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Car Ed Especial Senna - Abril 24

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afmkaka
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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A ERA McLAREN

MAGAZINE
• BRASIL •

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EDIÇÃO AR
AZ
MAG INE BR

ESPECIAL

AS
C

IL
O INÍCIO 200
O primeiro kart, as 9 -2024
primeiras corridas

CHEGADA
NA EUROPA
Domínio total nas
categorias de base
com recordes
históricos

FÓRMULA 1
Uma década
de genialidade

O ACIDENTE
Seria mesmo uma
solda malfeita a
causa de tudo?

PHOTO
GALLERY
Galeria com as
mais incríveis fotos
feitas pelos maiores
fotógrafos do mundo

S E N N A
A história do tricampeão mundial que nos deixou há 30 anos
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INÊS249 EDITORIAL
CAR BRASIL E DITORA

E
PUBLISHER M 2019 QUANDO RESOLVEMOS FAZER A EDIÇÃO ESPECIAL
Luca Bassani em homenagem aos 25 anos sem Ayrton Senna, combinamos que a
luca@[Link] revista teria que ter a dimensão da sua história e do seu legado. A edição
foi um sucesso editorial estrondoso, e rapidamente se esgotou nas bancas.
EDITOR CHEFE
Arquivamos alguns exemplares, e guardamos nos nossos corações como uma
Alan Magalhães (MTB: 05385)
alan@[Link]
publicação definitiva, e com o padrão CAR Magazine da época. Passados cinco
anos, resolvemos reeditar e adaptar o Especial, melhorando ainda mais aquilo
EDITOR ESPECIAL que foi realizado em 2019. Agora em 2024 a CAR Magazine Brasil completa
Rodrigo França 15 anos e o relançamento desse sucesso também é uma forma de celebrarmos a
[Link]@[Link] nossa trajetória.
Quando editamos o Especial Senna pela primeira vez, o nosso objetivo
DIRETOR DE ARTE maior não era contar apenas o que todo mundo já contou ou está disponível
Edgard Santos Jr. na Internet. Queríamos mostrar um lado humano e principalmente de bastidores, para que nossos
edgard@[Link]
leitores fizessem uma imersão no mundo da Fórmula 1 e se sentissem como parte da história. Além dos
leitores habituais da CAR, cuja maioria se situa na casa entre 36 e 59 anos, a ideia era mostrar quem foi
GERENTE ADMINISTRATIVO
Emerson Furkim
Ayrton Senna para os mais jovens, alguns que nem chegaram a ver o tricampeão em ação, ao vivo.
[Link]@[Link] Passada a pandemia, a Fórmula 1 atrai cada vez mais a atenção do público jovem, sentimos que
seria importante contar novamente o que aconteceu há 30 anos, culminando naquele fatídico dia
FOTÓGRAFOS COLABORADORES primeiro de maio.
Claudio Laranjeira O experiente jornalista Alan Magalhães, comandou os trabalhos em 2019, e trouxe um produto
Miguel Costa Jr. repleto dos bastidores, já que trabalhou junto a Senna no início da carreira do tricampeão.
Jean François Galeron A assinatura de Alan permanece em 2024, como Redator chefe. Convidamos o jornalista
Jad Sherif Rodrigo França, ligado ao Instituto Ayrton Senna, para adaptar toda a parte do legado de Ayrton,
Georges de Coster
no esporte e na sociedade. Aqui um agradecimento especial ao IAS, Instituto Ayrton Senna.
Mark Sutton
Da mesma forma que contribuíram em 2019, fornecendo imagens incríveis do começo da carreira de
Norio Koik
Beto Issa
Senna, agora em 2024 novamente colaboraram com essa reedição.
Alex Farias A história é única e tão rica em detalhes, que editamos o mais relevante.
Analisamos também o acidente, debruçando-nos nos laudos técnicos da perícia e até da telemetria
JORNALISTA RESPONSÁVEL da Williams. Explicamos o acidente em Ímola dentro do contexto do ano de 1994, quando de um ano
Alan Magalhães (MTB: 05385) para o outro, o melhor carro virou um pesadelo. Há questões não respondidas ainda? O leitor decidirá.
Ayrton foi um brasileiro à frente de seu tempo, na prática, foi embaixador do Brasil com honras que
IMPRESSÃO transcendem ao automobilismo. Um modelo de esportista, cujo legado vem sendo mantido vivo pelo
Instituto Ayrton Senna, que atua firmemente em dar melhores condições e oportunidades aos jovens
brasileiros através da educação.
r. mário regallo pereira, 242 | jardim gilda maria
são paulo | sp | cep 05550-060
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indústria gráfica No final11 3783-6527
da edição Especial Senna, a sessão Photo Gallery é totalmente dedicada
| [Link] indústria gráfica a essa saudade
11 3783-6527 | [Link]

de Ayrton de 30 anos. Em 2019 foram 25 páginas com imagens incríveis, que permanecem nesta
DISTRIBUIÇÃO
Racmidia
edição. Agora com versão ampliada para 30 páginas, o Photo Gallery ganhou imagens
Distribuidora Nacional de Publicações inéditas da edição original. Busquei junto aos meus colegas com quem fotografo a Fórmula 1
há 35 anos, as imagens que marcaram esta história. Um tributo a Ayrton, feito por pessoas
CAR Magazine é uma publicação que conviveram com ele, que estiveram lá. Boa leitura.
mensal da Car Brasil Editora Ltda.

CAR BRASIL EDITORA LUCA BASSANI


Rua Dom Armando Lombardi, 819 - Cj. 41A Publisher FOTO: NORIO KOIKE / INSTITUTO AYRTON SENNA
São Paulo - CEP 05616-011
contato@[Link]

CAR INTERNACIONAL
Publisher internacional:
Gareth Cherriman

ATENDIMENTO AO LEITOR
contato@[Link]

AGRADECIMENTO ESPECIAL
Instituto Ayrton Senna

As opiniões e os artigos contidos nesta edição não


expressam, necessariamente, a opinião dos editores.
É proibida a reprodução em qualquer meio de
comunicação das fotos e matérias publicadas sem a
autorização do editor.

Sob licença da
Bauer Consumer Media Limited, Inglaterra
INÊS249
INÊS249

MAGAZINE
• BRASIL •

O legado de Senna

62
Segurança: Santo Halo
O Halo teria salvo Ayrton Senna naquele dia?
Comparamos três casos para você decidir.

76
O Legado Senna

84
Os conceitos construtivos são os mais diferentes

A vida de Ayrton possíveis, mas o desempenho é muito semelhante.

PhotoGallery

14
Uma galeria
de imagens PhotoGallery
selecionadas entre
Nasce um fenômeno os melhores
Da infância na zona norte de São Paulo,
o primeiro kart, a carreira internacional
fotógrafos do mundo
para você ver
84
e colecionar Imagens que retrataram uma carreira de sucesso e vitórias

24
Ayrton Senna do Brasil
Ano a ano a década em que o brasileiro mexeu com
toda a F1 com seu talento e personalidade forte
FOTOS: JEAN FRANÇOIS GALERON / WRi2

40
Mayday! Mayday!
Seria apenas uma solda na coluna de
direção a responsável pelo acidente.
O que mais poderia ter acontecido?

54
O dia que São Paulo parou
O legado do tricampeão que permanece vivo até hoje,
apoiando os estudos de milhões de jovens brasileiros.
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14
FOTO: MIGUEL COSTA JR.
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14 [Link] | 2024
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NASCE UM FENÔMENO
DOS TOMBOS E ACIDENTES DOMÉSTICOS NASCEU UMA OBSTINAÇÃO TOTAL
PELA PERFEIÇÃO EM TUDO QUE FAZIA. DO INÍCIO NO KART AOS RECORDES NAS
CATEGORIAS INGLESAS DE BASE, O TRIUNFO NA FÓRMULA 3 E A DECEPÇÃO DE
NUNCA TER VENCIDO UM MUNDIAL DE KART, TUDO TEVE O MÁXIMO DE DEDICAÇÃO,
FOCO E FÉ NO QUE FAZIA
POR: ALAN MAGALHÃES

2024 | [Link] 15
INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

T
FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS

ODO CONTO DE FADAS começa com uma história


espartana, onde qualquer um de nós poderia se encaixar.
Ayrton Senna nasceu em 21 de março de 1960 no hospital
Pro Matre, na capital paulista. Ele foi o segundo filho de
Neyde Senna da Silva e Milton Guirado da Silva, uma
família paulistana de classe média, e irmão de Viviane
Senna da Silva e do caçula Leonardo. O pai de Ayrton, sócio na empresa
Metalúrgica Universal amava carros, e sonhava em ter um filho para
vê-lo pilotando um kart. Ayrton não decepcionou. Ainda pequeno amava
dirigir, e amava velocidade. Estava sempre em constante movimento.
Não tinha parada. Aos quatro anos, ganhou o primeiro kart feito por
seu pai, e foi esse o início de uma paixão de uma vida toda.
Ayrton foi criado na Zona Norte da cidade. A Praça Campo de
Bagatelle, também nessa região, abrigava uma pista de aeromodelismo
e outra de kart, ambas públicas. Foi ali que Ayrton deu suas primeiras
voltas com seu brinquedo predileto. Aquele jovem que se misturava
com outros, trazidos por seus pais para ‘brincar’ com seus karts,
seria um dia recordista com 65 ‘poles-positions’ na Fórmula 1.
E mais uma vez o destino mostrava que estava atento: sua primeira
competição foi uma corrida extraoficial disputada em Campinas
aos nove anos de idade, aonde de cara largou na pole-position, que
foi definida por sorteio. Predestinação?
Em julho de 1973, com 13 anos, Ayrton venceria sua primeira
FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS

corrida oficial de kart, no Kartódromo de Interlagos, que hoje leva


seu nome. Além da velocidade, já se destacava a incrível vontade
daquele garoto, sua dedicação a cada detalhe e a atenção que dava
à parte técnica, “colocando a mão na graxa” junto dos mecânicos.
Em 1974 ele se sagraria campeão paulista da categoria Júnior. No
ano seguinte as coisas começavam a ficar mais sérias, resultado:
vice-campeão brasileiro na categoria Júnior, campeão paulista na4

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FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS


Em 1979 foi vice-campeão mundial
de kart em Portugal, ano em que
Angelo Parila disse: “Eu nunca
havia visto um piloto como este”

Campeão Paulista da Categoria


Júnior em 1974

FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS


Em 1982, última tentativa no
mundial de kart disputado em
Kalmar, Suécia. 14º lugar.

Muito esforço para conquistar


o sul-americano de kart
disputado no Uruguai em 1977

1982 foi um ano de recordes na


Fórmula Ford 2000 na Inglaterra:
22 vitórias, 18 poles, 28 voltas mais
rápidas e 516 pontos anotados.
Aproveitamento de 78,5%

FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS

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FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS


1981 foi o ano de estreia
na Fórmula Ford 1600
inglesa. Campeão em
todos os campeonatos
que disputou

Atacando a zebra de
Donington Park com seu
Van Diemen R81 em 1981
SUTTON MOTORSPORT IMAGES

Ayrton Senna e seu Van Diemen


R81, na final do campeonato
Townsend Thoresen Fórmula
Ford 1600 em Brands Hatch,
Inglaterra em 1981
SUTTON MOTORSPORT IMAGES

Ayrton Senna trouxe seu estilo


arrojado de pilotagem no kart
para o automobilismo. A foto é
de 1981 em Donington Park

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FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS

100 cc duas edições do Torneio Canovas, 50 Milhas de Kart e Torneio


de Verão. A estante de troféus começava a pesar.
Em 1976, com 16 anos, a maior conquista foi as 3 Horas de Kart de
São Paulo. A temporada de 1977 teve como principal triunfo o
sul-americano de Kart disputado no Uruguai. Em 1978, ficou em sexto
no mundial – França (Le Mans) – pela 1ª categoria 100 cc, foi campeão
brasileiro, vice paulista, quarto no GP do Japão (Sugo) e campeão das
3 Horas de Kart.
Seu nome continuou a se consolidar no exterior em 1979:

SUTTON MOTORSPORT IMAGES


“Eu nunca havia visto um piloto como este”, disse Angelo Parilla, um
dos maiores fabricantes internacionais de kart. Resultados: vice-campeão
mundial – Portugal (Estoril), vice sul-americano, campeão de San
Marino, vice-campeão paulista, vice-campeão brasileiro e bicampeão
das 3 Horas de Kart.
Em 1980, Senna participou pela terceira vez no Mundial de Kart,
em Nivelles, Bélgica, onde conquistou seu segundo vice-campeonato.
Em 1981 desembarcou na Inglaterra para estrear na Van Diemen,
onde foi apresentado pelo amigo Chico Serra que iniciava na Fórmula não foi tão simples. Foi este o momento em que Senna cogitou
1. Era hora de mostrar tudo o que havia aprendido no kartismo. No a possibilidade de abandonar a carreira e voltar ao Brasil, devido
primeiro ano foram 20 provas, sendo 19 delas em dois campeonatos. às dificuldades para se manter na Europa. Mas dois fatores o
Foram 6 no Royal Automobile Club British Championship (RAC), demoveram desta decisão: sentar num carro mais forte e a
das quais venceu quatro, e 12 corridas pelo Towsend-Thoresen FF aparição de Armando Botelho, que passou a gerenciar sua
1600 Championship, das quais venceu sete. Nesse mesmo ano, Senna carreira e buscar patrocinadores, tarefa que até então ninguém
ainda participou de uma das etapas do Towsend-Thoeresen Euro fazia de forma profissional.
Series, prova que também venceu. O incansável Botelho foi peça fundamental na carreira do brasileiro.
O primeiro triunfo do brasileiro foi em Brands Hatch em 15 de A busca pelo cobiçado título mundial de kart ainda estava em
março de 1981 na segunda etapa do Towsend-Thoresen FF 1600 pauta, porém, em 1981 Senna terminou em quarto. Nova tentativa
Championship e Senna concluiu o ano como campeão nos dois seria feita em 1982, na competição disputada em Kalmar, na
campeonatos de que participou. Suécia, onde o brasileiro ficou em 14º em seu último mundial.
Após os títulos em 1981, Ayrton seguiu o caminho natural no ano E foi nesse mesmo ano, na Fórmula Ford 2000, disputando os
seguinte: a Fórmula Ford 2000. A transição entre duas temporadas campeonatos britânico e europeu, que Senna quebrou todos os4

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

Várias equipes de F1
ofereceram-se para
financiar sua temporada
na F3 inglesa de olho no
talento do brasileiro

Ayrton Senna e seu


Ralt RT3/83 Toyota no
campeonato Inglês
de F3 em Oulton Park,
Inglaterra, 1983.

FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS


SUTTON MOTORSPORT IMAGES

Campeão de inglês de F3 numa


disputa acirrada com o britânico
Martin Brundle, decidida apenas
na última etapa
FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS

Na West Surrey, Senna sagrou-


se campeão inglês de Fórmula 3
com vinte vitórias, sendo nove
delas nas nove primeiras etapas
em 1983

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INÊS249
SUTTON MOTORSPORT IMAGES

recordes. As primeiras seis corridas do ano foram perfeitas, com


pole-position, vitória de ponta a ponta e volta mais rápida. Em 12 de
setembro, outro recorde imbatível: nona vitória consecutiva na categoria,
algo que jamais seria repetido. Os números finais da temporada
impressionam: 22 vitórias, 18 poles, 22 voltas mais rápidas e 516 pontos
conquistados, em 28 provas disputadas. O aproveitamento de vitórias
na FF2000 foi de 78,5%. Estes resultados espetaculares despertaram
o interesse das equipes de Fórmula 1, mas ele decidiu seguir o caminho
natural da F3 inglesa em 1983.
Formou-se aí uma das mais marcantes parcerias do automobilismo,

FOTO: ARQUIVO DE FAMÍLIA / IAS


entre Senna e o chefe de equipe Dick Bennetts, da West Surrey Racing,
equipe fundada em 1981 pelo empreendedor Mike Cox e o engenheiro
neozelandês Bennetts. A West Surrey vinha de triunfos em 1980
com Stefan Johansson e Jonathan Palmer em 81 e quase conquista
o título de 82 com o argentino Enrique Mansilla. No dia 13 de novembro
de 1982, Senna andou pela primeira vez em um carro de F3 a convite
da West Surrey. A corrida em Thruxton não valia pelo campeonato,
já encerrado, mas seria o grande teste para o piloto brasileiro antes
de ingressar na F3 inglesa no ano seguinte. Ayrton enfrentaria vários e Bennetts viraram lenda. Os dois eram incansáveis na busca pela
pilotos que disputaram a temporada daquele ano. Senna marcou a performance e a determinação e perfeccionismo do Ayrton,
pole e já mostrou de cara seu grande potencial. Abriu vantagem trouxeram à F3 um nível de profissionalismo que só existia em
significativa a cada volta para vencer com uma margem de 13 s para categorias superiores. A cobrança sobre cada detalhe era enorme,
o segundo colocado. Com o espetáculo que o brasileiro proporcionou, mas no final do expediente, via-se um Ayrton relaxado, brincalhão
Dick Bennetts e Ayrton Senna apertaram as mãos e fecharam o acordo e amigo de todos, tendo, inclusive, introduzido a caipirinha no
para aquele que seria seu último ano antes da estreia na F-1. cardápio dos ingleses.
A temporada 83 da F3 inglesa foi uma das mais ‘ferozes’ da história, Foram nove vitórias nas nove primeiras corridas, mas Brundle
devido a rivalidade entre Ayrton Senna e Martin Brundle. As reuniões deu trabalho e o título veio apenas na última etapa daquele ano,
no ‘motorhome’ da West Surrey e as discussões técnicas entre Senna em Thruxton, com pole e vitória do brasileiro.

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INÊS249
INÊS249
INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

UMA
DÉCADA DE
GENIALIDADE
Ayrton Senna foi o protagonista principal da Fórmula 1 durante os dez anos em que esteve nela.
Venha conosco nessa viagem como se você estivesse presenciando tudo isso
Por Alan Magalhães | Fotos Jean François Galeron, Ercole Colombo e Miguel Costa Jr.
INÊS249

FOTO: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

N
ÃO HÁ COMO FALAR de defendeu equipes vencedoras na “Quem nos dera
FOTOS: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2

Ayrton Senna e não despertar paixões. Fórmula Ford 1600 e 2000. Na que ele fosse de vez
Há quem o idolatre, há quem ache F3, corria pela aclamada West
que se tratava de uma divindade e Surrey. Brundle era piloto da para o Brasil, talvez
existem também seus detratores. Em Eddie Jordan Racing e na penúl- assim tieríamos
um esporte tão competitivo, aonde tima etapa, liderava com Senna alguma chance”
o segundo colocado é taxado como em segundo, até que o brasileiro Martin Brundle
o primeiro dos perdedores, como tentou a ultrapassagem e os dois
dizia Ayrton Senna, viver sob pressão colidiram; ambos abandonaram a prova. Na semana que
e críticas o tempo todo passa a ser antecedeu a final, Brundle trabalhou na concessionária de
o seu dia a dia. Tudo é competição, seu pai, enquanto Senna foi à Itália acompanhar os testes
tudo é vitória arrebatadora ou derrota de dinamômetro no motor que seria usado na grande final.
humilhante, glória ou decepção. Pode não parecer, mas já nessa fase, via-se muito do que
A trajetória de Ayrton Senna da Silva seria sua carreira na F1: atento a cada detalhe técnico, ex-
na Fórmula 1 mescla todos estes ingredientes. Mesmo entre tremamente ousado dentro da pista e justo com seus rivais
os analistas especializados, as opiniões são difusas e caem – quase todos. Senna ganhou o título e Brundle recorda a
na análise simplista da comparação de números. Ídolos generosidade do adversário. “Depois da desgastante tem-
brasileiros são tratados assim, nada além da vitória absoluta porada que vivemos, eu sempre pensei que Senna achava
é aceito, e o preço a pagar é alto. Há quem ache exagerado que o automobilismo britânico estava contra ele, mas
tratá-lo como uma divindade e há quem o trate assim, ex- mostrou-se magnânimo”, relembra. “A cena no pódio foi
tremos nunca são saudáveis. Jamais chegaremos à conclusão emocionante. Senna disse-me que eu era o melhor piloto
unânime de quem foi melhor - Pelé ou Maradona? - simples- britânico desde Jim Clark”.
mente porque as paixões sempre ofuscam nossa visão.
Ayrton desperta até hoje este tipo de paixão, simples- CHEGOU A ESPERADA HORA
mente por causa de seu estilo arrebatador, focado, deta- Sensação do momento, restava saber qual seria a equipe
lhista e dedicado à perfeição. Não há também como falar de F1 para 1984, o salto natural da época. Partiu de Frank
de Ayrton sem citar vários personagens que permearam Williams o 1º convite para testar um F1, o que aconteceu
sua trajetória, entre eles, o inglês Martin Brundle, seu no meio da temporada da F3 no circuito de Donington
maior rival na temporada 83 da Fórmula 3 inglesa, com Park. Posteriormente, tanto ele quanto Brundle testariam
quem disputou o título até a última etapa. Senna sempre um McLaren como prêmio pelo sucesso de ambos na F34
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FOTO: MIGUEL COSTA JR.


Estreia na Fórmula 1 aos 24 anos de idade, pilotando para
a modesta Toleman-Hart, escolha pessoal do brasileiro

No meio da temporada 83 de Fórmula 3, as equipes já estavam


de olho no brasileiro. O primeiro teste foi com este Williams,
em Donington Park, onde bateu o tempo dos titulares do carro

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTO: MIGUEL COSTA JR.

A temporada 84 se iniciou com o


Toleman TG183B um carro defasado,
pesado e inferior, mas que garantiu o
1º ponto de Ayrton Senna na F1

Já com o chassi TG184, Senna


encantou o mundo com uma corrida
épica em Mônaco e o segundo
lugar. Com pneus Michelin, Ayrton
deu um show na chuva
FOTOS: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2

inglesa. Além destes dois testes, Ayrton Senna estrearia na F1 no Brasil, em 25 de março de
“Vinha na curva
ainda experimentaria a Toleman e por fim, 1984, no Autódromo de Jacarepaguá, Rio de Janeiro, no
Westfield em direção à a Brabham. Nesse momento, a lógica se cockpit do Toleman TG183B. Conseguiu um excelente
Dingle Dell em Brands inverteria. Ayrton escolheu a Toleman, equipe 16º lugar no grid de largada, mas só cumpriu as primei-
Hatch, onde presenciei mais modesta, onde teria chance de lutar por ras oito voltas, antes de abandonar por falta de pressão
algo que poucas pessoas pontos, ao invés de escuderias de renome, onde do turbo. A segunda corrida foi na África do Sul, em
seria apenas piloto de testes. Senna garantiu Kyalami, onde largou em 13º e acabou em sexto, apesar de
tiveram o privilégio de sua independência, quando rejeitou ofertas enfrentar mais problemas mecânicos e perder a direção
ver. A velocidade dele de diversas equipes de F1 que se propuseram hidráulica, o que tornou a pilotagem pesada e cansativa,
era absolutamente a patrocinar sua temporada na F3 em troca de mas ele lutou até o fim por seu primeiro ponto na F1,
assustadora” compromisso contratual futuro. Independên- ficando tão esgotado que não conseguiu sair sozinho do
cia provou ser característica marcante em toda carro ao final da prova.
John Watson
a sua carreira. Até aí a Toleman havia usado o chassi de 83, as espe-
Já naquela época lhe perguntavam se o objetivo era bater ranças em 84 estavam depositadas no novo TG184, que
recordes: “Se me concentrar de verdade, os campeonatos e estava sendo construído na fábrica em Oxford. Senna e
recordes surgirão”. Para ele, era um processo inteiramente seu colega de equipe, o campeão de motociclismo Johnny
lógico e natural. Sua confiança era espantosa, tanto em Ceccoto, continuaram a usar os carros antigos no GP da
intensidade como na segurança de suas palavras. O estilo Bélgica, em Zolder, onde Senna conseguiu um sétimo
durão na mesa de negociação já apareceu antes mesmo lugar e no GP de San Marino, em Imola, circuito no qual
da temporada começar: “Farei o máximo por sua equipe”, jamais havia pilotado e queria muito andar lá para conhe-
disse Senna a Alex Hawkridge, presidente do império cer o traçado. Porém, recebeu a ordem da equipe para que
Toleman de transportes automotivos e proprietário da os carros não fossem à pista, devido uma briga judicial
equipe de F1. “Cada vez que entrar no carro, darei a vocês da equipe com a Pirelli, sua fornecedora de pneus. Com o
100%, mas se não perceber o mesmo por parte da equipe problema parcialmente resolvido, Ayrton conseguiu an-
e o carro não for competitivo, irei para outra equipe. E se dar no circuito apenas no sábado, mas se deparou com um
tentarem me impedir de sair, abandono o automobilismo”. carro cheio de problemas e ficou fora do grid pela única4
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INÊS249
INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTOS: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2

“Com o Ayrton não vez na sua carreira.


A Toleman queria se livrar dos Pirelli, que na
precisávamos de
época fornecia apenas para as piores equipes
telemetria, ele era um do grid, como Osella, ATS, Spirit e Ram. E
computador humano” conseguiu, passando a utilizar pneus Michelin
Gérard Ducarouge na etapa seguinte, o GP da França em Dijon-
-Prenois, que viu Senna mais uma vez ter que
abandonar a corrida por problemas no carro. Ficava claro que o ta-
lento de Senna parecia grande demais para o momento da equipe.
Senna começava a mostrar uma concentração incrível nos
detalhes técnicos, sua memória para detalhes era notável.
Assimilava informação, as processava e transmitia aos
engenheiros com rara precisão. Depois da etapa em Dijon, co-
meçaram os testes com o novo TG184 antes de Mônaco, onde
Senna largareia em 13º lugar; o motor também era uma evolu-
ção do anterior. Era a primeira corrida onde seriam colocados
à prova o novo conjunto chassi/motor e os pneus Michelin.
A corrida foi o ‘divisor de águas’ na carreira de Senna. Sua
pilotagem agressiva e o ótimo comportamento dos Michelin
na chuva, fizeram da prova de Mônaco o maior cartão de
visitas possível do brasileiro. A carta com seu nome entrou
forte no baralho da F1 e as especulações começaram a ferver
para 1985. Posteriormente, seu 3º lugar no GP da Inglaterra
em Brands Hatch, atrás apenas do McLaren TAG Turbo de
Niki Lauda e do Renault de Derek Warwick, foi considerado
como um feito equivalente ao de Mônaco.
A essa altura a Lotus não escondia que sondava
o brasileiro, que tinha contrato de três anos com a
Toleman. Ansiosa, a Lotus precipitou o comunicado de que
contaria com Ayrton Senna em 1985, o que não agradou 4

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65
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nem um pouco o pessoal da Toleman. A retaliação veio no
GP de Monza, quando a equipe suspendeu o brasileiro,
mas isso não alterou o curso da história: Senna regressou
POLES-POSITION
ao cockpit para as duas últimas corridas da temporada,
abandonando em Nürburgring e conquistando outro
brilhante terceiro lugar, atrás dos McLaren de Prost e 40,3%
Lauda, no GP de Portugal, no Estoril. Foi uma exibição
que mostrou o limite do Toleman-Hart.
Percebendo que a Lotus não teria estrutura para garan-

FOTO: MIGUEL COSTA JR.


tir dois carros iguais, Senna decidiu conquistar com seus
resultados o status de 1º piloto na equipe, que já contava
com Elio de Angelis. E foi o que aconteceu, mostrou sua
superioridade ao vencer de forma absoluta a segunda
prova de 1985, o GP de Portugal, de novo no Estoril,
onde comemorou sua 1ª vitória na F1. Sob chuva intensa,
Senna superou seus concorrentes da mesma forma que
fizera em Mônaco no ano anterior, comprovando sua
habilidade em pista molhada. Ficava claro ao mundo que
uma das características mais fortes do Ayrton era sua A primeira
capacidade de concentração. “Era um homem obsessiva- pole-position
foi conquistada em
mente obcecado pelo sucesso”, recorda o chefe da equipe Portugal, 1985, com o
Lotus, Peter Warr: “Em minha opinião, foi o piloto mais mítico Lotus Renault
completo desde Jim Clark”. Turbo preto e dourado,
no Brasil, ela veio no
O Lotus-Renault 97T era um ótimo carro, mas não o bas- ano seguinte
tante para que Senna conseguisse o título. Em 1985, come-
çou o seu domínio das pole-positions – foram 65 em 161 GPs
disputados - conseguindo o melhor tempo nada menos do
que sete vezes durante a primeira temporada com a Lotus.
Usava-se muito a telemetria, mas, segundo o diretor técnico
da Lotus, Gérard Ducarouge: “Com Ayrton, não precisamos
de telemetria”.
A Lotus havia sido uma das maiores equipes da história da F1,
mas com a morte de seu fundador, Colin Chapman em 1982, 4

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“Em minha opinião, sua decadência era visível. Os três anos


foi o piloto mais de Senna na Lotus garantiram uma
estabilidade ao time, mas no final de 87,
completo desde
estava na mesma situação da Toleman
Jim Clark“ de 84, as conversas com a McLaren já
Peter Warr estavam adiantadas.

