagonista se construin- MARÍLIA ARNAUD verdade autoral, está nos livros, e
do em mim, numa espécie de simbiose, de maneira KDP (e-book) sobre eles deveria recair a curiosi- • Qual dúvida ou certeza guiam
198 págs.
que, passo a passo, ele (a) vai se revelando — afetos, dade de leitores e colegas de ofício. seu trabalho?
desafetos, medos, esperanças, desamparos — e se aden- A certeza de que serei uma
sando, e desenrolando sua história. Então, quando jul- • Um autor em quem se deveria ficcionista até o fim da minha vida
go que estão prontos para serem narrados, começo a prestar mais atenção. — se houver saúde para tanto —,
trabalhar com a escrita propriamente dita. Verdade Lucila Losito Mantovani, mesmo que isso signifique nenhu-
que, muitas vezes, as narrativas tomam um rumo dife- Maria Fernanda Elias Maglio, ma publicação ou leitura.
rente daquele que vinha se delineando mentalmente, Rosângela Vieira Rocha, Ana
e os personagens, absolutos, acabam me atropelando • O que lhe dá mais prazer no Cristina Braga Martes, Davi Boa- • Qual a sua maior preocupa-
com suas ações inimaginadas. processo de escrita? ventura, Chico Lopes, João Sa- ção ao escrever?
A escrita em si, quando vou raiva, Leonardo Almeida Filho... Contar uma boa história,
• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia? arquitetando universos, ações e Lamento, mas não consigo citar sem abrir mão do cuidado com a
Um trecho de romance ou um conto, antes de emoções de personagens, e me en- apenas um. linguagem.
dormir. Mais raramente, poemas. trego ao fluxo da narrativa, à pai-
xão da alma, à voz de que falava • Um livro imprescindível e um • A literatura tem alguma obri-
• Se pudesse recomendar um livro ao presidente São Tomás de Aquino. E quando descartável. gação?
Jair Bolsonaro, qual seria? trabalho a linguagem, buscando Imprescindível: S. Bernar- Nenhuma.
Se a leitura de um único livro pudesse humani- dar ao texto uma densidade poé- do, de Graciliano Ramos. Des-
zar alguém, eu recomendaria ao presidente Jair Bolso- tica, uma força lírica. cartável: todos os recheados de • Qual o limite da ficção?
naro o romance Torto arado, de Itamar Vieira Junior. literatices. Não há limite para a ficção.
• Qual o maior inimigo de um A ficção pode tudo. Há uma gran-
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever? escritor? • Que defeito é capaz de des- de liberdade na criação literária.
Vontade e solidão, se possível, acompanhadas O maior de todos, a pressa; truir ou comprometer um li-
de café. outro, o desejo de ser original a vro? • Se um ET aparecesse na sua
qualquer custo, e ainda o de agra- Os experimentalismos va- frente e pedisse “leve-me ao seu
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura? dar a um certo público leitor, por zios e presunçosos. líder”, a quem você o levaria?
Leio em qualquer circunstância. Diferentemen- exemplo, a críticos literários. Se o Não o levaria a ninguém.
te da escrita, nada me tira a concentração quando es- escritor parte desses desejos, é pro- • Que assunto nunca entraria
tou lendo um bom livro. vável que seu livro nasça fraco; na em sua literatura? • O que você espera da eterni-
pior das hipóteses, morto. Não faço restrição a ne- dade?
• O que considera um dia de trabalho produtivo? nhum tema. Qualquer um, o mais Às vezes, como agora, nada.
Às vezes, a escrita de um único parágrafo acaba • O que mais lhe incomoda no banal e o mais impactante podem Em momentos de fé, o reencon-
sendo mais significativa do que a produção de três ou meio literário? render uma boa história. tro com os meus mortos, além de
quatro laudas; um parágrafo que releva uma imagem O fato de algumas pessoas uma biblioteca com todos os li-
em palavras, que fluem no ritmo saboreado pela lín- se interessarem mais pelos escri- • Qual foi o lugar mais inusi- vros que não vou ter tempo de ler
gua, no ritmo que intuo certo. tores do que por seus livros. As- tado de onde tirou inspiração? ou reler nesta vida.
18 | ABRIL DE 2021
INSTINTO DE
ratura deveria ser diferente da ima- to que a literatura deva ter funções
nência de todas as coisas? Aqueles específicas que sirvam apenas a de-
que conseguem determinar qual é terminados grupos. E consideran-
SOBREVIVÊNCIA
a sequência lógica, temporal, bi- do o território de abrangências e
nária e exata da vida, que atirem a de liberdade em que a literatura es-
primeira lança. Não é à toa que vo- tá situada, não há porque a repre-
cê se sinta atingida e/ou capturada sentação e a (re) escritura de todos
por alguns dos enigmas presentes. os corpos possíveis não sejam con-
Sinto esse rajar desconstruído e só- templadas. A diversidade da nossa
lido do mundo em seu O inven- sociedade não deve estar à parte da
tário das coisas ausentes, assim literatura que marca os nossos dias.
Conversa com de alguma maneira, provocar, para como no meu Oito do sete: nos-
Cristina Judar que algo diferente aconteça. sas prosas, tão inteiras, apresentam Carola: Eu vejo a literatura
o universo contido em um detalhe como uma forma de construir rea-
2. de asa de borboleta, sobre o qual, lidades, nesse sentido é uma ferra-
Carola: A leitura do seu li- ao fazer uso da linguagem, coloca- menta de construção de mundos,
vro Oito do sete foi bastante in- mos uma lente de aumento. inclusive o que ainda não foi pen-
comum. Fiz uma primeira leitura sado. Talvez esse aspecto seja o que
“linear”, do início ao fim, mas de- Carola: Que bonito o que mais me atrai, a literatura como
1. pois o texto continuou em peque- você diz. E é bonito esse diálogo possibilidade de um futuro ainda
Carola: A gente começou a conversar por nas leituras fragmentadas, e o livro entre os livros (pensando no In- não imaginado, e que a gente vai
causa da antologia que você e o Fred (Di Giaco- parecia ganhar cada vez mais in- ventário e no Oito do sete), uma construindo nessa teia de relações
mo) organizaram: Pandemônio — nove narra- tensidade. Há algo de enigmá- espécie de conversa expandida, na e rupturas, que é sempre uma teia/
tivas entre São Paulo-Berlim. Quando vocês me tico nele, algo que me atinge, e qual entram não só aquilo que a tela comunitária. No fundo, uma
pediram um conto, eu pensei, não consigo, não sou ao mesmo tempo escapa. Desta- pessoa fala, mas também o que forma de romper com as repetições,
capaz de pensamentos organizados, e no final aca- co aqui um trecho: “É difícil con- ela escreveu, seus personagens, os com esse eterno retorno. Uma rup-
bei escrevendo uma espécie de micro-conto, numa vencer alguém sobre o que eu vou mundos que ela criou, os mun- tura que não é uma linha em dire-
linguagem muito diferente da que costumo usar. contar, mas quando olhei pela ja- dos ainda por criar, essa fala do in- ção ao futuro, e sim um estilhaço,
Então fiquei pensando que a angústia me obrigou, nela da sala de espera, a cor do consciente, esses desdobramentos. em todas as direções possíveis.
e ainda obriga, a buscar outras formas de escrita. céu era mais artificial do que a da Mundos conversam, reverberam,
Longe do romance. Como foi/está sendo para você caixinha forrada de veludo azul como se cada encontro fosse uma Cristina: Lindo! A possibili-
escrever e pensar a pandemia em meio à pandemia? que eu trazia. Eu me sentia como imagem de caleidoscópio. dade de, com a literatura, compor
uma mulher-concha, detentora dias, tempos impensados, existên-
Cristina: Eu gostei muito da forma com que de uma pérola gerada no meu in- 3. cias e realidades que nos escapam.
o Fred definiu o conto Restituição, que você escre- terior, mas a mim desconhecida. Carola: Em O manifesto Essa ideia de tecer o novo com as
veu para a antologia: um bonsai. É exatamente essa Mantive-a próxima ao peito, a cai- contrassexual: práticas subver- palavras me atrai muito, é coisa de
a impressão que ele me passa. A de uma imensidão xa deveria estar livre de qualquer sivas de identidade sexual, Paul magista, alquimia pura — quero e
condensada. Como se, ao lê-lo, mergulhássemos ameaça”. Essa caixa me remete B. Preciado faz a seguinte afirma- vou pensar mais sobre isso.
em todas as imagens microscópicas que podem es- à caixa azul do Mulholland dri- ção (citando Judith Butler): “O
tar contidas em uma gota d’água. Você não traba- ve (Cidade dos sonhos), do David sistema sexo/gênero é um sistema 4.
lhou só com o tempo-espaço, com a linguagem e Lynch, pois no filme há uma cha- de escritura. O corpo é um tex- Carola: Importa que histó-
seus significados. Trabalhou com proporções. E isso ve (também azul). Para mim a cai- to socialmente construído. (...) rias escolhemos contar?
fez toda a diferença. Neste período temos nos rein- xa é a torção na fita de Moebius, A (hétero) sexualidade, longe de
ventado, não é? Estamos dando os primeiros passos a travessia possível entre o lado de surgir espontaneamente de ca- Cristina: Elas importam
em relação a tanta coisa. E é claro que, com a es- dentro e o lado de fora. Uma ideia da corpo recém-nascido, deve se tanto quanto as histórias que nos
crita, não poderia ser diferente. Eu também tenho que sempre me fascinou. E ago- reinscrever ou se reinstruir atra- escolhem para ser contadas. O
criado formas, mesmo que de maneira inconscien- ra pensei em [Ricardo] Piglia, que vés de operações constantes de que, quando nos entregamos ao
te, de me manter nessas águas turvas e atribuladas dizia que toda crítica é uma auto- repetição e recitação dos códigos exercício da escrita, pode ser mui-
(e sem boia), que definem a nossa realidade. Além biografia. De certa forma, toda lei- (masculino e feminino) social- to comum. Sem contar os casos
de trabalhar na organização da antologia Pande- tura é autobiográfica. Mas como mente investidos como naturais”. em que o trajeto faz mais sentido
mônio, que nasceu exatamente nesse período, dei estou fazendo associações aleató- Me interessa especialmente a fra- do que o destino em si. Gosto de
início a um projeto no meu Instagram pessoal: são rias (talvez nem tanto), me vem à se “o corpo é um texto socialmen- trabalhar com um objetivo claro,
as Notas do desespero pandêmico. Falo sobre gênero mente um outro texto seu, cito o te construído”, que se dá a partir mas penso que, ao cruzar o rio, as
e identidade, sobre minhas pulsões e conflitos, nes- seguinte trecho: “Engoliria garra- de uma escritura. Uma narrativa margens precisam ser amplas, pa-
sas notas curtas e afiadas nascidas de lampejos. Sem fas com mensagens em papel para que nos é imposta desde muito ce- ra que aquilo que se diferencia da
contar que, nesses meses todos, ainda finalizei o ro- que alguém dentro de mim a les- do, nas escolas, nos filmes, na TV, exatidão de um “plano de traba-
mance Elas marchavam sob o sol [a ser publicado se (em caso de necessidade). Nem nas palavras ao redor, inclusive lho para a construção de um li-
em breve pela Dublinense], que apresenta a vivên- peixe, nem homem, saltei, afun- nas palavras que nos constituem. vro” possa ser somado àquilo que
cia do cárcere a partir das histórias de mulheres de dado e náufrago”. É possível reescrever o corpo? E já fazia parte do “script”. Que no-
diferentes gerações e contextos históricos, culturais qual poderia ser a função da lite- vas vozes surgiram? Que sonori-
e sociais. Nesse novo livro, ancestralidade e realida- Cristina: Suas associações ratura nessa tarefa? dades? Quais foram as narrativas
de coexistem, além de criar novas narrativas e sen- também me fazem pensar no ci- paralelas? Quais mudanças de tra-
tidos. Quando olho para trás, mal acredito que dei nema de Alejandro Jodorowsky; Cristina: Ah, eu gosto tan- jeto se apresentaram? Muitas ve-
conta disso tudo. Não sei bem de onde tirei tanto na pele renovada da serpente de to desses trechos que você citou, zes, a literatura é fruto único desse
estímulo. Puro instinto de sobrevivência, imagino. Oxumarê, que circunda e renova até por todas as leituras que, a par- extrato marcado pela imprevisibi-
A escrita é a minha alternativa de sobrevivência. o planeta; e, principalmente, em tir deles, são possíveis. Quanto à lidade. Ou, melhor dizendo, ela é
bonecas matrioskas — um corpo minha literatura, isso represen- um híbrido de todos os processos
Carola: Instinto de sobrevivência, sim, com que abriga outro corpo, que abriga ta uma parte significativa do que e vivências que atravessam o pro-
certeza. A pandemia trouxe à tona a imprevisibili- uma joia, que abriga um coração tenho buscado, mesmo que in- cesso de criação.
dade do mundo, essa coisa crua, o caos e a morte (e assim por diante). Tenho refle- conscientemente, há alguns anos.
com sua irrealidade. Talvez a escrita seja uma for- tido sobre abrigos que são cárcere, A maneira como Paul B. Precia- Carola: Sim, concordo to-
ma de criar algum tipo de sentido, mesmo que fora celas que são berço e acolhimento, do abriu minha cabeça para o en- talmente com a necessidade de
da lógica, algum tipo de sentido e também um cor- corpos que são morada e aprisio- tendimento do corpo-texto tem margens mais amplas. Você usa a
po capaz de seguir em frente. Algum tipo de vida. namento. Trata-se de algo recor- sido significativa para a minha metáfora do rio, eu costumo usar
Ah, são lindas as suas Notas do desespero pandêmico! rente em uma parte considerável criação, narrativas e personagens. a da bicicleta. No início eu estava
do que escrevo hoje, até por tudo É maravilhoso testemunhar cor- muito ocupada em não cair da bi-
Cristina: Fico feliz em saber que você leu algu- o que temos vivido, nas mais dife- pos e existências serem conhe- cicleta, em não ser atropelada, em
mas delas! Gosto de pensar nas redes como um terri- rentes esferas. Cito aqui a estrofe cidos e reconhecidos nas letras, não atropelar alguém. Com o tem-
tório que ainda deve ser explorado, como partes de de Diane di Prima em sua Revo- embora as representações de um po isso foi ficando mais automáti-
corpos que são interditadas para determinadas fun- lutionary Letter #49: “You are po- suposto “sujeito universal” ainda co, o domínio técnico, e eu passei
ções, ao mesmo tempo em que liberadas para ou- litical prisoner locked in tense body/ sejam as predominantes. Ao con- a gostar mais do passeio, a esquecer
tras. E se subvertermos essa ordem, o que acontece? You are political prisoner locked in versar com amigos escritores, com a bicicleta e olhar para a paisagem,
Eu sempre vou querer saber o que pode acontecer e, stiff mind”. Sobre o que é inalcan- alunos de oficinas, com leitores, hoje em dia olho com grande inte-
ABRIL DE 2021 | 19
resse para a paisagem, para aquilo o desencanto promovido pelo co- constatação de que eles, de fato, vão além do sangue sistente, com a inteireza dos troncos
que pode surgir, essa imprevisibi- lonialismo/neoliberalismo não e/ ou não estão atrelados a ele) e que a literatura, da aveleira. As marcas milenares de
lidade que você fala. Acho que an- nos destrua de vez: “Assim está como uma arte que (também) espelha a experiên- sua pele trazem repertório para os
tes eu estava mais preocupada em lançada a tarefa do encantamen- cia humana, seja um território propício para a di- seus atos e ela sobrevive, rústica em
chegar (sã e salva) a algum lugar, to: afirmar a vida neste e nos ou- versidade que nos cerca. E que infinitas relações meio aos estímulos criados pelos in-
hoje me interessa mais o que sur- tros mundos — múltiplos feito as e conexões entre pessoas, seres e realidades sejam teresses da sociedade de consumo.
ge na paisagem, um coelho, uma folhas — como pássaros capazes apresentadas ao leitor. Em Oito do sete, o perso- Estejam atentas ao senso de perigo
árvore, ou até a descoberta de que de bailar acima das fogueiras, com nagem Serafim — que voa por seis céus, ao mes- que duas mulheres unidas desper-
a paisagem era só isso, um cenário, a coragem para desafiar o incêndio mo tempo em que percorre as entranhas da terra tam nos homens. É quase um acin-
parte de um teatro. e o cuidado para não queimar as — personifica essa intenção, bem como Roma, a te, uma perda de chão, saberem-se
asas. Chamuscados, feridos, mas cidade que é apresentada ao leitor como uma se- nada fundamentais, de mastros
Cristina: Sua metáfora da plenos e intensos, cantando por nhora falastrona, que conta suas histórias e tem as substituíveis. Não se deixem im-
bicicleta é mesmo muito boa. É saber que a vida é voo”. ruas e monumentos como partes de seu corpo. Es- pressionar por expressões faciais,
exatamente isso. sa discussão também me faz lembrar de Argonau- pelas palavras e trajes dos homens
6. tas, de Maggie Nelson. As várias possibilidades de do poder, por mais duros, secos e
5. Carola: Em Staying with conexão em uma estrutura familiar queer estão en- bem cortados que estes sejam”.
Carola: Tenho pensado the trouble (uma das leituras que tre os pontos de destaque do livro.
muito no lugar da alegria, da ce- mais me impactaram nos últimos Cristina: Obrigada, Carola!
lebração nestes últimos tempos, tempos), Donna Haraway apre- Carola: E eu acabo (sempre) voltando a [Gil- Elas marchavam sob o sol mar-
tempos de angústia, tempos de senta a seguinte ideia: “Al borde les] Deleuze, em sua crítica ao Édipo freudiano. ca um novo momento, agrega re-
morte. Por um lado, sinto a ale- de la extinción no es solo una me- É interessante pensar que reinventar parentescos, flexões que me acompanham há
gria quase como um desrespeito ao táfora; colapso del sistema no es una construir outras formas de família (ou antigas for- tempos sobre o encarceramen-
sofrimento, por outro, me parece película de suspense. Pregunten sino mas, se pensarmos, por exemplo, no conceito de to de tantos “corpos que impor-
que a alegria é sim, uma ferramen- a cualquier refugiado, de cualquier família para muitas culturas indígenas, mais cen- tam” pela indústria e comércio,
ta de resistência, uma força revolu- especie. El Chthuluceno necesita un tradas na comunidade, menos na relação triangular pela estética, pela religião, pelos
cionária. A alegria no sentido do eslogan, al menos (desde luego, más pai-mãe-filho), é também uma forma de abrir no- sistemas de crenças, pelas etapas
encantamento, e do aspecto dio- de uno). (...) propongo ‘¡Generen vas possibilidades para o inconsciente e suas marcas, tidas como naturais e ideais na vi-
nisíaco da vida. Lembrei daquela parientes, no bebés!’. Generar — y talvez mais diluídas, afastadas do drama burguês, da das pessoas, mas que, de fato,
frase maravilhosa (do livro Encan- reconocer — parientes es quizás lo talvez menos egocêntricas e mais livres, sim, tal- não passam de porteiras para a sala
tamento, de Luiz Antonio Simas e más difícil y urgente” (preciso pro- vez mais livres. de abate. Para mim, foi um exercí-
Luiz Rufino), que diz que “o con- curar no original). Obviamente, cio importante espelhar realidades
trário da vida não é a morte, o con- Haraway não está dizendo para Cristina: Sim, é preciso contestar as regras es- que, aparentemente, nada têm em
trário da vida é o desencanto”. as pessoas não terem mais filhos, tabelecidas pela/para a “Santa Família”... Quando comum, mas que, quando obser-
mas está apontando para a neces- nos permitimos compor ou participar de diferen- vadas com maior cautela, revelam
Cristina: Haverá fôlego su- sidade de outros tipos de afetos e tes composições familiares, desprogramamos mui- ter uma mesma raiz. As vivências
ficiente para a vivência do luto e a conexões para além da família de to daquilo que é perpetuado como incontestável e das personagens principais, Ana
preservação da alegria que nos é de sangue. Gerar parentes seria esta- absoluto. Formar núcleos e agrupamentos únicos e Joan, que estão há 12 meses de
direito, como força de resistência? belecer relações de troca e cuidado são pequenos atos de rebelião, consumados no inte- completar 18 anos de idade, são
Penso que o encantamento deve com uma série de outros seres, hu- rior dos lares, das comunidades, dos apartamentos, o pilar do livro, que também se
ser preservado por nós como uma manos e não humanos. É algo que quintais e florestas (e também nas ruas), isso abre desdobra em várias camadas —
joia brilhante e pulsante, apesar de me interessa muito, na vida e na espaço para que toda a rigidez ao nosso redor pos- de outras vozes, corpos e presen-
toda a escuridão que há ao redor. literatura. Dar voz a outros sujei- sa ser, ao menos, enfraquecida, as pessoas tornam- ças, atuais e ancestrais. Como as
Com boas doses de fúria criativa tos. Você faz isso em seu livro, tal- -se mais felizes e, como você bem disse, mais livres. de mulheres que foram presas po-
e de respeito por quem veio an- vez daí me venha a conexão com Essa fala pode parecer um tanto quanto utópica ou líticas no Brasil, por exemplo. Es-
tes e abriu as portas para que, ho- o pensamento da Haraway. ingênua, mas é isso o que sempre procuro praticar sas camadas narrativas apresentam
je, pudéssemos estar aqui. Quanto — e já tive experiências muito boas nesse sentido. uma parte considerável do que
ao livro de Luiz Antonio Simas e Cristina: Isso também me vivemos como aprisionamento,
Luiz Rufino... é realmente ma- interessa muito. A ponto de eu 7. bem como tudo o que ainda po-
ravilhoso! Destaco o trecho final me sentir à vontade para praticá- Carola: Seu novo livro, Elas marchavam sob de ser resgatado como sinônimo
dele, que nos serve como guia e -la, para senti-la na pele, cotidia- o sol, é uma espécie de romance-caleidoscópio que de liberdade. E a poética — assim
lembrete daquilo que temos como namente. Ao menos para mim, tudo atravessa. É lindo esse livro. Destaco um tre- como a crueza — da existência de
herança e tradição no Brasil, um essa experiência é muito real e cho: “Você a reconhecerá, não importa quem ou o todas essas personagens compõem
manancial ao qual devemos aces- significativa. Que os laços afetivos que estiver ao redor: de cabelos de córrego e olhos de este meu novo romance.
sar, sempre que possível, para que possam ir além do sangue (ou a amêndoa, braços de asa e pernas de espada, ela é re-
8.
