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ECOLOGIA DO FOGO E GESTÃO DE ÁREAS ARDIDAS
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FRANCISCO MOREIRA FILIPE X. CATRY JOAQUIM SANDE SILVA FRANCISCO REGO
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500 EXEMPLARES
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978-972-8669-48-5
DEPÓSITO LEGAL Nº

320215/10
DEZEMBRO 2010 FINANCIAMENTO

IFAP

ECOLOGIA

DO FOGO
E GESTÃO DE ÁREAS ARDIDAS

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6 9

LISTA DE AUTORES PREÂMBULO

SECÇÃO A. Efeitos do Fogo
13 I. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL

Paulo Fernandes, Francisco Rego
21 II. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO

António Dinis Ferreira, Celeste Coelho, Joaquim Sande Silva, Tanya Esteves
49 III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

Filipe X. Catry, Joaquim Sande Silva, Paulo Fernandes
87 IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA

Rui Morgado, Francisco Moreira

SECÇÃO B. Principios Genéricos de Gestão Pós-Fogo
121 V. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO

Ramon Vallejo, Francisco Moreira
141 VI. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

Francisco Moreira, Paulo Fernandes, Joaquim Sande Silva, João Pinho, Miguel Bugalho
167 VII. PERIGO, INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS

Joaquim Sande Silva, Paulo Fernandes, Filipe X. Catry, Francisco Moreira, Francisco Rego

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SECÇÃO C. Gestão Pós-Fogo:

o que fazer a seguir aos incêndios

191 VIII. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS

Susana Bautista, Rui Morgado, Francisco Moreira
211 IX. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO

Luisa Nunes
229 X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

António Dinis Ferreira, Sérgio Prats Alegre, Teresa Carvalho, Joaquim Sande Silva, Alexandra Queirós Pinheiro, Celeste Coelho
253 XI. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃOPÓS-INCÊNDIO

Vasco Paiva, Carmen Correia, Joaquim Sande Silva
289 XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

Filipe X. Catry, Miguel Bugalho, Joaquim Sande Silva, Paulo Fernandes

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LISTA DE AUTORES
SÉRGIO PRATS ALEGRE

Departamento de Ambiente e Ordenamento, Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal sergio.alegre@ua.pt
SUSANA BAUTISTA

Departamento de Ecología, Universidad de Alicante Apdo 99, E-03080 Alicante, Espanha s.bautista@ua.es
MIGUEL BUGALHO

Centro de Ecologia Aplicada Prof. Baeta Neves, Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal migbugalho@isa.utl.pt
TERESA CARVALHO

Departamento de Ambiente e Ordenamento, Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal tcac@ua.pt
FILIPE X. CATRY

Centro de Ecologia Aplicada Prof. Baeta Neves, Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal fcatry@isa.utl.pt
CELESTE COELHO

Departamento de Ambiente e Ordenamento, Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal coelho@ua.pt
CARMEN CORREIA

Viveiros Aliança – Empresa Produtora de Plantas, S.A. Herdade de Espirra, 2985-270 Pegões, Portugal carmen.correia@portucelsoporcel.com
TANYA ESTEVES

Departamento de Ambiente, Escola Superior Agrária de Coimbra P-3040-316 Coimbra, Portugal tanya@esac.pt
PAULO FERNANDES

Centro de Investigação e de Tecnologias Agro-ambientais e Biológicas e Departamento de Ciências Florestais e Arquitectura Paisagista, Escola de Ciências Agrárias e Veterinárias Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Quinta de Prados, 5001-801 Vila Real, Portugal pfern@utad.pt
ANTÓNIO DINIS FERREIRA

Departamento de Ambiente, Escola Superior Agrária de Coimbra P-3040-316 Coimbra, Portugal aferreira@esac.pt

Baeta Neves.pt VASCO PAIVA Viveiros Aliança – Empresa Produtora de Plantas. João Crisóstomo.es . Herdade de Espirra.pt JOÃO PINHO Autoridade Florestal Nacional.pt RUI MORGADO Centro de Ecologia Aplicada Prof.utl.pt FRANCISCO REGO Centro de Ecologia Aplicada Prof. Portugal ruimorgado@erena. Instituto Superior de Agronomia. Instituto Superior de Agronomia.7 FRANCISCO MOREIRA Centro de Ecologia Aplicada Prof. Ordenamento e Gestão de Recursos Naturais Rua Robalo Gouveia. 2985-270 Pegões. Ministério da Agricultura. 1069-040 Lisboa.utl. Portugal & Erena. Instituto Superior de Agronomia. Portugal vasco. Baeta Neves. Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro. 1349-017 Lisboa. Portugal jrpinho@afn. Portugal fmoreira@isa.pinheiro@ua. Darwin.pt LUISA FERREIRA NUNES Escola Superior Agrária de Castelo Branco Quinta Senhora de Mercules. Tapada da Ajuda. S. Tapada da Ajuda. do Desenvolvimento Rural e das Pescas Av. Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa. 26-28.min-agricultura. 3810-193 Aveiro.pt RAMON VALLEJO Centro de Estudios Ambientales del Mediterráneo Parque Tecnológico C/ Charles R. 6000 Castelo-Branco. Valencia. 1900-392 Lisboa. Baeta Neves. Tapada da Ajuda.ipcb. Universidade Técnica de Lisboa. 1349-017 Lisboa. 1-1A. Universidade Técnica de Lisboa. Universidade Técnica de Lisboa.com ALEXANDRA QUEIROZ PINHEIRO Departamento de Ambiente e Ordenamento.paiva@portucelsoporcel. Portugal jss@esac. 1349-017 Lisboa. Espanha ramonv@ceam.A. Portugal alexandra. 1349-017 Lisboa. Baeta Neves.pt JOAQUIM SANDE SILVA Centro de Ecologia Aplicada Prof. Portugal frego@isa. 46980 Paterna. Tapada da Ajuda. Portugal lfnunes@esa. 14.

a elaboração do Plano Nacional de Defesa da Flor esta C ontra I ncêndios e a cr iação d o F undo Flor estal Permanente (FFP). a situação que afecta P ortugal é partilhada. já no âmbito (e com financiamento) do projecto “Recuperação de áreas ardidas”. De 2005 a 2010. procurou-se desenvolver e divulgar as bases científicas e técnicas de int rvenção na gestão de áreas ardidas. Baeta Neves”. O que faz er com as árvores queimadas? Como evitar a erosão do solo nas áreas ardidas? E a degradação da qualidade da água? O que plantar ou semear? C omo gerir os milhar es de hec tares afec tados pelos incêndios? C omo e vitar que tragédias com tal escala espacial se voltem a repetir? O que fazer no âmbito das políticas de ordenamento do território? A verdade é que. o centro temático PHOENIX – Fire ecology and post-fire management. pelo que a realidade no terreno justificava um maior investimento na investigação e na t ransferência de conhecimentos para técnicos e gestores.9 PREÂMBULO Em 2003. Desta forma.000 hectares. tópicos usuais das preocupações. a atenção da sociedade e dos políticos deixou de estar exclusivamente concentrada na prevenção e combate dos incêndios. por m uitos países medit errânicos. Na sequência d o ano desast roso de 2003. a área ardida em Portugal ascendeu a mais de 300. em Portugal. o nível de c onhecimento técnico e científic o sobre estas matér ias era (e ainda é) pouco desenvolvido. em parceria com as Universidades de Aveiro e de Trás-os-Montes e Alto Dour o. Com áreas ardidas desta dimensão. e Para a prossecução destes objectivos foi determinante a colaboração internacional. . das quais se destacam a cr iação d o Conselho Nacional de Reflorestação. e a Acção COST FP0701 Post-fire forest management in southern Europe. através do Centro de Ecologia Aplicada “Prof. foram tomadas inúmeras iniciativas políticas e leg islativas. foram apoiadas e c oordenadas duas iniciati vas paralelas fundamentais. para se v irar para as questões da gestão pós-fogo . candidatou o projecto “Recuperação de áreas ardidas” (Nº 2004 09 002629 7). No âmbito do FFP. embora em difer ente escala. e também em 2005. instituições que já tinham um r egisto de in vestigação científica com relevância para este tópico. o Instituto Superior de Agronomia. já que de facto.

garantiu-se que a equipa do pr ojecto teria acesso privilegiado às instituições e in vestigadores com mais conhecimentos na área da gestão pós-fogo. Uma vez que o funcionamento desta rede não er a suportado financeiramente. M arrocos. Itália. Tunísia e T urquia e é c oordenado pelo C entro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves” do Instituto Superior de Agronomia. foi possível efectuar pressão par a que os fogos flor estais c ontinuassem a faz er par te da investigação financiada a nív el europeu. com linhas de trabalho semelhantes. que financia ac tividades de “networking” e partilha de infor mação entre diferentes países. Marrocos e Nova Zelândia. que desenvolvem investigação no âmbito da estratégia de investigação do EFI e sob o seu nome e apoio científico. França. também coordenada pelo Instituto Superior de Agronomia. foi submetida ao programa COST.10 O Cent ro P HOENIX é um dos c entros t emáticos do I nstituto Florestal Europeu (EFI). a rede de investigação florestal líder na Europa. que já foi traduzido em várias línguas. durante estes 5 anos do projecto foram desenvolvidas diversas actividades a nível nacional e das quais destacamos a criação de um website para divulgação de infor- . da Acção COST e d o projecto FIRE PARADOX. o EFI aprovou a cr iação d o C entro R egional Temático P HOENIX (2005-2012). Um exemplo marcante desta última ac tividade foi a publicação d o EFI Discussion Paper “Living with wildfires: what science can tell us – A contribution to the science policy dialogue”. e for am desenvolvidas outras acções de sensibilização d os políticos e gestores florestais. A rede PHOENIX acabou por ser uma versão internacional do projecto Recuperação de áreas ardidas. que desenvolve investigação em ecologia do fogo e gestão pós-fogo. Em Maio de 2005. Para além da acti vidade a nível internacional. O consórcio inclui actualmente 21 membr os de P ortugal. uma candidatur a que acabou por t er suc esso e or iginar a Acção COST FP0701. Para além disso. Os centros temáticos do EFI consistem em redes institucionais de membros do EFI e outros parceiros. Com o funcionament o da r ede P HOENIX. Ainda a nível internacional há que destacar o facto de a equipa do CEABN/ISA ter coordenado o maior projecto europeu de investigação em fogos florestais (FIRE PARADOX). com mais de 130 organizações-membr o. Espanha. Com um programa de trabalhos para o período 2008-2012. este projecto conta actualmente com a par ticipação oficial de 19 países e uropeus e instituições da T unísia. Grécia.

dar ênfase à investigação e à realidade florestal portuguesas. Os 19 aut ores deste livro são maioritariamente investigadores associados às instituições participantes no projecto. Mas foram ainda incluídos outros especialistas nacionais e est rangeiros cuja par ticipação se afigurou importante para uma abordagem fundamentada dos diferentes temas associados à ecologia . c om destaque par a a in vestigação realizada no país (Capítulos VI e VII). sendo a sua produção integralmente financiada por ele. A primeira secção (Efeitos do fogo) inclui quatro capítulos. O presente livro é a última acção d o projecto “Recuperação de áreas ardidas”. Ao longo d o li vro t entámos. na vegetação (Capítulo III) e na fauna (C apítulo IV). e terminando com a gestão da vegetação pós-fogo (Capítulo XII).11 mação vár ia sobr e r ecuperação de ár eas ar didas. seguida de outra sobre princípios genéricos de gestão pós-fogo. com financiamento nacional e eur opeu. disponív el em www. que deram formação a 60 técnicos e gestores. a regeneração artificial em acções de reabilitação pós-incêndio (Capítulo XI). e focando outros tópicos essenciais tais como o problema das pragas (escolitídeos) (Capítulo IX). o primeiro dos quais aborda os princípios básicos da ecologia do fogo (combustíveis e combustão em meio flor estal) (Capítulo I). sempr e que possív el. A segunda secção ( Princípios genéricos de gestão) inclui três capítulos que abordam em primeiro lugar os conceitos de restauro ecológico e planeamento da gestão florestal pós-fogo (Capítulo V) e posteriormente os princípios de gestão para minimizar os impact os d os incêndios. Para isso. seguido de t rês capítulos onde são abordados os efeitos do fogo no solo (Capítulo II).org/content/1/24/raa-homepage e a realização de 3 Cursos de Formação Avançada em Gestão Pós-Fogo. e finalizando com uma secção mais prática sobre o que fazer a seguir aos incêndios. desde logo o pr ojecto Recuperação de áreas ardidas. A última secção (o que fazer a seguir aos incêndios) aborda um conjunto de temáticas relevantes. que decorreram em par alelo. Está organizado em 3 secções principais: uma secção inicial sobre os efeitos do fogo. mas também out ros 8 projectos de investigação. começando desde logo pela pr oblemática da e xtracção das ár vores queimadas (Capítulo VIII). foram utilizados resultados provenientes de projectos de investigação onde a equipa d o projecto esteve envolvida.phoenixefi. as acções de protecção do solo e minimização da escorrência superficial após os incêndios (Capítulo X).

Lisboa. Agradecemos a t odos a colaboração na compilação desta obra. Mais do que um fim. Dezembro de 2010 Os editores. espera-se que este livro sirva sobretudo como ponto de partida para um maior investimento na investigação e transferência de conhecimentos na área da ecologia do fogo e recuperação de áreas ardidas. FRANCISCO MOREIRA FILIPE X. Agradecemos também ao Fundo Florestal Permanente o financiamento que tornou possível este projecto. CATRY JOAQUIM SANDE SILVA FRANCISCO REGO .12 do fogo e à r ecuperação das ár eas ar didas.

O combustível florestal 3. Comportamento do fogo 4. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL PAULO FERNANDES FRANCISCO REGO 1.13 EFEITOS DO FOGO I. Avaliação do comportamento do fogo . Intr odução 2. Interpretação do comportamento do fogo 5.

e é at ravés da sua gestão que a e xtensão e se veridade dos incêndios podem ser condicionadas. respectivamente pré-aquecimento.14 I. A inflamabilidade descreve qualitativamente a maior ou menor dificuldade deste processo. A definição de prescrições de gestão da vegetação objectivas e sólidas. — ferramentas que operacionalizem os modelos preditivos. gera o comportamento do fogo. com o objectivo de compreender os impactos do fogo e minimizar o risco de incêndio. A combustão sem chama é um processo de oxidação superficial que queima o carbono como um sólido. Introdução Este breve capítulo introdutório tem como objectivo a familiarização com conceitos básicos que são nec essários à c orrecta compreensão dos capítulos seguintes. A combustão e a t ransferência do calor produzido. — a existência de modelos de predição das características do fogo. como um combustível. que por sua vez requer energia. exige: — a descrição quantitativa do combustível e uma tipologia para a sua classificação. combinando-se com o oxigénio e dando origem à chama. O pré-aquecimento evapora a humidade do combustível (a temperaturas superiores a 100o C) e volatiliza (a temperaturas superiores a 200o C) os compostos que resultam da decomposição térmica da c elulose. O termo designa “o que o fogo faz” (Byram. 1959) e é traduzido pelas . Não é difícil compreender a relevância do combustível florestal. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 1. por condução. As actividades de prevenção e combate de incêndios obrigam a que as espécies vegetais e a sua biomassa sejam caracterizadas em função da sua aptidão para arder. isto é. pois é a energ ia nele contido que sustenta a combustão e a propagação do fogo. convecção e t ransporte de faúlhas. em quantidade que depende do teor de humidade do combustível. O processo de combustão inclui três fases. A combustão com chama sucede à ignição. O combustível intermedeia os efeitos do fogo sobre o ecossistema e o impacte do Homem sobre o fogo . combustão com chama e combustão sem chama. — a existência de relações causa-efeito entre as características do fogo e os seus impactes. Estes gases inflamam-se a cerca de 300-400o C. radiação.

energia libertada − que são determinadas pelo piro-ambiente. Em combustíveis verdes ou húmidos o fogo propaga-se com . dimensões. (1983). ou seja sem actividade fisiológica. combustíveis de transição. não decomposta. Um tipo de c ombustível ou complexo combustível constitui uma associação identificável de elementos que arderá de forma específica por apresentar car acterísticas distintas. O comportamento do fogo é frequentemente referido em termos qualitativos como combustibilidade. continuidade e teor de humidade. que r eflecte todo o piro-ambiente. distribuição por classes de dimensão. (2005). A disponibilidade do combustível para arder depende da sua dimensão e humidade. porque a limita ou facilita. Pyne et al. e as ervas e arbustos. devido ao arejamento existente. ou perigo de incêndio. copado das árvores. Tolhurst e Cheney (1999) e Beck et al. À medida que aumenta a carga de c ombustível disponível para arder aumenta o pot encial de liber tação de calor. O teor de humidade exerce um papel cr ucial na c ombustibilidade de um det erminado complexo combustível. ou vivo.I. Chandler et al. meteorologia e topografia. carga. (1996). que reflecte apenas o combustível. A carga de combustível é a sua quantidade por unidade de área (em kg m-2 ou t ha-1 de peso seco). isto é. arranjo (estrutura). respectivamente em caso de descontinuidade ou uniformidade. O combustível florestal As propriedades do combustível com maior infl uência no c omportamento do fogo são o tipo . COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 15 características da frente de chamas – rapidez de propagação. Da c ombinação do perigo de incêndio c om a sua pr obabilidade de ocorrência e valores ameaçados resulta o risco de incêndio. O conteúdo deste capítulo é essencialment e compilado a par tir de Cheney (1981). A continuidade do c ombustível descreve a sua dist ribuição e é impor tante para a propagação do fogo. A rapidez da combustão aumenta em combustíveis menos compactos. ambos importantes em ecossistemas mediterrâneos. Os combustíveis apresentam-se no estado morto. e são classificáv eis por estrato: manta morta. O combustível de superfície inclui a folhada superficial. pelas influências individuais e interacções do combustível. 2. sub-bosque.

São t rês as car acterísticas dimensionais básicas de uma fr ente de chamas: profundidade (a largura da zona de combustão activa). A partir do seu ponto de origem o fogo desenvolve-se em dimensão e envolverá progressivamente os vários estratos do combustível. Byram (1959) definiu a intensidade do fogo como a liber tação de energia por unidade de t empo e por unidade de c omprimento da frente do fogo (em kW m-1). da folhada à copa das árvores.16 I. resultando em formas mais alongadas quando o vento e/ou o declive são mais fortes. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL dificuldade. resultando do produto do calor de combustão (kJ kg-1). O combustível morto absorve e liberta água para a atmosfera circundante. quase sempre em conjunção com o fogo de superfície. 3. e velocidade linear de pr opagação do fogo (m s-1). e 3) produz calor na for ma de chama. quantidade de combustível consumido por unidade de área da zona de combustão com chama. Um fogo de superfície consome apenas a manta mor ta e vegetação do sub-bosque. Após uma fase inicial de ac eleração. os flancos e a cauda ou retaguarda. compactação e área exposta. A intensidade do fogo (I) e o c omprimento da c hama (L) estão r elacionados. Comportamento do fogo A frente activa de um fogo flor estal tem três características básicas: 1) desloca-se. a pr opagação d o fogo ent ra em equilíbrio com o piro-ambiente. dependente da . As características do fogo variam acentuadamente ao longo do seu perímetro. Usualmente distinguem-se o fogo de copas intermitente (ou passivo). altura (a extensão vertical) e o comprimento (a distância da extremidade da chama ao ponto médio da zona de combustão activa). 2) consome combustível. A expansão do fogo é aproximadamente elíptica. ao passo que c ombustíveis herbáceos completamente secos suportam fogos extremamente rápidos. constituindo a equação I = 300 L2 uma aproximação geral razoável. distinguindo-se três secções com velocidade e intensidade crescentes: a cabeça ou dianteira. dependendo da sua sobreposição e continuidade vertical. quando se pr opaga. a uma taxa que depende da sua dimensão. A duração da combustão com chama é dada pelo t empo de residência. enquanto um fogo de copas avança através do estrato arbóreo. que se obtém di vidindo a profundidade da chama pela velocidade de propagação.

são relacionáveis com variáveis que exprimem a duração total da combustão. A intensidade do fogo contribui assim para a sua severidade mas apenas a explica parcialmente. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 17 propagação do fogo de superfície e associado a floresta aberta. a mortalidade de coníferas. 1988). essencialmente porque condiciona a altura de copa dessecada (e. Van Wagner. 1973) e. 4. Um fogo de c opas independente progride apenas na folhagem. O consumo dos horizontes orgânicos que encimam o solo mineral. é essencialmente independente da intensidade do fogo. A intensidade do fogo ou c omprimento da chama relaciona-se com a possibilidade de fogo de c opas (Van Wagner. e o fogo de copas activo. excepto em for mações arbustivas. O tipo de fogo de c opa expectável em coníferas depende de três propriedades do estrato arbóreo – a altura da base da c opa viva e sua h umidade foliar e densidade (peso seco por unidade de volume) – e de duas características do fogo.I. respectivamente a intensidade do fogo de superfície e a v elocidade de propagação após a transição para fogo de copas. Intensidade e severidade do fogo não são sinónimos. 2000) e a produtividade e eficiência dos meios de combate (Hirsch e Martell. consequentemente. que avança como uma parede de chamas que se estende do solo até bastante acima do topo das árvores e é possível em floresta densa. 1998).A severidade do fogo refere-se à grandeza do impacto directo e imediato do fogo e reflecte o calor total libertado pela combustão da biomassa (Ryan e Noste. problemas de controlo devidos a projecção de faúlhas (Alexander. Desta forma os efeitos do fogo no solo. compactos e em decomposição..g. Interpretação do comportamento do fogo A interpretação das car acterísticas de c omportamento do fogo é de utilidade indiscutív el em situações o peracionais ou de planeament o. o que é muito raro. 1985). 1977). . 1996). como a remoção da manta morta em carga ou em profundidade. incluindo nos órgãos subterrâneos e as respostas vegetativa e germinativa da vegetação. A intensidade do fogo é também útil para predizer os efeitos do fogo nas partes aéreas da vegetação. a distância de segurança à frente de chamas (Butler e Cohen. a probabilidade do fogo superar uma descontinuidade (Wilson.

COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 5. a t ecnologia desenvolvida nos EUA e baseada no modelo semi-empír ico de Rothermel (1972) é passív el de aplicação uni versal.. Finalmente. 2009). pré-planeamento da supressão de incêndios. Para avaliação do comportamento potencial do fogo à escala regional. definição dos meios necessários e do seu posicionamento) ou na monitorização de fogos controlados. Avaliação do comportamento do fogo A capacidade de avaliar consistentemente o comportamento do fogo é indispensável ao planeamento da protecção contra incêndios. Em Portugal têm sido desen volvidos modelos simples que descr evem o comportamento do fogo em mat os (Fernandes. Fogo hipotético ou possível: planeamento e avaliação da gestão de combustíveis. . A utilidade das estimativas do comportamento do fogo é redutível a três situações gerais: 1. 2. Fogo a decorrer: uso no combate a incêndios (avaliação da área a atacar. Somente os primeiros têm capacidade operacional. respectivamente de natureza empírica e puramente física. Há duas categorias opostas de modelos de pr edição do comportamento do fogo. 1987). predição da evolução das frentes do fogo. planeamento do fogo controlado. desde que o c omplexo c ombustível se ja descr ito quantitativamente como um modelo de combustível. 3.18 I. integrando os vários sistemas preditivos que são usados nas ac tividades da gestão do fogo . é possível recorrer aos índices do Sistema Canadiano FWI (Van Wagner. tal como determinado pelas condições meteorológicas presentes e passadas. 2001) e em pinhal bravo (Fernandes et al. vocacionados para o planeamento do fogo controlado. Fogo provável: indexação do perigo de incêndio.

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Intr odução 2. Implicações ao nível dos nutrientes do solo 4. A formação de uma camada hidrófoba por acção do calor 5. Síntese dos efeitos produzidos ao nível do solo e da água . Efeitos directos do calor sobre a matéria orgânica 3. Implicações no ciclo hidrológico e nos processos erosivos 6. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO ANTÓNIO DINIS FERREIRA CELESTE COELHO JOAQUIM SANDE SILVA TANYA ESTEVES 1.21 EFEITOS DO FOGO II.

Já o desaparecimento do coberto vegetal e da folhada leva a uma maior susceptibilidade do solo à er osão e a uma alt eração c onsiderável d o r egime hidr ológico. por v ezes muito importantes. por sua vez. 1999). Deste modo. Devemos igualmente enquadrar a questão no contexto actual de alterações climáticas. o que poderá vir a traduzir-se num aumento substancial do número de incêndios e da área queimada. Todos estes mecanismos podem assumir maior ou menor importância em função das condições específicas em que dec orrem. derivados do desaparecimento da protecção proporcionada pelo coberto vegetal e pela folhada. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 1. que fica desta forma mais disponível para poder ser exportada pelos processos hidrológicos e erosivos. e de efeitos indirectos. com destruição de bens e mesmo perda de vidas humanas.22 II. de vido à c ombustão da matér ia orgânica. Quanto aos primeiros traduzem-se principalmente na mineralização da matéria orgânica existente no solo. incluindo: o regime de fogo. essencialmente derivados da acção d o calor sobre a sua c omponente orgânica. tais como aluimentos de terras e picos de cheia extremos. Introdução Os efeitos do fogo ao nível do solo revestem-se de uma complexidade considerável devido aos múltiplos mecanismos envolvidos e à forma como esses mecanismos se encontram inter-relacionados. a jusant e dessas ár eas devido ao movimento da água e dos sedimentos e solutos que transporta. dado existir o receio de uma maior frequência e duração de períodos extremamente quentes e secos. a vegetação. Os incêndios florestais alteram signi- . Os fogos pr oduzem todo um espectro de impactos mais ou menos severos sobre o solo. Esse novo contexto poderá desencadear importantes processos de degradação in situ e a jusante. Est es mecanismos de natureza física estão directamente relacionados com as alterações de natureza química e biológica.. que dependem de múltiplos factores. resultando em fenómenos catastróficos. têm r epercussões. a meteorologia. na medida em que os nutrientes podem ser mais facilment e exportados at ravés de fenómenos er osivos e. o tipo de solo e o relevo (Neary et al. A este respeito é importante salientar que os efeitos do fogo não se fazem sentir apenas nas ár eas percorridas pelo fogo mas. a erosão está directamente relacionada com as alterações na est rutura do solo. podemos considerar numa primeira abordagem a existência de efeitos directos sobre o solo. pelo c ontrário.

é pr ofundamente afectada pelo fogo . A água que se infilt ra no solo fica disponív el par a as plantas e par a a utilização das po pulações micr obianas e de micr o e macr o-fauna. que por sua vez determina em grande medida o funcionamento hidrológico dos solos. que não devem ser encarados de forma isolada. 2008b). A degradação da estrutura superficial dos solos pode durar entre um ano até décadas. pelo que episódios c huvosos que n unca produziriam picos de cheia assinaláveis. Efeitos directos do calor sobre a matéria orgânica A matéria orgânica do solo é crucial para a formação da estrutura do horizonte A. 2007. das condições edafo-climáticas e d o tipo de r evestimento vegetal. e em particular do azoto. Apesar de t entarmos c ompartimentar os difer entes efeit os envolvidos de modo a facilitar a consulta e a leitura. A volatilização de nutrientes. tendo em conta os conhecimentos mais recentes a este respeito. 1999). No entanto. assim como dos mecanismos envolvidos. Ferreira et al. perdas significativas de matéria orgânica podem acontecer a temperaturas inferiores (DeBano . 1999). na verdade a passagem do fogo dá origem a uma teia de mecanismos intimamente relacionados entre si. dependendo da int ensidade do fogo e das c ondições dos ecossistemas após o fogo (Neary et al.... r eveste-se de especial significado a compreensão dos processos de degradação a várias escalas e a avaliação da frequência e mag nitude que os pic os de cheia podem adquirir. bem como as taxas de mobilização e deposição de sediment os e de exportação de nutrientes. facilitando ainda o crescimento das raízes (Porta et al. No presente texto tentamos assim fazer uma descrição dos efeitos dos incêndios ao nível do solo e do regime hídrico. 2.II.. Solos bem estruturados têm os macroporos necessários à movimentação da água em profundidade e ao seu armazenamento. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 23 ficativamente a resposta hidrológica e geomorfológica das bacias hidrográficas. A matéria orgânica abundante que condiciona a estrutura do solo e apresenta uma ele vada por osidade. podem vir a desencadear episódios catastróficos (Hyde et al. inicia-se com temperaturas entre os 200º e os 400º C. Dest e mod o. é dad o um r elevo particular à informação disponível para as condições do nosso país. Dadas as características particulares de Portugal em termos do regime de fogo.

1999). 3. pontualmente esses valores podem atingir os 700º C. 1973). 1998).. Se a matéria orgânica superficial for c ompletamente c onsumida pelo fogo . No entanto. até mais de cinco dias na sequência de incêndios particularmente intensos.. da duração do fogo e das condições antecedentes de humidade do solo (Hartford e Frandsen. Para temperaturas superiores a 300º C todo o horizonte orgânico superficial do solo é ger almente destruído. a t emperatura superficial do solo mineral pode permanecer elevada durante meses ou anos c omo r esultado d o aqueciment o pr ovocado pela incidência da radiação solar directa sobre o solo nú (Neary et al. A combustão da manta morta e a destilação dos compostos orgânicos voláteis associados acontecem entre os 180º C e os 200º C. Com fogos de baixa intensidade.. Praticamente toda a matéria orgânica é consumida nas zonas do solo onde as temperaturas atingem os 450º C (Neary et al. Os perfis de temperatura nos horizontes orgânicos e no solo mineral dependem da intensidade do fogo. Fogos intensos podem elevar a temperatura à superfície do solo a 275º C em solos c horizontes om orgânicos espessos (Sackett e Haase. Implicações ao nível dos nutrientes do solo Uma das c onsequências mais impor tantes da passagem d o fogo é a exportação de grandes quantidades de nutrientes. da quantidade de c ombustível disponível. 1999). 1992). as temperaturas podem ating ir mais de 250º C a 10 cm de pr ofundidade e mais de 100º C a 22 cm abaix da superfície do solo (Neary et al. Nestas condições. o As temperaturas do solo podem manter-se elevadas durante apenas alguns minutos. as temperaturas do solo mineral raramente excedem os 100º C à superfície e os 50º C a 5 cm de pr ofundidade (Agee. fazendo com que os nutrientes fiquem temporariamente disponíveis para as plantas sobre a forma de sais dissolvidos na solução do solo.24 II. em especial se existirem barragens e captações de água m uito próximas das ár eas queimadas. A matéria orgânica é mineralizada. que poderá desencadear problemas de poluição a jusante. 1999). 1992). em áreas de acumulação de resíduos florestais. que fica assim c om um pH m uito alcalino (frequen- . No intervalo 180º-300º C ocorre a destilação e combustão de cerca de 85% da manta morta. ou no caso de fogos de pr ogressão lenta. no caso dos fogos controlados. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO et al..

2 19. Este arrastamento para as linhas de água causa a degradação da qualidade das águas a jusant e.5 15. ocorrem nas copas das árvores processos de absorção e exsudação que contribuem para alterar significativamente a quantidade de solutos que atingem o solo sob povoamentos florestais quando comparados com a deposição t otal nas áreas desprovidas de povoamentos arbóreos (Tabela 1).3 12. a reposição dos nutrientes no ecossistema está bastante dependente da deposição at mosférica.4 78.2 38.7 34.II. Deste modo as áreas queimadas perdem a capacidade . A Tabela 1 apresenta os dados da deposição atmosférica para três situações distintas: em campo aberto sem vegetação.7 3. ANO -1 ) SOLUTOS PRECIPITAÇÃO INTERNA + ESCORRÊNCIA PELO TRONCO EM PINHAL 40 ANOS NO3SO42ClCa2+ Mg2+ K+ Na+ 0. dada a pobreza em nutrientes.0 8. O g rau e a g ravidade destes efeitos dependem da temperatura que atinge o solo a qual.5). EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 25 temente > 8. por sua vez.5 2. O significado das perdas através da escorrência pode ser comparado com a r eposição de n utrientes proveniente da at mosfera. das c ondições meteorológicas na altur a do incêndio e da condutividade térmica do solo. depende das características dos combustíveis. 1996).2 Para além das quantidades de nutrientes removidas e arrastadas pelo processo de wash off. em par ticular nas áreas de xisto do país.6 29.4 7. sob pinhal e sob eucaliptal (Ferreira. TABELA 1 DEPOSIÇÃO ATMOSFÉRICA ANUAL NA SERRA DO CARAMULO PRECIPITAÇÃO INCIDENTE PRECIPITAÇÃO INTERNA + ESCORRÊNCIA PELO TRONCO EM EUCALIPTAL 12 ANOS ( KG .1 66. Os nutrientes estão disponíveis para as plantas dur ante pouco tempo já que os nutrientes em solução são facilmente arrastados em profundidade e e ventualmente à super fície através de escorrência.9 4. da rocha-mãe e dos solos.1 10.7 11. HA -1 .7 6.9 2.1 70.2 11.9 45. Com efeito.

A menor intensidade do fogo pode ajudar a explicar as perdas reduzidas de nutrientes e as baixas quantidades de esc orrência.065 0. MEDIDOS EM PARCELAS DE 16 M 2 TABELA 2 SOLUTOS PINHAL ADULTO MATO FOGO CONTROLADO INCÊNDIO FLORESTAL Ca2+ Mg+ K+ SO42- 0. que registam decréscimos significativos (três vezes menos) quando comparados com os valores obtidos sob pinhal e e ucaliptal. HA -1 .068 0.079 0.067 0. O azoto é o element o sujeito a maiores perdas. cerca de metade do azoto presente na . ANO -1 ) EM DIFERENTES SITUAÇÕES . que drenavam para uma caixa de Gerlach modificada (Shakesby et al.052 0. Esta diminuição é particularmente sentida no caso dos nitratos e do potássio. dado que a sua v olatilização começa aos 200º C. e à possibilidade da escorrência produzida em locais hidróf obos se infiltr ar em locais hidrófilos a jusant e.035 0. A perda de nutrientes para a atmosfera por esta via.9 18.014 0.045 0. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO de transferir quantidades adicionais de n utrientes da at mosfera para o solo em resultado do desaparecimento da parte aérea da vegetação.018 0..027 0.088 13. O facto do fogo controlado ter dado origem a v alores semelhant es aos das par celas não ar didas de veu-se à pequena quantidade de escorrência produzida.068 0.9 5.8 13.1 No entanto. De notar que o pinhal é mais eficiente na reposição de solutos da atmosfera para o solo. as perdas através da escorrência e do escoamento não são o único processo pelo qual os ecossistemas perdem nutrientes em resultado dos incêndios florestais.26 II. depende da temperatura atingida pela combustão. 1991). CAIXA 1 EXPORTAÇÃO DE NUTRIENTES EM DIFERENTES SITUAÇÕES NA REGIÃO CENTRO A Tabela 2 mostra as perdas anuais de nutrientes para várias situações estudadas em parcelas com 16m2 (8x2 m). Para temperaturas superiores a 500º C. PERDAS DE SOLUTOS POR ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL ( KG . Por sua v ez as per das de nutrient es no incêndio flor estal apr esentam v alores mais de 200 v ezes superior es às apresentadas nas restantes situações. de área. A volatilização também desempenha um papel relevante.

De acordo com Soto e Diaz-Fierros (1993). há uma parte importante que fica incorporada nas cinzas sob a forma de amonião (NH4+). Embora uma grande parte do azoto total do solo se perca para a atmosfera sob a forma de N2. 2000a. Trabalhos recentes apresentam versões diferentes quanto ao impacto dos incêndios flor estais sobre a e xportação de n utrientes dissolvidos. devido aos incêndios em Portugal. o enxofre a 800º C. as quais podem t er nutrientes adsorvidos à superfície (Thomas et al. com fraca concentração de nutrientes. enquanto que C oelho et al. (2004) estabelecem uma r elação directa entre a int ensidade do fogo e a per da de n utrientes. as quais beneficiam das condições favoráveis criadas pela diminuição da acidez. Uma outra forma de exportação pode ocorrer quando existe arrastamento de partículas de solo at ravés de fenómenos er osivos. a disponibilidade de nutrientes presentes nas cinzas é infl uenciada pelas temperaturas atingidas durante a combustão e pelas características da vegetação e do elemento em questão. De notar que as per das ocorrem predominantemente em solos m uito pobres. Apesar de se encontrar mais disponível para as plantas. através do seu impacto sobre a volatilização e mineralização da matéria orgânica no solo. Os aut ores chegaram à c onclusão que a taxa de disponibilização dos diferentes nutrientes é determinada pela intensidade do fogo. Úbeda e Sala (2001) registaram perdas maiores em fogos com intensidade média quand o c omparados c om fogos c om int ensidade elevada. Uma parte deste azoto acaba ao fim de algum tempo por ser transformada em nitrato (NO3-). o que le va a uma pe rda adicional deste nutriente. o fósforo a 774º C. 696 t oneladas de cálcio. o azoto sob esta for ma fica também mais sujeit o a arrastamento. São necessárias temperaturas mais elevadas para volatilizar outros nutrientes: o potássio v olatiliza-se com temperaturas superiores a 760º C. 1999. 931 t oneladas de magnésio e 332 toneladas de potássio. De acordo com dados de Ferreira (1996). através da acção de bactérias nitrificantes.. o sódio a 880º C.II. anualmente serão perdidas em média cerca de 268 t oneladas de nit ratos. b). o magnésio a 1107º C e o cálcio a 1240º C ( Weast. 1988). EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 27 matéria orgânica sofreu volatilização. .

2000. mais frias situadas mais abaixo de acordo com o gradiente de temperatura (DeBano et al. condensando seguidamente à superfície das partículas minerais do solo. NÃO QUEIMADO FOGO QUEIMADO MANTA MORTA COMPOSTOS ORGÂNICOS HIDRÓFOBOS CAMADA HIDRÓFOBA CAMADA HIDRÓFILA CAMADA HIDRÓFOBA DECRÉSCIMO DA TEMPERATURA SOLO HIDRÓFILO SOLO HIDRÓFILO FIGURA SOLO HIDRÓFILO 1 Processo de formação da camada hidrófoba após um incêndio. (Ferreira et al. bem como sob alguns tipos de manta morta. com relevância para os pr ocessos hidrológicos e de deg radação. (adaptado de DeBano. Giovannini e Lucchesi. resultante da passagem do fogo. Coelho et al.. 2004). 2005b.28 II. 1970. A camada hidrófoba é for mada quando a t emperatura excede os 176º C e é destruída a temperaturas superiores a 288º C (DeBano... DeBano et al. A formação de uma camada hidrófoba por acção do calor Outro efeito dos incêndios flor estais sobre os solos. Giovannini 1994). 1981. 1981). Forma-se assim uma camada hidrófoba logo após a camada mais supericial f hidrófila.. é o apar ecimento ou fortalecimento da repelência dos solos à água (DeBano. Este processo tem sido encontrado em locais queimad os por incêndios flor estais de elevada intensidade. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 4. 2005a. 1984. O calor gerado pelo fogo faz com que os compostos orgânicos hidrófobos resultantes da decomposição das plantas e micr oorganismos sejam vaporizados pelo calor. como é o caso da folhada produzida por povoamentos de Eucalyptus globulus. composta por cinzas e partículas minerais. 1990) . 1976) (Figura 1).

2006) até uma profundidade variável (0... Coelho et al. os quais. quanto mais intenso for um incêndio.5 a 5 cm) de acordo com a intensidade do fogo. A intensidade da repelência dos solos à água induzida pelo fogo depende . (1989) referem que a repelência do solo à água pode originar uma distribuição preferencial da humidade do solo. mais . (1993) observaram frentes de humedecimento instáveis em solos repelentes à água. No entanto. Ritsema e Dekker. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 29 Quando os solos possuem uma camada hidrófoba. 2005). 1993). a quantidade da matéria orgânica e a sua composição (Botelho et al. de vários factores. bastante seca. seguida por uma camada de solo repelente à água. 1994. infl uenciam dessa for ma as car acterísticas da camada de solo r epelente à água (DeBano . 1968. 1989.II. que por sua vez repousa sobre uma camada mais húmida e menos hidrófoba. Estes aspectos fazem com que a dist ribuição espacial da repelência seja muito heterogénea.. as magnitudes da mudança nos processos hidrológicos e erosivos podem depender em parte da intensidade e distribuição espacial da repelência do solo à água (Jungerius e DeJong. L etey. a textura (maior repelência para solos arenosos). com a camada ectorgânica a apresentar um elevado conteúdo de água.... há um fenómeno inverso de destruição da repelência (Doerr et al. A água e os solutos atingem as toalhas freáticas mais rapidamente em solos hidrófobos. de acordo com o referido atrás. Consequentemente. Giovannini 1994). Este processo encontra-se directamente relacionado com a natureza e a dist ribuição dos combustíveis. a água não c onsegue humedecer os agregados e a capacidade de infiltração sofre uma forte quebra (Neary et al. contrastando com as frentes homogéneas em solos não hidrófobos. dado que est es promovem os fluxos preferenciais da água no solo (Ritsema et al. Assim. Hendrickx et al. Por baixo desta camada hidrófila e pouc o consistente. os incêndios que atingem t emperaturas acima de 450º C têm um impacto significativo no aumento da escorrência e das taxas de erosão. De acordo com Giovannini (1994). 2004. devido à indução de repelência à água. 1999). ao condicionar as car acterísticas da c ombustão. Sevink et al. 1994. 2005b). variando por exemplo de acordo com a proximidade ao tronco das árvores (Keizer et al. ou o se u fortalecimento devido à c oalescência das substâncias hidr ofóbicas à super fície das partículas dos solos. 2000. 2001). onde se incl ui: o conteúdo de água no solo (r elação inversa). a severidade do fogo. Ferreira et al. persiste a repelência pré-existente.

5%. 2005a). determinando-se a média das concentrações usadas no teste. CAIXA 2 A REPELÊNCIA À ÁGUA APÓS FOGO EM SITUAÇÕES ESTUDADAS NA REGIÃO CENTRO Na avaliação da repelência do solo à água. (1998). f oram utilizados transeptos de 25 metros. em que 0 c orresponde a situações hidrófilas e 36% a casos extremos de solos hidrófobos. A cada metro eram colocadas 5 gotas de água com etanol sobre o solo mineral. Mato não ar dido (Aigra Nova). . A Figura 2 apresenta a distribuição espacial e a int ensidade da repelência do solo à água. e maior a quantidade de material desagregado hidrófilo entre a superfície do solo e a camada hidrófoba. De notar que o pinhal adult apresenta as menores quantidades de o repelência do solo à água. Na maior parte dos casos os pontos medidos eram hidrófilos. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO profundamente se forma a camada hidrófoba. Shakesby et al. A repelência do solo à água f medida através do método MED (Molarity of an oi Ethanol Droplet) (Letey. e também áreas de “matos”. Fogo florestal (incêndio) em pinhal adulto (Senhor da Serra ). 13%. Esse material é extremamente erodível e grande parte é perdido nos primeiros 4 meses após o incêndio (Ferreira et al. Consequentemente. tais como os povoamentos de Eucalyptus globulus Labill. Pinhal adult o não ardido (Caratão). 18%. Seguindo a suges tão de Doerr et al. (ver Ferreira et al. Fogo experimental em mato (Gestosa). (2000) questionam se o risco de erosão está tão intimamente ligado com a repelência do solo à água e Benavides-Solorio e MacDonald (2001) não encontraram qualquer correlação entre a repelência à água e a produção de sedimentos provenientes da erosão. Fogo controlado em mat o (Cadafaz). 3%. . 2000). O teste do etanol baseia-se no f acto de as gotas com soluções mais concentradas apresentarem uma menor tensão superficial e desse modo terem maior f acilidade de infiltr ação no solo . uma maior repelência à água irá implicar a nec essidade de soluções c om maior concentração de etanol.64 e um valor máximo de 5%..30 II. É importante salientar que não existe consenso sobre a real importância da formação de uma camada hidrófoba no aparecimento de fenómenos de erosão após o fogo. 8. com medições a cada metr o em seis locais da R egião Centro: Fogo florestal (incêndio) em pinhal adult o (Caratão). 24% e 36%. A repelência do solo à água acontece naturalmente em alguns tipos de uso do solo. para que a infiltração se processe. com uma média de 0. foram usadas as seguintes concentrações de etanol: 0%. 5%. 1969). 1%.

EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 31 36 30 24 18 12 6 0 % etanol 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 metros Pinhal adulto “Matos” Fogo controlado Fogo experimental Fogo florestal Senhor da Serra Fogo florestal Caratão FIGURA 2 Intensidade e distribuição espacial da repelência do solo à água em seis locais de estudo na Região Centro. com locais apresentando repelência média (na ordem dos 13-18%). mas ainda assim c om alguns (pouc os) locais hidrófilos. Implicações no ciclo hidr ológico e nos processos erosivos Os incêndios florestais provocam alterações significativas em vários componentes do ciclo hidrológico (Figura 3). influenciando assim o caudal de base e os picos de cheia das bacias hidrográficas. estabelecendo padrões em que a água ger ada em locais hidrófobos se pode infiltrar em locais hidrófilos. média idêntica. . na evapo-transpiração para a atmosfera. Neste sentido . apresentando os dois tipos de situação repelência .II. não são importantes. geralmente acima dos 18% de etanol. e nos processos pelos quais a água c hega aos cursos de água e aos aquífer os. enquant o as ár eas queimadas apresentam uma gr ande homogeneidade de padrões de r epelência e xtremamente fortes. na capacidade de infilt ração dos solos. e sem locais hidrófilos onde a escorrência se possa infiltrar. 5. encadeados com áreas hidrófilas. O fogo experimental apresenta valores ligeiramente mais elevados. nomeadamente ao nível da intercepção pela copa das árvores. as dif erenças entr e os “mat os” e os f ogos c ontrolados que aí decorrem.

a condutividade hidráulica e a capacidade de armazenamento e retenção de água pelos solos. 2001.32 II. o solo fica exposto e a porosidade do solo pode diminuir devido ao impacto directo das gotas de chuva sobre o solo. a perda de vegetação e da manta morta na sequência de um incêndio r eduz ainda mais a capacidade de retenção e armazenamento da água bem como a resistência aos fluxos de água nas vertentes. também em resultado da perda da matéria orgânica do solo (Martin e Moody. Para além de aumentar drasticamente a energia do impacto das gotas de chuva sobre o solo. . resultando em quantidades de escorrência muito maiores. nomeadamente a capacidade de infiltração. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO PRECIPITAÇÃO ATMOSFÉRICA TRANSPIRAÇÃO DA FLORESTA RETENÇÃO E EVAPORAÇÃO PELA RAMAGEM EVAPORAÇÃO PELA SUPERFÍCIE DO SOLO INFILTRAÇÃO NO SOLO ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL PERCOLAÇÃO ÁGUA SUBTERRÂNEA EVAPORAÇÃO PELA SUPERFÍCIE DA ÁGUA CAMADA IMPERMEÁVEL FIGURA 3 Ciclo hidrológico Quando o incêndio consome a vegetação e a manta morta subjacente. as propriedades do solo que contribuem para o bom funcionamento do sistema hidrológico. podem ser afectadas de forma muito negativa pelo fogo (Neary et al. Meyer.. Assim. a porosidade. 1999). 2002).

As Figuras 4A e 4B mostram as alterações que se verificam em vertentes antes e depois da passagem de um incêndio florestal. 2007). o que resulta num aumento das forças tangenciais sobre a superfície do solo.II. O fogo também poderá consumir uma par te dos sistemas radiculares. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 33 Os pic os de c heia ac ontecem mais r apidamente e c om mag nitudes superiores. quando comparados com as respostas em bacias hidrográficas com vegetação. . responsáveis pelo transporte de sedimentos. FIGURA 4 Ilustração dos efeitos do fogo nos processos hidrológicos e erosivos. B Processos hidrológicos e erosivos numa encosta recentemente queimada. contribuindo para a perda de coesão do solo (Hyde et al. R H OC Ã AM E A Processos hidrológicos numa encosta não queimada..

EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO Na vertente florestada. como se pode depr eender das figuras 5A e 5B. a camada hidrófoba e a camada hidrofílica sobrejacente condicionam os processos hidrológicos e er osivos. pelo que a maior par te dos fluxos de água em dir ecção à base da vertente se processa através do solo. A Transição vertente — curso de água numa bacia não queimada . Ocasionalmente em termos de tempo e espaço pode oc orrer a saturação do solo. A transição das vertentes para os cursos de água também apresenta alterações muito significativas. que assim fica disponível para as plantas. A existência de macroporos no solo. com a formação de escorrência. muitas das vezes resultantes da queima de raízes. permite a infiltração pontual de alguma da escorrência. que mobiliza facilmente a camada de cinzas hidrofílica. o que diminui significativamente a velocidade de deslocamento da água e per mite o ar mazenamento de parte importante da precipitação.34 II. A camada hidrófoba dimin ui dr asticamente a capacidade de infilt ração. erodindo assim uma importante fonte de nutrientes. a precipitação raramente excede a capacidade de infilt ração. Após o fogo. dand o or igem a esc orrência.

no seu percurso descendente. o que produz escorrência que forma o pico de cheia. . sendo depois mobilizadas por esse processo. alimentados pela escorrência de água que não se infilt ra sequer no solo. Em alguns casos registaram-se mortes de pessoas e importantes perdas de bens em pequenas bacias hidrográficas. Os picos de cheia. satura o fundo da vertente.II. como parte da água possui um tempo de deslocação lento nos solos em dir ecção ao fundo da vertente. maior a ár ea saturada. e regra geral de uma magnitude insuspeita. pelo que há uma parte importante da precipitação que se escoa sob a forma de escorrência superficial assim que a camada de cinzas hidr ofílicas se satura. Os picos de cheia na bacia florestada acontecem porque a água. Na bacia hidr ográfica queimada. que ocorrem em áreas recentemente queimadas. são muito rápidos em resposta à queda de precipitação. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 35 B Transição vertente — curso de água numa bacia recentemente queimada FIGURA 5 Transição de vertente em diferentes bacias. os picos de cheia são regra ger al r etardados e esbatid os. a quantidade de água que se infilt ra no solo é r eduzida. logo maior a quantidade de área produtora de escorrência e maior o pico de cheia. No entanto. Quanto mais chover. São muitos os casos de picos de cheia de dimensões muito superiores ao normal.

A r esposta da área não queimada (povoamentos florestais adultos) é negligenciável ao nível das par celas e da bacia hidr ográfica. que representam menos de 10% da precipitação. com pequenos picos de cheia a ocorrerem apenas em resposta aos episódios mais extremos. Nota-se uma resposta pronta da bacia hidrográfica à quantidade de precipitação ao longo de todo o período. os primeiros picos de cheia r epresentam c erca de 50% da pr ecipitação. De facto. adultos Escoamento bacia pov. o limiar de pr odução de picos de cheia aument ou. De notar a rápida resposta inicial à queda de precipitação na área queimada. mas ao nível da parcela nota-se uma quebra acentuada da escorrência. SEMANAS APÓS INCÊNDIO 49 43 45 39 59 29 47 33 55 35 53 23 25 37 27 57 41 19 13 31 15 51 21 17 11 9 3 5 7 1 0 50 100 (mm) 120 150 200 25 30 35 400 Precipitação semanal Escorrência parcela pov. Um ano após o incêndio . ESCORRÊNCIA E ESCOAMENTO PRECIPITAÇÃO (mm) 100 .36 II. e apenas episódios chuv osos com mais de 25 mm produzem picos de cheia. Os primeiros picos significativos acontecem quando a precipitação excede os 50 mm semanais. No entanto existe normalmente um decréscimo dos picos de cheia com o tempo. NÃO QUEIMADAS CAIXA 3 A Figura 6 apresenta a distribuição temporal da escorrência superficial em parcelas de 16m 2 e do escoamento global ao nível de uma pequena bacia hidr ográfica numa zona queimada e numa zona não queimada. após o incêndio. Nas primeiras semanas. a quantidade de precipitação não foi suficiente para saturar a camada de cinzas e pr ovocar respostas significativas ao nível da parcela ou da bacia hidrográfica. em média. a resposta da bacia hidrográfica a semanas com cerca de 50 mm de pr ecipitação é idêntica à r egistada logo após o fogo. De notar ainda que cerca de 1 ano depois do incêndio. adultos FIGURA 80 60 40 20 0 Escorrência parcela queimada Escoamento bacia queimada 6 Escorrência e escoamento semanal em parcelas e bacias hidrográficas queimadas e em povoamentos adultos de controlo. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO RESPOSTA HIDROLÓGICA EM ÁREAS QUEIMADAS VS . capazes de saturar os solos.

1992. Silva et al. (2007).b). 2000....ha1 . Ferreira et al.. Já Coelho et al. 1993). Os poucos trabalhos publicados sobre o efeito do fogo neste factor apontam para conclusões diversas. fazer com que aumente a percolação para os lençóis freáticos (mais água nas nascentes). contribuindo também para o aumento da escorrência superficial e.ha-1.ano-1. MacDonald et al. mas sig nificativamente inferior aos registados para muitas das práticas incorrectas usadas habitualmente na gestão da floresta em Portugal. 2005b. Huffman et al.. do escoamento das bacias hidrográficas e das taxas de erosão (Ferreira et al. 2009). (DeBano et al. tal como reportado por Shakesby et al. Hyde et al. Na verdade. a qual pode c ontribuir para diferenças ao nível da escorrência. Est e efeit o poderá atenuar. anular ou mesmo ultrapassar o efeito provocado pelo aumento da evaporação superficial devido à perda do efeito de sombra pela vegetação e pela folhada e ao decréscimo d o albedo das cinzas. . Wondzell. A importância da relação entre as taxas de erosão e a int ensidade d o fogo está bem pat ente nas n umerosas r eferências bibliográficas que abordaram esta questão. Deste modo os impactos podem ser muito diversos dependendo não só das c ondições locais mas em boa par te também da intensidade do fogo.. para florestas queimadas do Sudeste da Austrália..II. Coelho et al. . Um outro factor que influencia a resposta das bacias e as taxas de er osão após fogo.ano-1). (1995) encontraram taxas de erosão logo após incêndio na ordem das 2 ton. dando origem a taxas ir relevantes de erosão. 2001. 2006) devido à eliminação temporária da transpiração das plantas (Bond-Lamber ty et al. N o entant o poderão e xistir localment e c ondições que per mitem a infilt ração da escorrência após fogo.ano-1.. um valor muito mais elevado se comparado com os povoamentos florestais adultos (0. prende-se com o teor de água no solo. 2001. 2005a. Kutiel e Inbar. 2004. Este aumento da humidade pode. por sua vez. consequentemente. mas pode também facilitar a satur ação do solo dur ante a época das c huvas. Hyde et al. como por exemplo a mobilização do solo ao longo da linha de maior decli ve. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 37 Alguns aut ores r egistaram taxas de er osão baixas após incêndio (Emmerich e Cox. 2007). 2001. 1996.02 ton.g . 2007).ha-1.. Nesses casos as taxas de er osão podem ating ir valor es da or dem das 50 t on.. ao contrário do que se possa pensar. mais vulgarmente referidos pela lit eratura disponível (e. a quantidade de água no solo pode aumentar após a passagem d o fogo (M artin e Moody.

2003). Há que ter em conta que apenas podemos ter uma ideia segura sobre ganhos ou perdas. em termos de água no solo. Redmann. solo. ao deixar a super fície do solo exposta à radiação solar. Sakalauskas et al. 2006) vários outros chegaram a resultados diferentes (Litton e Santelices. 2006). terá seguramente a ver com a diversidade de situações (vegetação. e difícil por razões técnicas. assim como a sazonalidade do fogo. Em termos espaciais há a ter em conta o perfil de solo que estamos a c onsiderar e em termos temporais há a ter em conta o período após fogo que é analisado. Snyman. dependendo da impor tância relativa de cada um dos mecanismos referidos.. mas poderá estar igualmente associada à diversidade de metodologias utilizadas. relevo) de cada estudo.38 II. Campbell et al. Se pensarmos ainda no que foi referido anteriormente. relativamente à maior dificuldade de infiltração da água da chuva devido à formação de uma camada repelente à água. se existirem medições de humidade anteriores ao fogo. Por sua vez estas alterações do teor de humidade em profundidade podem ser determinantes em termos da resposta hidrológica das bacias hidrográficas.. o fogo faz com que exista uma maior dessecação à superfície. ao influenciar o . verificou-se que o balanço. 1976. clima. Muito embora vários autores tenham chegado a resultados semelhantes aos descritos. 2001. 1978. 2003. 2003) condicionando dessa forma a humidade do solo muito abaixo dos horizontes superficiais.. Mullen et al. A questão da profundidade do solo que estamos a avaliar é fundamental. Soto e Diaz-Fierros. devido à maior evaporação.. pelo que se torna necessário investigar melhor este tema. No entanto. 1997. Num estudo efectuado na Tapada Nacional de Mafra. A di versidade de r esultados obtid os nos estud os sobr e o balanço de água no solo após fogo. mas manteve-se em geral positivo até ao final do terceiro ano de estudo. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO da erosão laminar. 1977. Obrist et al. o que é relativamente raro na bibliografia disponível. percebemos que o resultado final em termos de humidade no solo disponível para o crescimento das plantas pode ser di verso. era francamente positivo (havia mais água disponível) no primeiro ano e ao longo dos 180 cm de per fil de solo estudado. quanto ao balanço final do efeito do fogo no teor de água do solos (Klock e Helvey. 2004. durante três anos após um fogo experimental (Silva et al. na medida em que a acção das raízes das plantas lenhosas medit errânicas pode faz er-se a vár ios met ros de profundidade (Silva e Rego. esse saldo positivo foi diminuindo. À medida que a vegetação foi crescendo..

nomeadamente a faixa ripícola em redor dos cursos de água pode ser uma opção . o que implica uma elevada exportação para fora da bacia hidrográfica. no caso de não e xistir qualquer tipo de desc ontinuidade de uso do solo . passam por aumentar a diversidade de usos do solo ao nível de toda a bacia hidr ográfica e de pr omover usos d o solo específicos para áreas específicas de forma a estabelecer interrupções na transferência da água e dos sediment os das vertentes para os cursos de água (Figur a 7). o que promove a conservação do solo e da água (Ferreira et al. As implicações em termos estratégicos para a conservação do solo e da água. baseada na oc orrência de esc orrência satur ada. então a infilt ração desempenhará um papel importante. se a descontinuidade acontecer ao nív el das v ertentes. . 2008a). como por e xemplo uma ár ea tampão ent re as vertentes e os cursos de água.II. terraços). se bem que ainda não e xista infor mação suficient e sobr e a sua eficácia na mitigação d os impac tos d os incêndios nos pr ocessos hidr ológicos e erosivos à escala das bacias hidrográficas.. geomorfológica ou mesmo barreiras introduzidas pelo homem (mobilização do solo. estradas. 1969). e como tal a bacia hidrográfica passará a ter uma resposta mais lenta. A manutenção de espécies mais r esistentes ao fogo . segund o o modelo de Hewlett (1961. 1976). a transferência de água e sedimentos é muito mais limitada (Ferreira et al. Assim.. Por outro lado. 2008a). EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 39 escoamento para as toalhas freáticas e a capacidade do solo para absorver quantidades adicionais de precipitação (Klock e Helvey. o transporte de água e sedimentos entre as vertentes e os cursos de água não enc ontra obstáculos. Um outro aspecto fundamental que influencia a taxa de escorrência prende-se com a existência de obstáculos ao longo da encosta. No caso de existirem descontinuidades.

2008a) . EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO Elevada escorrência e produção de sedimentos Baixa escorrência e produção de sedimentos Zona tampão não alterada Escorrência e sedimentos maior menor PERTURBADO: SEM ZONA TAMPÃO PERTURBADO: ZONA TAMPÃO NÃO ALTERADA FOGO CONTROLADO FIGURA 7 Modelo conceptual do escoamento em bacias hidrográficas queimadas (adaptado de Ferreira et al.40 II..

A T abela 3 apresenta os resultados das simulações de chuva.hora-1 numa área de 1m 2. Mato não ardido (Aigra Nova). CAIXA 4 O USO DE SIMULAÇÕES DE CHUVA PARA AVALIAR O POTENCIAL DE EROSÃO E ESCORRÊNCIA De f orma a f azer uma a valiação c omparativa das tax as de er osão e de escorrência. Fogo flor estal (incêndio ) em pinhal adult o (Senhor da Serr a ). . EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 41 As quebras da transferência da água e dos sedimentos decorrentes de infra-estruturas feitas pelo homem ou devidas a formas geomorfológicas específicas têm em c omum o fact o de t erem forçosamente de já e xistir antes do incêndio. Nota-se a esta escala um aumento significativo tanto da escorrência como das taxas de erosão. Locais onde e xistam caminhos. As simulações consistiram em c olocar o aspersor de água a 2 metr os de altur a. F ogo experimental em mat o (Gestosa). parece existir uma diferença nítida na quantidade de esc orrência e de er osão entre o fogo controlado e os incêndios florestais. No entant o. podem f azer-se simulações de chuv a c orrespondendo a uma quantidade de precipitação fixa e igual para as situações a comparar. terraços ou for mas concavas na base das vertentes. (1988) e C erdá et al. com os dois incêndios a ger ar cerca de quatro vezes mais escorrência e mais do dobro da erosão. dur ante uma hor a.II. A esc orrência e a humidade do solo er am medidas a cada minuto e a erosão dependia da quantidade de esc orrência e da turbidez da água. que diminui a r esistência à pr ogressão da água e dos sediment os. (199 7) para aferir as tax as de erosão e de esc orrência ao nív el de uma micr o-parcela c om 0 . na sequência da destruição da vegetação e manta morta. segundo o modelo descrito por Calv o et al. Com este objectivo f oi utilizado um simulador de chuv a portátil.24 m 2 nos seguintes locais de estudo: Fogo florestal (incêndio) em pinhal adulto (Caratão). Fogo controlado em mat o (Cadafaz). O valor de erosão inferior no fogo experimental (que teve lugar em matos) pode decorrer de uma menor quantidade de cinzas disponíveis nos locais amostrados.5 mm. produzem uma ruptura na transferência da água e dos sedimentos das vertentes para os cursos de água. de modo a simular uma chuva homogénea com uma intensidade de 50. Pinhal adult o não ar dido (Caratão). Estas áreas serão menos prioritárias no que concerne a intervenções de conservação do solo e da água após a ocorrência de um incêndio.

7 16. e frequentemente pela morte da vegetação arbórea.42 II. Um dos factores mais importantes prende-se com a intensidade do fogo que. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO TABELA 3 TAXAS DE EROSÃO E ESCORRÊNCIA EM ÁREAS QUEIMADAS .9 15.h-1) 6.6 (mm) EROSÃO (g.8 0. O nív el de impor tância desses pr ocessos depende de vários factores.5 INCÊNDIO (mm) EROSÃO (g.4 FOGO EXPERIMENTAL < 0. que dificulta a infiltração e possibilita a existência de escorrência superficial. Por sua vez estes efeitos dão origem a uma sér ie de mecanismos ao nív el do ciclo hidr ológico e d os ciclos biogeoquímicos que podem traduzir-se em processos de degradação mais ou menos impor tantes. permitindo que se atinja mais r apidamente a situação de saturação e desse modo contribuindo igualmente para uma maior exportação da água para jusante. pode dar origem a diferentes níveis de severidade ao nível do solo. Por sua vez estes efeitos dão origem a maiores perdas de nutrientes por diferentes vias e à possível formação de uma camada de solo repelente à água.m-2.m-2. Quer um quer outro fenómeno têm . E NÃO QUEIMADAS POR FOGOS COM DIFERENTES INTENSIDADES . devido à menor transpiração das plantas. Uma maior severidade do fogo está associada a uma maior dest ruição da vegetação.5 > limite de detecção INCÊNDIO 7.8 32.6 27. após o fogo pode igualmente ocorrer um aumento relativo da água no solo. OBTIDAS ATRAVÉS DE SIMULAÇÕES DE CHUVA PINHAL ADULTO (CARATÃO) ESCORRÊNCIA “MATOS” (AIGRA NOVA) FOGO CONTROLADO (CADAFAZ) 2.7 3. tal como para as plantas.3 6. No entanto. Síntese dos efeitos produzidos ao nível do solo e da água As alt erações pr oduzidas por um fogo passam pela c ombustão de grande parte da manta morta e da vegetação arbustiva e herbácea. da manta morta e da matéria orgânica do solo.h-1) (GESTOSA) ESCORRÊNCIA (CARATÃO) (SENHOR DA SERRA) 11.

Agradecimentos Este t rabalho r epresenta o culminar de duas décadas de in vestigação. O declive do terreno e a existência de obstáculos. da diversificação dos usos do solo e da optimização da localização das infra-estruturas. Em algumas situações os impac tos negativos no solo e nos processos hidrológicos podem ser elevados e afectar não apenas os ecossistemas mas também as infr a-estruturas para uso das po pulações como estradas. PROJECTO RECOVER Immediate soil management st rategy for recovery after forest fires (PTDC/AGR-AAM/73350/2006). o que pode originar cheias a jusante. O tipo de solo influencia de múltiplas formas os mecanismos descritos já que condiciona tanto os processos hidrológicos. tal como na vegetação. a magnitude dos efeitos no solo é muito variável. como os processos biogeoquímicos.II. . EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 43 como consequência uma resposta mais rápida das bacias hidrográficas no aumento do caudal dos rios. e PROJECTO DESIRE DESertification mItigation and REmediation of land a global approach for local solutions (GOCE 037046 Integrated Project) no âmbito do programa FP6 da União Europeia. financiado pela FCT. Assim. Deste modo. naturais ou artificiais influenciam os fenómenos de transporte à superfície e em profundidade. o relevo e o solo. barragens ou aglomerados populacionais. é necessário ter em atenção a gestão do risco. Todos estes mecanismos podem ocorrer com diferente magnitude dependendo de factores locais nomeadamente: os combustíveis. Agradecemos aos projectos: Recuperação de áreas ardidas (FFP-IFAP). Os combustíveis influenciam a intensidade e por sua v ez a severidade do fogo. Os efeitos na hidrologia são acompanhados por efeitos ao nível da exportação de nutrientes a qual pode assumir difer entes formas. sobretudo através do ordenamento do território.

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Introdução 2. CATRY JOAQUIM SANDE SILVA PAULO FERNANDES 1.2. Herbáceas 3.49 EFEITOS DO FOGO III. Regeneração vegetativa 3. Variabilidade e incerteza nos padrões de sucessão ecológica após fogo .1. Resistência das plantas ao fogo 2. Formas de regeneração pós-fogo 3. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO FILIPE X. Regeneração seminal 4. Árvores e arbustos 2.2.1.

dos mecanismos reprodutivos e da capacidade para recuperar dos danos sofridos. época do ano). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 1. A capacidade de sobr evivência e de regeneração das comunidades vegetais no período após o fogo depende ainda da intensidade de ocorrência de factores adicionais de perturbação (e. constituem factores-chave no planeamento florestal e na gestão de áreas ardidas.g. Introdução Este capítulo aborda as interacções entre as plantas e o fogo. as características do local (e. Existem duas formas de as plantas conseguirem tolerar a expo- . A capacidade de resposta das plantas ao fogo pode variar significativamente de fogo para fogo ou entre diferentes áreas dentro de um mesmo incêndio. São apresentados os pr incípios e os pr ocessos de base que det erminam a for ma como as plantas são afectadas pelo fogo e os fact res que controlam as suas o respostas após o fogo. 2.g. bem como a compreensão dos mecanismos que influenciam a resposta das diferentes espécies de plantas após um incêndio. O objectivo é permitir que os gestores sejam capazes de prever os efeitos do fogo nas plantas. vigor vegetativo.. pastoreio.. clima) e as características de cada planta (e. intensidade do fogo. topografia. espécie. solos.g.g. baseados no conhecimento sobre as c ondições do incêndio e nas car acterísticas das espécies e comunidades existentes antes do fogo. pragas). da per centagem de t ecidos mortos e localização desses t ecidos. O conhecimento sobre as características da vegetação e do fogo. idade). Resistência das plantas ao fogo A r esistência das plantas ao fogo depende em g rande medida da presença de características adaptativas que lhes permitam tolerar melhor o calor. duração da combustão... O tipo de r esposta será na maior par te dos casos var iável em função da interacção entre uma série de factores como o regime de fogo (e. e interpretar as causas para a var iabilidade nas r espostas das plantas obser vada após o fogo . A utilização de técnicas apropriadas para monitorizar os efeitos específicos do fogo sobr e a v egetação é nec essária para detectar as alt erações ocorridas na comunidade de plantas. mobilizações de solo.50 III. Os efeitos do fogo na vegetação são normalmente os impactes mais óbvios que se podem observar após um incêndio. seca.