A ERA McLAREN
Ainda em 1987, Ayrton Senna assinou contrato de três anos
com a McLaren, começando já na temporada seguinte. Deixou
muitos amigos na Lotus, foi uma despedida emocionante para
o brasileiro, como viria a ser seis temporadas depois, quando
deixaria a McLaren em direção à Williams.
Ao chegar à McLaren, o amigo John Watson conversou
com ele sobre a futura convivência com Alain Prost, já na

FOTOS: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2


quarta temporada com a equipe e vencedor de dois mundiais.
Watson conhecia o gênio competitivo de Senna e sugeriu uma
abordagem diplomática, dizendo que o melhor modo de lidar
com o francês deveria ser pela astúcia ao invés de um confron-
to direto. Senna ouviu com atenção, mas surpreendeu Watson
ao responder-lhe que pensava diferente. “Ele me disse que iria
derrotar Prost com maior preparação física, maior motivação
e dedicação”, relembra Watson. “Eu sabia que aquilo não
acabaria bem”.
Em 1988 a McLaren-Honda venceu quinze das dezesseis pro-
vas, um domínio total. Prost venceu três das primeiras quatro
corridas, antes de Senna reagir. Não demorou para azedar a

80 PÓDIOS

49,7%
FOTO: NORIO KOIKE / IAS

Mesmo em
inferioridade
técnica em alguns
momentos, Senna
esteve no pódio em
praticamente metade
das corridas que
disputou

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19
MELHORES VOLTAS

12%

O percentual
baixo de melhores
voltas ilustra a luta
contra equipamentos
superiores em boa
parte da carreira

relação entre os dois. Com o interesse da mídia na F1, eram


as personalidades, mais do que carros, que ocupavam as
Final polêmica em Suzuka em 89 com manchetes. Senna conquistava seu primeiro título mundial
a desclassificação de Senna após em meio a uma guerra psicológica com o companheiro.
vencer na pista. Prost ficaria com o Em 1989 e com o novo motor Honda V10 de 3.5 l, a
título, mas as coisas se inverteriam McLaren seria novamente dominante, mas a relação entre
Senna e Prost estava bem pior e a antipatia entre ambos
em 90 nesta mesma pista duraria até ao fim da carreira de Prost, no final de 1993. O
francês anunciou, no GP de França, que não iria continuar
na McLaren em 1990. Alguns meses depois, anunciou
que tinha contrato com a Ferrari, onde iria pilotar ao
lado de Nigel Mansell. Só na véspera da morte de Senna,
haveria uma autêntica reaproximação com o seu antigo
rival, deixando as rusgas para trás. O final da tempora-
da 89 foi marcado pelos polêmicos acontecimentos em
Suzuka, Japão, quando Senna venceu na pista, mas foi
desclassificado pelos comissários, que alegaram infração
ao regulamento ao ser ajudado pelos fiscais para voltar à
pista. O título ficou com Prost.
Em 90, o bicampeonato do brasi-
“Ayrton veio leiro foi marcado por mais um final
conversar com acidentado em Suzuka, quando o
o Emerson em McLaren de Ayrton acertou o Ferrari
de Prost no final da reta de largada
Silverstone. Quando na 1ª curva, incidente que a crônica
foi embora, Emerson apontou como uma possível revanche
disse-me: ‘Você da final do ano anterior, mas que
acaba de conhecer garantiu o título do brasileiro.
No fim de 1990, o contrato de três
um homem que vai
anos com a McLaren chegou ao
chegar ao topo” fim e Senna negociou renovações
Jo Ramirez anuais, formato que perduraria até4

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

FOTOS: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2


A genialidade na
pilotagem garantia a
vantagem do McLaren
sobre Ferrari, a
poderosa Williams-
Renault e Benetton

Este acidente em Suzuka


1990 garantiu o segundo
mundial a Senna. Desta
vez Prost levaria a pior
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Maior desafeto nas


pistas, Alain Prost
reataria a amizade
com Senna na
41
VITÓRIAS

45,5%
véspera da morte
do brasileiro

Este
número
poderia ser 42,
caso Senna, já com
o princípio de 1993. “Ele é um negociador
“Ele é um negociador o tricampeonato
duro e totalmente inflexível”, dizia Ron garantido, não tivesse
duro e totalmente Dennis, chefão da McLaren. Por fim, Senna dado a vitória
ao companheiro
inflexível que usará conseguiu um contrato para 1991 que o sa- Berger em
todos os métodos ao seu tisfazia, com McLaren e Honda juntas. Com Suzuka 91
Gerhard Berger como companheiro, veio
dispor para defender a
o tricampeonato, superando os Williams-
sua posição” -Renault de Nigel Mansell (vice) e Riccardo
Ron Dennis Patrese (terceiro), com Berger em quarto. Em 92 a Honda perdeu
a hegemonia da F1 e
ficou para trás com
MUDANÇA NO AR seu motor V12
O ano de 1992 viu a Honda perder terreno. Seu novo
motor V12 não era competitivo em relação ao Renault dos
Williams e Senna ficou em quarto lugar no Campeonato
Mundial de Pilotos, conquistado por Mansell, pior clas-
sificação do brasileiro desde a última temporada com a
Lotus em 1986.
Havia algumas dúvidas se Senna continuaria a
competir em 1993. A relação com Ron Dennis também
não era a ideal, pois com a perda da Honda, no ano
seguinte a McLaren utilizaria motores Ford HBV8, de
uma geração anterior aos que Schumacher aceleraria
na Benetton. Berger abandonava “o barco” em direção a
um salário de US$ 12 milhões para pilotar pela Ferrari.
O acordo com a McLaren para 93 foi fechado prova a
prova e seu companheiro passaria a ser o norte-americano
Michael Andretti. Mika Häkkinen foi contratado como re-
serva, para o caso de desistência de Senna. Para um piloto
obcecado pela vitória, era uma situação desconfortável.
Diante do quadro de impossibilidade total de disputa
de título, Senna deu nesse ano, talvez, seu maior show
de pilotagem nas pistas, que relembrou sua estreia em
84 com um Toleman visivelmente inferior. O MP4/8
era um carro maravilhoso, e seu primeiro contato com
ele foi nos testes em Silverstone - apenas duas semanas
antes de Kyalami - onde rapidamente superou Andretti e
Häkkinen. Ali ele percebeu o potencial do carro e decidiu
continuar as negociações com Dennis, que perduraram
até a véspera da abertura da temporada na África do Sul,
onde largou e chegou em segundo, atrás de Prost. Já era
um sinal de que a temporada seria interessante, pois com
um motor visivelmente inferior, superou Damon Hill4
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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTO: ERCOLE COLOMBO

A despedida da McLaren com a vitória


em Adelaide foi um momento de grande
emoção e encerramento de um ciclo. Um
show de pilotagem com um carro inferior
naquele momento

FOTO: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2


Em 93 o título seria impossível, sem
fazer contas, Senna acabou elevando
a pilotagem de um carro inferior a
patamares quase impossíveis em
apresentações épicas
FOTO: ERCOLE COLOMBO

Senna e Berger foram companheiros de equipe por


três temporadas na McLaren. Nascia ali a maior
amizade do brasileiro entre os pilotos da Fórmula 1

36 [Link] | 2024
INÊS249
“Eu gostava do

FOTO: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2


jeito que ele era e
trabalhava. Ayrton
foi uma grande
com a outra Williams e as pessoa, fomos
Benetton de Schumacher e grandes amigos. Ele
Riccardo Patrese. A vitória
foi um dos melhores
arrebatadora viria em
Interlagos, segunda etapa, pilotos da história,
quando a chuva, sua princi- se não o melhor de
pal aliada, ajudou-o a fazer todos os tempos”
o público delirar - também Gerhard Berger
com a rodada de Prost que
largara em primeiro. Mas o melhor estava por vir.
No Grande Prêmio da Europa, disputado em Doning-
ton Park, Inglaterra, Ayrton Senna elevou a pilotagem
com chuva a um novo patamar, no qual ele superou todos
os seus adversários na 1ª volta, depois de largar em quarto
DEPOIMENTO EXCLUSIVO
e cair para quinto na largada. “Este cara não é deste pla- O MAIOR AMIGO QUE SENNA fez entre os pilotos de Fórmula 1 foi sem
neta, só Senna poderia fazer o que fez aqui hoje”, declarou dúvida o austríaco Gerhard Berger. Companheiro na McLaren nas tempora-
Jo Ramirez, chefe de logística da McLaren e grande das 90, 91 e 92, a amizade dos dois não se limitava aos autódromos. Berger
amigo de Senna, depois da vitória que se definiu como ‘a frequentemente passava férias no Brasil, na casa de Ayrton Senna em Angra
primeira volta mais fantástica da história da Fórmula 1’. dos Reis. O austríaco nunca escondeu sua admiração pelo brasileiro, tanto
Uma falha hidráulica o tirou do GP de San Marino, como piloto, como ser humano:
antes de um segundo lugar na Espanha, mais uma vez “Pessoalmente eu gostava do Ayrton no jeito que ele era e trabalhava. Já o
à frente dos dois Benetton, prova que antecedia o mais admirava nos tempos da Fórmula 3. Nunca tive a impressão de que pudesse
charmoso GP do ano; Mônaco. Poderia ser apenas mais estar me escondendo algo, ou passando uma informação errada.
uma vitória de Senna no Principado, mas seria a sexta,
Sempre falamos muito sobre vida pessoal, coisas que normalmente não se
estabelecendo um recorde que perdura até hoje; “Mônaco
fala entre pilotos, mas não apenas sobre coisas privadas, mas de assuntos
é muito especial para mim, foi aqui meu primeiro pódio e
profundos do automobilismo, que, para ser honesto, nunca conversei com
também pelas seis vitórias”.
mais ninguém.
A superioridade técnica dos adversários se impôs ao
longo da temporada. Porém, uma grande apresentação Ayrton foi uma grande pessoa. Competimos um contra o outro desde a
estava reservada para o GP do Japão, com a vitória sobre Fórmula 3 e viemos a ser grandes amigos por muitos anos. Passamos muito
Prost em frente a milhares de torcedores que idolatram o tempo juntos, incontáveis momentos memoráveis. Mas sem dúvida não era
brasileiro até hoje. fácil enfrentá-lo na pista. Ele foi, sem dúvida um dos melhores pilotos da
A emotiva despedida da McLaren aconteceria história, se não o melhor de todos os tempos”

23
no último GP do ano, em Adelaide, Austrália, onde Gerhard Berger
Senna deu outro show, ofuscando a quarta conquista
do francês Alain Prost. Pole-position e vitória, com
9 segundos de vantagem sobre o francês. Encerrava-se
assim, com um emocionado abraço em Ron Dennis, 2º LUGARES
a era McLaren. Já com contrato assinado e publica-
mente anunciado, começaria a era Williams-Renault 14,2%
em 1994.
FOTO: JEAN FRANÇOIS GALERON /WRi2

“Foi o maior? Penso


que era o mais
rápido, apesar
de ter-lhe dito
milhares de vezes
para não abusar da
velocidade, mas
ele nunca me deu
ouvidos” A amizade de
Senna e Berger
Sid Watkins mudaria esta
estatística também.
Seriam 22, mas uma
vitória de presente
ao austríaco foi
emblemática
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OS MELHOR DA FÓRMULA 1
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Num 1º de maio, Ayrton Senna ficou sem comando a bordo de seu carro e perdeu
a vida como passageiro. Nosso tricampeão lutou nos bastidores para se transferir
à Williams para a temporada de 1994. Porém, a melhor equipe perdeu seu maior
trunfo, a suspensão ativa e o controle de tração. E tudo deu errado. Mas a questão
é mais complexa do que foi visto até aqui e ainda restam muitos questionamentos.
Por Luca Bassani | Edição Alan Magalhães

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FOTOS JAD SHERIF / WRi2

A
Nigel Mansell, considerado um
piloto rápido, mas com limitações,
foi campeão mundial em 1992 com
o conjunto Williams-Renault

SSIM COMO NA AVIAÇÃO, os princi-


pais acidentes no automobilismo moderno O LAUDO FINAL ATESTA
são provocados pela somatória de vários
fatores combinados negativamente. No
QUEBRA DE UMA SOLDA
caso do acidente em 1º de maio de 1994 em COMO CAUSA DO ACIDENTE.
Ímola, não foi diferente. A opinião pública
prefere aceitar a versão mais simples que MAS RESTARAM DÚVIDAS
apenas a solda fora do padrão na coluna
de direção da Williams foi a única causa
do acidente fatal de Ayrton Senna. Mas voltas de instalação e configurava um mapa de ação para
entender a complexidade do universo que cada trecho. As outras equipes da Fórmula 1 começavam a
envolvia a Fórmula 1 em 1994, pode colo- desenvolver seus sistemas, porém a Williams estava anos-
car a questão num patamar mais técnico -luz à frente. Ayrton Senna com seu McLaren Ford só podia
depois de 30 anos. brilhar quando a pilotagem superava a tecnologia. Foi
assim no GP Brasil de 1993, quando a chuva trouxe o ele-
WILLIAMS, O CARRO DE OUTRO mento indispensável para a segunda vitória de Senna em
PLANETA Interlagos. Mas o brasileiro sabia que somente no cockpit
A equipe Williams vinha de duas tem- da Williams poderia voltar a ser campeão do mundo.
poradas de domínio absoluto, fazendo Com a aposentadoria de Alain Prost, o desejado assento
Nigel Mansell campeão mundial em 1992 e Alain Prost da Williams ficou livre. Tudo era novo, depois de seis tem-
em 1993. O F1 projetado por Adrian Newey era conhecido poradas defendendo a McLaren e de três títulos mundiais,
como “o carro de outro planeta” e quem não pilotasse a chegada à Williams parecia um sonho perfeito, como
uma Williams, simplesmente não teria como disputar no dia do seu primeiro teste com um F1 com esta mesma
títulos. Quando o francês se tornou tetracampeão mundial, equipe no circuito de Donington Park em 1983.
resolveu pendurar as sapatilhas e abrir uma vaga no cobi-
çado cockpit da Williams para o brasileiro. Senna vinha “ERRARAM A MÃO DO CARRO JUSTO NA
consagrado de uma temporada atípica de 1993. Seu belo, MINHA VEZ”
mas fraco McLaren MP4-8 Ford, não fez frente à Williams Aquilo que parecia ser um sonho, rapidamente se trans-
Renault, que além de contar com o melhor motor à época, formou em pesadelo. A FIA, Federação Internacional do
tinha uma arma invencível, a suspensão ativa. A suspensão Automóvel, órgão regulador da F1, decidiu banir o auxílio
inteligente da Williams “escaneava” o circuito durante as eletrônico à pilotagem, incluindo a suspensão ativa,4

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Com a Williams-Renault Prost


conquistou seu quarto título em
1993 antes de abandonar as pistas

Em 93 Ayrton se
despediria da McLaren
com uma atuação épica
com um carro inferior
ao de seus adversários

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTO LUCA BASSANI

Ayrton não
marcou pontos
pela Williams e o
peso da situação
era facilmente
notado em seu
semblante

controle de tração e assistência às frenagens. A decisão


atendia o pedido de várias equipes que não conseguiam
fazer frente à Williams, inclusive a Ferrari. Acaba aí o
trunfo da Williams. Todo desenvolvimento da suspen-
são ativa era realizado na contramão da suspensão con-
vencional, assim, a campeã Williams não tinha mais o
melhor chassi em aderência mecânica, pois a suspensão
FOTO MIGUEL COSTA JR.

ativa corrigia qualquer defeito ou imperfeição. Apesar


de a cada ano na F1 as equipes lançarem novos modelos,
cada carro embarca boa parte do desenvolvimento do
ano anterior. Na prática, a Williams sem a suspensão ati-
va tinha parado no tempo três anos atrás, muito tempo
para a Fórmula 1.
Nos testes de pré-temporada, Ayrton Senna já havia per-
cebido a armadilha em que se metera. O Williams FW16
era incontrolável, apesar de contar com o impressionante