Ilustração: Carolina Vigna Carola: Tem um poema
da Alejandra Pizarnik (eu sempre
volto a ela): La palabra que sana.
PLATAFORMA
denunciando o enorme corte orçamentário que o
Governo Federal está praticando contra o “orça-
mento do conhecimento” destinado às universida-
DE VOO
des federais, ao Ministério da Ciência, Tecnologia e
Inovação, à Capes, aos institutos tecnológicos e aos
centros de pesquisas.
Pela proposta orçamentária de 2021 (PLOA)
do presidente da República e seu ministro da econo-
mia, teremos o menor “orçamento do conhecimen-
to” desde 2007. Se somadas as perdas acumuladas
desde 2015, início do aprofundamento da crise po-
lítica-institucional brasileira, as perdas somam mais
de R$ 80 bilhões. Dos R$ 34,1 bilhões de 2014, pro-
jeta-se para 2021 R$ 7,9 bilhões.
Como a história não perdoa, e ela acontece
diariamente, o patético ser que ocupa o Ministério
da Saúde, teve que admitir publicamente neste dia
10 de março de 2021, aos principais canais de TV e
para todo o país, que as únicas vacinas contra a pan-
demia da morte que o Brasil terá no período próxi-
mo são aquelas fabricadas pelos institutos Fiocruz e
Butantan. Os negacionistas e terraplanistas que cor-
tam o orçamento da área acadêmica, que praticam
o populismo barato e cruel, que boicotam o desen-
volvimento científico, a educação e a cultura nacio-
nal, se socorrem agora nos institutos de pesquisa e na
ciência forjada nas universidades e centros altamen-
te tecnológicos públicos para responderem minima-
mente ao clamor popular por vacinas para todos.
O velho Darcy Ribeiro e sua célebre frase, “a
crise de educação no Brasil não é uma crise, é um
projeto”, ecoam novamente. Precisamos de uma vez
por todas barrar esse projeto que inviabiliza qualquer
desenvolvimento sustentável do país.
Muitos de nós, literatos e artistas, promotores
culturais e agentes educacionais, entre tantos que se
afiliaram profissionalmente às humanidades, mui-
H
tas vezes consideramos que a literatura e as lutas pe-
á dias, como o de ho- É o velho amigo Bartô, que fazer as inter-relações que faz o lo livro e a leitura para todos são objetos distintos das
je, que só os amigos escapou desta bestialidade do pre- elefante do Bartô, porque acham demais lutas emancipatórias do povo brasileiro. Pen-
que me cercam, enfi- sente, mas nos deixou tantas pa- que liberdade e democracia são so e afirmo que esta é uma atitude enganosa porque
leirados nas estantes à lavras, essa coisa perigosa que nos firulas de “maricas”, desejos exó- desdenha da política, elo das nossas ações na polis.
minha volta, conseguem me dar faz pensar e ordenar pensamentos. ticos de intelectuais e artistas de- Compreender e lutar contra as medidas des-
respostas e me fazer respirar. Ne- A “carga do passado” que cons- socupados. Mas o elefante que trutivas das atuais políticas públicas em seu conjun-
les, busco o ar que pode oxigenar truímos desde 1º de janeiro de sonha o sonho do nosso amigo to, como a degradação de investimentos em ciência,
meu coração e meu cérebro para 2019, consolidando a destruição escritor sabe que, sem liberda- tecnologia e educação, só obterá resultados transfor-
poder refletir, minimamente, e so- em marcha desde 2015 de polí- de, o nosso passado, que no dia madores se raciocinada e praticada holisticamente
breviver, com luta e esperança ati- ticas públicas inclusivas e acolhe- de hoje também soma 270.917 com outras lutas reivindicatórias de outros seto-
va, neste território insano que se doras dos desvalidos desta nação mortes pela pandemia em 12 me- res. Isto significa que lutar pela implantação de um
transformou o Brasil e sua necróti- construída sobre a exclusão e o es- ses, jamais se transformará em lockdown nacional e vacinas suficientes para todos,
ca política pública conduzida por cravismo, não nos deixará jamais. um mundo melhor. no combate à pandemia orientado pela ciência, deve
exterminadores do presente. O passado não é para ser esque- Se estamos fartos da necro- ser considerado como obrigação de todos, similar à
O dia de hoje, em que es- cido, o ontem precisa fazer parte política, se queremos sair deste necessidade das nossas lutas históricas pela formação
crevo esta coluna, já começa a se de nosso ser, do nosso coletivo, da poço de sarcasmos sanguinários, de leitores proficientes, pela preservação dos nossos
transformar em passado, mas será comunidade de sujeitos que que- contínuos e grotescos, temos que escritores, editoras, livrarias e bibliotecas, temáticas
um dia tristemente histórico por- remos construir, até porque, como manter a qualquer custo as nos- que, sempre afirmamos, são tarefas de toda a socie-
que superamos no país, pela pri- nos diz Herbert Marcuse, “esque- sas liberdades democráticas co- dade brasileira e suas instituições.
meira vez desde que a Covid-19 cer é também perdoar o que não mo cidadãos em um país onde Oscar Wilde nos dizia que “o Estado deve fa-
surgiu, a horrível marca de mais seria perdoado se a justiça e a li- prevaleça o estado de direito na zer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é be-
de dois mil mortos diários. Fo- berdade prevalecessem”. política pública. lo”. Caberá a nós, no exercício de nossa liberdade,
ram ceifadas precisamente 2.349 Se não nos desfazemos da Será essa liberdade cidadã fazer o futuro mais belo, reivindicando políticas pú-
vidas, número que precisa ser exa- carga do passado, é preciso saber que poderá abrir caminhos e nos blicas necessárias ao bem estar coletivo.
to, justamente porque cada um o que fazer com ela, como tratá- dará coragem para a luta voltada Já terminava essas leituras compartilhadas
deles significa seres humanos que -la, como ela pode se tornar insu- à construção da história que esco- quando um outro amigo sai das prateleiras e me aler-
se foram definitivamente, derro- mo de um futuro utópico, aquele lhermos viver no futuro. ta para um possível estado que, sempre à espreita, só
tados pela política pública basea- que é “um projeto de futuro”, Se a mantivermos, se resis- será evitado pela nossa resiliência irrestrita:
da na necropolítica praticada pelo lembrando novamente Marilena tirmos às cada vez maiores inves-
mais alto mandatário da Repúbli- Chauí e a possibilidade de trans- tidas autoritárias e proto-fascistas distopias
ca e seus consorciados. formar a realidade. que nos ameaçam diariamen-
Um dos meus amigos salta Navegando nesses pensa- te em declarações bombásticas e o lugar possível deixou de existir.
da estante e me lembra sua his- mentos, o elefante de Bartô vol- twitters amedrontadores, pode- tornou-se nada,
tória sobre um elefante: “Seu an- ta-se novamente para mim e me remos construir o futuro nas lu- um tristemente nada.
dar perdido, pisando em dúvidas, diz: “Busquei me proteger debai- tas do presente. Lutar pelas boas
parecia transportar o passado em xo da asa da liberdade para não pautas antiregressivas que se apre- a televisão anuncia os próximos capítulos,
suas costas. Não se desfaz da carga interromper a história que vivia sentam fartamente nas propostas a rua,
do passado. Ele sabia que o futuro sem escolher. É preciso se ani- governamentais não é apenas um seus cacos de vozes.
é só matéria de fantasia”. (Bartolo- nhar na liberdade para ganhar dever da cidadania, mas um ato
meu Campos Queirós, Elefante, coragem e lutar”. de liberdade na construção do fu- (Leonardo Tonus, Inquietações em tempos
obra póstuma, Cosac Naify, 2013) Muitos não conseguem turo antidistópico. de insônia, Editora Nós, 2019)
ABRIL DE 2021 | 21
CATEGORIAS
do mundo ocorram por meio de tro: um termo de calão, impróprio num gênero alto
operações regulares, a sua arquite- como a tragédia, poderia ser ajustado a uma sátira;
tura é sempre misteriosa, porque uma elocução engenhosa, com amplo uso de figu-
POÉTICAS
provém do seu Arquiteto original, ras de linguagem poderia ser adequada a um encô-
Deus, que se encontra na origem mio, mas inadequada a um sermão, cujo orador,
de cada evento. Sob o movimento para ser capaz de emitir “provas morais” a respei-
regular da natureza, está a “mara- to de si, deve se mostrar humilde em seu discurso.
ALTERNATIVAS
vilha” da Criação divina. Tal seria Atualmente, esses procedimentos decorosos
a razão pela qual o artista está ap- são apenas ruínas. Por isso mesmo, hoje, o mais co-
to a descobrir relações ocultas nu- mum é usar-se o termo “poema”, uma designação
À IDEIA DE
ma natureza que, na superfície, é genérica que se aplica a temas laicos ou sacros, quo-
apenas sucessão de eventos. tidianos ou afetivos de qualquer sorte. Já para um
Ou seja, na transferência autor dos séculos 16 ou 17, cada gênero de poesia
BARROCO (FINAL)
dessa metafísica católica para as está pensado em função de um tipo de afeto, pom-
preceptivas engenhosas, “artifício” pa ou circunstância. Por exemplo, em termos de
é o nome da operação intelectual poesia lírica, um soneto é uma forma equivalente a
que, analisando a regularidade dos um silogismo, que demanda um tipo de inteligên-
eventos, descobre a sede do “mi- cia demonstrativa. O ápice dela ocorre no desfecho
lagre” escondido neles. O belo, do último terceto, que prevê o rompimento da ex-
dentro disso, é a versão mais exce- pectativa criada pelo próprio soneto ao longo do seu
N
lente do verdadeiro, pois revela a andamento. Quer dizer, a forma fixa do soneto está
as duas colunas an- ser trazidas à discussão, pois, aqui, face divina oculta na natureza. Is- a serviço de um raciocínio cerrado, ordenado, que
teriores, falei de duas diversamente de uma concepção so também quer dizer que a “bele- se acompanha até o próprio desmentido, quando o
categorias poéticas — pós-kantiana, não há pensamen- za” é fundamentalmente generosa, verso de ouro fulmina a construção anterior, a fim
“agudeza” e “artifício” to estético autônomo — ou, se se pois introduz o homem à verdade, de produzir surpresa e admiração no leitor. Trata-se
— que podem dar uma perspecti- quiser, quando se fala de arte do pe- ao mesmo tempo em que a ofere- de um movimento ostensivamente intelectual, ajus-
va historicamente mais verossímil ríodo inicial moderno, não há pro- ce como objeto de gozo. tado à especulação amorosa, mas obviamente ina-
para a arte do período chamado priamente “estética”, pois não há Isto posto, passo à tercei- dequado para ambientes “rústicos”, que demandam
de “barroco”, termo que não era uma concepção da autonomia do ra categoria poética relevante na outros recursos de decoro, fingidamente humildes.
empregado pelos artistas ou pre- objeto artístico. Para um preceptista compreensão da noção anacrôni- Críticos pós-românticos que ignoram ou
ceptistas da época. Antes de falar do período, a “natureza” é, ela mes- ca de barroco: “decoro”. desdenham a regulamentação retórico-poética apli-
de uma terceira categoria, gosta- ma, um “artifício” do engenho de O sentido de “decoro” per- cada ao caso, tendem a ler qualquer obra com a
ria de especificar que, nas poéti- Deus que cria o mundo organizado tinente ao período inicial moder- mesma liberdade com que leem um “poema” de seu
cas dos séculos 16 e 17, a noção segundo a sua Vontade, sustentan- no diz respeito a procedimentos próprio século — e, por vezes, sentem-se à vonta-
de “artifício” não é análoga a “ar- do-o por meio de “causas segundas” técnicos de ajuste eficaz às diferen- de até mesmo para acusar a falta de “sinceridade”
tificial”, nem contrária a “natural” que operam dentro da mesma na- tes situações oferecidas pela vida dos autores do período “barroco”, os quais, ao fa-
ou “verdadeiro”. Bem ao contrá- tureza. Vale dizer, a natureza é uma — especialmente na Corte, cuja lar de amor, apenas o fazem por meio de operações
rio, ela ajusta verdade e natureza espécie de “máquina” ou “fábrica”, etiqueta era altamente regulada. analíticas sutis. Trata-se de uma crítica anacrôni-
à ideia de “beleza”. A rigor, numa entendida como um mecanismo ar- Aplicado à obra de arte, o deco- ca, que opera com a ideia de “unidade psicológica”
poética engenhosa, pode-se dizer tificioso que é gerado pela Providên- ro refere sobretudo a concordân- ou de “interioridade” do autor, numa concepção
que o artifício é a mediação mais cia divina e cujo conjunto de partes cia entre as partes em favor da sua universal e trans-histórica, que simplesmente não
produtiva entre o “belo-artístico” e funções particulares pode operar unidade final. Por exemplo, o ar- funciona para uma composição regulada pela con-
e o “natural-verdadeiro”. regularmente por si mesmo. tista deve observar a conveniên- veniência programada dos decoros de gêneros.
Para se entender essa media- Alternativamente, a ques- cia entre o ornato da elocução e a Se não se tratar de análise amorosa, mas de
ção, categorias teológicas precisam tão também pode ser formulada matéria da invenção: assuntos bai- matéria fúnebre, o poeta engenhoso não escolheria
a forma do soneto, mas da elegia, ou quem sabe do
epitáfio; caso prefira a prosa narrativa ao verso, po-
de ser que escreva um panegírico. Cada uma dessas
formas tem uma medida entre res e verba, vale di-
zer, entre a matéria e a sua apresentação mimética,
conectadas convenientemente entre si. Por exem-
plo, se o poeta quer produzir uma epopeia, convém
usar o hexâmetro datílico, que é o mesmo tipo de
verso aplicado nas matrizes homéricas, cujo anda-
Ilustração: Aline Daka mento sugere uma marcação rítmica bélica. Por isso
mesmo, sendo um gênero elevado com andamento
grave, não seria decoroso aplicá-lo a uma matéria
obscena, a menos que se pretenda obter um tipo de
efeito satírico ou cômico, como o faz o português
Bocage (1765-1805), na Ribeirada:
V
mente ao Brasil atual.
O AUTOR
elhos demais para Os capítulos são alternados entre Cada um faz a leitura pos- tura, ofertado pela editora que dá
morrer é um romance os três, dando ao leitor a função VINÍCIUS NEVES MARIANO sível, claro. Sabemos, entretanto, nome ao concurso. A casa edito-
bem-feito: acerta ao de construir o painel da narrati- que procurar interpretar o nosso rial visa dar espaço a escritores e
Nasceu em Alfenas (MG). É roteirista,
propor uma distopia va. Ponto positivo para o autor, país a partir da literatura é um er- escritoras negros. Muito já se fa-
autor do romance Empate (2015)
em que os idosos não importam não subestimando a inteligência e do projeto Nenhum futuro
ro. O compromisso do romance é lou que literatura não pode ser
mais. Porque, mesmo apontan- de quem lê o romance. próximo (2020) — livro de contos
com a ficção. Velhos demais para confundida com panfletagem
do para um possível futuro, dia- veiculado no Instagram. Velhos morrer se sustenta como boa his- política. O debate está em aber-
loga claramente com o presente. Um mundo diferente demais para morrer venceu o tória pois impacta o leitor. Aliás, to, mas já fique registrado que o
Também há méritos pelo ritmo É nítida a capacidade de es- Prêmio Malê de Literatura 2019. em se tratando de impacto, vale romance não se pauta por uma
em que a narrativa é contada, já crita de Neves Mariano, que já chamar a atenção para a casa Felix questão específica.
que, depois de iniciada a leitu- soma dois outros livros e traba- Mortem, espécie de igreja onde o Neves Mariano, por meio
ra, é difícil deixar o livro de la- lhos como roteirista. Para susten- culto é para celebrar quem irá para da distopia, leva-nos a pensar so-
do. Um sopro de inteligência e tar o mundo distópico, o autor o além de forma voluntária. bre as constantes reformas polí-
entretenimento no mercado li- colocou o período da história no ticas, econômicas e sociais pelas
terário brasileiro. futuro. O ano escolhido é o seis O funcionamento de uma quais passamos; a discutir sobre
Vejamos a premissa. Ao da década oito do século zero do Casa de Felix Mortem era sim- como sobreviver em uma socie-
atingir a idade zero (o que nós milênio dois, embora em alguns ples: na recepção eram feitas as dade que está envelhecendo; a re-
chamamos de 65 anos), a pessoa momentos passado e presente se- inscrições dos voluntários. Qual- fletir sobre o que é e o que poderá
deve deixar o emprego e morrer. jam alternados. O que nós acom- quer idoso, saudável ou não, ativo ser a resistência. A maior parte dos
Simples assim. Entre outros mo- panhamos é o período Hebeísta, ou não, independentemente de sua personagens não tem marcação de
tivos, para salvar a economia. O palavra derivada de Hebe, a deu- classe social, raça ou origem, podia raça ou gênero, embora haja um
país em que a história ocorre — sa grega da juventude. se inscrever. [...] A Felix Mortem casal LGBTQIA+ em um dos ter-
não sabemos qual, mas tudo in- Daren, o jovem publicitário é fundamental para o reequilíbrio ritórios escuros (espécie de local
dica ser o Brasil — passou por de sucesso responsável por cam- econômico do país. para a resistência), além de mu-
mudanças durante o Ano Ana- panhas premiadas em prol dos lheres fortes e pessoas negras que
crônico. A previdência social não não idosos é, talvez, o guia da lei- Há humor involuntário são importantes. A representativi-
deu conta de sustentar aposenta- tura. Ao completar mais um ano também, como quando ficamos dade importa, sim, e escrever so-
dos, e não tem havido tantos jo- de vida, que não deve ser come- sabendo que os traficantes ago- bre tudo isso deve ter gerado riscos
vens assim. Velhos não devem morado, entra em crise e perce- ra não vendem drogas ou armas. na linha tênue entre a boa ficção e
existir; somente a juventude im- be que o local em que vive não é O comércio é outro: “Traficantes a militância. O autor se saiu bem.
porta, conforme o livro — e, se- tão cool quanto dizem ser. “Qual e falsários, encostados nos pos- A narrativa também cele-
jamos francos, de acordo com a o sentido de envelhecer em um tes de luz, bocejavam preguiço- bra autoras que, em nosso mun-
nossa realidade também. mundo que despreza a velhice?”, sos, pois ainda não tinham para do, são contemporâneas. Piedade,
São três os personagens ele se pergunta, e o questiona- quem oferecer certidões de nas- em um momento, lembra-se de
principais do romance: o publici- mento ressoa em nosso tempo cimento e registros de identifica- que foi influenciada por Carolina
tário Daren, que tem 30 anos res- presente, fora da obra. ção adulterados”. Maria de Jesus, Conceição Eva-
tantes como não idoso (35 anos O garoto Perdigueiro é um risto, Ana Maria Gonçalves: mu-
de idade); o garoto Perdigueiro, de Cão, um caçador de velhos. O Velhos demais para morrer Riscos corridos lheres negras, autoras necessárias
52 anos restantes (13 anos de ida- pai dele é uma Raposa, responsá- VINÍCIUS NEVES MARIANO Velhos demais para mor- para a resistência dela — e tam-
de); e a idosa Piedade, já viven- vel por matar os idosos entregues Malê rer foi publicado em 2020, pois bém para a nossa literatura. Para
do o ano zero (65 anos de idade). pelos Cães, e que depois deve le- 280 págs. venceu o Prêmio Malê de Litera- nossa resistência.
