Jecrim – Visão Geral
Crimes de menor potencial ofensivo
O JECRIM (Juizado Especial Criminal) é um órgão da
Justiça Ordinária com competência para julgar crimes
considerados de menor potencial ofensivo. Vale destacar que é
a lei 9099/95 que regulamenta e dispõe sobre o Juizado.
Crime de menor potencial ofensivo é aquele cuja pena máxima
cominada (pena em abstrato) não seja superior a 2 anos
cumulada ou não com multa.
Por exemplo, a difamação (art. 139, Código Penal) tem pena
cominada de detenção de três meses a um ano e multa, logo, esse
crime é de menor potencial ofensivo. No mesmo sentido, o crime
de lesão corporal (art. 129, caput, Código Penal) tem pena
cominada de detenção de três meses a um ano, logo, também é
considerado crime de menor potencial ofensivo e por isso é
julgado no JECRIM.
Insta dizer que mais do que apenas afirmar objetivamente que
crime de menor potencial ofensivo é aquele cuja pena máxima
cominada seja não superior a 2 anos cumulada ou não com
multa, importante esclarecer que esses tipos de crimes são
considerados de pouca ofensividade de modo que a intenção
primeira é buscar a reparação do dano causado pelo autor do
fato invés de privá-lo de sua liberdade.
Por essa razão que a lei trouxe à baila institutos como a
transação penal e a suspensão condicional do processo no qual,
presentes determinados requisitos, beneficiará o cidadão de
bem que, por uma infelicidade, acabou por infringir uma
conduta que foi tipificada como de menor potencial ofensivo.
Por fim, cumpre informar que o rito sumaríssimo é adotado
neste tipo juizado. Nesse sentido, os processos orientam-se
pelos princípios da oralidade, informalidade, simplicidade,
economia processual e celeridade, sempre buscando, como dito
alhures, a reparação do dano sofrido pela vítima e a aplicação da
pena não privativa de liberdade em desfavor do autor do fato.
Termo Circunstanciado de Ocorrência
Como se percebe da figura extraída acima, no JECRIM o
inquérito policial cede espaço para o TCO (Termo
Circunstanciado de Ocorrência) que, nada mais é do que um
registro do fato típico no qual contempla a qualificação dos
envolvidos e os relatos dos fatos.
Após lavrado o TCO a autoridade policial poderá encaminhar as
partes (autor do fato e a vítima) imediatamente ao Juízo.
Por outro lado, não sendo possível o encaminhamento imediato
ao juizado especial criminal, o autor do fato poderá assumir
compromisso de comparecer ao JECRIM no dia e horário
determinados.
Caso o autor do fato se recuse a assumir o referido compromisso,
surge para a autoridade policial a possibilidade de prendê-lo em
flagrante ou fixar fiança para sua liberdade.
Portanto, a regra é não impor a prisão em flagrante, nem exigir
fiança do autor do fato, salvo se ele se recusar a assumir o
compromisso de comparecer no JECRIM no dia e horário
designado.
Vale destacar que há uma exceção prevista no qual a autoridade
policial não poderá prender o autor do fato mesmo que ele se
recuse a assinar o compromisso de comparecimento no
JECRIM. Essa exceção ocorre para os usuários de drogas em
razão do art. 28 da lei 11.343/2006 não prever nenhuma pena
de detenção ou reclusão.
Transação Penal
A transação penal é o ato pelo qual busca-se evitar a propositura
da ação penal em desfavor do autor do fato por meio do
pagamento de um determinado valor ou por meio da realização
de um serviço comunitário por um determinado período. Esse
benefício é oferecido na audiência preliminar, ou seja, antes do
oferecimento da denúncia pelo Ministério Público.
Em um primeiro momento o autor do fato pode questionar a
oferta de transação penal como o aceite de que realmente é
culpado pelo crime ou contravenção penal praticada, pois estará
realizando um pagamento ou uma prestação de serviço à
comunidade sem ser realmente culpado pelo fato.
Na verdade, esse aceite não tem ligação nenhuma com a
culpabilidade, ou seja, o fato da pessoa aceitar a transação penal
não significa que o autor do fato admitiu a culpa. Pelo contrário,
ele está nesse momento “pagando para não brigar”[1], uma vez
que está evitando a abertura de um processo contra ele.
Esse ato de evitar o processo é uma boa pedida para a parte, pois
o mesmo não será processado, continuará sendo inocente e não
terá antecedentes criminais.