III. Para uma dada temperatura aplicada a um tecido vegetal. A morte dos tecidos das plantas devido ao fogo depende da quantidade de calor a que estes são expostos. Em geral as plantas estão mais susceptíveis aos danos provocados pelo fogo quando as reservas de hidratos de carbono . do que durante o período de dormência ou após terminar o crescimento anual (Dieterich. 1982). O calor recebido pela planta depende simultaneamente da temperatura atingida e do tempo durante o qual os tecidos estão expostos a essa temperatura. Para além do estado metabólico em que as plantas se encontram. e a out ra é at ravés da protecção desses t ecidos v itais e vitando que a t emperatura letal se ja atingida (Whelan. 1982). 1995).. 1961. o facto de as condições meteorológicas no momento do fogo influenciarem a intensidade e o comportamento do fogo. os gomos são geralmente muito mais sensíveis ao calor do fogo quando estão em fase de crescimento activo e o seu conteúdo em humidade é elevado (aumentando a condutividade térmica). 1995). 1979. embora alguns tecidos de plantas consigam suportar temperaturas mais elevadas por períodos de tempo muito curtos. Uma é a de que as células que constituem os tecidos vitais consigam suportar temperaturas mais ele vadas. A capacidade que as células têm para suportar temperaturas elevadas varia pouco entre espécies e entre tecidos de uma mesma planta.g. Tecidos de plantas em r epouso vegetativo e que se encontram num estado de desidratação podem tolerar um calor m uito mais intenso do que tecidos metabolicamente activos e completamente hidratados (Whelan. Pyne et al. A maior parte das células vegetais morrem se a temperatura atingir aproximadamente 50-55º C (Hare. Alguns estudos indicam que diversas espécies resistem melhor ao fogo durante o Inverno do que durante o Verão (Whelan. bem como o tempo necessário para que as células atinjam uma temperatura letal. Por outro lado. Wright e Baile y. 1996). são outros factores que podem explicar estas diferenças. as r eservas nutritivas que permitem a recuperação dos indivíduos após o fogo também variam entre espécies e ao longo do ano. Por exemplo. a variação da mortalidade das células resulta também do seu estado de hidratação e se estão ou não metabolicamente activas. Wright e Bailey. as características que adicionam ou c onservam as r eservas n utritivas da planta são também m uito importantes uma vez que permitem a recuperação dos indivíduos após o fogo (e. Para além d os aspectos já mencionad os. 1995). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 51 sição ao fogo.

Littke e Gara. ou situados muito acima da superfície. tais como os danos na c opa associados a uma ele vada percentagem de mortalidade ao nível do câmbio. e deste modo. enterradas no solo. Os tecidos vegetais mais importantes e susceptíveis tais como o câmbio e os gomos podem não estar dir ectamente expostos ao calor do fogo. O câmbio é um t ecido vital para a sobr evivência d o t ronco e da c opa.g. torna também as plantas mais fracas e susceptíveis de morrer. Algumas espécies de árvores são aparentemente mais susceptíveis após o período inicial de cr escimento anual do que no períod o final de cr escimento ou durante a dormência (e. onde é menos provável que se jam submetidos a um calor letal. as plantas afectadas pelo fogo podem ser subsequentemente atacadas por insectos ou infectadas por doenças e fungos conduzindo a um aumento da mortalidade nos anos seguintes (e. a espessura da casca e o diâmetro dos troncos aumentam.g. Regelbrugge e Conard. Algumas partes da planta são mais importantes para a sobrevivência após o fogo d o que out ras. A morte das plantas resulta frequentemente de danos provocados em diferentes partes. feridas. As sement es também são v itais par a algumas espécies pois representam a única oportunidade de a planta pe rpetuar o seu código genético. de vido ao seu estado fisiológ ico enfraquecido. pois após o crescimento inicial as plantas têm menos reservas disponíveis. P orém. sendo protegidos por outros tecidos como a casca. A ocorrência de qualquer outro factor de stress anterior ou posterior ao fogo (e. ou na c opa a g rande altura. Da mesma for ma as sementes podem estar pr otegidas por fr utos que as isolam d o calor excessivo. . encontrando-se enterrados no solo. 1986).52 III.g. herbívoria). pois as copas tornam-se maiores. Os padrões saz onais das reservas nutritivas das plantas var iam muito entre espécies (Zwolinski. Dependendo da extensão e severidade dos danos as plantas podem sobr eviver durante mais ou menos t empo após o fogo . e par a algumas espécies a altur a da base da c opa também aumenta (Miller. 1990). A resistência das árvores ao fogo t ende geralmente a aumentar c om a idade. um fogo que ocorre num determinado momento do ano pode ser mais prejudicial para algumas espécies do que para outras. 1993). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO se encontram num nível relativamente baixo. condições meteorológicas desfavoráveis. 2000). Os gomos são impor tantes por que a produção de novas folhas após o fogo depende da sobr evivência destes tecidos.

Alguns autores sugerem que a arquitectura da copa de algumas espécies ajuda a deflectir o calor dos gomos apicais. a localização da base da copa em relação aos combustíveis à super fície. P. para que estas car acterísticas da copa sejam efectivas e contribuam para a sobrevivência da par te aérea das plantas. permitindo uma maior tolerância ao fogo (e.1. O facto de as folhas serem perenes ou caducas também pode influenciar a sobrevivência da copa. 1998). A eficácia da altur a na pr otecção da c opa dependerá da continuidade vertical do combustível. pinea) proporcionam uma maior pr otecção inicial aos gomos que as agulhas cur tas (e. podem conseguir proteger tecidos vitais como gomos e sementes.g. as agulhas compridas (e. 1984). Árvores e arbustos Sobrevivência da copa As localizações e xpostas dos gomos apicais lat erais e t erminais de muitas espécies de ár vores e ar bustos tornam-nas muito susceptíveis à morte da copa por acção d o fogo. 1948. Algumas características importantes da copa são a densidade e dimensão dos ramos.g. devido à sua menor massa (Byram. O tipo de folhas também pode infl uenciar a resistência das plantas.g. No caso das coníferas. a probabilidade do fogo entrar nas suas copas é menor (Keeley e Zedler. sylvestris) (Wagener. é também necessário que os troncos estejam protegidos por uma casca suficientemente isoladora. na própria árvore e no sub-coberto. 1961). Wagener. P. A estrutura de uma planta lenhosa é um dos factores que afecta a probabilidade de que a sua parte aérea seja letalmente afectada pelo fogo . Porém. Nas espécies de ár vores c om desr amação natur al (em que os r amos inferiores que vão mor rendo caem natur almente). sendo que as espécies de folha caduca são m uito menos susc eptíveis dur ante a estação de . a proporção entre material vivo e morto. apenas porque estes se encontram acima das chamas.III. Por outro lado. Por exemplo a altura aumenta a probabilidade de sobrevivência da copa pois as partes aéreas de plantas de baixa estatura estão mais expostas ao calor e são frequentemente mortas. Devido à diminuição da temperatura com a distância aos combustíveis de superfície. 1961). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 53 2. Kruger e Bigalke. e a dimensão t otal da c opa (B rown e Da vis. certas plantas que crescem mais em altura (principalmente árvores). 1973). os gomos e ramos mais pequenos resistem menos ao calor d o que os maior es.

que tornam a ignição e combustão da copa mais fácil que em espécies que não possuam esses compostos (Bond e van Wilgen. a dessecação da c opa é frequentemente equivalente à mor te da copa devido à reduzida protecção dos gomos. A altura acima do solo até à qual a c opa foi dessecada pode ser medida directamente. 1986). e dimin uindo ainda mais quand o o crescimento cessa (Outono e Inverno para a maioria das espécies excepto coníferas que têm um período de crescimento adicional no fim do Verão/início do Outono). Para muitas espécies de c oníferas e par a árvores ou arbustos com pequenos gomos. e é um indicador do impacte do fogo na árvore que pode ser quantificad o logo nos dias post eriores ao incêndio pela observação da altura ou do volume de folhas/agulhas secas (não verdes). ou estimada c om recurso a um sim ulador de fogos (e. enquanto que noutras espécies se verifica o contrário (Peterson e Arbaugh. Porém existem espécies de folhosas. maior é a quantidade de calor nec essária para atingir a temperatura de ignição. como os eucaliptos. Miller.g. sendo menos susceptíveis a fogos de copas (Bond e van Wilgen. e quanto maior este for. uma v ez que considera a proporção de folhagem que permanece viva (Peterson. BehavePlus) a partir do comprimento da chama. Grande parte das espécies de coníferas têm uma elevada probabilidade de morrer se o volume de copa dessecada for superior a 60-70%. A mortalidade de algumas espécies de árvores está mais relacionada com a proporção de copa dessecada do que com os danos no tronco (Ryan et al. O conteúdo em humidade também influencia a inflamabilidade das folhas e ramos. da temperatura do ar e da velocidade do vento (e. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO dormência (e.54 III. Porém a percentagem do volume da copa com folhagem dessecada é nor malmente um melhor indicador do impacte do fogo do que a altur a da c opa dessecada. 1985). Miller. quer como consequência directa do fogo quer devido ao efeito associado à incidência . que contêm elevados níveis de compostos inflamáveis nas folhas. 2001). O conteúdo em h umidade das folhas e pequenos r amos var ia ao longo d o ano. sendo mais ele vado dur ante o período de maior actividade (formação das folhas e alongamento dos ramos na Primavera). Em geral as espécies folhosas têm folhas com maior conteúdo em humidade que as resinosas. Albini.. 1996). 1976). diminuindo durante o restante período de crescimento (Verão). A dessecação da copa de uma árvore (crown scorch) é provocada pelo calor libertado pelo fogo. 2000). 1988).g. 1996.g .

III. 1995). Assim. . se ocorrer na base do tronco principal e em toda a sua circunferência. para um dad o diâmetro. 2010) sugere que uma espessura de casca superior a 3-4 cm será suficiente para proteger o câmbio de forma efectiva (ver Figura 2b na Caixa 1). e que a c orrelação positiva existente entre o diâmetro da árvore e a espessur a da casca or igina uma relação entre o DAP e o tempo necessário para que o câmbio atinja uma t emperatura letal. idade. Sobrevivência do tronco As árvores e ar bustos podem mor rer quando o câmbio (camada de crescimento activa situada entre o lenho e a casca) é e xposto a temperaturas letais. o pinheiro-bravo e o pinheiro-manso (Figura 1). A morte do câmbio. distância acima do solo. Por exemplo Hare (1961) levou a cabo vár ias experiências em que c onstatou que o t empo necessário para que as células do câmbio atinjam uma temperatura letal está exponencialmente relacionado com a espessura da casca para todas as espécies de árvores estudadas. o tempo necessário para que as células do câmbio atinjam uma temperatura letal é função da espessura da casca e das suas pr opriedades térmicas (Whelan. A resistência dos troncos ao fogo está principalmente relacionada com a espessura da casca. Pinus ponderosa ou Larix occidentalis) o volume de copa consumida pode ser um melhor indicador de mortalidade da copa que o volume de copa dessecada. Em Portugal as espécies com casca mais g rossa são o sobr eiro. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 55 de pragas e doenças durante os primeiros anos após o incêndio. Diversos estudos indicam que quando o tronco é submetido a uma fonte de calor. embora no caso do sobreiro não exista qualquer relação entre a espessura da casca e o DAP a partir do momento em que as árvores entram em exploração devido à prática habitual de extracção periódica da cortiça. O consumo da copa resulta da ignição das folhas/agulhas e dos ramos finos. existe uma variabilidade considerável na espessura da casca entre espécies. as árvores pequenas de uma dada espécie são geralmente mais susceptíveis do que as grandes. diâmetro.. a qual varia com a espécie. 1995). para algumas espécies de coníferas mais resistentes (e. corresponde à morte da parte aérea da planta (copa e tronco).g. Um estudo recente levado a cabo em Portugal (Catry et al. mesmo que a copa não seja directamente afectada. Porém. saúde e v igor das plantas (Gill. devido à relação alométrica entre a espessura da casca e o diâmet ro. No entanto.

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III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

5

4 (cm)
ESPESSURA DA CASCA

3

2

1

0 0 10 20 30 40
DAP

50

60

70

80

(cm)

Q. suber P. pinaster

P. pinea Outras espécies

FIGURA

1

Relação entre a espessura da casca e o diâmetro à altura do peito (DAP) para 14 espécies arbóreas (baseado em equações obtidas a partir de dados de campo recolhidos em Portugal; mínimo de 40 árv ores por espécie): destaque para as 3 espécies c om casca mais grossa, nomeadamente o sobreiro (cortiça virgem), o pinheiro-bravo e o pinheiro-manso. As restantes espécies representadas são (não discriminadas): aroeira, azinheira, carrasco, castanheiro, carvalho-negral, carvalho-português, eucalipto, freixo, medronheiro, pilriteiro e zambujeiro.

Por outro lado, a qualidade do isolamento proporcionado pela casca dependerá também da sua est rutura, composição, densidade e d o seu conteúdo em humidade (Hare, 1965), factores estes que variam de espécie para espécie. A textura da superfície da casca pode também afectar a sua probabilidade de ignição. Um dos indicadores dos danos no tronco mais utilizados é a altura do tronco queimado expressa como proporção da altur a total da ár vore. A altura do t ronco queimado pode ser um bom indicador dos danos sofridos e mesmo da mortalidade (e.g. Ryan, 1982), e está frequentemente correlacionado com o volume de copa afectado. Nas espécies de casca mais fina, quando a casca se apresenta carbonizada, o câmbio que se encontra

III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

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por baixo está frequentemente morto. Nas espécies de casca grossa (e.g. pinheiro-bravo ou pinheiro-manso) é mais frequente que a causa de morte esteja associada aos danos na copa ou raízes que aos danos no tronco; a morte do câmbio normalmente só ocorre se o tronco estiver exposto ao calor do fogo durante um longo período de tempo, o que pode acontecer se por exemplo existir acumulação de material lenhoso no solo junto ao tronco. Por outro lado quando existem feridas no t ronco, provocadas por fogos anteriores ou por qualquer acção mecânica, o câmbio fica mais susceptível a sofrer danos adicionais pelo fogo, pois a casca é geralmente mais fina ou inexistente junto da ferida e a existência de concavidades ou buracos pode favorecer um maior tempo de residência da chama junto ao tronco (Miller e Findley, 2001). Por exemplo Rundel (1973) registou uma forte correlação entre a morte da copa em sequóias gigantes e a presença de cicatrizes de fogo na base dos troncos. As feridas provocadas por um fogo (correspondendo aos locais onde o câmbio morreu) muitas vezes só são visíveis quando a casca se desprende do tronco. Estas feridas podem ficar infectadas por micr oorganismos ou fungos, e a sobr evivência das árvores pode depender da sua capacidade em c ompartimentar rápida e eficazmente as feridas de modo a formar uma barreira em redor do tecido afectado que r eduza o alast ramento da infecção (S mith e S utherland, 1999). A resinagem nos pinheiros pode também torná-los mais susceptíveis ao fogo devido às feridas e cicatrizes que facilmente se incendeiam devido à natureza inflamável da resina. Por exemplo Whelan (1995) refere que no SE d os Estados Unidos os pinheiros (P. palustris) com antigas cicatrizes de r esinagem são mais se veramente afectad os ou mor rem, mesmo em fogos de superfície e menos intensos. A espessura e a textura da casca ou a presença de feridas pode também afectar a pr obabilidade de mor te nos t roncos de espécies ar bustivas, embora, devido ao reduzido diâmetro da maioria dos seus troncos, a maior parte seja letalmente afectada por qualquer fogo que atinja a folhagem no topo, excepto se o tempo de residência for muito curto.

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III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

CAIXA 1
EFEITOS DO FOGO NAS ÁRVORES UM CASO DE ESTUDO EM PORTUGAL

Na sequência de um grande incêndio (~3000 ha) que oc orreu em Setembro de 2003 no concelho de Mafra, deu-se início a um es tudo para avaliar os efeitos do fogo nas principais espécies arbóreas. Foram seleccionados aleatoriamente 26 pontos e em cada um deles f oram estabelecidos trajectos para monitorizar o estado vegetativo de cada árvore e medir diversos parâmetros relacionados com a intensidade do fogo, características do local, e características dos indivíduos. Durante os primeir os 4 anos após o incêndio , um t otal de 7 55 indivíduos de 11 espécies (9 de f olhosas e 2 de r esinosas) f oram monit orizadas regularmente. As espécies es tudadas f oram: Castanea sativa (castanheiro), Crataegus monogyna (pilriteiro), Eucalyptus globulus (eucalipto), Fraxinus angustifolia (freixo), Olea europaea var. sylvestris (zambujeiro), Pinus pinaster (pinheiro-bravo), P. pinea (pinheiro-manso), Pistacia lentiscus (aroeira), Quercus coccifera (carrasco), Q. faginea (carvalho-português) e Q. suber (sobreiro). Ao fim de 4 anos v erificou-se que a maioria (89%) das r esinosas (coníferas) morreu, enquanto que a maior part e das f olhosas sobreviveu (92%). Porém, apesar da baixa mortalidade observada nos indivíduos das espécies f olhosas, a maioria deles (7 4%) sofreu morte da parte aérea, regenerando apenas a partir da base do tr onco ou raízes, o que significa um pr ocesso de recuperação muito mais lento que em caso de sobrevivência da copa. Nas resinosas estudadas a morte da parte aérea corresponde sempre à morte do indivíduo. Entre as folhosas, apenas o cas tanheiro apresentou mortalidade ele vada, e o sobreiro (árvores não descortiçadas) foi a espécie c om menor mortalidade da parte aérea. Foram utilizados mét odos de r egressão logística para desenvolver modelos gerais relacionando a pr obabilidade de mortalidade ( do indivíduo ou apenas da parte aérea), com indicadores de severidade do fogo e características dos indivíduos (Figura 2). Entr e as v ariáveis analisadas, par a além das dif erenças entre os dois principais grupos funcionais ( coníferas e f olhosas), a altur a do tronco queimado, o v olume de c opa afectada e a espes sura da casca, f oram aquelas que mais influenciar am o tipo de r esposta das árv ores. Os modelos seleccionados foram validados com dados independentes obtidos em 4 outros incêndios (945 árvores), tendo sido obtidos bons resultados. Mais detalhes sobre este estudo podem ser consultados em Catry et al. (2007, 2010). Relativamente ao sobreiro, e devido às suas especificidades (ser a única árvore europeia com capacidade de regenerar a copa quando esta é destruída pelo fogo, e em que a casca é regularmente extraída), sugere-se a consulta de bibliografia específica para esta espécie (e.g. Catry et al., 2009; Mor eira et al., 2007, 2009; Silva e Catry, 2006).

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PROBABILIDADE DE MORTALIDADE

1.0 0.8 0.6 0.4 Espécies 0.2 0.0 0 20 40 60 80 100 Coníferas Folhosas
PROBABILIDADE DE MORTE DA PARTE AÉREA

1.0 0.8 0.6 0.4 0.2 0.0 0 1 2

altura do queimado (%) 25 50 75 100

3

4

5

ALTURA MÁXIMA DO QUEIMADO

(%)
FIGURA

ESPESSURA DA CASCA

(cm)

2

Modelos preditivos das respostas das árvores 4 anos após um incêndio: ESQUERDA: Probabilidade de mortalidade dos indivíduos (e intervalos de confiança) em função da altur a máxima do tr onco queimado (% da altur a da árv ore) e do grupo de espécies (resinosas ou folhosas); DIREITA: Probabilidade de morte da parte aérea (copa e tronco) em folhosas em função da espessura da casca (cm) e da altura máxima do queimado (%). (Adaptado de Catry et al., 2010).

Sobrevivência das raízes

Uma planta pode per der a par te aérea (copa e t ronco) mas ainda assim sobreviver. Isto acontece frequentemente com os indi víduos das espécies folhosas. Porém a morte das raízes de uma planta corresponde sempre à morte do indivíduo. Tal como para as copas e troncos, existem características físicas e estruturais que influenciam os danos ao nível das raízes nas espécies lenhosas. As r aízes est ruturais de supor te que cr escem lateralmente próximo da superfície são mais susc eptíveis aos danos pr ovocados pelo fogo que as raízes mais profundas. As raízes que se encontram nas camadas orgânicas têm uma maior probabilidade de serem letalmente afectadas ou consumidas que as r aízes localizadas nas camadas miner ais do solo. As raízes finas que captam a maior parte da água e nutrientes necessários à planta estão normalmente distribuídas junto à superfície, e a perda destas raízes pode constituir uma causa de mor te mais significativa do que os danos provocados nas raízes estruturais (Wade, 1993). Embora a destruição de parte das raízes de uma árvore ou arbusto possa não matar o indivíduo, pode conduzi-lo a um estad o de st ress significativo que aumentará a probabilidade de morte no futuro.

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III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

Os danos provocados pelo fogo nas raízes ou em outras estruturas da planta situadas abaixo do solo não podem ser previstos pelo comportamento geral do fogo nem por outras características específicas tais como a intensidade da frente de fogo ou a altura das chamas, pois a maior parte do calor produzido é direccionado para cima. A morte das estruturas enterradas no solo está muito mais relacionada com o tempo de residência do fogo ou da fonte de calor (e.g. Wade, 1986), que por sua vez é influenciado pela quantidade, tipo, compactação e teor de humidade dos combustíveis presentes à superfície. A humidade do solo também retarda a penetração de calor no solo (Frandsen e Ryan, 1986), protegendo as estruturas subterrâneas das plantas. Pode existir alguma relação entre o calor libertado durante o fogo e os danos nas raízes, particularmente se apenas existir uma fina camada de combustível à superfície. Porém, se existir uma acumulação moderada ou elevada de combustível à superfície, o tempo de residência da fonte de calor será pr ovavelmente bastante superior e poderá causar danos consideráveis nas est ruturas subterrâneas, mesmo que na copa não se observem danos (Wade e Johansen, 1986).
2.2. Herbáceas

O conhecimento existente sobre os factores que conferem tolerância ao fogo às plantas herbáceas é bastante inferior relativamente às plantas lenhosas. Nas plantas her báceas existe uma difer ença fundamental ent re gramíneas e dicotiledóneas que tem a ver com a localização dos meristemas. As g ramíneas têm os se us mer istemas na base das folhas enquant o as dicotiledóneas os têm expostos e constantemente elevados à medida que a planta cresce. Esta característica das gramíneas protege muitas delas do fogo uma vez que muito do calor libertado por um fogo é direccionado para cima. Adicionalmente, os caules e folhas das gramíneas que formam uma massa densa e compacta ajudam também a proteger do calor os meristemas situad os no c entro, per mitindo fr equentemente uma m uito rápida recuperação pós-fogo (Bond e van Wilgen, 1996). Apesar de nas monocotiledóneas arborescentes e nas dicotiledóneas os mer istemas estar em ger almente mais e xpostos ao calor que nas gramíneas, existem arranjos particulares de folhas que podem pr oteger os gomos do calor letal durante a passagem do fogo (Gill, 1981).

III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

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Muitas espécies de gramíneas e de outras herbáceas são relativamente tolerantes ao fogo quando este ocorre no fim da época de crescimento e quando as plantas se encontram dormentes, sendo mais vulneráveis aos danos se arderem durante os períodos de crescimento activo (Bond e van Wilgen, 1996; DeBano et al., 1998). Como nas regiões Mediterrânicas a maior par te dos incêndios ocorre durante o Verão, coincidindo com o período de d ormência (ou fim de cr escimento) da maior par te das espécies her báceas sil vestres, o fogo acaba por não t er nor malmente consequências tão graves sobre este tipo de vegetação como tem sobre as espécies lenhosas.

3. Formas de regeneração pós-fogo A recuperação das comunidades vegetais após um fogo é variável de acordo com a resposta das espécies indi viduais, e é influenciada pelas características ambientais e perturbações posteriores. A mortalidade após um fogo pode ser diminuida, devido aos mecanismos de resistência descritos anteriomente, ou compensada pela germinação de sementes pouco depois do fogo (Llor et, 2004). Existem apenas duas possibilidades de regeneração das plantas após fogo, nomeadamente por resposta vegetativa ou reprodução sexual (seminal) (Figura 3).

FIGURA

3

Exemplos de tipos de resposta após fogo em espécies arbóreas: regeneração vegetativa (epicórmica no sobreiro e basal no medronheiro, à esquerda e ao centro, respectivamente) e regeneração sexual (seminal no pinheiro-manso, à direita). (Fotos: Filipe X. Catry)

Nerium. A sobrevivência individual depende da sobr evivência de gomos adventícios dormentes. As árvores capazes de reconstituição vegetativa podem rebentar do tronco ou da copa.62 III. Phillyrea. 2009) constatamos que a resposta vegetativa pós-fogo é omnipresente nas espécies lenhosas Portuguesas. Arbutus. 2000). com excepção dos pinheiros. respectivamente acima e abaixo da superfície do solo (Miller. Prevalece nos géneros Cytisus e Genista e está representada nalguns tojos (Ulex europaeus. nomeadamente as espécies dos géneros Quercus. Lonicera. se a espessura da casca garantir que os gomos não são danificad os pelo fogo . a regeneração vegetativa rareia bastante nos Cistus (e restantes Cistáceas) e nas Lamiáceas. tal c omo nas plantas ar bustivas e her báceas. A resposta vegetativa provém de órgãos localizados a diferentes alturas e profundidades. Trabaud. Myrtus. Ulmus. Ruscus. é a for ma através da qual m uitas plantas perenes sobrevivem e recuperam após o fogo.1. Rubus. Erica (a grande maioria das espécies). . usualment e é apr esentada dicotomicamente mas na r ealidade varia num continuum de zero a 100 por cento (% de plantas que rebentam) (Vesk e Westoby. A capacidade de regeneração vegetativa após fogo é favorecida pelo isolamento térmico e está m uito difundida ent re as Angiospérmicas. Miller (2000) e Lloret (2004). Ilex. Buxus. Praticamente todas as árvores. Regeneração vegetativa A r egeneração v egetativa. U. que incluem os géneros Rosmarinus e Lavandula. Pteridium. Betula. Em contrapartida. a apresentam. par ticularmente em vegetação esclerófila e flor esta caducifólia. refazendo a sua componente aérea. Acer. Fraxinus. que se e xprime at ravés da emissão de rebentos. Viburnum.. O t exto que se segue foi essencialmente compilado a par tir de Trabaud (1987). 2004). Chamaerops). Prunus e Sorbus. sendo também relevante noutras plantas lenhosas ou sub-lenhosas (Hedera. 1983. Ceratonia. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 3. C aso c ontrário a acti vidade vegetativa manifestar-se-á através das estruturas basais ou subterrâneas. Daphne. Consultando uma base de dad os das car acterísticas das plantas d o Mediterrâneo relacionadas com o fogo (Paula e Pausas. De entre os arbustos salientem-se os géner os Pistacia. mesmo quando esta arde. minor) e zimbros (Juniperus oxycedrus). Rhamnus e Crataegus. 1987). Pterospartum. os quais apenas produzem novos rebentos quando a folhagem sofre dano (Chandler et al. Olea.

especialment e ar bustos e e ucaliptos. arbustivas e herbáceas* Herbáceas Folhosas. é um local comum de emissão de rebentos após fogo. manta morta Solo. que constituem engrossamentos da base do caule bem protegidos de temperaturas letais por se encontrarem enterrados no solo. O solo é um bom isolante e essa característica é particularmente bem explorada por plantas c om estas est ruturas r aiz-copa especializadas e que estão pr esentes em muitas espécies lenhosas das r egiões Mediter- .FOGO ( REGENERAÇÃO VEGETATIVA ). acima ou abaixo da superfície do solo.III. rebentam a partir de gomos localizados em tuberosidades lenhosas subterrâneas (lignotuber). sendo comum no sobreiro e eucalipto. zona de ligação da raiz ao caule e de onde as raízes se difundem. TIPO E LOCALIZAÇÃO DOS GOMOS GERADORES DE REBENTAÇÃO PÓS . EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 63 Localização dos gomos dormentes A Tabela 1 sumariza as estruturas das plantas que dispõem de capacidade vegetativa. A rebentação epicórmica resulta de gomos localizados no seio do tecido lenhoso dos troncos das árvores ou nas axilas dos ramos. acima do solo Solo ou manta morta Solo ou manta morta Solo ou manta morta Solo Folhosas sempre verdes* Herbáceas Folhosas e arbustivas* Folhosas. Os gomos dormentes de muitas plantas lenhosas estão localizados nos tecidos dos troncos. arbustivas e herbáceas Arbustos e herbáceas Herbáceas perenes * invulgar em coníferas Muitas espécies de plantas. MODIFICADO DE MILLER (2000) TIPO DE GOMO LOCALIZAÇÃO GRUPO DE PLANTAS TABELA 1 Epicórmico Estolho Colo da raíz Tuberosidade lenhosa Cáudice Raíz Rizoma Bolbo. acima do solo Solo. cormo ou bolbo sólido Aérea Acima do solo. de acordo com Miller (2000). O colo da raiz.

Processos de regeneração vegetativa pós-fogo O processo da rebentação pós-fogo em plantas lenhosas é um pr ocesso altamente regulado. particularmente as citoquininas. possuem estruturas r egenerativas únicas. Os rizomas – caules horizontais subterrâneos – têm uma r ede regular de gomos d ormentes que podem produzir novos rebentos e raízes adventícias. Os gomos dormentes localizam-se também frequentemente em caules ou raízes de crescimento lateral em plantas lenhosas. 1995). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO rânicas (Whelan.64 III. e no qual intervêm os mesmos factores que controlam a regeneração vegetativa subsequente a outras perturbações. A capacidade da planta regenerar a partir do lignotuber após o fogo poderá também depender da pr ofundidade a que está ent errado no solo e do seu tamanho (Whelan. As tuberosidades lenhosas são não só uma fonte de gomos a utilizar em caso de destruição da parte aérea. r efiram-se out ras est ruturas subterrâneas como os bolbos e os cormos. Portanto é a morte das partes das plantas expostas ao fogo que inicia a r egeneração a par tir dos gomos. 1995). Finalment e. da condição dos indivíduos antes do fogo. Diversas plantas per enes. Substâncias de cr escimento localizadas nas r aízes. do comportamento do fogo e das condições do meio ambiente. como constituem uma estrutura de armazenamento de reservas de energia. Um cáudice é uma base caulinar subterrânea. típicos das Liliáceas e Iridáceas. são então t ranslocadas par a os gomos causand o o se u crescimento. her báceas ou sub-lenhosas. c omo a auxina. necessária para a regeneração. É na extremidade dos caules e nas folhas que as hor monas são produzidas. Os gomos que se desen volvem em r ebentos são ger almente aqueles mais próximos dos tecidos mortos. são t ranslocadas par a os gomos dormentes. O crescimento da maioria dos gomos dormentes é governado pela dominância apical. A época do fogo e o estado fisiológico da planta interagem e influenciam a regenera- . que são caules rastejantes que crescem à superfície do solo e desenvolvem raízes a partir dos nós. impedindo a emissão de rebentos. cujo crescimento aquelas inibiam. Hormonas de cr escimento. persistente e fr equentemente lenhosa. o que implica que a sua pr odução c essa quand o aqueles são eliminad os pelo fogo . nomeadament e os est olhos. A capacidade de rebentação depende de características morfológicas e fisiológicas da espécie.

verificou que diversas plantas em flor estas de e ucalipto australianas regeneravam pior após períodos de rápido crescimento que após períodos de quiescência. por exemplo rizomas superficiais. A capacidade de regeneração vegetativa varia usualmente com a idade da planta. por exemplo r aízes e r izomas. As plantas com gomos na manta morta inferior ou solo mineral produzirão rebentos. Relação geral entre a regeneração vegetativa e a severidade do fogo A energia libertada pelo fogo pode afectar a r egeneração vegetativa de várias formas. As plantas podem regenerar vegetativamente imediatamente após o fogo ou apenas na P rimavera seguinte se o fogo tiver ocorrido durante o período de dormência. Os aumentos de exposição solar e de temperatura do solo após o fogo podem fa vorecer a magnitude da rebentação. sendo tipicamente mais reduzida ou nula em plantas demasiado jovens ou mais envelhecidas. fogos de Primavera podem ter um impacte maior na capacidade r egenerativa. a energia necessária para o seu crescimento procede dos hidratos de carbono e nutrientes armazenados nas estruturas regenerativas ou nas raízes. Um fogo de se veridade moder ada consome as est ruturas vegetais situadas na folhada e topo da manta morta inferior. Cremer (1973). pouco afectará os órgãos ent errados mais profundamente e estim ulará significativamente a rebentação em caso de destruição da copa. Em espécies desprovidas de estruturas capazes de armazenamento significativo de hidratos de carbono (como lignotubers). No entanto.III. por exemplo. A capacidade de regenerar repetidamente após o fogo varia muito consoante as espécies. A frequência de fogo também é importante devido ao tempo necessário para que a planta reponha as reservas de energia gastas. Até que os rebentos sejam fotossinteticamente auto-suficientes. Um fogo de severidade reduzida pode eliminar espécies cujos componentes reprodutivos se localizem mais superficialmente. . EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 65 ção após fogo. já que ocorrem quando o armazenamento de reservas é mínimo. podend o matar gomos nas porções sub-super ficiais d os caules e na parte superior de tuberosidades subterrâneas. ou est ejam pouco protegidos. o que relacionou com a acumulação de reservas. mas em certas espécies o impac te é maior quand o o fogo oc orre no final da estação de crescimento. que é menor após terem sido direccionadas para o crescimento.

que se podem encontrar actualmente na nossa flora. 3. 2003). Em termos evolutivos. Deste modo será de esperar que espécies com sementes .. pode ainda assim ser vigorosa. cada uma delas r esultando de adaptações e volutivas de natur eza di versa. abriu um vasto leque de possibilidades de dispersão das populações de plantas em ambiente terrestre. dependendo da espécie. Essas adaptações têm a ver com o tipo de dispersão. 2005). Desde a dispersão pelo vento até à dispersãopor animais ou pela c orrente dos rios. Para além disso foi possível obter outras vantagens evolutivas para as plantas produtoras de semente. por e xemplo. aumentando assim as probabilidades de sucesso no processo de germinação e crescimento das plântulas. as sement es das plantas também e voluíram na base de compromissos. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO Um fogo de se veridade elevada elimina as plantas cujas est ruturas reprodutivas se localizam na manta mor ta e pode aquec er letalmente algumas partes incluídas nos níveis superiores do solo. mas. especialmente quando há acum ulação de c ombustível lenhoso ou quand o a manta morta é espessa. O processo evolutivo deu or igem aos inúmer os tipos e for mas de sementes. A rebentação ocorrerá apenas a partir de órgãos localizados em áreas adjacentes ou profundamente enterrados.2. existe toda uma diversidade de sementes. dos quais um dos mais importantes tem a ver com a r elação entre o númer o de sement es e o se u tamanho (Fenner e Thompson. o aparecimento das primeiras plantas produtoras de semente durante o Período Devónico Superior há cerca de 365 milhões de anos (Raven et al. Regeneração seminal Independentemente da capacidade de cada espécie par regenerar vegea tativamente. foi possív el desenvolver mecanismos muito eficazes de expansão das populações de plantas.66 III. apenas par a referir duas famílias m uito importantes da flor a nativa em Portugal. Tendo em conta que as espécies evoluíram em ambientes onde os recursos são inevitavelmente limitados. com a estratégia de colonização ou com a int eracção com o meio ambient e. Desde as sementes minúsculas das C istáceas até às g landes pr oduzidas pelas Fagáceas. tais como a pr otecção física d o embr ião e uma r eserva de n utrientes disponível para o seu desenvolvimento. a g rande maioria das espécies de plantas vascular es têm a possibilidade de produzir sementes.

Por sua vez. com uma produção mais precoce de sementes e adaptadas a ambientes mais sujeitos a perturbações não previsíveis como fogos ou inundações (Kozłowski e Wiegert. Como veremos mais à fr ente. ou através do transporte por animais (z oocoria). na medida em que as sementes de maiores dimensões estão normalmente associadas a espécies c om um ciclo de v ida mais longo. Nestas espécies a colonização dos locais perturbados faz-se de forma massiva e a mortalidade não está muito dependente da densidade. a duração do ciclo de vida tem sido associada à existência de um maior ou menor nível de perturbação nos ambientes onde as espécies e voluíram. estas duas tendências evolutivas podem ser relacionadas com a capacidade das espécies para regenerar vegetativamente ou seja. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 67 de grandes dimensões sejam produzidas em pequenas quantidades e que sementes de pequenas dimensões sejam produzidas em grandes quantidades. Fornecimento e dispersão das semente Os mecanismos de dispersão das sementes são muito diversos e estão estreitamente associados às car acterísticas das própr ias sementes e dos frutos. De um mod o geral associam-se ciclos de v ida mais cur tos a plantas de menores dimensões. 1987). Este aspecto é indissociável do ciclo de vida das diferentes espécies. Normalmente associam-se os mecanismos com maior poder de transporte aos estádios mais avançados da sucessão ecológica. com a sua maior ou menor dependência da produção e disseminação de sementes. Para além da simples acção da g ravidade (barocoria). Difer entes for mas de dispersão c orrespondem a distâncias de t ransporte muito variáveis. ao passo que mecanismos c om fr aco poder de . a dispersão das sement es pode faz er-se at ravés da acção d o v ento (anemoc oria). 2005). muito dependente da densidade de plântulas estabelecidas (Fenner e Thompson. as espécies associadas a menores níveis de perturbação têm à partida uma maturação mais tardia. para se propagarem. através do arrastamento pela água (hidrocoria). Por exemplo o transporte por animais pode ac ontecer externamente (epizoocoria) como é o caso das sementes que ficam agarradas ao pêlo dos mamíferos. ou internamente (endozoocoria) como é o caso das sement es ingeridas e post eriormente expelidas pelas a ves. ocorrendo uma forte mortalidade na fase juvenil. Pelo contrário. ocorrendo sobretudo na fase adulta.III. Est es mod os de dispersão podem ainda ser bastante subdivididos e têm inúmeras variantes.

provida de uma asa de grandes dimensões. Potts. Vivian et al. por alguns autores (Whelan. 2007) ou do género Eucalyptus (e. É esse o caso de várias espécies do géner o Pinus (e. Aliás essa é igualmente uma das explicações apontadas par a a ir regularidade da pr odução de sement e ao longo do . Bo ydak. onde tem a possibilidade de germinar. 2008). existindo no entanto numerosas excepções a esta regra geral. Uma das t eorias mais c orrentes explica a deiscência concentrada no tempo como uma forma de saciar os predadores. 2004. 1995).. o que per mite à sement e (penisco). e o penisco pode manter-se viável durante 30 anos (Tapias et al. uma designação também referida como bradisporia.68 III. são normalmente associados aos estágios iniciais (Aparicio et al. Reyes e Casal.g. através de frutos que retardam a libertação das suas sementes durante períodos de vários anos.g. que dessa forma deixam uma grande quantidade de sementes disponíveis para a germinação. 2008). não é suficiente para impedir o elevado recrutamento de plântulas que se verifica em algumas áreas queimadas. 2002. F ernandes e Rigolot. 1990. percorrer distâncias consideráveis na horizontal até cair sobre o manto já arrefecido de cinzas. 2007). Aparentemente o efeito inibidor das cinzas na germinação.. para além de uma dimin uição dos obstáculos físicos ao t ransporte das sementes (Whelan. Algumas das pinhas podem permanecer durante 40 anos na árvore à “espera” do próximo fogo. As pinhas abrem entre dois a três dias após o incêndio. Lamont et al. No entanto nem todos os autores interpretam a produção e a libertação de sementes em massa.. nomeadamente ao permitir uma circulação facilitada do vento e da água à superfície do solo. podemos encontrar vários exemplos em que a deiscência das sementes é facilitada através da acção do calor sobre os frutos. Goubitz et al. O pinheiro-bravo é referido como uma espécie que consegue manter um banco de sementes na copa através da produção de pinhas serôdias (F ernandes e Rigolot. 1991.g. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO dispersão. No que t oca ao papel do fogo na dispersão das sement es. 2004). simplesmente c omo uma adaptação ao fogo . 2002). a acção d o fogo pode ainda favorecer a dispersão de sement es de outras formas. Banco de sementes A estimulação da deiscência pelo fogo tem sido associada à manutenção de um banco de sementes na copa. verificado em laboratório por alguns autores (e. 1995). N o entant o...

quebrando a sua d ormência e permitindo a germinação. o resultado de uma combinação temperatura/duração do aquecimento. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 69 tempo. para todas as plantas. 1998). O resultado em termos de colonização da área recentemente queimada é semelhante. 2006). a partir de uma certa profundidade há um declínio acentuado nas taxas de germinação (Whelan. Já no que diz . com das características do próprio fruto. Mesmo sementes c om um t egumento pouc o espesso c omo as g landes de algumas Fagáceas. Neste caso uma maior profundidade de enterramento das sementes poderá ser vantajosa. 2003). Relação entre a germinação e o fogo Devido ao facto de serem estruturas com uma actividade essencialmente latente em t ermos fisiológicos. Para além destas formas de isolamento há a contar com o isolamento proporcionado pelo solo. Para que tal possa ac ontecer é necessário que o fogo exerça um estímulo sobre as sementes depositadas no solo ao longo d os anos. 1994. em que anos quase sem pr odução alternam com anos de safr a (Kelly.III. podem suportar temperaturas de 150º C durante alguns minutos (Reyes e Casal. ambas as variáveis contribuindo directamente para o aumento da mortalidade das sementes (e. No entanto a resistência das sementes ao calor é muito variável. dependendo não só das características do tegumento. para crescer em aper tada competição entre si. Bell e Williams. 1995). que aproveitam o espaço criado pelo fogo. 1995) independentemente da oc orrência ou não de fogo . dando igualmente origem a uma grande densidade de plântulas. De fact o a sobr evivência de uma semente ao fogo é. No entanto. no caso dos exemplos referidos o banco de sementes é mantido ao nível do solo e não na copa. A manutenção de bancos de sementes é ainda comum a várias espécies de arbustos como é o caso dos géneros Cistus e Lavandula.g. 2005) tal como se verifica em espécies do género Quercus por exemplo (Abrahamson e Layne. Fenner e Thompson. sobretudo se pensarmos que as sementes que permanecem na folhada dificilmente resistem à passagem do fogo. tal como acontece com os tecidos vivos do tronco de uma árvore. dado que muitas sementes são enterradas por animais. as sement es apresentam naturalmente uma tolerância elevada ao calor (Whelan. A questão da sobrevivência ao fogo t orna-se ainda mais c omplexa se adicionarmos a questão da dur ação do aquecimento. No entanto.

. ou indirectamente através do calor que atinge os fr utos. nomeadamente: o fumo (e. 1995. estão completamente dependentes da regeneração por via seminal para poder assegurar a sua . Neste grupo incluem-se todas as espécies cujos indivíduos geralmente morrem após a ocorrência do fogo e que. 2005). como tal.g. Nestas espécies tudo se passa de modo a que possam completar o seu ciclo de vida. 2009). 1995). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO respeito à protecção proporcionada pelos frutos há que referir.g. de entre os grupos de espécies arbóreas com maior relevância. através das brácteas das pinhas e as espécies do género Eucalyptus. a concentração de nitratos (e. 2000. é importante ter em conta que os estímulos que permitem quebrar a dormência das sementes de pouco servem se não esti verem reunidas as condições ambientais necessárias à germinação. Clarke e French. 1999) e a exposição à luz (e. Esta estimulação pode fazer-se directamente através do calor que atinge as sement es. pelo que são designadas como espécies de regeneração obrigatória por semente (obligate seeders). permitindo ou facilitando a sua deiscência (González-Rabanal e Casal. Condições ambientais de germinação As diferentes espécies estão adaptadas a diferentes condições óptimas de ger minação.. Um aspecto tão ou mais bem mais estudado que o papel do calor na destruição das sementes. Reyes e Trabaud. As espécies que não têm capacidade de regeneração vegetativa dependem exclusivamente da produção de sementes para assegurar a continuidade da espécie. antes da chegada do próximo fogo. De referir que o estudo dos mecanismos que permitem o estimulo da germinação das sementes após o fogo. Muitos aut ores têm estabelecid o uma r elação est reita entre a capacidade das diferentes espécies para regenerar vegetativamente e as condições óptimas de germinação. são apontados out ros factores que poderão contribuir para estimular a ger minação. 2009). incluindo a produção de sementes.70 III. tem sido das áreas mais prolíficas em t ermos de t rabalhos publicados.g . tem a ver com o papel do fogo como factor de estimulação da germinação. Izhaki et al. Em todo o caso. Para além do calor . existindo uma enorme quantidade de artigos científicos relativos a comunidades de plantas de diversas regiões do Planeta. Bell et al. Luna e Moreno. através da protecção proporcionada pelas cápsulas que constituem o fruto destas espécies (Whelan. as espécies do género Pinus.

.. 1999) no âmbit o da classificação de M acArthur & Wilson (1967) para as estratégias populacionais. Dado apenas poderem aceder a camadas de solo sujeitas a uma int ensa secura durante os meses de Verão. em detrimento do desenvolvimento das raízes. estas plantas necessitam de adaptações estruturais de defesa contra a secura. Estas espécies têm t endência a d ominar em z onas mais secas e menos fér teis e em fases pouc o evoluídas da sucessão ecológica.III. Dad o o int enso r ecrutamento que oc orre sempr e que est ejam reunidas as condições necessárias à germinação. sendo frequentemente associadas a matos baixos e dispersos (Margaris. De entre as espécies que ocorrem no nosso país são importantes representantes deste grupo. nomeadamente o calor proporcionado pelo fogo ou a simples abertura de clareiras. 1986). as plantas dos géneros Cistus. Rosmarinus e Halimium. cutícula e mesófilo mais espessos e um mais eficient controlo estomático e (Keeley. menor área foliar. o in vestimento faz-se pr eferencialmente na parte aérea. 1996. Deste modo. dando normalmente origem a relações raíz/parte aérea (biomassa) mais baixas (Figura 4). produção de óleos voláteis. as espécies de r egeneração obr igatória por sement e exibem frequentemente indumento nas folhas. Díaz Barradas et al. Lavandula. 1981). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 71 continuidade. Deste modo. de forma a manter o seu equilíbrio hídrico. estas espécies são normalmente conotadas com a estratégia r (Reyes. no sentido de evitar ao máximo as perdas de água.

Já as espécies com capacidade de regeneração vegetativa estão frequentemente associadas a etapas mais avançadas da sucessão. . Phyllirea e Laurus. Dadas estas car acterísticas. Rhamnus. Silva e Rego. Arbutus. Ao nível das espécies existentes em Portugal são incluídas neste grupo quase todas as espécies normalmente apontadas como dominantes das formações climácicas referidas para o nosso país. nomeadamente a matagais altos e apenas regeneram por semente quando estão reunidas condições ambientais mais favoráveis à germinação e ao crescimento das plântulas (Silva e Rego. As escalas representam 0. O recrutamento é feito de forma gradual dando origem a baixas densidades de plântulas (Clement e et al.5 m.72 III. Viburnum. nomeadamente os géneros Quercus. Pistacia. 1998a). 1998b). entre outros. é nor mal referir estas espécies como estrategas k. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO b a FIGURA 4 Imagens incluindo a raiz e a parte aérea de uma espécie (a) de regeneração obrigatória por semente (Lavandula luisieri) e de (b) uma espécie de regeneração vegetativa (Erica scoparia).. 1996.

2009).. Estas car acterísticas são c omplementadas por uma ele vada rusticidade. 2001). sem vegetação (Vivian et al. nomeadamente as espécies do géner o Acacia e Eucalyptus (Marchante et al. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 73 No entanto existem numerosas espécies que. Devido à ausência de pr agas.. 2008). apesar das evidências quanto ao aparecimento de plântulas em áreas queimadas. por uma ele vada taxa de cr escimento e por uma ele vada resiliência ao corte e ao fogo. Já no que t oca ao géner o Eucalyptus e em par ticular à espécie Eucalyptus globulus. Os pouc os t rabalhos publicados sobr e o assunt o. espécies consumidoras e de competidores natur ais. Daí a necessidade constatada por vários autores de identificar sub-grupos que tivessem um número mínimo de semelhanças funcionais nomeadamente no que t oca às adaptações ao fogo . não correspondem minimamente ao padrão de características descrito. Caso não existam estas formas de transporte. muito embora estando obrigatoriamente incl uídas n uma das duas cat egorias r eferidas. Kirkpatrick.III. 1974. 1977). dando assim origem a quatro categorias distintas. estas espécies quand o ger minam após o fogo apresentam vantagens competitivas relativamente à restante vegetação nativa. Há antes indícios de que a libertação das sementes poderá ser facilitada por fogos de copas e que a sua disseminação poderá ser pot nciada através do e transporte de ramos e cápsulas pelas correntes de convecção (Carr. Deste modo é possível igualmente uma dispersão a maior es distâncias at ravés d o ar rastamento pela água ao longo de r egos de escoamento superficial ou devido a fenómenos de fluxo laminar. 1991) o que faz com que possa existir um elevado recrutamento de plântulas nas áreas queimadas. a regeneração deverá circunscrever-se . apontam par a a ine xistência de banc os de sement es no solo e par a a preferência pela germinação em solos minerais. De ent re as diferentes classificações salientamos o modelo proposto por Pausas (1999) o qual simplesmente sub-divide os d ois grupos de ac ordo com a e xistência ou não de um recrutamento de plântulas dir ectamente favorecido pelo fogo . não há e vidências quant o à e xistência de um efeit o positivo do calor sobre a germinação das sementes (Reyes e Casal. Nas condições do nosso país impor ta ter em c onta várias espécies exóticas devido à sua capacidade de regeneração por semente após o fogo. No caso do género Acacia existem evidências experimentais quanto à estimulação da ger minação por acção d o calor proporcionado pelo fogo (Auld e Oconnell.

2005): a intensidade do fogo e a sua fr equência. 2010). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO a alguns metros em volta das árvores mãe. e em função da sua altura (Potts. No que t oca ao r egime de fogo há sobr etudo a t er em c onta duas variáveis com uma r elação sensivelmente inversa (Whelan.. não é fácil de prever com exactidão. 4. De entre estes factores importa referir o regime de fogo. 2003). a probabilidade de mor talidade de for ma diferenciada para diferentes espécies e para diferentes fases de desenvolvimento. Podem assim ocorrer múltiplas alternativas nunca se ating indo um estádio v erdadeiramente estável devido à oc orrência de per turbações de natur eza di versa (C hristensen. Também o conceito de vegetação natural potencial para um dado local tem vindo a ser contestado igualmente devido à instabilidade dos ecossistemas. por esse motivo. . como vimos anteriormente neste capítulo. Em todo o caso de ve referir-se a g rande lacuna de conhecimento a este respeito para o nosso país. Variabilidade e incerteza nos padrões de sucessão ecológica após fogo O conceito clássico de sucessão ecológica como um processo mais ou menos linear de evolução da vegetação em direcção a um estádio climácico estável. Bond e Keeley. Virtue e Melland. 1990. como é o caso de Portugal. sobretudo em regiões sujeitas a perturbações recorrentes desde tempos remotos (Chiarucci et al. após a passagem de um incêndio o de. Deste modo as características do fogo podem actuar c omo um mecanismo selecti vo que infl uencia a futura composição da comunidade nas áreas queimadas (Bond e Keeley. Deste modo.. De acordo com trabalhos actualmente em curso há observações de regeneração de eucalipto em áreas queimadas a mais de 150 m d o sementão mais próximo. que torna difícil conhecer o resultado da sucessão ecológica. o que pode indiciar um potencial de disseminação de sementes superior ao referido pela literatura disponível até agora.74 III. A intensidade do fogo determina. 1995. as características da vegetação antes do fogo e as características edafo-climáticas do local. 1979). 1988) incluindo o fogo (Cattelino et al. senvolvimento da v egetação nas nossas c ondições segue um per curso que depende de múltiplos factores e que. tem vindo a ser substituído pela ideia de que esse pr ocesso pode ser bastante mais complexo.

2003. No entanto. de vido à ele vada carga de combustível. quer por que o fogo t em um efeit o de selecção ao eliminar algumas espécies. o que pode implicar a substituição d o tipo de floresta anterior por um out ro diferente (e. Apesar de tud o diferentes autores têm reportado o papel fundamental das características . 2005). Em fogos de baixa int ensidade podemos t er uma muit o baixa mortalidade da vegetação arbórea. e uma ele vada frequência de or igem antropogénica. Tal pode ac ontecer. Delitti et al. Dois exemplos típicos do nosso País são o sobr eiro e o pinheir o-bravo. o fogo pode provocar uma homogeneização da paisagem dando origem ao reinício da sucessão a partir de fitocenoses arbustivas com características semelhantes (Lloret e Vilà. sendo apenas afectada a vegetação do sub-coberto.. 2007) o que pode ditar o se u desapar ecimento d o pr ocesso de suc essão ec ológica. Pelo contrário. Broncano et al. em regimes de fogo que combinam simultaneamente uma ele vada int ensidade.III. 2009.g. permitindo a continuidade de outras. No entanto em áreas de vegetação com características distintas (diferentes usos do solo ou diferentes estádios de desenvolvimento) mas partilhando as mesmas características de solo e clima. 2005). O desaparecimento é mais provável ainda para as espécies que não apresentam mecanismos evidentes de adaptação ao fogo. em fogos de c opas de ele vada intensidade.. tais como as espécies do género Juniperus (Lloret e Vilà. 2010). Fernandes e Rigolot. Loepfe et al. devido à facilidade de colonização de áreas queimadas através da dispersão das sementes. sobretudo nas zonas com menor produtividade (e.. no caso do pinheiro-bravo. podemos ter alterações ao nível de toda a comunidade de plantas.. 2003). quer por que surgem novas espécies dominantes. 2007). 2000.g. ambos apontados como exemplos de selecção pelo fogo (C arrión et al. Acácio et al. o pinheiro-bravo perde a sua c ompetitividade devido à impossibilidade de refazer o banco de sementes das copas (Fernandes e Rigolot. típicas de estádios mais precoces do processo de suc essão ec ológica.. devido às características do ritidoma que permitem a sobrevivência a elevadas temperaturas e. Por outro lado existem evidências que apontam para uma perda da capacidade de resiliência da vegetação para regimes de fogo com elevada frequência. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 75 2005). As car acterísticas da v egetação ant es d o fogo assumem uma importância fundamental na medida em que determinam o seu potencial regenerativo quer em termos de composição quer em termos de taxa de crescimento.

. 2008) quer no que diz respeito à selecção de espécies devido à influência diferenciada que é exercida sobre diferentes grupos de plantas (Prieto et al. A este respeito vários autores referem um aumento temporário da diversidade. sobretudo a água. o teor médio de humidade ou o tipo de rocha-mãe.... Capitanio e Carcaillet. 2005. na medida em que a composição da comunidade de plantas que surge após o fogo depende da regeneração vegetativa e do banco de sementes associados às espécies previamente existentes (Trabaud e Lepart. 2001. Um outro padrão sensivelmente comum prende-se com o crescimento da vegetação o qual. Guo. Baeza et al. 1997. existem alguns padrões mais ou menos comuns que importa referir.76 III. 2008). apesar de se processar a diferentes taxas dependendo da produtividade da estação e das estratégias regenerativas envolvidas. As características do solo e d o clima locais têm um papel igualment e importante no percurso da vegetação após um fogo. Röder et al. Apesar da ele vada variabilidade associada ao per curso da vegetação após o fogo. quer no que diz respeito ao desenvolvimento global da vegetação após fogo (Röder et al. Keeley et al... 2008). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO da vegetação antes do fogo na suc essão ecológica.. a temperatura e os nutrientes para as regiões de influência mediterrânica. Essa influência faz-se sentir directamente no desenvolvimento da vegetação. 2005. 2001. Capitanio e Carcaillet. 2009). na medida em que aquelas car acterísticas det erminam o nív el d os fact ores limitant es d o crescimento vegetal. No caso de o crescimento ser essencialmente o resultado . Factores inevitavelmente inter-relacionados como a profundidade do solo. Deste modo o resultado da sucessão pode ser sig nificativamente diferente para diferentes condições de clima. Estas considerações são igualmente válidas par a as condições edáficas. durante os 1-3 anos que se seguem imediatament e ao fogo (G uo. Capitanio e Carcaillet. pode ser razoavelmente representado por uma curva exponencial tendencialmente assimptótica ( Viedma et al. são determinantes no potencial de crescimento assim como no elenco de espécies e na diversidade da vegetação que surge após um incêndio (K eeley et al. 2005). nomeadamente quanto às estratégias regenerativas após o fogo (Keeley et al. Um deles prende-se com a evolução da diversidade vegetal. No entanto este padrão é fortemente influenciado por factores locais assim como pelo tipo de plantas previamente existentes.. 1980. 2008) dada a reduzida competição entre as plantas na área recentemente queimada. 2007. 2008).

Podemos ainda referir a existência de padrões quanto à sucessão de plantas. Notavelmente estes modelos apresentam características comuns às diferentes regiões com clima mediterrânico do Planeta. Em Portugal são praticamente inexistentes os estudos de longa duração sobre a sucessão da vegetação após fogo. (Clemente et al. verificou-se um aument o d o estabelecimento de novos indivíduos das espécies mais exigentes em termos de água e de solo (medronheiro. A este respeito têm sido estabelecidos modelos genéricos de sucessão utilizando as estratégias regenerativas após fogo (ver a secção 3 neste capítulo). taxonómico ou regenerativo.III. . Após esse período inicial o carrasco passou a dominar a estação o que implicou o desaparecimento dos outros dois grupos de plantas. de acordo com o seu tipo fisionómico. gilbardeira. (1996) v erificaram uma colonização inicial de plantas her báceas e de plantas de r egeneração obrigatória por sement e (Cistus sp..) nos pr imeiros anos após o fogo . 1986).. simultaneamente com uma rebentação vigorosa de car rasco (Quercus coccifera). Clemente et al. Existem no entanto informações razoavelmente consistentes sobre a evolução da vegetação no curto prazo em que intervêm espécies com e sem capacidade de regeneração vegetativa assim como espécies com e sem recrutamento estimulado pelo fogo. 1996. todas elas com capacidade de regeneração vegetativa. Em ambos os locais de estud o. Num estudo na Ser ra da Arrábida. Pelo contrário as espécies c om elevada capacidade inicial de c olonização (nomeadamente Cistáceas e alecr im) foram perdendo essa capacidade nas etapas mais avançadas. Resultados semelhant es for am obtid os por S ilva e R ego (1997) em estudos realizados nas Serras da Malcata e de Candeeiros. a taxa de recuperação da vegetação pode ser particularmente elevada nos primeiros anos após fogo. Delitti et al. Através de uma abordagem sincrónica foi possível determinar a abundância de regeneração seminal ao longo de três etapas da sucessão ecológica (Figura 5). apesar de en volverem espécies filogeneticamente distantes entre si (Keeley. carrasco). 2005). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 77 da contribuição de plantas com regeneração vegetativa vigorosa como é o caso do carrasco (Quercus coccifera).

6 0. A vegetação com 3 anos foi associada aos estádios B1 ou B2 em função do grau de coberto e da altura média. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 1 MALCATA FREQUÊNCIA RELATIVA 0.4 0.8 0. Espécies de regeneração exclusiva por semente são representadas por linhas a negrito. .2 0 B1 Halimium lasianthum Halimium ocymoides Pinus pinaster B2 ESTÁDIOS DA SUCESSÃO R Arbutus unedo Pterospartum tridentatum 1 CANDEEIROS 0.6 0.2 0 B1 Cistus monspeliensis Rosmarinus officinalis B2 ESTÁDIOS DA SUCESSÃO R Ruscus aculeatus Quercus coccifera FIGURA 5 Variação na frequência relativa de plântulas (regeneração seminal) ao longo de 3 es tádios da sucessão. B2 – v egetação com 3-10 anos.8 FREQUÊNCIA RELATIVA 0.4 0.78 III. B1 – vegetação com 1-3 anos. R – v egetação com mais de 10 anos.

onde se verificou a dificuldade de regeneração da floresta natural de sobreiro. Crawford et al. a dispersão de sementes. A elevada ocorrência de fogo em algumas regiões do nosso país poderá estar a contribuir para agravar esta situação na medida em que estas espécies podem tirar vantagens competitivas deste tipo de per turbações tal como é referido por diversos autores. Brooks et al. 2001. para as condições do nosso país. (2007) em estevais da Serra do Caldeirão no Algarve.g. a recuperação da vegetação nativa após fogo pode encontrar dificuldades acrescidas e o padrão de sucessão ser consideravelmente alterado.. Um outro factor de incerteza. Eucalyptus e Ailanthus). relativamente a out ras regiões.III. (e. já referido anteriormente prende-se com a presença de espécies lenhosas exóticas. devido a constrangimentos de ordem diversa relacionados com a dificuldade de passagem ao estádio de floresta. . EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 79 No entanto depois de se atingir a fase de matagal poderá existir o que podemos designar como um impasse ecológico. 2004). Resta lembrar que os conhecimentos a este respeito em Portugal são ainda essencialmente de natureza empírica. Este foi o r esultado encontrado por Acácio et al.. a germinação de sementes e o recrutamento de plantas. devido a constrangimentos relacionados com: a disponibilidade de sementes. Dado o elevado potencial de regeneração e cr escimento de algumas destas espécies (nomeadament e os géneros Acacia. pelo que urge conseguir um maior nível de infor mação sobr e o papel das espécies e xóticas na suc essão ecológica após o fogo.

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1. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA RUI MORGADO FRANCISCO MOREIRA 1. Mortalidade e ferimentos 3. Notas finais: implicações para a gestão . Atracção 4.1.2.2.87 EFEITOS DO FOGO IV. Habitat 5. Efeitos do fogo na fauna a curto-prazo 3. Introdução 2. Efeitos do fogo na fauna a médio/longo prazo 4.3. Alimento 4. Fuga 3. A importância do regime de fogo e das características biológicas das espécies 3. Métodos para avaliar o impacto do fogo sobre a fauna 6.

por isso. FOGO (curto prazo) EFEITOS DIRECTOS (médio/longo prazo) EFEITOS INDIRECTOS MORTALIDADE -FERIMENTOS +/-HABITAT refúgio e alimentação +/-ALIMENTO quantidade e qualidade MOVIMENTOS FUGA + ATRACÇÃO FIGURA 1 Quadro-resumo dos efeitos directos e indirectos do fogo sobre a fauna. A espessura das setas é proporcional à magnitude do impacto. Blondel e Aronson. imediatos ou agudos. Está igualmente assinalada a direcção dos impactos sobre as populações. independentemente da sua origem (natural ou humana). inclusivamente. No entanto. positivos (+) ou negativos (-). EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 1. Introdução Na Região Mediterrânica o fogo constitui uma perturbação ancestral associada às car acterísticas climáticas desta r egião e à for te presença humana ao longo de milhares de anos. se em relação às plantas mediterrânicas existe já bastante informação sobre as suas adaptações ao fogo.g. alguma controvérsia sobre a ideia de adaptação exclusivamente devida ao fogo (e. dos efeitos de médio/longo-prazo. intimamente ligado à dinâmica dos ecossistemas (e. em relação aos animais são ainda escassos os e xemplos de tais adaptações. A divisão mais comum separa os efeitos de curto-prazo. não só um importante factor ecológico mas também uma força evolutiva que terá influenciado e moldado estas comunidades. Os efeitos do fogo sobr e a fauna são nor malmente agrupados relativamente à sua dimensão temporal. A acção do fogo sobre as comunidades animais e vegetais durante milhões de anos constituiu assim. 1995). Whelan.88 IV. existindo. .g. também denominados de efeitos directos. também denominados de efeitos indirectos ou crónicos (Figura 1). 1998). Está.

frequência. vão reflectir-se na severidade sobre as populações animais. A importância da frequência de incêndios sobre a fauna é ób via. podendo esta última durar até algumas semanas ou meses após o fogo Por seu lado. A importância do regime de fogo e das características biológicas das espécies O r egime d o fogo c onstitui. de flor esta par a mat os) e assim t er efeit os permanentes nas comunidades animais originais. que se irão reflectir no grau de severidade sobre as populações animais. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 89 Os efeit os de cur to-prazo oc orrem dur ante a fase de c ombustão propriamente dita e dur ante a fase de c hoque pós-fogo. extensão. Este regime pode ser caracterizado at ravés de uma sér ie de var iáveis c omo se jam a sua intensidade. forma. ea .g . velocidade de propagação e dimensão da ár ardida. incêndios frequentes podem alterar permanentemente a v egetação (e. pr ovavelmente o fact or c om maior influência no efeito do fogo sobre a fauna (Figura 2).. em particular a época. etc. intensidade. efeitos de médio-longo pr azo correspondem à fase de r ecuperação e podem fazer-se sentir ao longo de vários anos após o fogo. velocidade de propagação. 2.IV. ÉPOCA DO ANO SEVERIDADE DOS EFEITOS NA FAUNA DIMENSÃO ÁREA ARDIDA FREQUÊNCIA VELOCIDADE PROPAGAÇÃO INTENSIDADE FIGURA 2 O regime de fogo. os . heterogeneidade. época do ano. frequência.

observou mortalidade nula com baixas intensidades. Prodon. em particular nas espécies que nidificam em arbustos ou no solo.g . Um incêndio de pr imavera que ocorra durante a época de nidificação de uma espécie de ave. incêndios de elevada intensidade podem destruir totalmente o habitat e aliment o de uma espécie. mas após um incêndio de baixa intensidade podem permanecer parcelas não ardidas de vegetação que servem de refúgio para a fauna (Figura 3). quando já não há ninhos. Estas manchas constituem refúgio e áreas de alimentação da fauna. enquanto que um incêndio de baix severidade permitirá que manchas de v a egetação não ardidas permaneçam no interior da área queimada (c). EFEITOS DO FOGO NA FAUNA Relativamente à intensidade.90 IV. . b a c FIGURA 3 Importância da se veridade do f ogo na f auna. ovos ou crias não voadoras. quer após o fogo. um incêndio de ele vada severidade destruirá toda a vegetação presente (b). C omparativamente c om uma ár ea não ardida (a). 2000). e mortalidade de todos os invertebrados até 1cm de profundidade no fogo mais intenso. A dimensão da área ardida é outro factor importante uma vez que det ermina a distância que animais têm para dispersar quer antes do fogo. terá muito maior impacto do que um incêndio de outono. incêndios de maior intensidade provocam maiores índices de mortalidade nos indivíduos abrigados ou enterrados no interior da área ardida devido à maior temperatura que atingem (e. A época do ano em que ocorre o incêndio pode também determinar o grau de afectação da fauna. Para além disso. Bellido (1987). num estudo sobre a mortalidade de invertebrados do solo após fogos de diferentes intensidades numa zona de mato.

a sua capacidade de dispersão . . são de esperar maiores níveis de mortalidade se os fogos coincidirem com as suas estações reprodutoras. entre espécies com diferentes características biológicas ou que ocupam difer entes nichos ecológicos (e. ao aumento da taxa de mortalidade sobre esta espécie. se o habitat ou aliment o no qual se especializaram se reduzir ou simplesmente desaparecer. É por isso de esperar que existam diferenças no efeito do fogo sobre diferentes grupos de fauna (e. uma ave residente de elevado interesse cinegético. ou até. Por exemplo.IV. mamíferos e a ves). de acordo com os cenários climáticos futuros. o que c onduz. ao sobrepor-se com o período de incubação da espécie. A época do fogo pode também influenciar os níveis de mortalidade nos pequenos mamíferos (sobretudo roedores). Friend (1993) efectuou uma revisão sobre a resposta ao fogo de pequenos vertebrados (mamíferos. répteis e anfíbios) em 2 habitats da Austrália temperada e encontrou r espostas c oncordantes em espécies c om r equerimentos semelhantes em termos de abrigo. Espécies c om carác ter mais especialista tenderão também a sofrer mais impacto do fogo relativamente a espécies mais gener alistas. devido à destruição dos seus ninhos e crias. a tendência será par a a época de fogos se estender no tempo (por exemplo de Abril a Novembro) e agravar ainda mais a situação. no caso da perdiz vermelha (Alectoris rufa). verifica-se que a actual época de incêndios que se concentra entre os meses de Junho e Outubro coincide nalgumas áreas com a época de ocorrência de crias não voadoras ou de jo vens voadores. Além disso. etc. o seu grau de especialização em termos de habitat. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 91 Este factor pode ser par ticularmente importante no actual contexto de alterações climáticas que podem ant ecipar a época de oc orrência de incêndios para o início da Primavera. alimento e reprodução.g . espécies arborícolas versus espécies fossor iais). a sua posição na cadeia t rófica. Outro tipo de fact ores que infl uenciam o efeit o do fogo na fauna dizem respeito às car acterísticas biológicas das espécies – incl uindo os seus hábitos comportamentais. sugerindo que o impacto do fogo nestas espécies podia pr ever-se a par tir destes seus requerimentos ecológicos. dentro do mesmo grupo faunístico.g . inevitavelmente.

EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 3. Para além desta. a disponibilidade de refúgios. 3. Apesar dos números envolvidos.92 IV. O efeito mais importante de curto-prazo é a mortalidade. de elevada velocidade de propagação e que produzem espessas cortinas de fumo. no entanto. Hemsley (1967) e Wegener (1984) encontraram milhares de cadáveres de aves carbonizados. As características biológicas das espécies. até movimentos de emigração ou imigração de maior amplitude. e não existem para a região da Bacia Mediterrânica. no entanto. De facto a asfixia (por inalação de fumo) parece ser a principal causa de morte para estas espécies nestas circunstâncias (Singer e Schullery. Efeitos do fogo na fauna a curto-prazo Os efeitos do fogo na fauna fazem-se sentir de forma directa e imediata (Figura 1) e são essencialmente observados ao nível do indivíduo. pertencentes a cerca de 60 espécies diferentes. quer fugindo. mas . ao contrário do que se poderia pensar. A morte de mamíferos de grande porte ocorre normalmente associada a fogos de grande dimensão.1. A morte por asfixia não é. e o regime de fogo. Os trabalhos científicos que envolvem a observação directa e contabilização de cadáveres carbonizados em áreas ardidas são muito escassos. uma tarefa complexa. A estimativa da mortalidade devida ao fogo é. A maioria dos animais parece resistir. 1989). Mortalidade e ferimentos A mortalidade constitui o impacto negativo mais óbvio sobre as populações animais. tendo sido igualmente registada em mamíferos de pequena dimensão que se refugiaram em abrigos no interior da área ardida. exclusiva deste grupo. o fogo pode também provocar ferimentos ou levar os animais a efectuar movimentações. que podem variar de simples fugas às chamas. Estes efeitos são geralmente avaliados a partir de estudos/observações efectuadas durante o fogo ou até algumas semanas ou meses após o fogo. a ausência de out ros registos de mor talidade de adultos faz supor que estes fenómenos deverão ser muito pouco frequentes e ocorrer apenas em circunstâncias excepcionais. os efeitos de mortalidade e ferimentos atingem geralmente uma pequena proporção das po pulações afectadas pelo fogo. os resultados disponíveis sugerem que. quer encontrando abrigos no interior da área ardida. Há no entanto excepções. particularmente a intensidade e época do fogo. em duas regiões da Austrália. Apesar disso.

As difer entes espécies de ar trópodes terrestres diferem nos seus ciclos de vida e podem ocorrer em diferentes estádios (imaturos ou maturo) quando o fogo se inicia.g. voadores vs. mamíferos de grande porte) ou nos que vivem enterrados no solo ou em tocas (e. relativamente às aves. As aves apresentam em geral grande capacidade de deslocação e é. o que diminui consideravelmente o seu risco de morte. solo mais ou menos . aves.IV. determinados invertebrados. No que r espeita às car acterísticas biológ icas.g. Assim. répteis. No caso dos micromamíferos. e com maior velocidade de propagação tendem a estar associados a níveis de mortalidade mais elevados. Os mamíferos de maiores dimensões procuram geralmente locais seguros em parcelas não ardidas no int erior da ár ea ardida ou pr eferencialmente for a da ár ea ardida. Os ar trópodes t errestres apr esentam uma g rande di versidade de características biológicas que dificultam a definição de um padrão típic o nos seus nív eis de mor talidade. como constatou Simons (1991). há uma tendência para evitarem o fogo usando refúgios no interior da área ardida. Os mamíferos apresentam. genericamente.g . tocas. parecem ser os factores determinantes nos níveis de mortalidade e ferimentos observados.g. anfíbios e micr omamíferos). os efeit os negati vos tendem a ser de menor importância em animais com maior capacidade de deslocação (e. buracos.) ou outros que entretanto encontrem. é de esperar que neste grupo o fogo possa ter mais impacto nas espécies que utilizam abrigos mais junto à super fície. uma menor capacidade de deslocação e assim as est atégias relativas r à procura de abrigos assumem maior impor tância. ou utilizando manchas de vegetação não ardida ou onde o fogo foi menos intenso (e. que fogos mais intensos. etc. velocidade de propagação e duração. relativamente às espécies que utilizam abrigos subterrâneos. invertebrados do solo. túneis subterrâneos. mais unifor mes. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 93 também a sua dimensão. Em relação ao regime de fogo pode dizer-se. algumas espécies de micr omamíferos). nas fases de cria e de juvenil não voador que o risco de mortalidade pelo fogo é mais ele vado. artrópodes alados. zonas de vegetação mais húmida). sendo que os animais c om menor mobilidade e que vivem na superfície do solo tendem a ser mais afectados (e. Para além disso também diferem na sua capacidade de locomoção (e.g. não-voadores) e na selecção de micr o-habitats (e. uniformidade. utilizando para isso os seus abrigos habituais (e.g.g.

Para os artrópodes com menor capacidade de locomoção há uma tendência para aqueles que vivem enterrados no solo sofrerem menos impactos do que aqueles que v ivem à sua super fície ou sobre a vegetação (Prodon et al. Bock e Bock (1991) obser varam uma r edução de 60% na abundância c ombinada de adult os e ninfas de gafanhotos após um fogo int enso numa pradaria do Arizona. o Verão na região mediterrânica) alguns g rupos e espécies de in vertebrados do solo têm t endência para se refugiar em zonas mais profundas do solo onde existe maior teor de humidade. por que a maior ia das espécies oc orria apenas no estad o de ovo (enterrado) durante a época d o fogo. Durante as épocas mais secas (e. no entanto. apresentem uma mobilidade limitada (Russel et al. particularmente os anfíbios. podem. superfície do solo. ainda que muitos destas espécies.. eventualmente. por isso. e que por tanto ar dem menos. Em relação à her petofauna. vegetação). Esse efeito estará dependente. do grau de protecção do seu abrigo e da intensidade do fogo. 1999). Nesta época os indivíduos adultos refugiam-se normalmente perto de água ou em cavidades no solo. etc.94 IV. 1989). Para além disso a principal época de fogos na região mediterrânica – o Verão – coincide com a época em que vár ias espécies de anfíbios se encontram em período de letargia (estivação) face à reduzida humidade atmosférica e temperaturas elevadas.A. Estes factores interagem ainda com o regime de fogo. causar alguma mortalidade. e fogos menos intensos aumentarão as suas probabilidades de sobrevivência. Em relação a estes é possível que o facto de ocuparem normalmente habitats ou micro-habitats aquáticos ou com razoável grau de humidade.. possa c ontribuir par a est es r esultados (Russel et al. o que faz com que os níveis de mortalidade neste grupo sejam muito variáveis. fogos controlados realizados a seguir às primeiras chuvas outonais. Por outro lado.). podendo mesmo estivar ou entrar em diapausa. E vans (1988) r eporta valor es de mor talidade de gafanhotos m uito r eduzidos após fogo c ontrolado pr imaveril n uma pradaria no K ansas (E.. aumentando assim as suas hipót eses de sobrevivência face ao fogo. que fogos nestas épocas possam causar menores níveis de mortalidade nestas espécies (Prodon et al. existem poucos registos de mor te ou ferimento induzidos pelo fogo.g . sendo de esperar que abrigos mais profundos e húmidos. 1987). 1999). Por exemplo.. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA profundo.U .. debaixo de pedr as. Em c ontrapartida. sendo de esperar. embora de baixa intensidade. por coincidirem .

A forma e uniformidade do fogo podem também infl uenciar estes comportamentos para algumas espécies. 2002). Os répteis. sendo também de prever que as espécies que utilizam abrigos com alguma profundidade sejam menos afectadas. Muitas espécies voltam rapidamente à área ardida depois do fogo. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 95 com uma das épocas de maior actividade deste grupo (Bury et al. particularmente. as manchas de vegetação não ardida quer no interior da área ardida. A utilização de cavidades constitui a sua principal defesa em relação à passagem do fogo. ou pur a e simplesmente devido à sua fidelidade à ár ea (site . são fortemente seleccionadas como locais de refúgio das chamas e muitas vezes como locais de permanência até regeneração do seu habitat. outras podem abandonar a área durante períodos superiores (até 1 a 2 anos) e algumas podem mesmo não r gressar. Por outro lado.IV. uma vez que dur ante o períod o de ausência da ár ea ardida.e portanto mais preparada para resistir à dessecação.g . A maioria das aves abandonam o seu habitat enquanto está a ar der para evitar ferimentos mas muitas regressam após algumas horas ou dias. O seu regresso pode estar relacionado com as reduzidas alterações estruturais no habitat (e. pode dizer-se que os diferentes padrões de comportamento de fuga ou emig ração observados dependem no imediat o da capacidade de locomoção dos vários grupos e espécies. que nalguns casos lhes permitirá fugir à frente da linha de fogo. encontram-se normalmente activos nos meses de maior calor. e também da variação climática após o fogo. uma vez que depende das características do fogo. das condições locais. 3. como sejam as condições edáficas e de humidade. Est e períod o de r egeneração é obviamente muito variável. que coincidem com o período de fogos.2. Fuga Outra das respostas mais frequentes dos animais ao fogo é a fuga desses locais assim que o fogo é detectado. e uma pele mais seca e escamosa.. mas pr incipalmente da intensidade do fogo e. a ves flor estais r elativamente a fogo de baixa intensidade). apresentam algumas vantagens em relação aos anfíbios como uma capacidade de locomoção ligeiramente superior. com o aproveitamento da alt eração do habitat produzida pelo fogo. e De um modo geral. quer fora. ao contrário dos anfíbios. do grau de alteração/ destruição do habitat e/ou recursos alimentares produzido e do período de t empo que est es le vam a r ecuperar.

Logo após o fogo m uitas espécies de micromamíferos também podem abandonar as áreas ardidas. e por tanto não ar dida. 1985). no entanto. os animais de grande porte e de grande mobilidade par ecem ser capaz es de se mo verem r apidamente par a manchas de habitat não queimado. nalguns casos. reportam a ocorrência de micromamíferos após fogo em manchas de vegetação mais húmida associada a linhas de água. Christensen. As r azões apontadas par a esse fenómeno incl uem a dimin uição da protecção contra predadores. por exemplo. Pons. 1980).g. Existem também observações de movimentações de grandes mamíferos através a linha de fogo par a áreas já ar didas (e. Para outras espécies de aves. tem sido evocado por vários autores para justificar a per manência de certas espécies de aves em ár eas onde o se u habitat foi bastant e alterado pelo fogo e. o abandono pode ser mais alargado ou mesmo definitivo devido ao facto do habitat já não providenciar a estrutura ou o alimento que requerem para sobreviver e se reproduzirem. O c omportamento t erritorial ou a familiar idade c om as ár eas que entretanto ar deram têm sid o apontad os c omo uma das possív eis explicações para este fenómeno. Este efeito comportamental de site fidelity. Izhaki e Adar (1997). por exemplo em zonas de vegetação que não arderam. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA fidelity). referem o abandono da ár ea por par te de algumas espécies dur ante os primeiros dois anos após o fogo e o seu progressivo regresso no período de 3 a 5 anos pós-fogo. (1975).g. Newsome et al. 1998). . dependendo principalmente da int ensidade e severidade do fogo. diminuição da disponibilidade de alimento e maior interacção entre indivíduos (Vacanti e Geluso. por exemplo. relacionado com a associação das aves à sua área vital e locais de alimentação familiares. preferencialmente fora da área ardida. estudando a sucessão da comunidade de aves não-reprodutoras num pinhal ardido em Israel.96 IV. O período de ausência da área ardida e de restabelecimento das densidades pré-fogo pode ser m uito variável. Relativamente aos mamíferos. Os micromamíferos tendem a procurar refúgio no interior da área ardida. e aí tentar sobreviver à passagem fogo. e La wrence (1966) r egistou também a sobr evivência de micromamíferos em arrifes rochosos no interior de uma zona de mato (chaparral) percorrida por um fogo . a sua adaptação a essas no vas circunstâncias (e.

um fogo m uito severo. que podem assim rapidamente colonizar/explorar estas áreas. Por exemplo. Este autor observou que após o fogo a densidade de gafanhotos aumentou fortemente nos blocos de vegetação não ardida. artrópodes alados. É de esperar que este comportamento seja mais frequente em espécies c om maior capacidade de dispersão (e. . ou pelas ár eas r ecentemente ar didas.IV.g . das áreas não ardidas para a área ardida). e cerca de 4 meses após o fogo as densidades nas duas áreas eram de novo semelhantes. evidenciando um movimento de indivíduos da zona ardida para zonas não ardidas. ao mesmo tempo que a espécie desapar eceu praticamente da área ardida. chamas ou fumo durante a fase de c ombustão. Gandar (1982) verificou o mesmo padrão de forma indirecta. mamíferos de grande porte). que por sua v ez pode influenciar os padrões de at racção de difer entes g rupos ou espécies.g . Atracção Os animais podem ser também atraídos pelo calor. quer em termos quantitativos. uma v ez que depende essencialmente do efeito do fogo no ecossistema. e que. em muitos casos. aves. Alguns dias após o fogo c omeçou a verificar-se um mo vimento gradual de indivíduos no sentido in verso (isto é.3. 3. Várias espécies aumentam a sua abundância dur ante alguns dias ou semanas nestas áreas. pode at rair menos insect os do que um fogo de severidade média. e consequentemente vai at rair também menos a ves insectívoras. onde indivíduos adultos foram observados a abandonar a área à frente da linha de fogo. 1972). carcaças de animais queimad os) e a acessibilidade a esse alimento para predadores oportunistas ou necrófagos. que provoca a dest ruição de t oda a vegetação existente. P or out ro lad o est e tipo de incêndios pode aumentar a disponibilidade alimentar (e. O pr incipal motivo destas deslocações par a áreas queimadas está r elacionado com o aument o t emporário da disponibilidade de recursos alimentares. Existem vários casos de espécies de aves que são atraídos para a frente de chamas ou para as áreas recentemente ardidas. acompanhando o desenvolvimento da vegetação. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 97 A importância potencial da fuga ao fogo das po pulações animais está bem ilustrada nos estudos de gafanhotos acridídeos na savana africana (Gillon. A relação entre os padrões de at racção e o r egime de fogo é c omplexa. quer em termos qualitativos (Figura 4).

As aves de rapina e necrófagas são normalmente atraídas para estas áreas devido à maior abundância de alimento ou à sua maior exposição. e o seu uso de áreas recém ardidas para caçar. que podem ocupar estas áreas. na savana africana.98 IV. em duas regiões dos Estados Unidos da América. Smallwood et al. quer por invertebrados. quer . Parker (1974) r efere impor tantes concentrações de a ves de r apinas e necrófagas durante o fogo. Gillon (1972) observou várias espécies de a ves de r apina a alimentar em-se de insec tos (gafanhotos. As espécies de a ves tipicamente insectívoras também tir am partido da maior abundância momentânea de in vertebrados nas ár eas ardidas. Aparentemente a garça-boieira era atraída quer por pequenos vertebrados. observaram garças-boeir as ( Bubulcus ibis) e peneir eiros amer icanos (Falco sparverius) a alimentarem-se igualmente junto às chamas. É o caso. (1982). EFEITOS DO FOGO NA FAUNA FOGO AUMENTO DA DISPONIBILIDADE/ VALOR NUTRITIVO DE HERBÁCEAS E ARBUSTOS PEQUENOS AUMENTO DA DISPONIBILIDADE DE SEMENTES OCORRÊNCIA DE CARCAÇAS DE ANIMAIS MORTOS AUMENTO DA ACESSIBILIDADE DAS PRESAS (POR REDUÇÃO DE LOCAIS DE ABRIGO) AUMENTOS DAS POPULAÇÕES DE PREDADORES AUMENTOS DAS POPULAÇÕES DE HERBÍVOROS FIGURA 4 Esquema do impacto positivo do fogo sobre os recursos alimentares para a fauna. por exemplo. grilos) que voavam à frente da linha de fogo. dos pica-paus. aumentam a sua abundância durante os dias ou semanas que sucedem ao fogo. enquanto que o peneireiro predou quase exclusivamente insectos que surgiam da frente de fogo. dur ante um fogo em pastagens na Flór ida.

g. 1978.g. 1978).IV. na Califórnia os pumas (Felis concolor) parecem ser at raídos para os limit es das ár eas ardidas onde os cervídeos tendem a concentrar-se (Quinn. Oliver et al. são atraídos no curto-prazo para estas áreas por razões alimentares. também os mamíferos predadores podem tirar partido da disponibilidade ou acessibilidade temporária de recursos alimentares no pós-fogo. por remoção do coberto vegetal. Para além disso.. desde os micr omamíferos até aos mamífer os herbívoros de grande porte. De forma análoga. é também possível que a maior detectabilidade de alguns insectos após o fogo. sementes caídas durante e após o fogo) e à sua maior ac essibilidade. o valor nutritivo da vegetação herbácea em regeneração após o fogo é frequentemente superior ao de vegetação não queimada (Hobbs et al.g. Alguns dos fenómenos de imigração pós-fogo mais interessantes são protagonizados pelos insec tos. Tal como no caso das aves. referem que a maior acessibilidade às sementes. 1990). possa também conduzir à atracção de aves insectívoras para estas áreas. Izhaki e Adar (1997) por exemplo.g . 1991). tentilhão Fringilla coelebs e pombo-das-rochas Columba livia) em Israel. insectos verdes num fundo negro). Por exemplo. Shaw e Carter. que sã o at raídos par a estas ár eas por . EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 99 imediatamente após o fogo quer nas semanas seguintes (e.g. Também as espécies de mamíferos her bívoros. Este comportamento parece estar relacionado com a maior disponibilidade de invertebrados associados aos troncos das árvores queimadas (e. parece ter sido o principal factor responsável pela ocupação de uma ár ea recém ardida por aves granívoras (e.g. devido à perda das suas vantagens crípticas (e. Schardien e Jackson.. enquanto que Thibault e Prodon (2006) reportam que o aparecimento de grande número de aves granívoras imediatamente após o fogo . Este efeito está bem documentado em mamíferos de grande mobilidade como é o caso de marsupiais macrópodes naAustrália ou dos ungulados em África e na América do Norte (e. Para além disso. esteve relacionada com a grande quantidade de sementes de pinheiro que passar am a estar disp oníveis devido à abertura dos cones por acção do calor. nomeadamente em resposta à rápida regeneração da vegetação herbácea em locais anteriormente ocupados por outro tipo de vegetação. Schardien e Jackson. numa floresta de pinheiro na Córsega (França). algumas espécies de aves granívoras podem também utilizar as áreas recém ardidas face à maior abundância de sement es no solo (e. 1978). 1990).

de for ma positiva ou negativa. que seleccionam as árvores hospedeiras (neste caso árvores queimadas) mediante sinais visuais. o fumo. e de constituirem também vectores de fungos. torna-os num dos grupos de insec tos mais noci vos para as essências flor estais e especialmente para as resinosas.g. 1983). destacam-se algumas espécies de coleópteros perfuradores do tronco de árvores das famílias Buprestidae ou Scolytidae. em que se faz um ac ompanhamento da situação através de monitorização regular (por exemplo anual) ou. tácteis e químicos (Raffa e Berryman. mortalidade. b) o uso de uma cr ono-sequência – uma sér ie de locais pr eferencialmente semelhantes em t odas as car acterísticas e xcepto no t empo decorrido desde o fogo (abordagem sincrónica). a disponibilidade de aliment o e o habitat ou micr ohabitat das espécies pr esentes (e. onde podem nalgumas situações tornar-se verdadeiras pragas. de forma a garantir alimento para as suas larvas.100 IV. níveis elevados de dióxido de carbono. muitos dos quais patogénicos e agentes responsáveis pelo aparecimento de doenças. De entre estes.Uma característica comum à maioria destes estudos consiste no facto de apenas caracterizarem as respostas das populações ou comunidades de fauna ao fogo e não isolarem os mecanismos e xactos através dos quais o fogo e xerce essas respostas (e. Desta forma utiliza-se a variabilidade no espaço como um substituto do factor tempo. Efeitos do fogo na fauna a médio/longo prazo Os efeitos do fogo na fauna a médio/longo-pr azo fazem-se sentir de forma indirecta. O facto destas espécies terem frequentemente várias gerações por ano. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA diferentes estímulos.g . incluindo o calor. na população de determinada espécie) ou ao nível da estrutura das comunidades (e.). que por sua vez afectam. movimento de indivíduos. nomeadamente na sua composição específica. através de alt erações na vegetação. 4. . Estes efeitos são geralmente observáveis ao nível populacional (isto é. etc. onde depois depositam os seus ovos. Os estudos que abordam esta temática tipicamente requerem uma de duas estratégias metodológicas: a) um programa de investigação de longo prazo (abordagem diacrónica). produtividade e estrutura.g. riqueza específica ou abundância relativa das vár ias espécies) nos anos seguint es ao fogo. qualidade de refúgios ou de locais de nidificação) (Figura 1).

Hutto (1995). 1997). Alimento Anteriormente foram já focados alguns exemplos de como o aumento da qualidade e quantidade de r ecursos alimentar es podem c onduzir à atracção de animais à ár ea ardida no cur to-prazo (geralmente num período de tempo de horas a poucos meses).g. No presente subcapítulo o impacto da disponibilidade alimentar nos animais é analisada a uma escala temporal mais alargada. Izhaki e Adar. particularmente a época e frequência do fogo e a sua relação com o ecossistema em causa vão ter também enorme influência na r esposta da v egetação e logo na quantidade ou qualidade de aliment o disponível. No que respeita às aves insectívoras.IV. num estudo realizado na região norte das Montanhas Rochosas (Estados Unidos) observou que 15 espécies de aves – maioritariamente insectívoras que se alimentam nos t roncos das árvores – eram geralmente mais abundantes em áreas de floresta recentemente ardidas (1 a 2 anos) comparativamente com qualquer outro tipo habitat existente na mesma região. A severidade do fogo e c onsequente heterogeneidade são outros factores que podem influenciar fortemente os efeitos do fogo no alimento. a abundância de insectos imediatamente após o fogo pode aumentar. O regime de fogo. As aves granívoras. que beneficiam a médio pr azo este grupo. Este efeito pode ser positi vo ou negativo conforme aumenta ou dimin ui a disponibilidade ou qualidade d o alimento para determinado grupo ou espécie a médio/longo prazo. frequentemente tiram partido do aumento da produção de sementes no primeiro ano após o fogo (e.1. As características desse efeito vão depender principalmente do grupo faunístico ou espécies consideradas e respectivos hábitos alimentares. No entanto a importância de um recurso alimentar não depende apenas da suaabundância mas também da sua acessibilidade ou detectabilidade. que podem estar mais ac essíveis durante . A subsequente regeneração da vegetação após o fogo geralmente resulta num rápido incremento das po pulações de insec tos. devido à maior disponibilidade de alimento nesses locais. por exemplo. quer às sementes. e focando-se nos seus efeitos ao nível das populações e das comunidades. Isto diz respeito quer aos invertebrados (vivos ou mortos). por seu lado. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 101 4. diminuir ou manter-se. O efeito do fogo sobre o alimento é provavelmente o aspecto mais estudado da relação entre o fogo e a fauna.

que pode levar a um aumento das populações de mamíferos herbívoros (e. inclusivamente. A falta de aliment o é também m uitas vezes avançada para explicar o decréscimo observado nalgumas populações logo após o fogo.A. O fogo pode ainda favorecer as espécies de predadores (aves e mamíferos) de forma indirecta através do aumento das populações de herbívoros acima mencionada.g. a curto/médio prazo.g. Prodon et al. . recuperando depois gradualmente a partir desse momento. por exemplo. (1984) referem que os recursos alimentares parecem ser um factor limitante para as a ves e mamífer os no pr imeiro Inverno após o fogo . embora sublinhem que as variações são complexas. verificou que o roedor Peromyscus truei evidenciou uma redução significativa da sua condição corporal durante o primeiro ano após um fogo.g. No caso dos mamíferos. num estudo conduzido no estado do Novo México (E. Lawrence (1966). Lehman e Allendorf (1989). devido à redução de locais de refúgio. no entanto. Ivey e Causey (1984). O incremento das populações de grandes herbívoros nas áreas ardidas também parece beneficiar algumas populações de grandes mamíferos carnívoros (e. micromamíferos). que durou vários anos.102 IV. um dos efeitos positivos mais conhecidos do fogo sobre o aliment o consiste na sua c ontribuição par a o aument o.).U. reportam um aumento do número de águias-reais (Aquila chrysaetos) numa área ardida nos meses após o fogo e associam-no ao aumento das populações de micromamíferos que acompanham o crescimento da vegetação herbácea. 1991). Hobbs et al. parcialmente controlado pela se veridade do fogo e estrutura espacial dos habitats na área queimada. mostraram que as po pulações de cervo-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) podem tirar partido da disponibilidade de zonas ardidas par a se alimentar em desde que e xista alguma v egetação não ardida que sirva de refúgio. lobos. O fogo pode também favorecer várias espécies de aves rapina através da maior acessibilidade e facilidade de detecção das presas (e. Lawrence (1966). na produtividade. por exemplo. O aumento potencial deste grupo é. recomendado nalguns casos como medida de gestão para melhoramento do habitat destas espécies. ursos) e o uso do fogo t em sido. disponibilidade e valor nutritivo de herbáceas e arbustos. por exemplo. detectou um forte incremento na abundância de aves predadoras após o fogo no chaparral californiano. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA alguns meses após o fogo.. como resultado da diminuição dos seus recursos alimentares.

é de salientar o facto de algumas espécies terem a capacidade de alt erar a sua dieta. o fogo . inexistentes após o fogo .). Em geral. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 103 Ainda neste contexto. e também do ecossistema considerado. de matos e de zonas abertas a um incêndio em floresta. . como resposta ao fogo . através da sua acção na est rutura da vegetação. etc. do grupo faunístico ou espécies consideradas e respectivos requerimentos ecológicos.IV. Este efeito pode variar também para um dado grupo ou espécie em função do tempo decorrido após o fogo. e passar am a alimentar-se de material foliar e herbáceo. e a sua pr ogressiva substituição por espécies típicas de matos e depois floresta (Figura 5). o padrão de alteração das comunidades após um incêndio de grande severidade reflecte-se num aumento das espécies associadas a zonas aber tas. 4. que deixaram de se alimentar de flor es e fr utos. DIMENSÃO POPULACIONAL Espécies florestais Espécies de matos Espécies de zonas abertas PRÉ FOGO TEMPO DESDE O FOGO FOGO FIGURA 5 Resposta das populações de espécies florestais. como foi verificado em espécies de mamíferos marsupiais na Austrália e nalgumas espécies de primatas na ilha do Bornéu (Sudeste asiático). heterogeneidade. pode criar ou destruir habitats favoráveis a uma dada espécie ou grupo de espécies. depois d o fogo. e de larvas de borboletas e de insectos perfuradores da madeira.2. O efeito do fogo no habitat vai depender das características do fogo (intensidade. Habitat De uma for ma geral. frequência.

. ii) logo após o fogo (e sobr etudo durante o pr imeiro Inverno) verifica-se uma redução da abundância de aves. aparentemente. Carduelis chloris) podem ser mais ou menos comuns durante alguns períodos da sucessão. evidenciando uma marcada variação inter-específica na resposta das espécies ao fogo. O fogo normalmente afecta as comunidades de aves através de alterações provocadas no seu habitat. Numa segunda fase. Capazes de se adaptar à transformação brutal do seu meio. trepadeiras. mostram também uma forte associação aos seus territórios de reprodução e vêm instalar-se durante a primeira Primavera após o fogo.104 IV. voltando depois a aumentar para níveis próximos dos existentes antes da perturbação causada pelo fogo (Oliver et al. vi) um certo número de aves tipicamente florestais (chapins. devido ao aumento da abundância de espécies típicas de z onas abertas e de orlas. Miliaria calandra. iv) um grupo de espécies associadas a meios abertos (e. é ger almente numa primeira fase após o fogo que estes parâmetros atingem os valores máximos. Frequentemente.g. iii) as aves nidificantes no estrato arbustivo desaparecem mais ou menos completamente após o primeiro ano e regressam no segundo associadas à regeneração da vegetação. os valores desses parâmetros são mínimos. (1989) analisaram a evolução da comunidade de aves de sobreirais após incêndio ao longo de 10 anos e identificaram uma série de padrões. mas abandonam progressivamente a área com o desenvolvimento da vegetação. vii) apenas um número muito reduzido de espécies . v) do mesmo modo espécies típicas de espaços semi-aber tos ou bosques desc ontínuos (e. White et al. Oriolus oriolus. durante vários anos (e. 1999). Alectoris rufa) pode instalar -se no sobr eiral ar dido num curto período de 1 a 3 anos. respeitantes sobretudo à evolução da composição da comunidade. Aumentam depois progressivamente até atingirem abundâncias iniciais (4 anos e seguintes). pica-paus. escassa.g. Lanius senator.g. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA Em termos de abundância e di versidade de espécies. Lullula arborea. diferentes espécies características de diferentes nichos ou habitats vão-se sucedendo de acordo com a transformação estrutural da floresta.. tentilhões) que ocorriam antes do fogo são sempre observadas nos anos seguintes. Num estudo realizado em França. que corresponde à fase de transição para as espécies que oc orrem associadas ao est rato florestal. 1998). Prodon et al. que podem utilizar-se como indicadores para outras florestas do Mediterrâneo: i) apesar de sempre difícil de quantificar a mortalidade esta foi.

O regime de fogo é out ro factor que influencia o padrão de r esposta das diferentes populações ou comunidades de aves ao fogo. fogos controlados). Erithacus rubecula). Esta ideia é reforçada pelo trabalho de Moreira et al. No entanto.g. 1995). Prodon et al. noutros casos pode nem sequer se alt erar e as principais alterações ocorrerem ao nível das abundâncias relativas. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 105 desaparece como nidificante após 10 anos (Regulus ignicapillus.IV. (1987). Relativamente à r iqueza específica. que estudaram o efeito do fogo-controlado na estrutura da vegetação e na comunidade de aves nidificantes em povoamentos jovens de pinhal-bravo (Caixa 1). facto que poderá estar r elacionado com as maiores alterações na estrutura e composição da vegetação produzidas pelos pr imeiros. em cerca de 6 meses. observaram uma marcada redução neste parâmetro imediatamente após o fogo. Os aut ores salientam que a rápida r egeneração pós-fogo da folhagem do sobreiro pode influenciar alguns resultados e deve ser tida em conta quando comparada com outros povoamentos. . (2003). ainda em floresta de sobreiro. nalguns casos a riqueza específica pós-incêndio aumenta. mas o seu regresso a níveis semelhantes aos da área não ardida. de controle. este padrão de variação de diversidade após o fogo pode ser muito variável de região para região (Whelan. Na verdade. Pons (2000) efectuou uma c omparação d os t rabalhos desen volvidos na r egião da Europa mediterrânica sobre a resposta das comunidades de aves ao fogo e mostra que fogos mais intensos produzem mais alterações na estrutura das comunidades de aves do que fogos menos intensos (e.

Cinco anos após o fogo. No caso dos arbut os.106 IV. a abundância é próxima da das par elas conc trolo. c): Efeitos do fogo controlado na abundância de aves. Devido à baixa severidades des tes f ogos. a) b) BIOMASSA HERBÁCEAS BIOMASSA ABUSIVA 0 1 3 5 CONTROLO 0 1 3 5 CONTROLO ANOS DESDE O FOGO ANOS DESDE O FOGO c) ABUNDÂNCIA DE AVES 0 1 3 5 CONTROLO ANOS DESDE O FOGO FIGURA 6 a) E b): Efeitos do fogo controlado na estrutura da vegetação (cobertura por arbustos e herbác eas). Apenas as espécies nidificantes no solo ou nos matos sofreram um impacto temporário. (2003). . Adaptado de Moreira et al. O efeito destas queimas na estrutura da vegetação foi visível sobretudo ao nível dos estratos herbáceo e arbustivo (Figura 6). es tes aut ores v erificaram que o f ogo c ontrolado afectou temporariamente a abundância de aves (Figura 6) mas não de t odos os grupos. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA CAIXA 1 A SEVERIDADE DO FOGO DETERMINA O GRAU DE AFECTAÇÃO DAS COMUNIDADES Moreira et al. o gr au de desen volvimento 5 anos após a queima é semelhante ao de parcelas controlo (sem fogo). mas não foi registado qualquer efeito do fogo controlado na abundância de espécies nidificantes nas copas das árvores. devido à redução do estrato herbáceo e arbustivo. (2003) estudaram o efeito do fogo controlado sobre as comunidades de a ves florestais em po voamentos de pinheir o-bravo (Pinus pinaster) do Minho. Nas herbáceas. o pico de abundância é registado 3 anos após a queima. ou na diversidade total de espécies.

enquanto que fogos de substituição podem alterá-las por 30 anos ou mais. No entanto. ao longo da sucessão pós-fogo. (2005) analisaram os padrões de colonização de áreas ardidas na Catalunha (Espanha) por aves típicas de zonas abertas e verificaram que a ocupação dessas áreas pelas espécies estudadas se basea va em dispersões de curta distância a partir de áreas-fonte próximas. Por último . de mato as comunidades estão ger almente em mudança até se ating ir o coberto arbustivo original. Brotons et al. o que pode levar até 20 anos. É de salientar o facto de algumas espécies de aves poderem alterar os seus comportamentos face à alteração do seu habitat. De um mod o geral pode dizer-se que em fogos em ár eas dominadas por coberto herbáceo as comunidades de aves tendem a restabelecer a estrutura e composição pré-fogo até 3 anos após o fogo Em zonas . . por exemplo através da alteração do comportamento de nidificação. evidenciando a importância da het erogeneidade da paisagem e o se u papel na dinâmica das populações destas espécies. existe uma grande variabilidade nestes padrões. alguns t rabalhos suger em que o fogo pode fa vorecer algumas espécies de aves. e da sua taxa de regeneração. o fogo de superfície usualment e altera as comunidades de aves apenas por 1 ano.IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 107 O efeito do fogo sobre as comunidades de aves também depende de velocidade de regeneração do ecossistema considerado. em particular as que dependem de habitats abertos como os cr iados por ac tividades agrícolas (Caixa 2). Em florestas. ao seleccionarem diferentes substractos de nidificação e diferentes posições num substracto que foi alterado pelo fogo.

por exemplo. P ara além dis so alguns animais têm requerimentos ecológicos em t ermos de habitat que incluem dif erentes elementos a diferentes escalas. corredores ecológicos. Ao contrário dos trabalhos sobre a sucessão de espécies após o f ogo num det erminado povoamento ou habitat (escala local).. poderão t er afectado as populações de a ves nidificantes numa região minhota. (2001). tenderão também a diminuir a diversidade de aves. aqui é a valiado o impacto do fogo na fauna através do seu impacto na paisagem. P ara tal f oi reunida informação sobre a evolução do uso do solo dur ante o período 1958-1995 e. ao pr omoverem a tr ansformação de flor estas em habitats c om características de mat os. paralelamente. As espécies especializadas num dado tipo de uso do solo estão assinaladas a negro. factores de or dem local). mínima em zonas de matos e intermédia em zonas de floresta (Figura 7). . Como exemplo deste tipo de estudos pode citar-se o trabalho de Moreira et al. Como primeiro resultado. que teve como objectivo avaliar até que ponto a alteração da paisagem. estes autores verificaram que a diversidade de aves era superior em áreas agrícolas. matos altos e matos baixos (a partir de uma análise de correspondências). 40 NÚMERO DE ESPÉCIES 35 30 25 20 15 10 B A IX M O AT S O S A LT O S C O N ÍF ER A S M IS TO S FO LH O SA S IC O A G R LA M AT O S FIGURA EM CIMA: 7 Número de espécies de a ves associadas a dif erentes tipos de uso do solo numa região do Minho. o fogo e a sua int eracção.g. algumas a ves de r apina). necessitando. recolhida informação sobre a abundância e diversidade de aves em 6 categorias de uso do solo nessa mesma área. que são hoje r econhecidos c omo element os tão det erminantes par a a oc orrência e abundância de espécies de fauna como os factores que operam a escalas mais reduzidas (e. os f ogos florestais.g. fragmentação de habitats. agrícolas. Por outr o lado. seria de esperar uma redução na diversidade avifaunística. de diferentes habitats para abrigo/nidificação e alimentação ( e. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA CAIXA 2 O FOGO PODE CONTRIBUIR PARA A BIODIVERSIDADE Recentemente têm sido desen volvidos um númer o cr escente de tr abalhos sobre a resposta das comunidades de fauna (principalmente aves) ao fogo considerando escalas espaciais mais alargadas. 2001). nos últimos 40 anos. etc. (Adaptado de Moreira et al. Com esta abordagem são introduzidos conceitos como heterogeneidade. Num contexto de abandono de práticas agrícolas tradicionais.108 IV. PÁGUINA SEGUINTE: Espécies de aves associadas a zonas florestais.

úteis quer como habitat para algumas espécies. quer como faixas de gestão de combustível para prevenir a ocorrência de grandes incêndios. Relativamente à região da Europa mediterrânica e aprofundando o nível de análise. podem citar-se os trabalhos de Fons et al. Como acções de gestão da paisagem para preservar a diversidade de aves é sugerida a manutenção de ár eas agrícolas e flor estas de f olhosas caducifólias. também na Catalunha. é sugerido o uso mais gener alizado do fogo controlado e do pastoreio.IV. em função d os r equerimentos ecológicos das diferentes espécies envolvidas. considerando o elenco de espécies associadas a cada tipo de uso do solo (Figura 7). se se considerar que só os incêndios podem mant áreas de matos baier xos. mas também matos baixos. de um pont o de vis ta da div ersidade de a ves é pr eferível ocorrerem incêndios de pequena/média dimensão do que a sua ausência. (1993) que monitorizaram a dinâmica populacional da comunidade de micromamíferos de uma floresta de sobreiro da Catalunha (Espanha) nos primeiros 6 anos após o fogo. Estes autores mostram que as espécies presentes . de Arrizabala et al. (1993) que efectuaram investigação semelhante mas para florestas de pinheiro e azinheira por um período de 3 anos. verifica-se que existem espécies especialistas (assinaladas a negro) associadas a agricultura. neste caso sobre os micromamíferos – o g rupo de mamífer os mais estudad o no âmbit o destas questões. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 109 AGRICULTURA PPICA PMONT POCHR MALBA UEPOP CJUNC SUNIC ECIRL CCHLO CCORO MCINE CPALU SSERI HPOLY LARBO STORQ PDOME LCOLL MATOS ALTOS MATOS BAIXOS SCOMM PMODU ECIA CCANN SUNDA CCARD FLORESTAS No entanto. como actividades promotoras da existência de matos baixos na paisagem. Sendo assim. A composição da comunidade de mamíferos ao longo do período pós fogo vai var iar. P aralelamente. florestas. à semelhança das a ves.

da capacidade de dispersão. abundância e tipo de plântulas e sementes. desaparecendo imediatamente após o fogo e ausentando-se por vezes por períodos longos. Prodon et al. A velocidade de r ecolonização dependeu. etc. A maior aptidão dos machos para efectuar dispersões sugere que a colonização das áreas ardidas se faz sobretudo a partir de zonas vizinhas não ardidas (e. bem como a maior disponibilidade de insectos e sementes (e. Os insectívoros são muitas vezes as espécies menos r esistentes. iv) o reaparecimento dos insectívoros (e. ii) uma crescente expansão após o fogo das populações de roedores não florestais (e. até a camada de folhada e fauna insectívora associada regenerar.g.g. a substituição do material queimado por vegetação verde e fresca e possivelmente mais nutritiva.g. reprodução. um ou vários anos após o fogo. os resultados ao nível da comunidade de mamíferos obtidos em vár ios ecossistemas apontam par a um aumento da r iqueza específica e das abundâncias a curto-prazo (cerca de 2-3 anos após o fogo). Em termos gerais.g. 2000). . Tipicamente os principais padrões observados na sucessão de micromamíferos nos estudos realizados na Bacia M editerrânica envolvem: i) uma baixa densidade de micromamíferos imediatamente após o fogo devido possivelmente a mor talidade e limitações alimentar es. que normalmente não existem ou são relativamente raros em áreas não ardidas e evidenciam assim um comportamento oportunístico. iii) o posterior decréscimo em abundância das populações de Mus sp. arbustos e herbáceas. de acordo com a espécie.). plântulas..). há uma tendência para esses parâmetros diminuírem com o aumento da complexidade estrutural da vegetação que ocorre ao longo da sucessão pós-fogo. que pode estar associad o à g rande produtividade da v egetação alguns meses a partir do fogo (rebentos. Mus sp. a Apodemus sylvaticus. A ocupação por parte dos roedores par ece ser infl uenciada pr incipalmente pela e volução da estrutura da vegetação pós-fogo e sua relação com os diferentes requisitos ecológicos destas espécies (e.g.110 IV. Prodon. por exemplo. Apodemus sylvaticus).. Posteriormente. plantas anuais). EFEITOS DO FOGO NA FAUNA responderam ao fogo de mod o diverso. Em relação. e também pelas suas estratégias de dispersão. Crocidura russula). estratégias demográficas e particularmente do nicho ecológico. acompanhando a expansão e o pico de abundância de roedores florestais omnívoros (e. na fase de c olonização a est rutura da população encontra-se desequilibrada com mais machos que fêmeas. presença ou não de árvores.g. 1989).

. Ford et al. desig nadamente fogos c ontrolados. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 111 Relativamente à infl uência do regime de fogo. Em relação à herpetofauna os estudos são mais escassos. lixiviação e sedimentação pós-fogo. a alteração do regime hídrico. Outros possíveis efeitos indirectos do fogo nas populações ou c omunidades de anfíbios estão relacionados com a alteração física (alteração do substracto) e/ou química (aumento das concentrações de nutrientes – e..g. num trabalho realizado numa área de c haparral na América do Norte.g.. Existe também alguma evidência de que a estratégia de recolonização da área ardida por parte destas espécies varie em função da intensidade do fogo. comparativamente com áreas controle. Ford . fósforo. e focand o ainda nos micromamíferos. As espécies mais típicas de ár eas abertas aumentaram ligeiramente nos pr imeiros três anos após o fogo . nitratos) dos habitats aquáticos de que dependem.IV. 1999). são pouc o significativas (e. Os anfíb ios. os estudos existentes sugerem que as alterações ao nível da comunidade ou ao nível de determinadas espécies produzidas pelos fogos menos int ensos. Simovich (1979).. enquanto que as espécies que usavam ou toleravam vegetação mais densa diminuíram. R elativamente a répt eis. por seu la do. A intensidade do fogo parece constituir um factor determinante na dimensão dos efeitos do fogo sobre a herpetofauna. com fogos menos intensos. que originam um mosaic o mais het erogéneo de ár eas queimadas e não queimadas. mas não desapareceram. ou alterações nas populações de invertebrados. 2003).g. 1987. mostrou que as po pulações pós-fogo e voluíram de acordo com a est rutura da vegetação. sendo que nem todos são negativos (Pilliod et al. a proporcionarem uma estratégia de recolonização a partir de refúgios no interior da área ardida (hipótese do refúgio) e os fogos mais intensos a obr igarem a est ratégias de r ecolonização sobr etudo por imigração de áreas adjacentes (Prodon et al. 1993). devido aos fenómenos de erosão. Fons et al. A abundância de répteis foi mais elevada nas áreas recentemente ardidas. o efeito do fogo nas suas populações será tanto maior quanto maior for a intensidade e a fr equência da dest ruição desse se u microhabitat. embora haja algumas e vidências de que a alt eração na est rutura d os habitats ou microhabitats possa infl uenciar est e g rupo. logo. estão muit o associados à camada húmida de manta morta que se acumula sobre o solo e. existindo vários trabalhos que mostram que muitas populações de herpetofauna não parecem afectadas por fogos de baixa intensidade (e.

Prodon et al. tem efeitos marcados nos invertebrados do solo e manta-mor ta. Para além disso. Springett (1976). comparativamente com a camada inferior do solo (e. 1987). alguns autores sugerem que a fauna invertebrada do solo e manta-morta não chega a atingir os níveis pré-fogo por um período de cerca de 5 anos. o que dificulta a sua amost ragem para efeitos comparativos. 1999). Face a todos estes constrangimentos. no âmbito de um . o seu habitat. as metodologias utilizadas para estimar as abundâncias ou densidades deste grupo são também muito diversas e muitas vezes inadequadas. em geral. As características biológicas das espécies. Relativamente à recuperação das po pulações.. pode dizer-se que as abundâncias de muitas espécies de in vertebrados dimin uem depois d o fogo mas podem r ecuperar rapidamente. pois o fogo induz mais alterações físicas e químicas neste micro-habitat. pode favorecer algumas das espécies de her petofauna aquática ou semi-aquática. enquanto que out ros sugerem que o r egresso a esses nív eis se faz mais rapidamente (Whelan 1995). É possível que os in vertebrados da manta-mor ta recuperem mais lentament e as abundâncias iniciais. Por exemplo o fogo em z onas húmidas isoladas. Existem também e vidências de que em determinadas condições o fogo pode até contribuir para o aumento das populações de her petofauna. A redução da camada de manta-morta. Depois. 1999.. comparando as abundâncias de invertebrados da manta-morta antes e após um fogo-controlado em florestas de eucalipto na Austrália. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA et al. No entanto. Os invertebrados constituem um grupo muito diverso. reporta o desaparecimento de cerca de 50% destas espécies e a redução de até 25% na abundância de algumas delas. que ocorre após o fogo. Já Prodon et al.112 IV. frequentemente.g.. 1999). as populações de invertebrados das diferentes espécies exibem também uma grande variabilidade quer no tempo. ao aumentar a área de água aberta e melhorar a estrutura da sua vegetação (Russel et al.. (1989). Há desde logo uma grande diversidade de g rupos e espécies c om diferentes requerimentos ecológicos. a variação nas populações e c omunidades de invertebrados ao longo da suc essão pós-fogo resulta extremamente diversa e não facilment e uniformizável. através da r emoção de pequenos r amos e folhas e respectiva simplificação do habitat. quer no espaço. e as características do fogo irão det erminar a natureza precisa do declínio e a subsequente recuperação da população. Russel et al.

estima numa vintena de anos o tempo necessário para a fauna edáfica (solo e manta-morta) se restabelecer completamente após fogo na região Mediterrânica. a informação que ambos fornecem apresenta limitações. comparativamente com um fogo espacialment e extenso e uniforme. há uma t endência para fogos mais intensos provocarem mais impacto que fogos de menor intensidade. Isto deve-se não só à grande especificidade associada a um fogo num local determinado. data dessas acções. quer das circunstâncias locais (e. Frequentemente. etc. À semelhança do que acontece com os restantes grupos de fauna. Na área ardida mais extensa.IV. compararam a recuperação das populações de gafanhotos acridídeos no mesmo local após fogos de difer entes características e verificaram que a r ecuperação foi m uito mais rápida fac e a um fogo espacialmente menos extenso e de contorno mais irregular. onde a espécie recuperou cerca de 30% dos seus efectivos após igual período. mas também à deficiente descrição quer da metodologia utilizada. O regime de fogo também parece ter uma forte influência na resposta das populações e comunidades de invertebrados ao fogo. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 113 estudo sobre o impac to dos incêndios nas c omunidades de fauna de sobreirais em França. nomeadamente em relação à sua extrapolação a outras situações. Whelan e M ain (1979). Existem também evidências de que as características espaciais do fogo também infl uenciam a r esposta deste grupo. onde a recuperação 6 meses após o fogo foi quase n e as áreas de ula.g. ambos apresentando vantagens e desvantagens. . os mesmos aut ores encontraram ainda diferenças significativas entre a recuperação da espécie junt o ao centro geográfico dessa área. 5.) em alguns destes estudos. orla do fogo. Métodos para avaliar impacto do fogo sobre a fauna A avaliação do impacto do fogo sobr e a fauna pode ser efectuada através de métodos directos ou indirectos. existência ou não de acções de gestão pós-fogo. por exemplo.

do que para os invertebrados. mas apenas inferida através de armadilhagem ou censos. De qualquer forma. de maiores dimensões e logo mais visíveis.114 IV. Por outro lado. onde são observadas grandes concentrações de cadáveres e têm por isso apenas um valor indicati o. dificilmente compav rável com outros trabalhos. Métodos indirectos i) Comparação antes e após o fogo Na maior ia d os estud os. As áreas ardidas são frequentemente extensas demais para se poderem percorrer na totalidade. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA Métodos directos i) contagem de cadáveres Não temos conhecimento de nenhum trabalho na Bacia Mediterrânica que tenha tentado contabilizar o número de cadáveres de animais em áreas ardidas. Urge assim definir uma metodologia prática e que seja facilmente repetível em diferentes regiões e habitats de modo a que os seus resultados possam ser mais facilmente comparáveis e extrapoláveis. sugerem que esta é apenas efectuada muito esporadicamente. pela diferença na dimensão da população antes e depois do fogo. a mor talidade pós-fogo d os animais não é medida directamente. o seu comprimento ou a sua área. As principais vantagens desta metodologia consistem . O número elevado de cadáveres contabilizados nos trabalhos publicados e a ausência de descrição de uma metodologia concreta para essa quantificação. exige disponibilidade imediata logo após o fogo. Para este grupo as dimensões dos transectos ou quadrados teriam de ser fortemente reduzidas para se adaptar em à sua escala espacial. O seu número. os resultados obtidos referem-se apenas ao impacto do fogo a muito curto-prazo. em situações excepcionais. A principal vantagem destes métodos directos consiste na sua rápida execução (nos primeiros dias pós-fogo). Esta met odologia ser ia mais indicada par a os v ertebrados. uma vez que passado pouco tempo uma parte dos cadáveres podem ser removidos por predadores e/ou necrófagos. A utilização de transectos ou de quadrados pode constituir uma boa estratégia de amostragem para este tipo de objecto de estudo. (conforme sejam transectos ou quadrados) e a sua localização seriam definidos em função do(s) grupo(s) de fauna a amost rar e da localização e e xtensão da área ardida. ou pela diferença entre uma parcela queimada e uma par cela não queimada (de controle).

uma vez que implica pelo menos 2 períod os de amost ragem. em zonas não ardidas semelhantes à zona ardida (zonas de controle). o esforço de campo poder r eduzir-se c onsideravelmente. etc. isto é. r esumindo-se ao mapeamento dos habitats. c omo mat os. tornando-se tanto mais dispendioso quanto mais períodos de amostragem forem considerados. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 115 numa maior flexibilidade temporal do trabalho de campo. no entanto. Este tipo de abordagem será particularmente indicado para espécies com elevado grau de associação a um determinado habitat (especialistas). água. florestas caducifólias. Adicionalmente. constituem. numa primeira fase. abrigos). e para todos os grupos animais. pode r ealçar-se o fac to de. este trabalho de monitorização é mais dispendioso. uma excepção a esta última limitação. uma análise indir ecta do efeito fogo nas espécies at ravés do seu efeito no habitat. médio e longo-prazo). (2001). usaram o c onhecimento das r elações espécie-habitat a esse nív el. zonas agrícolas. o que constitui uma fonte adicional de variabilidade. de acordo com os objectivos do trabalho. Os fogos-controlados.IV. posteriormente. como é difícil de prever a ocorrência de incêndios. Como vantagens desta abor dagem. Para além disso. o estudo das relações espécies-habitat e. os resultados obtidos deste modo não permitem distinguir entre animais mortos pelo fogo e animais que aband onaram o local devido à deterioração das condições no pós-fogo (falta de alimento. Por outro lado. e na possibilidade de obt enção de resultados a diversas escalas temporais (curto. par a prever o impacto do fogo na comunidade de aves (Caixa 2). a amost ragem de fauna pré-fogo é nor malmente conduzida à posteriori. devido à sua previsibilidade. não tem de ser efec tuado logo após o fogo . nos casos em que existe boa informação de base sobre relações espécie-habitat. adequando-se perfeitamente a este tipo de metodologia. ii) Relações espécies-habitat Outras formas indirectas de avaliar o impacto do fogo podem incluir. Moreira et al. . num estudo sobre o impacto do fogo nas comunidades de aves à escala da paisagem. Podem também fazer-se associações entre determinadas espécies/grupos de espécies e habitats mais abr angentes.

4. 5. As respostas das populações animais ao fogo dependem sobretudo da interacção entre as características do regime de fogo (intensidade. fogos que cr iem um mosaico de áreas queimadas e não queimadas ou um mosaico de áreas queimadas em diferentes datas. De facto. época. Notas finais: implicações para a gestão Podem resumir-se nos seguintes pontos os principais aspectos abordados neste capítulo que têm implicações para a gestão de áreas ardidas: 1. Espécies com nichos ecológicos mais estreitos tendem a ser mais afectadas relativamente a espécies mais ubíquas ou generalistas. 2. 3. Fogos homogéneos e de g randes dimensões podem ser muit o impactantes par a a fauna. bem c omo de manc has não ardidas. fogos menos int ensos. contribuindo assim par a aumentar a di versidade à escala da paisagem.) e as características ecológicas das espécies. Esse impac to pode ser negativo ou positivo consuante as espécies. aumentando a disp onibilidade de habitats que não estariam disponíveis de outra forma e aumentando a diversidade biológica (em comparação com uma paisagem sem fogo). etc. Relativamente à gestão pós-fogo podem destacar-se dois aspectos: i) a importância para a fauna da manutenção de algumas árvores em pé ( snags) e de t roncos caídos no solo (sobr etudo árvores e troncos de g randes dimensões). devido à sua importância como refúgio para a fauna no . em pequena escala (relativamente à extensão da paisagem). o impacto do fogo na fauna é menos g ravoso do que é vulgarmente assumido. Em geral. o fogo pode ser uma font e de het erogeneidade paisagística. A alteração de habitats e d os recursos alimentares constituem o principal impacto do fogo sobre a fauna. Frequentemente. 6. poderão permitir a co-existência de espécies c om difer entes r equerimentos ec ológicos. mais het erogéneos. dimensão.116 IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 6. N o entant o. de menor velocidade de propagação e menor dimensão geográfica provocam alterações menos pr ofundas nas c omunidades animais e estas recuperam mais rapidamente.

incluindo grandes herbívoros (e. uma espécie de ave de elevado valor cinegético. quer à escala da paisagem – contribuindo para a criação/manutenção da diversidade da paisagem (mosaic o paisagístico) e consequentemente para a diversidade faunística. perdiz) ou na gestão de habitat par a espécies protegidas.g. veados. desde há quase um século que matagais de urz e são ger idos de mod o a maximizar a dimensão das populações de lagópode-esc ocês (Lagopus lagopus scotica). Possíveis aplicações desta técnica entre nós incl uem a gestão de habitat par a espécies de int eresse cinegético. através da queima de pequenas par celas. e de áreas recentemente ardidas onde obtêm aliment o de qualidade. Por exemplo. por exemplo combinada com o pastoreio. Por último. ii) algumas espécies da fauna (sobretudo as de menor dimensão) podem beneficiar de acções de gestão pós-fogo como a utilização de resíduos orgânicos para evitar a erosão do solo. contribuindo assim para a redução do risco de grandes incêndios. por exemplo mantendo ou criando áreas abertas que abrigam muitas espécies de a ves de ele vado de estatut o de conservação. O fogo controlado pode constituir uma importante ferramenta de gestão do habitat para a fauna.IV. quer a nível local. na Escócia. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 117 pós-fogo. de r eferir que a aplicação desta técnica pode ser ainda integrada localmente com objectivos de gestão de c ombustíveis ao nível da paisagem.g. par a que os animais beneficiem sim ultaneamente de zonas de mato desenvolvido para abrigo. 7. coelho. corços) ou outras (e. .

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Restauro (sensu strictu) 3.3. Fase intermédia 4. Restauro activo.2. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO RAMON VALLEJO FRANCISCO MOREIRA 1.1. Reabilitação 3.1.3.121 PRINCIPIOS GENÉRICOS DE GESTÃO PÓS-FOGO V.5. A importância da monitorização . reabilitação e substituição 3. Como planear o restauro 4. Conceitos de restauro. Introdução 2. O que fazer a seguir a um incêndio? Prever a resposta dos ecossistemas e definir objectivos de gestão 3.4.4. Identificação de áreas vulneráveis 4. Intervenção de emergência 4. Avaliação de impactos in situ 4. Decisões no planeamento pós-fogo: da intervenção vv de emergência à recuperação de longo prazo 4.6.5. passivo e de emergência 3. Substituição 3.2. Fase de recuperação a longo prazo 4.

. obrigando a repensar as práticas históricas que for am dur ante m uito t empo ensinadas aos técnic os florestais. quando o fazer? e E utilizando que técnicas? Mas. havendo inúmeros programas e incentivos financeiros a esta prática. para quê? Com que objectivos queremos intervir numa área ardida? . para além de pr ovidenciarem emprego nas ár eas rurais. Introdução A estratégia tradicional de restauro de áreas degradadas na região mediterrânica. desde meados do século XX. sobretudo nas áreas ardidas) e na falta de capacidade técnica e financ de as concretizar no terreno. A lógica do “arderam 5000 hectares. bem como à excessiva simplificação na previsão das trajectórias de sucessão ecológica esperadas (basta pensar na ocorrência crescente de espécies exóticas invasoras. visavam sobretudo aumentar a produtividade florestal. foi baseada na florestação com coníferas. é muito superior. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 1. os gestores florestais e os políticos deparam-se com uma série de questões que podem não t er uma resposta óbvia: Devemos reflorestar? Toda a área afectada? Apenas uma parte? Ou será melhor não fazer nada? E caso se decida efectuar alguma int rvenção. mas também proteger os recursos hídricos e fixar dunas. ainda hoje visível na primeira reacção de muitos políticos após um incêndio.quer relativamente aos objectivos de gestão para uma área ardida. quer às técnicas silvícolas disponíveis para o gestor florestal. 2004). sobretudo.122 V. Esta abordagem tradicional acabou por ter uma eficácia bastante pobre. Estas arborizações. mas nós vamos rearborizar 5000 ha”. durante muito tempo. O que fazer a seguir a um incêndio? Prever a resposta dos ecossistemas e definir os objectivos de gestão Após um incêndio. Neste capítulo são sintetizados alguns conceitos básicos de restauro ecológico e de planeamento da gestão florestal pós-incêndio. mais características de fases avançadas da sucessão ecológica (Pausas et al. 2. devido ao regime de perturbação que uma maior frequência de incêndios impôs. expressa um argumento simplista que não faz sentid o no contexto actual. em Portugal e Espanha. eira Hoje em dia a panóplia de possibilidades. Inerente a esta estratégia estava também o conceito de que a estratégia de restauro de áreas degradadas passava pela introdução de uma espécie pioneira de crescimento rápido – uma resinosa – que facilitaria a introdução posterior de folhosas.

Os objectivos de gestão para uma área ardida. TIPO DE ECOSSISTEMA RESPOSTA DOS ECOSSISTEMAS SEVERIDADE DO FOGO DEFINIÇÃO DE OBJECTIVOS PARA A ÁREA ARDIDA DEFINIR A ABORDAGEM DE GESTÃO PÓS-FOGO Regulação hidrológica Fixação de dunas Aumentar produtividade florestal Melhorar a economia rural Biodiversidade Valores ecológicos Combater a desertificação Mitigar alterações climáticas Valor cultural e de recreio Valor cénico Prevenção de incêndios etc FIGURA 1 A definição da es tratégia de gestão pós-fogo depende da r esposta esperada dos ecossistemas. Desta forma. por sua vez.1). já que dele depende a panóplia de acções de intervenção que o gestor pode estar interessado em aplicar (Figura 1). em conjunto com uma análise da intensidade e severidade do incêndio. . CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 123 A resposta a estas questões depende de duas variáveis fundamentais: (a) a nossa capacidade de pr ever a resposta dos ecosistemas afectados pelos incêndios e (b) os objectivos de gestão definidos para a área ardida. a fixação de carbono. Estes são frequentemente definidos a uma escala local ou regional. senso lato. Este segundo aspecto é essencial. det erminada pelo tipo de v egetação e pela se veridade do f ogo.V. melhorar a produtividade florestal e. Os impactos dos incêndios dependem das características do fogo e das características dos ecossistemas afectados (mais detalhes em 4. a mitigação das alterações climáticas. podem ser bastante diversos conforme as situações. sobretudo em regiões secas e com baixa produtividade madeireira. a prevenção de incêndios ou o uso multifuncional da floresta (Figura 1 e Caixa 1). melhorar a economia das populações rurais. Os objectivos produtivos foram perdendo importância. De um ponto de vista genérico. e dos objectivos definidos para a área ardida. a capacidade de pr ever a resposta dos ecossistemas depende do grau de conhecimento científico que temos sobre o tipo de flor esta ou vegetação afectada pelos incêndios. tais como o combate à desertificação. o aumento da biodiversidade. A estes objectivos juntam-se actualmente novos objectivos. que podemos considerar ser bastante razoável para o contexto ibérico em que nos inserimos. os objectivos “tradicionais” eram a regulação hidrológica. fixação de dunas.

Inclui o enquadramento de aglomerados urbanos. protecção contra erosão hídrica e cheias (e. Neste contexto. raízes). frutos e sementes (e. fixação de vertentes. o enquadramento de infraestruturas (vias de comunicação.) e usos especiais (e. resinas. Inclui funções como a protecção da rede hidrográfica (protecção das margens. protecção contra a erosão eólica (e. campos militares. e (4) no conhecimento da vontade e das expectativas dos proprietários. monumentos e equipamentos turísticos. Protecção: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para a manutenção das geocenoses e das infraestruturas antrópicas. intercepção de nevoeiros). as orientações es tratégicas para a r ecuperação das áreas ardidas definidas na sequência dos gr andes incêndios de 2003 e 2004 (OER. de organização territorial e de infraestruturação mais adaptados a cada caso . protecção contra incêndios. estabelecimentos prisionais). filtragem de partículas e poluentes atmosféricos.g. pesca e pastorícia. (2) na avaliação da potencialidade das es tações. planos flor estais e planos especiais. 2005) CAIXA 1 Num contexto nacional. medronho). folhagens. biomassa para energia. castanha. e o suporte à pesca nas águas interiores. incluindo as dec orrentes dos planos municipais. Inclui o suporte à caça e conservação de espécies cinegéticas. Inclui funções c omo a produção de madeira (e.g. os objectivos de gestão pós-fogo podem ser enquadrados nas seguintes funções dominantes: Produção: t em c omo objectiv o a c ontribuição dos espaços flor estais par a o bem-estar material das sociedades rur ais e urbanas. protecção e segurança ambiental (e. pinhão. fixação de CO2). cogumelos). o r ecreio. Recreio.g.g. recuperação de solos degr adados. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO FUNÇÕES DOMINANTES DA FLORESTA PORTUGUESA (OER. manutenção da qualidade da água).g. psíquico.124 V.g.g. zonas industriais. a conservação de espécies da fauna e flora. cortiça. caça e pesca nas águas interiores: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para o desenvolvimento da caça. vimes. amortecimento de cheias).g. 2005) definir am que a int ervenção deverá identificar as funções dos espaços florestais e os modelos de silvicultura. Silvopastorícia. fixação das areias móveis). outros materiais vegetais e orgânicos (e. a conservação de geomonumentos (e. para além da legislação geral. bem como de habitats. etc. toros.g. jazidas paleontológicas). enquadramento e estética da paisagem: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para o bem-estar físico. Conservação de habitats. . suporte à pastorícia e apicultura. protecção microclimática (e. a c onservação de paisagens notáv eis.protegidos. correcção torrencial. de espécies da f auna e da flora e de geomonumentos: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para a manutenção da diversidades biológica e genética e de geomonument Inclui funções como os. rolaria. compartimentação de campos agrícolas. (3) na integração das c ondicionantes socio-territoriais. conservação de recursos genéticos. os quais deverão ser definidos com base (1) na avaliação do efeito do fogo nos ecossistemas. espiritual e social dos cidadãos.

mas é possív el seleccionar alguns com ampla aplicação geográfica (e. o termo é mais amplo. ecotipos e proveniências. e extremamente variáveis conforme o nível de degradação dos ecossistemas.V. . Melhorar a resistência e resiliência dos ecossistemas ao fogo. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 125 Esta difer ença de atitudes r eflecte-se também no sig nificado da terminologia utilizada. no caso de uma área florestal ardida. No passado uma “acção de r estauro florestal” confundia-se com uma florestação ou reflorestação. até à ausência de qualquer acção de r estauro activo. considerando que a vegetação mediterrânica será provavelmente afectada pelos incêndios do mesmo modo que o foi no passado ou com maior intensidade ainda. por exemplo. podendo incluir desde técnicas de int rodução de espécies her báceas. Vallejo et al. Para atingir este objectivo deve ser e xplorado o potencial das espécies nati vas. e em contraste com outras regiões mediterrânicas onde o pr oblema nem se coloca. a c olonização de ár eas ardidas por espécies e xóticas invasoras representa uma pr eocupação crescente para os gest ores florestais e um desafio para a comunidade científica. ar bustivas ou arbóreas.. a confirmarem-se os cenários de mudança global. e os constrangimentos socio-económicos. e está na base da maioria das intervenções de emergência após o fogo. Os objec tivos ac tuais d os pr ogramas de r estauro em ec ossistemas mediterrânicos afec tados por incêndios são di versos. Promover florestas e matorrais adultos (onde não houver condições para florestas) com capacidade de autoregeneração. Este objectivo é prioritário. o contexto geográfico e climático. passando pela eliminação de espécies não desejadas. No caso português.g. sobretudo florestas de folhosas que escasseiam nas paisagens da bacia do mediterrâneo. Para além destes objectivos globais existem frequentemente objectivos locais mais específicos. Promover a biodiversidade e a reintrodução de espécies-chave que desapareceram devido à intervenção humana nos ecossistemas. 2006): Conservar o solo e a água. uma vez que o solo é um recurso primário não renovável (ou renovável mas a muito longo prazo). exposto aos riscos de degradação e erosão após o fogo. Presentemente.

