O Lobo Solitário
Capítulo 1- A caçada
Meu sopro subia aos ventos gélidos, ventos esses como navalhas perfurando cada ponto de
minha pele que não se encontrava dentro de meu capuz nem meu casaco. Meus dedos
seguiam firmes, sem hesitação e muito menos movimento. Meu olhar no prêmio: a nossa janta
de hoje. O veado em minha frente está bebendo água em uma pequena poça aonde o líquido
não se encontra congelado, nesse momento tudo está calmo, apenas mais um dia na vida do
animal. É engraçado como não sabemos o que nos aguarda até tal coisa acontecer, todo dia é
um dia normal até não ser mais. Até eu relaxar minha mão, até a corda propulsionar a flecha a
frente, e por um último instante o veado olhar para sua ponta. Esse não foi um dia comum
para ele.
Acerto-lhe o pescoço, ele futilmente corre por alguns metros em pura angústia e medo até que
desaba mais a frente na floresta. Calmamente me aproximo de seu corpo, ainda respirando
com dificuldades e olho para sua figura. Algo tão majestoso e lindo, deitado no seu leito de
morte, pintando a neve de vermelho. Evito cruzar olhares com o animal, cabisbaixo coloco
minha mão em seu torso enquanto espasma tentando procurar por ar. “Me desculpe." suspiro
no fundo de meu respirar e por fim quebro-lhe o pescoço usando de seus chifres.
Enquanto caminho com a carcaça nas costas na mistura de pedregulho e neve, olho para o
horizonte das montanhas, a pintura vermelho-alaranjada começa a se formar vindo da costa,
logo há de escurecer, e, mesmo sabendo que não posso esperar pelas estrelas,
inconscientemente me lembro de outro anoitecer, um anoitecer bem mais próximo da costa
que menciono. O anoitecer de Sandpoint.
Sandpoint continuava uma cidade comercial, porém seu porte havia aumentado desde sua
declaração de independência. Desde a queda do dragão. Agora, principalmente em seus
primeiros dias de liberdade, mercadores e homens de negócio inundavam a cidade portuária,
sua cor branco-amarronzada e suas casas de pequeno porte agora se misturam com
vermelhos, verdes e dourados de nobres inspecionando as ruas e praias da então pacata
cidade. Olhava para essa situação pela lente ligeiramente borrada das janelas do segundo
andar do Dragão Enferrujado, o que foi outrora mais uma simples taverna em Sandpoint, agora
uma das mais procuradas da região, parte por investimentos de nobres locais parte pela nossa
fama: Os Lobos de Sandpoint. Quando falo nosso título dessa forma até parece algo
importante, algo para se orgulhar. Salvamos a cidade, certo? Talvez toda a região. mesmo com
esses pensamentos não é isso que tem minha prioridade, a verdade é que não sou um herói,
não quero que gritem meu nome às ruas, que me vejam como um salvador, isso só dificulta
meu objetivo. Antes de tudo isso, de meu ego e minha felicidade, de meu senso de justiça e
minha cede por vingança, antes de até mesmo minha pessoa em si, sou um caçador. Minha
presa ainda está solta, ainda está viva, posso ter espantado a maioria dos Sczarni de Sandpoint
mas isso não significa que a organização morreu. Embora chegue a confiar em meus
companheiros, o trabalho aqui está feito e meus motivos para continuar em Sandpoint
acabaram.
Termino de ponderar sobre a missão e finalmente saio da janela em que estava escorado. Os
sons de bardos e canecas são audíveis inclusive no andar de cima, embora são abafados pela
grossa camada de madeira que compõe a divisão entre os andares. Gritos bêbados e tentativas
falhas de seguir a canção do bardo ficam mais evidentes conforme me aproximo das escadas
espirais que levam ao salão principal. O cheiro de hidromel enche minhas narinas e o lugar em
si fica insuportavelmente quente com o salão todo cheio. Assim que termino de descer as
escadas diversas canecas são levantadas em meu nome enquanto mais gritos enchem meus
ouvidos, a maioria dos homens ali presentes são guardas de Sandpoint ou soldados que
participaram da batalha, consigo ver porém um número significativo de aventureiros e
mercenários atraídos pela promessa de hidromel a vontade durante as festividades.
