PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ
CURSO: ESPECIALIZAÇÃO EM DIREITO PENAL E PROCESSO PENAL
MÓDULO: JUSTIÇA PENAL NEGOCIADA
DOCENTE: L. A.E T. R. NETO
DISCENTE: R.L.GALDINO
A Suspensão Condicional do Processo e a Presunção de Inocência: Análise da
(i)legitimidade da negativa em face de investigações e ações penais em curso.
No contexto do sistema penal, a Suspensão Condicional do Processo e
o princípio da Presunção de Inocência representam pilares fundamentais da justiça e
do devido processo legal. Contudo, a relação entre esses dois institutos tem sido
objeto de debates e questionamentos, especialmente quando se trata da negativa de
aplicação da suspensão condicional em face de investigações e ações penais em
curso. Neste artigo, analisaremos a legitimidade dessa negativa à luz dos preceitos
legais e constitucionais.
O Instituto da Suspensão Condicional do Processo, representa uma
ferramenta importante no âmbito do direito penal, inserida no contexto dos Juizados
Especiais Criminais pela Lei nº 9.099/95. Seu objetivo primordial é promover a
celeridade e a eficiência na resolução de conflitos penais de menor potencial
ofensivo, além de possibilitar a ressocialização do autor do delito sem a necessidade
de um processo penal exaustivo.
Sua previsão legal está disposta no artigo 89 da referida lei,
estabelecendo que o juiz poderá suspender o processo e impor ao acusado o
cumprimento de condições durante um período determinado, que não pode ser
superior a dois anos. Entre as condições impostas, podem estar a reparação do
dano, a prestação de serviços à comunidade e a proibição de frequentar
determinados lugares.
A aplicabilidade do instituto está condicionada ao preenchimento de
requisitos legais, como a inexistência de condenação anterior por crime doloso, a
ausência de processo em curso por outro crime, a natureza da infração penal e a
personalidade do acusado. Além disso, é necessário o consentimento do Ministério
Público e a concordância do acusado, representando um acordo entre as partes
envolvidas no processo.
Ao propor a suspensão do processo mediante o cumprimento de
determinadas condições, visa proporcionar ao acusado uma oportunidade de
redimir-se perante a sociedade, evitando a morosidade e os ônus decorrentes de um
processo penal tradicional. Trata-se, portanto, de uma medida que busca conciliar a
necessidade de punição do infrator com os princípios da individualização da pena e
da ressocialização do condenado.
No entanto, é importante ressaltar que sua aplicação não implica na
declaração de culpabilidade do acusado, visto que o processo permanece suspenso
e sem decisão definitiva sobre o mérito da acusação. Dessa forma, o réu mantém
sua presunção de inocência até que haja uma decisão judicial transitada em julgado
que o condene, assegurando-lhe o direito fundamental à ampla defesa e ao
contraditório.
Por sua vez, o princípio da Presunção de Inocência é um dos pilares
fundamentais do Estado Democrático de Direito. Ele representa uma garantia
fundamental do cidadão frente ao poder punitivo do Estado, assegurando-lhe uma
proteção contra arbitrariedades e abusos por parte das autoridades.
Conforme estabelecido no artigo 5º, inciso LVII, da Constituição
Federal brasileira de 1988, "ninguém será considerado culpado até o trânsito em
julgado de sentença penal condenatória". Essa disposição constitucional reflete a
necessidade de se resguardar a dignidade e a liberdade individuais, evitando que
uma pessoa seja tratada como criminosa antes que todos os recursos jurídicos
sejam esgotados e se prove, de forma definitiva, sua culpa.
A presunção de inocência implica que o ônus da prova recai
integralmente sobre o Estado, que deve demonstrar, de forma robusta e
convincente, a culpabilidade do acusado. Enquanto não houver uma decisão judicial
definitiva, o indivíduo é considerado inocente e, portanto, goza de todos os direitos e
garantias fundamentais, como o direito à liberdade, à ampla defesa e ao
contraditório.