Outras definições mais específicas têm. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 3. reabilitação e substituição. tendo em conta a sua estrutura e as funções.. Conceitos de restauro. Esta definição implica a recriação de um ecossistema predeterminado a partir do ecossistema degradado. (2006). sido desenvolvidas (Allen. Aronson et al. . 1984). Bradshaw. deteriorados ou destruídos.org) em 2004. o restauro permite estancar a degradação do ecossistema.126 V. reabilitação e substituição As est ratégias de r estauro de ec ossistemas têm c omo pr incípio genérico “imitar “ a natureza e “acelerar” a sucessão ecológica. com vários estados e transições possíveis (Figura 2B). apoiando a regeneração através de uma sequência de etapas que pr imitivamente se designavam de sucessão secundária e se supunham lineares (Figura 2A). FUNÇÕES DO ECOSSISTEMA Substituição BIOMASSA E NUTRIENTES ECOSSISTEMA ORIGINAL Restauro Reabilitação ECOSSISTEMA DEGRADADO ESPÉCIES E COMPLEXIDADE Trajectória de regeneração esperada ESTRUTURA DO ECOSSISTEMA FIGURA 2A Modelo clássico da evolução linear dos ecossistemas e dos conceitos de restauro. De acordo com a definição da Society for Ecological Restoration (www. promovendo ao mesmo tempo a sua regeneração. sendo mais frequente uma situação em que existem relações não lineares. Aqui será utilizada a terminologia de Bradshaw (1995) e Vallejo et al. 1993. Estudos posteriores vieram mostrar que esta e volução na est rutura e função dos ecossistemas frequentemente não é linear. 1995) no sentido de formalizar o conjunto de est ratégias existentes para a int ervenção em ec ossistemas degradados. porém. (Adaptado de Bradshaw. 1988.ser. o restauro ecológico é o processo de auxílio à recuperação de ecossistemas que se encontram perturbados. Em t ermos gerais.

por exóticas de crescimento rápido. A dificuldade óbvia desta abordagem consiste em conhecer com exactidão a situação ecológica anterior à perturbação. é mais frequente pôr em prática acções de reabilitação que procuram alcançar um funcionamento ecológico semelhante ao d o ecossistema pré-perturbação (Figura 2A). .2. frequentemente mais simples que o or iginal e por v ezes mais produtivo. Podemos também designá-la como o processo de assistência à recuperação de ecossistemas degradados (Figura 2A). Reabilitação Em alternativa ao restauro. especialmente na bacia d o Mediterrâneo onde os ec ossistemas sofreram transformações profundas durante séculos.3. e em que existe mais do que uma possibilidade de chegar a um dado estado de desenvolvimento do ecossistema. (Adaptado de Cortina et al. Substituição Neste caso o objec tivo é construir um novo ecossistema (Figura 2A). como o caso da substituição de charnecas por pastos agrícolas mais produtivos com baixa biodiversidade. 3. Restauro (sensu stricto) Visa a reconstrução do ecossistema original anterior à per turbação. a caracterização do ecossistema original é feita a partir de ecossistemas de referência que subsistem em pequenas áreas não perturbadas.V. não linear. 3.1. Na prática. 3. 2006). A plantação de pinheiros em zonas cuja espécie nativa é a azinheira constitui um exemplo de reabilitação. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 127 FUNÇÃO DO ECOSSISTEMA ESTADO 3 ESTADO ESTADO 5 2 ESTADO 1 ESTADO 4 ESTRUTURA DO ECOSSISTEMA FIGURA 2B Modelo mais actual.. ou por outra espécie florestal.

Esta abordagem é frequentemente menos dispendiosa. com um tipo de solo bastante erosionável. Lamb and Gilmour. e consiste em proteger as áreas em regeneração de out ras perturbações. 2005. 2000. obrigando a operações de retancha. apesar de poder implicar alguma intervenção (o que se designa por vezes de restauro assistido). Consequentemente... Restauro activo. recorre-se geralmente a sementeiras ou plantações. a mobilização e r iscos de erosão do solo são menores. é particularmente eficaz. já que podem implicar a pr eparação do local. seleccionar as var as a manter e as que de vem ser eliminadas. 2005). nomeadament e em ár eas c om decli ves acentuados. a aquisição e t ransporte de plantas ou sementes de viveiros ou outros locais. protectores individuais. O restauro passivo é basead o no apr oveitamento da e xistência de regeneração natural. já que as plantas que estão a r egenerar têm um sist ema radicular bem desenvolvido e com reservas energéticas armazenadas que lhes conferem uma grande probabilidade de sobrevivência e potencial de crescimento. ou espécies e xóticas invasoras) (ver Capítulos VI e XII). torna-se óbvia a maior relação esforço-benefício desta estratégia ainda pouco utilizada em muitas regiões. para além disso. 2003. ou ainda c ontrolar a vegetação não desejada (matos.128 V. O restauro passivo não necessita de preparação de solo nem de equipamento pesado. fertilização. Duryea. Gardiner and Oliver. 2006). A utilização da rebentação de toiça. 2003.g. Mansourian et al.4. do gestor florestal. Para além disso. e onde se espera . proporciona taxas de sobrevivência e crescimento geralmente superiores ao restauro activo (ver Capítulo XII). proveniente de sementes ou rebentamento de toiça. passivo e de emergência O restauro activo exige uma intervenção mais exigente. permitindo o desenvolvimento da vegetação através de processos sucessionais natur ais (Lamb and Gilmour . a utilização de equipament o pesado. Vallejo et al. os níveis de sobrevivência das plântulas e plantas jovens são frequentemente bastante baixos. O restauro de emergência justifica-se quando existe um risco elevado de oc orrer er osão do solo . e m uitos recursos humanos (e. Estas técnicas apr esentam alguns inconvenientes. Se considerarmos que. e onerosa. Em acções de r estauro activo. evitar a presença de animais her bívoros. por exemplo para evitar uma quantidade excessiva de regeneração (efectuando desbastes). CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 3. em particular. num contexto florestal.

perante um ecossistema que não atingiu um estado de degradação muito avançado e quando o objectivo do restauro é re-estabelecer o ecossistema previamente existente. Em ger al. Além disso. mas a maior par te é desc onhecida ou inc erta (espécies de plantas pouco frequentes.5. Como planear o restauro? Na discussão que se segue o t ermo r estauro será usado par a nos referirmos tanto a reabilitação como a restauro (sensu stricto). As técnicas normalmente utilizadas nestas int ervenções são as sement eiras ou a aplicação de mulching.. nutrientes e propágulos. (1993) enumeraram alguns atributos fundamentais da estrutura e função do ecossistema que deverão ser restabelecidos por intermédio do restauro. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 129 uma baixa capacidade de r egeneração rápida da v egetação. assume-se que é possível a regeneração espontânea do mesmo pela simples remoção dos factores antrópicos (incluindo o fogo) adversos (Aronson et al. Podem ser também usadas outras técnicas como estruturas de obstrução (troncos deitados. as acções de r estauro são necessárias quando a regeneração natural é incerta ou demasiado lenta para os objectivos pretendidos e. r esíduos lenhosos r esultantes de desbast es ou desramações). particularmente. microrganismos. etc). Os ecossistemas degradados perderam alguns dos componentes-chave do ecossistema original. é necessário projectar a intervenção. bem como diminuir a velocidade de escorrência da água (ver Capítulo X). qualquer material que proteja a superfície do solo (e. Alguns são evidentes (certas espécies estruturais: as espécies principais de ár vores e ar bustos e a macr ofauna directamente associada). 3. etc. quando há a necessidade de evitar a progressão da degradação ou o r isco de desastres. nos ecossistemas degradados algumas funções ou as respectivas taxas encontram-se alteradas.) cujo objectivo é reter a matéria orgânica. Alguns pr incípios básic os no planeament o d o r estauro de ecossistemas degradados são de ampla aplicabilidade: .g . palha. Neste contexto. ou seja.V. Após identificada a necessidade de restauro e definidos os objectivos para a área a restaurar. Aronson et al. Há no entanto situações em que o nív el de deg radação é de tal for ma a vançado que o ecossistema não consegue regenerar sem uma intervenção mais activa. 1993). pilhas de r esíduos florestais.

uma vez que pode ha ver saltos e mais d o que um caminho possível de sucessão (Figura 2B). não é correcta (Cortina et al. A recuperação baseia-se essencialmente na introdução de uma ou mais espécies chave. na qual se baseou uma d outrina de r estauro seguida dur ante muito tempo. 1987). O resultado final da recuperação deverá idealmente ser um ecossistema auto-sustentável (Bradshaw. ou seja. num contexto mediterrânico. e requer portanto o conhecimento dos parâmetros críticos que governam o funcionamento do ecossistema. desenvolvem o subc oberto. espécies que modificam o habitat. . a sucessão secundária. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 1.130 V. Assume-se que estas espécies melhoram as propriedades do solo.. 1994). deixando depois a natur eza prosseguir. 3. 1987) porque não são essenciais. Em par ticular. podem ser dispensados das práticas de r ecuperação (Ashby. natural ou artificial. etc. a visão linear da evolução dos ecossistemas. Esta estratégia assume a teoria da facilitação na sucessão. A estratégia de restauro consiste em imitar a natureza (Jordan et al. melhoram o micr oclima. tipicamente árvores ou arbustos altos. isto é. em que se preconizava uma utilização inicial de coníferas pioneiras com a perspectiva de facilitar a entrada posterior. alguns passos intermédios no processo de restauro. 2. Um exemplo da abordagem destas questões de restauro. Assim sendo. 1995). de folhosas assumidas como espécies tardias na sucessão. pode ser visto na Caixa 2. espécies que ac tuam como “engenheiros do ecossistema” (Jones et al.. A abordagem genérica em tecnologias de recuperação resume-se a introduzir alguns componentes chave (keystone species) que ac eleram a suc essão. baseada no conceito clássico de sucessão secundária.. cujo papel na estruturação do ecossistema é considerado crítico. facilitam indirectamente a importação de sementes através da fauna. No entanto. 2006).

tendo por base as orientações acima pr opostas para o restauro de áreas ardidas.1996).V. . CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 131 RESTAURO PÓS .FOGO EM PAISAGENS SUSCEPTÍVEIS À DESERTIFICAÇÃO CAIXA 2 A estratégia que se apresenta de seguida (Figura 3) foi desenvolvida para a região de Valência. Sementeira + cobertura de material orgânico SOLOS DEGRADADOS PRADOS Plantações de arbustos de regeneração vegetativa VEGETAÇÃO DISPERSA. (Adaptado de Vallejo. MATOS BAIXOS OU PLANTAÇÕES ARDIDAS DE PINHEIROS JOVENS MATOS ALTOS /MAQUIS Plantação combinada de pinheiros e carvalhos MATOS BOSQUE FIGURA 3 Estratégia de restauro pós-fogo na Região de Valência.

det erminada pela es trutura da planta (densidade e quantidade de c ombustível). A título e xemplificativo. No decurso da r egeneração do ecossistema as espécies introduzidas foram progressivamente substituídas pelas nativas. . deverá relacionar-se com a inflamabilidade das espécies.. Na tradição florestal esta operação é executada sequencialmente (Montero e Alcanda. com o objectivo de diminuir o risc o de incêndio e melhorar a resiliência e estrutura do ecossistema. 1996. introduzindo-se primeiro o pinheir o e só depois as f olhosas. 1991). A resistência ao fogo. sobretudo em po voamentos adultos onde se acumula muit o mat erial c ombustível. a es trutura da v egetação e as características da manta morta. Quercus coccifera. Ao nível da comunidade. 1986) e conferem ainda resiliência ao ecossistema (Ferran et al. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO CAIXA 2 Sementeira de emergência Esta operação foi aplicada em solos com declives acentuados e com fraca capacidade r egenerativa de modo a mitigar a det erioração do solo após o incêndio. definida para cada espécie separadamente. o t eor de humidade . Pretendeu-se combinar as características de crescimento rápido dos pinheiros em áreas degradadas com a elevada resiliência introduzida pelas azinheiras. a pr oporção de biomas sa morta. mediante a c omposição em espécies. Algumas espécies de arbustos altos consideradas resistentes e resilientes ao fogo foram introduzidas com sucesso. e a pr esença de subs tâncias que ac entuam ou diminuem a inflamibilidade ( compostos orgânicos voláteis. em condições sub-húmidas e semi-áridas onde essas espécies não es tavam presentes. o que mos tra que as primeiras não se comportaram como invasoras. numa perspectiv a de redução de custos e de aumento da viabilidade destas operações. e Pistacia lentiscus e Rhamnus alaternus mostram baixa inflamibilidade. Estas áreas correm o risco de regredir para solos degradados na sequência de f ogos recorrentes. No entant o. 1996). Erica multiflora. foi efectuada a plantação simultânea dos dois tipos de espécies.. de f orma a obter-se uma rápida pr otecção do solo (Bautista et al. 199 3). resinas). Vallejo. a resistência deverá relacionar-se com a c ombustibilidade do ecossistema. Rhamnus lycioides e Juniperus oxycedrus são consideradas medianamente inflamáveis. Esta prática reduz significativamente o escoamento e as taxas de erosão durante os primeiros dois anos após o incêndio.132 V. Plantações de árvores e arbustos de regeneração vegetativa Esta prática pretendeu aumentar a resiliência e resistência dos matos susceptíveis ao fogo (frequentemente localizados em antigos campos agrícolas) dominados por espécies de r egeneração por sement e e que se c omportam normalmente como acumuladores de combustível. Ulex parviflorus é considerada altamente inflamável. Plantação combinada de resinosas e folhosas Este procedimento foi usado para o restauro de florestas adultas. Consiste em aplicar uma c obertura de r esíduos orgânicos (mulch) e semear espécies herbác eas. As árvores e arbustos de r egeneração vegetativa são muit o resilientes ao f ogo (Keeley.

. sequenciais. d) fase intermédia.V. FASE 1 IDENTIFICAR ÁREAS VULNERÁVEIS Com base no tipo de vegetação. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 133 4. valores em risco FASE 2 AVALIAR IMPACTOS DO FOGO Requer a avaliação pós-fogo da severidade. reflorestação. análise da resposta da vegetação ao fogo. gestão florestal FIGURA 4 Enquadramento das acções de gestão pós-fogo e restauro de áreas ardidas. e) fase de recuperação. solo. etc. c) intervenções de emergência. FASE INTERMÉDIA FASE 5 FASE DE RECUPERAÇÃO Planeamento à escala da paisagem. ordenamento do território. pragas ou doenças FASE 4 Recolha de salvados. Podemos distinguir diferentes fases. análise de ocorrência de pragas. na definição de uma estratégia de intervenção pós-incêndio (Figura 4): a) a identificação de áreas vulneráveis. riscos para bens e pessoas. Decisões no planeamento pós-fogo: da intervenção de emergência à recuperação de longo prazo. b) a avaliação de impactos in situ. topografia. através de detenção remota ou trabalho de campo FASE 3 MONITORIZAÇÃO INTERVENÇÕES DE EMERGÊNCIA Com o objectivo de evitar erosão.

a cartografia dos valores em risco (infra-estruturas. os gestores florestais possuem ferramentas que lhes per mitem cartografar a vulner abilidade das ár eas sob sua gestão e identificar as áreas prioritárias para intervenção após o fogo. c om objectivos de protecção do solo contra erosão. Os dados necessários para esse planeamento consistem em informação cartográfica sobre a vegetação. etc.) deve ser integrada na identificação das áreas vulneráveis. Ainda nesta fase. em caso de incêndio. que naquele contexto geográfico foi considerada sempre alta com excepção dos povoamentos jovens de Pinus halepensis. 2006). tipo de solo e declives da área. Para a região de Valência (Espanha).134 V. foi utilizada uma ferramenta SIG de identificação de áreas vulneráveis ao fogo. áreas particularmente sensíveis. baseada na combinação de cartografia que combinava a capacidade de regeneração da vegetação com factores de risco de degradação ambiental (Allosa e Vallejo. zonas com interesse cultural. simultaneamente.1. Identificação de áreas vulneráveis Mesmo antes da ocorrência de incêndios. e a taxa de r egeneração (velocidade com que se dá a r egeneração). uma baixa capacidade de regeneração e um elevado risco de degradação (Allosa e Vallejo. Os factores de r isco de deg radação ambiental foram calculados como uma combinação do risco de erosão (a partir da USLE) e da intensidade do período seco na região (3 categorias). . A capacidade de regeneração foi baseada em 2 variáveis: o potencial de autosucessão (capacidade de regeneração da vegetação após um incêndio). Informação adicional sobre a severidade do fogo pode depois ser adicionada imediatamente a seguir ao fogo para determinar ár eas pr ioritárias par a int ervenções de emergência. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 4. definida em função da per centagem de espécies rebrotadoras e germinadoras de semente que ocorrem nos diferentes tipos de v egetação. A cartografia de vulnerabilidade dos ecossistemas ao fogo r esultou da combinação destas 4 camadas de informação e permitiu identificar as áreas prioritárias para intervenção de emergência e recuperação a longo prazo. 2006). Estas áreas correspondem a locais com. que permitem mapear a vulnerabilidade.

a severidade do fogo só pode ser avaliada após este ocorrer. vai permitir definir as áreas prioritárias para intervenções de emergência. sinopse das condições meteorológicas durante o incêndio. são dadas recomendações de acções a tomar. climatologia e condições meteorológicas anteriores ao incêndio. descrição genérica de níveis de severidade.3. e recomendando desde logo intervenções urgentes em locais específicos. geologia. devem ser efectuadas no prazo máximo de poucos meses após o incêndio. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 135 4. todos os incêndios com uma área superior a 100 hectares são visitados no espaço de 2 semanas por uma equipa que faz um relatório sumário de avaliação de danos (em particular a severidade do fogo).V. 4. um fogo com baixa intensidade e severidade pode implicar um risco muito baixo ou nulo de erosão e perda de solo. em particular dos padrões espaciais da severidade dentro da área ardida. em particular prevenir os processos de deg radação. breve descrição da resposta esperada de diferentes tipos de vegetação e do risco de erosão. A informação sobre severidade pode ser r ecolhida através de det ecção remota ou observação directa no campo. tentando identificar as áreas com elevado risco de erosão e fr aca capacidade de r egeneração. Estes relatórios apresentam dados sobre a localização e limit es da área ardida. extracção da madeir a queimada e monit orização da resposta da vegetação. tais como o seguimento de focos de escolitídeos. tipos de v egetação afectada.1). . ocorrência de fogos ant eriores na mesma z ona. Esta informação. identificação de áreas sensíveis de um pont o de v ista biológico e de oc orrência de infr aestuturas. Intervenção de emergência Estas intervenções. A primeira abordagem ainda apresenta vários problemas metodológicos. em conjunto com a da fase anterior (4. acções de protecção do solo. particularmente do solo e da qualidade da água. à escala do projecto de restauro. Avaliação de impactos in situ Mesmo se uma dada ár ea foi identificada c omo muito vulnerável a incêndios. Na região de Valência. pelo que a observação directa pode ser mais expedita e eficaz. quando necessárias. imediatamente após os incêndios deve ser feita uma avaliação expedita dos danos.2. Finalmente. a curto e médio prazo. Desta forma. Obviamente. com o objectivo de minimizar os potenciais impactos negativos do fogo.

4. Com frequência crescente. . devido à elevada produtividade das estações (nomeadamente no centro e norte do país).5. Exemplos incluem desbastes para controlar a regeneração excessiva ou acções para minimizar a invasão por espécies exóticas. e os objectivos preconizados para a área ardida. em particular em pinhais). Neste contexto. Para além disso. as intervenções de emergência deveriam começar ainda na fase de combate ao incêndio. nalgumas regiões a selecção da(s) espécie(s) para eventuais reflorestações tem de sair do âmbito restrito das espécies arbóreas e incluir igualmente espécies arbustivas. como é hoje visível em muitas áreas de pinhais adultos que arderam nos incêndios de 2003 e 2005. isso não ser previsível.4. acções de recuperação biofísica e mesmo já à r eflorestação de zonas mais sensíveis. ou outras acções. repondo rapidamente a carga de combustível. nalgumas situações ocorre regeneração excessiva. entre outras acções. questões paisagísticas (diminuição do impacto visual). Pelo contrário. devem ser programadas e implementadas acções de gestão que permitam o aumento das espécies desejáveis (nomeadamente folhosas) e impeçam a dominância das espécies indesejáveis (invasoras. apesar de. espécies exóticas invasoras aumentam ainda mais a biomassa. em função dos objectivos definidos para a área ardida. nos dois anos seguintes ao incêndio. à recolha de salvados e. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO e prevenir riscos sanitários (pragas e doenças). os matos apresentam taxas de crescimento muito elevadas após o fogo. Outros critérios importantes para definir a localização e tipos de intervenção são os riscos para a segurança de pessoas e bens. ao controlo fitossanitário. ou regeneração excessiva de espécies nativas. normalmente a par tir dos três anos após a passagem do fogo. pelo menos no actual contexto climático português. Fase de recuperação a longo prazo Na terceira fase são planeados e implementados os projectos definitivos de recuperação/reflorestação. à avaliação dos danos e monitorização da reacção dos ecossistemas. infraestruturas e habitats com interesse de conservação mais sensíveis. Frequentemente. ao definir est ratégias de pr otecção da r ede hidr ográfica. eventualmente. Fase intermédia Segue-se uma fase intermédia. Dependendo do grau de degradação dos ecossistemas e da aridez climática. 4. em que se procede.136 V.

a monitorização científica é cr ucial. A importância da monitorização O sucesso ou fracasso das acções de restauro estão sujeitos a um grande grau de incerteza. de forma a reduzir a combustibilidade e aumentar a sua resistência à propagação do fogo (ver Capítulo VI). é ainda incipient e. 2009). Dois aspectos-chave não podem ser esquecidos pelos gestores florestais..6. Neste contexto.V. é impor tante aprender com os sucessos e os fracassos. com condições semelhantes às parcelas intervencionadas. o significando de um aument o de 50% na c obertura d o solo. Por exemplo. com vista à prossecução dos objectivos pretendidos. 4. nos quais se ja possível rectificar e re-orientar as acções tomadas em função dos seus resultados. O primeiro é a carace terização da situação de referência. desde o c ontrolo da qualidade das medidas implementadas até à a valiação da sua eficácia. e sobre as int eracções biológicas entre os difer entes componentes do ecossistema. . já que (1) os gestores não podem antecipar o contexto ambiental (incluindo o climático) em que uma dada acção vai oc orrer. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 137 É também nesta fase que se deverá programar o planeamento à escala da paisagem. se desejarem que se possa avaliar a eficácia das acções que implementam no t rreno. mas onde não foi desenvolvida qualquer acção. (2) o nível de conhecimento científico sobre as espécies e ec ossistemas. Esta caraterização deve ser feita antes da implementação da acção. Para além disso . Os cust os económicos deste acompanhamento deveriam ser uma par te integrante de todas as acções de restauro (Vallejo et al. Uma vez mais. Por exemplo. Este planeamento pode implicar a promoção de políticas ec onómicas. pelo que o acompanhamento e avaliação científicas das acções de r estauro pode ser m uito importante para que o nível de c onhecimento vá aumentand o. à escala local ou regional. ou uma diminuição de 50% na taxa de er osão. de que forma podemos avaliar a eficácia de uma acção de“mulching” na cobertura do solo se esta variável não foi medida no início? O segund o aspecto essencial é a e xistência de parcelas testemunha. o g rau de incerteza no sucesso das acções aconselha a que sejam seguidos princípios de gestão adaptativa. agrícolas. ou florestais. será muito diferente consoante a mesma variação nas parcelas testemunha tenha sido de 5% (a nossa acção foi muito eficaz) ou de 45% (o efeito da nossa acção foi marginal).

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Mosaico de parcelas de gestão de combustível 5. Faixas de gestão de combustíveis 5. eficiência e optimização . Gestão do combustível de copas 5. Introdução 2. Técnicas de gestão de combustíveis 4. Princípios de gestão à escala do povoamento florestal 4. Gestão do combustível de superfície 4.3.2.141 PRINCIPIOS GENÉRICOS DE GESTÃO PÓS-FOGO VI.2. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS FRANCISCO MOREIRA PAULO FERNANDES JOAQUIM SANDE SILVA JOÃO PINHO MIGUEL BUGALHO 1.1. Gestão de combustíveis no espaço e no tempo 5.1. Princípios e estratégias de gestão 3. Expectativas.

a acções de recuperação biofísica e mesmo já à r eflorestação de zonas mais sensíveis onde esta seja aconselhável. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 1. normalmente a partir dos t rês anos após a passagem do fogo . (iii) na terceira fase são planeados e implementados os projectos definitivos de recuperação/reflorestação. estes princípios deverão ser aplicados em fases distintas.142 VI. . eventualmente. (ii) segue-se uma fase de “reabilitação”. Num contexto de intervenções pós-fogo. entre outras acções. à recolha de salvados e. decorre logo após (ou ainda mesmo dur ante) a fase de c ombate ao incêndio e visa não só o controlo da erosão e a protecção da rede hidrográfica. detecção e combate aos incêndios. habitats e espécies mais sensíveis ou com especial valor de conservação. à avaliação dos danos e da reacção dos ecossistemas. 2. nos d ois anos seguint es. Príncipios e estratégias de gestão Os princípios genéricos de gestão par a minimizar os impact es dos incêndios podem resumir-se em d otar os espaços flor estais das car acterísticas e infra-estruturas necessárias para a minimização da área ardida e consequentes danos ec ológicos e pat rimoniais. Mais detalhes sobr e as diferentes fases da gestão pós-incêndios podem ser vistos no Capítulo V. A recuperação de ár eas ardidas envolve gener icamente três fases distintas: (i) a pr imeira. bem c omo ger ir as interfaces floresta/agricultura e floresta/zonas edificadas. muitas vezes designada c omo de “intervenção” ou “estabilização de emergência ”. Introdução Este capítulo aborda os princípios de gestão com o objectivo de minimizar os impactes dos incêndios florestais. ao controlo fitossanitário. mas também a defesa das infra-estruturas e das estações. em que se pr ocede. Estes princípios devem ser baseados em 3 aspectos essenciais: — Facilitar e controlar o acesso às zonas florestais. e t endo desde logo em v ista uma melhor resistência e r esiliência dos ecossistemas afectados pelos incêndios fac e a novas ocorrências nas mesmas ár eas. dissuasão. permitindo as acções de vigilância. Estes princípios e estratégias dizem respeito a várias escalas temporais e espaciais. sendo que na componente espacial devem ser consideradas duas escalas distintas: a escala dos povoamentos e a escala da paisagem.

respectivamente. Pyne et al. Adicionalmente.VI. redução. A est ratégia da conversão consiste na alt eração da c omposição d o coberto florestal e uso do solo. pode v isar ou resultar em piro-ambientes mais húmidos e atenuadores da velocidade do vento. esta conversão pode ser conseguida através de políticas de planeamento e gestão do território. podem utilizar-se técnicas alternativas que se aplicam isoladamente ou em conjugação: intervenções moto-manuais ou mecânicas no sub-bosque ou no ar voredo. que podem ser usadas à escala da par cela ou do planeament o da paisagem. — Reduzir a severidade do fogo através das técnicas mais adequadas de gestão de combustíveis nos povoamentos e outras formações vegetais. num contexto florestal. Em Portugal. A uma escala da paisagem. A redução da disponibilidade de combustível consegue-se removendo-o ou transformando-o. Para tal. a tendência natural de progressão da sucessão no sentido das quercíneas (esclerófilas ou caducifólias) ou de formações mistas resulta. A mitigação d o potencial de comportamento do fogo alcança-se através das características das espécies a implantar ou a favorecer. na conversão desejada. ou mais abr angentemente a sua modificação estrutural. A redução de combustíveis. e a prazo. As espécies disponív eis par a a conversão e as alterações ecológicas resultantes restringem a aplicabilidade desta estratégia. (1996) distinguem três estratégias possíveis para a gestão de combustíveis. tratamento químico. utilizando técnicas de gestão estratégica de combustíveis. altera a quantidade de c ombustível disponível para propagar o fogo e consequentemente reduz a intensidade do fogo. substituindo ou diminuindo a representatividade da v egetação de ele vada c ombustibilidade. por exemplo formação de folhada compacta ou r apidamente decomposta. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 143 — Limitar a expansão dos incêndios compartimentando a paisagem e bloqueando os caminhos preferenciais do fogo. conversão e isolamento. fogo controlado. Os contextos biofísico e socioeconómico determinam a estratégia predominante e o balanço entre estratégias. A estratégia de isolamento interrompe a continuidade da vegetação e compartimenta o espaço florestal com o objectivo de confinar os incêndios. . e pastoreio dirigido. O critério para a substituição pode e de ve incluir a resiliência da formação flor estal à passagem d o fogo .

os tratamentos devem evitar fogos de copas ou transformar um fogo de copas num fogo de superfície. (Foto: Paulo Fernandes). Os princípios gerais que de vem enquadrar as acti vidades de sil vicultura preventiva à escala da formação florestal são os seguintes: . Estas faixas c orta-fogo. constituem assim a implementação linear das duas est ratégias anteriores. as int ervenções de sil vicultura preventiva. modifica estruturalmente ou converte a vegetação (Figura 1). que minimizem o impacto do fogo. Do pont o de v ista prático. incluindo a gestão do combustível propriamente dita. Estas intervenções incluem a modificação do tipo de vegetação ou da quantidade e estrutura do combustível. ou faixas de gestão de c ombustível. preferencialmente acrescida de infra-estruturas de apoio à supressão do fogo. ou. FIGURA 1 Faixa de gestão de combustíveis efectuada com fogo controlado na serra do Marão. visam a redução da combustibilidade para níveis que aumentem as oportunidades e opções de controlo de um incêndio e. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS Materializa-se através da instalação de faixas de largura variável nas quais se exclui. nomeadamente no est rato arbóreo. Príncipios de gestão à escala do povoamento florestal À escala do po voamento flor estal. 3.144 VI.

Se o fogo de superfície t ransitar para o copado – o que em condições meteorológicas severas pode suceder mesmo quando há descontinuidade vertical e tratamento do combustível de superfície – a c onsequência da densidade ele vada será um fogo de copas extremamente violento. por r emoção ou modificação estrutural.g. a densidade e características dos acessos. que amenizem as condições ambientais favoráveis à propagação do fogo. O adensamento é consistente com a maximização da produção lenhosa mas quando a composição do povoamento favorece combustibilidade elevada tem efeitos contraproducentes. o fomento do rápido crescimento das árvores e fecho de copas. e a desramação precoce e frequente (FFMG. 3. Modelos de comportamento . 2. A defesa contra incêndios em sistemas de silvicultura intensiva inicia-se na fase de desenho da plantação . 2007). há algumas e vidências que suger em que as fases juvenis poderão ser menos combustíveis (e. actuando em sinergia com a sua tendencialmente reduzida combustibilidade. como o demonstram vários casos de estudo compilados por Fernandes e Rigolot (2007). a manutenção de densidade elevada (para evitar padrões de vento adversos em caso de incêndio). Este princípio adequa-se aos tipos florestais (resinosas ou folhosas esclerófila s) cuja c ombustibilidade se ja intrinsecamente mais elevada.VI. e a distribuição de classes de idade (FFMG. Além do controlo do combustível do sub-bosque. porém. as faixas de interrupção e gestão do combustível. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 145 1. fomentar o desen volvimento de car acterísticas de matur idade. Favorecer estruturas florestais densas. 2007). Reduzir a disponibilidade de c ombustível. isto é que reduzam a velocidade d o v ento e aument em a h umidade no int erior da formação e que c ontrariam o desen volvimento de sub-bosque heliófilo. Eucalyptus globulus). Este princípio é eficaz em folhosas de folha caduca e resinosas de montanha. Em certos casos. que reduz a vulner abilidade estrutural ao fogo e o dano infligido às árvores. a qual de ve considerar a for ma e dimensão dos talhões individuais. Para a maior par te dos tipos florestais. as práticas recomendadas para gerir a acumulação de combustíveis em plantações são a remoção dos resíduos lenhosos remanescentes da vegetação ou rotação anterior.

validand o estas or ientações (Figur a 2). Em consonância com as etapas de desenvolvimento do fogo. Desbaste do povoamento.. O intervalo médio entre fogos sucessivos nesta área é de 6 anos. Pinhais resistentes a fogo frequente e de baixa severidade. com o objectivo de dificultar a transmissão do fogo entre árvores. 2004): 1.A. após incêndios têm permitido a formulação de orientações para tratamento de combustíveis em florestas secas de coníferas. FIGURA 2 Pinhal bravo resistente ao fogo. apresentam-se abertos e v erticalmente desc ontínuos. 2003.146 VI. Desramação das ár vores e eliminação de andar es de t ransição (regeneração arbórea. inclusivamente na Península Ibérica (e. evitando o fogo de copas activo. (Foto: Paulo Fernandes). Graham et al. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS do fogo e numerosa evidência empírica obtida nos E. Murça. Os povoamentos cuja est rutura é assim modificada têm sido r eferidos como “corta-fogos sombr eados” (A gee et al. preconiza-se a adopção da seguinte sequência de prioridades (Finney e Cohen. minimizando a possibilidade de transmissão do fogo ao copado. para limitar a intensidade do fogo. 3. 2008).g. 2007) na literatura norte-americana e australiana. 2000) e “zonas li vres de fogo de copas” (FFMG. 2. arbustos altos). . em Pegarinhos. respectivamente..U. Redução ou modificação est rutural do combustível superficial (manta morta e sub-bosque). Fulé et al.

Das alternativas disponíveis para o controlo do combustível florestal. Os recursos disponíveis e as condições locais de fisiografia.VI. é aconselhável o uso de sequências operacionais que combinem duas ou mais técnicas. O fogo controlado é a única intervenção de aplicação extensiva na paisagem. frequentemente coincidente com os dias frios e secos do Outono e Inverno. Gestão do combustível de superfície Existe uma grande diversidade de técnicas de redução ou remoção dos combustíveis de superfície. Como principal limitação há a apontar a nec essidade de execução dentro de uma janela meteorológica relativamente restrita. versatilidade.g. 2003).1. clima e vegetação condicionam a escolha dos tratamentos de gestão do combustível mais adequados. e. solo. Quando as exigências de manutenção são maiores. produção de pasta e papel) ou pelo calor/fogo (pinhais r esinados ou de pr odução de fruto). Fogo controlado O fogo controlado (ou prescrito) consiste no uso planeado do fogo em condições ambientais compatíveis com a satisfação de objectivos de gestão específicos e formulados explicitamente. com custos e eficácia muito diferenciadas. o fogo controlado é a mais utilizada mundialmente. 2004). Técnicas de gestão do combustível 4. .. aquele que assegura o mais completo impacte no complexo combustível (Graham et al. como sucede no sudeste e oeste dos EUA e na Austrália (Fernandes e Botelho. Reduz efectivamente o combustível fino acum ulado. sendo em seguida apresentadas as mais relevantes no contexto nacional. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 147 4. Rigolot e Etienne (1998). e por tanto diminui substancialmente a energia que um incêndio subsequente pode libertar.g. e também por moti vos económicos e ecológicos (Graham et al.. devido à sua eficácia. como nas faixas de gestão de combustível. de entre os tratamentos alternativos de gestão do combustível superficial. desde que a casca das árvores seja suficientemente espessa para evitar o dano no tronco ou a utilização económica não seja prejudicada pela permanência de material carbonizado (e. possibilidade de uso em escala. Em povoamentos florestais é o tratamento de eleição do combustível superficial. 2004): 1. O fogo controlado é.

a efectividade das intervenções mecânicas na redução do perigo de incêndio está m uito dependente do grau de modificação est rutural conseguido. por e xemplo através de c ompactação ou estilhaçament o. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 2. e por conseguinte dificilmente impede a progressão de um fogo impelid o pelo vento. ou mesmo impossibilidade. com implicações económicas e de eficácia. A prática. cascas suspensas. e causar mortalidade nos indivíduos dominados. por vezes usada. corta-matos de facas e de correntes acoplados a tractor. que simultaneamente corta e enterra todo o combustível. de remover o combustível. à semelhança dos restantes tratamentos mecânicos. O c ombustível r emanescente é c onstituído por element os lenhosos grosseiros dispostos sobre manta morta compacta e por esqueletos de arbustos. ar bustos alt os. 3. não afecta o c ombustível situado nas linhas de plantação. Quando o combustível permanece no local. Estes efeitos concorrem para dificultar um fogo de copas e diminuir o potencial de focos secundários. r egeneração natural). Métodos manuais e mecânicos As alternativas ao fogo controlado mais óbvias e mais usadas baseiam-se em meios mot o-manuais ou mecânicos. as desvantagens mais óbvias residem nas restrições impostas pela topografia e tipo de solo. Reduz a continuidade horizontal do combustível. o fogo controlado pode eliminar combustíveis de transição entre o sub-bosque e o estrato arbóreo (ramos mor tos. de utilização de lâmina frontal associada a buldozer. Dependendo da sua intensidade. paisagem e património arqueológico. 4. . e na dificuldade. pode acarretar efeitos negativos no solo. O corte da vegetação pode recorrer a motorroçadoras. com velocidade da combustão reduzida. No entanto. Comparativamente ao fogo controlado.148 VI. destroçadores de mar telos e r oçadores montados em br aço hidráulico. Em plantações florestais é m uito comum a g radagem com discos. subir a base da c opa por dessecação foliar . perturbando a expansão do fogo e diminuindo a probabilidade de focos secundários.

Ambos induzem per turbações da c omunidade vegetal nomeadamente mortalidade de indivíduos e libertação de recursos e ambos são condicionados por car acterísticas da vegetação comuns. Tsiouvaras et al. O impacte não é contudo imediato. pese embora o custo relativamente elevado e a possibilidade de contaminação ambiental. a presença de compostos voláteis afectam tanto a probabilidade de ignição e propagação do fogo como a probabilidade de selecção de plantas pelos herbívoros (Bond e Keeley. Ambos os processos induzem efeitos nas comunidades tais como a alteração do balanço competitivo entre espécies ou da estrutura da comunidade. experiências . Tal é possível utilizando-se suplementos alimentares ou cargas de pastoreio elevadas.g. a proporção de material verde ou seco. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 149 Herbicidas A aplicação de produtos fitocidas é eficiente no controlo da vegetação do sub-bosque. o fogo selecciona. a quantidade de biomassa em pé. 2002). Pastoreio O pastoreio é essencialmente um complemento a outras intervenções. No entanto. prolongando o espaço de t empo entre dois tratamentos consecutivos. Por exemplo. 1989). Por exemplo. no Alto Alentejo. as características da vegetação que a tornam susceptível ao fogo são também aquelas que tornam a vegetação menos “apetecível” para os her bívoros. combinando o consumo de biomassa com um efeito de compactação. O fogo e o pastoreio são processos ecológicos conceptualmente análogos..VI. em Portugal. características que. 2005). e a combustibilidade é temporariamente elevada por conversão de biomassa viva em morta (Brose e Wade. O seu impacte é selectivo e disperso e depende do encabeçamento utilizado (e. Este factor tem implicações no c ontrolo da vegetação combustível pelo pastoreio pois por vezes é necessário “obrigar” os animais a consumirem vegetação que normalmente não seleccionariam. Estes normalmente evitam nas suas dietas plantas ricas em compostos voláteis ou anti-nutricionais e preterem o material seco ao verde. O conhecimento da estratégia alimentar dos animais (se são predominantemente consumidores de plantas lenhosas ou herbáceas) e o controlo da carga animal são factores essenciais na gestão da vegetação combustível pelo pastoreio. ao invés.

em H uesca. o past oreio poderá contribuir para manter as redes de gestão de combustíveis. Espanha. Os animais que c onsomem pr eferencialmente espécies lenhosas encontram-se mais vocacionados para o controlo da vegetação arbustiva e ar bórea. para além da r edução da carga c ombustível. foi efectivo através da utilização de pastoreio com cabras domésticas no Outono (tendo-se reduzido a sobrevivência da G. uma arbustiva nativa problemática (devido ao se u potencial invasor e facilidade de ignição).. através da utilização de pastoreio por caprinos. poderão pot encialmente oc orrer ganhos de produção animal. A utilização de animais cujas dietas sejam preferencialmente de herbáceas estará portanto mais vocacionada para o controlo do combustível fino e dos fogos de superfície que aquele origina (Hobbs. .g. scorpius para 58% relativamente a áreas não pastadas) (Valderrábano e Torrano. e a frequência dos fogos de superfície (Bond et el. GoatsRUs. o c ontrolo de Genista scorpius.. 2006) o que pode ter implicações na propagação de fogos de superfície pois existe uma correlações forte e positiva entre a biomassa de herbáceas. Goats Unlimited). em especial gramíneas. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS de exclusão de pastoreio com cervídeos evidenciaram reduções de biomassa de herbáceas de 2 t/ ha para 1. Em alguns casos é nec essário o for necimento de suplementos de alimentação. Ao nív el d o planeament o da paisagem.5 t/ ha a cargas animais apr oximadas de 0. 2005). Caso a vegetação seja adequada em t ermos nutritivos. 2000). Os rebanhos são transportados até às zonas alvo. 2001. e também em P ortugal (Caprinos & C ompanhia) existem iniciativas empresariais cujos ser viços são o c ontrolo de vegetação ou eliminação de r esíduos de cultur as agrícolas. c om quantidades de água suficiente e deixados a pastar até que os objecti vos de redução de carga combustível sejam cumpridos. Em Portugal. confinados at ravés de v edações eléc tricas. A inventariação do potencial de utilização de herbívoros para controlo da carga combustível nas redes primária e secundár ia pode ser feit o através da avaliação da disponibilidade e qualidade nutritiva da vegetação presente. particularmente se os tipos de vegetação a consumir tiver valores nutritivos baixos. Nos Estados Unidos da América (e. 2007). Briggs et al.4 indivíduos/ha (Ramos. a utilização int egrada d o pastoreio e a instalação de pastagens pode c ontribuir para o controlo dos matos e a dimin uição do risco de incêndio . Por e xemplo.150 VI.

. Na verdade a remoção ou dest roçamento do material produzido por um desbast e mais do que compensa o segundo efeito. quando e em que extensão? Nesta secção abordaremos sucintamente questões r elacionadas com o planeament o. 1996). Gestão de combustíveis no espaço e no tempo O sucesso das ac tividades de pr evenção de incêndios depende de adequado planeament o. 2004).. particularmente em formações jovens ou de pouca estatura. o efeito imediato das operações silvícolas de tratamento do c ombustível das c opas é de ag ravamento das c ondições do piro-ambiente. como. O custo envolvido é ele vado. o qual de ve c onsiderar questões espaciais e temporais. Gestão do combustível de copas As intervenções silvícolas no estrato arbóreo recorrem à desramação das árvores e ao desbaste do povoamento.2. O tipo e intensidade do desbaste e a evolução posterior da vegetação determinam o impacte no complexo combustível e no pir o-ambiente (Graham et al.. Intervenções c omplementares de t ratamento d os r esíduos de desbast es e desramações são por tanto indispensáveis. A redução significativa do potencial de fogo de copas activo em resinosas exige desbastes relativamente fortes que originam povoamentos sub-lotados (Reyes e O’Hara. de vido à adição de c ombustível ao sub-c oberto e à abertura do povoamento ao vento e luz (Graham et al. desempenho e optimização da gestão de combustíveis. usando meios de corte moto-manuais ou mecânic os. 5. 2004).VI. Onde intervir.. Um compromisso entre produção lenhosa e redução da combustibilidade é atingido através de desbastes pelo baixo que removam algumas árvores codominantes e dominantes (Peterson et al. 2003). Paradoxalmente. tal como diversos estudos de caso demonstram (Graham et al. 2004). sendo irrelevante um aumento da intensidade potencial do fogo de superfície na presença de uma redução drástica do possibilidade de fogo de copas (Weatherspoon. . PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 151 4. 2002). especialmente recomendado para florestas densas constituídas por indivíduos pequenos (Weatherspoon e Skinner. apesar de poder ser mitigado pelo valor comercial (inclusivamente para aproveitamento energético) do material lenhoso extraído. O fogo c ontrolado é também uma o pção a considerar. 1996).

visando a redução da área de cada incêndio e a salvaguarda de pessoas e bens. Em Portugal. Estas RDFCI. As faixas de gestão de combustível (FGC) ser vem uma lóg ica de contenção activa do fogo em bandas que definem compartimentos mais ou menos vastos. a estratégia regional de defesa da floresta contra incêndios (DFCI). de for ma coordenada. (iii) Rede viária. procura modificar o comportamento do fogo em áreas dispersas de grande dimensão e reduzir a conectividade na paisagem das manchas de grande combustibilidade. 3. permitindo a adopção de um mais variado leque de tácticas de supressão. Combate aos incêndios. visando dotar os espaços florestais das características e infraestruturas necessárias para a minimização da área ardida e consequentes danos ecológicos e patrimoniais. têm como função pr imordial concretizar territorialmente. as Redes Regionais de Defesa da Floresta contra Incêndios (RDFCI) foram conceptualizadas em torno destas duas opções. respectivamente intervenção linear ou em área. (vi) Rede de infr aestruturas de c ombate. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS Do pont o de v ista espacial. v isando diminuir o númer o de ocorrências. As RDFCI são constituídas por um conjunto de redes e acções sectoriais. a qual tem por finalidade a redução da taxa anual de incidência de fogos florestais para níveis social e ec ologicamente aceitáveis. (i) Rede de faixas de gestão de combustível. (iv) Rede de pontos de água e de outros materiais retardantes. 2. O tratamento extensivo em área. (v) Rede de vigilância e detecção de fogos. propostas pelo C onselho Nacional de Reflorestação na sequência dos grandes incêndios de 2003 e 2005. bem como gerir as interfaces floresta/agricultura e floresta/zonas edificadas. Planeamento do território. Neste subcapítulo concentramo-nos sobre faixas e parcelas de gestão dos combustíveis. através das designadas parcelas de gestão de combustível.152 VI. incluindo não só a primeira intervenção como também toda a actividade de combate estendido. Cada uma destas duas . Esta est ratégia aborda de forma integrada 3 áreas fundamentais: 1. e traduzidas em lei pelo Decr eto-Lei nº 124/2006 de 28 de J unho (posteriormente alterado pelo Decreto-Lei nº 17/2009 de 14 Janeiro). Prevenção da eclosão d o fogo. (ii) Mosaico de parcelas de gestão de combustível. a o peracionalização d os pr incípios e estratégias de gestão de combustíveis é redutível a duas opções. designadamente.

1996. et c. Cumming.) e d o r ecurso a det erminadas actividades (silvopastorícia. (c) providenciar faixas que facilit em posteriormente outros trabalhos de tratamento dos combustíveis. As FGC cumprem três funções primordiais: Objectivo 1: diminuir a superfície percorrida por grandes incêndios. etc. aos sistemas e funções flor estais prevalecentes na região e aos diferentes aspectos sócio-económicos a respeitar. CNR. através da afectação a usos não florestais (ag ricultura. fogo controlado. valor cénico da paisagem) (e. etc. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 153 opções apresenta vantagens e inconvenientes e o peso relativo de cada uma nas RDFCI deve resultar das restrições associadas ao regime de fogo que se pretenda manter. 2001. permitindo e facilitando uma intervenção directa de combate na frente de fogo ou nos seus flancos. diversidade de habitats.g. limpezas.g .). infr aestruturas. Rigolot.. Agee et al. zonas edificadas e povoamentos florestais de valor especial. 2005). com o objectivo de reduzir a ocorrência de grandes incêndios. De forma mais geral. as faixas envolventes aos parques de recreio. as FGC têm por funções: (a) interromper efectivamente a continuidade de combustíveis de risco na paisagem. com o objectivo principal de reduzir o perigo de incêndio. ao nível da paisagem. Faixas de gestão de combustíveis Podemos definir uma faixa de gestão de combustível (FGC) como uma parcela de t erritório mais ou menos linear onde se gar ante a r emoção total ou parcial de biomassa florestal. (b) reduzir a intensidade do fogo e proporcionar zonas alargadas onde as operações de supressão possam ser c onduzidas com maior eficiência e segurança.VI. Objectivo 2: reduzir os efeit os da passagem de g randes incêndios protegendo de forma passiva vias de comunicação. etc.) ou a tratamentos silvícolas (desbastes. (d) promover vários benefícios não relacionados com o fogo (e. como sejam as faixas c ontíguas às linhas eléct ricas ou à r ede viária. Objectivo 3: isolar potenciais focos de ig nição de incêndios. 5. 2002. . Weatherspoon e Skinner. 2000.1. infra-estruturas e equipamentos sociais.

de nível local e apoiada nas redes viária. . às platafor mas logísticas e aos at erros sanitários. (ii) rede secundária. está a ser concebida uma rede de FGC a nível regional. de nível sub-regional. um incêndio. por si só. “arrifes” ou “aceiros perimetrais”). mas sim para conferir às forças responsáveis pelo combate uma maior probabilidade de sucesso no ataque e contenção de um grande fogo florestal. às infra-estruturas e parques de lazer e de recreio.154 VI. envolventes aos aglomerados populacionais e a todas as edificações. de nível municipal ou local. delimitando compartimentos paisagísticos com determinada dimensão e sendo implementada nos espaços rurais. aos parques de campismo. desenvolvida sobre redes viárias e ferroviárias. As especificações técnicas e objectivos para cada uma destas redes estão sumarizadas nas Tabelas 1 e 2. É importante salientar que a rede primária não é desenhada para parar. ferroviária. aos parques e polígonos industriais. linhas eléctricas. de acordo com a funcionalidade e responsabilidade de manutenção: (i) rede primária. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS Em Portugal. eléctrica e divisional das unidades de gestão florestal ou agro-florestal (vulgarmente designados como “aceiros”. (iii) rede terciária.

promover a protecção passiva das áreas urbanas. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 155 TABELA 1 ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS DAS FAIXAS DE GESTÃO DE COMBUSTÍVEIS EM PORTUGAL TIPO DE FGC LARGURA FORMA REDE PRIMÁRIA >125-400m 1. eficácia esperada e segurança das forças de combate 2. base das copas > 3 m 7. tratamentos mecânicos 5. cobertura arbórea < 30-50% 6. tratamentos mecânicos . definindo blocos de 500-10. topografia e uso do solo 3. promover a protecção passiva das áreas urbanas. aproveitando estruturas lineares de grande dimensão (e. ao longo de estradas 6. ventos predominantes e historial anterior do fogo 4. equipamentos sociais e florestas com valor de conservação 3.000 ha 1. ferrovias. fogo controlado 2. facilitar a supressão de ignições CRITÉRIOS PARA LOCALIZAÇÃO na adjacência das estruturas-alvo (estradas. facilitar a supressão de ignições 1. actividades agrícolas 4. pastoreio 3. rede 2. áreas urbanas. equipamentos sociais e florestas com valor de conservação 2.g. limites de parcelas e linhas eléctricas que atravessem povoamentos florestais TÉCNICAS DE GESTÃO 1. f ogo controlado 2. custos de manutenção 5. facilitar a supressão e diminuir a dimensão dos incêndios 2. parques eólicos) 1. facilitar a supressão de ignições 1.) na adjacência de estradas florestais. linhas eléctricas. pastoreio 3. fogo controlado 2. REDE TERCIÁRIA 6-10m Linhas ou buffers OBJECTIVOS 1. tratamentos mecânicos 1.VI. carga combustível arbustiva < 2 ton/ ha REDE SECUNDÁRIA >7-100m Linhas ou buffers. actividades agrícolas 4. etc.

sempre que possível. desramações até 4m acima do solo ou 50% da altura das árvores 3. ZONAS DE RECREIO. distância entre copas das árvores > 4 m 3. desramações até 4 m acima do solo ou 50% da altura das árvores 4. . copas das árvores e arbustos a mais de 5 m dos edifícios 2. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS TABELA 2 ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS ADICIONAIS PARA AS FAIXAS DE GESTÃO DE COMBUSTÍVEIS NAS INTERFACES URBANO . com < 20% cobertura por vegetação não superior a 100 cm de altura 5. carga de combustível arbustivo < 2 ton/ha. copas das árvores e arbustos a mais de 5 m dos edifícios 2. faixas pavimentadas com 1-2 m em redor dos edifícios A rede primária deve apoiar-se sempre na rede viária existente. distância entre copas das árvores > 4 m 3. com < 20% cobertura por vegetação não superior a 100 cm de altura 5. uma faixa de 10m em redor do edifício sem combustíveis (excepto algumas árvores ou arbustos isolados) EDIFÍCIOS ISOLADOS > 50 m FERROVIAS ESTRADAS LINHAS ELÉCTRICAS LOCAIS DE CAMPISMO. sem a qual não possui qualquer utilidade par a as oper ações de combate ao fogo. sempre que possível. sempre que possível. faixas pavimentadas com 1-2 m em redor dos edifícios 6. carga de combustível arbustivo < 2 ton/ha. distância entre copa das árvores > 4 m 2. com < 20% cobertura por vegetação não superior a 100 cm de altura 1. No desenho e est ruturação das FGC deverão ser utilizados.RURAIS TIPO DE ÁREA ZONAS URBANAS LARGURA > 50-100 m ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS 1. ÁREAS INDUSTRIAIS > 10 m > 10 m > 7-10 m > 100 m 1. designadamente no que r espeita às causas da ig nição e às c ondições meteorológicas e de combustíveis que propiciam o desenvolvimento de fogos de grande extensão e intensidade. modelos de simulação de comportamento do fogo.156 VI. carga de combustível < 2 ton/ha. O desenho da r ede primária deve ter em consideração as particularidades da paisagem local e os padrões históricos dos incêndios na região. desramações até 4 m acima do solo ou 50% da altura das árvores 4.

VI. complementada pela simulação do comportamento do fogo. históricas e socioeconómicas na região. contribui decisivamente para mitigar a possibilidade de oc orrência de fogos de dimensão e severidade catastróficas.2. Mosaico de parcelas de gestão de combustível Em conjunto com as FGC. A manutenção deverá desejavelmente ser integrada com actividades geradoras de recursos financeiros como a silvopastorícia. a concepção de uma FGC implica a ad opção simultânea de programa de manutenção (em intervalos de 2-5 anos). passando pela utilização de terrenos agrícolas ou áreas sem combustível (albufeiras. 1996). Desta forma são criadas condições que dilatam a capacidade de intervenção dos meios de c ombate terrestres ao aumentarem a sua segurança. int egrando. 1996). silvícolas. Tal como no caso das faixas da r ede pr imária. a agricultura ou a produção de frutos silvestres. até corta-fogos arborizados. a caça.. afloramentos rochosos). com origem nos programas de reflorestação e que ser vem também propósitos da gestão e e xploração florestal. Estes autores assinalam porém que as FGC não modificam o c omportamento e efeitos do fogo na massa florestal. implicam um cust o de man utenção elevado e per pétuo (e que t endencialmente exclui a gestão de c ombustíveis das manc has flor estais). apr oveitando e expandindo a diversidade de usos da terra na sua concepção. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 157 Por outro lado. a recolha de biomassa par a energia. Igualmente deverá ser optimizada a utilização de sapadores florestais ou de outras estruturas locais que operem na gestão de combustíveis. uma vez atingida. e assenta em pr essupostos facilment e violados (ver 5.3). 5. a localização . largos (100-400 m) e equipad os para o combate ao fogo (Pyne et al. sem o qual se torna virtualmente ineficaz ou mesmo per igosa. rios. O objectivo aqui é garantir . e a eficácia das descargas efectuadas por aeronaves (Weatherspoon e Skinner. eficiência e produtividade. Esta estratégia abarca desde faixas nuas e estreitas. a manutenção de um mosaico de parcelas onde se procede à gestão dos vár ios estratos de combustível e à di versificação da estrutura e composição das formações florestais e de matos. As FGC podem t omar for mas di versas. tipo e forma de instalação das parcelas deve ser determinada por uma análise inicial dos “caminhos” preferenciais do fogo e das c ondicionantes ecológicas.

. o impacte paisagístico. Embora tal possa suceder. idade e estrutura dos povoamentos. sejam elas o custo da sua criação e manutenção. eficiência e optimização As expectativas em relação à gestão de combustíveis são frequentemente excessivas. bem c omo as super fícies que naturalmente cumprem as funções das par celas ou faixas: áreas agrícolas. O sucesso da est ratégia de isolament o mede-se pelo g rau em que a expansão do incêndio nas ár eas tratadas é limitada em ár ea ou em perímetro. — deverão ser identificadas an ualmente as localizações est ratégicas para a realização de acções de redução de combustíveis e alteração da est rutura dos po voamentos. áreas queimadas. não é expectável que os tratamentos do combustível detenham por si só a expansão dos incêndios. 5. muito embora o decréscimo da intensidade do fogo mitigue os impactes ambientais e socioeconómicos dos incêndios nas áreas tratadas. etc. Deverão ser obser vadas as seguintes orientações gerais para a sua implantação (no caso de formações florestais ou matos): — A descontinuidade deve ser mantida em par celas de 20 a 60 ha. infra-estruturas turísticas (campos de golfe). a facilidade de combate aos incêndios. a prontidão e desempenho do dispositivo de supressão do fogo condicionam geralmente a efectividade da gestão do combustível. Assim.158 VI. — em igualdade de cir cunstâncias. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS uma implementação territorial de áreas tratadas que reduza a conectividade entre manchas de elevada combustibilidade e optimize os benefícios face às diferentes restrições em jogo. em especial no que respeita à gestão do estrato arbustivo e à eliminação dos factores que propiciam os saltos de fogo longos. águas interiores. mas o se u desempenho fac e ao fogo é inc erto.3.. com variação na composição. afloramentos rochosos. A gestão de c ombustíveis pode porém não resultar em redução da área ardida no pior dos cenários meteorológicos. de ve ser dada pr ioridade ao tratamento de bloc os adjac entes às FGC. Expectativas. etc. As opções de combate ao incêndio e a efectividade da táctica de supressão utilizada aumentam na presença de t ratamentos r ecentes. particularmente em condições meteorológicas severas. As intervenções lineares de gestão do combustível são as mais praticadas na E uropa.

Safford et al.. . 2003.. or ientação desfa vorável em r elação à cabeça d o incêndio. isto é com largura superior a 100 m. 2007. 2007) e pinhal br avo (Fernandes et al. ou inadequada manutenção ou guarnecimento com meios de combate. Pollet e Omi.VI. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 159 É ponto assente que a c ontenção por faixas est reitas de int errupção do combustível se restringe aos flancos ou retaguarda do incêndio (FFMG.. o que restringe a generalização dos resultados. 2003. a persistência do efeito será substancialmente mais curta.. altera inegavelmente o comportamento e a severidade do fogo em flor esta de c oníferas (e. 2007). Fernandes e Rigolot. 2004. Estas e vidências pr ocedem essencialment e de observações em incêndios ou de análises c omparativas pós-fogo. de acordo com os princípios atrás enunciados. 2009) põe em evidência a importância crítica do tempo decorrido desde o t ratamento (C aixa 1). Fernandes e Botelho. A modificação estrutural do complexo combustível. Finney et al. d o pont o de v ista prátic o da supressão de um incêndio. 2005). 2009). N o entant o. C ondições est ruturais e de acum ulação de combustível mais benig nas que na situação pré-t ratamento podem perdurar por 10-15 anos. Experimentação em eucaliptal (Gould et al. FGC bem dimensionadas. apesar de t er atrasado o seu avanço e ter restringido a sua expansão lateral (Perchat e Rigolot. 2002.. são frequentemente atravessadas ou t ranspostas por incêndios de g rande intensidade. Fernandes. devido à projecção de faúlhas com capacidade para iniciar focos secundár ios. A rede de faixas de gestão do sul de França raras vezes deteve a progressão frontal dos incêndios em 2003.g.

Após consideração do efeito de outras variáveis ambientais. não ha vendo distinção entre as r espectivas velocidades de propagação do fogo. A experimentação deve constituir a base das r ecomendações sobre efectividade e periodicidade dos tratamentos do combustível. 3 e 2 anos ant es. 2009). Os dois es tudos mostram como a persis tência do ef eito do tr atamento com fogo controlado depende da dinâmica do combustível. o facto do sucesso do ataque directo à cabeça de um incêndio ser c omprometido quando a carga de combustível fino excede 8-10 t/ha sugere uma periodicidade ideal de 2-4 anos para o tratamento (Fernandes e Rigolot. com uma variação de 59-100% (Fernandes e Botelho. cuja intensidade atingiu cerca de 11 000 kW /m. compararam-se as características de 36 fogos experimentais (no período de Novembro a Junho) distribuídos por combustíveis com 10 e 25 anos de acumulação. Simulações par a o pinhal br avo do noroeste de Portugal. respectivamente com intensidade reduzida e moderada e mortalidade arbórea de 55 e 41%. respectivamente designadas por U. (2004) efectuaram na serra da Padrela um fogo experimental no Verão. Nas par celas U e RX13 todas as árvores vieram a morrer e observou-se uma variação entre um fogo intenso de superfície e um fogo de copas. RX3 e RX2. No mesmo povoamento. . isto é do tempo necessário para a sua reconstituição em carga e estrutura. 2004). No noroeste de Portugal o regresso às quantidades de manta morta e arbustos anteriores à intervenção faz-se respectivamente em 11 e 14 anos (F ernandes et al. RX13.160 VI. Fernandes et al. mas a intensidade do f ogo tendeu a ser menor em RX13 par a ventos comparáveis.. que percorreu um pinhal bravo com 28 anos de idade que incluía parcelas nunca intervencionadas e queimadas 13. respectivamente T10 e T25 (Fernandes. Uma mudança drástica no c omportamento do f ogo foi observada em RX3 e RX2. sob condições meteorológicas extremas. verificou-se em T10 uma redução de 25% no comprimento da chama em relação a T25. esta variação foi sobretudo explicada pela variação na velocidade do vento. 2007). Contudo. 200 2). Com este objectivo. mas a c ompreensão das alt erações temporais subsequentes é limitada. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS CAIXA 1 LONGEVIDADE DO EFEITO DO FOGO CONTROLADO EM PINHAL BRAVO A diminuição da combustibilidade é geralmente evidente imediatamente após o tratamento do c ombustível. indicam que a redução de combustível que resulta da prática do fogo controlado diminui em 96% a intensidade de um incêndio. onde o fogo se restringiu ao estrato superficial. correspondendo em T10 r espectivamente a 64% e 80% dos valores de T25. As duas situações dif eriram estatisticamente nas car gas do horiz onte de f olhada em decomposição e dos arbus tos.

orientação e densidade das z onas de int ervenção (Finne y e C ohen. Nessa região. a eficácia e per tinência do fogo controlado têm sid o questionadas. e em áreas ocupadas por mosaicos de vegetação com idade média igual ou inferior a 4 anos a dimensão máxima dos incêndios foi sempre inferior a 400 ha (Fernandes et al. É c om facilidade que os grandes incêndios contornam. a man utenção estratégica de c erca de 20% do território num estado de combustibilidade reduzida é satisfatória. 2003). insuficientemente dimensionados ou com uma presença pouco significativa na paisagem r eduzirão localmente a intensidade e severidade do fogo mas dificilmente servirão de obstáculo à sua expansão. permitindo reduzir para metade a ár ea ardida num determinado intervalo de tempo (Finney. .. No SW da Austrália o tratamento do eucaliptal com fogo controlado ao longo dos últimos 50 anos r eduziu drasticamente a possibilidade de desenvolvimento de grandes incêndios (Boer et al. e. natur almente que a c onjugação das est ratégias de modificação estrutural e de c onversão permitiria reduzir aquela taxa anual de esforço. que é aplicado em manchas individuais extensas com vista à formação de mosaicos de combustível de idade variada. admitindo um intervalo de 4 anos entre tratamentos. Keeley e Zedler (2009). em que as manchas t ratadas apr esentem um g rau r azoável de sobr eposição na direcção de propagação do fogo. ou seja a dimensão. a dimensão máxima dos incêndios t ende a aumentar c om o en velhecimento dos matos. atravessam ou transpõem áreas estreitas. onde a intensidade do fogo atinge níveis extremos mesmo sob c ondições meteorológicas relativamente suaves. 2009). A gestão de combustíveis deve recair sobre áreas estratégicas. Em Portugal (dados de 1998-2008). 71% da variação na área anual ardida é explicável pela superfície tratada com fogo controlado nos 6 anos anteriores. Este esforço de intervenção corresponde ao tratamento anual de 5% da paisagem. O sucesso de qualquer est ratégia de gestão do c ombustível é inseparável do seu padrão espacial. pequenas ou isoladas. 2010).VI. Como regra geral. forma. Em matos mediterrâneos. Tratamentos dispersos e com localização aleatória. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 161 Os benefícios que ad vêm da modificação est rutural do complexo combustível são menos v isíveis em sist emas dominados por fogos de copas.g.. 2003).

nomeadamente no que se refere ao efeito das alterações estruturais nas características do fogo.162 VI. Infelizmente os actuais modelos de comportamento do fogo são limitados na sua capacidade de predição (e. . O uso de simuladores do comportamento e expansão do fogo na paisagem torna o processo de decisão mais objectivo e permitem comparar alternativas de intervenção. o que naturalmente condiciona a capacidade de desenvolvimento de prescrições sólidas. Ao planeamento espacial dos tratamentos do combustível sucede-se o planeamento à escala da unidade de intervenção. O desenvolvimento da prescrição exige a avaliação do comportamento do fogo. Aqui há que destacar o softwar e FlamMap que per mite o ptimizar o planeament o espacial da gestão de c ombustíveis ao identificar os “caminhos” preferenciais d o fogo e as localizações de t ratamento que maximizam os benefícios obtidos (Finney. A simulação do comportamento do fogo preenche a necessidade de seguir critérios objectivos e quantitativos. 2007). 2010). materializado numa prescrição explícita das modificações no complexo combustível.g. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS As decisões sobre os níveis pretendidos de redução do perigo e como os atingir devem ser ancoradas em infor mação espacialmente explícita sobre a probabilidade de incêndio. única forma de r elacionar a pr etendida resistência ao fogo c om a concretização das operações necessárias. contribuindo par a super ar a actual incipiência das r ecomendações quantitativa de silvicultura preventiva. Cruz e Alexander.

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PERIGO. Padrões de selecção pelo fogo por diferentes tipos de coberto do solo 3. Introdução 2.2. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS JOAQUIM SANDE SILVA PAULO FERNANDES FILIPE X.167 PRINCIPIOS GENÉRICOS DE GESTÃO PÓS-FOGO VII. CATRY FRANCISCO MOREIRA FRANCISCO REGO 1.1. Implicações para a gestão . Perigo de incêndio das florestas portuguesas: composição versus estrutura florestal 3. Modificação da severidade do fogo em tipos florestais contíguos a pinhal bravo 5. Incidência do fogo 3. O risco de incêndio de vários tipos de floresta em Portugal 4.

A infor mação enc ontra-se sumar izada em t rês secções. e como a sua composição determina . (2005) sintetizou em 22 tipos florestais a variabilidade existente. isto é a forma como a sua estrutura afecta a velocidade do vento e humidade do combustível morto. PERIGO. considerando apenas os 19 tipos estritamente florestais. a descr ição estrutural de cada tipo (c onsiderando a folhada e sub-bosque) foi traduzida nos parâmetros que constituem um modelo de combustível (ver Capítulo I) e que são nec essários para estimar as car acterísticas de c omportamento d o fogo at ravés de software que implementa o modelo de Rothermel (1972). Cada tipo foi definido por uma conjugação da(s) espécie(s) dominante(s) com a estrutura do povoamento. Fernandes (2009) fez corresponder a cada tipo florestal um modelo de combustível. e as alterações de níveis de severidade do fogo em função do tipo de floresta. a qual foi descrita simplesmente por uma de quatro combinações entre os parâmetros altura (baixa ou alta) e densidade (formações abertas ou fechadas). no âmbito do projecto “Recuperação de áreas ardidas” e de outros projectos que foram desenvolvidos em paralelo pela equipa do projecto. 2. O Inventário Florestal Nacional (IFN) inclui variáveis que descrevem a estrutura e composição da floresta Portuguesa. o perigo de incêndio. Com o objectivo de analisar e classificar o per igo de incêndio nestes tipos de floresta. Perigo de incêndio das florestas portuguesas: composição versus estrutura florestal A descrição e classificação das características do combustível florestal conduzem directamente à a valiação da c ombustibilidade ou per igo de incêndio.168 VII. que abor dam. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 1. sequencialmente. com relevância para a gestão d o fogo e das ár eas ardidas. Introdução Este capítulo resume os resultados da investigação realizada durante os últimos anos. que no contexto da análise do risco de incêndio se refere ao comportamento potencial do fogo. A combustibilidade de cada tipo florestal é determinada pelas características do complexo combustível mas também pelo piro-ambiente inerente à formação vegetal. Para esse efeito. A análise estatística dos dados do IFN efectuada por Godinho-Ferreira et al. os padrões de incidência do fogo em diferentes tipos de coberto do solo.

