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ECOLOGIA DO FOGO E GESTÃO DE ÁREAS ARDIDAS
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FRANCISCO MOREIRA FILIPE X. CATRY JOAQUIM SANDE SILVA FRANCISCO REGO
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500 EXEMPLARES
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978-972-8669-48-5
DEPÓSITO LEGAL Nº

320215/10
DEZEMBRO 2010 FINANCIAMENTO

IFAP

ECOLOGIA

DO FOGO
E GESTÃO DE ÁREAS ARDIDAS

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6 9

LISTA DE AUTORES PREÂMBULO

SECÇÃO A. Efeitos do Fogo
13 I. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL

Paulo Fernandes, Francisco Rego
21 II. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO

António Dinis Ferreira, Celeste Coelho, Joaquim Sande Silva, Tanya Esteves
49 III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

Filipe X. Catry, Joaquim Sande Silva, Paulo Fernandes
87 IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA

Rui Morgado, Francisco Moreira

SECÇÃO B. Principios Genéricos de Gestão Pós-Fogo
121 V. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO

Ramon Vallejo, Francisco Moreira
141 VI. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

Francisco Moreira, Paulo Fernandes, Joaquim Sande Silva, João Pinho, Miguel Bugalho
167 VII. PERIGO, INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS

Joaquim Sande Silva, Paulo Fernandes, Filipe X. Catry, Francisco Moreira, Francisco Rego

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SECÇÃO C. Gestão Pós-Fogo:

o que fazer a seguir aos incêndios

191 VIII. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS

Susana Bautista, Rui Morgado, Francisco Moreira
211 IX. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO

Luisa Nunes
229 X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

António Dinis Ferreira, Sérgio Prats Alegre, Teresa Carvalho, Joaquim Sande Silva, Alexandra Queirós Pinheiro, Celeste Coelho
253 XI. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃOPÓS-INCÊNDIO

Vasco Paiva, Carmen Correia, Joaquim Sande Silva
289 XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

Filipe X. Catry, Miguel Bugalho, Joaquim Sande Silva, Paulo Fernandes

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LISTA DE AUTORES
SÉRGIO PRATS ALEGRE

Departamento de Ambiente e Ordenamento, Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal sergio.alegre@ua.pt
SUSANA BAUTISTA

Departamento de Ecología, Universidad de Alicante Apdo 99, E-03080 Alicante, Espanha s.bautista@ua.es
MIGUEL BUGALHO

Centro de Ecologia Aplicada Prof. Baeta Neves, Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal migbugalho@isa.utl.pt
TERESA CARVALHO

Departamento de Ambiente e Ordenamento, Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal tcac@ua.pt
FILIPE X. CATRY

Centro de Ecologia Aplicada Prof. Baeta Neves, Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal fcatry@isa.utl.pt
CELESTE COELHO

Departamento de Ambiente e Ordenamento, Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro, 3810-193 Aveiro, Portugal coelho@ua.pt
CARMEN CORREIA

Viveiros Aliança – Empresa Produtora de Plantas, S.A. Herdade de Espirra, 2985-270 Pegões, Portugal carmen.correia@portucelsoporcel.com
TANYA ESTEVES

Departamento de Ambiente, Escola Superior Agrária de Coimbra P-3040-316 Coimbra, Portugal tanya@esac.pt
PAULO FERNANDES

Centro de Investigação e de Tecnologias Agro-ambientais e Biológicas e Departamento de Ciências Florestais e Arquitectura Paisagista, Escola de Ciências Agrárias e Veterinárias Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Quinta de Prados, 5001-801 Vila Real, Portugal pfern@utad.pt
ANTÓNIO DINIS FERREIRA

Departamento de Ambiente, Escola Superior Agrária de Coimbra P-3040-316 Coimbra, Portugal aferreira@esac.pt

pt VASCO PAIVA Viveiros Aliança – Empresa Produtora de Plantas. Universidade Técnica de Lisboa. Universidade Técnica de Lisboa. Portugal alexandra.pt RUI MORGADO Centro de Ecologia Aplicada Prof. Instituto Superior de Agronomia. Baeta Neves. 46980 Paterna. Tapada da Ajuda. Portugal fmoreira@isa. 1349-017 Lisboa. Ministério da Agricultura. Espanha ramonv@ceam.pt FRANCISCO REGO Centro de Ecologia Aplicada Prof. Portugal frego@isa. 3810-193 Aveiro.pt RAMON VALLEJO Centro de Estudios Ambientales del Mediterráneo Parque Tecnológico C/ Charles R. Portugal & Erena. Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa.pinheiro@ua. Universidade Técnica de Lisboa. Campus Universitário de Santiago Universidade de Aveiro. Instituto Superior de Agronomia. 26-28. João Crisóstomo.7 FRANCISCO MOREIRA Centro de Ecologia Aplicada Prof. Portugal vasco. 1349-017 Lisboa.pt JOAQUIM SANDE SILVA Centro de Ecologia Aplicada Prof. 1900-392 Lisboa. Baeta Neves. Instituto Superior de Agronomia. Ordenamento e Gestão de Recursos Naturais Rua Robalo Gouveia. Tapada da Ajuda. 1069-040 Lisboa. S. Valencia. 1349-017 Lisboa.min-agricultura. Portugal jrpinho@afn.utl. Darwin.utl. 1-1A.es .paiva@portucelsoporcel. 1349-017 Lisboa. Baeta Neves.ipcb. do Desenvolvimento Rural e das Pescas Av. Portugal jss@esac. 6000 Castelo-Branco. Tapada da Ajuda. Tapada da Ajuda. Portugal ruimorgado@erena.pt LUISA FERREIRA NUNES Escola Superior Agrária de Castelo Branco Quinta Senhora de Mercules. Portugal lfnunes@esa.com ALEXANDRA QUEIROZ PINHEIRO Departamento de Ambiente e Ordenamento. Baeta Neves.pt JOÃO PINHO Autoridade Florestal Nacional. 14. Herdade de Espirra. 2985-270 Pegões.A.

o nível de c onhecimento técnico e científic o sobre estas matér ias era (e ainda é) pouco desenvolvido.9 PREÂMBULO Em 2003. a área ardida em Portugal ascendeu a mais de 300. embora em difer ente escala. a situação que afecta P ortugal é partilhada. procurou-se desenvolver e divulgar as bases científicas e técnicas de int rvenção na gestão de áreas ardidas. e a Acção COST FP0701 Post-fire forest management in southern Europe. a atenção da sociedade e dos políticos deixou de estar exclusivamente concentrada na prevenção e combate dos incêndios. para se v irar para as questões da gestão pós-fogo . o centro temático PHOENIX – Fire ecology and post-fire management.000 hectares. De 2005 a 2010. Com áreas ardidas desta dimensão. a elaboração do Plano Nacional de Defesa da Flor esta C ontra I ncêndios e a cr iação d o F undo Flor estal Permanente (FFP). pelo que a realidade no terreno justificava um maior investimento na investigação e na t ransferência de conhecimentos para técnicos e gestores. Desta forma. já que de facto. . Baeta Neves”. Na sequência d o ano desast roso de 2003. instituições que já tinham um r egisto de in vestigação científica com relevância para este tópico. por m uitos países medit errânicos. das quais se destacam a cr iação d o Conselho Nacional de Reflorestação. já no âmbito (e com financiamento) do projecto “Recuperação de áreas ardidas”. em parceria com as Universidades de Aveiro e de Trás-os-Montes e Alto Dour o. foram apoiadas e c oordenadas duas iniciati vas paralelas fundamentais. No âmbito do FFP. candidatou o projecto “Recuperação de áreas ardidas” (Nº 2004 09 002629 7). e também em 2005. O que faz er com as árvores queimadas? Como evitar a erosão do solo nas áreas ardidas? E a degradação da qualidade da água? O que plantar ou semear? C omo gerir os milhar es de hec tares afec tados pelos incêndios? C omo e vitar que tragédias com tal escala espacial se voltem a repetir? O que fazer no âmbito das políticas de ordenamento do território? A verdade é que. tópicos usuais das preocupações. foram tomadas inúmeras iniciativas políticas e leg islativas. através do Centro de Ecologia Aplicada “Prof. o Instituto Superior de Agronomia. e Para a prossecução destes objectivos foi determinante a colaboração internacional. em Portugal.

Espanha. Ainda a nível internacional há que destacar o facto de a equipa do CEABN/ISA ter coordenado o maior projecto europeu de investigação em fogos florestais (FIRE PARADOX). com mais de 130 organizações-membr o. foi submetida ao programa COST. Com um programa de trabalhos para o período 2008-2012. o EFI aprovou a cr iação d o C entro R egional Temático P HOENIX (2005-2012). Os centros temáticos do EFI consistem em redes institucionais de membros do EFI e outros parceiros. França. e for am desenvolvidas outras acções de sensibilização d os políticos e gestores florestais. com linhas de trabalho semelhantes. da Acção COST e d o projecto FIRE PARADOX. garantiu-se que a equipa do pr ojecto teria acesso privilegiado às instituições e in vestigadores com mais conhecimentos na área da gestão pós-fogo. este projecto conta actualmente com a par ticipação oficial de 19 países e uropeus e instituições da T unísia. também coordenada pelo Instituto Superior de Agronomia. que financia ac tividades de “networking” e partilha de infor mação entre diferentes países. A rede PHOENIX acabou por ser uma versão internacional do projecto Recuperação de áreas ardidas. Um exemplo marcante desta última ac tividade foi a publicação d o EFI Discussion Paper “Living with wildfires: what science can tell us – A contribution to the science policy dialogue”. Para além da acti vidade a nível internacional. uma candidatur a que acabou por t er suc esso e or iginar a Acção COST FP0701. Com o funcionament o da r ede P HOENIX. que desenvolvem investigação no âmbito da estratégia de investigação do EFI e sob o seu nome e apoio científico. Grécia. Marrocos e Nova Zelândia. Em Maio de 2005.10 O Cent ro P HOENIX é um dos c entros t emáticos do I nstituto Florestal Europeu (EFI). que já foi traduzido em várias línguas. O consórcio inclui actualmente 21 membr os de P ortugal. a rede de investigação florestal líder na Europa. Baeta Neves” do Instituto Superior de Agronomia. que desenvolve investigação em ecologia do fogo e gestão pós-fogo. M arrocos. Uma vez que o funcionamento desta rede não er a suportado financeiramente. durante estes 5 anos do projecto foram desenvolvidas diversas actividades a nível nacional e das quais destacamos a criação de um website para divulgação de infor- . Itália. foi possível efectuar pressão par a que os fogos flor estais c ontinuassem a faz er par te da investigação financiada a nív el europeu. Para além disso. Tunísia e T urquia e é c oordenado pelo C entro de Ecologia Aplicada “Prof.

e finalizando com uma secção mais prática sobre o que fazer a seguir aos incêndios. c om destaque par a a in vestigação realizada no país (Capítulos VI e VII). sendo a sua produção integralmente financiada por ele. e focando outros tópicos essenciais tais como o problema das pragas (escolitídeos) (Capítulo IX). Para isso. A segunda secção ( Princípios genéricos de gestão) inclui três capítulos que abordam em primeiro lugar os conceitos de restauro ecológico e planeamento da gestão florestal pós-fogo (Capítulo V) e posteriormente os princípios de gestão para minimizar os impact os d os incêndios.phoenixefi. seguida de outra sobre princípios genéricos de gestão pós-fogo. sempr e que possív el. A última secção (o que fazer a seguir aos incêndios) aborda um conjunto de temáticas relevantes. que decorreram em par alelo.org/content/1/24/raa-homepage e a realização de 3 Cursos de Formação Avançada em Gestão Pós-Fogo. seguido de t rês capítulos onde são abordados os efeitos do fogo no solo (Capítulo II). Os 19 aut ores deste livro são maioritariamente investigadores associados às instituições participantes no projecto. O presente livro é a última acção d o projecto “Recuperação de áreas ardidas”. desde logo o pr ojecto Recuperação de áreas ardidas. A primeira secção (Efeitos do fogo) inclui quatro capítulos. e terminando com a gestão da vegetação pós-fogo (Capítulo XII). dar ênfase à investigação e à realidade florestal portuguesas. mas também out ros 8 projectos de investigação. na vegetação (Capítulo III) e na fauna (C apítulo IV). o primeiro dos quais aborda os princípios básicos da ecologia do fogo (combustíveis e combustão em meio flor estal) (Capítulo I). foram utilizados resultados provenientes de projectos de investigação onde a equipa d o projecto esteve envolvida. começando desde logo pela pr oblemática da e xtracção das ár vores queimadas (Capítulo VIII). Ao longo d o li vro t entámos. a regeneração artificial em acções de reabilitação pós-incêndio (Capítulo XI).11 mação vár ia sobr e r ecuperação de ár eas ar didas. Mas foram ainda incluídos outros especialistas nacionais e est rangeiros cuja par ticipação se afigurou importante para uma abordagem fundamentada dos diferentes temas associados à ecologia . que deram formação a 60 técnicos e gestores. com financiamento nacional e eur opeu. Está organizado em 3 secções principais: uma secção inicial sobre os efeitos do fogo. disponív el em www. as acções de protecção do solo e minimização da escorrência superficial após os incêndios (Capítulo X).

FRANCISCO MOREIRA FILIPE X. Lisboa. Dezembro de 2010 Os editores. Agradecemos a t odos a colaboração na compilação desta obra. CATRY JOAQUIM SANDE SILVA FRANCISCO REGO . Mais do que um fim. espera-se que este livro sirva sobretudo como ponto de partida para um maior investimento na investigação e transferência de conhecimentos na área da ecologia do fogo e recuperação de áreas ardidas. Agradecemos também ao Fundo Florestal Permanente o financiamento que tornou possível este projecto.12 do fogo e à r ecuperação das ár eas ar didas.

Comportamento do fogo 4. Intr odução 2. Interpretação do comportamento do fogo 5. O combustível florestal 3. Avaliação do comportamento do fogo .13 EFEITOS DO FOGO I. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL PAULO FERNANDES FRANCISCO REGO 1.

A inflamabilidade descreve qualitativamente a maior ou menor dificuldade deste processo. radiação. As actividades de prevenção e combate de incêndios obrigam a que as espécies vegetais e a sua biomassa sejam caracterizadas em função da sua aptidão para arder. em quantidade que depende do teor de humidade do combustível. Introdução Este breve capítulo introdutório tem como objectivo a familiarização com conceitos básicos que são nec essários à c orrecta compreensão dos capítulos seguintes. por condução. com o objectivo de compreender os impactos do fogo e minimizar o risco de incêndio. e é at ravés da sua gestão que a e xtensão e se veridade dos incêndios podem ser condicionadas. A combustão e a t ransferência do calor produzido. O termo designa “o que o fogo faz” (Byram. — a existência de relações causa-efeito entre as características do fogo e os seus impactes. gera o comportamento do fogo. pois é a energ ia nele contido que sustenta a combustão e a propagação do fogo. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 1. A combustão sem chama é um processo de oxidação superficial que queima o carbono como um sólido. O processo de combustão inclui três fases. O pré-aquecimento evapora a humidade do combustível (a temperaturas superiores a 100o C) e volatiliza (a temperaturas superiores a 200o C) os compostos que resultam da decomposição térmica da c elulose. combinando-se com o oxigénio e dando origem à chama. O combustível intermedeia os efeitos do fogo sobre o ecossistema e o impacte do Homem sobre o fogo .14 I. 1959) e é traduzido pelas . isto é. como um combustível. — a existência de modelos de predição das características do fogo. — ferramentas que operacionalizem os modelos preditivos. respectivamente pré-aquecimento. convecção e t ransporte de faúlhas. combustão com chama e combustão sem chama. que por sua vez requer energia. A definição de prescrições de gestão da vegetação objectivas e sólidas. A combustão com chama sucede à ignição. Estes gases inflamam-se a cerca de 300-400o C. Não é difícil compreender a relevância do combustível florestal. exige: — a descrição quantitativa do combustível e uma tipologia para a sua classificação.

O combustível florestal As propriedades do combustível com maior infl uência no c omportamento do fogo são o tipo . COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 15 características da frente de chamas – rapidez de propagação. continuidade e teor de humidade. meteorologia e topografia. distribuição por classes de dimensão.I. respectivamente em caso de descontinuidade ou uniformidade. Tolhurst e Cheney (1999) e Beck et al. copado das árvores. A continuidade do c ombustível descreve a sua dist ribuição e é impor tante para a propagação do fogo. 2. (1996). A disponibilidade do combustível para arder depende da sua dimensão e humidade. que r eflecte todo o piro-ambiente. carga. O conteúdo deste capítulo é essencialment e compilado a par tir de Cheney (1981). energia libertada − que são determinadas pelo piro-ambiente. não decomposta. Chandler et al. ou seja sem actividade fisiológica. e são classificáv eis por estrato: manta morta. Um tipo de c ombustível ou complexo combustível constitui uma associação identificável de elementos que arderá de forma específica por apresentar car acterísticas distintas. e as ervas e arbustos. Da c ombinação do perigo de incêndio c om a sua pr obabilidade de ocorrência e valores ameaçados resulta o risco de incêndio. ou perigo de incêndio. A carga de combustível é a sua quantidade por unidade de área (em kg m-2 ou t ha-1 de peso seco). ambos importantes em ecossistemas mediterrâneos. porque a limita ou facilita. Pyne et al. ou vivo. (1983). que reflecte apenas o combustível. pelas influências individuais e interacções do combustível. O comportamento do fogo é frequentemente referido em termos qualitativos como combustibilidade. dimensões. combustíveis de transição. Os combustíveis apresentam-se no estado morto. O combustível de superfície inclui a folhada superficial. arranjo (estrutura). isto é. À medida que aumenta a carga de c ombustível disponível para arder aumenta o pot encial de liber tação de calor. sub-bosque. A rapidez da combustão aumenta em combustíveis menos compactos. devido ao arejamento existente. (2005). Em combustíveis verdes ou húmidos o fogo propaga-se com . O teor de humidade exerce um papel cr ucial na c ombustibilidade de um det erminado complexo combustível.

quantidade de combustível consumido por unidade de área da zona de combustão com chama. dependendo da sua sobreposição e continuidade vertical. 3. As características do fogo variam acentuadamente ao longo do seu perímetro. A duração da combustão com chama é dada pelo t empo de residência. compactação e área exposta. resultando do produto do calor de combustão (kJ kg-1). ao passo que c ombustíveis herbáceos completamente secos suportam fogos extremamente rápidos. A intensidade do fogo (I) e o c omprimento da c hama (L) estão r elacionados. e velocidade linear de pr opagação do fogo (m s-1). Comportamento do fogo A frente activa de um fogo flor estal tem três características básicas: 1) desloca-se. Após uma fase inicial de ac eleração. da folhada à copa das árvores. enquanto um fogo de copas avança através do estrato arbóreo.16 I. que se obtém di vidindo a profundidade da chama pela velocidade de propagação. O combustível morto absorve e liberta água para a atmosfera circundante. constituindo a equação I = 300 L2 uma aproximação geral razoável. quase sempre em conjunção com o fogo de superfície. Usualmente distinguem-se o fogo de copas intermitente (ou passivo). a uma taxa que depende da sua dimensão. Byram (1959) definiu a intensidade do fogo como a liber tação de energia por unidade de t empo e por unidade de c omprimento da frente do fogo (em kW m-1). 2) consome combustível. altura (a extensão vertical) e o comprimento (a distância da extremidade da chama ao ponto médio da zona de combustão activa). COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL dificuldade. quando se pr opaga. a pr opagação d o fogo ent ra em equilíbrio com o piro-ambiente. A partir do seu ponto de origem o fogo desenvolve-se em dimensão e envolverá progressivamente os vários estratos do combustível. resultando em formas mais alongadas quando o vento e/ou o declive são mais fortes. Um fogo de superfície consome apenas a manta mor ta e vegetação do sub-bosque. A expansão do fogo é aproximadamente elíptica. São t rês as car acterísticas dimensionais básicas de uma fr ente de chamas: profundidade (a largura da zona de combustão activa). distinguindo-se três secções com velocidade e intensidade crescentes: a cabeça ou dianteira. e 3) produz calor na for ma de chama. dependente da . os flancos e a cauda ou retaguarda.

compactos e em decomposição. 1996). que avança como uma parede de chamas que se estende do solo até bastante acima do topo das árvores e é possível em floresta densa. 2000) e a produtividade e eficiência dos meios de combate (Hirsch e Martell. A intensidade do fogo contribui assim para a sua severidade mas apenas a explica parcialmente.A severidade do fogo refere-se à grandeza do impacto directo e imediato do fogo e reflecte o calor total libertado pela combustão da biomassa (Ryan e Noste.g. a probabilidade do fogo superar uma descontinuidade (Wilson. a distância de segurança à frente de chamas (Butler e Cohen. como a remoção da manta morta em carga ou em profundidade. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 17 propagação do fogo de superfície e associado a floresta aberta. 1973) e. 1977). excepto em for mações arbustivas. 1985). é essencialmente independente da intensidade do fogo. consequentemente. respectivamente a intensidade do fogo de superfície e a v elocidade de propagação após a transição para fogo de copas. O tipo de fogo de c opa expectável em coníferas depende de três propriedades do estrato arbóreo – a altura da base da c opa viva e sua h umidade foliar e densidade (peso seco por unidade de volume) – e de duas características do fogo. O consumo dos horizontes orgânicos que encimam o solo mineral. essencialmente porque condiciona a altura de copa dessecada (e. o que é muito raro. incluindo nos órgãos subterrâneos e as respostas vegetativa e germinativa da vegetação. problemas de controlo devidos a projecção de faúlhas (Alexander. são relacionáveis com variáveis que exprimem a duração total da combustão. Interpretação do comportamento do fogo A interpretação das car acterísticas de c omportamento do fogo é de utilidade indiscutív el em situações o peracionais ou de planeament o.. 1998). Desta forma os efeitos do fogo no solo. 1988).I. 4. a mortalidade de coníferas. A intensidade do fogo é também útil para predizer os efeitos do fogo nas partes aéreas da vegetação. . A intensidade do fogo ou c omprimento da chama relaciona-se com a possibilidade de fogo de c opas (Van Wagner. Um fogo de c opas independente progride apenas na folhagem. Intensidade e severidade do fogo não são sinónimos. e o fogo de copas activo. Van Wagner.

1987). Fogo a decorrer: uso no combate a incêndios (avaliação da área a atacar. Para avaliação do comportamento potencial do fogo à escala regional. 2009). a t ecnologia desenvolvida nos EUA e baseada no modelo semi-empír ico de Rothermel (1972) é passív el de aplicação uni versal.. desde que o c omplexo c ombustível se ja descr ito quantitativamente como um modelo de combustível. planeamento do fogo controlado. 2. definição dos meios necessários e do seu posicionamento) ou na monitorização de fogos controlados. COMBUSTÍVEIS E COMBUSTÃO EM AMBIENTE FLORESTAL 5. A utilidade das estimativas do comportamento do fogo é redutível a três situações gerais: 1. predição da evolução das frentes do fogo. integrando os vários sistemas preditivos que são usados nas ac tividades da gestão do fogo . 3. pré-planeamento da supressão de incêndios. Fogo provável: indexação do perigo de incêndio. Somente os primeiros têm capacidade operacional. Em Portugal têm sido desen volvidos modelos simples que descr evem o comportamento do fogo em mat os (Fernandes. Há duas categorias opostas de modelos de pr edição do comportamento do fogo.18 I. respectivamente de natureza empírica e puramente física. 2001) e em pinhal bravo (Fernandes et al. tal como determinado pelas condições meteorológicas presentes e passadas. vocacionados para o planeamento do fogo controlado. Avaliação do comportamento do fogo A capacidade de avaliar consistentemente o comportamento do fogo é indispensável ao planeamento da protecção contra incêndios. . Finalmente. Fogo hipotético ou possível: planeamento e avaliação da gestão de combustíveis. é possível recorrer aos índices do Sistema Canadiano FWI (Van Wagner.

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Implicações ao nível dos nutrientes do solo 4. Implicações no ciclo hidrológico e nos processos erosivos 6. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO ANTÓNIO DINIS FERREIRA CELESTE COELHO JOAQUIM SANDE SILVA TANYA ESTEVES 1. Síntese dos efeitos produzidos ao nível do solo e da água .21 EFEITOS DO FOGO II. Intr odução 2. Efeitos directos do calor sobre a matéria orgânica 3. A formação de uma camada hidrófoba por acção do calor 5.

e de efeitos indirectos. Os fogos pr oduzem todo um espectro de impactos mais ou menos severos sobre o solo. Introdução Os efeitos do fogo ao nível do solo revestem-se de uma complexidade considerável devido aos múltiplos mecanismos envolvidos e à forma como esses mecanismos se encontram inter-relacionados. A este respeito é importante salientar que os efeitos do fogo não se fazem sentir apenas nas ár eas percorridas pelo fogo mas.22 II. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 1. Esse novo contexto poderá desencadear importantes processos de degradação in situ e a jusante. pelo c ontrário. resultando em fenómenos catastróficos.. Todos estes mecanismos podem assumir maior ou menor importância em função das condições específicas em que dec orrem. a vegetação. o que poderá vir a traduzir-se num aumento substancial do número de incêndios e da área queimada. por v ezes muito importantes. de vido à c ombustão da matér ia orgânica. Est es mecanismos de natureza física estão directamente relacionados com as alterações de natureza química e biológica. tais como aluimentos de terras e picos de cheia extremos. a jusant e dessas ár eas devido ao movimento da água e dos sedimentos e solutos que transporta. Devemos igualmente enquadrar a questão no contexto actual de alterações climáticas. Quanto aos primeiros traduzem-se principalmente na mineralização da matéria orgânica existente no solo. podemos considerar numa primeira abordagem a existência de efeitos directos sobre o solo. Já o desaparecimento do coberto vegetal e da folhada leva a uma maior susceptibilidade do solo à er osão e a uma alt eração c onsiderável d o r egime hidr ológico. Deste modo. que fica desta forma mais disponível para poder ser exportada pelos processos hidrológicos e erosivos. derivados do desaparecimento da protecção proporcionada pelo coberto vegetal e pela folhada. 1999). a erosão está directamente relacionada com as alterações na est rutura do solo. na medida em que os nutrientes podem ser mais facilment e exportados at ravés de fenómenos er osivos e. com destruição de bens e mesmo perda de vidas humanas. têm r epercussões. incluindo: o regime de fogo. o tipo de solo e o relevo (Neary et al. que dependem de múltiplos factores. por sua vez. Os incêndios florestais alteram signi- . essencialmente derivados da acção d o calor sobre a sua c omponente orgânica. a meteorologia. dado existir o receio de uma maior frequência e duração de períodos extremamente quentes e secos.

. dependendo da int ensidade do fogo e das c ondições dos ecossistemas após o fogo (Neary et al. facilitando ainda o crescimento das raízes (Porta et al. perdas significativas de matéria orgânica podem acontecer a temperaturas inferiores (DeBano . A matéria orgânica abundante que condiciona a estrutura do solo e apresenta uma ele vada por osidade. 1999). Dest e mod o. 2007. Dadas as características particulares de Portugal em termos do regime de fogo. bem como as taxas de mobilização e deposição de sediment os e de exportação de nutrientes. e em particular do azoto. assim como dos mecanismos envolvidos. 2008b). Apesar de t entarmos c ompartimentar os difer entes efeit os envolvidos de modo a facilitar a consulta e a leitura. é dad o um r elevo particular à informação disponível para as condições do nosso país. que não devem ser encarados de forma isolada. é pr ofundamente afectada pelo fogo . na verdade a passagem do fogo dá origem a uma teia de mecanismos intimamente relacionados entre si. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 23 ficativamente a resposta hidrológica e geomorfológica das bacias hidrográficas. inicia-se com temperaturas entre os 200º e os 400º C. que por sua vez determina em grande medida o funcionamento hidrológico dos solos. Ferreira et al.. pelo que episódios c huvosos que n unca produziriam picos de cheia assinaláveis. No presente texto tentamos assim fazer uma descrição dos efeitos dos incêndios ao nível do solo e do regime hídrico. 2. No entanto. tendo em conta os conhecimentos mais recentes a este respeito.. Efeitos directos do calor sobre a matéria orgânica A matéria orgânica do solo é crucial para a formação da estrutura do horizonte A. 1999). r eveste-se de especial significado a compreensão dos processos de degradação a várias escalas e a avaliação da frequência e mag nitude que os pic os de cheia podem adquirir. Solos bem estruturados têm os macroporos necessários à movimentação da água em profundidade e ao seu armazenamento. podem vir a desencadear episódios catastróficos (Hyde et al.II.. das condições edafo-climáticas e d o tipo de r evestimento vegetal. A volatilização de nutrientes. A degradação da estrutura superficial dos solos pode durar entre um ano até décadas. A água que se infilt ra no solo fica disponív el par a as plantas e par a a utilização das po pulações micr obianas e de micr o e macr o-fauna.

Para temperaturas superiores a 300º C todo o horizonte orgânico superficial do solo é ger almente destruído. 1992). que poderá desencadear problemas de poluição a jusante. A matéria orgânica é mineralizada. 1999). Se a matéria orgânica superficial for c ompletamente c onsumida pelo fogo . da quantidade de c ombustível disponível.. as temperaturas do solo mineral raramente excedem os 100º C à superfície e os 50º C a 5 cm de pr ofundidade (Agee. Nestas condições. fazendo com que os nutrientes fiquem temporariamente disponíveis para as plantas sobre a forma de sais dissolvidos na solução do solo. A combustão da manta morta e a destilação dos compostos orgânicos voláteis associados acontecem entre os 180º C e os 200º C. em especial se existirem barragens e captações de água m uito próximas das ár eas queimadas. a t emperatura superficial do solo mineral pode permanecer elevada durante meses ou anos c omo r esultado d o aqueciment o pr ovocado pela incidência da radiação solar directa sobre o solo nú (Neary et al. Os perfis de temperatura nos horizontes orgânicos e no solo mineral dependem da intensidade do fogo.. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO et al. no caso dos fogos controlados. que fica assim c om um pH m uito alcalino (frequen- . pontualmente esses valores podem atingir os 700º C. 1998). 3. o As temperaturas do solo podem manter-se elevadas durante apenas alguns minutos. 1999). Fogos intensos podem elevar a temperatura à superfície do solo a 275º C em solos c horizontes om orgânicos espessos (Sackett e Haase. ou no caso de fogos de pr ogressão lenta.. até mais de cinco dias na sequência de incêndios particularmente intensos. No entanto. 1992). 1999). Implicações ao nível dos nutrientes do solo Uma das c onsequências mais impor tantes da passagem d o fogo é a exportação de grandes quantidades de nutrientes. No intervalo 180º-300º C ocorre a destilação e combustão de cerca de 85% da manta morta. Com fogos de baixa intensidade. 1973). em áreas de acumulação de resíduos florestais. Praticamente toda a matéria orgânica é consumida nas zonas do solo onde as temperaturas atingem os 450º C (Neary et al. da duração do fogo e das condições antecedentes de humidade do solo (Hartford e Frandsen..24 II. as temperaturas podem ating ir mais de 250º C a 10 cm de pr ofundidade e mais de 100º C a 22 cm abaix da superfície do solo (Neary et al.

a reposição dos nutrientes no ecossistema está bastante dependente da deposição at mosférica. dada a pobreza em nutrientes.1 66. TABELA 1 DEPOSIÇÃO ATMOSFÉRICA ANUAL NA SERRA DO CARAMULO PRECIPITAÇÃO INCIDENTE PRECIPITAÇÃO INTERNA + ESCORRÊNCIA PELO TRONCO EM EUCALIPTAL 12 ANOS ( KG . em par ticular nas áreas de xisto do país.2 38. depende das características dos combustíveis.0 8.7 34. da rocha-mãe e dos solos.5).4 7. HA -1 . Deste modo as áreas queimadas perdem a capacidade .9 45.9 4.7 11. 1996).2 19. Com efeito. ocorrem nas copas das árvores processos de absorção e exsudação que contribuem para alterar significativamente a quantidade de solutos que atingem o solo sob povoamentos florestais quando comparados com a deposição t otal nas áreas desprovidas de povoamentos arbóreos (Tabela 1). das c ondições meteorológicas na altur a do incêndio e da condutividade térmica do solo.1 70. O significado das perdas através da escorrência pode ser comparado com a r eposição de n utrientes proveniente da at mosfera.2 Para além das quantidades de nutrientes removidas e arrastadas pelo processo de wash off.4 78.9 2.II.7 3.1 10. sob pinhal e sob eucaliptal (Ferreira.7 6.5 15.3 12.5 2. por sua vez. ANO -1 ) SOLUTOS PRECIPITAÇÃO INTERNA + ESCORRÊNCIA PELO TRONCO EM PINHAL 40 ANOS NO3SO42ClCa2+ Mg2+ K+ Na+ 0.6 29. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 25 temente > 8.2 11. O g rau e a g ravidade destes efeitos dependem da temperatura que atinge o solo a qual. Os nutrientes estão disponíveis para as plantas dur ante pouco tempo já que os nutrientes em solução são facilmente arrastados em profundidade e e ventualmente à super fície através de escorrência. A Tabela 1 apresenta os dados da deposição atmosférica para três situações distintas: em campo aberto sem vegetação. Este arrastamento para as linhas de água causa a degradação da qualidade das águas a jusant e.

014 0. A volatilização também desempenha um papel relevante.035 0. O facto do fogo controlado ter dado origem a v alores semelhant es aos das par celas não ar didas de veu-se à pequena quantidade de escorrência produzida. MEDIDOS EM PARCELAS DE 16 M 2 TABELA 2 SOLUTOS PINHAL ADULTO MATO FOGO CONTROLADO INCÊNDIO FLORESTAL Ca2+ Mg+ K+ SO42- 0. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO de transferir quantidades adicionais de n utrientes da at mosfera para o solo em resultado do desaparecimento da parte aérea da vegetação.9 5.. depende da temperatura atingida pela combustão. que drenavam para uma caixa de Gerlach modificada (Shakesby et al.045 0. HA -1 .065 0. cerca de metade do azoto presente na .9 18.018 0.067 0. CAIXA 1 EXPORTAÇÃO DE NUTRIENTES EM DIFERENTES SITUAÇÕES NA REGIÃO CENTRO A Tabela 2 mostra as perdas anuais de nutrientes para várias situações estudadas em parcelas com 16m2 (8x2 m). De notar que o pinhal é mais eficiente na reposição de solutos da atmosfera para o solo. ANO -1 ) EM DIFERENTES SITUAÇÕES . A menor intensidade do fogo pode ajudar a explicar as perdas reduzidas de nutrientes e as baixas quantidades de esc orrência. PERDAS DE SOLUTOS POR ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL ( KG . A perda de nutrientes para a atmosfera por esta via.068 0. O azoto é o element o sujeito a maiores perdas.079 0. que registam decréscimos significativos (três vezes menos) quando comparados com os valores obtidos sob pinhal e e ucaliptal. de área. Esta diminuição é particularmente sentida no caso dos nitratos e do potássio.26 II. dado que a sua v olatilização começa aos 200º C.068 0.8 13.1 No entanto.052 0. Para temperaturas superiores a 500º C. e à possibilidade da escorrência produzida em locais hidróf obos se infiltr ar em locais hidrófilos a jusant e. Por sua v ez as per das de nutrient es no incêndio flor estal apr esentam v alores mais de 200 v ezes superior es às apresentadas nas restantes situações. as perdas através da escorrência e do escoamento não são o único processo pelo qual os ecossistemas perdem nutrientes em resultado dos incêndios florestais.088 13.027 0. 1991).

Trabalhos recentes apresentam versões diferentes quanto ao impacto dos incêndios flor estais sobre a e xportação de n utrientes dissolvidos. 1988). o que le va a uma pe rda adicional deste nutriente. Úbeda e Sala (2001) registaram perdas maiores em fogos com intensidade média quand o c omparados c om fogos c om int ensidade elevada. Os aut ores chegaram à c onclusão que a taxa de disponibilização dos diferentes nutrientes é determinada pela intensidade do fogo. Apesar de se encontrar mais disponível para as plantas.II. o sódio a 880º C. anualmente serão perdidas em média cerca de 268 t oneladas de nit ratos. 1999. Embora uma grande parte do azoto total do solo se perca para a atmosfera sob a forma de N2. o enxofre a 800º C. De acordo com dados de Ferreira (1996). as quais podem t er nutrientes adsorvidos à superfície (Thomas et al. a disponibilidade de nutrientes presentes nas cinzas é infl uenciada pelas temperaturas atingidas durante a combustão e pelas características da vegetação e do elemento em questão. o fósforo a 774º C. 696 t oneladas de cálcio. 2000a. enquanto que C oelho et al. através do seu impacto sobre a volatilização e mineralização da matéria orgânica no solo. há uma parte importante que fica incorporada nas cinzas sob a forma de amonião (NH4+). EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 27 matéria orgânica sofreu volatilização. b). o azoto sob esta for ma fica também mais sujeit o a arrastamento. (2004) estabelecem uma r elação directa entre a int ensidade do fogo e a per da de n utrientes. através da acção de bactérias nitrificantes. De acordo com Soto e Diaz-Fierros (1993). devido aos incêndios em Portugal. . Uma parte deste azoto acaba ao fim de algum tempo por ser transformada em nitrato (NO3-). 931 t oneladas de magnésio e 332 toneladas de potássio. com fraca concentração de nutrientes.. o magnésio a 1107º C e o cálcio a 1240º C ( Weast. as quais beneficiam das condições favoráveis criadas pela diminuição da acidez. Uma outra forma de exportação pode ocorrer quando existe arrastamento de partículas de solo at ravés de fenómenos er osivos. São necessárias temperaturas mais elevadas para volatilizar outros nutrientes: o potássio v olatiliza-se com temperaturas superiores a 760º C. De notar que as per das ocorrem predominantemente em solos m uito pobres.

1981.. 2000. 1984. 1976) (Figura 1). bem como sob alguns tipos de manta morta. (adaptado de DeBano. 2005b. como é o caso da folhada produzida por povoamentos de Eucalyptus globulus. A formação de uma camada hidrófoba por acção do calor Outro efeito dos incêndios flor estais sobre os solos. condensando seguidamente à superfície das partículas minerais do solo. NÃO QUEIMADO FOGO QUEIMADO MANTA MORTA COMPOSTOS ORGÂNICOS HIDRÓFOBOS CAMADA HIDRÓFOBA CAMADA HIDRÓFILA CAMADA HIDRÓFOBA DECRÉSCIMO DA TEMPERATURA SOLO HIDRÓFILO SOLO HIDRÓFILO FIGURA SOLO HIDRÓFILO 1 Processo de formação da camada hidrófoba após um incêndio.. O calor gerado pelo fogo faz com que os compostos orgânicos hidrófobos resultantes da decomposição das plantas e micr oorganismos sejam vaporizados pelo calor. 1981). 2004). Forma-se assim uma camada hidrófoba logo após a camada mais supericial f hidrófila. DeBano et al. é o apar ecimento ou fortalecimento da repelência dos solos à água (DeBano. com relevância para os pr ocessos hidrológicos e de deg radação. Giovannini 1994). EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 4. Este processo tem sido encontrado em locais queimad os por incêndios flor estais de elevada intensidade.. 1990) . (Ferreira et al. Coelho et al.28 II. composta por cinzas e partículas minerais. 1970.. resultante da passagem do fogo. A camada hidrófoba é for mada quando a t emperatura excede os 176º C e é destruída a temperaturas superiores a 288º C (DeBano. mais frias situadas mais abaixo de acordo com o gradiente de temperatura (DeBano et al. 2005a. Giovannini e Lucchesi.

dado que est es promovem os fluxos preferenciais da água no solo (Ritsema et al. Hendrickx et al. bastante seca. 2001). onde se incl ui: o conteúdo de água no solo (r elação inversa). de acordo com o referido atrás. Este processo encontra-se directamente relacionado com a natureza e a dist ribuição dos combustíveis. Ferreira et al. Por baixo desta camada hidrófila e pouc o consistente.5 a 5 cm) de acordo com a intensidade do fogo. De acordo com Giovannini (1994). que por sua vez repousa sobre uma camada mais húmida e menos hidrófoba. persiste a repelência pré-existente. mais . há um fenómeno inverso de destruição da repelência (Doerr et al. variando por exemplo de acordo com a proximidade ao tronco das árvores (Keizer et al.. Consequentemente. 1968. infl uenciam dessa for ma as car acterísticas da camada de solo r epelente à água (DeBano . A água e os solutos atingem as toalhas freáticas mais rapidamente em solos hidrófobos. devido à indução de repelência à água. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 29 Quando os solos possuem uma camada hidrófoba.. Estes aspectos fazem com que a dist ribuição espacial da repelência seja muito heterogénea. 1993). de vários factores. 2006) até uma profundidade variável (0. Giovannini 1994). 2005). L etey. a severidade do fogo. os quais. 1994.. 1999).. os incêndios que atingem t emperaturas acima de 450º C têm um impacto significativo no aumento da escorrência e das taxas de erosão. contrastando com as frentes homogéneas em solos não hidrófobos. 2005b). 1989. Coelho et al. a quantidade da matéria orgânica e a sua composição (Botelho et al. com a camada ectorgânica a apresentar um elevado conteúdo de água. a água não c onsegue humedecer os agregados e a capacidade de infiltração sofre uma forte quebra (Neary et al. a textura (maior repelência para solos arenosos).. seguida por uma camada de solo repelente à água. ou o se u fortalecimento devido à c oalescência das substâncias hidr ofóbicas à super fície das partículas dos solos..II. Ritsema e Dekker. Sevink et al. as magnitudes da mudança nos processos hidrológicos e erosivos podem depender em parte da intensidade e distribuição espacial da repelência do solo à água (Jungerius e DeJong. 1994. ao condicionar as car acterísticas da c ombustão. Assim. 2000. No entanto. quanto mais intenso for um incêndio. (1989) referem que a repelência do solo à água pode originar uma distribuição preferencial da humidade do solo. 2004. A intensidade da repelência dos solos à água induzida pelo fogo depende . (1993) observaram frentes de humedecimento instáveis em solos repelentes à água.

Pinhal adult o não ardido (Caratão). 2000). 3%. tais como os povoamentos de Eucalyptus globulus Labill. 18%. De notar que o pinhal adult apresenta as menores quantidades de o repelência do solo à água. com uma média de 0. É importante salientar que não existe consenso sobre a real importância da formação de uma camada hidrófoba no aparecimento de fenómenos de erosão após o fogo. 5%. . Fogo experimental em mato (Gestosa). (ver Ferreira et al. A repelência do solo à água f medida através do método MED (Molarity of an oi Ethanol Droplet) (Letey. Consequentemente. 24% e 36%. A cada metro eram colocadas 5 gotas de água com etanol sobre o solo mineral. para que a infiltração se processe.5%. e maior a quantidade de material desagregado hidrófilo entre a superfície do solo e a camada hidrófoba. Na maior parte dos casos os pontos medidos eram hidrófilos.. A repelência do solo à água acontece naturalmente em alguns tipos de uso do solo. Esse material é extremamente erodível e grande parte é perdido nos primeiros 4 meses após o incêndio (Ferreira et al. e também áreas de “matos”.30 II. 13%. O teste do etanol baseia-se no f acto de as gotas com soluções mais concentradas apresentarem uma menor tensão superficial e desse modo terem maior f acilidade de infiltr ação no solo . A Figura 2 apresenta a distribuição espacial e a int ensidade da repelência do solo à água. determinando-se a média das concentrações usadas no teste. 8. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO profundamente se forma a camada hidrófoba. . Fogo controlado em mat o (Cadafaz). Shakesby et al. 1969). f oram utilizados transeptos de 25 metros. 2005a). 1%. foram usadas as seguintes concentrações de etanol: 0%. Fogo florestal (incêndio) em pinhal adulto (Senhor da Serra ).64 e um valor máximo de 5%. (2000) questionam se o risco de erosão está tão intimamente ligado com a repelência do solo à água e Benavides-Solorio e MacDonald (2001) não encontraram qualquer correlação entre a repelência à água e a produção de sedimentos provenientes da erosão. em que 0 c orresponde a situações hidrófilas e 36% a casos extremos de solos hidrófobos. uma maior repelência à água irá implicar a nec essidade de soluções c om maior concentração de etanol. CAIXA 2 A REPELÊNCIA À ÁGUA APÓS FOGO EM SITUAÇÕES ESTUDADAS NA REGIÃO CENTRO Na avaliação da repelência do solo à água. Mato não ar dido (Aigra Nova). com medições a cada metr o em seis locais da R egião Centro: Fogo florestal (incêndio) em pinhal adult o (Caratão). (1998). Seguindo a suges tão de Doerr et al.

não são importantes. e nos processos pelos quais a água c hega aos cursos de água e aos aquífer os. apresentando os dois tipos de situação repelência . na evapo-transpiração para a atmosfera. as dif erenças entr e os “mat os” e os f ogos c ontrolados que aí decorrem. nomeadamente ao nível da intercepção pela copa das árvores. Implicações no ciclo hidr ológico e nos processos erosivos Os incêndios florestais provocam alterações significativas em vários componentes do ciclo hidrológico (Figura 3). 5. O fogo experimental apresenta valores ligeiramente mais elevados. geralmente acima dos 18% de etanol. e sem locais hidrófilos onde a escorrência se possa infiltrar. média idêntica. . Neste sentido . na capacidade de infilt ração dos solos. mas ainda assim c om alguns (pouc os) locais hidrófilos.II. encadeados com áreas hidrófilas. estabelecendo padrões em que a água ger ada em locais hidrófobos se pode infiltrar em locais hidrófilos. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 31 36 30 24 18 12 6 0 % etanol 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 metros Pinhal adulto “Matos” Fogo controlado Fogo experimental Fogo florestal Senhor da Serra Fogo florestal Caratão FIGURA 2 Intensidade e distribuição espacial da repelência do solo à água em seis locais de estudo na Região Centro. enquant o as ár eas queimadas apresentam uma gr ande homogeneidade de padrões de r epelência e xtremamente fortes. com locais apresentando repelência média (na ordem dos 13-18%). influenciando assim o caudal de base e os picos de cheia das bacias hidrográficas.

também em resultado da perda da matéria orgânica do solo (Martin e Moody. . Para além de aumentar drasticamente a energia do impacto das gotas de chuva sobre o solo. a condutividade hidráulica e a capacidade de armazenamento e retenção de água pelos solos. nomeadamente a capacidade de infiltração.. Assim. podem ser afectadas de forma muito negativa pelo fogo (Neary et al. o solo fica exposto e a porosidade do solo pode diminuir devido ao impacto directo das gotas de chuva sobre o solo. 2001. as propriedades do solo que contribuem para o bom funcionamento do sistema hidrológico. 2002). 1999). resultando em quantidades de escorrência muito maiores. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO PRECIPITAÇÃO ATMOSFÉRICA TRANSPIRAÇÃO DA FLORESTA RETENÇÃO E EVAPORAÇÃO PELA RAMAGEM EVAPORAÇÃO PELA SUPERFÍCIE DO SOLO INFILTRAÇÃO NO SOLO ESCORRÊNCIA SUPERFICIAL PERCOLAÇÃO ÁGUA SUBTERRÂNEA EVAPORAÇÃO PELA SUPERFÍCIE DA ÁGUA CAMADA IMPERMEÁVEL FIGURA 3 Ciclo hidrológico Quando o incêndio consome a vegetação e a manta morta subjacente. Meyer. a perda de vegetação e da manta morta na sequência de um incêndio r eduz ainda mais a capacidade de retenção e armazenamento da água bem como a resistência aos fluxos de água nas vertentes. a porosidade.32 II.

EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 33 Os pic os de c heia ac ontecem mais r apidamente e c om mag nitudes superiores.II. quando comparados com as respostas em bacias hidrográficas com vegetação. FIGURA 4 Ilustração dos efeitos do fogo nos processos hidrológicos e erosivos. R H OC Ã AM E A Processos hidrológicos numa encosta não queimada. responsáveis pelo transporte de sedimentos. .. 2007). B Processos hidrológicos e erosivos numa encosta recentemente queimada. O fogo também poderá consumir uma par te dos sistemas radiculares. As Figuras 4A e 4B mostram as alterações que se verificam em vertentes antes e depois da passagem de um incêndio florestal. o que resulta num aumento das forças tangenciais sobre a superfície do solo. contribuindo para a perda de coesão do solo (Hyde et al.

Ocasionalmente em termos de tempo e espaço pode oc orrer a saturação do solo. A Transição vertente — curso de água numa bacia não queimada . a camada hidrófoba e a camada hidrofílica sobrejacente condicionam os processos hidrológicos e er osivos. erodindo assim uma importante fonte de nutrientes. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO Na vertente florestada. A existência de macroporos no solo. que mobiliza facilmente a camada de cinzas hidrofílica. que assim fica disponível para as plantas. o que diminui significativamente a velocidade de deslocamento da água e per mite o ar mazenamento de parte importante da precipitação.34 II. A camada hidrófoba dimin ui dr asticamente a capacidade de infilt ração. com a formação de escorrência. a precipitação raramente excede a capacidade de infilt ração. permite a infiltração pontual de alguma da escorrência. A transição das vertentes para os cursos de água também apresenta alterações muito significativas. muitas das vezes resultantes da queima de raízes. pelo que a maior par te dos fluxos de água em dir ecção à base da vertente se processa através do solo. Após o fogo. como se pode depr eender das figuras 5A e 5B. dand o or igem a esc orrência.

maior a ár ea saturada. Os picos de cheia na bacia florestada acontecem porque a água. satura o fundo da vertente. como parte da água possui um tempo de deslocação lento nos solos em dir ecção ao fundo da vertente. no seu percurso descendente. são muito rápidos em resposta à queda de precipitação. alimentados pela escorrência de água que não se infilt ra sequer no solo. sendo depois mobilizadas por esse processo. . No entanto. e regra geral de uma magnitude insuspeita.II. São muitos os casos de picos de cheia de dimensões muito superiores ao normal. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 35 B Transição vertente — curso de água numa bacia recentemente queimada FIGURA 5 Transição de vertente em diferentes bacias. que ocorrem em áreas recentemente queimadas. logo maior a quantidade de área produtora de escorrência e maior o pico de cheia. pelo que há uma parte importante da precipitação que se escoa sob a forma de escorrência superficial assim que a camada de cinzas hidr ofílicas se satura. Em alguns casos registaram-se mortes de pessoas e importantes perdas de bens em pequenas bacias hidrográficas. Na bacia hidr ográfica queimada. Os picos de cheia. o que produz escorrência que forma o pico de cheia. a quantidade de água que se infilt ra no solo é r eduzida. os picos de cheia são regra ger al r etardados e esbatid os. Quanto mais chover.

ESCORRÊNCIA E ESCOAMENTO PRECIPITAÇÃO (mm) 100 . adultos FIGURA 80 60 40 20 0 Escorrência parcela queimada Escoamento bacia queimada 6 Escorrência e escoamento semanal em parcelas e bacias hidrográficas queimadas e em povoamentos adultos de controlo. Nota-se uma resposta pronta da bacia hidrográfica à quantidade de precipitação ao longo de todo o período. o limiar de pr odução de picos de cheia aument ou. De facto. SEMANAS APÓS INCÊNDIO 49 43 45 39 59 29 47 33 55 35 53 23 25 37 27 57 41 19 13 31 15 51 21 17 11 9 3 5 7 1 0 50 100 (mm) 120 150 200 25 30 35 400 Precipitação semanal Escorrência parcela pov. os primeiros picos de cheia r epresentam c erca de 50% da pr ecipitação. Nas primeiras semanas. após o incêndio. a resposta da bacia hidrográfica a semanas com cerca de 50 mm de pr ecipitação é idêntica à r egistada logo após o fogo. que representam menos de 10% da precipitação. NÃO QUEIMADAS CAIXA 3 A Figura 6 apresenta a distribuição temporal da escorrência superficial em parcelas de 16m 2 e do escoamento global ao nível de uma pequena bacia hidr ográfica numa zona queimada e numa zona não queimada. com pequenos picos de cheia a ocorrerem apenas em resposta aos episódios mais extremos. De notar ainda que cerca de 1 ano depois do incêndio. a quantidade de precipitação não foi suficiente para saturar a camada de cinzas e pr ovocar respostas significativas ao nível da parcela ou da bacia hidrográfica. capazes de saturar os solos. mas ao nível da parcela nota-se uma quebra acentuada da escorrência. De notar a rápida resposta inicial à queda de precipitação na área queimada. Os primeiros picos significativos acontecem quando a precipitação excede os 50 mm semanais. adultos Escoamento bacia pov. em média. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO RESPOSTA HIDROLÓGICA EM ÁREAS QUEIMADAS VS . e apenas episódios chuv osos com mais de 25 mm produzem picos de cheia. Um ano após o incêndio . No entanto existe normalmente um decréscimo dos picos de cheia com o tempo. A r esposta da área não queimada (povoamentos florestais adultos) é negligenciável ao nível das par celas e da bacia hidr ográfica.36 II.

Um outro factor que influencia a resposta das bacias e as taxas de er osão após fogo. mais vulgarmente referidos pela lit eratura disponível (e. como por exemplo a mobilização do solo ao longo da linha de maior decli ve..ano-1. 2009). a qual pode c ontribuir para diferenças ao nível da escorrência.ha1 . Wondzell.. por sua vez.g .. (1995) encontraram taxas de erosão logo após incêndio na ordem das 2 ton. Já Coelho et al. 2005b. dando origem a taxas ir relevantes de erosão. contribuindo também para o aumento da escorrência superficial e. prende-se com o teor de água no solo. Silva et al. 2001. 2005a. 2001.II. A importância da relação entre as taxas de erosão e a int ensidade d o fogo está bem pat ente nas n umerosas r eferências bibliográficas que abordaram esta questão.. fazer com que aumente a percolação para os lençóis freáticos (mais água nas nascentes). para florestas queimadas do Sudeste da Austrália. 1993). (2007). . Os poucos trabalhos publicados sobre o efeito do fogo neste factor apontam para conclusões diversas. Na verdade. Hyde et al. (DeBano et al. 2007).. tal como reportado por Shakesby et al. Huffman et al. N o entant o poderão e xistir localment e c ondições que per mitem a infilt ração da escorrência após fogo. Nesses casos as taxas de er osão podem ating ir valor es da or dem das 50 t on. 2007). Est e efeit o poderá atenuar. 2004. Deste modo os impactos podem ser muito diversos dependendo não só das c ondições locais mas em boa par te também da intensidade do fogo. Hyde et al. 1996.ano-1). Coelho et al. MacDonald et al. . anular ou mesmo ultrapassar o efeito provocado pelo aumento da evaporação superficial devido à perda do efeito de sombra pela vegetação e pela folhada e ao decréscimo d o albedo das cinzas. ao contrário do que se possa pensar. Este aumento da humidade pode. a quantidade de água no solo pode aumentar após a passagem d o fogo (M artin e Moody.b).. do escoamento das bacias hidrográficas e das taxas de erosão (Ferreira et al. mas sig nificativamente inferior aos registados para muitas das práticas incorrectas usadas habitualmente na gestão da floresta em Portugal. consequentemente. Ferreira et al. 1992... EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 37 Alguns aut ores r egistaram taxas de er osão baixas após incêndio (Emmerich e Cox. 2006) devido à eliminação temporária da transpiração das plantas (Bond-Lamber ty et al..ano-1..ha-1. 2000.02 ton. um valor muito mais elevado se comparado com os povoamentos florestais adultos (0. mas pode também facilitar a satur ação do solo dur ante a época das c huvas. Kutiel e Inbar.ha-1. 2001.

38 II. se existirem medições de humidade anteriores ao fogo. A questão da profundidade do solo que estamos a avaliar é fundamental. Sakalauskas et al. Snyman. 1978. relativamente à maior dificuldade de infiltração da água da chuva devido à formação de uma camada repelente à água. À medida que a vegetação foi crescendo. ao deixar a super fície do solo exposta à radiação solar. devido à maior evaporação. terá seguramente a ver com a diversidade de situações (vegetação. Soto e Diaz-Fierros. 2003. assim como a sazonalidade do fogo.. Há que ter em conta que apenas podemos ter uma ideia segura sobre ganhos ou perdas.. durante três anos após um fogo experimental (Silva et al. percebemos que o resultado final em termos de humidade no solo disponível para o crescimento das plantas pode ser di verso. 1976. ao influenciar o . na medida em que a acção das raízes das plantas lenhosas medit errânicas pode faz er-se a vár ios met ros de profundidade (Silva e Rego. Muito embora vários autores tenham chegado a resultados semelhantes aos descritos. mas poderá estar igualmente associada à diversidade de metodologias utilizadas. No entanto. verificou-se que o balanço. 1977. 2001. 2006) vários outros chegaram a resultados diferentes (Litton e Santelices. A di versidade de r esultados obtid os nos estud os sobr e o balanço de água no solo após fogo. Campbell et al. 2003). 2006). era francamente positivo (havia mais água disponível) no primeiro ano e ao longo dos 180 cm de per fil de solo estudado. 1997. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO da erosão laminar. 2003) condicionando dessa forma a humidade do solo muito abaixo dos horizontes superficiais. Obrist et al. quanto ao balanço final do efeito do fogo no teor de água do solos (Klock e Helvey. esse saldo positivo foi diminuindo. e difícil por razões técnicas. clima.. 2004. Mullen et al. relevo) de cada estudo. solo.. Num estudo efectuado na Tapada Nacional de Mafra.. pelo que se torna necessário investigar melhor este tema. Redmann. Em termos espaciais há a ter em conta o perfil de solo que estamos a c onsiderar e em termos temporais há a ter em conta o período após fogo que é analisado. mas manteve-se em geral positivo até ao final do terceiro ano de estudo. Por sua vez estas alterações do teor de humidade em profundidade podem ser determinantes em termos da resposta hidrológica das bacias hidrográficas. o que é relativamente raro na bibliografia disponível. Se pensarmos ainda no que foi referido anteriormente. em termos de água no solo. dependendo da impor tância relativa de cada um dos mecanismos referidos. o fogo faz com que exista uma maior dessecação à superfície.

1976). EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 39 escoamento para as toalhas freáticas e a capacidade do solo para absorver quantidades adicionais de precipitação (Klock e Helvey. o que promove a conservação do solo e da água (Ferreira et al. geomorfológica ou mesmo barreiras introduzidas pelo homem (mobilização do solo. As implicações em termos estratégicos para a conservação do solo e da água. e como tal a bacia hidrográfica passará a ter uma resposta mais lenta. 2008a). No caso de existirem descontinuidades. então a infilt ração desempenhará um papel importante. passam por aumentar a diversidade de usos do solo ao nível de toda a bacia hidr ográfica e de pr omover usos d o solo específicos para áreas específicas de forma a estabelecer interrupções na transferência da água e dos sediment os das vertentes para os cursos de água (Figur a 7). A manutenção de espécies mais r esistentes ao fogo . Por outro lado. o que implica uma elevada exportação para fora da bacia hidrográfica. 2008a). nomeadamente a faixa ripícola em redor dos cursos de água pode ser uma opção . se a descontinuidade acontecer ao nív el das v ertentes. se bem que ainda não e xista infor mação suficient e sobr e a sua eficácia na mitigação d os impac tos d os incêndios nos pr ocessos hidr ológicos e erosivos à escala das bacias hidrográficas. no caso de não e xistir qualquer tipo de desc ontinuidade de uso do solo .II. .. a transferência de água e sedimentos é muito mais limitada (Ferreira et al. estradas. segund o o modelo de Hewlett (1961. baseada na oc orrência de esc orrência satur ada.. o transporte de água e sedimentos entre as vertentes e os cursos de água não enc ontra obstáculos. Um outro aspecto fundamental que influencia a taxa de escorrência prende-se com a existência de obstáculos ao longo da encosta. Assim. 1969). como por e xemplo uma ár ea tampão ent re as vertentes e os cursos de água. terraços).

2008a) . EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO Elevada escorrência e produção de sedimentos Baixa escorrência e produção de sedimentos Zona tampão não alterada Escorrência e sedimentos maior menor PERTURBADO: SEM ZONA TAMPÃO PERTURBADO: ZONA TAMPÃO NÃO ALTERADA FOGO CONTROLADO FIGURA 7 Modelo conceptual do escoamento em bacias hidrográficas queimadas (adaptado de Ferreira et al..40 II.

terraços ou for mas concavas na base das vertentes. (199 7) para aferir as tax as de erosão e de esc orrência ao nív el de uma micr o-parcela c om 0 . na sequência da destruição da vegetação e manta morta. Mato não ardido (Aigra Nova). A T abela 3 apresenta os resultados das simulações de chuva. . Locais onde e xistam caminhos.II. podem f azer-se simulações de chuv a c orrespondendo a uma quantidade de precipitação fixa e igual para as situações a comparar. No entant o. Nota-se a esta escala um aumento significativo tanto da escorrência como das taxas de erosão. F ogo experimental em mat o (Gestosa). de modo a simular uma chuva homogénea com uma intensidade de 50. O valor de erosão inferior no fogo experimental (que teve lugar em matos) pode decorrer de uma menor quantidade de cinzas disponíveis nos locais amostrados. Fogo controlado em mat o (Cadafaz). produzem uma ruptura na transferência da água e dos sedimentos das vertentes para os cursos de água.24 m 2 nos seguintes locais de estudo: Fogo florestal (incêndio) em pinhal adulto (Caratão). que diminui a r esistência à pr ogressão da água e dos sediment os. Com este objectivo f oi utilizado um simulador de chuv a portátil. segundo o modelo descrito por Calv o et al. Fogo flor estal (incêndio ) em pinhal adult o (Senhor da Serr a ). parece existir uma diferença nítida na quantidade de esc orrência e de er osão entre o fogo controlado e os incêndios florestais. As simulações consistiram em c olocar o aspersor de água a 2 metr os de altur a. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 41 As quebras da transferência da água e dos sedimentos decorrentes de infra-estruturas feitas pelo homem ou devidas a formas geomorfológicas específicas têm em c omum o fact o de t erem forçosamente de já e xistir antes do incêndio. CAIXA 4 O USO DE SIMULAÇÕES DE CHUVA PARA AVALIAR O POTENCIAL DE EROSÃO E ESCORRÊNCIA De f orma a f azer uma a valiação c omparativa das tax as de er osão e de escorrência. (1988) e C erdá et al.hora-1 numa área de 1m 2. A esc orrência e a humidade do solo er am medidas a cada minuto e a erosão dependia da quantidade de esc orrência e da turbidez da água. com os dois incêndios a ger ar cerca de quatro vezes mais escorrência e mais do dobro da erosão. dur ante uma hor a. Estas áreas serão menos prioritárias no que concerne a intervenções de conservação do solo e da água após a ocorrência de um incêndio. Pinhal adult o não ar dido (Caratão).5 mm.

h-1) (GESTOSA) ESCORRÊNCIA (CARATÃO) (SENHOR DA SERRA) 11.6 (mm) EROSÃO (g. Por sua vez estes efeitos dão origem a uma sér ie de mecanismos ao nív el do ciclo hidr ológico e d os ciclos biogeoquímicos que podem traduzir-se em processos de degradação mais ou menos impor tantes.9 15. da manta morta e da matéria orgânica do solo.6 27. e frequentemente pela morte da vegetação arbórea. permitindo que se atinja mais r apidamente a situação de saturação e desse modo contribuindo igualmente para uma maior exportação da água para jusante. Uma maior severidade do fogo está associada a uma maior dest ruição da vegetação. após o fogo pode igualmente ocorrer um aumento relativo da água no solo.42 II.8 0. Um dos factores mais importantes prende-se com a intensidade do fogo que. que dificulta a infiltração e possibilita a existência de escorrência superficial. E NÃO QUEIMADAS POR FOGOS COM DIFERENTES INTENSIDADES . Quer um quer outro fenómeno têm . devido à menor transpiração das plantas.8 32. O nív el de impor tância desses pr ocessos depende de vários factores.h-1) 6. pode dar origem a diferentes níveis de severidade ao nível do solo. tal como para as plantas. No entanto.m-2. Síntese dos efeitos produzidos ao nível do solo e da água As alt erações pr oduzidas por um fogo passam pela c ombustão de grande parte da manta morta e da vegetação arbustiva e herbácea.7 3.4 FOGO EXPERIMENTAL < 0.m-2.7 16. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO TABELA 3 TAXAS DE EROSÃO E ESCORRÊNCIA EM ÁREAS QUEIMADAS .5 > limite de detecção INCÊNDIO 7. Por sua vez estes efeitos dão origem a maiores perdas de nutrientes por diferentes vias e à possível formação de uma camada de solo repelente à água.5 INCÊNDIO (mm) EROSÃO (g.3 6. OBTIDAS ATRAVÉS DE SIMULAÇÕES DE CHUVA PINHAL ADULTO (CARATÃO) ESCORRÊNCIA “MATOS” (AIGRA NOVA) FOGO CONTROLADO (CADAFAZ) 2.

da diversificação dos usos do solo e da optimização da localização das infra-estruturas. Os efeitos na hidrologia são acompanhados por efeitos ao nível da exportação de nutrientes a qual pode assumir difer entes formas. sobretudo através do ordenamento do território. naturais ou artificiais influenciam os fenómenos de transporte à superfície e em profundidade. Deste modo. O tipo de solo influencia de múltiplas formas os mecanismos descritos já que condiciona tanto os processos hidrológicos. Os combustíveis influenciam a intensidade e por sua v ez a severidade do fogo. O declive do terreno e a existência de obstáculos. . Todos estes mecanismos podem ocorrer com diferente magnitude dependendo de factores locais nomeadamente: os combustíveis. Agradecimentos Este t rabalho r epresenta o culminar de duas décadas de in vestigação. EFEITOS DO FOGO NO SOLO E NO REGIME HIDROLÓGICO 43 como consequência uma resposta mais rápida das bacias hidrográficas no aumento do caudal dos rios.II. e PROJECTO DESIRE DESertification mItigation and REmediation of land a global approach for local solutions (GOCE 037046 Integrated Project) no âmbito do programa FP6 da União Europeia. a magnitude dos efeitos no solo é muito variável. Em algumas situações os impac tos negativos no solo e nos processos hidrológicos podem ser elevados e afectar não apenas os ecossistemas mas também as infr a-estruturas para uso das po pulações como estradas. Assim. como os processos biogeoquímicos. tal como na vegetação. Agradecemos aos projectos: Recuperação de áreas ardidas (FFP-IFAP). é necessário ter em atenção a gestão do risco. financiado pela FCT. barragens ou aglomerados populacionais. o que pode originar cheias a jusante. o relevo e o solo. PROJECTO RECOVER Immediate soil management st rategy for recovery after forest fires (PTDC/AGR-AAM/73350/2006).