ABRIL DE 2021 | 23
ENTRE PRÁTICAS
E DESEJOS Ilustração: Maíra Lacerda
É
possível que já não se re-
pita tanto o mote: “Bra-
sileiro não lê, brasileiro
não gosta de ler”, mas
ele ainda é presente em muitos
debates envolvendo o mundo dos
livros. Se a pesquisa Retratos da
Leitura no Brasil, cuja última edi-
ção teve os dados divulgados em
2020, traz indicadores que podem
sustentar essas afirmações, é preci-
so considerar nossa realidade so-
cial, de extrema desigualdade e
sem políticas públicas efetivas para
que o “gosto” possa se fazer a par-
tir do conhecimento e do contato
com o objeto-livro. Apesar de tu-
do, muitos brasileiros leem. Nossa
experiência — seja em sala de aula
ou em biblioteca, seja com jovens
leitores ou com aqueles profissio-
nais que serão responsáveis pela
sua formação — nos mostra que
quando há acesso, estímulo, diá-
logo e acolhimento, a leitura po-
de se tornar um valor.
O valor da leitura — porque
leitura não deve ser apenas “gosto”
ou “hábito” — cria-se com a vi-
vência alimentada no exemplo e Procuramos, portanto, em A compreensão da impor- for do desejo do grupo ou de uma
no afeto. Para isso, é fundamental nossa prática, oferecer literatura tância da função perante o pú- pessoa, mas vale mesmo é falar so-
a figura do mediador ou da me- como matéria para incorporação blico de crianças e jovens que bre a leitura, saboreá-la.
diadora de leitura. Mas os media- à existência, nas condutas que de- atendiam durante o dia em seus Ainda com essa compreen-
dores não aparecem nas curvas dos vem movimentar sujeitos e obje- trabalhos fez com que encaras- são, eu, Maíra, encontrei no pro-
caminhos nem dão em árvores. tos de leitura, qualquer que seja sem, no horário noturno, um jeto Leitores sem Fronteiras um
São fruto de trabalho, em longa e o nível de ensino. Na graduação, curso que muitas vezes incluía o espaço para agir diretamente em
contínua formação, atendendo à em instituições públicas e priva- deslocamento entre municípios, um grupo de adolescentes, com
máxima de que para formar leito- das, eu, Nilma, privilegiei ativida- o paradoxo de eles mesmos não o objetivo de, a partir da leitura
res, é preciso antes ser leitor. des que primassem pela liberdade terem se formado leitores. Con- compartilhada de textos literários,
É antiga a demanda pela dis- e passassem longe dos controles siderando que essa é uma forma- prepará-los para que eles próprios
ciplina de Literatura nos cursos de tradicionais, em estímulo à troca e ção que nunca alcança um fim em se tornassem mediadores em seus
formação para o magistério, e são ao diálogo, sem incorrer em exces- si, mas que se constrói no soma- espaços escolares e comunitários.
pouquíssimos aqueles que imple- sos ou desvios quanto à produção tório de experiências, era no com- A convite de Christine Fontelles,
mentaram a medida. Nos cursos de sentidos. Um clima de aproxi- partilhamento, na leitura em voz me reunia semanalmente com es-
de Letras, há um consenso de que mação e compreensão em relação alta feita para o grupo e na con- tudantes do Ensino Médio para
os discentes são entusiastas da lei- ao texto desarmava argumentos versa que se seguia a respeito das ler e comentar textos — de Mon-
tura, o que não necessariamente é que pudessem suscitar dificulda- impressões individuais e coletivas, teiro Lobato a Machado de Assis,
verdade. Graduandos dessa área des em relação à leitura: em vez de que buscávamos nosso caminho. além de artigos críticos a respeito
provêm, em geral, de classes so- um mesmo livro para toda a tur- Ao defender que, ao con- da importância da leitura.
ciais sem acesso a livros e que em ma, propor um leque de opções, trário de ser disciplina que fique Era no diálogo que eles se
grande parte escolhem o curso em escolha livre, ou sugestões do gru- com as sobras da Língua Portu- formavam leitores e se preparavam
função da docência. Mas está aí po para trocas efetivas; vinculação guesa, a Literatura deva estar na para então conduzir os grupos de
um dos pilares fundamentais desse das obras às questões existenciais e base da descoberta dos usos da leitura de sua escola, na efetivação
impasse: não se costuma associar a sociais de uma época, por meio de língua, ocupando espaço no cur- do projeto “Jovens protagonistas”,
profissão com o fato de ser leitor debates e pesquisas. rículo do Ensino Médio, do Fun- do Instituto de Corresponsabili-
de literatura. Porque, reforçamos, Na Universidade Federal damental I e II, da Educação dade pela Educação — ICE, em
a referência que utilizamos em lei- Fluminense, trabalhamos am- Infantil, fazíamos a leitura acon- um efeito multiplicador. É inte-
tura é o texto literário — de qual- bas, Nilma e Maíra, por alguns tecer na sala de aula. Vale ler Cla- ressante pensar que, inicialmente
quer gênero, da epopeia ao rap. É anos, construindo, no curso de rice Lispector, Ferreira Gullar e voltado apenas para os alunos, o
ele que necessita de mediação em especialização em Literatura In- Conceição Evaristo desde a cre- projeto foi ampliado para alcan-
que afeto e gratuidade pelo ato de fantojuvenil, um projeto que che, conversar sobre as emoções, çar também a formação dos do-
ler se façam presentes. Nas licen- beneficiava a experiência da lei- as ideias suscitadas. Vale ler tam- centes, tamanha a estranheza e o
ciaturas em Letras e Pedagogia, tura a partir de uma compreen- bém Ana Maria Machado, Bar- desejo causado por uma ativida-
mais do que conhecimento técni- são multimodal do objeto-livro, tolomeu Campos de Queirós e de baseada unicamente na leitura.
co — que não deve ser desprezado abarcando a construção de sen- Marina Colasanti para além da Essas experiências refor-
— deve preponderar o pensamen- tidos do conteúdo verbal e vi- educação infantil. Quanto menos çam a nossa convicção: a forma-
to de Tzvetan Todorov, em A lite- sual. Encontramos, em grande tarefas forem associadas ao que se ção de leitores e de formadores de
ratura em perigo: “Longe de ser maioria, professoras, professores ouviu ou se leu, melhor, na me- leitores faz-se possível no ato de
um simples entretenimento, uma e bibliotecários escolares e comu- dida em que cabe à leitura mover ofertar caminhos e compartilhar
distração reservada às pessoas edu- nitários, com pouca experiência o sujeito para o deslocamento e escutas. Na soma das práticas e no
cadas, ela (a literatura) permite que na leitura literária que crianças a reflexão, e não derivar para ou- acréscimo de novos percursos, os
cada um responda melhor à sua também leem, mas com interes- tras atividades, exercícios, em ge- motes que regem o país podem se
vocação de ser humano”. se e desejo em adquiri-la. ral. Vale desenhar, vale escrever, se transformar.
24 | ABRIL DE 2021
T
FABIO SEIXO
O AUTOR
rês lançamentos dão mos-
tra da vitalidade e da varia- SILVIANO SANTIAGO
ção do trabalho de Silviano
Nasceu em Formiga (MG), em 1936. É
Santiago. Em 2019, a Cepe
crítico literário, poeta e ficcionista.
reeditou Uma literatura nos trópi- Doutor em Letras pela Sorbonne e
cos, saído originalmente em 1978 e professor emérito da Universidade
agora ressurgido em versão aumen- Federal Fluminense, lecionou literatura
tada. Na segunda metade de 2020, brasileira em universidades nacionais
a mesma editora lançou Fisiologia e internacionais. Publicou, entre
da composição, com que Silviano outros livros, Crescendo durante a
reflete acerca de obras de Gracilia- guerra numa província ultramarina
no Ramos e de Machado de Assis e (poesia, 1978), Em liberdade (romance,
estabelece, discretamente, uma rela- 1994) e Vale quanto pesa (ensaio,
ção entre sua narrativa e a dos dois 1982). Recebeu diversos prêmios
literários no Brasil e no exterior.
mestres. E, nos primeiros meses
deste 2021, a Companhia das Le-
tras manda para as livrarias Menino
sem passado, primeiro volume das
memórias do autor, escritas em for-
ma de romance. Ao falar de determinados
Antes de iniciar a crítica dos terceiros, é de si que Silviano San-
livros, importa registrar o prodígio tiago fala. Isso se estampa também
editorial que diz respeito aos dois em Menino sem passado (1936-
primeiros. A Cepe é uma editora 1948), autobiografia registrada na
de economia mista e de alto gaba- ficha catalográfica como ficção bra-
rito, que tem publicado títulos de sileira: “Sem me dar conta, eu fui,
grande relevância, produzidos com vou sendo, sou construído como
apuro e divulgados amplamente. outro. Incansavelmente”, diz o ro-
Como no país se dissemina a ideia mancista, que, como o outro que
de que aplicação de recurso públi- ele próprio é, afirma autocritica-
co é gasto de dinheiro do povo, a mente sobre um amigo de infância:
Cepe avulta como feliz contrapon- “O centroavante me leva de volta à
to à falácia, porque seu trabalho se companhia dos super-heróis e dos
realiza pela soma de investimento protagonistas dos filmes e das sé-
público, proatividade e profissio- ries. Sem saber, eu o imitava”.
nalismo, cujos resultados se mos- Há, portanto, um amálga-
tram primorosos. ma evidente entre o crítico e o
Quanto à fecunda obra San- romancista, a ponto de em tra-
tiago, a trinca de livros é estratégica balhos mais recentes eles se apre-
para observar o que está no cerne de sentarem com mais clareza, seja
seu pensamento e de seus escritos. por declaração direta, seja por su-
Se o de 2019 traz novamente à ce- tis procedimentos formais. Nesta
na um feito que o inseriu no grupo intervenção, partirei dos livros ora
dos mais destacados críticos literá- lançados para comentar linhas de
rios brasileiros, o de 2021 repre- força do universo reflexivo e nar-
senta uma vertente à qual ele tem rativo do autor, procurando de-
se dedicado com maior frequência monstrar que nos dois últimos se
nos últimos anos: a autoficção en- radicaliza a autocrítica por ele fei-
caminhada como autocrítica. ta. Para isso, recorrerei a outros
No meio cronológico des- trabalhos seus. A fim de situar
ses dois livros está uma espécie de com clareza o leitor interessado
meio-termo de gêneros, algo como em referências, darei informações
um entre-lugar do estilo do autor, ao fim de cada passagem citada.
que é um lugar ambivalente. Co-
mo indica o subtítulo de Fisiologia Os trópicos são o mundo
da composição, “gênese da obra li- Uma literatura nos tró-
terária e criação em Graciliano Ra- picos traduz expressivamente a
mos e Machado de Assis”, trata-se condição muito peculiar do inte-
de um estudo de orientação gené- lectual brasileiro a partir de certo
tica de obras dos autores de Angús- momento do século 20. O grada-
tia (1936) e Helena (1876). tivo triunfo dos manifestos mo-
Simbiose
Não por acaso, e para usar dernistas fez da antropofagia de
aqui um termo prezado por Sil- Oswald de Andrade uma diretriz
viano, foi ao se hospedar em textos oficial contra dicotomias entre o
desses dois autores que ele com- local e o internacional, entre o pró-
pôs dois de seus mais emblemá- prio e o alheio: é arrogante e estrei-
de corpo e
ticos romances, Em liberdade to orientar a cultura brasileira pela
(1981) e Machado (2016), am- regência da cultura europeia, bem
bos premiados. Assim, Fisiologia como é estreito e ingênuo desejar
da composição comenta narrati- uma cultura nacional refratária a
vas alheias ao mesmo tempo em componentes externos. A mais, o
linguagem
que estuda a poética narrativa do espírito revisionista do Modernis-
próprio estudioso, pois no Silvia- mo se voltou contra hierarquias
no Santiago ficcionista a proprie- culturais, priorizando o simples e
dade se elabora por um exercício o prosaico, em detrimento do eru-
de invasão e de usurpação: dito e do extraordinário.
Silviano Santiago é herdeiro
Silviano, autor, deixa-se apri- dessa mentalidade. Seu trabalho é
sionar pelo estilo de Graciliano vocacionado à inovação, e teve co-
Ramos, para criar uma composição li- mo decisivo período formativo a
terária em que o corpo do ex-prisionei- Livros de Silviano Santiago mostram como o autor década de 1960. Nascido e cria-
ro, sua grafia-de-vida em liberdade, mineiro pratica, na ficção e na crítica literária, um do em Formiga, interior de Minas
está presente e guia o desenvolvimen- Gerais, viveu em Belo Horizonte e
to do enredo. “Vou construir o meu misto de assimilação do outro e análise de si em seguida no Rio de Janeiro. No
Graciliano Ramos”, roubo de ensaio início da referida década, rumou
de autoria de Otto Maria Carpeaux a Paris para se doutorar, e entre o
a epígrafe de Em liberdade. MARCOS PASCHE | RIO DE JANEIRO – RJ início e a conclusão dos estudos
ABRIL DE 2021 | 25
atuou como professor de univer- Ainda hoje a cultura oficial composição contempla escritos de
sidades norte-americanas. Se estes do Brasil interage mais com mo- Graciliano e de Machado. Em li-
foram anos determinantes como vimentos europeus e norte-ame- berdade, de 1981, simula um diá-
período formativo, o decênio se- ricanos do que com os de países rio que o autor alagoano pretendia
guinte corresponde ao estouro do vizinhos. Ainda hoje povos indí- escrever ao sair da prisão e não es-
trabalho de Santiago, que entre genas são cercados de estigmas e creveu. Naquele romance, Silviano
volumes de ensaios, poesia, ficção ameaças. Ainda hoje o melhor jo- se apropria da voz de Graciliano e
e edições críticas de obras alheias, gador de futebol do mundo só é como ele se pronuncia por quase
assina nove publicações. percebido em clubes da Europa. toda a narrativa, excetuando a parte
Os textos de Uma litera- Não sendo mais um fato institu- introdutória, instauradora do mis-
tura nos trópicos (onze na pri- cional, a colonização permanece Uma literatura nos trópicos tério autoral do livro.
meira edição; dezesseis na atual, como ideologia, e ela só será supe- SILVIANO SANTIAGO Já em Machado, de 2016, es-
acrescida de posfácios de Eneida rada por uma ruptura estrutural: Cepe sas categorias se movimentam e re-
396 págs.
Leal Cunha, Fred Coelho e An- “A maior contribuição da Améri- combinam, pois pela narrativa o
dré Botelho) datam dessa fase. ca Latina para a cultura ocidental autor fala como narrador, persona-
Os ensaios abordam obras saí- vem da destruição sistemática dos gem e crítico (que vêm a ser os desig-
das no calor da hora, caso do en- conceitos de unidade e de pureza”. ners da ficção, como ele preza dizer).
tão recém-lançado segundo livro Conforme citação na primeira parte
de Sérgio Sant’Anna, e outras já Um narrador deste artigo, em Fisiologia da com-
canonizadas, como O ateneu pós-moderno posição Silviano afirma ter se apri-
(1888), de Raul Pompeia. O crí- Em artigo para o Jornal sionado pelo estilo de Graciliano
tico explora tendências que lhe do Brasil de 15 de dezembro de Ramos. No livro não se declara algo
eram distantes no tempo e no es- 2001, Silviano Santiago disse que semelhante em relação a Machado
paço, conforme no capítulo so- ao artista do tempo presente só de Assis, mas em seu Finale apare-
bre A bagaceira (1928), de José resta, em termos de material de ce o motivo do romance de 2016 —
Américo de Almeida, ou de cujo invenção, “o opaco e enigmático a relação entre Machado e Mário de
desenvolvimento foi testemunha dia a dia de sua vida”. Ele avaliava Alencar —, aparecendo também pas-
ocular, a exemplo da Geração Mi- a obra do poeta Carlito Azevedo, sagens já vistas no romance. A mais,
meógrafo, comentada em O assas- apontando-o como “a nossa mais Fisiologia da composição: caso o que aponto não for descuido
sinato de Mallarmé. O ensaísta que legítima voz pós-moderna”. gênese da obra literária e de revisão, alguns detalhes formais
examina autores clássicos da lite- Em dois capítulos de Nas criação em Graciliano Ramos de Fisiologia revelam que, se o ro-
e Machado de Assis
ratura, como Eça de Queirós, faz malhas da letra (utilizo a edi- teiro habitual da escrita silviânica faz
também crítica de cultura, acom- ção de 2002), Prosa literária atual SILVIANO SANTIAGO o crítico se hospedar no romance, no
Cepe
panhando entrevistas e apresenta- no Brasil e O narrador pós-moder- livro de 2020 o romancista se hospe-
235 págs.
ções musicais para intervir sobre o no, Silviano assevera, no primei- dou no ensaio. Como que inspirado
trabalho e a postura de um jovem ro, a necessidade de “o próprio por Jorge Luis Borges (outra refe-
Caetano Veloso. romancista fazer silenciosamente rência frequente do autor de O falso
Se esse movimento indi- sua autoanálise e a análise de sua mentiroso), Silviano subverte — pe-
cia assimilação do legado moder- obra”. No segundo, ao examinar la reescrita, pela rasura, pela lacuna e
nista, demonstra também caráter a obra de certo contista, sublinha até pelo apagamento — detalhes téc-
autônomo e disposto a avançar “o denso mistério que cerca a fi- nicos que um texto ensaístico deve
para outras direções. No livro, gura do narrador pós-moderno”, respeitar. Fisiologia da composição
os maiores exemplos dessa inter- sobrepondo tal fator ao enredo e tem títulos e subtítulos longos e dis-
locução independente se encon- à construção de personagens. Re- cursivos; não apresenta lista biblio-
tram na excepcional análise da cuando à nota que o autor faz à gráfica; exibe referências por vezes
ficção de Machado de Assis e na segunda edição, vemo-lo declarar incompletas; e desfigura a advertên-
aguda percepção do ser-e-estar que algumas de suas coletâneas de cia de Esaú e Jacó, de Machado de
do intelectual latino-americano. ensaios funcionam como sutis co- Assis. Uma vez que a introdução in-
Subestimado pelo Modernismo, mentários à sua própria obra lite- forma que o livro tem como tópico
Machado é visto no ensaio Retó- rária, que em seu fazer criação e Menino sem passado mais distendido a apreensão “do am-
rica da verossimilhança fora da re- crítica são intercambiáveis e que SILVIANO SANTIAGO plo significado da liberdade humana
petida e questionável classificação “a leitura do outro, como está cla- Companhia das Letras no processo de criação literária” e que
472 págs.
que o segrega em romântico e rea- ro nos romances Em liberdade e o ensaio é orientado por uma opera-
lista, conservador e transgressor: Viagem ao México, além de ser ção que, “embora enquadrada e cir-
uma forma de enclausuramen- cunscrita por princípios científicos”,
Já é tempo de se começar a to do escritor na tradição literá- será usada “pelos extremos, ou seja,
compreender a obra de Machado ria nacional e cosmopolita de que de maneira radical e bastante livre”,
de Assis como um todo coerente- extrai sentido, é também o modo qualquer semelhança com a escrita
mente organizado, percebendo que, mais vivaz que encontra para esca- narrativa de Silviano Santiago talvez
à medida que seus textos se sucedem par das armadilhas do sujeito sin- não seja mera coincidência.
cronologicamente, certas estruturas gular e imperioso (...)”. Esse misto de assimilação do
primárias e primeiras se desarticu- O conjunto de afirmações outro e análise de si também se de-
lam e se rearticulam sob forma de faz ver que ao estudioso Silviano senha em Menino sem passado,
estruturas diferentes, mais comple- Santiago interessa a conceituação em que o autor narra preponderan-
xas e mais sofisticadas. da pós-modernidade literária; que temente suas memórias de menino
esta, segundo ele, se caracteriza sonâmbulo e precocemente marca-
Ao pensar a condição cul- especialmente pelo enfoque de- do pela perda da mãe. Ainda que
tural latino-americana, Santia- sinflado do sujeito, exposto sem em menor grau, o repertório críti-
go aprofunda o dilaceramento do necessariamente se exibir, dado o co do autor comparece às páginas
intelectual brasileiro, que frequen- caráter “enigmático” e “misterio- autobiográficas. Se por um lado a
temente se enxerga no horizonte so” de seu cotidiano. Para Silvia- recorrência gera coesão, pode, por
bipartido do Brasil e da Europa, no, o romancista deve analisar a outro, significar previsibilidade e
por vezes sem se dar conta de per- si e à sua obra, o que ele cumpre; enfado para o leitor, sobretudo se
tencer a um continente repleto de e que a leitura do outro, por ele as obras mencionadas forem lidas
semelhança e diferença em relação realizada em romances escritos a em sequência.
ao seu país. Nesse sentido, o esfor- partir de Graciliano Ramos e An- Na medida em que a narrati-
ço do crítico caminha na direção tonin Artaud, é uma paradoxal va se desenvolve por mais de quatro-
de descolonizar a América Latina forma de prisão e fuga. centas e cinquenta páginas a reboque
outra vez, epistemologicamente: Se substituirmos Viagem de um narrador-personagem opaco
“A literatura latino-americana de ao México, de 1993, por Ma- — inibido, conforme ele mesmo su-
hoje nos propõe um texto e, ao chado, saído em 2016, e por- gere —, os elementos constitutivos
mesmo tempo, abre o campo teó- tanto depois das edições de Nas da poética narrativa de Silviano San-
rico em que é preciso se inspirar malhas da letra, juntaremos pe- tiago parecem ter se tornado norma,
durante a elaboração do discurso ças ainda mais eloquentes para a partir da qual mais importa falar de
crítico de que ela será o objeto”, perceber propósitos do autor e si e confirmar lemas teóricos do que
diz o antológico O entre-lugar do como eles se reiteram em seus úl- se entregar como ser vivente à histó-
discurso latino-americano. timos livros. Afinal, Fisiologia da ria que se conta.