OL EUCALIPTO. Adaptado de Fernandes (2009). OL SOBREIRO. efectuada com o software Behave Plus (Andrews et al. OT ACACIA FOGO DE COPAS 0 25 50 75 100 0 25 50 75 100 0 25 50 75 100 ÍNDICE DE PERIGO FIGURA 1 Componentes do perigo de incêndio dos dif erentes tipos de floresta em Portugal. OT CARVALHOS CADUCIFÓLIOS. . OT PINHEIRO BRAVO. a velocidade de propagação e int ensidade d o fogo variam r espectivamente dez e no ve vezes nos quatro tipos estruturais de eucaliptal. Os resultados evidenciaram uma enorme variação no perigo de incêndio (Figura 1). OT DIVERSA.VII. Por exemplo. OL DIVERSA. Uma análise conjunta dos índices permitiu agrupar os tipos florestais por nível geral de perigo de incêndio. CL DIVERSA. A avaliação do perigo de incêndio baseou-se em t rês parâmetros. CT EUCALIPTO. PERIGO. sobreiro e eucalipto incluem pelo menos uma var iante estrutural – alto e aberto no caso d o pinheiro e e ucalipto. CT = fechada e alta.. e alt o (fechado ou aber to) no caso d o sobreiro – onde não é expectável a ocorrência de fogo de copas. sugerindo que a estrutura dos povoamentos é mais determinante que a sua composição em espécies. OL = aberta e baix OT = aberta e alta. CL EUCALIPTO. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 169 a humidade do combustível v ivo. CL SOBREIRO. CT PINHEIRO BRAVO. a sua intensidade frontal e a probabilidade de fogo de copas. levou aqueles efeitos em consideração. A simulação do comportamento do fogo. Pinheiro bravo. Tipos estruturais: CL = fechada e baixa. CL PINHEIRO BRAVO. respectivamente a velocidade de propagação do fogo. OL PINHEIRO BRAVO. CL EUCALIPTO. CL CARVALHO NEGRAL. 2005) para condições estivais severas. cujas estimativas se converteram em índices relativos (escala 0-100). CT DIVERSA. a. VELOCIDADE DE PROPAGAÇÃO INTENSIDADE SOBREIRO. CT SOBREIRO.

Intensidade reduzida. PERIGO. as primeiras apresentando desenvolvimento do sub-bosque e acumulação de combustível mais elevados. sylvestris. Castanea sativa e carvalhos de folha caduca) Florestas fechadas e baixas de (i) carvalhos de folha caduca. (ii) sobreiros e (iii) floresta diversa (e. contribuindo decisivamente para o maior potencial de expansão do fogo. TABELA 1 CLASSES DE PERIGO DE INCÊNDIO PARA OS VÁRIOS TIPOS DE FLORESTA PORTUGUESA . sativa. as estruturas abertas tendem a registar menores cargas de combustível e revestimento arbustivo. C.170 VII. A base da copa apresenta-se por sua vez mais elevada nos povoamentos de maior estatura. eucaliptos e acácias Florestas abertas e altas. Os carvalhais tendem a apresentar o sub-bosque mais expressivo e mais húmido. Florestas fechadas e altas de (i) Quercus suber ou (ii) outras florestas diversas (maioritariamente Pinus pinea. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS Nos povoamentos abertos e baixos a humidade do combustível morto é menor e a exposição ao vento maior. bem como o tipo de gestão prevalecente no montado. o que diminui a probabilidade do fogo de copas. BASEADO EM FERNANDES ( 2009 ) PERIGO BAIXO Velocidade de propagação variável. No entanto. Os extremos superior e inferior da intensidade do fogo e potencial de fogo de copas são compreensivelmente ocupados for formações baixas e densas e por florestas altas e abertas. Quercus rotundifolia. ALTO Intensidade moderada a elevada. Risco extremo de fogo de copas. com efeitos contraditórios no comportamento do fogo. Risco elevado de fogo de copas. Risco nulo de fogo de copas. P. Florestas fechadas e baixas de P.g. pinea. Intensidade elevada a muito elevada. A classificação e dist ribuição dos tipos de flor esta por classe de per igo podem ser vistas na Tabela 1. P. entre outros). MUITO ALTO Velocidade de propagação moderada. Florestas fechadas e altas de P. provavelmente reflectindo a dinâmica do combustível associada a plantações jovens e povoamentos maduros. P. pinaster. pinaster. Velocidade de propagação e susceptibilidade a fogo de copas são muito elevadas. Florestas altas (abertas ou fechadas) de eucalipto Florestas abertas e baixas TIPOS DE FLORESTA . mas apenas moderado em pinhal bravo e eucaliptal. sylvestris. MODERADO Fogo de superfície com potencial moderado.

varia decisivamente com o tipo e intensidade da gestão a que são submetidos.g. como o pinhal bravo. A metodologia adoptada permitiu avaliar de forma consistente e objectiva a combustibilidade associada a cada tipo florestal. 3.. PERIGO. devido a diferenças na estrutura. zonas húmidas. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 171 Os resultados não são inesperados. e vão de enc ontro aos princípios de silvicultura preventiva e gestão de combustíveis enunciados no Capítulo VI. pelo impacto que têm na dinâmica do combustível e do povoamento: o perigo de incêndio associado a tipos florestais de combustibilidade intrinsecamente elevada. Os resultados indicam que devem ser evitadas as generalizações sobre o perigo de incêndio efectuadas apenas com base na composição específica dos povoamentos.g. Mermoz et al. condições meteorológicas. Certos tipos de coberto vegetal (e. .2005). 1997. Incidência do fogo 3. Padrões de selecção do fogo por diferentes tipos de coberto do solo O início dos incêndios e a sua propagação resulta da complexa interacção entre fontes de ignição. Moreira et al.g.. Tais factores originam diferentes padrões de comportamento do fogo nos diferentes tipos de coberto vegetal (ver secção anterior). e à escala da paisagem o incêndio desen volve-se. 1983. Rothermel.. já que coincidem com observações dos efeitos da composição e estrutura florestal na incidência e severidade do fogo (ver as restantes secções deste capítulo). o eucaliptal e as quercíneas esclerófilas.VII.2001. Forman. 1983). Mermoz et al. áreas agrícolas ou parcelas recentemente ardidas) (e. topografia e coberto vegetal (associado à estrutura da vegetação e distribuição de combustível) (e. a partir de um epicentro local (ponto de ignição) com uma velocidade de propagação que é acentuada ou retardada pelo grau de heterogeneidade da paisagem (Turner e Dale. humidade e composição da carga c ombustível (Rothermel. Pelo contrário. a estrutura florestal – que afecta o piro-ambiente meteorológico e tem alguma correlação com as características do complexo combustível – influencia sobremaneira a vulnerabilidade ao fogo.g. O coberto vegetal é uma variável chave. matos ou plantações de coníferas) de uma paisagem são mais susceptíveis aos incêndios que outros (e. 1990).1. 2005). Desta forma torna-se evidente a relevância das actividades de gestão.

consumindo as diferentes classes de coberto proporcionalmente à sua abundância relativa antes do fogo. neste caso. Assim. para caracterizar o padrão de selecção dos incêndios. é de esperar que a composição do coberto vegetal na parcela ardida e no buffer (parcela ardida + envolvência) sejam semelhantes. quer a nível nacional. Os padrões de selecção do coberto vegetal pelo fogo foram caracterizados através de coeficientes de selecção (Manly et al. se os diferentes tipos de coberto vegetal apresentarem a mesma susc eptibilidade ao fogo.. se o incêndio se desenvolveu na paisagem de modo indiferente ao tipo de coberto. quer em cada uma de 12 r egiões ecológicas de Portugal continental. Moreira et al. Pelo contrário. o fogo seria considerado selectivo. Estimativa dos índices de selecção pelo fogo A abor dagem utilizada c onsistiu em c omparar a c omposição d o coberto vegetal existente antes do fogo num buffer circular que envolve (e incl ui) cada par cela ar dida (c oberto v egetal disponível). pode-se então presumir que o incêndio se desenvolverá aleatoriamente. c om a composição do coberto vegetal no interior dessa parcela ardida (coberto vegetal consumido). onde oi é a proporção ocupada pelo coberto vegetal i na parcela consumida pelo . Moreira et al. por exemplo nas faixas de gestão de combustível. Alternativamente. a gestão da paisagem poderá usar este conhecimento em aplicações práticas de minimização d o risco de incêndio pela pr omoção de c oberturas de solo menos susc eptíveis ao fogo. Numa dada paisagem. Utilizando uma abordagem que se baseia na estimativa de um índice de selecção dos incêndios por diferentes tipos de coberto do solo. 1993). 1993. 2001). é de e esperar que a composição do coberto na parcela ardida e no buffer sejam diferentes e. se o fogo c onsumir preferencialmente certas classes em detrimento de outras.172 VII. (2009) utilizaram a cartografia de ocupação do solo de 1990 (COS90) e as áreas ardidas (com dimensão superior a 5 ha) no período de 1990 a 1994 (5590 áreas ardidas). INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS A configuração final das parcelas ardidas pode fornecer-nos informação útil sobre o consumo diferenciado das classes de coberto vegetal previamente existentes. se uma ou mais classes de c oberto vegetal arderam mais (ou menos) que a sua disponibilidade r lativa. PERIGO. O coeficiente de selecção (wi) para uma determinada classe de coberto vegetal i é um índice de selecção estimado por wi = oi/πi (Manly et al..

Para determinar o coberto vegetal disponível. Esta dimensão máxima foi utilizada como um indicador da extensão potencial de um incêndio em cada região. sistemas agro-florestais (agf). par a cada parcela ardida. criou-se em torno das parcelas ardidas um buffer circular.0 0. centrado nas coordenadas do centróide da parcela. FIGURA 2 Coeficientes de selecção médios (w) (com intervalos de confiança de 95%) para os tipos de coberto vegetal ardidos no período 1990-1994 em Portugal. O coberto vegetal inclui culturas anuais (ac). então w = 1. culturas permanentes (pc). através da estimativa da proporção da sua ár ea total coberta pelos diferentes tipos de coberto (antes do fogo).0 1.5 W 1. o que indica uma clara preferência do fogo por este tipo de coberto (Figura 2).5 0. I ntervalos de c onfiança que não incl uíram w=1 representaram classes de coberto que foram significativamente preferidas (se o intervalo é acima de 1) ou evitadas (se o intervalo é abaixo de 1) pelo fogo. (2009). 2.VII. Adaptado de Moreira et al. PERIGO. Se um determinado tipo de coberto arde proporcionalmente à sua disponibilidade. Padrões gerais de selecção pelo fogo por diferentes tipos de coberto do solo À escala nacional os mat os constituíram a única classe de c oberto vegetal que ar deu mais d o que ser ia de esper ado relativamente à sua disponibilidade. Como ant es r eferido. floresta de eucaliptos (euc). e floresta mista de folhosas e coníferas ou folhosas e eucaliptos (mxb). floresta de folhosas (brl). floresta mista de coníferas e eucaliptos (mx).0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB . com área igual à extensão do maior incêndio na respectiva região ecológica. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 173 fogo e πi é a proporção ocupada pelo coberto vegetal i no respectivo buffer. o coberto foi consumido em maior proporção (preferido) do que ser ia de esper ar n um evento aleatório. o coberto foi consumido em menor proporção (evitado). floresta de coníferas (con).5 2. se w < 1. Determinaram-se médias e intervalos de confiança (95%) para cada tipo de coberto vegetal ao nível do país e separadamente em cada r egião. matos (srb). Por último. Se w > 1. o c oberto v egetal c onsumido foi obtid o.

As culturas agrícolas (tanto anuais como permanentes) e os sist emas agro-florestais foram os cobertos vegetais menos preferidos pelo fogo. Uma análise multivariada de classificação com base nas variações regionais dos padrões de selecção do fogo nas diferentes regiões do país permitiu a identificação de t rês g rupos geog raficamente distint os (Figur a 3). mas também maior preferência por coníferas e menor por eucaliptos. com os povoamentos de c oníferas. As florestas ocuparam o segundo lugar nas preferências do fogo. (d) a velocidade e intensidade de propagação deverão ser elevadas neste tipo de coberto fechado e baixo (ver secção 2). PERIGO. que favorecem a propagação do fogo. o fogo apresentou a preferência mais elevada para culturas anuais. O último g rupo inclui 5 regiões no c entro e nor deste de P ortugal e apr esenta pr incipalmente padrões de fogo int ermédios ent re os dois g rupos ant eriores. sistemas agro-florestais e florestas de folhosas. (b) a ocorrência de fogos associados à actividade pastoril. e mais baixa par a matos. mistos ou pur os.174 VII. sist emas ag ro-florestais e flor esta de folhosas. cultur as permanentes. a most rarem-se mais susceptíveis ao fogo do que as florestas de eucalipto e de outras folhosas. (2005) que caracterizaram os padrões de selecção do fogo em Portugal durante 1991. culturas permanentes. O primeiro grupo incluiu 4 regiões no noroeste de Portugal onde o fogo mostrou uma pr eferência m uito baixa por cultur as an uais. Em contraste. (c) o facto de os matos poderem ser um coberto vegetal muito comum nas zonas mais declivosas. . e uma preferência elevada por matos. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS Um r esultado semelhant e foi obtid o por N unes et al. incluindo: (a) a baixa prioridade dada ao combate a incêndios em zonas de matos (é o coberto vegetal ao qual nor malmente se at ribui um menor valor). Esta ele vada susceptibilidade dos matos para arder poderá ser e xplicada por vár ias razões. num segundo grupo de 3 regiões no sul de Portugal. utilizando outro tipo de abor dagem. com o objectivo de criar pastagens para o gado (os fogos de origem pastoril representam em média 20% do total de ocorrências com causa determinada).

à excepção da região do Sado e Ribatejo e do Alentejo. apesar de no sul terem sido comparativamente mais susceptíveis ao fogo (Estremadura.e. Cada um dos grupos está representado por uma cor. . e Alentejo. 1 2 4 6 7 3 5 9 8 10 11 12 Variações regionais nos padrões de selecção Os resultados obtidos para cada classe de coberto vegetal encontram-se na Figura 4. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 175 FIGURA 3 Regiões ecológicas utilizadas neste estudo. definidas por Albuquerque (1985). As culturas permanentes foram evitadas igualmente em todas as regiões. os int ervalos de confiança para os coeficientes de selecção incluíram o valor 1). Numeração das regiões: 1 – Noroeste 2 – Alto Portugal 3 – Nordeste Transmontano 4 – Beira Douro 5 – Beira Litoral 6 – Beira Alta 7 – Beira Serra 8 – Estremadura 9 – Beira Baixa 10 – Sado e Ribatejo 11 – Alentejo 12 – Algarve Adaptado de Moreira et al. Os sistemas agro-florestais arderam proporcionalmente à disponibilidade no Sado e Ribatejo. Sado e Ribatejo. Em todas as regiões as culturas anuais foram evitadas pelo fogo. Estas culturas foram particularmente evitadas nas regiões a noroeste. Nas outras r egiões for am e vitados pelo fogo . e agrupamentos de regiões com base nas semelhanças entre padrões de selecção do fogo. Alentejo e Algarve). em par ticular nas r egiões a noroeste.VII. (2009). PERIGO. onde arderam proporcionalmente à sua disponibilidade na r egião (i.

5 4. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 4.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0.5 0.0 5.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 2.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 2.0 BEIRA DOURO 1.0 1.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0.0 NORDESTE 6.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MXB 0. PERIGO.5 0.0 0.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB .5 BEIRA ALTA 2.0 ALTO PORTUGAL 3.0 1.5 2.0 0.0 2.0 1.0 0.5 BEIRA SERRA 1.0 NOROESTE 2.5 1.0 BEIRA LITORAL 1.5 0.0 3.5 0.5 0.176 VII.0 ESTREMADURA 1.5 1.0 0.0 1.0 1.0 2.0 1.5 2.5 1.0 1.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 2.0 0.

ar deram menos d o que o esperado.0 AC PC AGF SHR CON BEIRA BAIXA 2. tendo-se reduzido em direcção ao interior.5 ALENTEJO 2. Beira Litoral e Estremadura. Adaptado de Moreira et al. floresta de eucaliptos (euc). onde as coníferas arderam proporcionalmente à sua disponibilidade. Beira Serra.0 ALGARVE 1. A maior preferência por este tipo de coberto vegetal foi observada nas regiões costeiras. No que respeita às florestas de coníferas. Beira Alta.0 0.5 2.0 1.0 1. O coberto vegetal inclui culturas anuais (ac).0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB FIGURA 4 Coeficientes de selecção médios ( e intervalos de confiança a 95%) par a os tipos de c oberto vegetal ardidos em 12 regiões de Portugal.5 2.5 2.5 1.5 1.5 0.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0. culturas permanentes (pc).5 0. e floresta mista de folhosas e coníferas ou folhosas e eucaliptos (mxb). INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 177 2. matos (srb).5 0. à excepção das regiões do Sado e Ribatejo e do Alentejo. agro-florestais (agf ).5 1. PERIGO. Beira Baixa e Estremadura). Os coeficientes de selecção mostraram uma clara preferência do fogo pelos matos. com excepção do c entro de Portugal (Beira Litoral.5 0. enquant o que nas r estantes r egiões. .0 0. os resultados sugerem que este coberto é ligeiramente evitado em todas as regiões. floresta mista de coníferas e eucaliptos (mx). floresta de c oníferas (con). As florestas de eucaliptos arderam proporcionalmente à sua abundância relativa no Algarve. (2009).0 SADO E RIBATEJO EUC BRL MX MXB AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 1. floresta de folhosas (brl). onde os intervalos de confiança sugerem que os matos arderam proporcionalmente à sua disponibilidade.0 1.0 0.VII.

Nordeste e Estremadura. (b) diferenças climáticas. enquanto que nas restantes regiões arderam menos do que o esperado. uma vez que nas regiões onde um tipo de coberto escasseia. PERIGO. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS As florestas de folhosas ar deram menos do que o esper ado. As florestas mistas de folhosas e coníferas ou eucaliptos arderam proporcionalmente à sua disponibilidade na Beira Serra. No sul e no interior nordeste o clima é mais árido. a preferência do fogo poderá ser baixa. (e) diferenças na disponibilidade. onde arderam de acordo com a sua disponibilidade. As diferenças regionais na susceptibilidade dos matos ao fogo são mais difíceis de compreender. As florestas mistas de eucaliptos e coníferas arderam de acordo com as disponibilidades na Beira Litoral e Estremadura. o que c ontribui par a o aument o d o r isco de incêndio. (c) diferenças na gestão agrícola e florestal. Beira Alta. dada a precipitação elevada nestas regiões. uma das hipóteses para explicar as diferenças regionais de preferência do fogo por um dado tipo de coberto . que podem fazer com que um determinado coberto vegetal possa ser mais susceptível ao fogo nas regiões mais áridas. O padrão de oc orrência das ig nições pode explicar estes resultados. Por exemplo. Como foi mencionado anteriormente. e foram evitadas nas restantes regiões. (d) diferenças na estratégia e eficiência do combate aos incêndios. Para além disso. ainda que este seja altamente combustível. claramente ligadas às condições climáticas. a consequente elevada produtividade permite gerar maiores cargas de c ombustível nos matos. O que explica as variações regionais na susceptibilidade do coberto vegetal? As variações regionais na susceptibilidade ao fogo de um determinado tipo de coberto podem ser explicadas por vários factores: (a) os padrões de ignição podem variar de região para região. o que r eduz sig nificativamente a c ombustibilidade. excepto na região Sado e Ribatejo. As difer enças r egionais obser vadas nas cultur as per manentes. as culturas anuais no noroeste de Portugal são na sua maioria ir rigadas.178 VII. a proporção de campos irrigados m uito menor e a pr oporção de t errenos em pousio e past os secos aumenta bastant e. na medida em que nas regiões a noroeste o uso tradicional do fogo é ainda comum na gestão dos campos. Beira Litoral. nas culturas anuais e nos sistemas agro-florestais. podem ser explicadas por diferenças nas práticas agrícolas.

O btiveram-se valor es de 10% par a as flor estas mistas de coníferas e eucaliptos. o nível de gestão e prevenção de incêndios pode explicar as diferenças. entre 40-85% das diferenças na susceptibilidade regional ao fogo pode explicar-se pelas diferenças na abundância relativa destes povoamentos. Várias interpretações podem desenvolver-se no sentido de explicar estas diferenças. De facto. os povoamentos de eucalipto têm geralmente ciclos de rotação mais curtos . em regiões onde um tipo de coberto vegetal escasseia. que é independente da sua disponibilidade actual nas diferentes regiões e sugerem uma progressiva diminuição da susceptibilidade ao fogo ao longo do gradiente: floresta mista de coníferas e eucaliptos > coníferas > eucaliptos > folhosas. foi modelada esta relação e e xtrapolada a pr oporção de c oberto que c orresponderia a um valor de coeficiente de selecção igual a 1 (ár ardida proporcional à área ea disponível). De facto. coníferas. a preferência estatística do fogo poderá ser baixa pelo simples facto de que a probabilidade de arder ser também baixa. Para as florestas de folhosas a estimativa máxima do coeficiente de selecção foi infer ior a 1 (0. 30-35% para as florestas de coníferas e 40-45% para os eucaliptos. Para além disso. Em primeiro lugar. incluindo uma gestão mais cuidada d os combustíveis e sistemas de vigilância e combate privados. ainda que este seja altamente combustível. Análise comparada do risco dos diferentes tipos de floresta Nos tipos de floresta em que se comprovou existir uma influência da disponibilidade regional nos índices de selecção. eucaliptos. Em segundo lugar.87 par a 100% de c obertura). No caso dos out ros tipos de c oberto vegetal não for am encontradas correlações significativas. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 179 do solo é a sua disponibilidade r egional. Tal significa que a susceptibilidade ao fogo cresce proporcionalmente à área ocupada. PERIGO. sobretudo ao nível da continuidade horizontal e vertical dos combustíveis.VII. afectam a combustibilidade e consequentemente fazem variar a capacidade de controlo de um incêndio (ver secção 2). e às flor estas mistas de c oníferas e e ucaliptos. Uma parte significativa das áreas de eucalipto são geridas de forma intensiva. Estes valores indicam o risco relativo de incêndio nos diferentes tipos de povoamentos. verificou-se que em relação às florestas de folhosas. diferenças na estrutura dos povoamentos associadas a cada tipo de flor esta.

o que r esulta numa maior pr oporção relativa de plantações recentes e de áreas cortadas. pyrenaica) e as de folha perene (Quercus rotundifolia e Q. (b) a proporção de parcelas dos vários tipos (baseadas no mapa de coberto do solo) queimadas. uma maior pr oporção de coníferas são ger idas extensivamente (em termos de silvicultura e prevenção de incêndios). Em contraste. Quercus robur e Q. A situação nos povoamentos mistos pode ser ainda pior . Nas folhosas det ectou-se igualment e que uma par te sig nificativa (40%) da variação regional na susceptibilidade ao fogo pode ser explicada pela disponibilidade regional deste coberto. PERIGO. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS do que as c oníferas. folhosas não especificadas e r esinosas não especificadas).3.g. 3. Castanea sativa. exploraram a relação entre a probabilidade de fogo (no período 1998-2005) e a composição e estrutura (baseada em 3 índices estruturais e na percentagem de cobertura em vários estratos de altura) dos povoamentos. As últimas são provavelmente mais susceptíveis ao fogo porque constituem piro-ambientes mais secos e expostos ao vento (ver secção 2). com as espécies de folha caduca mais c omuns no nor te (e. Quercus suber. Não obstante. em comparação com os povoamentos mistos ou puros de coníferas. suber) mais comuns no sul e nordeste. analisar am os padrões de selec tividade d o fogo por oito tipos difer entes de flor esta (povoamentos puros e d ominantes de Castanea sativa. utilizando dados do Inventário Florestal Nacional (IFN) de 1997/8. Todos estes factores poderão contribuir para o fraco incremento na susceptibilidade das florestas de eucalipto ao fogo à medida que a sua ár ea aumenta. Para além disso. onde os pr oprietários não efectuam qualquer tipo de gestão da floresta. existem também variações regionais nas espécies de ár vores envolvidas. Pinus pinea. O risco de incêndio de vários tipos de flor esta em Portugal Silva et al. na medida em que são car acterísticos de parcelas de pequena dimensão . com uma menor frequência de acções de gestão. Pinus pinaster. . Quercus rotundifolia. e (c) proporção de parcelas do IFN dos vários tipos queimadas.180 VII. que podem ser menos susceptíveis ao fogo. utilizando 3 abordagens diferentes: (a) índices de selecção. (2009). Eucaliptus globulus.

(2009). pode ser e xplicada pelo facto de. pyrenaica) apresentavam um maior risco de incêndio quand o c omparados c om os de pinheir o manso . em que as folhosas são menos susceptíveis do que out ros tipos de floresta. . INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 181 A análise integrada das 3 abordagens utilizadas mostrou que os povoamentos de pinheir o br avo. Sobreiro. De uma forma geral. sendo o aumento mais notório no caso do pinheiro-bravo. sobreiro. robur e Q.00 0. e ucalipto e de folhosas não especificadas (maioritariamente Quercus robur e Q. A aparente contradição com os estudos de Fernandes (2009) e M oreira et al. uma parte substancial destes pontos corresponderem a áreas que apresentam uma fisionomia mais próxima de matos do que de floresta (ver abaixo). No entanto.5 1. a pr obabilidade de ar der aumentou com o índic e de c obertura (Figura 5). (2009).0 0. no caso das folhosas não especificadas.00 ÍNDICE DE COBERTURA Folhosas não específicadas Eucalipto FIGURA Pinheiro bravo Sobreiro Azinheira 5 Probabilidade de ocorrência de fogo. Azinheira. Este facto pode ser 2.80 1. o risco de incêndio diminuiu com o aumento do índice de cobertura (Figura 5).VII.0 0. em função do índic de e cobertura de 5 tipos de flor esta.20 0. Folhosas não especificadas (maioritariamente Q. PERIGO. Pinheiro bravo.5 0. nas parcelas do IFN. azinheira e castanheiro. Eucalipto. pyrenaica).60 0. Adaptado de Silva et al. As variáveis mais importantes na determinação da probabilidade de arder foram o tipo de floresta e o índice de cobertura (um indicador da cobertura acumulada nos estratos verticais considerados).0 PROBABILIDADE DE OCORRÊNCIA 1. durante o período 1998-2005.40 0.

Modificação da severidade do fogo em tipos florestais contíguos a pinhal bravo É expectável que a se veridade do fogo var ie substancialmente entre tipos de vegetação.. o que explicará o seu baixo risco comparado. o risco era máximo para níveis intermédios de cobertura. o que contribuía para a sua combustibilidade. O processo de expansão dos grandes incêndios. 2009). Fogos severos podem ter consequências nefastas nos atributos e processos dos ecossistemas. Num determinado incêndio a interacção entre a vegetação. os povoamentos de pinheiro bravo apresentavam os maiores valores de cobertura para as classes de vegetação até 1 m de altura.g. No entanto. invasão por espécies exóticas e dinâmica do carbono (Miller et al. 2009). Oliveras et al. mesmo nas c ondições mais ad versas. azinheira e castanheiro. no interior dos povoamentos adultos de folhosas. menos vento e maior humidade. 4. fragmentação e disponibilidade de habitats. impelidos por situações met eorológicas extremas. As diferenças verificadas para os diferentes tipos de floresta podiam ser explicadas um função da sua estrutura e do tipo de gestão. Em muitas circunstâncias os impactes ambientais e sociais dos incêndios são melhor avaliados pela área ardida por fogo de ele vada severidade do que pela . PERIGO. Os povoamentos classificados como folhosas não especificadas correspondiam frequentemente a áreas não geridas em regeneração. nomeadamente na erosão do solo. Podur e Martell (2009). o piro-ambiente meteorológico e a posição topográfica (Lentile et al.. Por exemplo. é de esper ar que os padrões espaciais da se veridade do fogo respondam à int eracção entre a composição e est rutura florestal. No caso dos eucaliptos. pode ser independente do tipo de vegetação. Consequentemente. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS explicado pela ocorrência de temperaturas mais baixos.182 VII. 2006.. a gestão florestal beneficia granmente do conhecimento e capacidade de pr edizer os padrões de se veridade do fogo. e. a topografia e a oscilação das condições meteorológicas condiciona o comportamento do fogo e por tanto os respectivos efeitos. são geridos em sistemas agro-florestais com baixa densidade de árvores. padrões de resposta e recuperação da vegetação. Uma parte significativa dos povoamentos de sobreiro. com uma fisionomia semelhante a matos.

e c oníferas de montanha ( Pinus sylvestris. A vegetação contígua ao pinhal br avo incluiu for mações de Quercus pyrenaica. seleccionaram 10 incêndios ocorridos nos verões de 2005 e 2006. P. 2) deslocação do fogo no sentido de PS para OF. No total amostraram-se 200 parcelas distribuídas por 56 segmentos de transecto em 13 locais. Adoptou-se um número fixo de par celas (três. sylvestris – Chamaecyparis lawsoniana). área basal e altur a dominante. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 183 superfície total afectada (Reinhardt et al. A severidade do fogo nas árvores baseou-se em métricas . Para tal.VII. A classificação da se veridade do fogo distinguiu os estratos arbóreo. A selecção d os pont os de amost ragem obedec eu aos seguint es requisitos: 1) ausência de evidências de combate ao fogo. 2008). e um número variável de parcelas no segmento OF a fim de descrever todo o gradiente de severidade do fogo. O fogo foi descr ito como sendo de superfície ou de c opas. cobrindo 18 m) no seg mento PS do transecto. Consequentemente. bosques de Betula alba (puros ou com Castanea sativa). o estudo c onfundiu propositadamente a severidade do fogo e o tipo florestal. e 3) existência de diferenças entre PS e OF nos efeitos do fogo nas c opas. PERIGO. puras ou mistas (com Betula alba. que na r egião foram marcados por c ondições invulgares de secura e incêndios excepcionalmente grandes. Pseudotsuga menziesii. já que o objectivo principal era descrever a variação na severidade do fogo na presença de impactos do fogo c omprovadamente distint os ent re os dois tipos de floresta. (2010) estudaram à escala local a alteração da severidade do fogo na interface entre pinhal bravo (PS) e outros tipos de floresta (OF) nas montanhas do noroeste do país. arbustivo e da manta morta e seguiu Ryan e Noste (1985). Castanea sativa ou Quercus robur). o que dá pertinência aos estudos comparados de severidade do fogo. As avaliações e cálculos pós-fogo efec tuaram-se à escala da par cela. densidade de indivíduos. Mediram-se os diâmetros à altura do peito (DAP) e alturas de todas as árvores ou caules de espécies arbóreas. Fernandes et al. Avaliou-se a variação na severidade do fogo em par celas circulares com três metros de r aio localizadas consecutivamente sobre transectos perpendiculares à orla PS-OF. Os par es PS-OF er am fisiograficamente similares sempre que possível. Calculou-se o DAP médio. bosques de Arbutus unedo (puros ou em consociação com Quercus suber).. A nível europeu é muito escasso o conhecimento sobre a variação da severidade do fogo relativamente à composição florestal.

uma vez que as parcelas sem copa dessecada não entraram na análise. A altura de copa dessecada foi significativamente inferior em DB relativamente a PS após consideração dos efeitos das restantes variáveis com influência (altura dominante e exposição). Severidade do fogo e tipo de floresta A severidade do fogo decresceu significativamente do pinhal br avo para as florestas adjacentes na maioria dos locais amostrados. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS (altura de copa dessecada. A percentagem de parcelas afectada por fogo de superfície dá uma primeira impressão das diferenças de severidade do fogo entre tipos florestais: 53. As resinosas de montanha de acícula fina. folhosas caducifólias e coníferas de montanha. grau de carbonização da casca) colhidas nas árvores dominantes e codominantes. a altur a de copa dessecada não r eflectiu a variação completa no comportamento do fogo. elevada ou muito elevada). A altura de tronco carbonizado seguiu a tendência PS > DB > SNC. folhosas perenifólias (EB). 90 e 97%. revelou diferenças de comportamento do fogo de vidas ao tipo de c oberto florestal. situando-se os dois tipos restantes em posição . respectivamente pinhal bravo. revelaram-se assim como o tipo de floresta menos favorável à propagação do fogo. folhosas perenifólias. No entanto. moderada. altura de tronco carbonizado. A modelação das alturas de c opa dessecada de t ronco carbonizado. Um índice global de severidade do fogo resultou da média das avaliações por estrato. sendo exprimido numa de quatro classes (reduzida. respectivamente em pinhal br avo. As maiores e menores severidades do fogo correspondem respectivamente ao pinhal bravo e às folhosas de folha caduca. as for mações EB não se distinguiram estatisticamente de nenhum dos restantes tipos. e a transição observada foi fr equentemente br usca. As análises focaram-se nas diferenças entre PS e OF ou ent re tipos ger ais de c oberto florestal. A Figura 6 exibe a dist ribuição por tipo flor estal da se veridade do fogo. após neutralização dos efeitos da altura de base da c opa. coníferas de montanha (SNC) e folhosas caducifólias (DB). DAP e distância à orla PS-OF.184 VII. incluindo os seus componentes individuais. nomeadament e aquand o da propagação encosta abaixo em folhosas caducifólias. que formam bosquetes densos sem sub-bosque e c om folhada muit o compacta. 79. que e xplicou respectivamente 61% e 70% da variação existente. quedando-se em valores intermédios nos outros tipos florestais. PERIGO.

EB = folhosas perenifólias. (2010). apesar da maior incidência do fogo de copas em pinhal bravo. mediana = 21 m).229. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 185 (a) 100 80 60 (b) 100 80 60 % % 40 20 0 PS SNC EB DB 40 20 0 PS SNC EB DB (c) 100 80 60 (d) 100 80 60 % % 40 20 0 PS SNC EB DB 40 20 0 PS SNC EB DB FIGURA 6 Distribuição das parcelas por nível de severidade do fogo na manta morta (a).01) nos dois segmentos do transecto. Adaptado de Fernandes et al.069) com a severidade registada na porção PS do transecto. A distância (a partir da fronteira PS-OF) correspondente à severidade do fogo mínima não foi afectada pelo tipo de floresta (p=0. . PS = pinhal bravo. É interessante constatar que o maior contraste de severidade entre PS e os tipos OF se regista nos estratos inferiores. sub-bosque (b). PERIGO. DB = folhosas caducifólias. Da mesma forma. intermédia. mas mostrou alguma associação crescente (p=0. p<0. SNC = coníferas de montanha. árvores (c) e globalmente (d). verificou-se correlação entre a severidade do fogo (componentes individuais e global. O gr adiente de se veridade do f ogo aumenta do cinzento claro (reduzida) para o preto (muito elevada).VII.

55 M = 0.33 E = 0. Dist. A primeira partição das parcelas correspondeu exactamente aos tipos PS e OF Na ra. foi a variável mais importante.72 M = 0.92 E = 0. PERIGO. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS Análise global da severidade do fogo Uma análise de classificação em ár vore (Figura 7) e xplicou 44% da variação obser vada na se veridade g lobal do fogo.12 E = 0.11 G ≥ 32.18 ME = 0.27 E = 0.67 ME = 1 (b) ≥9 < 1389 OF Dist ≥ 1389 DB >9 Árvores/ ha Tipo Florestal SNC.28 M = 0. R = reduzida). O tipo de coberto. Os números no final dos nós t erminais indicam a proporção de parcelas por classe de severidade (ME = muito elevada.0 < 15.50 R = 0. Este desempenho só aparentemente é modest o. M = moderada.63 M = 0.44 R = 0. EB < 15 Dist ≥ 15 E = 0.06 E = 0.09 <8 E = 0. Adaptado de Fernandes et al.4O ME = 0.48 M = 0. = distância à orla PS-OF (m).88 M = 0.44 M = 0.50 FIGURA 7 Árvore classificativa do índice global de severidade.50 R = 0.37 < 32. E = elevada. (a) ≥ 7. G = área basal (m2 ha-1). em consonância com a análise anterior.0 E = 0. uma v ez que a a valiação da se veridade d o fogo à escala da parcela reflecte a micro-variação no complexo combustível e nos factores de índole meteorológica.4 E = 0.40 E = 0.6 N-W > 7.4 M = 0.6 PS G ≥ 15.22 S-E N-W dnsl FSP upsl ME = 0. SH = altura dominante (m). (2010). .60 E = 0. upsl = encosta acima ou perpendicular à orientação do declive).60 N-W E = 0. FSP = padrão de propagação do fogo (dnsl = encosta abaixo.63 R = 0.50 SH ≥8 < 1111 Árv.52 M = 1.186 VII./ha ≥ 1111 Exposição S-E ME = 0. (a) Sub-árvore do pinhal bravo (PS) e (b) sub-árvore dos restantes tipos florestais (OF).08 ME = 0.0 SH Exposição S-E Exposição ME = 0.

28. PERIGO. enquanto que no tipo OF estão r epresentados todos os níveis de severidade. Hély et al. A var iável c om maior capacidade de explicar a variabilidade da severidade do fogo nas formações OF foi a distância à orla PS-OF seguida da densidade e tipo de flor . Epting e Verbyla.3%. a e xposição.5% da severidade compósita do fogo. 2009) e suportam os resultados obtidos por Fernandes (2009) (Secção 2). com aumentos da severidade do fogo em pinhal bravo e nas formações SNC e EB nas encostas viradas a sul e este. as suas car acterísticas.. em PS como em OF. Por ordem decrescente de importância.1% e 4. a distância à orla PS-OF e o padrão de pr opagação d o fogo e xplicaram r espectivamente 51.. refira-se o papel da exposição do terreno. 2005. Os resultados são consonantes com a literatura (e.3%. Implicações para a gestão Algumas conclusões resultantes destes estudos podem ser sumarizadas nos seguintes pontos: . os factores responsáveis pela variação da severidade do fogo no pinhal bravo foram a área basal. como também as modificações no microclima associadas à deslocação do fogo para situações topográficas mais húmidas e abrigadas. 5. e da altura dominante e exposição.VII. A aquisição de matur idade estrutural contribui para reduzir o impacto do fogo. o tipo de OF não influenciou a severidade do fogo. 9. 2003. sub-bosque hig rófilo) e ao pir o-ambiente meteorológico (redução do vento. Note-se que o aumento da densidade mitigou a severidade do fogo em formações OF maduras mas agravou-a no carvalhal jovem.3%. esta. a altura dominante e a exposição do terreno. e o sentido da propagação d o fogo r elativamente ao decli ve. Para o efeito de mitigação da severidade do fogo concorreram não só as difer enças entre PS e OF iner entes ao complexo combustível (folhada menos inflamável e mais compacta e/ou mais escassa. maior humidade do combustível morto e vivo). Para além de uma maior redução inicial em caducifólias. a composição dos povoamentos. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 187 mificação PS da ár vore prevalecem largamente as severidades elevada e muito elevada. uma vez que a severidade do fogo diminuiu em povoamentos com árvores maiores ou maior área basal.g. Lee et al. 9. situação predominante em 10 dos locais amostrados. apesar das diferenças detectadas no comportamento do fogo.. Globalmente. Finalmente.

Modificam o comportamento e a severidade do fogo. ser integradas nas faixas de gestão de combustível e. Assiste-se à recuperação das quercíneas. se necessário. A estrutura dos povoamentos é pelo menos tão importante como a sua c omposição. podem reduzir o risco de incêndio. 5. É difícil implementar tratamentos de gestão do combustível numa escala espacial que se reflicta em alterações no regime de fogo. quando está a causa o desenho de faixas de gestão de c ombustível à escala da paisagem. as cultur as anuais (incl uindo as pastagens). Em termos de gestão flor estal. O desenvolvimento de maturidade conducente a maior r esistência ao fogo e xige que se combinem técnicas silvícolas com a redução da incidência do fogo.188 VII. 4. PERIGO. as ár eas c om est e tipo de uso deverão. mesmo em c ondições meteorológicas muito adversas. Este não pode ser dissociad o da estrutura e distribuição horizontal e vertical dos combustíveis. em povoamentos puros os mistos. 3. Povoamentos adultos e densos destas espécies são mais r esistentes ao fogo e apresentam menor risco de incêndio. mas muitas formações apresentam acentuada continuidade vertical e baixa estatura correspondentes a um elevado perigo de incêndio. sempre que possível. as folhosas de folha caduca. Estes estudos confirmaram que. Dest e mod o. e podem contribuir para uma menor incidência do fogo e para uma maior resiliência à sua ocorrência. e podem eventualmente originar a auto-extinção do fogo. as cultur as per manentes e os sistemas agro-florestais são os usos mais eficient es na redução do risco de incêndio . sendo evidentes os benefícios que poder iam advir de um maior esforço de fomento ou conversão em tipos florestais de menor combustibilidade. Povoamentos de folhosas de folha persistente ou caducifólia e de coníferas de montanha podem sofrer menos com a passagem do fogo que o pinhal bravo. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 1. . na det erminação do perigo de incêndio. ser promovidas em locais específicos. 2. A elevada combustibilidade inerente a certos tipos florestais pode ser contrariada ou até mesmo anulada pelo tipo e intensidade da gestão do povoamento.

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Prós e contras da extracção da madeira queimada 2. Introdução 2.191 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS VIII. A biodiversidade e conservação de nutrientes 2.2. Balanço ecológico da gestão da madeira queimada . As pragas florestais 2. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS SUSANA BAUTISTA RUI MORGADO FRANCISCO MOREIRA 1.4.1.3. A degradação do solo 2. A regeneração da vegetação 2. A carga combustível 3.5.

a razões estéticas (Mciver e Starr. ou se a espécie ou o po voamento forem resilientes. há outros factores que poderão faz er com que o gestor decida não remover o material lenhoso (por exemplo. Mas mesmo e quando a mor talidade é ele vada. e particularmente nos pinhais. fitossanitários ou relacionados com a facilitação dos trabalhos posteriores de gestão florestal. pelo menos nas florestas públicas. 2004). Não obstante. e da técnica de extracção utilizada. Beschta et al. uma prática c omum nas últimas décadas c onsistiu em e xtrair o mais rapidamente possível os troncos queimados com o objectivo de minimizar a pot encial per da de valor ec onómico da madeir a e os ataques de escolitídeos. das condições meteorológicas pós-incêndio. ainda que em menor escala. a retirada dos troncos queimados após os incêndios florestais é uma prática r elativamente comum que obedece geralmente a critérios económicos. a decisão de r etirar ou não as ár vores afectadas deve depender de diferentes factores. Introdução Após um incêndio. da severidade do fogo. condições em que não se justifica o abat de árvores. Em c ontraste. e também. o risco de erosão do solo. do tipo de solo. Os efeitos ambientais da extracção de árvores após um incêndio dependem das características dos povoamentos afectados. nas r egiões mediterrânicas mais ár idas as florestas produtivas escasseiam e o valor comercial da madeira queimada é reduzido. ou a promoção da biodiversidade associada à madeira morta). Nas florestas de portuguesas. prevalecendo outros critérios de gestão florestal. com o objectivo de garantir uma cobertura vegetal mínima para a protecção .192 VIII. tem sido argumentado que a recolha de salvados tem efeit os negati vos e que a r emoção das ár vores queimadas causa alterações estruturais e funcionais nos ecossistemas. A título exemplificativo. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 1. bem como do momento da sua aplicação. O tipo de gestão que se aplica à madeir a queimada e os moti vos concretos que o justificam t em mostrado uma certa variação no tempo e no espaço. 2000. do declive. Se um fogo for de baixa int ensidade.. No entanto. O nível de se veridade do fogo e a mortalidade provocada nas árvores (ver Capítulo III) são cruciais. no caso da Administração Florestal da Comunidade Valenciana (Espanha) recomenda-se retardar a extracção da madeira queimada até um ou dois anos após o incêndio. a taxa de sobr evivência dos indivíduos poderá ser razoável a elevada.

Na realidade.VIII. Em sentido contrário. conhece-se muito pouco sobre as consequências ecológicas desta actividade e são poucas as e vidências científicas que sustentam uma e outra posição. A maior par te da infor mação deste capítulo diz r espeito a po voamentos de resinosas.. particularmente em anos com grandes incêndios. Os dados disponíveis na bibliog rafia . Normalmente. Tradicionalmente. muitos deles relacionados entre si. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 193 do solo face à erosão. 2004). Prós e contras da extracção da madeira queimada As c onsequências ec ológicas que podem associar -se à gestão da madeira queimada após os incêndios florestais constituem uma intrincada rede de efeitos potenciais. Todavia. Barker. uma questão complexa e aberta a discussão. A redução da carga de combustível para futuros incêndios (e. foi produzida legislação diversa para facilitar a c omercialização desta madeira. a extracção de madeira após os incêndios flor estais er a efectuada sem t er em c onsideração cr itérios ecológicos (Beschta et al. 1995. exacerbando o efeit o do fogo. Mclver e Starr. argumenta-se que as actividades de corte e extracção de madeira danificam a vegetação e o solo das zonas queimadas. a e xtracção da madeir a queimada destaca-se num conjunto de medidas direccionadas à recuperação da zona queimada e em Portugal. O balanço ecológico deste tipo de ac tividade é.. A facilitação dos futuros trabalhos de gestão ou r ecuperação da flor esta é um d os argumentos apontados a favor deste procedimento. não apenas no contexto da gestão florestal mas também no da in vestigação. nos últimos anos tem-se gerado um intenso debate no qual as questões ec ológicas e ambientais desempenham um papel central na controvérsia sobre esta actividade. Aman e Ryan. 1989) ou a prevenção da propagação de pragas de insectos perfuradores da madeira (e. e que a r emoção dos t roncos queimados induz importantes alterações estruturais e funcionais no sistema. os responsáveis pela gestão florestal tendem a efectuar algum tipo de gestão ac tiva da flor esta após os incêndios. 2000). Em m uitos casos. portanto.g.g. 1991) são também argument os habituais a fa vor desta for ma de gestão. 2. e tal como assinalaram diversos investigadores e gestores florestais (Beschta et al. que afectam uma larga sér ie de var iáveis estruturais e funcionais d os ecossistemas.

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apontam para certos padrões genéricos em relação a alguns aspectos da extracção da madeir a queimada, embora sejam ainda escassos e m uito heterogéneos. São pouc os os t rabalhos de in vestigação r elativos aos diferentes elementos afectados e praticamente inexistentes os que analisam de forma global todo o elenco de consequências potenciais (Bautista et al., 2004). Num trabalho de revisão, Mclver e Starr (2000) apenas encontraram 21 trabalhos publicados nos quais se avaliou algum dos efeitos potenciais deste tipo de gestão . Destes, apenas 14 incl uíram a avaliação de zonas testemunha sem extracção e, entre estes, apenas 7 apresentaram resultados de experiências adequadamente replicadas que per mitiram inferência estatística. Somente um destes trabalhos, sobre os efeit os na vegetação, avaliou as c onsequências da e xtracção de madeir a queimada a longo prazo (11 anos). Os resultados não são sempre consistentes e, em geral, indicam um for te efeito do local e das cir cunstâncias particulares, pelo que os efeitos descritos em zonas muito específicas não podem entender-se como genéricos e extrapolar-se a outros territórios. A Tabela 1 resume os principais argumentos utilizados contra ou a favor da extracção da madeir a queimada, os quais por v ezes não são basead os
TABELA 1
PRÓS E CONTRAS DO CORTE E EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA

PRÓS

CONTRAS

Evitar pragas (escolitídeos)

Aumento da erosão e compactação do solo provocada pela maquinaria e arraste de troncos Impacte negativo na biodiversidade e fauna florestal

Melhorar a germinação dos pinheiros (se a extracção for imediata)

Aproveitar o potencial valor económico da madeira queimada Reduzir o impacto visual

Impacte negativo na regeneração natural do povoamento Impacte negativo na regeneração da vegetação Perda de matéria orgânica do sistema, que pode afectar negativamente a reciclagem de nutrientes

Reduzir o risco de acidentes provocados por quedas de árvores

Redução da carga combustível que diminui o risco de futuros incêndios

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em critérios estritamente científicos. Caberá ao gestor tomar essa decisão (extrair ou não) em função do seu conhecimento da área e do balanço dos impactes (positivos e negativos) expectáveis. Algumas das questões mais polémicas são analisadas em seguida.
2.1. A degradação do solo

A perturbação do solo associada aos trabalhos de corte e extracção das árvores pode r esultar n um pr ocesso mais ou menos pr olongado de degradação do solo. Os incêndios florestais provocam uma alteração brusca das condições da super fície do terreno que conduzem a um aument o do risco de degradação (DeBano et al.,1998). Pode colocar-se a hipótese de que a per turbação conjunta que se associa à r etirada da madeir a queimada potencia a degradação do solo em ár eas queimadas. Os estudos existentes sugerem que as práticas de e xtracção de madeira podem alterar de forma severa a super fície d o solo , ac elerar os pr ocessos de er osão, aumentar a compactação superficial e a produção de escorrências, assim como a degradação da qualidade das águas da r egião (Gayoso e Iroumé, 1991; Rab, 1994; Edeso et al., 1999; Silins et al., 2009). Os efeitos aumentam em função do número de trilhos de extracção que se construam e da intensidade do seu uso (Beschta, 1978). Não obstante, nos casos em que se c onservaram os horizontes orgânicos e os resíduos da extracção de madeira na superfície, as alterações físico-químicas e os efeit os sobre a er osão do solo podem ser substancialmente reduzidos (Fernández et al., 2004). Em terrenos muito susceptíveis à erosão e compactação, a extracção por via aérea (ex. suspensão em cabos) permite reduzir ao mínimo os efeitos negativos destas operações. Nalguns estudos realizados em Portugal detectaram-se incrementos notáveis nas taxas de erosão depois da extracção de madeira queimada em zonas de Pinus pinaster e de Eucalyptus globulus (Walsh et al., 1992; Shakesby et al., 1994; Terry, 1994). Também fora da área mediterrânica se mediram taxas mais altas de pr odução de escorrência e sedimentos em áreas de extracção de madeira em comparação com as zonas testemunha, ainda que, em alguns casos, os efeit os só t enham sid o r egistados em condições de elevado declive. A degradação e erosão do solo que se relaciona com a gestão da madeir a queimada parece ser altamente dependente do tipo de t ratamento que se aplique (ar rasto dos toros com animais ou

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tractor, suspensão em cabos, helicóptero, etc.), assim como das condições da superfície. A cobertura de folhada ou de r esíduos da ac tividade de corte e e xtracção que ficam na su perfície desempenham um papel determinante (Shakesby et al., 1994), pelo que se r ecomenda que os trilhos de extracção sejam coberto de ramos e bicadas para minimizar a compactação do solo e os riscos de erosão. Apesar dos impactes negativos da extracção das ár vores queimadas, nas z onas em que se deixam os troncos queimados em pé, a sua post erior queda e o le vantamento da coroa de raízes pode provocar o início de processos de erosão de tal forma que, nalgumas ocasiões, se c onsiderou a e xtracção c omo uma acção preventiva face a este risco (Poff, 1989). No entanto, quando se dá a queda natural dos troncos queimados, esta ocorre geralmente vários anos depois do incêndio, quando a cobertura do solo devida à recuperação do coberto vegetal já deverá ser suficiente para minimizar estes impactes, que não se encontram documentados de um ponto de vista científico. A rechega de t roncos e/ou a c ompactação do solo por maquinar ia associam-se ao aparecimento de sulcos de erosão linear (Gayoso e Iroumé, 1991; Rab, 1994). Na Comunidade Valenciana, um estudo a longo prazo realizado em 13 ár eas de pinhal (Bautista et al., 2004) avaliou o efeito potencial sobr e a deg radação d o solo por pr ocessos de esc orrência superficial e a per da de solo por er osão linear associada aos t rilhos de extracção. Estes trabalhos mostraram que sempre que se efec tue uma actividade de arrasto de madeira de certa magnitude, a probabilidade de formação de sulc os linear es é m uito alta, sobr etudo em solos mais erosionáveis. A severidade dos efeitos está relacionada directamente com o comprimento das encostas e é muito mais marcada em áreas com substratos desagregáveis. Em geral, nos casos em que se produziram sulcos de erosão linear, os valores estimados de perda de solo podem considerar-se moderadamente altos. Há que destacar que estas per das se concentram nos primeiros anos após o tratamento já que, em geral, os sulcos vão sendo colonizados parcialmente pela vegetação e vão perdendo o seu potencial erosivo com o t empo. No entanto, em z onas particularmente sensíveis, ainda eram visíveis sulcos activos 9 anos depois do fogo e é previsível que o processo de degradação e formação de sulcos continue no futuro. O númer o de z onas em que se pr oduziu estilha e se efec tuou a aplicação de resíduos sobre a superfície foi muito escasso e não permite

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extrair c onclusões sobr e esta medida de c onservação de solos. Não obstante, os resultados obtidos apontam-na como uma prática eficaz na prevenção de possíveis danos associados à extracção de madeira, coincidindo com outros trabalhos prévios que evidenciaram o importante papel protector que desempenham os resíduos do corte (Shakesby et al., 1994). Os resultados acima descritos justificam algumas recomendações aos gestores florestais, no que diz respeito às actividades de extracção (DGRF, 2005): 1. Sempre que o terreno apresente elementos que possam contrariar a erosão – armações do terreno em vala e cômoro, muros ou muretes de suporte de terras, cordões de pedra, etc. – as operações de exploração, devem ser executadas de modo a garantir a sua conservação; 2. A extracção potencia o risco de erosão do solo pela movimentação de máquinas pesadas e arrastamento dos toros cortados. O uso de máquinas, mesmo as que utilizam sistemas de locomoção de baixa pressão, também provoca danos no terreno que importa prevenir. Os movimentos das máquinas sobre o terreno devem ser restritos ao essencial, e de modo a evitar configurações de sulcos que promovam um maior escoamento da água. O padrão espacial da rede de t rilhos de e xtracção de ve ser organizad o na perspecti va da mesma ser feita para a cota superior, de modo a que a convergência em carregadouro não concentre erosão. É sempre preferível passar pelo mesmo t rilho de extracção em vez de danificar t oda a área, pelo que a mo vimentação de t oros para carregadouro deve ser planeada de mod o a utilizar um menor númer o de t rilhos de extracção. A deposição de ramos e bicadas nesses trilhos minimiza a compactação do solo e riscos de erosão; 3. É preferível a utilização de técnicas que mo vimentem o material lenhoso sem que este entre em contacto com o solo (sistemas de cabos aéreos ou tractor transportador); 4. Para e vitar a c ompactação d o solo , de ve ser e vitado o uso de máquinas de exploração pesadas em períod os em que o solo se encontre saturado, após longos períodos de precipitação. Em resumo, as técnicas de gestão adequadas podem minimizar os impactes da extracção na erosão do solo. No entanto, as taxas de erosão provocadas pela extracção podem ser mais importantes que as causadas

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pelo próprio incêndio. Em particular, há um risco elevado de ocorrência de fenómenos importantes de erosão em sulcos associados aos trilhos de extracção. A técnica de extracção dos troncos queimados influencia fortemente o impacto sobre o solo. Em geral, a remoção de troncos por arrasto é a que causa maior impac to, seguida pelos t ractores transportadores, cabos aéreos e pela utilização de helicópteros.
2.2. A regeneração da vegetação

A perturbação directa da superfície do solo ou da cobertura vegetal pelo abate e ar raste (rechega) de t roncos é um efeit o directo da r etirada da madeira queimada da floresta. Este procedimento pode, por exemplo, causar uma redução relevante dos indivíduos de certas espécies ou alterar o regime de ger minação e instalação de plântulas. Por out ro lad o, as alt erações ambientais produzidas pela e xtracção das ár vores mortas – fundamentalmente na quantidade de radiação que incide sobre a superfície do solo – podem afectar de algum modo a taxa de mortalidade das plântulas. Não há m uitos estudos sobr e o efeit o da e xtracção de madeir a queimada na regeneração do coberto vegetal. Alguns trabalhos desenvolvidos nos Estad os U nidos da América most ram uma r edução significativa na biomassa d o sobcoberto, na r iqueza de espécies e no crescimento das plântulas de pinheir o, assim c omo um aument o na colonização por espécies e xóticas, c omo c onsequência da e xtracção da madeir a queimada (e.g . Se xton, 1994; Greenberg et al., 1994). No entanto, em regiões mediterrânicas, os resultados são mais diversos. Assim, num pinhal de Pinus halepensis do norte de Israel, 4 anos após o fogo e 3 após a e xtracção da madeir a, não se det ectaram alterações significativas na c omposição específica nem no desenvolvimento da cobertura vegetal (Ne’man et al., 1993, 1995). Em povoamentos de Pinus pinaster e Pinus halepensis do lest e espanhol, Bautista et al. (2004) observaram uma r edução da c oberto v egetal em z onas de e xtracção 3 anos depois desta se t er realizado, mas as difer enças desapareceram 9 anos após o fogo. Similarmente, num pinhal de Pinus pinaster no centro de Espanha, Pérez e Moreno (1998) não registaram um efeito duradouro da extracção das ár vores na biomassa e est rutura da vegetação. Viegas et al. (1994) compararam duas z onas queimadas, com e sem e xtracção

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de madeir a, de um pinhal de Pinus pinaster do c entro de P ortugal e obser varam menor di versidade de espécies na z ona afec tada pela extracção, mas também não observaram diferenças no desenvolvimento do coberto vegetal. Martínez-Sánchez et al. (1999) mostraram que a extracção de madeira queimada num pinhal de P. halepensis localizado no sudeste da província de Albacete, sob um clima semiárido, produziu um incremento na mortalidade das plântulas desta espécie geradas pós-fogo e uma r edução moder ada d o cr escimento das mesmas. Os aut ores atribuíram o efeito à remoção dos resíduos queimados e à c onsequente redução na protecção face à insolação e altas temperaturas. Pérez (1997) observou uma evolução mais lenta d o c oberto vegetal em ár eas sem extracção, o que at ribuiu à sensibilidade de algumas espécies à sombr a produzida pelas árvores queimadas que ficaram no solo. Por vezes, o impacto a curto prazo da extracção da madeira queimada pode t er vantagens de um pont o de v ista de gestão . C omo e xemplo, refiram-se estudos desenvolvidos por Fernández et al. (2008) e Vega et al. (2008, 2010) após os incêndios de 2000 a 2003 na Galiza. Estes autores monitorizaram a germinação e sobrevivência das plântulas de pinheirobravo (Pinus pinaster) em povoamentos com idades ent re 17 e 53 anos e densidade entre 650 e 1450 árvores/ha que sofreram 3 tipos diferentes de gestão pós-fogo: (1) ausência de int ervenção, (2) corte de ár vores e acumulação de resíduos em linhas (“slash windrowing”), e (3) corte de árvores e estilhaçamento de resíduos. Os autores chegaram à conclusão de que a e xtracção das ár vores queimadas causa va um aument o de mortalidade de plântulas e debilitação das sobr eviventes, com a consequente redução na densidade e cr escimento das plantas e xistentes, mas este impacto não comprometia o estabelecimento dos pinheiros novos, podendo até reduzir a necessidade de desbastes futuros. No caso dos po voamentos de folhosas, em que é c omum a sobr evivência dos indivíduos através de regeneração vegetativa (por exemplo de toiça ou de r aiz; ver Capítulo III), o abat e e ar rastamento dos toros pode pr ovocar bastant es danos na r egeneração. Atrasar o c orte das árvores cuja copa morreu em resultado do fogo, poderá ser benéfico para o desenvolvimento da vegetação espontânea e c ontrolo da erosão, mas quanto mais tarde se cortar, maior será o risco de danificar a regeneração que entretanto cresceu, e a presença do próprio tronco junto aos rebentos

A madeira morta é. por último. 1999) estimaram uma redução da madeira morta de grandes dimensões em bosquesde 13 m3 ha-1 para menos de 1 m 3 ha-1 desde finais do século XIX até à ac tualidade. e até aumento. que v ivem dos seus efeitos (Moretti e Barbalot.. Sammuelsson et al. é fonte de nutrientes minerais (Harmon et al. 1986. a retirada de madeira morta das florestas e rios era uma prática c omum na gestão e exploração florestal.3. (2003) sugerem que uma antecipação do corte do tronco será mais vantajosa par a o cr escimento dos rebentos de t oiça. particularmente escaravelhos.. poleiros. Para uma r egião do centro da S uécia. Por exemplo no caso de sobreiros queimados e com morte da parte aérea. A biodiversidade e conservação de nutrientes Um segundo g rupo de efeit os potenciais da e xtracção de madeir a queimada deriva do papel estrutural e funcional da madeira morta após os incêndios. Estados Unidos da América e Canadá no sentido da manutenção. fungos e insectos. 1998). Barberies et al. O fogo é uma perturbação natural do ecossistema e há espécies de insec tos. e seus c orrespondentes predadores. Linder e Östlund (1992. Actualmente. 2. de tal forma que a retirada sistemática . uma fonte de alimento que sustenta numerosas espécies de microorganismos.. condições microclimáticas – que podem desempenhar um papel impor tante na suc essão vegetal e animal após o fogo. Lofroth. citado em Kruys et al. para além disso. enclaves.200 VIII. 1994. o reconhecimento do dito papel possibilit ou uma alt eração de política na gestão e e xploração de muitas florestas do norte da Europa. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS em crescimento poderá dificultar o desenvolvimento da r egeneração. é um elemento chave na ecologia dos sistemas fluviais adjacentes e. do volume de madeira morta nas florestas. O papel ecológico dos resíduos de maiores dimensões – troncos e ramos maiores – de madeira morta não foi reconhecido até aos anos setenta do século passado (Maser et al. A presença de árvores queimadas determina condições físicas – espaços. Porém a informação disponível sobre o impacte do corte e extracção de troncos em povoamentos de folhosas no Mediterrâneo é ainda muito escasso. Grande parte dos efeitos positivos que se associam à madeir a morta nas florestas não per turbadas por fogo é aplicáv el aos t roncos e out ros resíduos de grandes dimensões em áreas queimadas. Antes disso. 2003).1979)..

estes aut ores sugerem uma est ratégia de gestão que inclua áreas com e sem r emoção da madeir a queimada. prevê-se um efeit o sig nificativo da extracção de madeir a queimada sobr e os ciclos biogeoquímic os e o . 2002). 1998..VIII.. empobr ecendo-a em espécies características de áreas florestais e enriquecendo-a em espécies próprias de habitats aber tos ou secos. criando-se assim um mosaico de diferentes habitats e respectivos nichos que aumentariam o número de espécies de aves presentes à escala da paisagem.Castro et al. 1996). (2010) verificaram que um dos impactos da extracção total de árvores numa r egião da Ser ra N evada (Espanha) er a que a abundância das principais espécies de aves dispersoras de sementes de ávores e arbustos (tordos e gaios). Izhaki e Adar (1997) estudaram o efeit o da remoção da madeir a queimada na e volução da comunidade de aves florestais não reprodutoras num pinhal em I srael e verificaram que o impacto do fogo na composição da comunidade de aves foi mais sig nificativo onde e xistiu remoção de madeir a queimada relativamente aos locais onde esta não ocorreu. 1993). a e xtracção da madeir a queimada tende a provocar uma alteração na c omposição específica da fauna. A magnitude e duração do efeito depende da int ensidade e e xtensão do tratamento. ver o C apítulo IV. 1993. portanto. A extracção dos troncos queimados pode reduzir o habitat de diversas comunidades de aves que os utilizam par a nidificar ou c omo poiso (Saab e Dudle y. A longo pr azo. À medida que as ár vores queimadas vão caind o e o desen volvimento de plântulas e r ebentos se vai inc orporando na no va c obertura aos r esíduos queimados. Kotliar et al. era reduzida drasticamente. no que respeita à biodiversidade de aves. as diferenças entre as zonas tratadas e não tratadas desaparecem progressivamente. Assim. Llimona et al. podendo comprometer a per manência de algumas espécies nos casos mais e xtremos (Lindenmayer e Possingham. Para mais detalhes sobre esta temática. e que. fundamentalmente aves e pequenos mamíferos. concluem que as árvores queimadas desempenham um papel fundamental na recuperação da fauna das zonas afectadas (Haim. A maior par te dos estudos relativos aos efeitos dos tratamentos de extracção de madeir a após o fogo sobr e os v ertebrados. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 201 da madeira queimada após os g randes incêndios aumenta a pr obabilidade de extinções locais. podiam facilitar a posterior regeneração da área. Em geral.

as quat ro categorias de dano analisadas no citad o trabalho var iavam desde ár vores c om a c opa c ompletamente intacta (verde) até árvores com 76-90% do volume de copa dessacada. Todavia.4. N o entant o.202 VIII. As larvas alimentam-se do câmbio à medida que escavam galerias que acabam por interromper a circulação no floema e provocar a morte da árvore. Este papel facilitador da madeira queimada apoia-se no facto conhecido de que as árvores debilitadas pelo fogo most ram menos defesas fac e ao ataque destes insectos. Este efeito ocorre devido à perda de parte dos horizontes orgânicos do solo. Os indivíduos maduros destas espécies perfuram a casca e alcançam os t ecidos subcorticais onde depositam os ovos. a longo prazo. Wallin et al. a de que a at racção e colonização por escolitídeos das ár vores parcial ou totalmente queimadas pode ser vir de foco de proliferação e facilitar a infecção dos povoamentos de pinhal mais próximos (Salman. n um estud o efectuado em Alicante (Espanha). As pragas florestais Um d os argument os utilizad os a fa vor da r emoção da madeir a queimada é que se lhe at ribui um papel facilitad or da at racção e proliferação de insectos. 1994). Ryan e Amman. (2003) estudaram a relação entre severidade do fogo e ocorrência de escolitídeos após um fogo c ontrolado num pinhal de Pinus ponderosa e observaram um maior número de entradas de escolitídeos nas árvores mais danificadas pelo fogo. Uma das r azões utilizadas par a defender a e xtracção da madeir a queimada é. consequentemente. particularmente escolitídeos. mas também devido à remoção de ramos e troncos que constituem.. que podem constituir pragas par a os po voamentos v izinhos (v er Capítulo IX). A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS balanço de nutrientes (Brais et al. sem que se registassem nív eis de se veridade maior es. reservas de nutrientes para microrganismos. plantas e animais. . os resultados sugerem que as ár vores totalmente queimadas são menos atacadas que as que apresentam níveis de dano moderados (Caixa 1). 2. que acabam por colonizar os troncos com certa facilidade e incrementar as suas populações. 1934. 2000).