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INÊS249
FOTO JEAN FRANÇOIS GALERON / WRi2

ameaçaria o brasileiro numa disputa


EM AIDA, JAPÃO,
interna dentro da equipe inglesa. AYRTON GESTICULAVA NO
A opinião unânime era de que 1994 se-
ria facilmente o ano do tetra de Ayrton. GUARD-RAIL SOBRE A
NO GP BRASIL A PRIMEIRA
POSSÍVEL ILEGALIDADE
FRUSTAÇÃO DE SENNA TÉCNICA DA BENETTON
A primeira corrida da temporada do
ano foi justamente o GP Brasil. Apesar
de conquistar a pole-position, Senna enfrentava dificulda-
des com seu FW16, mas o forte motor Renault mascarava
a real condição ruim do carro. O maior rival de Senna logo
se mostrou na figura do jovem piloto alemão Michael
Schumacher. Corriam rumores de que sua Benetton-Ford
contava com um software proibido à época, que atuava
como controle de tração, garantindo melhor eficiência da
Pole-position no Brasil e transmissão da potência ao solo. Senna não estava feliz,
abandono ao escapar na ao contrário, nunca o brasileiro se colocou tanta pressão
curva da junção, quando
tentava acompanhar
num GP em casa. Apesar de largar na pole-position, Sen-
o ritmo da Benetton na viu Schumacher assumir a ponta durante as paradas
de Schumacher nos boxes. Schumacher parecia perfeito até demais, o que
logo levantou suspeitas sobre o suposto controle de tração.
Indiretamente Senna enfrentou com sua desajustada
Williams um rival sem escrúpulos. Soube-se depois que
motor Renault, o que fazia o cenário ainda mais complexo: além do controle de tração, o sistema de abastecimento da
um canhão num chassi ruim. Sem a assistência eletrôni- Benetton também era fraudado; o diâmetro dos bocais de
ca, a Williams de Senna nasceu absolutamente errada. abastecimento era irregular. O italiano Flavio Briatore,
Depois de lutar muito nos bastidores para ter um assento que comandava a equipe Benetton, via a Fórmula 1 como
na Williams de Newey, Senna chegou à equipe certa, mas uma grande oportunidade comercial, explorava pilotos
na hora errada. Depois das primeiras voltas nos testes no e burlava as regras para vencer a qualquer custo. Muitos
circuito do Estoril em Portugal, Ayrton confidenciou ao até hoje culpam Schumacher pelos fatos de 1994, mas de
jornalista Flávio Gomes da Folha de São Paulo: “Erraram fato quem estava no comando era Briatore. O mesmo que
a mão do carro justo na minha vez”. Naquela época, antes 14 anos depois iria destruir a carreira de Nelsinho Piquet
dos testes, com a aposentadoria de Piquet e Prost e a ida na F1 com o acidente forjado e ordenado ao brasileiro, para
de Nigel Mansell para a Fórmula Indy, a expectativa era possibilitar a vitória de Fernando Alonso com a Renault
de que Senna seria campeão, quem sabe até vencendo a em Singapura 2008.
maioria dos 16 GPs. Michael Schumacher era considerado A segunda etapa do ano, o GP do Pacífico na cidade
uma promessa, porém seu Benetton Ford não embarcava de Aida no Japão, foi outro pesadelo para Ayrton Senna.
ainda o motor Renault que receberia em 1995. O compa- Apesar de outra pole-position, o brasileiro largou mal,
nheiro de Senna na Williams, Damon Hill, também não quando seu Williams não tracionou como a Benetton4

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

de Schumacher. Na largada, Senna foi tocado pelo McLaren de Mika mos ir além de apenas acreditarmos em bruxas. A F1 estava acima
Häkkinen, rodou e foi abalroado pela Ferrari de Nicola Larini, que do limite da razão. Os carros eram tão velozes quanto os de hoje em
substituía Jean Alesi. É emblemática a imagem de Ayrton Senna fora retas, porém instáveis nas curvas de alta velocidade, e sem assistência
da corrida, observando o desempenho da Benetton de Schumacher eletrônica, eram muito dependentes da aerodinâmica. Para andar
ao lado da pista e questionando com gestos sua legalidade. Nova- rápido e ser competitivo, literalmente a pilotagem precisava ser no
mente Michael Schumacher venceu e Ayrton Senna não pontuou. limite o tempo todo. Já nos treinos de sexta-feira, constatou-se que a
Na contramão, Rubens Barrichello conquistou seu primeiro pódio na segurança dos pilotos estava ameaçada. Rubens Barrichello acertou
Fórmula 1 com um terceiro lugar e com o quarto lugar conquistado a segunda zebra da Variante Bassa, decolou e teve um forte impacto
no GP Brasil, chegou a San Marino na vice-liderança do campeonato. nas telas de proteção, destruindo sua Jordan. O brasileiro quebrou o
nariz, machucou a boca e o braço direito, um livramento, dadas as
SAN MARINO, O FINAL DE SEMANA MAIS TENSO DA F1 proporções do acidente. Senna foi inclusive quem trouxe a notícia
Antes mesmo de desembarcar em Ímola para o GP de que Rubinho estava consciente e bem, depois de visitá-lo no centro
San Marino, o ambiente na equipe Williams era absolutamente médico do autódromo. Mas foi no sábado, durante a classificação,
tenso. Para compreendermos o que transformou a sequência do final que a F1 voltou a encontrar seu maior temor, com a morte de Roland
de semana do GP de Ímola no mais tenebroso da história, precisa- Ratzenberger. O austríaco da fraca equipe Symtek, já havia confi-

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INÊS249

denciado a jornalistas que precisava se controlar, pois estava


pilotando acima do limite do bom senso. Ratzenberger pegou
uma zebra forte que avariou a asa dianteira, com menor pres-
são aerodinâmica, seu Symtek seguiu reto no final da curva
ABANDONO NA SEGUNDA Villeneuve, antes de atingir o muro de concreto a 314 km/h. A
morte do austríaco foi transmitida ao vivo pela TV, diante de
ETAPA DE 94 NO GP DO seus colegas incrédulos, inclusive Ayrton.
PACÍFICO E MAIS UMA VEZ ÍMOLA 01.05.1994
SEM MARCAR PONTOS A sequência de fatos no final de semana em Ímola abalou
Senna, que chegou a questionar sua participação ou o can-
PELA WILLIAMS celamento do GP. Porém o brasileiro sabia que Schumacher
vinha de duas vitórias e ele havia zerado na pontuação nas
duas primeiras corridas. Partindo da pole, precisava reagir
no campeonato. No grid de largada, o semblante do brasileiro
refletia o peso que estava sobre suas costas. Porém, a determi-
nação era tamanha, que Senna levou a bordo de seu Williams
uma pequena bandeira da Áustria, para homenagear o colega
Ratzenberger. A sequência de fatos que se desenrolaram em
seguida parecia conspirar para um acidente. Segundo a mítica
Lei de Murphy: “se há a possibilidade de várias coisas darem
errado, todas darão na sequência que causar o maior prejuízo”.
Na largada, o Benetton de JJ Lehto ficou parada no grid e foi
violentamente atingida pelo Lotus do português Pedro Lamy.
A entrada do carro de segurança em meio ao caos, com a reta
coberta por detritos e pedaços de fibra de carbono fez a tensão
voltar. Senna liderava à frente de Schumacher, atrás de um
lento ‘safety car’ que fazia o brasileiro reclamar. Foram seis
voltas ou 22 minutos até que a pista de 5.040 metros tivesse
condição de bandeira verde. Na relargada, após uma volta
e na liderança, Ayrton Senna saiu reto na curva Tamburello
e chocou-se no muro a cerca de 300 km/h. Uma coisa é
clara, Senna virou passageiro a bordo de uma Williams sem
controle. A corrida foi paralisada.4

FOTOS JEAN FRANÇOIS GALERON / WRi2

SCHUMACHER
COMEMORA A
VITÓRIA EM AIDA,
AO LADO DE RUBENS
BARRICHELLO EM
SEU PRIMEIRO PÓDIO
NA FÓRMULA 1

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTO JEAN FRANÇOIS GALERON / WRi2

Roland Ratzemberger morreu


instantaneamente no treino
de sábado em Ímola a bordo
de seu Simtek-Ford

O PAVOROSO ACIDENTE A HORA MAIS ESCURA


A esperança ‘do mundo’ era
explicar os fatos. Falência aerodinâmica com uma asa que-
brada em sua Ferrari, também foi a causa do acidente de
DE BARRICHELLO NA ver Ayrton Senna sair do cockpit Berger na Tamburello. Então poderia o acidente de Senna
andando, mas a tensão era enorme. ser explicado pelo mesmo aspecto e não simplesmente
SEXTA-FEIRA DEU INÍCIO Novamente o silêncio se fez presente pela quebra da coluna de direção?
AO CLIMA PESADO no autódromo Enzo e Dino Ferrari.
Senna foi atendido pela equipe O QUE DIZ O RELATÓRIO DA POLÍCIA DE BOLONHA
DO FINAL DE SEMANA comandada pelo Dr. Sid Watkins, As primeiras fotos da Williams no local do acidente na
EM ÍMOLA que constatou a gravidade da sua
condição neurológica. O médico
curva Tamburello mostravam uma situação incomum: o
volante de Senna preso a uma parte da coluna de direção.
ordenou que o helicóptero viesse Os investigadores judiciais italianos convocaram vários
resgatar o piloto na pista. Ayrton foi levado ao hospital peritos renomados e os dividiram em três grandes grupos
Maggiore de Bolonha, onde foi constatada sua morte de trabalho. O primeiro analisou as condições da pista;
cerebral. Independentemente do que fez o Williams FW16 o segundo, as medidas de segurança do autódromo, e o
seguir reto na curva Tamburello, sabe-se que uma haste terceiro, a parte mecânica do carro.
do triângulo de suspensão partiu-se e atingiu o capacete O promotor Maurizio Passarini ouviu Michele Alboreto
de Senna num ângulo improvável. Além disso, a haste em que disse não acreditar que Senna houvesse cometido um
fibra de carbono perfurou o capacete do piloto exatamente erro e que um problema na Williams causou o acidente,
no encontro entre a viseira e o casco, atingindo sua têm- tese que acabou sendo corroborada quando a coluna de
pora direita. Segundo o Dr. Watkins, a sorte abandonara direção foi submetida a testes em um microscópio eletrô-
o nosso tricampeão em 94, pois além do ferimento fatal nico – Scanning Electronic Microscope – conhecido pela
na cabeça, o brasileiro não tinha nenhum hematoma no sigla SEMI, que mostrou sinais de fadiga de material no
corpo. Outros pilotos sobreviveram a fortes acidentes ponto onde uma solda foi feita pela equipe, para adaptar
na curva Tamburello, como Nelson Piquet em 1987 e a altura do volante ao biotipo do piloto. Estes testes foram
Gerhard Berger em 1989. Também em Ímola, porém em conduzidos pelo engenheiro Mauro Forghieri, ex-diretor
1991, em outro acidente muito semelhante visualmente da Scuderia Ferrari e pelo presidente da Faculdade de En-
com o de Ayrton Senna, o italiano Michelle Alboreto saiu genharia da Universidade de Bolonha, Enrico Lorenzini,
andando sozinho de seu Footwork Porsche, com pequenas que desmontou a alegação dos advogados da Williams,
escoriações apenas. Naquela ocasião, imagens do fotógra- que defendiam a tese de que houve sim ruptura no ponto
fo italiano Angelo Orsi, publicadas na revista Autosprint, soldado, mas na hora do impacto no muro.
provaram que a monoquilha que segurava a asa dianteira Outra evidência de que havia problemas sérios antes
de Alboreto havia se trincado, fazendo seu carro perder do impacto, são os dados da telemetria da Williams do
eficiência aerodinâmica dianteira, exatamente como no brasileiro, que mostram que a carga aplicada ao sistema de
acidente de Ratzenberger na curva Villeneuve. Alboreto direção vai a zero durante a curva, ao invés de aumentar
acidentou-se em treinos extracampeonato, sem transmis- durante seu contorno, assim como a pressão hidráulica
são de TV, mas as fotos de Orsi foram fundamentais para do sistema, provas de que naquele momento, Senna4

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INÊS249

FOTO JAD SHERIF / WRi2

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTOS JEAN FRANÇOIS GALERON / WRi2

realmente era um passageiro dentro de uma Williams


desgovernada. Dois décimos de segundo depois, os dados
mostram que o piloto reduz três marchas, tira o pé do
acelerador e aplica frenagem total, 1.3 segundo antes do
impacto no muro. Da velocidade de 306 km/h no início
dos eventos, até os 216 km/h do impacto, forem menos de
dois segundos, 1.5 s para ser exato.

POR QUE A COLUNA DE DIREÇÃO SE PARTIU


NA TAMBURELLO?
O relatório final da polícia de Bolonha passou a ser a
versão oficial do acidente de Ayrton Senna, porém, nos
anos que se seguiram, algumas perguntas vieram à tona
sobre o porquê da coluna de direção ter se partido exata-
mente no contorno da Tamburello e não em outro trecho
de esforço do circuito. Podemos imaginar que a solda

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INÊS249

UMA BARRA

SUTTON MOTORSPORT IMAGES


DA SUSPENSÃO
FERIU SENNA
MORTALMENTE NA
CURVA TAMBURELLO

antes de seguir reto. Com um carro


excessivamente baixo e com a tanque SENNA X SCHUMACHER.
de combustível muito cheio, o carro de
Senna teria tocado nas três ondulações
O EMBATE ENTRE OS
da Tamburello de forma mais forte DOIS MELHORES DE
do que o previsto. Isso teria causado
instantaneamente a perda de aderên- 94 ACABOU NÃO SE
cia das rodas traseiras, transferindo a
carga para a dianteira, gerando esforço
CONCLUINDO
e causando a quebra. Portanto, a con-
dição da pista e o tempo atrás do ‘safety car’ poderiam
também se colocar como fatores adicionais para a quebra
acontecer exatamente na Tamburello.

E SE A COLUNA DE DIREÇÃO SE PARTIU APÓS


O IMPACTO NO MURO?
Sempre se especulou o que poderia levar o foguete
O Dr. Sid Watkins (boné azul)
instável da Williams ao muro da Tamburello se a coluna
coordenou o resgate de de direção só se rompesse após o impacto, como alegavam
Senna na pista e ordenou os advogados da Williams, existem teorias nesse sentido.
sua remoção para o Hospital
Maggiore em Bolonha
Na análise das imagens, o acidente de Senna é muito
parecido com o da falha aerodinâmica sofrida por Berger
e Alboreto na mesma Tamburello. Um aspecto chama
a atenção: o carro de Senna contornou a curva de forma
fora do padrão na coluna era sim o ponto mais fraco do homogênea, sem nenhum movimento brusco.
conjunto dianteiro - sabe-se que a energia de um impacto Observado no Kartismo, que em sua essência é um mini
rompe estruturas sempre no lugar mais vulnerável. O F1, a quebra do parafuso que prende o cubo do volante à
relatório da polícia poderia ir além, pois existiam outros coluna de direção numa curva de alta velocidade causa
fatores que cooperaram para a acidente na Tamburello, uma oscilação brusca na dianteira. Isso porque há um
mas a pressão da opinião pública mundial cobrava um conflito num momento único entre as forças que atuam
desfecho rápido e satisfatório. O primeiro era o tempo de no conjunto: O eixo traseiro transfere potência para o
prova atrás de um ‘safety car’ lento por aproximadamente asfalto e o dianteiro aplica força de direção. Nas quebras
22 minutos, que diminuiu drasticamente a temperatura e observadas no kartismo, a ruptura provocava até um efei-
a pressão dos pneus. Alguns engenheiros da F1 falam nos to chicote no pescoço do piloto. O movimento é tão brusco
bastidores que isso inclusive teria alterado a circunferên- que parece o que ocorre no motociclismo quando com a
cia dos pneus em milímetros e consequentemente a altura variação de aderência numa aceleração em curva, o piloto
do carro em relação ao solo, fator determinante para a é ejetado para cima. Então nesse aspecto a teoria simples
aerodinâmica. Digamos que quanto mais baixo melhor. da quebra da coluna como única causa do acidente poderia
Em imagens da câmera de bordo de Michael Schumacher, ser questionada. Nesse caso com certeza voltaríamos ao
vê-se claramente a Williams de Senna soltando fagulhas histórico da curva de Berger, Alboreto e Ratzemberger, 4