26 | ABRIL DE 2021
DIVULGAÇÃO
A AUTORA
CLAUDIA DURASTANTI
A solidão dos
TRECHO
da linguagem por causa da sur-
dez. Transitando entre anedotas A estrangeira
familiares, pensamentos sobre fil-
mes e livros, e eventos ocorridos
desgarrados
Não somos adolescentes que
consigo mesma, a autora trata as
palavras com curiosidade descon- partiram para procurar ouro
fiada, de quem não as vê como na fronteira, e, mesmo quando
mero instrumento: adoecemos de solidão como
faziam os pioneiros do Velho
Em italiano, o verbo “sentire”
Em A estrangeira, com toques de rancor e sagacidade, coincide com a capacidade de sentir Oeste, ninguém dirá que
distâncias colocamos entre nós e
Claudia Durastanti narra seu desenraizamento um sentimento e um sentido preci-
so, a audição. Em inglês não é assim, o ponto de partida.
e a trajetória pouco ortodoxa de sua família “to hear” e “to feel” são duas ações
bem distintas. Não sei como funcio-
na em outras línguas. E não sei co-
IARA MACHADO PINHEIRO | SÃO PAULO – SP mo traduzir as vezes em que minha
mãe fica deitada na cama com os
olhos fechados e sussurra: “não ouço
nada”, sem perder tudo aquilo que
“N
ela quer me dizer.
o nosso tempo as Desterros E está aí uma virtude da es-
distâncias desapa- Vale destacar o modo como a jovem autora A quarta subdivisão, Traba- critora: ao falar da sua condição
receram e desapa- desvirtua o significado convencional de cada títu- lho e dinheiro, se detém nas pos- de estrangeira perene, ela conse-
receu também o lo das seções que ordenam a narrativa. A primei- sibilidades de ancoragem da vida gue falar da regra da qual se sente
medo da tuberculose. Por cau- ra delas, Família, é aberta com o encontro de seus adulta, ainda que insuficientes e excluída. A acepção mais interes-
sa das virtudes dos aviões e dos pais — dois deficientes auditivos —, passa pela his- transitórias. O estrangeirismo par- sante e pertinente do estar fora
antibióticos, essas duas desgra- tória pregressa da família de cada um, e é encerrada te do relacionamento com os pais é a distância pela qual observa o
ças desapareceram”, escreve uma com a separação dos genitores. Há alguma lineari- nos efeitos práticos dos sentidos mundo: o diagnóstico que Duras-
personagem remetente do ro- dade na condução dos eventos que delineiam a fa- que os dois puderam dar à surdez tanti faz do próprio tempo passa
mance epistolar A cidade e a ca- mília nuclear, mas o correr do tempo não é o nexo e toca a impressão dos traços da pela forma que o desvio pode ex-
sa, de Natalia Ginzburg. O custo narrativo predominante. privação econômica e das noções pressar a norma.
do desaparecimento dessas des- Em geral, a articulação se dá pela afinidade te- de ócio e emprego. Proteção implica abdicar
graças não é baixo: se hoje chega- mática, estilhaços de memória desdobrados na re- Na quinta parte, o estar fo- da autonomia. Já liberdade en-
mos mais longe e vivemos mais, lação com o mundo de fora. A primeira noção de ra é pensado junto às ilusões do volve poder de decisão com o
também sofremos por tantas ou- estrangeirismo é construída junto à sua oposição amor; o lugar que se quer eter- custo da perda do cuidado zeloso
tras coisas. Esse mundo de limi- mais natural: o pertencimento familiar. Ao narrar no ao lado de alguém, o sentir- de um terceiro. Não é um equi-
tes expandidos, que ganhou o sua família partindo das fraquezas e do caráter dis- -se necessário, as efervescências líbrio de fácil gerenciamento. E
conceito teórico de “não-lugar”, funcional dos pais, Durastanti depõe sobre o im- dos primeiros encontros que fa- chama bastante atenção a manei-
é explorado por Claudia Du- possível de pertencer em razão da ausência quase zem parecer justificados todos os ra contemporânea de caracterizar
rastanti em A estrangeira pe- completa da potência protetora que a dependência percalços e as desventuras anterio- os próprios pais, possivelmente
lo efeito colateral da solidão dos de cuidadores pode fornecer. res são articulados também sob o uma configuração distinta dessa
desgarrados, que andam sem sa- Viagens, a seção mais longa, é dedicada à es- viés do pertencimento. Como nas impossível calibragem entre segu-
ber muito para onde ir e sem ter pacialidade do sentimento de estar fora. O pon- partes anteriores, a instabilidade rança e liberdade.
para onde voltar. to de partida é a primeira infância em Nova York parte da vivência individual para Se lido em conjunto com a
Dividido em seis partes — em meio à família materna expandida e as parti- desembocar em conjecturas sobre Carta ao pai, de Franz Kafka, A
cinco eixos temáticos e um breve cularidades da comunidade ítalo-americana. De- formas de viver e tentar se agar- estrangeira pode ser pensado co-
epílogo —, o livro da america- pois, o itinerário faz uma parada no pequeno rar a alguma coisa que possa ser- mo a manifestação de uma dobra
na que escreve em italiano parte povoado do sul da Itália, para onde a narradora vir como orientação. no que diz respeito às formas de
do desenraizamento de Duras- se mudou após a separação dos pais, e termina absorver as marcas de quem nos
tanti e da trajetória pouco orto- em Londres, cidade escolhida pela autora para Instabilidade constante colocou no mundo. Se o narra-
doxa da sua família para contar morar e de onde o texto é escrito. A denomi- Em um mundo de fron- dor kafkiano não sai do lugar de
uma história pessoal e comentar nação “viagens” para o relato dos lugares onde teiras dilatadas, sair da terra na- filho e atribui a imobilidade ao
o mundo ao redor. Nos melho- viveu garante à história de Durastanti certa im- tal não tem necessariamente a pai, a narradora de Durastanti
res momentos do texto, o trân- permanência duradoura no estabelecimento em aura do desbravamento. No ca- conta sobre a dor de nunca ter
sito entre particular e universal diferentes espaços, dinâmica precária de um en- so da narrativa de Durastanti, o ocupado devidamente a posição
é feito com sagacidade. Em al- raizamento impossível. fluxo migratório oscila entre a de filha. Fica a sensação de que
guns trechos, curiosamente, o Saúde tem uma toada mais fragmentária, negação de suas definições for- quando os pais são vistos pelas
rancor parece prevalecer, o que predominante na metade final do livro. Também madoras e a falta de um lugar fraquezas, a angústia reside mais
talvez comprometa o alcance da aqui a noção mais convencional do termo é ex- para o retorno. A instabilidade na desorientação do que na pres-
narração ao mesmo tempo que, trapolada para o texto assumir em alguns mo- constante de referências, como são esmagadora de um propósi-
precisamente pela característi- mentos o fluxo de um ensaio sobre a linguagem. imigrante e filha de surdos, é ta- to. E segue o baile das desgraças
ca ensimesmada, registra aspec- Talvez para sugerir um estrangeirismo que cor- manha que atinge também a re- desaparecidas, sempre sucedidas
tos fortemente contemporâneos. re nos sangues de suas veias, por ter pais exilados lação com a linguagem. por novas.
ABRIL DE 2021 | 27
Crônicas
Travessia
E revolução, no fim das
contas, talvez seja outro nome
para travessia, que, se não ocor-
da travessia
re desde já na sociedade, aconte-
ce a princípio no próprio corpo.
Não é à toa que o subtítulo ex-
plica o volume como as crônicas
dessa viagem instável entre gêne-
ros e universos, ou melhor, multi-
Em Um apartamento em Urano, o filósofo Paul B. versos diferentes. Destino, como
Preciado entrelaça violência, corpo e política em artigos se pode antever, seria termo mal-
-empregado ao pressupor algum
que acompanham também sua transição de gênero tipo de chegada. Na verdade, o
objetivo de Preciado não é a para-
gem, e sim o entrelugar, o abando-
ALAN SANTIAGO | CURITIBA – PR no dos parâmetros historicamente
construídos segundo os quais “só
existem duas possibilidades do
humano: pênis penetrante, vagi-
A
DIVULGAÇÃO na penetrada”. “Somos vítimas de
O AUTOR
incômoda história con- um kitsch pornocientífico”, ava- nas diante da dupla hélice Esta-
tada nas páginas 173 PAUL B. PRECIADO lia. Por isso não é possível acom- do patriarcal/mercado neoliberal”
e 174 resume bem os panhar as intervenções médicas é uma oportunidade dos nossos
Nasceu em Burgos, em 1970. É um dos
principais temas de Um por meio da hormonização e sua tempos e, mais que isso, um im-
principais filósofos contemporâneos
apartamento em Urano, coletâ- dedicado a temas como corpo
consequente metamorfose no or- perativo para as pessoas que dese-
nea com artigos publicados pelo e gênero. Publicou Manifesto
ganismo sem notar que as obser- jam construir uma vida toda sua,
filósofo espanhol Paul B. Precia- contrassexual (2002), Testo junkie vações dele estão embebidas em mesmo que coletivamente, mesmo
do na imprensa europeia. A cena (2008) e Pornotopia (2010). certa dose de sarcasmo. “Isso que que nos interstícios da derrocada.
transcorre no aeroporto de Kiev, a convenção social e a regulação Vários excertos esmiúçam o
mais precisamente em frente ao médica chamam de ‘transição para que seria essa invenção para Paul;
guichê de imigração. O agente a masculinidade’ parece mais com entretanto, um deles deve servir:
ucraniano lhe revira o passapor- um processo de virar animal, virar
te na tentativa de desvendar a in- cavalo”, escreve em Etimologias. Trata-se de modificar a produ-
congruência. “Não é você. É uma “Essa voz surge como uma más- ção de signos, a sintaxe, a subjetivida-
mulher”, afirma o funcionário. cara de ar vinda de dentro. Sinto de, os modos de produzir e reproduzir
“Sim, sou eu. Eu sou mulher”, uma vibração que se propaga na a vida. Não estamos falando apenas
responde, tentando suavizar a garganta como se fosse uma grava- de uma reforma dos Estados-nações
voz, que, devido às injeções se- ção e sai pela boca, transforman- europeus. Não estamos falando de
manais de testosterona, vacila e do-a num megafone do estranho”, mover a fronteira de lá para cá. De
desafina vez em quando. imprime-se no primeiro parágrafo tirar um Estado para instalar outro.
Naquela época — era 2015 de outro texto. Estamos falando de descolonizar o
—, Paul ainda não havia renas- Assim, com essas transfor- mundo, de interromper o Capitalis-
cido para o aparato estatal com mações hormonais e celulares, mo Mundial Integrado.
nome e documento novos. Sen- vai se desestabilizando o que ha-
do assim, apenas uma revista ín- via sido prescrito no receituá- Acrescento ainda mais:
TRECHO
tima resolve o impasse: a mão da rio das subjetividades toleráveis,
lei apalpa os genitais do passagei- Um apartamento em Urano e imediatamente toma conta das Nós não vamos chorar o fim
ro. Nesse curto episódio, estão instâncias de poder um pânico do Estado de bem-estar social, por-
evidentes a violência que ope- generalizado. O que fazer com que o Estado de bem-estar social
Transfeminismos, políticas
ra submetendo e humilhando os os corpos que não se submetem também tinha o monopólio do po-
dissidentes; as fissuras que alguns de descolonização, mais à lógica produtivista, repro- der e da violência e vinha acompa-
corpos, por sua pura existência, antiprodutivismos: a dutiva, consumidora e libidinal? nhado do hospital psiquiátrico, do
causam na régua do binarismo de transformação política só pode Resta coagir, sujeitar, suprimir os centro de inserção para deficientes,
gênero; a política de Estado que inadequados. É especialmente im- da prisão, da escola patriarcal-colo-
vir de um duplo processo de
seleciona quem deve gozar do di- pactante a elaboração sobre o te- nial-heterocentrada.
reito à própria identidade. Os três insurreição e imaginação. ma do “Ne(©r)oliberalismo”, em
temas, sempre nítidos e organica- De desobediência civil e que Preciado, ao antepor a um A substituir “identidade”
mente entrelaçados, são a base dos de abalo da percepção. De compilado de palavras o prefixo por “multidão”, a alterar o para-
73 textos sobre variados assuntos, “necro”, observa como a política digma atroz em que se encontram,
destituição e de criação
escritos entre 2011 e 2018 em paí- estatal devora, com sua pulsão de a reafirmar a própria existência co-
ses e continentes diferentes. instituinte. De revolução e de morte, tudo o que seja, em essên- tidianamente já estão dedicados,
Salpicados aqui e ali, relatos tecnoxamanismo. cia, humano e, portanto, diferen- de uma forma ou de outra, ura-
de violências físicas ou psicológi- te. Quem se encarrega de executar nistas de toda sorte. Esse termo foi
cas ganham às vezes contornos esse prazeroso trabalho de aniqui- cunhado em 1864 pelo jurista Karl
brutais, como o caso do adoles- lamento são os instrumentos téc- Heinrich Ulrichs para explicar, de
cente trans que se suicida após vos “individual”, “patologizado”, nicos, reguladores e assépticos do um modo ainda muito marcado
reiterados ataques transfóbicos “colonial”, “financeiro”, “biná- Estado liberal. Geralmente, a ex- por aquele século, as orientações
de colegas. Mas a caneta que de- rio”. Está dito aqui, por exemplo: tinção é física e corporal, com a sexuais não conformes por meio
nuncia é a mesma que traça rotas “Salvar Alan exigiria uma pedago- patologização dos divergentes ou a da teoria do “terceiro sexo”; a pa-
de fuga às crueldades contempo- gia queer capaz de trabalhar com a perseguição às identidades; às ve- lavra que inventou foi inspirada na
râneas, daí deriva a força do con- incerteza, com a heterogeneidade, zes os termos são simbólicos, co- mitologia grega e é tomada de em-
junto. Mesmo sendo, em geral, capaz de aceitar a subjetividade se- mo quando, para oficializar Paul préstimo ao deus Urano, de cujos
uma reação aos fatos que se suce- xual e de gênero como processos Beatriz Preciado, a antiga certidão genitais decepados nasceu Afrodi-
diam no noticiário, o livro pode abertos e não como identidades de nascimento dele foi destruída e te, a deusa do amor.
servir como introdução à obra do fechadas”. E também no texto O a nova data publicada no jornal, O nome do alemão adqui-
professor e como registro de suas preço da sua normalidade é a nos- num reforço do binarismo. re importância histórica por um
reflexões, porque não se apeque- sa morte: “O único tratamento de Essa autoridade, porém, até motivo decisivo: foi ele o primei-
na num mero apanhado de crí- que [pessoas trans] necessitamos pouco tempo considerada defini- ro cidadão europeu a se denomi-
ticas, ainda que contundentes, é a mudança de paradigma. Mas, tiva e eterna, enfrenta hoje pro- nar, de público, com o vocábulo
ao status quo — algumas, aliás, como a história ensina, dado que funda crise — despedaçam-se o e a tentar mostrar, diante de um
já bastante difundidas nos meios o paradigma da diferença sexual e homem branco colonial, a sexua- auditório lotado de profissionais
de comunicação. de gênero é a garantia da manu- Um apartamento em Urano lidade opressora, a democracia de sua área de atuação, que não
Avança, então, quan- tenção de um conjunto de privi- PAUL B. PRECIADO
dentro do Estado liberal, as divi- era doente sexual nem criminoso;
do aponta saídas em direção a légios patriarcais e heterossexuais, Trad.: Eliana Aguiar sas entre países, as nacionalidades. em outras palavras, Ulrichs foi um
um mundo que conscientemen- essa mudança não será possível Zahar Assim, evidencia-se a cada dia que dos primeiros a requerer as chaves
te oponha um “não” aos adjeti- sem uma revolução política”. 317 págs. “inventar formas de viver sobera- de um apartamento em Urano.
28 | ABRIL DE 2021
A história
DIVULGAÇÃO
da Bruxa
No romance Temporada de furacões,
Fernanda Melchor disseca, com
crueza e maestria técnica, as vidas
miseráveis de um povoado mexicano
E
A AUTORA
m conversas sobre li- quentemente oferecendo-lhes sensacionalistas, transitando rápi-
teratura, muitas vezes drogas e bebida à vontade em fes- FERNANDA MELCHOR do entre uma frase e outra, lem-
nos pegamos compa- tas em seu rancho. brando-se de uma história antiga,
Nasceu no México, em 1982. Estreou
rando as qualidades de Ao longo do romance co- indo e voltando no tempo, mas no
na ficção com o romance Falsa
diferentes obras. Alguns traçam nheceremos melhor a Bruxa por liebre, de 2013, mesmo ano em
fim, de algum modo, concluindo
oposições entre complexidade e meio de seus assassinos, de mulhe- que lançou as crônicas de Aquí
satisfatoriamente tudo que conta.
acessibilidade, entre a realidade do res que receberam sua ajuda e de no es Miami — pelo qual venceu o Claro, ainda que pareça
palavreado urbano e chulo e as pa- jovens que estiveram presentes em Prêmio PEN México de Excelência emprestar algumas técnicas às tais
lavras belas e raras de certas obras festas em sua casa. Mas nenhuma Jornalística e Literária. Temporada tias, Melchor estabelece sua narra-
do cânone, ou entre o valor de en- dessas informações é dada por si de furacões, lançado originalmente tiva não linear de maneira muito
tretenimento de uma obra à sua só, sem que entendamos um pou- em 2017, é seu segundo romance. mais precisa. Em momento algum
relevância artística e intelectual. co mais da personagem e daque- o leitor se perde em meio aos dife-
Em Temporada de furacões, les que a cercam. Por vezes, até nos rentes elementos e histórias, pois,
a mexicana Fernanda Melchor perguntamos como a narrativa de usando menções breves, idas e vin-
mostra a falsidade dessas oposi- um capítulo se conectará à Bruxa. das rápidas ao presente, a autora
ções, descrevendo, em linguagem Um exemplo é a perso- impede que o texto se torne ob-
suja e bela, um enredo intrigante e nagem Yesenia, foco de um dos tuso. Não só isso, mas as transi-
personagens cativantes, enquanto primeiros capítulos. Cedo des- ções entre os diferentes momentos
discute com um domínio incrível cobrimos que sua relação com a são sempre motivadas. Isso se tor-
da forma temas como a pobreza Bruxa é pequeníssima, mas aos na claro pela associação das lem-
extrema, misoginia, transfobia e o poucos nos vemos curiosos quan- branças dos personagens com os
abuso de menores. to à descrição de sua família. Sen- pensamentos e acontecimentos
Não que tudo isso seja mos- timos por ela ao saber que tem o de seu presente, gerando conexões
trado de chofre ao leitor. É bem apelido de “Lagarta” graças à sua Temporada de furacões nada arbitrárias entre as diferen-
possível enxergar, em seu peque- aparência. Ouvimos que conti- FERNANDA MELCHOR tes épocas e permitindo que as no-
no capítulo inicial, a premissa de nua cuidando da avó acamada e Trad.: Antonio Xerxenesky vas informações integrem o todo
uma história detetivesca: cinco abandonada pelo filho e neto, os Mundaréu sem dificuldade, muitas vezes sur-
crianças, brincando na região de quais enxergava como santos. En- 216 págs. preendendo ou nos fazendo enxer-
um minúsculo povoado mexica- tendemos o ressentimento que ela gar acontecimentos e personagens
no, encontram o corpo morto da mesma tenta ignorar em relação de maneira completamente nova.