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2. Resistência das plantas ao fogo 2. Herbáceas 3. Formas de regeneração pós-fogo 3. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO FILIPE X. Variabilidade e incerteza nos padrões de sucessão ecológica após fogo . CATRY JOAQUIM SANDE SILVA PAULO FERNANDES 1. Introdução 2.49 EFEITOS DO FOGO III.1.1. Regeneração seminal 4. Árvores e arbustos 2.2. Regeneração vegetativa 3.

da per centagem de t ecidos mortos e localização desses t ecidos.. clima) e as características de cada planta (e. Existem duas formas de as plantas conseguirem tolerar a expo- . vigor vegetativo.g.. intensidade do fogo. espécie. topografia. bem como a compreensão dos mecanismos que influenciam a resposta das diferentes espécies de plantas após um incêndio. Introdução Este capítulo aborda as interacções entre as plantas e o fogo. mobilizações de solo.g..50 III.g. A utilização de técnicas apropriadas para monitorizar os efeitos específicos do fogo sobr e a v egetação é nec essária para detectar as alt erações ocorridas na comunidade de plantas. dos mecanismos reprodutivos e da capacidade para recuperar dos danos sofridos. solos. São apresentados os pr incípios e os pr ocessos de base que det erminam a for ma como as plantas são afectadas pelo fogo e os fact res que controlam as suas o respostas após o fogo. pastoreio. as características do local (e.. 2. O conhecimento sobre as características da vegetação e do fogo. A capacidade de resposta das plantas ao fogo pode variar significativamente de fogo para fogo ou entre diferentes áreas dentro de um mesmo incêndio. Os efeitos do fogo na vegetação são normalmente os impactes mais óbvios que se podem observar após um incêndio. seca. O tipo de r esposta será na maior par te dos casos var iável em função da interacção entre uma série de factores como o regime de fogo (e. baseados no conhecimento sobre as c ondições do incêndio e nas car acterísticas das espécies e comunidades existentes antes do fogo.g. O objectivo é permitir que os gestores sejam capazes de prever os efeitos do fogo nas plantas. pragas). duração da combustão. idade). e interpretar as causas para a var iabilidade nas r espostas das plantas obser vada após o fogo . EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 1. Resistência das plantas ao fogo A r esistência das plantas ao fogo depende em g rande medida da presença de características adaptativas que lhes permitam tolerar melhor o calor. A capacidade de sobr evivência e de regeneração das comunidades vegetais no período após o fogo depende ainda da intensidade de ocorrência de factores adicionais de perturbação (e. época do ano). constituem factores-chave no planeamento florestal e na gestão de áreas ardidas.

o facto de as condições meteorológicas no momento do fogo influenciarem a intensidade e o comportamento do fogo. Em geral as plantas estão mais susceptíveis aos danos provocados pelo fogo quando as reservas de hidratos de carbono . Alguns estudos indicam que diversas espécies resistem melhor ao fogo durante o Inverno do que durante o Verão (Whelan. as características que adicionam ou c onservam as r eservas n utritivas da planta são também m uito importantes uma vez que permitem a recuperação dos indivíduos após o fogo (e.III. Por exemplo. embora alguns tecidos de plantas consigam suportar temperaturas mais elevadas por períodos de tempo muito curtos. A maior parte das células vegetais morrem se a temperatura atingir aproximadamente 50-55º C (Hare. os gomos são geralmente muito mais sensíveis ao calor do fogo quando estão em fase de crescimento activo e o seu conteúdo em humidade é elevado (aumentando a condutividade térmica). 1995). A morte dos tecidos das plantas devido ao fogo depende da quantidade de calor a que estes são expostos. e a out ra é at ravés da protecção desses t ecidos v itais e vitando que a t emperatura letal se ja atingida (Whelan. Wright e Baile y. O calor recebido pela planta depende simultaneamente da temperatura atingida e do tempo durante o qual os tecidos estão expostos a essa temperatura. do que durante o período de dormência ou após terminar o crescimento anual (Dieterich. 1982). 1995). Para além d os aspectos já mencionad os.. a variação da mortalidade das células resulta também do seu estado de hidratação e se estão ou não metabolicamente activas. 1995). Por outro lado.g. as r eservas nutritivas que permitem a recuperação dos indivíduos após o fogo também variam entre espécies e ao longo do ano. Tecidos de plantas em r epouso vegetativo e que se encontram num estado de desidratação podem tolerar um calor m uito mais intenso do que tecidos metabolicamente activos e completamente hidratados (Whelan. 1979. Para além do estado metabólico em que as plantas se encontram. são outros factores que podem explicar estas diferenças. 1982). Para uma dada temperatura aplicada a um tecido vegetal. 1996). Pyne et al. 1961. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 51 sição ao fogo. A capacidade que as células têm para suportar temperaturas elevadas varia pouco entre espécies e entre tecidos de uma mesma planta. bem como o tempo necessário para que as células atinjam uma temperatura letal. Uma é a de que as células que constituem os tecidos vitais consigam suportar temperaturas mais ele vadas. Wright e Bailey.

tais como os danos na c opa associados a uma ele vada percentagem de mortalidade ao nível do câmbio. Regelbrugge e Conard. enterradas no solo. a espessura da casca e o diâmetro dos troncos aumentam. condições meteorológicas desfavoráveis. onde é menos provável que se jam submetidos a um calor letal. pois as copas tornam-se maiores. A morte das plantas resulta frequentemente de danos provocados em diferentes partes. ou situados muito acima da superfície.g. Da mesma for ma as sementes podem estar pr otegidas por fr utos que as isolam d o calor excessivo. herbívoria). e par a algumas espécies a altur a da base da c opa também aumenta (Miller. As sement es também são v itais par a algumas espécies pois representam a única oportunidade de a planta pe rpetuar o seu código genético. Dependendo da extensão e severidade dos danos as plantas podem sobr eviver durante mais ou menos t empo após o fogo . Os padrões saz onais das reservas nutritivas das plantas var iam muito entre espécies (Zwolinski. feridas. O câmbio é um t ecido vital para a sobr evivência d o t ronco e da c opa.g.g. um fogo que ocorre num determinado momento do ano pode ser mais prejudicial para algumas espécies do que para outras. pois após o crescimento inicial as plantas têm menos reservas disponíveis. 2000). de vido ao seu estado fisiológ ico enfraquecido. Os gomos são impor tantes por que a produção de novas folhas após o fogo depende da sobr evivência destes tecidos. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO se encontram num nível relativamente baixo. P orém. sendo protegidos por outros tecidos como a casca. Algumas partes da planta são mais importantes para a sobrevivência após o fogo d o que out ras. Os tecidos vegetais mais importantes e susceptíveis tais como o câmbio e os gomos podem não estar dir ectamente expostos ao calor do fogo. Littke e Gara. . torna também as plantas mais fracas e susceptíveis de morrer. 1986). Algumas espécies de árvores são aparentemente mais susceptíveis após o período inicial de cr escimento anual do que no períod o final de cr escimento ou durante a dormência (e. e deste modo. A resistência das árvores ao fogo t ende geralmente a aumentar c om a idade. encontrando-se enterrados no solo. 1990).52 III. A ocorrência de qualquer outro factor de stress anterior ou posterior ao fogo (e. 1993). ou na c opa a g rande altura. as plantas afectadas pelo fogo podem ser subsequentemente atacadas por insectos ou infectadas por doenças e fungos conduzindo a um aumento da mortalidade nos anos seguintes (e.

g. Por outro lado. na própria árvore e no sub-coberto. 1961). a proporção entre material vivo e morto. podem conseguir proteger tecidos vitais como gomos e sementes.g. Devido à diminuição da temperatura com a distância aos combustíveis de superfície. pinea) proporcionam uma maior pr otecção inicial aos gomos que as agulhas cur tas (e. No caso das coníferas. permitindo uma maior tolerância ao fogo (e. a probabilidade do fogo entrar nas suas copas é menor (Keeley e Zedler. Algumas características importantes da copa são a densidade e dimensão dos ramos. sylvestris) (Wagener. 1973). 1998). A estrutura de uma planta lenhosa é um dos factores que afecta a probabilidade de que a sua parte aérea seja letalmente afectada pelo fogo . Alguns autores sugerem que a arquitectura da copa de algumas espécies ajuda a deflectir o calor dos gomos apicais. certas plantas que crescem mais em altura (principalmente árvores).1. os gomos e ramos mais pequenos resistem menos ao calor d o que os maior es. Por exemplo a altura aumenta a probabilidade de sobrevivência da copa pois as partes aéreas de plantas de baixa estatura estão mais expostas ao calor e são frequentemente mortas. Árvores e arbustos Sobrevivência da copa As localizações e xpostas dos gomos apicais lat erais e t erminais de muitas espécies de ár vores e ar bustos tornam-nas muito susceptíveis à morte da copa por acção d o fogo. e a dimensão t otal da c opa (B rown e Da vis. as agulhas compridas (e. para que estas car acterísticas da copa sejam efectivas e contribuam para a sobrevivência da par te aérea das plantas. devido à sua menor massa (Byram. é também necessário que os troncos estejam protegidos por uma casca suficientemente isoladora. Wagener. 1961). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 53 2. O facto de as folhas serem perenes ou caducas também pode influenciar a sobrevivência da copa. P. Nas espécies de ár vores c om desr amação natur al (em que os r amos inferiores que vão mor rendo caem natur almente). A eficácia da altur a na pr otecção da c opa dependerá da continuidade vertical do combustível.g. apenas porque estes se encontram acima das chamas. 1984). a localização da base da copa em relação aos combustíveis à super fície. sendo que as espécies de folha caduca são m uito menos susc eptíveis dur ante a estação de . P. Porém. Kruger e Bigalke. O tipo de folhas também pode infl uenciar a resistência das plantas.III. 1948.

2000). 1986). BehavePlus) a partir do comprimento da chama. ou estimada c om recurso a um sim ulador de fogos (e. 1985). e dimin uindo ainda mais quand o o crescimento cessa (Outono e Inverno para a maioria das espécies excepto coníferas que têm um período de crescimento adicional no fim do Verão/início do Outono).g. da temperatura do ar e da velocidade do vento (e. e é um indicador do impacte do fogo na árvore que pode ser quantificad o logo nos dias post eriores ao incêndio pela observação da altura ou do volume de folhas/agulhas secas (não verdes). 1988). sendo menos susceptíveis a fogos de copas (Bond e van Wilgen. Porém a percentagem do volume da copa com folhagem dessecada é nor malmente um melhor indicador do impacte do fogo do que a altur a da c opa dessecada.54 III. diminuindo durante o restante período de crescimento (Verão). quer como consequência directa do fogo quer devido ao efeito associado à incidência . O conteúdo em h umidade das folhas e pequenos r amos var ia ao longo d o ano.g . Porém existem espécies de folhosas. sendo mais ele vado dur ante o período de maior actividade (formação das folhas e alongamento dos ramos na Primavera). A mortalidade de algumas espécies de árvores está mais relacionada com a proporção de copa dessecada do que com os danos no tronco (Ryan et al.. 1996). 2001). Miller. que contêm elevados níveis de compostos inflamáveis nas folhas.g. Para muitas espécies de c oníferas e par a árvores ou arbustos com pequenos gomos. A dessecação da copa de uma árvore (crown scorch) é provocada pelo calor libertado pelo fogo. que tornam a ignição e combustão da copa mais fácil que em espécies que não possuam esses compostos (Bond e van Wilgen. Em geral as espécies folhosas têm folhas com maior conteúdo em humidade que as resinosas. uma v ez que considera a proporção de folhagem que permanece viva (Peterson. 1976). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO dormência (e. 1996. O conteúdo em humidade também influencia a inflamabilidade das folhas e ramos. Grande parte das espécies de coníferas têm uma elevada probabilidade de morrer se o volume de copa dessecada for superior a 60-70%. e quanto maior este for. como os eucaliptos. Albini. maior é a quantidade de calor nec essária para atingir a temperatura de ignição. enquanto que noutras espécies se verifica o contrário (Peterson e Arbaugh. A altura acima do solo até à qual a c opa foi dessecada pode ser medida directamente. a dessecação da c opa é frequentemente equivalente à mor te da copa devido à reduzida protecção dos gomos. Miller.

embora no caso do sobreiro não exista qualquer relação entre a espessura da casca e o DAP a partir do momento em que as árvores entram em exploração devido à prática habitual de extracção periódica da cortiça. A resistência dos troncos ao fogo está principalmente relacionada com a espessura da casca. 2010) sugere que uma espessura de casca superior a 3-4 cm será suficiente para proteger o câmbio de forma efectiva (ver Figura 2b na Caixa 1).III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 55 de pragas e doenças durante os primeiros anos após o incêndio. A morte do câmbio. Pinus ponderosa ou Larix occidentalis) o volume de copa consumida pode ser um melhor indicador de mortalidade da copa que o volume de copa dessecada. corresponde à morte da parte aérea da planta (copa e tronco). o tempo necessário para que as células do câmbio atinjam uma temperatura letal é função da espessura da casca e das suas pr opriedades térmicas (Whelan. a qual varia com a espécie. as árvores pequenas de uma dada espécie são geralmente mais susceptíveis do que as grandes. e que a c orrelação positiva existente entre o diâmetro da árvore e a espessur a da casca or igina uma relação entre o DAP e o tempo necessário para que o câmbio atinja uma t emperatura letal. existe uma variabilidade considerável na espessura da casca entre espécies. 1995). Por exemplo Hare (1961) levou a cabo vár ias experiências em que c onstatou que o t empo necessário para que as células do câmbio atinjam uma temperatura letal está exponencialmente relacionado com a espessura da casca para todas as espécies de árvores estudadas..g. distância acima do solo. . Um estudo recente levado a cabo em Portugal (Catry et al. Porém. diâmetro. Assim. O consumo da copa resulta da ignição das folhas/agulhas e dos ramos finos. No entanto. mesmo que a copa não seja directamente afectada. se ocorrer na base do tronco principal e em toda a sua circunferência. Sobrevivência do tronco As árvores e ar bustos podem mor rer quando o câmbio (camada de crescimento activa situada entre o lenho e a casca) é e xposto a temperaturas letais. Diversos estudos indicam que quando o tronco é submetido a uma fonte de calor. idade. saúde e v igor das plantas (Gill. para um dad o diâmetro. devido à relação alométrica entre a espessura da casca e o diâmet ro. Em Portugal as espécies com casca mais g rossa são o sobr eiro. para algumas espécies de coníferas mais resistentes (e. 1995). o pinheiro-bravo e o pinheiro-manso (Figura 1).

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III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

5

4 (cm)
ESPESSURA DA CASCA

3

2

1

0 0 10 20 30 40
DAP

50

60

70

80

(cm)

Q. suber P. pinaster

P. pinea Outras espécies

FIGURA

1

Relação entre a espessura da casca e o diâmetro à altura do peito (DAP) para 14 espécies arbóreas (baseado em equações obtidas a partir de dados de campo recolhidos em Portugal; mínimo de 40 árv ores por espécie): destaque para as 3 espécies c om casca mais grossa, nomeadamente o sobreiro (cortiça virgem), o pinheiro-bravo e o pinheiro-manso. As restantes espécies representadas são (não discriminadas): aroeira, azinheira, carrasco, castanheiro, carvalho-negral, carvalho-português, eucalipto, freixo, medronheiro, pilriteiro e zambujeiro.

Por outro lado, a qualidade do isolamento proporcionado pela casca dependerá também da sua est rutura, composição, densidade e d o seu conteúdo em humidade (Hare, 1965), factores estes que variam de espécie para espécie. A textura da superfície da casca pode também afectar a sua probabilidade de ignição. Um dos indicadores dos danos no tronco mais utilizados é a altura do tronco queimado expressa como proporção da altur a total da ár vore. A altura do t ronco queimado pode ser um bom indicador dos danos sofridos e mesmo da mortalidade (e.g. Ryan, 1982), e está frequentemente correlacionado com o volume de copa afectado. Nas espécies de casca mais fina, quando a casca se apresenta carbonizada, o câmbio que se encontra

III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

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por baixo está frequentemente morto. Nas espécies de casca grossa (e.g. pinheiro-bravo ou pinheiro-manso) é mais frequente que a causa de morte esteja associada aos danos na copa ou raízes que aos danos no tronco; a morte do câmbio normalmente só ocorre se o tronco estiver exposto ao calor do fogo durante um longo período de tempo, o que pode acontecer se por exemplo existir acumulação de material lenhoso no solo junto ao tronco. Por outro lado quando existem feridas no t ronco, provocadas por fogos anteriores ou por qualquer acção mecânica, o câmbio fica mais susceptível a sofrer danos adicionais pelo fogo, pois a casca é geralmente mais fina ou inexistente junto da ferida e a existência de concavidades ou buracos pode favorecer um maior tempo de residência da chama junto ao tronco (Miller e Findley, 2001). Por exemplo Rundel (1973) registou uma forte correlação entre a morte da copa em sequóias gigantes e a presença de cicatrizes de fogo na base dos troncos. As feridas provocadas por um fogo (correspondendo aos locais onde o câmbio morreu) muitas vezes só são visíveis quando a casca se desprende do tronco. Estas feridas podem ficar infectadas por micr oorganismos ou fungos, e a sobr evivência das árvores pode depender da sua capacidade em c ompartimentar rápida e eficazmente as feridas de modo a formar uma barreira em redor do tecido afectado que r eduza o alast ramento da infecção (S mith e S utherland, 1999). A resinagem nos pinheiros pode também torná-los mais susceptíveis ao fogo devido às feridas e cicatrizes que facilmente se incendeiam devido à natureza inflamável da resina. Por exemplo Whelan (1995) refere que no SE d os Estados Unidos os pinheiros (P. palustris) com antigas cicatrizes de r esinagem são mais se veramente afectad os ou mor rem, mesmo em fogos de superfície e menos intensos. A espessura e a textura da casca ou a presença de feridas pode também afectar a pr obabilidade de mor te nos t roncos de espécies ar bustivas, embora, devido ao reduzido diâmetro da maioria dos seus troncos, a maior parte seja letalmente afectada por qualquer fogo que atinja a folhagem no topo, excepto se o tempo de residência for muito curto.

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III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

CAIXA 1
EFEITOS DO FOGO NAS ÁRVORES UM CASO DE ESTUDO EM PORTUGAL

Na sequência de um grande incêndio (~3000 ha) que oc orreu em Setembro de 2003 no concelho de Mafra, deu-se início a um es tudo para avaliar os efeitos do fogo nas principais espécies arbóreas. Foram seleccionados aleatoriamente 26 pontos e em cada um deles f oram estabelecidos trajectos para monitorizar o estado vegetativo de cada árvore e medir diversos parâmetros relacionados com a intensidade do fogo, características do local, e características dos indivíduos. Durante os primeir os 4 anos após o incêndio , um t otal de 7 55 indivíduos de 11 espécies (9 de f olhosas e 2 de r esinosas) f oram monit orizadas regularmente. As espécies es tudadas f oram: Castanea sativa (castanheiro), Crataegus monogyna (pilriteiro), Eucalyptus globulus (eucalipto), Fraxinus angustifolia (freixo), Olea europaea var. sylvestris (zambujeiro), Pinus pinaster (pinheiro-bravo), P. pinea (pinheiro-manso), Pistacia lentiscus (aroeira), Quercus coccifera (carrasco), Q. faginea (carvalho-português) e Q. suber (sobreiro). Ao fim de 4 anos v erificou-se que a maioria (89%) das r esinosas (coníferas) morreu, enquanto que a maior part e das f olhosas sobreviveu (92%). Porém, apesar da baixa mortalidade observada nos indivíduos das espécies f olhosas, a maioria deles (7 4%) sofreu morte da parte aérea, regenerando apenas a partir da base do tr onco ou raízes, o que significa um pr ocesso de recuperação muito mais lento que em caso de sobrevivência da copa. Nas resinosas estudadas a morte da parte aérea corresponde sempre à morte do indivíduo. Entre as folhosas, apenas o cas tanheiro apresentou mortalidade ele vada, e o sobreiro (árvores não descortiçadas) foi a espécie c om menor mortalidade da parte aérea. Foram utilizados mét odos de r egressão logística para desenvolver modelos gerais relacionando a pr obabilidade de mortalidade ( do indivíduo ou apenas da parte aérea), com indicadores de severidade do fogo e características dos indivíduos (Figura 2). Entr e as v ariáveis analisadas, par a além das dif erenças entre os dois principais grupos funcionais ( coníferas e f olhosas), a altur a do tronco queimado, o v olume de c opa afectada e a espes sura da casca, f oram aquelas que mais influenciar am o tipo de r esposta das árv ores. Os modelos seleccionados foram validados com dados independentes obtidos em 4 outros incêndios (945 árvores), tendo sido obtidos bons resultados. Mais detalhes sobre este estudo podem ser consultados em Catry et al. (2007, 2010). Relativamente ao sobreiro, e devido às suas especificidades (ser a única árvore europeia com capacidade de regenerar a copa quando esta é destruída pelo fogo, e em que a casca é regularmente extraída), sugere-se a consulta de bibliografia específica para esta espécie (e.g. Catry et al., 2009; Mor eira et al., 2007, 2009; Silva e Catry, 2006).

III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

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PROBABILIDADE DE MORTALIDADE

1.0 0.8 0.6 0.4 Espécies 0.2 0.0 0 20 40 60 80 100 Coníferas Folhosas
PROBABILIDADE DE MORTE DA PARTE AÉREA

1.0 0.8 0.6 0.4 0.2 0.0 0 1 2

altura do queimado (%) 25 50 75 100

3

4

5

ALTURA MÁXIMA DO QUEIMADO

(%)
FIGURA

ESPESSURA DA CASCA

(cm)

2

Modelos preditivos das respostas das árvores 4 anos após um incêndio: ESQUERDA: Probabilidade de mortalidade dos indivíduos (e intervalos de confiança) em função da altur a máxima do tr onco queimado (% da altur a da árv ore) e do grupo de espécies (resinosas ou folhosas); DIREITA: Probabilidade de morte da parte aérea (copa e tronco) em folhosas em função da espessura da casca (cm) e da altura máxima do queimado (%). (Adaptado de Catry et al., 2010).

Sobrevivência das raízes

Uma planta pode per der a par te aérea (copa e t ronco) mas ainda assim sobreviver. Isto acontece frequentemente com os indi víduos das espécies folhosas. Porém a morte das raízes de uma planta corresponde sempre à morte do indivíduo. Tal como para as copas e troncos, existem características físicas e estruturais que influenciam os danos ao nível das raízes nas espécies lenhosas. As r aízes est ruturais de supor te que cr escem lateralmente próximo da superfície são mais susc eptíveis aos danos pr ovocados pelo fogo que as raízes mais profundas. As raízes que se encontram nas camadas orgânicas têm uma maior probabilidade de serem letalmente afectadas ou consumidas que as r aízes localizadas nas camadas miner ais do solo. As raízes finas que captam a maior parte da água e nutrientes necessários à planta estão normalmente distribuídas junto à superfície, e a perda destas raízes pode constituir uma causa de mor te mais significativa do que os danos provocados nas raízes estruturais (Wade, 1993). Embora a destruição de parte das raízes de uma árvore ou arbusto possa não matar o indivíduo, pode conduzi-lo a um estad o de st ress significativo que aumentará a probabilidade de morte no futuro.

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III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO

Os danos provocados pelo fogo nas raízes ou em outras estruturas da planta situadas abaixo do solo não podem ser previstos pelo comportamento geral do fogo nem por outras características específicas tais como a intensidade da frente de fogo ou a altura das chamas, pois a maior parte do calor produzido é direccionado para cima. A morte das estruturas enterradas no solo está muito mais relacionada com o tempo de residência do fogo ou da fonte de calor (e.g. Wade, 1986), que por sua vez é influenciado pela quantidade, tipo, compactação e teor de humidade dos combustíveis presentes à superfície. A humidade do solo também retarda a penetração de calor no solo (Frandsen e Ryan, 1986), protegendo as estruturas subterrâneas das plantas. Pode existir alguma relação entre o calor libertado durante o fogo e os danos nas raízes, particularmente se apenas existir uma fina camada de combustível à superfície. Porém, se existir uma acumulação moderada ou elevada de combustível à superfície, o tempo de residência da fonte de calor será pr ovavelmente bastante superior e poderá causar danos consideráveis nas est ruturas subterrâneas, mesmo que na copa não se observem danos (Wade e Johansen, 1986).
2.2. Herbáceas

O conhecimento existente sobre os factores que conferem tolerância ao fogo às plantas herbáceas é bastante inferior relativamente às plantas lenhosas. Nas plantas her báceas existe uma difer ença fundamental ent re gramíneas e dicotiledóneas que tem a ver com a localização dos meristemas. As g ramíneas têm os se us mer istemas na base das folhas enquant o as dicotiledóneas os têm expostos e constantemente elevados à medida que a planta cresce. Esta característica das gramíneas protege muitas delas do fogo uma vez que muito do calor libertado por um fogo é direccionado para cima. Adicionalmente, os caules e folhas das gramíneas que formam uma massa densa e compacta ajudam também a proteger do calor os meristemas situad os no c entro, per mitindo fr equentemente uma m uito rápida recuperação pós-fogo (Bond e van Wilgen, 1996). Apesar de nas monocotiledóneas arborescentes e nas dicotiledóneas os mer istemas estar em ger almente mais e xpostos ao calor que nas gramíneas, existem arranjos particulares de folhas que podem pr oteger os gomos do calor letal durante a passagem do fogo (Gill, 1981).

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Muitas espécies de gramíneas e de outras herbáceas são relativamente tolerantes ao fogo quando este ocorre no fim da época de crescimento e quando as plantas se encontram dormentes, sendo mais vulneráveis aos danos se arderem durante os períodos de crescimento activo (Bond e van Wilgen, 1996; DeBano et al., 1998). Como nas regiões Mediterrânicas a maior par te dos incêndios ocorre durante o Verão, coincidindo com o período de d ormência (ou fim de cr escimento) da maior par te das espécies her báceas sil vestres, o fogo acaba por não t er nor malmente consequências tão graves sobre este tipo de vegetação como tem sobre as espécies lenhosas.

3. Formas de regeneração pós-fogo A recuperação das comunidades vegetais após um fogo é variável de acordo com a resposta das espécies indi viduais, e é influenciada pelas características ambientais e perturbações posteriores. A mortalidade após um fogo pode ser diminuida, devido aos mecanismos de resistência descritos anteriomente, ou compensada pela germinação de sementes pouco depois do fogo (Llor et, 2004). Existem apenas duas possibilidades de regeneração das plantas após fogo, nomeadamente por resposta vegetativa ou reprodução sexual (seminal) (Figura 3).

FIGURA

3

Exemplos de tipos de resposta após fogo em espécies arbóreas: regeneração vegetativa (epicórmica no sobreiro e basal no medronheiro, à esquerda e ao centro, respectivamente) e regeneração sexual (seminal no pinheiro-manso, à direita). (Fotos: Filipe X. Catry)

A resposta vegetativa provém de órgãos localizados a diferentes alturas e profundidades. Viburnum. 2004). Rhamnus e Crataegus. Myrtus. com excepção dos pinheiros. mesmo quando esta arde. Olea. Regeneração vegetativa A r egeneração v egetativa. A capacidade de regeneração vegetativa após fogo é favorecida pelo isolamento térmico e está m uito difundida ent re as Angiospérmicas. Prevalece nos géneros Cytisus e Genista e está representada nalguns tojos (Ulex europaeus. Miller (2000) e Lloret (2004). minor) e zimbros (Juniperus oxycedrus). Nerium. Ruscus. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 3. C aso c ontrário a acti vidade vegetativa manifestar-se-á através das estruturas basais ou subterrâneas. os quais apenas produzem novos rebentos quando a folhagem sofre dano (Chandler et al. a regeneração vegetativa rareia bastante nos Cistus (e restantes Cistáceas) e nas Lamiáceas.62 III. Erica (a grande maioria das espécies). Lonicera. Pteridium. respectivamente acima e abaixo da superfície do solo (Miller.. A sobrevivência individual depende da sobr evivência de gomos adventícios dormentes. Ilex. Chamaerops). nomeadamente as espécies dos géneros Quercus. se a espessura da casca garantir que os gomos não são danificad os pelo fogo . Acer.1. . Pterospartum. Prunus e Sorbus. refazendo a sua componente aérea. Phillyrea. Ulmus. 2000). Ceratonia. que incluem os géneros Rosmarinus e Lavandula. Praticamente todas as árvores. 2009) constatamos que a resposta vegetativa pós-fogo é omnipresente nas espécies lenhosas Portuguesas. U. 1983. Em contrapartida. As árvores capazes de reconstituição vegetativa podem rebentar do tronco ou da copa. a apresentam. Buxus. Rubus. Trabaud. Betula. 1987). O t exto que se segue foi essencialmente compilado a par tir de Trabaud (1987). usualment e é apr esentada dicotomicamente mas na r ealidade varia num continuum de zero a 100 por cento (% de plantas que rebentam) (Vesk e Westoby. par ticularmente em vegetação esclerófila e flor esta caducifólia. sendo também relevante noutras plantas lenhosas ou sub-lenhosas (Hedera. De entre os arbustos salientem-se os géner os Pistacia. que se e xprime at ravés da emissão de rebentos. Fraxinus. Consultando uma base de dad os das car acterísticas das plantas d o Mediterrâneo relacionadas com o fogo (Paula e Pausas. Arbutus. é a for ma através da qual m uitas plantas perenes sobrevivem e recuperam após o fogo. Daphne. tal c omo nas plantas ar bustivas e her báceas.

rebentam a partir de gomos localizados em tuberosidades lenhosas subterrâneas (lignotuber). zona de ligação da raiz ao caule e de onde as raízes se difundem. sendo comum no sobreiro e eucalipto. cormo ou bolbo sólido Aérea Acima do solo. é um local comum de emissão de rebentos após fogo. arbustivas e herbáceas Arbustos e herbáceas Herbáceas perenes * invulgar em coníferas Muitas espécies de plantas.FOGO ( REGENERAÇÃO VEGETATIVA ). acima do solo Solo. acima ou abaixo da superfície do solo. MODIFICADO DE MILLER (2000) TIPO DE GOMO LOCALIZAÇÃO GRUPO DE PLANTAS TABELA 1 Epicórmico Estolho Colo da raíz Tuberosidade lenhosa Cáudice Raíz Rizoma Bolbo.III. acima do solo Solo ou manta morta Solo ou manta morta Solo ou manta morta Solo Folhosas sempre verdes* Herbáceas Folhosas e arbustivas* Folhosas. O solo é um bom isolante e essa característica é particularmente bem explorada por plantas c om estas est ruturas r aiz-copa especializadas e que estão pr esentes em muitas espécies lenhosas das r egiões Mediter- . EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 63 Localização dos gomos dormentes A Tabela 1 sumariza as estruturas das plantas que dispõem de capacidade vegetativa. especialment e ar bustos e e ucaliptos. manta morta Solo. de acordo com Miller (2000). O colo da raiz. que constituem engrossamentos da base do caule bem protegidos de temperaturas letais por se encontrarem enterrados no solo. arbustivas e herbáceas* Herbáceas Folhosas. A rebentação epicórmica resulta de gomos localizados no seio do tecido lenhoso dos troncos das árvores ou nas axilas dos ramos. TIPO E LOCALIZAÇÃO DOS GOMOS GERADORES DE REBENTAÇÃO PÓS . Os gomos dormentes de muitas plantas lenhosas estão localizados nos tecidos dos troncos.

Processos de regeneração vegetativa pós-fogo O processo da rebentação pós-fogo em plantas lenhosas é um pr ocesso altamente regulado. nomeadament e os est olhos. necessária para a regeneração. c omo a auxina. 1995).64 III. persistente e fr equentemente lenhosa. Finalment e. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO rânicas (Whelan. que são caules rastejantes que crescem à superfície do solo e desenvolvem raízes a partir dos nós. 1995). Portanto é a morte das partes das plantas expostas ao fogo que inicia a r egeneração a par tir dos gomos. e no qual intervêm os mesmos factores que controlam a regeneração vegetativa subsequente a outras perturbações. r efiram-se out ras est ruturas subterrâneas como os bolbos e os cormos. A capacidade da planta regenerar a partir do lignotuber após o fogo poderá também depender da pr ofundidade a que está ent errado no solo e do seu tamanho (Whelan. Um cáudice é uma base caulinar subterrânea. da condição dos indivíduos antes do fogo. são t ranslocadas par a os gomos dormentes. típicos das Liliáceas e Iridáceas. particularmente as citoquininas. her báceas ou sub-lenhosas. É na extremidade dos caules e nas folhas que as hor monas são produzidas. como constituem uma estrutura de armazenamento de reservas de energia. A época do fogo e o estado fisiológico da planta interagem e influenciam a regenera- . do comportamento do fogo e das condições do meio ambiente. O crescimento da maioria dos gomos dormentes é governado pela dominância apical. Hormonas de cr escimento. Os gomos dormentes localizam-se também frequentemente em caules ou raízes de crescimento lateral em plantas lenhosas. A capacidade de rebentação depende de características morfológicas e fisiológicas da espécie. Diversas plantas per enes. possuem estruturas r egenerativas únicas. são então t ranslocadas par a os gomos causand o o se u crescimento. Os gomos que se desen volvem em r ebentos são ger almente aqueles mais próximos dos tecidos mortos. Substâncias de cr escimento localizadas nas r aízes. cujo crescimento aquelas inibiam. impedindo a emissão de rebentos. Os rizomas – caules horizontais subterrâneos – têm uma r ede regular de gomos d ormentes que podem produzir novos rebentos e raízes adventícias. As tuberosidades lenhosas são não só uma fonte de gomos a utilizar em caso de destruição da parte aérea. o que implica que a sua pr odução c essa quand o aqueles são eliminad os pelo fogo .

sendo tipicamente mais reduzida ou nula em plantas demasiado jovens ou mais envelhecidas. por exemplo r aízes e r izomas. por exemplo. A capacidade de regeneração vegetativa varia usualmente com a idade da planta. Relação geral entre a regeneração vegetativa e a severidade do fogo A energia libertada pelo fogo pode afectar a r egeneração vegetativa de várias formas. o que relacionou com a acumulação de reservas. ou est ejam pouco protegidos. por exemplo rizomas superficiais. Um fogo de se veridade moder ada consome as est ruturas vegetais situadas na folhada e topo da manta morta inferior. Em espécies desprovidas de estruturas capazes de armazenamento significativo de hidratos de carbono (como lignotubers). Os aumentos de exposição solar e de temperatura do solo após o fogo podem fa vorecer a magnitude da rebentação. que é menor após terem sido direccionadas para o crescimento. Um fogo de severidade reduzida pode eliminar espécies cujos componentes reprodutivos se localizem mais superficialmente. Até que os rebentos sejam fotossinteticamente auto-suficientes. já que ocorrem quando o armazenamento de reservas é mínimo. Cremer (1973). As plantas podem regenerar vegetativamente imediatamente após o fogo ou apenas na P rimavera seguinte se o fogo tiver ocorrido durante o período de dormência. .III. podend o matar gomos nas porções sub-super ficiais d os caules e na parte superior de tuberosidades subterrâneas. A capacidade de regenerar repetidamente após o fogo varia muito consoante as espécies. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 65 ção após fogo. fogos de Primavera podem ter um impacte maior na capacidade r egenerativa. a energia necessária para o seu crescimento procede dos hidratos de carbono e nutrientes armazenados nas estruturas regenerativas ou nas raízes. verificou que diversas plantas em flor estas de e ucalipto australianas regeneravam pior após períodos de rápido crescimento que após períodos de quiescência. pouco afectará os órgãos ent errados mais profundamente e estim ulará significativamente a rebentação em caso de destruição da copa. As plantas com gomos na manta morta inferior ou solo mineral produzirão rebentos. No entanto. mas em certas espécies o impac te é maior quand o o fogo oc orre no final da estação de crescimento. A frequência de fogo também é importante devido ao tempo necessário para que a planta reponha as reservas de energia gastas.

2005). por e xemplo. apenas par a referir duas famílias m uito importantes da flor a nativa em Portugal. 3. com a estratégia de colonização ou com a int eracção com o meio ambient e. abriu um vasto leque de possibilidades de dispersão das populações de plantas em ambiente terrestre. dos quais um dos mais importantes tem a ver com a r elação entre o númer o de sement es e o se u tamanho (Fenner e Thompson. dependendo da espécie. mas. tais como a pr otecção física d o embr ião e uma r eserva de n utrientes disponível para o seu desenvolvimento. Tendo em conta que as espécies evoluíram em ambientes onde os recursos são inevitavelmente limitados. foi possív el desenvolver mecanismos muito eficazes de expansão das populações de plantas. Desde a dispersão pelo vento até à dispersãopor animais ou pela c orrente dos rios. a g rande maioria das espécies de plantas vascular es têm a possibilidade de produzir sementes. existe toda uma diversidade de sementes. Essas adaptações têm a ver com o tipo de dispersão. especialmente quando há acum ulação de c ombustível lenhoso ou quand o a manta morta é espessa. 2003). Para além disso foi possível obter outras vantagens evolutivas para as plantas produtoras de semente. Deste modo será de esperar que espécies com sementes . O processo evolutivo deu or igem aos inúmer os tipos e for mas de sementes. A rebentação ocorrerá apenas a partir de órgãos localizados em áreas adjacentes ou profundamente enterrados. cada uma delas r esultando de adaptações e volutivas de natur eza di versa.. Desde as sementes minúsculas das C istáceas até às g landes pr oduzidas pelas Fagáceas. Em termos evolutivos.66 III. as sement es das plantas também e voluíram na base de compromissos. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO Um fogo de se veridade elevada elimina as plantas cujas est ruturas reprodutivas se localizam na manta mor ta e pode aquec er letalmente algumas partes incluídas nos níveis superiores do solo. pode ainda assim ser vigorosa. Regeneração seminal Independentemente da capacidade de cada espécie par regenerar vegea tativamente.2. o aparecimento das primeiras plantas produtoras de semente durante o Período Devónico Superior há cerca de 365 milhões de anos (Raven et al. aumentando assim as probabilidades de sucesso no processo de germinação e crescimento das plântulas. que se podem encontrar actualmente na nossa flora.

Para além da simples acção da g ravidade (barocoria). ocorrendo uma forte mortalidade na fase juvenil. Por sua vez. ao passo que mecanismos c om fr aco poder de . na medida em que as sementes de maiores dimensões estão normalmente associadas a espécies c om um ciclo de v ida mais longo. ocorrendo sobretudo na fase adulta. Difer entes for mas de dispersão c orrespondem a distâncias de t ransporte muito variáveis. Nestas espécies a colonização dos locais perturbados faz-se de forma massiva e a mortalidade não está muito dependente da densidade. ou através do transporte por animais (z oocoria). através do arrastamento pela água (hidrocoria). Por exemplo o transporte por animais pode ac ontecer externamente (epizoocoria) como é o caso das sementes que ficam agarradas ao pêlo dos mamíferos. Fornecimento e dispersão das semente Os mecanismos de dispersão das sementes são muito diversos e estão estreitamente associados às car acterísticas das própr ias sementes e dos frutos. 1987). De um mod o geral associam-se ciclos de v ida mais cur tos a plantas de menores dimensões. 2005). com a sua maior ou menor dependência da produção e disseminação de sementes. estas duas tendências evolutivas podem ser relacionadas com a capacidade das espécies para regenerar vegetativamente ou seja. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 67 de grandes dimensões sejam produzidas em pequenas quantidades e que sementes de pequenas dimensões sejam produzidas em grandes quantidades.III. Como veremos mais à fr ente. com uma produção mais precoce de sementes e adaptadas a ambientes mais sujeitos a perturbações não previsíveis como fogos ou inundações (Kozłowski e Wiegert. a duração do ciclo de vida tem sido associada à existência de um maior ou menor nível de perturbação nos ambientes onde as espécies e voluíram. Este aspecto é indissociável do ciclo de vida das diferentes espécies. Est es mod os de dispersão podem ainda ser bastante subdivididos e têm inúmeras variantes. para se propagarem. Normalmente associam-se os mecanismos com maior poder de transporte aos estádios mais avançados da sucessão ecológica. a dispersão das sement es pode faz er-se at ravés da acção d o v ento (anemoc oria). Pelo contrário. muito dependente da densidade de plântulas estabelecidas (Fenner e Thompson. ou internamente (endozoocoria) como é o caso das sement es ingeridas e post eriormente expelidas pelas a ves. as espécies associadas a menores níveis de perturbação têm à partida uma maturação mais tardia.

nomeadamente ao permitir uma circulação facilitada do vento e da água à superfície do solo. Aparentemente o efeito inibidor das cinzas na germinação.g. Algumas das pinhas podem permanecer durante 40 anos na árvore à “espera” do próximo fogo. verificado em laboratório por alguns autores (e.. No que t oca ao papel do fogo na dispersão das sement es. uma designação também referida como bradisporia. 2008). através de frutos que retardam a libertação das suas sementes durante períodos de vários anos. 2007) ou do género Eucalyptus (e. que dessa forma deixam uma grande quantidade de sementes disponíveis para a germinação. O pinheiro-bravo é referido como uma espécie que consegue manter um banco de sementes na copa através da produção de pinhas serôdias (F ernandes e Rigolot. por alguns autores (Whelan. No entanto nem todos os autores interpretam a produção e a libertação de sementes em massa.g. e o penisco pode manter-se viável durante 30 anos (Tapias et al. F ernandes e Rigolot. não é suficiente para impedir o elevado recrutamento de plântulas que se verifica em algumas áreas queimadas. o que per mite à sement e (penisco).. existindo no entanto numerosas excepções a esta regra geral. 1995).. Goubitz et al. simplesmente c omo uma adaptação ao fogo . Vivian et al. provida de uma asa de grandes dimensões. Lamont et al. 2008).g. 1990. 2007). Potts. As pinhas abrem entre dois a três dias após o incêndio. 2004. onde tem a possibilidade de germinar. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO dispersão. para além de uma dimin uição dos obstáculos físicos ao t ransporte das sementes (Whelan. podemos encontrar vários exemplos em que a deiscência das sementes é facilitada através da acção do calor sobre os frutos. são normalmente associados aos estágios iniciais (Aparicio et al. 1995). 2002). Aliás essa é igualmente uma das explicações apontadas par a a ir regularidade da pr odução de sement e ao longo do . Banco de sementes A estimulação da deiscência pelo fogo tem sido associada à manutenção de um banco de sementes na copa. N o entant o. 1991. 2004). Bo ydak.. Reyes e Casal. Uma das t eorias mais c orrentes explica a deiscência concentrada no tempo como uma forma de saciar os predadores. 2002.68 III. percorrer distâncias consideráveis na horizontal até cair sobre o manto já arrefecido de cinzas. É esse o caso de várias espécies do géner o Pinus (e.. a acção d o fogo pode ainda favorecer a dispersão de sement es de outras formas.

2006). 2003). 1995). dado que muitas sementes são enterradas por animais.III. 1998). que aproveitam o espaço criado pelo fogo. podem suportar temperaturas de 150º C durante alguns minutos (Reyes e Casal. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 69 tempo. o resultado de uma combinação temperatura/duração do aquecimento. De fact o a sobr evivência de uma semente ao fogo é. a partir de uma certa profundidade há um declínio acentuado nas taxas de germinação (Whelan. com das características do próprio fruto. No entanto. Relação entre a germinação e o fogo Devido ao facto de serem estruturas com uma actividade essencialmente latente em t ermos fisiológicos. ambas as variáveis contribuindo directamente para o aumento da mortalidade das sementes (e. A questão da sobrevivência ao fogo t orna-se ainda mais c omplexa se adicionarmos a questão da dur ação do aquecimento. quebrando a sua d ormência e permitindo a germinação. Já no que diz . dando igualmente origem a uma grande densidade de plântulas. Bell e Williams. tal como acontece com os tecidos vivos do tronco de uma árvore. em que anos quase sem pr odução alternam com anos de safr a (Kelly. para todas as plantas. 1995) independentemente da oc orrência ou não de fogo . Fenner e Thompson. sobretudo se pensarmos que as sementes que permanecem na folhada dificilmente resistem à passagem do fogo. Mesmo sementes c om um t egumento pouc o espesso c omo as g landes de algumas Fagáceas. O resultado em termos de colonização da área recentemente queimada é semelhante.g. 1994. as sement es apresentam naturalmente uma tolerância elevada ao calor (Whelan. dependendo não só das características do tegumento. A manutenção de bancos de sementes é ainda comum a várias espécies de arbustos como é o caso dos géneros Cistus e Lavandula. no caso dos exemplos referidos o banco de sementes é mantido ao nível do solo e não na copa. Para além destas formas de isolamento há a contar com o isolamento proporcionado pelo solo. Neste caso uma maior profundidade de enterramento das sementes poderá ser vantajosa. Para que tal possa ac ontecer é necessário que o fogo exerça um estímulo sobre as sementes depositadas no solo ao longo d os anos. 2005) tal como se verifica em espécies do género Quercus por exemplo (Abrahamson e Layne. No entanto a resistência das sementes ao calor é muito variável. para crescer em aper tada competição entre si. No entanto.

nomeadamente: o fumo (e. de entre os grupos de espécies arbóreas com maior relevância. Nestas espécies tudo se passa de modo a que possam completar o seu ciclo de vida. ou indirectamente através do calor que atinge os fr utos. as espécies do género Pinus. Em todo o caso. Muitos aut ores têm estabelecid o uma r elação est reita entre a capacidade das diferentes espécies para regenerar vegetativamente e as condições óptimas de germinação..g. através das brácteas das pinhas e as espécies do género Eucalyptus. De referir que o estudo dos mecanismos que permitem o estimulo da germinação das sementes após o fogo. Bell et al. tem sido das áreas mais prolíficas em t ermos de t rabalhos publicados. Para além do calor . 2000. 2005). a concentração de nitratos (e. 1999) e a exposição à luz (e..g. Luna e Moreno. Neste grupo incluem-se todas as espécies cujos indivíduos geralmente morrem após a ocorrência do fogo e que. Condições ambientais de germinação As diferentes espécies estão adaptadas a diferentes condições óptimas de ger minação. existindo uma enorme quantidade de artigos científicos relativos a comunidades de plantas de diversas regiões do Planeta. Um aspecto tão ou mais bem mais estudado que o papel do calor na destruição das sementes. antes da chegada do próximo fogo. Reyes e Trabaud. tem a ver com o papel do fogo como factor de estimulação da germinação. incluindo a produção de sementes.70 III. é importante ter em conta que os estímulos que permitem quebrar a dormência das sementes de pouco servem se não esti verem reunidas as condições ambientais necessárias à germinação. permitindo ou facilitando a sua deiscência (González-Rabanal e Casal. 1995. 2009). são apontados out ros factores que poderão contribuir para estimular a ger minação. através da protecção proporcionada pelas cápsulas que constituem o fruto destas espécies (Whelan. pelo que são designadas como espécies de regeneração obrigatória por semente (obligate seeders). estão completamente dependentes da regeneração por via seminal para poder assegurar a sua .g . 2009). Izhaki et al. As espécies que não têm capacidade de regeneração vegetativa dependem exclusivamente da produção de sementes para assegurar a continuidade da espécie. como tal. Clarke e French. 1995). EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO respeito à protecção proporcionada pelos frutos há que referir. Esta estimulação pode fazer-se directamente através do calor que atinge as sement es.

Estas espécies têm t endência a d ominar em z onas mais secas e menos fér teis e em fases pouc o evoluídas da sucessão ecológica. Rosmarinus e Halimium. Deste modo. Dado apenas poderem aceder a camadas de solo sujeitas a uma int ensa secura durante os meses de Verão. em detrimento do desenvolvimento das raízes. nomeadamente o calor proporcionado pelo fogo ou a simples abertura de clareiras. Deste modo. Díaz Barradas et al.III. menor área foliar. as plantas dos géneros Cistus. cutícula e mesófilo mais espessos e um mais eficient controlo estomático e (Keeley. Dad o o int enso r ecrutamento que oc orre sempr e que est ejam reunidas as condições necessárias à germinação. no sentido de evitar ao máximo as perdas de água. 1986). 1996. Lavandula. . De entre as espécies que ocorrem no nosso país são importantes representantes deste grupo. dando normalmente origem a relações raíz/parte aérea (biomassa) mais baixas (Figura 4).. 1981). estas plantas necessitam de adaptações estruturais de defesa contra a secura. de forma a manter o seu equilíbrio hídrico. produção de óleos voláteis. 1999) no âmbit o da classificação de M acArthur & Wilson (1967) para as estratégias populacionais. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 71 continuidade. sendo frequentemente associadas a matos baixos e dispersos (Margaris. as espécies de r egeneração obr igatória por sement e exibem frequentemente indumento nas folhas. estas espécies são normalmente conotadas com a estratégia r (Reyes. o in vestimento faz-se pr eferencialmente na parte aérea.

Phyllirea e Laurus.72 III. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO b a FIGURA 4 Imagens incluindo a raiz e a parte aérea de uma espécie (a) de regeneração obrigatória por semente (Lavandula luisieri) e de (b) uma espécie de regeneração vegetativa (Erica scoparia). 1998a). 1996. é nor mal referir estas espécies como estrategas k. Arbutus. Ao nível das espécies existentes em Portugal são incluídas neste grupo quase todas as espécies normalmente apontadas como dominantes das formações climácicas referidas para o nosso país. nomeadamente a matagais altos e apenas regeneram por semente quando estão reunidas condições ambientais mais favoráveis à germinação e ao crescimento das plântulas (Silva e Rego. entre outros. Já as espécies com capacidade de regeneração vegetativa estão frequentemente associadas a etapas mais avançadas da sucessão. Rhamnus. Pistacia. . O recrutamento é feito de forma gradual dando origem a baixas densidades de plântulas (Clement e et al. As escalas representam 0. Viburnum. 1998b).5 m. Silva e Rego. nomeadamente os géneros Quercus.. Dadas estas car acterísticas.

1974. No caso do género Acacia existem evidências experimentais quanto à estimulação da ger minação por acção d o calor proporcionado pelo fogo (Auld e Oconnell. apesar das evidências quanto ao aparecimento de plântulas em áreas queimadas. não há e vidências quant o à e xistência de um efeit o positivo do calor sobre a germinação das sementes (Reyes e Casal. Deste modo é possível igualmente uma dispersão a maior es distâncias at ravés d o ar rastamento pela água ao longo de r egos de escoamento superficial ou devido a fenómenos de fluxo laminar. Caso não existam estas formas de transporte. estas espécies quand o ger minam após o fogo apresentam vantagens competitivas relativamente à restante vegetação nativa. dando assim origem a quatro categorias distintas. De ent re as diferentes classificações salientamos o modelo proposto por Pausas (1999) o qual simplesmente sub-divide os d ois grupos de ac ordo com a e xistência ou não de um recrutamento de plântulas dir ectamente favorecido pelo fogo . sem vegetação (Vivian et al. espécies consumidoras e de competidores natur ais. Kirkpatrick. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 73 No entanto existem numerosas espécies que. apontam par a a ine xistência de banc os de sement es no solo e par a a preferência pela germinação em solos minerais. 1991) o que faz com que possa existir um elevado recrutamento de plântulas nas áreas queimadas. muito embora estando obrigatoriamente incl uídas n uma das duas cat egorias r eferidas. a regeneração deverá circunscrever-se . Nas condições do nosso país impor ta ter em c onta várias espécies exóticas devido à sua capacidade de regeneração por semente após o fogo. 2009). 2008). Os pouc os t rabalhos publicados sobr e o assunt o.. Há antes indícios de que a libertação das sementes poderá ser facilitada por fogos de copas e que a sua disseminação poderá ser pot nciada através do e transporte de ramos e cápsulas pelas correntes de convecção (Carr. Devido à ausência de pr agas. Já no que t oca ao géner o Eucalyptus e em par ticular à espécie Eucalyptus globulus. nomeadamente as espécies do géner o Acacia e Eucalyptus (Marchante et al. não correspondem minimamente ao padrão de características descrito.. 2001). 1977). Estas car acterísticas são c omplementadas por uma ele vada rusticidade. Daí a necessidade constatada por vários autores de identificar sub-grupos que tivessem um número mínimo de semelhanças funcionais nomeadamente no que t oca às adaptações ao fogo . por uma ele vada taxa de cr escimento e por uma ele vada resiliência ao corte e ao fogo.III.

Podem assim ocorrer múltiplas alternativas nunca se ating indo um estádio v erdadeiramente estável devido à oc orrência de per turbações de natur eza di versa (C hristensen. . De entre estes factores importa referir o regime de fogo. senvolvimento da v egetação nas nossas c ondições segue um per curso que depende de múltiplos factores e que. 2005): a intensidade do fogo e a sua fr equência. 1988) incluindo o fogo (Cattelino et al. como é o caso de Portugal. 4. Em todo o caso de ve referir-se a g rande lacuna de conhecimento a este respeito para o nosso país. Deste modo as características do fogo podem actuar c omo um mecanismo selecti vo que infl uencia a futura composição da comunidade nas áreas queimadas (Bond e Keeley. No que t oca ao r egime de fogo há sobr etudo a t er em c onta duas variáveis com uma r elação sensivelmente inversa (Whelan. Também o conceito de vegetação natural potencial para um dado local tem vindo a ser contestado igualmente devido à instabilidade dos ecossistemas. Bond e Keeley. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO a alguns metros em volta das árvores mãe. sobretudo em regiões sujeitas a perturbações recorrentes desde tempos remotos (Chiarucci et al. 1979). após a passagem de um incêndio o de.. Variabilidade e incerteza nos padrões de sucessão ecológica após fogo O conceito clássico de sucessão ecológica como um processo mais ou menos linear de evolução da vegetação em direcção a um estádio climácico estável. por esse motivo. não é fácil de prever com exactidão. o que pode indiciar um potencial de disseminação de sementes superior ao referido pela literatura disponível até agora. as características da vegetação antes do fogo e as características edafo-climáticas do local.74 III. como vimos anteriormente neste capítulo. 1990. Deste modo. que torna difícil conhecer o resultado da sucessão ecológica. 1995. Virtue e Melland. 2010). De acordo com trabalhos actualmente em curso há observações de regeneração de eucalipto em áreas queimadas a mais de 150 m d o sementão mais próximo.. e em função da sua altura (Potts. a probabilidade de mor talidade de for ma diferenciada para diferentes espécies e para diferentes fases de desenvolvimento. tem vindo a ser substituído pela ideia de que esse pr ocesso pode ser bastante mais complexo. A intensidade do fogo determina. 2003).

2010). devido às características do ritidoma que permitem a sobrevivência a elevadas temperaturas e. tais como as espécies do género Juniperus (Lloret e Vilà. Dois exemplos típicos do nosso País são o sobr eiro e o pinheir o-bravo. quer por que o fogo t em um efeit o de selecção ao eliminar algumas espécies. e uma ele vada frequência de or igem antropogénica. permitindo a continuidade de outras. O desaparecimento é mais provável ainda para as espécies que não apresentam mecanismos evidentes de adaptação ao fogo. 2007). sendo apenas afectada a vegetação do sub-coberto. ambos apontados como exemplos de selecção pelo fogo (C arrión et al... típicas de estádios mais precoces do processo de suc essão ec ológica. sobretudo nas zonas com menor produtividade (e. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 75 2005). Apesar de tud o diferentes autores têm reportado o papel fundamental das características . 2005). podemos ter alterações ao nível de toda a comunidade de plantas. Tal pode ac ontecer. No entanto. quer por que surgem novas espécies dominantes. Pelo contrário.. o que pode implicar a substituição d o tipo de floresta anterior por um out ro diferente (e. Broncano et al. 2005).g. Acácio et al. em regimes de fogo que combinam simultaneamente uma ele vada int ensidade.. 2000. o pinheiro-bravo perde a sua c ompetitividade devido à impossibilidade de refazer o banco de sementes das copas (Fernandes e Rigolot. devido à facilidade de colonização de áreas queimadas através da dispersão das sementes. no caso do pinheiro-bravo.III. Por outro lado existem evidências que apontam para uma perda da capacidade de resiliência da vegetação para regimes de fogo com elevada frequência. No entanto em áreas de vegetação com características distintas (diferentes usos do solo ou diferentes estádios de desenvolvimento) mas partilhando as mesmas características de solo e clima. Fernandes e Rigolot. As car acterísticas da v egetação ant es d o fogo assumem uma importância fundamental na medida em que determinam o seu potencial regenerativo quer em termos de composição quer em termos de taxa de crescimento. Delitti et al. 2009.. Em fogos de baixa int ensidade podemos t er uma muit o baixa mortalidade da vegetação arbórea. 2003). 2003. em fogos de c opas de ele vada intensidade. de vido à ele vada carga de combustível. Loepfe et al. 2007) o que pode ditar o se u desapar ecimento d o pr ocesso de suc essão ec ológica.g. o fogo pode provocar uma homogeneização da paisagem dando origem ao reinício da sucessão a partir de fitocenoses arbustivas com características semelhantes (Lloret e Vilà.

na medida em que a composição da comunidade de plantas que surge após o fogo depende da regeneração vegetativa e do banco de sementes associados às espécies previamente existentes (Trabaud e Lepart.. 2009). Essa influência faz-se sentir directamente no desenvolvimento da vegetação. sobretudo a água. quer no que diz respeito ao desenvolvimento global da vegetação após fogo (Röder et al. Capitanio e Carcaillet. Baeza et al. pode ser razoavelmente representado por uma curva exponencial tendencialmente assimptótica ( Viedma et al.. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO da vegetação antes do fogo na suc essão ecológica. 2001. Deste modo o resultado da sucessão pode ser sig nificativamente diferente para diferentes condições de clima. No entanto este padrão é fortemente influenciado por factores locais assim como pelo tipo de plantas previamente existentes. Apesar da ele vada variabilidade associada ao per curso da vegetação após o fogo. existem alguns padrões mais ou menos comuns que importa referir. 1997.. No caso de o crescimento ser essencialmente o resultado . 2008).. na medida em que aquelas car acterísticas det erminam o nív el d os fact ores limitant es d o crescimento vegetal. 2001. a temperatura e os nutrientes para as regiões de influência mediterrânica. 2008) dada a reduzida competição entre as plantas na área recentemente queimada. Guo.. 2007. apesar de se processar a diferentes taxas dependendo da produtividade da estação e das estratégias regenerativas envolvidas.76 III. 1980. Estas considerações são igualmente válidas par a as condições edáficas. 2008) quer no que diz respeito à selecção de espécies devido à influência diferenciada que é exercida sobre diferentes grupos de plantas (Prieto et al. Capitanio e Carcaillet. 2005. Factores inevitavelmente inter-relacionados como a profundidade do solo. Um outro padrão sensivelmente comum prende-se com o crescimento da vegetação o qual. são determinantes no potencial de crescimento assim como no elenco de espécies e na diversidade da vegetação que surge após um incêndio (K eeley et al... 2005). A este respeito vários autores referem um aumento temporário da diversidade. Capitanio e Carcaillet. Um deles prende-se com a evolução da diversidade vegetal. durante os 1-3 anos que se seguem imediatament e ao fogo (G uo. nomeadamente quanto às estratégias regenerativas após o fogo (Keeley et al. 2005.. As características do solo e d o clima locais têm um papel igualment e importante no percurso da vegetação após um fogo. Keeley et al. o teor médio de humidade ou o tipo de rocha-mãe. 2008). 2008). Röder et al.

Num estudo na Ser ra da Arrábida. carrasco). a taxa de recuperação da vegetação pode ser particularmente elevada nos primeiros anos após fogo. Em ambos os locais de estud o. Podemos ainda referir a existência de padrões quanto à sucessão de plantas. 1996. Existem no entanto informações razoavelmente consistentes sobre a evolução da vegetação no curto prazo em que intervêm espécies com e sem capacidade de regeneração vegetativa assim como espécies com e sem recrutamento estimulado pelo fogo. Através de uma abordagem sincrónica foi possível determinar a abundância de regeneração seminal ao longo de três etapas da sucessão ecológica (Figura 5). Em Portugal são praticamente inexistentes os estudos de longa duração sobre a sucessão da vegetação após fogo. verificou-se um aument o d o estabelecimento de novos indivíduos das espécies mais exigentes em termos de água e de solo (medronheiro. Clemente et al. A este respeito têm sido estabelecidos modelos genéricos de sucessão utilizando as estratégias regenerativas após fogo (ver a secção 3 neste capítulo). taxonómico ou regenerativo. Notavelmente estes modelos apresentam características comuns às diferentes regiões com clima mediterrânico do Planeta. todas elas com capacidade de regeneração vegetativa.. Pelo contrário as espécies c om elevada capacidade inicial de c olonização (nomeadamente Cistáceas e alecr im) foram perdendo essa capacidade nas etapas mais avançadas. Após esse período inicial o carrasco passou a dominar a estação o que implicou o desaparecimento dos outros dois grupos de plantas. Delitti et al.) nos pr imeiros anos após o fogo .. 2005). (1996) v erificaram uma colonização inicial de plantas her báceas e de plantas de r egeneração obrigatória por sement e (Cistus sp. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 77 da contribuição de plantas com regeneração vegetativa vigorosa como é o caso do carrasco (Quercus coccifera). gilbardeira. simultaneamente com uma rebentação vigorosa de car rasco (Quercus coccifera). apesar de en volverem espécies filogeneticamente distantes entre si (Keeley. (Clemente et al. de acordo com o seu tipo fisionómico.III. . Resultados semelhant es for am obtid os por S ilva e R ego (1997) em estudos realizados nas Serras da Malcata e de Candeeiros. 1986).

2 0 B1 Halimium lasianthum Halimium ocymoides Pinus pinaster B2 ESTÁDIOS DA SUCESSÃO R Arbutus unedo Pterospartum tridentatum 1 CANDEEIROS 0.2 0 B1 Cistus monspeliensis Rosmarinus officinalis B2 ESTÁDIOS DA SUCESSÃO R Ruscus aculeatus Quercus coccifera FIGURA 5 Variação na frequência relativa de plântulas (regeneração seminal) ao longo de 3 es tádios da sucessão.6 0. Espécies de regeneração exclusiva por semente são representadas por linhas a negrito. B1 – vegetação com 1-3 anos. . R – v egetação com mais de 10 anos.4 0.8 0. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 1 MALCATA FREQUÊNCIA RELATIVA 0.4 0. A vegetação com 3 anos foi associada aos estádios B1 ou B2 em função do grau de coberto e da altura média.6 0.8 FREQUÊNCIA RELATIVA 0.78 III. B2 – v egetação com 3-10 anos.

Este foi o r esultado encontrado por Acácio et al. Crawford et al. a recuperação da vegetação nativa após fogo pode encontrar dificuldades acrescidas e o padrão de sucessão ser consideravelmente alterado. Dado o elevado potencial de regeneração e cr escimento de algumas destas espécies (nomeadament e os géneros Acacia. a dispersão de sementes. A elevada ocorrência de fogo em algumas regiões do nosso país poderá estar a contribuir para agravar esta situação na medida em que estas espécies podem tirar vantagens competitivas deste tipo de per turbações tal como é referido por diversos autores. Resta lembrar que os conhecimentos a este respeito em Portugal são ainda essencialmente de natureza empírica.III. relativamente a out ras regiões.. Eucalyptus e Ailanthus). Brooks et al. 2004). devido a constrangimentos relacionados com: a disponibilidade de sementes. (e. . Um outro factor de incerteza. devido a constrangimentos de ordem diversa relacionados com a dificuldade de passagem ao estádio de floresta. 2001. pelo que urge conseguir um maior nível de infor mação sobr e o papel das espécies e xóticas na suc essão ecológica após o fogo. (2007) em estevais da Serra do Caldeirão no Algarve. EFEITOS DO FOGO NA VEGETAÇÃO 79 No entanto depois de se atingir a fase de matagal poderá existir o que podemos designar como um impasse ecológico.. para as condições do nosso país. onde se verificou a dificuldade de regeneração da floresta natural de sobreiro.g. a germinação de sementes e o recrutamento de plantas. já referido anteriormente prende-se com a presença de espécies lenhosas exóticas.

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Fuga 3. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA RUI MORGADO FRANCISCO MOREIRA 1. Alimento 4. Efeitos do fogo na fauna a médio/longo prazo 4.1.87 EFEITOS DO FOGO IV. Mortalidade e ferimentos 3.1. Métodos para avaliar o impacto do fogo sobre a fauna 6. Introdução 2. A importância do regime de fogo e das características biológicas das espécies 3. Notas finais: implicações para a gestão . Atracção 4.2. Efeitos do fogo na fauna a curto-prazo 3.2. Habitat 5.3.

independentemente da sua origem (natural ou humana). A espessura das setas é proporcional à magnitude do impacto. em relação aos animais são ainda escassos os e xemplos de tais adaptações. 1998). dos efeitos de médio/longo-prazo. não só um importante factor ecológico mas também uma força evolutiva que terá influenciado e moldado estas comunidades. A acção do fogo sobre as comunidades animais e vegetais durante milhões de anos constituiu assim. Introdução Na Região Mediterrânica o fogo constitui uma perturbação ancestral associada às car acterísticas climáticas desta r egião e à for te presença humana ao longo de milhares de anos. 1995). EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 1. existindo. intimamente ligado à dinâmica dos ecossistemas (e. FOGO (curto prazo) EFEITOS DIRECTOS (médio/longo prazo) EFEITOS INDIRECTOS MORTALIDADE -FERIMENTOS +/-HABITAT refúgio e alimentação +/-ALIMENTO quantidade e qualidade MOVIMENTOS FUGA + ATRACÇÃO FIGURA 1 Quadro-resumo dos efeitos directos e indirectos do fogo sobre a fauna. se em relação às plantas mediterrânicas existe já bastante informação sobre as suas adaptações ao fogo. Blondel e Aronson. também denominados de efeitos directos.g. por isso. A divisão mais comum separa os efeitos de curto-prazo. Está igualmente assinalada a direcção dos impactos sobre as populações.g. imediatos ou agudos. Whelan. . alguma controvérsia sobre a ideia de adaptação exclusivamente devida ao fogo (e. Os efeitos do fogo sobr e a fauna são nor malmente agrupados relativamente à sua dimensão temporal. inclusivamente.88 IV. No entanto. Está. positivos (+) ou negativos (-). também denominados de efeitos indirectos ou crónicos (Figura 1).

2.. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 89 Os efeit os de cur to-prazo oc orrem dur ante a fase de c ombustão propriamente dita e dur ante a fase de c hoque pós-fogo.g . heterogeneidade. extensão. ea . efeitos de médio-longo pr azo correspondem à fase de r ecuperação e podem fazer-se sentir ao longo de vários anos após o fogo. etc. A importância da frequência de incêndios sobre a fauna é ób via. velocidade de propagação. os . pr ovavelmente o fact or c om maior influência no efeito do fogo sobre a fauna (Figura 2). frequência. de flor esta par a mat os) e assim t er efeit os permanentes nas comunidades animais originais. ÉPOCA DO ANO SEVERIDADE DOS EFEITOS NA FAUNA DIMENSÃO ÁREA ARDIDA FREQUÊNCIA VELOCIDADE PROPAGAÇÃO INTENSIDADE FIGURA 2 O regime de fogo. incêndios frequentes podem alterar permanentemente a v egetação (e. velocidade de propagação e dimensão da ár ardida. Este regime pode ser caracterizado at ravés de uma sér ie de var iáveis c omo se jam a sua intensidade.IV. frequência. em particular a época. forma. época do ano. que se irão reflectir no grau de severidade sobre as populações animais. vão reflectir-se na severidade sobre as populações animais. podendo esta última durar até algumas semanas ou meses após o fogo Por seu lado. A importância do regime de fogo e das características biológicas das espécies O r egime d o fogo c onstitui. intensidade.

Prodon. Estas manchas constituem refúgio e áreas de alimentação da fauna. incêndios de elevada intensidade podem destruir totalmente o habitat e aliment o de uma espécie.90 IV. C omparativamente c om uma ár ea não ardida (a). quando já não há ninhos. A época do ano em que ocorre o incêndio pode também determinar o grau de afectação da fauna. um incêndio de ele vada severidade destruirá toda a vegetação presente (b). . mas após um incêndio de baixa intensidade podem permanecer parcelas não ardidas de vegetação que servem de refúgio para a fauna (Figura 3). incêndios de maior intensidade provocam maiores índices de mortalidade nos indivíduos abrigados ou enterrados no interior da área ardida devido à maior temperatura que atingem (e. observou mortalidade nula com baixas intensidades. quer após o fogo. A dimensão da área ardida é outro factor importante uma vez que det ermina a distância que animais têm para dispersar quer antes do fogo. enquanto que um incêndio de baix severidade permitirá que manchas de v a egetação não ardidas permaneçam no interior da área queimada (c). ovos ou crias não voadoras. b a c FIGURA 3 Importância da se veridade do f ogo na f auna. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA Relativamente à intensidade.g . Bellido (1987). Para além disso. 2000). terá muito maior impacto do que um incêndio de outono. num estudo sobre a mortalidade de invertebrados do solo após fogos de diferentes intensidades numa zona de mato. e mortalidade de todos os invertebrados até 1cm de profundidade no fogo mais intenso. Um incêndio de pr imavera que ocorra durante a época de nidificação de uma espécie de ave. em particular nas espécies que nidificam em arbustos ou no solo.

