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Gene TOR

Genética

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UM GENE

Crescer ou
não crescer?
O gene TOR
responde

Fernando Moreira Simabuco, Isadora Carolina Betim Pavan


Laboratório Multidisciplinar em Alimentos e Saúde, Faculdade de Ciências Aplicadas,
Universidade Estadual de Campinas, Limeira, SP

Autor para correspondência - simabuco@gmail.com

Palavras-chave: TOR, rapamicina, crescimento celular, síntese protéica, câncer, obesidade

284 Genética na Escola | Vol. 16 | Nº 2 | 2021


Genética na Escola – ISSN: 1980-3540

O metabolismo celular é controlado por uma série de genes. Tais genes são im-
portantes por coordenar processos de acúmulo de nutrientes e gasto energético. A
proteína mTOR em mamíferos é codificada por um dos genes importantes para
o controle fino do equilíbrio energético da célula, reconhecendo a oferta de nu-
trientes e sinalizando para o armazenamento ou gasto de energia. O gene TOR
é um gene muito conservado evolutivamente. Em leveduras, esse gene controla
o crescimento das células. Em abelhas, a proteína amTOR está relacionada ao
maior tamanho da rainha. Em plantas, o mesmo gene controla o crescimento em
resposta a hormônios vegetais e em relação à luz. Em mamíferos, hormônios como
a insulina regulam a via da mTOR e desequilíbrios nessa via estão associados a
doenças e disfunções, como câncer, diabetes e obesidade. As informações contidas
neste trabalho mostram como esse gene é capaz de controlar processos metabóli-
cos celulares e como sua origem foi importante para a evolução da vida na Terra
desde os primeiros organismos.

Sociedade Brasileira de Genética 285


UM GENE

A descoberta foi denominado de rapamicina, em referência


à Rapa Nui. Estudos seguintes mostraram que
da proteína TOR a rapamicina é um importante imunossupres-
sor, tendo também atividades antitumoral e
em leveduras neuroprotetora. Seu exato mecanismo de ação,
no entanto, permaneceu oculto por mais de 20 Sinalização intracelular
Em 1964, uma equipe de farmacêuticos dos anos até uma série de estudos no início dos - mecanismos celulares,
anos 90 quebrarem o mistério da rapamicina e geralmente mediados por
Laboratórios de Pesquisa Ayerst isolou de uma
interações entre proteínas
bactéria do solo da ilha de Rapa Nui, também descobrirem uma das mais importantes redes e ácidos nucleicos, que
chamada de Ilha de Páscoa (Figura 1), um po- de sinalização intracelular na biologia, asso- permitem que as células
tente agente antifúngico. O composto, produ- ciada com diversos processos biológicos como coordenem processos
zido pela bactéria Streptomyces hygroscopicus, obesidade, câncer e envelhecimento. biológicos, comuniquem-se e
respondam a sinais externos,
como hormônios.

Figura 1.
Placa na ilha de Rapa Nui (Ilha
de Páscoa), Chile, onde se lê:
"Neste local foram obtidas em
janeiro de 1965 as amostras
de solo que permitiram obter
a rapamicina, substância que
inaugurou uma nova era para
os pacientes submetidos
a transplantes de órgãos.
Homenagem dos investigadores
brasileiros, novembro de
2000 - Wyeth Brasil." Fonte:
https://pt.wikipedia.org/
wiki/Sirolimus#/media/
Ficheiro:Rapamycin_plaque_
on_Easter_Island.JPG
(Anypodetos), domínio público.