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FOTOS JEAN FRANÇOIS GALERON / WRi2

quando a aerodinâmica foi a vilã. depois do desfecho da investigação, chegou-se à real causa: impru-
A falta de eficiência aerodinâmica geralmente ocorre pela quebra dência do mecânico ao instalar parafusos de fixação de tamanho
de algum tipo de apêndice. Não foi o caso do brasileiro. Mas em al- incorreto no para-brisas numa manutenção de rotina. Muita gente
guns casos o próprio acerto do carro pode colaborar para uma ligeira já estava satisfeita com os relatórios preliminares e se espantou
flutuação rente ao solo por um pequeno período de tempo, provocan- com a conclusão real.
do o efeito estol, quando momentaneamente perde-se a sustentação. Para explicar para o cidadão comum porque o nosso herói brasi-
Podemos imaginar que para fugir da perseguição de Schumacher, leiro e tricampeão do mundo morreu naquele 1º de maio em Ímola, o
a Williams de Senna teria pouca pressão aerodinâmica para apro- melhor mesmo é acreditar no relatório final da polícia de Bolonha.
veitar melhor o motor Renault nas retas. A partir desse momento o
cenário é o mesmo que citado acima, menor pressão nos pneus e as
ondulações na pista.
Outra versão que incluiria estes fatores seria que algo teria causado
um afundamento da traseira (pneu frio?), o que instintivamente
provocaria uma rápida correção no volante por parte do piloto. No
instante seguinte à ondulação e com a recuperação da aderência na
traseira, mas com o volante contra esterçado, o carro teria assumido
uma trajetória oposta. Seria mais ou menos como pilotos de F1,
treinando em circuitos ovais, seriam “enganados” pela perda de
aderência traseira, e numa rápida reação, apontariam direto para o
muro externo.
Tudo acima são especulações dentro do universo técnico e comple-
xo do automobilismo que é bem compreendido pelos engenheiros e
aficionados do esporte.
Em 1990, o voo 5390 da companhia aérea British Airways fazia
a rota Birmigham/Málaga, na Espanha. Em pleno ar, um para-
-brisa do BAC 1-11 se soltou, sugou o capitão Tim Lancaster – que
felizmente se salvou – e fez um pouso de emergência no aeroporto
de Southampton. Muitas teses foram defendidas sobre a causa do
incidente: falha estrutural, vibração das turbinas, qualidade de
um projeto de avião já em fase final e prestes a ser descontinuado,
choque de uma ave, enfim, muitas coisas poderiam explicar. Muito

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FOTO MARK SUTTON


Senna fez de tudo para pilotar
para Frank Williams, mas
naquele ano, tudo deu errado

Fim de uma década de


genialidade na Fórmula 1

A curva Tamburello em Ímola.


Desativada em sua forma original
depois do acidente de Senna.
Uma barreira de pneus poderia
ter evitado o pior.

FOTOS: ALEX FARIAS


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O DIA EM QUE SÃO


EM MEIO A UMA COMOÇÃO SEM PRECEDENTES NO BRASIL COM A MORTE DE AYRTON SENNA,
COUBE À CIDADE DE SÃO PAULO HONRAR O SEU FILHO MAIS QUERIDO. TRÊS MILHÕES DE
PESSOAS NAS RUAS MOSTRARAM QUE O ORGULHO PODE TER A MESMA DIMENSÃO DA TRISTEZA
Por Luca Bassani | Edição Alan Magalhães | Fotos Luca Bassani

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PAULO PAROU

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INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

F
ECHANDO OS OLHOS me lembro como se fosse hoje. A
memória do ser humano funciona de várias maneiras, dependendo
de como as informações são resgatadas e usadas. No meu caso,
minhas fotografias me ajudam muito, mas não estou imune ao
processo padrão. Geralmente as memórias emocionais relacionadas
a momentos bons ou ruins são mais preservadas que as de
necessidades temporárias, como por exemplo, onde estacionei meu carro.
Nessa lógica, aquele quatro de maio de 1994 sempre ocupará grande espaço
em minha mente.
No dia primeiro eu estava em Florianópolis, mais precisamente no
Kartódromo da Praia dos Ingleses, trabalhando na cobertura do Campeonato
Sul-americano de Kart, tempos em que eu já cobria algumas provas
Internacionais de Fórmula 1. Na ida ao kartódromo, vi o acidente de Senna
num VW Fusca última série Prata, de um amigo que tinha no console central
uma pequena TV em preto e branco. Compreendi que aquele momento era
definitivo, aquele final de semana em Ímola só poderia terminar clamando
a vida do nosso tricampeão.
Cheguei ao kartódromo onde todos perplexos como eu, aguardavam notícias
do Hospital Maggiore de Bolonha, vindas sempre na voz do repórter Roberto
Cabrini. Estar numa pista onde todos os jovens pilotos tinham Ayrton Senna
como ídolo foi muito intenso. Lembro bem de uma cena muito forte:
Luciano Burti, hoje comentarista de automobilismo da Rede Globo, chorava
copiosamente debruçado no motor de seu kart sobre o cavalete, antes da
largada da corrida que o consagraria campeão sul-americano.
De volta a São Paulo, na segunda feira, dia dois, fui contatado por alguns
colegas europeus da F1, que precisavam de imagens do funeral de Senna. Em
1994 eu trabalhava como editor de fotografia na revista Auto Esporte e solicitei
liberação do meu chefe Caio Moraes para fazer a cobertura na Assembleia
Legislativa, já que a revista não publicaria as fotos do enterro. O corpo de
Ayrton Senna chegou ao Aeroporto de Guarulhos no dia 4 de maio, às 5h30m,
a bordo de um avião da Varig. Depois de uma negociação entre Celso Lemos,4

56 [Link] | 2024 Foto: Miguel Costa Jr.


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No dia 4 de maio o corpo de Ayrton Senna


chegou a Guarulhos e seguiu pela Avenida
23 de Maio até a Assembleia Legislativa de
São Paulo

Na frente da ALESP o piloto recebeu


homenagens que formaram um tapete
de flores

Grande rival nas pistas, o francês Alain Prost


tetracampeão mundial de F1 veio ao Brasil
para o enterro de Senna

Ayrton Senna recebeu honras de chefe


de estado na Assembleia Legislativa do
Estado de São Paulo
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A Assembleia Legislativa de São Paulo no


Ibirapuera, recebeu o velório que foi aberto
ao público e personalidade que prestaram
grande tributo ao tricampeão

O grande companheiro de Ayrton Senna


nos tempos de McLaren, Gerhard Berger
(centro) esteve no Brasil para prestar as
últimas homenagens ao amigo

O corpo de Ayrton Senna é conduzido


com honras ao Cemitério do Morumbi

Crianças no meio do povo se despediram


de Ayrton Senna a caráter, da mesma
forma que torciam para o herói nas
manhãs de domingo
INÊS249

diretor da Senna Promoções e o comandante do voo, Reginaldo Gomes


Pinto, ficou decidido que o caixão só viajaria dentro da cabine se chegasse
um ‘fax’ com esta ordem dada pelo presidente da Varig. O ‘fax’ não demorou
a chegar e o esquife foi acomodado no recinto da classe executiva do MD-11,
e não no compartimento de carga como mandava o protocolo. O local foi
preparado com a retirada das cadeiras da fila central pelo pessoal de manutenção
da Varig. Os passageiros foram acomodados na 1ª classe e ali viajaram apenas
o narrador Galvão Bueno, Celso Lemos, a assessora de imprensa Betise
Assumpção, o fisioterapeuta do piloto, Joseph Leberer e o irmão Leonardo
Senna. Tal procedimento seria totalmente vetado pela aviação internacional
desde aquele episódio. O repatriamento de corpos só poderia obrigatoriamente
ser feito no no compartimento de carga, sem exceção.
Esta regra eu conheço muito bem, pois cinco anos à frente seria minha
vez de trazer Ayrton para casa. Meu pai Ayrton Bassani faleceu na cidade
de Orlando em 1999, quando estávamos em férias. Na prática, Ayrton
Senna foi honrado por familiares e amigos em pleno voo de cruzeiro e
pelas tripulações de todas as aeronaves que cruzavam com o MD-11 sobre
o oceano Atlântico, que mandavam mensagens, sabedores que aquele
voo transportava o ídolo mundial pela última vez.
A chegada em São Paulo na quarta-feira, 4 de maio, já havia provocado
grande comoção. 101 km de vias foram transformadas pela população em
via exclusiva para o cortejo, o presidente à época, Itamar Franco, se deslocou
para prestar solidariedade à família. O local do velório foi a Assembleia
Legislativa do Estado de São Paulo, no Ibirapuera. O cortejo do corpo de
Senna do Aeroporto até a Assembleia já havia levado milhares de pessoas
às ruas. Durante o velório de 22 horas, 250 mil pessoas passaram em frente
ao corpo do piloto. Porém, a maior homenagem ao tricampeão de Fórmula
1 seria mesmo na quinta-feira, dia 5. Chegando à Assembleia, fui 4

2024 | [Link] 59
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Fiscais de pista de
Interlagos prestam a
última homenagem ao
piloto em meio
à Avenida Brasil
em São Paulo

Da esquerda à direita os pilotos


Christian Fittipaldi, Alain Prost,
Emerson Fittipaldi, Raul Boesel,
Thierry Boutsen, Rubens
Barrichello e Gerhard Berger

Quando fui à Ímola passei no


memorial de Ayrton Senna na
curva Tamburello, lembranças
fortes do campeão que tinha o
nome do meu pai

60 [Link] | 2024
INÊS249

credenciado por Charles Marzanasco, que até o último momento exerceu com
profissionalismo o papel de assessor de imprensa do piloto no Brasil. Minha
credencial não era apenas da revista Auto Esporte e sim do ‘pool’ de agências
internacionais da Fórmula 1. Por esse motivo, tive o direito de acompanhar o
cortejo do Ibirapuera ao Morumbi em cima do caminhão dos bombeiros, que
levava aproximadamente 15 profissionais de imagens das principais agências
e TVs, que abriu o cortejo. Imediatamente atrás, vinha a cavalaria da Guarda
de Honra do Estado de São Paulo e na sequência o caminhão de bombeiros
com o corpo de Senna.
De cima do caminhão fotografei todas as honras de Chefe de Estado que nosso
tricampeão recebeu. São Paulo vivia com certeza o dia ensolarado mais triste da terra
da garoa. Em céu de brigadeiro, caças da FAB cruzavam São Paulo. Quando o cortejo
atravessou a Avenida Brasil e virou na Avenida Rebouças, tive a real dimensão da
comoção popular. O povo se enrolou em bandeiras e buscou forças em seu semelhante
para compreender tamanha perda. De repente percebi que o nosso Ayrton Senna
não estava naquele carro dos Bombeiros, mas sim no entorno e dentro do coração
de cada um deles. Nesse momento mudei meu foco, parei de apontar a câmera para
o cortejo e voltei minha atenção ao paulistano que sofria. Lembro de cada detalhe e
de cada rosto. A missão de um repórter ou fotógrafo é primeiro compreender o coletivo
que muitas vezes não está no centro do fato. A grande fotografia também se esconde
em fragmentos das imagens. Outro exemplo disso foi a também trágica perda do
grande jornalista Ricardo Boechat, que como ninguém, compreendia que o cidadão
comum ou o ouvinte é sim, parte relevante da história. Os números do funeral de
Ayrton Senna naquele cinco de maio impressionam. O oitavo funeral do mundo na
história contemporânea na época e o maior da história do Brasil, com mais de três
milhões de pessoas durante o trajeto nas ruas na cidade de São Paulo. Tamanha
comoção nacional só ocorreu com a queda do avião da Chapecoense. Em termos de
equivalência, podemos citar os funerais do Papa João Paulo II com quatro milhões
nas ruas de Roma em 2005 e o da Princesa Daiana em Londres em 1997 com também
três milhões. Muitos pilotos e dirigentes de Fórmula 1 vieram da Europa, inclusive
o eterno rival Alain Prost.
O paulistano Ayrton Senna foi sepultado no cemitério do Morumbi como
campeão mundial, herói nacional e príncipe do povo.

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SANTO HALO
A FÓRMULA 1 INTRODUZIU EM 2018 O HALO PROTETOR DE COCKPIT, QUE AGORA JÁ
ESTÁ PRESENTE EM TODOS OS MONOPOSTOS HOMOLOGADOS PELA FIA PARA AS
COMPETIÇÕES INTERNACIONAIS. DESDE ENTÃO O HALO PROVOU QUE SALVA VIDAS,
E HOJE É EQUIPAMENTO INDISPENSÁVEL EM MONOPOSTOS. VEJA A TRAJETÓRIA DA
EVOLUÇÃO DA SEGURANÇA NO ESPORTE, E ENTENDA A DIFERENÇA QUE O HALO FARIA
PARA PROTEGER A VIDA DO NOSSO TRICAMPEÃO, AYRTON SENNA.
Por Luca Bassani | Edição Alan Magalhães
FOTO: LUCA BASSANI

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INÊS249

2024 | [Link] 63
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A
FIA - FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DO complementares que impedem na maioria dos acidentes, que a roda se
AUTOMÓVEL - em sua constante preocupação com a desprenda dos carros, porém, com eficiência zero quando ela se solta
segurança do esporte, introduziu na temporada 2018 por ter sido mal colocada ou por falha de algum componente. O assunto
da Fórmula 1 o halo protetor de cockpit, na esperança também voltou à mesa de negociações entre a FIA e as equipes de F1,
dar mais proteção aos pilotos. Na ocasião a entidade após o acidente com Jules Bianchi no GP do Japão em outubro de 2014,
enfrentava o desgaste com a morte de dois pilotos, um na Fórmula 1 e que se confirmaria fatal em 17 de julho de 2015, depois de um coma longo
o outro, filho de um campeão mundial da F1. A busca por segurança do promissor piloto francês. O acidente bizarro de Bianchi em Suzuka
na Fórmula 1 sempre foi proativa e acelerada após a perda de uma vida. foi um choque da Marussia do francês em um trator estacionado numa
A ideia do halo ou de uma proteção para o piloto num cockpit aberto, área de escape, que fazia o resgate do Sauber de Adrian Sutil na caixa
remonta a década de 70, quando em média dois pilotos morriam por de brita. A demora na entrada do carro de segurança durante a volta
temporada, apenas na F1. Porém, naquela época os carros eram bombas 44 da corrida realizada num dilúvio provocado por um furacão previsto
incendiárias e a atenção ficou primeiramente focada nesse item. Foram para a hora da prova, culminou em tragédia.
desenvolvidos os tanques de borracha, roupas antichama em Nomex™ O acidente mostrou ao mundo do esporte que sempre há o que ser
e o conceito de intervenção rápida das equipes de segurança. Naquela feito quando o assunto é segurança. Mesmo no mundo tecnológico da
época, gerar dificuldades para os pilotos saírem de seus carros em chamas F1 de hoje, o impensável e o imponderável acontecem exatamente quando
não parecia uma boa ideia. estamos certos do controle da situação. “O homem sempre humaniza
O assunto halo voltou às discussões com força após a morte de Henry os erros técnicos”. Na aviação, por mais que se avancem os protocolos
Surtees, filho do ex-campeão de Fórmula 1 John Surtees, que aos 18 anos de segurança, acredita-se que o homem sempre irá descobrir uma maneira
foi vitimado por uma roda que se soltou de outro carro de Fórmula 2 que nova e criativa de derrubar um avião. Segundo a mítica lei de Murphy:
atingiu seu capacete. A FIA já havia implementado cabos de aço “Se há a possibilidade de várias coisas darem errado, todas darão4