Essa garantia constitucional tem implicações profundas no sistema
penal, influenciando desde a fase investigativa até a execução da pena. Na fase
processual, por exemplo, o acusado tem o direito de permanecer em liberdade
durante o processo, salvo em casos excepcionais em que a prisão preventiva se
justifique. Além disso, o princípio da presunção de inocência orienta a interpretação
das provas apresentadas, exigindo que estas sejam examinadas de forma imparcial
e criteriosa, sem qualquer viés prévio de culpa.
Assim, a presunção de inocência não é apenas uma garantia individual,
mas também um instrumento de proteção do próprio Estado Democrático de Direito,
que se fundamenta no respeito à dignidade humana e na busca pela justiça e pela
verdade. É através desse princípio que se fortalece a confiança da sociedade no
sistema de justiça, garantindo que as decisões judiciais sejam tomadas com base
em critérios objetivos e em conformidade com os princípios democráticos e os
direitos humanos.
A relação entre a Suspensão Condicional do Processo e o princípio
constitucional da Presunção de Inocência é alvo de debate jurídico, especialmente
no que diz respeito à exigência de que o réu não esteja sendo processado para a
concessão desse benefício. Essa exigência tem sido objeto de controvérsia, pois,
segundo alguns juristas, viola o princípio da Presunção de Inocência, garantido pelo
artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal de 1988.
A doutrina e a jurisprudência divergem quanto à constitucionalidade
desse requisito. Alguns defendem que, por se tratar de um benefício legal, a lei pode
impor condições mínimas para sua concessão, enquanto outros argumentam que
essa exigência antecipa a culpa do réu, indo de encontro ao princípio da Presunção
de Inocência.
É importante ressaltar que a finalidade do benefício não é apenas
combater a impunidade, mas também agilizar e desburocratizar o sistema judiciário,
especialmente em casos de menor gravidade, conforme já exposto anteriormente.
Portanto, a exigência de não estar sendo processado pode ser vista como uma
tentativa de garantir que o benefício seja concedido a réus que não estejam
envolvidos em outros processos criminais, evitando assim a sua utilização por
indivíduos com histórico de reiteradas condutas ilícitas.
No entanto, essa exigência pode ser questionada à luz do princípio da
Presunção de Inocência, que estabelece que todo indivíduo é considerado inocente
até que haja uma decisão judicial transitada em julgado que o condene. Ao
condicionar a concessão da Suspensão condicional à ausência de outros processos
em curso, corre-se o risco de presumir a culpa do réu antes mesmo de uma decisão
definitiva sobre sua culpabilidade.
Além disso, a existência de outros processos em andamento não
necessariamente indica a culpabilidade do réu, uma vez que ele ainda está no
estágio de mera acusação e não foi declarado culpado por nenhum tribunal
competente. Portanto, negar a concessão do benefício com base nesse critério pode
ferir o princípio da Presunção de Inocência ao tratá-lo como culpado antes mesmo
de uma decisão judicial definitiva.
Diante do exposto, é imprescindível que se promova uma reflexão
acerca da legitimidade da negativa de aplicação da Suspensão Condicional do
Processo em face de investigações e ações penais em curso. A garantia do princípio
da Presunção de Inocência e o respeito aos direitos fundamentais dos acusados
devem ser preservados em qualquer circunstância, a fim de assegurar a efetividade
do Estado Democrático de Direito. Assim, cabe ao Poder Judiciário e à sociedade
como um todo buscar soluções que conciliem a eficácia do sistema penal com o
respeito aos direitos individuais dos cidadãos.
REFERÊNCIAS:
CAVALCANTE, Márcio André Lopes. O acusado que responde a outro
processo não tem direito ao benefício, sendo essa previsão
constitucional. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
<https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/
23f09b21324d1ed3cd722109bd55d6e7>. Acesso em: 31/05/2024
https://www.jusbrasil.com.br/ - O simples processo por outro crime não pode
obstar oferecimento de suspensão condicional do processo | Jusbrasil
Moreira: STF reafirma o princípio da presunção de inocência (conjur.com.br)
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