A descoberta da proteína TOR (Target of especiação. De leveduras até mamíferos, a


Rapamycin, do inglês, Alvo da Rapamicina) proteína TOR consegue controlar o cresci-
iniciou o entendimento dessa via de sinaliza- mento das células e dos organismos, em dife-
ção intracelular. Seu nome, do inglês, deriva rentes níveis, dependendo da complexidade
dos primeiros estudos que mostraram que a das espécies.
Ortólogos - genes que
rapamicina perde seus efeitos antifúngicos
Quando olhamos para os eucariotos de for- possuem a mesma função
quando se inativa o gene da proteína TOR e uma origem em comum,
em leveduras. Portanto, a proteína ganhou o ma geral, a proteína TOR é um controlador
em espécies distintas,
nome de Alvo da Rapamicina ou Target of chave do processo de crescimento das célu- tendo se separado durante
Rapamycin, em inglês. Anos depois, o mes- las. Em leveduras, por exemplo, a TOR con- o processo de especiação.
mo gene foi descoberto em outras espécies, trola seu crescimento em placas de Petri ou Genes parálogos, por outro
caldos, e a adição da rapamicina inibe esse lado, podem ter funções
incluindo plantas, invertebrados e vertebra- distintas e surgem dentro de
dos. De fato, o gene da proteína TOR é um crescimento. A falta de glicose ou aminoáci- uma mesma espécie quando
dos ótimos exemplos conhecidos em biologia dos para a levedura leva à inibição da TOR ocorre uma duplicação no
do que chamamos de ortólogos, genes que e, consequentemente, de seu crescimento. É genoma.

compartilham funções e uma origem em como se a TOR sinalizasse para a levedura:


comum em diferentes espécies, tendo sido não temos nutrientes, então não cresça!. Ou
separados evolutivamente pelo processo de se, como em um canteiro de obras, a TOR,

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Genética na Escola – ISSN: 1980-3540

