PAULO ROGERIO N DE MENEZES
A CENTRALIDADE DA PREGAÇÃO NA MISSÃO
INTEGRAL: UMA ABORDAGEM REFORMADA
Artigo elaborado pelo discente Paulo Rogerio N
de Menezes atendendo as exigências da
disciplina de Teologia de Missões 2 - Noturno,
ministrada pelo Prof. Rev. Jair de Almeida.
SEMINÁRIO TEOLÓGICO PRESBITERIANO
REV. JOSÉ MANOEL DA CONCEIÇÃO
São Paulo - 2024
A Centralidade da Pregação na Missão Integral: Uma Abordagem Reformada
Resumo
Este artigo aborda a pregação como elemento central da missão integral, destacando a
importância da proclamação da Palavra de Deus no contexto da missão cristã. A perspectiva
reformada reconhece a pregação como meio de graça essencial, fundamental para a verdadeira
transformação espiritual e social. O estudo analisa a base bíblica da pregação, sua função
histórica e teológica, e sua relevância contemporânea no trabalho missionário. Argumenta-se
que, enquanto a ação social é crucial, a pregação permanece o coração da missão da igreja,
levando ao discipulado e à expansão do Reino de Deus.
Introdução
A missão integral, conforme desenvolvida na teologia latino-americana por figuras
como René Padilla e Samuel Escobar, enfatiza uma abordagem holística da missão cristã,
englobando tanto a evangelização quanto a responsabilidade social. No entanto, o movimento
missiológico contemporâneo enfrenta o desafio de manter a pregação do Evangelho como
elemento central, em meio a uma crescente ênfase em ações sociais. A perspectiva reformada,
fortemente enraizada nas Escrituras, sustenta que a pregação da Palavra é o meio principal pelo
qual o Espírito Santo atua na salvação e transformação dos indivíduos e comunidades. Este
artigo propõe que, sem a pregação fiel, a missão integral corre o risco de se tornar apenas um
ativismo social sem o poder transformador do Evangelho.
1. A Centralidade da Pregação nas Escrituras
A pregação ocupa um lugar central no Novo Testamento, sendo o meio pelo qual Jesus
e os apóstolos comunicavam o Reino de Deus. Desde o início de seu ministério, Jesus
proclamou: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17). A pregação é
vista como um meio de convocação divina, chamando pecadores ao arrependimento e à fé. Os
sermões de Pedro em Atos (At 2.14-41; At 3.12-26) evidenciam a ênfase apostólica na
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proclamação do Evangelho. A pregação não era apenas uma apresentação de ideias, mas uma
proclamação autoritativa do próprio Cristo ressuscitado.
O apóstolo Paulo reforça essa centralidade em suas epístolas, especialmente em
Romanos 10.14-15, onde destaca: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como
crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?”.
Para Paulo, a pregação é o meio pelo qual a fé é gerada, sendo um elemento indispensável na
missão da igreja.
Os fundamentos bíblicos da missão cristã encontram-se enraizados na revelação
progressiva da Escritura, que nos apresenta o plano redentor de Deus para a humanidade. Desde
o início, vemos que a missão de Deus é estabelecida com o propósito de reconciliar um mundo
caído e afastado de Seu Criador. Em Gênesis 12, a aliança de Deus com Abraão destaca a
intenção de abençoar “todas as famílias da terra” por meio de sua descendência. Esse chamado
inicial aponta para uma missão universal, que encontra seu cumprimento em Cristo, o
descendente prometido, e continua a ser realizada através da igreja.
No Antigo Testamento, a missão de Israel era refletir a santidade de Deus e ser uma luz
para as nações. O povo de Deus foi chamado para ser distinto, vivendo segundo os
mandamentos de Deus e revelando Seu caráter aos povos ao redor. Os profetas, como Isaías e
Jeremias, continuamente exortaram Israel a ser fiel a essa vocação, anunciando que, por meio
do Messias, a luz de Deus alcançaria até os confins da terra (Is 49:6). A ideia central aqui é a
de que Deus não é apenas o Senhor de Israel, mas o Senhor de todas as nações, e Seu plano de
redenção abrange todos os povos.