Espécies c om carác ter mais especialista tenderão também a sofrer mais impacto do fogo relativamente a espécies mais gener alistas. se o habitat ou aliment o no qual se especializaram se reduzir ou simplesmente desaparecer. o seu grau de especialização em termos de habitat. no caso da perdiz vermelha (Alectoris rufa). a tendência será par a a época de fogos se estender no tempo (por exemplo de Abril a Novembro) e agravar ainda mais a situação. inevitavelmente. . de acordo com os cenários climáticos futuros.g . alimento e reprodução. são de esperar maiores níveis de mortalidade se os fogos coincidirem com as suas estações reprodutoras.g . ao aumento da taxa de mortalidade sobre esta espécie. entre espécies com diferentes características biológicas ou que ocupam difer entes nichos ecológicos (e. a sua capacidade de dispersão . sugerindo que o impacto do fogo nestas espécies podia pr ever-se a par tir destes seus requerimentos ecológicos. espécies arborícolas versus espécies fossor iais). A época do fogo pode também influenciar os níveis de mortalidade nos pequenos mamíferos (sobretudo roedores). dentro do mesmo grupo faunístico. Além disso. ao sobrepor-se com o período de incubação da espécie.IV. o que c onduz. etc. Por exemplo. uma ave residente de elevado interesse cinegético. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 91 Este factor pode ser par ticularmente importante no actual contexto de alterações climáticas que podem ant ecipar a época de oc orrência de incêndios para o início da Primavera. mamíferos e a ves). Outro tipo de fact ores que infl uenciam o efeit o do fogo na fauna dizem respeito às car acterísticas biológicas das espécies – incl uindo os seus hábitos comportamentais. É por isso de esperar que existam diferenças no efeito do fogo sobre diferentes grupos de fauna (e. verifica-se que a actual época de incêndios que se concentra entre os meses de Junho e Outubro coincide nalgumas áreas com a época de ocorrência de crias não voadoras ou de jo vens voadores. a sua posição na cadeia t rófica. ou até. devido à destruição dos seus ninhos e crias. Friend (1993) efectuou uma revisão sobre a resposta ao fogo de pequenos vertebrados (mamíferos. répteis e anfíbios) em 2 habitats da Austrália temperada e encontrou r espostas c oncordantes em espécies c om r equerimentos semelhantes em termos de abrigo.

EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 3. em duas regiões da Austrália. Apesar dos números envolvidos. uma tarefa complexa. A morte por asfixia não é. A maioria dos animais parece resistir. a ausência de out ros registos de mor talidade de adultos faz supor que estes fenómenos deverão ser muito pouco frequentes e ocorrer apenas em circunstâncias excepcionais. os efeitos de mortalidade e ferimentos atingem geralmente uma pequena proporção das po pulações afectadas pelo fogo. Apesar disso. Efeitos do fogo na fauna a curto-prazo Os efeitos do fogo na fauna fazem-se sentir de forma directa e imediata (Figura 1) e são essencialmente observados ao nível do indivíduo. os resultados disponíveis sugerem que. de elevada velocidade de propagação e que produzem espessas cortinas de fumo. 3. quer fugindo. e o regime de fogo. no entanto. Os trabalhos científicos que envolvem a observação directa e contabilização de cadáveres carbonizados em áreas ardidas são muito escassos. Para além desta. As características biológicas das espécies. A morte de mamíferos de grande porte ocorre normalmente associada a fogos de grande dimensão. O efeito mais importante de curto-prazo é a mortalidade. exclusiva deste grupo. 1989). mas . e não existem para a região da Bacia Mediterrânica. Estes efeitos são geralmente avaliados a partir de estudos/observações efectuadas durante o fogo ou até algumas semanas ou meses após o fogo. Há no entanto excepções. Mortalidade e ferimentos A mortalidade constitui o impacto negativo mais óbvio sobre as populações animais. o fogo pode também provocar ferimentos ou levar os animais a efectuar movimentações. tendo sido igualmente registada em mamíferos de pequena dimensão que se refugiaram em abrigos no interior da área ardida. a disponibilidade de refúgios. particularmente a intensidade e época do fogo.1. De facto a asfixia (por inalação de fumo) parece ser a principal causa de morte para estas espécies nestas circunstâncias (Singer e Schullery. no entanto. até movimentos de emigração ou imigração de maior amplitude. pertencentes a cerca de 60 espécies diferentes.92 IV. Hemsley (1967) e Wegener (1984) encontraram milhares de cadáveres de aves carbonizados. que podem variar de simples fugas às chamas. quer encontrando abrigos no interior da área ardida. A estimativa da mortalidade devida ao fogo é. ao contrário do que se poderia pensar.

uma menor capacidade de deslocação e assim as est atégias relativas r à procura de abrigos assumem maior impor tância. utilizando para isso os seus abrigos habituais (e. buracos. genericamente.g. parecem ser os factores determinantes nos níveis de mortalidade e ferimentos observados. há uma tendência para evitarem o fogo usando refúgios no interior da área ardida. velocidade de propagação e duração. e com maior velocidade de propagação tendem a estar associados a níveis de mortalidade mais elevados.) ou outros que entretanto encontrem.g. anfíbios e micr omamíferos). o que diminui consideravelmente o seu risco de morte. Os mamíferos apresentam. Em relação ao regime de fogo pode dizer-se. Assim. No caso dos micromamíferos. Para além disso também diferem na sua capacidade de locomoção (e.g. mais unifor mes. algumas espécies de micr omamíferos). artrópodes alados. As aves apresentam em geral grande capacidade de deslocação e é. túneis subterrâneos. zonas de vegetação mais húmida). répteis.g. ou utilizando manchas de vegetação não ardida ou onde o fogo foi menos intenso (e. voadores vs. sendo que os animais c om menor mobilidade e que vivem na superfície do solo tendem a ser mais afectados (e. invertebrados do solo. uniformidade. Os ar trópodes t errestres apr esentam uma g rande di versidade de características biológicas que dificultam a definição de um padrão típic o nos seus nív eis de mor talidade. é de esperar que neste grupo o fogo possa ter mais impacto nas espécies que utilizam abrigos mais junto à super fície. aves. relativamente às aves. os efeit os negati vos tendem a ser de menor importância em animais com maior capacidade de deslocação (e. como constatou Simons (1991).g . determinados invertebrados. relativamente às espécies que utilizam abrigos subterrâneos. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 93 também a sua dimensão. mamíferos de grande porte) ou nos que vivem enterrados no solo ou em tocas (e. No que r espeita às car acterísticas biológ icas. etc. não-voadores) e na selecção de micr o-habitats (e.g. tocas.g.IV. Os mamíferos de maiores dimensões procuram geralmente locais seguros em parcelas não ardidas no int erior da ár ea ardida ou pr eferencialmente for a da ár ea ardida. As difer entes espécies de ar trópodes terrestres diferem nos seus ciclos de vida e podem ocorrer em diferentes estádios (imaturos ou maturo) quando o fogo se inicia. solo mais ou menos . nas fases de cria e de juvenil não voador que o risco de mortalidade pelo fogo é mais ele vado. que fogos mais intensos.

E vans (1988) r eporta valor es de mor talidade de gafanhotos m uito r eduzidos após fogo c ontrolado pr imaveril n uma pradaria no K ansas (E. 1989). Por outro lado. Nesta época os indivíduos adultos refugiam-se normalmente perto de água ou em cavidades no solo. 1999). 1999). o Verão na região mediterrânica) alguns g rupos e espécies de in vertebrados do solo têm t endência para se refugiar em zonas mais profundas do solo onde existe maior teor de humidade. que fogos nestas épocas possam causar menores níveis de mortalidade nestas espécies (Prodon et al. por que a maior ia das espécies oc orria apenas no estad o de ovo (enterrado) durante a época d o fogo. ainda que muitos destas espécies.. debaixo de pedr as. apresentem uma mobilidade limitada (Russel et al. e que por tanto ar dem menos.). sendo de esperar. existem poucos registos de mor te ou ferimento induzidos pelo fogo..g . e fogos menos intensos aumentarão as suas probabilidades de sobrevivência. aumentando assim as suas hipót eses de sobrevivência face ao fogo. Bock e Bock (1991) obser varam uma r edução de 60% na abundância c ombinada de adult os e ninfas de gafanhotos após um fogo int enso numa pradaria do Arizona. Em relação a estes é possível que o facto de ocuparem normalmente habitats ou micro-habitats aquáticos ou com razoável grau de humidade. particularmente os anfíbios. por isso. vegetação). causar alguma mortalidade. Estes factores interagem ainda com o regime de fogo. superfície do solo. Para além disso a principal época de fogos na região mediterrânica – o Verão – coincide com a época em que vár ias espécies de anfíbios se encontram em período de letargia (estivação) face à reduzida humidade atmosférica e temperaturas elevadas. embora de baixa intensidade.. podem. o que faz com que os níveis de mortalidade neste grupo sejam muito variáveis. Por exemplo..A.94 IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA profundo. possa c ontribuir par a est es r esultados (Russel et al. fogos controlados realizados a seguir às primeiras chuvas outonais. podendo mesmo estivar ou entrar em diapausa. Em c ontrapartida. no entanto. 1987). Esse efeito estará dependente. do grau de protecção do seu abrigo e da intensidade do fogo. Em relação à her petofauna. eventualmente. por coincidirem .U . Durante as épocas mais secas (e. Para os artrópodes com menor capacidade de locomoção há uma tendência para aqueles que vivem enterrados no solo sofrerem menos impactos do que aqueles que v ivem à sua super fície ou sobre a vegetação (Prodon et al. etc. sendo de esperar que abrigos mais profundos e húmidos..

sendo também de prever que as espécies que utilizam abrigos com alguma profundidade sejam menos afectadas. uma vez que depende das características do fogo. Muitas espécies voltam rapidamente à área ardida depois do fogo. que nalguns casos lhes permitirá fugir à frente da linha de fogo. ou pur a e simplesmente devido à sua fidelidade à ár ea (site . do grau de alteração/ destruição do habitat e/ou recursos alimentares produzido e do período de t empo que est es le vam a r ecuperar.IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 95 com uma das épocas de maior actividade deste grupo (Bury et al.g . Os répteis.. 2002). apresentam algumas vantagens em relação aos anfíbios como uma capacidade de locomoção ligeiramente superior. como sejam as condições edáficas e de humidade. encontram-se normalmente activos nos meses de maior calor. e uma pele mais seca e escamosa. particularmente. A maioria das aves abandonam o seu habitat enquanto está a ar der para evitar ferimentos mas muitas regressam após algumas horas ou dias. mas pr incipalmente da intensidade do fogo e. pode dizer-se que os diferentes padrões de comportamento de fuga ou emig ração observados dependem no imediat o da capacidade de locomoção dos vários grupos e espécies.2.e portanto mais preparada para resistir à dessecação. Por outro lado. as manchas de vegetação não ardida quer no interior da área ardida. com o aproveitamento da alt eração do habitat produzida pelo fogo. Fuga Outra das respostas mais frequentes dos animais ao fogo é a fuga desses locais assim que o fogo é detectado. e De um modo geral. Est e períod o de r egeneração é obviamente muito variável. a ves flor estais r elativamente a fogo de baixa intensidade). das condições locais. uma vez que dur ante o períod o de ausência da ár ea ardida. são fortemente seleccionadas como locais de refúgio das chamas e muitas vezes como locais de permanência até regeneração do seu habitat. ao contrário dos anfíbios. 3. outras podem abandonar a área durante períodos superiores (até 1 a 2 anos) e algumas podem mesmo não r gressar. e também da variação climática após o fogo. O seu regresso pode estar relacionado com as reduzidas alterações estruturais no habitat (e. que coincidem com o período de fogos. A utilização de cavidades constitui a sua principal defesa em relação à passagem do fogo. quer fora. A forma e uniformidade do fogo podem também infl uenciar estes comportamentos para algumas espécies.

g. Logo após o fogo m uitas espécies de micromamíferos também podem abandonar as áreas ardidas. (1975). tem sido evocado por vários autores para justificar a per manência de certas espécies de aves em ár eas onde o se u habitat foi bastant e alterado pelo fogo e. nalguns casos. 1985). Os micromamíferos tendem a procurar refúgio no interior da área ardida. Pons. 1998). e por tanto não ar dida. por exemplo em zonas de vegetação que não arderam. a sua adaptação a essas no vas circunstâncias (e. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA fidelity). diminuição da disponibilidade de alimento e maior interacção entre indivíduos (Vacanti e Geluso. Este efeito comportamental de site fidelity. Relativamente aos mamíferos. preferencialmente fora da área ardida. no entanto. dependendo principalmente da int ensidade e severidade do fogo. e aí tentar sobreviver à passagem fogo. por exemplo. O período de ausência da área ardida e de restabelecimento das densidades pré-fogo pode ser m uito variável. o abandono pode ser mais alargado ou mesmo definitivo devido ao facto do habitat já não providenciar a estrutura ou o alimento que requerem para sobreviver e se reproduzirem. Izhaki e Adar (1997). estudando a sucessão da comunidade de aves não-reprodutoras num pinhal ardido em Israel. Christensen. Para outras espécies de aves. relacionado com a associação das aves à sua área vital e locais de alimentação familiares. os animais de grande porte e de grande mobilidade par ecem ser capaz es de se mo verem r apidamente par a manchas de habitat não queimado. reportam a ocorrência de micromamíferos após fogo em manchas de vegetação mais húmida associada a linhas de água. referem o abandono da ár ea por par te de algumas espécies dur ante os primeiros dois anos após o fogo e o seu progressivo regresso no período de 3 a 5 anos pós-fogo. por exemplo. Existem também observações de movimentações de grandes mamíferos através a linha de fogo par a áreas já ar didas (e.96 IV. . e La wrence (1966) r egistou também a sobr evivência de micromamíferos em arrifes rochosos no interior de uma zona de mato (chaparral) percorrida por um fogo . O c omportamento t erritorial ou a familiar idade c om as ár eas que entretanto ar deram têm sid o apontad os c omo uma das possív eis explicações para este fenómeno. 1980). As r azões apontadas par a esse fenómeno incl uem a dimin uição da protecção contra predadores.g. Newsome et al.

onde indivíduos adultos foram observados a abandonar a área à frente da linha de fogo. .g . Por exemplo. Gandar (1982) verificou o mesmo padrão de forma indirecta. evidenciando um movimento de indivíduos da zona ardida para zonas não ardidas. e cerca de 4 meses após o fogo as densidades nas duas áreas eram de novo semelhantes. quer em termos qualitativos (Figura 4). e consequentemente vai at rair também menos a ves insectívoras. Existem vários casos de espécies de aves que são atraídos para a frente de chamas ou para as áreas recentemente ardidas. um fogo m uito severo. em muitos casos. das áreas não ardidas para a área ardida). É de esperar que este comportamento seja mais frequente em espécies c om maior capacidade de dispersão (e. Várias espécies aumentam a sua abundância dur ante alguns dias ou semanas nestas áreas. 1972). ao mesmo tempo que a espécie desapar eceu praticamente da área ardida. pode at rair menos insect os do que um fogo de severidade média.IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 97 A importância potencial da fuga ao fogo das po pulações animais está bem ilustrada nos estudos de gafanhotos acridídeos na savana africana (Gillon. acompanhando o desenvolvimento da vegetação. artrópodes alados. mamíferos de grande porte). Alguns dias após o fogo c omeçou a verificar-se um mo vimento gradual de indivíduos no sentido in verso (isto é. que podem assim rapidamente colonizar/explorar estas áreas. ou pelas ár eas r ecentemente ar didas. Este autor observou que após o fogo a densidade de gafanhotos aumentou fortemente nos blocos de vegetação não ardida.g . que por sua v ez pode influenciar os padrões de at racção de difer entes g rupos ou espécies. Atracção Os animais podem ser também atraídos pelo calor. carcaças de animais queimad os) e a acessibilidade a esse alimento para predadores oportunistas ou necrófagos. quer em termos quantitativos. P or out ro lad o est e tipo de incêndios pode aumentar a disponibilidade alimentar (e. uma v ez que depende essencialmente do efeito do fogo no ecossistema. 3. e que.3. que provoca a dest ruição de t oda a vegetação existente. aves. O pr incipal motivo destas deslocações par a áreas queimadas está r elacionado com o aument o t emporário da disponibilidade de recursos alimentares. chamas ou fumo durante a fase de c ombustão. A relação entre os padrões de at racção e o r egime de fogo é c omplexa.

(1982). Parker (1974) r efere impor tantes concentrações de a ves de r apinas e necrófagas durante o fogo. e o seu uso de áreas recém ardidas para caçar. observaram garças-boeir as ( Bubulcus ibis) e peneir eiros amer icanos (Falco sparverius) a alimentarem-se igualmente junto às chamas. As espécies de a ves tipicamente insectívoras também tir am partido da maior abundância momentânea de in vertebrados nas ár eas ardidas. É o caso. Aparentemente a garça-boieira era atraída quer por pequenos vertebrados. aumentam a sua abundância durante os dias ou semanas que sucedem ao fogo. que podem ocupar estas áreas. quer por invertebrados. na savana africana. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA FOGO AUMENTO DA DISPONIBILIDADE/ VALOR NUTRITIVO DE HERBÁCEAS E ARBUSTOS PEQUENOS AUMENTO DA DISPONIBILIDADE DE SEMENTES OCORRÊNCIA DE CARCAÇAS DE ANIMAIS MORTOS AUMENTO DA ACESSIBILIDADE DAS PRESAS (POR REDUÇÃO DE LOCAIS DE ABRIGO) AUMENTOS DAS POPULAÇÕES DE PREDADORES AUMENTOS DAS POPULAÇÕES DE HERBÍVOROS FIGURA 4 Esquema do impacto positivo do fogo sobre os recursos alimentares para a fauna. Gillon (1972) observou várias espécies de a ves de r apina a alimentar em-se de insec tos (gafanhotos. As aves de rapina e necrófagas são normalmente atraídas para estas áreas devido à maior abundância de alimento ou à sua maior exposição. quer . Smallwood et al. grilos) que voavam à frente da linha de fogo. enquanto que o peneireiro predou quase exclusivamente insectos que surgiam da frente de fogo.98 IV. em duas regiões dos Estados Unidos da América. dur ante um fogo em pastagens na Flór ida. dos pica-paus. por exemplo.

g . tentilhão Fringilla coelebs e pombo-das-rochas Columba livia) em Israel. 1991).. Schardien e Jackson. Para além disso. Alguns dos fenómenos de imigração pós-fogo mais interessantes são protagonizados pelos insec tos. numa floresta de pinheiro na Córsega (França). o valor nutritivo da vegetação herbácea em regeneração após o fogo é frequentemente superior ao de vegetação não queimada (Hobbs et al. parece ter sido o principal factor responsável pela ocupação de uma ár ea recém ardida por aves granívoras (e. também os mamíferos predadores podem tirar partido da disponibilidade ou acessibilidade temporária de recursos alimentares no pós-fogo. 1978. Shaw e Carter. Este efeito está bem documentado em mamíferos de grande mobilidade como é o caso de marsupiais macrópodes naAustrália ou dos ungulados em África e na América do Norte (e. referem que a maior acessibilidade às sementes. é também possível que a maior detectabilidade de alguns insectos após o fogo. 1978). Por exemplo.g. Oliver et al.. De forma análoga. possa também conduzir à atracção de aves insectívoras para estas áreas. 1990). desde os micr omamíferos até aos mamífer os herbívoros de grande porte. 1978). Este comportamento parece estar relacionado com a maior disponibilidade de invertebrados associados aos troncos das árvores queimadas (e.IV. Schardien e Jackson. sementes caídas durante e após o fogo) e à sua maior ac essibilidade. 1990). algumas espécies de aves granívoras podem também utilizar as áreas recém ardidas face à maior abundância de sement es no solo (e.g. enquanto que Thibault e Prodon (2006) reportam que o aparecimento de grande número de aves granívoras imediatamente após o fogo . nomeadamente em resposta à rápida regeneração da vegetação herbácea em locais anteriormente ocupados por outro tipo de vegetação. devido à perda das suas vantagens crípticas (e. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 99 imediatamente após o fogo quer nas semanas seguintes (e. Para além disso. que sã o at raídos par a estas ár eas por . esteve relacionada com a grande quantidade de sementes de pinheiro que passar am a estar disp oníveis devido à abertura dos cones por acção do calor. são atraídos no curto-prazo para estas áreas por razões alimentares.g. Izhaki e Adar (1997) por exemplo.g. Tal como no caso das aves. na Califórnia os pumas (Felis concolor) parecem ser at raídos para os limit es das ár eas ardidas onde os cervídeos tendem a concentrar-se (Quinn.g. por remoção do coberto vegetal. Também as espécies de mamíferos her bívoros. insectos verdes num fundo negro).

g. qualidade de refúgios ou de locais de nidificação) (Figura 1). 1983). na população de determinada espécie) ou ao nível da estrutura das comunidades (e. em que se faz um ac ompanhamento da situação através de monitorização regular (por exemplo anual) ou. através de alt erações na vegetação. torna-os num dos grupos de insec tos mais noci vos para as essências flor estais e especialmente para as resinosas. níveis elevados de dióxido de carbono.g. 4. . e de constituirem também vectores de fungos. destacam-se algumas espécies de coleópteros perfuradores do tronco de árvores das famílias Buprestidae ou Scolytidae. Os estudos que abordam esta temática tipicamente requerem uma de duas estratégias metodológicas: a) um programa de investigação de longo prazo (abordagem diacrónica). nomeadamente na sua composição específica. riqueza específica ou abundância relativa das vár ias espécies) nos anos seguint es ao fogo. o fumo. Desta forma utiliza-se a variabilidade no espaço como um substituto do factor tempo. onde podem nalgumas situações tornar-se verdadeiras pragas. Efeitos do fogo na fauna a médio/longo prazo Os efeitos do fogo na fauna a médio/longo-pr azo fazem-se sentir de forma indirecta. tácteis e químicos (Raffa e Berryman. a disponibilidade de aliment o e o habitat ou micr ohabitat das espécies pr esentes (e. muitos dos quais patogénicos e agentes responsáveis pelo aparecimento de doenças. etc. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA diferentes estímulos. incluindo o calor. De entre estes.100 IV.Uma característica comum à maioria destes estudos consiste no facto de apenas caracterizarem as respostas das populações ou comunidades de fauna ao fogo e não isolarem os mecanismos e xactos através dos quais o fogo e xerce essas respostas (e. de forma a garantir alimento para as suas larvas. movimento de indivíduos. Estes efeitos são geralmente observáveis ao nível populacional (isto é. b) o uso de uma cr ono-sequência – uma sér ie de locais pr eferencialmente semelhantes em t odas as car acterísticas e xcepto no t empo decorrido desde o fogo (abordagem sincrónica). que por sua vez afectam. O facto destas espécies terem frequentemente várias gerações por ano. produtividade e estrutura. de for ma positiva ou negativa.). que seleccionam as árvores hospedeiras (neste caso árvores queimadas) mediante sinais visuais. mortalidade. onde depois depositam os seus ovos.g .

frequentemente tiram partido do aumento da produção de sementes no primeiro ano após o fogo (e. a abundância de insectos imediatamente após o fogo pode aumentar. As aves granívoras. No que respeita às aves insectívoras. que beneficiam a médio pr azo este grupo. que podem estar mais ac essíveis durante . devido à maior disponibilidade de alimento nesses locais. particularmente a época e frequência do fogo e a sua relação com o ecossistema em causa vão ter também enorme influência na r esposta da v egetação e logo na quantidade ou qualidade de aliment o disponível. Hutto (1995). Alimento Anteriormente foram já focados alguns exemplos de como o aumento da qualidade e quantidade de r ecursos alimentar es podem c onduzir à atracção de animais à ár ea ardida no cur to-prazo (geralmente num período de tempo de horas a poucos meses). No entanto a importância de um recurso alimentar não depende apenas da suaabundância mas também da sua acessibilidade ou detectabilidade. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 101 4. diminuir ou manter-se. O regime de fogo.1. 1997).g. O efeito do fogo sobre o alimento é provavelmente o aspecto mais estudado da relação entre o fogo e a fauna. Isto diz respeito quer aos invertebrados (vivos ou mortos). por exemplo. num estudo realizado na região norte das Montanhas Rochosas (Estados Unidos) observou que 15 espécies de aves – maioritariamente insectívoras que se alimentam nos t roncos das árvores – eram geralmente mais abundantes em áreas de floresta recentemente ardidas (1 a 2 anos) comparativamente com qualquer outro tipo habitat existente na mesma região. A subsequente regeneração da vegetação após o fogo geralmente resulta num rápido incremento das po pulações de insec tos.IV. Izhaki e Adar. As características desse efeito vão depender principalmente do grupo faunístico ou espécies consideradas e respectivos hábitos alimentares. No presente subcapítulo o impacto da disponibilidade alimentar nos animais é analisada a uma escala temporal mais alargada. A severidade do fogo e c onsequente heterogeneidade são outros factores que podem influenciar fortemente os efeitos do fogo no alimento. por seu lado. quer às sementes. Este efeito pode ser positi vo ou negativo conforme aumenta ou dimin ui a disponibilidade ou qualidade d o alimento para determinado grupo ou espécie a médio/longo prazo. e focando-se nos seus efeitos ao nível das populações e das comunidades.

Hobbs et al. 1991).). disponibilidade e valor nutritivo de herbáceas e arbustos. (1984) referem que os recursos alimentares parecem ser um factor limitante para as a ves e mamífer os no pr imeiro Inverno após o fogo . O aumento potencial deste grupo é. A falta de aliment o é também m uitas vezes avançada para explicar o decréscimo observado nalgumas populações logo após o fogo. Ivey e Causey (1984). parcialmente controlado pela se veridade do fogo e estrutura espacial dos habitats na área queimada.g. por exemplo. que durou vários anos. devido à redução de locais de refúgio. O incremento das populações de grandes herbívoros nas áreas ardidas também parece beneficiar algumas populações de grandes mamíferos carnívoros (e. um dos efeitos positivos mais conhecidos do fogo sobre o aliment o consiste na sua c ontribuição par a o aument o. detectou um forte incremento na abundância de aves predadoras após o fogo no chaparral californiano..102 IV. O fogo pode ainda favorecer as espécies de predadores (aves e mamíferos) de forma indirecta através do aumento das populações de herbívoros acima mencionada. recuperando depois gradualmente a partir desse momento. Prodon et al. No caso dos mamíferos. O fogo pode também favorecer várias espécies de aves rapina através da maior acessibilidade e facilidade de detecção das presas (e. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA alguns meses após o fogo. como resultado da diminuição dos seus recursos alimentares. que pode levar a um aumento das populações de mamíferos herbívoros (e. no entanto. na produtividade. Lehman e Allendorf (1989).A. a curto/médio prazo. reportam um aumento do número de águias-reais (Aquila chrysaetos) numa área ardida nos meses após o fogo e associam-no ao aumento das populações de micromamíferos que acompanham o crescimento da vegetação herbácea. por exemplo. recomendado nalguns casos como medida de gestão para melhoramento do habitat destas espécies.U. mostraram que as po pulações de cervo-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) podem tirar partido da disponibilidade de zonas ardidas par a se alimentar em desde que e xista alguma v egetação não ardida que sirva de refúgio. lobos.g. Lawrence (1966). verificou que o roedor Peromyscus truei evidenciou uma redução significativa da sua condição corporal durante o primeiro ano após um fogo. ursos) e o uso do fogo t em sido.g. inclusivamente. embora sublinhem que as variações são complexas. por exemplo. . micromamíferos). Lawrence (1966). num estudo conduzido no estado do Novo México (E.

). Em geral. e de larvas de borboletas e de insectos perfuradores da madeira. O efeito do fogo no habitat vai depender das características do fogo (intensidade.2. 4. pode criar ou destruir habitats favoráveis a uma dada espécie ou grupo de espécies. através da sua acção na est rutura da vegetação. DIMENSÃO POPULACIONAL Espécies florestais Espécies de matos Espécies de zonas abertas PRÉ FOGO TEMPO DESDE O FOGO FOGO FIGURA 5 Resposta das populações de espécies florestais. depois d o fogo. como foi verificado em espécies de mamíferos marsupiais na Austrália e nalgumas espécies de primatas na ilha do Bornéu (Sudeste asiático). heterogeneidade. e passar am a alimentar-se de material foliar e herbáceo. . de matos e de zonas abertas a um incêndio em floresta. como resposta ao fogo . EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 103 Ainda neste contexto. o padrão de alteração das comunidades após um incêndio de grande severidade reflecte-se num aumento das espécies associadas a zonas aber tas. Habitat De uma for ma geral. é de salientar o facto de algumas espécies terem a capacidade de alt erar a sua dieta. frequência.IV. Este efeito pode variar também para um dado grupo ou espécie em função do tempo decorrido após o fogo. etc. que deixaram de se alimentar de flor es e fr utos. do grupo faunístico ou espécies consideradas e respectivos requerimentos ecológicos. e a sua pr ogressiva substituição por espécies típicas de matos e depois floresta (Figura 5). inexistentes após o fogo . e também do ecossistema considerado. o fogo .

Miliaria calandra. escassa. iii) as aves nidificantes no estrato arbustivo desaparecem mais ou menos completamente após o primeiro ano e regressam no segundo associadas à regeneração da vegetação. v) do mesmo modo espécies típicas de espaços semi-aber tos ou bosques desc ontínuos (e. Carduelis chloris) podem ser mais ou menos comuns durante alguns períodos da sucessão. diferentes espécies características de diferentes nichos ou habitats vão-se sucedendo de acordo com a transformação estrutural da floresta. aparentemente. mas abandonam progressivamente a área com o desenvolvimento da vegetação.g.. voltando depois a aumentar para níveis próximos dos existentes antes da perturbação causada pelo fogo (Oliver et al. evidenciando uma marcada variação inter-específica na resposta das espécies ao fogo. ii) logo após o fogo (e sobr etudo durante o pr imeiro Inverno) verifica-se uma redução da abundância de aves. O fogo normalmente afecta as comunidades de aves através de alterações provocadas no seu habitat. Lullula arborea. mostram também uma forte associação aos seus territórios de reprodução e vêm instalar-se durante a primeira Primavera após o fogo. 1998).104 IV. vi) um certo número de aves tipicamente florestais (chapins. Numa segunda fase. iv) um grupo de espécies associadas a meios abertos (e. Capazes de se adaptar à transformação brutal do seu meio. Aumentam depois progressivamente até atingirem abundâncias iniciais (4 anos e seguintes). Lanius senator. durante vários anos (e. é ger almente numa primeira fase após o fogo que estes parâmetros atingem os valores máximos. devido ao aumento da abundância de espécies típicas de z onas abertas e de orlas. que corresponde à fase de transição para as espécies que oc orrem associadas ao est rato florestal. os valores desses parâmetros são mínimos. vii) apenas um número muito reduzido de espécies . Alectoris rufa) pode instalar -se no sobr eiral ar dido num curto período de 1 a 3 anos. 1999). (1989) analisaram a evolução da comunidade de aves de sobreirais após incêndio ao longo de 10 anos e identificaram uma série de padrões. tentilhões) que ocorriam antes do fogo são sempre observadas nos anos seguintes. Prodon et al. White et al. pica-paus. respeitantes sobretudo à evolução da composição da comunidade. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA Em termos de abundância e di versidade de espécies.g.g. trepadeiras. que podem utilizar-se como indicadores para outras florestas do Mediterrâneo: i) apesar de sempre difícil de quantificar a mortalidade esta foi. Oriolus oriolus. Num estudo realizado em França.. Frequentemente.

No entanto. Na verdade. nalguns casos a riqueza específica pós-incêndio aumenta. 1995). fogos controlados). Relativamente à r iqueza específica.IV. este padrão de variação de diversidade após o fogo pode ser muito variável de região para região (Whelan. noutros casos pode nem sequer se alt erar e as principais alterações ocorrerem ao nível das abundâncias relativas. ainda em floresta de sobreiro. Erithacus rubecula). facto que poderá estar r elacionado com as maiores alterações na estrutura e composição da vegetação produzidas pelos pr imeiros. (1987). Prodon et al. Os aut ores salientam que a rápida r egeneração pós-fogo da folhagem do sobreiro pode influenciar alguns resultados e deve ser tida em conta quando comparada com outros povoamentos.g. Pons (2000) efectuou uma c omparação d os t rabalhos desen volvidos na r egião da Europa mediterrânica sobre a resposta das comunidades de aves ao fogo e mostra que fogos mais intensos produzem mais alterações na estrutura das comunidades de aves do que fogos menos intensos (e. (2003). Esta ideia é reforçada pelo trabalho de Moreira et al. mas o seu regresso a níveis semelhantes aos da área não ardida. que estudaram o efeito do fogo-controlado na estrutura da vegetação e na comunidade de aves nidificantes em povoamentos jovens de pinhal-bravo (Caixa 1). . O regime de fogo é out ro factor que influencia o padrão de r esposta das diferentes populações ou comunidades de aves ao fogo. de controle. em cerca de 6 meses. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 105 desaparece como nidificante após 10 anos (Regulus ignicapillus. observaram uma marcada redução neste parâmetro imediatamente após o fogo.

106 IV. (2003). ou na diversidade total de espécies. No caso dos arbut os. Nas herbáceas. O efeito destas queimas na estrutura da vegetação foi visível sobretudo ao nível dos estratos herbáceo e arbustivo (Figura 6). o pico de abundância é registado 3 anos após a queima. mas não foi registado qualquer efeito do fogo controlado na abundância de espécies nidificantes nas copas das árvores. es tes aut ores v erificaram que o f ogo c ontrolado afectou temporariamente a abundância de aves (Figura 6) mas não de t odos os grupos. Adaptado de Moreira et al. . Apenas as espécies nidificantes no solo ou nos matos sofreram um impacto temporário. a abundância é próxima da das par elas conc trolo. Devido à baixa severidades des tes f ogos. Cinco anos após o fogo. a) b) BIOMASSA HERBÁCEAS BIOMASSA ABUSIVA 0 1 3 5 CONTROLO 0 1 3 5 CONTROLO ANOS DESDE O FOGO ANOS DESDE O FOGO c) ABUNDÂNCIA DE AVES 0 1 3 5 CONTROLO ANOS DESDE O FOGO FIGURA 6 a) E b): Efeitos do fogo controlado na estrutura da vegetação (cobertura por arbustos e herbác eas). (2003) estudaram o efeito do fogo controlado sobre as comunidades de a ves florestais em po voamentos de pinheir o-bravo (Pinus pinaster) do Minho. o gr au de desen volvimento 5 anos após a queima é semelhante ao de parcelas controlo (sem fogo). EFEITOS DO FOGO NA FAUNA CAIXA 1 A SEVERIDADE DO FOGO DETERMINA O GRAU DE AFECTAÇÃO DAS COMUNIDADES Moreira et al. c): Efeitos do fogo controlado na abundância de aves. devido à redução do estrato herbáceo e arbustivo.

o fogo de superfície usualment e altera as comunidades de aves apenas por 1 ano. por exemplo através da alteração do comportamento de nidificação.IV. No entanto. ao longo da sucessão pós-fogo. de mato as comunidades estão ger almente em mudança até se ating ir o coberto arbustivo original. e da sua taxa de regeneração. existe uma grande variabilidade nestes padrões. Por último . ao seleccionarem diferentes substractos de nidificação e diferentes posições num substracto que foi alterado pelo fogo. Brotons et al. evidenciando a importância da het erogeneidade da paisagem e o se u papel na dinâmica das populações destas espécies. . EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 107 O efeito do fogo sobre as comunidades de aves também depende de velocidade de regeneração do ecossistema considerado. enquanto que fogos de substituição podem alterá-las por 30 anos ou mais. em particular as que dependem de habitats abertos como os cr iados por ac tividades agrícolas (Caixa 2). alguns t rabalhos suger em que o fogo pode fa vorecer algumas espécies de aves. De um mod o geral pode dizer-se que em fogos em ár eas dominadas por coberto herbáceo as comunidades de aves tendem a restabelecer a estrutura e composição pré-fogo até 3 anos após o fogo Em zonas . (2005) analisaram os padrões de colonização de áreas ardidas na Catalunha (Espanha) por aves típicas de zonas abertas e verificaram que a ocupação dessas áreas pelas espécies estudadas se basea va em dispersões de curta distância a partir de áreas-fonte próximas. É de salientar o facto de algumas espécies de aves poderem alterar os seus comportamentos face à alteração do seu habitat. Em florestas. o que pode levar até 20 anos.

As espécies especializadas num dado tipo de uso do solo estão assinaladas a negro. Com esta abordagem são introduzidos conceitos como heterogeneidade. recolhida informação sobre a abundância e diversidade de aves em 6 categorias de uso do solo nessa mesma área. (2001). que teve como objectivo avaliar até que ponto a alteração da paisagem. tenderão também a diminuir a diversidade de aves. Como primeiro resultado. algumas a ves de r apina). PÁGUINA SEGUINTE: Espécies de aves associadas a zonas florestais. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA CAIXA 2 O FOGO PODE CONTRIBUIR PARA A BIODIVERSIDADE Recentemente têm sido desen volvidos um númer o cr escente de tr abalhos sobre a resposta das comunidades de fauna (principalmente aves) ao fogo considerando escalas espaciais mais alargadas. seria de esperar uma redução na diversidade avifaunística. P ara tal f oi reunida informação sobre a evolução do uso do solo dur ante o período 1958-1995 e. agrícolas. poderão t er afectado as populações de a ves nidificantes numa região minhota. estes autores verificaram que a diversidade de aves era superior em áreas agrícolas. matos altos e matos baixos (a partir de uma análise de correspondências). Num contexto de abandono de práticas agrícolas tradicionais. corredores ecológicos. fragmentação de habitats. por exemplo. 2001).g. 40 NÚMERO DE ESPÉCIES 35 30 25 20 15 10 B A IX M O AT S O S A LT O S C O N ÍF ER A S M IS TO S FO LH O SA S IC O A G R LA M AT O S FIGURA EM CIMA: 7 Número de espécies de a ves associadas a dif erentes tipos de uso do solo numa região do Minho. etc.. . mínima em zonas de matos e intermédia em zonas de floresta (Figura 7). Por outr o lado.g. os f ogos florestais. Ao contrário dos trabalhos sobre a sucessão de espécies após o f ogo num det erminado povoamento ou habitat (escala local). de diferentes habitats para abrigo/nidificação e alimentação ( e.108 IV. necessitando. (Adaptado de Moreira et al. paralelamente. que são hoje r econhecidos c omo element os tão det erminantes par a a oc orrência e abundância de espécies de fauna como os factores que operam a escalas mais reduzidas (e. o fogo e a sua int eracção. aqui é a valiado o impacto do fogo na fauna através do seu impacto na paisagem. factores de or dem local). ao pr omoverem a tr ansformação de flor estas em habitats c om características de mat os. nos últimos 40 anos. P ara além dis so alguns animais têm requerimentos ecológicos em t ermos de habitat que incluem dif erentes elementos a diferentes escalas. Como exemplo deste tipo de estudos pode citar-se o trabalho de Moreira et al.

quer como faixas de gestão de combustível para prevenir a ocorrência de grandes incêndios. podem citar-se os trabalhos de Fons et al. mas também matos baixos. de Arrizabala et al. Estes autores mostram que as espécies presentes . P aralelamente. (1993) que monitorizaram a dinâmica populacional da comunidade de micromamíferos de uma floresta de sobreiro da Catalunha (Espanha) nos primeiros 6 anos após o fogo. (1993) que efectuaram investigação semelhante mas para florestas de pinheiro e azinheira por um período de 3 anos. Sendo assim. Como acções de gestão da paisagem para preservar a diversidade de aves é sugerida a manutenção de ár eas agrícolas e flor estas de f olhosas caducifólias. verifica-se que existem espécies especialistas (assinaladas a negro) associadas a agricultura.IV. também na Catalunha. florestas. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 109 AGRICULTURA PPICA PMONT POCHR MALBA UEPOP CJUNC SUNIC ECIRL CCHLO CCORO MCINE CPALU SSERI HPOLY LARBO STORQ PDOME LCOLL MATOS ALTOS MATOS BAIXOS SCOMM PMODU ECIA CCANN SUNDA CCARD FLORESTAS No entanto. em função d os r equerimentos ecológicos das diferentes espécies envolvidas. é sugerido o uso mais gener alizado do fogo controlado e do pastoreio. úteis quer como habitat para algumas espécies. Relativamente à região da Europa mediterrânica e aprofundando o nível de análise. como actividades promotoras da existência de matos baixos na paisagem. de um pont o de vis ta da div ersidade de a ves é pr eferível ocorrerem incêndios de pequena/média dimensão do que a sua ausência. considerando o elenco de espécies associadas a cada tipo de uso do solo (Figura 7). à semelhança das a ves. se se considerar que só os incêndios podem mant áreas de matos baier xos. neste caso sobre os micromamíferos – o g rupo de mamífer os mais estudad o no âmbit o destas questões. A composição da comunidade de mamíferos ao longo do período pós fogo vai var iar.

acompanhando a expansão e o pico de abundância de roedores florestais omnívoros (e. ii) uma crescente expansão após o fogo das populações de roedores não florestais (e. Crocidura russula)..g. Apodemus sylvaticus).g.g. Prodon et al. 1989). na fase de c olonização a est rutura da população encontra-se desequilibrada com mais machos que fêmeas. estratégias demográficas e particularmente do nicho ecológico. plantas anuais). a Apodemus sylvaticus. etc. abundância e tipo de plântulas e sementes. presença ou não de árvores. A ocupação por parte dos roedores par ece ser infl uenciada pr incipalmente pela e volução da estrutura da vegetação pós-fogo e sua relação com os diferentes requisitos ecológicos destas espécies (e. reprodução. desaparecendo imediatamente após o fogo e ausentando-se por vezes por períodos longos. arbustos e herbáceas. e também pelas suas estratégias de dispersão. bem como a maior disponibilidade de insectos e sementes (e. plântulas. iv) o reaparecimento dos insectívoros (e. que normalmente não existem ou são relativamente raros em áreas não ardidas e evidenciam assim um comportamento oportunístico.). Posteriormente. que pode estar associad o à g rande produtividade da v egetação alguns meses a partir do fogo (rebentos.g. os resultados ao nível da comunidade de mamíferos obtidos em vár ios ecossistemas apontam par a um aumento da r iqueza específica e das abundâncias a curto-prazo (cerca de 2-3 anos após o fogo). por exemplo. A velocidade de r ecolonização dependeu. Tipicamente os principais padrões observados na sucessão de micromamíferos nos estudos realizados na Bacia M editerrânica envolvem: i) uma baixa densidade de micromamíferos imediatamente após o fogo devido possivelmente a mor talidade e limitações alimentar es. . Prodon. de acordo com a espécie. 2000). a substituição do material queimado por vegetação verde e fresca e possivelmente mais nutritiva.110 IV.g.g.. iii) o posterior decréscimo em abundância das populações de Mus sp. Os insectívoros são muitas vezes as espécies menos r esistentes. um ou vários anos após o fogo. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA responderam ao fogo de mod o diverso. há uma tendência para esses parâmetros diminuírem com o aumento da complexidade estrutural da vegetação que ocorre ao longo da sucessão pós-fogo. Mus sp.). até a camada de folhada e fauna insectívora associada regenerar. da capacidade de dispersão. Em relação. A maior aptidão dos machos para efectuar dispersões sugere que a colonização das áreas ardidas se faz sobretudo a partir de zonas vizinhas não ardidas (e. Em termos gerais.

os estudos existentes sugerem que as alterações ao nível da comunidade ou ao nível de determinadas espécies produzidas pelos fogos menos int ensos. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 111 Relativamente à infl uência do regime de fogo. nitratos) dos habitats aquáticos de que dependem. com fogos menos intensos. Fons et al. a proporcionarem uma estratégia de recolonização a partir de refúgios no interior da área ardida (hipótese do refúgio) e os fogos mais intensos a obr igarem a est ratégias de r ecolonização sobr etudo por imigração de áreas adjacentes (Prodon et al. 1987. mostrou que as po pulações pós-fogo e voluíram de acordo com a est rutura da vegetação. Ford et al..g. A abundância de répteis foi mais elevada nas áreas recentemente ardidas. a alteração do regime hídrico. o efeito do fogo nas suas populações será tanto maior quanto maior for a intensidade e a fr equência da dest ruição desse se u microhabitat. R elativamente a répt eis. Outros possíveis efeitos indirectos do fogo nas populações ou c omunidades de anfíbios estão relacionados com a alteração física (alteração do substracto) e/ou química (aumento das concentrações de nutrientes – e.. mas não desapareceram. devido aos fenómenos de erosão. As espécies mais típicas de ár eas abertas aumentaram ligeiramente nos pr imeiros três anos após o fogo . Os anfíb ios.. enquanto que as espécies que usavam ou toleravam vegetação mais densa diminuíram. e focand o ainda nos micromamíferos. 1999). Simovich (1979). logo. desig nadamente fogos c ontrolados. ou alterações nas populações de invertebrados. Existe também alguma evidência de que a estratégia de recolonização da área ardida por parte destas espécies varie em função da intensidade do fogo.g. 1993). Ford . que originam um mosaic o mais het erogéneo de ár eas queimadas e não queimadas.. sendo que nem todos são negativos (Pilliod et al. 2003).g. são pouc o significativas (e. fósforo. lixiviação e sedimentação pós-fogo. comparativamente com áreas controle.IV. A intensidade do fogo parece constituir um factor determinante na dimensão dos efeitos do fogo sobre a herpetofauna. por seu la do. embora haja algumas e vidências de que a alt eração na est rutura d os habitats ou microhabitats possa infl uenciar est e g rupo. num trabalho realizado numa área de c haparral na América do Norte. existindo vários trabalhos que mostram que muitas populações de herpetofauna não parecem afectadas por fogos de baixa intensidade (e. estão muit o associados à camada húmida de manta morta que se acumula sobre o solo e. Em relação à herpetofauna os estudos são mais escassos.

. através da r emoção de pequenos r amos e folhas e respectiva simplificação do habitat. Já Prodon et al. Os invertebrados constituem um grupo muito diverso. o seu habitat. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA et al. alguns autores sugerem que a fauna invertebrada do solo e manta-morta não chega a atingir os níveis pré-fogo por um período de cerca de 5 anos. É possível que os in vertebrados da manta-mor ta recuperem mais lentament e as abundâncias iniciais. as populações de invertebrados das diferentes espécies exibem também uma grande variabilidade quer no tempo. o que dificulta a sua amost ragem para efeitos comparativos. Existem também e vidências de que em determinadas condições o fogo pode até contribuir para o aumento das populações de her petofauna. a variação nas populações e c omunidades de invertebrados ao longo da suc essão pós-fogo resulta extremamente diversa e não facilment e uniformizável. pode favorecer algumas das espécies de her petofauna aquática ou semi-aquática. no âmbito de um . reporta o desaparecimento de cerca de 50% destas espécies e a redução de até 25% na abundância de algumas delas. Há desde logo uma grande diversidade de g rupos e espécies c om diferentes requerimentos ecológicos. A redução da camada de manta-morta. Prodon et al. frequentemente. Russel et al.. Springett (1976). 1987). tem efeitos marcados nos invertebrados do solo e manta-mor ta. As características biológicas das espécies. quer no espaço. que ocorre após o fogo. comparativamente com a camada inferior do solo (e.. e as características do fogo irão det erminar a natureza precisa do declínio e a subsequente recuperação da população. pois o fogo induz mais alterações físicas e químicas neste micro-habitat. ao aumentar a área de água aberta e melhorar a estrutura da sua vegetação (Russel et al. enquanto que out ros sugerem que o r egresso a esses nív eis se faz mais rapidamente (Whelan 1995). pode dizer-se que as abundâncias de muitas espécies de in vertebrados dimin uem depois d o fogo mas podem r ecuperar rapidamente.g. Relativamente à recuperação das po pulações. 1999). as metodologias utilizadas para estimar as abundâncias ou densidades deste grupo são também muito diversas e muitas vezes inadequadas. 1999. em geral. Depois. Face a todos estes constrangimentos. 1999). Para além disso. Por exemplo o fogo em z onas húmidas isoladas.112 IV. comparando as abundâncias de invertebrados da manta-morta antes e após um fogo-controlado em florestas de eucalipto na Austrália.. (1989). No entanto.

5.IV. Existem também evidências de que as características espaciais do fogo também infl uenciam a r esposta deste grupo. . data dessas acções. orla do fogo. mas também à deficiente descrição quer da metodologia utilizada. nomeadamente em relação à sua extrapolação a outras situações. Na área ardida mais extensa. À semelhança do que acontece com os restantes grupos de fauna. Frequentemente. compararam a recuperação das populações de gafanhotos acridídeos no mesmo local após fogos de difer entes características e verificaram que a r ecuperação foi m uito mais rápida fac e a um fogo espacialmente menos extenso e de contorno mais irregular. Whelan e M ain (1979).) em alguns destes estudos. há uma t endência para fogos mais intensos provocarem mais impacto que fogos de menor intensidade. ambos apresentando vantagens e desvantagens. O regime de fogo também parece ter uma forte influência na resposta das populações e comunidades de invertebrados ao fogo. a informação que ambos fornecem apresenta limitações. existência ou não de acções de gestão pós-fogo. quer das circunstâncias locais (e. onde a espécie recuperou cerca de 30% dos seus efectivos após igual período. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 113 estudo sobre o impac to dos incêndios nas c omunidades de fauna de sobreirais em França. onde a recuperação 6 meses após o fogo foi quase n e as áreas de ula. estima numa vintena de anos o tempo necessário para a fauna edáfica (solo e manta-morta) se restabelecer completamente após fogo na região Mediterrânica.g. Métodos para avaliar impacto do fogo sobre a fauna A avaliação do impacto do fogo sobr e a fauna pode ser efectuada através de métodos directos ou indirectos. Isto deve-se não só à grande especificidade associada a um fogo num local determinado. por exemplo. os mesmos aut ores encontraram ainda diferenças significativas entre a recuperação da espécie junt o ao centro geográfico dessa área. etc. comparativamente com um fogo espacialment e extenso e uniforme.

sugerem que esta é apenas efectuada muito esporadicamente. As áreas ardidas são frequentemente extensas demais para se poderem percorrer na totalidade. de maiores dimensões e logo mais visíveis. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA Métodos directos i) contagem de cadáveres Não temos conhecimento de nenhum trabalho na Bacia Mediterrânica que tenha tentado contabilizar o número de cadáveres de animais em áreas ardidas. As principais vantagens desta metodologia consistem . uma vez que passado pouco tempo uma parte dos cadáveres podem ser removidos por predadores e/ou necrófagos. De qualquer forma. onde são observadas grandes concentrações de cadáveres e têm por isso apenas um valor indicati o. mas apenas inferida através de armadilhagem ou censos. A utilização de transectos ou de quadrados pode constituir uma boa estratégia de amostragem para este tipo de objecto de estudo.114 IV. os resultados obtidos referem-se apenas ao impacto do fogo a muito curto-prazo. dificilmente compav rável com outros trabalhos. pela diferença na dimensão da população antes e depois do fogo. exige disponibilidade imediata logo após o fogo. Por outro lado. A principal vantagem destes métodos directos consiste na sua rápida execução (nos primeiros dias pós-fogo). em situações excepcionais. Esta met odologia ser ia mais indicada par a os v ertebrados. Métodos indirectos i) Comparação antes e após o fogo Na maior ia d os estud os. (conforme sejam transectos ou quadrados) e a sua localização seriam definidos em função do(s) grupo(s) de fauna a amost rar e da localização e e xtensão da área ardida. o seu comprimento ou a sua área. Para este grupo as dimensões dos transectos ou quadrados teriam de ser fortemente reduzidas para se adaptar em à sua escala espacial. Urge assim definir uma metodologia prática e que seja facilmente repetível em diferentes regiões e habitats de modo a que os seus resultados possam ser mais facilmente comparáveis e extrapoláveis. do que para os invertebrados. ou pela diferença entre uma parcela queimada e uma par cela não queimada (de controle). O número elevado de cadáveres contabilizados nos trabalhos publicados e a ausência de descrição de uma metodologia concreta para essa quantificação. O seu número. a mor talidade pós-fogo d os animais não é medida directamente.

nos casos em que existe boa informação de base sobre relações espécie-habitat. florestas caducifólias. posteriormente. par a prever o impacto do fogo na comunidade de aves (Caixa 2). este trabalho de monitorização é mais dispendioso. (2001). de acordo com os objectivos do trabalho. não tem de ser efec tuado logo após o fogo . pode r ealçar-se o fac to de. ii) Relações espécies-habitat Outras formas indirectas de avaliar o impacto do fogo podem incluir. Para além disso. r esumindo-se ao mapeamento dos habitats. no entanto. como é difícil de prever a ocorrência de incêndios. num estudo sobre o impacto do fogo nas comunidades de aves à escala da paisagem. Os fogos-controlados. adequando-se perfeitamente a este tipo de metodologia. os resultados obtidos deste modo não permitem distinguir entre animais mortos pelo fogo e animais que aband onaram o local devido à deterioração das condições no pós-fogo (falta de alimento. Moreira et al. . o esforço de campo poder r eduzir-se c onsideravelmente. etc. usaram o c onhecimento das r elações espécie-habitat a esse nív el. água. Adicionalmente. a amost ragem de fauna pré-fogo é nor malmente conduzida à posteriori. numa primeira fase. abrigos). uma excepção a esta última limitação. o que constitui uma fonte adicional de variabilidade. em zonas não ardidas semelhantes à zona ardida (zonas de controle). médio e longo-prazo). isto é. uma análise indir ecta do efeito fogo nas espécies at ravés do seu efeito no habitat.IV. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 115 numa maior flexibilidade temporal do trabalho de campo. e na possibilidade de obt enção de resultados a diversas escalas temporais (curto. o estudo das relações espécies-habitat e. c omo mat os. zonas agrícolas. Por outro lado. Podem também fazer-se associações entre determinadas espécies/grupos de espécies e habitats mais abr angentes. Este tipo de abordagem será particularmente indicado para espécies com elevado grau de associação a um determinado habitat (especialistas). tornando-se tanto mais dispendioso quanto mais períodos de amostragem forem considerados. e para todos os grupos animais. uma vez que implica pelo menos 2 períod os de amost ragem. constituem. devido à sua previsibilidade. Como vantagens desta abor dagem.

contribuindo assim par a aumentar a di versidade à escala da paisagem. de menor velocidade de propagação e menor dimensão geográfica provocam alterações menos pr ofundas nas c omunidades animais e estas recuperam mais rapidamente. 5. época. Fogos homogéneos e de g randes dimensões podem ser muit o impactantes par a a fauna. A alteração de habitats e d os recursos alimentares constituem o principal impacto do fogo sobre a fauna. devido à sua importância como refúgio para a fauna no . De facto. N o entant o. 2. Esse impac to pode ser negativo ou positivo consuante as espécies. mais het erogéneos. As respostas das populações animais ao fogo dependem sobretudo da interacção entre as características do regime de fogo (intensidade. 6. o impacto do fogo na fauna é menos g ravoso do que é vulgarmente assumido. 4. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 6. Notas finais: implicações para a gestão Podem resumir-se nos seguintes pontos os principais aspectos abordados neste capítulo que têm implicações para a gestão de áreas ardidas: 1. Frequentemente. Espécies com nichos ecológicos mais estreitos tendem a ser mais afectadas relativamente a espécies mais ubíquas ou generalistas. etc.) e as características ecológicas das espécies. dimensão. o fogo pode ser uma font e de het erogeneidade paisagística. fogos que cr iem um mosaico de áreas queimadas e não queimadas ou um mosaico de áreas queimadas em diferentes datas. 3.116 IV. em pequena escala (relativamente à extensão da paisagem). aumentando a disp onibilidade de habitats que não estariam disponíveis de outra forma e aumentando a diversidade biológica (em comparação com uma paisagem sem fogo). poderão permitir a co-existência de espécies c om difer entes r equerimentos ec ológicos. Em geral. bem c omo de manc has não ardidas. fogos menos int ensos. Relativamente à gestão pós-fogo podem destacar-se dois aspectos: i) a importância para a fauna da manutenção de algumas árvores em pé ( snags) e de t roncos caídos no solo (sobr etudo árvores e troncos de g randes dimensões).

7. O fogo controlado pode constituir uma importante ferramenta de gestão do habitat para a fauna. . uma espécie de ave de elevado valor cinegético.IV. por exemplo combinada com o pastoreio. incluindo grandes herbívoros (e. ii) algumas espécies da fauna (sobretudo as de menor dimensão) podem beneficiar de acções de gestão pós-fogo como a utilização de resíduos orgânicos para evitar a erosão do solo. através da queima de pequenas par celas. por exemplo mantendo ou criando áreas abertas que abrigam muitas espécies de a ves de ele vado de estatut o de conservação. par a que os animais beneficiem sim ultaneamente de zonas de mato desenvolvido para abrigo.g. quer a nível local. corços) ou outras (e. coelho. Por exemplo. e de áreas recentemente ardidas onde obtêm aliment o de qualidade.g. perdiz) ou na gestão de habitat par a espécies protegidas. Possíveis aplicações desta técnica entre nós incl uem a gestão de habitat par a espécies de int eresse cinegético. veados. EFEITOS DO FOGO NA FAUNA 117 pós-fogo. desde há quase um século que matagais de urz e são ger idos de mod o a maximizar a dimensão das populações de lagópode-esc ocês (Lagopus lagopus scotica). Por último. na Escócia. de r eferir que a aplicação desta técnica pode ser ainda integrada localmente com objectivos de gestão de c ombustíveis ao nível da paisagem. contribuindo assim para a redução do risco de grandes incêndios. quer à escala da paisagem – contribuindo para a criação/manutenção da diversidade da paisagem (mosaic o paisagístico) e consequentemente para a diversidade faunística.

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5. reabilitação e substituição 3. Como planear o restauro 4.3. Restauro (sensu strictu) 3. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO RAMON VALLEJO FRANCISCO MOREIRA 1. Introdução 2. Decisões no planeamento pós-fogo: da intervenção vv de emergência à recuperação de longo prazo 4. A importância da monitorização . Reabilitação 3.1. Substituição 3.121 PRINCIPIOS GENÉRICOS DE GESTÃO PÓS-FOGO V.4.6.2.4. passivo e de emergência 3. Fase de recuperação a longo prazo 4. Identificação de áreas vulneráveis 4.5. Restauro activo.2. Fase intermédia 4.1. Intervenção de emergência 4. O que fazer a seguir a um incêndio? Prever a resposta dos ecossistemas e definir objectivos de gestão 3. Avaliação de impactos in situ 4.3. Conceitos de restauro.

para quê? Com que objectivos queremos intervir numa área ardida? .quer relativamente aos objectivos de gestão para uma área ardida. foi baseada na florestação com coníferas. Inerente a esta estratégia estava também o conceito de que a estratégia de restauro de áreas degradadas passava pela introdução de uma espécie pioneira de crescimento rápido – uma resinosa – que facilitaria a introdução posterior de folhosas. havendo inúmeros programas e incentivos financeiros a esta prática. para além de pr ovidenciarem emprego nas ár eas rurais. ainda hoje visível na primeira reacção de muitos políticos após um incêndio. durante muito tempo.122 V. quer às técnicas silvícolas disponíveis para o gestor florestal. eira Hoje em dia a panóplia de possibilidades. mas nós vamos rearborizar 5000 ha”. O que fazer a seguir a um incêndio? Prever a resposta dos ecossistemas e definir os objectivos de gestão Após um incêndio.. é muito superior. Introdução A estratégia tradicional de restauro de áreas degradadas na região mediterrânica. sobretudo. visavam sobretudo aumentar a produtividade florestal. desde meados do século XX. devido ao regime de perturbação que uma maior frequência de incêndios impôs. sobretudo nas áreas ardidas) e na falta de capacidade técnica e financ de as concretizar no terreno. obrigando a repensar as práticas históricas que for am dur ante m uito t empo ensinadas aos técnic os florestais. quando o fazer? e E utilizando que técnicas? Mas. mas também proteger os recursos hídricos e fixar dunas. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 1. os gestores florestais e os políticos deparam-se com uma série de questões que podem não t er uma resposta óbvia: Devemos reflorestar? Toda a área afectada? Apenas uma parte? Ou será melhor não fazer nada? E caso se decida efectuar alguma int rvenção. mais características de fases avançadas da sucessão ecológica (Pausas et al. 2. em Portugal e Espanha. Esta abordagem tradicional acabou por ter uma eficácia bastante pobre. expressa um argumento simplista que não faz sentid o no contexto actual. bem como à excessiva simplificação na previsão das trajectórias de sucessão ecológica esperadas (basta pensar na ocorrência crescente de espécies exóticas invasoras. Estas arborizações. A lógica do “arderam 5000 hectares. Neste capítulo são sintetizados alguns conceitos básicos de restauro ecológico e de planeamento da gestão florestal pós-incêndio. 2004).

CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 123 A resposta a estas questões depende de duas variáveis fundamentais: (a) a nossa capacidade de pr ever a resposta dos ecosistemas afectados pelos incêndios e (b) os objectivos de gestão definidos para a área ardida.1). por sua vez. det erminada pelo tipo de v egetação e pela se veridade do f ogo. melhorar a economia das populações rurais. a prevenção de incêndios ou o uso multifuncional da floresta (Figura 1 e Caixa 1).V. . os objectivos “tradicionais” eram a regulação hidrológica. senso lato. Os objectivos produtivos foram perdendo importância. Desta forma. Os impactos dos incêndios dependem das características do fogo e das características dos ecossistemas afectados (mais detalhes em 4. podem ser bastante diversos conforme as situações. melhorar a produtividade florestal e. De um ponto de vista genérico. A estes objectivos juntam-se actualmente novos objectivos. a fixação de carbono. tais como o combate à desertificação. Estes são frequentemente definidos a uma escala local ou regional. Os objectivos de gestão para uma área ardida. o aumento da biodiversidade. em conjunto com uma análise da intensidade e severidade do incêndio. fixação de dunas. a mitigação das alterações climáticas. e dos objectivos definidos para a área ardida. que podemos considerar ser bastante razoável para o contexto ibérico em que nos inserimos. sobretudo em regiões secas e com baixa produtividade madeireira. a capacidade de pr ever a resposta dos ecossistemas depende do grau de conhecimento científico que temos sobre o tipo de flor esta ou vegetação afectada pelos incêndios. já que dele depende a panóplia de acções de intervenção que o gestor pode estar interessado em aplicar (Figura 1). TIPO DE ECOSSISTEMA RESPOSTA DOS ECOSSISTEMAS SEVERIDADE DO FOGO DEFINIÇÃO DE OBJECTIVOS PARA A ÁREA ARDIDA DEFINIR A ABORDAGEM DE GESTÃO PÓS-FOGO Regulação hidrológica Fixação de dunas Aumentar produtividade florestal Melhorar a economia rural Biodiversidade Valores ecológicos Combater a desertificação Mitigar alterações climáticas Valor cultural e de recreio Valor cénico Prevenção de incêndios etc FIGURA 1 A definição da es tratégia de gestão pós-fogo depende da r esposta esperada dos ecossistemas. Este segundo aspecto é essencial.

raízes).g. Inclui funções c omo a produção de madeira (e.g.) e usos especiais (e. filtragem de partículas e poluentes atmosféricos. incluindo as dec orrentes dos planos municipais. medronho). Neste contexto. biomassa para energia. castanha. a conservação de geomonumentos (e. psíquico. intercepção de nevoeiros). campos militares. Conservação de habitats. para além da legislação geral. frutos e sementes (e. Inclui o suporte à caça e conservação de espécies cinegéticas. pinhão. caça e pesca nas águas interiores: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para o desenvolvimento da caça. fixação de CO2).g. cortiça.g. protecção e segurança ambiental (e. protecção contra a erosão eólica (e. Recreio. toros. Inclui o enquadramento de aglomerados urbanos. . monumentos e equipamentos turísticos. protecção microclimática (e. rolaria.124 V. (2) na avaliação da potencialidade das es tações. outros materiais vegetais e orgânicos (e. recuperação de solos degr adados. 2005) definir am que a int ervenção deverá identificar as funções dos espaços florestais e os modelos de silvicultura.g. o enquadramento de infraestruturas (vias de comunicação. de organização territorial e de infraestruturação mais adaptados a cada caso . conservação de recursos genéticos. enquadramento e estética da paisagem: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para o bem-estar físico. (3) na integração das c ondicionantes socio-territoriais. cogumelos). amortecimento de cheias). protecção contra erosão hídrica e cheias (e.g. as orientações es tratégicas para a r ecuperação das áreas ardidas definidas na sequência dos gr andes incêndios de 2003 e 2004 (OER.g. fixação de vertentes. a conservação de espécies da fauna e flora. bem como de habitats. correcção torrencial. Protecção: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para a manutenção das geocenoses e das infraestruturas antrópicas. 2005) CAIXA 1 Num contexto nacional. Silvopastorícia. estabelecimentos prisionais). Inclui funções como a protecção da rede hidrográfica (protecção das margens.g. fixação das areias móveis). espiritual e social dos cidadãos. o r ecreio. folhagens. suporte à pastorícia e apicultura. jazidas paleontológicas). compartimentação de campos agrícolas. resinas.g. manutenção da qualidade da água). pesca e pastorícia. planos flor estais e planos especiais. etc.protegidos. e (4) no conhecimento da vontade e das expectativas dos proprietários. zonas industriais. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO FUNÇÕES DOMINANTES DA FLORESTA PORTUGUESA (OER. e o suporte à pesca nas águas interiores. a c onservação de paisagens notáv eis. os objectivos de gestão pós-fogo podem ser enquadrados nas seguintes funções dominantes: Produção: t em c omo objectiv o a c ontribuição dos espaços flor estais par a o bem-estar material das sociedades rur ais e urbanas. protecção contra incêndios. os quais deverão ser definidos com base (1) na avaliação do efeito do fogo nos ecossistemas. de espécies da f auna e da flora e de geomonumentos: tem como objectivo a contribuição dos espaços florestais para a manutenção da diversidades biológica e genética e de geomonument Inclui funções como os. vimes.

Presentemente. Vallejo et al. Promover florestas e matorrais adultos (onde não houver condições para florestas) com capacidade de autoregeneração. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 125 Esta difer ença de atitudes r eflecte-se também no sig nificado da terminologia utilizada. sobretudo florestas de folhosas que escasseiam nas paisagens da bacia do mediterrâneo. podendo incluir desde técnicas de int rodução de espécies her báceas. Para atingir este objectivo deve ser e xplorado o potencial das espécies nati vas. a confirmarem-se os cenários de mudança global. e os constrangimentos socio-económicos. Melhorar a resistência e resiliência dos ecossistemas ao fogo. mas é possív el seleccionar alguns com ampla aplicação geográfica (e. Este objectivo é prioritário. No caso português. e em contraste com outras regiões mediterrânicas onde o pr oblema nem se coloca. No passado uma “acção de r estauro florestal” confundia-se com uma florestação ou reflorestação. até à ausência de qualquer acção de r estauro activo. o termo é mais amplo. ecotipos e proveniências. no caso de uma área florestal ardida. passando pela eliminação de espécies não desejadas. .. a c olonização de ár eas ardidas por espécies e xóticas invasoras representa uma pr eocupação crescente para os gest ores florestais e um desafio para a comunidade científica. Para além destes objectivos globais existem frequentemente objectivos locais mais específicos. 2006): Conservar o solo e a água. uma vez que o solo é um recurso primário não renovável (ou renovável mas a muito longo prazo). considerando que a vegetação mediterrânica será provavelmente afectada pelos incêndios do mesmo modo que o foi no passado ou com maior intensidade ainda. e extremamente variáveis conforme o nível de degradação dos ecossistemas. e está na base da maioria das intervenções de emergência após o fogo. exposto aos riscos de degradação e erosão após o fogo. Promover a biodiversidade e a reintrodução de espécies-chave que desapareceram devido à intervenção humana nos ecossistemas. por exemplo. o contexto geográfico e climático. Os objec tivos ac tuais d os pr ogramas de r estauro em ec ossistemas mediterrânicos afec tados por incêndios são di versos.g.V. ar bustivas ou arbóreas.

Outras definições mais específicas têm. 1984).ser. o restauro permite estancar a degradação do ecossistema. Esta definição implica a recriação de um ecossistema predeterminado a partir do ecossistema degradado. (2006). (Adaptado de Bradshaw. Estudos posteriores vieram mostrar que esta e volução na est rutura e função dos ecossistemas frequentemente não é linear. promovendo ao mesmo tempo a sua regeneração. De acordo com a definição da Society for Ecological Restoration (www. porém. Bradshaw. sido desenvolvidas (Allen. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 3. deteriorados ou destruídos. 1988. 1995) no sentido de formalizar o conjunto de est ratégias existentes para a int ervenção em ec ossistemas degradados.. Aqui será utilizada a terminologia de Bradshaw (1995) e Vallejo et al. sendo mais frequente uma situação em que existem relações não lineares.126 V. o restauro ecológico é o processo de auxílio à recuperação de ecossistemas que se encontram perturbados. Aronson et al. com vários estados e transições possíveis (Figura 2B). Em t ermos gerais. tendo em conta a sua estrutura e as funções. reabilitação e substituição.org) em 2004. reabilitação e substituição As est ratégias de r estauro de ec ossistemas têm c omo pr incípio genérico “imitar “ a natureza e “acelerar” a sucessão ecológica. . 1993. Conceitos de restauro. apoiando a regeneração através de uma sequência de etapas que pr imitivamente se designavam de sucessão secundária e se supunham lineares (Figura 2A). FUNÇÕES DO ECOSSISTEMA Substituição BIOMASSA E NUTRIENTES ECOSSISTEMA ORIGINAL Restauro Reabilitação ECOSSISTEMA DEGRADADO ESPÉCIES E COMPLEXIDADE Trajectória de regeneração esperada ESTRUTURA DO ECOSSISTEMA FIGURA 2A Modelo clássico da evolução linear dos ecossistemas e dos conceitos de restauro.