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INÊS249

FOTOS: AGÊNCIA WRi2


O capacete de Jules Bianchi não bateu
no trator. Sua Marussia foi parada
bruscamente, gerando fortíssima
desaceleração. Bianchi acabou
perecendo pelo impacto de seu
cérebro contra a caixa craniana

O jovem piloto francês, na


época com 25 anos, estaria
hoje na Ferrari, no cockpit que
pertence a Charles Leclerc, que
herdou seu plano de carreira do
empresário Nicolas Todt

Henry Surtees, filho do


ex-campeão de Fórmula 1
John Surtees, faleceu aos
18 anos depois que uma roda
de outro Fórmula 2 atingiu
seu capacete

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na sequência que causar o maior prejuízo”. Pode parecer um absurdo para um leigo,
mas o fato de Bianchi ter chocado seu F1 com um trator na área de escape, obedece
a uma lógica que hoje é bem compreendida dentro do universo da investigação de
acidentes aéreos: um sanduíche de fatores que sobrepostos provocam a tragédia; e
também que a ausência de um ou mais destes fatores evitariam o sinistro. Na época,
Jules Bianchi era o príncipe prometido para o futuro da Ferrari por Nicolas Todt,
seu empresário e filho do presidente da FIA na época, Jean Todt. A influência da
dupla na Ferrari remonta o tempo em que o pai Todt era dirigente da equipe de
Maranello, exatamente no período dos cinco títulos de Michael Schumacher com
os italianos. É fácil entender o poder de Nicolas Todt na Scuderia Ferrari, na falta
de Bianchi, o empresário de pilotos emplacou a contratação em 2019 de Charles
Leclerc, deslocando inclusive o campeão mundial Räikkönen para a Alfa Romeo.
‘Nico’, como é conhecido na F1, conseguiu convencer a Ferrari que o piloto monegasco
Leclerc, era naturalmente o substituto do francês Bianchi. Hoje a força do empresário
francês pode ser sentida na decisão da equipe italiana em manter Charles Leclerc
e demitir Carlos Sainz Jr. para receber em 2025, Lewis Hamilton. O aproveitamento
dos dois pilotos era similar no ano passado, com Sainz conseguindo vencer o
GP de Singapura na temporada em que Max Verstappen da Red Bull quebrou todos
os recordes. Curioso é que o piloto espanhol demitido já venceu pela Scuderia também
em 2024, e Charles Leclerc não vence desde o GP da Áustria 2022.
Apesar de ter sido o primeiro acidente fatal na Fórmula 1 apósAyrton Senna
e incentivar mudanças na segurança da F1, o halo não salvaria a vida de
Jules Bianchi. O jovem piloto francês, à época com 25 anos, sofreu uma ampla
lesão axonal difusa no cérebro, devido à forte desaceleração. Seu capacete, ao
contrário de especulações, não bateu no trator, mas na parte posterior do cockpit.
Jules Bianchi acabou perecendo pelo impacto de seu cérebro contra a caixa
craniana, rompendo a maioria das conexões nervosas com a medula cervical.
Seu acidente inspirou os dirigentes da FIA a tirar antigos projetos das gavetas
para dar maior proteção aos pilotos, principalmente porque seu empresário e
investidor estava diretamente ligado à entidade.
Foi assim também no caso da morte de Ayrton Senna. Pragmaticamente falando,
talvez não bastasse a morte do austríaco Roland Ratzemberger nos treinos de sábado
do GP de San Marino de 1994, mas sim o choque global da perda de um tricampeão
em Ímola, ao vivo, em cores para todo o mundo, que pressionou a FIA a4

Michael Schumacher
desenvolveu com a fábrica
alemã Schubert um
capacete blindado após a
análise do acidente fatal de
Senna, quando uma barra
da suspensão perfurou
seu capacete

O capacete de Felipe Massa,


que foi desenvolvido junto a
Michael Schumacher atuou
muito bem em conjunto com
o Hans Device no acidente do
brasileiro na Hungria em 2009

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INÊS249

A morte de Ayrton Senna provocou


uma onda de segurança jamais
vista na F1, no tempo do nosso
tricampeão o piloto ficava
absolutamente exposto

FOTOS: LUCA BASSANI

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FOTO: BETO ISSA

responder com medidas de segurança no esporte. Na aviação moderna de Rubens Barrichello o atingiu a mais de 240 km/h, foi a incrível resistência
e com os novos protocolos de segurança resultantes da investigação de do Schubert, que o salvou. Segurança na F1 é assim: através de Schumacher,
acidentes aéreos, supõe-se que cada passageiro morto salvará outros Senna salvou Massa.
quinhentos. Não é exagero considerar numa visão poética, que Ayrton O importante nessa escalada por segurança regida pela FIA é o conceito
Senna não morreu em vão, salvando nas últimas 25 temporadas, mais do que é aprovado na Fórmula 1, passa depois a ser adotado nas outras
de uma centena de pilotos ao redor do mundo. Outra reflexão por associação categorias de base. O halo estreou na F1 no início de 2018, no final do
é que a teórica falha do capacete Bell M3 de Senna, que permitiu a ano, foi a vez da Fórmula E receber o equipamento, na estreia do seu
transfixação de uma barra da suspensão, inspirou Michael Schumacher carro de segunda geração, o Gen2 para a quinta temporada 2018/2019.
e a fabricante alemã Schubert a desenvolver um capacete blindado. Desde Hoje a FE já está na sua décima temporada, com o carro da geração 3,
que adotado pelo alemão, o capacete da Schubert passou a ser figura também com o halo. Em 2019 foi a vez dos carros Dallara de
quase unânime na maioria dos pilotos da Ferrari. No bizarro acidente Fórmula 3 receberem o equipamento. Hoje todas as categorias FIA de
de Felipe Massa na Hungria em 2009, quando uma mola solta da Brawn monopostos possuem o halo como item obrigatório de segurança.4
FOTO: JOÃO BRAMATTI
INÊS249

FOTO: LUCA BASSANI


O heptacampeão
Lewis Hamilton se valeu
do halo em 2021 para não
ter consequências graves
no acidente com Max
Verstappen em Monza

A Fórmula Indy introduziu


o protetor de cockpit,
um halo estrutural que
tem um Shield, no padrão
canopla da aviação

Segurança para a FIA é


coisa séria, desde 2018
a partir da F1, o halo foi
sendo implantado nas
diversas categorias
de monopostos. O halo
está presente no no
BRB Fórmula 4 Brasil

O Gen3 ou o carro de
terceira geração da
Fórmula E, já é a segunda
geração do monoposto
elétrico que conta com o
halo, desde o final de 2018

FOTO: ALEX FARIAS / PHOTOPRESS


INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

6 ACIDENTES DIFERENTES. O HALO SERIA OU FOI EFICIENTE?

3 PROVAVELMENTE 3 SIM 3 NÃO


As consequências do acidente fatal de O acidente fatal de Henry Surtees na Ao contrário do que se pensa, o capacete
Ayrton Senna em 1994 poderiam ter F2 poderia ser neutralizado com duas de Jules Bianchi não encostou no trator
sido mitigadas pela presença do halo. d a s ú l t i m a s r e g u l a m e nt a ç õ e s d e parado na caixa de brita em Suzuka em
Independente da dinâmica que fez a segurança da FIA. Não foi só o halo que 2014. Apesar da grande destruição do
Williams do tricampeão projetar-se leve carro de F1 contra um trator de
não estava presente em Brands Hatch
contra o muro da Tamburello, sabe-se algumas toneladas, foi o choque do
naquele dia, o carro da categoria F2 de
que Senna morreu por causa de um fato cérebro de Bianchi contra sua caixa
improvável. Uma haste da suspensão Surtees era de uma geração antiga da craniana , provoc ado pela grande
frontal direita de sua Williams rompeu-se extinta Fórmula Palmer Audi, e não tinha desaceleração, que feriu mortalmente o
e se transformou numa lança pontiaguda. o cabo de aço secundário que liga rodas promissor francês. O impacto principal
Também num ângulo incomum, essa ao chassi. A roda de um outro F2 atingiu que parou a Marussia de Bianchi,
flecha entrou no capacete de Ayrton o carro de Henry exatamente na abertura ocorreu na parte superior do cockpit,
entre a viseira e a borracha de superior do cockpit. O halo protegeria que é estrutural. Se o carro batesse por
acabamento do casco, perfurando sua o jovem britânico da roda que bateu em exemplo, com o bico em fibra de carbono
têmpora direita. Todas as mudanças deformável nos pneus do trator, talvez
seu capacete e sua vida seria salva. Nas
feitas já a partir de 1994 aumentariam o piloto tivesse alguma chance por estar
categorias de monopostos atuais, uma
a chance de Senna sobreviver, inclusive usando o HANS Device, isso porque
o uso do HANS Device. Mas realmente roda se solta principalmente por estar esta estrutura, conhecida como ‘nose
seria o halo que lhe daria uma chance mal fixada ou por quebra da porca, não cone’, é feita para dissipar energia.
acima de 70%, pois cobriria a maior por acidente. O halo é mais eficiente Portanto, nesse caso trágico o halo seria
parte da lateral do seu cockpit. para objetos maiores, como uma roda. só figurante, nem coadjuvante.
FOTOS: AGÊNCIA WRi2

O acidente de Robert
Kubica no GP do
Canadá de 2007 pode
ser comparado
ao de Roland
Ratzemberger
em Ímola 1994,
o HANS Device
provavelmente
salvou o polonês

70 [Link] | 2024
INÊS249

O novo halo protetor do cockpit dos pilotos é estrutural, rígido, mas parcial. Consideramos seis
situações distintas e sua suposta ação no caso de um acidente semelhante ocorrer.

3 TALVEZ 3 SIM 3 SIM


No bizarro acidente de Felipe Massa em O gravíssimo acidente de Romain Grosjean O piloto chinês da Alfa Romeo, Guanyu
Budapeste em 2009, o halo poderia na primeira volta do GP do Barein em 2020 Zhou nasceu de novo na etapa do GP
fazer a diferença. Seria um fator de sorte foi realmente a prova de fogo do halo, que da Inglaterra de 2022, em Silverstone,
ou azar, dentro do cenário estabelecido foi além das suas expectativas. Na batida depois de tocado por George Russell
frontal no guard rail, o halo penetrou na na largada. O santantônio de proteção,
de azar. Um dado onde duas faces
proteção metálica, protegendo o piloto, reforço tradicional de um cockpit de F1
evitariam e as outras quatro não. Com
enquanto o carro se dividiu em dois pedaços, e que fica atrás do capacete do piloto
certeza o halo protegeria parcialmente uma anterior a lâmina e outra enroscada no não aguentou o impacto e colapsou.
o brasileiro, pois a mola solta da Brawn que sobrou dela, que prontamente pegou Então o santo da vez e foi o halo, que
de Rubens Barrichello que atingiu o fogo. Foram 30 segundos agonizantes para mesmo raspando no asfalto por vários
capacete de Massa a mais de 240 km/h, Romain Grosjean e dois minutos de horror metros, protegeu o chinês de
poderia ‘bater na trave’, literalmente. Na e incerteza para quem acompanhava no consequências maiores. Exatamente por
época o que salvou o brasileiro foi a paddock da F1 ou pela televisão. Quando não ter se desfeito no asfalto, o halo foi
incrível resistência do capacete alemão Grosjean, emergiu da bola de fogo pareceu fundamental no segundo impacto,
Schubert, levado por Michael um milagre. O halo comprovou que faz parte quando o Alfa Romeo bateu na barreira
integrante de todos os itens de segurança de proteção, superou os guard rail e
Schumacher para a Ferrari, desenvolvido
já desenvolvidos. Capacete, cinto de ficou virado contra a tela de proteção
depois do acidente fatal de Ayrton
segurança, macacão antichama, célula de do público nas arquibancadas. Hoje a
Senna, quando uma barra de suspensão sobrevivência, tempo de intervenção, hans FIA já compreende que o halo de
perfurou seu capacete. Segurança na device e halo trabalharam em conjunto para proteção é realmente multiuso, e que
F1 é assim: através de Schumacher, salvar a vida do francês, que ficou só com funciona muito bem em diferentes tipos
Senna salvou Massa. as duas mãos queimadas. de acidentes observados até aqui.

No Brasil o BRB Fórmula 4 Brasil Credenciado pela FIA, tem o equipamento o capacete do brasileiro. Mas no caso do acidente do austríaco Ratzemberger,
de série nos chassis Tatuus produzidos na Itália. Foi um caminho sem o HANS teria grande chance de ter salvo a vida do piloto. O equipamento
volta, ditado pela lógica de que todo item de segurança vem de cima para tornou-se obrigatório pela FIA a partir de 2003 e desde então tem se mostrado
baixo, da F1 para todas as categorias de monopostos, atingindo até a muito eficiente, principalmente para danos relacionados à coluna cervical
base da pirâmide que se forma abaixo dela. Também a Fórmula Indy e fraturas na base do crânio. Nos acidentes de Robert Kubica no GP do
introduziu um halo a sua maneira, inclusive com o conceito Shield, que Canadá de 2007 e no de Felipe Massa no GP Hungria em 2009, o HANS
mais parece um cockpit de um avião a jato de combate. foi muito atuante. O incrível acidente de Kubica contra o muro no circuito
Antes da introdução do halo, o maior avanço na segurança dos pilotos de Notre Dame em Montreal, pode ser muito bem comparado ao de Roland
havia sido a criação do HANS Device, estrutura rígida em fibra de carbono Ratzemberger em Ímola, com resultados absolutamente opostos.
que limita os movimentos da cabeça. O HANS, em inglês sigla de Head O polonês provavelmente foi salvo pelo HANS Device naquele dia.
And Neck Support, foi criado no início da década de 90 pelo engenheiro Kubica saiu com escoriações e teve sorte, mas se tivesse azar, e o seu
norte-americano Dr. Robert Hubbard, que faleceu em 2019. Depois dos BMW se projetasse com o cockpit virado para o muro, o halo poderia
acidentes em Ímola em 1994, o HANS gerou grande interesse na FIA. É ter salvo sua vida. O polonês Kubica viveu para vencer exatamente um
difícil imaginar o que aconteceria com Ayrton Senna se estivesse usando ano depois, em 2008 no Canadá, como primeiro piloto da Polônia a subir
o equipamento, dada a fatídica parte da suspensão que se projetou contra no degrau mais alto do pódio num GP de Fórmula 1. O brasileiro4

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Marco Campos não teve a mesma sorte. O piloto de Curitiba faleceu em