Finalmente visualizo o grupo que procuro: um homem incrivelmente alto de pele cor de
madeira com um turbante em sua cabeça, Kaled, e um cavaleiro ao seu lado, trajando uma
armadura negra e sua espada amaldiçoada, o Fantasma das Cinzas, também conhecido como
Alex Velarion, o muito provável próximo líder de Sandpoint. Antes de me juntar a eles me
pergunto se Velarion vai abandonar seu manto, afinal é muito mais difícil sair sem ser
percebido quando se é um líder de uma comunidade. Me lembro então que não preciso me
preocupar com isso, que minha mente precisa novamente se focar na missão. E para isso
acontecer, preciso de um final, preciso terminar meus negócios em Sandpoint.
Chego aos meus companheiros finalmente, ambos se encontram em uma pequena mesa
circular, Kaled obviamente está batendo com a caneca na mesa enquanto usa de seu outro
braço para limpar o resto de hidromel em sua barba. Velarion está escorado na parede logo a
esquerda da mesa, sendo pego ligeiramente pelas sombras e escuridão desse ponto mais
deserto da taverna. “Nerthin, e aí, está pronto para uma revanche na competição de
hidromel? Quer saber, vou pedir um p...” rapidamente interrompo o Kaled. “Ameiko está no
segundo andar, ela me disse que queria conversar com você. Ela se encontra em uma mesa ao
lado da janela.” Falo enquanto tento colocar em meu rosto um leve sorriso. “Hum... claro, ok...
eu estou subindo então.” Obviamente ele não acreditou totalmente em mim, porém não
precisava. A única coisa que precisará fazer era chegar ao segundo andar, chegar à carta. Kaled
se retira da mesa e adentra o mar de corpos que inunda a taverna e então meu interesse já se
muda para o Alex. “Bom, preciso ir agora, tenho alguns assuntos a tratar na cidade, não
demorarei muito.” Falo enquanto me viro a ele. “Você sabe que Kaled não irá ficar feliz,
certo?” Minha expressão muda em um instante, como o acender de uma tocha. “Ele irá
entender.” Retruco, e para minha surpresa, o Fantasma simplesmente acena com a cabeça
sem mais agir, falando simplesmente: “A escolha é tua.” Não espero outra chance e começo a
fazer meu caminho para a porta frontal da taverna.
Passando por diversos bêbados de diversas raças e diversas cores ainda escuto o ocasional
grito de meu nome enquanto sinto parte do hidromel caindo em minha direção. Após alguns
momentos que passaram como horas finalmente chego nas portas de madeira da Dragão
Enferrujado. Olho então brevemente uma última vez a festa, logo em seguida colocou meu
capuz amarronzado e abro as portas recebendo o vento frio do começo de noite em meu
rosto, enquanto dessa vez o cheiro de hidromel tão presente se abafa pelo cheiro da cidade de
Sandpoint. Começo a andar em direção à rua, deixando finalmente as portas da taverna se
fecharem. “Antes de sair da cidade, preciso ao menos fazer uma última coisa.” Penso.
Caminhando cabisbaixo pela cidade, evito olhares de todos, refazendo meus próprios passos
que já andei dezenas de vezes para meu objetivo. Levanto um pouco a cabeça contida no
capuz quando vejo uma placa: “As Gatinhas da Pixie.” O bordel de Sandpoint. Após entrar no
edifício, encontro uma velha amiga. “O dia hoje tá cheio não?” Falo a ela após um abraço de
reencontro. “Bom, com todos esses nobres e comerciantes, alguém tem que atender a suas
necessidades" ela responde. “Hm, tá, Jess, tô começando a me arrepender de ter dado esse
abraço.” Falo logo antes de uma risada. “Ha ha, e de todo jeito, continua sendo melhor que
abraçar as escamas de um dragão.” “Não tem como discordar disso.” Nós começamos a andar
pelo estabelecimento e durante o caminho, pego um pano verde lima de uma mesa qualquer.
“E então, o que te trás aqui? Jubrayl não está, se é isso que procura.” “Não, não, estou aqui
com um pedido apenas.” Falo isso enquanto tiro um punhado de moedas de prata antes em
um pequeno saco preso a meu cinto. “Você com certeza conhece os Lobos, certo?” Ela
lentamente acena com a cabeça. “Pois bem, quero que fique de olho neles, caso algo
aconteça, quero que mande uma carta para Surú, ela vai encontrar, não se preocupe. É
somente isso.” Ela então pega minha mão com as moedas e a fecha, empurrando meu punho
com a prata de volta em minha direção. “Irei mandar, fique tranquilo. Mas não preciso de sei
dinheiro para tal.” Eu simplesmente aceno com a cabeça e falo: “Bom, até mais ver.” “Até mais
ver, Nerthin Flir.”