é mais frequente pôr em prática acções de reabilitação que procuram alcançar um funcionamento ecológico semelhante ao d o ecossistema pré-perturbação (Figura 2A).2.1. e em que existe mais do que uma possibilidade de chegar a um dado estado de desenvolvimento do ecossistema. especialmente na bacia d o Mediterrâneo onde os ec ossistemas sofreram transformações profundas durante séculos. ou por outra espécie florestal. não linear. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 127 FUNÇÃO DO ECOSSISTEMA ESTADO 3 ESTADO ESTADO 5 2 ESTADO 1 ESTADO 4 ESTRUTURA DO ECOSSISTEMA FIGURA 2B Modelo mais actual. a caracterização do ecossistema original é feita a partir de ecossistemas de referência que subsistem em pequenas áreas não perturbadas. Podemos também designá-la como o processo de assistência à recuperação de ecossistemas degradados (Figura 2A). Na prática.V. A dificuldade óbvia desta abordagem consiste em conhecer com exactidão a situação ecológica anterior à perturbação. 3.. 3. A plantação de pinheiros em zonas cuja espécie nativa é a azinheira constitui um exemplo de reabilitação. por exóticas de crescimento rápido. (Adaptado de Cortina et al. 3. . frequentemente mais simples que o or iginal e por v ezes mais produtivo. Restauro (sensu stricto) Visa a reconstrução do ecossistema original anterior à per turbação. como o caso da substituição de charnecas por pastos agrícolas mais produtivos com baixa biodiversidade.3. Substituição Neste caso o objec tivo é construir um novo ecossistema (Figura 2A). Reabilitação Em alternativa ao restauro. 2006).

. Esta abordagem é frequentemente menos dispendiosa. proveniente de sementes ou rebentamento de toiça. para além disso. Duryea.g. Restauro activo. ou ainda c ontrolar a vegetação não desejada (matos. 2006). recorre-se geralmente a sementeiras ou plantações. ou espécies e xóticas invasoras) (ver Capítulos VI e XII). 2005). com um tipo de solo bastante erosionável. evitar a presença de animais her bívoros. Gardiner and Oliver. 2005. e m uitos recursos humanos (e. protectores individuais. O restauro de emergência justifica-se quando existe um risco elevado de oc orrer er osão do solo . já que as plantas que estão a r egenerar têm um sist ema radicular bem desenvolvido e com reservas energéticas armazenadas que lhes conferem uma grande probabilidade de sobrevivência e potencial de crescimento. do gestor florestal.. O restauro passivo é basead o no apr oveitamento da e xistência de regeneração natural. permitindo o desenvolvimento da vegetação através de processos sucessionais natur ais (Lamb and Gilmour . e onde se espera . passivo e de emergência O restauro activo exige uma intervenção mais exigente. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 3. e consiste em proteger as áreas em regeneração de out ras perturbações. Em acções de r estauro activo. proporciona taxas de sobrevivência e crescimento geralmente superiores ao restauro activo (ver Capítulo XII). a mobilização e r iscos de erosão do solo são menores. torna-se óbvia a maior relação esforço-benefício desta estratégia ainda pouco utilizada em muitas regiões. a aquisição e t ransporte de plantas ou sementes de viveiros ou outros locais. apesar de poder implicar alguma intervenção (o que se designa por vezes de restauro assistido). Vallejo et al. por exemplo para evitar uma quantidade excessiva de regeneração (efectuando desbastes). 2003.128 V. seleccionar as var as a manter e as que de vem ser eliminadas. Se considerarmos que. em particular. Estas técnicas apr esentam alguns inconvenientes. 2000. fertilização. é particularmente eficaz. O restauro passivo não necessita de preparação de solo nem de equipamento pesado. num contexto florestal. nomeadament e em ár eas c om decli ves acentuados. já que podem implicar a pr eparação do local. Para além disso. e onerosa. Mansourian et al. A utilização da rebentação de toiça. os níveis de sobrevivência das plântulas e plantas jovens são frequentemente bastante baixos. Consequentemente. 2003.4. Lamb and Gilmour. a utilização de equipament o pesado. obrigando a operações de retancha.

palha.) cujo objectivo é reter a matéria orgânica. perante um ecossistema que não atingiu um estado de degradação muito avançado e quando o objectivo do restauro é re-estabelecer o ecossistema previamente existente.V.g . microrganismos. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 129 uma baixa capacidade de r egeneração rápida da v egetação. Alguns pr incípios básic os no planeament o d o r estauro de ecossistemas degradados são de ampla aplicabilidade: . r esíduos lenhosos r esultantes de desbast es ou desramações). Após identificada a necessidade de restauro e definidos os objectivos para a área a restaurar. Aronson et al. é necessário projectar a intervenção. Os ecossistemas degradados perderam alguns dos componentes-chave do ecossistema original. assume-se que é possível a regeneração espontânea do mesmo pela simples remoção dos factores antrópicos (incluindo o fogo) adversos (Aronson et al. 3. pilhas de r esíduos florestais. particularmente. nos ecossistemas degradados algumas funções ou as respectivas taxas encontram-se alteradas. Neste contexto. ou seja.5. Como planear o restauro? Na discussão que se segue o t ermo r estauro será usado par a nos referirmos tanto a reabilitação como a restauro (sensu stricto). Podem ser também usadas outras técnicas como estruturas de obstrução (troncos deitados. Alguns são evidentes (certas espécies estruturais: as espécies principais de ár vores e ar bustos e a macr ofauna directamente associada). Em ger al. bem como diminuir a velocidade de escorrência da água (ver Capítulo X). nutrientes e propágulos. As técnicas normalmente utilizadas nestas int ervenções são as sement eiras ou a aplicação de mulching. Além disso. 1993). etc). etc.. mas a maior par te é desc onhecida ou inc erta (espécies de plantas pouco frequentes. (1993) enumeraram alguns atributos fundamentais da estrutura e função do ecossistema que deverão ser restabelecidos por intermédio do restauro. quando há a necessidade de evitar a progressão da degradação ou o r isco de desastres. as acções de r estauro são necessárias quando a regeneração natural é incerta ou demasiado lenta para os objectivos pretendidos e. qualquer material que proteja a superfície do solo (e. Há no entanto situações em que o nív el de deg radação é de tal for ma a vançado que o ecossistema não consegue regenerar sem uma intervenção mais activa.

No entanto. facilitam indirectamente a importação de sementes através da fauna. etc. na qual se baseou uma d outrina de r estauro seguida dur ante muito tempo. 1994). 1987).. não é correcta (Cortina et al. alguns passos intermédios no processo de restauro. 3.130 V. tipicamente árvores ou arbustos altos. 2006). espécies que ac tuam como “engenheiros do ecossistema” (Jones et al. Em par ticular. 1995). Um exemplo da abordagem destas questões de restauro. Esta estratégia assume a teoria da facilitação na sucessão. uma vez que pode ha ver saltos e mais d o que um caminho possível de sucessão (Figura 2B). A estratégia de restauro consiste em imitar a natureza (Jordan et al. 2. isto é... cujo papel na estruturação do ecossistema é considerado crítico. natural ou artificial. A abordagem genérica em tecnologias de recuperação resume-se a introduzir alguns componentes chave (keystone species) que ac eleram a suc essão. a sucessão secundária. num contexto mediterrânico. desenvolvem o subc oberto. podem ser dispensados das práticas de r ecuperação (Ashby. pode ser visto na Caixa 2. em que se preconizava uma utilização inicial de coníferas pioneiras com a perspectiva de facilitar a entrada posterior. Assim sendo. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 1. ou seja. 1987) porque não são essenciais. Assume-se que estas espécies melhoram as propriedades do solo. melhoram o micr oclima. e requer portanto o conhecimento dos parâmetros críticos que governam o funcionamento do ecossistema. . deixando depois a natur eza prosseguir. A recuperação baseia-se essencialmente na introdução de uma ou mais espécies chave. a visão linear da evolução dos ecossistemas. espécies que modificam o habitat. O resultado final da recuperação deverá idealmente ser um ecossistema auto-sustentável (Bradshaw. de folhosas assumidas como espécies tardias na sucessão. baseada no conceito clássico de sucessão secundária.

MATOS BAIXOS OU PLANTAÇÕES ARDIDAS DE PINHEIROS JOVENS MATOS ALTOS /MAQUIS Plantação combinada de pinheiros e carvalhos MATOS BOSQUE FIGURA 3 Estratégia de restauro pós-fogo na Região de Valência. . (Adaptado de Vallejo.1996). tendo por base as orientações acima pr opostas para o restauro de áreas ardidas.V.FOGO EM PAISAGENS SUSCEPTÍVEIS À DESERTIFICAÇÃO CAIXA 2 A estratégia que se apresenta de seguida (Figura 3) foi desenvolvida para a região de Valência. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 131 RESTAURO PÓS . Sementeira + cobertura de material orgânico SOLOS DEGRADADOS PRADOS Plantações de arbustos de regeneração vegetativa VEGETAÇÃO DISPERSA.

em condições sub-húmidas e semi-áridas onde essas espécies não es tavam presentes. Pretendeu-se combinar as características de crescimento rápido dos pinheiros em áreas degradadas com a elevada resiliência introduzida pelas azinheiras. introduzindo-se primeiro o pinheir o e só depois as f olhosas. Na tradição florestal esta operação é executada sequencialmente (Montero e Alcanda. Erica multiflora. resinas). a pr oporção de biomas sa morta. deverá relacionar-se com a inflamabilidade das espécies. 199 3). mediante a c omposição em espécies. 1996). A título e xemplificativo. e Pistacia lentiscus e Rhamnus alaternus mostram baixa inflamibilidade. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO CAIXA 2 Sementeira de emergência Esta operação foi aplicada em solos com declives acentuados e com fraca capacidade r egenerativa de modo a mitigar a det erioração do solo após o incêndio. As árvores e arbustos de r egeneração vegetativa são muit o resilientes ao f ogo (Keeley.132 V. Rhamnus lycioides e Juniperus oxycedrus são consideradas medianamente inflamáveis. Vallejo. Esta prática reduz significativamente o escoamento e as taxas de erosão durante os primeiros dois anos após o incêndio. numa perspectiv a de redução de custos e de aumento da viabilidade destas operações. 1991). 1996. Consiste em aplicar uma c obertura de r esíduos orgânicos (mulch) e semear espécies herbác eas. Ao nível da comunidade. Plantações de árvores e arbustos de regeneração vegetativa Esta prática pretendeu aumentar a resiliência e resistência dos matos susceptíveis ao fogo (frequentemente localizados em antigos campos agrícolas) dominados por espécies de r egeneração por sement e e que se c omportam normalmente como acumuladores de combustível. sobretudo em po voamentos adultos onde se acumula muit o mat erial c ombustível.. e a pr esença de subs tâncias que ac entuam ou diminuem a inflamibilidade ( compostos orgânicos voláteis. Plantação combinada de resinosas e folhosas Este procedimento foi usado para o restauro de florestas adultas. Ulex parviflorus é considerada altamente inflamável. Quercus coccifera. Algumas espécies de arbustos altos consideradas resistentes e resilientes ao fogo foram introduzidas com sucesso. A resistência ao fogo. det erminada pela es trutura da planta (densidade e quantidade de c ombustível). definida para cada espécie separadamente. No decurso da r egeneração do ecossistema as espécies introduzidas foram progressivamente substituídas pelas nativas. 1986) e conferem ainda resiliência ao ecossistema (Ferran et al. foi efectuada a plantação simultânea dos dois tipos de espécies. o t eor de humidade . de f orma a obter-se uma rápida pr otecção do solo (Bautista et al. No entant o. Estas áreas correm o risco de regredir para solos degradados na sequência de f ogos recorrentes. o que mos tra que as primeiras não se comportaram como invasoras. . a es trutura da v egetação e as características da manta morta. a resistência deverá relacionar-se com a c ombustibilidade do ecossistema.. com o objectivo de diminuir o risc o de incêndio e melhorar a resiliência e estrutura do ecossistema.

solo. reflorestação. sequenciais. d) fase intermédia. pragas ou doenças FASE 4 Recolha de salvados. valores em risco FASE 2 AVALIAR IMPACTOS DO FOGO Requer a avaliação pós-fogo da severidade. através de detenção remota ou trabalho de campo FASE 3 MONITORIZAÇÃO INTERVENÇÕES DE EMERGÊNCIA Com o objectivo de evitar erosão. FASE INTERMÉDIA FASE 5 FASE DE RECUPERAÇÃO Planeamento à escala da paisagem. análise da resposta da vegetação ao fogo. análise de ocorrência de pragas. gestão florestal FIGURA 4 Enquadramento das acções de gestão pós-fogo e restauro de áreas ardidas. Podemos distinguir diferentes fases. b) a avaliação de impactos in situ. na definição de uma estratégia de intervenção pós-incêndio (Figura 4): a) a identificação de áreas vulneráveis. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 133 4. topografia.V. c) intervenções de emergência. riscos para bens e pessoas. . e) fase de recuperação. Decisões no planeamento pós-fogo: da intervenção de emergência à recuperação de longo prazo. etc. FASE 1 IDENTIFICAR ÁREAS VULNERÁVEIS Com base no tipo de vegetação. ordenamento do território.

simultaneamente. Para a região de Valência (Espanha).) deve ser integrada na identificação das áreas vulneráveis. baseada na combinação de cartografia que combinava a capacidade de regeneração da vegetação com factores de risco de degradação ambiental (Allosa e Vallejo. Os factores de r isco de deg radação ambiental foram calculados como uma combinação do risco de erosão (a partir da USLE) e da intensidade do período seco na região (3 categorias). Os dados necessários para esse planeamento consistem em informação cartográfica sobre a vegetação. Estas áreas correspondem a locais com. . A capacidade de regeneração foi baseada em 2 variáveis: o potencial de autosucessão (capacidade de regeneração da vegetação após um incêndio). que naquele contexto geográfico foi considerada sempre alta com excepção dos povoamentos jovens de Pinus halepensis. c om objectivos de protecção do solo contra erosão. áreas particularmente sensíveis. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 4. etc. Identificação de áreas vulneráveis Mesmo antes da ocorrência de incêndios. A cartografia de vulnerabilidade dos ecossistemas ao fogo r esultou da combinação destas 4 camadas de informação e permitiu identificar as áreas prioritárias para intervenção de emergência e recuperação a longo prazo. que permitem mapear a vulnerabilidade. Informação adicional sobre a severidade do fogo pode depois ser adicionada imediatamente a seguir ao fogo para determinar ár eas pr ioritárias par a int ervenções de emergência. a cartografia dos valores em risco (infra-estruturas. Ainda nesta fase.134 V. uma baixa capacidade de regeneração e um elevado risco de degradação (Allosa e Vallejo.1. 2006). definida em função da per centagem de espécies rebrotadoras e germinadoras de semente que ocorrem nos diferentes tipos de v egetação. os gestores florestais possuem ferramentas que lhes per mitem cartografar a vulner abilidade das ár eas sob sua gestão e identificar as áreas prioritárias para intervenção após o fogo. foi utilizada uma ferramenta SIG de identificação de áreas vulneráveis ao fogo. em caso de incêndio. zonas com interesse cultural. 2006). e a taxa de r egeneração (velocidade com que se dá a r egeneração). tipo de solo e declives da área.

sinopse das condições meteorológicas durante o incêndio. com o objectivo de minimizar os potenciais impactos negativos do fogo. pelo que a observação directa pode ser mais expedita e eficaz. em particular dos padrões espaciais da severidade dentro da área ardida. Finalmente. Obviamente.V. devem ser efectuadas no prazo máximo de poucos meses após o incêndio. Estes relatórios apresentam dados sobre a localização e limit es da área ardida. extracção da madeir a queimada e monit orização da resposta da vegetação.3. particularmente do solo e da qualidade da água. todos os incêndios com uma área superior a 100 hectares são visitados no espaço de 2 semanas por uma equipa que faz um relatório sumário de avaliação de danos (em particular a severidade do fogo). Intervenção de emergência Estas intervenções. Avaliação de impactos in situ Mesmo se uma dada ár ea foi identificada c omo muito vulnerável a incêndios. vai permitir definir as áreas prioritárias para intervenções de emergência.2. em conjunto com a da fase anterior (4. e recomendando desde logo intervenções urgentes em locais específicos. breve descrição da resposta esperada de diferentes tipos de vegetação e do risco de erosão. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 135 4. climatologia e condições meteorológicas anteriores ao incêndio. identificação de áreas sensíveis de um pont o de v ista biológico e de oc orrência de infr aestuturas. tipos de v egetação afectada. .1). acções de protecção do solo. tentando identificar as áreas com elevado risco de erosão e fr aca capacidade de r egeneração. são dadas recomendações de acções a tomar. A primeira abordagem ainda apresenta vários problemas metodológicos. à escala do projecto de restauro. a curto e médio prazo. quando necessárias. 4. tais como o seguimento de focos de escolitídeos. geologia. ocorrência de fogos ant eriores na mesma z ona. imediatamente após os incêndios deve ser feita uma avaliação expedita dos danos. Desta forma. A informação sobre severidade pode ser r ecolhida através de det ecção remota ou observação directa no campo. Na região de Valência. a severidade do fogo só pode ser avaliada após este ocorrer. Esta informação. em particular prevenir os processos de deg radação. um fogo com baixa intensidade e severidade pode implicar um risco muito baixo ou nulo de erosão e perda de solo. descrição genérica de níveis de severidade.

nalgumas regiões a selecção da(s) espécie(s) para eventuais reflorestações tem de sair do âmbito restrito das espécies arbóreas e incluir igualmente espécies arbustivas. à avaliação dos danos e monitorização da reacção dos ecossistemas. Fase intermédia Segue-se uma fase intermédia.5. acções de recuperação biofísica e mesmo já à r eflorestação de zonas mais sensíveis. entre outras acções. ou outras acções. à recolha de salvados e. e os objectivos preconizados para a área ardida. 4. nalgumas situações ocorre regeneração excessiva. Com frequência crescente. como é hoje visível em muitas áreas de pinhais adultos que arderam nos incêndios de 2003 e 2005. devem ser programadas e implementadas acções de gestão que permitam o aumento das espécies desejáveis (nomeadamente folhosas) e impeçam a dominância das espécies indesejáveis (invasoras. em função dos objectivos definidos para a área ardida. espécies exóticas invasoras aumentam ainda mais a biomassa. os matos apresentam taxas de crescimento muito elevadas após o fogo. Dependendo do grau de degradação dos ecossistemas e da aridez climática. isso não ser previsível. Outros critérios importantes para definir a localização e tipos de intervenção são os riscos para a segurança de pessoas e bens. ao definir est ratégias de pr otecção da r ede hidr ográfica. nos dois anos seguintes ao incêndio. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO e prevenir riscos sanitários (pragas e doenças). infraestruturas e habitats com interesse de conservação mais sensíveis. ou regeneração excessiva de espécies nativas.4. apesar de. eventualmente. Pelo contrário. Fase de recuperação a longo prazo Na terceira fase são planeados e implementados os projectos definitivos de recuperação/reflorestação.136 V. questões paisagísticas (diminuição do impacto visual). Exemplos incluem desbastes para controlar a regeneração excessiva ou acções para minimizar a invasão por espécies exóticas. pelo menos no actual contexto climático português. Neste contexto. devido à elevada produtividade das estações (nomeadamente no centro e norte do país). as intervenções de emergência deveriam começar ainda na fase de combate ao incêndio. 4. normalmente a par tir dos três anos após a passagem do fogo. em particular em pinhais). Frequentemente. Para além disso. ao controlo fitossanitário. repondo rapidamente a carga de combustível. em que se procede. .

Esta caraterização deve ser feita antes da implementação da acção.V. Os cust os económicos deste acompanhamento deveriam ser uma par te integrante de todas as acções de restauro (Vallejo et al. O primeiro é a carace terização da situação de referência. Por exemplo. ou uma diminuição de 50% na taxa de er osão. nos quais se ja possível rectificar e re-orientar as acções tomadas em função dos seus resultados. é ainda incipient e. desde o c ontrolo da qualidade das medidas implementadas até à a valiação da sua eficácia. à escala local ou regional. Neste contexto. pelo que o acompanhamento e avaliação científicas das acções de r estauro pode ser m uito importante para que o nível de c onhecimento vá aumentand o. Este planeamento pode implicar a promoção de políticas ec onómicas.6. é impor tante aprender com os sucessos e os fracassos. A importância da monitorização O sucesso ou fracasso das acções de restauro estão sujeitos a um grande grau de incerteza. de forma a reduzir a combustibilidade e aumentar a sua resistência à propagação do fogo (ver Capítulo VI). a monitorização científica é cr ucial.. agrícolas. 2009). e sobre as int eracções biológicas entre os difer entes componentes do ecossistema. o significando de um aument o de 50% na c obertura d o solo. Para além disso . Por exemplo. Dois aspectos-chave não podem ser esquecidos pelos gestores florestais. ou florestais. com vista à prossecução dos objectivos pretendidos. será muito diferente consoante a mesma variação nas parcelas testemunha tenha sido de 5% (a nossa acção foi muito eficaz) ou de 45% (o efeito da nossa acção foi marginal). 4. Uma vez mais. CONCEITOS DE RESTAURO ECOLÓGICO E PLANEAMENTO DA GESTÃO FLORESTAL PÓS-INCÊNDIO 137 É também nesta fase que se deverá programar o planeamento à escala da paisagem. já que (1) os gestores não podem antecipar o contexto ambiental (incluindo o climático) em que uma dada acção vai oc orrer. . mas onde não foi desenvolvida qualquer acção. se desejarem que se possa avaliar a eficácia das acções que implementam no t rreno. o g rau de incerteza no sucesso das acções aconselha a que sejam seguidos princípios de gestão adaptativa. (2) o nível de conhecimento científico sobre as espécies e ec ossistemas. de que forma podemos avaliar a eficácia de uma acção de“mulching” na cobertura do solo se esta variável não foi medida no início? O segund o aspecto essencial é a e xistência de parcelas testemunha. com condições semelhantes às parcelas intervencionadas.

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Gestão do combustível de copas 5. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS FRANCISCO MOREIRA PAULO FERNANDES JOAQUIM SANDE SILVA JOÃO PINHO MIGUEL BUGALHO 1.1. eficiência e optimização . Expectativas.2. Gestão do combustível de superfície 4. Princípios e estratégias de gestão 3. Gestão de combustíveis no espaço e no tempo 5. Mosaico de parcelas de gestão de combustível 5.1. Faixas de gestão de combustíveis 5. Introdução 2.141 PRINCIPIOS GENÉRICOS DE GESTÃO PÓS-FOGO VI.3. Técnicas de gestão de combustíveis 4.2. Princípios de gestão à escala do povoamento florestal 4.

Mais detalhes sobr e as diferentes fases da gestão pós-incêndios podem ser vistos no Capítulo V. Introdução Este capítulo aborda os princípios de gestão com o objectivo de minimizar os impactes dos incêndios florestais. A recuperação de ár eas ardidas envolve gener icamente três fases distintas: (i) a pr imeira. Num contexto de intervenções pós-fogo. dissuasão. decorre logo após (ou ainda mesmo dur ante) a fase de c ombate ao incêndio e visa não só o controlo da erosão e a protecção da rede hidrográfica. .142 VI. a acções de recuperação biofísica e mesmo já à r eflorestação de zonas mais sensíveis onde esta seja aconselhável. entre outras acções. 2. bem c omo ger ir as interfaces floresta/agricultura e floresta/zonas edificadas. muitas vezes designada c omo de “intervenção” ou “estabilização de emergência ”. estes princípios deverão ser aplicados em fases distintas. (iii) na terceira fase são planeados e implementados os projectos definitivos de recuperação/reflorestação. à avaliação dos danos e da reacção dos ecossistemas. à recolha de salvados e. permitindo as acções de vigilância. em que se pr ocede. eventualmente. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 1. habitats e espécies mais sensíveis ou com especial valor de conservação. Príncipios e estratégias de gestão Os princípios genéricos de gestão par a minimizar os impact es dos incêndios podem resumir-se em d otar os espaços flor estais das car acterísticas e infra-estruturas necessárias para a minimização da área ardida e consequentes danos ec ológicos e pat rimoniais. e t endo desde logo em v ista uma melhor resistência e r esiliência dos ecossistemas afectados pelos incêndios fac e a novas ocorrências nas mesmas ár eas. mas também a defesa das infra-estruturas e das estações. Estes princípios e estratégias dizem respeito a várias escalas temporais e espaciais. sendo que na componente espacial devem ser consideradas duas escalas distintas: a escala dos povoamentos e a escala da paisagem. ao controlo fitossanitário. normalmente a partir dos t rês anos após a passagem do fogo . (ii) segue-se uma fase de “reabilitação”. Estes princípios devem ser baseados em 3 aspectos essenciais: — Facilitar e controlar o acesso às zonas florestais. nos d ois anos seguint es. detecção e combate aos incêndios.

Adicionalmente. num contexto florestal. Em Portugal. altera a quantidade de c ombustível disponível para propagar o fogo e consequentemente reduz a intensidade do fogo. por exemplo formação de folhada compacta ou r apidamente decomposta. A estratégia de isolamento interrompe a continuidade da vegetação e compartimenta o espaço florestal com o objectivo de confinar os incêndios. podem utilizar-se técnicas alternativas que se aplicam isoladamente ou em conjugação: intervenções moto-manuais ou mecânicas no sub-bosque ou no ar voredo. (1996) distinguem três estratégias possíveis para a gestão de combustíveis. ou mais abr angentemente a sua modificação estrutural. conversão e isolamento.VI. A redução da disponibilidade de combustível consegue-se removendo-o ou transformando-o. a tendência natural de progressão da sucessão no sentido das quercíneas (esclerófilas ou caducifólias) ou de formações mistas resulta. e pastoreio dirigido. Pyne et al. e a prazo. Para tal. O critério para a substituição pode e de ve incluir a resiliência da formação flor estal à passagem d o fogo . fogo controlado. — Reduzir a severidade do fogo através das técnicas mais adequadas de gestão de combustíveis nos povoamentos e outras formações vegetais. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 143 — Limitar a expansão dos incêndios compartimentando a paisagem e bloqueando os caminhos preferenciais do fogo. tratamento químico. A mitigação d o potencial de comportamento do fogo alcança-se através das características das espécies a implantar ou a favorecer. utilizando técnicas de gestão estratégica de combustíveis. redução. que podem ser usadas à escala da par cela ou do planeament o da paisagem. esta conversão pode ser conseguida através de políticas de planeamento e gestão do território. substituindo ou diminuindo a representatividade da v egetação de ele vada c ombustibilidade. A est ratégia da conversão consiste na alt eração da c omposição d o coberto florestal e uso do solo. pode v isar ou resultar em piro-ambientes mais húmidos e atenuadores da velocidade do vento. na conversão desejada. . A uma escala da paisagem. respectivamente. As espécies disponív eis par a a conversão e as alterações ecológicas resultantes restringem a aplicabilidade desta estratégia. A redução de combustíveis. Os contextos biofísico e socioeconómico determinam a estratégia predominante e o balanço entre estratégias.

preferencialmente acrescida de infra-estruturas de apoio à supressão do fogo. Estas faixas c orta-fogo. os tratamentos devem evitar fogos de copas ou transformar um fogo de copas num fogo de superfície. 3. visam a redução da combustibilidade para níveis que aumentem as oportunidades e opções de controlo de um incêndio e. (Foto: Paulo Fernandes). nomeadamente no est rato arbóreo. ou. modifica estruturalmente ou converte a vegetação (Figura 1).144 VI. Do pont o de v ista prático. Príncipios de gestão à escala do povoamento florestal À escala do po voamento flor estal. Estas intervenções incluem a modificação do tipo de vegetação ou da quantidade e estrutura do combustível. incluindo a gestão do combustível propriamente dita. que minimizem o impacto do fogo. constituem assim a implementação linear das duas est ratégias anteriores. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS Materializa-se através da instalação de faixas de largura variável nas quais se exclui. ou faixas de gestão de c ombustível. as int ervenções de sil vicultura preventiva. Os princípios gerais que de vem enquadrar as acti vidades de sil vicultura preventiva à escala da formação florestal são os seguintes: . FIGURA 1 Faixa de gestão de combustíveis efectuada com fogo controlado na serra do Marão.

como o demonstram vários casos de estudo compilados por Fernandes e Rigolot (2007). O adensamento é consistente com a maximização da produção lenhosa mas quando a composição do povoamento favorece combustibilidade elevada tem efeitos contraproducentes. que reduz a vulner abilidade estrutural ao fogo e o dano infligido às árvores. as práticas recomendadas para gerir a acumulação de combustíveis em plantações são a remoção dos resíduos lenhosos remanescentes da vegetação ou rotação anterior. Este princípio adequa-se aos tipos florestais (resinosas ou folhosas esclerófila s) cuja c ombustibilidade se ja intrinsecamente mais elevada.VI. Se o fogo de superfície t ransitar para o copado – o que em condições meteorológicas severas pode suceder mesmo quando há descontinuidade vertical e tratamento do combustível de superfície – a c onsequência da densidade ele vada será um fogo de copas extremamente violento. por r emoção ou modificação estrutural. e a distribuição de classes de idade (FFMG. Este princípio é eficaz em folhosas de folha caduca e resinosas de montanha. que amenizem as condições ambientais favoráveis à propagação do fogo. Eucalyptus globulus). 3. Modelos de comportamento . a densidade e características dos acessos. 2007). Em certos casos. a manutenção de densidade elevada (para evitar padrões de vento adversos em caso de incêndio). Além do controlo do combustível do sub-bosque. porém. e a desramação precoce e frequente (FFMG. Para a maior par te dos tipos florestais. há algumas e vidências que suger em que as fases juvenis poderão ser menos combustíveis (e. o fomento do rápido crescimento das árvores e fecho de copas. Reduzir a disponibilidade de c ombustível. as faixas de interrupção e gestão do combustível. fomentar o desen volvimento de car acterísticas de matur idade. 2. actuando em sinergia com a sua tendencialmente reduzida combustibilidade. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 145 1. A defesa contra incêndios em sistemas de silvicultura intensiva inicia-se na fase de desenho da plantação . a qual de ve considerar a for ma e dimensão dos talhões individuais. isto é que reduzam a velocidade d o v ento e aument em a h umidade no int erior da formação e que c ontrariam o desen volvimento de sub-bosque heliófilo. Favorecer estruturas florestais densas. 2007).g.

evitando o fogo de copas activo. 2. 2007) na literatura norte-americana e australiana. respectivamente. Fulé et al..146 VI. Os povoamentos cuja est rutura é assim modificada têm sido r eferidos como “corta-fogos sombr eados” (A gee et al. para limitar a intensidade do fogo. . validand o estas or ientações (Figur a 2). Redução ou modificação est rutural do combustível superficial (manta morta e sub-bosque). Graham et al. Em consonância com as etapas de desenvolvimento do fogo.g. O intervalo médio entre fogos sucessivos nesta área é de 6 anos. 2000) e “zonas li vres de fogo de copas” (FFMG. Murça. após incêndios têm permitido a formulação de orientações para tratamento de combustíveis em florestas secas de coníferas. 2004): 1. 2003. FIGURA 2 Pinhal bravo resistente ao fogo. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS do fogo e numerosa evidência empírica obtida nos E. Desramação das ár vores e eliminação de andar es de t ransição (regeneração arbórea.U. inclusivamente na Península Ibérica (e. 3. preconiza-se a adopção da seguinte sequência de prioridades (Finney e Cohen. (Foto: Paulo Fernandes). Desbaste do povoamento. arbustos altos). apresentam-se abertos e v erticalmente desc ontínuos.A. Pinhais resistentes a fogo frequente e de baixa severidade.. 2008). minimizando a possibilidade de transmissão do fogo ao copado. em Pegarinhos. com o objectivo de dificultar a transmissão do fogo entre árvores.

possibilidade de uso em escala. versatilidade. sendo em seguida apresentadas as mais relevantes no contexto nacional. O fogo controlado é a única intervenção de aplicação extensiva na paisagem. 2004): 1. Das alternativas disponíveis para o controlo do combustível florestal. Reduz efectivamente o combustível fino acum ulado. solo. produção de pasta e papel) ou pelo calor/fogo (pinhais r esinados ou de pr odução de fruto). o fogo controlado é a mais utilizada mundialmente.g. Quando as exigências de manutenção são maiores. Como principal limitação há a apontar a nec essidade de execução dentro de uma janela meteorológica relativamente restrita. de entre os tratamentos alternativos de gestão do combustível superficial. 2003). PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 147 4. é aconselhável o uso de sequências operacionais que combinem duas ou mais técnicas. desde que a casca das árvores seja suficientemente espessa para evitar o dano no tronco ou a utilização económica não seja prejudicada pela permanência de material carbonizado (e. Em povoamentos florestais é o tratamento de eleição do combustível superficial. .. Fogo controlado O fogo controlado (ou prescrito) consiste no uso planeado do fogo em condições ambientais compatíveis com a satisfação de objectivos de gestão específicos e formulados explicitamente. Técnicas de gestão do combustível 4. Rigolot e Etienne (1998).VI. devido à sua eficácia.g. aquele que assegura o mais completo impacte no complexo combustível (Graham et al. e. como nas faixas de gestão de combustível.1. e por tanto diminui substancialmente a energia que um incêndio subsequente pode libertar. clima e vegetação condicionam a escolha dos tratamentos de gestão do combustível mais adequados. Gestão do combustível de superfície Existe uma grande diversidade de técnicas de redução ou remoção dos combustíveis de superfície.. com custos e eficácia muito diferenciadas. frequentemente coincidente com os dias frios e secos do Outono e Inverno. como sucede no sudeste e oeste dos EUA e na Austrália (Fernandes e Botelho. 2004). e também por moti vos económicos e ecológicos (Graham et al. Os recursos disponíveis e as condições locais de fisiografia. O fogo controlado é.

Estes efeitos concorrem para dificultar um fogo de copas e diminuir o potencial de focos secundários.148 VI. ar bustos alt os. Quando o combustível permanece no local. paisagem e património arqueológico. e na dificuldade. . e causar mortalidade nos indivíduos dominados. cascas suspensas. Comparativamente ao fogo controlado. pode acarretar efeitos negativos no solo. perturbando a expansão do fogo e diminuindo a probabilidade de focos secundários. por vezes usada. Métodos manuais e mecânicos As alternativas ao fogo controlado mais óbvias e mais usadas baseiam-se em meios mot o-manuais ou mecânicos. 4. ou mesmo impossibilidade. de remover o combustível. r egeneração natural). com velocidade da combustão reduzida. A prática. No entanto. com implicações económicas e de eficácia. não afecta o c ombustível situado nas linhas de plantação. 3. destroçadores de mar telos e r oçadores montados em br aço hidráulico. de utilização de lâmina frontal associada a buldozer. Em plantações florestais é m uito comum a g radagem com discos. as desvantagens mais óbvias residem nas restrições impostas pela topografia e tipo de solo. por e xemplo através de c ompactação ou estilhaçament o. subir a base da c opa por dessecação foliar . Reduz a continuidade horizontal do combustível. Dependendo da sua intensidade. corta-matos de facas e de correntes acoplados a tractor. à semelhança dos restantes tratamentos mecânicos. o fogo controlado pode eliminar combustíveis de transição entre o sub-bosque e o estrato arbóreo (ramos mor tos. O corte da vegetação pode recorrer a motorroçadoras. a efectividade das intervenções mecânicas na redução do perigo de incêndio está m uito dependente do grau de modificação est rutural conseguido. O c ombustível r emanescente é c onstituído por element os lenhosos grosseiros dispostos sobre manta morta compacta e por esqueletos de arbustos. e por conseguinte dificilmente impede a progressão de um fogo impelid o pelo vento. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 2. que simultaneamente corta e enterra todo o combustível.

Tsiouvaras et al. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 149 Herbicidas A aplicação de produtos fitocidas é eficiente no controlo da vegetação do sub-bosque. 1989). Ambos os processos induzem efeitos nas comunidades tais como a alteração do balanço competitivo entre espécies ou da estrutura da comunidade. no Alto Alentejo. No entanto. O seu impacte é selectivo e disperso e depende do encabeçamento utilizado (e. Ambos induzem per turbações da c omunidade vegetal nomeadamente mortalidade de indivíduos e libertação de recursos e ambos são condicionados por car acterísticas da vegetação comuns. Por exemplo. O impacte não é contudo imediato. características que. a presença de compostos voláteis afectam tanto a probabilidade de ignição e propagação do fogo como a probabilidade de selecção de plantas pelos herbívoros (Bond e Keeley. Por exemplo. combinando o consumo de biomassa com um efeito de compactação. prolongando o espaço de t empo entre dois tratamentos consecutivos. experiências . 2002). o fogo selecciona. em Portugal. as características da vegetação que a tornam susceptível ao fogo são também aquelas que tornam a vegetação menos “apetecível” para os her bívoros. Pastoreio O pastoreio é essencialmente um complemento a outras intervenções. Tal é possível utilizando-se suplementos alimentares ou cargas de pastoreio elevadas. O fogo e o pastoreio são processos ecológicos conceptualmente análogos. 2005)..g. a proporção de material verde ou seco. Este factor tem implicações no c ontrolo da vegetação combustível pelo pastoreio pois por vezes é necessário “obrigar” os animais a consumirem vegetação que normalmente não seleccionariam. e a combustibilidade é temporariamente elevada por conversão de biomassa viva em morta (Brose e Wade. Estes normalmente evitam nas suas dietas plantas ricas em compostos voláteis ou anti-nutricionais e preterem o material seco ao verde. a quantidade de biomassa em pé. O conhecimento da estratégia alimentar dos animais (se são predominantemente consumidores de plantas lenhosas ou herbáceas) e o controlo da carga animal são factores essenciais na gestão da vegetação combustível pelo pastoreio. ao invés.VI. pese embora o custo relativamente elevado e a possibilidade de contaminação ambiental.

Os animais que c onsomem pr eferencialmente espécies lenhosas encontram-se mais vocacionados para o controlo da vegetação arbustiva e ar bórea. Caso a vegetação seja adequada em t ermos nutritivos.g. Ao nív el d o planeament o da paisagem. Em alguns casos é nec essário o for necimento de suplementos de alimentação.5 t/ ha a cargas animais apr oximadas de 0. confinados at ravés de v edações eléc tricas. e a frequência dos fogos de superfície (Bond et el. foi efectivo através da utilização de pastoreio com cabras domésticas no Outono (tendo-se reduzido a sobrevivência da G. GoatsRUs. em H uesca. para além da r edução da carga c ombustível. 2006) o que pode ter implicações na propagação de fogos de superfície pois existe uma correlações forte e positiva entre a biomassa de herbáceas.. Goats Unlimited). 2005). . scorpius para 58% relativamente a áreas não pastadas) (Valderrábano e Torrano. 2007). c om quantidades de água suficiente e deixados a pastar até que os objecti vos de redução de carga combustível sejam cumpridos. 2001. Nos Estados Unidos da América (e. poderão pot encialmente oc orrer ganhos de produção animal. particularmente se os tipos de vegetação a consumir tiver valores nutritivos baixos. Em Portugal. Por e xemplo. a utilização int egrada d o pastoreio e a instalação de pastagens pode c ontribuir para o controlo dos matos e a dimin uição do risco de incêndio .4 indivíduos/ha (Ramos.. em especial gramíneas. Briggs et al. através da utilização de pastoreio por caprinos. o c ontrolo de Genista scorpius. o past oreio poderá contribuir para manter as redes de gestão de combustíveis. A utilização de animais cujas dietas sejam preferencialmente de herbáceas estará portanto mais vocacionada para o controlo do combustível fino e dos fogos de superfície que aquele origina (Hobbs. uma arbustiva nativa problemática (devido ao se u potencial invasor e facilidade de ignição).150 VI. A inventariação do potencial de utilização de herbívoros para controlo da carga combustível nas redes primária e secundár ia pode ser feit o através da avaliação da disponibilidade e qualidade nutritiva da vegetação presente. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS de exclusão de pastoreio com cervídeos evidenciaram reduções de biomassa de herbáceas de 2 t/ ha para 1. 2000). Espanha. e também em P ortugal (Caprinos & C ompanhia) existem iniciativas empresariais cujos ser viços são o c ontrolo de vegetação ou eliminação de r esíduos de cultur as agrícolas. Os rebanhos são transportados até às zonas alvo.

Paradoxalmente. O fogo c ontrolado é também uma o pção a considerar. 5. 1996). Intervenções c omplementares de t ratamento d os r esíduos de desbast es e desramações são por tanto indispensáveis. tal como diversos estudos de caso demonstram (Graham et al. O tipo e intensidade do desbaste e a evolução posterior da vegetação determinam o impacte no complexo combustível e no pir o-ambiente (Graham et al. o efeito imediato das operações silvícolas de tratamento do c ombustível das c opas é de ag ravamento das c ondições do piro-ambiente. como. 2004). 2002). apesar de poder ser mitigado pelo valor comercial (inclusivamente para aproveitamento energético) do material lenhoso extraído. Na verdade a remoção ou dest roçamento do material produzido por um desbast e mais do que compensa o segundo efeito. o qual de ve c onsiderar questões espaciais e temporais. sendo irrelevante um aumento da intensidade potencial do fogo de superfície na presença de uma redução drástica do possibilidade de fogo de copas (Weatherspoon. desempenho e optimização da gestão de combustíveis.. 2004)... particularmente em formações jovens ou de pouca estatura. de vido à adição de c ombustível ao sub-c oberto e à abertura do povoamento ao vento e luz (Graham et al. Onde intervir. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 151 4. A redução significativa do potencial de fogo de copas activo em resinosas exige desbastes relativamente fortes que originam povoamentos sub-lotados (Reyes e O’Hara..2. .VI. Um compromisso entre produção lenhosa e redução da combustibilidade é atingido através de desbastes pelo baixo que removam algumas árvores codominantes e dominantes (Peterson et al. Gestão do combustível de copas As intervenções silvícolas no estrato arbóreo recorrem à desramação das árvores e ao desbaste do povoamento. especialmente recomendado para florestas densas constituídas por indivíduos pequenos (Weatherspoon e Skinner. 2003). quando e em que extensão? Nesta secção abordaremos sucintamente questões r elacionadas com o planeament o. 2004). 1996). O custo envolvido é ele vado. usando meios de corte moto-manuais ou mecânic os. Gestão de combustíveis no espaço e no tempo O sucesso das ac tividades de pr evenção de incêndios depende de adequado planeament o.

As RDFCI são constituídas por um conjunto de redes e acções sectoriais. (iv) Rede de pontos de água e de outros materiais retardantes. de for ma coordenada. Combate aos incêndios. Estas RDFCI. Neste subcapítulo concentramo-nos sobre faixas e parcelas de gestão dos combustíveis. visando a redução da área de cada incêndio e a salvaguarda de pessoas e bens. As faixas de gestão de combustível (FGC) ser vem uma lóg ica de contenção activa do fogo em bandas que definem compartimentos mais ou menos vastos. (i) Rede de faixas de gestão de combustível. Planeamento do território. as Redes Regionais de Defesa da Floresta contra Incêndios (RDFCI) foram conceptualizadas em torno destas duas opções. permitindo a adopção de um mais variado leque de tácticas de supressão. O tratamento extensivo em área. Cada uma destas duas . a o peracionalização d os pr incípios e estratégias de gestão de combustíveis é redutível a duas opções. (v) Rede de vigilância e detecção de fogos. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS Do pont o de v ista espacial. Prevenção da eclosão d o fogo. têm como função pr imordial concretizar territorialmente. Em Portugal. (ii) Mosaico de parcelas de gestão de combustível. v isando diminuir o númer o de ocorrências. respectivamente intervenção linear ou em área. através das designadas parcelas de gestão de combustível. designadamente. (iii) Rede viária. incluindo não só a primeira intervenção como também toda a actividade de combate estendido. a estratégia regional de defesa da floresta contra incêndios (DFCI). procura modificar o comportamento do fogo em áreas dispersas de grande dimensão e reduzir a conectividade na paisagem das manchas de grande combustibilidade. Esta est ratégia aborda de forma integrada 3 áreas fundamentais: 1. bem como gerir as interfaces floresta/agricultura e floresta/zonas edificadas. e traduzidas em lei pelo Decr eto-Lei nº 124/2006 de 28 de J unho (posteriormente alterado pelo Decreto-Lei nº 17/2009 de 14 Janeiro). visando dotar os espaços florestais das características e infraestruturas necessárias para a minimização da área ardida e consequentes danos ecológicos e patrimoniais. a qual tem por finalidade a redução da taxa anual de incidência de fogos florestais para níveis social e ec ologicamente aceitáveis.152 VI. (vi) Rede de infr aestruturas de c ombate. propostas pelo C onselho Nacional de Reflorestação na sequência dos grandes incêndios de 2003 e 2005. 2. 3.

infr aestruturas. 2000.. 5. Rigolot. fogo controlado.VI. limpezas. et c. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 153 opções apresenta vantagens e inconvenientes e o peso relativo de cada uma nas RDFCI deve resultar das restrições associadas ao regime de fogo que se pretenda manter. 2005). Cumming. com o objectivo de reduzir a ocorrência de grandes incêndios. CNR.1. 2001. Faixas de gestão de combustíveis Podemos definir uma faixa de gestão de combustível (FGC) como uma parcela de t erritório mais ou menos linear onde se gar ante a r emoção total ou parcial de biomassa florestal.). Agee et al.g . (c) providenciar faixas que facilit em posteriormente outros trabalhos de tratamento dos combustíveis. ao nível da paisagem. etc. Objectivo 3: isolar potenciais focos de ig nição de incêndios. Objectivo 2: reduzir os efeit os da passagem de g randes incêndios protegendo de forma passiva vias de comunicação. permitindo e facilitando uma intervenção directa de combate na frente de fogo ou nos seus flancos. 2002. as faixas envolventes aos parques de recreio. (b) reduzir a intensidade do fogo e proporcionar zonas alargadas onde as operações de supressão possam ser c onduzidas com maior eficiência e segurança. valor cénico da paisagem) (e. Weatherspoon e Skinner. etc. (d) promover vários benefícios não relacionados com o fogo (e. aos sistemas e funções flor estais prevalecentes na região e aos diferentes aspectos sócio-económicos a respeitar. 1996.) e d o r ecurso a det erminadas actividades (silvopastorícia. .) ou a tratamentos silvícolas (desbastes. as FGC têm por funções: (a) interromper efectivamente a continuidade de combustíveis de risco na paisagem. As FGC cumprem três funções primordiais: Objectivo 1: diminuir a superfície percorrida por grandes incêndios. com o objectivo principal de reduzir o perigo de incêndio. através da afectação a usos não florestais (ag ricultura. como sejam as faixas c ontíguas às linhas eléct ricas ou à r ede viária. zonas edificadas e povoamentos florestais de valor especial. De forma mais geral. diversidade de habitats.g. etc. infra-estruturas e equipamentos sociais.

envolventes aos aglomerados populacionais e a todas as edificações. às infra-estruturas e parques de lazer e de recreio.154 VI. desenvolvida sobre redes viárias e ferroviárias. “arrifes” ou “aceiros perimetrais”). às platafor mas logísticas e aos at erros sanitários. ferroviária. . de acordo com a funcionalidade e responsabilidade de manutenção: (i) rede primária. (iii) rede terciária. está a ser concebida uma rede de FGC a nível regional. de nível sub-regional. de nível local e apoiada nas redes viária. As especificações técnicas e objectivos para cada uma destas redes estão sumarizadas nas Tabelas 1 e 2. eléctrica e divisional das unidades de gestão florestal ou agro-florestal (vulgarmente designados como “aceiros”. delimitando compartimentos paisagísticos com determinada dimensão e sendo implementada nos espaços rurais. linhas eléctricas. aos parques e polígonos industriais. É importante salientar que a rede primária não é desenhada para parar. de nível municipal ou local. mas sim para conferir às forças responsáveis pelo combate uma maior probabilidade de sucesso no ataque e contenção de um grande fogo florestal. (ii) rede secundária. por si só. um incêndio. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS Em Portugal. aos parques de campismo.

ao longo de estradas 6. equipamentos sociais e florestas com valor de conservação 3. rede 2. base das copas > 3 m 7. linhas eléctricas.g. áreas urbanas. topografia e uso do solo 3. promover a protecção passiva das áreas urbanas. definindo blocos de 500-10. actividades agrícolas 4.) na adjacência de estradas florestais. equipamentos sociais e florestas com valor de conservação 2. promover a protecção passiva das áreas urbanas. custos de manutenção 5. ferrovias. limites de parcelas e linhas eléctricas que atravessem povoamentos florestais TÉCNICAS DE GESTÃO 1. fogo controlado 2. REDE TERCIÁRIA 6-10m Linhas ou buffers OBJECTIVOS 1. facilitar a supressão de ignições CRITÉRIOS PARA LOCALIZAÇÃO na adjacência das estruturas-alvo (estradas. eficácia esperada e segurança das forças de combate 2. facilitar a supressão de ignições 1. aproveitando estruturas lineares de grande dimensão (e. facilitar a supressão e diminuir a dimensão dos incêndios 2. tratamentos mecânicos 5. pastoreio 3. tratamentos mecânicos . ventos predominantes e historial anterior do fogo 4. carga combustível arbustiva < 2 ton/ ha REDE SECUNDÁRIA >7-100m Linhas ou buffers.VI. fogo controlado 2. f ogo controlado 2. parques eólicos) 1. actividades agrícolas 4. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 155 TABELA 1 ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS DAS FAIXAS DE GESTÃO DE COMBUSTÍVEIS EM PORTUGAL TIPO DE FGC LARGURA FORMA REDE PRIMÁRIA >125-400m 1. tratamentos mecânicos 1. etc. facilitar a supressão de ignições 1.000 ha 1. cobertura arbórea < 30-50% 6. pastoreio 3.

distância entre copas das árvores > 4 m 3. distância entre copa das árvores > 4 m 2. designadamente no que r espeita às causas da ig nição e às c ondições meteorológicas e de combustíveis que propiciam o desenvolvimento de fogos de grande extensão e intensidade. carga de combustível < 2 ton/ha.RURAIS TIPO DE ÁREA ZONAS URBANAS LARGURA > 50-100 m ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS 1. sempre que possível. copas das árvores e arbustos a mais de 5 m dos edifícios 2. carga de combustível arbustivo < 2 ton/ha. sem a qual não possui qualquer utilidade par a as oper ações de combate ao fogo. com < 20% cobertura por vegetação não superior a 100 cm de altura 1. ÁREAS INDUSTRIAIS > 10 m > 10 m > 7-10 m > 100 m 1. uma faixa de 10m em redor do edifício sem combustíveis (excepto algumas árvores ou arbustos isolados) EDIFÍCIOS ISOLADOS > 50 m FERROVIAS ESTRADAS LINHAS ELÉCTRICAS LOCAIS DE CAMPISMO. modelos de simulação de comportamento do fogo. O desenho da r ede primária deve ter em consideração as particularidades da paisagem local e os padrões históricos dos incêndios na região. com < 20% cobertura por vegetação não superior a 100 cm de altura 5. faixas pavimentadas com 1-2 m em redor dos edifícios A rede primária deve apoiar-se sempre na rede viária existente. copas das árvores e arbustos a mais de 5 m dos edifícios 2. . ZONAS DE RECREIO. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS TABELA 2 ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS ADICIONAIS PARA AS FAIXAS DE GESTÃO DE COMBUSTÍVEIS NAS INTERFACES URBANO . No desenho e est ruturação das FGC deverão ser utilizados. desramações até 4m acima do solo ou 50% da altura das árvores 3. desramações até 4 m acima do solo ou 50% da altura das árvores 4. carga de combustível arbustivo < 2 ton/ha. distância entre copas das árvores > 4 m 3. com < 20% cobertura por vegetação não superior a 100 cm de altura 5. faixas pavimentadas com 1-2 m em redor dos edifícios 6. sempre que possível. desramações até 4 m acima do solo ou 50% da altura das árvores 4. sempre que possível.156 VI.

Tal como no caso das faixas da r ede pr imária.3). implicam um cust o de man utenção elevado e per pétuo (e que t endencialmente exclui a gestão de c ombustíveis das manc has flor estais). apr oveitando e expandindo a diversidade de usos da terra na sua concepção. O objectivo aqui é garantir .. 1996).VI. tipo e forma de instalação das parcelas deve ser determinada por uma análise inicial dos “caminhos” preferenciais do fogo e das c ondicionantes ecológicas. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 157 Por outro lado. Igualmente deverá ser optimizada a utilização de sapadores florestais ou de outras estruturas locais que operem na gestão de combustíveis. sem o qual se torna virtualmente ineficaz ou mesmo per igosa. As FGC podem t omar for mas di versas. 5. a concepção de uma FGC implica a ad opção simultânea de programa de manutenção (em intervalos de 2-5 anos). e assenta em pr essupostos facilment e violados (ver 5. contribui decisivamente para mitigar a possibilidade de oc orrência de fogos de dimensão e severidade catastróficas. e a eficácia das descargas efectuadas por aeronaves (Weatherspoon e Skinner. 1996). largos (100-400 m) e equipad os para o combate ao fogo (Pyne et al. a agricultura ou a produção de frutos silvestres. a localização .2. a recolha de biomassa par a energia. Desta forma são criadas condições que dilatam a capacidade de intervenção dos meios de c ombate terrestres ao aumentarem a sua segurança. com origem nos programas de reflorestação e que ser vem também propósitos da gestão e e xploração florestal. a caça. Mosaico de parcelas de gestão de combustível Em conjunto com as FGC. a manutenção de um mosaico de parcelas onde se procede à gestão dos vár ios estratos de combustível e à di versificação da estrutura e composição das formações florestais e de matos. eficiência e produtividade. int egrando. uma vez atingida. até corta-fogos arborizados. afloramentos rochosos). Estes autores assinalam porém que as FGC não modificam o c omportamento e efeitos do fogo na massa florestal. complementada pela simulação do comportamento do fogo. históricas e socioeconómicas na região. A manutenção deverá desejavelmente ser integrada com actividades geradoras de recursos financeiros como a silvopastorícia. Esta estratégia abarca desde faixas nuas e estreitas. passando pela utilização de terrenos agrícolas ou áreas sem combustível (albufeiras. rios. silvícolas.

com variação na composição. muito embora o decréscimo da intensidade do fogo mitigue os impactes ambientais e socioeconómicos dos incêndios nas áreas tratadas. idade e estrutura dos povoamentos. a prontidão e desempenho do dispositivo de supressão do fogo condicionam geralmente a efectividade da gestão do combustível. Assim. Deverão ser obser vadas as seguintes orientações gerais para a sua implantação (no caso de formações florestais ou matos): — A descontinuidade deve ser mantida em par celas de 20 a 60 ha. As intervenções lineares de gestão do combustível são as mais praticadas na E uropa. a facilidade de combate aos incêndios. O sucesso da est ratégia de isolament o mede-se pelo g rau em que a expansão do incêndio nas ár eas tratadas é limitada em ár ea ou em perímetro. sejam elas o custo da sua criação e manutenção. As opções de combate ao incêndio e a efectividade da táctica de supressão utilizada aumentam na presença de t ratamentos r ecentes. Embora tal possa suceder. 5. etc. em especial no que respeita à gestão do estrato arbustivo e à eliminação dos factores que propiciam os saltos de fogo longos. infra-estruturas turísticas (campos de golfe). bem c omo as super fícies que naturalmente cumprem as funções das par celas ou faixas: áreas agrícolas. águas interiores. de ve ser dada pr ioridade ao tratamento de bloc os adjac entes às FGC. áreas queimadas. etc. — em igualdade de cir cunstâncias.158 VI. afloramentos rochosos. eficiência e optimização As expectativas em relação à gestão de combustíveis são frequentemente excessivas.3.. . não é expectável que os tratamentos do combustível detenham por si só a expansão dos incêndios. A gestão de c ombustíveis pode porém não resultar em redução da área ardida no pior dos cenários meteorológicos. mas o se u desempenho fac e ao fogo é inc erto. particularmente em condições meteorológicas severas. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS uma implementação territorial de áreas tratadas que reduza a conectividade entre manchas de elevada combustibilidade e optimize os benefícios face às diferentes restrições em jogo. o impacte paisagístico. — deverão ser identificadas an ualmente as localizações est ratégicas para a realização de acções de redução de combustíveis e alteração da est rutura dos po voamentos. Expectativas.

2005). Pollet e Omi. de acordo com os princípios atrás enunciados. a persistência do efeito será substancialmente mais curta. Estas e vidências pr ocedem essencialment e de observações em incêndios ou de análises c omparativas pós-fogo. d o pont o de v ista prátic o da supressão de um incêndio. Fernandes e Botelho. 2002. 2007. C ondições est ruturais e de acum ulação de combustível mais benig nas que na situação pré-t ratamento podem perdurar por 10-15 anos. 2009). ou inadequada manutenção ou guarnecimento com meios de combate. Fernandes e Rigolot... 2007) e pinhal br avo (Fernandes et al. 2004. devido à projecção de faúlhas com capacidade para iniciar focos secundár ios. 2009) põe em evidência a importância crítica do tempo decorrido desde o t ratamento (C aixa 1).. apesar de t er atrasado o seu avanço e ter restringido a sua expansão lateral (Perchat e Rigolot. são frequentemente atravessadas ou t ranspostas por incêndios de g rande intensidade. . Safford et al. 2007). FGC bem dimensionadas. isto é com largura superior a 100 m. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 159 É ponto assente que a c ontenção por faixas est reitas de int errupção do combustível se restringe aos flancos ou retaguarda do incêndio (FFMG..VI. Fernandes. A rede de faixas de gestão do sul de França raras vezes deteve a progressão frontal dos incêndios em 2003. N o entant o. A modificação estrutural do complexo combustível.. Finney et al. 2003. altera inegavelmente o comportamento e a severidade do fogo em flor esta de c oníferas (e. or ientação desfa vorável em r elação à cabeça d o incêndio.g. Experimentação em eucaliptal (Gould et al. 2003. o que restringe a generalização dos resultados.

respectivamente com intensidade reduzida e moderada e mortalidade arbórea de 55 e 41%. 2009). onde o fogo se restringiu ao estrato superficial. correspondendo em T10 r espectivamente a 64% e 80% dos valores de T25. Com este objectivo. o facto do sucesso do ataque directo à cabeça de um incêndio ser c omprometido quando a carga de combustível fino excede 8-10 t/ha sugere uma periodicidade ideal de 2-4 anos para o tratamento (Fernandes e Rigolot. Simulações par a o pinhal br avo do noroeste de Portugal. respectivamente T10 e T25 (Fernandes. RX13. 200 2). No noroeste de Portugal o regresso às quantidades de manta morta e arbustos anteriores à intervenção faz-se respectivamente em 11 e 14 anos (F ernandes et al. com uma variação de 59-100% (Fernandes e Botelho. mas a c ompreensão das alt erações temporais subsequentes é limitada. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS CAIXA 1 LONGEVIDADE DO EFEITO DO FOGO CONTROLADO EM PINHAL BRAVO A diminuição da combustibilidade é geralmente evidente imediatamente após o tratamento do c ombustível. No mesmo povoamento. esta variação foi sobretudo explicada pela variação na velocidade do vento. verificou-se em T10 uma redução de 25% no comprimento da chama em relação a T25. Os dois es tudos mostram como a persis tência do ef eito do tr atamento com fogo controlado depende da dinâmica do combustível. A experimentação deve constituir a base das r ecomendações sobre efectividade e periodicidade dos tratamentos do combustível. que percorreu um pinhal bravo com 28 anos de idade que incluía parcelas nunca intervencionadas e queimadas 13. As duas situações dif eriram estatisticamente nas car gas do horiz onte de f olhada em decomposição e dos arbus tos. indicam que a redução de combustível que resulta da prática do fogo controlado diminui em 96% a intensidade de um incêndio. respectivamente designadas por U.. Uma mudança drástica no c omportamento do f ogo foi observada em RX3 e RX2. Contudo. Após consideração do efeito de outras variáveis ambientais.160 VI. (2004) efectuaram na serra da Padrela um fogo experimental no Verão. cuja intensidade atingiu cerca de 11 000 kW /m. RX3 e RX2. 2007). 3 e 2 anos ant es. não ha vendo distinção entre as r espectivas velocidades de propagação do fogo. 2004). Nas par celas U e RX13 todas as árvores vieram a morrer e observou-se uma variação entre um fogo intenso de superfície e um fogo de copas. Fernandes et al. . sob condições meteorológicas extremas. isto é do tempo necessário para a sua reconstituição em carga e estrutura. mas a intensidade do f ogo tendeu a ser menor em RX13 par a ventos comparáveis. compararam-se as características de 36 fogos experimentais (no período de Novembro a Junho) distribuídos por combustíveis com 10 e 25 anos de acumulação.

forma.g. Em matos mediterrâneos. 2009). admitindo um intervalo de 4 anos entre tratamentos. em que as manchas t ratadas apr esentem um g rau r azoável de sobr eposição na direcção de propagação do fogo. 71% da variação na área anual ardida é explicável pela superfície tratada com fogo controlado nos 6 anos anteriores. a dimensão máxima dos incêndios t ende a aumentar c om o en velhecimento dos matos. ou seja a dimensão.. natur almente que a c onjugação das est ratégias de modificação estrutural e de c onversão permitiria reduzir aquela taxa anual de esforço. atravessam ou transpõem áreas estreitas. Tratamentos dispersos e com localização aleatória. a eficácia e per tinência do fogo controlado têm sid o questionadas. e. pequenas ou isoladas. 2010).VI.. 2003). No SW da Austrália o tratamento do eucaliptal com fogo controlado ao longo dos últimos 50 anos r eduziu drasticamente a possibilidade de desenvolvimento de grandes incêndios (Boer et al. Keeley e Zedler (2009). O sucesso de qualquer est ratégia de gestão do c ombustível é inseparável do seu padrão espacial. permitindo reduzir para metade a ár ea ardida num determinado intervalo de tempo (Finney. . É c om facilidade que os grandes incêndios contornam. A gestão de combustíveis deve recair sobre áreas estratégicas. Como regra geral. e em áreas ocupadas por mosaicos de vegetação com idade média igual ou inferior a 4 anos a dimensão máxima dos incêndios foi sempre inferior a 400 ha (Fernandes et al. onde a intensidade do fogo atinge níveis extremos mesmo sob c ondições meteorológicas relativamente suaves. 2003). a man utenção estratégica de c erca de 20% do território num estado de combustibilidade reduzida é satisfatória. Em Portugal (dados de 1998-2008). orientação e densidade das z onas de int ervenção (Finne y e C ohen. Este esforço de intervenção corresponde ao tratamento anual de 5% da paisagem. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS 161 Os benefícios que ad vêm da modificação est rutural do complexo combustível são menos v isíveis em sist emas dominados por fogos de copas. que é aplicado em manchas individuais extensas com vista à formação de mosaicos de combustível de idade variada. Nessa região. insuficientemente dimensionados ou com uma presença pouco significativa na paisagem r eduzirão localmente a intensidade e severidade do fogo mas dificilmente servirão de obstáculo à sua expansão.

2010). A simulação do comportamento do fogo preenche a necessidade de seguir critérios objectivos e quantitativos. Aqui há que destacar o softwar e FlamMap que per mite o ptimizar o planeament o espacial da gestão de c ombustíveis ao identificar os “caminhos” preferenciais d o fogo e as localizações de t ratamento que maximizam os benefícios obtidos (Finney. Cruz e Alexander. Ao planeamento espacial dos tratamentos do combustível sucede-se o planeamento à escala da unidade de intervenção.g. única forma de r elacionar a pr etendida resistência ao fogo c om a concretização das operações necessárias. materializado numa prescrição explícita das modificações no complexo combustível. . contribuindo par a super ar a actual incipiência das r ecomendações quantitativa de silvicultura preventiva. 2007). O desenvolvimento da prescrição exige a avaliação do comportamento do fogo. Infelizmente os actuais modelos de comportamento do fogo são limitados na sua capacidade de predição (e. PRINCÍPIOS DE GESTÃO PARA MINIMIZAR IMPACTOS DE INCÊNDIOS FLORESTAIS As decisões sobre os níveis pretendidos de redução do perigo e como os atingir devem ser ancoradas em infor mação espacialmente explícita sobre a probabilidade de incêndio. nomeadamente no que se refere ao efeito das alterações estruturais nas características do fogo. o que naturalmente condiciona a capacidade de desenvolvimento de prescrições sólidas. O uso de simuladores do comportamento e expansão do fogo na paisagem torna o processo de decisão mais objectivo e permitem comparar alternativas de intervenção.162 VI.

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O risco de incêndio de vários tipos de floresta em Portugal 4. PERIGO.2. CATRY FRANCISCO MOREIRA FRANCISCO REGO 1. Implicações para a gestão .1. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS JOAQUIM SANDE SILVA PAULO FERNANDES FILIPE X. Incidência do fogo 3.167 PRINCIPIOS GENÉRICOS DE GESTÃO PÓS-FOGO VII. Modificação da severidade do fogo em tipos florestais contíguos a pinhal bravo 5. Perigo de incêndio das florestas portuguesas: composição versus estrutura florestal 3. Introdução 2. Padrões de selecção pelo fogo por diferentes tipos de coberto do solo 3.

Cada tipo foi definido por uma conjugação da(s) espécie(s) dominante(s) com a estrutura do povoamento. que no contexto da análise do risco de incêndio se refere ao comportamento potencial do fogo. Fernandes (2009) fez corresponder a cada tipo florestal um modelo de combustível. Com o objectivo de analisar e classificar o per igo de incêndio nestes tipos de floresta. o perigo de incêndio. isto é a forma como a sua estrutura afecta a velocidade do vento e humidade do combustível morto. e como a sua composição determina . Introdução Este capítulo resume os resultados da investigação realizada durante os últimos anos. os padrões de incidência do fogo em diferentes tipos de coberto do solo. A análise estatística dos dados do IFN efectuada por Godinho-Ferreira et al. PERIGO. considerando apenas os 19 tipos estritamente florestais.168 VII. e as alterações de níveis de severidade do fogo em função do tipo de floresta. O Inventário Florestal Nacional (IFN) inclui variáveis que descrevem a estrutura e composição da floresta Portuguesa. (2005) sintetizou em 22 tipos florestais a variabilidade existente. A infor mação enc ontra-se sumar izada em t rês secções. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 1. Perigo de incêndio das florestas portuguesas: composição versus estrutura florestal A descrição e classificação das características do combustível florestal conduzem directamente à a valiação da c ombustibilidade ou per igo de incêndio. que abor dam. 2. a descr ição estrutural de cada tipo (c onsiderando a folhada e sub-bosque) foi traduzida nos parâmetros que constituem um modelo de combustível (ver Capítulo I) e que são nec essários para estimar as car acterísticas de c omportamento d o fogo at ravés de software que implementa o modelo de Rothermel (1972). A combustibilidade de cada tipo florestal é determinada pelas características do complexo combustível mas também pelo piro-ambiente inerente à formação vegetal. com relevância para a gestão d o fogo e das ár eas ardidas. sequencialmente. a qual foi descrita simplesmente por uma de quatro combinações entre os parâmetros altura (baixa ou alta) e densidade (formações abertas ou fechadas). Para esse efeito. no âmbito do projecto “Recuperação de áreas ardidas” e de outros projectos que foram desenvolvidos em paralelo pela equipa do projecto.