FOTOS: AGÊNCIA WRi2

31 de outubro de 1995 na pista francesa de Magny Cours depois que o seu


F-3000 da equipe Draco capotou sobre o muro na parte interna da curva
Adelaide. Campos que teve traumatismo craniano causado pelo impacto
de seu capacete Arai diretamente na parte superior do muro, com o halo
teria enorme chance de sair vivo.
Todas as evoluções em segurança no esporte caminharam coordenadas
pela FIA, que decidiu que precisaria fazer mais. A decisão polêmica na época
era criar um arco ao redor do capacete do piloto, que junto à célula de
sobrevivência, atuasse como uma barreira a pneus soltos, estilhaços, e a
eventual sobreposição de monopostos. O halo da F1 pesa 7 kg e é feito de
uma combinação de titânio e fibra de carbono. Na prática, é uma estrutura
rígida, não deformável e até estrutural do cockpit, porém, atua de forma
diferenciada de outros itens de segurança, porque ao contrário do ‘nose
cone’ em fibra de carbono na frente do cockpit, não dissipa a energia cinética
durante um impacto.
Desde a sua introdução, o halo com certeza já trouxe resultados práticos,
e a cada acidente a FIA analisa e exalta a sua decisão. O primeiro evento da
história da F1 em que o halo foi o maior protagonista foi o acidente de
Fernando Alonso e Charles Leclerc, na largada do GP da Bélgica de 2018,
em Spa Francorchamps. Nico Hülkenberg, da Renault, errou a freada e jovem piloto monegasco.
bateu na McLaren de Fernando Alonso, que foi lançada contra a Sauber O halo, assim como foi com o HANS, gerou estranheza aos pilotos
Alfa-Romeo de Charles Leclerc, exatamente a foto que ilustra a abertura no começo e hoje é considerado indispensável. Pilotos sempre estarão
desta reportagem. O carro de Alonso se lança sobre o de Leclerc, raspando divididos entre a sensação de segurança e a da perda de liberdade.
o halo branco e deixando marcas de borracha, e possivelmente do assoalho Vários deles já reclamaram da dificuldade em sair rápido do carro,
do carro do espanhol. Segundo a FIA, análises posteriores do acidente com e da parcial obstrução a visão. Um deles inclusive, o francês Romain
fotos, vídeos e câmeras onboard, comprovam que o halo salvou a vida do Grosjean iria mudar dramaticamente a sua opinião. O acidente do

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INÊS249

FOTO: LUCA BASSANI


O acidente do piloto de Romain
Grosjean no grande prêmio do Barein
de 2020, foi a prova de fogo do halo.
Foram 30 segundos agonizantes para
o francês se livrar das chamas

O piloto francês Romain Grosjean,


já famoso destruidor de carros
de corrida acumulou o título de
maior escapada com vida da
história da Fórmula 1

No acidente em 2018 em Spa


Francorchamps, o espanhol
Fernando Alonso reclamou da
dificuldade para sair do cockpit
com halo

O acidente na largada do GP da
Bélgica de 2018 entre Fernando
Alonso e Charles Leclerc, visto de
outro ângulo

Charles Leclerc na época na Sauber


Alfa-Romeo, foi o primeiro piloto
da história da F1 que teve a sua
integridade física preservada
pelo halo
FOTO: AGÊNCIA WRi2

piloto da Haas no grande prêmio do Barein de 2020, talvez tenha sido


a prova de fogo do halo. Foram 30 segundos agonizantes para Romain
Grosjean. Para quem viu pela televisão, foram ao menos dois minutos
de horror e incerteza. Quanto mais o diretor de TV demorava para
colocar no ar as imagens do local da batida, maior era a incerteza se o
piloto francês da Haas sairia com vida, após seu carro explodir em
chamas na terceira curva do circuito de Sakhir. Quando a paz voltou
com as imagens de Grosjean dentro do Medical Car, o que chocaria
aos fãs da F1 foi o cenário de destruição, tanto do carro quanto
do guard rail: o carro da Hass se dividiu em dois. A presença do
halo impediu que, no rasgo do guard rail, o piloto fosse decapitado – e
de quebra, deu a ele o espaço mínimo entre os ferros retorcidos para
poder sair e se salvar. Vale lembrar que no seu histórico a F1
já teve acidentes fatais com a decapitação do piloto, onde o guard rail
FOTO: LUCA BASSANI

foi o carrasco. François Cevert morreu em Watkins Glen em 1973


em um cenário parecido.
Pode-se dizer que Romain Grosjean usou todos os fundamentos de
segurança criados em sete décadas de F1. Os equipamentos trabalharam
harmonicamente, mas foi o halo e o tempo de intervenção da4

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FOTO: BETO ISSA


equipe médica e bombeiros que fizeram a maior diferença.
A primeira vez que o halo foi protagonista numa disputa de título foi no acirrado
duelo de Lewis Hamilton com Max Verstappen no GP da Itália em 2021. O holandês
forçou uma ultrapassagem na primeira chicane de Monza e seu Red Bull acabou
acertando o cockpit do Mercedes do heptacampeão mundial. Se não fosse o halo,
Lewis Hamilton sofreria consequência sérias.
O halo provou ser sua versatilidade no GP da Inglaterra de 2022. O piloto chinês
da Alfa Romeo, Guanyu Zhou nasceu de novo na largada em Silverstone, depois de
tocado por George Russell da Mercedes. O santantônio de proteção, reforço tradicional
de um cockpit de F1 e que fica atrás do capacete do piloto não aguentou o impacto
e colapsou. Então o santo da vez foi o halo, que mesmo raspando no asfalto por
vários metros, protegeu o chinês de consequências maiores. Exatamente por não ter
se desfeito no asfalto, o halo foi fundamental no segundo impacto, quando a Alfa
Romeo bateu na barreira de proteção, superou os guard rails e ficou virado contra a
tela de proteção do público nas arquibancadas. Hoje a FIA já compreende que o halo
de proteção é realmente multiuso, e que funciona muito bem em diferentes tipos de
acidentes observados até aqui.
Na contramão, quando um acidente fatal voltar a ocorrer, o discurso tenderá a
culpar o imponderável da tragédia, apesar dos esforços da entidade. O halo porém,
para o fã do esporte, visualmente representa um retrocesso. A Fórmula 1 e suas
categorias de acesso sempre tiveram o apelo de mostrar a ação da pilotagem e as
cores dos capacetes, que representam a identidade visual do piloto dentro do cockpit.
Muitos puristas defendem inclusive que o risco de desafiar o perigo é parte inerente
a este esporte e que isso sempre atraiu audiência. Também a geração de imagens
perdeu um pouco de apelo humano, mas novas posições de câmera ‘onboard’ foram
achadas usando o próprio halo. A Liberty Media, empresa americana promotora
da F1, descobriu uma maneira de aplicar infográficos na tela exatamente sobre o
halo, numa solução criativa e eficiente. Assim como o cinto de segurança e o ‘airbag’,
equipamentos de segurança ainda incomodam a natureza selvagem do homem.
A FIA que tem no seu principal slogan tornar as estradas seguras, sabe como ninguém
que precisa proteger o homem do próprio homem e seus brinquedos perigosos.
Se a natureza do homem é complexa e instável, como entidade a FIA quer
arbitrar um esporte menos selvagem. Então é melhor colocar o animal numa gaiola,
como parece ter feito o halo.

O acidente na largada do GP
da Inglaterra em 2022 com
Guanyu Zhou. O piloto chinês
nasceu de novo, depois de
tocado por George Russell

O santantônio do F1 de Zhou
não aguentou o impacto
e colapsou. Foi o halo, que
mesmo raspando no asfalto,
FOTOS: JORGE SÁ

protegeu o chinês no segundo


impacto, quando o Alfa
Romeo ficou virado contra a
tela de proteção

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INÊS249

O halo já foi protagonista na disputa


de título entre Lewis Hamilton e Max
Verstappen no GP da Itália em 2021. O
carro do holandês acertou o cockpit do
heptacampeão e se não fosse o halo,
Hamilton sofreria consequências sérias.

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30 ANOS DE LEGADO
DE AYRTON SENNA
O ANO DE 2024 SERÁ MARCADO POR MUITAS HOMENAGENS A AYRTON SENNA, CUJO
LEGADO TRANSCENDE O ESPORTE, COM AÇÕES MARCANTES COMO O TRABALHO DO
INSTITUTO AYRTON SENNA NA EDUCAÇÃO, O PERSONAGEM SENNINHA E AS AÇÕES DE
SEUS SOBRINHOS, SEJA NAS PISTAS, SEJA NAS ARTES
Por Rodrigo França | Fotos Luca Bassani e Instituto Ayrton Senna

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INÊS249

2024 | [Link] 77
INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A
FOTO: DIEGO VILLAMARIN / IAS

A
FOTO: LUCA BASSANI
TEMPORADA 2024 do automobilismo será palco de milhares
de homenagens a Ayrton Senna: o tricampeão mundial de
F1 é considerado por especialistas como o maior piloto de
todos os tempos. O brasileiro detém até hoje alguns recordes
na Fórmula 1, como o de maior número de vitórias no GP
mais tradicional e difícil do calendário: Mônaco, com seis
triunfos. Mas suas 41 vitórias, 65 poles, 80 pódios e três títulos mundiais
(1988, 1990 e 1991) não são as únicas marcas de Senna.
Além de elevar o nível de excelência de todos os pilotos que passaram
a competir na principal categoria do automobilismo mundial, as conquistas
do brasileiro transcendem a F1 e é por isso que a celebração de seus
30 anos de legado faz de 2024 um ano histórico.
Um bom exemplo de como o alcance de Senna ultrapassa suas conquistas
nas pistas é o aniversário de 30 anos de Senninha, inspirado e lançado
por Ayrton Senna em fevereiro de 1994. O personagem é um menino
de seis anos que adora velocidade e sonha em ser piloto de Fórmula 1.
Até hoje, é por meio dele que a mensagem de garra, determinação e
superação chega até crianças do Brasil inteiro.
Mas é justamente um trabalho focado nas futuras gerações que tornou
o legado de Ayrton Senna ainda maior importante. Um projeto idealizado
em conversas com sua irmã, Viviane Senna, e que se tornaria realidade
também em 1994: o Instituto Ayrton Senna.
“O Ayrton sempre acreditou que o segredo do sucesso é a oportunidade.
Ele me disse que não queria ser uma pessoa que dá certo em um país
que não dá, e que queria dividir a oportunidade que ele teve com outras
pessoas”, diz Viviane, lembrando que nem todas as crianças e jovens
brasileiros têm a oportunidade de ter educação de qualidade no país.

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INÊS249

FOTO: DIEGO VILLAMARIN / IAS

Ayrton Senna queria ajudar


as crianças do Brasil a ter um
futuro melhor e deste sonho
surgiu o Instituto Ayrton Senna

Senninha foi criado em 1994


e o próprio piloto divulgada
o personagem
FOTO: MARCIO SCHIMMING / IAS

O Instituto Ayrton Senna busca


dar oportunidades a jovens
crianças por meio da educação

Garra, determinação e superação


são os valores de Ayrton Senna que
são passados aos jovens de hoje

O acidente em Ímola impediu que Ayrton participasse da construção


desse projeto, mas Viviane e a família Senna decidiram levar o sonho
de Ayrton adiante. “Se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas
crianças que devemos começar”, disse Ayrton em uma de suas mais
célebres entrevistas.
E foi com este intuito que Viviane até hoje conduz o Instituto Ayrton
Senna, que tem como missão transformar a realidade brasileira por
meio de uma educação mais significativa e comprometida com a redução
da desigualdade. Em três décadas, a organização vem produzindo
conhecimento de ponta e implementando medidas voltadas à melhoria
da qualidade do ensino público, em uma busca incessante por inovação.
Ao longo desse tempo, milhões de crianças e jovens brasileiros tiveram
FOTO: DIEGO VILLAMARIN / IAS

suas vidas transformadas.


O legado de Ayrton Senna também chegou nas pistas, através de
milhares de pilotos que homenagearam e seguem idolatrando as conquistas
de Senna. Mas um deles levou literalmente o nome Senna para as4
INÊS249E S P E C I A L A Y R T O N S E N N A

A emocionante vitória
de Bruno Senna em
Mônaco, onde seu tio
é recordista até hoje
de vitórias

Bruno Senna teve


grandes momentos
na F1, como a quarta
fila em Spa com a
Lotus Renault
FOTOS: LUCA BASSANI

Um legado e uma responsabilidade:


Bruno Senna encarou o desafio de
levar o nome Senna nas pistas

Em 2017, Bruno Senna se tornou


campeão mundial na LMP2 da WEC

A grande inspiração de Bruno:


o tio Ayrton Senna, com quem
passava férias de verão

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INÊS249

pistas: Bruno Senna. Sobrinho de Ayrton, ele nasceu em 1983, um ano antes

FOTO: ARQUIVO IAS


da estreia do tio na F1. Uma das principais diversões de sua infância era poder
brincar e aprender com tio, durante as férias de verão.
Por conta da morte de Ayrton e também do falecimento de seu pai, Flávio
Lalli, em um acidente automobilístico, Bruno teve o início de sua carreira
abreviado. A família decidiu se ausentar das competições. O tempo foi passando
e as feridas cicatrizando, e a vontade de Bruno Senna seguia forte.
Aos 18 anos, ele retomou a carreira e sua ascensão foi meteórica: em 2006,
correndo na Fórmula 3 pela Raikkonen Davidson, ficou em terceiro no final
de sua segunda temporada em fórmulas. Na GP2, equivalente à Fórmula 2
de hoje, Bruno venceu em sua temporada de estreia e se sagrou vice-campeão
em 2008. Nesse ano, inclusive, protagonizou um dos momentos mais
emocionantes da história da GP2, ao vencer em Mônaco.
Bruno correu por três equipes na F1, com a HRT, Renault e Williams. Um
dos seus grandes momentos foi classificar a Lotus Renault, preta e dourada,
nas cores do carro da primeira vitória de Ayrton na F1, na quarta fila do GP
da Bélgica de 2011. Pela Williams, em 2012, Bruno conseguiu um sexto lugar
no GP da Malásia, mas, sem carros competitivos, teve que migrar para outras
categorias para seguir o sonho de ser campeão.
E foi justamente no Mundial de Endurance (WEC) que Bruno registrou o
auge de sua carreira. O piloto foi campeão mundial na categoria LMP2 em
2017. “Ser campeão no WEC foi uma coisa tão incrível que a ficha demorou
a cair”, comemorou.
Atualmente, Bruno é embaixador da McLaren Automotive, participando
de eventos, lançamentos e ações com os clientes. É uma relação
emocional, pois foi lá que seu tio conquistou três títulos mundiais, e técnica,
pois Bruno Senna teve papal fundamental no desenvolvimento do
McLaren Senna, um tributo ao sobrenome da família e modelo mais4

2024 | [Link] 81
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rápido – na versão GTR – dentre os modelos de rua da marca inglesa.


O McLaren Senna é um dos carros de rua mais rápidos de toda a história
da McLaren: atinge máxima de 340 km/h e acelera de 0 a 200 km/h em apenas
6s8. Faz de 0 a 100 km/h em incríveis 2,8 segundos. Este desempenho alucinante
é proporcionado pelo motor V8 biturbo de 4.0 litros com 800 cv de potência
e 81,5 kgfm de torque.
Carregar um sobrenome de peso no esporte nunca é fácil, pois se por um
lado algumas portas se abrem com mais facilidade, a cobrança é muito maior,
já que as comparações serão inevitáveis. Por isso, a coragem de Bruno Senna
é impressionante.
Aliás, essa é uma característica que está mesmo ligada aos Senna – e não só
para esportistas, mas também artistas, caso da irmã de Bruno e também sobrinha
de Ayrton Senna, Lalalli Senna. Em 2022, na semana que antecedeu a principal
prova de automobilismo do Brasil, o GP São Paulo de F1, ela apresentou a
escultura “Nosso Senna”, inaugurada também em comemoração aos 50 anos
do GP do Brasil.
Atendendo um pedido especial de sua avó, dona Neyde Senna, mãe de Ayrton,
ela reproduziu com impressionante fidelidade o rosto do ídolo mundial em
uma escultura de mais de 3 metros de altura. “Ela queria uma lembrança que
representasse a memória que ela tinha do filho, com o olhar dele. Foi uma
grande responsabilidade, mas também muito emocionante como artista poder
realizar essa obra e dividir com ela e todos os fãs do Ayrton”, diz Lalalli.
Para este ano, ela e Senna Brands prepararam a série especial “Nosso Senna
Collection”, com três edições limitadas do busto de Ayrton Senna, com peças
exclusivas e numeradas, destacando feitos da carreira do piloto brasileiro:
Victory Edition (41 peças), Speed Edition (333) e Champion Edition (1991).
Lalalli inclusive estará presente em homenagens previstas a Senna em diversas
corridas de 2024, como os GPs de Ímola, Mônaco e São Paulo. As celebrações
tão expressivas nestes 30 anos só reforçam que o legado de Senna é tão grandioso
quanto era sua velocidade pilotando um carro de F1.