A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 203 CAIXA 1 OS ESCOLITÍDEOS APÓS O FOGO NOS PINHAIS DA REGIÃO DE VALÊNCIA Num estudo realizado no Parque de la Font Roja (Alicante. 140 sem infecção < 10 entradas 10-25 entradas > 25 entradas 120 NÚMERO DE PINHEIROS 100 80 60 40 20 0 1 2 3 4 CATEGORIA DE SEVERIDADE DO FOGO FIGURA 1 Número de pinheiros afectados por diferentes níveis de colonização por escolitídeos. desde copas completamente verdes a copas completamente consumidas pelo fogo. 4. de um pont o de vis ta dos esc olitídeos. Extraído de Bautista et al. e abatem os exemplares com a copa consumida ou totalmente dessecada. Espanha). 2. as árv ores parcialmente danificadas são um foco potencial mais perigoso que árvores totalmente consumidas. copa consumida. tronco parcialmente queimado. . em função da categoria de severidade do fogo: 1. Após um incêndio. copa dessecada. no qual se quantificou o número de entradas de escolitídeos em Pinus halepensis para quatro categorias de dano das árvores. copa com parte verde e part e dessecada. Estes resultados sugerem que. Dados r ecolhidos 6 meses depois do incêndio. os gestores frequentemente mantêm as árvores com a copa parcialmente afectada pelo fogo. 3. na esperança que possam sobreviver. foi observada a preferência dos escolitídeos por árvores que conservavam parte da copa verde (Figura 1).VIII. (2004). árvores parcialmente afectadas no tronco mas c om a c opa verde.

devido à sua baixa relação superfície/volume e ao seu conteúdo de água (Amaranthus et al.204 VIII. assim que os troncos queimados caem no solo.1989). 3. a curto-prazo. (2006). nos escassos t rabalhos em que se quantific ou a carga de combustível em zonas com e sem extracção de madeira. . Logo. a recomendação genérica que decorre dos resultados obtidos é a precaução. as difer entes r evisões que for am efectuadas sobre o t ema concordam que não há nenh um trabalho na literatura que most re essa relação (Beschta et al. Balanço ecológico da gestão da madeira queimada Ainda que não se possa descartar que em algumas condições particulares a extracção da madeira queimada possa ter um efeito positivo sobre o ecossistema. a combustibilidade das zonas sem extracção aumenta. Donato et al. por forma a minimizar a quantidade de c ombustível fino em c ontacto com a superfície do solo. a est ratégia de menor r isco seria deixar as ár vores queimadas em pé o maior períod o de tempo possível. a extracção de madeir a queimada limita-se aos grandes troncos. Ainda que este argument o c onstitua um lugar c omum ent re os que defendem a e xtracção de madeir a queimada. Modelos de simulação mostram que a longo prazo.. e permitindo que a queda dos troncos e ramos se processe de forma mais lenta e repartida no tempo. A carga combustível É frequentemente afirmado que a permanência dos troncos queimados implica uma per igosa carga de c ombustível na z ona. devido à quantidade de r esíduos de menor diâmet ro que ficam no solo após os t rabalhos de e xtracção (Stephens. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 2. Mclver e Star r. 1995. Curiosamente. 2000). verificou-se que. a combustibilidade local aumentava nas zonas de extracção. De acordo com Donato et al. mas apenas ligeiramente e dur ante um períod o de tempo limitado. o balanço líquido das consequências ecológicas deste tipo de actividades parece oscilar ent re a neut ralidade e o pr ejuízo. 2006).. que aumenta a probabilidade e severidade potenciais de um incêndio futuro.5. Normalmente. 1998. Os materiais de menor diâmetro são os que mais c ontribuem par a a c ombustibilidade do local e est e tipo de material c ostuma deixar -se no solo após as ac tividades de e xtracção.. os quais acr escentam pouco à carga de c ombustível presente. dependendo da taxa de decomposição própria das condições do local.

o dano pot encial no solo é muito alto. A e xtracção d os t roncos queimad os não par ece r eduzir a carga efectiva de combustível nas zonas queimadas. Uma estratégia que é apontada pelas ideias mais r ecentes em gestão florestal é a da e xtracção selectiva. as actividades de e xtracção de madeir a queimada int ensivas e de larga-escala . Uma solução prometedora é a t ransformação dos resíduos em estilha e sua distribuição pela superfície do solo. Os escolitídeos perfuradores parecem mostrar uma clara preferência por ár vores afectadas de for ma moder adamente severa pelo fogo . Não obstante. com zonas que não recuperam durante dezenas de anos. Segundo esta perspectiva. os efeitos negativos podem ganhar peso no balanço ecológico.VIII. c omo os solos desen volvidos sobr e margas. às árvores afectadas parcialmente. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 205 Em geral. Nos casos em que a e xtracção de madeir a se realize com uma forte participação de maquinaria e sobre ecossistemas menos resilientes. Não obstante. Parte d os efeit os negativos potenciais podem mitigar-se com medidas correctoras oportunas ou aplicand o métodos de e xtracção que minimiz em o impact o sobre o solo. os restos de copas e ramos deveriam eliminar-se também. a curto e médio prazo e para as condições habituais em que se aplica esta medida nas florestas mediterrânicas. uma v ez posteriormente os t ecidos subcorticais das árvores mortas estão demasiado degradados para permitir o desen volvimento das espécies de esc olitídeos c onsideradas pr oblemáticas. em solos c onsiderados sensív eis. Além disso. por isso. arenitos ou alguns tipos de argilas há um risco moderado-alto de erosão linear associada ao t ratamento de e xtracção. deve ter-se em conta que este período é de máximo risco de degradação e erosão do solo pelo que devem ponderar-se adequadamente as condições ambientais e as prioridades em cada zona. a extracção de madeira queimada não parece modificar significativamente a recuperação pós-fogo do coberto vegetal ou a regeneração dos pinhais. Deste modo. Para que isso acontecesse. g rande par te da matéria orgânica fica na floresta. ao mesmo tempo que se aplica uma medida de c onservação de solos. a eficácia da extracção de madeira queimada como medida preventiva contra a colonização por escolitídeos limitar-se-á. A confirmar-se este padrão. se os resíduos forem eliminados através da queima. nem afecta o desenvolvimento das plântulas de pinheiro num ou noutro sentido. e a um período não superior ao pr imeiro ano após o incêndio .

A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS devem ser substituídas por ac tividades selectivas. É necessária mais investigação científica sobre este tema. que evitem a queima d os resíduos de c orte. medidas de conservação de solo). que e vitem as ár eas mais sensíveis e de maior r isco de deg radação.g. as considerações ecológicas anteriores devem ponderar-se também face aos aspectos económicos e sociais afectados em cada caso. e a colaboração dos gestores será a única forma de se atingir o design experimental necessário para o esclarecimento destas importantes questões. deixand o um mosaico de manchas com e sem tratamento para manter o papel estrutural e funcional de ramos e troncos. que apliquem medidas correctoras nos casos de risco (e. . que c oncedam pr ioridade às árvores parcialmente afectadas pelo fo go em caso de r isco de pr aga de escolitídeos e que se e xecutem de for ma het erogénea. Evidentemente.206 VIII.

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Primeiros sinais e sintomas de colonização de escolitídeos 4.1. Introdução 2.2. Utilização da madeira de árvores mortas por escolitídeos 5. Os inimigos naturais 5.211 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS IX. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO LUISA NUNES 1. Escolitídeos e fogo . Detritos de exploração florestal 6. Gestão das populações de escolitídeos 5. Ecologia dos escolitídeos 3.

pode-se reduzir o estudo das populações de insectos a dois factores: o potencial biótico e a r esistência do meio. A maior parte dos problemas fitossanitários nas florestas resultam de repentinas e impr evisíveis alterações nas po pulações de insec tos mas pode-se encontrar nocividade em alguns cujas populações apr esentam níveis relativamente baixos sendo estes. sobretudo quando esta int erfere com os int eresses económicos associados à floresta ou à agricultura. Na luta contra os insectos nocivos nas plantações florestais é importante estimar a magnitude das suas populações. como a temperatura. preferencialmente. a tendência do seu crescimento e flutuações. Quanto à resistência do meio esta é definida por t odos os fact ores que n um determinado ecossistema podem limitar a m ultiplicação dos insectos. a precipitação. algumas intervenções culturais ou a própria fisiologia da árvore. como mais comummente são designados. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 1. mas o conceito de praga não é assim tão simplista quanto possa parecer. Introdução Uma grande abundância de insectos conduz à ideia de praga. Os escolitídeos. após a passagem do fogo. Pode definir-se igualmente como forma de quantificar a população que se pode desen volver de u ma fêmea adulta no períod o de um ano quando as condições ambientais são fa voráveis à espécie. O potencial biótico de um insecto consiste na sua maior ou menor capacidade par se a expandir. por exemplo. mas com um menor grau de nocividade. Podem. ocasionalmente atacar out ras espécies de pinheir o em Portugal. no entant o. os que transmitem microrganismos patogénicos (como o fungo denominad o por azulad o da madeira).212 IX. Alguns insectos alimentam-se das partes lenhosas da árvore e entre estes os coleópteros da família Scolytidae são frequentemente os mais destrutivos. e é preciso conhecer os efeitos dos diversos fac tores de or igem ambiental ou ant rópica que são e xercidos sobre os mesmos. . podem atacar resinosas e folhosas mas os seus surtos têm tido maior expressão em povoamentos de pinheiro bravo e. Simplificando.

na sequência de quedas de árvores por acção do vento. Ainda que alguns se jam específicos de det erminados ar bustos. 1999). 1995. A situação actual de mortalidade de povoamentos causada por escolitídeos resulta de uma combinação de factores naturais incluindo. Apesar de apresentarem uma característica que todos eles têm em comum. designadamente: a seca. As árvores que não dispõem desses recursos em quantidade suficiente entram em processos de enfraquecimento e portanto de maior susceptibilidade. Inadvertidamente. Ferreira e Cabral. Ecologia dos escolitídeos Os escolitídeos são. solos pouco profundos/ rochosos e populações relativamente significativas de escolitídeos. incêndios. eliminando naturalmente algumas árvores do povoamento. Os escolitídeos têm a capacidade de detectarem os hospedeiros mais susceptíveis e a sua resposta consiste em colonizá-los. a verdade é que as diferentes espécies diferem significativamente entre si em termos de grau de agressividade. o facto de ser em organismos secundár ios de algum fac tor primário debilitante. Embora os escolitídeos sejam na sua maioria pragas secundárias que . todos eles t endem a ser considerados ameaças potenciais devido à sua suposta capacidade de se “aproveitarem” da floresta quando esta está a passar por situações mais debilitantes – depois de um incêndio.IX. Existe sobre esta família de insect os uma má fama gener alizada que não é de t odo justificada. a maior ia das espécies ataca árvores. De for ma mais ou menos semelhant e. monoculturas extensas. fundamentalmente. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 213 2. Todos estes factores influenciam a quantidade de água. comportamento e escolha de nicho ambiental. insectos de plantas lenhosas hospedeiras e constituem um dos poucos grupos que pode ser c onsiderado como autênticos insectos da flor esta. este processo vai contribuir para disponibilizar uma quantidade bastante maior de recursos para as árvores que sobrevivem. luz e nutrientes disponíveis para cada árvore. Este processo de compensação pode ser também observado com outras pragas como a processionária do pinheiro (Thaumeothopoea pityocampa) cujos dejectos produzidos pelas lar vas em g randes quantidades são mais facilment e disponibilizados para consumo da planta permitindo assim que os hospedeiros possam ter condições de sobrevivência após a desfolha (Cabral. seca ou após ataques de desfolhad ores.

algo como um “engodo primário”. As árvores atacadas por estes insectos apresentam amarelecimento da copa. 2008). Após o processo de colonização. o escolitídeo emite uma feromona de agregação que atrai outros insectos xilófagos. inicia-se então a emissão de uma fer omona “anti-agregação”/dispersão. na fase de reprodução. Pode ainda acontecer que hospedeiros susceptíveis e em estado precário emitam sinais químicos. dependendo da espécie envolvida. Pode dar-se o caso de a população endémica da espécie. denominados de “pioneiros”. que lhes indica a nec essidade de localizar uma out ra árvore hospedeira (Sullivan et al. que atrai o adulto directamente ao alvo. serrim e galerias entre a casca e o lenho. 2003. perfuração da casca com saída de resina. testando de alguma forma possíveis hospedeiros num estado mais receptivo. Talvez ambos os mecanismos funcionem nesta família. atraído para determinada árvore. Este assunto pode ser convenientemente discutido no âmbito do contexto de um ciclo de vida generalizado de um escolitídeo. Os primeiros adultos a atacarem uma árvore são. então.. Campbel et al. Numa evolução mútua ent re hospedeiro e pr aga. Cada espécie de escolitídeo apresenta comportamentos específicos e é isto que determina o impacte de cada umana produção florestal e no seu significado ecológico. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO se desenvolvem em condições naturais em árvores debilitadas.. habitualmente. Os pinheiros susceptíveis emitem determinadas substâncias. Depois de localizar e c olonizar uma ár vore hospedeira susceptível. estes constituem como que um sinal de“venham até aqui” para ambos os sexos da mesma . os insec tos desenvolveram formas de detectar estes compostos e utilizá-los para identificar árvores hospedeiras adequadas. quando o ataque é elevado também se pode estender a árvores em melhor condição fitossanitária. Os esc olitídeos pioneiros podem ser machos ou fêmeas. Existem estudos divergentes quanto ao mecanismo envolvido que leva estes pioneiros até uma árvore susceptível. procurar continuamente árvores susceptíveis ao acaso. O orifício de entrada inicial realizado pelo escolitídeo e a passagem do material vegetal do hospedeiro pelo sistema digestivo do insecto geram um atractivo para outros indivíduos que não é mais que um c onjunto de químicos denominados por feromonas de ag regação.214 IX. Um número suficiente de escolitídeos é. químicos que não são mais que c ompostos voláteis (monoterpenos e etanol) que funcionam como um forte “chamamento” para insectos xilófagos.

sob det erminadas circunstâncias. atingindo casos mais extremos nas espécies como o Orthotomicus erosus (Bóstrico pequeno) e Pityogenes bidentatus (Bóstrico Bidentado) que. A postura pode ser feita isoladament e ou em ambos os lados de cada galeria. cada larva estende o sistema para lá da galeria materna. A partir desta câmara estende-se uma ou mais galerias onde a fêmea coloca os ovos. (Foto: Luisa Nunes). OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 215 espécie. piniperda. Nas espécies monogâmicas.IX. São muitas as variações existentes sobre este tema e cada uma é . Hilésina). Normalmente a colonização do hospedeiro inicia-se com uma câmar a nupcial alargada e de for ma característica. (Hilésina) existe uma única galer ia de ovos. como Ips sexdentatus (Bóstrico grande). Quando os ovos eclodem. Com a chegada dos insec tos pioneiros e o enc ontro dos sexos dá-se o início da construção das galerias (Figura 1). as espécies poligâmicas. apresentam uma galer ia por fêmea. FIGURA 1 Galerias de escolitídeos (T. alguns d os quais produtos inalt erados da planta hospedeir a c omo t erpenos e out ras substâncias modificadas por pr ocessos digestivos do própr io insecto. A fer omona é uma mistur a de químic os. como Tomicus piniperda L. 1998). onde ocorre o acasalamento. A forma e distribuição das galerias facilitam a identificação da espécie. pode c hegar a t er entre 8 a 12 galerias de ovos (Ferreira.

o que gera o típico efeito de “broca”. Out ros podem utilizar um pont o de emergência c omum e outros ainda podem sair em qualquer ponto por onde se proporciona o colapso da galeria.216 IX. (Fonte: Gyorgy Csoka. Hungary Forest Research Institute. Quand o alcançam a matur idade. os adult os podem sair d o hospedeiro perfurando a casca da câmara pupal. terminando numa câmara pupal onde o insecto se torna adulto através do processo de metamorfose. FIGURA 2 Danos causados pelos escolitídeos durante o pasto de maturação. . comprimento e direcção e também em t ermos de localização nos tecidos do tronco do hospedeiro. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO característica de uma espécie c oncreta: as galer ias larvares diferem em termos de for mato.org). O ponto de emergência (saída da fase de pupa) é outra característica variável. em que os escolitídeos deixam a câmara pupal para realizarem perfurações adicionais onde se vão alimentar antes de se tornarem sexualmente activos e iniciarem o período de voo. Existem variações importantes entre espécies na chamada fase de pasto de maturação (Figura 2) (outra das fases do ciclo que provoca estragos) de adultos recentemente emergidos e que ocorre antes de estes começarem a estarem aptos a reproduzirem-se.forestryimages. Cada túnel larvar aumenta em largura à medida que a larva cresce. Este fenómeno pode ver-se como uma extensão do sistema de galeria larvar. www.

pelo menos aparentemente. Estas ag regações de insec tos parecem. Existe outro tipo de alimentação facultati va que pode ser denominado de “comportamento alimentar durante condições adversas”. 1999). Ferreira. piniperda encontradas em galer ias irregulares na base dos pinheiros. algumas espécies são mais agressivas na fase de reprodução do que outras e atacam árvores debilitadas mas ainda vivas como. este comportamento parece ser obrigatório mas noutras parece ser mer amente facultativo na medida em que os esc olitídeos par ecem alimentar -se aleat oriamente em di versos t ecidos da árvore. Neste último caso. Existem duas outras características dos escolitídeos que são frequentemente associadas e que não podem ser esquecidas. Existe também uma di versidade de relações extremamente complexas e pouco compreendidas entre determinadas espécies de esc olitídeos e fungos onde se inclui o “azulado da madeira”. Como é e vidente. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 217 No Sul de Europa. do simples transporte de esporos. tal como sucede no escólito do ulmeiro. por exemplo. Em algumas espécies. alimentam as suas larvas quase só. Este comportamento parece ocorrer depois de os adultos emergirem e de estarem prontos para o voo e para a reprodução. o pasto de maturação dá-se geralmente na copa de árvores saudáveis enquanto que em espécies mais difundidas nout ras zonas o pasto de matur ação pode ocorrer em qualquer par te da ár vore como o colo radicular de plantações ou regeneração natural e ainda nas raízes de ár vores de maior dimensão ou no lad o oculto de t roncos de casca mais fina e acabadas de abater (Ferreira e Cabral. 1994. se não . piniperda) (Ferreira e C abral. 1998). ter algo em comum com as mais pequenas agregações na hibernação de T. os fungos são transportados pela fêmea em estruturas especiais (micângios) para cultura no sistema de galerias e para servirem de alimento às larvas. no qual números significativos de escolitídeos de ambos os sexos se reúnem em espaços limitados da sua galeria. A pr imeira é a agressividade inerente de uma determinada espécie e a segunda o tipo de associações fúngicas que possa t er. As associações ent re fungos e escolitídeos podem assumir inúmer as formas diferentes. por exemplo. à relação altamente especializada dos escolitídeos da madeira. mas ser em subitamente assolados por condições meteorológicas adversas. As espécies Tomicus minor (espécie não enc ontrada em P ortugal) e Ips sexdentatus.IX. a Hilésina (T.

reduzem a capacidade dir ecta da ár vore para suportar o ataque dest es perfuradores.. 2008). O escolitídeo pode também introduzir o fungo já anteriormente mencionado – “Azulado da madeira” – que se desenvolve no xilema. 2004. 1999). À medida que os danos pr ogridem. também não foi adequadamente demonstrado que é uma única espécie de fungo que tanto alimenta as larvas dos escolitídeos como ataca as próprias árvores (Mathew et al. Este fungo impede igualment e que a água se ja transportada para as z onas superiores da ár vore.. Contudo.. Os fact ores de declínio .. dec orrentes de incêndios. Os esc olitídeos d o pinheir o alimentam-se sobr etudo de floema e exercem um efeito de incisão anelar na árvore. com fungos cultivados nas galerias larvares.. seca. Qualquer tentativa par a invadir uma ár vore saudável com esses nív eis populacionais significa que os insectos acabam por ser bloqueados pela resina dos orifícios abertos e são assim internamente eliminados pelo hospedeiro que acciona uma barreira natural contra escolitídeos e fungos. Em vár ias espécies dest es insec tos é fr equente enc ontrar ataques (quando os níveis populacionais são baixos e ainda não c onsiderados como praga) a ár vores recentemente mortas ou em declínio. Do mesmo mod o. em dir ecção às agulhas. Lombardero et al.218 IX. para as r estantes partes da árvore. . ambos os factores contribuem para o declínio e mor te das ár vores colonizadas (Breece et al. 2006). A reacção do hospedeiro à entrada dos insectos constitui um pr ocesso que e xige um ele vado dispêndio de energ ia. 2004). O dano causado por este tipo de alimentação funciona c omo um t orniquete interno que c orta o fluxo de n utrientes produzidos na c opa. podendo tornar-se ineficiente se os números e os ataques dos escolitídeos aumentarem ao longo de um qualquer ponto crítico do ciclo de vida da árvore (Bradley et al. fer idas mecânicas ou c ompetição entre indivíduos em po voamentos densos. Acredita-se que o patogénio envolvido pertence ao género Ophiostoma. não é de vidamente compreendida a relação entre o insect o e o fungo . os açúcar es e out ros compostos complexos não podem ser t ranslocados para as zonas mais baixas da árvore isto é desde as agulhas até às ár não-fotossíntéticas da eas árvore. um grupo de fungos bastante conhecidos por serem agressivos e causarem murchidão (Mathew et al. Deste modo. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO mesmo totalmente.

4. As agulhas passam de v erde-escuro par a v erde-claro e. por cr iar tubos de r esina por onde ent ram na ár vore. Outros sintomas e sinais incluem as exsudações de resina. isto é. o serrim resultante das perfurações e as próprias galerias. Apesar de os escolitídeos poder em t ransportar out ros fungos que causem podr idão. por v ezes. pr ovavelmente. Mesmo que os escolitídeos transportem os fungos do azulado da madeira. o mais fr equente é que est es provoquem o apodr ecimento do alburno. Um ou t odos estes sinais/ sintomas podem estar presentes em simultâneo. A velocidade de deterioração das árvores mortas por escolitídeos não é. O ser rim fino das per furações é. Dur ante a c olonização inicial. A resina é a única defesa natur al da ár vore contra os esc olitídeos. de um amar elo palha par a um vermelho ferruginoso. geralmente. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 219 3. Os insec tos que c olonizam ár vores r elativamente saudáv eis acabam. Para que haja decomposição significativa do lenho é preciso esperar no mínimo um ano. A maior ia d os micr organismos que causam podridões da madeir a surge em ger al após a mor te da ár vore independentemente da razão que a le vou à morte. A progressão do v erde par a o v ermelho acontece ao longo de vár ios meses. As galerias podem ser v isíveis no interior da casca e podem conter larvas e pupas e/ou esc olitídeos adultos. invade as cél ulas mas não provoca qualquer alteração na estrutura da madeira. v isível e xteriormente e é causado pelo facto dos insectos triturarem o lenho durante a construção das galer ias. zona e xterna da ár vore. Para se obser varem as galer ias. Primeiros sinais e sintomas de colonização de escolitídeos A descoloração das agulhas é o primeiro sintoma de colonização por escolitídeos. sig nificativamente difer ente da que se v erifica nas árvores mortas por um relâmpago ou um incêndio. Parece que indepen- .IX. posteriormente. o ser rim das per furações é vermelho v ivo. estes não chegam a dec ompor a madeir a. Utilização da madeira de árvores mortas por escolitídeos O xilema na maior par te d os casos não se apr esentará m uito danificado pela presença de fungos no pr imeiro ano de ataque. pode-se r etirar uma porção da casca c om um mac hado. Isto só de ve ser feit o em ár vores declaradas mortas.

e que estes insectos colonizam árvores hospedeiras adjacentes aos locais onde os detritos de exploração florestal são mais abundantes (DeGomez et al... observou-se grande fragilidade ao nível das copas mesmo antes da árvore tombar por inteiro (Hanula et al. 5. mas a maior parte dos estudos consideram que os parasitóides e predadores dos escolitídeos são um fac tor menor no c ontrolo dos mesmos (Ferreira e Cabral.1. Elkin et al. No caso das árvores com um DAP superior a 45 centímetros. a sua dimensão e a localização que determinam a velocidade de deterioração da mesma. Nos EUA e para a espécie Pinus ponderosa estudou-se a velocidade de decomposição após o ataque de insec tos xilófagos e v erificou-se que para árvores com DAP entre os 25 a 30 centímetros. O material recentemente processado emite os mesmos compostos voláteis que as árvores hospedeiras susceptíveis. 1999). McHugh et al.. Alguns insectos são conhecidos por controlarem as populações de escolitídeos em condições de po pulação endémica (sem sur to). como o Rhizophagus depressus. Algumas observações preliminares indicaram que est es despojos atraem escolitídeos durante os seus períodos activos de voo. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO dentemente da forma como uma árvore secou. são inimigos naturais destes xilófagos do pinheiro. é a espécie. 2003. o Thanasimus formicarus e o Aulonium ruficorne e v espas par asitóides como Pteromalus azureus e Dendrosoter hartigi. permitindo a . 5. 2005). 2002. pica-paus e outras aves podem limitar as suas populações.220 IX.. Gestão das populações de escolitídeos 5.2. As árvores infestadas devem ser removidas do local. 2004). sendo conhecidos por terem algum efeito nas populações de escolitídeos. estas começavam a cair no final do 2.º ano mas a maioria do povoamento tomba por volta do 4º e 5º anos. Os inimigos naturais Os escolitídeos têm uma g rande diversidade de inimigos natur ais. Em particular. Os insec tos predadores. Detritos de exploração florestal O corte dos povoamentos atacados acaba por produzir grande quantidade de despojos lenhosos com casca. O material morto e abatido constitui estação de refúgio para os escolitídeos.

IX. As árvores enfraquecidas pelo fogo t ornam-se assim mais susc eptíveis ao ataque destes insectos. 2006. 6. Elkin et al. Contudo. 2001.. Schwilk. ambas fornecem fracas condições de instalação para escolitídeos. 2007. quer árvores vigorosas. Breece. Na verdade.. as primeiras porque as defesas fazem frente ao agente colonizador e as segundas porque devido ao seu grau de declínio não providenciam recursos suficientes para expansão dos insectos (Leatherman. Sullivan et al. 2004. com excepção das espécies que podem voar todo o ano c omo o Ips sexdentatus). Schwilk et al. uma vez que a perturbação causada pela remoção das árvores pode tornar as restantes em hospedeiros alternativos para colonização de escolitídeos. individualmente os hospedeiros podem ter diferentes respostas dentro da mesma estação. 2006. Diferenças no comportamento do fogo devidas a factores ambientais podem provocar efeitos distintos na susceptibilidade dos hospedeiros e na sua maior ou menor capacidade de reagirem à colonização dos xilófagos (Nunes. totalmente queimadas). 2003. Os problemas fisiológicos nas árvores ocorrem quando as reservas de hidratos de carbono se encontram baixas permitindo a instalação de insectos xilófagos por falta de defesas ou c omo resultado de determinadas características físicas e estruturais dos povoamentos de pinheiro (Charles et al. 2002)... 2008). 2003). Contudo. 2007). OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 221 sua reprodução e a possibilidade de c olonização das ár vores saudáveis adjacentes. vão providenciar que as ár vores possam recuperar após o fogo n um período em que os escolitídeos não se encontram em fase de voo e por isso em que não há . ou a realização de fogo controlado. durante a fase de actividade vegetativa das árvores parece aumentar a mortalidade das mesmas devido a danos radiculares ou a actividade de insectos xilófagos como os escolitídeos (Bradley e Tueller. quer ár vores muito enfraquecidas (por e xemplo. 2001) e influenciando a acti vidade d os esc olitídeos at ravés de efeit os dir ectos nas suas populações e fenologia: fogos tardios realizados depois da actividade dos insectos ter cessado (Novembro/Dezembro. A época do fogo pode igualmente afectar a mor talidade das árvores influenciando a sua susceptibilidade (Santoro et al. West et al.. o desbaste não é recomendado em condições de surto. Escolitídeos e fogo A ocorrência de fogo.

. afogueadas e mat erial resultante de e xploração flor estal) em pinhais queimad os (Sousa et al. As árvores totalmente queimadas não são c olonizadas.. Remover ou queimar o material lenhoso colonizado por escolitídeos. ou destroçar esse material para dimensões o mais reduzidas possível. 2002). No entanto. e logo após o fogo . contudo as possibilidades de expansão de um ataque de escolitídeos após o fogo estará sempre relacionado com a existência anterior de pragas. Evitar fogos de elevada intensidade. Remover detritos lenhosos sem valor comercial do povoamento. Os diâmetros maiores apresentam floema mais espesso e por isso mais apr opriado para expansão das galerias dos escolitídeos. Este aspecto relacionado com a gestão do arvoredo queimado é controverso. a “propagar” substâncias resultantes da volatilização da resina. A pr esença destas é fr equentemente r esultado de uma sil vicultura incorrecta. A sua ocorrência antes do fogo aconselha a uma intensificação de operações de monitorização/intervenção de forma mais cuidada. A vulnerabilidade dos povoamentos após o fogo parece também estar relacionada com a topografia das vertentes. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO infestação (Hanula et al. Geralmente estes insectos só atacam árvores com os diâmetros mais reduzidos durante estações epidémicas. 2008). nos EUA (AFH. Aumentar o mais possível a duração entre fogos consecutivos (4a 5 anos). Após incêndios. Evitar implementar os t ratamentos de redução de combustíveis no período de voo dos escolitídeos. é fr equentemente r ecomendada a r emoção de material de r isco (árvores queimadas. 4.222 IX. Para os pinheiros que não estão t otalmente queimados sugere-se quase sempre o seu corte pois como são árvores debilitadas tornam-se nos alvos preferenciais dos escolitídeos (ver Capítulo VIII). 7. Evitar desbastes em povoamentos com susceptibilidade radicular a podridões. 6. 2004) sugere-se as seguintes recomendações para minimizar o impac to de xilófagos ant es e após a aplicação de fogo controlado: 1. Segundo as directrizes do serviço de extensão da Universidade do Arizona. 5. por algum tempo. estas podem contribuir para a sua atracção uma vez que continuam. Limitar os diâmetros das árvores. . 2. 3.

dependendo de (Crawford e Peterson.. As complexas interacções existentes entre as condições fisiológicas do hospedeiro antes e após o fogo. sobrevivendo. Algumas árvores que sobrevivem aos incêndios acabam por mor rer nos 3-5 anos seguintes em consequência dos danos fisiológicos causados pelo fogo. Antes de se implementar em quaisquer medida cur ativas é necessário saber quais as ár vores que vão mor rer por danos causados directamente pelo fogo e quais as que. Baseado nestes pressupostos. desenvolver alternativas de tratamento em métodos de gestão integrada e decidir como e quando esses tratamentos podem ser mais eficazes. 2007). a época do fogo. as populações de escolitídeos podem aumentar após a aplicação de fogo controlado ou incêndio. os gestores florestais podem determinar/ avaliar a e xtensão de áreas que nec essitam de int ervenção.IX. 1998): a) A intensidade dos danos causados pelo fogo. podem posteriormente ser atacadas por insect os. não havendo assim nec essidade urgente de r etirar árvores cujo câmbio não apresente uma coloração esbranquiçada e húmida (M athew et al. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 223 Em geral é menos óbvio o facto de que o fogo pode pr ovocar danos nas árvores e torna-las susceptíveis ao ataque d os escolitídeos que por sua vez vão contribuir para o aumento das condições que as predispõem a ar der. Os insectos não infestarão ár vores severamente afectadas pelo fogo . a intensidade dos danos. Para hierarquizar as pr ioridades sugere-se que se dê especial atenção às plantações localizadas em zonas de topografia menos elevada e/ou sujeitas a maior secura.. Frequentemente a gestão das diferentes situações exige definição de prioridades e os gestores florestais não devem considerar que todas as estações com infestação de escolitídeos têm de ser t ratadas de imediat o. as espécies de escolitídeos e as condições climáticas acabam por t ornar mais difícil pr ever os níveis de mortalidade em resultado de um fogo controlado ou incêndio. Assim. 1998). Decidir sobre quais as ár vores a retirar depende não apenas dos danos provocados no lenho e raiz como ainda do seu estado fitossanitário antes de o fogo ocorrer (Crawford at al. c) Condições climáticas após o fogo. b) Os níveis populacionais das espécies de escolitídeos antes do fogo. Uma terceira categoria tem a ver com aquelas que se podem t ornar mais susc eptíveis à infecção por fungos e consequente degradação (sobretudo onde já e xistam nas pr oximidades patogénios radiculares) (Nunes. .

Esta medida pode ser dificultada sempre que as parcelas são de dimensões reduzidas e se encontram rodeadas por pinhais que sofreram a passagem do fogo. queima com um calor extremo. uma vez em fogo. 2007).224 IX. No armazenamento das árvores atacadas e cortadas é importante que sejam descascadas ou c obertas com plástico. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 2004). as recomendações preconizadas pelas medidas fit ossanitárias suger em que se c oloque o material lenhoso à distância mínima de 400 m de po voamentos não infestados (AFH. . eventualmente. deixando a menor área de toiça. as árvores começarão a desfazer-se. 2004). por cair para o solo e o r isco inicial de fogo sofr erá uma redução. A melhor for ma de e vitar ataques de esc olitídeos é at ravés da prevenção antes e após fogo. com a monitorização sanitária das árvores de forma a detectar prematuramente os primeiros sinais de susceptibilidade por par te d os hospedeir os. De facto. As árvores susceptíveis são aquelas que ainda oferecem condições de expansão para as populações de escolitídeos. Um t ema igualment e r elevante é o de a valiar até que pont o os escolitídeos podem potenciar o risco de fogo. As pr incipais medidas pr eventivas são sugeridas na Tabela 1. Este procedimento reduz a colonização de xilófagos e patogénios das toiças (Nunes. Contudo. Os incêndios das c opas alastram com muita rapidez e são m uito mais difíceis de controlar do que os incêndios ao nível do solo (Nunes. este conseguirá espalhar-se com rapidez. 2007). Isto pode criar uma escada de combustível. Uma vez que os escolitídeos conseguem voar distâncias consideráveis. Na remoção de pinheiros após o fogo deve-se realizar o corte o mais próximo possível do solo. A madeira morta pelos escolitídeos é um combustível pesado e. As agulhas secas acabarão . as agulhas vermelhas e secas em consequência dos ataques de escolitídeos constituem um risco grave de incêndio. É importante que as árvores consideradas como aptas a ficar em na parcela depois do fogo não passem por períodos de seca e não sejam desramadas ou resinadas nos meses seguintes para evitar a atracção dos escolitídeos. aumentando a carga de c ombustível disponível no solo florestal. para que os insec tos permanecendo no seu interior se encontrem confinados. levando ao aument o d o r isco de um incêndio d o solo às c opas das árvores. No caso de um incêndio alcançar as c opas de um c onjunto contínuo de ár vores mortas.

IX. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 225 TABELA 1 RESUMO DAS PRINCIPAIS MEDIDAS A IMPLANTAR NA PREVENÇÃO DE ATAQUES DE ESCOLITÍDEOS ANTES E PÓS FOGO MEDIDAS DE PREVENÇÃO CONTRA ATAQUE DE ESCOLITÍDEOS DEPOIS DO INCÊNDIO FOGO CONTROLADO Eliminar árvores com defeitos estruturais Evitar resinagem Suprimir as árvores Evitar a linha de fogo parcialmente queimadas perto do colo das árvores Monitorizar os povoamentos vizinhos com mais regularidade a seguir ao incêndio Evitar linha de fogo sobre raízes expostas Evitar causar feridas no tronco durante as operações florestais Suprimir árvores infectadas com patogénios e pragas se o ataque for intenso Evitar detritos de exploração florestal Evitar fogos de alta intensidade Evitar realizar fogo controlado durante os períodos de voo dos escolitídeos Não executar fogo controlado em povoamentos já infestados ou enfraquecidos/ susceptíveis Evitar densidades elevadas Fomentar povoamentos em mosaico e jardinados .

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1. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS ANTÓNIO DINIS FERREIRA SÉRGIO PRATS ALEGRE TERESA CARVALHO JOAQUIM SANDE SILVA ALEXANDRA QUEIRÓS PINHEIRO CELESTE COELHO 1.5. Introdução 2. Estratégias de conservação do solo e da água 3. Tratamentos de canais 3.229 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS X. Quadro-resumo das técnicas .3.6. Criação de oportunidades de infiltração 3. Sementeiras 3.4. Coberturas (“mulch”) 3.2. Técnicas de conservação do solo e da água 3. Barreiras temporárias para controlo da erosão 3.

sendo que a maior parte dos nutrientes são perdidos nos primeiros quatro meses após o incêndio. A conectividade dos processos. provavelmente. as extensas áreas queimadas tornam proibitivas intervenções a larga escala. 2008. Todos os trabalhos que procuram quantificar a eficácia das técnicas de mitigação ou monitorizam um . e a sua transmissão para os cursos de água. desempenham um papel impor tantíssimo na degradação das áreas queimadas. Robichaud et al. Os conhecimentos adquiridos sobre os processos erosivos e os ciclos biogeoquímicos permitem-nos desenvolver e avaliar as est ratégias mais eficazes de conservação do solo e da água. Os processos hidrológicos e erosivos delapidam um recurso já por si bastante degradado que são os nossos solos sem aptidão ag rícola. Robichaud et al. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 1. A degradação das áreas queimadas apresenta vários problemas específicos. Essa continuidade é fruto da ausência de heterogeneidade. Fox et al. a ruptura dos processos de degradação do solo e da água. Depois. tendo em vista a redução dos impactes sobre a conservação da água e d o solo. .é bem menor do que a importância do tema e os seus impactes para a sustentabilidade dos ecossistemas florestais faria supor. os incêndios florestais são. 2003. número muito restrito de técnicas. Surpreendentemente. 2006. Assim. (2000) fornecem uma descrição e avaliação qualitativa de várias técnicas usadas para mitigar os impactes dos incêndios florestais. ao nível da encosta. Introdução Como foi referido no Capítulo II. sobre o que fazer após os incêndios. pelo que este é um aspecto fundamental para a intervenção antes e depois de um incêndio . as est ratégias e técnicas capazes de promover a diversidade da paisagem. 2000. geralmente ocupados por povoamentos florestais e matos.230 X. exigem uma resposta a muito curto prazo. De Luis et al... passam pela criação de descontinuidades às micro e meso escalas. Robichaud. Desde logo. Wagenbrenner et al. a quantidade de t rabalhos técnico-científicos publicados internacionalmente.para permitirem uma avaliação comparativa. ou não medem os pr ocessos de deg radação (ver por e xemplo Montoro et al.. baseadas simplesmente em inquéritos efectuados a gestores florestais.. Robichaud et al. 2006. a extrema rapidez com que ocorrem os processos de de gradação. o fenómeno de maior impacte ambiental em Portugal. 2006). 2005...

nas taxas de erosão e nutrientes dissolvidos exportados logo após os incêndios. o estudo e desenvolvimento de técnicas e estratégias para reduzir a degradação do solo e da água. e extremamente importante. a rapidez com que se processa a degradação após o incêndio (Ferreira. diminuindo assim a área queimada. é conveniente desenvolver ferramentas que permitam indicar quais as áreas onde as intervenções se deverão realizar de forma a produzir os maiores efeitos. sedimentos e solutos em direcção aos cursos de água e para fora das bacias hidrográficas. e ser aplicáveis a locais chave. limita muito as opções disponíveis para mitigar a degradação resultante do incremento na escorrência. mitigadores. por i) redes de faixas de gestão de c ombustível. composta entre outros. Ferreira et al. b) Intervir. já que pode ser planeada de for ma a cr iar obstáculos à progressão do fogo. imediatamente após o incêndio. Ordenamento do espaço florestal A diversidade da paisagem adquire uma enorme relevância na gestão antes do fogo. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 231 2. as soluções encontradas devem ter uma relação custo/benefício aceitável. ii) mosaicos de par celas de gestão de c ombustível. De facto. criando condições para a infiltração e sedimentação. Dado que alguns incêndios flor estais queimam g randes ár eas de floresta e matos. (2005a) demonstraram que a maior parte das perdas ocorrem nos primeiros 4 meses após o incêndio .X. 1996. Essas descontinuidades e infra-estruturas também deveriam ser projectadas de forma a constituírem barreiras à progressão dos processos hidrológicos e erosivos. em termos de conservação. Este facto limita as o pções de gestão a dois grupos de soluções: a) Ordenar o espaço florestal antes dos incêndios. de forma a criar rupturas na conectividade que potencia a transmissão da água. Estratégias de conservação do solo e da água Embora seja urgente. 2005a). especificamente seleccionados para permitirem os maiores impactes possíveis. que têm por objecu tivo a implementação de uma est ratégia de planeamento de defesa da floresta contra incêndios. ao mais baixo custo possível (ver Capítulo V). e é totalmente impossível intervir sobre toda a área em tempo útil. Ferreira et al.. para minimizar os riscos. iii) . após incêndios florestais. Esta filosofia encontra-se já patente no Decreto-Lei nº 124/2006 de 28 de J nho.

constituindo-se assim. Os fogos controlados apresentam padrões heterogéneos de repelência do solo à água. mas também por que promovem desc ontinuidades que podem ser r elevantes na quebr a da conectividade dos processos hidrológicos e erosivos. uma vez que a conservação dos solos e da água resulta da redução da frequência e intensidade da combustão.. não apenas pela r edução da frequência e int ensidade dos incêndios flor estais. uma v ez que pr otegerá de for ma mais eficaz o substrato onde se desenvolve. Dentro da gestão à escala da paisagem. à escolha da espécie arbórea mais adequada às diferentes regiões climáticas e unidades geomorfológicas da paisagem. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS rede viária florestal e iv) rede de pontos de água. ocorrem áreas hidrófilas onde a água gerada nas áreas repelentes se pode infiltrar. resulta muitas vezes no ultrapassar de limiares de produção de fenómenos catastróficos em áreas mais latas (Ferreira et al. de forma a criar uma maior diversidade da paisagem e diminuir a conectividade e transmissão dos processos hidrológicos e erosivos entre diferentes compartimentos da paisagem. Ainda no contexto do ordenamento florestal. Os primeiros dois pontos são focados em mais detalhe no Capítulo VI. As acções descritas neste ponto promovem a conservação do solo e da água.. O carácter de conservação dos fogos c ontrolados está pat ente na quantidade de solutos perdidos que não apresenta diferenças significativas quando comparados com as parcelas de controlo (Ferreira et al. Esse incremento na conectividade e logo . Todas estas sol uções estão or ientadas par a a pr evenção de fogos florestais. como uma área de acum ulação de sediment os. o processo de florestação deve assumir uma filosofia de pr evenção de incêndios que se t raduza em diferentes sol uções e met odologias aplicáv eis às difer entes unidades geomorfológicas da paisagem. fornecendo uma quebra na conectividade ao longo da encosta (Fryirs et al. nas encostas e a quebra da transferência desses processos das encostas para os cursos de água. 2007). Lado a lado com áreas hidrófobas. 2005b).232 X.. a promoção de uma floresta mais resistente e resiliente ao fogo trará vantagens de um ponto de vista da conservação do solo. com avultadas perdas de bens e mesmo de v idas humanas. a implementar nos espaços rurais. na t ransmissão de flux os par a jusante ent re diferentes componentes da paisagem. Por isso. . aos difer entes est ratos e associações vegetais. 2008a). o fogo controlado é uma técnica passív el de ser utilizada ao nív el d o or denamento d o espaço florestal.

Técnicas de conservação do solo e água 3. 2003)) com sementes de arbustos e árvores. e (ii) evitar a actuação desses processos. A hidrosementeira é feita de for ma mecânica. para a estabilização da camada de cinzas. Thymus vulgaris. mecânica ou aérea. barato e muito adequado a terrenos difíceis. 3. A sementeira directa ou de transmissão consiste em distribuir as sementes directamente sobre a superfície do solo. em primeiro lugar. Na sementeira pretende-se obter um coberto vegetal para controlar a erosão do solo e para diminuir a perda de sedimentos (Llovet e Vallejo. com por exemplo. É um método simples de se utilizar.X. A sementeira é manual para encostas de declive acentuado ou mecanizada. Lotus corniculatus. Salvia lavandulifolia. par a r eduzir a magnitude dos processos hidrológicos e erosivos. Sementeiras A sement eira c onsiste em espalhar sement es n um t erreno pr eviamente pr eparado at ravés de uma simples la vragem ou de uma escarificação. sendo geralmente aplicada a pequenas superfícies. de for ma localizada em sulc os ou fileir as. Um e xemplo típic o de uma mistur a de sement es inclui her báceas como Agrostis stolonifera. em conjunto com espécies nati vas. A sementeira pode r ealizar-se em t oda a ár ea queimada. adicionando detritos orgânicos ou sementes. Carex humilis. . A sementeira pode ser feita de forma manual. Podem utilizar-se diferentes combinações de sementes. de forma a impedir a saturação e dificultar o ating ir do limiar de pr odução de escorrência. (Rey. misturar sementes de her báceas vivazes (aplicação mais comum. Trifolium subterraneum. em t errenos de inclinação moder ada a sua ve.1. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 233 Intervenção após o fogo As estratégias após o fogo podem ser divididas entre (i) a criação de oportunidades de infilt ração da água e sedimentação . Lolium multiflorum ou lenhosas e arbustivas de rápido crescimento (Artemisia herba-alba. utilizando-se semeadores pne umáticos. É sobr e as técnicas disponív eis par a aplicar estas est ratégias que se debruça o remanescente deste capítulo. até 6 sementes. Santolina rosmarinifolia). no caso de grandes superfícies (Rey. 2004). Medicago trunculata. 2003). Trifolium fragiferum. ou então .

porque dada a velocidade a que os pr ocessos de deg radação ocorrem logo após o incêndio. Os componentes são misturados numa cisterna com agitador e expulsos por um canhão hidráulico. A utilização de sementeiras de vegetação herbácea não acompanhada por outras técnicas.. as sementes de herbáceas (gramíneas e leguminosas) são misturadas com água. ant es mesmo q ue c onsigam ger minar e desempenhar qualquer papel na c onservação d os solos. 2000). estas são tapadas com o cuidado de compactar depois o solo . adubo e aglutinadores tal como no hidromulch. utilizam-se máquinas agrícolas na abertura dos sulcos. Primeiro. Na hidro-sementeira. A aplicação de mulch com sementes pode realizar-se a seco.. usando uma semeadora ou então. Montoro et al. a semente ter sido submetida a um tratamento adequado. A hidro-sementeira aérea é feita com recurso a helicóptero e as sementes têm de ser bem espalhadas sobre a superfície. . Para se obterem os melhores resultados. ou então. e ser usada na quantidade certa. enterrá-las. as sement es que se mantêm na camada de cinzas são la vadas para jusant e. A sementeira com aplicação de mulch (ver mais à frente) permite melhorar a germinação das sementes dado que aumenta a infiltração e a humidade do solo (Robichaud et al. (2000) demonstraram que 3 tratamentos diferentes de hidro-sementeira levaram à r edução da esc orrência e dimin uição da pr odução de sediment os. Uma v ez colocadas as sementes no sulco. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS A sementeira em faixas consiste na deposição das sement es em sulc os previamente aber tos c om um ar ado. bioestimulantes. Por out ro lad o. o solo terá de estar previamente preparado. Em terrenos de textura fina é conveniente cobrir as sementes com mulch. 2000). revela-se geralmente ineficaz.234 X. as sement es podem int roduzir-se entre as pequenas fissuras do terreno. o local e a época de sementeira terão de ser os mais adequados. o que favorece a germinação. ter qualidade. terrenos pouco consolidados e inacessíveis à maquinaria convencional. A hidro-sementeira é indicada par a superfícies com fortes declives. mac hado ou ancinho . Para solos de t extura grosseira. Para z onas de t opografia sua ve e solos li vres de pedras. com ar comprimido. melhora a germinação (Montoro et al. é difícil às plantas ultrapassarem a camada hidrófoba. manualmente. logo após o incêndio. A protecção conferida pelo mulch contra o impacto das gotas de chuva.

a r etenção de sediment os (Shakesby et al. 2005). Uma font e ób via de c obertura ( mulch) são os r esíduos do abat e das árvores queimadas. (1995) verificaram que a simples presença de agulhas pr ovenientes de pinheir os queimados sobre o solo tinha um impac te positivo sobre os processos hidrológicos.X. providenciam uma protecção natural contra a erosividade da chuva. acontece quando. É conveniente. . que o efeito de cobertura se ja conseguido com materiais locais bar atos. Coelho et al. também devido à protecção que for necem c ontra o ar rastamento de par tículas pela escorrência.2. (iii) reduz a e vaporação. devem ser dispostos perpendicularmente ao sentido do maior declive da encosta. Depois de caírem no solo. Podem ainda. É uma técnica que apr esenta muitas variações. 2000). por uma questão de cust os. em situações de baixa a moderada intensidade do fogo. (ii) mantém a humidade do solo . aumentando a erodibilidade do solo.. (iv) aumenta o t eor de matéria orgânica no solo e (v) conserva a est rutura superficial do solo. Isto significa que quand o a int ensidade do fogo não chega a consumir as agulhas dos pinheiros. os autores. as folhas (dessecadas) permanecem nas copas das árvores após o incêndio. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 235 3. Para tal. Uma outra forma de c obertura. o clima. Aplicação de Resíduos Vegetais A aplicação de resíduos (i) aumenta a rugosidade superficial do solo logo. que podem ser deixad os por for ma a c onstituir micro-armadilhas de retenção das cinzas. No mulch de palha. 1996). consoante os materiais utilizados. as taxas de erosão e a e xportação de n utrientes.. Coberturas (“mulch”) Pretende-se c om esta técnica aumentar a c obertura d o solo par a reduzir o impacto das gotas de chuva e a consequente erosão (Robichaud e Brown. de mod o a t ornar est e tipo de o perações ec onómica e socialment e v iáveis. Estas folhas que caem para o c hão vão pr ovidenciar um mulch natural como co bertura (Robichaud et al. ser combinados um ou vários elementos. cascas e ramos triturados (Figura 1). a queda destas sobre o solo pode providenciar um mecanismo eficaz de protecção que deve ser tido em consideração. que podemos desig nar de mulch natural. Diversos autores recomendam mesmo que se esper e pela queda das folhas ou agulhas para abater as árvores.

para assim reter maior quantidade de sedimentos. pois os restos vegetais são retirados das encostas e das áreas queimadas. 2008). em operações de limpeza ou de roça. . (Fonte: Prats. Infelizmente. sendo semelhante à aplicação anterior e sendo necessário um camião para o t ransporte das mesmas.. É possível o uso de maquinar ia para aplicar os diferentes tipos de mulch em terrenos de topografia suave. a prática enraizada habitual é contrária à técnica de mulch. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS o material é espalhad o manualmente na super fície do terreno. Uma solução de recurso pode consistir na aplicação de pedras sobre a superfície. S. FIGURA 1 Mulch de cascas de eucalipto trituradas numa parcela. Há que repartir o material sobre a área de risco pré-seleccionada de modo a criar uma camada homogénea sobr e o solo.236 X. É um método adequado a terrenos difíceis ou de g rande inclinação. No mulch de ramos de árvores e de arbustos. os ramos devem ser esmagados ou colocados em contacto com a superfície do solo.

No hidromulch o material é expelido por uma mangueira aspersora sob pressão e a mistura está dentro de um reservatório ou moto-bomba sem palhetas. (Fonte: U. A aplicação do hidromulch está limitada a um raio de 70 m em redor do local onde se situa o equipamento. adubo ecológico. protege contra as intempéries até à fixação do material. bermas de estradas. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 237 Hidromulch Este tratamento de redução da erosão é aplicado em taludes de aterro e corte dos caminhos.X. FIGURA 2 Hidro-mulch aéreo. parques florestais e em encostas queimadas com inclinação. Cleveland National Forest). Pode também r ecorrer-se ao uso de hel icópteros. O hidromulch consiste numa mistura de palha. a palha ou cascas t rituradas. para não entupir a passagem desde o reservatório.S. no caso de grandes extensões (Figura 2). além de fixar as sement es. ou cascas t rituradas à qual se junta um b ioestimulante (dulzee). Forest Service. sementes e cola ecológicas ou aglutinador (não ecológico). substrato. . pois forma uma matriz sobre o terreno (Rey. 2003). que forma uma camada protectora consistente que.

a colocação de cordões separados em 5-6-10-15 m corresponderão a declives de 30-16-10-5%. tubos de nylon.3. ou em ár eas extensas. 2005c). separadas por alguns met ros nas encostas. que precedem as bandas de mulch. A forma de aplicação das bar reiras. no que r espeita à escoração. assim. são abertos de for ma manual com um ancinho. têm sid o usadas como barreiras para a escorrência. (ii) armazenar os sediment os e (iii) reduzir o mo vimento de sediment os nas encostas queimadas. com máquinas agrícolas que abrem sulcos mais profundos. 3. Barreiras temporárias para controlo da erosão As barreiras de troncos. O espaçament o dos cordões de mulch é em função do declive da encosta. Os cordões de mulch podem ser precedidos de um pequeno sulc o que aumenta a taxa de infiltração de água no solo e permite a acumulação de cinzas (Ferreira. par a aumentar o c ontacto com este. e outras estruturas naturais ou de engenhar ia. Estas devem ser agrupadas em cordões perpendiculares ao maior declive da encosta. Com fio ou c orda e estacas unem-se os ramos e restos de troncos e compactam-se bem junto ao solo. e à superfície de c ontacto com o solo. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS Bandas ou Cordões de Mulch As bandas ou c ordões de mulch são bar reiras formadas por faixas sucessivas de mulc h. . para (i) promover a infilt ração. vai influenciar o volume potencial de ar mazenamento de sedimentos. respectivamente (WOCAT. 2005c). e pr omover uma maior deposição dos sedimentos. à per pendicularidade em relação ao fl uxo de escorrência. A colocação de barreiras de troncos pode ser feita de forma manual ou com recurso a máquinas.238 X. 2005c). Os sulcos. queimadas ou não . (ii) aumentar a taxa de infilt ração e (iii) permitir a r etenção das cinzas. Devem ser feitos perpendicularmente ao maior declive da encosta (Ferreira. As bandas ou c ordões de mulch. em faixas r egulares (Ferreira. p odem ser compostas de restos de troncos e r amos de ár vores. 2007). com o efeito de (i) reduzir a velocidade da água de esc orrência e a er osão.

.. devem usar-se estacas. O objec tivo desta técnica é cr iar pequenas bar reiras mecânicas nas enc ostas onde o fluxo de esc orrência e os sediment os possam ficar r etidos. Podem também plantar-se arbustos ou árvores. pás ou picaretas. e assim.X. Os t roncos imobilizados no solo amparados por estacas ou pelos cepos (parte que fica no solo depois de cortada a ár vore). A distância entre as barreiras de troncos depende do declive da encosta. no entanto. 2008a). A instalação consiste em der rubar árvores queimadas. Nos casos em que não se ja possível tal disposição. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 239 Barreiras de troncos No caso de as ár eas queimadas serem muito extensas e. Os sulcos escavados com pá de tractor permitem um maior contacto entre os troncos e o solo. e constitui uma bar reira que vai limitar a c ontinuidade da escorrência nas encostas e. existir um elevado excedente de madeira queimada.. de difícil escoamento. O comprimento dos troncos pode ir de 4 a 9 m. à frente das barreiras. (Robichaud et al. colocando-as em c ontacto com o solo segund o as cur vas de nív el da encosta (R obichaud et al. ou ainda. como tal. 2008a). O espaçament o regular destes t roncos deitados sobre o solo impede uma acumulação excessiva das cinzas. reduzindo o seu transporte. promover a infilt ração da água (R obichaud e Brown. que recolhem a água e sedimentos. O espaço livre entre os troncos e a superfície deve ser preenchida com solo para evitar o transbordo de água e sedimentos entre barreiras. contribuir para reduzir as perdas de cinzas/nutrientes. podem utilizar-se esses t roncos como barreiras (Figura 3). Estes podem ser feitos com enxadas. Esta última sol ução só é possív el se os po voamentos florestais possuírem compassos que permitam a sua aplicação e em que seja possível colocar os troncos perpendicularmente ao sentido do maior declive da encosta. se os troncos das árvores se encontrarem irremediavelmente queimados. 2008a). . 2005). pois contribuem para formar pequenas bacias de retenção. o emprego de maquinaria irá perturbar o solo. Na aplicação da técnica devem ser abertos sulcos no solo. para melhorar o contacto dos troncos com este e assim tornar a técnica mais eficaz. com diâmetro médio de 17 a 23 cm (R obichaud et al.

Forest Service. Substituem as bar reiras de t roncos quando estes não e xistem ou são escassos (R obichaud e B rown. 2005)... São normalmente colocadas em áreas com fluxos de baixa int ensidade ou na par te lateral das enc ostas. par a r eter pequenas quantidades de sediment os suspensos (Robichaud et al. As malhas de ar ame ou n ylon preenchidas com palha são est ruturas permeáveis que retêm a escorrência superficial e reduzem a velocidade do fluxo. Robichaud. normalmente palha (Figura 4).240 X. Barreiras de tubos de nylon com palha O objectivo das barreiras é diminuir a distância percorrida pelo fluxo de escorrência ao longo da encosta (Robichaud et al. 2000). mas neste caso. Rocky Mountain Research Station). da topografia e das taxas de erosão do solo. R. ao longo da encosta. As barreiras têm 0.6 m nas extremidades do tubo. A forma de aplicação é semelhante à colocação de troncos. no sentido ascendente. da densidade da instalação. U. 2005). 2000). e imobilizados com estacas. (Fonte: P. para aumentar a capacidade de retenção dos sedimentos (Robichaud e Brown.25 m de diâmetro e podem ser dobradas cerca de 0. A duração destas barreiras depende de parâmetros como a pluviosidade após a instalação (intensidade da chuva). Tal como as barreiras de troncos. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS FIGURA 3 Colocação de troncos em encostas após incêndio. são substituídos por tubos de ar ame e n ylon pr eenchidos c om material filtrante. S. . os tubos de nylon e palha são colocados de acordo com as curvas de nível.

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

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FIGURA

4

Barreira de arame e nylon com palha. (Fonte: P. R. Robichaud, U. S. Forest Service, Rocky Mountain Research Station).

3.4. Criação de oportunidades de infiltração

O principal problema, no que concerne aos processos de degradação do solo e da água em áreas queimadas, diz respeito à ausência de obstáculos à desagregação e remoção dos agregados do solo pelo splash (salpicos causados pelo impacto das gotas da chuva na superfície do solo), à progressão da escorrência e à falta de oportunidades de infiltração. Assim, qualquer técnica aplicável à micro escala, ou à escala das encostas, para aumentar a rugosidade, criará obstáculos que vão promover a infiltração da água. O aumento da capacidade de infiltração pode ser conseguido através da ruptura da camada do solo repelente à água. Esta camada encontrase imediatamente por baixo da camada de cinzas (com a remoção destas acaba por aparecer à superfície) e raramente possui uma espessura superior a 10 cm. Como tal, pode ser dest ruída com relativa facilidade, usando uma ferramenta manual, ou através da utilização de métodos mecânicos, de lavragem ou gradagem. De notar que não existem dados experimentais sobre a eficácia desta sol ução. Uma alternativa consiste na utilização de maquinaria pesada par a abrir sulcos, perpendiculares à linha de maior declive (técnica de vala-e-c omôro), com maior profundidade e espaçamento. Tal permite destruir a camada hidrófoba e, consequentemente, acumular a água e cinzas na vala horizontal formada. A colmatação dos sulcos com as cinzas não impede a continuação do processo já que estas são hidrófilas. Como medida de segur ança, que e vite o galgament o do

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X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

cômoro e a aber tura de uma r avina, a vala deverá ter um declive muito ligeiro, entre 1 e 2% para conduzir lentamente a água, excedente, para uma linha de água secundária, onde poderão ser efectuados pequenos açudes de retenção de for ma a retardar e reter, quanto possível, os sedimentos e nutrientes residuais (Silva et al., 2007). No entanto, a cir culação de máquinas pelas encostas ardidas removerá e perturbará o solo, com o qual a erosão poderá ser promovida mais do que evitada. Para mais informações técnicas sobre o dimensionamento deste sistema, o leitor é remetido para o trabalho de Silva et al. (2007). Em alguns incêndios intensos, os sistemas radiculares da vegetação também podem ar der. Este fenómeno ocorre sobretudo em pinhais sujeitos a desbaste, onde os sistemas radiculares das árvores abatidas, que se encontram apodrecidos, produzem macroporos que podem funcionar como armadilhas para a progressão da escorrência, transporte de sediment os e de sol utos, diminuindo assim a per da de nutrientes e sedimentos e reduzindo o risco de picos de cheia catastróficos a jusante (Doerr et al., 2003; Ferreira et al., 2000, 2003, 2005a). A lavragem consiste na acção mecânica de r evolver o solo, com um arado ou uma charrua ligada a um tractor, que rasga a superfície do solo levando à for mação de sulcos. Os sulcos acumulam água e sediment os, podendo ser pr evistos pequenos depósit os par a acum ulação d os sedimentos transportados, nos locais mais baixos (Robichaud et al., 2008). O objectivo é cr iar rugosidade superficial par a permitir a infilt ração da água no solo e quebrar a camada repelente à água, para controlar a erosão do solo. Após a lavragem pode realizar-se uma sementeira ou transplante de pequenas ár vores. Na escarificação é quebrada a camada super ior do solo, aumentand o a r ugosidade super ficial. A escarificação pode ser efectuada man ualmente, usand o ancinho ou gadanho , ou de for ma mecânica usando um escarificador. As técnicas de lavragem e escarificação podem efectuar-se de forma manual ou mecânica, segundo as curvas de nível. Do ponto de vista florestal, não se devem realizar apenas lavragens e escar ificações do solo. Estes tipos de pr eparação do solo, de vem ser seguidos de técnicas c omo o mulch e ou a sement eira (Shakesby et al., 1996; Cassol e Lima, 2003; MacDonald e Robichaud, 2007) para um uso florestal ou agrícola do solo, de modo a melhorar a infiltração da água e a retenção de sedimentos e de acelerar a recuperação.

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

243

3.5. Tratamentos de Canais

As barreiras em canais, ou check dams, são estruturas feitas de palha, paus, pedras ou sacos de areia, instaladas para estabilizar o gradiente do canal e reter sedimentos. São usadas para alterar o movimento dos sedimentos e da água, reduzindo o fluxo de água, evitando cheias e retendo os detritos conduzidos na corrente, em canais de p equena ordem e valas, durante a primeira época de chuvas a seguir aos incêndios (Robichaud et al. 2000; Robichaud e Brown, 2005). São tratamentos adicionais, que são instalados após, ou em simultâneo, com o tratamento nas encostas. De notar que estes tratamentos devem ficar bem fixos no canal, sem que corram o risco de ruptura, que a acontecer, poderá ter impactos catastróficos a jusante. Pela mesma razão, devem ser removidos quaisquer barreiras formadas por materiais mobilizados pelo caudal, que por serem instáveis, podem romper, causando graves problemas a jusante, resultantes da libertação instantânea de grandes quantidades de água e sedimentos. Por esta razão, as barreiras dentro dos canais nunca poderão ser de grandes dimensões, o que reduz o risco de ruptura, e em caso de ruptura, as quantidades de água e sedimentos libertados nunca serão suficientes para causar problemas de maior.
Barreiras de fardos de palha

O objectivo principal desta técnica (Figura 5) é reduzir a velocidade do fluxo de escorrência e aumentar a deposição e r etenção de sedimentos arrastados. As barreiras permitem ainda controlar a erosão nas encostas, após o corte de plantações. Esta técnica tem uma duração de 1 a 3 anos. Os sediment os são depois liber tados, g radualmente, à medida que o material se degrada. Este é um tipo de técnica usado para tratamento de canais em áreas pouco queimadas, ou após um fogo de intensidade baixa. Uma barreira de far dos de palha for ma-se com 4 a 5 far dos, que são colocados perpendicularmente a um curso de água pequeno (ou linha de dr enagem natur al), par a captur ar os sediment os ar rastados pelo caudal do curso de água. A área de drenagem deve ser restrita e a barreira colocada para que a profundidade da água não exceda cerca de 30 cm em nenhum local. São mais adequadas para zonas de topografia suave. Devem ser monitorizadas após eventos chuvosos significativos, com o cuidado de remover os sedimentos e efectuar as reparações necessárias.

244

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

FIGURA

5

Pormenor de uma barreira de palha. (Fonte: Pinheiro, A., 2008).

Barreiras de Troncos

As barreiras de troncos são estruturas estabilizadoras, ancoradas desde o topo do canal ou ravina até à base, com troncos queimados disponíveis no local. Os t roncos podem ser c olocados na vertical (Figura 6) ou na horizontal, amarrados por cordas. Têm de se escavar pequenas covas cuja profundidade é metade da altura dos troncos. As covas podem ser abertas manualmente ou com recurso a tractor. Colocam-se os troncos na vertical com os mais grossos no meio da barreira onde a corrente da água é mais forte. P reenchem-se as c ovas c om t erra de for ma a fixar os t roncos. Os troncos colocados transversalmente devem ser ancorados por estacas. Nos t rabalhos citad os por WOCAT (2007), as bar reiras c onstruídas tinham um comprimento de 8m, largura de 15 a 20 cm e 1 m de altur a. Podem também colocar-se pedras ou ramagem, de forma a estabilizar as barreiras, ou plantar ár vores junto destas par a estabilizar a r avina ou sulco, após sedimentação. Deve ser feito o nivelamento das barreiras.

FIGURA

6

Barreira de troncos. (Fonte: © Mats Gurtner, in WOCAT 2007).

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

245

Barreiras de Pedras

Estas estruturas estabilizam a est rutura do canal do topo até à base, permitindo manter a forma e a capacidade do canal e preservar as condutas de água. Provocam a redução da velocidade do caudal com retenção dos sedimentos grosseiros. O primeiro objectivo é prevenir o ravinamento e o aprofundar do canal para prevenir a geração de sedimentos nos canais queimados. Para construir barreiras de pedr as devem escavar-se valas perpendiculares ao fl uxo de água d o canal, durante a época seca, após o incêndio, para criar uma depressão. As pedras são então c olocadas a uma profundidade de 15 cm, ao longo de um c omprimento de 2 a 3 m, com uma largura de 0.8 a 1 m e uma altur de 0.5 m. O centro da barreira a deve ser 23 cm mais baix o que os bordos laterais. O espaçamento entre barreiras, numa sequência, deve ser planeado e executado para que a base de uma barreira esteja alinhada com o topo da seguinte. As pedras podem ser colocadas manualmente ou por mét odo mecânico. Após episódios chuvosos, os sedimentos devem ser removidos antes que atinjam metade da altura da barreira, de forma a manter a sua eficácia e evitar o seu colapso. Nos trabalhos de WOCAT (2007), as bar reiras de pedr as foram usadas em conjunto com barreiras de troncos para estabilizar ravinas, mais largas, tendo sido também plantadas ár vores, em frente e at rás das bar reiras, após sedimentação da base. São usadas para áreas de drenagem até 5 ha.
Bacias de sedimentação (“Debris basins”)

Estas bacias retêm sedimentos, dissipam a energia do caudal, criando habitats para organismos aquáticos e impedem a deterioração da qualidade da água em áreas a jusante (Robichaud et al., 2000). Previnem perdas do solo e da água e danos nas bases das enc ostas, fruto da erosão das margens. Esta técnica é aplicada em último r ecurso, quando os t ratamentos de encostas e canais são inadequados. A bacia de sedimentos é um pequeno reservatório de água, para onde é drenado o caudal de pequenos cursos de água e a escorrência das áreas adjacentes. À medida que o fluxo entra na bacia, a velocidade da água diminui e perde a capacidade de transportar grandes destroços, que aí ficam depositados. As bacias devem ser projectadas, c om capacidade par a r eter os sediment os da enc osta, por um período de 10 anos. O tempo é menor, no caso da remoção de destroços ser

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X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

fácil, mas nunca inferior a 2 anos. A bacia deve ter descarregadores adequados par a esc oar o e xcesso do flux o de água, par a não e xceder a capacidade máxima de armazenamento. As bacias de sedimentação devem ser limpas an ualmente. Podem também esca var-se sulc os nos canais efémeros, para funcionarem como bacia de retenção, de forma a reter 50 a 90% do fluxo de água. Estas devem ser limpas todos os anos e localizarem-se numa secção do canal principal onde se possam remover os sedimentos. Ao serem abandonadas, não produzem grandes prejuízos. Existem várias hipóteses de construção das bacias de sedimentação, sendo possível aproveitar infra-estruturas já existentes. Podem ser construídas com duas barreiras alinhadas, perpendicularmente ao curso de água, feitas de pedra ou cimento, alinhadas de forma a criarem bacias de retenção fechadas, dentro dos canais. Pode também c onstruir-se um alic erce com troncos cruzados sobre o solo onde depois são c olocadas pedras. As estruturas podem também ser de ciment o. O projecto e construção destas bacias de sedimentação exige conhecimentos avançados de engenharia civil, e no caso das maiores, convém monitorizar assiduamente o estado da infra-estrutura.
Limpeza dos canais e bacias de retenção

Um aspecto importante da gestão das bacias de r etenção e canais é que devem ser r emovidos destroços acumulados que for am arrastados na corrente de água, por for ma a pr evenir o aument o da altur a do caudal e consequentes inundações súbitas das bacias de escoamento dos canais, podendo causar o c olapso das est ruturas e a ger ação de picos de c heia catastróficos (Robichaud et al., 2000). Por isso, devem ser removidos os detritos orgânicos, sedimentos ou toros, para impedir que sejam mobilizados em c orrentes ou c heias, e que alt erem assim a hidr ologia e geomorfologia do flux o (Robichaud et al., 2000). Os det ritos podem bloquear tubagens em caminhos, reduzir a capacidade do fluxo nos canais, e afectar o funcionamento das bacias de escoamento e aumentar a erosão dos caminho e est radas. A remoção de sediment os dos canais de ve ser efectuada antes do Inverno, quando se produzem os fluxos mais significativos. A limpeza deve ser feita por técnicos, de forma a reconhecerem os destroços lenhosos flutuantes, os que são estabilizadores naturais e os que estão firmemente ancorados. As intervenções podem ser manuais, usando pás, picaretas ou enxadas ou, mecânicas, usando uma retroescavadora.

ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 247 3.6. Quadro-resumo das técnicas Na Tabela 1 são resumidos os aspectos mais relevantes de cada uma das técnicas mencionadas.X. .