CT EUCALIPTO. A simulação do comportamento do fogo. a. CT PINHEIRO BRAVO. sobreiro e eucalipto incluem pelo menos uma var iante estrutural – alto e aberto no caso d o pinheiro e e ucalipto. PERIGO. CL CARVALHO NEGRAL. OL = aberta e baix OT = aberta e alta. CL PINHEIRO BRAVO. respectivamente a velocidade de propagação do fogo. CT = fechada e alta. OL SOBREIRO. efectuada com o software Behave Plus (Andrews et al. e alt o (fechado ou aber to) no caso d o sobreiro – onde não é expectável a ocorrência de fogo de copas. VELOCIDADE DE PROPAGAÇÃO INTENSIDADE SOBREIRO. A avaliação do perigo de incêndio baseou-se em t rês parâmetros.. CL DIVERSA. . a velocidade de propagação e int ensidade d o fogo variam r espectivamente dez e no ve vezes nos quatro tipos estruturais de eucaliptal. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 169 a humidade do combustível v ivo. Adaptado de Fernandes (2009). OL PINHEIRO BRAVO. Pinheiro bravo. CL EUCALIPTO. CL EUCALIPTO. a sua intensidade frontal e a probabilidade de fogo de copas. 2005) para condições estivais severas. OT PINHEIRO BRAVO. sugerindo que a estrutura dos povoamentos é mais determinante que a sua composição em espécies.VII. OL EUCALIPTO. Os resultados evidenciaram uma enorme variação no perigo de incêndio (Figura 1). Por exemplo. cujas estimativas se converteram em índices relativos (escala 0-100). CT DIVERSA. OT DIVERSA. CL SOBREIRO. CT SOBREIRO. levou aqueles efeitos em consideração. OL DIVERSA. OT CARVALHOS CADUCIFÓLIOS. Tipos estruturais: CL = fechada e baixa. Uma análise conjunta dos índices permitiu agrupar os tipos florestais por nível geral de perigo de incêndio. OT ACACIA FOGO DE COPAS 0 25 50 75 100 0 25 50 75 100 0 25 50 75 100 ÍNDICE DE PERIGO FIGURA 1 Componentes do perigo de incêndio dos dif erentes tipos de floresta em Portugal.

BASEADO EM FERNANDES ( 2009 ) PERIGO BAIXO Velocidade de propagação variável. as estruturas abertas tendem a registar menores cargas de combustível e revestimento arbustivo. contribuindo decisivamente para o maior potencial de expansão do fogo.170 VII. A classificação e dist ribuição dos tipos de flor esta por classe de per igo podem ser vistas na Tabela 1. ALTO Intensidade moderada a elevada. bem como o tipo de gestão prevalecente no montado. provavelmente reflectindo a dinâmica do combustível associada a plantações jovens e povoamentos maduros. A base da copa apresenta-se por sua vez mais elevada nos povoamentos de maior estatura. Florestas altas (abertas ou fechadas) de eucalipto Florestas abertas e baixas TIPOS DE FLORESTA . Intensidade reduzida. Velocidade de propagação e susceptibilidade a fogo de copas são muito elevadas. sylvestris. pinaster. Florestas fechadas e baixas de P. o que diminui a probabilidade do fogo de copas. pinea. P. P. Risco nulo de fogo de copas. sylvestris. TABELA 1 CLASSES DE PERIGO DE INCÊNDIO PARA OS VÁRIOS TIPOS DE FLORESTA PORTUGUESA . entre outros). as primeiras apresentando desenvolvimento do sub-bosque e acumulação de combustível mais elevados. C. eucaliptos e acácias Florestas abertas e altas. Os extremos superior e inferior da intensidade do fogo e potencial de fogo de copas são compreensivelmente ocupados for formações baixas e densas e por florestas altas e abertas. Florestas fechadas e altas de (i) Quercus suber ou (ii) outras florestas diversas (maioritariamente Pinus pinea. Florestas fechadas e altas de P.g. Risco extremo de fogo de copas. No entanto. Os carvalhais tendem a apresentar o sub-bosque mais expressivo e mais húmido. Intensidade elevada a muito elevada. Risco elevado de fogo de copas. sativa. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS Nos povoamentos abertos e baixos a humidade do combustível morto é menor e a exposição ao vento maior. MUITO ALTO Velocidade de propagação moderada. PERIGO. pinaster. Castanea sativa e carvalhos de folha caduca) Florestas fechadas e baixas de (i) carvalhos de folha caduca. MODERADO Fogo de superfície com potencial moderado. com efeitos contraditórios no comportamento do fogo. Quercus rotundifolia. mas apenas moderado em pinhal bravo e eucaliptal. (ii) sobreiros e (iii) floresta diversa (e. P.

Mermoz et al.g.g. já que coincidem com observações dos efeitos da composição e estrutura florestal na incidência e severidade do fogo (ver as restantes secções deste capítulo). 1997. devido a diferenças na estrutura. 2005). Pelo contrário. A metodologia adoptada permitiu avaliar de forma consistente e objectiva a combustibilidade associada a cada tipo florestal.1. áreas agrícolas ou parcelas recentemente ardidas) (e. como o pinhal bravo. humidade e composição da carga c ombustível (Rothermel. matos ou plantações de coníferas) de uma paisagem são mais susceptíveis aos incêndios que outros (e. Tais factores originam diferentes padrões de comportamento do fogo nos diferentes tipos de coberto vegetal (ver secção anterior). Incidência do fogo 3.g. e vão de enc ontro aos princípios de silvicultura preventiva e gestão de combustíveis enunciados no Capítulo VI. pelo impacto que têm na dinâmica do combustível e do povoamento: o perigo de incêndio associado a tipos florestais de combustibilidade intrinsecamente elevada. topografia e coberto vegetal (associado à estrutura da vegetação e distribuição de combustível) (e.VII. 3. varia decisivamente com o tipo e intensidade da gestão a que são submetidos.. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 171 Os resultados não são inesperados. Desta forma torna-se evidente a relevância das actividades de gestão. Os resultados indicam que devem ser evitadas as generalizações sobre o perigo de incêndio efectuadas apenas com base na composição específica dos povoamentos. . o eucaliptal e as quercíneas esclerófilas. 1983). zonas húmidas.2001.. Mermoz et al. Certos tipos de coberto vegetal (e. Padrões de selecção do fogo por diferentes tipos de coberto do solo O início dos incêndios e a sua propagação resulta da complexa interacção entre fontes de ignição. a estrutura florestal – que afecta o piro-ambiente meteorológico e tem alguma correlação com as características do complexo combustível – influencia sobremaneira a vulnerabilidade ao fogo. Moreira et al. e à escala da paisagem o incêndio desen volve-se. O coberto vegetal é uma variável chave. 1983..2005). condições meteorológicas. Rothermel.g. PERIGO. Forman. a partir de um epicentro local (ponto de ignição) com uma velocidade de propagação que é acentuada ou retardada pelo grau de heterogeneidade da paisagem (Turner e Dale. 1990).

o fogo seria considerado selectivo. se o fogo c onsumir preferencialmente certas classes em detrimento de outras. Moreira et al.. (2009) utilizaram a cartografia de ocupação do solo de 1990 (COS90) e as áreas ardidas (com dimensão superior a 5 ha) no período de 1990 a 1994 (5590 áreas ardidas). Estimativa dos índices de selecção pelo fogo A abor dagem utilizada c onsistiu em c omparar a c omposição d o coberto vegetal existente antes do fogo num buffer circular que envolve (e incl ui) cada par cela ar dida (c oberto v egetal disponível). quer em cada uma de 12 r egiões ecológicas de Portugal continental. Utilizando uma abordagem que se baseia na estimativa de um índice de selecção dos incêndios por diferentes tipos de coberto do solo. O coeficiente de selecção (wi) para uma determinada classe de coberto vegetal i é um índice de selecção estimado por wi = oi/πi (Manly et al. pode-se então presumir que o incêndio se desenvolverá aleatoriamente. Alternativamente. 1993). se os diferentes tipos de coberto vegetal apresentarem a mesma susc eptibilidade ao fogo. a gestão da paisagem poderá usar este conhecimento em aplicações práticas de minimização d o risco de incêndio pela pr omoção de c oberturas de solo menos susc eptíveis ao fogo. se uma ou mais classes de c oberto vegetal arderam mais (ou menos) que a sua disponibilidade r lativa. Numa dada paisagem. Os padrões de selecção do coberto vegetal pelo fogo foram caracterizados através de coeficientes de selecção (Manly et al. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS A configuração final das parcelas ardidas pode fornecer-nos informação útil sobre o consumo diferenciado das classes de coberto vegetal previamente existentes. 2001). Pelo contrário. se o incêndio se desenvolveu na paisagem de modo indiferente ao tipo de coberto. por exemplo nas faixas de gestão de combustível. quer a nível nacional. é de e esperar que a composição do coberto na parcela ardida e no buffer sejam diferentes e. onde oi é a proporção ocupada pelo coberto vegetal i na parcela consumida pelo . 1993. neste caso. PERIGO. para caracterizar o padrão de selecção dos incêndios. consumindo as diferentes classes de coberto proporcionalmente à sua abundância relativa antes do fogo. Assim.172 VII. é de esperar que a composição do coberto vegetal na parcela ardida e no buffer (parcela ardida + envolvência) sejam semelhantes. Moreira et al.. c om a composição do coberto vegetal no interior dessa parcela ardida (coberto vegetal consumido).

0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB . par a cada parcela ardida. o que indica uma clara preferência do fogo por este tipo de coberto (Figura 2). floresta mista de coníferas e eucaliptos (mx). Para determinar o coberto vegetal disponível. se w < 1. centrado nas coordenadas do centróide da parcela. o coberto foi consumido em maior proporção (preferido) do que ser ia de esper ar n um evento aleatório. 2. Padrões gerais de selecção pelo fogo por diferentes tipos de coberto do solo À escala nacional os mat os constituíram a única classe de c oberto vegetal que ar deu mais d o que ser ia de esper ado relativamente à sua disponibilidade. matos (srb).5 2. Esta dimensão máxima foi utilizada como um indicador da extensão potencial de um incêndio em cada região. Por último. (2009). Adaptado de Moreira et al. floresta de eucaliptos (euc). floresta de coníferas (con). floresta de folhosas (brl). Se um determinado tipo de coberto arde proporcionalmente à sua disponibilidade. e floresta mista de folhosas e coníferas ou folhosas e eucaliptos (mxb). criou-se em torno das parcelas ardidas um buffer circular.0 1.5 W 1. PERIGO. com área igual à extensão do maior incêndio na respectiva região ecológica. o c oberto v egetal c onsumido foi obtid o. I ntervalos de c onfiança que não incl uíram w=1 representaram classes de coberto que foram significativamente preferidas (se o intervalo é acima de 1) ou evitadas (se o intervalo é abaixo de 1) pelo fogo. através da estimativa da proporção da sua ár ea total coberta pelos diferentes tipos de coberto (antes do fogo). então w = 1.VII. Como ant es r eferido. Determinaram-se médias e intervalos de confiança (95%) para cada tipo de coberto vegetal ao nível do país e separadamente em cada r egião. Se w > 1. sistemas agro-florestais (agf). FIGURA 2 Coeficientes de selecção médios (w) (com intervalos de confiança de 95%) para os tipos de coberto vegetal ardidos no período 1990-1994 em Portugal. culturas permanentes (pc). INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 173 fogo e πi é a proporção ocupada pelo coberto vegetal i no respectivo buffer. o coberto foi consumido em menor proporção (evitado).5 0. O coberto vegetal inclui culturas anuais (ac).0 0.

sistemas agro-florestais e florestas de folhosas. com os povoamentos de c oníferas. O primeiro grupo incluiu 4 regiões no noroeste de Portugal onde o fogo mostrou uma pr eferência m uito baixa por cultur as an uais. sist emas ag ro-florestais e flor esta de folhosas. mistos ou pur os. com o objectivo de criar pastagens para o gado (os fogos de origem pastoril representam em média 20% do total de ocorrências com causa determinada). O último g rupo inclui 5 regiões no c entro e nor deste de P ortugal e apr esenta pr incipalmente padrões de fogo int ermédios ent re os dois g rupos ant eriores. e mais baixa par a matos. o fogo apresentou a preferência mais elevada para culturas anuais. . Uma análise multivariada de classificação com base nas variações regionais dos padrões de selecção do fogo nas diferentes regiões do país permitiu a identificação de t rês g rupos geog raficamente distint os (Figur a 3). mas também maior preferência por coníferas e menor por eucaliptos. num segundo grupo de 3 regiões no sul de Portugal. (b) a ocorrência de fogos associados à actividade pastoril. As florestas ocuparam o segundo lugar nas preferências do fogo. culturas permanentes. utilizando outro tipo de abor dagem. a most rarem-se mais susceptíveis ao fogo do que as florestas de eucalipto e de outras folhosas. (2005) que caracterizaram os padrões de selecção do fogo em Portugal durante 1991. PERIGO. Esta ele vada susceptibilidade dos matos para arder poderá ser e xplicada por vár ias razões. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS Um r esultado semelhant e foi obtid o por N unes et al. As culturas agrícolas (tanto anuais como permanentes) e os sist emas agro-florestais foram os cobertos vegetais menos preferidos pelo fogo. cultur as permanentes. e uma preferência elevada por matos. incluindo: (a) a baixa prioridade dada ao combate a incêndios em zonas de matos (é o coberto vegetal ao qual nor malmente se at ribui um menor valor). (d) a velocidade e intensidade de propagação deverão ser elevadas neste tipo de coberto fechado e baixo (ver secção 2). (c) o facto de os matos poderem ser um coberto vegetal muito comum nas zonas mais declivosas. Em contraste. que favorecem a propagação do fogo.174 VII.

PERIGO.e. 1 2 4 6 7 3 5 9 8 10 11 12 Variações regionais nos padrões de selecção Os resultados obtidos para cada classe de coberto vegetal encontram-se na Figura 4. em par ticular nas r egiões a noroeste. Os sistemas agro-florestais arderam proporcionalmente à disponibilidade no Sado e Ribatejo. Nas outras r egiões for am e vitados pelo fogo .VII. e agrupamentos de regiões com base nas semelhanças entre padrões de selecção do fogo. . os int ervalos de confiança para os coeficientes de selecção incluíram o valor 1). INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 175 FIGURA 3 Regiões ecológicas utilizadas neste estudo. (2009). Cada um dos grupos está representado por uma cor. Numeração das regiões: 1 – Noroeste 2 – Alto Portugal 3 – Nordeste Transmontano 4 – Beira Douro 5 – Beira Litoral 6 – Beira Alta 7 – Beira Serra 8 – Estremadura 9 – Beira Baixa 10 – Sado e Ribatejo 11 – Alentejo 12 – Algarve Adaptado de Moreira et al. Alentejo e Algarve). Estas culturas foram particularmente evitadas nas regiões a noroeste. Sado e Ribatejo. apesar de no sul terem sido comparativamente mais susceptíveis ao fogo (Estremadura. e Alentejo. As culturas permanentes foram evitadas igualmente em todas as regiões. onde arderam proporcionalmente à sua disponibilidade na r egião (i. Em todas as regiões as culturas anuais foram evitadas pelo fogo. definidas por Albuquerque (1985). à excepção da região do Sado e Ribatejo e do Alentejo.

5 4.0 1.0 1.0 5.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 2.0 BEIRA LITORAL 1.5 2.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0.0 3.5 1.5 1. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 4.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB .5 BEIRA ALTA 2.0 0.5 0.5 0.0 1.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MXB 0.5 0.0 2.0 NOROESTE 2.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 2.176 VII.0 BEIRA DOURO 1.5 2.0 ESTREMADURA 1.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0.0 1.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 2.0 0.0 NORDESTE 6.5 0.0 1.5 BEIRA SERRA 1.5 1.0 0.0 ALTO PORTUGAL 3.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0.0 0.5 0. PERIGO.0 0.0 1.0 1.0 2.

floresta de eucaliptos (euc).5 ALENTEJO 2.0 0. .5 0.0 SADO E RIBATEJO EUC BRL MX MXB AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 1. PERIGO.0 0. agro-florestais (agf ). Beira Alta. floresta de c oníferas (con). Os coeficientes de selecção mostraram uma clara preferência do fogo pelos matos.5 1. enquant o que nas r estantes r egiões. os resultados sugerem que este coberto é ligeiramente evitado em todas as regiões.VII.5 1. No que respeita às florestas de coníferas.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB FIGURA 4 Coeficientes de selecção médios ( e intervalos de confiança a 95%) par a os tipos de c oberto vegetal ardidos em 12 regiões de Portugal. tendo-se reduzido em direcção ao interior.0 1. A maior preferência por este tipo de coberto vegetal foi observada nas regiões costeiras. Beira Serra.0 AC PC AGF SHR CON BEIRA BAIXA 2.5 0. ar deram menos d o que o esperado. As florestas de eucaliptos arderam proporcionalmente à sua abundância relativa no Algarve.0 1.5 0. floresta mista de coníferas e eucaliptos (mx). culturas permanentes (pc).5 2. O coberto vegetal inclui culturas anuais (ac).0 ALGARVE 1. Beira Baixa e Estremadura). (2009). à excepção das regiões do Sado e Ribatejo e do Alentejo.0 AC PC AGF SHR CON EUC BRL MX MXB 0. com excepção do c entro de Portugal (Beira Litoral. e floresta mista de folhosas e coníferas ou folhosas e eucaliptos (mxb). onde as coníferas arderam proporcionalmente à sua disponibilidade. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 177 2. onde os intervalos de confiança sugerem que os matos arderam proporcionalmente à sua disponibilidade. matos (srb). Beira Litoral e Estremadura.5 0.5 2.5 2. Adaptado de Moreira et al.5 1.0 0. floresta de folhosas (brl).0 1.

(c) diferenças na gestão agrícola e florestal. as culturas anuais no noroeste de Portugal são na sua maioria ir rigadas. As florestas mistas de folhosas e coníferas ou eucaliptos arderam proporcionalmente à sua disponibilidade na Beira Serra. enquanto que nas restantes regiões arderam menos do que o esperado. uma vez que nas regiões onde um tipo de coberto escasseia. onde arderam de acordo com a sua disponibilidade. dada a precipitação elevada nestas regiões. a consequente elevada produtividade permite gerar maiores cargas de c ombustível nos matos. O que explica as variações regionais na susceptibilidade do coberto vegetal? As variações regionais na susceptibilidade ao fogo de um determinado tipo de coberto podem ser explicadas por vários factores: (a) os padrões de ignição podem variar de região para região. PERIGO. excepto na região Sado e Ribatejo. (b) diferenças climáticas. o que c ontribui par a o aument o d o r isco de incêndio. As difer enças r egionais obser vadas nas cultur as per manentes. na medida em que nas regiões a noroeste o uso tradicional do fogo é ainda comum na gestão dos campos. claramente ligadas às condições climáticas. nas culturas anuais e nos sistemas agro-florestais. Para além disso. Nordeste e Estremadura. Beira Litoral. ainda que este seja altamente combustível. a proporção de campos irrigados m uito menor e a pr oporção de t errenos em pousio e past os secos aumenta bastant e.178 VII. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS As florestas de folhosas ar deram menos do que o esper ado. No sul e no interior nordeste o clima é mais árido. O padrão de oc orrência das ig nições pode explicar estes resultados. e foram evitadas nas restantes regiões. Por exemplo. Beira Alta. (d) diferenças na estratégia e eficiência do combate aos incêndios. que podem fazer com que um determinado coberto vegetal possa ser mais susceptível ao fogo nas regiões mais áridas. As florestas mistas de eucaliptos e coníferas arderam de acordo com as disponibilidades na Beira Litoral e Estremadura. podem ser explicadas por diferenças nas práticas agrícolas. a preferência do fogo poderá ser baixa. uma das hipóteses para explicar as diferenças regionais de preferência do fogo por um dado tipo de coberto . As diferenças regionais na susceptibilidade dos matos ao fogo são mais difíceis de compreender. o que r eduz sig nificativamente a c ombustibilidade. (e) diferenças na disponibilidade. Como foi mencionado anteriormente.

O btiveram-se valor es de 10% par a as flor estas mistas de coníferas e eucaliptos. 30-35% para as florestas de coníferas e 40-45% para os eucaliptos. No caso dos out ros tipos de c oberto vegetal não for am encontradas correlações significativas. Para as florestas de folhosas a estimativa máxima do coeficiente de selecção foi infer ior a 1 (0. que é independente da sua disponibilidade actual nas diferentes regiões e sugerem uma progressiva diminuição da susceptibilidade ao fogo ao longo do gradiente: floresta mista de coníferas e eucaliptos > coníferas > eucaliptos > folhosas. De facto.VII. Estes valores indicam o risco relativo de incêndio nos diferentes tipos de povoamentos. Várias interpretações podem desenvolver-se no sentido de explicar estas diferenças. afectam a combustibilidade e consequentemente fazem variar a capacidade de controlo de um incêndio (ver secção 2). De facto. o nível de gestão e prevenção de incêndios pode explicar as diferenças. os povoamentos de eucalipto têm geralmente ciclos de rotação mais curtos . eucaliptos. Uma parte significativa das áreas de eucalipto são geridas de forma intensiva.87 par a 100% de c obertura). a preferência estatística do fogo poderá ser baixa pelo simples facto de que a probabilidade de arder ser também baixa. Em segundo lugar. verificou-se que em relação às florestas de folhosas. Para além disso. diferenças na estrutura dos povoamentos associadas a cada tipo de flor esta. Tal significa que a susceptibilidade ao fogo cresce proporcionalmente à área ocupada. coníferas. Em primeiro lugar. entre 40-85% das diferenças na susceptibilidade regional ao fogo pode explicar-se pelas diferenças na abundância relativa destes povoamentos. Análise comparada do risco dos diferentes tipos de floresta Nos tipos de floresta em que se comprovou existir uma influência da disponibilidade regional nos índices de selecção. incluindo uma gestão mais cuidada d os combustíveis e sistemas de vigilância e combate privados. PERIGO. sobretudo ao nível da continuidade horizontal e vertical dos combustíveis. foi modelada esta relação e e xtrapolada a pr oporção de c oberto que c orresponderia a um valor de coeficiente de selecção igual a 1 (ár ardida proporcional à área ea disponível). ainda que este seja altamente combustível. em regiões onde um tipo de coberto vegetal escasseia. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 179 do solo é a sua disponibilidade r egional. e às flor estas mistas de c oníferas e e ucaliptos.

que podem ser menos susceptíveis ao fogo. PERIGO. utilizando 3 abordagens diferentes: (a) índices de selecção. analisar am os padrões de selec tividade d o fogo por oito tipos difer entes de flor esta (povoamentos puros e d ominantes de Castanea sativa. utilizando dados do Inventário Florestal Nacional (IFN) de 1997/8. e (c) proporção de parcelas do IFN dos vários tipos queimadas. suber) mais comuns no sul e nordeste. As últimas são provavelmente mais susceptíveis ao fogo porque constituem piro-ambientes mais secos e expostos ao vento (ver secção 2). INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS do que as c oníferas. Nas folhosas det ectou-se igualment e que uma par te sig nificativa (40%) da variação regional na susceptibilidade ao fogo pode ser explicada pela disponibilidade regional deste coberto. Todos estes factores poderão contribuir para o fraco incremento na susceptibilidade das florestas de eucalipto ao fogo à medida que a sua ár ea aumenta.3. Quercus robur e Q. Quercus suber. Para além disso. (b) a proporção de parcelas dos vários tipos (baseadas no mapa de coberto do solo) queimadas. Não obstante. em comparação com os povoamentos mistos ou puros de coníferas. onde os pr oprietários não efectuam qualquer tipo de gestão da floresta. Pinus pinaster. com as espécies de folha caduca mais c omuns no nor te (e. (2009). Castanea sativa. 3. Pinus pinea. com uma menor frequência de acções de gestão. exploraram a relação entre a probabilidade de fogo (no período 1998-2005) e a composição e estrutura (baseada em 3 índices estruturais e na percentagem de cobertura em vários estratos de altura) dos povoamentos. pyrenaica) e as de folha perene (Quercus rotundifolia e Q. Eucaliptus globulus. existem também variações regionais nas espécies de ár vores envolvidas. uma maior pr oporção de coníferas são ger idas extensivamente (em termos de silvicultura e prevenção de incêndios). o que r esulta numa maior pr oporção relativa de plantações recentes e de áreas cortadas. .g.180 VII. A situação nos povoamentos mistos pode ser ainda pior . Quercus rotundifolia. Em contraste. folhosas não especificadas e r esinosas não especificadas). O risco de incêndio de vários tipos de flor esta em Portugal Silva et al. na medida em que são car acterísticos de parcelas de pequena dimensão .

60 0. e ucalipto e de folhosas não especificadas (maioritariamente Quercus robur e Q.0 0. uma parte substancial destes pontos corresponderem a áreas que apresentam uma fisionomia mais próxima de matos do que de floresta (ver abaixo). Folhosas não especificadas (maioritariamente Q. sobreiro.20 0. durante o período 1998-2005. A aparente contradição com os estudos de Fernandes (2009) e M oreira et al. robur e Q.00 0. Eucalipto. Pinheiro bravo. em função do índic de e cobertura de 5 tipos de flor esta.40 0. PERIGO.5 0. pode ser e xplicada pelo facto de. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 181 A análise integrada das 3 abordagens utilizadas mostrou que os povoamentos de pinheir o br avo.5 1. (2009). nas parcelas do IFN. No entanto. . no caso das folhosas não especificadas. o risco de incêndio diminuiu com o aumento do índice de cobertura (Figura 5). Adaptado de Silva et al. a pr obabilidade de ar der aumentou com o índic e de c obertura (Figura 5). (2009). azinheira e castanheiro. Este facto pode ser 2. pyrenaica) apresentavam um maior risco de incêndio quand o c omparados c om os de pinheir o manso .0 PROBABILIDADE DE OCORRÊNCIA 1. pyrenaica).80 1. sendo o aumento mais notório no caso do pinheiro-bravo. em que as folhosas são menos susceptíveis do que out ros tipos de floresta. As variáveis mais importantes na determinação da probabilidade de arder foram o tipo de floresta e o índice de cobertura (um indicador da cobertura acumulada nos estratos verticais considerados). De uma forma geral. Azinheira.0 0.00 ÍNDICE DE COBERTURA Folhosas não específicadas Eucalipto FIGURA Pinheiro bravo Sobreiro Azinheira 5 Probabilidade de ocorrência de fogo.VII. Sobreiro.

No caso dos eucaliptos. padrões de resposta e recuperação da vegetação. invasão por espécies exóticas e dinâmica do carbono (Miller et al. 2009). No entanto. O processo de expansão dos grandes incêndios. o que explicará o seu baixo risco comparado. PERIGO. pode ser independente do tipo de vegetação. o que contribuía para a sua combustibilidade. Modificação da severidade do fogo em tipos florestais contíguos a pinhal bravo É expectável que a se veridade do fogo var ie substancialmente entre tipos de vegetação. é de esper ar que os padrões espaciais da se veridade do fogo respondam à int eracção entre a composição e est rutura florestal. o risco era máximo para níveis intermédios de cobertura. fragmentação e disponibilidade de habitats. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS explicado pela ocorrência de temperaturas mais baixos. a gestão florestal beneficia granmente do conhecimento e capacidade de pr edizer os padrões de se veridade do fogo. nomeadamente na erosão do solo. 2006. mesmo nas c ondições mais ad versas.182 VII. no interior dos povoamentos adultos de folhosas. Fogos severos podem ter consequências nefastas nos atributos e processos dos ecossistemas.. Consequentemente. Os povoamentos classificados como folhosas não especificadas correspondiam frequentemente a áreas não geridas em regeneração. azinheira e castanheiro. Por exemplo. menos vento e maior humidade. Em muitas circunstâncias os impactes ambientais e sociais dos incêndios são melhor avaliados pela área ardida por fogo de ele vada severidade do que pela . são geridos em sistemas agro-florestais com baixa densidade de árvores.g. 2009). Podur e Martell (2009). Num determinado incêndio a interacção entre a vegetação. e. com uma fisionomia semelhante a matos. impelidos por situações met eorológicas extremas. 4.. As diferenças verificadas para os diferentes tipos de floresta podiam ser explicadas um função da sua estrutura e do tipo de gestão. Uma parte significativa dos povoamentos de sobreiro. o piro-ambiente meteorológico e a posição topográfica (Lentile et al. os povoamentos de pinheiro bravo apresentavam os maiores valores de cobertura para as classes de vegetação até 1 m de altura.. a topografia e a oscilação das condições meteorológicas condiciona o comportamento do fogo e por tanto os respectivos efeitos. Oliveras et al.

A nível europeu é muito escasso o conhecimento sobre a variação da severidade do fogo relativamente à composição florestal. sylvestris – Chamaecyparis lawsoniana).. bosques de Arbutus unedo (puros ou em consociação com Quercus suber). Calculou-se o DAP médio. bosques de Betula alba (puros ou com Castanea sativa). PERIGO. Consequentemente. 2) deslocação do fogo no sentido de PS para OF. P. As avaliações e cálculos pós-fogo efec tuaram-se à escala da par cela. puras ou mistas (com Betula alba. seleccionaram 10 incêndios ocorridos nos verões de 2005 e 2006. A severidade do fogo nas árvores baseou-se em métricas . o que dá pertinência aos estudos comparados de severidade do fogo. e 3) existência de diferenças entre PS e OF nos efeitos do fogo nas c opas. Os par es PS-OF er am fisiograficamente similares sempre que possível. e um número variável de parcelas no segmento OF a fim de descrever todo o gradiente de severidade do fogo. densidade de indivíduos. Adoptou-se um número fixo de par celas (três. área basal e altur a dominante.VII. 2008). No total amostraram-se 200 parcelas distribuídas por 56 segmentos de transecto em 13 locais. arbustivo e da manta morta e seguiu Ryan e Noste (1985). Para tal. (2010) estudaram à escala local a alteração da severidade do fogo na interface entre pinhal bravo (PS) e outros tipos de floresta (OF) nas montanhas do noroeste do país. A vegetação contígua ao pinhal br avo incluiu for mações de Quercus pyrenaica. o estudo c onfundiu propositadamente a severidade do fogo e o tipo florestal. que na r egião foram marcados por c ondições invulgares de secura e incêndios excepcionalmente grandes. Fernandes et al. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 183 superfície total afectada (Reinhardt et al. A selecção d os pont os de amost ragem obedec eu aos seguint es requisitos: 1) ausência de evidências de combate ao fogo. Mediram-se os diâmetros à altura do peito (DAP) e alturas de todas as árvores ou caules de espécies arbóreas. Avaliou-se a variação na severidade do fogo em par celas circulares com três metros de r aio localizadas consecutivamente sobre transectos perpendiculares à orla PS-OF. Pseudotsuga menziesii. A classificação da se veridade do fogo distinguiu os estratos arbóreo. Castanea sativa ou Quercus robur). e c oníferas de montanha ( Pinus sylvestris. O fogo foi descr ito como sendo de superfície ou de c opas. já que o objectivo principal era descrever a variação na severidade do fogo na presença de impactos do fogo c omprovadamente distint os ent re os dois tipos de floresta. cobrindo 18 m) no seg mento PS do transecto.

respectivamente em pinhal br avo. coníferas de montanha (SNC) e folhosas caducifólias (DB). revelaram-se assim como o tipo de floresta menos favorável à propagação do fogo. PERIGO. quedando-se em valores intermédios nos outros tipos florestais. A altura de copa dessecada foi significativamente inferior em DB relativamente a PS após consideração dos efeitos das restantes variáveis com influência (altura dominante e exposição). altura de tronco carbonizado. 90 e 97%. 79. após neutralização dos efeitos da altura de base da c opa. folhosas caducifólias e coníferas de montanha. A altura de tronco carbonizado seguiu a tendência PS > DB > SNC. as for mações EB não se distinguiram estatisticamente de nenhum dos restantes tipos. que e xplicou respectivamente 61% e 70% da variação existente. DAP e distância à orla PS-OF. sendo exprimido numa de quatro classes (reduzida. respectivamente pinhal bravo. nomeadament e aquand o da propagação encosta abaixo em folhosas caducifólias. que formam bosquetes densos sem sub-bosque e c om folhada muit o compacta. Severidade do fogo e tipo de floresta A severidade do fogo decresceu significativamente do pinhal br avo para as florestas adjacentes na maioria dos locais amostrados. uma vez que as parcelas sem copa dessecada não entraram na análise. folhosas perenifólias. grau de carbonização da casca) colhidas nas árvores dominantes e codominantes. Um índice global de severidade do fogo resultou da média das avaliações por estrato. As resinosas de montanha de acícula fina. e a transição observada foi fr equentemente br usca. A percentagem de parcelas afectada por fogo de superfície dá uma primeira impressão das diferenças de severidade do fogo entre tipos florestais: 53. situando-se os dois tipos restantes em posição . As maiores e menores severidades do fogo correspondem respectivamente ao pinhal bravo e às folhosas de folha caduca. incluindo os seus componentes individuais. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS (altura de copa dessecada. folhosas perenifólias (EB). moderada. revelou diferenças de comportamento do fogo de vidas ao tipo de c oberto florestal.184 VII. As análises focaram-se nas diferenças entre PS e OF ou ent re tipos ger ais de c oberto florestal. A Figura 6 exibe a dist ribuição por tipo flor estal da se veridade do fogo. elevada ou muito elevada). No entanto. A modelação das alturas de c opa dessecada de t ronco carbonizado. a altur a de copa dessecada não r eflectiu a variação completa no comportamento do fogo.

069) com a severidade registada na porção PS do transecto. mediana = 21 m). SNC = coníferas de montanha.VII. Adaptado de Fernandes et al. árvores (c) e globalmente (d). A distância (a partir da fronteira PS-OF) correspondente à severidade do fogo mínima não foi afectada pelo tipo de floresta (p=0. intermédia. p<0. Da mesma forma. verificou-se correlação entre a severidade do fogo (componentes individuais e global. É interessante constatar que o maior contraste de severidade entre PS e os tipos OF se regista nos estratos inferiores. sub-bosque (b). . INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 185 (a) 100 80 60 (b) 100 80 60 % % 40 20 0 PS SNC EB DB 40 20 0 PS SNC EB DB (c) 100 80 60 (d) 100 80 60 % % 40 20 0 PS SNC EB DB 40 20 0 PS SNC EB DB FIGURA 6 Distribuição das parcelas por nível de severidade do fogo na manta morta (a). (2010). apesar da maior incidência do fogo de copas em pinhal bravo. EB = folhosas perenifólias. DB = folhosas caducifólias. PS = pinhal bravo.229. PERIGO. mas mostrou alguma associação crescente (p=0. O gr adiente de se veridade do f ogo aumenta do cinzento claro (reduzida) para o preto (muito elevada).01) nos dois segmentos do transecto.

4 M = 0. uma v ez que a a valiação da se veridade d o fogo à escala da parcela reflecte a micro-variação no complexo combustível e nos factores de índole meteorológica. G = área basal (m2 ha-1).06 E = 0.50 R = 0.92 E = 0.55 M = 0.28 M = 0. foi a variável mais importante. .27 E = 0. R = reduzida). E = elevada.22 S-E N-W dnsl FSP upsl ME = 0.08 ME = 0. em consonância com a análise anterior.186 VII.63 M = 0. EB < 15 Dist ≥ 15 E = 0.52 M = 1. A primeira partição das parcelas correspondeu exactamente aos tipos PS e OF Na ra. PERIGO. FSP = padrão de propagação do fogo (dnsl = encosta abaixo. (2010).4O ME = 0. Este desempenho só aparentemente é modest o.44 R = 0./ha ≥ 1111 Exposição S-E ME = 0.67 ME = 1 (b) ≥9 < 1389 OF Dist ≥ 1389 DB >9 Árvores/ ha Tipo Florestal SNC.48 M = 0.50 SH ≥8 < 1111 Árv. O tipo de coberto.63 R = 0.6 N-W > 7. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS Análise global da severidade do fogo Uma análise de classificação em ár vore (Figura 7) e xplicou 44% da variação obser vada na se veridade g lobal do fogo.72 M = 0.11 G ≥ 32.44 M = 0.0 E = 0.40 E = 0.18 ME = 0. upsl = encosta acima ou perpendicular à orientação do declive). Adaptado de Fernandes et al.33 E = 0.50 R = 0. (a) Sub-árvore do pinhal bravo (PS) e (b) sub-árvore dos restantes tipos florestais (OF).4 E = 0.6 PS G ≥ 15. M = moderada.0 < 15.88 M = 0. (a) ≥ 7. = distância à orla PS-OF (m). SH = altura dominante (m).37 < 32.0 SH Exposição S-E Exposição ME = 0.60 N-W E = 0.12 E = 0.50 FIGURA 7 Árvore classificativa do índice global de severidade. Os números no final dos nós t erminais indicam a proporção de parcelas por classe de severidade (ME = muito elevada.60 E = 0.09 <8 E = 0. Dist.

. 9. 9. Note-se que o aumento da densidade mitigou a severidade do fogo em formações OF maduras mas agravou-a no carvalhal jovem. em PS como em OF.3%. Hély et al. Finalmente. a altura dominante e a exposição do terreno.5% da severidade compósita do fogo. a composição dos povoamentos. maior humidade do combustível morto e vivo). as suas car acterísticas. Lee et al. os factores responsáveis pela variação da severidade do fogo no pinhal bravo foram a área basal. A var iável c om maior capacidade de explicar a variabilidade da severidade do fogo nas formações OF foi a distância à orla PS-OF seguida da densidade e tipo de flor . 28. 2009) e suportam os resultados obtidos por Fernandes (2009) (Secção 2).. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 187 mificação PS da ár vore prevalecem largamente as severidades elevada e muito elevada. Implicações para a gestão Algumas conclusões resultantes destes estudos podem ser sumarizadas nos seguintes pontos: . PERIGO. a distância à orla PS-OF e o padrão de pr opagação d o fogo e xplicaram r espectivamente 51. sub-bosque hig rófilo) e ao pir o-ambiente meteorológico (redução do vento. apesar das diferenças detectadas no comportamento do fogo. com aumentos da severidade do fogo em pinhal bravo e nas formações SNC e EB nas encostas viradas a sul e este. A aquisição de matur idade estrutural contribui para reduzir o impacto do fogo. 2005. situação predominante em 10 dos locais amostrados. como também as modificações no microclima associadas à deslocação do fogo para situações topográficas mais húmidas e abrigadas. Globalmente.g. Para além de uma maior redução inicial em caducifólias. Por ordem decrescente de importância. Para o efeito de mitigação da severidade do fogo concorreram não só as difer enças entre PS e OF iner entes ao complexo combustível (folhada menos inflamável e mais compacta e/ou mais escassa. Epting e Verbyla. e da altura dominante e exposição. o tipo de OF não influenciou a severidade do fogo. a e xposição. Os resultados são consonantes com a literatura (e. refira-se o papel da exposição do terreno..1% e 4. e o sentido da propagação d o fogo r elativamente ao decli ve. 5.3%.VII. enquanto que no tipo OF estão r epresentados todos os níveis de severidade. 2003.3%. uma vez que a severidade do fogo diminuiu em povoamentos com árvores maiores ou maior área basal. esta.

Estes estudos confirmaram que. 3. A estrutura dos povoamentos é pelo menos tão importante como a sua c omposição. mesmo em c ondições meteorológicas muito adversas. sendo evidentes os benefícios que poder iam advir de um maior esforço de fomento ou conversão em tipos florestais de menor combustibilidade. INCIDÊNCIA E SEVERIDADE DO FOGO NAS FLORESTAS PORTUGUESAS 1. ser integradas nas faixas de gestão de combustível e. Dest e mod o. 5. na det erminação do perigo de incêndio. as cultur as anuais (incl uindo as pastagens). Este não pode ser dissociad o da estrutura e distribuição horizontal e vertical dos combustíveis. as ár eas c om est e tipo de uso deverão. sempre que possível. em povoamentos puros os mistos. Assiste-se à recuperação das quercíneas. Povoamentos de folhosas de folha persistente ou caducifólia e de coníferas de montanha podem sofrer menos com a passagem do fogo que o pinhal bravo. 2. O desenvolvimento de maturidade conducente a maior r esistência ao fogo e xige que se combinem técnicas silvícolas com a redução da incidência do fogo. e podem eventualmente originar a auto-extinção do fogo. as folhosas de folha caduca. e podem contribuir para uma menor incidência do fogo e para uma maior resiliência à sua ocorrência. . A elevada combustibilidade inerente a certos tipos florestais pode ser contrariada ou até mesmo anulada pelo tipo e intensidade da gestão do povoamento. mas muitas formações apresentam acentuada continuidade vertical e baixa estatura correspondentes a um elevado perigo de incêndio.188 VII. se necessário. É difícil implementar tratamentos de gestão do combustível numa escala espacial que se reflicta em alterações no regime de fogo. PERIGO. as cultur as per manentes e os sistemas agro-florestais são os usos mais eficient es na redução do risco de incêndio . podem reduzir o risco de incêndio. quando está a causa o desenho de faixas de gestão de c ombustível à escala da paisagem. ser promovidas em locais específicos. Povoamentos adultos e densos destas espécies são mais r esistentes ao fogo e apresentam menor risco de incêndio. Em termos de gestão flor estal. 4. Modificam o comportamento e a severidade do fogo.

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A carga combustível 3.191 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS VIII.4. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS SUSANA BAUTISTA RUI MORGADO FRANCISCO MOREIRA 1.1. Prós e contras da extracção da madeira queimada 2. As pragas florestais 2. Introdução 2.2.3. A degradação do solo 2. A biodiversidade e conservação de nutrientes 2.5. A regeneração da vegetação 2. Balanço ecológico da gestão da madeira queimada .

uma prática c omum nas últimas décadas c onsistiu em e xtrair o mais rapidamente possível os troncos queimados com o objectivo de minimizar a pot encial per da de valor ec onómico da madeir a e os ataques de escolitídeos. nas r egiões mediterrânicas mais ár idas as florestas produtivas escasseiam e o valor comercial da madeira queimada é reduzido. Nas florestas de portuguesas. No entanto. fitossanitários ou relacionados com a facilitação dos trabalhos posteriores de gestão florestal. das condições meteorológicas pós-incêndio. tem sido argumentado que a recolha de salvados tem efeit os negati vos e que a r emoção das ár vores queimadas causa alterações estruturais e funcionais nos ecossistemas. prevalecendo outros critérios de gestão florestal. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 1. Mas mesmo e quando a mor talidade é ele vada. O nível de se veridade do fogo e a mortalidade provocada nas árvores (ver Capítulo III) são cruciais. a taxa de sobr evivência dos indivíduos poderá ser razoável a elevada. 2000. a razões estéticas (Mciver e Starr. O tipo de gestão que se aplica à madeir a queimada e os moti vos concretos que o justificam t em mostrado uma certa variação no tempo e no espaço. no caso da Administração Florestal da Comunidade Valenciana (Espanha) recomenda-se retardar a extracção da madeira queimada até um ou dois anos após o incêndio. do declive. ou se a espécie ou o po voamento forem resilientes. A título exemplificativo. ainda que em menor escala. o risco de erosão do solo. condições em que não se justifica o abat de árvores. Não obstante. e particularmente nos pinhais. Em c ontraste. Se um fogo for de baixa int ensidade. Beschta et al.192 VIII. do tipo de solo.. com o objectivo de garantir uma cobertura vegetal mínima para a protecção . pelo menos nas florestas públicas. e da técnica de extracção utilizada. e também. 2004). da severidade do fogo. a decisão de r etirar ou não as ár vores afectadas deve depender de diferentes factores. bem como do momento da sua aplicação. há outros factores que poderão faz er com que o gestor decida não remover o material lenhoso (por exemplo. Introdução Após um incêndio. ou a promoção da biodiversidade associada à madeira morta). a retirada dos troncos queimados após os incêndios florestais é uma prática r elativamente comum que obedece geralmente a critérios económicos. Os efeitos ambientais da extracção de árvores após um incêndio dependem das características dos povoamentos afectados.

Barker. exacerbando o efeit o do fogo. muitos deles relacionados entre si. Normalmente. foi produzida legislação diversa para facilitar a c omercialização desta madeira. 2000). A redução da carga de combustível para futuros incêndios (e. O balanço ecológico deste tipo de ac tividade é. 2004). Aman e Ryan. Prós e contras da extracção da madeira queimada As c onsequências ec ológicas que podem associar -se à gestão da madeira queimada após os incêndios florestais constituem uma intrincada rede de efeitos potenciais. e que a r emoção dos t roncos queimados induz importantes alterações estruturais e funcionais no sistema. a e xtracção da madeir a queimada destaca-se num conjunto de medidas direccionadas à recuperação da zona queimada e em Portugal.. os responsáveis pela gestão florestal tendem a efectuar algum tipo de gestão ac tiva da flor esta após os incêndios. 1991) são também argument os habituais a fa vor desta for ma de gestão. Todavia. argumenta-se que as actividades de corte e extracção de madeira danificam a vegetação e o solo das zonas queimadas. portanto. conhece-se muito pouco sobre as consequências ecológicas desta actividade e são poucas as e vidências científicas que sustentam uma e outra posição. 1995.g. particularmente em anos com grandes incêndios. 1989) ou a prevenção da propagação de pragas de insectos perfuradores da madeira (e. Em sentido contrário.. A maior par te da infor mação deste capítulo diz r espeito a po voamentos de resinosas. Em m uitos casos. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 193 do solo face à erosão.VIII.g. Tradicionalmente. uma questão complexa e aberta a discussão. nos últimos anos tem-se gerado um intenso debate no qual as questões ec ológicas e ambientais desempenham um papel central na controvérsia sobre esta actividade. não apenas no contexto da gestão florestal mas também no da in vestigação. A facilitação dos futuros trabalhos de gestão ou r ecuperação da flor esta é um d os argumentos apontados a favor deste procedimento. Na realidade. Os dados disponíveis na bibliog rafia . e tal como assinalaram diversos investigadores e gestores florestais (Beschta et al. que afectam uma larga sér ie de var iáveis estruturais e funcionais d os ecossistemas. a extracção de madeira após os incêndios flor estais er a efectuada sem t er em c onsideração cr itérios ecológicos (Beschta et al. Mclver e Starr. 2.

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apontam para certos padrões genéricos em relação a alguns aspectos da extracção da madeir a queimada, embora sejam ainda escassos e m uito heterogéneos. São pouc os os t rabalhos de in vestigação r elativos aos diferentes elementos afectados e praticamente inexistentes os que analisam de forma global todo o elenco de consequências potenciais (Bautista et al., 2004). Num trabalho de revisão, Mclver e Starr (2000) apenas encontraram 21 trabalhos publicados nos quais se avaliou algum dos efeitos potenciais deste tipo de gestão . Destes, apenas 14 incl uíram a avaliação de zonas testemunha sem extracção e, entre estes, apenas 7 apresentaram resultados de experiências adequadamente replicadas que per mitiram inferência estatística. Somente um destes trabalhos, sobre os efeit os na vegetação, avaliou as c onsequências da e xtracção de madeir a queimada a longo prazo (11 anos). Os resultados não são sempre consistentes e, em geral, indicam um for te efeito do local e das cir cunstâncias particulares, pelo que os efeitos descritos em zonas muito específicas não podem entender-se como genéricos e extrapolar-se a outros territórios. A Tabela 1 resume os principais argumentos utilizados contra ou a favor da extracção da madeir a queimada, os quais por v ezes não são basead os
TABELA 1
PRÓS E CONTRAS DO CORTE E EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA

PRÓS

CONTRAS

Evitar pragas (escolitídeos)

Aumento da erosão e compactação do solo provocada pela maquinaria e arraste de troncos Impacte negativo na biodiversidade e fauna florestal

Melhorar a germinação dos pinheiros (se a extracção for imediata)

Aproveitar o potencial valor económico da madeira queimada Reduzir o impacto visual

Impacte negativo na regeneração natural do povoamento Impacte negativo na regeneração da vegetação Perda de matéria orgânica do sistema, que pode afectar negativamente a reciclagem de nutrientes

Reduzir o risco de acidentes provocados por quedas de árvores

Redução da carga combustível que diminui o risco de futuros incêndios

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em critérios estritamente científicos. Caberá ao gestor tomar essa decisão (extrair ou não) em função do seu conhecimento da área e do balanço dos impactes (positivos e negativos) expectáveis. Algumas das questões mais polémicas são analisadas em seguida.
2.1. A degradação do solo

A perturbação do solo associada aos trabalhos de corte e extracção das árvores pode r esultar n um pr ocesso mais ou menos pr olongado de degradação do solo. Os incêndios florestais provocam uma alteração brusca das condições da super fície do terreno que conduzem a um aument o do risco de degradação (DeBano et al.,1998). Pode colocar-se a hipótese de que a per turbação conjunta que se associa à r etirada da madeir a queimada potencia a degradação do solo em ár eas queimadas. Os estudos existentes sugerem que as práticas de e xtracção de madeira podem alterar de forma severa a super fície d o solo , ac elerar os pr ocessos de er osão, aumentar a compactação superficial e a produção de escorrências, assim como a degradação da qualidade das águas da r egião (Gayoso e Iroumé, 1991; Rab, 1994; Edeso et al., 1999; Silins et al., 2009). Os efeitos aumentam em função do número de trilhos de extracção que se construam e da intensidade do seu uso (Beschta, 1978). Não obstante, nos casos em que se c onservaram os horizontes orgânicos e os resíduos da extracção de madeira na superfície, as alterações físico-químicas e os efeit os sobre a er osão do solo podem ser substancialmente reduzidos (Fernández et al., 2004). Em terrenos muito susceptíveis à erosão e compactação, a extracção por via aérea (ex. suspensão em cabos) permite reduzir ao mínimo os efeitos negativos destas operações. Nalguns estudos realizados em Portugal detectaram-se incrementos notáveis nas taxas de erosão depois da extracção de madeira queimada em zonas de Pinus pinaster e de Eucalyptus globulus (Walsh et al., 1992; Shakesby et al., 1994; Terry, 1994). Também fora da área mediterrânica se mediram taxas mais altas de pr odução de escorrência e sedimentos em áreas de extracção de madeira em comparação com as zonas testemunha, ainda que, em alguns casos, os efeit os só t enham sid o r egistados em condições de elevado declive. A degradação e erosão do solo que se relaciona com a gestão da madeir a queimada parece ser altamente dependente do tipo de t ratamento que se aplique (ar rasto dos toros com animais ou

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tractor, suspensão em cabos, helicóptero, etc.), assim como das condições da superfície. A cobertura de folhada ou de r esíduos da ac tividade de corte e e xtracção que ficam na su perfície desempenham um papel determinante (Shakesby et al., 1994), pelo que se r ecomenda que os trilhos de extracção sejam coberto de ramos e bicadas para minimizar a compactação do solo e os riscos de erosão. Apesar dos impactes negativos da extracção das ár vores queimadas, nas z onas em que se deixam os troncos queimados em pé, a sua post erior queda e o le vantamento da coroa de raízes pode provocar o início de processos de erosão de tal forma que, nalgumas ocasiões, se c onsiderou a e xtracção c omo uma acção preventiva face a este risco (Poff, 1989). No entanto, quando se dá a queda natural dos troncos queimados, esta ocorre geralmente vários anos depois do incêndio, quando a cobertura do solo devida à recuperação do coberto vegetal já deverá ser suficiente para minimizar estes impactes, que não se encontram documentados de um ponto de vista científico. A rechega de t roncos e/ou a c ompactação do solo por maquinar ia associam-se ao aparecimento de sulcos de erosão linear (Gayoso e Iroumé, 1991; Rab, 1994). Na Comunidade Valenciana, um estudo a longo prazo realizado em 13 ár eas de pinhal (Bautista et al., 2004) avaliou o efeito potencial sobr e a deg radação d o solo por pr ocessos de esc orrência superficial e a per da de solo por er osão linear associada aos t rilhos de extracção. Estes trabalhos mostraram que sempre que se efec tue uma actividade de arrasto de madeira de certa magnitude, a probabilidade de formação de sulc os linear es é m uito alta, sobr etudo em solos mais erosionáveis. A severidade dos efeitos está relacionada directamente com o comprimento das encostas e é muito mais marcada em áreas com substratos desagregáveis. Em geral, nos casos em que se produziram sulcos de erosão linear, os valores estimados de perda de solo podem considerar-se moderadamente altos. Há que destacar que estas per das se concentram nos primeiros anos após o tratamento já que, em geral, os sulcos vão sendo colonizados parcialmente pela vegetação e vão perdendo o seu potencial erosivo com o t empo. No entanto, em z onas particularmente sensíveis, ainda eram visíveis sulcos activos 9 anos depois do fogo e é previsível que o processo de degradação e formação de sulcos continue no futuro. O númer o de z onas em que se pr oduziu estilha e se efec tuou a aplicação de resíduos sobre a superfície foi muito escasso e não permite

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extrair c onclusões sobr e esta medida de c onservação de solos. Não obstante, os resultados obtidos apontam-na como uma prática eficaz na prevenção de possíveis danos associados à extracção de madeira, coincidindo com outros trabalhos prévios que evidenciaram o importante papel protector que desempenham os resíduos do corte (Shakesby et al., 1994). Os resultados acima descritos justificam algumas recomendações aos gestores florestais, no que diz respeito às actividades de extracção (DGRF, 2005): 1. Sempre que o terreno apresente elementos que possam contrariar a erosão – armações do terreno em vala e cômoro, muros ou muretes de suporte de terras, cordões de pedra, etc. – as operações de exploração, devem ser executadas de modo a garantir a sua conservação; 2. A extracção potencia o risco de erosão do solo pela movimentação de máquinas pesadas e arrastamento dos toros cortados. O uso de máquinas, mesmo as que utilizam sistemas de locomoção de baixa pressão, também provoca danos no terreno que importa prevenir. Os movimentos das máquinas sobre o terreno devem ser restritos ao essencial, e de modo a evitar configurações de sulcos que promovam um maior escoamento da água. O padrão espacial da rede de t rilhos de e xtracção de ve ser organizad o na perspecti va da mesma ser feita para a cota superior, de modo a que a convergência em carregadouro não concentre erosão. É sempre preferível passar pelo mesmo t rilho de extracção em vez de danificar t oda a área, pelo que a mo vimentação de t oros para carregadouro deve ser planeada de mod o a utilizar um menor númer o de t rilhos de extracção. A deposição de ramos e bicadas nesses trilhos minimiza a compactação do solo e riscos de erosão; 3. É preferível a utilização de técnicas que mo vimentem o material lenhoso sem que este entre em contacto com o solo (sistemas de cabos aéreos ou tractor transportador); 4. Para e vitar a c ompactação d o solo , de ve ser e vitado o uso de máquinas de exploração pesadas em períod os em que o solo se encontre saturado, após longos períodos de precipitação. Em resumo, as técnicas de gestão adequadas podem minimizar os impactes da extracção na erosão do solo. No entanto, as taxas de erosão provocadas pela extracção podem ser mais importantes que as causadas

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pelo próprio incêndio. Em particular, há um risco elevado de ocorrência de fenómenos importantes de erosão em sulcos associados aos trilhos de extracção. A técnica de extracção dos troncos queimados influencia fortemente o impacto sobre o solo. Em geral, a remoção de troncos por arrasto é a que causa maior impac to, seguida pelos t ractores transportadores, cabos aéreos e pela utilização de helicópteros.
2.2. A regeneração da vegetação

A perturbação directa da superfície do solo ou da cobertura vegetal pelo abate e ar raste (rechega) de t roncos é um efeit o directo da r etirada da madeira queimada da floresta. Este procedimento pode, por exemplo, causar uma redução relevante dos indivíduos de certas espécies ou alterar o regime de ger minação e instalação de plântulas. Por out ro lad o, as alt erações ambientais produzidas pela e xtracção das ár vores mortas – fundamentalmente na quantidade de radiação que incide sobre a superfície do solo – podem afectar de algum modo a taxa de mortalidade das plântulas. Não há m uitos estudos sobr e o efeit o da e xtracção de madeir a queimada na regeneração do coberto vegetal. Alguns trabalhos desenvolvidos nos Estad os U nidos da América most ram uma r edução significativa na biomassa d o sobcoberto, na r iqueza de espécies e no crescimento das plântulas de pinheir o, assim c omo um aument o na colonização por espécies e xóticas, c omo c onsequência da e xtracção da madeir a queimada (e.g . Se xton, 1994; Greenberg et al., 1994). No entanto, em regiões mediterrânicas, os resultados são mais diversos. Assim, num pinhal de Pinus halepensis do norte de Israel, 4 anos após o fogo e 3 após a e xtracção da madeir a, não se det ectaram alterações significativas na c omposição específica nem no desenvolvimento da cobertura vegetal (Ne’man et al., 1993, 1995). Em povoamentos de Pinus pinaster e Pinus halepensis do lest e espanhol, Bautista et al. (2004) observaram uma r edução da c oberto v egetal em z onas de e xtracção 3 anos depois desta se t er realizado, mas as difer enças desapareceram 9 anos após o fogo. Similarmente, num pinhal de Pinus pinaster no centro de Espanha, Pérez e Moreno (1998) não registaram um efeito duradouro da extracção das ár vores na biomassa e est rutura da vegetação. Viegas et al. (1994) compararam duas z onas queimadas, com e sem e xtracção

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de madeir a, de um pinhal de Pinus pinaster do c entro de P ortugal e obser varam menor di versidade de espécies na z ona afec tada pela extracção, mas também não observaram diferenças no desenvolvimento do coberto vegetal. Martínez-Sánchez et al. (1999) mostraram que a extracção de madeira queimada num pinhal de P. halepensis localizado no sudeste da província de Albacete, sob um clima semiárido, produziu um incremento na mortalidade das plântulas desta espécie geradas pós-fogo e uma r edução moder ada d o cr escimento das mesmas. Os aut ores atribuíram o efeito à remoção dos resíduos queimados e à c onsequente redução na protecção face à insolação e altas temperaturas. Pérez (1997) observou uma evolução mais lenta d o c oberto vegetal em ár eas sem extracção, o que at ribuiu à sensibilidade de algumas espécies à sombr a produzida pelas árvores queimadas que ficaram no solo. Por vezes, o impacto a curto prazo da extracção da madeira queimada pode t er vantagens de um pont o de v ista de gestão . C omo e xemplo, refiram-se estudos desenvolvidos por Fernández et al. (2008) e Vega et al. (2008, 2010) após os incêndios de 2000 a 2003 na Galiza. Estes autores monitorizaram a germinação e sobrevivência das plântulas de pinheirobravo (Pinus pinaster) em povoamentos com idades ent re 17 e 53 anos e densidade entre 650 e 1450 árvores/ha que sofreram 3 tipos diferentes de gestão pós-fogo: (1) ausência de int ervenção, (2) corte de ár vores e acumulação de resíduos em linhas (“slash windrowing”), e (3) corte de árvores e estilhaçamento de resíduos. Os autores chegaram à conclusão de que a e xtracção das ár vores queimadas causa va um aument o de mortalidade de plântulas e debilitação das sobr eviventes, com a consequente redução na densidade e cr escimento das plantas e xistentes, mas este impacto não comprometia o estabelecimento dos pinheiros novos, podendo até reduzir a necessidade de desbastes futuros. No caso dos po voamentos de folhosas, em que é c omum a sobr evivência dos indivíduos através de regeneração vegetativa (por exemplo de toiça ou de r aiz; ver Capítulo III), o abat e e ar rastamento dos toros pode pr ovocar bastant es danos na r egeneração. Atrasar o c orte das árvores cuja copa morreu em resultado do fogo, poderá ser benéfico para o desenvolvimento da vegetação espontânea e c ontrolo da erosão, mas quanto mais tarde se cortar, maior será o risco de danificar a regeneração que entretanto cresceu, e a presença do próprio tronco junto aos rebentos

A biodiversidade e conservação de nutrientes Um segundo g rupo de efeit os potenciais da e xtracção de madeir a queimada deriva do papel estrutural e funcional da madeira morta após os incêndios. Linder e Östlund (1992. enclaves.. Estados Unidos da América e Canadá no sentido da manutenção. de tal forma que a retirada sistemática . O papel ecológico dos resíduos de maiores dimensões – troncos e ramos maiores – de madeira morta não foi reconhecido até aos anos setenta do século passado (Maser et al. 1994. a retirada de madeira morta das florestas e rios era uma prática c omum na gestão e exploração florestal. 1986. Porém a informação disponível sobre o impacte do corte e extracção de troncos em povoamentos de folhosas no Mediterrâneo é ainda muito escasso. que v ivem dos seus efeitos (Moretti e Barbalot. Antes disso. Para uma r egião do centro da S uécia. e até aumento. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS em crescimento poderá dificultar o desenvolvimento da r egeneração. (2003) sugerem que uma antecipação do corte do tronco será mais vantajosa par a o cr escimento dos rebentos de t oiça. poleiros. Por exemplo no caso de sobreiros queimados e com morte da parte aérea. é um elemento chave na ecologia dos sistemas fluviais adjacentes e. 1999) estimaram uma redução da madeira morta de grandes dimensões em bosquesde 13 m3 ha-1 para menos de 1 m 3 ha-1 desde finais do século XIX até à ac tualidade.. do volume de madeira morta nas florestas. é fonte de nutrientes minerais (Harmon et al.1979). por último. para além disso. fungos e insectos. Sammuelsson et al. o reconhecimento do dito papel possibilit ou uma alt eração de política na gestão e e xploração de muitas florestas do norte da Europa. Grande parte dos efeitos positivos que se associam à madeir a morta nas florestas não per turbadas por fogo é aplicáv el aos t roncos e out ros resíduos de grandes dimensões em áreas queimadas.3. 2003). 2. O fogo é uma perturbação natural do ecossistema e há espécies de insec tos.. A madeira morta é. e seus c orrespondentes predadores. condições microclimáticas – que podem desempenhar um papel impor tante na suc essão vegetal e animal após o fogo. uma fonte de alimento que sustenta numerosas espécies de microorganismos. Actualmente. 1998). citado em Kruys et al. Barberies et al. particularmente escaravelhos. Lofroth. A presença de árvores queimadas determina condições físicas – espaços..200 VIII.

(2010) verificaram que um dos impactos da extracção total de árvores numa r egião da Ser ra N evada (Espanha) er a que a abundância das principais espécies de aves dispersoras de sementes de ávores e arbustos (tordos e gaios). 1996). A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 201 da madeira queimada após os g randes incêndios aumenta a pr obabilidade de extinções locais. ver o C apítulo IV. 1993. e que. empobr ecendo-a em espécies características de áreas florestais e enriquecendo-a em espécies próprias de habitats aber tos ou secos. podiam facilitar a posterior regeneração da área. Izhaki e Adar (1997) estudaram o efeit o da remoção da madeir a queimada na e volução da comunidade de aves florestais não reprodutoras num pinhal em I srael e verificaram que o impacto do fogo na composição da comunidade de aves foi mais sig nificativo onde e xistiu remoção de madeir a queimada relativamente aos locais onde esta não ocorreu. 1998.Castro et al. 1993). prevê-se um efeit o sig nificativo da extracção de madeir a queimada sobr e os ciclos biogeoquímic os e o . Para mais detalhes sobre esta temática. as diferenças entre as zonas tratadas e não tratadas desaparecem progressivamente... A magnitude e duração do efeito depende da int ensidade e e xtensão do tratamento. podendo comprometer a per manência de algumas espécies nos casos mais e xtremos (Lindenmayer e Possingham. A longo pr azo. fundamentalmente aves e pequenos mamíferos. a e xtracção da madeir a queimada tende a provocar uma alteração na c omposição específica da fauna. À medida que as ár vores queimadas vão caind o e o desen volvimento de plântulas e r ebentos se vai inc orporando na no va c obertura aos r esíduos queimados. Kotliar et al. no que respeita à biodiversidade de aves. Llimona et al. concluem que as árvores queimadas desempenham um papel fundamental na recuperação da fauna das zonas afectadas (Haim. estes aut ores sugerem uma est ratégia de gestão que inclua áreas com e sem r emoção da madeir a queimada. portanto. criando-se assim um mosaico de diferentes habitats e respectivos nichos que aumentariam o número de espécies de aves presentes à escala da paisagem. Em geral.VIII. 2002). A extracção dos troncos queimados pode reduzir o habitat de diversas comunidades de aves que os utilizam par a nidificar ou c omo poiso (Saab e Dudle y. A maior par te dos estudos relativos aos efeitos dos tratamentos de extracção de madeir a após o fogo sobr e os v ertebrados. Assim. era reduzida drasticamente.

Os indivíduos maduros destas espécies perfuram a casca e alcançam os t ecidos subcorticais onde depositam os ovos. consequentemente. as quat ro categorias de dano analisadas no citad o trabalho var iavam desde ár vores c om a c opa c ompletamente intacta (verde) até árvores com 76-90% do volume de copa dessacada.. 1934. mas também devido à remoção de ramos e troncos que constituem. os resultados sugerem que as ár vores totalmente queimadas são menos atacadas que as que apresentam níveis de dano moderados (Caixa 1). Ryan e Amman. Uma das r azões utilizadas par a defender a e xtracção da madeir a queimada é. a longo prazo. que podem constituir pragas par a os po voamentos v izinhos (v er Capítulo IX). Este efeito ocorre devido à perda de parte dos horizontes orgânicos do solo. (2003) estudaram a relação entre severidade do fogo e ocorrência de escolitídeos após um fogo c ontrolado num pinhal de Pinus ponderosa e observaram um maior número de entradas de escolitídeos nas árvores mais danificadas pelo fogo. n um estud o efectuado em Alicante (Espanha). 2000). a de que a at racção e colonização por escolitídeos das ár vores parcial ou totalmente queimadas pode ser vir de foco de proliferação e facilitar a infecção dos povoamentos de pinhal mais próximos (Salman. reservas de nutrientes para microrganismos. 2. Este papel facilitador da madeira queimada apoia-se no facto conhecido de que as árvores debilitadas pelo fogo most ram menos defesas fac e ao ataque destes insectos. sem que se registassem nív eis de se veridade maior es. As larvas alimentam-se do câmbio à medida que escavam galerias que acabam por interromper a circulação no floema e provocar a morte da árvore. que acabam por colonizar os troncos com certa facilidade e incrementar as suas populações. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS balanço de nutrientes (Brais et al. particularmente escolitídeos.202 VIII. 1994). Todavia.4. N o entant o. . plantas e animais. Wallin et al. As pragas florestais Um d os argument os utilizad os a fa vor da r emoção da madeir a queimada é que se lhe at ribui um papel facilitad or da at racção e proliferação de insectos.

de um pont o de vis ta dos esc olitídeos. Após um incêndio. 3. as árv ores parcialmente danificadas são um foco potencial mais perigoso que árvores totalmente consumidas. copa consumida. desde copas completamente verdes a copas completamente consumidas pelo fogo. (2004). 140 sem infecção < 10 entradas 10-25 entradas > 25 entradas 120 NÚMERO DE PINHEIROS 100 80 60 40 20 0 1 2 3 4 CATEGORIA DE SEVERIDADE DO FOGO FIGURA 1 Número de pinheiros afectados por diferentes níveis de colonização por escolitídeos. 2. Estes resultados sugerem que. foi observada a preferência dos escolitídeos por árvores que conservavam parte da copa verde (Figura 1). 4. . na esperança que possam sobreviver. no qual se quantificou o número de entradas de escolitídeos em Pinus halepensis para quatro categorias de dano das árvores. Espanha). árvores parcialmente afectadas no tronco mas c om a c opa verde. Dados r ecolhidos 6 meses depois do incêndio. e abatem os exemplares com a copa consumida ou totalmente dessecada. em função da categoria de severidade do fogo: 1. copa com parte verde e part e dessecada. Extraído de Bautista et al. tronco parcialmente queimado. copa dessecada. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 203 CAIXA 1 OS ESCOLITÍDEOS APÓS O FOGO NOS PINHAIS DA REGIÃO DE VALÊNCIA Num estudo realizado no Parque de la Font Roja (Alicante.VIII. os gestores frequentemente mantêm as árvores com a copa parcialmente afectada pelo fogo.

a combustibilidade local aumentava nas zonas de extracção. 2000). mas apenas ligeiramente e dur ante um períod o de tempo limitado. devido à sua baixa relação superfície/volume e ao seu conteúdo de água (Amaranthus et al. 2006). Balanço ecológico da gestão da madeira queimada Ainda que não se possa descartar que em algumas condições particulares a extracção da madeira queimada possa ter um efeito positivo sobre o ecossistema.1989). Mclver e Star r. as difer entes r evisões que for am efectuadas sobre o t ema concordam que não há nenh um trabalho na literatura que most re essa relação (Beschta et al. 3. a recomendação genérica que decorre dos resultados obtidos é a precaução. e permitindo que a queda dos troncos e ramos se processe de forma mais lenta e repartida no tempo. por forma a minimizar a quantidade de c ombustível fino em c ontacto com a superfície do solo. Donato et al. Logo. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 2. Os materiais de menor diâmetro são os que mais c ontribuem par a a c ombustibilidade do local e est e tipo de material c ostuma deixar -se no solo após as ac tividades de e xtracção.5. 1995. dependendo da taxa de decomposição própria das condições do local. . devido à quantidade de r esíduos de menor diâmet ro que ficam no solo após os t rabalhos de e xtracção (Stephens.. os quais acr escentam pouco à carga de c ombustível presente. que aumenta a probabilidade e severidade potenciais de um incêndio futuro. a curto-prazo. Modelos de simulação mostram que a longo prazo. assim que os troncos queimados caem no solo. o balanço líquido das consequências ecológicas deste tipo de actividades parece oscilar ent re a neut ralidade e o pr ejuízo.204 VIII. a extracção de madeir a queimada limita-se aos grandes troncos. 1998.. nos escassos t rabalhos em que se quantific ou a carga de combustível em zonas com e sem extracção de madeira. (2006). Curiosamente. verificou-se que. A carga combustível É frequentemente afirmado que a permanência dos troncos queimados implica uma per igosa carga de c ombustível na z ona. Normalmente. a est ratégia de menor r isco seria deixar as ár vores queimadas em pé o maior períod o de tempo possível. Ainda que este argument o c onstitua um lugar c omum ent re os que defendem a e xtracção de madeir a queimada.. a combustibilidade das zonas sem extracção aumenta. De acordo com Donato et al.

a eficácia da extracção de madeira queimada como medida preventiva contra a colonização por escolitídeos limitar-se-á. Parte d os efeit os negativos potenciais podem mitigar-se com medidas correctoras oportunas ou aplicand o métodos de e xtracção que minimiz em o impact o sobre o solo. Além disso. a curto e médio prazo e para as condições habituais em que se aplica esta medida nas florestas mediterrânicas. com zonas que não recuperam durante dezenas de anos. c omo os solos desen volvidos sobr e margas. as actividades de e xtracção de madeir a queimada int ensivas e de larga-escala . Os escolitídeos perfuradores parecem mostrar uma clara preferência por ár vores afectadas de for ma moder adamente severa pelo fogo .VIII. Uma solução prometedora é a t ransformação dos resíduos em estilha e sua distribuição pela superfície do solo. em solos c onsiderados sensív eis. Deste modo. deve ter-se em conta que este período é de máximo risco de degradação e erosão do solo pelo que devem ponderar-se adequadamente as condições ambientais e as prioridades em cada zona. e a um período não superior ao pr imeiro ano após o incêndio . Não obstante. ao mesmo tempo que se aplica uma medida de c onservação de solos. uma v ez posteriormente os t ecidos subcorticais das árvores mortas estão demasiado degradados para permitir o desen volvimento das espécies de esc olitídeos c onsideradas pr oblemáticas. a extracção de madeira queimada não parece modificar significativamente a recuperação pós-fogo do coberto vegetal ou a regeneração dos pinhais. se os resíduos forem eliminados através da queima. os efeitos negativos podem ganhar peso no balanço ecológico. por isso. Uma estratégia que é apontada pelas ideias mais r ecentes em gestão florestal é a da e xtracção selectiva. Não obstante. os restos de copas e ramos deveriam eliminar-se também. nem afecta o desenvolvimento das plântulas de pinheiro num ou noutro sentido. Segundo esta perspectiva. Nos casos em que a e xtracção de madeir a se realize com uma forte participação de maquinaria e sobre ecossistemas menos resilientes. o dano pot encial no solo é muito alto. Para que isso acontecesse. A confirmar-se este padrão. às árvores afectadas parcialmente. g rande par te da matéria orgânica fica na floresta. A e xtracção d os t roncos queimad os não par ece r eduzir a carga efectiva de combustível nas zonas queimadas. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS 205 Em geral. arenitos ou alguns tipos de argilas há um risco moderado-alto de erosão linear associada ao t ratamento de e xtracção.

as considerações ecológicas anteriores devem ponderar-se também face aos aspectos económicos e sociais afectados em cada caso. É necessária mais investigação científica sobre este tema. que apliquem medidas correctoras nos casos de risco (e.g. que e vitem as ár eas mais sensíveis e de maior r isco de deg radação. A EXTRACÇÃO DA MADEIRA QUEIMADA APÓS OS INCÊNDIOS FLORESTAIS devem ser substituídas por ac tividades selectivas. que evitem a queima d os resíduos de c orte. . deixand o um mosaico de manchas com e sem tratamento para manter o papel estrutural e funcional de ramos e troncos. que c oncedam pr ioridade às árvores parcialmente afectadas pelo fo go em caso de r isco de pr aga de escolitídeos e que se e xecutem de for ma het erogénea. Evidentemente.206 VIII. medidas de conservação de solo). e a colaboração dos gestores será a única forma de se atingir o design experimental necessário para o esclarecimento destas importantes questões.