como o mestre de obras, dissesse aos operá- mento cortical que resulta em epilepsia refra-
rios: acabaram os tijolos, parem de levantar as tária a medicamentos em crianças e adultos.
paredes.
Quinases - enzimas proteicas
A proteína TOR é uma quinase encontra-
nas células que realizam A levedura pode tentar compensar, produ- da em 2 complexos de proteínas estrutural e
a fosforilação de outras zindo ela mesma alguns aminoácidos ou funcionalmente distintos: o complexo-1 de
proteínas ou substratos, buscando outras fontes de energia, mas se a TOR (TORC1) e TORC2. TORC1 é um
ou seja, adicionam grupos oferta de nutrientes não mudar no meio de regulador chave do crescimento e prolifera-
fosfato que modificam seus
alvos em termos da estrutura cultura, a levedura eventualmente morrerá. ção celular e tradução de RNAm, enquanto
tridimensional, ativando-os Freando o crescimento da levedura quando TORC2 promove rearranjo do citoesqueleto
ou inibindo os mesmos. As não há nutrientes, a TOR dá tempo para de actina, sobrevivência celular e progres-
fosfatases por outro lado que as condições no ambiente eventualmente são do ciclo celular. O primeiro complexo é
fazem a reação reversa, ou
seja, desfosforilam substratos,
mudem, e a levedura possa crescer de novo. A caracterizado pela sensibilidade aguda à ra-
tirando o grupo fosfato. TOR, portanto, economiza recursos quando pamicina, que se liga na proteína FKBP12 e
O balanço da atividade de há pouco e gasta esses recursos quando há atua no processo de inibição de TOR. Além
quinases e fosfatases muitas bastante deles. disso, o complexo 1 caracteriza-se pela loca-
vezes controla a atividade de lização em lisossomos uma vez ativado por
vias de sinalização celular. E, por que a rapamicina afinal é produzi- aminoácidos. A atividade da proteína TOR
da pela bactéria Streptomyces hygroscopicus? é regulada ao nível pós-traducional por ou-
Temos que lembrar que no solo, onde essa tras vias de sinalização celular, de forma es-
bactéria foi encontrada, existem vários ou- pecífica em diferentes classes de organismos,
tros microrganismos, incluindo leveduras e reflexo da importância do gene na evolução
fungos, e que a rapamicina, portanto, pode das espécies.
ser usada como uma arma biológica pela
bactéria para inibir o crescimento de outros
microrganismos e assim favorecer o próprio TOR e
Penicilina - é um antibiótico
crescimento. É como se fosse o outro lado da
moeda da história da penicilina, que é pro- árvore da vida
que foi descoberto duzida por um fungo e tem ação antibacte- O gene da proteína TOR uma vez que sur-
acidentalmente em 1928, riana. giu nos primeiros eucariotos passou a estar
pelo bacteriologista escocês,
presente em organismos de diversos reinos
Alexander Fleming, ao
descobrir o fungo do gênero
Penicillium e demonstrar que
O gene TOR e filos, preservando suas funções originais e
adquirindo novas funções. Microalgas, por
este fungo produzia uma Em humanos, a proteína mTOR tem 2549 exemplo, como a Chlamydomonas reinhardtii,
substância responsável pelo aminoácidos e 288,9 kDa e é codificada pelo apresentam particular sensibilidade à rapa-
efeito bactericida, à qual foi gene MTOR. O gene de 156.017 nucleo-
dado o nome de penicilina. micina, como as leveduras. Já em plantas, a
tídeos está presente no cromossomo 1, na TOR, apesar de não responder tão bem à
localização 1p36.22, e contém 58 éxons e 7 rapamicina, responde também à oferta de
Auxina - é uma classe de
variantes de splicing. É um gene muito con- nutrientes e em particular à luz. Quando a
hormônios vegetais que servado, tendo até o momento 315 ortólogos TOR de plantas é inibida, a resposta à luz
regulam o crescimento. descritos em outras espécies. São associados fica prejudicada. Além disso, a TOR parece
As auxinas desempenham ao gene MTOR 162 fenótipos, dentre eles responder também à auxina, um hormônio
um papel fundamental na diversos tipos de câncer, diabetes, hiperten-
coordenação de muitos das plantas que promove o crescimento e
processos comportamentais são, distrofia muscular, sepses, anormalida- desenvolvimento de brotos e folhas. Evolu-
e de crescimento nos ciclos des imunológicas e neurológicas, tamanho tivamente, a resposta à auxina mediada por
de vida das plantas, como o diminuído de órgãos e alterações no índice TOR, que ativa outras vias de crescimento
fototropismo, o geotropismo de massa corpórea (IMC). Mutações pato-
e o hidrotropismo. A
da planta, parece ter sido uma aquisição pos-
auxina estimula fatores de
gênicas no gene MTOR estão associadas a terior da via da TOR em plantas, como se
afrouxamento das paredes doenças hereditárias humanas como a sín- um upgrade evolutivo tivesse sido adquirido.
celulares das células vegetais, drome Smith-Kingsmore, caracterizada por Ou seja, nas plantas toda a maquinaria da
como elastinas, permitindo deficiência intelectual, macrocefalia, convul- TOR, que surgiu nos primeiros eucariotos,
seu crescimento, ramificações sões e características faciais dismórficas, e a
e enraizamento. também controla o crescimento, adicionan-
forma severa da displasia cortical focal, ca- do a auxina como uma nova peça nesse que-
racterizada pela malformação do desenvolvi- bra-cabeça.

Sociedade Brasileira de Genética 287


UM GENE

Geleia real - é uma secreção


Em abelhas, a geleia real, um alimento con- da amTOR em larvas destinadas a se torna- produzida pelas glândulas
hipofaríngeas das jovens
sumido pelas rainhas, promove o desenvolvi- rem rainhas, pesquisadores descobriram que
abelhas operárias, durante um
mento delas ativando, entre outra vias, a via os insetos adquiriram aspectos de operárias, breve período de suas vidas.
da amTOR (Apis millifera TOR). Ao mesmo tornando-se menores e menos pigmentadas A continuidade da produção
tempo, a depleção de amTOR em modelos (Figura 2). Por outro lado, quando as larvas é obtida pelo nascimento
genéticos, onde foram gerados insetos mu- desenvolvem-se normalmente em rainhas, das novas jovens operárias
da colmeia. A função da
tantes, causa uma completa alteração do de- ocorre grande atividade da via da amTOR. geleia real é alimentar a
senvolvimento das rainhas. Ao se inibir a via rainha, permitindo que ela
mantenha a postura de
milhares de ovos, além de
alimentar as larvas por 3 dias
aproximadamente.