mulher conhecida como “a Bru- à avó, que ainda defende a santi- Além de tudo, em meio às
xa”. Mas não é por meio de uma dade dos descendentes homens, Forma única lembranças e acontecimentos mais
investigação que o leitor desco- enquanto humilha Yesenia e as ir- Há quem associe os longos diretamente ligados ao enredo,
bre quem era a Bruxa e o que lhe mãs, sempre punidas como res- períodos de Proust à asma do au- Melchor nos mostra outros even-
aconteceu, e sim por meio de uma ponsáveis pelo comportamento tor, comparando-os com frases tos, cuja temporalidade é quase ir-
narrativa que gira em torno, a ca- desses homens. longas, emitidas depois de um res- relevante, uma vez que sua função
da capítulo, de um personagem. Não sabemos ainda, mas pirar profundo. Não sei se a expe- principal é expor as relações sociais
De início, o foco recai so- parte do que ela descreve são as riência do escritor foi essa, mas, no povoado. A descrição dos ba-
bre a personagem assassina- origens de um dos personagens como leitor, não é tão raro que me res e pontos de prostituição, por
da. Desde então, percebemos o principais do romance — e, ain- sinta assim em certas leituras: sem exemplo, nos dá uma ideia do am-
quanto a Bruxa é relevante na da sem sabê-lo, nos interessamos. ar, como quem ofega, vítima da biente em que estamos inseridos, e
transformação do pequeno po- Conforme sua história é contada, ansiedade que certos autores ten- aprendemos um pouco mais sobre
voado em um microcosmo de re- ela menciona, de passagem, acon- tam provocar. Na obra de Melchor, a Bruxa ao saber que ela ajudava as
lações que parecem tão próximas tecimento ou outro que pode ser pelo contrário, o que impressiona prostitutas do povoado sem cobrar
à nossa realidade. relevante ao mistério da Bruxa, é justamente a maneira tão fluida por seus serviços. Assim, a narrati-
Não é só no epíteto que a mas não é impossível que sua his- e, por falta de palavra melhor, na- va frequentemente estabelece um
Bruxa remete às incontáveis mu- tória mesma nos toque. tural com que a autora usa estra- pano de fundo para a aparição fu-
lheres queimadas pela inquisição. Em capítulos posteriores, tégias de escrita tantas vezes vistas tura de outros personagens, cujas
Seu papel no povoado é o mes- veremos o caso de uma menina como hostis à compreensão clara vulnerabilidades, medos e covar-
mo que tiveram as antigas bruxas, de 12 anos que sofria abusos se- do texto — inspirando-se, segun- dias entenderemos melhor quan-
a julgar pela descrição da filóso- xuais; o espancamento brutal de do a própria autora, pela obra O do o romance se voltar para eles.
fa italiana Silvia Federici em seu um dos assassinos da Bruxa pe- outono do patriarca (1975), de Mas, claro, não é só pela ha-
Calibã e a bruxa: conhecedora la polícia (que não busca justi- Gabriel García Márquez. bilidade técnica de sua escrita ou
de ervas e poções, a Bruxa usava ça, mas o dinheiro que, dizem, Os capítulos relativamen- pela capacidade de criar uma nar-
seu conhecimento para auxiliar a Bruxa escondia); chegaremos a te longos de Temporada de fu- rativa não linear tão clara que Mel-
as mulheres do povoado, especial- sentir pena de alguns dos crimi- racões não têm parágrafos. Além chor se distingue da tia contadora
mente em questões reprodutivas, nosos, e os entenderemos melhor, disso, suas frases se prolongam, de histórias. A maior diferença en-
ajudando-as a lidar com doenças, embora o livro jamais trate suas com grande frequência, por uma tre elas, talvez, seja a seriedade e o
impedir a gravidez indesejada, ou ações como inocentes, e deixe ao página inteira ou mais. Ainda as- peso do texto da autora, que não
mesmo interrompê-la. Filha da leitor qualquer tipo de julgamen- sim, em nenhum momento fui ví- veste luvas, não se presta às piadas
“Velha Bruxa”, moradora de um to moral. Até que, num sobressal- tima dessa sensação ofegante. Pelo que essa tia contaria nem oculta o
rancho isolado, e tida como pá- to, emergimos por um momento contrário: a mim a narrativa soou mais cru e sombrio dos aconteci-
ria do pequeno povoado, era tam- da narrativa, e percebemos que a como a fala de uma avó querida, mentos e personagens envolvidos
bém a mulher solitária que pagava frase que estamos lendo começou que conta tragédias ocorridas na — vulneráveis, cruéis e humanos,
homens por sua companhia, fre- duas páginas atrás. cidade ou assistidas em noticiários como raras vezes se lê.
ABRIL DE 2021 | 29
TUDO É NARRATIVA
A PERFEIÇÃO
DE PIERO
O
famoso estudo de Roberto Longhi a res-
peito de Piero della Francesca é o tipo de
material que se torna deleite não só para os
interessados em pintura, mas também em
arte literária. Sua pesquisa sobre estruturas figurativas
e verbalização da imagem esmiúça, de modo infalível,
o elo mágico entre as linguagens. Além disso, como
professor na Universidade de Bolonha entre os anos
de 1934 e 1943, Longhi soube articular investigação
e produção artística de seus estudantes — muitos dos
quais foram responsáveis por exposições na época do
pós-guerra. Para nós, que não tivemos a sorte de com-
partilhar tempo e espaço com ele, restam seus livros,
porta direta para o pensamento.
O volume publicado pela Cosac Naify em
2007, reunindo os estudos sobre Piero della Frances-
ca (intitulado apenas Piero della Francesca), traz a
peculiar dicção do crítico. Muitas vezes carregada de
floreios, ela acaba por adquirir tom irônico, em al-
guns instantes chegando ao humor escancarado, co-
mo por exemplo quando Longhi descreve um mantel
que “desce com a facilidade de um teorema de Eucli-
des” ou analisa um “Cristo horrendamente silvestre
e quase bovino, como um sisudo meeiro úmbrio de-
tendo-se, rústico, a contemplar da borda do sepulcro
suas propriedades terrenas”.
Também podemos sorrir à descrição de um me-
nino Jesus “obeso e linfático, como todos os contem-
plativos fundadores de religiões orientais, com aquela
infância altiva e triste que, como nos bizantinos, pare-
ce se assemelhar à velhice — e o que dizer de um anjo
com “rosto mestiço esmaltado e olhinhos de elefante
sagrado”? Tudo isso são efeitos de um excesso verbal:
se no primeiro momento pode parecer estranho pen-
sar que uma pérola, digamos, poderia ser confundida
com “uma preciosa secreção daquela colônia de rizópo-
des a que vimos se reduzir, sob as raras circunstâncias
luminosas, a massa vermiculada dos cabelos”, à medi-
da que o texto avança essa afetação nos diverte e pare-
ce gerar leveza, no diálogo com as imagens.
O mais importante, entretanto, é que — ao apon-
tar a perfeição de Piero della Francesca — Longhi não
pretende com isso idealizar o artista de modo alucina-
do, mas acima de tudo busca entender como foi possí- parecem nascer pela primeira vez cionamento espacial ali é gratui- sa elegância de ânforas antigas, co-
vel o desenvolvimento de uma personalidade como a como elementos de uma inven- to”. Seus comentários atingem roadas pelas cabeças de terra suave
sua, na cultura figurativa do Quatrocentos. Para isso, re- ção do mundo”. momentos entusiasmados, quan- e luminosa”, seja concentrando-
corda-lhe o nascimento, em 1410, “em Borgo San Se- As cores “são superfícies me- do o(a) leitor(a) encontra a po- -se na cor crepuscular do Sonho de
polcro, no alto vale do Tibre, divisa entre a Toscana e a didas e extensas de uma natureza tência de sua tradutibilidade da Constantino, onde assinala: “Aqui,
Úmbria”, assinalando como “inquestionável que suas completa que vai se manifestan- imagem em palavras. Vejamos a absoluta novidade é a maneira
primeiras impressões artísticas, quando menino, deri- do desde as profundezas sob a luz por exemplo esta passagem, que como Piero transpõe o milagre pa-
varam do Trezentos sienense”. O seu amadurecimento natural. Essa conjunção delibe- descreve a cena do Encontro da ra- ra a natureza, como se dissesse: o
estético, porém, ocorreria entre 1435 e 1440, em Flo- rada ocorre graças a uma ‘síntese inha de Sabá com o rei Salomão: que há de mais milagroso do que
rença: “Ali, ele viria a refletir de maneira bem diferente perspectiva’ que, primeiramente, “No trecho da rainha ajoelhada uma lua cheia numa noite serena
sobre a substância dos fatos, antigos mas ainda solenes, coloca um conjunto selecionado diante da pontezinha do Siloés, da Úmbria?” Isso não reduz seu ri-
do Trezentos local, e a tomar partido diante das enor- de formas simples em terceira di- as damas formam como que uma gor de análise, ao contrário do que
mes novidades de Brunelleschi, Masaccio, Fra Angeli- mensão e, depois, recoloca-as no abside à sua volta: encerradas na podem pensar os acadêmicos em-
co e Domenico Veneziano”. plano bidimensional como ‘pers- avalancha dos mantos, luminosos pedernidos. Saímos da leitura per-
Nesse período, apesar de a maior ideia artísti- pectiva cromática’: tal é, precisa- como geleiras ao sol, rosados, ver- cebendo com clareza os laços que a
ca do Renascimento, a perspectiva, ter sido invenção mente, o segredo da poética de des, brancos, elas desenvolvem o história vai construir, assimilando
do arquiteto Brunelleschi, os pintores seguiam obri- Piero desenvolvida a partir da re- espaço predeterminado com o cír- em parentesco Piero della Frances-
gados a acomodar suas figurações entre os vãos, os es- flexão, também tendo em vista a culo dos cintos, com os gestos de ca, Van Eyck, Rafael, Caravaggio,
paços menos favoráveis. Isso ainda ocorria com Piero forma humana, sobre as mesmas um inconsciente ritual, com a cal- Rembrandt e até mesmo Seurat.
por volta de 1452, durante os seus trabalhos na igreja leis que Brunelleschi havia extraí- ma elegância das nucas majesto- Ao final do estudo de Lon-
de São Francisco em Arezzo. O problema de ajustar as do da mensuração dos edifícios sas, com as frontes desabrochadas ghi, aprendemos como um artista
imagens ao predomínio vertical do gótico acarretava antigos”. E, um pouco mais além, como bulbos gigantescos sobre o (não só Piero) torna-se perfeito. A
consequências — mas, apesar desse e de outros cons- Longhi destaca: “É como se Piero fundo cinza das colinas”. trajetória envolve o respeitoso ma-
trangimentos históricos, Piero conseguiu desenvolver previsse e realizasse plenamente o A grande marca deste livro nejo de influências, a percepção ar-
aquela que foi sua “inclinação fundamental”: repre- lema, então distante, de Cézanne: é, na verdade, a paixão que extra- guta de sua própria época e o salto
sentar o mundo como “eterno espetáculo em ação”. ‘quand la couleur est à sa richesse, la vasa da linguagem crítica. Longhi — que, muito mais que impecável,
O “mundo de Piero se desdobra claro como um forme est à sa plenitude’.” deixa-se arrebatar — seja descre- é visionário — para uma tendência
tecido colorido envolto por uma fatalidade calma e Sobre os afrescos aretinos, vendo as mulheres com suas “tú- pioneira. A partir daí, trata-se de
indiferente”, é o que diz Longhi, e só podemos cons- minuciosamente analisados, o nicas de cauda marcadas pelo exercitar inúmeras possibilidades
tatar essa evidência. Mais adiante, ressalta: “as cores crítico assinala: “Nenhum posi- cinto, para conferir uma majesto- dentro dessa descoberta.
30 | ABRIL DE 2021
Exercício de inspiração
Robinson Jeffers (1887-1962) e
Kenneth Rexroth (1905-1982),
atualmente semiesquecidos, ou no
californiana
mínimo menos lembrados do que
deveriam3. Poderíamos começar a
história em 1913, quando o pri-
meiro deles, fugindo do escânda-
lo causado pelo namoro com Una,
uma mulher casada com um figu-
rão de San Francisco, refugiou-se
(com ela, com quem ficou até que
a morte os separou) em uma re-
Como Robinson Jeffers e Kenneth Rexroth tiveram papel fundamental na gião remota no sul do estado, e lá
ficou. Comecemos pelo pano de
reinterpretação e no impacto de ideias que ajudaram a mudar os séculos 20 e 21 fundo, a Califórnia.
Se alguém olhasse para a re-
gião em 1542, quando o nave-
ANDRÉ CARAMURU AUBERT | SÃO PAULO – SP gador português João Rodrigues
Cabrilho avistou a terra e (segun-
do a versão que eu prefiro, batizou-
-a com o nome de uma praia perto
de Setúbal, sua terra natal), jamais
A
Ilustração: Conde Baltazar diria que aquele viria a ser um lu-
poesia é necessária por- gar importante tanto econômica
que a vida não basta. A quanto — o que me interessa aqui
frase, atribuída a Fer- — culturalmente. Árido, o litoral
nando Pessoa e repeti- californiano por muito tempo só
da por Ferreira Gullar, costuma atraiu, entre os europeus, os mis-
ser evocada sempre que alguém sionários cristãos, jesuítas e fran-
faz a incômoda sugestão de que ciscanos, que iam subindo desde
a poesia não serve para nada. Não o México e fundando aldeamen-
vejo como discordar. Mas e se al- tos (como fizeram no Brasil) com
terarmos um pouquinho a frase nomes como San Diego, San
de Pessoa, dizendo que a poesia é Francisco e Nuestra Señora la
necessária porque pode transfor- Reina de Los Angeles.
mar vidas? Mesmo vidas de quem Até meados do século 19,
nunca leu poesia? Foi esse exercí- a irrelevância global da Califór-
cio, impressionista, mas com ba- nia, então território do México
se em um exemplo concreto, que recém-independente, era total.
tentarei fazer aqui. A população, em 1850, quando
É inegável que a vida não foi tomada pelos Estados Unidos,
tem sido nem um pouco fácil para pouco antes da imigração em mas-
a poesia. Quando digo a alguém sa por conta da febre do ouro, era
que escrevo poemas, algo que se- de apenas 120 mil pessoas. Cem
ria motivo de orgulho em outros anos mais tarde a Califórnia já era
tempos e lugares, noto imediata- uma das regiões mais habitadas e
mente em meu interlocutor um ricas do planeta, e sede da mais in-
olhar diferente, meio interrogati- fluente indústria cultural até en-
vo, talvez de quem quer saber que tão existente, Hollywood. Mas a
tipo de louco eu sou, se manso ou região daria muito mais ao mun-
perigoso, porque quanto à insani- do, no século 20, do que “apenas”
dade em si não haverá dúvida. E filmes. E aí, voltando ao fio da
há mais do que mera subjetivida- meada, vêm à mente movimentos
de nessa conclusão. Relatórios do como a contracultura, o pé na es-
mercado mostram que há um nú- trada, os beats, os hippies, o resgate
mero bem maior de poetas do que da vida junto à natureza. Que de-
leitores de poemas. Ou seja, nem vem muito de sua existência aos
os próprios poetas se animam a ler dois poetas de quem trato aqui.
as obras de seus colegas. Quando foi obrigado a fugir
Ah, mas houve um tempo... de San Francisco, Robinson Jef-
Sim, houve. Mas não nos iluda- fers refugiou-se na então remota
mos. Jamais teremos de volta os Carmel, no sul do estado, onde
tempos gloriosos em que a poe- comprou a preço de banana uma
sia esteve no centro da vida hu- área extensa e ainda selvagem. Lá,
mana. Sem me atrever a regressar ele dividia o tempo entre escrever,
aos contadores de história em vol- perambular por trilhas e construir
ta do fogo do paleolítico (para is- uma torre de pedra com as pró-
so, recomendo o Sapiens de Yuval prias mãos. Jeffers desenvolveria
Noah Harari), me limitarei aos uma poética radicalmente pró-
exemplos mais conhecidos1. -natureza, que era diferente tanto
Na antiga China o sujeito deixou claro em Arabs2, não teria tumam ter uma capacidade acima do Romantismo europeu quanto
não faria carreira na cobiçada má- havido Maomé e a expansão árabe da média para “captar sinais”. E, da tradição norte-americana inau-
quina burocrática imperial se não sem a poesia. O Corão é escrito como uma velha antena esqueci- gurada por Emerson e Thoreau.
conhecesse bem o gênero e não na mais refinada linguagem poé- da num telhado cheio de gotei- A natureza, para Jeffers, não
fosse ele próprio um bom poeta. tica que aqueles tempos conhece- ras, não é porque quase ninguém era algo que poderia fazer o ser hu-
No mundo mediterrâneo foi sem- ram. Não, num mundo em que sintoniza a TV enferrujada que os mano ser melhor, mais puro ou
pre tão notório que a Ilíada e a há infinitas outras maneiras de se poetas deixam de captar as ondas mais verdadeiro. A boa natureza,
Odisseia haviam sido essenciais criar, reproduzir e distribuir cul- magnéticas. E, por vezes, de tanto para ele, seria melhor em si, para
para forjar a identidade grega que tura, aqueles tempos de ouro da teimar em replicar o que recebem, ela mesma, sem a presença do ser
o imperador Augusto — saben- poesia não voltarão. Mas será que acabam por ser ouvidos, e pode humano. Ou, colocando de outra
do que Roma, embora já tivesse isso quer dizer que poetas e poe- acontecer que, mesmo sem se dar forma: para Jeffers, a natureza po-
um império, ainda não uma al- mas ficaram irrelevantes? Meu conta, ajudem a mudar o mundo. deria aceitar o homem, desde que
ma — encomendou ao seu ami- palpite é que não. este se submetesse às suas regras e
go Ovídio a sua própria versão Penso que, ao afirmar que O homem e a natureza se mostrasse disposto a se integrar
de um poema fundante, a Enei- os poetas eram a antena da ra- Essas questões me ocorre- a ponto de, no limite, dissolver-se
da. Que, aliás, ficou muito bom. ça, Pound produziu mais do que ram enquanto eu lia sobre dois nela. Ele até criou um termo para
E, como Tim Mackintosh-Smith uma frase de efeito. Os poetas cos- poetas do século 20 na Califórnia, isso: “inumanismo”.
ABRIL DE 2021 | 31
(...)
Estes velhos ossos ainda podem trabalhar; eles não são para você. E que Sou um homem sem ambições
bonito ele era, planando, em descida Com poucos amigos, totalmente incapaz
Naquelas grandes velas; que bonito ele era, mudando de direção na luz do mar, De viver do que ganho, ficando
sobre o precipício. Eu solenemente afirmo Velho, fugindo de alguma maldição.
Que fiquei chateado por tê-lo desapontado. Ser devorado por aquele bico, me Solitário, malvestido, e isso importa?
tornar parte dele, compartilhar aquelas asas e aqueles olhos — É meia-noite, preparo para mim uma xícara
Que sublime fim para o corpo, que elevação; que vida, após a morte. De vinho branco quente com sementes de cardamomo.