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Gestão das populações de escolitídeos 5.2. Primeiros sinais e sintomas de colonização de escolitídeos 4. Ecologia dos escolitídeos 3.1. Os inimigos naturais 5. Introdução 2.211 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS IX. Detritos de exploração florestal 6. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO LUISA NUNES 1. Utilização da madeira de árvores mortas por escolitídeos 5. Escolitídeos e fogo .

preferencialmente.212 IX. O potencial biótico de um insecto consiste na sua maior ou menor capacidade par se a expandir. Alguns insectos alimentam-se das partes lenhosas da árvore e entre estes os coleópteros da família Scolytidae são frequentemente os mais destrutivos. como mais comummente são designados. Pode definir-se igualmente como forma de quantificar a população que se pode desen volver de u ma fêmea adulta no períod o de um ano quando as condições ambientais são fa voráveis à espécie. . como a temperatura. no entant o. algumas intervenções culturais ou a própria fisiologia da árvore. a tendência do seu crescimento e flutuações. podem atacar resinosas e folhosas mas os seus surtos têm tido maior expressão em povoamentos de pinheiro bravo e. Os escolitídeos. ocasionalmente atacar out ras espécies de pinheir o em Portugal. Quanto à resistência do meio esta é definida por t odos os fact ores que n um determinado ecossistema podem limitar a m ultiplicação dos insectos. por exemplo. após a passagem do fogo. a precipitação. Na luta contra os insectos nocivos nas plantações florestais é importante estimar a magnitude das suas populações. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 1. Introdução Uma grande abundância de insectos conduz à ideia de praga. Simplificando. mas com um menor grau de nocividade. pode-se reduzir o estudo das populações de insectos a dois factores: o potencial biótico e a r esistência do meio. Podem. os que transmitem microrganismos patogénicos (como o fungo denominad o por azulad o da madeira). sobretudo quando esta int erfere com os int eresses económicos associados à floresta ou à agricultura. mas o conceito de praga não é assim tão simplista quanto possa parecer. A maior parte dos problemas fitossanitários nas florestas resultam de repentinas e impr evisíveis alterações nas po pulações de insec tos mas pode-se encontrar nocividade em alguns cujas populações apr esentam níveis relativamente baixos sendo estes. e é preciso conhecer os efeitos dos diversos fac tores de or igem ambiental ou ant rópica que são e xercidos sobre os mesmos.

na sequência de quedas de árvores por acção do vento. A situação actual de mortalidade de povoamentos causada por escolitídeos resulta de uma combinação de factores naturais incluindo. o facto de ser em organismos secundár ios de algum fac tor primário debilitante. a maior ia das espécies ataca árvores. incêndios. solos pouco profundos/ rochosos e populações relativamente significativas de escolitídeos. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 213 2. Embora os escolitídeos sejam na sua maioria pragas secundárias que . fundamentalmente. seca ou após ataques de desfolhad ores. Apesar de apresentarem uma característica que todos eles têm em comum. 1995. eliminando naturalmente algumas árvores do povoamento. todos eles t endem a ser considerados ameaças potenciais devido à sua suposta capacidade de se “aproveitarem” da floresta quando esta está a passar por situações mais debilitantes – depois de um incêndio. Ainda que alguns se jam específicos de det erminados ar bustos. As árvores que não dispõem desses recursos em quantidade suficiente entram em processos de enfraquecimento e portanto de maior susceptibilidade. Ferreira e Cabral. 1999).IX. monoculturas extensas. Todos estes factores influenciam a quantidade de água. este processo vai contribuir para disponibilizar uma quantidade bastante maior de recursos para as árvores que sobrevivem. insectos de plantas lenhosas hospedeiras e constituem um dos poucos grupos que pode ser c onsiderado como autênticos insectos da flor esta. a verdade é que as diferentes espécies diferem significativamente entre si em termos de grau de agressividade. luz e nutrientes disponíveis para cada árvore. comportamento e escolha de nicho ambiental. Inadvertidamente. Existe sobre esta família de insect os uma má fama gener alizada que não é de t odo justificada. De for ma mais ou menos semelhant e. designadamente: a seca. Este processo de compensação pode ser também observado com outras pragas como a processionária do pinheiro (Thaumeothopoea pityocampa) cujos dejectos produzidos pelas lar vas em g randes quantidades são mais facilment e disponibilizados para consumo da planta permitindo assim que os hospedeiros possam ter condições de sobrevivência após a desfolha (Cabral. Ecologia dos escolitídeos Os escolitídeos são. Os escolitídeos têm a capacidade de detectarem os hospedeiros mais susceptíveis e a sua resposta consiste em colonizá-los.

algo como um “engodo primário”. Pode ainda acontecer que hospedeiros susceptíveis e em estado precário emitam sinais químicos. Este assunto pode ser convenientemente discutido no âmbito do contexto de um ciclo de vida generalizado de um escolitídeo. denominados de “pioneiros”. As árvores atacadas por estes insectos apresentam amarelecimento da copa. dependendo da espécie envolvida. o escolitídeo emite uma feromona de agregação que atrai outros insectos xilófagos. na fase de reprodução. Campbel et al. Pode dar-se o caso de a população endémica da espécie. que atrai o adulto directamente ao alvo. habitualmente. Cada espécie de escolitídeo apresenta comportamentos específicos e é isto que determina o impacte de cada umana produção florestal e no seu significado ecológico. Existem estudos divergentes quanto ao mecanismo envolvido que leva estes pioneiros até uma árvore susceptível. perfuração da casca com saída de resina. Numa evolução mútua ent re hospedeiro e pr aga. os insec tos desenvolveram formas de detectar estes compostos e utilizá-los para identificar árvores hospedeiras adequadas... atraído para determinada árvore. Os pinheiros susceptíveis emitem determinadas substâncias. testando de alguma forma possíveis hospedeiros num estado mais receptivo. 2008). quando o ataque é elevado também se pode estender a árvores em melhor condição fitossanitária. O orifício de entrada inicial realizado pelo escolitídeo e a passagem do material vegetal do hospedeiro pelo sistema digestivo do insecto geram um atractivo para outros indivíduos que não é mais que um c onjunto de químicos denominados por feromonas de ag regação. Os esc olitídeos pioneiros podem ser machos ou fêmeas. inicia-se então a emissão de uma fer omona “anti-agregação”/dispersão. então. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO se desenvolvem em condições naturais em árvores debilitadas.214 IX. Após o processo de colonização. Depois de localizar e c olonizar uma ár vore hospedeira susceptível. Talvez ambos os mecanismos funcionem nesta família. procurar continuamente árvores susceptíveis ao acaso. 2003. Um número suficiente de escolitídeos é. químicos que não são mais que c ompostos voláteis (monoterpenos e etanol) que funcionam como um forte “chamamento” para insectos xilófagos. Os primeiros adultos a atacarem uma árvore são. serrim e galerias entre a casca e o lenho. estes constituem como que um sinal de“venham até aqui” para ambos os sexos da mesma . que lhes indica a nec essidade de localizar uma out ra árvore hospedeira (Sullivan et al.

IX. atingindo casos mais extremos nas espécies como o Orthotomicus erosus (Bóstrico pequeno) e Pityogenes bidentatus (Bóstrico Bidentado) que. apresentam uma galer ia por fêmea. Quando os ovos eclodem. onde ocorre o acasalamento. as espécies poligâmicas. pode c hegar a t er entre 8 a 12 galerias de ovos (Ferreira. 1998). Normalmente a colonização do hospedeiro inicia-se com uma câmar a nupcial alargada e de for ma característica. cada larva estende o sistema para lá da galeria materna. A partir desta câmara estende-se uma ou mais galerias onde a fêmea coloca os ovos. A forma e distribuição das galerias facilitam a identificação da espécie. A postura pode ser feita isoladament e ou em ambos os lados de cada galeria. sob det erminadas circunstâncias. São muitas as variações existentes sobre este tema e cada uma é . (Hilésina) existe uma única galer ia de ovos. FIGURA 1 Galerias de escolitídeos (T. (Foto: Luisa Nunes). alguns d os quais produtos inalt erados da planta hospedeir a c omo t erpenos e out ras substâncias modificadas por pr ocessos digestivos do própr io insecto. como Ips sexdentatus (Bóstrico grande). Hilésina). Nas espécies monogâmicas. como Tomicus piniperda L. Com a chegada dos insec tos pioneiros e o enc ontro dos sexos dá-se o início da construção das galerias (Figura 1). OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 215 espécie. piniperda. A fer omona é uma mistur a de químic os.

216 IX. Este fenómeno pode ver-se como uma extensão do sistema de galeria larvar. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO característica de uma espécie c oncreta: as galer ias larvares diferem em termos de for mato. os adult os podem sair d o hospedeiro perfurando a casca da câmara pupal. Out ros podem utilizar um pont o de emergência c omum e outros ainda podem sair em qualquer ponto por onde se proporciona o colapso da galeria.forestryimages. terminando numa câmara pupal onde o insecto se torna adulto através do processo de metamorfose. www. FIGURA 2 Danos causados pelos escolitídeos durante o pasto de maturação. comprimento e direcção e também em t ermos de localização nos tecidos do tronco do hospedeiro. . (Fonte: Gyorgy Csoka.org). Cada túnel larvar aumenta em largura à medida que a larva cresce. Quand o alcançam a matur idade. o que gera o típico efeito de “broca”. Existem variações importantes entre espécies na chamada fase de pasto de maturação (Figura 2) (outra das fases do ciclo que provoca estragos) de adultos recentemente emergidos e que ocorre antes de estes começarem a estarem aptos a reproduzirem-se. em que os escolitídeos deixam a câmara pupal para realizarem perfurações adicionais onde se vão alimentar antes de se tornarem sexualmente activos e iniciarem o período de voo. O ponto de emergência (saída da fase de pupa) é outra característica variável. Hungary Forest Research Institute.

piniperda encontradas em galer ias irregulares na base dos pinheiros. 1998). As espécies Tomicus minor (espécie não enc ontrada em P ortugal) e Ips sexdentatus. ter algo em comum com as mais pequenas agregações na hibernação de T. algumas espécies são mais agressivas na fase de reprodução do que outras e atacam árvores debilitadas mas ainda vivas como. à relação altamente especializada dos escolitídeos da madeira. Este comportamento parece ocorrer depois de os adultos emergirem e de estarem prontos para o voo e para a reprodução. no qual números significativos de escolitídeos de ambos os sexos se reúnem em espaços limitados da sua galeria. do simples transporte de esporos. a Hilésina (T. pelo menos aparentemente. A pr imeira é a agressividade inerente de uma determinada espécie e a segunda o tipo de associações fúngicas que possa t er. 1999). Ferreira. Existem duas outras características dos escolitídeos que são frequentemente associadas e que não podem ser esquecidas. Existe também uma di versidade de relações extremamente complexas e pouco compreendidas entre determinadas espécies de esc olitídeos e fungos onde se inclui o “azulado da madeira”. o pasto de maturação dá-se geralmente na copa de árvores saudáveis enquanto que em espécies mais difundidas nout ras zonas o pasto de matur ação pode ocorrer em qualquer par te da ár vore como o colo radicular de plantações ou regeneração natural e ainda nas raízes de ár vores de maior dimensão ou no lad o oculto de t roncos de casca mais fina e acabadas de abater (Ferreira e Cabral. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 217 No Sul de Europa. os fungos são transportados pela fêmea em estruturas especiais (micângios) para cultura no sistema de galerias e para servirem de alimento às larvas. mas ser em subitamente assolados por condições meteorológicas adversas. piniperda) (Ferreira e C abral. As associações ent re fungos e escolitídeos podem assumir inúmer as formas diferentes. Existe outro tipo de alimentação facultati va que pode ser denominado de “comportamento alimentar durante condições adversas”. Estas ag regações de insec tos parecem. Neste último caso. alimentam as suas larvas quase só. por exemplo. este comportamento parece ser obrigatório mas noutras parece ser mer amente facultativo na medida em que os esc olitídeos par ecem alimentar -se aleat oriamente em di versos t ecidos da árvore. tal como sucede no escólito do ulmeiro. Como é e vidente. se não . por exemplo. 1994. Em algumas espécies.IX.

O dano causado por este tipo de alimentação funciona c omo um t orniquete interno que c orta o fluxo de n utrientes produzidos na c opa.. Este fungo impede igualment e que a água se ja transportada para as z onas superiores da ár vore. Qualquer tentativa par a invadir uma ár vore saudável com esses nív eis populacionais significa que os insectos acabam por ser bloqueados pela resina dos orifícios abertos e são assim internamente eliminados pelo hospedeiro que acciona uma barreira natural contra escolitídeos e fungos. seca. um grupo de fungos bastante conhecidos por serem agressivos e causarem murchidão (Mathew et al. À medida que os danos pr ogridem. reduzem a capacidade dir ecta da ár vore para suportar o ataque dest es perfuradores. os açúcar es e out ros compostos complexos não podem ser t ranslocados para as zonas mais baixas da árvore isto é desde as agulhas até às ár não-fotossíntéticas da eas árvore. O escolitídeo pode também introduzir o fungo já anteriormente mencionado – “Azulado da madeira” – que se desenvolve no xilema. ambos os factores contribuem para o declínio e mor te das ár vores colonizadas (Breece et al. Deste modo. Em vár ias espécies dest es insec tos é fr equente enc ontrar ataques (quando os níveis populacionais são baixos e ainda não c onsiderados como praga) a ár vores recentemente mortas ou em declínio. 1999). 2006). em dir ecção às agulhas. 2004. com fungos cultivados nas galerias larvares.218 IX. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO mesmo totalmente.. Do mesmo mod o. Acredita-se que o patogénio envolvido pertence ao género Ophiostoma. podendo tornar-se ineficiente se os números e os ataques dos escolitídeos aumentarem ao longo de um qualquer ponto crítico do ciclo de vida da árvore (Bradley et al. para as r estantes partes da árvore. Os esc olitídeos d o pinheir o alimentam-se sobr etudo de floema e exercem um efeito de incisão anelar na árvore.. também não foi adequadamente demonstrado que é uma única espécie de fungo que tanto alimenta as larvas dos escolitídeos como ataca as próprias árvores (Mathew et al.. não é de vidamente compreendida a relação entre o insect o e o fungo . Os fact ores de declínio . Contudo.. 2004). A reacção do hospedeiro à entrada dos insectos constitui um pr ocesso que e xige um ele vado dispêndio de energ ia. fer idas mecânicas ou c ompetição entre indivíduos em po voamentos densos. dec orrentes de incêndios. Lombardero et al. 2008). .

sig nificativamente difer ente da que se v erifica nas árvores mortas por um relâmpago ou um incêndio. posteriormente. A velocidade de deterioração das árvores mortas por escolitídeos não é. geralmente. Outros sintomas e sinais incluem as exsudações de resina. por v ezes. v isível e xteriormente e é causado pelo facto dos insectos triturarem o lenho durante a construção das galer ias. O ser rim fino das per furações é. Para que haja decomposição significativa do lenho é preciso esperar no mínimo um ano.IX. de um amar elo palha par a um vermelho ferruginoso. As galerias podem ser v isíveis no interior da casca e podem conter larvas e pupas e/ou esc olitídeos adultos. Mesmo que os escolitídeos transportem os fungos do azulado da madeira. Utilização da madeira de árvores mortas por escolitídeos O xilema na maior par te d os casos não se apr esentará m uito danificado pela presença de fungos no pr imeiro ano de ataque. zona e xterna da ár vore. Primeiros sinais e sintomas de colonização de escolitídeos A descoloração das agulhas é o primeiro sintoma de colonização por escolitídeos. 4. pr ovavelmente. Os insec tos que c olonizam ár vores r elativamente saudáv eis acabam. A resina é a única defesa natur al da ár vore contra os esc olitídeos. o serrim resultante das perfurações e as próprias galerias. pode-se r etirar uma porção da casca c om um mac hado. Apesar de os escolitídeos poder em t ransportar out ros fungos que causem podr idão. estes não chegam a dec ompor a madeir a. Dur ante a c olonização inicial. por cr iar tubos de r esina por onde ent ram na ár vore. isto é. A progressão do v erde par a o v ermelho acontece ao longo de vár ios meses. o ser rim das per furações é vermelho v ivo. Para se obser varem as galer ias. Parece que indepen- . Isto só de ve ser feit o em ár vores declaradas mortas. A maior ia d os micr organismos que causam podridões da madeir a surge em ger al após a mor te da ár vore independentemente da razão que a le vou à morte. Um ou t odos estes sinais/ sintomas podem estar presentes em simultâneo. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 219 3. invade as cél ulas mas não provoca qualquer alteração na estrutura da madeira. o mais fr equente é que est es provoquem o apodr ecimento do alburno. As agulhas passam de v erde-escuro par a v erde-claro e.

pica-paus e outras aves podem limitar as suas populações. permitindo a .. Os inimigos naturais Os escolitídeos têm uma g rande diversidade de inimigos natur ais. e que estes insectos colonizam árvores hospedeiras adjacentes aos locais onde os detritos de exploração florestal são mais abundantes (DeGomez et al. 2003.. Os insec tos predadores. 2002.2. O material recentemente processado emite os mesmos compostos voláteis que as árvores hospedeiras susceptíveis. Em particular. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO dentemente da forma como uma árvore secou. 5.1. são inimigos naturais destes xilófagos do pinheiro. Gestão das populações de escolitídeos 5. é a espécie. O material morto e abatido constitui estação de refúgio para os escolitídeos. 2005). As árvores infestadas devem ser removidas do local. o Thanasimus formicarus e o Aulonium ruficorne e v espas par asitóides como Pteromalus azureus e Dendrosoter hartigi. Algumas observações preliminares indicaram que est es despojos atraem escolitídeos durante os seus períodos activos de voo. como o Rhizophagus depressus. a sua dimensão e a localização que determinam a velocidade de deterioração da mesma.. sendo conhecidos por terem algum efeito nas populações de escolitídeos. Detritos de exploração florestal O corte dos povoamentos atacados acaba por produzir grande quantidade de despojos lenhosos com casca. Nos EUA e para a espécie Pinus ponderosa estudou-se a velocidade de decomposição após o ataque de insec tos xilófagos e v erificou-se que para árvores com DAP entre os 25 a 30 centímetros. Elkin et al. Alguns insectos são conhecidos por controlarem as populações de escolitídeos em condições de po pulação endémica (sem sur to). 2004). observou-se grande fragilidade ao nível das copas mesmo antes da árvore tombar por inteiro (Hanula et al. 5.220 IX. mas a maior parte dos estudos consideram que os parasitóides e predadores dos escolitídeos são um fac tor menor no c ontrolo dos mesmos (Ferreira e Cabral.º ano mas a maioria do povoamento tomba por volta do 4º e 5º anos. No caso das árvores com um DAP superior a 45 centímetros. estas começavam a cair no final do 2.. 1999). McHugh et al.

com excepção das espécies que podem voar todo o ano c omo o Ips sexdentatus). Sullivan et al. 6. Diferenças no comportamento do fogo devidas a factores ambientais podem provocar efeitos distintos na susceptibilidade dos hospedeiros e na sua maior ou menor capacidade de reagirem à colonização dos xilófagos (Nunes. Os problemas fisiológicos nas árvores ocorrem quando as reservas de hidratos de carbono se encontram baixas permitindo a instalação de insectos xilófagos por falta de defesas ou c omo resultado de determinadas características físicas e estruturais dos povoamentos de pinheiro (Charles et al. As árvores enfraquecidas pelo fogo t ornam-se assim mais susc eptíveis ao ataque destes insectos. Schwilk. Elkin et al. Na verdade.. 2003. individualmente os hospedeiros podem ter diferentes respostas dentro da mesma estação. 2007). 2008). OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 221 sua reprodução e a possibilidade de c olonização das ár vores saudáveis adjacentes. Schwilk et al. Escolitídeos e fogo A ocorrência de fogo. 2001) e influenciando a acti vidade d os esc olitídeos at ravés de efeit os dir ectos nas suas populações e fenologia: fogos tardios realizados depois da actividade dos insectos ter cessado (Novembro/Dezembro. 2003). Breece. 2007.IX. uma vez que a perturbação causada pela remoção das árvores pode tornar as restantes em hospedeiros alternativos para colonização de escolitídeos. durante a fase de actividade vegetativa das árvores parece aumentar a mortalidade das mesmas devido a danos radiculares ou a actividade de insectos xilófagos como os escolitídeos (Bradley e Tueller. Contudo.. 2004.. Contudo. 2001.. 2006. quer ár vores muito enfraquecidas (por e xemplo. West et al.. vão providenciar que as ár vores possam recuperar após o fogo n um período em que os escolitídeos não se encontram em fase de voo e por isso em que não há . quer árvores vigorosas. totalmente queimadas). A época do fogo pode igualmente afectar a mor talidade das árvores influenciando a sua susceptibilidade (Santoro et al. ambas fornecem fracas condições de instalação para escolitídeos. 2002). o desbaste não é recomendado em condições de surto. ou a realização de fogo controlado. as primeiras porque as defesas fazem frente ao agente colonizador e as segundas porque devido ao seu grau de declínio não providenciam recursos suficientes para expansão dos insectos (Leatherman. 2006.

Aumentar o mais possível a duração entre fogos consecutivos (4a 5 anos). No entanto. Segundo as directrizes do serviço de extensão da Universidade do Arizona. é fr equentemente r ecomendada a r emoção de material de r isco (árvores queimadas.222 IX.. por algum tempo. 4. Evitar fogos de elevada intensidade.. Evitar implementar os t ratamentos de redução de combustíveis no período de voo dos escolitídeos. Remover ou queimar o material lenhoso colonizado por escolitídeos. 2004) sugere-se as seguintes recomendações para minimizar o impac to de xilófagos ant es e após a aplicação de fogo controlado: 1. a “propagar” substâncias resultantes da volatilização da resina. A vulnerabilidade dos povoamentos após o fogo parece também estar relacionada com a topografia das vertentes. afogueadas e mat erial resultante de e xploração flor estal) em pinhais queimad os (Sousa et al. ou destroçar esse material para dimensões o mais reduzidas possível. A pr esença destas é fr equentemente r esultado de uma sil vicultura incorrecta. Após incêndios. . OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO infestação (Hanula et al. Os diâmetros maiores apresentam floema mais espesso e por isso mais apr opriado para expansão das galerias dos escolitídeos. contudo as possibilidades de expansão de um ataque de escolitídeos após o fogo estará sempre relacionado com a existência anterior de pragas. 7. 3. Para os pinheiros que não estão t otalmente queimados sugere-se quase sempre o seu corte pois como são árvores debilitadas tornam-se nos alvos preferenciais dos escolitídeos (ver Capítulo VIII). nos EUA (AFH. 5. A sua ocorrência antes do fogo aconselha a uma intensificação de operações de monitorização/intervenção de forma mais cuidada. 2. Limitar os diâmetros das árvores. Evitar desbastes em povoamentos com susceptibilidade radicular a podridões. Este aspecto relacionado com a gestão do arvoredo queimado é controverso. 6. As árvores totalmente queimadas não são c olonizadas. Geralmente estes insectos só atacam árvores com os diâmetros mais reduzidos durante estações epidémicas. 2008). e logo após o fogo . 2002). Remover detritos lenhosos sem valor comercial do povoamento. estas podem contribuir para a sua atracção uma vez que continuam.

a época do fogo. as populações de escolitídeos podem aumentar após a aplicação de fogo controlado ou incêndio.. . Os insectos não infestarão ár vores severamente afectadas pelo fogo . Baseado nestes pressupostos. As complexas interacções existentes entre as condições fisiológicas do hospedeiro antes e após o fogo. Frequentemente a gestão das diferentes situações exige definição de prioridades e os gestores florestais não devem considerar que todas as estações com infestação de escolitídeos têm de ser t ratadas de imediat o. os gestores florestais podem determinar/ avaliar a e xtensão de áreas que nec essitam de int ervenção. b) Os níveis populacionais das espécies de escolitídeos antes do fogo. desenvolver alternativas de tratamento em métodos de gestão integrada e decidir como e quando esses tratamentos podem ser mais eficazes.. a intensidade dos danos. c) Condições climáticas após o fogo. 1998): a) A intensidade dos danos causados pelo fogo. 1998). sobrevivendo. podem posteriormente ser atacadas por insect os. dependendo de (Crawford e Peterson. Decidir sobre quais as ár vores a retirar depende não apenas dos danos provocados no lenho e raiz como ainda do seu estado fitossanitário antes de o fogo ocorrer (Crawford at al. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 223 Em geral é menos óbvio o facto de que o fogo pode pr ovocar danos nas árvores e torna-las susceptíveis ao ataque d os escolitídeos que por sua vez vão contribuir para o aumento das condições que as predispõem a ar der. não havendo assim nec essidade urgente de r etirar árvores cujo câmbio não apresente uma coloração esbranquiçada e húmida (M athew et al. Assim. as espécies de escolitídeos e as condições climáticas acabam por t ornar mais difícil pr ever os níveis de mortalidade em resultado de um fogo controlado ou incêndio. Antes de se implementar em quaisquer medida cur ativas é necessário saber quais as ár vores que vão mor rer por danos causados directamente pelo fogo e quais as que. Uma terceira categoria tem a ver com aquelas que se podem t ornar mais susc eptíveis à infecção por fungos e consequente degradação (sobretudo onde já e xistam nas pr oximidades patogénios radiculares) (Nunes.IX. Algumas árvores que sobrevivem aos incêndios acabam por mor rer nos 3-5 anos seguintes em consequência dos danos fisiológicos causados pelo fogo. 2007). Para hierarquizar as pr ioridades sugere-se que se dê especial atenção às plantações localizadas em zonas de topografia menos elevada e/ou sujeitas a maior secura.

as árvores começarão a desfazer-se. 2004). . para que os insec tos permanecendo no seu interior se encontrem confinados. por cair para o solo e o r isco inicial de fogo sofr erá uma redução. Este procedimento reduz a colonização de xilófagos e patogénios das toiças (Nunes. No caso de um incêndio alcançar as c opas de um c onjunto contínuo de ár vores mortas. eventualmente. Na remoção de pinheiros após o fogo deve-se realizar o corte o mais próximo possível do solo. Esta medida pode ser dificultada sempre que as parcelas são de dimensões reduzidas e se encontram rodeadas por pinhais que sofreram a passagem do fogo. este conseguirá espalhar-se com rapidez.224 IX. Os incêndios das c opas alastram com muita rapidez e são m uito mais difíceis de controlar do que os incêndios ao nível do solo (Nunes. As árvores susceptíveis são aquelas que ainda oferecem condições de expansão para as populações de escolitídeos. No armazenamento das árvores atacadas e cortadas é importante que sejam descascadas ou c obertas com plástico. Isto pode criar uma escada de combustível. A madeira morta pelos escolitídeos é um combustível pesado e. com a monitorização sanitária das árvores de forma a detectar prematuramente os primeiros sinais de susceptibilidade por par te d os hospedeir os. As agulhas secas acabarão . A melhor for ma de e vitar ataques de esc olitídeos é at ravés da prevenção antes e após fogo. as recomendações preconizadas pelas medidas fit ossanitárias suger em que se c oloque o material lenhoso à distância mínima de 400 m de po voamentos não infestados (AFH. É importante que as árvores consideradas como aptas a ficar em na parcela depois do fogo não passem por períodos de seca e não sejam desramadas ou resinadas nos meses seguintes para evitar a atracção dos escolitídeos. As pr incipais medidas pr eventivas são sugeridas na Tabela 1. Contudo. Um t ema igualment e r elevante é o de a valiar até que pont o os escolitídeos podem potenciar o risco de fogo. 2007). as agulhas vermelhas e secas em consequência dos ataques de escolitídeos constituem um risco grave de incêndio. aumentando a carga de c ombustível disponível no solo florestal. 2007). deixando a menor área de toiça. levando ao aument o d o r isco de um incêndio d o solo às c opas das árvores. uma vez em fogo. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 2004). queima com um calor extremo. De facto. Uma vez que os escolitídeos conseguem voar distâncias consideráveis.

IX. OS ESCOLITÍDEOS E O FOGO 225 TABELA 1 RESUMO DAS PRINCIPAIS MEDIDAS A IMPLANTAR NA PREVENÇÃO DE ATAQUES DE ESCOLITÍDEOS ANTES E PÓS FOGO MEDIDAS DE PREVENÇÃO CONTRA ATAQUE DE ESCOLITÍDEOS DEPOIS DO INCÊNDIO FOGO CONTROLADO Eliminar árvores com defeitos estruturais Evitar resinagem Suprimir as árvores Evitar a linha de fogo parcialmente queimadas perto do colo das árvores Monitorizar os povoamentos vizinhos com mais regularidade a seguir ao incêndio Evitar linha de fogo sobre raízes expostas Evitar causar feridas no tronco durante as operações florestais Suprimir árvores infectadas com patogénios e pragas se o ataque for intenso Evitar detritos de exploração florestal Evitar fogos de alta intensidade Evitar realizar fogo controlado durante os períodos de voo dos escolitídeos Não executar fogo controlado em povoamentos já infestados ou enfraquecidos/ susceptíveis Evitar densidades elevadas Fomentar povoamentos em mosaico e jardinados .

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1. Quadro-resumo das técnicas .6. Barreiras temporárias para controlo da erosão 3.3.2. Técnicas de conservação do solo e da água 3. Sementeiras 3. Estratégias de conservação do solo e da água 3.229 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS X. Coberturas (“mulch”) 3. Introdução 2. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS ANTÓNIO DINIS FERREIRA SÉRGIO PRATS ALEGRE TERESA CARVALHO JOAQUIM SANDE SILVA ALEXANDRA QUEIRÓS PINHEIRO CELESTE COELHO 1.5.4. Criação de oportunidades de infiltração 3. Tratamentos de canais 3.

as est ratégias e técnicas capazes de promover a diversidade da paisagem. os incêndios florestais são.é bem menor do que a importância do tema e os seus impactes para a sustentabilidade dos ecossistemas florestais faria supor. Fox et al. 2000. 2006). Wagenbrenner et al. a quantidade de t rabalhos técnico-científicos publicados internacionalmente. Surpreendentemente. provavelmente. De Luis et al. sendo que a maior parte dos nutrientes são perdidos nos primeiros quatro meses após o incêndio. ao nível da encosta. tendo em vista a redução dos impactes sobre a conservação da água e d o solo.. geralmente ocupados por povoamentos florestais e matos. Depois. 2006. Essa continuidade é fruto da ausência de heterogeneidade. Desde logo. sobre o que fazer após os incêndios. pelo que este é um aspecto fundamental para a intervenção antes e depois de um incêndio .. Assim. 2003. Os conhecimentos adquiridos sobre os processos erosivos e os ciclos biogeoquímicos permitem-nos desenvolver e avaliar as est ratégias mais eficazes de conservação do solo e da água. (2000) fornecem uma descrição e avaliação qualitativa de várias técnicas usadas para mitigar os impactes dos incêndios florestais. A degradação das áreas queimadas apresenta vários problemas específicos. Robichaud et al. Todos os trabalhos que procuram quantificar a eficácia das técnicas de mitigação ou monitorizam um . Os processos hidrológicos e erosivos delapidam um recurso já por si bastante degradado que são os nossos solos sem aptidão ag rícola. A conectividade dos processos. 2008. número muito restrito de técnicas. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 1. baseadas simplesmente em inquéritos efectuados a gestores florestais. 2005. e a sua transmissão para os cursos de água. a extrema rapidez com que ocorrem os processos de de gradação. Robichaud. . Robichaud et al.. passam pela criação de descontinuidades às micro e meso escalas. o fenómeno de maior impacte ambiental em Portugal.para permitirem uma avaliação comparativa.230 X.. desempenham um papel impor tantíssimo na degradação das áreas queimadas. 2006. as extensas áreas queimadas tornam proibitivas intervenções a larga escala.. exigem uma resposta a muito curto prazo. ou não medem os pr ocessos de deg radação (ver por e xemplo Montoro et al.. a ruptura dos processos de degradação do solo e da água. Introdução Como foi referido no Capítulo II. Robichaud et al.

De facto. Este facto limita as o pções de gestão a dois grupos de soluções: a) Ordenar o espaço florestal antes dos incêndios. e é totalmente impossível intervir sobre toda a área em tempo útil. já que pode ser planeada de for ma a cr iar obstáculos à progressão do fogo. Essas descontinuidades e infra-estruturas também deveriam ser projectadas de forma a constituírem barreiras à progressão dos processos hidrológicos e erosivos. Dado que alguns incêndios flor estais queimam g randes ár eas de floresta e matos. para minimizar os riscos. (2005a) demonstraram que a maior parte das perdas ocorrem nos primeiros 4 meses após o incêndio . ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 231 2. é conveniente desenvolver ferramentas que permitam indicar quais as áreas onde as intervenções se deverão realizar de forma a produzir os maiores efeitos.. após incêndios florestais. Esta filosofia encontra-se já patente no Decreto-Lei nº 124/2006 de 28 de J nho. sedimentos e solutos em direcção aos cursos de água e para fora das bacias hidrográficas. Ferreira et al. Estratégias de conservação do solo e da água Embora seja urgente. 1996. as soluções encontradas devem ter uma relação custo/benefício aceitável. mitigadores. composta entre outros. o estudo e desenvolvimento de técnicas e estratégias para reduzir a degradação do solo e da água. e ser aplicáveis a locais chave. nas taxas de erosão e nutrientes dissolvidos exportados logo após os incêndios. de forma a criar rupturas na conectividade que potencia a transmissão da água. b) Intervir. a rapidez com que se processa a degradação após o incêndio (Ferreira. que têm por objecu tivo a implementação de uma est ratégia de planeamento de defesa da floresta contra incêndios. ao mais baixo custo possível (ver Capítulo V). e extremamente importante. Ordenamento do espaço florestal A diversidade da paisagem adquire uma enorme relevância na gestão antes do fogo. ii) mosaicos de par celas de gestão de c ombustível. em termos de conservação. especificamente seleccionados para permitirem os maiores impactes possíveis. Ferreira et al. limita muito as opções disponíveis para mitigar a degradação resultante do incremento na escorrência. 2005a). por i) redes de faixas de gestão de c ombustível. iii) .X. imediatamente após o incêndio. criando condições para a infiltração e sedimentação. diminuindo assim a área queimada.

Dentro da gestão à escala da paisagem. Os fogos controlados apresentam padrões heterogéneos de repelência do solo à água. Os primeiros dois pontos são focados em mais detalhe no Capítulo VI. a promoção de uma floresta mais resistente e resiliente ao fogo trará vantagens de um ponto de vista da conservação do solo. à escolha da espécie arbórea mais adequada às diferentes regiões climáticas e unidades geomorfológicas da paisagem. Por isso. Esse incremento na conectividade e logo . o processo de florestação deve assumir uma filosofia de pr evenção de incêndios que se t raduza em diferentes sol uções e met odologias aplicáv eis às difer entes unidades geomorfológicas da paisagem. a implementar nos espaços rurais. com avultadas perdas de bens e mesmo de v idas humanas. Todas estas sol uções estão or ientadas par a a pr evenção de fogos florestais. não apenas pela r edução da frequência e int ensidade dos incêndios flor estais.. 2008a). fornecendo uma quebra na conectividade ao longo da encosta (Fryirs et al. nas encostas e a quebra da transferência desses processos das encostas para os cursos de água. como uma área de acum ulação de sediment os. 2007).232 X. aos difer entes est ratos e associações vegetais. uma v ez que pr otegerá de for ma mais eficaz o substrato onde se desenvolve. resulta muitas vezes no ultrapassar de limiares de produção de fenómenos catastróficos em áreas mais latas (Ferreira et al. . Lado a lado com áreas hidrófobas. 2005b).. uma vez que a conservação dos solos e da água resulta da redução da frequência e intensidade da combustão.. constituindo-se assim. mas também por que promovem desc ontinuidades que podem ser r elevantes na quebr a da conectividade dos processos hidrológicos e erosivos. O carácter de conservação dos fogos c ontrolados está pat ente na quantidade de solutos perdidos que não apresenta diferenças significativas quando comparados com as parcelas de controlo (Ferreira et al. ocorrem áreas hidrófilas onde a água gerada nas áreas repelentes se pode infiltrar. As acções descritas neste ponto promovem a conservação do solo e da água. o fogo controlado é uma técnica passív el de ser utilizada ao nív el d o or denamento d o espaço florestal. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS rede viária florestal e iv) rede de pontos de água. Ainda no contexto do ordenamento florestal. na t ransmissão de flux os par a jusante ent re diferentes componentes da paisagem. de forma a criar uma maior diversidade da paisagem e diminuir a conectividade e transmissão dos processos hidrológicos e erosivos entre diferentes compartimentos da paisagem.

utilizando-se semeadores pne umáticos. com por exemplo. e (ii) evitar a actuação desses processos. Sementeiras A sement eira c onsiste em espalhar sement es n um t erreno pr eviamente pr eparado at ravés de uma simples la vragem ou de uma escarificação. Na sementeira pretende-se obter um coberto vegetal para controlar a erosão do solo e para diminuir a perda de sedimentos (Llovet e Vallejo. mecânica ou aérea. A hidrosementeira é feita de for ma mecânica. 2004). para a estabilização da camada de cinzas. até 6 sementes. A sementeira directa ou de transmissão consiste em distribuir as sementes directamente sobre a superfície do solo.X. sendo geralmente aplicada a pequenas superfícies. no caso de grandes superfícies (Rey. Técnicas de conservação do solo e água 3. par a r eduzir a magnitude dos processos hidrológicos e erosivos. misturar sementes de her báceas vivazes (aplicação mais comum. barato e muito adequado a terrenos difíceis. em primeiro lugar.1. em t errenos de inclinação moder ada a sua ve. Podem utilizar-se diferentes combinações de sementes. É um método simples de se utilizar. É sobr e as técnicas disponív eis par a aplicar estas est ratégias que se debruça o remanescente deste capítulo. 2003). Santolina rosmarinifolia). 2003)) com sementes de arbustos e árvores. A sementeira pode r ealizar-se em t oda a ár ea queimada. de forma a impedir a saturação e dificultar o ating ir do limiar de pr odução de escorrência. A sementeira pode ser feita de forma manual. Um e xemplo típic o de uma mistur a de sement es inclui her báceas como Agrostis stolonifera. Carex humilis. Lotus corniculatus. A sementeira é manual para encostas de declive acentuado ou mecanizada. adicionando detritos orgânicos ou sementes. Medicago trunculata. Salvia lavandulifolia. Trifolium subterraneum. Trifolium fragiferum. . ou então . de for ma localizada em sulc os ou fileir as. 3. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 233 Intervenção após o fogo As estratégias após o fogo podem ser divididas entre (i) a criação de oportunidades de infilt ração da água e sedimentação . (Rey. Thymus vulgaris. em conjunto com espécies nati vas. Lolium multiflorum ou lenhosas e arbustivas de rápido crescimento (Artemisia herba-alba.

o solo terá de estar previamente preparado. utilizam-se máquinas agrícolas na abertura dos sulcos. revela-se geralmente ineficaz. A aplicação de mulch com sementes pode realizar-se a seco. A protecção conferida pelo mulch contra o impacto das gotas de chuva. 2000). com ar comprimido. o que favorece a germinação. A hidro-sementeira aérea é feita com recurso a helicóptero e as sementes têm de ser bem espalhadas sobre a superfície. A utilização de sementeiras de vegetação herbácea não acompanhada por outras técnicas. Por out ro lad o. adubo e aglutinadores tal como no hidromulch. Na hidro-sementeira. Uma v ez colocadas as sementes no sulco. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS A sementeira em faixas consiste na deposição das sement es em sulc os previamente aber tos c om um ar ado. as sementes de herbáceas (gramíneas e leguminosas) são misturadas com água. enterrá-las. manualmente. (2000) demonstraram que 3 tratamentos diferentes de hidro-sementeira levaram à r edução da esc orrência e dimin uição da pr odução de sediment os. usando uma semeadora ou então. Primeiro. 2000). Montoro et al. melhora a germinação (Montoro et al. Em terrenos de textura fina é conveniente cobrir as sementes com mulch. ant es mesmo q ue c onsigam ger minar e desempenhar qualquer papel na c onservação d os solos. o local e a época de sementeira terão de ser os mais adequados. mac hado ou ancinho . estas são tapadas com o cuidado de compactar depois o solo . porque dada a velocidade a que os pr ocessos de deg radação ocorrem logo após o incêndio. Para z onas de t opografia sua ve e solos li vres de pedras. logo após o incêndio. ou então. as sement es podem int roduzir-se entre as pequenas fissuras do terreno. é difícil às plantas ultrapassarem a camada hidrófoba. a semente ter sido submetida a um tratamento adequado. Para se obterem os melhores resultados. e ser usada na quantidade certa.. Os componentes são misturados numa cisterna com agitador e expulsos por um canhão hidráulico. terrenos pouco consolidados e inacessíveis à maquinaria convencional. A sementeira com aplicação de mulch (ver mais à frente) permite melhorar a germinação das sementes dado que aumenta a infiltração e a humidade do solo (Robichaud et al. A hidro-sementeira é indicada par a superfícies com fortes declives. Para solos de t extura grosseira. bioestimulantes.. ter qualidade. . as sement es que se mantêm na camada de cinzas são la vadas para jusant e.234 X.

(1995) verificaram que a simples presença de agulhas pr ovenientes de pinheir os queimados sobre o solo tinha um impac te positivo sobre os processos hidrológicos. a queda destas sobre o solo pode providenciar um mecanismo eficaz de protecção que deve ser tido em consideração. ser combinados um ou vários elementos. os autores.. No mulch de palha. Estas folhas que caem para o c hão vão pr ovidenciar um mulch natural como co bertura (Robichaud et al. (iv) aumenta o t eor de matéria orgânica no solo e (v) conserva a est rutura superficial do solo. providenciam uma protecção natural contra a erosividade da chuva. a r etenção de sediment os (Shakesby et al.. por uma questão de cust os. 2000). Para tal. cascas e ramos triturados (Figura 1). Aplicação de Resíduos Vegetais A aplicação de resíduos (i) aumenta a rugosidade superficial do solo logo. Diversos autores recomendam mesmo que se esper e pela queda das folhas ou agulhas para abater as árvores. Coberturas (“mulch”) Pretende-se c om esta técnica aumentar a c obertura d o solo par a reduzir o impacto das gotas de chuva e a consequente erosão (Robichaud e Brown. de mod o a t ornar est e tipo de o perações ec onómica e socialment e v iáveis. as taxas de erosão e a e xportação de n utrientes. É uma técnica que apr esenta muitas variações. Isto significa que quand o a int ensidade do fogo não chega a consumir as agulhas dos pinheiros. as folhas (dessecadas) permanecem nas copas das árvores após o incêndio. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 235 3. acontece quando.X. (ii) mantém a humidade do solo . que podem ser deixad os por for ma a c onstituir micro-armadilhas de retenção das cinzas. Podem ainda. (iii) reduz a e vaporação. . em situações de baixa a moderada intensidade do fogo. É conveniente. o clima. 1996). que o efeito de cobertura se ja conseguido com materiais locais bar atos. Uma font e ób via de c obertura ( mulch) são os r esíduos do abat e das árvores queimadas. também devido à protecção que for necem c ontra o ar rastamento de par tículas pela escorrência. consoante os materiais utilizados. aumentando a erodibilidade do solo. Uma outra forma de c obertura. que podemos desig nar de mulch natural. devem ser dispostos perpendicularmente ao sentido do maior declive da encosta. Depois de caírem no solo. 2005).2. Coelho et al.

.. Infelizmente. os ramos devem ser esmagados ou colocados em contacto com a superfície do solo.236 X. 2008). No mulch de ramos de árvores e de arbustos. pois os restos vegetais são retirados das encostas e das áreas queimadas. Uma solução de recurso pode consistir na aplicação de pedras sobre a superfície. É um método adequado a terrenos difíceis ou de g rande inclinação. FIGURA 1 Mulch de cascas de eucalipto trituradas numa parcela. sendo semelhante à aplicação anterior e sendo necessário um camião para o t ransporte das mesmas. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS o material é espalhad o manualmente na super fície do terreno. para assim reter maior quantidade de sedimentos. É possível o uso de maquinar ia para aplicar os diferentes tipos de mulch em terrenos de topografia suave. em operações de limpeza ou de roça. Há que repartir o material sobre a área de risco pré-seleccionada de modo a criar uma camada homogénea sobr e o solo. (Fonte: Prats. a prática enraizada habitual é contrária à técnica de mulch. S.

bermas de estradas. a palha ou cascas t rituradas. para não entupir a passagem desde o reservatório. que forma uma camada protectora consistente que. ou cascas t rituradas à qual se junta um b ioestimulante (dulzee). 2003).X. parques florestais e em encostas queimadas com inclinação. protege contra as intempéries até à fixação do material. Forest Service. O hidromulch consiste numa mistura de palha.S. pois forma uma matriz sobre o terreno (Rey. no caso de grandes extensões (Figura 2). Pode também r ecorrer-se ao uso de hel icópteros. (Fonte: U. além de fixar as sement es. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 237 Hidromulch Este tratamento de redução da erosão é aplicado em taludes de aterro e corte dos caminhos. substrato. FIGURA 2 Hidro-mulch aéreo. sementes e cola ecológicas ou aglutinador (não ecológico). Cleveland National Forest). adubo ecológico. . A aplicação do hidromulch está limitada a um raio de 70 m em redor do local onde se situa o equipamento. No hidromulch o material é expelido por uma mangueira aspersora sob pressão e a mistura está dentro de um reservatório ou moto-bomba sem palhetas.

238 X. vai influenciar o volume potencial de ar mazenamento de sedimentos. 3. que precedem as bandas de mulch. são abertos de for ma manual com um ancinho. A forma de aplicação das bar reiras. 2005c). com o efeito de (i) reduzir a velocidade da água de esc orrência e a er osão.3. par a aumentar o c ontacto com este. com máquinas agrícolas que abrem sulcos mais profundos. 2005c). Barreiras temporárias para controlo da erosão As barreiras de troncos. no que r espeita à escoração. Estas devem ser agrupadas em cordões perpendiculares ao maior declive da encosta. separadas por alguns met ros nas encostas. e à superfície de c ontacto com o solo. 2007). Os cordões de mulch podem ser precedidos de um pequeno sulc o que aumenta a taxa de infiltração de água no solo e permite a acumulação de cinzas (Ferreira. O espaçament o dos cordões de mulch é em função do declive da encosta. têm sid o usadas como barreiras para a escorrência. ou em ár eas extensas. Devem ser feitos perpendicularmente ao maior declive da encosta (Ferreira. p odem ser compostas de restos de troncos e r amos de ár vores. a colocação de cordões separados em 5-6-10-15 m corresponderão a declives de 30-16-10-5%. em faixas r egulares (Ferreira. Os sulcos. queimadas ou não . e pr omover uma maior deposição dos sedimentos. A colocação de barreiras de troncos pode ser feita de forma manual ou com recurso a máquinas. respectivamente (WOCAT. (ii) armazenar os sediment os e (iii) reduzir o mo vimento de sediment os nas encostas queimadas. assim. à per pendicularidade em relação ao fl uxo de escorrência. As bandas ou c ordões de mulch. tubos de nylon. Com fio ou c orda e estacas unem-se os ramos e restos de troncos e compactam-se bem junto ao solo. para (i) promover a infilt ração. . ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS Bandas ou Cordões de Mulch As bandas ou c ordões de mulch são bar reiras formadas por faixas sucessivas de mulc h. (ii) aumentar a taxa de infilt ração e (iii) permitir a r etenção das cinzas. e outras estruturas naturais ou de engenhar ia. 2005c).

de difícil escoamento. 2005). 2008a).. e assim. que recolhem a água e sedimentos. (Robichaud et al. O objec tivo desta técnica é cr iar pequenas bar reiras mecânicas nas enc ostas onde o fluxo de esc orrência e os sediment os possam ficar r etidos. 2008a). pás ou picaretas. com diâmetro médio de 17 a 23 cm (R obichaud et al. ou ainda. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 239 Barreiras de troncos No caso de as ár eas queimadas serem muito extensas e.X. como tal. podem utilizar-se esses t roncos como barreiras (Figura 3).. se os troncos das árvores se encontrarem irremediavelmente queimados. devem usar-se estacas. o emprego de maquinaria irá perturbar o solo. para melhorar o contacto dos troncos com este e assim tornar a técnica mais eficaz. A distância entre as barreiras de troncos depende do declive da encosta. pois contribuem para formar pequenas bacias de retenção. Os t roncos imobilizados no solo amparados por estacas ou pelos cepos (parte que fica no solo depois de cortada a ár vore). reduzindo o seu transporte. Estes podem ser feitos com enxadas. . O espaço livre entre os troncos e a superfície deve ser preenchida com solo para evitar o transbordo de água e sedimentos entre barreiras.. existir um elevado excedente de madeira queimada. 2008a). O espaçament o regular destes t roncos deitados sobre o solo impede uma acumulação excessiva das cinzas. Esta última sol ução só é possív el se os po voamentos florestais possuírem compassos que permitam a sua aplicação e em que seja possível colocar os troncos perpendicularmente ao sentido do maior declive da encosta. contribuir para reduzir as perdas de cinzas/nutrientes. e constitui uma bar reira que vai limitar a c ontinuidade da escorrência nas encostas e. à frente das barreiras. colocando-as em c ontacto com o solo segund o as cur vas de nív el da encosta (R obichaud et al. Nos casos em que não se ja possível tal disposição. Podem também plantar-se arbustos ou árvores. Na aplicação da técnica devem ser abertos sulcos no solo. O comprimento dos troncos pode ir de 4 a 9 m. no entanto. Os sulcos escavados com pá de tractor permitem um maior contacto entre os troncos e o solo. A instalação consiste em der rubar árvores queimadas. promover a infilt ração da água (R obichaud e Brown.

par a r eter pequenas quantidades de sediment os suspensos (Robichaud et al. no sentido ascendente.240 X. para aumentar a capacidade de retenção dos sedimentos (Robichaud e Brown. (Fonte: P. Forest Service. S. R. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS FIGURA 3 Colocação de troncos em encostas após incêndio. da topografia e das taxas de erosão do solo. São normalmente colocadas em áreas com fluxos de baixa int ensidade ou na par te lateral das enc ostas. 2005). são substituídos por tubos de ar ame e n ylon pr eenchidos c om material filtrante. normalmente palha (Figura 4).. As barreiras têm 0. ao longo da encosta.. As malhas de ar ame ou n ylon preenchidas com palha são est ruturas permeáveis que retêm a escorrência superficial e reduzem a velocidade do fluxo. . os tubos de nylon e palha são colocados de acordo com as curvas de nível. Rocky Mountain Research Station).25 m de diâmetro e podem ser dobradas cerca de 0. Substituem as bar reiras de t roncos quando estes não e xistem ou são escassos (R obichaud e B rown. mas neste caso. 2005).6 m nas extremidades do tubo. A duração destas barreiras depende de parâmetros como a pluviosidade após a instalação (intensidade da chuva). U. e imobilizados com estacas. Tal como as barreiras de troncos. Robichaud. A forma de aplicação é semelhante à colocação de troncos. da densidade da instalação. Barreiras de tubos de nylon com palha O objectivo das barreiras é diminuir a distância percorrida pelo fluxo de escorrência ao longo da encosta (Robichaud et al. 2000). 2000).

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

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FIGURA

4

Barreira de arame e nylon com palha. (Fonte: P. R. Robichaud, U. S. Forest Service, Rocky Mountain Research Station).

3.4. Criação de oportunidades de infiltração

O principal problema, no que concerne aos processos de degradação do solo e da água em áreas queimadas, diz respeito à ausência de obstáculos à desagregação e remoção dos agregados do solo pelo splash (salpicos causados pelo impacto das gotas da chuva na superfície do solo), à progressão da escorrência e à falta de oportunidades de infiltração. Assim, qualquer técnica aplicável à micro escala, ou à escala das encostas, para aumentar a rugosidade, criará obstáculos que vão promover a infiltração da água. O aumento da capacidade de infiltração pode ser conseguido através da ruptura da camada do solo repelente à água. Esta camada encontrase imediatamente por baixo da camada de cinzas (com a remoção destas acaba por aparecer à superfície) e raramente possui uma espessura superior a 10 cm. Como tal, pode ser dest ruída com relativa facilidade, usando uma ferramenta manual, ou através da utilização de métodos mecânicos, de lavragem ou gradagem. De notar que não existem dados experimentais sobre a eficácia desta sol ução. Uma alternativa consiste na utilização de maquinaria pesada par a abrir sulcos, perpendiculares à linha de maior declive (técnica de vala-e-c omôro), com maior profundidade e espaçamento. Tal permite destruir a camada hidrófoba e, consequentemente, acumular a água e cinzas na vala horizontal formada. A colmatação dos sulcos com as cinzas não impede a continuação do processo já que estas são hidrófilas. Como medida de segur ança, que e vite o galgament o do

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X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

cômoro e a aber tura de uma r avina, a vala deverá ter um declive muito ligeiro, entre 1 e 2% para conduzir lentamente a água, excedente, para uma linha de água secundária, onde poderão ser efectuados pequenos açudes de retenção de for ma a retardar e reter, quanto possível, os sedimentos e nutrientes residuais (Silva et al., 2007). No entanto, a cir culação de máquinas pelas encostas ardidas removerá e perturbará o solo, com o qual a erosão poderá ser promovida mais do que evitada. Para mais informações técnicas sobre o dimensionamento deste sistema, o leitor é remetido para o trabalho de Silva et al. (2007). Em alguns incêndios intensos, os sistemas radiculares da vegetação também podem ar der. Este fenómeno ocorre sobretudo em pinhais sujeitos a desbaste, onde os sistemas radiculares das árvores abatidas, que se encontram apodrecidos, produzem macroporos que podem funcionar como armadilhas para a progressão da escorrência, transporte de sediment os e de sol utos, diminuindo assim a per da de nutrientes e sedimentos e reduzindo o risco de picos de cheia catastróficos a jusante (Doerr et al., 2003; Ferreira et al., 2000, 2003, 2005a). A lavragem consiste na acção mecânica de r evolver o solo, com um arado ou uma charrua ligada a um tractor, que rasga a superfície do solo levando à for mação de sulcos. Os sulcos acumulam água e sediment os, podendo ser pr evistos pequenos depósit os par a acum ulação d os sedimentos transportados, nos locais mais baixos (Robichaud et al., 2008). O objectivo é cr iar rugosidade superficial par a permitir a infilt ração da água no solo e quebrar a camada repelente à água, para controlar a erosão do solo. Após a lavragem pode realizar-se uma sementeira ou transplante de pequenas ár vores. Na escarificação é quebrada a camada super ior do solo, aumentand o a r ugosidade super ficial. A escarificação pode ser efectuada man ualmente, usand o ancinho ou gadanho , ou de for ma mecânica usando um escarificador. As técnicas de lavragem e escarificação podem efectuar-se de forma manual ou mecânica, segundo as curvas de nível. Do ponto de vista florestal, não se devem realizar apenas lavragens e escar ificações do solo. Estes tipos de pr eparação do solo, de vem ser seguidos de técnicas c omo o mulch e ou a sement eira (Shakesby et al., 1996; Cassol e Lima, 2003; MacDonald e Robichaud, 2007) para um uso florestal ou agrícola do solo, de modo a melhorar a infiltração da água e a retenção de sedimentos e de acelerar a recuperação.

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

243

3.5. Tratamentos de Canais

As barreiras em canais, ou check dams, são estruturas feitas de palha, paus, pedras ou sacos de areia, instaladas para estabilizar o gradiente do canal e reter sedimentos. São usadas para alterar o movimento dos sedimentos e da água, reduzindo o fluxo de água, evitando cheias e retendo os detritos conduzidos na corrente, em canais de p equena ordem e valas, durante a primeira época de chuvas a seguir aos incêndios (Robichaud et al. 2000; Robichaud e Brown, 2005). São tratamentos adicionais, que são instalados após, ou em simultâneo, com o tratamento nas encostas. De notar que estes tratamentos devem ficar bem fixos no canal, sem que corram o risco de ruptura, que a acontecer, poderá ter impactos catastróficos a jusante. Pela mesma razão, devem ser removidos quaisquer barreiras formadas por materiais mobilizados pelo caudal, que por serem instáveis, podem romper, causando graves problemas a jusante, resultantes da libertação instantânea de grandes quantidades de água e sedimentos. Por esta razão, as barreiras dentro dos canais nunca poderão ser de grandes dimensões, o que reduz o risco de ruptura, e em caso de ruptura, as quantidades de água e sedimentos libertados nunca serão suficientes para causar problemas de maior.
Barreiras de fardos de palha

O objectivo principal desta técnica (Figura 5) é reduzir a velocidade do fluxo de escorrência e aumentar a deposição e r etenção de sedimentos arrastados. As barreiras permitem ainda controlar a erosão nas encostas, após o corte de plantações. Esta técnica tem uma duração de 1 a 3 anos. Os sediment os são depois liber tados, g radualmente, à medida que o material se degrada. Este é um tipo de técnica usado para tratamento de canais em áreas pouco queimadas, ou após um fogo de intensidade baixa. Uma barreira de far dos de palha for ma-se com 4 a 5 far dos, que são colocados perpendicularmente a um curso de água pequeno (ou linha de dr enagem natur al), par a captur ar os sediment os ar rastados pelo caudal do curso de água. A área de drenagem deve ser restrita e a barreira colocada para que a profundidade da água não exceda cerca de 30 cm em nenhum local. São mais adequadas para zonas de topografia suave. Devem ser monitorizadas após eventos chuvosos significativos, com o cuidado de remover os sedimentos e efectuar as reparações necessárias.

244

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

FIGURA

5

Pormenor de uma barreira de palha. (Fonte: Pinheiro, A., 2008).

Barreiras de Troncos

As barreiras de troncos são estruturas estabilizadoras, ancoradas desde o topo do canal ou ravina até à base, com troncos queimados disponíveis no local. Os t roncos podem ser c olocados na vertical (Figura 6) ou na horizontal, amarrados por cordas. Têm de se escavar pequenas covas cuja profundidade é metade da altura dos troncos. As covas podem ser abertas manualmente ou com recurso a tractor. Colocam-se os troncos na vertical com os mais grossos no meio da barreira onde a corrente da água é mais forte. P reenchem-se as c ovas c om t erra de for ma a fixar os t roncos. Os troncos colocados transversalmente devem ser ancorados por estacas. Nos t rabalhos citad os por WOCAT (2007), as bar reiras c onstruídas tinham um comprimento de 8m, largura de 15 a 20 cm e 1 m de altur a. Podem também colocar-se pedras ou ramagem, de forma a estabilizar as barreiras, ou plantar ár vores junto destas par a estabilizar a r avina ou sulco, após sedimentação. Deve ser feito o nivelamento das barreiras.

FIGURA

6

Barreira de troncos. (Fonte: © Mats Gurtner, in WOCAT 2007).

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

245

Barreiras de Pedras

Estas estruturas estabilizam a est rutura do canal do topo até à base, permitindo manter a forma e a capacidade do canal e preservar as condutas de água. Provocam a redução da velocidade do caudal com retenção dos sedimentos grosseiros. O primeiro objectivo é prevenir o ravinamento e o aprofundar do canal para prevenir a geração de sedimentos nos canais queimados. Para construir barreiras de pedr as devem escavar-se valas perpendiculares ao fl uxo de água d o canal, durante a época seca, após o incêndio, para criar uma depressão. As pedras são então c olocadas a uma profundidade de 15 cm, ao longo de um c omprimento de 2 a 3 m, com uma largura de 0.8 a 1 m e uma altur de 0.5 m. O centro da barreira a deve ser 23 cm mais baix o que os bordos laterais. O espaçamento entre barreiras, numa sequência, deve ser planeado e executado para que a base de uma barreira esteja alinhada com o topo da seguinte. As pedras podem ser colocadas manualmente ou por mét odo mecânico. Após episódios chuvosos, os sedimentos devem ser removidos antes que atinjam metade da altura da barreira, de forma a manter a sua eficácia e evitar o seu colapso. Nos trabalhos de WOCAT (2007), as bar reiras de pedr as foram usadas em conjunto com barreiras de troncos para estabilizar ravinas, mais largas, tendo sido também plantadas ár vores, em frente e at rás das bar reiras, após sedimentação da base. São usadas para áreas de drenagem até 5 ha.
Bacias de sedimentação (“Debris basins”)

Estas bacias retêm sedimentos, dissipam a energia do caudal, criando habitats para organismos aquáticos e impedem a deterioração da qualidade da água em áreas a jusante (Robichaud et al., 2000). Previnem perdas do solo e da água e danos nas bases das enc ostas, fruto da erosão das margens. Esta técnica é aplicada em último r ecurso, quando os t ratamentos de encostas e canais são inadequados. A bacia de sedimentos é um pequeno reservatório de água, para onde é drenado o caudal de pequenos cursos de água e a escorrência das áreas adjacentes. À medida que o fluxo entra na bacia, a velocidade da água diminui e perde a capacidade de transportar grandes destroços, que aí ficam depositados. As bacias devem ser projectadas, c om capacidade par a r eter os sediment os da enc osta, por um período de 10 anos. O tempo é menor, no caso da remoção de destroços ser

246

X. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS

fácil, mas nunca inferior a 2 anos. A bacia deve ter descarregadores adequados par a esc oar o e xcesso do flux o de água, par a não e xceder a capacidade máxima de armazenamento. As bacias de sedimentação devem ser limpas an ualmente. Podem também esca var-se sulc os nos canais efémeros, para funcionarem como bacia de retenção, de forma a reter 50 a 90% do fluxo de água. Estas devem ser limpas todos os anos e localizarem-se numa secção do canal principal onde se possam remover os sedimentos. Ao serem abandonadas, não produzem grandes prejuízos. Existem várias hipóteses de construção das bacias de sedimentação, sendo possível aproveitar infra-estruturas já existentes. Podem ser construídas com duas barreiras alinhadas, perpendicularmente ao curso de água, feitas de pedra ou cimento, alinhadas de forma a criarem bacias de retenção fechadas, dentro dos canais. Pode também c onstruir-se um alic erce com troncos cruzados sobre o solo onde depois são c olocadas pedras. As estruturas podem também ser de ciment o. O projecto e construção destas bacias de sedimentação exige conhecimentos avançados de engenharia civil, e no caso das maiores, convém monitorizar assiduamente o estado da infra-estrutura.
Limpeza dos canais e bacias de retenção

Um aspecto importante da gestão das bacias de r etenção e canais é que devem ser r emovidos destroços acumulados que for am arrastados na corrente de água, por for ma a pr evenir o aument o da altur a do caudal e consequentes inundações súbitas das bacias de escoamento dos canais, podendo causar o c olapso das est ruturas e a ger ação de picos de c heia catastróficos (Robichaud et al., 2000). Por isso, devem ser removidos os detritos orgânicos, sedimentos ou toros, para impedir que sejam mobilizados em c orrentes ou c heias, e que alt erem assim a hidr ologia e geomorfologia do flux o (Robichaud et al., 2000). Os det ritos podem bloquear tubagens em caminhos, reduzir a capacidade do fluxo nos canais, e afectar o funcionamento das bacias de escoamento e aumentar a erosão dos caminho e est radas. A remoção de sediment os dos canais de ve ser efectuada antes do Inverno, quando se produzem os fluxos mais significativos. A limpeza deve ser feita por técnicos, de forma a reconhecerem os destroços lenhosos flutuantes, os que são estabilizadores naturais e os que estão firmemente ancorados. As intervenções podem ser manuais, usando pás, picaretas ou enxadas ou, mecânicas, usando uma retroescavadora.

Quadro-resumo das técnicas Na Tabela 1 são resumidos os aspectos mais relevantes de cada uma das técnicas mencionadas.X.6. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS 247 3. .