Figura 2.
À esquerda, uma larva que daria
origem a uma abelha rainha
sofreu depleção da amTOR,
o que resultou em fenótipos
de operária, como tamanho
do corpo menor, abdômen
mais curto e presença de
corbícula (cesta de pólen na
perna traseira da abelha). À
direita uma larva controle que
deu origem a uma rainha com
as características esperadas.
Reproduzido e adaptado
com permissão do Journal of
Experimental Biology. Fonte:
Mutti NS, Dolezal AG, Wolschin
F, Mutti JS, Gill KS, Amdam GV.
IRS and TOR nutrient-signaling
pathways act via juvenile
hormone to influence honey
bee caste fate. J Exp Biol.
2011;214(Pt 23):3977-3984.
https://doi.org/10.1242/
jeb.061499.

Em mamíferos, a proteína mTOR (mamma- No caso particular da insulina, assim como


lian TOR) também tem um papel central no exemplo da auxina, essa também parece
para que as células respondam à oferta de ter sido uma aquisição recente, porém, em
nutrientes, cresçam e proliferem. Alguns vertebrados. Mesmo em invertebrados há
aminoácidos, que estão em altas quantidades mecanismos de sinalização parecidos com o
no sangue após uma refeição, por exemplo, da insulina, ou seja, evolutivamente, quando
conseguem ativar a mTOR. Por outro lado, os organismos começaram a se tornar com-
o equilíbrio energético das células, dada pela plexos, com órgãos especializados e hormô-
razão entre a quantidade de AMP e ATP, nios para comunicação celular, as células eu-
AMP e ATP - adenosina
ou seja, que indica se a célula tem falta de cariotas através de um eficiente mecanismo monofosfato e
energia ou energia disponível, também re- de regulação do crescimento já existente, a adenosina trifosfato são,
gula a via da mTOR. E, por fim, fatores de via da TOR, passou a ter novos componen- respectivamente, moléculas
crescimento como a insulina, um hormônio tes, novas peças, e assim a insulina passou produzidas e consumidas
em processos biológicos
indicador da oferta de nutrientes no corpo, também a regular a mTOR (Figura 3). de catálise, como reações
liberada pelo pâncreas após uma boa refei- enzimáticas diversas. ATP é
ção, também ativam a mTOR. São várias E, existem exceções? Sim, como quase tudo um composto de alta energia
vias de sinalização celular que de uma forma em biologia. Curiosamente, no protozoário que é convertido em AMP
ou outra modulam a atividade da mTOR Plasmodium falciparum, causador da malária, nessas reações, garantindo
parece ter ocorrido a perda do gene TOR e energia para que processos
para que então ela sinalize se a célula deve ou bioquímicos aconteçam nas
não crescer e, consequentemente, dividir-se. de parte de sua via de sinalização, conservan-
células.

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Genética na Escola – ISSN: 1980-3540

do-se, entretanto, alguns elementos antes re- sita é encontrado no sangue de humanos, seu
gulados por TOR. Essa perda aparentemen- crescimento poderia depender grandemen-
te passou a ser vantajosa para o parasita, já te das oscilações nos níveis de aminoácidos
que garante a ele crescimento independente que ocorrem entre as refeições e, portanto,
da presença ou ausência de aminoácidos que, não ter seu crescimento inibido pela falta de
como já vimos, são importantes reguladores aminoácidos parece ser benéfico para o pro-
da via da TOR. Considerando que esse para- tozoário.

Figura 3.
Efeitos da ativação da via
de sinalização da TOR em
diferentes espécies. Em
leveduras, TOR está relacionado
ao crescimento das culturas.
Em plantas, TOR relaciona-
se com o crescimento de
raízes, a ramificação de
galhos e o crescimento das
folhas. Em abelhas, amTOR
está relacionada com o
desenvolvimento das rainhas.
Em mamíferos, mTOR sinaliza
o crescimento do corpo e sua
super-ativação está relacionada
com obesidade. Imagem de
própria autoria.