Vestido com um robe cinzento rasgado e uma boina velha,
Um eco deste poema pode ser percebido Aqui sentado no frio, escrevo poemas,
no fim que teve o jovem Chris McCandless, en- Desenho nus nas margens amarfanhadas do caderno,
contrado morto no Alasca em 1992, na história Copulando com garotas imaginárias
que deu origem ao livro (e subsequente filme) Na Ninfomaníacas de dezesseis anos.
natureza selvagem. O bilhete de despedida de
McCandless foi escrito no verso da página de um Foi graças a essa multiplicidade de ativida- NOTAS
poema de Jeffers. É claro que a integração entre a des que, numa noite qualquer de outubro de 1955,
1. Um recente e muito bom
natureza e as pessoas pregada por Jeffers nem sem- Rexroth, que já tinha acolhido o nova-iorquino Fer- texto sobre a importância da
pre implicava ser devorado por um animal selva- linghetti quando este voltou para os Estados Unidos poesia (e da palavra escrita)
gem, como se pode ler, por exemplo, em A beleza após um doutorado na Sorbonne, promoveu um sa- na História está no livro O
mundo da escrita, de Martin
das coisas, que começa assim: rau para divulgar jovens poetas da costa leste. Puchner, trad. de Pedro Maia
Aquela noite, na qual Allen Ginsberg decla- Soares, SP, Cia. das Letras,
De sentir e dizer a espantosa beleza das coisas mou Uivo, enquanto Jack Kerouac recolhia moe- 2019. Sobre o papel dos poetas
na China clássica existe uma
— terra, pedra e água,/ animal, homem e mulher, dinhas entre o público, ficaria conhecida como bibliografia abundante, mas
sol, lua e estrelas —/ A sangrenta beleza da nature- a inauguração do movimento Beat. Ferlinghetti, uma abordagem curiosa e
za humana, de seus pensamentos, delírios e paixões. Ginsberg, Kerouac, Corso e outros ficariam mais pouco conhecida foi feita por
Bill Porter (conhecido como
famosos que seu padrinho, a ponto de o próprio Red Pine e um dos melhores
Famoso por suas idiossincrasias, Jeffers foi Rexroth ser citado, com frequência, como o “Beat tradutores de poesia clássica
um sujeito de poucos amigos, mas teve seus dias mais velho”, algo que, aliás, o irritava, levando-o a chinesa em atividade) no livro
Finding them gone — Visiting
de glória (chegou a ser capa da revista Time). O dizer que trabalhar com insetos não transformava o China’s poets of the past, Port
fotógrafo Ansel Adams tinha nele uma importan- entomologista em besouro (ao contrário dos outros Townsend, Copper Canyon
te fonte de inspiração, e Charles Bukowski dizia beats, Ferlinghetti permaneceu em San Francisco e, Press, 2016.
que ele era seu poeta preferido. seguindo os passos de Rexroth, se tornou ele pró- 2. Tim Mackintosh-Smith,
O prestígio de Jeffers começou a declinar prio, com sua livraria e editora City Lights, um dos Arabs — A 3000 year history of
peoples, tribes and empires,
quando estourou a Segunda Guerra e ele, um pa- principais motores da cena cultural californiana). Yale University Press, 2019.
cifista radical, se opôs, mesmo após o ataque ja- A poesia de Rexroth, diferentemente da escri-
3. Para saber mais sobre
ponês a Pearl Harbor. Quando morreu, em 1962, ta por Jeffers, trazia com frequência um forte tra- a vida de Jeffers, uma boa
Jeffers, isolado em suas terras, experimentava há ço de revolta social, algo que os beats, e depois Bob biografia é a de James
anos um quase completo ostracismo. Mas, pou- Dylan, Joan Baez e outros incorporariam em suas Karman, Robinson Jeffers,
poet and prophet, San
co depois, surgiram os hippies, o zen-budismo e o obras. Rexroth ensinaria a todos que culto à natu- Francisco, Stanford University
veganismo, e a poesia dele estava por trás disso tu- reza e protestos antissistema não eram coisas anta- Press, 2015. Já a trajetória
do, inspirando todas aquelas pessoas. gônicas, muito pelo contrário. de Rexroth (especialmente
a juventude) é relatada em
detalhes por ele mesmo, em
Nascem os beats Berço da contracultura An autobiographical novel,
Entra em cena Kenneth Rexroth. Oriundo É claro que, no país de Walt Whitman, Jack de 1964, com sucessivas
reedições e ampliações até
de Chicago, ele chegou à Califórnia em meados London, Emerson, Thoreau, Melville, Jack London, a definitiva (Nova York, New
da década de 1920, quando Jeffers já gozava de John Muir, Ansel Adams e Woody Guthrie, seria um Directions, 1991), com 542
grande prestígio. Rexroth dizia que detestava tan- bocado de exagero dizer que Robinson Jeffers e Ken- páginas. Para uma brevíssima
introdução aos poemas
to a pessoa de Jeffers (o que era verdade) quan- neth Rexroth5 inventaram o culto à natureza, a va- deles, traduzi para o
to sua poesia (o que era menos verdade). Uma lorização de uma vida ecologicamente sustentável, Rascunho alguma coisa de
parte da obra de Rexroth, voltada à vida na na- as canções de protesto ou a luta pelos direitos civis. Jeffers (ed. 176, dezembro de
2014) e de Rexroth (ed. 172,
tureza, pagava inegável tributo a Jeffers. Mas, ao Ao mesmo tempo, é óbvio que a Califórnia, agosto de 2014).
contrário do primeiro, Rexroth, que tinha ori- com Hollywood e tudo mais, caminharia em dire-
4. Um bom relato desse
gem na esquerda operária de Illinois, via a natu- ção a um papel central na cultura ocidental com ou movimento está em The San
reza como alguma coisa que deveria ser vivida e sem eles. Mas é inegável que, com o que fizeram e Francisco Renaissance —
compartilhada por todo mundo. E não só a natu- escreveram, Jeffers e Rexroth tiveram um papel fun- Poetics and community at
mid-century, de Michael
reza: socialista de berço, Rexroth, ao amar a poe- damental na reinterpretação e no impacto de ideias Davidson, Cambridge Univ.
sia, queria que ela fosse levada ao maior número que ajudaram a mudar os séculos 20 e 21. E que, se Press, 1989.
possível de pessoas. a Califórnia foi um dos principais berços da contra- 5. Poemas de Jeffers e Rexroth
Ele foi um incomparável e incansável agre- cultura, isso teve muito a ver com eles. já apareceram em inúmeras
gador: promovia saraus para divulgar jovens au- E aqui chego às conclusões de meu exercício: antologias, inclusive no Brasil.
Mas, se você quiser encarar
tores, escrevia em jornais, militava politicamente, mesmo que as pessoas pouco leiam, hoje, os poe- um mergulho mais profundo
fazia trilhas em montanhas e mantinha um pro- mas de Jeffers e de Rexroth, eles ficaram pairan- na obra deles, recomendo,
grama de rádio semanal. Entre outras coisas, foi do no ambiente, influenciando e sendo absorvidos do primeiro, o The selected
poetry of Robinson Jeffers,
um dos primeiros (ao lado de Pound e Bynner) a por mais de uma geração (e em mais de um país). editado por Tim Hunt, Stanford
levar as poesias clássicas da China e do Japão para Jeffers e Rexroth, quando escreveram, capta- University Press, com 738
os Estados Unidos. Sua vertiginosa capacidade de ram uma tendência, ou uma angústia, algo que es- páginas. E, do segundo, a The
complete poems of Kenneth
agitar fez com que a Califórnia passasse a ter peso tava no ar e que era maior e mais profundo do que Rerxroth, editado por Sam
próprio na cena poética norte-americana, até en- eles poderiam imaginar. Captaram, digeriram, pro- Hamill e Bradford Morrow, da
tão concentrada em Nova York e Boston, a par- duziram e influenciaram. E, assim como no caso Copper Canyon Press, com 764
páginas. E, se a curiosidade
tir de um movimento que ficaria conhecido como desses dois poetas da Califórnia (que me ocorreram for com relação aos escritos
San Francisco Renaissance4. apenas porque eu estava lendo sobre eles), há mui- de Rexroth sobre a natureza
Mas tanta atividade de divulgação acabou tos outros exemplos, inclusive no Brasil (alguém (que incluem, além de poemas,
trechos da autobiografia,
fazendo com que o poeta Rexroth pagasse um pre- vai negar que os modernistas de 22 tiveram uma correspondência e artigos
ço, e ele acabaria sendo mais lembrado pelo que influência desproporcional em relação ao número para jornais), um livro que eu
agitou do que pelo que escreveu. O que é, não te- de seus leitores?). Poemas são importantes não ape- recomendo é In the sierra —
Mountain writings, editado por
nho dúvida, uma grande injustiça. Vejamos, por nas porque a vida não basta, mas porque eles têm Kim Stanley Robinson, pela New
exemplo, As vantagens do aprendizado: o poder de mudar vidas e lugares. Directions, com 214 páginas.
32 | ABRIL DE 2021
fabiane secches
CADERNOS DE LEITURA
DINHEIRO,
MEMÓRIA
E BELEZA
N
o ensaio Dinheiro, me- Anastasie, a mulher rica e casada
mória, beleza, Roberto que conhece no primeiro grande
Schwarz analisa o ro- baile que participa — e por quem
mance O Pai Goriot, se apaixona de imediato. Mais tar-
de Honoré de Balzac, através de, descobre que Anastasie é uma
das três perspectivas elencadas das filhas do Pai Goriot.
no título: o dinheiro, a beleza e Nos trechos em que Rastig-
a memória. O dinheiro, no en- nac fala sobre Anastasie, vemos
tanto, é o tema central do texto, que, assim como o dinheiro, a be-
de modo que tanto beleza como leza é percebida como uma mer-
memória também são atravessa- cadoria, uma moeda de troca. A
das pela sua lógica, submetendo- beleza é sentida como uma agres-
-se a ela em larga medida. são e agride por exclusão, assim
Balzac foi um exímio ob- como a falta de dinheiro e de ou-
servador das relações humanas tros privilégios. Em uma socieda-
— para Baudelaire, mais do que de pautada pelo consumo e pela
observador, Balzac foi um visioná- concorrência, as mulheres odeiam
rio —, e é considerado o funda- Anastasie pela ostentação da bele-
dor do realismo na literatura. Sua za e da riqueza, o que lhe assegura
A comédia humana reúne quase popularidade, um passe social de
uma centena de romances de 1830 alto valor. Já os homens a desejam
a 1850 — entre os quais está a his- como um troféu, a objetificam.
tória que é objeto desta análise —, Schwarz analisa a ambivalência
e é considerada um inventário da dessa posição e o alto custo im-
sociedade francesa no século 19. plicado em sua busca: menciona
Schwarz inicia seu ensaio fa- a dificuldade que as mulheres do
zendo uma analogia entre dinhei- romance têm para se vestir como
ro e prostituição e apresenta duas se nunca tivessem passado por di-
características que atribui ao di- ficuldades. A encenação da ausên-
nheiro: a capacidade de estabe- cia de dificuldade é dolorosa em si
lecer uma equivalência onde há mesma, como nos lembra Delphi-
subjetividades incomparáveis e o ne, a personagem que não chora
fato de que, numa sociedade capi- para conservar o frescor. Para Sch-
talista, os seres humanos acabam warz, a beleza, nesse contexto, é
se tornando mercadorias, como feminina e apela para o senso mas-
diz Marx. O autor fala num egoís- culino de propriedade.
mo que, paradoxalmente, não está As únicas personagens que
a serviço do eu, já que numa socie- conseguiriam escapar da lógica
dade organizada de tal forma, o eu vigente seriam a Madame Beau-
só é funcional quando quebrado. séant e o criminoso Vautrin. Ela
Para Schwarz, o dinheiro é o por ser muito rica desde sempre
fio condutor da obra de Balzac na e, por essa razão, estaria alheia aos
medida em que a transformação jogos implicados na busca por
de qualidades pessoais em produ- dinheiro (tem, desse modo, cer-
tos é o movimento geral do livro. ta autonomia, certa liberdade em até mesmo uma questão de amor, “O que é um homem sem um mi-
Na história, que se passa na “Paris relação à expectativa social e po- pois o dinheiro economizado ao lhão? Um homem sem um milhão
Mesquinha”, o jovem Eugène de de confrontá-la, sendo excêntrica longo do tempo encarna memó- não faz o que lhe apraz, antes é um
Rastignac, recém-chegado à capi- sem que seja excluída); e Vautrin rias. Mas quando Laure envia suas homem com quem fazem o que
tal francesa, vem da província. É por ser um fora da lei, regido por economias para o irmão investi- seja mais proveitoso.”
ingênuo, de coração puro, mas lo- regras próprias. Os dois podem se -las, o dinheiro passa a seguir a sua Compreensivelmente, Ras-
go se vê deslumbrado com o en- negar a seguir as normas sociais, função usual: perde qualquer re- tignac quer pertencer ao grupo
canto da grande cidade e da alta enquanto as demais personagens lação subjetiva e passa a ser regi- dos que têm um milhão, pois só
sociedade, que passa a frequen- são escravas delas. do pela lei da equivalência geral. assim teria liberdade. Está posta a
tar enquanto vive numa pequena Schwarz observa que a vida “Não tem memória, nem cheiro”, contradição: para ter liberdade, é
pensão decadente, onde conhece na cidade era esvaziada de histó- diz Schwarz, citando Marx. preciso se vender. Porém, uma vez
um senhor chamado de Pai Go- ria subjetiva. O dinheiro não pos- As cartas ingênuas da irmã vendido, o homem se torna parte
riot, um homem que se tornou sui memória alguma, estabelece comovem o protagonista, mas não do sistema, mercadoria, deixando,
motivo de piada após perder todo uma espécie de presente eterno. o impedem de começar a usar as portanto, de ser um sujeito livre.
o dinheiro sustentando os capri- Então contrapõe a relação com o economias dela (aluga uma car- Para Schwarz, a lógica de
chos das duas filhas. Ex-comer- dinheiro vivida por Rastignac em ruagem, compra um par de luvas) Balzac é implacável. Essa breve
ciante próspero, o Pai Goriot usou sua nova condição de cidadão pa- e, desse modo, iguala a dedicação análise faz pensar em algo que
toda a sua fortuna para garantir risiense e a relação vivida por Lau- pessoal de Laure ao serviço anôni- não se restringe à sociedade fran-
bons casamentos e uma vida lu- re, sua irmã que ainda mora na mo do cocheiro. O dinheiro passa cesa. Longe disso, tornou-se uma
xuosa a elas, mas, na velhice, fora província, para quem o dinheiro a se opor à memória, a desfazê-la. realidade geral, compartilhada, e
abandonado por ambas, vivendo é visto como fruto do esforço pes- O romance de Balzac traz esses três temas continuam ren-
solitário na pensão decrépita. soal. Na província, toda soma tem ainda a discussão a respeito do in- dendo reflexões importantes para
Rastignac se solidariza e se a sua história, o dinheiro não apa- tercâmbio entre liberdade e di- entender o mundo em que vi-
aproxima do Pai Goriot, compar- rece desconectado de seu processo nheiro: um homem sem dinheiro vemos e para pensar num outro
tilhando com ele as suas vivências de aquisição. Uma transferência não teria liberdade alguma, esta- mundo que, porventura, queira-
e seus encantamentos: descreve financeira poderia ser, nesse caso, ria aprisionado à vontade alheia. mos construir.
ABRIL DE 2021 | 33
A tensão
DIVULGAÇÃO
superficial
do tempo
Os poemas de A paisagem correta, de Amir Or,
passam pela construção errática de Israel, país
formado às custas de guerras e instabilidade social
A
paisagem é Israel e lemos cie mais escura, provavelmente veremos uma pequena
pausadamente as pala- série de movimentações luminosas projetadas no lu-
vras que vêm em seguida: gar para o qual olhamos. Essas transformações cromá-
“De manhã ergueu-se e ticas são cores “fisiológicas”, quer dizer, pertencem ao
O AUTOR
abriu a janela:/ Uma linha de sol olho, foram produzidas por ele. É uma experiência co- ocupado, em partes, por Israel,
— do oriente ao mar,/ foi-lhe ao mum, e também foi descrita por Goethe na Doutrina AMIR OR que ficou com um espaço maior
coração, um peso no ar,/ E ele en- das cores (1810). Jonathan Crary, professor de Histó- que o previsto pela ONU após as
Nasceu em Tel Aviv, em 1956, e
tão despertou: ‘a terra é bela!’”. ria da Arte na Universidade de Columbia, Nova York, apropriações em guerra.
estudou religião comparada na
Se jogamos “Israel” no Goo- se utiliza dessa experiência para exemplificar uma mu- Universidade Hebraica de Jerusalém.
Nisso, muitos árabes foram
gle, na parte dos vídeos, aparece dança na forma como passamos a observar o mundo a Dentre suas várias ocupações
expulsos de suas casas e cidades e
logo este: Conheça Israel em dois partir de determinada época. estão a de poeta, romancista se refugiaram em países vizinhos,
minutos. É uma propagada, um Se antes o olho era um “instrumento” para des- e tradutor. Seus livros estão enquanto judeus do Oriente Mé-
apanhado de paisagens turísticas. crever o fora sem interferências, uma espécie de len- traduzidos em mais de 40 idiomas. dio ou sobreviventes do holocaus-
Esses takes panorâmicos do Mar te neutra sem corpo para nomear o visível, a passagem to migraram em massa para Israel.
Morto (salgado a ponto de uma para o século 19 trouxe a empiria para a cena. O corpo Esse passado de conflitos se esten-
pessoa não conseguir submergir, não só mensura o que existe, ele agora também produz de até os dias de hoje, e o país, ain-
sendo quase impossível se afogar forma. Virginia Woolf diz algo parecido numa síntese da que se orgulhe de ser “a única
nele) ou do Mar da Galileia (que, mais ou menos assim: ser ativamente passivo é o traba- democracia do Oriente Médio”,
na verdade, é um grande lago de lho do artista, que recebe choque e doa forma. mantém uma cultura militar pre-
água doce) nos ajudam a compor Voltando ao livro de Amir, encontramos o poe- sente no cotidiano.
as cenas do poema acima, presen- ma Não perguntes: Voltemos aos poemas. Por
tes no livro A paisagem correta, exemplo, Estrangeiro: “trouxe-
do israelense Amir Or. À planície sob o papel chamarás mesa. ram-no para ser queimado no
Essa é a primeira antolo- Não perguntes de onde vieram as palavras. monte de lenha,/ esterco e liba-
gia do autor publicada no Brasil. Observa o mundo das folhas: tu o chamarás árvore. ção de óleo. Seres sem sombra e
Conforme o organizador e tra- Na folha da manhã faísca uma gota de orvalho. sem reflexo”. Ou em Florescência:
dutor da obra, Moacir Amâncio, Não perguntes como, pergunta de onde: A paisagem correta “Quando os mortos preparam o
anota no texto de apresentação: a forma das coisas é a forma do olho. AMIR OR próximo nascimento/ os cemité-
“Tradutor do grego clássico e co- Trad.: Moacir Amâncio rios cheiram a primavera”.
Relicário
nhecedor das religiões do espectro No poema, a forma das coisas é a forma do olho, Em um artigo sobre a poe-
76 págs.
budista, [Amir Or] incorpora-as ou produzida pelo olho. Em outro poema mais adian- ta israelense Yona Wolach (1941-
ao universo da Criação hebraica te, Lembrança. O fora é rasgado de dentro dele, também 1985), conhecida pelo erotismo
num fluxo de renovação particu- encontramos uma referência direta a essa espécie de du- aberto de sua poesia, Moacir
lar e geral. Como se sabe, Deus se ração do sol no olho: “O poema é memória, como o Gênese e renovação Amâncio escreve algo que nos
revela a Abraão como um verbo sol// que fica no olho após a olhadela no sol”. E ainda: Não dá para passar pelo li- serve para ler Amir Or também:
(Ser-Estar-Sendo) na própria di- “O poema, dizes, é como// o sol que fica no olho após vro sem esbarrar na formação do “A opção à margem da lei implica
nâmica das coisas”. E acrescenta: uma olhadela no olho/ que olhou o sol”. Aí, a memó- território, ou da paisagem, de Is- superar tabus tanto formais quan-
“Sua poesia é, portanto, poesia do ria é como um rasgo de luz produzido por dentro, um rael. O país se formou já no século to práticos, sob o peso da hora,
movimento que retorna e se reno- lampejo, como uma lembrança. 20, às custas de guerras e instabi- quando as tensões vêm à superfí-
va na perspectiva do laço sem fim Partindo para outro poema, Oração a Orfeu, tam- lidade social. cie”. Fala em transgressão, ruptu-
nem começo”. bém lemos: “Tu estás lá, atrás do meu olhar? Meu olhar Uma retrospectiva rápida: ra ou, ainda, “reinícios dentro da
Se tomarmos esse laço como vai além de mim?”. Nessas duas perguntas estão dois mo- no fim do século 19 surgiu o sio- linguagem” — como é perceptível
o símbolo do infinito, a forma do mentos: atrás do olhar, como uma memória que se fixa nismo, uma teoria que defendia no poema Vem, em que o corpo
número “8”, e pregamos os olhos por detrás dos olhos, uma imagem; e o olhar que vai além, que a sobrevivência do povo ju- se integra (e entrega) à desordem:
nesse símbolo, não identificamos como aquilo que o corpo projeta, e também apreende. deu, espalhado pelo mundo, de- “Relê. Lê entre as linhas./ Deco-
onde começa nem onde termi- “Olha em volta e abandona este caminho” é um pendia da criação de um Estado difica. Destrói todo testemunho./
na a linha. Retomemos o poema verso do poema Segunda-feira, “basta ver que o dentro próprio, a ser erguido na Palesti- Tudo pronto?/ então vem, / Va-
citado no início, em que se abre é o fora, juízo”. Aqui, dá para pensar que essa oposição na, onde viviam os árabes. A jus- mos fazer amor”.
uma janela diante do mar. O que dentro/fora é uma facilidade fonética, um joguinho tificativa eram as histórias que Afinal, por necessidade ou
é uma paisagem? Abrir a janela, frouxo de palavras. Ou também que se trata de uma apareciam na Bíblia e faziam re- acaso, quando o olho projeta o
ver uma linha de sol. Ou o verbo imagem que imita o mundo exterior por meio do so- ferência à Terra de Israel. horizonte, a guerra organiza a
composto que guarda a dinâmica nho ou como imaginação e pensamento. Em resumo, a Organiza- violência e a morte desorganiza o
das coisas. Nos dois, quando pre- A recorrência do sentido da visão talvez nos le- ção das Nações Unidas (ONU), corpo, esses movimentos, também
gamos os olhos, aprendemos al- ve a supor a voz que fala no poema como um especta- em 1947, ano de sua criação, de- na poesia de Amir Or, estão sem-
gum tipo de infinito. dor separado do mundo, assistindo. Mas, como ressalta terminou um plano de partilha pre se renovando. Como no poe-
Moacir Amâncio, a imagem da “ampulheta” fluindo do território entre judeus e pa- ma Floração: “O Eros da floração
A forma do olho “dentro de si mesma”, no poema Não longe, exemplifi- lestinos. Não aceito pelos palesti- flutua à minha janela/ entre os ar-
Se fixamos o olhar em um ca que não há essa divisão. Ainda nesse poema, lemos nos, o evento desencadeou várias bustos de buganvília e me diz:/ tu
ponto luminoso por alguns ins- “o jorro dos rios/ de asfalto,// estiradas aos olhos do dia guerras e confrontos. O resulta- também não escaparás à prima-
tantes, seja uma lâmpada ou o sol e se bronzeando, a nudez animal da cidade/ das gen- do: criou-se o Estado de Israel, vera das criaturas./ E eu, afogado
de viés, e depois desviamos o foco tes”. O dia que olha as superfícies como parte da mes- mas não o palestino. Além disso, em néctar, abro para ele, de novo,/
e nos voltamos para uma superfí- ma “nudez animal”. o território do segundo acabou abelha trabalhadora que só”.