Por outro lado, vale destacar que esse benefício só é concedido
para a pessoa que 1) não foi condenado pela prática de crime
com pena privativa de liberdade, por sentença definitiva; 2) não
foi beneficiado anteriormente, no prazo de cinco anos pela
transação penal; 3) não indicarem os antecedentes, a conduta
social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as
circunstâncias, ser necessária e suficiente a adoção da medida.
Oportuno destacar que a proposta de transação penal oferecida
pelo membro do Ministério Público pode ser recusada pelo
autor da infração. Quando isso ocorre, o Promotor de Justiça
oferece a denúncia e a parte contrária deverá constituir um
advogado público ou particular para defende-la.
Sob outro enfoque, uma vez aceito os termos da transação penal
e o autor do fato descumpri-los, surge para o Ministério Público
a possibilidade de oferecer a denúncia em face daquele. Isso
ocorre porque a natureza jurídica da sentença de transação
penal é homologatória e não faz coisa julgada material (Súmula
Vinculante 35 do Supremo Tribunal Federal).
Por fim, oportuno relembrar que a transação penal só pode ser
oferecida se não for o caso de arquivamento (quando o TCO
narrar fato atípico ou o fato típico estiver prescrito), caso
contrário estaríamos diante de flagrante irregularidade
submetendo o autor da infração a constrangimento não
autorizado pela lei.
Suspensão Condicional do Processo
A suspensão condicional do processo, também conhecida como
SURSIS processual, é um benefício oferecido pelo Ministério
Público ao acusado, diante da presença de certos requisitos, no
momento da propositura da denúncia.
Vale lembrar que a suspensão condicional do processo não é um
benefício exclusivo das infrações de menor potencial ofensivo.
Esse benefício abarca todas as infrações penais cuja pena
mínima cominada for igual ou inferior a 1 ano. É o caso, por
exemplo, do estelionato (art. 171, caput, CP) cuja pena é de
reclusão 1 a 5 anos, e multa; do furto (art. 155, caput, CP) cuja
pena é de reclusão de 1 a 4 anos e multa, etc. Esses crimes
conquanto não sejam de menor potencial ofensivo, são
agraciados pelo art. 89 da lei 9099/95.
Nesse sentido, uma vez recebida a denúncia (contendo o pedido
de suspensão condicional) pelo juiz, marca-se uma audiência
para oferece-la ao acusado que tem a liberalidade de aceitar ou
não a proposta do SURSIS processual.
Havendo negativa do acusado, o processo seguirá adiante, ou
seja, instala-se a audiência de instrução e julgamento. Havendo
o aceite do acusado, o processo é suspenso e submete-se o
acusado ao período de prova.
Destaca-se ainda que a decisão que decreta a suspensão
condicional do processo não julga o mérito, nem discute a culpa,
não gera nenhum efeito penal próprio da sentença penal
condenatória.
Por sua vez, o período de prova consiste em determinar ao
acusado certas condições durante um período que varia de 2 a 4
anos. Nesse sentido, as condições fixadas na lei, como rol
exemplificativo, são: 1) reparação do dano, salvo
impossibilidade de fazê-lo; 2) proibição de frequentar
determinados lugares; 3) proibição de ausentar-se da comarca
onde reside, sem autorização do Juiz; 4) comparecimento
pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e
justificar suas atividades.
Por exemplo, num jogo de futebol onde o torcedor de um time
pratica lesão corporal contra o torcedor do outro time e não
sendo o caso de transação penal (porque o autor do fato não
preenche os requisitos desse benefício), no oferecimento da
denúncia com a suspensão condicional poderá o membro do
Ministério Público impor que o torcedor acusado não frequente
os estádios de futebol em que seu time está jogando por um
período de 2 anos.
Nesse caso, toda vez que tiver jogo, o acusado deverá
comparecer à determinado estabelecimento e lá ficar até o final
da partida, assinando um livro de comparecimento para
comprovar que está obedecendo os termos do SURSIS
processual.
Insta dizer que havendo o descumprimento dos termos
estabelecidos na suspensão condicional do processo, o processo
volta a ser vigente e segue adiante até o juiz proferir sentença.
Oportuno destacar que há diferença entre o SURSIS processual
previsto na lei 9099/95 e o SURSIS penal previsto no
art. 77 do Código Penal.
Neste último o réu é condenado, mas a execução da pena é
suspensa. Já no primeiro ocorre a suspensão do processo, ou
seja, o réu não ostentará maus antecedentes e reincidência.
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