Bom controlo da erosão.. Robichaud e Brown. 2005. 2005. Rey.. 2005. Baixo controlo da erosão. €€ Mais caro que a anterior. Pouco poucos. E BENEFÍCIOS E DESVANTAGENS ECOLÓGICAS MEIOS HUMANOS MATERIAIS DE APLICAÇÃO DESVANTAGENS ECOLÓGICO ECOLÓGICAS MEIOS FACILIDADE VANTAGENS/ BENEFÍCIO DESVANTAGENS TABELA 1 248 TÉCNICA REFERÊNCIA CUSTO SEMENTEIRAS Indiferenciados.. relevantes Fácil Fácil mas pouco Promove maior eficaz se não associado infiltração se associada a outra técnica. Shakesby et al.. Pouco muitos. Pouco médios. 2001. relevantes Difícil Utilização de materiais locais de baixo custo. 2005c. socialmente viáveis. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS BARREIRAS DE TUBOS DE NYLON COM PALHA Robichaud et al. COBERTURAS Indiferenciados. 1996. relevantes Fácil Material disponível. Robichaud e Brown. € HIDROSEMENTEIRA Especializados. Redução de taxa de erosão. etc. APLICAÇÃO DE RESÍDUOS VEGETAIS Prats et al. Introdução de novas espécies. Robichaud e Brown. MEIOS HUMANOS E MATERIAIS NECESSÁRIOS. 2003. Sementes são lavadas nas primeiras chuvadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A CONSULTAR PARA INFORMAÇÕES SOBRE A TÉCNICA. 2005. Melhoria da fertilidade e da cobertura do solo. relevantes Média €€ Aumenta fertilidade do solo e conteúdo de humidade. 2000. Indiferenciados. Robichaud et al. FACILIDADE DE APLICAÇÃO. € HIDROMULCH Especializados. BARREIRAS DE TRONCOS Robichaud et al. poucos. Pouco médios.LISTAGEM DAS TÉCNICAS MENCIONADAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA. Equipamento especial Média Reduz taxas de erosão e aumenta crescimento das plantas. poucos. O uso de pedras não tem impactes na estrutura do solo. Indiferenciados. Baixo controlo da erosão. SEMENTEIRA MANUAL Llovet e Vallejo 2004. 2000. BANDAS OU CORDÕES DE MULCH Ferreira et al. baixo custo. Bom controlo da erosão. 2009. Wohlgemuth et al. Ferreira et al. Aumenta fertilidade do solo e conteúdo de humidade. Melhoria da fertilidade. Eficaz na redução de taxas de erosão e crescimento das plantas. indo florescer a jusante. Equipamento especial Média Algumas das formas de aplicação (aérea) podem ser muito caras. CUSTO RELATIVO (NÚMERO DE SÍMBOLOS PROPORCIONAL AO CUSTO). o enchimento com palha encarece a técnica. €€ BARREIRAS TEMPORÁRIAS PARA CONTROLO DA EROSÃO Indiferenciados.. Montoro et al. a outras técnicas. Aumenta matéria orgânica do solo.. Pouco muitos. 2003. € Introdução de novas espécies. Rey. 2000. na humidade ou em nutrientes. VANTAGENS E DESVANTAGENS. relevantes Fácil € X. . 2008. 2000.

2000. Duração limitada.MEIOS HUMANOS MATERIAIS DE APLICAÇÃO DESVANTAGENS ECOLÓGICO ECOLÓGICAS MEIOS FACILIDADE VANTAGENS/ BENEFÍCIO DESVANTAGENS TÉCNICA REFERÊNCIA CUSTO CRIAÇÃO DE OPORTUNIDADE DE INFILTRAÇÃO Indiferenciados. 249 . € Cria ares de acumulação de sedimentos e nutrientes. BARREIRAS DE PEDRAS Robichaud et al... BACIAS DE Robichaud et al. Robichaud e Brown. efeito apenas a curto prazo. Cria áreas de acumulação de sedimentos e nutrientes. SEDIMENTAÇÃO 2000 Indiferenciados. Rápida decomposição. Robichaud et al. 2000. Cria áreas de acumulação de sedimentos e nutrientes. LAVRAGEM E ESCARIFICAÇÃO 1996. DOS CANAIS 2004 E BACIAS DE RETENÇÃO € Fácil de implementar. poucos.. Robichaud e Brown. médios Equipamento especial Média Grande investimento em infra-estruturas. se mal dimensionado. Cassol e Lima. 2005 Especializados.. duração limitada. Pouco relevantes médios Fácil Fácil de implementar.. Fluidez do caudal. Robichaud et al.. WOCAT. €€€ Cria áreas de acumulação de sedimentos e nutrientes. Necessidade de intervenções para continuar activa. 2005 €€ BARREIRAS DE TRONCOS Robichaud et al. Perda da estrutura do solo. Necessita de equipamento. 2000. BARREIRAS DE FARDOS DE PALHA Indiferenciados. Shakesby et al. Pouco relevantes médios Fácil Fácil de implementar. 2008 €€ TRATAMENTOS DE CANAIS Indiferenciados. que geralmente está disponível Fácil Difícil de implementar mecanicamente em vertentes declivosas. 2000.. possibilidade de colapso. 2007 Especializados. muitos Equipamento especial Difícil Grande investimento em infra-estruturas. duração limitada. 2003. ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA APÓS INCÊNDIOS LIMPEZA Robichaud et al. se mal dimensionado. 2000. diminuição da biodiversidade do solo. pode aumentar as taxas de erosão. Possibilidade de colapso. Obstáculo à dispersão de algumas espécies aquáticas.. Robichaud et al. BAER. Pouco relevantes muitos Fácil €€€ X. duração limitada.

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3. Aspectos gerais 4.2. Sementeira versus plantação 3. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO VASCO PAIVA CARMEN CORREIA JOAQUIM SANDE SILVA 1. Selecção da semente 4.5. Contentores 4. A produção de plantas em viveiro 4.4.1.4.1. Introdução 5. Transporte e acondicionamento de plantas 5.3. Fertilização 5. Introdução 2.253 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS XI. A instalação no terreno 5. A selecção de espécies 4. Substrato e fertilização em viveiro 4. A operação de plantação 5.2. Factores críticos para o sucesso das plantações — experiências post-transplante .5. Mobilização do solo 5.

.254 XI. essa regeneração pode não surg ir c om a abundância ou c om a r apidez pretendidas. Frequentemente essa incompatibilidade prende-se com o tipo de utilização que se pretende fazer da área queimada. Existe ainda a situação menos c omum de poder ser nec essário assegur ar o revestimento vegetal de solos m uito degradados. dependendo d os objecti vos a ating ir e das c ondicionantes de cada situação. 2000). o processo de sucessão ecológica secundária que se segue a um incêndio poderá não ser minimament e c ompatível c om a evolução que se pr etende para a área recentemente ardida. Na verdade. há ainda a ter em conta a frequente regeneração de espécies exóticas cujo controlo poderá ter que passar pela instalação de outras espécies que possam c ompetir vantajosamente pela l uz. Introdução A r egeneração ar tificial das ár eas queimadas é a alt ernativa mais frequentemente referida como forma de mitigar os efeitos dos incêndios florestais. Muito embora a mitigação desses efeitos inclua vários outros aspectos e alt ernativas. onde o pot encial de regeneração da vegetação seja reduzido. tal c omo é e videnciado ao longo de out ros capítulos do pr esente livro. Noutros casos mesmo quando se pretende um coberto constituído por espécies nati vas do local. Estes trabalhos tiveram também como motivo a recuperação de solos deg radados por práticas anc estrais de queima. Esse tipo de situações poderá voltar a ocorrer em áreas frequentemente percorridas por incêndios. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 1. pois coincidem com as zonas mais áridas e com menor produtividade. dada a baixa carga de combustíveis que estes locais normalmente apresentam. No entanto esse tipo de situações normalmente não é resultante da ocorrência de incêndios. implicando a instalação de espécies que nunca irão surgir espontaneamente. onde os pr ocessos erosivos se poderão revestir de particular gravidade. No caso específico das áreas de clima mais t emperado do continente português. Apesar de tudo não podemos deixar de lembrar os trabalhos de arborização que se r ealizaram nas Ser ras do Cent ro e N orte do P aís pelos Ser viços Florestais do Estado sobretudo durante a primeira metade do Século XX (Radich e Alves. a nec essidade de r ecorrer a oper ações de regeneração artificial pode de fac to ser uma necessidade incontornável. pastoreio e roça de matos. impedindo a instalação natural da vegetação.

1991). 2. é um dos inconvenientes mais significativos da sementeira (Forestry Commission. 1982. normalmente sem uma referência específica às áreas recentemente percorridas por incêndios. o gelo. dada a importância que poderão potencialmente desempenhar em estratégias de longo prazo na reabilitação pós-incêndio. que no entanto terá um crescimento inicial mais lento relativamente ao de uma planta t ransplantada a partir de um viveiro (Alves.XI.. Por esse motivo. A sementeira apresenta como principais vantagens: a maior facilidade de execução e o menor investimento associado. Quando bem suc edida. com o consequente desperdício associado. não e xistem muitos t rabalhos cientificament e validad os que per mitam a valiar as condições específicas da arborização destas áreas relativamente às áreas não ardidas. não têm sido devidamente estudadas para as áreas queimadas. Argillier et al. a acção de gado ou da fauna selvagem. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 255 Deste modo. Sementeira versus plantação A regeneração artificial com espécies lenhosas pode fazer-se essencialmente de duas for mas: através da utilização dir ecta de semente ou pela utilização de plantas normalmente produzidas em viveiro e posteriormente transplantadas para um local definitivo. permite um desenvolvimento natural das r aízes e assegur a um melhor desenvolvimento da planta. a secura. muitas das considerações que se seguem são uma recolha do conhecimento disponível para a r egeneração artificial de um mod o geral. Por exemplo quanto a este último factor Pausas et al. importa referir e descrever as alternativas a ter em conta ao nível da regeneração artificial de ár eas queimadas. Questões c omo o efeit o da difer ente disponibilidade de nutrientes ou a influência da fauna nas plantas ou sementes recentemente instaladas. Apesar dessa impor tância. No entanto é uma alternativa que exigirá mais intervenções e maiores custos nos primeiros anos de crescimento (Forestry Commission. Outros inc onvenientes são a oc orrência de g randes per das ant es da germinação e durante o primeiro ano de crescimento devido a factores como a humidade excessiva. A necessidade de ele vadas quantidades de sement e por unidade de superfície. 1991). a competição inter e intraespecífica. (2004) referem uma predação de sementes . 1991).

Em regiões de clima atlântic o deve-se realizar a sementeira no fim d o Inverno e/ou início da Primavera (Correia e Oliveira. Esta profundidade pode var iar entre 0.256 XI. Devido a est es condicionalismos há algumas indicações que de vem ser seguidas. n uma sement eira de Pinus halepensis em áreas queimadas da r egião de Valência.. recorrendo a sementes localmente bem adaptadas (Alves. No entanto e apesar destas limitações. 1991). Vander Mijnsbrugge e Bischoff. Burkhart. A época para a realização das sementeiras. Por outro lado. 2003). Ribeiro et al. 2003). com frequência. zonas de elevada pedregosidade e zonas dunares. 2005). 2002). maior é o r isco da acção nefasta de a ves.5 cm par a as sement es pequenas das resinosas até 3-6 cm par a as sement es das Fagáceas e Juglandáceas (Louro et al. designando-se como sementeira parcial (Forestry Commission. podendo . depende das c ondições do clima da região (Louro et al. de r oedores ou out ros animais. A sementeira total obriga a uma maior quantidade de semente. Primaveras frescas e Verão quente e seco (clima mediterrânico) é preferível a sementeira outonal para permitir que as plantas já tenham o sistema de raízes bem desenvolvido para melhor tolerarem a época quente e seca (Correia e Oliveira. 2002). a necessidade de novas sementeiras e/ou limpezas. tais como zonas de escarpa. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO nos seis pr imeiros meses super ior a 80%. 1982. a sement eira deve ocorrer antes do Inverno para reduzir o risco da acção de aves e roedores.. Por outro lado o nascedio ir regular em t ermos de est rutura e de dist ribuição espacial (clareiras versus elevada densidade) implica. A sementeira pode abr anger t oda a superfície a r egenerar.5-1. a sementeira é particularmente recomendada em locais de difícil instalação de povoamentos. ou incluir apenas uma parte da superfície a r egenerar. 1999. A sementeira deve ser realizada quando o solo ti ver humidade e oc orrer temperatura suficiente para se iniciar a ger minação e permitir o rápido desenvolvimento das jovens plantas (Fenner e Thompson. desig nando-se c omo sementeira total. 1991). Existem várias modalidades de sementeira que poderão ser escolhidas em função dos objectivos e das car acterísticas da estação. Em z onas de oc orrência de ne ve. As sement es de vem ser c olocadas no t erreno a uma profundidade adequada e pr oporcional ao se u tamanho de mod o a facilitar a emergência da plântula (F orestry Commission. Em regiões de I nvernos suaves. 2008. quanto mais se revolver o solo.. 2010).

linhas ou regos segundo as curvas de nível.. . A utilização de semeadores é possível em zonas planas ou de pouc o declive. podendo assim obter-se uma disposição regular das plantas no terreno. 2010. em manchas. a sementeira correspondeu a uma fase inicial das técnicas de r egeneração artificial. XIX e o início d o século XX (Vieira. O recurso à plantação foi introduzido posteriormente sendo actualmente a técnica pr edominante de vido ao insuc esso de m uitas sement eiras e à necessidade de utilizar técnicas c om resultados mais seguros e rápidos (Correia e Oli veira. Landis et al. tal como se ilustra (ver Caixa 1) com o exemplo dos trabalhos de ar borização das dunas do litoral realizados entre o final do séc. a uma adequada pr eparação do terreno e a um maior e melhor aproveitamento das sementes disponíveis. As dificuldades da r ealização das sement eiras e a inc erteza do seu sucesso têm levado a que o recurso à plantação seja a forma de regeneração artificial mais utilizada. A utilização de semente da mesma pr oveniência.XI. 2010).. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 257 ser realizada a lanço ou por meios aéreos dando origem a uma disposição irregular no terreno. A plantação está nor malmente associada a uma melhor selecção. a lanço ou em covachos ou furos. plantas de qualidade e técnicas de preparação do solo e plantação adequadas per mitem ganhar tempo no processo de r ecuperação de ár eas ardidas (Landis et al. 2007). Em terrenos pedregosos ou de ele vado declive só é possív el a sementeira manual. 2010). Tal não invalida no entanto que existam situações específicas que favoreçam a opção pela sementeira.. 2002. Vander Mijnsbrugge e Bischoff. A sementeira parcial em situações de declive pode ser realizada em faixas. 2003. assegurando melhores condições para garantir a qualidade das plantas e a r ecuperação da área ardida (Landis et al. 2010). No desenvolvimento da silvicultura.

Assim. algas. 1991). Foto de sementeiras em Mira no princípio do século XX (cedida por Luis Alcaide). A instalação de povoamentos de Pinus pinaster por sementeira na orla costeira litoral teve sempre uma prévia preparação do terreno com a adição de matéria or gânica (mat os e/ou algas) para c ompensar a pobr eza de nutrientes e reduzida capacidade de retenção de humidade das areias. 3. moliços. 2010). A decisão quanto à selecção das espécies para um dad o local ou r egião resulta da conjugação de vár ios factores. . A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO CAIXA 1 A ARBORIZAÇÃO DAS DUNAS Diversas tentativas de instalar povoamentos com recurso à plantação em zonas arenosas ou dunar es têm-se r evelado de maior insuc esso que o r ecurso à sementeira. consoante os materiais disponíveis na região (ver a este respeito a interessante descrição feita por Vieira (2007). nomeadamente: a ocupação desse solo antes do fogo. sendo que a utilização de plantas autóctones ecologicamente adaptadas garante à partida maiores taxas de sucesso. ou espécie de “ cama” c om mat os. Assim. nomeadamente se v isa objectivos de protecção ou de produção e dentro deste último se pretende obter receitas a curto ou médio/longo prazo (Forestry Commission. A selecção de espécies A selecção das espécies é um factor determinante numa acção de reabilitação após incêndio. as condições edafo-climáticas e o int eresse do proprietário. o uso de flora nativa é prioritária em acções de conservação e reflorestação (Vander Mijnsbrugge e Bischoff. era criada uma manta.258 XI.

o pinheiro. Pausas et al. é um bom cr itério de esc olha. nomeadamente na definição d o momento em que se de ve remover a espécie pioneira. Esta est ratégia obriga a uma eficaz gestão d o povoamento. neste caso no sítio c onhecido como Hortas no Perímetro Florestal da Lousã. como por e xemplo espécies do géner o Acácia sp. nomeadament e Pinus pinaster ou Pinus pinea e c om Quercus suber têm apresentado bons resultados em algumas z onas do Alentejo em que a espécie pioneira... Também em situações de degradação dos solos poderá não se r adequado arborizar apenas com espécies nativas típicas de estádios avançados da sucessão ecológica. Para os projectos de recuperação ecológica. 1991. pois com frequência verificam-se elevadas taxas de insuc esso. Nesses casos pode ser recomendável a instalação de po voamentos mistos (Forestry Commission. protege as jovens plantas de sobreiro permitindo ainda um rendimento intercalar para o proprietário (Louro et al. em t erritórios profundamente transformados o conhecimento da flora potencial pode não ser evidente. a utilização da espécie ou espécies d ominantes presentes na proximidade da área a recuperar e em ec ossistemas semelhantes. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 259 Se na ocupação ant erior do solo predominavam espécies invasoras.XI. Burkhart. é conveniente que se privilegie uma espécie que r apidamente ocupe a estação minimizand o assim o r isco da r egeneração da in vasora. 2004. 2002. à insolação e à pobr eza de nutrientes como as resinosas. Num outro exemplo. a presença de um po voamento de Pinus pinaster possibilitou um bom desenvolvimento dos castanheiros no seu interior. 2006).. 2008) incluindo espécies mais tolerantes à secura. 2003) onde se identificam as Principais Espécies Florestais com interesse para Portugal. Não obstant e. Barros e Sousa.. Seguindo as indicações de C orreia e Oliveira (2002. . garantindo a máxima adaptação às c ondições locais e minimizando o risco que podem representar algumas espécies alóctones devido ao seu comportamento invasor (Vallejo et al. Normalmente. a utilização de espécies e pr oveniências autóctones é em pr incípio o cr itério mais seguro. 2003). As experiências realizadas com a instalação de po voamentos mist os. apresentam-se duas tabelas ( Tabelas 1 e 2) c om indicação das espécies mais adaptadas a cada uma das z onas de Influência Mediterrânica e de Influência Atlântica.

5-16° C ESPÉCIES Quercus robur Castanea sativa Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Pinus pinaster Pinus radiata Cedrus atlantica . A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO TABELA 1 ESPÉCIES ADAPTADAS ÀS ZONAS DE INFLUÊNCIA MEDITERRÂNICA DE ACORDO COM CORREIA E OLIVEIRA (2002.2-17.5° C MEDITERRÂNICA Pma: 300-600 mm Tma: 16-18° C Pma — Precipitação média anual Tma — Temperatura média anual TABELA 2 ESPÉCIES ADAPTADAS ÀS ZONAS DE INFLUÊNCIA ATLÂNTICA DE ACORDO COM CORREIA E OLIVEIRA (2002.260 XI. 2003) ZONA ECOLÓGICA SUBMEDITERRÂNICA CARACTERIZAÇÃO Pma: 550-900 mm (>1000 nas cotas mais elevadas) Tma: 15-18° C ESPÉCIES Quercus suber Pinus pinaster Pinus pinea Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Quercus suber Quercus rotundifolia Pinus pinea Cupressus sempervirens Cupressus macrocarpa Casuarina equisetifolia Quercus rotundifolia Pinus pinea Pinus halepensis Cupressus sempervirens Cupressus macrocarpa Casuarina equisetifolia Quercus rotundifolia Ceratonia siliqua Pinus pinea Pinus halepensis Cupressus sempervirens Cupressus macrocarpa SUBIBEROMEDITERRÂNICA Pma: 500-700 mm Tma: 15.5° C IBEROMEDITERRÂNICA Pma: 400-600 mm Tma: 16-18. 2003) ZONA ECOLÓGICA BASAL ATLÂNTICA CARACTERIZAÇÃO Pma: 1000-2400 mm Tma: 12.

5-17.5-15° C MONTANA IBÉRICA Pma: 700-1200 mm Tma: 7.5° C ESPÉCIES Quercus faginea Quercus robur Quercus suber Castanea sativa Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Pinus pinaster Pinus radiata Cedrus atlantica Quercus faginea Quercus robur Quercus suber Castanea sativa Eucalyptus globulus Cupressus lusitanica Pinus pinaster Pinus radiata Cedrus atlantica Quercus faginea Quercus robur Quercus pyrenaica Quercus rubra Castanea sativa Prunus avium Pinus pinaster Pinus radiata Pinus nigra Quercus robur Quercus pyrenaica Quercus rubra Castanea sativa Betula celtiberica Pinus sylvestris Pinus radiata Pinus nigra Cedrus atlantica Quercus pyrenaica Quercus rotundifolia Castanea sativa Pinus nigra Quercus robur Quercus pyrenaica Quercus rubra Betula celtiberica Pinus sylvestris Pinus radiata BASAL ATLANTE MEDITERRÂNICA Pma: 500-1400 mm Tma: 7.5-15° C MONTANA SUBATLÂNTICA Pma: 1000-1800 mm Tma: 7.XI. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 261 ZONA ECOLÓGICA BASAL MEDITERRÂNEO ATLÂNTICA CARACTERIZAÇÃO Pma: 700-1200 mm Tma: 12.5-16° C ALTIMONTANA Pma:> 2200 mm Tma: <10° C .5-16° C SUBMONTANA SUBATLÂNTICA Pma: 600-2000 mm Tma: 7.

destacam-se sobretudo as seguint es referidas por di versos autores (Argillier et al. ver capítulo III) a pr odução de plantas consegue ser rentabilizada através de um eficaz pr ocesso produtivo em viveiro (ex: Quercus faginea). 3. Obtenção de plantas com adequado volume de substrato (torrão consolidado com as raízes da planta) capaz de permitir ultrapassar as dificuldades iniciais de abast ecimento em água e n utrientes.. 2010). com o adequado tratamento das sementes (ex: Arbutus unedo) ou o ptando por out ros processos de produção. garantindo-se actualmente maiores taxas de sobrevivência e sucesso nas plantações (Landis et al.. a qualidade das plantas produzidas. Viabilização e maior r apidez na pr odução de det erminadas espécies. 2. Também no caso em que se v erificam. Aspectos gerais Nas últimas décadas. Obtenção de plantas equilibradas. 2001): . A produção de plantas em viveiro 4.. Sendo inúmeras as vantagens em utilizar plantas pr oduzidas em viveiro. tendo em conta os seguintes aspectos (Ribeiro et al.. sobretudo quando instaladas em solos esqueléticos e pobres. situações de fr aca produção de semente (anos de c ontra-safra. com bom desenvolvimento da parte aérea e devidamente atempadas. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 4. c omo ac ontece c om frequência em algumas espécies. O respeito por estes padrões de qualidade permite a certificação das plantas de ac ordo com as disposições legais.262 XI.1. 2010): 1. Esta técnica de pr odução per mite igualment e assegur ar as car acterísticas genéticas das plantas produzidas. é avaliada desde há mais de uma década at ravés de det erminados padrões previamente estabelecidos para cada espécie. 4. 1991. facilitando a sua adaptação mesmo quando plantadas em condições de clima agressivo. também todo o processo de produção de plantas e voluiu. nomeadamente a propagação vegetativa (ex: Ilex aquifolium). Landis et al. De igual modo. com a evolução das práticas silvícolas. sendo amplamente utilizada em muitos planos de produção de espécies com genótipos seleccionados.

juntamente com as duas c ondições anteriores. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 263 1.g.XI. os principais critérios utilizados são a altura da parte aérea. 2. a conformação do sistema radicular e a r elação entre o sistema radicular e a parte aérea. Condições fisiológicas – O estado fisiológico da planta. dependendo das condições edafo-climáticas onde é utilizada. Características da planta produzida em viveiro.. assim como do seu desen volvimento morfológico e fisiológ ico nesse momento. . é um fac tor determinante de sucesso quando a planta é c olocada no local definiti vo. 3. 2001) (Tabela 3). têm sido correlacionados em diversos estudos de sobrevivência em plantação (e. a relação caule/raiz.. tais como o teor de hidratos de carbono de reserva. 1997 Oñoro et al. o seu estado nutricional e hídrico. Características morfológicas – Dentro destas. etc. a biomassa total. a superfície foliar. Hartman et al. Tempo de permanência no viveiro – A idade com que a planta sai do viveiro pode condicionar o seu comportamento no local definitivo. o diâmetro do colo..

os contentores e posteriormente o transporte das plantas (Argillier et al.. 1991. A utilização de plantas de c ontentor é aconselhável para as áreas de influência medit errânica e/ou par a c ondições de st ress (e. Os fact ores mais importantes no processo de produção de plantas em v iveiro são: a selecção da sement e. 1991). 2003 ) CRITÉRIOS QUALITATIVOS MORFOLOGIA Plantas com feridas não cicatrizadas Plantas parcialmente ou totalmente secas Caules com fortes curvaturas Caules múltiplos Caules com várias bifurcações Caules e folhas com fraco vigor vegetativo Caules desprovidos de gomo apical intacto Concentração de nutrientes Concentração de açucares de reserva Atraso nas gemas terminais Teste de fluorescência dos pigmentos fotossintéticos Condutividade estomática Termografia foliar através de sensores de infravermelhos Emissão de compostos voláteis induzidos por stress Potencial de formação de novas raízes Resistência às geadas Resistência à dessecação (teste de vigor da OSU) * CRITÉRIOS QUANTITATIVOS Altura da parte aérea Diâmetro do colo da raiz Massa aérea e radicular Calibre do caule (altura/diâmetro) Proporção entre a massa aérea e a massa radicular Índice de Dickson ** Desenvolvimento dos gomos FISIOLOGIA RESPOSTA DAS PLANTAS * Oregon State University ** Índice de Dickson: biomassa total/ [(altura/diâmetro) + (biomassa aérea/biomassa radicular)] A produção de plantas em viveiro depende de vários factores críticos.SALVADOR . que condicionam a qualidade e a quantidade de pr odução. Ribeiro et al. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO TABELA 3 CRITÉRIOS UTILIZADOS NO CONTROLO DE QUALIDADE EM PLANTAS FLORESTAIS ( ADAPTADO DE VILLAR . solos delgados... A utilização de plantas de raiz nua é recomendada para áreas de infl uência atlântica e em solos mais profundos e frescos (Argillier et al. 2001).264 XI. o subst rato. baixa disponibilidade de água). .g .

A selecção das ár vores para recolha de semente tem como critério geral a esc olha dos indivíduos de maior valor ec onómico. Igualmente fica obr igada a produção de plantas das espécies: Eucalyptus globulus.2. Pinus pinea e Quercus suber.. 2003). os povoamentos onde se recolhe semente devem estar aprovados pela Autoridade Florestal Nacional (AFN) e inscr itos no Catálogo Nacional de Materiais de Base.G. parte A e B. Em Set embro de 2003 foi publicado o Decr eto-lei 205. Selecção da semente A origem e qualidade do material genético utilizado vão naturalmente reflectir-se no r esultado das acções sil vícolas futur as (Menzies et al..F... registando os po voamentos ou indi víduos avaliados de ac ordo c om as nor mas decr etadas que dão or igem aos mat eriais florestais de r eprodução (MFR) par a todas as espécies identificadas no anexo I. propágulos ou plantas jovens). Testada (etiqueta azul) É também a partir desta data que se constitui o Catálogo Nacional de Materiais de Base. 2003).F. Qualificada (etiqueta cor de rosa). 2001). Estes povoamentos devem ser conduzidos através de desbastes que retirem os indivíduos mal conformados e/ou de crescimento lento (D. a exposição da copa. o vigor. Seleccionada (etiqueta verde). A idade madura é a mais . Pinus pinaster.G.G. através de MFR da categoria Seleccionada ou superior (D. Diversos factores afectam a produção seminal: a idade. Através deste decreto-lei determinam-se quatro diferentes categorias de acordo com a origem do material base: a) b) c) d) Identificada (etiqueta amarela). A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 265 4. em po voamentos com elevada percentagem de bons fenótipos. 2003). Pela legislação actual. do referido decreto-lei. com boa taxa de crescimento e com boa qualidade d o lenho. isto é: indivíduos bem conformados (forma de tronco e copa). bem como os povoamentos ou indivíduos onde é recolhido o material florestal de reprodução (sementes. que legisla uma diversidade de parâmetros que regulamentam a produção das espécies em viveiro.XI. o clima e os fact ores genéticos.F. A semente ou os propágulos vegetais usados no processo produtivo em viveiro determinam fortemente a qualidade das plantas pr oduzidas (D.

podendo condicionar seriamente a produção de determinadas espécies.266 XI. Este é um fac tor de peso r elevante. muitas vezes a obt enção da sement e é dificultada e limitada. sobretudo na parte virada a Sul e a Oeste. 2010). Nestas árvores a parte da copa mais exposta proporciona mais e melhor semente. . 2003). Pelo contrário. de conservação da semente e do tipo de tratamentos pré-germinativos ( Tabela 4). As árvores de bordadura têm uma localização mais favorável. É por isso m uito importante o conhecimento das melhores práticas de processamento. 2001).F. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO favorável para a colheita de sementes (Ribeiro et al. As árvores mais vigorosas são os melhor es “sementões” e os solos fér teis proporcionam também mais sement e. As geadas tardias de Primavera são também outro elemento negativo na floração (Vander Mijnsbrugge et al. o que vai permitir uma maior produção fotossintética e uma maior produção seminal. Em povoamento as árvores dominantes são as que pr oduzem maior flor ação e consequentemente mais frutificação (D.. nomeadamente em anos de fr aca colheita. conveniente iluminação e adequada humidade do solo estimula a fotossíntese e a acumulação de hidratos de carbono o que proporciona mais e melhores sementes.. par a a obt enção de boas taxas de suc esso. De igual forma as situações c huvosas e de céu ene voado reduzem a fot ossíntese provocando menor produção seminal e queda de frutos. A conjugação de temperaturas elevadas. considerando as exigências relativas a cada espécie.. extensos períodos de chuva actuam negativamente sobre a polinização anemófila (r ealizada pelo vento) e reduzem a acti vidade dos insectos (polinização ent omófila). Em árvores isoladas devem ser preferidas as que têm copa mais expandida e sistema radicular não afectado pela concorrência. pelo que os po voamentos destinados a este objectivo devem ser adequadamente fertilizados.G. A met eorologia t em infl uência det erminante na for mação de gomos florais e no sucesso das florações. Se por um lad o se pretende com a legislação em v igor (Decreto-Lei 205/2003) obt er indi víduos c om melhor es car acterísticas genéticas.

essencialmente para sementes recalcitrantes com maiores dimensões. imersão em água.. possibilitando deste modo a obtenção de maiores taxas de sucesso nas acções de regeneração artificial.GERMINATIVOS PARA SEMENTES DE ALGUMAS ESPÉCIES ESPÉCIE CRITÉRIOS QUALITATIVOS A primeira semente que cai em finais de Outubro – início de Novembro. O c onhecimento antecipado das futur as áreas de intervenção permitiria a aquisição de semente de melhor qualidade e das pr oveniências adequadas. este é um aspecto particularmente relevante. Juglans spp. ser ia dese jável que os organismos oficiais disponibilizassem a infor mação d o númer o de projectos florestais aprovados por região e respectivas áreas. ESPÉCIE TRATAMENTO PRÉ-GERMINATIVO Maceração da polpa (frutos maduros) com estrume de vaca. até arrefecer. Nas Quercíneas. pois as sementes mantêm a viabilidade durante pouco tempo. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 267 TABELA 4 EXEMPLOS DE PROCEDIMENTOS E CRITÉRIOS PARA SELECÇÃO E DE TRATAMENTOS PRÉ . durante 12 horas... O tempo que decorre entre a colheita da semente e a sementeira tem igualmente peso relevante no êxito do processo produtivo. Colocar a semente em recipientes com água e eliminar toda a que ficar à superfície.. Arbutus unedo Pistacia lentiscus Ceratonia siliqua No planeament o da pr odução de v iveiro. Fraxinus spp. eliminar os frutos de baga vermelha devido à inviabilidade da semente. 2001). denominada bastão. Escaldar a semente em água a ferver e manter. nunca deverá ser utilizada para produção por ter fraca viabilidade. Após limpeza do fruto para extracção da semente. pelo que as taxas de suc esso estão c ondicionadas pelo .XI. o que possibilitaria estimar a nec essidade de plantas e espécies.. tanto no que diz respeito à obt enção de boas taxas de ger minação como aos cust os que lhe são inerentes (Ribeiro et al. Pinus spp. Quercus suber Quercus spp. durante 48 horas. Prunus spp.

. um trabalho de estudo e experimentação sobre os variados substratos que se podem utilizar. baixa densidade. nem sempre é viável fazer a sementeira num curto prazo de tempo para grandes quantidades de semente. melhor será a germinação (Ribeiro et al. pr ocessamento e conservação da sement e em condições que não ac elerem a ger minação e assegurem uma taxa de v iabilidade elevada. assim c omo na translocação de água no sistema solo – planta – atmosfera. o substrato e o contentor utilizado. t ransporte. Como regra. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO período que medeia entre a colheita da semente (meados de Novembro) e a respectiva sementeira em viveiro.268 XI. boa porosidade (relação . garantindo que as exigências das plantas relativamente à capacidade de retenção de água. mas com arejamento para evitar problemas de fitossanidade (fungos). Nesta situação e para todas as sementes recalcitrantes. devem ser consideradas as características físicas e químicas adequadas à espécie que se pr etende produzir. 1996). Tem havido desde há muito tempo. 1999). Quanto mais curto for este período. É por isso r ecomendável a manutenção em condições de temperatura baixa (5-6º C) e de alguma humidade. O subst rato c ontribui pr ofundamente par a as car acterísticas morfológicas e fisiológicas da planta e posteriormente para o sucesso da instalação (H artman et al.3. sendo por isso um factor chave no sucesso da plantação (Peñuelas e Ocaña. que poderá ir até 4 a 5 meses após c olheita da bolota ou lande. O substrato ideal deve apresentar homogeneidade.. destacam-se além da semente. preferencialmente com a emergência da r adícula em fase inicial (< 10 mm). torna-se indispensável planear convenientemente o r itmo de c olheita. assim como os aspectos económicos associados a essa selecção. Na selecção de um substrato. A sua selecção é fundamental na medida em que est e exerce uma influência significativa na arquitectura do sistema radicular. 1997). Substrato e fertilização em viveiro Entre os variados factores que influenciam determinantemente a produção de plantas. 1997). quantidades acima de 10 t oneladas obr igam ao pr olongamento d o pr ocesso. no estad o nutritivo das plantas. 4. adequando-os à produção de plantas com qualidade desejável.. os quais se vão reflectir directamente na qualidade do produto final. No entanto. arejamento e disponibilidade de nutrientes possam ser satisfeitas (Hartman et al.

2001). 1991. A turfa é sem dúv ida o substrato com maior utilização na produção de plantas. 1997. predominantemente de natureza orgânica.. além dos aspectos técnicos relacionados com a sua utilização (Argillier et al.. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 269 arejamento/retenção de água). fertilização e dimensão do contentor). sendo que no entant o é um r ecurso natural não renovável e por isso a sua disponibilidade irá estar condicionada a médio prazo. 2000). foram gradualmente substituídos por out ros materiais. Hartman et al. e f) ser preferencialmente um meio estéril (Argillier et al. d) com boa capacidade para transporte. a perlite e vermiculite (minerais de argila). e) com resistência ao desenvolvimento de pragas e doenças (meios miner ais versus orgânicos). boa capacidade de troca catiónica e deve estar isento de pr agas. Ribeiro et al.. Em geral são incorporados aos substratos materiais substâncias melhoradoras das suas car acterísticas físicas e/ou químicas..XI. a casca de pinheiro (que deve ser compostada). 2000). Os solos minerais. É m uitas vezes difícil enc ontrar um mat erial que por si só isolado reúna todas as características desejadas (Santos et al. a casca de arroz e a esteva compostada. o substrato deve apresentar diversas características: a) ser abundante. individualmente ou em mistura.. constituírem um substrato. entre outros. Hartman et al. cujas car acterísticas satisfazem de forma mais adequada as exigências das plantas em contentor (Ribeiro et al.. boa capacidade de campo. pode diz er-se que é pr eferível a mistura de d ois ou mais mat eriais para a obtenção de um subst rato adequado e de boa qualidade (Ribeiro et al. Para que a sua utilização seja economicamente viável. manuseamento e ar mazenamento.. 2001). 2001). lamas e resíduos tratados. inicialmente utilizados na produção de plantas em viveiro. Burkhart.. as condições de produção (sistema de rega. a disponibilidade e o preço do material. A escolha dos materiais utilizados deve considerar a espécie produzida. Também a casca de pinheiro compostada foi muito utilizada durante largos anos (Figura 1) por ser ec onomicamente mais acessível e por t er . São diversos os mat eriais utilizados par a. boa estrutura (agregação entre as partículas). De modo ger al. 1997).. organismos pat ogénicos e sement es (Argillier et al. b) ser estável (não estar ainda em processo de compostagem) c) com manutenção ou reprodutibilidade das suas propriedades físicas e químicas. desde a turfa. 1991.. a fibra de coco. 2008). 1991. denominadas c ondicionadores e que integram a mistura em proporções menores do que 50% (Santos et al.

Para que as fertilizações administradas possam causar o efeito desejado e para que os aspectos qualitativos. Villar-Salvador et al. numa pr imeira fase por obser vação v isual das plantas e.. sendo importante a análise laboratorial dos materiais que constituem o substrato para proceder à fertilização mais adequada. 1991). No entanto a sua utilização está actualmente fortemente condicionada devido aos problemas de fitossanidade que têm sido detectados no género Pinus. numa segunda etapa. FIGURA 1 Produção de planta em contentor com recurso a uma mistura com predominância de turfa.. hídricas e mesmo biológ icas do substrato.. 2008). (Foto: Vasco Paiva) A fertilização em viveiro e nomeadamente a do substrato tem também forte influência na morfologia e fisiologia da planta e na sua performance quando plantada no terreno (Villar-Salvador et al. Estas necessidades podem ser determinadas.. quantitativos. é necessário ter um bom conhecimento dos seguintes aspectos (Ribeiro et al. 2001. frequência e modo de aplicação sejam os mais adequados a cada caso concreto. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO características físicas interessantes (Argillier et al. 2008): — Características químicas. evidenciando um bom desenvolvimento do sistema radicular. . nomeadamente o fungo Fusarium circinatum e o nemátodo Bursaphelencus xylophilus.270 XI. através de análises laboratoriais ao material vegetal. — Necessidades específicas em elementos minerais das diferentes espécies ao longo do seu ciclo vegetativo e dinâmica dos nutrientes entre o substrato e a planta. físicas.

.3 Na produção de plantas florestais em contentores. — Características dos diferentes adubos existentes no mercado. boro e manganês (Hartman et al. têm peso determinante na escolha da fertilização a utilizar e c onsequentemente no equilíbr io dese jado. os valor es podem ser bastante variáveis dependendo do material utilizado.9 8. TABELA 5 VALORES MÉDIOS DE PH EM ÁGUA DE VÁRIOS MATERIAIS NORMALMENTE UTILIZADOS COMO SUBSTRATO . ( 1989 ) SUBSTRATO PRODUTOS ORGÂNICOS PH (H2O) 5.XI.5 7.5 6.5 6-8 8. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 271 — Processo de produção utilizado: propagação vegetativa ou sexuada. 1997).. nomeadamente o seu valor médio de pH. nomeadament e fer ro. fósforo. magnésio e enxofre) deverão ser sempre fornecidos às plantas. os macro-nutrientes (azoto. O azoto (N) é considerado o mais importante nutriente e a sua utilização em fertilizações aumenta de forma expressiva o crescimento da planta.0 7.5 4.1 4. zinco. no processo rizogénico é det erminante a presença de n utrientes que vão estimular as fases de divisão e crescimento celular. cobre. de acordo com o expresso na Tabela 5.5 5.7 7. cálcio. No entanto.5 6. nunca se deverá excluir a possibilidade de oc orrerem deficiências de micr o-nutrientes. 2008). a sua taxa fotossintética e o crescimento das raízes (Villar-Salvador et al.5 Turfa negra Casca de folhosas compostada Turfa loura Resíduos compostados Casca de pinheiro fresca Fibras vegetais PRODUTOS MINERAIS Terra argilo-limosa Vermiculite grau 3 Perlite Vermiculite grau 1 Lã de rocha Areia Argila expandida 5-7.. bem como do seu comportamento para cada caso de aplicação específico. As características químicas do substrato. ADAPTADO DE LEMAIRE ET AL . potássio.

Boas taxas de suc esso após a plantação são obtidas quando o t eor de az oto na planta é super ior a 70 mg .272 XI. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO Contrariamente ao que é defendid o por m uitos técnic os flor estais e produ-tores de plantas. pelo que er radamente muitos viveiristas não fertilizam as Quercíneas (Villar-Salvador et al. uma pobr e fertilização em az oto em espécies mediterrânicas nor malmente r eduz a taxa de sobr evivência e de crescimento na plantação (Oliet et al. Nem todas as espécies exigem as mesmas quantidades e equilíbr io de nutrientes nem tão pouco reagem de maneira semelhante à fertilização. Villar-Salvador et al. 2001). 1997. 2004. Por exemplo as espécies do género Quercus apresentam uma resposta menos evidente às fertilizações que as c oníferas. O equilíbr io ent re os difer entes n utrientes é também impor tante porque o excesso de alguns pode afectar a absorção e a utilização de outros.. 2004). 2005). O EXCESSO OU DEFICIÊNCIA DE DETERMINADOS NUTRIENTES . ADAPTADO DE LANDIS ET AL ( 1989 ) DEFICIÊNCIAS OBSERVADAS CAUSA DAS DEFICIÊNCIAS TABELA 6 S Ca Mg Mn Fe B Cu Zn Mo excesso de azoto • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • excesso de fósforo pouco potássio excesso de cálcio excesso de magnésio excesso de manganês excesso de ferro excesso de cobre pouco zinco excesso de zinco baixo pH alto pH excesso de enxofre excesso de sódio excesso de bicarbonatos • • • • • • • • . e porque este equilíbrio afecta também o pH da solução .. ASSIM COMO DIFERENTES VALORES DE PH PODEM AFECTAR A DISPONIBILIDADE DE CERTOS NUTRIENTES . de acordo com o expresso na Tabela 6 (Ribeiro et al. Oliet et al.

com diferentes modelos de contentores e com diferentes espécies (Oñoro et al. 1997). pelo fact o de induzirem deformações acentuadas no sist ema radicular (enrolamento das raízes). reflectindo-se na qualidade da planta produzida (Landis. 2010). Muitas destas variáveis têm sido estudadas em diferentes épocas. O volume do contentor parece ser a variável que mostra maior correlação com a altura da planta e a sobrevivência no campo (Dominguez..XI. pelo que e xiste a preocupação em mant er um adequad o equilíbr io r aiz/parte aér ea (Ribeiro et al. As características que um contentor deve reunir para a produção de plantas de qualidade. dado que usualmente o substrato utilizado neste tipo de contentor era simplesmente terra (pura ou misturada com outros materiais). 2001). Por outro lado era difícil a sua o peracionalidade em viveiro assim como o seu t ransporte e dist ribuição das plantas (Ribeir o et al. A parte aérea da planta está est reitamente dependente do desenvolvimento do sist ema r adicular e v ice-versa. Os mesmos autores não obtiveram resultados conclusivos sobre a influência da profundidade do contentor a qual poderá no entanto ter importância na produção de espécies do género Quercus que desenvolvem . P or out ro lad o a sua for ma det ermina as car acterísticas morfológicas e funcionais. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 273 4. Um contentor condiciona diferentes variáveis associadas à produção. Entre estas r efira-se a sobr evivência e o crescimento.. 1997. do período de permanência em viveiro e do local de plantação (Argillier et al. Já há bastant e t empo que os sac os de plástic o deixaram de ser utilizad os par a a pr odução de plantas. Landis et al. 1990). é fundamental a selecção dos contentores adequados em função das espécies a produzir. 2010).... A matéria-prima utilizada no se u fabrico limita a sua dur abilidade e reutilização.. 2001). nomeadamente a densidade de plantas.4. 1991. Dominguez et al.. a estrutura e o desenvolvimento do sistema radicular.. Contentores Sendo o contentor o supor te físico para a produção de plantas em viveiro. A selecção d o contentor de ve estar de ac ordo com as características morfológicas exigidas por cada espécie (Landis et al. 2001).2010). visam proporcionar melhores condições quando a planta é instalada no campo . a facilidade de manipulação . o volume. Landis et al. as quais estão r elacionadas com a capacidade d o sistema radicular regenerar rapidamente novas raízes (Argillier et al.. 1991.

1996). o que aumenta a capacidade de absorção de água e n utrientes (Lindström e Rune. 2001). A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO uma forte raiz pivotante (Dominguez et al.. Argillier et al. 1991. o que pode reduzir a performance e a futura estabilidade da árvore.. a profundidade do contentor poderá determinar o comprimento da raiz principal das plantas em viveiro. a r edução da capacidade (volume) do contentor. A arquitectura do sistema radicular antes e depois da plantação é também fortemente influenciada pelo contentor utilizado. tanto pelo seu custo como por toda a logística associada. Para as plantas de eucalipto é utilizado normalmente o volume de 150 a 200 cm³. Landis et al. até ao limite mínimo permitido. sujeitas a certificação. este objectivo deverá ser compatibilizado com a necessidade de se criar um volume de torrão capaz de enfrentar o impacte do transplante com maior sucesso (Argillier et al. e para as resinosas o volume de 200 cm³ é considerado suficiente (Ribeiro et al. No entanto. influenciando positivamente a profundidade de enraizamento das plantas quando colocadas no campo (Peñuelas e Ocaña.. devido à fraca presença de raízes laterais (Lindström e Rune. 1999). fixas ou out ro tipo de est rutura). O enrolamento é fortemente contrariado pela pr esença interna de est rias longitudinais que induzem um maior desen volvimento de r aízes laterais (Argillier et al.. pode provocar uma maior diferenciação do sistema radicular originando uma maior quantidade de raízes secundárias e de raízes finas. 1991). tendo em conta a necessária amortização do investimento realizado. 1991.. e as estruturas de suporte necessárias para a suspensão dos tabuleiros (bancadas móveis..274 XI. já que est e pode induzir o enrolamento das raízes. 1999. é importante sublinhar que a esc olha de um c ontentor não de ve ser feita sem ponderar seriamente que a sua aquisição representa um grande investimento para o viveiro. 2010). Landis et al. Deste modo. Geralmente são utilizados contentores com volume de 300 a 400 cm³ para a produção de folhosas mais exigentes. 2010).. 1997). É uma opção de g rande responsabilidade cujos efeitos se repercutem no mínimo durante uma década. os meios mecânicos (quando existem) associados à respectiva movimentação. A legislação (Decreto-Lei 205/2003) obriga a que as plantas de Pinus pinaster e de Eucalyptus globulus tenham um volume mínimo de vaso de 120 cm³ e que esse volume seja de 200 cm³ para as restantes espécies. incluindo as máquinas de sementeira ou de enchimento de tabuleiros. . P or out ro lad o. Independentemente de todas as considerações atrás referidas.

numa viatura com toldo. é ac onselhável a utilização de contentores refrigerados (Argillier et al. se possível com uma solução fosfatada para estimular o desenvolvimento das raízes. 2001). A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 275 4. dad o que c om fr equência não são plantadas de imediato.. Os riscos maiores estão associados: a) ao stress hídrico devido às perdas de água sobretudo através das folhas. Ribeiro et al.5.. Se forem plantas de raiz nua. b) à perda do gomo apical por deficient e acondicionamento e c) ao aquecimento. Transporte e acondicionamento de plantas O transporte de plantas entre o viveiro e o local de plantação merece especiais cuidados para evitar danos devido à acção do vento e do calor (Argillier et al. A descarga das plantas também deverá ser realizada imediatamente após a chegada ao local de plantação ou armazenamento das plantas (Ribeiro et al. As raízes das plantas de torrão. por e xemplo ent re vár ios países. No momento de recepção das plantas no campo deverá ser escolhido o local onde de vem per manecer. 1991. as suas raízes devem ser envolvidas de forma a manterem-se protegidas e húmidas mas também a per mitir a sua r espiração. Antes de saírem do viveiro as plantas devem ser regadas. favorável ao desenvolvimento de agentes patogénicos (Ribeiro et al. Assim. Os cuidados devem ser tanto maiores quanto maior for a distância de transporte e os r iscos são par ticularmente g raves quand o se t rata de espécies folhosas menos resistentes (Argillier et al. 2001). Em situações em que esse t ransporte demore vár ios dias. Louro et al.. 2001). 2001). permanecendo muitas vezes em estaleiro dias ou .. Com frequência as plantas sofrem danos dur ante o seu t ransporte. no caso de grandes distâncias é necessário que os transportes sejam realizados.. É de todo desaconselhável que permaneçam demasiado tempo dentro da viatura. que c omprometem a própr ia viabilidade da plantação. A carga deve ser feita o mais próximo possív el do momento do transporte e deve ser correctamente estabilizada para um bom acondicionamento das plantas. por exemplo em sac os de ser apilheira. 2001). película t ransparente e per furada (Ribeiro et al. 2003). 1991.XI. No caso de distâncias menores é recomendável a utilização de r ede ou out ro material que at enue os efeitos dos agentes climatéricos. estão mais protegidas contra danos de natureza física e contra a acção do vento (Ribeiro et al. 1991). em contentor.

1997). a qualidade da planta ou da semente. 2001). A qualidade das plantas florestais pode det eriorar-se r apidamente. assim c omo as linhas or ientadoras de restauro. A instalação no terreno 5. 2008).276 XI. Em diversos capítulos dest e livro foram já abordadas questões que devem nortear a preocupação de preservação do solo e de minimização dos r iscos de er osão pós-fogo. caso em que se devem proteger as plantas durante a noite com recurso a uma rede sobrelevada (Argillier et al. acondicionamento ou um deficiente manuseamento podem causar danos ir reversíveis (e. a preparação da estação (mobilização do solo). 2001). porque aí é maior o r isco de ocorrência de geada. 1991). a mobilização do solo e o momento/época de instalação no t erreno são decisões impor tantes a c onsiderar no planeamento da arborização (Peñuelas. o mét odo de plantação ou sement eira e o tipo de fer tilização adoptados (Forestry Commission. de diversos factores tais como a selecção das espécies.. sobretudo em tempo frio.g. Burkhart. o que pode fazer aumentar a evapo-transpiração e o risco de emurchecimento (Burkhart. As plantas de raiz nua devem ser abaceladas em locais frescos e húmidos (Ribeiro et al. arejado. C onvém que se ja um local limpo (sem pr oblemas de fitossanidade). por exemplo em planaltos. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO semanas. 2008). 1991). Introdução O sucesso de uma plantação ou de uma sement eira depende. Deve evitar-se que estejam expostas ao vento. 1991. protegido da acção d o vento e da geada e c om relativa proximidade de água para poderem ser regadas durante o período de tempo de armazenamento (Argillier et al. Em caso de temperaturas demasiado elevadas será necessário regar as plantas com maior frequência e devem permanecer numa zona de sombra. Em caso de ocorrência de problemas fitossanitários (fungos) deve-se proceder à desinfecção com um produto anti-fungico. Por outro lado. Uma planta pode t er qualidade à saída do viveiro e um mau transporte.. numa primeira fase..1. Não se recomendam zonas baixas. 5. perda do gomo apical).. Em caso de t empo frio devem-se evitar os locais com exposição Norte ou Este (Hartman et al. de constituição de unidades de paisagem e de uma silvicultura .

(iii) aumentar a capacidade de infiltração para a água. As características do solo interferem de for ma relevante nas soluções . (ii) aumentar a capacidade de retenção de água. em z onas mediterrâneas. (v) reduzir as possibilidades de invasão da vegetação espontânea depois da plantação ou sementeira. utilizando soluções apropriadas que per mitam uma mobilização mínima. dependendo portanto do valor sócio-económico do povoamento e c) das restrições ambientais. De acordo com Gomes et al (2005) na preparação da estação há que encontrar soluções e equipamentos que minimizem a superfície afectada e a intensidade da mobilização com o objectivo de reduzir os custos de instalação. 2004). simultaneamente. com particular destaque para a primeira opção. O mesmo aut or sublinha que. favorecer o desenvolvimento do sistema radicular. a preparação do solo está sempre relacionada com a água e todos os procedimentos de mobilização devem aumentar a quantidade de água utilizáv el pelas plantas.2. na fauna e na flora e de. pretende-se reduzir o número de operações. (iv) facilitar a penetração mecânica das raízes e o seu desenvolvimento. t endo como objecti vo gar antir boas taxas de sobr evivência. 2005). A tomada de decisão deve ser função: a) da qualidade da estação. b) da relação custo/benefício numa perspectiva de valorização do investimento. desagregando camadas profundas por acção mecânica. Serrada (1993) destaca como objectivos imediatos de preparação do solo: (i) aumentar a profundidade útil do solo. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 277 preventiva que minimiz e os r iscos que proporcionaram a ocorrência e propagação do fogo. nomeadamente as que dizem respeito à conservação do solo e à protecção das linhas de água. valorizar o investimento do custo de instalação no produto final e manter a capacidade de produzir bens e serviços numa base sustentável (Gomes et al. 5. sobretudo das raízes.XI. garantindo assim uma boa taxa de sobr evivência. minimizar o impacte ambiental no solo.. Nas secções seguintes abordam-se alguns fac tores críticos associados à instalação das plantas ou sementes no terreno. nos primeiros anos. Mobilização do solo A mobilização do solo influencia o desen volvimento inicial das jovens plantas e pode melhorar as condições edáficas da zona repovoada (Simón et al. dada a sua muito maior importância enquanto forma de regeneração artificial das áreas queimadas. favorecer o crescimento inicial. Deste modo.

sendo de r eferir as seguint es: profundidade do solo. pedregosidade. no Outono (após as primeiras chuvas). ou no final do Inverno. No entanto. Nestas faixas a mobilização de verá limitar-se à aber tura de covachos sem qualquer tipo de int ervenção mecânica. horizontes impermeáveis. textura. e em que qualquer mobilização do solo pode afectar a estabilidade desses solos e gerar fenómenos erosivos. para as regiões mais secas.. teor em matéria orgânica. dinâmica e disponibilidade de nutrientes (Morris e Miller. sendo a superfície de absorção função d o c omprimento das r aízes. 2007). São áreas de maior infilt ração. Nilsson et al. início da Primavera. É aconselhável a época outonal. 2005).. respeitando uma faixa mínima de 30 metros nas linhas de água permanentes e de 10 metros nas linhas de água temporárias. d o se u diâmet ro e da facilidade de penetração da coifa. 1994). Em solos pouco profundos com rocha-mãe pouco desagregável. na medida em que condicionam o crescimento. nomeadament e d o solo e d o se u g rau de suberização e da infecção simbiótica por micorrizas. originando um aument o sig nificativo da pedr egosidade.278 XI. (1995) referem que para a assimilação de água e nutrientes é cr ucial a eficiência das r aízes finas. 5. como o transporte de blocos de pedra para níveis superiores. ou mesmo par a a superfície d o terreno.. o que permitirá que as jovens plantas possam beneficiar das chuvas de Inverno para .3. sendo sempre as espécies ripícolas as mais indicadas para estas situações (Louro et al. rocha-mãe. A operação de plantação A plantação deve realizar-se sempre com o solo húmido. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO específicas a preconizar. 2003. relativamente próximo da superfície) pode per mitir um aumento do volume de solo explorado pelas raízes e aumentar a taxa de sobrevivência e a produtividade do povoamento (Gomes et al. 2003). uma o peração de r ipagem pode conduzir a consequências indesejáveis. densidade aparente. Estas de vem desen volver-se em maiores volumes de solo (sem r estrições). Carneiro et al. Na proximidade das linhas de água não se de ve realizar qualquer mobilização mecânica d o solo. A eficiência das raízes depende em boa parte das condições de penet ração. capacidade de r etenção de água. a ripagem com o objectivo de rompimento de um horizonte impermeável (horizonte árgico. limitand o intervenções mecanizadas no futur o (Louro et al.

O final do Inverno até meados da Primavera. mais chuvosas. A dimensão das covas ou covachos está directamente relacionada com a dimensão do torrão ou do sistema radicular. 2002). Assim é preferível sempre bater no c ontentor de for ma a desc olar o t orrão. mais frias e/ou com maior probabilidade de ocorrência de geadas (C orreia e Oli veira. O t orrão deve ficar na v ertical. tem estimulado a procura de soluções alternativas mecanizadas. 2004). com excepção das zonas baixas ou com risco de encharcamento. nomeadamente mão-de-obra. A planta deverá ser colocada no fundo do sulco da faixa mobilizada. em par ticular nas áreas queimadas. A extracção da planta do contentor deve ser realizada com cuidado de forma a evitar que sejam danificadas as suas raízes e/ou desagregado o torrão que as envolve. O manuseamento das plantas e a o peração de plantação pr opriamente dita devem merecer cuidados especiais sob pena de se danificar em as plantas comprometendo irremediavelmente o seu sucesso. em que a planta deverá ser colocada no terço superior do sulco.. coberto com uma camada de solo no mínimo de 2 cm de altur a e.XI. A importância e os cuidados que devem ser observados na plantação associados aos seus ele vados custos. com frequência com textura pesada. nos casos de plantas de raiz nua (Louro et al. O substrato que envolve o sistema radicular deve ser bem humedecido antes de se proceder à instalação da planta no terreno. pelo que se enumeram algumas recomendações. consoante a o peração previamente realizada. para beneficiar da maior disponibilidade de água e pr oteger de e xcessos de radiação solar. deve ser calcada a t erra envolvente par a permitir uma melhor ligação ent re o torrão e o solo . A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 279 que as suas r aízes se desen volvam dur ante esse períod o e as plantas possam suportar o tempo seco no Verão seguinte (Correia e Oliveira. bem c omo quaisquer outros danos físicos. A distribuição das plantas deve ser efectuada de forma simultânea com a plantação evitando a sua e xposição ao sol por t empo pr olongado. 2003). Em Portugal as soluções mecanizadas de plantação estão limitadas pela natur eza dos solos. 2003). do que puxar pela parte aérea da planta. com declive acentuado e com elevada pedregosidade. após plantada. para que a e xpansão das r aízes se faça de uma for ma natural evitando também assim o seu enrolamento ou efeito de envasamento (Louro et al. é apenas recomendado para as regiões de influência atlântica. No entanto .

em solos com características mais favoráveis o que per mite aumentar o rendimento da operação. FIGURA 3 Plantação manual com recurso a plantadores que permitem um maior rendimento da operação. (Foto: Vasco Paiva). .280 XI. FIGURA 2 Plantação mecanizada em áreas de reduzido declive e com prévia mobilização do solo. plantadores man uais que assegur am uma impor tante melhor ia na colocação da planta e um maior r endimento da o peração (Figur a 3) relativamente à simples plantação manual. Em Portugal têm vindo a utilizar-se com sucesso. (Foto: Vasco Paiva). A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO este tipo de soluções é extensivamente utilizado noutros países (Figura 2).

observando-se que uma var iedade de macr o e micr o elementos podem limitar o crescimento. mais lenta ou mais rápida). incultos.XI. d) da gestão de r esíduos de exploração e e) do tipo de fer tilizantes disponív eis (nomeadament e quanto à taxa de libertação dos nutrientes. na medida em que condicionam a capacidade de t roca catiónica e. introdução de micorrizas. Fertilização De modo a garantir maiores taxas de sucesso e um crescimento inicial mais vigoroso. como a utilização de plantas mic orrizadas versus fer tilização. etc. As quantidades de n utrientes a aplicar são definidas em função das características do solo e das nec essidades específicas das plantas. há que identificar as necessidades em nutrientes. Tamm (1995) refere que o sucesso da florestação de novas áreas (solos agrícolas abandonados.) sendo a avaliação do efeito dos tratamentos baseada no crescimento do povoamento. áreas com restrições solo/clima) por vezes depende da aplicação de fertilizantes. adaptação e posterior crescimento (Corkidi et al. b) dos teores em argila e matéria orgânica. c onsequentemente. (2005) a t omada de decisão quant o à realização de fer tilizações de ve ser função: a) da qualidade da estação (profundidade do solo e características da rocha-mãe). na dinâmica e na disponibilidade dos nutrientes e noutras características indicadoras da qualidade da estação. utilização de r esíduos. a fer tilidade do solo pode ser melhor ada por diferentes formas como a fertilização directa ou outros meios (utilização de culturas leguminosas. É importante estudar e avaliar práticas cultur ais. não há uma valorização significativa do investimento). c) da dinâmica e disponibilidade de nutrientes pelo processo de miner alização da matér ia orgânica.. poderá ser de c onsiderar a possibilidade de aumentar a disponibilidade de nutrientes no solo através de práticas de fertilização. as per das de n utrientes por lixiviação. Os solos florestais em Portugal apresentam geralmente carências em azoto e fósforo o que. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 281 5. Para viabilizar economicamente a fertilização. De acordo com Gomes et al. 2008). c omo pr ocesso par a aument o da taxa de sobr evivência. combinado com o volume restrito de solo explorado .4. e os valores disponíveis no solo a partir dos quais o investimento em fertilização não é compensado em crescimento/produtividade (ou seja. Assim. estudando e avaliando o balanço solo/espécie/nutrientes para identificação dos valores aconselhados.

Factores críticos para o sucesso das plantações – experiências post-transplante Numa fase inicial. depende essencialmente da qualidade da plantação (selecção da espécie. A prévia análise de solos permite identificar quais as principais carências. Boro). tornando-a disponível para as plantas dur ante a primeira fase d o seu crescimento. têm vindo a ser estudadas técnicas auxiliares na instalação de povoamentos.g . tirando partido da descompactação do solo originada pela mobilização. recomenda que sejam fornecidos às plantas n utrientes através de fer tilizações adequadas. 2003).5. A utilização de um adubo de libertação lenta (com custo unitário superior). Com o objectivo de alargar o período de plantação e/ou de fazer face às inconstâncias meteorológicas durante a época da plantação. tipo de fertilizantes e r espectivas d oses. Cálcio . com menor d ose de az oto e potássio e. 5. qualidade da planta e processo de plantação) das características da estação e da evolução da meteorologia. Uma limitação significativa das plantações é a pequena janela met eorológica em que podem decorrer em Portugal.282 XI. pelo prolongamento do tempo seco.. entre as quais a rega. As incertezas da meteorologia associadas às alterações climáticas têm c om frequência atrasado a possibilidade de plantação no Outono. será sempre em menor quantidade. C omo r ecomendação ger al aponta-se par a uma fertilização de fund o fosfatada. Magnésio. reduzindo-se assim o custo da operação e o custo de transporte de adubo (Louro et al. e comprometido as plantações de P rimavera pelo súbito aparecimento de tempo quente e seco. dependendo das situações. A colocação do adubo de verá ser realizada no fund o da cova e separada das raízes por uma camada de terra ou em 2 covachos laterais. calcular as necessidades de nutrientes. 1991). Os polímeros de ligação cr uzada são . a aplicação de gel e o uso de pr tectores individuais. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO pelas raízes na fase inicial de cr escimento. o sucesso de uma acção de flor estação. o Os produtos designados como gel ou hidrogel são polímeros retentores de água que têm c omo objectivo manter o armazenamento da água no solo por mais t empo. preparação da estação. c om alguns micr onutrientes (e. O azoto beneficia em particular o desenvolvimento do sistema foliar. podendo ser colocado no fundo da cova junto das raízes. enquanto o fósforo contribui notoriamente para o aument o do sistema radicular (Santos.

numa solução de gel no moment o da plantação . sendo o seu objectivo principal a redução do número de regas (Silva. (International Paper e Votorantin Celulose e Papel) adoptaram a aplicação do gel em larga escala associada à rega das plantações.O processo consiste no essencial em mergulhar as raízes. c om caules . facto que também é r eferido por Peñuelas (2001) em Espanha. Posteriormente desenvolveu-se um sist ema de perfur ação nos tubos t endo em v ista provocar alguma v entilação. lesmas) que se alimentavam das folhas e dest ruíam as plantas. 2007). Em climas mais sec os. em ambientes mediterrânicos. As empresas de celulose (grupo Portucel-Soporcel/Raiz e grupo Altri) têm ensaiado a sua aplicação não sendo ainda conhecidos os seus resultados. alcançando-se temperaturas superiores a 50º C e valores de humidade relativa inferiores a 20% (Peñuelas. Por essa razão. Por um lado procurava-se defender a planta da acção d herbívoros. As experiências revelaram-se em geral desencorajadoras. 2001). Apesar de ainda não existirem resultados conhecidos da sua experimentação em Portugal. 1997). contrariamente aos polímeros de cadeia linear que se dissolvem na água. é de assinalar o acréscimo de cust os quer pela sua aplicação quer pela rega. No Brasil diversas empresas de celulose. Em zonas húmidas criava-se um ambiente propício à proliferação de moluscos (caracóis. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO 283 característicos por absorverem água e nutrientes solúveis. Por outro lado admitiu-se e difundiu-se que podiam induzir um melhor e maior cr escimento das plantas pelo que se desen volveram tubos c ompactos..XI. nas di versas experiências em Portugal e na maior par te das espécies verificou-se uma maior mortalidade nas plantas protegidas com tubos. Algumas e xperiências de utilização isoladas não revelaram sucesso. ou o torrão da planta. A utilização de tubos pr otectores nas plantas no moment o da sua instalação foi uma técnica que t eve uma grande expansão na década de 90. gerava-se no seu interior um microclima extremo no Verão. Em Portugal são escassas ainda as experiências de adição de gel nas plantações. os assunto que é t ratado noutro capítulo (Capítulo XII) e desen volveramse diversos tubos adequados a essa função. mas os efeit os nefast os manti veram-se gerando um movimento de ar por convecção que dessecava as folhas. No entant o c onstatou-se um estiolament o das plantas. Na espécie Quercus ilex verificou-se uma maior sobrevivência nas plantas protegidas com os r eferidos tubos (v er também N icolás et al.

Por estes motivos o entusiasmo inicial sobre a aplicação desta técnica foi diminuindo. Oñoro et al. 1997. Por outro lado existe algum consenso quanto ao papel que este tipo de estruturas podem desempenhar na protecção contra os animais. as plantas t ombavam pela acção d o mais le ve vento... 2001). Em par ticular os tubos protectores em rede mantiveram a sua aplicabilidade. neste caso não para o crescimento da planta. (2004) que r efere um aument o da sobrevivência de bolotas pré-ger minadas de Quercus ilex na r egião espanhola de Valência e um aument o do crescimento. Quando emergiam fora dos tubos as plantas ficavam com um desenvolvimento prostrado. A REGENERAÇÃO ARTIFICIAL EM ACÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS-INCÊNDIO demasiado finos no interior dos tubos. mas para protecção contra a acção dos herbívoros. No momento em que os tubos eram retirados ou se deterioravam pela acção do tempo. Peñuelas (2001) refere os estudos r ealizados pelo Cent ro Nacional de M ejora Forestal “El Ser ranillo” que também c oncluíram que o desen volvimento das plantas em tubos produz distorções no padrão de crescimento. .284 XI. Em todo o caso existem resultados contraditórios sendo de referir o t rabalho de P ausas et al. Vários autores coincidem na confirmação da e xistência de condições menos favoráveis dentro dos tubos do ponto de vista da micrometeorologia dado verificar-se durante o Verão uma maior temperatura e uma menor humidade relativa (Nicolás et al. alterando e desequilibrando as relações morfológicas e de massa entre a parte aérea e radicular.