34 | ABRIL DE 2021
Rebelião
silenciosa
Em romance histórico e livro de ensaios,
Leonardo Padura discute a atuação e o destino
de artistas submetidos a contextos autoritários
Sobre heróis
da mesma forma que acontecera enquanto Mademba, pequeno e
com seu amigo. Por fim, com um franzino, não parava de estudar e,
golpe preciso, degola sua vítima. aos 12 anos, já recitava o Corão de
Mas esse ritual macabro não se en- cor. Mas eram unha e carne. Fo-
e amigos
cerrava aí. Decepava a mão direita ram circuncidados no mesmo dia
e a trazia junto com o rifle que ela e receberam lições de um ancião,
antes empunhava. Trazia esse tro- que lhes disse:
féu para o acampamento francês,
onde chegava cheirando a morte, Nada do que nos aconte-
“como uma estátua de sangue e la- ce aqui em baixo é novo, por mais
Com estrutura que dialoga com clássicos, Irmão de ma misturados”. grave ou benéfico que possa ser. Mas
alma, de David Diop, traz uma comovente história De herói a feiticeiro
aquilo que sentimos é sempre novo,
porque cada homem é único, como
de vingança e loucura ambientada na guerra De início, Ndiaye é cele- cada folha de uma árvore é única.
brado como um herói, afinal, ele
apenas exacerbava o papel que o É impossível não deixar de
MARCOS ALVITO | RIO DE JANEIRO – RJ capitão Harmand esperava dos assinalar aqui a semelhança com
“chocolates da África Negra”: o símile homérico de que as ge-
“bancar o selvagem a fim de as- rações são como as folhas das ár-
DIVULGAÇÃO sustar o inimigo”, que tinha “me- vores, que o vento lança ao chão
do dos negros, dos canibais, dos (Ilíada). Mas a lição do velho mu-
zulus”. Sendo assim, os soldados çulmano aponta para a especifici-
negros deveriam fortalecer esse dade individual.
imaginário saltando da trinchei- Para encurtar a história, é
ra com o rifle na mão esquerda e o Mademba que tem a ideia de en-
temível facão na mão direita, colo- trar na guerra para ajudar a “Mãe
cando “no rosto olhos de loucos”. França” e para se tornar um cida-
Mas depois da quarta mão dão francês. Ndiaye o ajuda a pas-
trazida por Ndiaye para a trinchei- sar no teste físico, preparando-o
ra, até os negros começam a ter durante meses. E entra no exército
medo dele. Circulam boatos de com ele. E, em seguida, a tragédia.
que ele era um dëmm, um feiti-
ceiro que devorava as almas dos Vingança e loucura
inimigos e também dos amigos. Não posso contar o que
Todos continuam a sorrir diante ocorre com Ndiaye no hospital.
dele, mas apenas por medo. Com Na Ilíada, o furor de vingança de
isso, ele se torna um “intocável” Aquiles equivale a uma forma de
— há quem tenha pavor de sequer loucura. Não cessa de se vingar de
mirar nos seus olhos. Heitor, que matara seu amigo Pá-
Ndiaye percebe que o ver- troclo. Depois de vencê-lo, arras-
O
dadeiro dëmm é o capitão, que ta o cadáver de Heitor em torno
O AUTOR
tema da morte e dos ir- mem cheio de dúvidas, que não tem os olhos “mergulhados em das muralhas de Tróia, para de-
mãos de armas é mui- para de examinar seus atos passa- DAVID DIOP uma cólera contínua” e “ama a sespero de sua família e de toda
to antigo. Já aparece na dos. Inconsolável, transformou-se guerra como se ama uma mulher a cidade. Não satisfeito, chama os
É professor universitário e romancista.
Ilíada, quando Aquiles, em um narrador ambíguo ator- caprichosa”. Ele “alimenta-a sem heróis gregos para atravessarem o
Nasceu em Paris, em 1966, e passou
transtornado pela morte de Pátro- mentado por questões insolúveis. a infância no Senegal, voltando à
medidas com as vidas dos solda- corpo de Heitor com suas lanças.
clo, parte em fúria na direção dos Também atormentado é o França para estudar. Irmão de alma dos”: Harmand é que é “um de- Os deuses, todavia, preservam o
inimigos. Pátroclo avisa ao troiano narrador e protagonista de Irmão é sua segunda obra, a primeira vorador de almas”. cadáver do troiano. Aqui temos o
Heitor que ele morrerá nas mãos de alma, igualmente por causa foi 1889, L’Attraction universelle, Após arrancar a sétima mão tema da mutilação do corpo ini-
do seu amigo. O grito de Aqui- de um amigo que morre na guer- um romance histórico. Irmão de inimiga e trazê-la para o lado fran- migo como forma de vingança, fa-
les, tomado pela dor e pelo desejo ra. Soldado senegalês do exército alma foi publicado na França em cês, Ndiaye é afastado pelo capitão to central em Irmão de alma.
de vingança, infunde o terror na francês durante a Primeira Guerra 2018 e ganhou o Prix Goncourt des e enviado para um hospital, onde Aquiles só irá acalmar-se
tropa inimiga. O aspecto trágico Mundial, Alfa Ndiaye vê morrer, lycéens, em que dois mil estudantes é cuidado por um psiquiatra, vi- depois da corajosa visita feita pe-
não está ausente: vingar Pátroclo, diante dos seus olhos, Mademba do Ensino Médio leem 12 obras sando “limpar o nosso espírito da lo pai de Heitor, Príamo, rei de
selecionadas pelo júri, participam
matando Heitor, significava selar Diop, um amigo que ele conside- sujeira da guerra”. Começa aqui a Tróia, que lhe pede que o corpo
de debates e elegem o vencedor. O
a sua própria morte. Mais do que rava como “mais que irmão”. As parte mais bonita do livro, quan- do filho seja devolvido para que
prêmio teve uma versão brasileira
vingar o amigo, ele lhe oferece a duas famílias eram ligadas por um em 2019 e o júri de dez universitários
do o tratamento leva Alfa Ndia- a ele sejam prestadas as honras
própria vida. parentesco simbólico e eles se co- também elegeu o livro de Diop. ye a mergulhar em suas memórias fúnebres. Por entender, graças a
Poderíamos recuar mais nheciam desde crianças. O pior é de infância e juventude, a começar Príamo, que também ele, Aqui-
dois mil anos na direção da epo- que Alfa Ndiaye se considera du- pelo seu primeiro amor. les, morreria e seria chorado pelo
peia de Gilgamesh, rei de Uruk, plamente culpado. Acha que Ma- seu pai, ou seja, por compreen-
que forma com Enkidu um par demba Diop se lançou feito um Antes da tragédia der o aspecto trágico da condi-
complementar. Eles se enfrentam louco da trincheira para respon- O pai de Ndiaye era um ção humana.
em uma luta terrível para depois der a uma brincadeira do amigo velho homem com três esposas, No caso dos soldados “cho-
se tornarem inseparáveis e viverem acerca do totem da família dele. respeitado, mas sem grandes ri- colates da África Negra”, cujo
várias aventuras juntos. O primei- Ao encontrar Mademba, que tive- quezas e poder. Sua hospitalidade destino é tão bem dramatizado
ro representa o lado civilizado e ra o ventre rasgado de cima abaixo para com um pastor nômade faz por este livro, sua tragédia está
o segundo, selvagem. Será a mor- pela baioneta de um inimigo, Alfa com que este lhe ceda sua belíssi- ligada à dominação colonial e à
te do amigo que levará Gilgamesh Ndiaye se recusa a degolá-lo, mes- ma filha Yoro Ba como retribui- produção de um imaginário acer-
a tomar consciência da condição mo que o amigo, “devorado pela ção. Ela era digna de casar com ca do homem negro que servia
humana e a tentar superá-la bus- dor”, implore para que seu suplí- um príncipe e seu dote devia valer para legitimar e justificar os im-
cando a imortalidade. cio seja abreviado. um rebanho. Tudo vai bem, mas périos das potências europeias.
Até mesmo Riobaldo e Dia- A partir daí, assolado pe- quando seu pai desaparece, Yoro Esta ideologia foi uma destrui-
dorim, cujo amor “era um impos- la culpa e pela raiva, Alfa Ndiaye Ba vai atrás dele e também aca- dora de vidas, uma devoradora
sível”, são companheiros de luta se dedica a uma forma de vingan- ba sumindo. Entristecido, Ndia- de corpos e almas. Conscien-
e parte de um mesmo bando de ça assustadora contra os soldados ye acaba sendo adotado pela mãe te desta mentira e com o corpo
jagunços “cachorrando” pelo ser- de olhos azuis, um dos quais foi de seu amigo Mademba, por in- apropriado para o papel, Ndia-
tão. A morte de Dia-dorim, no- o carrasco do seu amigo e irmão. sistência desse. Sendo assim, eram ye acreditou ser possível mani-
me cuja etimologia pode significar Rastejando, aproxima-se da trin- triplamente irmãos: pelo parentes- pular este fantasma a serviço da
“através da dor”, é que põe Riobal- cheira inimiga e finge-se de morto co de zombaria que havia entre as vingança pelo amigo que perdera.
do a “especular ideia”, recontan- até derrubar um soldado com um duas famílias, pela forte amizade Ele matava com o facão que afia-
do e ressignificando sua vida para golpe de facão na perna. Amarra- que os unia e por terem sido cria- va durante horas, mas o prazer da
o doutor da cidade que o escuta -o e em seguida despe-o totalmen- Irmão de alma dos pela mesma mãe. retribuição era obtido pelo medo
com toda a paciência. É a perda te para desfrutar do terror que vê DAVID DIOP
Ndiaye e Mademba eram que via nos olhos azuis dos inimi-
do seu “amor de ouro” e o deses- nos olhos de sua presa. Em segui- Trad.: Raquel Camargo opostos complementares. Ndiaye, gos. As mentiras que contamos
pero por ter contribuído para tal da, com um golpe no ventre, põe Nós belo, forte e musculoso, só que- para nós mesmos, todavia, aca-
que farão de Riobaldo um ho- o lado de dentro do lado de fora, 128 págs. ria saber de dançar, nadar e lutar, bam sendo as mais perigosas.
ABRIL DE 2021 | 37
rascunho recomenda
DIVULGAÇÃO
ALEXANDRA MAIA
há um tempo
talvez fosse possível ver outra realidade
há um tempo olho com paciência se chegássemos perto, se olhássemos
a rachadura aberta de um lado pela janela, se déssemos a volta
a outro do meu crânio talvez até fosse possível ver as fissuras da rua
quase tão funda quanto a fratura adormecidas e cobertas por caixas de papelão
por onde brota um rio
no meio da sala de estar não. nossos olhos não se abriram
de todo
como a cratera — que não vemos
mas pulamos — a se abrir nos dias é ainda preferível encher
como a fissura engendrada com punhados de concreto a fenda
na Tate Modern pela Dóris Salcedo que teima em aumentar
aquela profunda divisão nos convida a olhar para dentro — apesar das linhas costuradas à força —
a ver reabrir o crânio, ou melhor, a sala, não
você olha dentro e vê a catástrofe formada o peito
por fora ainda um comentário sutil
leve poeira levantada mas quando a exposição terminar 200.000
e a rachadura parece fazer parte a fissura será fechada, a fissura estará sob o chão
algo que chega devagar coberta por fina camada de horas mortas só não morrer só só não morrer só não morrer só não morrer
e de repente está lá uma cicatriz, nem isso, um arranhão só só não morrer só não morrer só não morrer só não morrer
e de repente ocupou todo o espaço não morrer só não morrer só não morrer não
marca de uma vida que tem morrer só não morrer só não morrer só não morrer só
o mundo está de cabeça para baixo todo o seu peso sobre a palavra sim não morrer só não morrer só não só
ou nós que olhamos o mundo do fundo do buraco? não só não morrer só não morrer só não morrer só não morrer
e por que o medo de cair para o alto sobre o que mesmo estamos falando? só não morrer só não morrer
se já estamos no fundo? só não morrer só não morrer só não morrer só
só não morrer só morrer só
não esqueça
tudo chega em dado momento então
ALEXANDRA MAIA
se você passar pelo corredor ainda a tempo
É carioca, poeta, jornalista, produtora de cinema e teatro. Tem de sobre as macas ver os corpos
dois livros de poemas publicados: Coração na boca (1999) e Um
objeto cortante (2019). Publicou também 100 anos de poesia – Um
panorama da poesia brasileira no século XX (2000). Na quarentena, interrogue os mortos
criou a live Poesia Livre no Instagram @alexandramaia. eles ainda falam
A um siamês de olhos vesgos Descubro a música do corpo, Escrever a imagem que está perto da janela.
no espaço do quarto e danço livre Não descrever.
Ele vem da inocência idioma primeiro do que pode ser imperceptível, pandemônio. Registrar sua face limpa
enrodilhado em sua trama de pelos que preenche e esvazia a noite.
tal uma cobra anódina sem defesa Danço,
sequer conhecedora do veneno porque minha rotina é olhar para as estrelas. Uma coisa é sentir
elixir dos rápidos acertos Ter esse exagero de sinceridade comigo mesma. outra perceber.
deleita-se em afiar as unhas no tronco
da árvore e estirar os músculos Desde pequena minha coragem Depois movimentar a câmera.
para prolongar a vida como um talismã é fabricação caseira. É que de perfil existe esta rara luz
do tempo tão sagrado que vem do rosto,
quanto alheio ao esquecimento dos pequenos nascimentos:
como se o delicado motor de seu corpo o movimento dos braços,
pudesse calar o furor dos desejos O que foi possível viver o que aparece no corpo ampliado, consciente.
e adormecer na raiz o pior dos tormentos
Não renego nenhum dos amores que tive. Uma coisa é desejar
outra permitir.
Abro a janela,
O príncipe de Aquitânia o beija-flor de corpo aberto Escrever
lembra outro que carregava o mundo. sei me revelar
Tira a roupa e anda na noite branca na companhia da águia? Dos tigres?
até a árvore onde faz sua forca Não renego o que foi possível viver sem medidas:
saudando os pássaros que chegam de viagem. um tempo de me assumir fera
Na orelha um miosótis: “não me esqueça”, nos momentos absurdos e belos.
como se a nudez não bastasse. Uma história
Não fiz o filho. Desejado?
Não posso trazer de longe a casa que tinha
Amei na total falta de estrutura. a cristaleira com vidros bordados,
Fogo negro em fogo branco Nenhum dos homens foi a casa. as flores ensopadas de colorido,
e a altivez de uma garça muito branca
A Maurice Blanchot que apelidei de Maria Elegância.
Nem uma pena de Maria voou
Nada se diz por inteiro sem morrer no signo: fogo negro para dentro dos bolsos quando deixei a casa.
em fogo branco, sem incendiar os lábios
e o silêncio que fala além das sílabas LILA MAIA Hoje, se fecho os olhos,
como se sonorizasse cada fresta de sentido, É maranhense e vive no Rio de Janeiro (RJ). posso imaginar cada tijolo,
cada fosso aberto nas entrelinhas Autora dos livros de poemas: As maçãs de antes o sol que ficava ali, no número 11.
que separam a carne do tempo e o tempo (Prêmio Paraná de Literatura 2012 e semifinalista
do então Prêmio Portugal Telecom), Céu despido
da beleza que esvai no esquecimento. (2004, II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e Do mundo adquiri contas a pagar.
Mesmo que caia por terra o céu da clarividência A idade das águas (1997). E Maria Elegância é só uma ternura antiga.
e cego de sol o dia escureça
na trégua entre um olhar e outro
os sentidos mortos aprendem a respirar de novo:
fogo negro em fogo branco, essa língua neutra
que faz o tempo sinuoso e a verdade branca
da existência que a palavra sente sem dizê-la
como um sintagma que cintila ao ser devorado MATHEUS GUMÉNIN BARRETO
pela noite. Ainda assim terá valido a pena
não dar de ombros ao assombro e deixar queimar
nas mãos (nos olhos) o signo: fogo negro em fogo branco. Juízes, III, 22 Josué, VI, 20
***
***
CONTADOR BORGES MATHEUS GUMÉNIN BARRETO Seu amor medonho apodrecendo nas mãos
Nasceu em São Paulo (SP) em 1954. É autor de diversas obras de Nasceu em 1992. É poeta e tradutor mato-
poesia, ensaio e teatro, entre as quais O reino da pele (poesia, 2003), grossense, um dos editores da revista Ruído sem quem o colha
Wittgenstein! (teatro, 2007), A morte nos olhos (poesia, 2007) e A cicatriz Manifesto. É autor dos livros A máquina de carregar
de Marilyn Monroe (poema dramático, 2012). É coordenador e tradutor da nadas (2017), Poemas em torno do chão & Primeiros sob os ecos do pátio
coleção Pérolas furiosas, dedicada às obras do Marquês de Sade. poemas (2018) e Mesmo que seja noite (2020). (é sempre fim de tarde)
40 | ABRIL DE 2021
E
xiste uma pequena pousada a beira-mar contribui para o perfil discreto da Em um fim de tarde, po- treitou-se ainda mais. O homem
em Búzios, no estado do Rio, denomi- cozinha, obriga os visitantes, ao rém, um homem, acompanha- passeia um olhar distraído pela
nada Casa da Joana. Fica na parte quase entardecer, a partir em busca de do pela filha e a neta, chega à paisagem. Registra à direita, a cer-
central da praia de Geribá. Tem dois an- locais onde possam se alimentar pousada. Os três se dirigem aos ta distância, meia dúzia de pessoas
dares, entre oito e dez quartos, metade no térreo, — para daí bater pernas pelas lojas aposentos para eles reservados, sentadas em semicírculo. Conver-
metade no segundo piso. Como estilo arquitetôni- e barracas ao ar livre do balneário. instalam-se em questão de minu- sam entre si, enquanto passam
co, faz o gênero colonial délabré, ou seja, é um des- Os clientes da pousada, al- tos — e tomam o rumo do deck. cestas ou garrafas de mão em mão.
ses imóveis que talvez ganhassem com uma nova guns vindos do Rio, outros da Na praia, uma brisa agita a vegeta- Um piquenique, pensa o ho-
mão de tinta aqui ou ali — sem que a ausência da vizinha região dos grandes lagos, ção rasteira perto das dunas. mem. Não parecem turistas, devem
melhoria seja propriamente notada pela adminis- são fiéis a Joana. Por seu lado, a Naquele horário, o deck se ser locais.
tração ou reclamada por sua clientela. hoje octogenária senhora cor- encontra vazio, exceto por um Não longe do ponto esco-
Ao contrário, tudo naquele espaço, bem co- responde à lealdade sorrindo de casal sentado a uma mesa de can- lhido pelo grupo, a praia forma
mo em seu entorno, prima por uma elegante casua- uma poltrona próxima à entra- to. De olho na arrebentação visí- uma ligeira enseada. Avô e neta
lidade, fronteiriça ao desleixo; e qualquer pequena da, de onde imagina comandar vel ao longe, pai e filha respiram tomam essa direção. Ele tencio-
falha que se registre (lâmpadas a serem trocadas, domínios desde muito confiados fundo, enquanto a criança hesi- na dar um mergulho, ela recolher
uma poltrona em busca de estofamento), é com- à filha e ao genro. ta entre o mar e a piscina. Pró- conchas que enriqueçam sua co-
pensada pelo calor humano das pessoas que cuidam Nada cheira a dinheiro ou ximo à linha do horizonte, o sol leção. A meio caminho, a meni-
dos hóspedes — e dos espaços por eles navegados ostentação naquelas paragens, começa a se pôr. na dá adeus à mãe que, do alto
—, atenções que se estendem ao jardim e ao deck mas tudo funciona a conten- De mãos dadas, avô e ne- do deck, acena de volta. A figura
debruçado sobre o mar. to. Na parte da manhã, os hós- ta cruzam a portinhola de madei- esguia da mãe, cabelos ao vento,
Este último é mar aberto, bem típico de Bú- pedes se distribuem pelas mesas ra que separa a praia da pousada. acompanha o passeio dos dois por
zios na maioria de suas praias, com ondas de arre- próximas à piscina, ou na faixa E descem com cuidado a peque- um momento.
bentação distantes da orla, o que as transforma em estreita de areia em frente, on- na trilha que leva ao mar. Com a Chegados à parte da orla
espuma na parte mais rasa das águas, onde crian- de dividem o espaço com outros ponta do pé, a menina verifica a onde o mar está de fato tranqui-
ças e idosos se banham em segurança. turistas abrigados em pensões ou temperatura da água. lo, a criança se senta na areia e op-
Fora ocasionais salgadinhos, a pensão não hotéis vizinhos. E os dias trans- Devido à maré alta, a faixa ta pela construção de um castelo.
serve nem almoço, nem jantar. A restrição, que correm sem pressa. de areia na qual se encontram es- O avô segue os progressos de per-
ABRIL DE 2021 | 41
to. Depois, tira a camisa e se apro- ce inevitável. A essa altura, o genro dem. A criança grita ao vê-lo de- lado. Alguém aponta para o alto.
xima da água. Conhece os perigos já terá saído de casa. Ao regressa- sabar sobre o castelo. E corre para Uma lua cheia, baixa e amarelada,
do mar, frequentou muitas praias rem, a rotina da pequena família sua gente. O círculo fecha-se de quase oval de tão irreal, é saudada
pela vida afora. Chegou, no en- irá mudar. Chega a se perguntar imediato à volta dela. com respeito. Na sequência, os vi-
tanto, a uma idade em que já não se teria sido boa a ideia de cha- De quatro na areia, ergue-se sitantes se despedem. É tarde e, pa-
confia em suas forças. Em par- mar mãe e filha para passar esses com dificuldade. E, tropeçando a ra eles também, a vida continua.
ticular os joelhos, que por vezes dias em Búzios. Ambas adoram o ponto de quase cair novamente, Na cama, o homem revê
baqueiam e cedem sob seu peso. lugar, é certo. Mas há momentos avança em direção ao grupo. Lá as cenas noturnas. Pouco falara,
A verdade é que, como costuma em que é preferível enfrentar cer- chegado, arfante, investe como um de tão debilitado. A exemplo das
apregoar aos mais chegados, já tos desafios a evitá-los. bêbado contra as pessoas. Aponta duas meninas, mantivera-se dis-
não é o mesmo. O que fazer diante desse gêne- para trás, desesperado. Minha neta! tante, acanhado como elas.