Síntese proteica ou
tradução - é um processo
que ocorre em todos os
organismos e através do
TOR e o controle a TOR controla a síntese proteica ou tradu-
ção, dentre outras coisas. A TOR está nesse
qual as células geram novas
proteínas. Baseia-se na
do metabolismo processo na maior parte dos casos sinalizando
para outras proteínas e o faz quando há a ati-
leitura do RNA mensageiro vação da quinase. A TOR, por exemplo, ativa
e na união de aminoácidos
Mas, o que de fato TOR sinaliza nas células?
Se de um lado nós temos sinais de oferta de as quinases chamadas de S6Ks (S6 kinases, do
correspondentes à sequência
de códons (sequência de nutrientes ativando a TOR ou de falta de nu- inglês), que ativam diretamente a subunidade
três bases nitrogenadas) trientes inibindo a TOR, o que a TOR con- menor dos ribossomos. A TOR também é ati-
presentes nesse RNA. trola? Como já dissemos, a TOR controla o vada por outras quinases, sendo a via da TOR
crescimento celular, mas mais especificamente, o que chamamos de uma cascata de quinases.

Sociedade Brasileira de Genética 289


UM GENE

Assim, desde as leveduras até os mamíferos, mo gene controla o ganho de gordura ou de


a TOR, quando ativada, age sobre as células massa magra. Tudo depende, na verdade, da
que estimulam a maquinaria de síntese pro- qualidade do alimento que é ingerido. Va-
teica (os ribossomos) e assim novas proteí- mos considerar primeiro o caso da gordura.
nas são produzidas. Quando pensamos no A insulina é um sinal de oferta de nutrien-
contexto dos aminoácidos, isso parece fazer tes, pois grandes quantidades são liberadas
muito sentido. Se há aminoácidos disponí- no pâncreas após uma boa refeição. O corpo
veis no meio de cultura das leveduras ou no armazena essa energia, já que não a toda ela
sangue dos mamíferos, as células têm a TOR é usada logo após a refeição. A partir daí, a
ativada e esses aminoácidos, que são os ti- insulina sinaliza para a via da mTOR e ou-
jolos das proteínas, passam a ser usados na tras vias, em diferentes células, o que fazer.
construção dessas proteínas. No contexto da No fígado, por exemplo, a insulina age, via
insulina ou da auxina, esse aspecto vai mais mTOR, na produção de proteínas e na trans-
além, já que esses hormônios passam tam- formação de açúcares em ácidos graxos, que
bém a induzir, via TOR, outros processos são secretados no sangue. No tecido adiposo,
anabólicos, como síntese de lipídeos e ácidos a insulina sinaliza à mTOR a transformação
nucleicos. dos ácidos graxos em moléculas maiores,
como os triacilgliceróis e a gordura é armaze-
A ativação da TOR significa ativação do nada. No sistema nervoso central, a insulina
anabolismo. Nesse sentido, várias pesquisas via mTOR age no cérebro e tem-se a sen-
mostraram que a mTOR em mamíferos está sação de saciedade. Portanto, se a oferta de
associada com obesidade e, ao mesmo tem- Anabolismo - fase do
nutrientes é muito rica em açúcares e ácidos metabolismo que se baseia
po, com o ganho de massa muscular (Figura graxos, por exemplo, a mTOR transforma-os em reações de biossíntese
4). Apesar de parecer contraditório, o mes- em gordura. de moléculas maiores, sendo
dependente da energia
derivada de componentes
celulares e de moléculas
precursoras menores e
mais simples. Catabolismo
é fase inversa, em que
ocorre a degradação de
macromoléculas obtidas ou
armazenadas pelo organismo,
com liberação de energia.

Figura 4.
Depleção da atividade de
mTOR no tecido adiposo torna
camundongos resistentes à
obesidade induzida por dieta
(direita). Camundongos-
controle ficam obesos quando
alimentados com a mesma dieta
(esquerda). Reproduzido com
permissão do Prof. Michael
Hall. Fonte: https://www.
biozentrum.unibas.ch/de/
forschung/forschungsgruppen/
eigene-seiten/unit/hall/
miscellaneous/projects-592/