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Introdução 2. A herbivoria como factor limitante na recuperação de áreas ardidas 3.1. Condução da regeneração natural 2. Minimização de factores adicionais de stress 3.3. Aproveitamento da regeneração natural 2.1.2. Gestão das populações de herbívoros 3. CATRY MIGUEL BUGALHO JOAQUIM SANDE SILVA PAULO FERNANDES 1.3. Efeitos dos herbívoros nas comunidades vegetais 3. Gestão de espécies exóticas invasoras . Vantagens e desvantagens da regeneração natural 2. Protecção da vegetação contra os herbívoros 4. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO FILIPE X.289 GESTÃO PÓS-FOGO: O QUE FAZER A SEGUIR AOS INCÊNDIOS XII.2.

nomeadamente a plantação e/ou sementeira. No Capítulo III abordaram-se diversas características adaptativas que permitem às plantas persistir após um incêndio Características tais como . tais como as práticas silvícolas utilizadas. 1996). o perigo de incêndio. e embora fogos muito severos criem oportunidades para o estabelecimento de novas espécies de plantas. Também nos casos em que o repovoamento da ár ea ar dida se ja feit o at ravés de plantação ou sement eira. Porém. é normalmente fundamental proceder a uma gestão adequada da vegetação de forma a garantir o seu sucesso de acordo com os objectivos estabelecidos. 2000). Qualquer acção de gestão bem-intencionada pode falhar por c ompleto se aqueles fac tores não forem antecipados e geridos correctamente (e. permitem que as plantas persistam mesmo após fogos de intensidade elevada (e. ou a pr esença de espécies v egetais invasoras. poderá ser nec essária uma gestão mais ou menos acti va da ár ea ar dida. Dependendo das características do local a recuperar e dos objec tivos estabelecidos. Aproveitamento da regeneração natural A recuperação da vegetação numa área ardida poderá ser feita através de diferentes métodos.g. enquanto que características como a germinação estimulada pelo fogo. Exist em ainda di versos factores. a presença de her bívoros. Bond and van Wilgen. Brown. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 1. 2. seja ela de origem vegetativa ou seminal. A int ensidade e a se veridade d o fogo têm uma g rande infl uência n a composição e est rutura da comunidade vegetal que surg irá inicialmente após o fogo. que podem interferir seriamente com os esforços para restabelecimento da vegetação após um incêndio. em geral nas áreas ardidas a vegetação natural tende a retornar à composição florística pré-incêndio (e.g. Introdução A gestão da vegetação que surge naturalmente após um incêndio. Brown. Neste capítulo abordam-se vários aspectos relacionados com a gestão da vegetação após um incêndio. 2000).g. ou através do aproveitamento da regeneração natural (e mais r aramente através de .290 XII. é um factor muito importante a considerar na recuperação de uma área ardida. a presença de pinhas serôdias ou de gomos subt errâneos. a presença de uma casca grossa ou folhagem resistente permitem que as plantas sobrevivam a fogos de intensidade reduzida ou moderada.

Basta para tal atentar no pouco relevo que tem sido dado a este assunto em muita da literatura técnica de base pr oduzida no nosso país (e. Para um aproveitamento efectivo e v iável da regeneração natural é evidentemente necessário que ela esteja presente. sendo e ventualmente nec essário r earborizar . pelo que nesta secção será dado maior ênfase ao aproveitamento da regeneração natural de espécies arbóreas.. O C apítulo XI abor dou diversos aspectos relativos à plantação e sementeira. 1982.XII. e que Silva (1988) descreve com detalhe. 2007a). em densidade suficiente e com as espécies dese jadas. 2002. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 291 técnicas mistas).. Silva e Páscoa.. sendo necessário um número suficiente de ár vores produtoras de semente na área ardida ou nas suas imediações. P orém e xistem excepções e essa r egeneração nem sempre é gar antida (por exemplo em povoamentos de sobreiro recentemente descortiçados onde a mortalidade poderá ser elevada). Já a maior parte das coníferas (resinosas) regeneram apenas por semente. N o caso de ár eas que ant es d o incêndio er am ocupadas por povoamentos florestais de espécies folhosas. Catry et al. não existem normalmente limitações pois a grande maioria dos indivíduos tenderá a regenerar por v ia v egetativa (e. 2. de raiz ou a partir da copa).1. No caso das espécies arbustivas e herbáceas ambas as formas de regeneração são frequentes. Vantagens e desvantagens da regeneração natural Em Portugal é frequente a ideia de que a recuperação de áreas florestais ardidas deve ser feita at ravés de plantações ou sementeiras. Na verdade não existe uma tradição em Portugal de aproveitamento da regeneração natural.g . Na bacia do Mediterrâneo a regeneração natural da floresta após um incêndio ocorre predominantemente por via vegetativa no caso das espécies folhosas (rebentação de toiça. e por via seminal no caso das coníferas (e. Louro et al. Cat ry et al. 2010). Ressalve-se porém o trabalho de condução da regeneração natural de pinhal bravo efectuado no passado pelos serviços florestais. Uma vistoria da ár ea ardida nos pr imeiros meses após o incêndio per mitirá avaliar a exequibilidade desta o pção. Alves. nem mesmo ao nível dos serviços técnicos do Estado.g . na ár ea a r ecuperar. sendo estas opções fr equentemente pr eferidas independent emente de ser ou não possível o aproveitamento da regeneração natural. 2003).g. Em pinhais jovens (com idade inferior a 15-20 anos) a regeneração natural poderá ser reduzida ou ine xistente.

bem como as retanchas necessárias para substituição das plantas que mor rem durante os primeiros anos. Considerando que numa plantação é frequentemente necessário substituir entre 10% e 20% dos indivíduos dur ante os pr imeiros anos. no caso de se optar pelo aproveitamento da regeneração natural. os custos serão nulos ou muito inferiores. a potencial utilização da regeneração natural dependerá também dos objec tivos de gestão (e. à excepção de um eventual corte das árvores queimadas.. O investimento associado a uma nova plantação (ou sementeira) é.. e permitem também a utilização de plantas e sement s selece cionadas ou melhoradas. Entre as despesas de curto prazo normalmente associadas a uma plantação estão o custo da maquinaria e mão-de-obra para preparação do terreno (podendo incluir a mobilização do solo. No caso de uma sementeira as despesas associadas poderão ser inferiores às de uma plantação. mais elevado do que o aproveitamento da regeneração natural (e. Essa nec essidade poderá também existir no caso de se v erificarem c ondições ambientais ad versas que impeçam o regular estabelecimento das jovens plântulas.compasso.g. . No entanto.. o corte das árvores queimadas e o arranque de cepos). quer do ponto de vista económico.292 XII. esta o peração pode ainda representar um acréscimo sig nificativo dos cust os totais associados à reflorestação de uma área ardida. da mão-de-obra necessária para o transporte das plantas e para a abertura da cova de plantação. estrutura e composição dos futuros povoamentos. 2007a). o custo das plantas e do adubo. o que nalguns casos poderá ser det rminante na e escolha da técnica a utilizar . quer do ponto de vista ecológico e social (e.g. em geral. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO através de sement eira ou plantação . em m uitos casos o apr oveitamento da regeneração natural que surge após um incêndio pode ser uma opção bastante mais vantajosa. 2006). Estas opções permitem geralmente um melhor controlo sobre a densidade. Catry et al. 2006. pelo facto de não ser necessário proceder às diversas operações anteriormente mencionadas. Em contraste. A plantação ou a sementeira poderão ser as únicas opções viáveis quando na recuperação da área ardida se pretende por exemplo introduzir espécies anteriormente ausentes ou presentes em baixas densidades (nesse caso deverá ter-se em atenção a legislação que limita a substituição de espécies florestais em áreas ardidas).g . Por outro lado. dependendo das técnicas utilizadas. Vallejo et al. Vallejo et al. pr odução ou c onservação).

Outra possível desvantagem da plantação ou sementeira é o facto de frequentemente se utilizarem plantas e sementes provenientes de outras regiões e que poderão estar menos adaptadas às c ondições climáticas e edáficas do local a r ecuperar.XII. . devido à elevada densidade de plântulas que frequentemente surge após um incêndio. e o controlo dos matos (ver secção 2. embor a os desbast es possam ser mais e xigentes no caso da regeneração vegetativa das espécies folhosas. quer seja vegetativa ou seminal. o que constitui também uma grande vantagem ao nível da sua capacidade de sobrevivência (ver Caixa 1). Enquanto a plantação ou sementeira geralmente só se inicia vár ios meses ou anos após o incêndio.. e xistem out ros fac tores muit o importantes a ter em consideração quando se equacionam as vantagens e desvantagens dos diferentes métodos na recuperação da vegetação de uma área ardida. sementeira ou aproveitamento da regeneração natural). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 293 Entre as principais acções de gestão dos povoamentos a médio ou longo prazo. Por outro lado. a regeneração natural. a velocidade de crescimento dos indivíduos é normalmente muito superior à das plantas semeadas ou plantadas (e. Tendo em conta que na maior par te dos casos o pr incipal objectivo após um incêndio é r estabelecer o mais depr essa possível o coberto vegetal existente antes do fogo. et al. Deste modo. Para além dos cust os ec onómicos.g Moreira . Bond and van Wilgen. uma das principais vantagens do aproveitamento da regeneração natural é a maior r apidez do processo de recuperação da área ardida. 1996). sem a necessidade de proceder a mobilizações.2). Este maior crescimento deve-se ao fac to de os indi víduos possuírem um sistema radicular já bem desenvolvido e reservas energéticas acumuladas (e. 2009). no caso da regeneração vegetativa de espécies folhosas. incluem-se os desbastes. Estas acções são fr equentemente necessárias independentemente da técnica utilizada (plantação. e poderem ser também (tal c omo a t erra dos contentores) um v ector de disseminação de agent es patogénicos.g. inicia-se normalmente no espaço de poucas semanas. as podas. o que fr equentemente se desaconselha em terrenos declivosos por potenciar os processos erosivos. a regeneração natural assegura muito mais rapidamente a cobertura e protecção do solo contra a erosão. ou no caso da regeneração seminal de coníferas (resinosas). devido à possível necessidade de seleccionar os múltiplos rebentos basais em cada indi víduo (operação normalmente designada como monda).

f oi bas tante razoável. após quase dois anos. O dado mais significativ o foi que entr e as árvores sobreviventes. mas inf erior à das árv ores queimadas pré-e xistentes. Mais detalhes sobre este trabalho podem ser consultados em Moreira et al. Es tes resultados sugerem que. PROPORÇÃO DE ÁRVORES VIVAS 1. o crescimento em altura foi duas a cinco vezes superior na regeneração de toiça.8 0. Paralelamente.. Uma desvantagem não menos importante tem a ver com o fac to de a int rodução de plantas de out ras regiões induzir poluição genética que se poderá t raduzir na dimin uição ou mesmo extinção das r aças locais.6 0. o que constituiu uma oportunidade para comparar a eficácia destas duas formas de restauro pós-fogo (passivo e activo). (Gráficos adaptados de Moreira et al. no caso de espécies arbór eas que regenerem após o fogo de forma vegetativa. A sobr evivência das árv ores plantadas. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO nomeadamente fungos.294 XII. relativamente ao crescimento das árvores plantadas (Figura 1). respectivamente) versus o aproveitamento da regeneração natural (barras negras) para freixos e carvalhos. À DIREITA: Altura mediana (e distância interquartis) dos freixos e carvalhos plantados em 2004 e 2005 (círculos negros e círculos brancos. respectivamente) versus a altura dos rebentos de toiça das árvores em regeneração (quadrados negros). em particular no caso dos carv alhos (Figura 1).2 0.0 0. 2009). REGENERAÇÃO NATURAL DE TOIÇA VERSUS PLANTAÇÃO : SOBREVIVÊNCIA E CRESCIMENTOS CAIXA 1 Na sequência de um incêndio na T apada Nacional de Mafr a. foi monitorizada a sobrevivência e r egeneração vegetativa de fr eixos ( Fraxinus angustifolia) e carvalhos (Quercus faginea) cuja copa foi destruída pelo fogo.0 FREIXO CARVALHO 300 250 (cm) ALTURA 200 150 100 50 0 FREIXO CARVALHO FIGURA À ESQUERDA: 1 Sobrevivência de árv ores (freixo e carv alho-português) plantadas em 2003 e 2004 (barras brancas e cinzentas. (2009).4 0. os ges tores da T apada ef ectuaram plantações c om es tas espécies. sementes e terra provenientes da região onde se pretende intervir. após 20-22 meses. Estas pot enciais desvantagens poderão ser eliminadas ou substancialment e r eduzidas através da utilização de plantas. . a regeneração natural possibilita maiores taxas de sobrevivência e maiores crescimentos do que plantações.

que aparece frequentemente em grande profusão nas áreas ardidas anteriormente ocupadas por pinhal adult o. Por vezes ter-se-á que aguardar algum tempo para decidir que espécie aproveitar. A partir do momento em que se define a espécie ou espécies a pr ivilegiar. Árvores maiores têm em geral uma casca mais espessa e uma base das c opas mais alta.XII. como forma de gar antir uma maior resistência ao fogo e uma menor c ombustibilidade (Fernandes e Rigolot. o mais cedo possível. Vários autores apontam o estad o de matur ação das florestas como um factor fundamental de r esistência ao fogo. 2006. c om v ista ao estabeleciment o de um povoamento puro para produção de lenho. 2009). 2007).. Um dos casos mais comuns é o aproveitamento da regeneração natural de pinheiro-bravo. De entre as espécies com porte arbóreo que regeneram naturalmente. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 295 2. . o por te final que conseguirão atingir e o fact o de a r egeneração ser de or igem seminal ou vegetativa. 2005. o que faz aumentar a sobr evivência em po voamentos percorridos pelo fogo. Román-Cuesta et al. deverá favorecer-se o crescimento da r egeneração natur al at ravés de acções que passam pela selecção das plantas. 2009). povoamentos de ár vores adultas menos susc eptíveis ao fogo.2.. acompanhada pela gestão do combustível de superfície. Esse objectivo consiste em favorecer o crescimento da regeneração no sentido de obter. por exemplo. Para além dest e objectivo geral. pois a obser vação da área queimada pouco tempo após o fogo poderá não dar indicações suficient es sobre as espécies que irão r egenerar por sement e nos anos seguint es.. Condução da regeneração natural A condução da regeneração natural de n uma área queimada de verá reger-se por um objecti vo de base. pela int ervenção em r edor de cada planta e pela intervenção sobre as próprias plantas. A regeneração vegetativa tem normalmente uma taxa inicial de crescimento muito superior (Moreira et al. poderá existir um interesse exclusivo apenas n uma delas. González et al. Há igualment e que t er em c onta a velocidade de cr escimento das difer entes espécies.. há no entant o que definir o tipo de utilização florestal que se pretende para a área queimada. Neste caso particular é apontada uma outra estratégia que passa pela abertura do povoamento. Em florestas mais madur as a incidência e se veridade do fogo tendem a ser menor es (Ordóñez et al. que por sua v ez deverá condicionar todas as operações a realizar.

Existem ainda outros métodos baseados na medição de distâncias que poderão ser vantajosamente utilizados. como sejam os vales e os so pés das encostas em geral. 1956. alguns anos após o fogo. P ara além da utilização de parcelas de amostragem. par a estimar a densidade de plântulas de espécies lenhosas em áreas queimadas. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO Selecção A selecção de plantas é uma questão fundamental no apr veitamento o da regeneração natural dado que as decisões iniciais irão influenciar todo o restante processo de recuperação da vegetação. A escolha das áreas onde intervir deve também considerar o potencial de crescimento da regeneração natural. 2009). Dest e mod o a densidade de plantas de ve ser a valiada pr imeiro para determinar o potencial par a a c onstituição de um po voamento flor estal.296 XII. com um coberto arbustivo já estabelecid o. Devem ser pr ivilegiadas situações de maior fer tilidade e que c onsequentemente correspondam a maior es taxas de crescimento da vegetação. Esse potencial é completamente diferente se a área seleccionada se situar junto a uma linha de água ou na cumeada de uma z ona montanhosa. pois dispensam a delimitação de par celas no campo e post erior c ontagem int egral d os indi víduos (Cottam e Curtis. 2001). O aproveitamento da regeneração natural em linhas de água deverá ser uma prioridade. Existem no entanto situações de deg radação da vegetação ripícola em que o restauro activo é a única abordagem capaz de garantir o sucesso da intervenção. 2010). P ara tal poderão utilizar -se difer entes mét odos. Este método pode ser utilizado par a avaliar densidades de plântulas em situações de difícil detecção. quer pelo motivo apontado. Antes da selecção de indivíduos convêm identificar as ár eas a int ervir. existem métodos mais expeditos com medição de distâncias. que per mitem um maior r endimento d o t rabalho no campo.. . Zhu e Zhang. Esta questão é m uito importante porque o investimento só deve ser efectuado se a densidade de plantas e o pot encial de cr escimento o justificar em. quer porque a reconstituição de galerias ripícolas de espécies folhosas com descontinuidade vertical poderá ser uma est ratégia vantajosa par a contrariar a propagação e dimin uir a se veridade do fogo (F ernandes et al. Silva e R ego (1998) utilizar am um mét odo de amost ragem à distância (distance sampling). inicialmente desenvolvido para a realização de censos de animais (B uckland.

mais onerosas mas também mais selectivas. pelo que em muitos casos apenas são possíveis intervenções com o uso de motoroçadora. No caso de uma grande abundância de regeneração como acontece frequentemente em pinhais queimados. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 297 Após escolhida a área a intervir deverão ser seleccionadas as plantas dentro do leque de espécies a aproveitar. 2006).XII. Intervenção em redor das plantas seleccionadas Uma das maior es preocupações é dimin uir a c ombustibilidade da formação vegetal de modo a que o fogo não venha a destruir a regeneração natural e dessa for ma a comprometer os objec tivos em v ista. No entanto existem frequentemente dificuldades físicas concretas em aceder às plantas.. À partida deverão ser escolhidas as plantas de maior porte.. As plantas escolhidas deverão idealmente ser sinalizadas. Gómez-Aparicio et al. Na verdade a vegetação arbustiva poderá ser de tal forma impenetrável (presença de plantas espinhosas por exemplo) que poderá impedir o acesso dos operadores encarregados de fazer essa marcação em toda a área a tratar. 2002). e deverá conduzir-se o povoamento para uma estrutura regular o que aumenta descontinuidade vertical de combustíveis e reduz a combustibilidade (González et al. Simultaneamente conseguem-se libertar as plantas da concorrência pela luz. é aconselhável a remoção mecânica de linhas contínuas de plantas intercaladas com linhas mais est reitas sem int ervenção ou c om intervenção moto-manual (Louro et al. (2005) a examinar a viabilidade do fogo controlado como técnica alternativa de limpeza e desbaste da regeneração natural de pinheiro bravo. 2004). com excelentes resultados (Caixa 2). Trata-se de uma prática c om uma justificação acr escida sempr e que se o pte por c ontrolar a v egetação arbustiva concorrente. água e nutrientes. 1999.. A intervenção mecanizada pode ser difícil dada a irregularidade da distribuição das plantas no terreno. . Os elevados custos destas operações levaram Fernandes et al. se bem que as e vidências sobre os r eais benefícios a est e respeito sejam contraditórias (Vilà e Sardans. Em todo o caso trata-se sempre de uma intervenção onerosa e difícil de pôr em prática tendo em conta as condicionantes mais comuns neste tipo de situações.

com um decréscimo par a metade da intensidade do f ogo em D . < 2.9 m. enquanto na z ona adjacente não intervencionada (T) 45% dos indivíduos apr esentavam DAP inferior a 2. N) por classe de DAP e da densidade (N) por andar arbóreo nas parcelas de desbaste (D) e testemunha (T). 16 D 12 m2 ha -1 8 4 0 ÁRVORES MORTAS T G. Note-se também o substancial aumento da área basal (44%) na classe de DAP dos 20 cm em D relativamente a T. representando 58% e 108% dos valores observados em T.5 5 10 15 20 CLASSE DE DAP 1000 500 0 INFERIOR INTERMÉDIO SUPERIOR (cm) FIGURA ANDAR 2 Repartição da densidade (G. onde não se r egistou qualquer mortalidade. Um desbaste térmico (através de fogo controlado) só será efectivo em formações com uma v ariação razoável de diâmetr os e dimensões.5 5 10 15 20 CLASSE DE DAP (cm) 2500 2000 1500 N 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 < 2. o dano foi generalizado em T tendo as árvores sido cortadas (Figura 2). As des vantagens do fogo controlado face a uma limpeza convencional são evidentes. Quatro anos e meio depois. . O númer o de indivíduos por hectar e e altura dominante cifravam-se na zona D respectivamente em 2800 ha-1 e 10. nomeadamente a pouca precisão na selecção dos indivíduos a eliminar e na definição da densidade residual. e a quase ausência de c ontrolo sobre o espaçamento das árvores. pelo contrário. caso c ontrário a grande maioria dos indivíduos sucumbirá ou sobr eviverá.298 XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO CAIXA 2 EFEITO DE UM DESBASTE TÉRMICO EM REGENERAÇÃO NATURAL DE PINHAL BRAVO Um pinhal bravo na serra do Alvão com 14 anos de idade e estrutura irregular foi sujeito a fogo controlado. Um incêndio percorreu o pinhal pos teriormente. . (2005). Informação adicional sobre este trabalho pode ser consultada em Fernandes et al.5 cm (Figur a 2). os pinheir na zona tratada os (D) distribuíam-se normalmente pelas clas ses de diâmetr o.

aumentar a humidade e reduzir a l uminosidade no int erior do povoamento para dificultar o crescimento do sub-bosque. A manutenção destas condições consegue-se. de modo a reduzir a velocidade do vento.. dependendo dos objectivos de gestão.. O uso de sim uladores do comportamento do fogo per mite desenhar intervenções de desr amação e desbaste que minimizam a probabilidade de fogo de copas em resinosas. 2005) a qual não coincide forçosamente com os critérios relacionados com a pr evenção de incêndios. Para o pinheiro-bravo existem tabelas para a regulação dos desbastes de acordo com as classes de qualidade da estação (Al ves. onde o t eor de h umidade do solo é maior dur ante o período óptimo de crescimento vegetativo. Oliveira et al. A intervenção será obviamente diferente consoante se trate de plantas de regeneração vegetativa ou quando se trate de plantas pr ovenientes de r egeneração seminal. Intervenção sobre as plantas seleccionadas Trata-se aqui de cumpr ir dois objectivos: por um lad o melhorar a conformação da planta de modo a favorecer o seu crescimento em altura. Carvalho. por outro criar descontinuidades verticais de modo a diminuir os danos causados por um eventual fogo.XII.g. dependem da espécie em questão. Para outras espécies. 2006. Fernandes et al. 2009).. a infor mação a este respeito é muito mais escassa e igualment e vocacionada para uma optimização do ponto de vista da produção de lenho (e. r eduzir o potencial de fogo de c opas e aumentar a r esistência individual ao fogo. de modo a favorecer as plantas com melhor c onformação e melhor pot encial de cr escimento. N o pr imeiro caso . Estas condições são mais rapidamente atingidas quanto mais favoráveis forem as condições para o crescimento da regeneração natural e no nosso país c orrespondem sobretudo a exposições norte e oeste e à base das enc ostas. nomeadamente as folhosas. Quanto aos critérios de regulação dos desbastes a aplicar. Silva et al. poderá ser feita uma selecção dos . Fernandes. 2001. 2001. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 299 Numa fase mais avançada de desenvolvimento haverá que ponderar a necessidade de efectuar desbastes. 2009. 1982). como já referimos... 2010). em povoamentos mais maduros os quais têm sid o associados a uma menor se veridade d o fogo c om menores danos na vegetação arbórea dominante (Román-Cuesta et al. Em formações de menor combustibilidade poderá ser vantajosa a manutenção de um coberto denso (Colin et al.

1950. Carvalho.. Est e cr escimento poderá ser ainda estimulado através da manutenção de densidades elevadas de vegetação. No entanto este tipo de medidas implicam a manutenção de uma continuidade horizontal nos combustíveis prolongando assim o período em que risco de fogo severo é elevado. A intervenção nas plantas poderá revestir-se de alguma complexidade técnica no caso de ser necessário conformar a copa. Os custos associados Os custos associados à condução da regeneração natural poderão ser elevados. 1988. mesmo quand o se t rate de mer a intervenção ao longo d o fuste. 1993. P or e xemplo. Louro et al. Se existirem dois lançamentos terminais a competirem pela dominância apical. 1996. (2010) mostram como é vulnerável ao fogo a regeneração natural de carvalho negral (Quercus pyrenaica) e o interesse em acelerar a aquisição de r esistência ao fogo e r eduzir a c ombustibilidade das formações. 2001. Oliveira et al. nomeadamente tendo em vista o aproveitamento económico da cortiça ou da produção de fr uto. 2005). Louro et al. 2003) ou mais dirigida para as espécies de interesse florestal (Natividade.. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO rebentos de toiça de modo a favorecer os mais vigorosos. Algumas normas técnicas a seguir quanto à execução de desramações e podas de formação podem ser encontradas em literatura técnica diversa produzida de for ma mais genér ica (Montoya. Montoya. Oliveira et al. de verá ser mantid o apenas um deles de mod o a acelerar o cr escimento em altur a. Est e tipo de int ervenções t em a desig nação de podas de formação muito embora alguns autores utilizem a designação de forma abrangente. No caso de plantas de regeneração seminal apenas se terá que intervir ao nív el d os r amos d os andar es infer iores at ravés da r ealização de desramações.. Seguidamente deverão ser removidos os ramos dos andares inferiores de modo a atingir os objectivos atrás referidos. Há no entant o que ponder ar a impor tância dest es in vestimentos na medida em que poderão faz er a difer ença entre a possibilidade de voltar a t er um c oberto florestal ou o simples r etornar ao início da suc essão ec ológica de vido à acção d o fogo . 2000.. Fernandes et al.300 XII. Os custos associados às várias operações para aproveitamento da regeneração natural constam na Tabela 1 (preços propostos para 2008- . nomeadamente com indivíduos da mesma espécie. 2002.

tais c omo a ocorrência de condições meteorológicas desfavoráveis. Para além das operações descritas na presente secção.74 1078. são imprevisíveis e não poderão ser c ontrolados. embora no caso das podas estas possam ser generalizáveis a outras espécies.39 107.XII.87 0. A poda e o descortiçamento As práticas silvícolas aqui mencionadas aplicam-se essencialmente a povoamentos florestais de folhosas e aos casos em que pelo menos parte da copa sobrevive ao fogo. As considerações apresentadas referem-se à gestão dos povoamentos de sobreiro por ser uma folhosa espécie particularmente representativa em Portugal.pt/site/pdf/matrizes0809. Porém o stress adicional provocado por determinadas práticas silvícolas ou pela her bivoria podem ser minimizados ou evitados.44 323. O planeamento das operações a realizar no aproveitamento da regeneração natural poderá incluir todas ou apenas algumas das operações referidas.3.22 1078. 6 1 269. incluíram-se por conveniência as operações especificamente associadas ao c ontrolo de plantas e xóticas.44 1.anefa.94 359. TABELA 1 CUSTOS POR HECTARE REFERENTES A 2008/09 PROPOSTOS PELA COMISSÃO DE ACOMPANHAMENTO DAS OPERAÇÕES FLORESTAIS . RELATIVOS A OPERAÇÕES ASSOCIADAS AO APROVEITAMENTO DA REGENERAÇÃO NATURAL TIPO DE OPERAÇÃO Sinalização da regeneração natural Controlo da vegetação espontânea total Controlo das plantas lenhosas invasoras (pincelagem) Controlo das plantas lenhosas invasoras (corte) Controlo de densidade excessiva Desramação * MÍNIMO MÁXIMO 26. www.48 6 1. Minimização de factores adicionais de stress Após um incêndio as ár vores sobreviventes encontram-se em ger al mais debilitadas.zip).50 * Custos por planta 2. sendo mais susceptíveis a factores adicionais de st ress que podem c onduzir à sua mor te. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 301 -2009 pela C omissão de Acompanhamento das Oper ações Florestais – CAOF. . 22 539. 6 1 89. Alguns desses fac tores.

devem considerar-se não só os aspect os económicos de cur to prazo mas também. os aspectos silvícolas associados à manutenção do vigor e potencial produtivo das ár vores no futuro. para restaurar os tecidos danificados (e.. as probabilidades de produzir feridas no entrecasco durante o descortiçamento aumentam significativamente (Amo e Chacón. Em Portugal não é permitido extrair cortiça com menos de nove anos de idade. a idade da c ortiça no momento do fogo. bem como das restantes funções associadas. poderão criar novas exigências e originar situações de grande debilidade. r eduzindo a altur a de desc ortiçamento e deixando as ár vores em que a c ortiça não ceda facilmente. Segundo estes autores. as árvores dispõem de reservas energéticas. podendo assim a decisão ser bastant e subjectiva. Quando a cortiça tem menos de 2 cm de espessura. uma publicação técnica r ecente (DGRF. entre as quais se incluiu recentemente o descortiçamento de sobr eiros queimados após verificação da sua recuperação (DL nº 155/2004). Adicionalmente muitas pragas e doenças oportunistas aproveitam esta debilidade e as feridas abertas para progredir onde em circunstâncias normais não o poderiam fazer (Cardillo et al. la Madera y el C arbón Vegetal) é mais explícito e recomenda que se deve esperar até que a copa tenha recuperado cerca de 75% do volume existente antes do fogo. Em geral. e pr incipalmente. salvo raras excepções sujeitas a aut orização. os factores determinantes para essa decisão de verão ser a se veridade do fogo. Porém determinadas práticas silvícolas como a poda e o descortiçamento. Porém não existe na lei qualquer referência ao que se ent ende por r ecuperação d os sobreiros afectados. mas ainda assim poderão surg ir dúvidas na aplicação desta r ecomendação. Uma das questões mais controversas em relação aos sobreirais afectados pelo fogo relaciona-se com o momento do primeiro descortiçamento após o incêndio. as folhas da copa) e para cicatrizar as feridas. É também . o descortiçamento deve fazer-se no início da época e de for ma c onservadora. Apesar desta lacuna. 2006) recomenda que o descortiçamento só deve ser efectuado em árvores que tenham pelo menos 75% da copa revestida com folhagem. 2007). 2003). Em Espanha o IPR OCOR (Instituto del Corcho. 2007). e o vigor das árvores (Cardillo et al.. quando realizadas nos anos imediatamente após o fogo. e que a cortiça tenha um calibre de pelo menos 2 a 3 cm de espessura. principalmente na forma de amido.302 XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO Após um incêndio.g. Para decidir qual o moment o mais adequad o par a extrair a cortiça.

respectivamente). este período de t empo de espera entre as duas operações é de três anos. Em Portugal não é permitido extrair cortiça nos dois anos após uma poda (nos sobr eiros e xplorados em pau batid o). A Lei estabelece assim um período mínimo de separ ação entre duas o perações que r econhecidamente causam stress às árvores. enquant o em sobr eiros não int ervencionados (g rupo de controlo) a percentagem de plantas inviáveis foi entre quatro e duas vezes inferior (cerca de 18% a 38%. registou-se uma percentagem de plantas inviáveis de 72% a 80% (ár vores mais jovens e menos jo vens. sem fogo). não send o também permitido efectuar podas nos d ois anos após o desc ortiçamento (DL nº 169/2001). 2003). seria prudente definir objecti vamente as condições a observar antes de proceder à extracção da cortiça ou.. Outros factores As mobilizações d o solo após um incêndio de verão ser e vitadas sempre que possível ou reduzidas ao mínimo. quer porque aumentam . 2007).XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 303 possível reduzir os danos por c orte do entrecasco se o desc ortiçamento for efectuado por trabalhadores experientes ou através da utilização de máquinas de descortiçamento automático. Relativamente à r ealização de podas em ár vores afectadas por incêndios a situação é semelhante. respectivamente) em sobreiros cuja copa foi podada alguns meses após o incêndio. mas que este é obtido à custa da vitalidade da árvore e conduz ao seu envelhecimento prematuro. Tendo em conta que os incêndios causam frequentemente nas árvores uma desfoliação da copa e feridas tão ou mais severas do que as provocadas por uma poda. Natividade (1950) refere ainda que a prática do descortiçamento constitui um forte estímulo para a produção suberosa. Em Espanha (Extremadura). a extracção da cortiça constitui um factor de debilidade para as ár vores.e. 1950). tal como acontece no caso das podas. Num estudo realizado na Sardenha (Itália) sobre a recuperação pós-fogo de sobreiros em exploração (Barberies et al.. para que estas possam recuperar (Cardillo et al. mesmo em condições normais (i. tornando-as mais susc eptíveis aos agent es bióticos e abióticos (Natividade. pelo que não é aconselhável proceder a este tipo de intervenções nos primeiros anos após o fogo. De facto. estabelecer um período mínimo de intervalo entre o fogo e o descortiçamento seguinte.

304 XII. cabras. densidade de animais n um dad o períod o de tempo) para níveis compatíveis com o desenvolvimento das espécies de plantas existentes. muflões). ratos.g. No caso de existirem densidades de animais incompatíveis com o sucesso da regeneração numa área ar dida. ou silvestres (e.. cavalos). A herbivoria pode ser um importante factor limitante da regeneração natural em áreas ardidas (e. é normalmente necessário intervir.g. 2007a). coelhos. 3. corços. gamos. insectos). como a dest ruição da r egeneração de t oiça ou r aiz que ent retanto se começou a desenvolver. A herbivoria como factor limitante na recuperação de áreas ardidas Os grandes herbívoros ruminantes.e.g. nomeadamente em situações de pós-incêndio altur a em que as plantas se enc ontram muito susceptíveis ao pastoreio. Se o past oreio ocorrer demasiado cedo após o incêndio pode reduzir ou mesmo eliminar a v egetação que se pr etende estabelecer (Brown. . sob pena de comprometer todo o processo de recuperação da vegetação. nesta secção c oncentramo-nos apenas sobre os g randes herbívoros ruminantes. por serem aqueles que frequentemente têm um maior impacte na vegetação após um incêndio. As questões relacionadas com a herbivoria são abordadas em mais detalhe na secção seguinte. Catry et al.g. A regeneração de semente que muitas vezes surge após um incêndio também pode ser destruída por estas mobilizações. 2000). podem ter um impacte muito significativo sobre a vegetação. Os potenciais danos directos provocados pela mobilização de solo sobre as plantas sobreviventes incluem tanto a destruição das raízes superficiais. poderá o ptar-se pela r edução da carga animal. poderá constituir a solução ideal do ponto de vista da recuperação da vegetação durante os pr imeiros anos após o incêndio . A redução das cargas animais (i. veados. Quando existem populações abundantes de g randes herbívoros nas imediações das áreas ardidas. domésticos (e. ou pela protecção de “áreas de regeneração” ou protecção individual das plantas. ovelhas. Embora existam inúmeras espécies de her bívoros mais pequenos que também podem afectar o desen volvimento da vegetação (e. vacas. quer por que e xiste o per igo de aumentar ainda mais os danos nas plantas que r esistiram ao fogo . GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO frequentemente o r isco de er osão.

as partes verdes das plantas relativamente às partes secas.g. 1994. 1989. Catry et al. Bugalho. e as espécies de porte alto relativamente a espécies de porte mais rasteiro. Os grandes herbívoros preferem as folhas aos caules. sendo nesses casos nec essário adoptar outras medidas. Após o fogo as principais espécies vegetais a regenerar são inicialmente muito deficitárias em defesas físicas e químicas. cuja dieta dominante varia entre herbáceas e lenhosas em função da var iação da disponibilidade saz onal. Fuller.XII. Caso as espécies seleccionadas preferencialmente sejam dominantes. Por outro lado. o consumo das plantas pelos herbívoros vai também alterar a estrutura da comunidade (e. 1991.g. A selecção de determinadas espécies provoca a diminuição da frequência destas na comunidade vegetal (e. 2003). ovelhas). corço. 2006). sendo particularmente .g. Estes efeitos manifestam-se sobr etudo através da selecção alimentar que depende da disponibilidade de plantas existente em dado momento. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 305 Porém isso pode não ser possív el ou compatível com os objectivos de gestão da área em causa. podendo est e efeito estender-se até ao topo da cadeia alimentar (Bugalho. desde insec tos a aves e mamífer os. então a sua diminuição na comunidade poderá induzir o aparecimento de espécies anteriormente dominadas e até aumentar a diversidade florística da comunidade. Na Bacia do Mediterrâneo a dieta d o veado é constituída por proporções elevadas de lenhosas durante o verão. Bugalho et al. tais como a protecção das plantas. estrutura. ou a cabra) e ruminantes que consomem sobretudo herbáceas (e. No grupo dos herbívoros ruminantes a pr incipal divisão é ent re espécies que têm dietas predominantemente de tipo lenhoso(e. 1995). Existem ainda espécies. 3.1 Efeitos dos herbívoros nas comunidades vegetais Os herbívoros podem alterar a composição florística. 2007b). como o veado.. O conhecimento das estratégias alimentares dos herbívoros ocorrentes na área e o controlo da carga animal é pois essencial na gestão da vegetação pós-fogo e na recuperação de áreas ardidas. enquanto que na Primavera é predominantemente constituída por herbáceas (Bugalho e Milne. 2001). produtividade e ciclo de nutrientes das comunidades vegetais (Huntly.g. altura média e densidade de plantas) e c onsequentemente alterar o habitat de outras espécies. Espécies de her bívoros diferentes têm c omportamento e est ratégias alimentares (isto é o modo como seleccionam plantas) também diferentes (Hoffman.

cálcio). fósforo. Figura 3).306 XII. têm nor malmente va lores de digestibilidade ele vados e são muito atractivas para os grandes herbívoros que as incluem preferencialmente na dieta (Hobbs. 4 CONTEÚDO EM AZOTO 3 2 1 % DE MATÉRIA SECA 0 JUNHO JULHO AGOSTO SETEMBRO 60 DIGESTIBILIDADE IN VITRO 40 20 0 JUNHO JULHO AGOSTO SETEMBRO DATA DE AMOSTRAGEM Não ardido. verde Ardido. . com disponibilidade de nutrientes elevada e competição reduzida. Adaptado de Hobbs et al. (1991). GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO susceptíveis ao pastoreio. 2007.g. o fogo provoca libertação de nutrientes (antes imobilizados na vegetação) que são devolvidos ao solo sob a forma de cinzas (e. As primeiras espécies vegetais a despontar. verde Não ardido. Adicionalmente. É por esta razão que a densidade de her bívoros aumenta fr equentemente em ár eas r ecentemente ardidas (Figura 4). seco FIGURA 3 Valores de concentração média de azoto e digestibilidade in vitro de biomassa vegetal de pastagens com e sem fogo controlado. potássio.

Em sist emas mediterrânicos. sobretudo durante a primeira estação de crescimento após o fogo. Os efeit os d o c onsumo fr equente de difer entes par tes de plantas traduzem-se n uma alt eração da est rutura da v egetação.. Por exemplo as espécies lenhosas mais c onsumidas dimin uem ou podem mesmo desaparecer em zonas com cargas elevadas de cervídeos. . da severidade do fogo e da intensidade do pastoreio. provocados pelos her bívoros. (2003). 1966). os efeitos vão desde o achaparramento das árvores mais baixas. Os herbívoros podem ainda afectar indirectamente determinadas espécies ao alterarem o balanço competitivo entre espécies.XII. Dependendo da comunidade de plantas em causa. o sobr eiro ou out ros carvalhos. As ac tividades que têm maior impac te são aquelas que implicam c onsumo dir ecto (int egral ou não) das plantas e d os se us orgãos reprodutores ou propágulos. poderá causar danos graves às plantas. A utilização int ensa de plantas per enes por par te de her bívoros domésticos ou silvestres. Os efeitos. 2000). sobre a vegetação lenhosa são di versos. em benefício de outras menos pr eferidas ou mais r esistentes (Bonnet e Klein. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 307 100 (%) 80 60 40 a) b) BOVINOS EM PASTOREIO QUEIMADA QUEIMADA NÃO QUEIMADA 20 NÃO QUEIMADA 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 0 1 2 3 4 5 6 7 8 TEMPO (HORAS PÓS MEIO-DIA) FIGURA 4 Percentagem média de animais em pastoreio em parcelas com e sem fogo controlado em a) 74 dias após o fogo e b) 83 dias após o fogo. e em espécies c omo a azinheir a. poderá ser necessário esperar entre um e mais de sete anos após o fogo par a que a vegetação recupere suficientemente para poder ser no vamente submetida a uma utilização past oril (Brown. Adaptado de Laterra et al.

1993). 3. exceptuando as espécies que desen volveram um sistema de disseminação endozoócora (através do sistema digestivo de certos animais). ou o consumo crescente de espécies que se sabe ser em de valor nutritivo baixo ou até tóxicas (Garcia-Gonzalez e Cuartas. ser consideráveis. No que se r efere ao consumo massivo de sementes e plantas jo vens. Existem diversos indicadores que poderão auxiliar o gest or nessa a valiação. em certos casos. Os prejuízos económicos que daí advêm podem.2 Gestão das populações de herbívoros Devido aos impactes que os herbívoros podem ter sobre a vegetação. 1993). Relativamente ao consumo de rebentos. mas as ár vores reagem mal a um consumo repetido do rebento terminal. 1999. 1966). muitas espécies de plantas suportam bem um c onsumo ligeiro.308 XII. a ár vore fica totalmente deformada e em certos casos acaba por secar e morrer (Bonnet e Klein. este pode traduzir-se numa acentuada redução ou mesmo na ausência de r egeneração. Orueta et al. 1992) podem indicar uma situação de pastoreio excessivo. O excesso de pastoreio .. Quando t odos os r ebentos são afec tados.. 1993). Bonnet e Klein (1966) referem que o c onsumo de plantas jo vens ou r ebentos de ár vores é o principal estrago provocado pelos cervídeos na floresta. sobretudo a azinheir a devido à qualidade da sua bolota e pelo facto de existir frequentemente em zonas com cargas elevadas de herbívoros (Orueta et al. c om o c onsequente en velhecimento das c omunidades v egetais (Catry. Algumas das espécies mais afectadas no Mediterrâneo são as d o género Quercus. estando 15% das árvores afectadas no rebento terminal. Hannan e Whelan (1989) referem que em plantações de coníferas se detectaram danos em 50% dos indivíduos. Indicadores de pastoreio excessivo É impor tante a valiar se det erminada ár ea está ou não sujeita a pastoreio excessivo quer no pré-fogo quer no pós-fogo. imprescindível ao seu crescimento em altur a. é desejável que se faça uma gestão adequada das suas po pulações de modo a garantir um equilíbrio entre plantas e animais. C omo indicadores observáveis na vegetação. o excesso de utilização das espécies mais apetecíveis. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO até à formação de uma linha de desramação na parte inferior da copa das árvores mais altas que mar ca o alcanc e dos her bívoros (Orueta et al..

1991) podem dar indicações sobre o estado nutritivo da população em causa.. 1991) dão indicações sobre se os animais em determinada área se encontram ou não em stress nutricional e portanto em situação de pastoreio excessivo.XII. poderão considerar-se técnicas como o pastoreio rotacional. ou. Existem indicadores anatómicos que per mitem v erificar se se enc ontram ou não em st ress nutricional. este é um método que muito dificilmente se aplica a populações de animais silvestres como o veado ou o gamo. 1992). Controle das cargas animais A gestão das populações de herbívoros domésticos é mais fácil do que a gestão das populações de herbívoros silvestres. é geralmente efectuada através da caça. Por exemplo.g . GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 309 sobre determinadas espécies lenhosas pr ovoca o seu achaparramento. Nestes casos a gestão das populações. podem ser estimadas qualitativamente de modo visual. e nomeadamente a redução da carga animal. . Neste caso os animais pastam det erminadas ár eas dur ante períod os determinados enquanto em outras áreas a vegetação recupera. Em áreas que não permitam o pastoreio rotacional ou a caça. Relativamente a espécies domésticas. ou as alterações provocadas na relação de idades da população (Fandos. sendo este facilmente detectável no terreno (Orueta et al. a ocorrência em zonas sobre-pastoreadas reflecte-se na sua condição corporal. a diminuição dos crescimentos anuais das ar mações ou a pr esença de malfor mações (Fandos. superior para cabras do que para ovelhas). Ao mesmo tempo a planta reage produzindo folhas de menor tamanho. encurtando a distância ent re nós e pr ovavelmente aumentando a sua esclerofilia (Garcia-Gonzalez e Cuartas. deverá optar-se por outros métodos de protecção da vegetação. Embora possível. no caso de c ervídeos. As reservas de gordura. o atraso no início da puberdade. principalmente silvestres. No caso de herbívoros domésticos e silvestres existem ainda indicadores populacionais importantes. A duração destes períodos dependerá de factores tais como a rapidez de recuperação da vegetação ou a espécie animal em causa (e. o decréscimo da fertilidade e o incremento da mortalidade juvenil. No caso dos animais. aumentando a quantidade de espinhos. 1993).

e permitindo simultaneamente que a sua base fique parcialmente acessível aos animais. deve subir-se a rede 50 cm acima do solo. contra cervídeos ou outros herbívoros de grande porte. mas será preferível optar por rede mais alta (2. permite retirar facilmente a rede para aumentar a altura da protecção. gado bovino ou equino. Protecção individual das árvores A protecção individual das árvores é utilizada em diversos países. que poderá ser utilizada par a pr oteger a r egeneração natur al ou ár vores plantadas. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 3. Protecção da vegetação contra os herbívoros Em áreas onde existam cargas animais elevadas que comprometam a recuperação da vegetação após o fogo. Para herbívoros de menor porte a altura pode ser reduzida (em função da altura que o animal consegue atingir). Quando a ár vore atingir a par te superior da protecção. ou para proceder ao desbaste selectivo dos rebentos de toiça no caso da regeneração natural. a rede deverá ter no mínimo 2 metros de altura. nos casos em que os animais têm ac esso a z onas em r egeneração ou a plantações. Existem vários tipos de protectores. será necessário tomar medidas de protecção das plantas. e grampos metálicos. No momento da instalação das protecções deve colocar-se a rede rente ao solo. permitindo que a planta cresça em altura com a parte superior fora do alcance dos herbívoros. Para cumprir adequadamente o seu objectivo.5 m). Dependendo da área e dos objectivos de gestão. por um lad o. rede de malha fina. o que poderá beneficiar a ár vore por r eduzir a c ompetição c om a . por out ro. Na Figur a 6 apr esenta-se um esquema de um tipo de pr otecção individual. a rede dever ser suficient emente forte e não elástica. Em ár eas onde e xistam cervídeos. com preços e eficiências de protecção variáveis. O método mais utilizad o consiste em proteger cada árvore com um protector de rede metálica cilíndrico ou em forma de paralelepípedo.310 XII. essa protecção poderá passar pela utilização de pr otectores individuais ou pela vedação de áreas de maior dimensão durante períodos temporais que permitam a regeneração e o re-estabelecimento da vegetação. Est e tipo de pr otecção per mite.3. de for ma a não deixar aberturas. poupar na quantidade de rede necessária e. Para cada protecção são necessários dois postes de madeir a (com cerca de 2 m).sobretudo se o terreno não for plano e se existirem veados na área a proteger (Figura 5).

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311

vegetação arbustiva ou her bácea que cr esce em se u redor. Para evitar a operação de ter de subir a rede ao fim de alguns anos, pode optar-se logo de início por uma rede com 2.5 m de altura.

FIGURA
À ESQUERDA E AO CENTRO:

5

Protecções individuais contra cervídeos, feitas com rede metálica com 250 cm de altura (regeneração vegetativa de carvalho e de pilriteiro três anos após o incêndio); À DIREITA: regeneração vegetativa de carvalho, não protegida (três anos após o mesmo incêndio). (Fotos: Filipe X. Catry).

80 cm

200 cm

250 cm

OU

50 cm
FIGURA

6

Sistema de protecção contra grandes herbívoros ajustável a dois níveis, com uma rede metálica com 200 cm de altura. (figura reproduzida de Catry et al. 2007a).

312

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Outro método possível é a utilização de repelentes químicos. A protecção química c onsiste na aplicação de pr odutos repulsivos sobre os rebentos das jovens árvores, porém na maior parte dos casos a sua eficácia é de curta duração ou está ainda por comprovar.
Protecção de parcelas

Vedar totalmente uma parcela que se pr etende regenerar, natural ou artificialmente, pode constituir uma boa solução para recuperar a floresta em ár eas ar didas onde e xistam g randes her bívoros. Dependend o d os objectivos de gestão, da dimensão da ár ea a proteger e da densidade de árvores no povoamento, esta opção poderá ser mais ou menos vantajosa. Em geral para áreas maiores e densidades de árvores elevadas, esta técnica tenderá a ser mais económica do que a protecção individual das plantas. Esta opção tem ainda a vantagem de permitir uma regeneração mais densa na área ardida, e uma melhor cobertura do solo, sendo a opção mais eficaz em termos de prevenção dos riscos de erosão após um incêndio. Uma desvantagem deste método é que ao impedir o ac esso dos animais a determinadas áreas, reduz-se a disponibilidade alimentar, aumentando simultaneamente a pr essão que est es irão ex ercer sobre as ár eas não protegidas. Outra possível desvantagem é que alguns anos após o fogo a vegetação na área se torne muito densa (dependendo da produtividade do local), aumentando o perigo de incêndio. Porém, se a área vedada não for muito extensa e se as áreas circundantes tiverem pouca acumulação de combustível, o perigo de incêndio é muito limitado, e estas áreas poderão representar uma mais valia impor tante, funcionando simultaneamente como locais de abrigo para diversas espécies. No caso de se optar por este tipo de protecção, pode também pr oceder-se a limpezas de mat os e a desbastes (ao fim de alguns anos e em intervalos regulares) para reduzir a carga combustível e para favorecer as espécies mais interessantes. Estas operações de limpeza e desbast e podem ser bastant e vantajosas ou mesmo necessárias, dependendo dos objectivos de gestão, mas constituem também um acréscimo d o custo financeiro associado a est e método. É ainda de referir que nas áreas onde existam grandes herbívoros silvestres, não se deverão vedar áreas contínuas de grande dimensão, uma vez que quanto maior for a ár ea, mais difícil se t orna r etirar os animais que eventualmente tenham ficado no seu interior após a instalação da vedação.

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

313

Por outro lado, ao abrigo da vedação, a vegetação espontânea regenera rapidamente, constituindo um suplemento substancial de alimento nos anos que se seguem à aber tura da parcela, devendo esta ocorrer o mais precocemente possív el, desde que os r ebentos t erminais das ár vores estejam fora do alcance dos herbívoros (Bonnet e Klein, 1966). Uma vedação mecânica de r ede é um bom mét odo para proteger a vegetação dos grandes herbívoros. Para impedir o ac esso de cervídeos como o veado, pode utilizar-se uma r ede metálica que de verá ter entre 2.0 m e 2.5 m de altur a (Bonnet e Klein, 1966). Geralmente a rede fica assente em postes colocados em cada 3 ou 4 m, podendo ser fixada solidamente por meio de grampos, ou através de um sistema desmontável, que permite r etirar par te da v edação par a e vacuar animais que ficar am fechados, retirar árvores e outros materiais, ou retirá-la definitivamente (Klein e Saint-Andrieux, 1989). A pr otecção t emporária at ravés da c olocação de uma v edação eléctrica é mais indicada par a as espécies d omésticas, send o pouc o adaptada ao meio florestal, onde a presença de vegetação torna difícil a sua utilização. Nos casos em que se o pte por esta sol ução, é necessário utilizar pelo menos t rês fios (estendidos respectivamente a 40, 90 e 130 cm do solo) para impedir eficazmente a passagem dos cervídeos (Bonnet e Klein, 1966). A manutenção deste sistema em boas condições implica verificações frequentes e uma limpeza t otal da vegetação circundante. A sua eficácia pode ser aumentada at ravés da colocação de bandeirolas coloridas, suficientemente visíveis. Tal como no caso anterior, as vedações deverão ser retiradas depois de atingidos os objectivos.

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CAIXA 3
IMPACTE DOS CERVÍDEOS SOBRE A REGENERAÇÃO VEGETATIVA APÓS UM INCÊNDIO

Durante os primeir os anos após um incêndio que af ectou gr ande part e da Tapada Nacional de Mafra, monitorizou-se anualmente o estado vegetativo de várias espécies de folhosas aí existentes. Devido à presença de uma população de cervídeos, constituída por gamos e veados (densidade de 0.4 animais/ha), parte das árvores na área ardida foram protegidas com protectores individuais de modo a permitir uma avaliação dos efeitos dos herbívoros sobre a mortalidade e crescimento da regeneração de toiça. Três anos após o f ogo registou-se uma elevada sobrevivência, independentemente do consumo por parte dos herbívoros. Porém no caso do carr asco, do carvalho-português e do pilrit eiro, r egistou-se uma maior mortalidade nas árvores que foram consumidas, apesar de só o carrasco apresentar diferenças significativas entre indivíduos protegidos e não protegidos (Figura 7). No caso do pilriteiro e do carrasco só no terceiro ano se começaram a observar árvores mortas, e a gr ande maioria os indivíduos que morr eram (90%) não se enc ontravam protegidos. O consumo repetido das plantas por parte dos animais pode levar ao esgotament o das r eservas acumuladas ant es do f ogo. Assim, se as plantas não c onseguirem repor essas reservas, será de esper ar um aument o da mortalidade com o passar do tempo.
20 Não protegidas

(%)

15

Protegidas

MORTALIDADE

10

5

0
PILRITEIRO CARRASCO

CARVALHO-PORTUGUÊS

FIGURA

7

Mortalidade observada ao fim do terceiro ano após o incêndio em três espécies de folhosas: comparação entre árvores protegidas e não protegidas da acção dos herbív oros.

Relativamente ao crescimento da regeneração natural de toiça, verificou-se que este foi muito afectado pelos cervídeos na maior parte das espécies estudadas (Figura 8). As únicas e xcepções foram a ar oeira e o eucalipt o que, devido às suas características (elevada concentração de taninos, óleos e baixa digestibilidade) são e vitadas pelos herbív oros. Ao fim de três anos, os indivíduos não protegidos de todas as outras espécies apresentavam uma altura média inferior a 40 cm, evidenciando o impacte negativo que os herbívoros podem ter na recuperação da floresta após um incêndio. Informação adicional sobre este trabalho pode ser consultada em Catry et al. (2007a).

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315

300

Protegidas Não protegidas

(cm)
ALTURA

200

100

0
FREIXO PILRITEIRO ZAMBUJEIRO CARVALHO CARRASCO AROEIRA CASTANHEIRO

FIGURA

8

Média da altura máxima (cm) da regeneração natural de toiça de 7 espécies de f olhosas 3 anos após o f ogo: árvores protegidas e árvores não protegidas da acção dos herbívoros (o eucalipto foi a espécie c om maior cr escimento mas não se enc ontra representado porque não foi protegido) (Adaptado de Catry et al. 2007a).

4. Gestão de espécies exóticas invasoras Um dos maiores problemas da recuperação da vegetação num cenário pós-fogo é o apar ecimento de espécies e xóticas com carácter invasor. Trata-se de um problema com uma importância particular na gestão das áreas ardidas, na medida em que a e xpansão de muitas espécies invasoras é facilitada ou estimulada pela ocorrência de perturbações como o fogo. Por sua vez a expansão destas espécies pode alterar de forma significativa o regime de fogo (B rooks et al., 2004). Cria-se desta forma um ciclo de fogo associado às espécies invasoras em que a sua expansão está associada a uma elevada combustibilidade e em que a ocorrência de fogo facilita a sua expansão. Neste tipo de condições e mesmo nas áreas não queimadas as espécies nativas têm frequentemente muito poucas oportunidades para se voltarem a estabelecer e o r estauro ecológico destas áreas poderá ser particularmente difícil (Brooks et al., 2004). Muito embora não seja um problema generalizável a todo o território português, a ocorrência de espécies e xóticas invasoras assume frequentemente car acterísticas de g rande g ravidade dadas as c onsequências negativas no funcionamento dos ecossistemas, na perda de biodiversidade, nas alterações da paisagem e no aumento do risco de incêndio (Marchante e Marchante, 2007). Essa g ravidade decorre ainda da g rande dificuldade

316

XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO

técnica e d os g randes cust os financ eiros associad os às o perações de controlo das espécies in vasoras. Tais constrangimentos assumem em algumas situações quase um carác ter de ir reversibilidade em t ermos práticos, tal a e xtrema dificuldade de er radicação de algumas espécies. De acordo com Marchante e Marchante (2007) as acções de c ontrolo deverão necessariamente passar por t rês fases: um controlo inicial com carácter massivo, um controlo de seguimento para complementar o tratamento inicial e um c ontrolo de manutenção para eliminar possíveis focos esporádicos da espécie invasora. O reconhecimento da importância e da complexidade técnica do problema apenas recentemente têm merecido o devido relevo, dado que até há relativamente poucos anos a questão se encontrava ausente dos manuais técnicos de boas práticas editados pelos serviços florestais do Estado (e.g. Louro et al., 2002; Silva e Páscoa, 2002; Louro et al., 2003). Aparentemente o ag ravamento do pr oblema dos incêndios durante a última década c ontribuiu para chamar a atenção relativamente à questão das in vasoras lenhosas na gestão das ár eas queimadas (Conselho Nacional de Reflorestação, 2005). A invasão pós-fogo por espécies e xóticas é sobretudo mais grave na faixa Cent ro e N orte lit oral, se nos r estringirmos apenas às espécies lenhosas. No entanto as situações são m uito diversas e estão bastant e relacionadas com o historial de introduções deliberadas no local ou nas imediações, de plantas ou propágulos destas espécies. Em 2006 encontravam-se listadas par a Portugal 564 taxa de plantas vascular es exóticas naturalizadas, estando esta listagem em c onstante evolução (Almeida e Freitas, 2006). De ent re estas espécies, são sobretudo preocupantes as espécies lenhosas, dado terem maior capacidade par a dominar os ecossistemas onde se desenvolvem. O efeito sobre as espécies nativas pode ir muito para além da competição directa pela luz, água e nutrientes. Alguns destes efeitos no funcionament o dos ecossistemas poderão ser pouc o evidentes, como a ruptura de associações mutualistas presentes nas raízes das espécies nati vas (Stinson et al., 2006) ou o efeit o depr essivo na restante vegetação causado por substâncias alelo páticas (Carballeira e Reigosa, 1999). De ent re as espécies pr esentes no nosso país de vemos salientar pela sua impor tância em P ortugal C ontinental os géner os Acacia, Hakea, Ailanthus e Eucalyptus. Estes quatro géneros de plantas com porte arbóreo ou ar bustivo têm car acterísticas muito diversas em

XII.Lei 565/99). Tal poderá e xplicar o fac to da espécie não c onstar na lista oficial de espécies invasoras (Dec. Muito do conhecimento existente ao nível do território de Portugal Continental encontra-se compilado em Marchante et al. é a espécie que apresenta maior potencial de regeneração em termos absolutos dado ser utilizada em plantações indust riais em g rande escala. A este respeito a Eucalyptus globulus. No entanto o reconhecimento do carácter invasor da espécie é c ontroverso. N a v erdade não estão estabelecidos em P ortugal métodos objectivos de avaliação e classificação d o carácter invasor das espécies exóticas. (2005) fez pela primeira vez um levantamento dos povoamentos onde plantas d o género . 1999). para as c ondições do nosso país. (2005) são descritas oito espécies de acácias com carácter invasor. Godinho-Ferreira et al. tentando perceber o impact e que causam ao nível da gestão das áreas queimadas.. com particular destaque para as espécies A. 2007b). vulgarmente c onhecida simplesment e por eucalipt o.. dealbata e A. sabe-se ainda m uito pouco sobre a dinâmica da regeneração natural das espécies invasoras em áreas queimadas e da sua int eracção com as plantas nati vas locais. (2009). Importa assim descrever cada um dos géneros de plantas r eferidos. melanoxylon devido à sua importância. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 317 termos da capacidade de disseminação de sementes e de germinação em situações pós-fogo.. 2006) ou a Nova Zelândia (Pheloung et al. Por outro lado a utilização que tem sido feita destas plantas é m uito diversa. em g rande parte devido à sua impor tância económica. dando origem a problemas específicos dada a sua diferente expansão no país. mas poucos trabalhos específicos de natureza científica têm sid o publicados de mod o a validar par a o nosso país o conhecimento empírico existente. (2005) e em Marchante et al. Em Marchante et al. sendo provavelmente a espécie ar bórea c om maior ár ea de e xpansão no t erritório nacional (Silva et al.. O género Acacia Trata-se sem dúv ida do género de plantas lenhosas mais r ecorrentemente associado a pr ocessos de in vasão biológica em P ortugal.. Apesar da dimensão d o problema e das ele vadas consequências em termos económicos e ec ológicos. A este respeito poderá vir a ser útil a adopção de um sistema objectivo de classificação tal como os propostos para países como o Canadá (Murphy et al.

No entanto a oc orrência de incêndios dificulta bastante o processo de controlo. dealbata e A. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO Acacia se t ornaram d ominantes. . Deverá assim pr ivilegiar-se a manutenção de um c oberto denso sempre que possível dado que poderá ser uma solução para tentar controlar a germinação das sementes. dealbata. o descasque e o corte seguido de aplicação de her bicida. 1991. devido às grandes dimensões que podem atingir (Santos et al. c orrespondendo a c erca de 18500 ha (dados relativos ao in ventário florestal de 1995-98). Auld e O’connell. 2004).. É ainda referida a utilização de controlo biológico com a libertação de insectos do género Melanterius. Estes povoamentos foram identificados sobretudo no Centro e Norte Litoral e não incluem as muitas outras situações onde estas plantas se encontram de forma dispersa ou no sub-bosque constituindo igualmente um obstáculo à recuperação da regeneração natural das espécies nativas. melanoxylon. No caso de A. 1982. A relação com o fogo é razoavelmente conhecida. (2005) os métodos de c ontrolo da A. método ainda não aplicad o em P ortugal. 2007). dealbata Gilbert (1959) sugere uma grande longevidade (300 a 400 anos) para as sementes no solo das flor estas da Tasmânia. 2005). na medida em que o calor e a criação de espaços abertos estimula a germinação do banco de sementes no solo (Marchante et al. Na verdade a manutenção de exemplares de grandes dimensões apenas poderá agravar o problema devido à grande quantidade de sement es que serão libertadas destes sementões. aparentemente parece existir uma expansão da espécie através do transporte das vagens pela corrente dos rios e ribeiras fazendo com que surjam novas colonizações a jusante. aumentando a área colonizada por novas plantas. Marchante e Marchante. De acordo com Marchante et al. 2006). No entanto as vantagens competitivas relativamente à restante vegetação derivam também do facto de serem espécies que regeneram vigorosamente após o corte (Yongqi e Fuwen.318 XII.. sabendo-se que existe de facto uma estimulação da germinação em muitas espécies do género Acacia (Hill. particularmente A. Por outro lado é fundamental eliminar as plantas de maior dimensões mesmo que es muitas vezes seja sugerida a condução em alto-fuste de povoamentos de acácia. tornando as operações de controlo particularmente difíceis. Muito embora não v existam estudos conhecidos a este respeito. Uma das situações-tipo com maior gravidade é a substituição das galerias ripícolas de espécies nativas junto às linhas de água por indi íduos de A. melanoxylon incluem o arranque de plântulas.

Almeida e Freitas. 2009).XII. Trata-se de uma árvore dióica com um grande potencial de dispersão dos propágulos alados (sâmaras) e com uma grande capacidade para regenerar vegetativamente a partir da raiz. Os métodos de controlo propostos passam pelo corte mecânico e permanência no solo durante 1 a 1. 1977. 2005. após o que se aconselha a queima do material. é fortemente desaconselhado o corte. Trata-se de uma espécie espinhosa com frutos termo-deiscentes (folículos lenhosos) contendo duas sementes aladas. altíssima. Em par ticular a pr imeira tem sido relacionada com a ocorrência de áreas queimadas. salicifolia. 2009). Marchante et al. O único processo aparentemente eficaz consiste na aplicação de herbicida em feridas profundas abertas no tronco (Marchante et al.. (Marchante et al.. que se libertam quando a planta é queimada ou morre (Marchante et al. incluindo as sementes que entretanto foram libertadas (Marchante et al. referenciadas para Portugal são a H. o géner o Eucalytpus encontra-se representado em Portugal quase e xclusivamente pela espécie Eucalyptus globulus. Radich. Apesar de a espécie ter sido introduzida em Portugal há mais de cento e cinquenta anos e de ter começado a ser utilizada em grande escala desde o início do século X X (Goes... a e xistência de regeneração natural de or igem seminal só r ecentemente começou a ser . A invasão por plantas desta espécie or igina problemas não apenas de competição com a vegetação nativa devido à densa copa. bordadura de campos agrícolas e outros locais sujeitos a perturbação. Quaisquer acções de controlo manual estão fortemente limitadas devido à presença de espinhos. O fogo c ontrolado. 2005).5 anos. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 319 O género Hakea As duas espécies do géner o Hakea.. 2005). 2007). O género Ailanthus No nosso país enc ontra-se representado pela espécie A. Dada a facilidade em emitir rebentos a partir das raízes. O género Eucalyptus Em termos de utilização flor estal. é muito eficaz se um segundo fogo for efectuado antes que a regeneração produza sementes. Devido à sua utilização como ornamental e às suas características heliófilas é sobretudo frequente junto a estradas. que c omeçou a ser utilizad o r ecentemente c omo técnica de controlo no Alto Minho. mas também de ac esso de pessoas e animais de vido à pr esença de folhas aciculares muito desenvolvidas. 2006. sericea e H.

No caso de c olonização de ár eas onde se pr etenda fazer o aproveitamento da regeneração natural de outras espécies. Por outro lado a espécie apr esenta uma g rande resiliência ao corte e ao fogo. Devido a estas características existe a necessidade de estabelecer medidas no sentido de minimizar os impactes negativos causados pela regeneração natural de eucalipto em áreas queimadas (Silva et al. o que indicia que o facto de não e xistirem referências mais antigas. Silva et al..320 XII. Silva et al. 2009). 2009) embora não existam ainda estudos e critérios objectivos que permitam estabelecer inequivocamente essa classificação. de 4 ha em 1974 par a 64 ha em 1999. Muito embora não seja aparentemente tão eficiente na colonização de novas áreas como as espécies anteriores. 2007b. Apesar de só recentemente ter ganho visibilidade. pouco diz sobre a real evolução do processo de regeneração natural por semente no nosso país. Silva et al. a enorme área de expansão da espécie e a ocorrência generalizada de regeneração por semente nas áreas de melhor adaptação ec ológica. Marchante et al. o aparecimento de regeneração seminal de eucalipto poderá dificultar bastante esta tarefa dado o muito maior potencial de crescimento das plantas desta espécie. Heathfield et al. apresentando também aqui vantagens competitivas com as espécies nativas (Catry et al. com base num modelo de dispersão linear difusa c um alcance máximo de om 200 m. a questão da r egeneração seminal do eucalipto é já descr ita por Goes (1977) numa propriedade no Ribatejo em 1954. 2007. Os autores atribuíram as diferenças entre as manchas modeladas e as manc has r eais à oc orrência de d ois incêndios que poderão t er .. através da regeneração vegetativa a par tir das toiças e ao longo d o fuste. 2001.. Posteriormente. Catry (2000) reportou um aumento da área de eucalipt o. fazem com que e xistam preocupações quanto à competição com a vegetação nativa. Alguns autores referem-se explicitamente ao carác ter invasor da espécie (M archante e Marchante. Marchante et al. 2007a). apesar de não terem sid o efec tuadas plantações ou sement eiras nesse períod o. tal como aliás acontece com a generalidade das restantes espécies apontadas como invasoras. (2001) conseguiram simular de forma aproximada o aparecimento de manchas de eucaliptal nesta Tapada. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO mais amplamente documentada (Machado et al. nomeadamente em áreas queimadas.... 2007a. 2007b.. 2007a). Num estudo realizado com base em cartografia de ocupação do solo da Tapada Nacional de Mafra..

incluindo a destruição mecânica das toiças. Pedro Carrilho e Tito Lopes. 2001) (ver igualmente o Capítulo III). como resultado do efeito do fogo. várias técnicas têm sido utilizadas. Agradecimentos À Fundação para a Ciência e a Tecnologia (projecto POCI/AGR/61407/2004 e bolsa de doutoramento SFRH/BD/65991/2009). Existem no entanto muitos aspectos que não se encontram devidamente esclarecidos cientificamente. e o corte com tratamento químico ou a simples pulverização da regeneração por semente. e em particular ao Ricardo Paiva. proveniente sobretudo de povoamentos exteriores à Tapada. Um deles prende-se com a explicação para o aparecimento de uma aparentemente maior quantidade de r egeneração natural em ár eas queimadas. a espécie parece não formar um banco de sementes no solo (Vivian et al. Na verdade segundo alguns autores. No entanto não e xistem ainda estud os conhecidos em Portugal que permitam explicar o aparecimento de regeneração natural de eucalipto em áreas queimadas.. À Tapada Nacional de Mafra. .XII. GESTÃO DA VEGETAÇÃO PÓS-FOGO 321 favorecido o aparecimento da regeneração natural. A nível de controlo da espécie. 2008) e parece igualmente devidamente afastada a hipótese de existir um estímulo de germinação por acção do fogo (Reyes e Casal.

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