Passa, então, a apreciar a ro de encruzilhadas? grita sem fôlego, como se o berro, Exausto, fecha os olhos e
dança das ondas. Satisfeito de que Era o tipo de pergunta com por si só, tudo explicasse. tenta adormecer.
nada têm de ameaçadoras, avança que se deparara mais de uma vez Olham todos para trás. Mas No lugar do vento rasteiro
com prudência até ter o mar pela ao longo da vida. E que o leva a ali, fora as ruínas do castelo, na- que sopra por entre as dunas, po-
cintura — e por ali fica. suspirar enquanto lida com as es- da restara. rém, é uma leve batida que escuta.
Na praia, a neta segue edifi- pumas ao redor. Revisita então As mulheres abraçam a me- Muito próxima, quase um afago na
cando o castelo. A cada instante, antigas mágoas, pois em outros nina. Menos uma delas, pensa. A madeira. Mas insistente... Pela por-
o avô ergue a cabeça e a procura tempos trilhara percurso seme- que sumiu colina acima carregan- ta entreaberta, a fresta de luz che-
com o olhar, um gesto que repeti- lhante. Sabe o que aguarda filha do o fardo. ga à cama. A voz, baixa, é familiar:
rá mecanicamente ao longo desse e neta quando retornarem ao lar: O grupo o cerca, três jovens Oi, paizinho...
fim de tarde. Quanto à filha, desa- uma casa semidesfeita, alguns mó- o seguram com firmeza. Indig- A filha se aninha na cama.
pareceu de seu raio de visão. veis retirados, paredes despojadas nados, barram o acesso à meni- Como fazia em menina. Pergun-
Terá deitado em uma das es- de quadros, estantes meio vazias, na. Debate-se. Descobre-se mais ta como está.
preguiçadeiras do deck, deduz. Che- livros empilhados a um canto, forte do que supunha. A gritaria Que confusão você arrumou...
ca de novo a neta. Sabe que, sem plantas necessitando de água, o é geral. Como cegos brigando no — brinca. — E que susto, papai.
permissão, ela jamais entraria na cachorro vagando pelo corredor... escuro, acusam-se sem saber ao Mais baixo ainda, ao pé do
água. Não há, portanto, por que A filha sobreviverá. Saiu a certo de quê. ouvido, o sussurro:
se preocupar. Pode se dar ao luxo ele, é teimosa e forte. Mas e a ne- Por fim, em meio ao tumul- Dor de barriga, vovô...
de boiar e contemplar as nuvens. ta? Adora o pai e é tão jovem... Sa- to, faz-se um silêncio. E ri, abraçada a ele.
No geral, mantém-se senhor berá lidar com os desafios que a A menina falou. Um fiapo Ainda seria possível evitar
de seus movimentos. E quando esperam? de voz, se tanto, mas algo disse. que a casa da filha se desfizesse?
uma ou outra onda o envolve, não Deixa as aflições de lado e E moveu a mão. Debruçado so- Não era a hora de trazer o as-
opõe resistência: deixa-se levar. O se entrega por completo às águas. bre ela, o grupo se imobiliza. E, sunto. Os castelos se fragilizavam ao
mar o ampara e de certa forma o Paciência, repete para si mesmo, aos poucos, murmúrios tomam menor contato, as pessoas se perdiam
protege. Perder o equilíbrio e ro- enquanto dá algumas braçadas a forma. Decorrido um momento, nas areias ou eram levadas pelo ven-
lar de um lado para outro só au- esmo, daqui para frente será um fragmentos chegam a ele. to. Não convinha abusar da sorte.
menta o prazer. dia depois do outro. E, novamen- A neta saiu correndo! Nos- Sobretudo quando ela se revelava de
Tudo somado, um belo final te, busca a neta com o olhar. sa filha foi ver o castelo. Só ver. tal forma instável.
de tarde em uma viagem perfeita. Ela caminha em círculos em Sem tocar. Já não era o mesmo...
A filha dirigiu de forma impecá- torno do castelo como se o ins- A neta. Nossa filha. A neta Conformado, despede-se da
vel — herdou dele a habilidade e pecionasse, ou estivesse à procura correu. Nossa filha foi ver o castelo... filha — que se retira em silêncio.
os reflexos rápidos. E ele, cada vez de conchas. Ao lado, seus compa- Sua neta jamais correria, A fresta de luz desaparece e, sem
mais xingado por choferes de táxi, nheiros de praia acenderam um deixando-o sozinho no mar. Não ruído, a porta é fechada.
ônibus ou caminhões (por falhas fogo na areia. A temperatura de- foi culpa minha, insiste o fiapo de
que não reconhece como suas), fez ve ter caído, ele pensa. Duas das voz. A ansiedade a domina, o ter-
bem ao lhe confiar o carro. mulheres regressam de arbustos ror o corrói. Nada faz sentido.
Felicita-se diante da pers- vizinhos trazendo gravetos. Uma Nisso, uma senhora abre
pectiva de passar o fim de semana terceira carrega no ombro um far- espaço entre os homens e pousa
nesse cantinho de paraíso. Calcula do de aparência pesada, que leva a mão sobre seu braço. Sem sol-
que, hoje, talvez seja o mais velho com dificuldade até a parte mais tá-lo, põe-se a caminhar. E ele se
habitué da pousada. E ri, pois em elevada das dunas, atrás das quais deixa levar. Uns passos atrás, o
certa época vivera uma pequena desaparece. Junto à fogueira, al- grupo põe-se em marcha. Diri-
história com Joana, naqueles idos guns deles se mantêm atentos às gem-se à pousada.
uma aguerrida quarentona. Coisa labaredas que resistem à brisa. Os contornos do deck sur-
casual e descomplicada, bem no O homem calcula que em gem na penumbra. Ao chegarem
espírito da pousada. uns momentos mais precisará à portinhola, o grupo para. A mu-
Agora, o tempo das aventu- deixar a praia, pois a noite cai. lher aponta para a trilha. Após um
ras passara: além da filha e da ne- Lamenta-se por ter esquecido a momento de hesitação, ele se ar-
ta, viajara apenas com dois livros e toalha no deck. Decide que cor- rasta degraus acima.
várias revistas. É provável até que a rerá com a neta rumo à pousada. O tempo passa. A brisa se
dama nem dele se recordasse. Di- Uma corrida que, para a alegria mantém suspensa sobre a pousa-
fícil saber e, de qualquer forma, de ambos, ela vencerá com folga da. Do tempo e da brisa, são to-
melhor não arriscar. desde a largada. dos reféns. Até que...
Vira-se para a neta. Ela ace- A neta... ...as luzes do deck se acen-
na em sua direção, dando uns Envolta em uma lumino- dem. E, do alto do palco ilumi-
saltinhos na areia. Ele retribui agi- sidade difusa, ela gira na areia nado, uma menina sorri.
tando os braços. Disparam pala- movendo os braços, como se, em- Mais tarde, em mesas con-
vras que se perdem ao vento. balada por alguma melodia, reci- tíguas, todos bebem, celebram e
Percebe que, não longe de- tasse versos que mergulhassem no brindam. Repetem como mantra
la, o grupo deu por encerrado o sono os habitantes do castelo. Cer- os gritos da neta:
piquenique. Nota que, na reali- tas crianças viviam em órbitas enig- “Dor de barriga, vovô! Foi
dade, são oito ou nove pessoas, máticas de tão pessoais, ele pensa. dor de barriga!”
algumas delas à beira d’água. Re- Em qual delas se perderia a menina? Indignada com os risos que
para na presença de uma menina. Decorridos alguns instantes só fazem crescer, a menina insis-
Um casal ampara a criança que se mais, e quase a contragosto, dei- te: “Eu gritei vovô! Eu avisei!” E
debate nas ondas. xa o mar. E esfrega energicamen- vai além: “Você me deu adeus...”.
Trazido pela brisa, o ri- te as mãos pelo corpo, tentando Em contraponto festivo, o
so dos três chega a seus ouvidos. neutralizar os efeitos da brisa so- coro recita: “Dor de barriga, vo-
Um pouco acima, sinais de fim bre a pele. Aproxima-se da crian- vô! Dor de barriga...”.
de festa, toalhas sendo sacudidas ça, que interrompe o movimento Do pânico ao susto e, deste,
e pertences recolhidos. Gaivotas circular e, imóvel, ergue um ros- ao alívio. Tingido por um absolu- EDGARD TELLES RIBEIRO
desenham círculos no céu, a maré tinho fechado. to constrangimento — que o pro- Escritor e diplomata aposentado, é autor
se mantém alta. Na linha do hori- Surpresos — e, sem transi- move de idoso a ancião. de 13 obras de ficção, entre romances
zonte, o sol se pôs. ção, atônitos —, seus olhos fixam Magnânimo, o grupo o per- e livros de contos, publicados pela
Companhia das Letras, Record e Todavia.
O homem pensa na filha, às a menina. Sob o impacto do que doa. Seus integrantes têm outras Sua obra mais recente, a novela O
voltas com um divórcio que pare- vê e do que não vê, os joelhos ce- prioridades. Entre elas, o céu estre- impostor, acaba de ser publicada.
42 | ABRIL DE 2021
ROBIN
Latifúndio
COSTE
abraçados no chão nu de uma grande cela.
LEWIS
Porque você nunca passou fome, eu sabia
with Figures — com Pessoas — ossos de meu púbis contra você. Eu não
disse, Eles ainda estão quebrados; eu não te
including incluindo
falei, Ainda tem essa fissura. Estava doendo,
a Negro servant. uma serviçal negra. mas permaneci em silêncio porque você sorria.
Aubade
Seu corpo é um trecho de uma estrada pré-histórica, vaza, indo e voltando pela fina, fina linha
Uma escadaria enterrada, óbvios só os degraus de cima que separa o muito elegante do terrivelmente brega.
Em decepção; por vezes ficamos sabendo que nossas montanhas Os vendedores nos saúdam com um afeto e uma
Serão rebatizadas com nomes de santos estrangeiros. intimidade que são também um histórico pedido de perdão
Nós cantamos hinos-de-novecentos anos Mas nós olhamos através de nossos corpos totalmente
Que nos ensinam como nos sentar serenos satisfeitas com o que — por mil anos — a célula viu
Nós afundamos no buraco de qualquer maneira, penduradas nessas paredes, nós duas somos ROBIN COSTE LEWIS
Um acordo que aceitamos. as únicas que ainda caminham e falam. Nascida na Califórnia em 1964, com origens
familiares no sul dos Estados Unidos, Robin
Coste Lewis é uma das principais vozes da
nova poesia de seu país. Robin tem uma
poesia tecnicamente ousada, que é cáustica e
forte e dá voz às minorias. Seu livro de estreia
(de onde foram escolhidos os poemas desta
coletânea, com exceção de Aubade, publicado
Leia mais em na revista New Yorker no fim de 2019) ganhou o
rascunho.com.br National Book Award de 2015.
44 | ABRIL DE 2021
ozias filho
QUEM EU VEJO QUANDO LEIO
MAURÍCIO VIEIRA
U
ma conversa no Jardim Botânico de
Lisboa, com Maurício Vieira, que cita
Pessoa, através de Caeiro, que lê o Li-
vro (Maior) da Natureza, de uma forma
singular: “a luz do sol vale mais que os pensamentos/
De todos os filósofos e de todos os poetas”. (...) “É pre-
ciso também não ter filosofia nenhuma./ Com filoso-
fia não há árvores: há ideias apenas.”
É inegável que perdemos o contato com este
livro maior. Não precisamos ser nenhum expert no
assunto, cientista, ambientalista, professores das es-
colas públicas, que trazem o tema a todo momento.
Perdemos um contato de harmonia, de comunhão,
que ainda subsistem em algumas pequenas cultu-
ras aborígenes.
O ser humano — parte de uma natureza
outra, que não aquela que regula a perfeição do
planeta — vocifera diariamente a importância da
preservação dos habitats naturais, do equilíbrio do
aquecimento global; diz da extinção de várias espé-
cies animais e de outros seres vivos.
Se já passamos o ponto do retorno aos tem-
pos mais harmoniosos, onde havia o tempo das
chuvas, das colheitas, da fartura e das intempéries
várias, que também fazem parte do fino fio do equi-
líbrio, isso não sabemos.
Contudo, o ponto de retorno deste ser, que
se quer humano, mas que se olha no espelho com MAURÍCIO VIEIRA
o poder de ser quem manda (pelo menos tem es-
Nasceu em Santo André (SP). Publicou os livros de poesia Árvoressências (2014)
ta ilusão), ainda necessita de uma grande caminha- e Manual onírico de jardinagem (2019), o romance A árvore oca (2018), e o infantil
da, talvez na direção de uma Natureza não religiosa, Floresta (2021), ilustrado por Jonathas Martins. Em 2017, apresentou com o
mas tratando o sol, a chuva e as suas águas, o ar que músico angolano Lulendo a peça La Lyre Africaine, no Espace Krajcberg e no Club
des Poètes, em Paris. Organizou o ciclo de leituras La Découverte de l’Autre, na
respiramos, os seres vivos, e por extensão, ele pró- Maison de l’Amérique Latine, em Paris, e na Fundação Saramago, em Lisboa, em
prio, como deuses, resgatar o seu ser aborígene. 2019. É editor da revista online Arvoressências desde 2014.
ABRIL DE 2021 | 45
Comemorando o seu
primeiro ano, a Faria e Silva
lança a antologia definitiva
de Luiz Vilela.
SUJEITO OCULTO
PEQUENOS
EQUÍVOCOS
T
entei ser Deus. O fracas-
so me acompanha na al-
gazarra dos dias. Eu o
vejo sempre congelado
no instante do primeiro encontro.
Nossos olhares fixos um no outro.
A cumplicidade de dois estranhos.
Há curiosidade, medo e assombro
em ambos os lados do universo.
Vejo-o pequeno, delicado, des-
grenhado. Busco entre as cama-
das de trapos da maternidade os
dedos dos pés. Lá está a marca an-
cestral que nos une. Disso não pu-
de mudar o rumo — o traçado do
caminho que nos leva ao fim da
jornada. A geografia do corpo se-
rá sempre um cárcere na arquite-
tura herdada. A forma, os ângulos,
tudo nos aproxima. Mas imagina-
va possível levá-lo para longe de
mim. Afastá-lo da incerteza, dos
medos, da ansiedade aguda a esca-
var insônias. O plano construído:
moldar no barro recém-nascido
um menino a mover-se distante
dos meus abismos.
Quando músculos e os-
sos começaram a esticar, a for-
ma longilínea despontou. Algo
não ia bem. Trambolhava o cor-
po magro sempre em minha
direção. Eu o amparava no de-
sequilíbrio dos primeiros passos,
na espessura sutil dos movimen-
tos. Acreditava que o trem muda-
ria de trilhos. Crescia rápido. De
repente, os pés acertaram o tra-
jeto. A boca desenhou as primei-
ras palavras. A língua teceu sons
curiosos. A respiração da casa ga-
nhara a companhia de ruídos que
me perseguiam da cozinha à sala,
do quarto ao banheiro — um fiel
escudeiro de um rei esfarrapado. Ele segue ao meu lado. Não po magrelo e, como não poderia que nunca se completou. Nisso,
Não sabia como fazer, mas pre- desgruda mesmo na pressa que o ser diferente, desengonçado. Era também nos parecemos: nada-
cisava levá-lo para o outro lado. corpo assume na vertical. Ao es- ele ou eu quem pedalava em de- mos feito avestruzes abandona-
Por que herdar a ferre- ticar a pele, transforma-se num sabalado desespero? Uma vontade dos numa cachoeira.
nha timidez, certa fobia social, pequeno homem. Mas algo não imensa de equilíbrio. Como se al- Os percalços da vida o ir-
o gosto pela solidão? As mui- o abandona: a teimosa mania de go muito importante dependesse ritam com extrema facilidade.
tas dúvidas sobre a eternidade, a se parecer comigo. Talvez faça de daquele gesto tão banal. Aos pou- O perfeccionismo o persegue.
bondade divina, o afago perma- propósito para provocar meus cos, deu tudo certo. Olha-me com incredulidade fe-
nente de um Deus glorioso? De maiores assombros. Por que ain- Quando fez o primeiro gol, roz diante das injustiças. Agar-
que adianta um calabouço quan- da somos tão parecidos? É verda- correu feliz em minha direção. Eu ra-se a poucos amigos. Teme a
do a vida fervilha ao redor? Não de que pouco fiz para tirar-lhe os estava numa arquibancada impro- multidão. Evita os estranhos.
que isso seja uma busca perma- contornos tortos da maldição ge- visada no colégio, num fim de tar- Sente-se feliz no aconchego da
nente — é somente mais uma nética. Seria possível fazer dife- de um tanto melancólico. Nisso, intimidade familiar. Olha des-
tentativa de proteção. rente? Levei-o por caminhos que somos muito diferentes. Nunca confiado para os lados. E segue a
Na placidez dos dias — na- sempre se bifurcaram em uma os olhos do pai se fixaram nas mi- crescer feito uma vareta em dire-
queles dias em que o amor é eter- única direção: a de nós mesmos. nhas pequenas conquistas. É por ção às nuvens. Pensa também em
no — acolhi-o com a disposição Mas em algum lugar das minhas isso que sempre estou lá: não que- voar tal os elefantes que inventa-
de um guerreiro. Protegê-lo é ape- expectativas vociferava uma voz ro ser o melhor, mas apenas um mos nas histórias noturnas?
nas uma das minhas tantas fraque- muda: seja diferente. pouco diferente. E é nesta tentati- Não conheço todos os seus
zas. Tudo nos escapa por entre os va quase mesquinha que me agar- sonhos e pesadelos. Não conheço
dedos. Agora, diante do caos do Não escrevo para me justi- ro para fazê-lo distanciar-se dos todas suas ambições e frustrações.
mundo, o casulo se mostra ao ficar. Mas para compreender. É meus passos. Acumulo uma cole- Não conheço todas as suas alegrias
mesmo tempo uma prisão e um pelo vazio das palavras que abro ção de equívocos. e tristezas. Mas o reconheço no re-
oásis — misto de acolhimento e possibilidades. Quando deu as primei- flexo que vejo o tempo todo. Tal-
perdição. A paz da solidão nos su- ras braçadas na piscina de água vez algumas coisas mudem. Talvez
foca na ânsia de dar vida aos pés, Quando ele aprendeu a tratada, eu estava lá para evitar o sigam sempre iguais.
aos abraços, ao encontro desavi- andar de bicicleta, tudo parecia pavor. Calculamos juntos as dis- Sabemos: a jornada terá um
sado na esquina. Somos estranhos perdido. Levou tempos para se tâncias. Cantamos músicas ridí- fim. Por ora, seguimos a consertar
nas nossas semelhanças. equilibrar, para aprumar o cor- culas para embalar um nadador algo que nos parece inevitável.