Aumenta matéria orgânica do solo. € HIDROSEMENTEIRA Especializados. poucos. Equipamento especial Média Reduz taxas de erosão e aumenta crescimento das plantas. 2005. Equipamento especial Média Algumas das formas de aplicação (aérea) podem ser muito caras. Bom controlo da erosão. Baixo controlo da erosão. Robichaud e Brown. APLICAÇÃO DE RESÍDUOS VEGETAIS Prats et al. 2005. E BENEFÍCIOS E DESVANTAGENS ECOLÓGICAS MEIOS HUMANOS MATERIAIS DE APLICAÇÃO DESVANTAGENS ECOLÓGICO ECOLÓGICAS MEIOS FACILIDADE VANTAGENS/ BENEFÍCIO DESVANTAGENS TABELA 1 248 TÉCNICA REFERÊNCIA CUSTO SEMENTEIRAS Indiferenciados.. indo florescer a jusante. SEMENTEIRA MANUAL Llovet e Vallejo 2004. Melhoria da fertilidade e da cobertura do solo. € Introdução de novas espécies. €€ BARREIRAS TEMPORÁRIAS PARA CONTROLO DA EROSÃO Indiferenciados. O uso de pedras não tem impactes na estrutura do solo. a outras técnicas. baixo custo. 1996.. Pouco muitos. Pouco médios. Rey.. 2003. na humidade ou em nutrientes. o enchimento com palha encarece a técnica.. 2009.LISTAGEM DAS TÉCNICAS MENCIONADAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA. relevantes Fácil Fácil mas pouco Promove maior eficaz se não associado infiltração se associada a outra técnica. Pouco poucos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A CONSULTAR PARA INFORMAÇÕES SOBRE A TÉCNICA. relevantes Difícil Utilização de materiais locais de baixo custo. FACILIDADE DE APLICAÇÃO. Redução de taxa de erosão. Indiferenciados. Introdução de novas espécies. € HIDROMULCH Especializados. poucos. Pouco médios. Robichaud e Brown. Sementes são lavadas nas primeiras chuvadas. 2008. Montoro et al. socialmente viáveis. Pouco muitos. CUSTO RELATIVO (NÚMERO DE SÍMBOLOS PROPORCIONAL AO CUSTO). Bom controlo da erosão. Baixo controlo da erosão. Ferreira et al. Shakesby et al. Aumenta fertilidade do solo e conteúdo de humidade. 2000. 2000. Robichaud et al. 2005. €€ Mais caro que a anterior. 2000. BANDAS OU CORDÕES DE MULCH Ferreira et al. Indiferenciados. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS BARREIRAS DE TUBOS DE NYLON COM PALHA Robichaud et al. 2000... 2005. relevantes Fácil Material disponível. etc. relevantes Fácil € X. Rey. MEIOS HUMANOS E MATERIAIS NECESSÁRIOS. Melhoria da fertilidade. Eficaz na redução de taxas de erosão e crescimento das plantas. COBERTURAS Indiferenciados. . Wohlgemuth et al. BARREIRAS DE TRONCOS Robichaud et al. VANTAGENS E DESVANTAGENS. 2003. 2005c. Robichaud e Brown. 2001. relevantes Média €€ Aumenta fertilidade do solo e conteúdo de humidade.

2000. € Cria ares de acumulação de sedimentos e nutrientes. 2003. poucos.. Robichaud et al. Fluidez do caudal. BACIAS DE Robichaud et al. Robichaud e Brown. se mal dimensionado.. 2005 €€ BARREIRAS DE TRONCOS Robichaud et al. que geralmente está disponível Fácil Difícil de implementar mecanicamente em vertentes declivosas. BARREIRAS DE FARDOS DE PALHA Indiferenciados.MEIOS HUMANOS MATERIAIS DE APLICAÇÃO DESVANTAGENS ECOLÓGICO ECOLÓGICAS MEIOS FACILIDADE VANTAGENS/ BENEFÍCIO DESVANTAGENS TÉCNICA REFERÊNCIA CUSTO CRIAÇÃO DE OPORTUNIDADE DE INFILTRAÇÃO Indiferenciados. Cassol e Lima. 2008 €€ TRATAMENTOS DE CANAIS Indiferenciados. Pouco relevantes médios Fácil Fácil de implementar. 2000. 2000. Perda da estrutura do solo.. duração limitada. Cria áreas de acumulação de sedimentos e nutrientes.. SEDIMENTAÇÃO 2000 Indiferenciados. 2005 Especializados. Rápida decomposição. DOS CANAIS 2004 E BACIAS DE RETENÇÃO € Fácil de implementar. BAER. Duração limitada. Necessita de equipamento.. Pouco relevantes muitos Fácil €€€ X. 2000. se mal dimensionado. Robichaud e Brown. médios Equipamento especial Média Grande investimento em infra-estruturas. BARREIRAS DE PEDRAS Robichaud et al. Possibilidade de colapso. 2007 Especializados. Shakesby et al. Cria áreas de acumulação de sedimentos e nutrientes.. WOCAT. diminuição da biodiversidade do solo. duração limitada. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS LIMPEZA Robichaud et al. muitos Equipamento especial Difícil Grande investimento em infra-estruturas. Obstáculo à dispersão de algumas espécies aquáticas. 249 . Necessidade de intervenções para continuar activa.. duração limitada. Pouco relevantes médios Fácil Fácil de implementar. efeito apenas a curto prazo. €€€ Cria áreas de acumulação de sedimentos e nutrientes.. possibilidade de colapso. Robichaud et al. 2000. pode aumentar as taxas de erosão. Robichaud et al. LAVRAGEM E ESCARIFICAÇÃO 1996.

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Introdução 5.253 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS XI.1. Contentores 4. A selecção de espécies 4. Factores críticos para o sucesso das plantações — experiências post-transplante . A operação de plantação 5.2.5. Transporte e acondicionamento de plantas 5.3. Sementeira versus plantação 3.2. A instalação no terreno 5. Substrato e fertilização em viveiro 4. Aspectos gerais 4. A produção de plantas em viveiro 4. Fertilização 5. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO VASCO PAIVA CARMEN CORREIA JOAQUIM SANDE SILVA 1. Selecção da semente 4.4.4.5. Mobilização do solo 5.1.3. Introdução 2.

dada a baixa carga de combustíveis que estes locais normalmente apresentam. implicando a instalação de espécies que nunca irão surgir espontaneamente. a nec essidade de r ecorrer a oper ações de regeneração artificial pode de fac to ser uma necessidade incontornável. Muito embora a mitigação desses efeitos inclua vários outros aspectos e alt ernativas. Apesar de tudo não podemos deixar de lembrar os trabalhos de arborização que se r ealizaram nas Ser ras do Cent ro e N orte do P aís pelos Ser viços Florestais do Estado sobretudo durante a primeira metade do Século XX (Radich e Alves. pois coincidem com as zonas mais áridas e com menor produtividade. Estes trabalhos tiveram também como motivo a recuperação de solos deg radados por práticas anc estrais de queima. impedindo a instalação natural da vegetação. 2000). Noutros casos mesmo quando se pretende um coberto constituído por espécies nati vas do local. dependendo d os objecti vos a ating ir e das c ondicionantes de cada situação. o processo de sucessão ecológica secundária que se segue a um incêndio poderá não ser minimament e c ompatível c om a evolução que se pr etende para a área recentemente ardida. há ainda a ter em conta a frequente regeneração de espécies exóticas cujo controlo poderá ter que passar pela instalação de outras espécies que possam c ompetir vantajosamente pela l uz. No entanto esse tipo de situações normalmente não é resultante da ocorrência de incêndios. onde os pr ocessos erosivos se poderão revestir de particular gravidade. tal c omo é e videnciado ao longo de out ros capítulos do pr esente livro. pastoreio e roça de matos. No caso específico das áreas de clima mais t emperado do continente português. Introdução A r egeneração ar tificial das ár eas queimadas é a alt ernativa mais frequentemente referida como forma de mitigar os efeitos dos incêndios florestais. essa regeneração pode não surg ir c om a abundância ou c om a r apidez pretendidas. Frequentemente essa incompatibilidade prende-se com o tipo de utilização que se pretende fazer da área queimada. Na verdade. onde o pot encial de regeneração da vegetação seja reduzido. Existe ainda a situação menos c omum de poder ser nec essário assegur ar o revestimento vegetal de solos m uito degradados.254 XI. Esse tipo de situações poderá voltar a ocorrer em áreas frequentemente percorridas por incêndios. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 1. .

importa referir e descrever as alternativas a ter em conta ao nível da regeneração artificial de ár eas queimadas. 1991). A sementeira apresenta como principais vantagens: a maior facilidade de execução e o menor investimento associado. 1991). com o consequente desperdício associado. Por esse motivo. Apesar dessa impor tância. Outros inc onvenientes são a oc orrência de g randes per das ant es da germinação e durante o primeiro ano de crescimento devido a factores como a humidade excessiva. No entanto é uma alternativa que exigirá mais intervenções e maiores custos nos primeiros anos de crescimento (Forestry Commission. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 255 Deste modo. Argillier et al. muitas das considerações que se seguem são uma recolha do conhecimento disponível para a r egeneração artificial de um mod o geral. A necessidade de ele vadas quantidades de sement e por unidade de superfície. o gelo. (2004) referem uma predação de sementes . não têm sido devidamente estudadas para as áreas queimadas. Sementeira versus plantação A regeneração artificial com espécies lenhosas pode fazer-se essencialmente de duas for mas: através da utilização dir ecta de semente ou pela utilização de plantas normalmente produzidas em viveiro e posteriormente transplantadas para um local definitivo. permite um desenvolvimento natural das r aízes e assegur a um melhor desenvolvimento da planta. dada a importância que poderão potencialmente desempenhar em estratégias de longo prazo na reabilitação pós-incêndio. que no entanto terá um crescimento inicial mais lento relativamente ao de uma planta t ransplantada a partir de um viveiro (Alves. a secura. 1991). a competição inter e intraespecífica.. Por exemplo quanto a este último factor Pausas et al. a acção de gado ou da fauna selvagem. normalmente sem uma referência específica às áreas recentemente percorridas por incêndios. 2. 1982.XI. Questões c omo o efeit o da difer ente disponibilidade de nutrientes ou a influência da fauna nas plantas ou sementes recentemente instaladas. é um dos inconvenientes mais significativos da sementeira (Forestry Commission. não e xistem muitos t rabalhos cientificament e validad os que per mitam a valiar as condições específicas da arborização destas áreas relativamente às áreas não ardidas. Quando bem suc edida.

1999. Em z onas de oc orrência de ne ve. 1982. recorrendo a sementes localmente bem adaptadas (Alves. Esta profundidade pode var iar entre 0.. Ribeiro et al.5-1.. Por outro lado. 2010). designando-se como sementeira parcial (Forestry Commission. de r oedores ou out ros animais. 2003). n uma sement eira de Pinus halepensis em áreas queimadas da r egião de Valência. tais como zonas de escarpa. depende das c ondições do clima da região (Louro et al. As sement es de vem ser c olocadas no t erreno a uma profundidade adequada e pr oporcional ao se u tamanho de mod o a facilitar a emergência da plântula (F orestry Commission. Primaveras frescas e Verão quente e seco (clima mediterrânico) é preferível a sementeira outonal para permitir que as plantas já tenham o sistema de raízes bem desenvolvido para melhor tolerarem a época quente e seca (Correia e Oliveira. desig nando-se c omo sementeira total. a necessidade de novas sementeiras e/ou limpezas. Burkhart. Por outro lado o nascedio ir regular em t ermos de est rutura e de dist ribuição espacial (clareiras versus elevada densidade) implica. zonas de elevada pedregosidade e zonas dunares. ou incluir apenas uma parte da superfície a r egenerar. A época para a realização das sementeiras.5 cm par a as sement es pequenas das resinosas até 3-6 cm par a as sement es das Fagáceas e Juglandáceas (Louro et al. a sementeira é particularmente recomendada em locais de difícil instalação de povoamentos. A sementeira total obriga a uma maior quantidade de semente. maior é o r isco da acção nefasta de a ves. A sementeira pode abr anger t oda a superfície a r egenerar. Em regiões de clima atlântic o deve-se realizar a sementeira no fim d o Inverno e/ou início da Primavera (Correia e Oliveira. 2002). Existem várias modalidades de sementeira que poderão ser escolhidas em função dos objectivos e das car acterísticas da estação. com frequência.. 1991). quanto mais se revolver o solo. Devido a est es condicionalismos há algumas indicações que de vem ser seguidas. podendo . 1991). 2003). A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO nos seis pr imeiros meses super ior a 80%. 2005). a sement eira deve ocorrer antes do Inverno para reduzir o risco da acção de aves e roedores. 2002). No entanto e apesar destas limitações. Em regiões de I nvernos suaves.256 XI. 2008. Vander Mijnsbrugge e Bischoff. A sementeira deve ser realizada quando o solo ti ver humidade e oc orrer temperatura suficiente para se iniciar a ger minação e permitir o rápido desenvolvimento das jovens plantas (Fenner e Thompson.

A sementeira parcial em situações de declive pode ser realizada em faixas. a uma adequada pr eparação do terreno e a um maior e melhor aproveitamento das sementes disponíveis. Vander Mijnsbrugge e Bischoff. a lanço ou em covachos ou furos. 2010).XI. . Em terrenos pedregosos ou de ele vado declive só é possív el a sementeira manual. tal como se ilustra (ver Caixa 1) com o exemplo dos trabalhos de ar borização das dunas do litoral realizados entre o final do séc. assegurando melhores condições para garantir a qualidade das plantas e a r ecuperação da área ardida (Landis et al. 2010). podendo assim obter-se uma disposição regular das plantas no terreno. 2002. A utilização de semente da mesma pr oveniência. a sementeira correspondeu a uma fase inicial das técnicas de r egeneração artificial. O recurso à plantação foi introduzido posteriormente sendo actualmente a técnica pr edominante de vido ao insuc esso de m uitas sement eiras e à necessidade de utilizar técnicas c om resultados mais seguros e rápidos (Correia e Oli veira. em manchas. 2007)... 2010). XIX e o início d o século XX (Vieira.. 2010. No desenvolvimento da silvicultura. Landis et al. Tal não invalida no entanto que existam situações específicas que favoreçam a opção pela sementeira. As dificuldades da r ealização das sement eiras e a inc erteza do seu sucesso têm levado a que o recurso à plantação seja a forma de regeneração artificial mais utilizada. plantas de qualidade e técnicas de preparação do solo e plantação adequadas per mitem ganhar tempo no processo de r ecuperação de ár eas ardidas (Landis et al. A plantação está nor malmente associada a uma melhor selecção. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 257 ser realizada a lanço ou por meios aéreos dando origem a uma disposição irregular no terreno. A utilização de semeadores é possível em zonas planas ou de pouc o declive. 2003. linhas ou regos segundo as curvas de nível.

Assim. consoante os materiais disponíveis na região (ver a este respeito a interessante descrição feita por Vieira (2007). 3.258 XI. Foto de sementeiras em Mira no princípio do século XX (cedida por Luis Alcaide). 1991). moliços. . 2010). A instalação de povoamentos de Pinus pinaster por sementeira na orla costeira litoral teve sempre uma prévia preparação do terreno com a adição de matéria or gânica (mat os e/ou algas) para c ompensar a pobr eza de nutrientes e reduzida capacidade de retenção de humidade das areias. A selecção de espécies A selecção das espécies é um factor determinante numa acção de reabilitação após incêndio. as condições edafo-climáticas e o int eresse do proprietário. sendo que a utilização de plantas autóctones ecologicamente adaptadas garante à partida maiores taxas de sucesso. o uso de flora nativa é prioritária em acções de conservação e reflorestação (Vander Mijnsbrugge e Bischoff. Assim. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO CAIXA 1 A ARBORIZAÇÃO DAS DUNAS Diversas tentativas de instalar povoamentos com recurso à plantação em zonas arenosas ou dunar es têm-se r evelado de maior insuc esso que o r ecurso à sementeira. A decisão quanto à selecção das espécies para um dad o local ou r egião resulta da conjugação de vár ios factores. nomeadamente se v isa objectivos de protecção ou de produção e dentro deste último se pretende obter receitas a curto ou médio/longo prazo (Forestry Commission. algas. era criada uma manta. nomeadamente: a ocupação desse solo antes do fogo. ou espécie de “ cama” c om mat os.

. nomeadament e Pinus pinaster ou Pinus pinea e c om Quercus suber têm apresentado bons resultados em algumas z onas do Alentejo em que a espécie pioneira. é conveniente que se privilegie uma espécie que r apidamente ocupe a estação minimizand o assim o r isco da r egeneração da in vasora. As experiências realizadas com a instalação de po voamentos mist os. Também em situações de degradação dos solos poderá não se r adequado arborizar apenas com espécies nativas típicas de estádios avançados da sucessão ecológica. Pausas et al. 2006). Normalmente. Para os projectos de recuperação ecológica. em t erritórios profundamente transformados o conhecimento da flora potencial pode não ser evidente. 2008) incluindo espécies mais tolerantes à secura. Burkhart. 1991. Esta est ratégia obriga a uma eficaz gestão d o povoamento. protege as jovens plantas de sobreiro permitindo ainda um rendimento intercalar para o proprietário (Louro et al. neste caso no sítio c onhecido como Hortas no Perímetro Florestal da Lousã.. a utilização da espécie ou espécies d ominantes presentes na proximidade da área a recuperar e em ec ossistemas semelhantes.. o pinheiro. nomeadamente na definição d o momento em que se de ve remover a espécie pioneira. à insolação e à pobr eza de nutrientes como as resinosas. Seguindo as indicações de C orreia e Oliveira (2002. 2003) onde se identificam as Principais Espécies Florestais com interesse para Portugal. é um bom cr itério de esc olha. . a utilização de espécies e pr oveniências autóctones é em pr incípio o cr itério mais seguro.. Barros e Sousa. como por e xemplo espécies do géner o Acácia sp. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 259 Se na ocupação ant erior do solo predominavam espécies invasoras.XI. pois com frequência verificam-se elevadas taxas de insuc esso. Num outro exemplo. 2003). apresentam-se duas tabelas ( Tabelas 1 e 2) c om indicação das espécies mais adaptadas a cada uma das z onas de Influência Mediterrânica e de Influência Atlântica. 2004. a presença de um po voamento de Pinus pinaster possibilitou um bom desenvolvimento dos castanheiros no seu interior. 2002. Nesses casos pode ser recomendável a instalação de po voamentos mistos (Forestry Commission. Não obstant e. garantindo a máxima adaptação às c ondições locais e minimizando o risco que podem representar algumas espécies alóctones devido ao seu comportamento invasor (Vallejo et al.

5-16° C ESPÉCIES Quercus robur Castanea sativa Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Pinus pinaster Pinus radiata Cedrus atlantica .5° C IBEROMEDITERRÂNICA Pma: 400-600 mm Tma: 16-18.5° C MEDITERRÂNICA Pma: 300-600 mm Tma: 16-18° C Pma — Precipitação média anual Tma — Temperatura média anual TABELA 2 ESPÉCIES ADAPTADAS ÀS ZONAS DE INFLUÊNCIA ATLÂNTICA DE ACORDO COM CORREIA E OLIVEIRA (2002. 2003) ZONA ECOLÓGICA SUBMEDITERRÂNICA CARACTERIZAÇÃO Pma: 550-900 mm (>1000 nas cotas mais elevadas) Tma: 15-18° C ESPÉCIES Quercus suber Pinus pinaster Pinus pinea Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Quercus suber Quercus rotundifolia Pinus pinea Cupressus sempervirens Cupressus macrocarpa Casuarina equisetifolia Quercus rotundifolia Pinus pinea Pinus halepensis Cupressus sempervirens Cupressus macrocarpa Casuarina equisetifolia Quercus rotundifolia Ceratonia siliqua Pinus pinea Pinus halepensis Cupressus sempervirens Cupressus macrocarpa SUBIBEROMEDITERRÂNICA Pma: 500-700 mm Tma: 15. 2003) ZONA ECOLÓGICA BASAL ATLÂNTICA CARACTERIZAÇÃO Pma: 1000-2400 mm Tma: 12. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO TABELA 1 ESPÉCIES ADAPTADAS ÀS ZONAS DE INFLUÊNCIA MEDITERRÂNICA DE ACORDO COM CORREIA E OLIVEIRA (2002.260 XI.2-17.

5° C ESPÉCIES Quercus faginea Quercus robur Quercus suber Castanea sativa Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Pinus pinaster Pinus radiata Cedrus atlantica Quercus faginea Quercus robur Quercus suber Castanea sativa Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Pinus pinaster Pinus radiata Cedrus atlantica Quercus faginea Quercus robur Quercus pyrenaica Quercus rubra Castanea sativa Prunus avium Pinus pinaster Pinus radiata Pinus nigra Quercus robur Quercus pyrenaica Quercus rubra Castanea sativa Betula celtiberica Pinus sylvestris Pinus radiata Pinus nigra Cedrus atlantica Quercus pyrenaica Quercus rotundifolia Castanea sativa Pinus nigra Quercus robur Quercus pyrenaica Quercus rubra Betula celtiberica Pinus sylvestris Pinus radiata BASAL ATLANTE MEDITERRÂNICA Pma: 500-1400 mm Tma: 7. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 261 ZONA ECOLÓGICA BASAL MEDITERRÂNEO ATLÂNTICA CARACTERIZAÇÃO Pma: 700-1200 mm Tma: 12.5-17.5-16° C SUBMONTANA SUBATLÂNTICA Pma: 600-2000 mm Tma: 7.5-16° C ALTIMONTANA Pma:> 2200 mm Tma: <10° C .XI.5-15° C MONTANA SUBATLÂNTICA Pma: 1000-1800 mm Tma: 7.5-15° C MONTANA IBÉRICA Pma: 700-1200 mm Tma: 7.

c omo ac ontece c om frequência em algumas espécies. é avaliada desde há mais de uma década at ravés de det erminados padrões previamente estabelecidos para cada espécie. 3. ver capítulo III) a pr odução de plantas consegue ser rentabilizada através de um eficaz pr ocesso produtivo em viveiro (ex: Quercus faginea). com a evolução das práticas silvícolas. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 4. 1991. Obtenção de plantas com adequado volume de substrato (torrão consolidado com as raízes da planta) capaz de permitir ultrapassar as dificuldades iniciais de abast ecimento em água e n utrientes. tendo em conta os seguintes aspectos (Ribeiro et al. situações de fr aca produção de semente (anos de c ontra-safra. Aspectos gerais Nas últimas décadas. facilitando a sua adaptação mesmo quando plantadas em condições de clima agressivo. também todo o processo de produção de plantas e voluiu. garantindo-se actualmente maiores taxas de sobrevivência e sucesso nas plantações (Landis et al. com o adequado tratamento das sementes (ex: Arbutus unedo) ou o ptando por out ros processos de produção.. 2. sobretudo quando instaladas em solos esqueléticos e pobres. Esta técnica de pr odução per mite igualment e assegur ar as car acterísticas genéticas das plantas produzidas. destacam-se sobretudo as seguint es referidas por di versos autores (Argillier et al..1.262 XI.. 2010). Obtenção de plantas equilibradas. com bom desenvolvimento da parte aérea e devidamente atempadas.. A produção de plantas em viveiro 4. 2001): . Landis et al. sendo amplamente utilizada em muitos planos de produção de espécies com genótipos seleccionados. a qualidade das plantas produzidas. 2010): 1. 4. nomeadamente a propagação vegetativa (ex: Ilex aquifolium). Também no caso em que se v erificam. Viabilização e maior r apidez na pr odução de det erminadas espécies. O respeito por estes padrões de qualidade permite a certificação das plantas de ac ordo com as disposições legais. De igual modo. Sendo inúmeras as vantagens em utilizar plantas pr oduzidas em viveiro.

3. 2. Tempo de permanência no viveiro – A idade com que a planta sai do viveiro pode condicionar o seu comportamento no local definitivo. Hartman et al. o diâmetro do colo. juntamente com as duas c ondições anteriores. o seu estado nutricional e hídrico. a conformação do sistema radicular e a r elação entre o sistema radicular e a parte aérea.. assim como do seu desen volvimento morfológico e fisiológ ico nesse momento.XI. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 263 1.. dependendo das condições edafo-climáticas onde é utilizada. os principais critérios utilizados são a altura da parte aérea. tais como o teor de hidratos de carbono de reserva. Características morfológicas – Dentro destas.g. 1997 Oñoro et al. a biomassa total. . têm sido correlacionados em diversos estudos de sobrevivência em plantação (e. a relação caule/raiz. 2001) (Tabela 3). Condições fisiológicas – O estado fisiológico da planta. é um fac tor determinante de sucesso quando a planta é c olocada no local definiti vo. Características da planta produzida em viveiro.. a superfície foliar. etc.

A utilização de plantas de raiz nua é recomendada para áreas de infl uência atlântica e em solos mais profundos e frescos (Argillier et al.264 XI.. que condicionam a qualidade e a quantidade de pr odução. 1991.SALVADOR . o subst rato. Ribeiro et al. os contentores e posteriormente o transporte das plantas (Argillier et al. baixa disponibilidade de água). A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO TABELA 3 CRITÉRIOS UTILIZADOS NO CONTROLO DE QUALIDADE EM PLANTAS FLORESTAIS ( ADAPTADO DE VILLAR .. Os fact ores mais importantes no processo de produção de plantas em v iveiro são: a selecção da sement e.g . A utilização de plantas de c ontentor é aconselhável para as áreas de influência medit errânica e/ou par a c ondições de st ress (e. 1991).. . 2003 ) CRITÉRIOS QUALITATIVOS MORFOLOGIA Plantas com feridas não cicatrizadas Plantas parcialmente ou totalmente secas Caules com fortes curvaturas Caules múltiplos Caules com várias bifurcações Caules e folhas com fraco vigor vegetativo Caules desprovidos de gomo apical intacto Concentração de nutrientes Concentração de açucares de reserva Atraso nas gemas terminais Teste de fluorescência dos pigmentos fotossintéticos Condutividade estomática Termografia foliar através de sensores de infravermelhos Emissão de compostos voláteis induzidos por stress Potencial de formação de novas raízes Resistência às geadas Resistência à dessecação (teste de vigor da OSU) * CRITÉRIOS QUANTITATIVOS Altura da parte aérea Diâmetro do colo da raiz Massa aérea e radicular Calibre do caule (altura/diâmetro) Proporção entre a massa aérea e a massa radicular Índice de Dickson ** Desenvolvimento dos gomos FISIOLOGIA RESPOSTA DAS PLANTAS * Oregon State University ** Índice de Dickson: biomassa total/ [(altura/diâmetro) + (biomassa aérea/biomassa radicular)] A produção de plantas em viveiro depende de vários factores críticos. 2001). solos delgados.

em po voamentos com elevada percentagem de bons fenótipos. Em Set embro de 2003 foi publicado o Decr eto-lei 205.2.. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 265 4. A semente ou os propágulos vegetais usados no processo produtivo em viveiro determinam fortemente a qualidade das plantas pr oduzidas (D. os povoamentos onde se recolhe semente devem estar aprovados pela Autoridade Florestal Nacional (AFN) e inscr itos no Catálogo Nacional de Materiais de Base.G. Estes povoamentos devem ser conduzidos através de desbastes que retirem os indivíduos mal conformados e/ou de crescimento lento (D. Diversos factores afectam a produção seminal: a idade. isto é: indivíduos bem conformados (forma de tronco e copa). o vigor. A selecção das ár vores para recolha de semente tem como critério geral a esc olha dos indivíduos de maior valor ec onómico. Qualificada (etiqueta cor de rosa). A idade madura é a mais . parte A e B.G. Igualmente fica obr igada a produção de plantas das espécies: Eucalyptus globulus.F. Pinus pinaster. Selecção da semente A origem e qualidade do material genético utilizado vão naturalmente reflectir-se no r esultado das acções sil vícolas futur as (Menzies et al. propágulos ou plantas jovens). Seleccionada (etiqueta verde). Pela legislação actual. Através deste decreto-lei determinam-se quatro diferentes categorias de acordo com a origem do material base: a) b) c) d) Identificada (etiqueta amarela). o clima e os fact ores genéticos.. bem como os povoamentos ou indivíduos onde é recolhido o material florestal de reprodução (sementes.F. a exposição da copa... que legisla uma diversidade de parâmetros que regulamentam a produção das espécies em viveiro. 2001).G. 2003). 2003). do referido decreto-lei. Testada (etiqueta azul) É também a partir desta data que se constitui o Catálogo Nacional de Materiais de Base. Pinus pinea e Quercus suber.F. 2003).XI. registando os po voamentos ou indi víduos avaliados de ac ordo c om as nor mas decr etadas que dão or igem aos mat eriais florestais de r eprodução (MFR) par a todas as espécies identificadas no anexo I. através de MFR da categoria Seleccionada ou superior (D. com boa taxa de crescimento e com boa qualidade d o lenho.

A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO favorável para a colheita de sementes (Ribeiro et al.266 XI. considerando as exigências relativas a cada espécie. pelo que os po voamentos destinados a este objectivo devem ser adequadamente fertilizados.G. 2001). Em árvores isoladas devem ser preferidas as que têm copa mais expandida e sistema radicular não afectado pela concorrência. o que vai permitir uma maior produção fotossintética e uma maior produção seminal.F. extensos períodos de chuva actuam negativamente sobre a polinização anemófila (r ealizada pelo vento) e reduzem a acti vidade dos insectos (polinização ent omófila). 2010). muitas vezes a obt enção da sement e é dificultada e limitada. Em povoamento as árvores dominantes são as que pr oduzem maior flor ação e consequentemente mais frutificação (D. Pelo contrário. de conservação da semente e do tipo de tratamentos pré-germinativos ( Tabela 4). podendo condicionar seriamente a produção de determinadas espécies. conveniente iluminação e adequada humidade do solo estimula a fotossíntese e a acumulação de hidratos de carbono o que proporciona mais e melhores sementes. sobretudo na parte virada a Sul e a Oeste. As árvores mais vigorosas são os melhor es “sementões” e os solos fér teis proporcionam também mais sement e.. par a a obt enção de boas taxas de suc esso. As árvores de bordadura têm uma localização mais favorável. .. É por isso m uito importante o conhecimento das melhores práticas de processamento. Nestas árvores a parte da copa mais exposta proporciona mais e melhor semente. Este é um fac tor de peso r elevante. De igual forma as situações c huvosas e de céu ene voado reduzem a fot ossíntese provocando menor produção seminal e queda de frutos.. As geadas tardias de Primavera são também outro elemento negativo na floração (Vander Mijnsbrugge et al. A conjugação de temperaturas elevadas. Se por um lad o se pretende com a legislação em v igor (Decreto-Lei 205/2003) obt er indi víduos c om melhor es car acterísticas genéticas. A met eorologia t em infl uência det erminante na for mação de gomos florais e no sucesso das florações. nomeadamente em anos de fr aca colheita. 2003).

possibilitando deste modo a obtenção de maiores taxas de sucesso nas acções de regeneração artificial. Juglans spp. pelo que as taxas de suc esso estão c ondicionadas pelo . essencialmente para sementes recalcitrantes com maiores dimensões. durante 48 horas. nunca deverá ser utilizada para produção por ter fraca viabilidade.. O c onhecimento antecipado das futur as áreas de intervenção permitiria a aquisição de semente de melhor qualidade e das pr oveniências adequadas. 2001). durante 12 horas. O tempo que decorre entre a colheita da semente e a sementeira tem igualmente peso relevante no êxito do processo produtivo. até arrefecer. eliminar os frutos de baga vermelha devido à inviabilidade da semente. pois as sementes mantêm a viabilidade durante pouco tempo. Escaldar a semente em água a ferver e manter. Pinus spp. Quercus suber Quercus spp. Colocar a semente em recipientes com água e eliminar toda a que ficar à superfície. tanto no que diz respeito à obt enção de boas taxas de ger minação como aos cust os que lhe são inerentes (Ribeiro et al.. Nas Quercíneas. este é um aspecto particularmente relevante.GERMINATIVOS PARA SEMENTES DE ALGUMAS ESPÉCIES ESPÉCIE CRITÉRIOS QUALITATIVOS A primeira semente que cai em finais de Outubro – início de Novembro. Após limpeza do fruto para extracção da semente.. denominada bastão. Fraxinus spp. ser ia dese jável que os organismos oficiais disponibilizassem a infor mação d o númer o de projectos florestais aprovados por região e respectivas áreas.. Prunus spp.XI.. Arbutus unedo Pistacia lentiscus Ceratonia siliqua No planeament o da pr odução de v iveiro. ESPÉCIE TRATAMENTO PRÉ-GERMINATIVO Maceração da polpa (frutos maduros) com estrume de vaca. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 267 TABELA 4 EXEMPLOS DE PROCEDIMENTOS E CRITÉRIOS PARA SELECÇÃO E DE TRATAMENTOS PRÉ . o que possibilitaria estimar a nec essidade de plantas e espécies. imersão em água.

268 XI. Na selecção de um substrato. baixa densidade. 4.3. Nesta situação e para todas as sementes recalcitrantes.. A sua selecção é fundamental na medida em que est e exerce uma influência significativa na arquitectura do sistema radicular. melhor será a germinação (Ribeiro et al. os quais se vão reflectir directamente na qualidade do produto final. sendo por isso um factor chave no sucesso da plantação (Peñuelas e Ocaña. nem sempre é viável fazer a sementeira num curto prazo de tempo para grandes quantidades de semente. preferencialmente com a emergência da r adícula em fase inicial (< 10 mm). 1997). Tem havido desde há muito tempo. o substrato e o contentor utilizado. 1996). no estad o nutritivo das plantas. um trabalho de estudo e experimentação sobre os variados substratos que se podem utilizar. que poderá ir até 4 a 5 meses após c olheita da bolota ou lande. assim como os aspectos económicos associados a essa selecção. boa porosidade (relação . t ransporte. Quanto mais curto for este período. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO período que medeia entre a colheita da semente (meados de Novembro) e a respectiva sementeira em viveiro. pr ocessamento e conservação da sement e em condições que não ac elerem a ger minação e assegurem uma taxa de v iabilidade elevada. Como regra. garantindo que as exigências das plantas relativamente à capacidade de retenção de água.. assim c omo na translocação de água no sistema solo – planta – atmosfera. quantidades acima de 10 t oneladas obr igam ao pr olongamento d o pr ocesso. mas com arejamento para evitar problemas de fitossanidade (fungos). devem ser consideradas as características físicas e químicas adequadas à espécie que se pr etende produzir. destacam-se além da semente. 1997). No entanto. arejamento e disponibilidade de nutrientes possam ser satisfeitas (Hartman et al.. É por isso r ecomendável a manutenção em condições de temperatura baixa (5-6º C) e de alguma humidade. O substrato ideal deve apresentar homogeneidade. 1999). O subst rato c ontribui pr ofundamente par a as car acterísticas morfológicas e fisiológicas da planta e posteriormente para o sucesso da instalação (H artman et al. adequando-os à produção de plantas com qualidade desejável. Substrato e fertilização em viveiro Entre os variados factores que influenciam determinantemente a produção de plantas. torna-se indispensável planear convenientemente o r itmo de c olheita.

2001). São diversos os mat eriais utilizados par a. d) com boa capacidade para transporte. inicialmente utilizados na produção de plantas em viveiro.. manuseamento e ar mazenamento. e) com resistência ao desenvolvimento de pragas e doenças (meios miner ais versus orgânicos). predominantemente de natureza orgânica.. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 269 arejamento/retenção de água). organismos pat ogénicos e sement es (Argillier et al.. desde a turfa. a disponibilidade e o preço do material. Para que a sua utilização seja economicamente viável. A escolha dos materiais utilizados deve considerar a espécie produzida. b) ser estável (não estar ainda em processo de compostagem) c) com manutenção ou reprodutibilidade das suas propriedades físicas e químicas. Também a casca de pinheiro compostada foi muito utilizada durante largos anos (Figura 1) por ser ec onomicamente mais acessível e por t er . sendo que no entant o é um r ecurso natural não renovável e por isso a sua disponibilidade irá estar condicionada a médio prazo. boa capacidade de campo. 1991. lamas e resíduos tratados.. denominadas c ondicionadores e que integram a mistura em proporções menores do que 50% (Santos et al. 2008). Hartman et al... Hartman et al. entre outros. 1991. Em geral são incorporados aos substratos materiais substâncias melhoradoras das suas car acterísticas físicas e/ou químicas.XI.. boa estrutura (agregação entre as partículas). a perlite e vermiculite (minerais de argila). foram gradualmente substituídos por out ros materiais. constituírem um substrato. 1997.. 1991. boa capacidade de troca catiónica e deve estar isento de pr agas. De modo ger al.. além dos aspectos técnicos relacionados com a sua utilização (Argillier et al. Ribeiro et al. 2001). a casca de arroz e a esteva compostada. 1997). a fibra de coco. o substrato deve apresentar diversas características: a) ser abundante. Os solos minerais. 2000). 2001). 2000). as condições de produção (sistema de rega. fertilização e dimensão do contentor). a casca de pinheiro (que deve ser compostada). individualmente ou em mistura. É m uitas vezes difícil enc ontrar um mat erial que por si só isolado reúna todas as características desejadas (Santos et al. pode diz er-se que é pr eferível a mistura de d ois ou mais mat eriais para a obtenção de um subst rato adequado e de boa qualidade (Ribeiro et al.. Burkhart. cujas car acterísticas satisfazem de forma mais adequada as exigências das plantas em contentor (Ribeiro et al. A turfa é sem dúv ida o substrato com maior utilização na produção de plantas. e f) ser preferencialmente um meio estéril (Argillier et al.

físicas. Para que as fertilizações administradas possam causar o efeito desejado e para que os aspectos qualitativos. numa segunda etapa. sendo importante a análise laboratorial dos materiais que constituem o substrato para proceder à fertilização mais adequada. através de análises laboratoriais ao material vegetal. evidenciando um bom desenvolvimento do sistema radicular.270 XI. Estas necessidades podem ser determinadas. 2001. numa pr imeira fase por obser vação v isual das plantas e. hídricas e mesmo biológ icas do substrato. 1991).. FIGURA 1 Produção de planta em contentor com recurso a uma mistura com predominância de turfa. No entanto a sua utilização está actualmente fortemente condicionada devido aos problemas de fitossanidade que têm sido detectados no género Pinus. Villar-Salvador et al. (Foto: Vasco Paiva) A fertilização em viveiro e nomeadamente a do substrato tem também forte influência na morfologia e fisiologia da planta e na sua performance quando plantada no terreno (Villar-Salvador et al.. é necessário ter um bom conhecimento dos seguintes aspectos (Ribeiro et al. . 2008). — Necessidades específicas em elementos minerais das diferentes espécies ao longo do seu ciclo vegetativo e dinâmica dos nutrientes entre o substrato e a planta. nomeadamente o fungo Fusarium circinatum e o nemátodo Bursaphelencus xylophilus. 2008): — Características químicas. frequência e modo de aplicação sejam os mais adequados a cada caso concreto... quantitativos. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO características físicas interessantes (Argillier et al.

XI. fósforo. O azoto (N) é considerado o mais importante nutriente e a sua utilização em fertilizações aumenta de forma expressiva o crescimento da planta. No entanto. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 271 — Processo de produção utilizado: propagação vegetativa ou sexuada. . zinco.5 6. — Características dos diferentes adubos existentes no mercado. magnésio e enxofre) deverão ser sempre fornecidos às plantas.7 7.5 4. As características químicas do substrato. 2008). potássio.0 7. nunca se deverá excluir a possibilidade de oc orrerem deficiências de micr o-nutrientes..5 6-8 8. nomeadamente o seu valor médio de pH.5 Turfa negra Casca de folhosas compostada Turfa loura Resíduos compostados Casca de pinheiro fresca Fibras vegetais PRODUTOS MINERAIS Terra argilo-limosa Vermiculite grau 3 Perlite Vermiculite grau 1 Lã de rocha Areia Argila expandida 5-7. ADAPTADO DE LEMAIRE ET AL . a sua taxa fotossintética e o crescimento das raízes (Villar-Salvador et al. TABELA 5 VALORES MÉDIOS DE PH EM ÁGUA DE VÁRIOS MATERIAIS NORMALMENTE UTILIZADOS COMO SUBSTRATO ..5 5. os macro-nutrientes (azoto. os valor es podem ser bastante variáveis dependendo do material utilizado. no processo rizogénico é det erminante a presença de n utrientes que vão estimular as fases de divisão e crescimento celular.9 8. bem como do seu comportamento para cada caso de aplicação específico. cobre. de acordo com o expresso na Tabela 5. ( 1989 ) SUBSTRATO PRODUTOS ORGÂNICOS PH (H2O) 5.5 7.1 4. 1997). cálcio.5 6.3 Na produção de plantas florestais em contentores. nomeadament e fer ro. têm peso determinante na escolha da fertilização a utilizar e c onsequentemente no equilíbr io dese jado. boro e manganês (Hartman et al.

. Por exemplo as espécies do género Quercus apresentam uma resposta menos evidente às fertilizações que as c oníferas. de acordo com o expresso na Tabela 6 (Ribeiro et al. O EXCESSO OU DEFICIÊNCIA DE DETERMINADOS NUTRIENTES . 2001). Nem todas as espécies exigem as mesmas quantidades e equilíbr io de nutrientes nem tão pouco reagem de maneira semelhante à fertilização. 2004. Boas taxas de suc esso após a plantação são obtidas quando o t eor de az oto na planta é super ior a 70 mg .. 1997. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO Contrariamente ao que é defendid o por m uitos técnic os flor estais e produ-tores de plantas.272 XI. 2005). ADAPTADO DE LANDIS ET AL ( 1989 ) DEFICIÊNCIAS OBSERVADAS CAUSA DAS DEFICIÊNCIAS TABELA 6 S Ca Mg Mn Fe B Cu Zn Mo excesso de azoto • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • excesso de fósforo pouco potássio excesso de cálcio excesso de magnésio excesso de manganês excesso de ferro excesso de cobre pouco zinco excesso de zinco baixo pH alto pH excesso de enxofre excesso de sódio excesso de bicarbonatos • • • • • • • • . ASSIM COMO DIFERENTES VALORES DE PH PODEM AFECTAR A DISPONIBILIDADE DE CERTOS NUTRIENTES . Oliet et al. uma pobr e fertilização em az oto em espécies mediterrânicas nor malmente r eduz a taxa de sobr evivência e de crescimento na plantação (Oliet et al. pelo que er radamente muitos viveiristas não fertilizam as Quercíneas (Villar-Salvador et al. O equilíbr io ent re os difer entes n utrientes é também impor tante porque o excesso de alguns pode afectar a absorção e a utilização de outros. 2004). Villar-Salvador et al. e porque este equilíbrio afecta também o pH da solução .

1997). 2001). pelo que e xiste a preocupação em mant er um adequad o equilíbr io r aiz/parte aér ea (Ribeiro et al. A parte aérea da planta está est reitamente dependente do desenvolvimento do sist ema r adicular e v ice-versa. visam proporcionar melhores condições quando a planta é instalada no campo . Por outro lado era difícil a sua o peracionalidade em viveiro assim como o seu t ransporte e dist ribuição das plantas (Ribeir o et al. Entre estas r efira-se a sobr evivência e o crescimento.. Landis et al. 2010). As características que um contentor deve reunir para a produção de plantas de qualidade. Dominguez et al. 2001). do período de permanência em viveiro e do local de plantação (Argillier et al. Já há bastant e t empo que os sac os de plástic o deixaram de ser utilizad os par a a pr odução de plantas. dado que usualmente o substrato utilizado neste tipo de contentor era simplesmente terra (pura ou misturada com outros materiais).2010). Os mesmos autores não obtiveram resultados conclusivos sobre a influência da profundidade do contentor a qual poderá no entanto ter importância na produção de espécies do género Quercus que desenvolvem . Contentores Sendo o contentor o supor te físico para a produção de plantas em viveiro. O volume do contentor parece ser a variável que mostra maior correlação com a altura da planta e a sobrevivência no campo (Dominguez.. P or out ro lad o a sua for ma det ermina as car acterísticas morfológicas e funcionais.. a facilidade de manipulação .. com diferentes modelos de contentores e com diferentes espécies (Oñoro et al. é fundamental a selecção dos contentores adequados em função das espécies a produzir. nomeadamente a densidade de plantas.4. 1991. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 273 4... 1990).. Muitas destas variáveis têm sido estudadas em diferentes épocas.. A matéria-prima utilizada no se u fabrico limita a sua dur abilidade e reutilização. pelo fact o de induzirem deformações acentuadas no sist ema radicular (enrolamento das raízes). 1991. 1997. reflectindo-se na qualidade da planta produzida (Landis.XI. Um contentor condiciona diferentes variáveis associadas à produção. a estrutura e o desenvolvimento do sistema radicular. 2010). o volume. A selecção d o contentor de ve estar de ac ordo com as características morfológicas exigidas por cada espécie (Landis et al.. Landis et al. 2001). as quais estão r elacionadas com a capacidade d o sistema radicular regenerar rapidamente novas raízes (Argillier et al.

1991).. A legislação (Decreto-Lei 205/2003) obriga a que as plantas de Pinus pinaster e de Eucalyptus globulus tenham um volume mínimo de vaso de 120 cm³ e que esse volume seja de 200 cm³ para as restantes espécies. É uma opção de g rande responsabilidade cujos efeitos se repercutem no mínimo durante uma década. 2001).. 1991. já que est e pode induzir o enrolamento das raízes. devido à fraca presença de raízes laterais (Lindström e Rune. tendo em conta a necessária amortização do investimento realizado. até ao limite mínimo permitido. sujeitas a certificação. . Independentemente de todas as considerações atrás referidas. incluindo as máquinas de sementeira ou de enchimento de tabuleiros. pode provocar uma maior diferenciação do sistema radicular originando uma maior quantidade de raízes secundárias e de raízes finas. o que aumenta a capacidade de absorção de água e n utrientes (Lindström e Rune. a profundidade do contentor poderá determinar o comprimento da raiz principal das plantas em viveiro. 1991. fixas ou out ro tipo de est rutura). influenciando positivamente a profundidade de enraizamento das plantas quando colocadas no campo (Peñuelas e Ocaña. Landis et al. 1999). e para as resinosas o volume de 200 cm³ é considerado suficiente (Ribeiro et al. 1996). os meios mecânicos (quando existem) associados à respectiva movimentação. a r edução da capacidade (volume) do contentor. e as estruturas de suporte necessárias para a suspensão dos tabuleiros (bancadas móveis.. A arquitectura do sistema radicular antes e depois da plantação é também fortemente influenciada pelo contentor utilizado. Para as plantas de eucalipto é utilizado normalmente o volume de 150 a 200 cm³. tanto pelo seu custo como por toda a logística associada. No entanto. Deste modo. 2010). é importante sublinhar que a esc olha de um c ontentor não de ve ser feita sem ponderar seriamente que a sua aquisição representa um grande investimento para o viveiro. Landis et al... Argillier et al.. P or out ro lad o. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO uma forte raiz pivotante (Dominguez et al.274 XI. 1999. 2010).. O enrolamento é fortemente contrariado pela pr esença interna de est rias longitudinais que induzem um maior desen volvimento de r aízes laterais (Argillier et al. o que pode reduzir a performance e a futura estabilidade da árvore. este objectivo deverá ser compatibilizado com a necessidade de se criar um volume de torrão capaz de enfrentar o impacte do transplante com maior sucesso (Argillier et al. Geralmente são utilizados contentores com volume de 300 a 400 cm³ para a produção de folhosas mais exigentes. 1997).

No caso de distâncias menores é recomendável a utilização de r ede ou out ro material que at enue os efeitos dos agentes climatéricos. 2001). A carga deve ser feita o mais próximo possív el do momento do transporte e deve ser correctamente estabilizada para um bom acondicionamento das plantas. b) à perda do gomo apical por deficient e acondicionamento e c) ao aquecimento. 2001). as suas raízes devem ser envolvidas de forma a manterem-se protegidas e húmidas mas também a per mitir a sua r espiração. 2001). favorável ao desenvolvimento de agentes patogénicos (Ribeiro et al.. por exemplo em sac os de ser apilheira. Transporte e acondicionamento de plantas O transporte de plantas entre o viveiro e o local de plantação merece especiais cuidados para evitar danos devido à acção do vento e do calor (Argillier et al. por e xemplo ent re vár ios países.XI.. em contentor. Se forem plantas de raiz nua. permanecendo muitas vezes em estaleiro dias ou . película t ransparente e per furada (Ribeiro et al. Assim. 1991). é ac onselhável a utilização de contentores refrigerados (Argillier et al.. se possível com uma solução fosfatada para estimular o desenvolvimento das raízes. Em situações em que esse t ransporte demore vár ios dias. Ribeiro et al. Os cuidados devem ser tanto maiores quanto maior for a distância de transporte e os r iscos são par ticularmente g raves quand o se t rata de espécies folhosas menos resistentes (Argillier et al. 1991. no caso de grandes distâncias é necessário que os transportes sejam realizados. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 275 4. No momento de recepção das plantas no campo deverá ser escolhido o local onde de vem per manecer. numa viatura com toldo. 1991. 2003).5.. estão mais protegidas contra danos de natureza física e contra a acção do vento (Ribeiro et al. Antes de saírem do viveiro as plantas devem ser regadas. Com frequência as plantas sofrem danos dur ante o seu t ransporte. 2001). 2001). A descarga das plantas também deverá ser realizada imediatamente após a chegada ao local de plantação ou armazenamento das plantas (Ribeiro et al. dad o que c om fr equência não são plantadas de imediato. É de todo desaconselhável que permaneçam demasiado tempo dentro da viatura. As raízes das plantas de torrão. Louro et al. que c omprometem a própr ia viabilidade da plantação. Os riscos maiores estão associados: a) ao stress hídrico devido às perdas de água sobretudo através das folhas..

A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO semanas. a preparação da estação (mobilização do solo). Deve evitar-se que estejam expostas ao vento. caso em que se devem proteger as plantas durante a noite com recurso a uma rede sobrelevada (Argillier et al. arejado. Em diversos capítulos dest e livro foram já abordadas questões que devem nortear a preocupação de preservação do solo e de minimização dos r iscos de er osão pós-fogo. 2001).. C onvém que se ja um local limpo (sem pr oblemas de fitossanidade). por exemplo em planaltos..276 XI. Por outro lado. Em caso de temperaturas demasiado elevadas será necessário regar as plantas com maior frequência e devem permanecer numa zona de sombra. 2001). perda do gomo apical). 1991).. 1991.g. 2008). A qualidade das plantas florestais pode det eriorar-se r apidamente. a mobilização do solo e o momento/época de instalação no t erreno são decisões impor tantes a c onsiderar no planeamento da arborização (Peñuelas. 5.. assim c omo as linhas or ientadoras de restauro. A instalação no terreno 5. acondicionamento ou um deficiente manuseamento podem causar danos ir reversíveis (e. 2008). Não se recomendam zonas baixas. Uma planta pode t er qualidade à saída do viveiro e um mau transporte. numa primeira fase. sobretudo em tempo frio. o mét odo de plantação ou sement eira e o tipo de fer tilização adoptados (Forestry Commission. As plantas de raiz nua devem ser abaceladas em locais frescos e húmidos (Ribeiro et al. Em caso de ocorrência de problemas fitossanitários (fungos) deve-se proceder à desinfecção com um produto anti-fungico. o que pode fazer aumentar a evapo-transpiração e o risco de emurchecimento (Burkhart. protegido da acção d o vento e da geada e c om relativa proximidade de água para poderem ser regadas durante o período de tempo de armazenamento (Argillier et al. de diversos factores tais como a selecção das espécies. 1997).1. Em caso de t empo frio devem-se evitar os locais com exposição Norte ou Este (Hartman et al. de constituição de unidades de paisagem e de uma silvicultura . porque aí é maior o r isco de ocorrência de geada. Introdução O sucesso de uma plantação ou de uma sement eira depende. Burkhart. 1991). a qualidade da planta ou da semente.

O mesmo aut or sublinha que. t endo como objecti vo gar antir boas taxas de sobr evivência. em z onas mediterrâneas. Deste modo. sobretudo das raízes. Mobilização do solo A mobilização do solo influencia o desen volvimento inicial das jovens plantas e pode melhorar as condições edáficas da zona repovoada (Simón et al. (v) reduzir as possibilidades de invasão da vegetação espontânea depois da plantação ou sementeira.2. Nas secções seguintes abordam-se alguns fac tores críticos associados à instalação das plantas ou sementes no terreno. 2005).. minimizar o impacte ambiental no solo. valorizar o investimento do custo de instalação no produto final e manter a capacidade de produzir bens e serviços numa base sustentável (Gomes et al. dada a sua muito maior importância enquanto forma de regeneração artificial das áreas queimadas. As características do solo interferem de for ma relevante nas soluções . Serrada (1993) destaca como objectivos imediatos de preparação do solo: (i) aumentar a profundidade útil do solo. b) da relação custo/benefício numa perspectiva de valorização do investimento. desagregando camadas profundas por acção mecânica. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 277 preventiva que minimiz e os r iscos que proporcionaram a ocorrência e propagação do fogo. favorecer o crescimento inicial. (iii) aumentar a capacidade de infiltração para a água. dependendo portanto do valor sócio-económico do povoamento e c) das restrições ambientais. a preparação do solo está sempre relacionada com a água e todos os procedimentos de mobilização devem aumentar a quantidade de água utilizáv el pelas plantas. favorecer o desenvolvimento do sistema radicular. 5. nomeadamente as que dizem respeito à conservação do solo e à protecção das linhas de água. pretende-se reduzir o número de operações.XI. (ii) aumentar a capacidade de retenção de água. A tomada de decisão deve ser função: a) da qualidade da estação. garantindo assim uma boa taxa de sobr evivência. (iv) facilitar a penetração mecânica das raízes e o seu desenvolvimento. 2004). nos primeiros anos. na fauna e na flora e de. utilizando soluções apropriadas que per mitam uma mobilização mínima. De acordo com Gomes et al (2005) na preparação da estação há que encontrar soluções e equipamentos que minimizem a superfície afectada e a intensidade da mobilização com o objectivo de reduzir os custos de instalação. com particular destaque para a primeira opção. simultaneamente.

na medida em que condicionam o crescimento. São áreas de maior infilt ração. 2003). 2007). Na proximidade das linhas de água não se de ve realizar qualquer mobilização mecânica d o solo. limitand o intervenções mecanizadas no futur o (Louro et al. relativamente próximo da superfície) pode per mitir um aumento do volume de solo explorado pelas raízes e aumentar a taxa de sobrevivência e a produtividade do povoamento (Gomes et al. teor em matéria orgânica.. para as regiões mais secas. Nilsson et al. rocha-mãe. 2005). a ripagem com o objectivo de rompimento de um horizonte impermeável (horizonte árgico. pedregosidade. nomeadament e d o solo e d o se u g rau de suberização e da infecção simbiótica por micorrizas. É aconselhável a época outonal. uma o peração de r ipagem pode conduzir a consequências indesejáveis. no Outono (após as primeiras chuvas).. Em solos pouco profundos com rocha-mãe pouco desagregável. d o se u diâmet ro e da facilidade de penetração da coifa.3. horizontes impermeáveis. ou no final do Inverno. No entanto.278 XI. respeitando uma faixa mínima de 30 metros nas linhas de água permanentes e de 10 metros nas linhas de água temporárias. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO específicas a preconizar. e em que qualquer mobilização do solo pode afectar a estabilidade desses solos e gerar fenómenos erosivos. início da Primavera. densidade aparente. como o transporte de blocos de pedra para níveis superiores. A operação de plantação A plantação deve realizar-se sempre com o solo húmido. sendo de r eferir as seguint es: profundidade do solo. originando um aument o sig nificativo da pedr egosidade. textura. 1994). Nestas faixas a mobilização de verá limitar-se à aber tura de covachos sem qualquer tipo de int ervenção mecânica. sendo a superfície de absorção função d o c omprimento das r aízes. A eficiência das raízes depende em boa parte das condições de penet ração. Estas de vem desen volver-se em maiores volumes de solo (sem r estrições). sendo sempre as espécies ripícolas as mais indicadas para estas situações (Louro et al.. 2003. dinâmica e disponibilidade de nutrientes (Morris e Miller. capacidade de r etenção de água. o que permitirá que as jovens plantas possam beneficiar das chuvas de Inverno para . (1995) referem que para a assimilação de água e nutrientes é cr ucial a eficiência das r aízes finas. ou mesmo par a a superfície d o terreno. 5. Carneiro et al.

A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 279 que as suas r aízes se desen volvam dur ante esse períod o e as plantas possam suportar o tempo seco no Verão seguinte (Correia e Oliveira.. deve ser calcada a t erra envolvente par a permitir uma melhor ligação ent re o torrão e o solo . para que a e xpansão das r aízes se faça de uma for ma natural evitando também assim o seu enrolamento ou efeito de envasamento (Louro et al. coberto com uma camada de solo no mínimo de 2 cm de altur a e. com declive acentuado e com elevada pedregosidade. Assim é preferível sempre bater no c ontentor de for ma a desc olar o t orrão. em par ticular nas áreas queimadas. A planta deverá ser colocada no fundo do sulco da faixa mobilizada. 2004). após plantada. 2002). pelo que se enumeram algumas recomendações. O manuseamento das plantas e a o peração de plantação pr opriamente dita devem merecer cuidados especiais sob pena de se danificar em as plantas comprometendo irremediavelmente o seu sucesso. para beneficiar da maior disponibilidade de água e pr oteger de e xcessos de radiação solar. 2003). A dimensão das covas ou covachos está directamente relacionada com a dimensão do torrão ou do sistema radicular. O final do Inverno até meados da Primavera. No entanto . bem c omo quaisquer outros danos físicos. mais frias e/ou com maior probabilidade de ocorrência de geadas (C orreia e Oli veira.XI. mais chuvosas. nomeadamente mão-de-obra. nos casos de plantas de raiz nua (Louro et al. com excepção das zonas baixas ou com risco de encharcamento. O t orrão deve ficar na v ertical. tem estimulado a procura de soluções alternativas mecanizadas. A extracção da planta do contentor deve ser realizada com cuidado de forma a evitar que sejam danificadas as suas raízes e/ou desagregado o torrão que as envolve. do que puxar pela parte aérea da planta. 2003). Em Portugal as soluções mecanizadas de plantação estão limitadas pela natur eza dos solos. com frequência com textura pesada. é apenas recomendado para as regiões de influência atlântica. A importância e os cuidados que devem ser observados na plantação associados aos seus ele vados custos. consoante a o peração previamente realizada. A distribuição das plantas deve ser efectuada de forma simultânea com a plantação evitando a sua e xposição ao sol por t empo pr olongado. em que a planta deverá ser colocada no terço superior do sulco. O substrato que envolve o sistema radicular deve ser bem humedecido antes de se proceder à instalação da planta no terreno.

A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO este tipo de soluções é extensivamente utilizado noutros países (Figura 2). em solos com características mais favoráveis o que per mite aumentar o rendimento da operação. (Foto: Vasco Paiva). . FIGURA 3 Plantação manual com recurso a plantadores que permitem um maior rendimento da operação.280 XI. plantadores man uais que assegur am uma impor tante melhor ia na colocação da planta e um maior r endimento da o peração (Figur a 3) relativamente à simples plantação manual. Em Portugal têm vindo a utilizar-se com sucesso. FIGURA 2 Plantação mecanizada em áreas de reduzido declive e com prévia mobilização do solo. (Foto: Vasco Paiva).

as per das de n utrientes por lixiviação.4. na dinâmica e na disponibilidade dos nutrientes e noutras características indicadoras da qualidade da estação. É importante estudar e avaliar práticas cultur ais. poderá ser de c onsiderar a possibilidade de aumentar a disponibilidade de nutrientes no solo através de práticas de fertilização. mais lenta ou mais rápida). introdução de micorrizas. adaptação e posterior crescimento (Corkidi et al. c) da dinâmica e disponibilidade de nutrientes pelo processo de miner alização da matér ia orgânica. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 281 5. incultos. a fer tilidade do solo pode ser melhor ada por diferentes formas como a fertilização directa ou outros meios (utilização de culturas leguminosas. De acordo com Gomes et al. d) da gestão de r esíduos de exploração e e) do tipo de fer tilizantes disponív eis (nomeadament e quanto à taxa de libertação dos nutrientes. c onsequentemente. etc.) sendo a avaliação do efeito dos tratamentos baseada no crescimento do povoamento. Assim. Para viabilizar economicamente a fertilização. na medida em que condicionam a capacidade de t roca catiónica e. e os valores disponíveis no solo a partir dos quais o investimento em fertilização não é compensado em crescimento/produtividade (ou seja. (2005) a t omada de decisão quant o à realização de fer tilizações de ve ser função: a) da qualidade da estação (profundidade do solo e características da rocha-mãe). combinado com o volume restrito de solo explorado .. Tamm (1995) refere que o sucesso da florestação de novas áreas (solos agrícolas abandonados.XI. As quantidades de n utrientes a aplicar são definidas em função das características do solo e das nec essidades específicas das plantas. b) dos teores em argila e matéria orgânica. como a utilização de plantas mic orrizadas versus fer tilização. áreas com restrições solo/clima) por vezes depende da aplicação de fertilizantes. Os solos florestais em Portugal apresentam geralmente carências em azoto e fósforo o que. Fertilização De modo a garantir maiores taxas de sucesso e um crescimento inicial mais vigoroso. c omo pr ocesso par a aument o da taxa de sobr evivência. 2008). não há uma valorização significativa do investimento). estudando e avaliando o balanço solo/espécie/nutrientes para identificação dos valores aconselhados. observando-se que uma var iedade de macr o e micr o elementos podem limitar o crescimento. há que identificar as necessidades em nutrientes. utilização de r esíduos.

reduzindo-se assim o custo da operação e o custo de transporte de adubo (Louro et al. Cálcio .282 XI. tipo de fertilizantes e r espectivas d oses. Magnésio. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO pelas raízes na fase inicial de cr escimento. 2003).5. C omo r ecomendação ger al aponta-se par a uma fertilização de fund o fosfatada. A utilização de um adubo de libertação lenta (com custo unitário superior). tornando-a disponível para as plantas dur ante a primeira fase d o seu crescimento. As incertezas da meteorologia associadas às alterações climáticas têm c om frequência atrasado a possibilidade de plantação no Outono. será sempre em menor quantidade. depende essencialmente da qualidade da plantação (selecção da espécie. Com o objectivo de alargar o período de plantação e/ou de fazer face às inconstâncias meteorológicas durante a época da plantação. pelo prolongamento do tempo seco. enquanto o fósforo contribui notoriamente para o aument o do sistema radicular (Santos. c om alguns micr onutrientes (e. Boro). recomenda que sejam fornecidos às plantas n utrientes através de fer tilizações adequadas. Os polímeros de ligação cr uzada são . calcular as necessidades de nutrientes. A prévia análise de solos permite identificar quais as principais carências. qualidade da planta e processo de plantação) das características da estação e da evolução da meteorologia.g . entre as quais a rega. o sucesso de uma acção de flor estação. com menor d ose de az oto e potássio e. A colocação do adubo de verá ser realizada no fund o da cova e separada das raízes por uma camada de terra ou em 2 covachos laterais. Factores críticos para o sucesso das plantações – experiências post-transplante Numa fase inicial.. dependendo das situações. 5. tirando partido da descompactação do solo originada pela mobilização. preparação da estação. o Os produtos designados como gel ou hidrogel são polímeros retentores de água que têm c omo objectivo manter o armazenamento da água no solo por mais t empo. podendo ser colocado no fundo da cova junto das raízes. a aplicação de gel e o uso de pr tectores individuais. 1991). O azoto beneficia em particular o desenvolvimento do sistema foliar. Uma limitação significativa das plantações é a pequena janela met eorológica em que podem decorrer em Portugal. e comprometido as plantações de P rimavera pelo súbito aparecimento de tempo quente e seco. têm vindo a ser estudadas técnicas auxiliares na instalação de povoamentos.

.O processo consiste no essencial em mergulhar as raízes. (International Paper e Votorantin Celulose e Papel) adoptaram a aplicação do gel em larga escala associada à rega das plantações. A utilização de tubos pr otectores nas plantas no moment o da sua instalação foi uma técnica que t eve uma grande expansão na década de 90. Por essa razão. Apesar de ainda não existirem resultados conhecidos da sua experimentação em Portugal. 2001). 2007). facto que também é r eferido por Peñuelas (2001) em Espanha. mas os efeit os nefast os manti veram-se gerando um movimento de ar por convecção que dessecava as folhas. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 283 característicos por absorverem água e nutrientes solúveis.XI. Em zonas húmidas criava-se um ambiente propício à proliferação de moluscos (caracóis. numa solução de gel no moment o da plantação . em ambientes mediterrânicos. nas di versas experiências em Portugal e na maior par te das espécies verificou-se uma maior mortalidade nas plantas protegidas com tubos. No entant o c onstatou-se um estiolament o das plantas. Por um lado procurava-se defender a planta da acção d herbívoros. sendo o seu objectivo principal a redução do número de regas (Silva. os assunto que é t ratado noutro capítulo (Capítulo XII) e desen volveramse diversos tubos adequados a essa função. Em Portugal são escassas ainda as experiências de adição de gel nas plantações. lesmas) que se alimentavam das folhas e dest ruíam as plantas. Na espécie Quercus ilex verificou-se uma maior sobrevivência nas plantas protegidas com os r eferidos tubos (v er também N icolás et al. contrariamente aos polímeros de cadeia linear que se dissolvem na água. 1997). As experiências revelaram-se em geral desencorajadoras. c om caules . Por outro lado admitiu-se e difundiu-se que podiam induzir um melhor e maior cr escimento das plantas pelo que se desen volveram tubos c ompactos. Posteriormente desenvolveu-se um sist ema de perfur ação nos tubos t endo em v ista provocar alguma v entilação. No Brasil diversas empresas de celulose. Algumas e xperiências de utilização isoladas não revelaram sucesso. Em climas mais sec os. ou o torrão da planta. As empresas de celulose (grupo Portucel-Soporcel/Raiz e grupo Altri) têm ensaiado a sua aplicação não sendo ainda conhecidos os seus resultados. é de assinalar o acréscimo de cust os quer pela sua aplicação quer pela rega. alcançando-se temperaturas superiores a 50º C e valores de humidade relativa inferiores a 20% (Peñuelas. gerava-se no seu interior um microclima extremo no Verão.

Oñoro et al. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO demasiado finos no interior dos tubos. . 1997. No momento em que os tubos eram retirados ou se deterioravam pela acção do tempo. Por outro lado existe algum consenso quanto ao papel que este tipo de estruturas podem desempenhar na protecção contra os animais. Por estes motivos o entusiasmo inicial sobre a aplicação desta técnica foi diminuindo. alterando e desequilibrando as relações morfológicas e de massa entre a parte aérea e radicular. Em todo o caso existem resultados contraditórios sendo de referir o t rabalho de P ausas et al..284 XI. Em par ticular os tubos protectores em rede mantiveram a sua aplicabilidade. Vários autores coincidem na confirmação da e xistência de condições menos favoráveis dentro dos tubos do ponto de vista da micrometeorologia dado verificar-se durante o Verão uma maior temperatura e uma menor humidade relativa (Nicolás et al. mas para protecção contra a acção dos herbívoros.. Peñuelas (2001) refere os estudos r ealizados pelo Cent ro Nacional de M ejora Forestal “El Ser ranillo” que também c oncluíram que o desen volvimento das plantas em tubos produz distorções no padrão de crescimento. 2001). (2004) que r efere um aument o da sobrevivência de bolotas pré-ger minadas de Quercus ilex na r egião espanhola de Valência e um aument o do crescimento. as plantas t ombavam pela acção d o mais le ve vento. neste caso não para o crescimento da planta. Quando emergiam fora dos tubos as plantas ficavam com um desenvolvimento prostrado.

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Gestão das populações de herbívoros 3. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO FILIPE X.1. Condução da regeneração natural 2.1.2. Aproveitamento da regeneração natural 2.2. Gestão de espécies exóticas invasoras . Minimização de factores adicionais de stress 3.289 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS XII. A herbivoria como factor limitante na recuperação de áreas ardidas 3. Vantagens e desvantagens da regeneração natural 2. Introdução 2. CATRY MIGUEL BUGALHO JOAQUIM SANDE SILVA PAULO FERNANDES 1. Protecção da vegetação contra os herbívoros 4.3.3. Efeitos dos herbívoros nas comunidades vegetais 3.