82 [Link] | 2024
INÊS249

O McLaren mais rápido do


mundo: McLaren Senna,
com 800cv de potência

Bruno Senna ajudou a


McLaren como consultor
no projeto em homenagem
a Ayrton
FOTO: BETO ISSA

Lalalli Senna, sobrinha de


Ayrton Senna, é a artista
que fez a obra “Nosso
Senna” em Interlagos

Localizada no setor A nas


arquibancadas de Interlagos,
a escultura de Senna já é
icônica em SP

Um carro com o DNA Senna:


o McLaren Senna é o carro
mais extremo já produzido
pela marca

2024 | [Link] 83
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249

84 [Link] | 2024
INÊS249

AYRTON
30 anos de saudades retratados em 30 páginas com
as mais fantásticas imagens eternizadas pelos
principais fotógrafos do mundo

Pensativo e ponderado na forma de


analisar situações e reagir a elas,
Ayrton Senna levava tudo ao limite
Jean François Galeron / WRi2
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249 O lendário e diferente Toleman
TG184-Hart de Ayrton Senna,
durante os treinos para o Grande
Prêmio de Mônaco de 1984
Jean François Galeron / WRi2

No tradicional circuito de Monza,


Senna tirando tudo de seu
Toleman-Hart, na sua temporada
de estreia em 1984
Jean François Galeron / WRi2

86 [Link] | 2024
INÊS249 Na lente do francês Jean François
Galeron, a primeira vitória de Senna
em Mônaco 1987 que daria início
ao recorde de seis triunfos que
permanece até hoje
Jean François Galeron / WRi2

2024 | [Link] 87
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249
GP da Inglaterra 1986, época
em que a publicidade de
cigarros começou a ser
banida da Fórmula 1
Jean François Galeron / WRi2

Primeira vitória na F1, Estoril


1985, dia de comemorar,
como fez Peter Warr (dir. de
óculos) com o brasileiro
LAT
88 [Link] | 2024
INÊS249 Japonês Norio Koike sempre
atento aos detalhes do
tricampeão, foi o fotógrafo
pessoal de Senna
Norio Koike / IAS

O computador humano em ação,


como diziam os técnicos da Lotus,
em ação no GP da Espanha em
Jerez de la Frontera
Jean François Galeron / WRi2

2024 | [Link] 89
INÊS249
Os 4 fantásticos da
temporada 86 juntos,
na mureta do box de
Estoril, Portugal
Jean François Galeron / WRi2

Formação do grid de largada


do GP Brasil de 1986 sob o
olhar de Miguel Costa Jr. em
Jacarepaguá, Rio de Janeiro
Miguel Costa Jr.
90 [Link] | 2024
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249

Ayrton Senna deixa os discos de freios


vermelhos da McLaren, ao buscar a aproximação
do ¨S¨que leva o seu nome. Interlagos voltou a
ser o palco do GP Brasil em 1990, com o traçado
reduzido, e palpites de Senna
Luca Bassani / CAR Magazine

Ayrton Senna inspeciona os amortecedores


e a suspenção do seu McLaren. A foto de
bastidores é do fotografo japonês Norio Koike,
que acompanhava exclusivamente o brasileiro
Norio Koike / IAS
INÊS249
A primeira vitória no GP Brasil viria
apenas em 1991, teriminando a
corrida com apenas a 2ª e 6ª marcha,
drama até a bandeirada
Miguel Costa Jr.

92 [Link] | 2024
INÊS249 Grande Prêmio de Mônaco 1988
com Ayrton Senna liderando
o companheiro na McLaren, o
francês Alain Prost. Na foto as
linhas do belo McLaren MP4 / 4
Jean François Galeron / WRi2

Largada do GP Brasil de 1989,


época em que o Autódromo de
Jacarepaguá era considerado um
dos melhores do mundo
Jean François Galeron / WRi2

2024 | [Link] 93
INÊS249
O trio vencedor e dominante
da McLaren; Gordon Murray, Ron Dennis
e Ayrton Senna
LAT

Ayrton Senna no GP Brasil em


Interlagos fotografado pelo
mestre Cláudio Laranjeira
Cláudio Laranjeira

94 [Link] | 2024
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249
Ayrton Senna comemora a vitória
no GP do Canadá em 88, no circuito
Viles Villeneuve, em Montreal
Jean François Galeron / WRi2

Última prova pela McLaren e vitória em


Adelaide 1993 com um McLaren-Ford
bem inferior aos concorrentes
Sutton Motorsport Images

2024 | [Link] 95
INÊS249

O brasileiro Ayrton Senna


comemora sua quarta vitória
em Mônaco 1991 junto do
inglês Nigel Mansell
Jean François Galeron / WRi2
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249

2024 | [Link] 97
INÊS249
Ajustando a balaclava antes do decisivo
GP do Japão de 1989 que venceu na
pista mas perdeu nos bastidores
Sutton Motorsport Images

Sem gasolina na última volta do GP


da Inglaterra de 91, Senna ganha uma
carona do vencedor Nigel Mansell
Sutton Motorsport Images

98 [Link] | 2024
INÊS249
Spa-Francorchamps era uma das
pistas favoritas do piloto brasileiro
que na foto comemora sua quinta
vitória na pista belga em 1991
Sutton Motorsport Images

O italiano Ercole Colombo,


regsitra o toque entre
Damon Hill e Ayrton Senna no
início do GP da Itália de 1993,
em Monza
Ercole Colombo
INÊS249
Ayrton Senna de olho no monitor, conferindo
o tempo dos adversários, durante os treinos
do GP Brasil de 1993
Luca Bassani / CAR Magazine

O fotógrafo suíço Jad Sherif teve a


oportunidade de fazer um ‘camera car’
com o campeão Senna, no circuito de
Jacarepaguá, no Rio de Janeiro
Jad Sherif / WRi2

100 [Link] | 2024


Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249
Senna trabalhou duro em 1993
sem chances de título, mas elevou
a pilotagem a outro patamar
nesse ano
Georges de Coster

2024 | [Link] 101


INÊS249
Senna lava a alma com champanhe
na Austrália em 1993, na sua última
vitória na Fórmula 1
Norio Koike /IAS

Ayrton Senna em Jacarepaguá, na


bela imagem captada pelo brasileiro
Miguel Costa Jr, no GP Brasil
Miguel Costa Jr.
Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249
Norio Koike só tinha lentes para
Senna e foi dele a mais detalhada
imagem do acidente com Prost no
Japão em 1990
Norio Koike /IAS

2024 | [Link] 103


Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249 15 títulos mundiais numa só imagem.
3 de Senna, 7 de Schumacher e 5 de
Juan Manuel Fangio
Luca Bassani / CAR Magazine

104 [Link] | 2024


INÊS249 Os momentos antes de suas
voltas voadoras eram sempre
precedidos de
muita concentração
Norio Koike / IAS

Imagem histórica registrada pelo japonês


Norio Koike da emocionante vitória de
Ayrton Senna, em Interlagos 1993
Norio Koike / IAS

2024 | [Link] 105


INÊS249
O majestoso McLaren MP4 / 8
com Ayrton Senna ao volante,
durante o GP de Mônaco de 1993,
em sua sexta e última vitória nas
ruas de Monte Carlo
Jean François Galeron / WRi2

Tentando tirar o máximo do seu McLaren


Ford, Senna rodou nos treinos de sábado
para o GP de Imola de 1993. No domingo
largando em quarto no grid, abandonaria o
GP na volta 42 por problemas hidráulicos
Jean François Galeron / WRi2

106 [Link] | 2024


Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249
Ayrton Senna comemora com
chanpanhe a sua segunda vitória no GP
Brasil de Fórmula 1, em Interlagos 1993
Norio Koike / IAS

Ayrton Senna encantava os fans com


a sua pilotogem arrojada nas ruas de
Monte Carlo, seu McLaren MP4 /7 A
– Honda de 1992, na chicane do
¨ S ¨da piscina
Jean François Galeron / WRi2

2024 | [Link] 107


INÊS249
Toda imprensa mundial de olho
na estreia de Senna na Williams
nos treinos do GP Brasil de 1994
Luca Bassani / CAR Magazine

108 [Link] | 2024


Photo Gallery - Senna 30 Anos
INÊS249

2024 | [Link] 109


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Ayrton Senna tinha um semblante
preocupado com a Williams, já em
seu 1º teste de pré-temporada no
Estoril, em Portugal
Jean François Galeron / WRi2

Apesar de trocar de patrocinador


para 1994, a marca Marlboro
é a que ficou mais associada
ao tricampeão
Luca Bassani / CAR Magazine

110 [Link] | 2024


Photo Gallery - Senna 30 Anos
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Em evento particular da Audi
em Interlagos, no período
de transição McLaren 1993 /
Williams 1994
Claudio Laranjeira

2024 | [Link] 111


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Imagem que guarda beleza, poesia
e lembranças, feita nas montanhas
próximas a Estoril
Jean François Galeron / WRi2

Ayrton Senna no cockpit de seu Williams,


muito exposta a choques. Hoje o Halo que
protege a cabeça do piloto já provou sua
eficiência e poderia ter salvo o brasileiro
Luca Bassani / CAR Magazine

112 [Link] | 2024


Photo Gallery - Senna 30 Anos
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Ayrton Senna de Williams Renault,
perseguido por Michael Schumacher
de Benetton Ford, travam o último
duelo no GP de Imola 1994
Georges de Coster

As cercanias da curva Tamburello


em Ímola se transformaram em
local permanente de tributo ao
tricampeão Ayrton Senna
Alex Farias / CAR Magazine
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41 VITÓRIAS DE AYRTON SENNA NA F1
O piloto que venceu duas vezes Relembre abaixo as vitórias de Ayrton Senna na F1,
conquistadas em 1985, 1986 e 1987 com a equipe Lotus

o tempo: Ayrton Senna e de 1988 a 1993, com a McLaren

DATA TEMPORADA GP

A
DISCUSSÃO SOBRE QUEM é 1 21 /04/1985 PORTUGAL
o melhor piloto de todos 1985
os tempos é eterna: afinal, 2 15/09/1985 BÉLGICA
como comparar gerações que esti- 3 13/04/1986 ESPANHA
veram na F1 em épocas diferentes? 1986
4 22/06/1986 DETROIT
Mas, quando o assunto é saber
5 31/05/1987 MÔNACO
quem é o piloto mais rápido da 1987
história, aí não restam dúvidas: 6 21/06/1987 DETROIT
Ayrton Senna. 7 01/05/1988 SAN MARINO
O brasileiro foi o rei na arte de mos- 8 12/06/1988 CANADÁ
trar que é possível, sim, parar o tempo
9 19/06/1988 DETROIT
se o assunto é fazer a melhor volta na
classificação. Ou superar o limite de Mônaco andando a milíme- 10 10/07/1988 GRÃ-BRETANHA
tros do muro. Ou fazer os outros carros parecerem congelados 11 24/07/1988
1988
ALEMANHA
diante de uma chuva torrencial.
12 07/08/1988 HUNGRIA
Se Senna foi mestre em derrotar o cronômetro na pista, sua
vitória contra o tempo ficou ainda mais impressionante após 1994. 13 28/08/1988 BÉLGICA
Todos sabiam que o tricampeão mundial era um grande ídolo – em 14 30/10/1988 JAPÃO
todos os cantos do planeta – e que a tragédia em Ímola causaria
enorme comoção com sua perda. 15 23/04/1989 SAN MARINO
Mas nada se comparou ao que se viu em sua despedida, alvo 16 07/05/1989 MÔNACO
de honrarias que não encontram paralelos em toda história
17 28/05/1989 MÉXICO
com líderes mundiais em outros setores, como artes, religião ou 1989
política. Ainda assim, haviam os que pensavam que Senna cairia 18 30/07/1989 ALEMANHA
no esquecimento – do mundo e, principalmente, dos brasileiros, 19 27/08/1989 BÉLGICA
acostumados a não valorizar seus ídolos.
Só que Senna é diferente. O homem que derrotou o tempo, na 20 1/10/1989 ESPANHA
pista, também derrotou aquele “tempo” que a humanidade mede 21 11/03/1990 EUA
em dias, meses, anos e décadas. Seu legado mostrou que, para
22 27/05/1990 MÔNACO
Senna, não existe passado. Por isso, a campanha “Senna Sempre”,
lançada pelo Instituto Ayrton Senna para celebrar sua memória, 23 10/06/1990 CANADÁ
não poderia ter escolhido um nome mais apropriado. 1990
24 29/07/1990 ALEMANHA
Neste contexto, CAR MAGAZINE, nos 25 anos de saudades
deste ídolo, pensou em uma revista que seria um marco capaz 25 26/08/1990 BÉLGICA
também de resistir ao tempo. A edição especial Senna, feita 26 09/09/1990 ITÁLIA
inclusive com a curadoria de fotos da própria mãe de Ayrton Senna,
27 10/03/1991 EUA
Dona Neyde, em conjunto com o Instituto Ayrton Senna,
se tornou case de sucesso editorial e lançou a edição brasileira de 28 24/03/1991 BRASIL
CAR MAGAZINE como uma das mais prestigiadas do mundo. 29 28/04/1991 SAN MARINO
Agora, 30 anos depois, é com orgulho que apresentamos esta
edição que você está lendo. Entram novas matérias – pois, como 30 12/05/1991 1991 MÔNACO
dissemos, não existe passado para Senna, só presente e futuro. E foi 31 11/08/1991 HUNGRIA
um futuro melhor que Ayrton sonhou para seu amado Brasil, e ele
32 25/08/1991 BÉLGICA
é possível com o trabalho de três décadas liderados pela sua irmã,
Viviane Senna, com o Instituto, impactando diretamente a vida de 33 03/11/1991 AUSTRÁLIA
milhões de crianças no nosso País por meio da educação. 34 31/05/1992 MÔNACO
E foi como criança onde tudo começou. No pequeno kart
montado pelo seu pai, Milton da Silva. Ali, Ayrton despertou 35 16/08/1992 1992 HUNGRIA
a vontade de superar o tempo. E Senna conseguiu – dentro e 36 13/09/1992 ITÁLIA
fora das pistas.
37 28/03/1993 BRASIL
RODRIGO FRANÇA 38 11/04/1993 EUROPA
39 23/05/1993 1993 MÔNACO
40 24/10/1993 JAPÃO
41 07/11/1993 AUSTRÁLIA
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A história do tricampeão mundial que nos deixou há 30 anos
A  ERA  McLAREN
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EDITOR CHEFE
Alan Magalhães (MTB: 05385)
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EDITOR ESPECIAL
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62
Segurança: Santo Halo
 O Halo teria salvo Ayrton Senna naquele dia? 
Comparamos três casos para você decidir.
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O Legado

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