290 Genética na Escola | Vol. 16 | Nº 2 | 2021


Genética na Escola – ISSN: 1980-3540

Por outro lado, se a dieta é equilibrada em produzir proteínas no músculo, ganhamos


termos de açúcar, ácidos graxos e aminoáci- massa magra sem ganhar massa gorda. Tudo
dos, o armazenamento de gordura diminui isso devido às propriedades da mTOR.
e pode passar a ocorrer o armazenamento
também de proteínas, ocorrendo a hiper- Nesse sentido, trabalhos científicos têm de-
trofia do músculo esquelético, por exemplo. monstrado que a mTOR está aumentada na
Nesse caso, outro fator passa a ser impor- obesidade, quando há uma oferta exacerbada
tante: o exercício físico. Os músculos são de nutrientes e o acúmulo de gordura passa
usados para locomoção entre outras fun- a ser estimulado pela mTOR, entre outras
ções, portanto, faz sentido que quanto mais vias. Ao mesmo tempo, a mTOR é necessá-
os usamos, mais precisamos deles. Assim, ria também para o ganho de massa magra e
após a prática de exercício físico (e é im- hipertrofia dos músculos (Figura 5). E, a que
portante enfatizar esse após, pois durante mais a mTOR está relacionada? Várias doen-
o exercício, as células musculares não ar- ças têm relação com a mTOR. Para começar,
mazenam energia através de mTOR, elas a rapamicina atualmente é usada como imu-
precisam dessa energia), não só a insulina nossupressor em transplantados, portanto, a
estimula a mTOR a construir as proteínas mTOR é necessária para a ativação de células
do músculo, mas fatores de crescimento do sistema imune. Em vários tipos de cân-
como o IGF, o próprio estímulo mecânico cer, que têm suas células com crescimento
IGF - Insulin-like growth e proliferação aumentados, a via da mTOR
factor ou Fator de do exercício e aminoácidos também o fa-
crescimento semelhante à zem. Ou seja, tendo menos açúcares e áci- está mais ativa. Assim, alguns estudos têm
insulina são polipeptídeos dos graxos para o tecido adiposo armazenar tentado usar a rapamicina como um possível
com sequências de
e tendo o estímulo do exercício físico para agente anti-tumoral.
aminoácidos similares à
da insulina, constituindo
uma importante via de
sinalização celular anabólica.
O eixo de sinalização do
IGF desempenha papéis na
promoção da proliferação
celular e na inibição da morte
celular. Está relacionado com
a hipertrofia muscular, o
desenvolvimento neuronal,
proteção e crescimento de
ossos e cartilagens entre
outros efeitos biológicos.

Figura 5.
A proteína mTOR em mamíferos
faz um controle fino do
metabolismo, contrapondo
anabolismo e catabolismo. Sua
super-ativação causa a síntese
descontrolada de proteínas
e lipídeos, associados com
obesidade e câncer. Por outro
lado, inibição crônica da via
está relacionada à desnutrição
e caquexia. Imagem de própria
autoria.