Brown. Brown. o perigo de incêndio. é um factor muito importante a considerar na recuperação de uma área ardida. 2000). Exist em ainda di versos factores. Introdução A gestão da vegetação que surge naturalmente após um incêndio. em geral nas áreas ardidas a vegetação natural tende a retornar à composição florística pré-incêndio (e. No Capítulo III abordaram-se diversas características adaptativas que permitem às plantas persistir após um incêndio Características tais como . Bond and van Wilgen. tais como as práticas silvícolas utilizadas. Qualquer acção de gestão bem-intencionada pode falhar por c ompleto se aqueles fac tores não forem antecipados e geridos correctamente (e. A int ensidade e a se veridade d o fogo têm uma g rande infl uência n a composição e est rutura da comunidade vegetal que surg irá inicialmente após o fogo.290 XII. Porém. a presença de her bívoros. Neste capítulo abordam-se vários aspectos relacionados com a gestão da vegetação após um incêndio. que podem interferir seriamente com os esforços para restabelecimento da vegetação após um incêndio. a presença de uma casca grossa ou folhagem resistente permitem que as plantas sobrevivam a fogos de intensidade reduzida ou moderada. é normalmente fundamental proceder a uma gestão adequada da vegetação de forma a garantir o seu sucesso de acordo com os objectivos estabelecidos. Dependendo das características do local a recuperar e dos objec tivos estabelecidos. poderá ser nec essária uma gestão mais ou menos acti va da ár ea ar dida. a presença de pinhas serôdias ou de gomos subt errâneos. e embora fogos muito severos criem oportunidades para o estabelecimento de novas espécies de plantas. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 1. 2000). ou a pr esença de espécies v egetais invasoras.g. seja ela de origem vegetativa ou seminal. enquanto que características como a germinação estimulada pelo fogo. nomeadamente a plantação e/ou sementeira. 1996). ou através do aproveitamento da regeneração natural (e mais r aramente através de .g. permitem que as plantas persistam mesmo após fogos de intensidade elevada (e. 2.g. Também nos casos em que o repovoamento da ár ea ar dida se ja feit o at ravés de plantação ou sement eira. Aproveitamento da regeneração natural A recuperação da vegetação numa área ardida poderá ser feita através de diferentes métodos.

g . Na verdade não existe uma tradição em Portugal de aproveitamento da regeneração natural. 2. não existem normalmente limitações pois a grande maioria dos indivíduos tenderá a regenerar por v ia v egetativa (e. N o caso de ár eas que ant es d o incêndio er am ocupadas por povoamentos florestais de espécies folhosas. Basta para tal atentar no pouco relevo que tem sido dado a este assunto em muita da literatura técnica de base pr oduzida no nosso país (e.g . Cat ry et al. 2002.XII.. No caso das espécies arbustivas e herbáceas ambas as formas de regeneração são frequentes. Catry et al. sendo e ventualmente nec essário r earborizar . sendo necessário um número suficiente de ár vores produtoras de semente na área ardida ou nas suas imediações. sendo estas opções fr equentemente pr eferidas independent emente de ser ou não possível o aproveitamento da regeneração natural. de raiz ou a partir da copa). pelo que nesta secção será dado maior ênfase ao aproveitamento da regeneração natural de espécies arbóreas.1. P orém e xistem excepções e essa r egeneração nem sempre é gar antida (por exemplo em povoamentos de sobreiro recentemente descortiçados onde a mortalidade poderá ser elevada).. e que Silva (1988) descreve com detalhe. nem mesmo ao nível dos serviços técnicos do Estado. Na bacia do Mediterrâneo a regeneração natural da floresta após um incêndio ocorre predominantemente por via vegetativa no caso das espécies folhosas (rebentação de toiça. na ár ea a r ecuperar. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 291 técnicas mistas). Já a maior parte das coníferas (resinosas) regeneram apenas por semente. Uma vistoria da ár ea ardida nos pr imeiros meses após o incêndio per mitirá avaliar a exequibilidade desta o pção. Para um aproveitamento efectivo e v iável da regeneração natural é evidentemente necessário que ela esteja presente. Vantagens e desvantagens da regeneração natural Em Portugal é frequente a ideia de que a recuperação de áreas florestais ardidas deve ser feita at ravés de plantações ou sementeiras. e por via seminal no caso das coníferas (e. Ressalve-se porém o trabalho de condução da regeneração natural de pinhal bravo efectuado no passado pelos serviços florestais. 1982. Alves.g. Silva e Páscoa. 2003). Louro et al. 2010). em densidade suficiente e com as espécies dese jadas. 2007a). Em pinhais jovens (com idade inferior a 15-20 anos) a regeneração natural poderá ser reduzida ou ine xistente. O C apítulo XI abor dou diversos aspectos relativos à plantação e sementeira..

o corte das árvores queimadas e o arranque de cepos). em m uitos casos o apr oveitamento da regeneração natural que surge após um incêndio pode ser uma opção bastante mais vantajosa. O investimento associado a uma nova plantação (ou sementeira) é.. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO através de sement eira ou plantação . pelo facto de não ser necessário proceder às diversas operações anteriormente mencionadas.g . o custo das plantas e do adubo. o que nalguns casos poderá ser det rminante na e escolha da técnica a utilizar . os custos serão nulos ou muito inferiores. da mão-de-obra necessária para o transporte das plantas e para a abertura da cova de plantação. Vallejo et al. Estas opções permitem geralmente um melhor controlo sobre a densidade. . bem como as retanchas necessárias para substituição das plantas que mor rem durante os primeiros anos. quer do ponto de vista ecológico e social (e. Em contraste. A plantação ou a sementeira poderão ser as únicas opções viáveis quando na recuperação da área ardida se pretende por exemplo introduzir espécies anteriormente ausentes ou presentes em baixas densidades (nesse caso deverá ter-se em atenção a legislação que limita a substituição de espécies florestais em áreas ardidas).. quer do ponto de vista económico. 2006). Entre as despesas de curto prazo normalmente associadas a uma plantação estão o custo da maquinaria e mão-de-obra para preparação do terreno (podendo incluir a mobilização do solo. em geral. à excepção de um eventual corte das árvores queimadas. Catry et al.g. Por outro lado. esta o peração pode ainda representar um acréscimo sig nificativo dos cust os totais associados à reflorestação de uma área ardida. 2007a). mais elevado do que o aproveitamento da regeneração natural (e. No entanto. Vallejo et al. no caso de se optar pelo aproveitamento da regeneração natural. Considerando que numa plantação é frequentemente necessário substituir entre 10% e 20% dos indivíduos dur ante os pr imeiros anos. dependendo das técnicas utilizadas. e permitem também a utilização de plantas e sement s selece cionadas ou melhoradas. a potencial utilização da regeneração natural dependerá também dos objec tivos de gestão (e. 2006. Essa nec essidade poderá também existir no caso de se v erificarem c ondições ambientais ad versas que impeçam o regular estabelecimento das jovens plântulas. pr odução ou c onservação).292 XII..g. estrutura e composição dos futuros povoamentos.compasso. No caso de uma sementeira as despesas associadas poderão ser inferiores às de uma plantação.

g. uma das principais vantagens do aproveitamento da regeneração natural é a maior r apidez do processo de recuperação da área ardida. Outra possível desvantagem da plantação ou sementeira é o facto de frequentemente se utilizarem plantas e sementes provenientes de outras regiões e que poderão estar menos adaptadas às c ondições climáticas e edáficas do local a r ecuperar. inicia-se normalmente no espaço de poucas semanas. Estas acções são fr equentemente necessárias independentemente da técnica utilizada (plantação. o que fr equentemente se desaconselha em terrenos declivosos por potenciar os processos erosivos. a velocidade de crescimento dos indivíduos é normalmente muito superior à das plantas semeadas ou plantadas (e. no caso da regeneração vegetativa de espécies folhosas. Deste modo.2). as podas. ou no caso da regeneração seminal de coníferas (resinosas). . a regeneração natural. sementeira ou aproveitamento da regeneração natural). o que constitui também uma grande vantagem ao nível da sua capacidade de sobrevivência (ver Caixa 1). 1996). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 293 Entre as principais acções de gestão dos povoamentos a médio ou longo prazo. embor a os desbast es possam ser mais e xigentes no caso da regeneração vegetativa das espécies folhosas. e xistem out ros fac tores muit o importantes a ter em consideração quando se equacionam as vantagens e desvantagens dos diferentes métodos na recuperação da vegetação de uma área ardida. Por outro lado. sem a necessidade de proceder a mobilizações. quer seja vegetativa ou seminal. Este maior crescimento deve-se ao fac to de os indi víduos possuírem um sistema radicular já bem desenvolvido e reservas energéticas acumuladas (e.. Tendo em conta que na maior par te dos casos o pr incipal objectivo após um incêndio é r estabelecer o mais depr essa possível o coberto vegetal existente antes do fogo. e poderem ser também (tal c omo a t erra dos contentores) um v ector de disseminação de agent es patogénicos. devido à elevada densidade de plântulas que frequentemente surge após um incêndio.XII. incluem-se os desbastes. e o controlo dos matos (ver secção 2. Enquanto a plantação ou sementeira geralmente só se inicia vár ios meses ou anos após o incêndio. a regeneração natural assegura muito mais rapidamente a cobertura e protecção do solo contra a erosão. et al. devido à possível necessidade de seleccionar os múltiplos rebentos basais em cada indi víduo (operação normalmente designada como monda). Para além dos cust os ec onómicos.g Moreira . Bond and van Wilgen. 2009).

PROPORÇÃO DE ÁRVORES VIVAS 1. a regeneração natural possibilita maiores taxas de sobrevivência e maiores crescimentos do que plantações.0 FREIXO CARVALHO 300 250 (cm) ALTURA 200 150 100 50 0 FREIXO CARVALHO FIGURA À ESQUERDA: 1 Sobrevivência de árv ores (freixo e carv alho-português) plantadas em 2003 e 2004 (barras brancas e cinzentas. Mais detalhes sobre este trabalho podem ser consultados em Moreira et al. O dado mais significativ o foi que entr e as árvores sobreviventes. após 20-22 meses. (Gráficos adaptados de Moreira et al. o que constituiu uma oportunidade para comparar a eficácia destas duas formas de restauro pós-fogo (passivo e activo). respectivamente) versus o aproveitamento da regeneração natural (barras negras) para freixos e carvalhos.6 0. após quase dois anos. respectivamente) versus a altura dos rebentos de toiça das árvores em regeneração (quadrados negros).2 0.0 0.8 0. Uma desvantagem não menos importante tem a ver com o fac to de a int rodução de plantas de out ras regiões induzir poluição genética que se poderá t raduzir na dimin uição ou mesmo extinção das r aças locais. .294 XII. f oi bas tante razoável. foi monitorizada a sobrevivência e r egeneração vegetativa de fr eixos ( Fraxinus angustifolia) e carvalhos (Quercus faginea) cuja copa foi destruída pelo fogo. Estas pot enciais desvantagens poderão ser eliminadas ou substancialment e r eduzidas através da utilização de plantas. o crescimento em altura foi duas a cinco vezes superior na regeneração de toiça. sementes e terra provenientes da região onde se pretende intervir. Paralelamente. no caso de espécies arbór eas que regenerem após o fogo de forma vegetativa. A sobr evivência das árv ores plantadas. (2009). Es tes resultados sugerem que. relativamente ao crescimento das árvores plantadas (Figura 1). em particular no caso dos carv alhos (Figura 1). 2009). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO nomeadamente fungos. os ges tores da T apada ef ectuaram plantações c om es tas espécies. mas inf erior à das árv ores queimadas pré-e xistentes. À DIREITA: Altura mediana (e distância interquartis) dos freixos e carvalhos plantados em 2004 e 2005 (círculos negros e círculos brancos. REGENERAÇÃO NATURAL DE TOIÇA VERSUS PLANTAÇÃO : SOBREVIVÊNCIA E CRESCIMENTOS CAIXA 1 Na sequência de um incêndio na T apada Nacional de Mafr a..4 0.

. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 295 2..XII. A partir do momento em que se define a espécie ou espécies a pr ivilegiar. que aparece frequentemente em grande profusão nas áreas ardidas anteriormente ocupadas por pinhal adult o. deverá favorecer-se o crescimento da r egeneração natur al at ravés de acções que passam pela selecção das plantas. Neste caso particular é apontada uma outra estratégia que passa pela abertura do povoamento. como forma de gar antir uma maior resistência ao fogo e uma menor c ombustibilidade (Fernandes e Rigolot. Um dos casos mais comuns é o aproveitamento da regeneração natural de pinheiro-bravo. poderá existir um interesse exclusivo apenas n uma delas. Esse objectivo consiste em favorecer o crescimento da regeneração no sentido de obter. acompanhada pela gestão do combustível de superfície. Vários autores apontam o estad o de matur ação das florestas como um factor fundamental de r esistência ao fogo. 2009). 2005.2. Para além dest e objectivo geral. Román-Cuesta et al. Condução da regeneração natural A condução da regeneração natural de n uma área queimada de verá reger-se por um objecti vo de base.. Por vezes ter-se-á que aguardar algum tempo para decidir que espécie aproveitar. Há igualment e que t er em c onta a velocidade de cr escimento das difer entes espécies. pois a obser vação da área queimada pouco tempo após o fogo poderá não dar indicações suficient es sobre as espécies que irão r egenerar por sement e nos anos seguint es. De entre as espécies com porte arbóreo que regeneram naturalmente. Árvores maiores têm em geral uma casca mais espessa e uma base das c opas mais alta. .. há no entant o que definir o tipo de utilização florestal que se pretende para a área queimada. 2007). o por te final que conseguirão atingir e o fact o de a r egeneração ser de or igem seminal ou vegetativa. c om v ista ao estabeleciment o de um povoamento puro para produção de lenho. que por sua v ez deverá condicionar todas as operações a realizar. o mais cedo possível. pela int ervenção em r edor de cada planta e pela intervenção sobre as próprias plantas. por exemplo. o que faz aumentar a sobr evivência em po voamentos percorridos pelo fogo. 2006. 2009). Em florestas mais madur as a incidência e se veridade do fogo tendem a ser menor es (Ordóñez et al. González et al. A regeneração vegetativa tem normalmente uma taxa inicial de crescimento muito superior (Moreira et al. povoamentos de ár vores adultas menos susc eptíveis ao fogo.

inicialmente desenvolvido para a realização de censos de animais (B uckland. Silva e R ego (1998) utilizar am um mét odo de amost ragem à distância (distance sampling). 2001). 1956. Existem no entanto situações de deg radação da vegetação ripícola em que o restauro activo é a única abordagem capaz de garantir o sucesso da intervenção. alguns anos após o fogo. Zhu e Zhang. pois dispensam a delimitação de par celas no campo e post erior c ontagem int egral d os indi víduos (Cottam e Curtis. par a estimar a densidade de plântulas de espécies lenhosas em áreas queimadas. com um coberto arbustivo já estabelecid o. que per mitem um maior r endimento d o t rabalho no campo. A escolha das áreas onde intervir deve também considerar o potencial de crescimento da regeneração natural. Existem ainda outros métodos baseados na medição de distâncias que poderão ser vantajosamente utilizados. 2009). Esse potencial é completamente diferente se a área seleccionada se situar junto a uma linha de água ou na cumeada de uma z ona montanhosa.296 XII. quer pelo motivo apontado. Antes da selecção de indivíduos convêm identificar as ár eas a int ervir. P ara tal poderão utilizar -se difer entes mét odos. quer porque a reconstituição de galerias ripícolas de espécies folhosas com descontinuidade vertical poderá ser uma est ratégia vantajosa par a contrariar a propagação e dimin uir a se veridade do fogo (F ernandes et al. como sejam os vales e os so pés das encostas em geral. 2010). Esta questão é m uito importante porque o investimento só deve ser efectuado se a densidade de plantas e o pot encial de cr escimento o justificar em. . Dest e mod o a densidade de plantas de ve ser a valiada pr imeiro para determinar o potencial par a a c onstituição de um po voamento flor estal. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO Selecção A selecção de plantas é uma questão fundamental no apr veitamento o da regeneração natural dado que as decisões iniciais irão influenciar todo o restante processo de recuperação da vegetação.. O aproveitamento da regeneração natural em linhas de água deverá ser uma prioridade. Devem ser pr ivilegiadas situações de maior fer tilidade e que c onsequentemente correspondam a maior es taxas de crescimento da vegetação. existem métodos mais expeditos com medição de distâncias. Este método pode ser utilizado par a avaliar densidades de plântulas em situações de difícil detecção. P ara além da utilização de parcelas de amostragem.

As plantas escolhidas deverão idealmente ser sinalizadas. mais onerosas mas também mais selectivas. 1999.. Gómez-Aparicio et al. Na verdade a vegetação arbustiva poderá ser de tal forma impenetrável (presença de plantas espinhosas por exemplo) que poderá impedir o acesso dos operadores encarregados de fazer essa marcação em toda a área a tratar. 2002). é aconselhável a remoção mecânica de linhas contínuas de plantas intercaladas com linhas mais est reitas sem int ervenção ou c om intervenção moto-manual (Louro et al. . (2005) a examinar a viabilidade do fogo controlado como técnica alternativa de limpeza e desbaste da regeneração natural de pinheiro bravo. e deverá conduzir-se o povoamento para uma estrutura regular o que aumenta descontinuidade vertical de combustíveis e reduz a combustibilidade (González et al. Trata-se de uma prática c om uma justificação acr escida sempr e que se o pte por c ontrolar a v egetação arbustiva concorrente. com excelentes resultados (Caixa 2). Intervenção em redor das plantas seleccionadas Uma das maior es preocupações é dimin uir a c ombustibilidade da formação vegetal de modo a que o fogo não venha a destruir a regeneração natural e dessa for ma a comprometer os objec tivos em v ista. se bem que as e vidências sobre os r eais benefícios a est e respeito sejam contraditórias (Vilà e Sardans.XII.. 2006). No entanto existem frequentemente dificuldades físicas concretas em aceder às plantas. 2004). Em todo o caso trata-se sempre de uma intervenção onerosa e difícil de pôr em prática tendo em conta as condicionantes mais comuns neste tipo de situações. No caso de uma grande abundância de regeneração como acontece frequentemente em pinhais queimados. Os elevados custos destas operações levaram Fernandes et al. água e nutrientes. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 297 Após escolhida a área a intervir deverão ser seleccionadas as plantas dentro do leque de espécies a aproveitar. A intervenção mecanizada pode ser difícil dada a irregularidade da distribuição das plantas no terreno. Simultaneamente conseguem-se libertar as plantas da concorrência pela luz. pelo que em muitos casos apenas são possíveis intervenções com o uso de motoroçadora. À partida deverão ser escolhidas as plantas de maior porte..

298 XII.9 m. com um decréscimo par a metade da intensidade do f ogo em D . < 2. o dano foi generalizado em T tendo as árvores sido cortadas (Figura 2). enquanto na z ona adjacente não intervencionada (T) 45% dos indivíduos apr esentavam DAP inferior a 2. Quatro anos e meio depois. 16 D 12 m2 ha -1 8 4 0 ÁRVORES MORTAS T G.5 5 10 15 20 CLASSE DE DAP (cm) 2500 2000 1500 N 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 < 2. e a quase ausência de c ontrolo sobre o espaçamento das árvores. O númer o de indivíduos por hectar e e altura dominante cifravam-se na zona D respectivamente em 2800 ha-1 e 10. Informação adicional sobre este trabalho pode ser consultada em Fernandes et al. As des vantagens do fogo controlado face a uma limpeza convencional são evidentes. onde não se r egistou qualquer mortalidade. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO CAIXA 2 EFEITO DE UM DESBASTE TÉRMICO EM REGENERAÇÃO NATURAL DE PINHAL BRAVO Um pinhal bravo na serra do Alvão com 14 anos de idade e estrutura irregular foi sujeito a fogo controlado. representando 58% e 108% dos valores observados em T. Um incêndio percorreu o pinhal pos teriormente. . Um desbaste térmico (através de fogo controlado) só será efectivo em formações com uma v ariação razoável de diâmetr os e dimensões. nomeadamente a pouca precisão na selecção dos indivíduos a eliminar e na definição da densidade residual. Note-se também o substancial aumento da área basal (44%) na classe de DAP dos 20 cm em D relativamente a T. N) por classe de DAP e da densidade (N) por andar arbóreo nas parcelas de desbaste (D) e testemunha (T). (2005). caso c ontrário a grande maioria dos indivíduos sucumbirá ou sobr eviverá.5 cm (Figur a 2). pelo contrário.5 5 10 15 20 CLASSE DE DAP 1000 500 0 INFERIOR INTERMÉDIO SUPERIOR (cm) FIGURA ANDAR 2 Repartição da densidade (G. os pinheir na zona tratada os (D) distribuíam-se normalmente pelas clas ses de diâmetr o. .

Carvalho. onde o t eor de h umidade do solo é maior dur ante o período óptimo de crescimento vegetativo. 2010). por outro criar descontinuidades verticais de modo a diminuir os danos causados por um eventual fogo. 1982). Oliveira et al. Fernandes. Fernandes et al. A intervenção será obviamente diferente consoante se trate de plantas de regeneração vegetativa ou quando se trate de plantas pr ovenientes de r egeneração seminal. N o pr imeiro caso . a infor mação a este respeito é muito mais escassa e igualment e vocacionada para uma optimização do ponto de vista da produção de lenho (e.. Para outras espécies. 2006.XII. aumentar a humidade e reduzir a l uminosidade no int erior do povoamento para dificultar o crescimento do sub-bosque. 2005) a qual não coincide forçosamente com os critérios relacionados com a pr evenção de incêndios. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 299 Numa fase mais avançada de desenvolvimento haverá que ponderar a necessidade de efectuar desbastes.g. como já referimos. em povoamentos mais maduros os quais têm sid o associados a uma menor se veridade d o fogo c om menores danos na vegetação arbórea dominante (Román-Cuesta et al.. Quanto aos critérios de regulação dos desbastes a aplicar. Em formações de menor combustibilidade poderá ser vantajosa a manutenção de um coberto denso (Colin et al. 2009). de modo a reduzir a velocidade do vento.. Silva et al. Intervenção sobre as plantas seleccionadas Trata-se aqui de cumpr ir dois objectivos: por um lad o melhorar a conformação da planta de modo a favorecer o seu crescimento em altura. dependem da espécie em questão. O uso de sim uladores do comportamento do fogo per mite desenhar intervenções de desr amação e desbaste que minimizam a probabilidade de fogo de copas em resinosas. de modo a favorecer as plantas com melhor c onformação e melhor pot encial de cr escimento. 2009.. 2001. A manutenção destas condições consegue-se. nomeadamente as folhosas. 2001. poderá ser feita uma selecção dos . Para o pinheiro-bravo existem tabelas para a regulação dos desbastes de acordo com as classes de qualidade da estação (Al ves. r eduzir o potencial de fogo de c opas e aumentar a r esistência individual ao fogo. Estas condições são mais rapidamente atingidas quanto mais favoráveis forem as condições para o crescimento da regeneração natural e no nosso país c orrespondem sobretudo a exposições norte e oeste e à base das enc ostas.. dependendo dos objectivos de gestão.

. Os custos associados às várias operações para aproveitamento da regeneração natural constam na Tabela 1 (preços propostos para 2008- . 1950. Seguidamente deverão ser removidos os ramos dos andares inferiores de modo a atingir os objectivos atrás referidos.. 1988. Montoya. 1993. Est e tipo de int ervenções t em a desig nação de podas de formação muito embora alguns autores utilizem a designação de forma abrangente. nomeadamente tendo em vista o aproveitamento económico da cortiça ou da produção de fr uto. nomeadamente com indivíduos da mesma espécie. No entanto este tipo de medidas implicam a manutenção de uma continuidade horizontal nos combustíveis prolongando assim o período em que risco de fogo severo é elevado. 2002. 2003) ou mais dirigida para as espécies de interesse florestal (Natividade. 2005). Se existirem dois lançamentos terminais a competirem pela dominância apical. Fernandes et al. 1996. de verá ser mantid o apenas um deles de mod o a acelerar o cr escimento em altur a. Há no entant o que ponder ar a impor tância dest es in vestimentos na medida em que poderão faz er a difer ença entre a possibilidade de voltar a t er um c oberto florestal ou o simples r etornar ao início da suc essão ec ológica de vido à acção d o fogo . Carvalho.. Louro et al. A intervenção nas plantas poderá revestir-se de alguma complexidade técnica no caso de ser necessário conformar a copa. No caso de plantas de regeneração seminal apenas se terá que intervir ao nív el d os r amos d os andar es infer iores at ravés da r ealização de desramações. 2000.300 XII. P or e xemplo. mesmo quand o se t rate de mer a intervenção ao longo d o fuste. Est e cr escimento poderá ser ainda estimulado através da manutenção de densidades elevadas de vegetação. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO rebentos de toiça de modo a favorecer os mais vigorosos. Oliveira et al. Oliveira et al. Louro et al.. 2001. Algumas normas técnicas a seguir quanto à execução de desramações e podas de formação podem ser encontradas em literatura técnica diversa produzida de for ma mais genér ica (Montoya. Os custos associados Os custos associados à condução da regeneração natural poderão ser elevados. (2010) mostram como é vulnerável ao fogo a regeneração natural de carvalho negral (Quercus pyrenaica) e o interesse em acelerar a aquisição de r esistência ao fogo e r eduzir a c ombustibilidade das formações.

incluíram-se por conveniência as operações especificamente associadas ao c ontrolo de plantas e xóticas. Para além das operações descritas na presente secção.48 6 1. O planeamento das operações a realizar no aproveitamento da regeneração natural poderá incluir todas ou apenas algumas das operações referidas. Porém o stress adicional provocado por determinadas práticas silvícolas ou pela her bivoria podem ser minimizados ou evitados.94 359. tais c omo a ocorrência de condições meteorológicas desfavoráveis.pt/site/pdf/matrizes0809.39 107. embora no caso das podas estas possam ser generalizáveis a outras espécies. 6 1 269. sendo mais susceptíveis a factores adicionais de st ress que podem c onduzir à sua mor te. A poda e o descortiçamento As práticas silvícolas aqui mencionadas aplicam-se essencialmente a povoamentos florestais de folhosas e aos casos em que pelo menos parte da copa sobrevive ao fogo.44 323. Alguns desses fac tores. www.50 * Custos por planta 2. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 301 -2009 pela C omissão de Acompanhamento das Oper ações Florestais – CAOF.3. As considerações apresentadas referem-se à gestão dos povoamentos de sobreiro por ser uma folhosa espécie particularmente representativa em Portugal.anefa.zip).87 0.44 1. 6 1 89. RELATIVOS A OPERAÇÕES ASSOCIADAS AO APROVEITAMENTO DA REGENERAÇÃO NATURAL TIPO DE OPERAÇÃO Sinalização da regeneração natural Controlo da vegetação espontânea total Controlo das plantas lenhosas invasoras (pincelagem) Controlo das plantas lenhosas invasoras (corte) Controlo de densidade excessiva Desramação * MÍNIMO MÁXIMO 26. 22 539. são imprevisíveis e não poderão ser c ontrolados.22 1078.XII. .74 1078. TABELA 1 CUSTOS POR HECTARE REFERENTES A 2008/09 PROPOSTOS PELA COMISSÃO DE ACOMPANHAMENTO DAS OPERAÇÕES FLORESTAIS . Minimização de factores adicionais de stress Após um incêndio as ár vores sobreviventes encontram-se em ger al mais debilitadas.

2007). Porém determinadas práticas silvícolas como a poda e o descortiçamento.g. Em geral. Adicionalmente muitas pragas e doenças oportunistas aproveitam esta debilidade e as feridas abertas para progredir onde em circunstâncias normais não o poderiam fazer (Cardillo et al. salvo raras excepções sujeitas a aut orização. Uma das questões mais controversas em relação aos sobreirais afectados pelo fogo relaciona-se com o momento do primeiro descortiçamento após o incêndio. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO Após um incêndio. para restaurar os tecidos danificados (e. e o vigor das árvores (Cardillo et al. É também . Quando a cortiça tem menos de 2 cm de espessura. a idade da c ortiça no momento do fogo. as probabilidades de produzir feridas no entrecasco durante o descortiçamento aumentam significativamente (Amo e Chacón. Apesar desta lacuna. podendo assim a decisão ser bastant e subjectiva. bem como das restantes funções associadas. as árvores dispõem de reservas energéticas. e pr incipalmente. Para decidir qual o moment o mais adequad o par a extrair a cortiça. devem considerar-se não só os aspect os económicos de cur to prazo mas também. la Madera y el C arbón Vegetal) é mais explícito e recomenda que se deve esperar até que a copa tenha recuperado cerca de 75% do volume existente antes do fogo. e que a cortiça tenha um calibre de pelo menos 2 a 3 cm de espessura. os factores determinantes para essa decisão de verão ser a se veridade do fogo. Porém não existe na lei qualquer referência ao que se ent ende por r ecuperação d os sobreiros afectados.. entre as quais se incluiu recentemente o descortiçamento de sobr eiros queimados após verificação da sua recuperação (DL nº 155/2004). uma publicação técnica r ecente (DGRF. Segundo estes autores.. 2003). as folhas da copa) e para cicatrizar as feridas. principalmente na forma de amido. poderão criar novas exigências e originar situações de grande debilidade.302 XII. mas ainda assim poderão surg ir dúvidas na aplicação desta r ecomendação. Em Espanha o IPR OCOR (Instituto del Corcho. Em Portugal não é permitido extrair cortiça com menos de nove anos de idade. o descortiçamento deve fazer-se no início da época e de for ma c onservadora. quando realizadas nos anos imediatamente após o fogo. 2006) recomenda que o descortiçamento só deve ser efectuado em árvores que tenham pelo menos 75% da copa revestida com folhagem. 2007). r eduzindo a altur a de desc ortiçamento e deixando as ár vores em que a c ortiça não ceda facilmente. os aspectos silvícolas associados à manutenção do vigor e potencial produtivo das ár vores no futuro.

este período de t empo de espera entre as duas operações é de três anos. estabelecer um período mínimo de intervalo entre o fogo e o descortiçamento seguinte. tal como acontece no caso das podas. 1950). A Lei estabelece assim um período mínimo de separ ação entre duas o perações que r econhecidamente causam stress às árvores. enquant o em sobr eiros não int ervencionados (g rupo de controlo) a percentagem de plantas inviáveis foi entre quatro e duas vezes inferior (cerca de 18% a 38%. pelo que não é aconselhável proceder a este tipo de intervenções nos primeiros anos após o fogo. quer porque aumentam . 2007). registou-se uma percentagem de plantas inviáveis de 72% a 80% (ár vores mais jovens e menos jo vens. respectivamente) em sobreiros cuja copa foi podada alguns meses após o incêndio. tornando-as mais susc eptíveis aos agent es bióticos e abióticos (Natividade. não send o também permitido efectuar podas nos d ois anos após o desc ortiçamento (DL nº 169/2001). mesmo em condições normais (i. 2003). sem fogo). Em Espanha (Extremadura). Natividade (1950) refere ainda que a prática do descortiçamento constitui um forte estímulo para a produção suberosa. mas que este é obtido à custa da vitalidade da árvore e conduz ao seu envelhecimento prematuro.. De facto. Num estudo realizado na Sardenha (Itália) sobre a recuperação pós-fogo de sobreiros em exploração (Barberies et al. Tendo em conta que os incêndios causam frequentemente nas árvores uma desfoliação da copa e feridas tão ou mais severas do que as provocadas por uma poda. Outros factores As mobilizações d o solo após um incêndio de verão ser e vitadas sempre que possível ou reduzidas ao mínimo. seria prudente definir objecti vamente as condições a observar antes de proceder à extracção da cortiça ou. Em Portugal não é permitido extrair cortiça nos dois anos após uma poda (nos sobr eiros e xplorados em pau batid o).. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 303 possível reduzir os danos por c orte do entrecasco se o desc ortiçamento for efectuado por trabalhadores experientes ou através da utilização de máquinas de descortiçamento automático.XII. Relativamente à r ealização de podas em ár vores afectadas por incêndios a situação é semelhante. respectivamente).e. para que estas possam recuperar (Cardillo et al. a extracção da cortiça constitui um factor de debilidade para as ár vores.

ratos. gamos. quer por que e xiste o per igo de aumentar ainda mais os danos nas plantas que r esistiram ao fogo . cabras. insectos). poderá constituir a solução ideal do ponto de vista da recuperação da vegetação durante os pr imeiros anos após o incêndio . 2000). ovelhas. ou silvestres (e. como a dest ruição da r egeneração de t oiça ou r aiz que ent retanto se começou a desenvolver. A redução das cargas animais (i. Embora existam inúmeras espécies de her bívoros mais pequenos que também podem afectar o desen volvimento da vegetação (e. poderá o ptar-se pela r edução da carga animal.g. sob pena de comprometer todo o processo de recuperação da vegetação. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO frequentemente o r isco de er osão. cavalos). domésticos (e. podem ter um impacte muito significativo sobre a vegetação. . Os potenciais danos directos provocados pela mobilização de solo sobre as plantas sobreviventes incluem tanto a destruição das raízes superficiais. nesta secção c oncentramo-nos apenas sobre os g randes herbívoros ruminantes. A regeneração de semente que muitas vezes surge após um incêndio também pode ser destruída por estas mobilizações.. nomeadamente em situações de pós-incêndio altur a em que as plantas se enc ontram muito susceptíveis ao pastoreio.304 XII.g. corços. 2007a). As questões relacionadas com a herbivoria são abordadas em mais detalhe na secção seguinte. Quando existem populações abundantes de g randes herbívoros nas imediações das áreas ardidas.e. por serem aqueles que frequentemente têm um maior impacte na vegetação após um incêndio. coelhos. No caso de existirem densidades de animais incompatíveis com o sucesso da regeneração numa área ar dida. Catry et al. ou pela protecção de “áreas de regeneração” ou protecção individual das plantas.g. é normalmente necessário intervir. vacas.g. muflões). A herbivoria pode ser um importante factor limitante da regeneração natural em áreas ardidas (e. densidade de animais n um dad o períod o de tempo) para níveis compatíveis com o desenvolvimento das espécies de plantas existentes. A herbivoria como factor limitante na recuperação de áreas ardidas Os grandes herbívoros ruminantes. 3. Se o past oreio ocorrer demasiado cedo após o incêndio pode reduzir ou mesmo eliminar a v egetação que se pr etende estabelecer (Brown. veados.

. tais como a protecção das plantas. sendo nesses casos nec essário adoptar outras medidas. Catry et al. altura média e densidade de plantas) e c onsequentemente alterar o habitat de outras espécies.g. sendo particularmente .XII. 1991. Caso as espécies seleccionadas preferencialmente sejam dominantes. Fuller. ou a cabra) e ruminantes que consomem sobretudo herbáceas (e. Após o fogo as principais espécies vegetais a regenerar são inicialmente muito deficitárias em defesas físicas e químicas. Espécies de her bívoros diferentes têm c omportamento e est ratégias alimentares (isto é o modo como seleccionam plantas) também diferentes (Hoffman. corço. 2003). Os grandes herbívoros preferem as folhas aos caules. estrutura. Bugalho. o consumo das plantas pelos herbívoros vai também alterar a estrutura da comunidade (e. 1989. Estes efeitos manifestam-se sobr etudo através da selecção alimentar que depende da disponibilidade de plantas existente em dado momento. Existem ainda espécies. Na Bacia do Mediterrâneo a dieta d o veado é constituída por proporções elevadas de lenhosas durante o verão. 3.g. as partes verdes das plantas relativamente às partes secas. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 305 Porém isso pode não ser possív el ou compatível com os objectivos de gestão da área em causa. produtividade e ciclo de nutrientes das comunidades vegetais (Huntly. 2001).g. podendo est e efeito estender-se até ao topo da cadeia alimentar (Bugalho. Por outro lado. No grupo dos herbívoros ruminantes a pr incipal divisão é ent re espécies que têm dietas predominantemente de tipo lenhoso(e. 1995).1 Efeitos dos herbívoros nas comunidades vegetais Os herbívoros podem alterar a composição florística. O conhecimento das estratégias alimentares dos herbívoros ocorrentes na área e o controlo da carga animal é pois essencial na gestão da vegetação pós-fogo e na recuperação de áreas ardidas. ovelhas). enquanto que na Primavera é predominantemente constituída por herbáceas (Bugalho e Milne. 2007b). 1994. A selecção de determinadas espécies provoca a diminuição da frequência destas na comunidade vegetal (e. Bugalho et al. como o veado.g. e as espécies de porte alto relativamente a espécies de porte mais rasteiro. 2006). desde insec tos a aves e mamífer os. cuja dieta dominante varia entre herbáceas e lenhosas em função da var iação da disponibilidade saz onal. então a sua diminuição na comunidade poderá induzir o aparecimento de espécies anteriormente dominadas e até aumentar a diversidade florística da comunidade.

2007. .g. potássio. (1991). fósforo. As primeiras espécies vegetais a despontar. seco FIGURA 3 Valores de concentração média de azoto e digestibilidade in vitro de biomassa vegetal de pastagens com e sem fogo controlado. têm nor malmente va lores de digestibilidade ele vados e são muito atractivas para os grandes herbívoros que as incluem preferencialmente na dieta (Hobbs. verde Não ardido. com disponibilidade de nutrientes elevada e competição reduzida. 4 CONTEÚDO EM AZOTO 3 2 1 % DE MATÉRIA SECA 0 JUNHO JULHO AGOSTO SETEMBRO 60 DIGESTIBILIDADE IN VITRO 40 20 0 JUNHO JULHO AGOSTO SETEMBRO DATA DE AMOSTRAGEM Não ardido. o fogo provoca libertação de nutrientes (antes imobilizados na vegetação) que são devolvidos ao solo sob a forma de cinzas (e.306 XII. Adaptado de Hobbs et al. cálcio). verde Ardido. Adicionalmente. Figura 3). É por esta razão que a densidade de her bívoros aumenta fr equentemente em ár eas r ecentemente ardidas (Figura 4). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO susceptíveis ao pastoreio.

A utilização int ensa de plantas per enes por par te de her bívoros domésticos ou silvestres. 2000). os efeitos vão desde o achaparramento das árvores mais baixas. o sobr eiro ou out ros carvalhos. sobretudo durante a primeira estação de crescimento após o fogo. e em espécies c omo a azinheir a. . em benefício de outras menos pr eferidas ou mais r esistentes (Bonnet e Klein. poderá ser necessário esperar entre um e mais de sete anos após o fogo par a que a vegetação recupere suficientemente para poder ser no vamente submetida a uma utilização past oril (Brown. 1966). Por exemplo as espécies lenhosas mais c onsumidas dimin uem ou podem mesmo desaparecer em zonas com cargas elevadas de cervídeos. Dependendo da comunidade de plantas em causa. As ac tividades que têm maior impac te são aquelas que implicam c onsumo dir ecto (int egral ou não) das plantas e d os se us orgãos reprodutores ou propágulos. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 307 100 (%) 80 60 40 a) b) BOVINOS EM PASTOREIO QUEIMADA QUEIMADA NÃO QUEIMADA 20 NÃO QUEIMADA 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 0 1 2 3 4 5 6 7 8 TEMPO (HORAS PÓS MEIO-DIA) FIGURA 4 Percentagem média de animais em pastoreio em parcelas com e sem fogo controlado em a) 74 dias após o fogo e b) 83 dias após o fogo. sobre a vegetação lenhosa são di versos.. poderá causar danos graves às plantas. Em sist emas mediterrânicos. da severidade do fogo e da intensidade do pastoreio. provocados pelos her bívoros. Adaptado de Laterra et al. Os herbívoros podem ainda afectar indirectamente determinadas espécies ao alterarem o balanço competitivo entre espécies. Os efeitos.XII. (2003). Os efeit os d o c onsumo fr equente de difer entes par tes de plantas traduzem-se n uma alt eração da est rutura da v egetação.

No que se r efere ao consumo massivo de sementes e plantas jo vens. este pode traduzir-se numa acentuada redução ou mesmo na ausência de r egeneração. estando 15% das árvores afectadas no rebento terminal. o excesso de utilização das espécies mais apetecíveis. exceptuando as espécies que desen volveram um sistema de disseminação endozoócora (através do sistema digestivo de certos animais). 1966). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO até à formação de uma linha de desramação na parte inferior da copa das árvores mais altas que mar ca o alcanc e dos her bívoros (Orueta et al. Hannan e Whelan (1989) referem que em plantações de coníferas se detectaram danos em 50% dos indivíduos.. Quando t odos os r ebentos são afec tados.308 XII. Algumas das espécies mais afectadas no Mediterrâneo são as d o género Quercus. Indicadores de pastoreio excessivo É impor tante a valiar se det erminada ár ea está ou não sujeita a pastoreio excessivo quer no pré-fogo quer no pós-fogo. a ár vore fica totalmente deformada e em certos casos acaba por secar e morrer (Bonnet e Klein.. Existem diversos indicadores que poderão auxiliar o gest or nessa a valiação. imprescindível ao seu crescimento em altur a. Os prejuízos económicos que daí advêm podem. Relativamente ao consumo de rebentos. Bonnet e Klein (1966) referem que o c onsumo de plantas jo vens ou r ebentos de ár vores é o principal estrago provocado pelos cervídeos na floresta. 3. ou o consumo crescente de espécies que se sabe ser em de valor nutritivo baixo ou até tóxicas (Garcia-Gonzalez e Cuartas.. 1993). mas as ár vores reagem mal a um consumo repetido do rebento terminal. Orueta et al. ser consideráveis. C omo indicadores observáveis na vegetação. 1992) podem indicar uma situação de pastoreio excessivo. muitas espécies de plantas suportam bem um c onsumo ligeiro. 1999. em certos casos. é desejável que se faça uma gestão adequada das suas po pulações de modo a garantir um equilíbrio entre plantas e animais.2 Gestão das populações de herbívoros Devido aos impactes que os herbívoros podem ter sobre a vegetação. O excesso de pastoreio . sobretudo a azinheir a devido à qualidade da sua bolota e pelo facto de existir frequentemente em zonas com cargas elevadas de herbívoros (Orueta et al. 1993). 1993). c om o c onsequente en velhecimento das c omunidades v egetais (Catry.

no caso de c ervídeos. deverá optar-se por outros métodos de protecção da vegetação.g . ou as alterações provocadas na relação de idades da população (Fandos. a diminuição dos crescimentos anuais das ar mações ou a pr esença de malfor mações (Fandos. Relativamente a espécies domésticas. principalmente silvestres. Embora possível. o atraso no início da puberdade. A duração destes períodos dependerá de factores tais como a rapidez de recuperação da vegetação ou a espécie animal em causa (e. 1992). Em áreas que não permitam o pastoreio rotacional ou a caça. Neste caso os animais pastam det erminadas ár eas dur ante períod os determinados enquanto em outras áreas a vegetação recupera. poderão considerar-se técnicas como o pastoreio rotacional. 1993). este é um método que muito dificilmente se aplica a populações de animais silvestres como o veado ou o gamo. No caso dos animais. aumentando a quantidade de espinhos. 1991) podem dar indicações sobre o estado nutritivo da população em causa. Nestes casos a gestão das populações. No caso de herbívoros domésticos e silvestres existem ainda indicadores populacionais importantes. Ao mesmo tempo a planta reage produzindo folhas de menor tamanho. As reservas de gordura. Por exemplo. 1991) dão indicações sobre se os animais em determinada área se encontram ou não em stress nutricional e portanto em situação de pastoreio excessivo. podem ser estimadas qualitativamente de modo visual. a ocorrência em zonas sobre-pastoreadas reflecte-se na sua condição corporal. . Controle das cargas animais A gestão das populações de herbívoros domésticos é mais fácil do que a gestão das populações de herbívoros silvestres. e nomeadamente a redução da carga animal.. o decréscimo da fertilidade e o incremento da mortalidade juvenil. é geralmente efectuada através da caça. Existem indicadores anatómicos que per mitem v erificar se se enc ontram ou não em st ress nutricional. superior para cabras do que para ovelhas). ou.XII. sendo este facilmente detectável no terreno (Orueta et al. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 309 sobre determinadas espécies lenhosas pr ovoca o seu achaparramento. encurtando a distância ent re nós e pr ovavelmente aumentando a sua esclerofilia (Garcia-Gonzalez e Cuartas.

e grampos metálicos. Para cada protecção são necessários dois postes de madeir a (com cerca de 2 m). o que poderá beneficiar a ár vore por r eduzir a c ompetição c om a . Em ár eas onde e xistam cervídeos. que poderá ser utilizada par a pr oteger a r egeneração natur al ou ár vores plantadas. Quando a ár vore atingir a par te superior da protecção. nos casos em que os animais têm ac esso a z onas em r egeneração ou a plantações. ou para proceder ao desbaste selectivo dos rebentos de toiça no caso da regeneração natural.5 m). gado bovino ou equino. Protecção da vegetação contra os herbívoros Em áreas onde existam cargas animais elevadas que comprometam a recuperação da vegetação após o fogo. deve subir-se a rede 50 cm acima do solo. Para herbívoros de menor porte a altura pode ser reduzida (em função da altura que o animal consegue atingir). O método mais utilizad o consiste em proteger cada árvore com um protector de rede metálica cilíndrico ou em forma de paralelepípedo. Est e tipo de pr otecção per mite. mas será preferível optar por rede mais alta (2. permite retirar facilmente a rede para aumentar a altura da protecção. a rede deverá ter no mínimo 2 metros de altura. rede de malha fina. poupar na quantidade de rede necessária e. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 3. No momento da instalação das protecções deve colocar-se a rede rente ao solo. Na Figur a 6 apr esenta-se um esquema de um tipo de pr otecção individual. e permitindo simultaneamente que a sua base fique parcialmente acessível aos animais. por out ro.3. Protecção individual das árvores A protecção individual das árvores é utilizada em diversos países. a rede dever ser suficient emente forte e não elástica. por um lad o. de for ma a não deixar aberturas.sobretudo se o terreno não for plano e se existirem veados na área a proteger (Figura 5). permitindo que a planta cresça em altura com a parte superior fora do alcance dos herbívoros. Existem vários tipos de protectores. Dependendo da área e dos objectivos de gestão. contra cervídeos ou outros herbívoros de grande porte. essa protecção poderá passar pela utilização de pr otectores individuais ou pela vedação de áreas de maior dimensão durante períodos temporais que permitam a regeneração e o re-estabelecimento da vegetação. com preços e eficiências de protecção variáveis. Para cumprir adequadamente o seu objectivo. será necessário tomar medidas de protecção das plantas.310 XII.

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

311

vegetação arbustiva ou her bácea que cr esce em se u redor. Para evitar a operação de ter de subir a rede ao fim de alguns anos, pode optar-se logo de início por uma rede com 2.5 m de altura.

FIGURA
À ESQUERDA E AO CENTRO:

5

Protecções individuais contra cervídeos, feitas com rede metálica com 250 cm de altura (regeneração vegetativa de carvalho e de pilriteiro três anos após o incêndio); À DIREITA: regeneração vegetativa de carvalho, não protegida (três anos após o mesmo incêndio). (Fotos: Filipe X. Catry).

80 cm

200 cm

250 cm

OU

50 cm
FIGURA

6

Sistema de protecção contra grandes herbívoros ajustável a dois níveis, com uma rede metálica com 200 cm de altura. (figura reproduzida de Catry et al. 2007a).

312

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

Outro método possível é a utilização de repelentes químicos. A protecção química c onsiste na aplicação de pr odutos repulsivos sobre os rebentos das jovens árvores, porém na maior parte dos casos a sua eficácia é de curta duração ou está ainda por comprovar.
Protecção de parcelas

Vedar totalmente uma parcela que se pr etende regenerar, natural ou artificialmente, pode constituir uma boa solução para recuperar a floresta em ár eas ar didas onde e xistam g randes her bívoros. Dependend o d os objectivos de gestão, da dimensão da ár ea a proteger e da densidade de árvores no povoamento, esta opção poderá ser mais ou menos vantajosa. Em geral para áreas maiores e densidades de árvores elevadas, esta técnica tenderá a ser mais económica do que a protecção individual das plantas. Esta opção tem ainda a vantagem de permitir uma regeneração mais densa na área ardida, e uma melhor cobertura do solo, sendo a opção mais eficaz em termos de prevenção dos riscos de erosão após um incêndio. Uma desvantagem deste método é que ao impedir o ac esso dos animais a determinadas áreas, reduz-se a disponibilidade alimentar, aumentando simultaneamente a pr essão que est es irão ex ercer sobre as ár eas não protegidas. Outra possível desvantagem é que alguns anos após o fogo a vegetação na área se torne muito densa (dependendo da produtividade do local), aumentando o perigo de incêndio. Porém, se a área vedada não for muito extensa e se as áreas circundantes tiverem pouca acumulação de combustível, o perigo de incêndio é muito limitado, e estas áreas poderão representar uma mais valia impor tante, funcionando simultaneamente como locais de abrigo para diversas espécies. No caso de se optar por este tipo de protecção, pode também pr oceder-se a limpezas de mat os e a desbastes (ao fim de alguns anos e em intervalos regulares) para reduzir a carga combustível e para favorecer as espécies mais interessantes. Estas operações de limpeza e desbast e podem ser bastant e vantajosas ou mesmo necessárias, dependendo dos objectivos de gestão, mas constituem também um acréscimo d o custo financeiro associado a est e método. É ainda de referir que nas áreas onde existam grandes herbívoros silvestres, não se deverão vedar áreas contínuas de grande dimensão, uma vez que quanto maior for a ár ea, mais difícil se t orna r etirar os animais que eventualmente tenham ficado no seu interior após a instalação da vedação.

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

313

Por outro lado, ao abrigo da vedação, a vegetação espontânea regenera rapidamente, constituindo um suplemento substancial de alimento nos anos que se seguem à aber tura da parcela, devendo esta ocorrer o mais precocemente possív el, desde que os r ebentos t erminais das ár vores estejam fora do alcance dos herbívoros (Bonnet e Klein, 1966). Uma vedação mecânica de r ede é um bom mét odo para proteger a vegetação dos grandes herbívoros. Para impedir o ac esso de cervídeos como o veado, pode utilizar-se uma r ede metálica que de verá ter entre 2.0 m e 2.5 m de altur a (Bonnet e Klein, 1966). Geralmente a rede fica assente em postes colocados em cada 3 ou 4 m, podendo ser fixada solidamente por meio de grampos, ou através de um sistema desmontável, que permite r etirar par te da v edação par a e vacuar animais que ficar am fechados, retirar árvores e outros materiais, ou retirá-la definitivamente (Klein e Saint-Andrieux, 1989). A pr otecção t emporária at ravés da c olocação de uma v edação eléctrica é mais indicada par a as espécies d omésticas, send o pouc o adaptada ao meio florestal, onde a presença de vegetação torna difícil a sua utilização. Nos casos em que se o pte por esta sol ução, é necessário utilizar pelo menos t rês fios (estendidos respectivamente a 40, 90 e 130 cm do solo) para impedir eficazmente a passagem dos cervídeos (Bonnet e Klein, 1966). A manutenção deste sistema em boas condições implica verificações frequentes e uma limpeza t otal da vegetação circundante. A sua eficácia pode ser aumentada at ravés da colocação de bandeirolas coloridas, suficientemente visíveis. Tal como no caso anterior, as vedações deverão ser retiradas depois de atingidos os objectivos.

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XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

CAIXA 3
IMPACTE DOS CERVÍDEOS SOBRE A REGENERAÇÃO VEGETATIVA APÓS UM INCÊNDIO

Durante os primeir os anos após um incêndio que af ectou gr ande part e da Tapada Nacional de Mafra, monitorizou-se anualmente o estado vegetativo de várias espécies de folhosas aí existentes. Devido à presença de uma população de cervídeos, constituída por gamos e veados (densidade de 0.4 animais/ha), parte das árvores na área ardida foram protegidas com protectores individuais de modo a permitir uma avaliação dos efeitos dos herbívoros sobre a mortalidade e crescimento da regeneração de toiça. Três anos após o f ogo registou-se uma elevada sobrevivência, independentemente do consumo por parte dos herbívoros. Porém no caso do carr asco, do carvalho-português e do pilrit eiro, r egistou-se uma maior mortalidade nas árvores que foram consumidas, apesar de só o carrasco apresentar diferenças significativas entre indivíduos protegidos e não protegidos (Figura 7). No caso do pilriteiro e do carrasco só no terceiro ano se começaram a observar árvores mortas, e a gr ande maioria os indivíduos que morr eram (90%) não se enc ontravam protegidos. O consumo repetido das plantas por parte dos animais pode levar ao esgotament o das r eservas acumuladas ant es do f ogo. Assim, se as plantas não c onseguirem repor essas reservas, será de esper ar um aument o da mortalidade com o passar do tempo.
20 Não protegidas

(%)

15

Protegidas

MORTALIDADE

10

5

0
PILRITEIRO CARRASCO

CARVALHO-PORTUGUÊS

FIGURA

7

Mortalidade observada ao fim do terceiro ano após o incêndio em três espécies de folhosas: comparação entre árvores protegidas e não protegidas da acção dos herbív oros.

Relativamente ao crescimento da regeneração natural de toiça, verificou-se que este foi muito afectado pelos cervídeos na maior parte das espécies estudadas (Figura 8). As únicas e xcepções foram a ar oeira e o eucalipt o que, devido às suas características (elevada concentração de taninos, óleos e baixa digestibilidade) são e vitadas pelos herbív oros. Ao fim de três anos, os indivíduos não protegidos de todas as outras espécies apresentavam uma altura média inferior a 40 cm, evidenciando o impacte negativo que os herbívoros podem ter na recuperação da floresta após um incêndio. Informação adicional sobre este trabalho pode ser consultada em Catry et al. (2007a).

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

315

300

Protegidas Não protegidas

(cm)
ALTURA

200

100

0
FREIXO PILRITEIRO ZAMBUJEIRO CARVALHO CARRASCO AROEIRA CASTANHEIRO

FIGURA

8

Média da altura máxima (cm) da regeneração natural de toiça de 7 espécies de f olhosas 3 anos após o f ogo: árvores protegidas e árvores não protegidas da acção dos herbívoros (o eucalipto foi a espécie c om maior cr escimento mas não se enc ontra representado porque não foi protegido) (Adaptado de Catry et al. 2007a).

4. Gestão de espécies exóticas invasoras Um dos maiores problemas da recuperação da vegetação num cenário pós-fogo é o apar ecimento de espécies e xóticas com carácter invasor. Trata-se de um problema com uma importância particular na gestão das áreas ardidas, na medida em que a e xpansão de muitas espécies invasoras é facilitada ou estimulada pela ocorrência de perturbações como o fogo. Por sua vez a expansão destas espécies pode alterar de forma significativa o regime de fogo (B rooks et al., 2004). Cria-se desta forma um ciclo de fogo associado às espécies invasoras em que a sua expansão está associada a uma elevada combustibilidade e em que a ocorrência de fogo facilita a sua expansão. Neste tipo de condições e mesmo nas áreas não queimadas as espécies nativas têm frequentemente muito poucas oportunidades para se voltarem a estabelecer e o r estauro ecológico destas áreas poderá ser particularmente difícil (Brooks et al., 2004). Muito embora não seja um problema generalizável a todo o território português, a ocorrência de espécies e xóticas invasoras assume frequentemente car acterísticas de g rande g ravidade dadas as c onsequências negativas no funcionamento dos ecossistemas, na perda de biodiversidade, nas alterações da paisagem e no aumento do risco de incêndio (Marchante e Marchante, 2007). Essa g ravidade decorre ainda da g rande dificuldade

316

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

técnica e d os g randes cust os financ eiros associad os às o perações de controlo das espécies in vasoras. Tais constrangimentos assumem em algumas situações quase um carác ter de ir reversibilidade em t ermos práticos, tal a e xtrema dificuldade de er radicação de algumas espécies. De acordo com Marchante e Marchante (2007) as acções de c ontrolo deverão necessariamente passar por t rês fases: um controlo inicial com carácter massivo, um controlo de seguimento para complementar o tratamento inicial e um c ontrolo de manutenção para eliminar possíveis focos esporádicos da espécie invasora. O reconhecimento da importância e da complexidade técnica do problema apenas recentemente têm merecido o devido relevo, dado que até há relativamente poucos anos a questão se encontrava ausente dos manuais técnicos de boas práticas editados pelos serviços florestais do Estado (e.g. Louro et al., 2002; Silva e Páscoa, 2002; Louro et al., 2003). Aparentemente o ag ravamento do pr oblema dos incêndios durante a última década c ontribuiu para chamar a atenção relativamente à questão das in vasoras lenhosas na gestão das ár eas queimadas (Conselho Nacional de Reflorestação, 2005). A invasão pós-fogo por espécies e xóticas é sobretudo mais grave na faixa Cent ro e N orte lit oral, se nos r estringirmos apenas às espécies lenhosas. No entanto as situações são m uito diversas e estão bastant e relacionadas com o historial de introduções deliberadas no local ou nas imediações, de plantas ou propágulos destas espécies. Em 2006 encontravam-se listadas par a Portugal 564 taxa de plantas vascular es exóticas naturalizadas, estando esta listagem em c onstante evolução (Almeida e Freitas, 2006). De ent re estas espécies, são sobretudo preocupantes as espécies lenhosas, dado terem maior capacidade par a dominar os ecossistemas onde se desenvolvem. O efeito sobre as espécies nativas pode ir muito para além da competição directa pela luz, água e nutrientes. Alguns destes efeitos no funcionament o dos ecossistemas poderão ser pouc o evidentes, como a ruptura de associações mutualistas presentes nas raízes das espécies nati vas (Stinson et al., 2006) ou o efeit o depr essivo na restante vegetação causado por substâncias alelo páticas (Carballeira e Reigosa, 1999). De ent re as espécies pr esentes no nosso país de vemos salientar pela sua impor tância em P ortugal C ontinental os géner os Acacia, Hakea, Ailanthus e Eucalyptus. Estes quatro géneros de plantas com porte arbóreo ou ar bustivo têm car acterísticas muito diversas em

(2005) e em Marchante et al. com particular destaque para as espécies A. mas poucos trabalhos específicos de natureza científica têm sid o publicados de mod o a validar par a o nosso país o conhecimento empírico existente. Importa assim descrever cada um dos géneros de plantas r eferidos. para as c ondições do nosso país. Godinho-Ferreira et al.Lei 565/99). é a espécie que apresenta maior potencial de regeneração em termos absolutos dado ser utilizada em plantações indust riais em g rande escala. tentando perceber o impact e que causam ao nível da gestão das áreas queimadas. Em Marchante et al. (2009). (2005) fez pela primeira vez um levantamento dos povoamentos onde plantas d o género .. vulgarmente c onhecida simplesment e por eucalipt o. dealbata e A. No entanto o reconhecimento do carácter invasor da espécie é c ontroverso. A este respeito poderá vir a ser útil a adopção de um sistema objectivo de classificação tal como os propostos para países como o Canadá (Murphy et al. Apesar da dimensão d o problema e das ele vadas consequências em termos económicos e ec ológicos.XII. N a v erdade não estão estabelecidos em P ortugal métodos objectivos de avaliação e classificação d o carácter invasor das espécies exóticas. O género Acacia Trata-se sem dúv ida do género de plantas lenhosas mais r ecorrentemente associado a pr ocessos de in vasão biológica em P ortugal. melanoxylon devido à sua importância.. dando origem a problemas específicos dada a sua diferente expansão no país. 2007b).. sendo provavelmente a espécie ar bórea c om maior ár ea de e xpansão no t erritório nacional (Silva et al. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 317 termos da capacidade de disseminação de sementes e de germinação em situações pós-fogo. Por outro lado a utilização que tem sido feita destas plantas é m uito diversa.. em g rande parte devido à sua impor tância económica. Muito do conhecimento existente ao nível do território de Portugal Continental encontra-se compilado em Marchante et al. (2005) são descritas oito espécies de acácias com carácter invasor. 1999). 2006) ou a Nova Zelândia (Pheloung et al. sabe-se ainda m uito pouco sobre a dinâmica da regeneração natural das espécies invasoras em áreas queimadas e da sua int eracção com as plantas nati vas locais.. Tal poderá e xplicar o fac to da espécie não c onstar na lista oficial de espécies invasoras (Dec. A este respeito a Eucalyptus globulus.

aumentando a área colonizada por novas plantas. De acordo com Marchante et al. 2007). A relação com o fogo é razoavelmente conhecida. o descasque e o corte seguido de aplicação de her bicida. c orrespondendo a c erca de 18500 ha (dados relativos ao in ventário florestal de 1995-98).318 XII. Na verdade a manutenção de exemplares de grandes dimensões apenas poderá agravar o problema devido à grande quantidade de sement es que serão libertadas destes sementões. dealbata. aparentemente parece existir uma expansão da espécie através do transporte das vagens pela corrente dos rios e ribeiras fazendo com que surjam novas colonizações a jusante. melanoxylon incluem o arranque de plântulas. particularmente A. 1982. Auld e O’connell. No caso de A. Muito embora não v existam estudos conhecidos a este respeito. Estes povoamentos foram identificados sobretudo no Centro e Norte Litoral e não incluem as muitas outras situações onde estas plantas se encontram de forma dispersa ou no sub-bosque constituindo igualmente um obstáculo à recuperação da regeneração natural das espécies nativas. dealbata Gilbert (1959) sugere uma grande longevidade (300 a 400 anos) para as sementes no solo das flor estas da Tasmânia. devido às grandes dimensões que podem atingir (Santos et al. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO Acacia se t ornaram d ominantes. 2005). Deverá assim pr ivilegiar-se a manutenção de um c oberto denso sempre que possível dado que poderá ser uma solução para tentar controlar a germinação das sementes.. 1991. dealbata e A. Marchante e Marchante. Uma das situações-tipo com maior gravidade é a substituição das galerias ripícolas de espécies nativas junto às linhas de água por indi íduos de A. 2006).. 2004). No entanto as vantagens competitivas relativamente à restante vegetação derivam também do facto de serem espécies que regeneram vigorosamente após o corte (Yongqi e Fuwen. método ainda não aplicad o em P ortugal. (2005) os métodos de c ontrolo da A. na medida em que o calor e a criação de espaços abertos estimula a germinação do banco de sementes no solo (Marchante et al. tornando as operações de controlo particularmente difíceis. No entanto a oc orrência de incêndios dificulta bastante o processo de controlo. sabendo-se que existe de facto uma estimulação da germinação em muitas espécies do género Acacia (Hill. Por outro lado é fundamental eliminar as plantas de maior dimensões mesmo que es muitas vezes seja sugerida a condução em alto-fuste de povoamentos de acácia. . melanoxylon. É ainda referida a utilização de controlo biológico com a libertação de insectos do género Melanterius.

Quaisquer acções de controlo manual estão fortemente limitadas devido à presença de espinhos. altíssima. o géner o Eucalytpus encontra-se representado em Portugal quase e xclusivamente pela espécie Eucalyptus globulus.. referenciadas para Portugal são a H. (Marchante et al. O fogo c ontrolado. Trata-se de uma árvore dióica com um grande potencial de dispersão dos propágulos alados (sâmaras) e com uma grande capacidade para regenerar vegetativamente a partir da raiz. Os métodos de controlo propostos passam pelo corte mecânico e permanência no solo durante 1 a 1. Apesar de a espécie ter sido introduzida em Portugal há mais de cento e cinquenta anos e de ter começado a ser utilizada em grande escala desde o início do século X X (Goes. 2005). O género Ailanthus No nosso país enc ontra-se representado pela espécie A.. A invasão por plantas desta espécie or igina problemas não apenas de competição com a vegetação nativa devido à densa copa. 2009). Trata-se de uma espécie espinhosa com frutos termo-deiscentes (folículos lenhosos) contendo duas sementes aladas. a e xistência de regeneração natural de or igem seminal só r ecentemente começou a ser . 1977.. após o que se aconselha a queima do material. incluindo as sementes que entretanto foram libertadas (Marchante et al. bordadura de campos agrícolas e outros locais sujeitos a perturbação. 2006. é muito eficaz se um segundo fogo for efectuado antes que a regeneração produza sementes. salicifolia. 2009). Radich.. 2007). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 319 O género Hakea As duas espécies do géner o Hakea. sericea e H. Dada a facilidade em emitir rebentos a partir das raízes. mas também de ac esso de pessoas e animais de vido à pr esença de folhas aciculares muito desenvolvidas. O género Eucalyptus Em termos de utilização flor estal.XII. 2005). que c omeçou a ser utilizad o r ecentemente c omo técnica de controlo no Alto Minho. Devido à sua utilização como ornamental e às suas características heliófilas é sobretudo frequente junto a estradas. Almeida e Freitas. que se libertam quando a planta é queimada ou morre (Marchante et al.. O único processo aparentemente eficaz consiste na aplicação de herbicida em feridas profundas abertas no tronco (Marchante et al. Marchante et al. Em par ticular a pr imeira tem sido relacionada com a ocorrência de áreas queimadas.5 anos. 2005. é fortemente desaconselhado o corte.

Marchante et al.320 XII. 2001. nomeadamente em áreas queimadas. Silva et al. pouco diz sobre a real evolução do processo de regeneração natural por semente no nosso país. Posteriormente.. 2007b. Devido a estas características existe a necessidade de estabelecer medidas no sentido de minimizar os impactes negativos causados pela regeneração natural de eucalipto em áreas queimadas (Silva et al... tal como aliás acontece com a generalidade das restantes espécies apontadas como invasoras.. 2009) embora não existam ainda estudos e critérios objectivos que permitam estabelecer inequivocamente essa classificação. 2007. com base num modelo de dispersão linear difusa c um alcance máximo de om 200 m. o aparecimento de regeneração seminal de eucalipto poderá dificultar bastante esta tarefa dado o muito maior potencial de crescimento das plantas desta espécie. 2009). Num estudo realizado com base em cartografia de ocupação do solo da Tapada Nacional de Mafra. 2007a. a enorme área de expansão da espécie e a ocorrência generalizada de regeneração por semente nas áreas de melhor adaptação ec ológica.. apesar de não terem sid o efec tuadas plantações ou sement eiras nesse períod o. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO mais amplamente documentada (Machado et al. Os autores atribuíram as diferenças entre as manchas modeladas e as manc has r eais à oc orrência de d ois incêndios que poderão t er .. Heathfield et al. 2007b. Marchante et al.. fazem com que e xistam preocupações quanto à competição com a vegetação nativa. Catry (2000) reportou um aumento da área de eucalipt o. 2007a). Muito embora não seja aparentemente tão eficiente na colonização de novas áreas como as espécies anteriores. apresentando também aqui vantagens competitivas com as espécies nativas (Catry et al. de 4 ha em 1974 par a 64 ha em 1999. através da regeneração vegetativa a par tir das toiças e ao longo d o fuste. Por outro lado a espécie apr esenta uma g rande resiliência ao corte e ao fogo. Alguns autores referem-se explicitamente ao carác ter invasor da espécie (M archante e Marchante. 2007a).. Apesar de só recentemente ter ganho visibilidade. o que indicia que o facto de não e xistirem referências mais antigas. No caso de c olonização de ár eas onde se pr etenda fazer o aproveitamento da regeneração natural de outras espécies. Silva et al. (2001) conseguiram simular de forma aproximada o aparecimento de manchas de eucaliptal nesta Tapada. a questão da r egeneração seminal do eucalipto é já descr ita por Goes (1977) numa propriedade no Ribatejo em 1954. Silva et al.

Na verdade segundo alguns autores. . Pedro Carrilho e Tito Lopes. No entanto não e xistem ainda estud os conhecidos em Portugal que permitam explicar o aparecimento de regeneração natural de eucalipto em áreas queimadas. e em particular ao Ricardo Paiva. A nível de controlo da espécie. Existem no entanto muitos aspectos que não se encontram devidamente esclarecidos cientificamente. 2001) (ver igualmente o Capítulo III).XII. proveniente sobretudo de povoamentos exteriores à Tapada.. como resultado do efeito do fogo. À Tapada Nacional de Mafra. e o corte com tratamento químico ou a simples pulverização da regeneração por semente. Um deles prende-se com a explicação para o aparecimento de uma aparentemente maior quantidade de r egeneração natural em ár eas queimadas. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 321 favorecido o aparecimento da regeneração natural. Agradecimentos À Fundação para a Ciência e a Tecnologia (projecto POCI/AGR/61407/2004 e bolsa de doutoramento SFRH/BD/65991/2009). incluindo a destruição mecânica das toiças. várias técnicas têm sido utilizadas. a espécie parece não formar um banco de sementes no solo (Vivian et al. 2008) e parece igualmente devidamente afastada a hipótese de existir um estímulo de germinação por acção do fogo (Reyes e Casal.

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