Sociedade Brasileira de Genética 291


UM GENE

TOR e autofagia pela TOR em diferentes espécies. Em Droso-


phila, por exemplo, o tempo de vida das mos-
cas foi aumentado com a administração de
Além de todos esses processos, a proteína
rapamicina e no verme C. elegans, a proteína
TOR conversa com outro importante pro-
LET-363, nome dado à TOR desses vermes,
cesso biológico, a autofagia. Também conser-
também está relacionada com o aumento do
vada desde os primeiros eucariotos, a autofa-
tempo de vida desses animais. Em camun-
gia vem do grego e significa auto – próprio,
dongos, estudos têm mostrado que a admi-
fagia – comer. A descoberta desse processo
nistração de rapamicina parece aumentar o
rendeu o prêmio Nobel em 2016 ao Dr.
tempo médio de vida em até 60 %. É como
Yoshinori Ohsumi, pelas suas contribuições
se um carro se conservasse mais ao longo dos
ao estudo. Entre várias outras proteínas, a
anos se fosse menos usado e se o reparo das
TOR regula a autofagia, inibindo-a quando
suas peças, ao quebrarem, fosse feito perio-
há oferta de nutrientes (Figura 6). Nesse sen-
dicamente.
tido, a autofagia é mais um dos processos nas
células que controlam a oferta de nutrientes. E, seria vantajoso tomarmos rapamicina
Como uma usina de reciclagem, quando há para vivermos mais? Muitos estudos indi-
baixa oferta de nutrientes, a TOR torna-se cam que não. Considerando o papel central
inibida e a autofagia aumenta, permitindo a da mTOR no controle do crescimento das
reciclagem de moléculas e organelas. Assim, células, incluindo o sistema imune, não pa-
a célula quebra as próprias proteínas e lipí- rece ser promissor tomarmos rapamicina
deos, entre outras moléculas, para reciclar para retardarmos o envelhecimento. De fato,
partes menores desses compostos, como as únicas aplicações aprovadas para o uso da
aminoácidos e ácidos graxos, respectivamen- rapamicina é como imunossupressor para
te. Ao mesmo tempo, diminui a quantidade pacientes transplantados, o que pode gerar
de mitocôndrias, por exemplo, degradan- uma série de problemas, como maior suscep-
do-as, já que em um momento de escassez tibilidade a infecções, e para o tratamento da
não faz sentido ter tantas mitocôndrias para linfangioleiomiomatose (LAM), condição
produzir energia. É momento de economizar genética rara caracterizada pela proliferação
energia. Afinal, não adianta ter várias usinas anormal de células de músculo liso nos pul-
de geração de energia se falta a matéria-pri- mões devido ao aumento da atividade da via
ma para se produzir tal energia. Por outro da mTOR.
lado, se as condições de ambiente mudarem
e a célula passar a ter alta oferta de nutrien- De qualquer forma, ninguém pode negar a
tes, a TOR torna-se ativa, as proteínas e lipí- importância da proteína TOR nos organis-
deos voltam a ser sintetizados, mitocôndrias mos. O gene que codifica essa proteína é um
voltam a ser produzidas e a autofagia - essa ótimo exemplo em biologia de como certas
reciclagem de moléculas e organelas - passa a características e processos biológicos podem
ser inibida. É como se os operários voltassem ser herdados por milhões de anos de evolu-
a trabalhar incansavelmente nas diferentes ção. Ao que tudo indica, um ancestral co-
maquinarias das células. mum de todos os eucariotos vivos nos dias de
hoje parece ter adquirido um gene capaz de
TOR e controlar o crescimento, afetando a história
da vida na Terra e do processo evolutivo. De
envelhecimento leveduras até humanos, passando por plan-
tas, vermes e insetos, essa proteína parece ser
Todos esses processos parecem estar ainda um regulador-chave do crescimento celular.
conectados de alguma forma com o enve- Então, sempre que pensar no pão crescendo
lhecimento, considerando que metabolismo, no forno, na cerveja fermentando graças às
autofagia e crescimento celular impactam no leveduras ou que comer muito pão e tomar
tempo de vida dos organismos. Sendo assim, muita cerveja engordam, lembre-se de que a
várias vias de senescência são controladas proteína TOR está no comando.

292 Genética na Escola | Vol. 16 | Nº 2 | 2021


Genética na Escola – ISSN: 1980-3540

Figura 6.
TOR controla em diferentes
espécies processos biológicos
comuns, como estímulo da
Para saber mais
HENRIQUES R, BÖGRE L, HORVÁTH B, MA-
síntese proteica e inibição da GYAR Z. Balancing act: matching growth with
autofagia. Sinais como oferta de environment by the TOR signalling pathway. J
nutrientes como aminoácidos, BITTO A, ITO TK, PINEDA VV, et al. Transient Exp Bot, v. 65, n. 10, p. 2691-2701, 2014.
a razão ATP/AMP e fatores de rapamycin treatment can increase lifespan and
crescimento em vertebrados healthspan in middle-aged mice. Elife, v. 5, p. GONZÁLEZ A, HALL MN. Nutrient sensing and
ativam a via da TOR. Imagem de e16351, 2016. TOR signaling in yeast and mammals. EMBO J,
própria autoria. v.36, n. 4, p. 397-408,2017.

Sociedade Brasileira de Genética 293

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