Com a vinda de Cristo, o tema missiológico se intensifica e se expande. O ministério de
Jesus é caracterizado por Seu engajamento com diversos grupos, incluindo gentios, samaritanos
e outras minorias marginalizadas pela sociedade judaica da época. Jesus demonstra, através de
Suas palavras e ações, que o Evangelho não está restrito a um grupo étnico ou cultural, mas é
uma boa nova para todas as nações. Em Lucas 4:18-19, citando Isaías, Jesus declara o propósito
de Sua missão: proclamar boas-novas aos pobres, libertar os cativos e restaurar a vista aos
cegos. Este é um manifesto missiológico que exemplifica o coração da missão de Deus — trazer
libertação e cura para um mundo em trevas.
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A Grande Comissão, em Mateus 28:18-20, serve como a culminação da missão de
Cristo e o início da missão da igreja. Jesus confere aos Seus discípulos a responsabilidade de ir
e fazer discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, e ensinando-os a obedecer tudo o que Ele ordenou. Esta comissão não é uma mera
sugestão; é um mandato divino fundamentado na autoridade soberana de Cristo, que foi
recebido do Pai. Aqui, a missão da igreja é explicitamente global e integral, abrangendo tanto
a evangelização quanto o discipulado.
No livro de Atos, vemos o desdobramento da missão da igreja, capacitada pelo Espírito
Santo. Atos 1:8 fornece uma estrutura para a expansão missiológica: “Vocês serão minhas
testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra”. O Espírito
Santo é o agente capacitador da missão, e a igreja é o meio pelo qual o Evangelho se espalha.
A partir de Pentecostes, o Evangelho começa a romper barreiras culturais, étnicas e sociais,
demonstrando o poder do Espírito em reunir um povo de todas as tribos, línguas e nações.
A missão bíblica não é apenas uma adição à vida da igreja; é o cerne de sua existência.
A missão não é um programa ou um ministério separado, mas a própria natureza da igreja como
o corpo de Cristo no mundo. A narrativa bíblica, de Gênesis a Apocalipse, mostra que o desejo
de Deus é redimir a criação e restaurar a comunhão perdida com a humanidade. A missão da
igreja, então, é uma participação no próprio plano redentor de Deus, cumprindo o propósito
eterno que Ele estabeleceu antes da fundação do mundo.
3. Perspectiva Reformada da Missão
A perspectiva reformada da missão é caracterizada por uma visão elevada da soberania
de Deus e por uma compreensão robusta da obra de Cristo como a base da missão da igreja.
Diferente de outras abordagens missiológicas que enfatizam primariamente a atividade humana,
a tradição reformada sustenta que é o próprio Deus quem conduz a missão através de Seu plano
soberano e infalível. A missão não se inicia com o homem, mas com o Deus triúno que, em Seu
amor eterno, planejou a redenção de um povo para Si.
A doutrina da eleição desempenha um papel fundamental na teologia reformada da
missão. Deus escolheu, antes da fundação do mundo, um povo para ser redimido por meio de
Cristo. Esta escolha não é baseada em mérito humano, mas na graça soberana de Deus.
Consequentemente, a missão da igreja é participar do que Deus já decretou. A igreja, então, não
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evangeliza para “convencer” Deus a salvar, mas proclama o Evangelho com a confiança de que
o Espírito Santo efetivamente aplica a obra de Cristo aos eleitos.
A tradição reformada também destaca a centralidade da pregação como o meio ordinário
pelo qual Deus realiza Sua missão. A pregação não é vista apenas como um discurso
motivacional ou um método de ensino, mas como o meio de graça pelo qual o Espírito Santo
aplica a Palavra ao coração dos ouvintes. Em Romanos 10:14-15, Paulo afirma que a fé vem
pelo ouvir, e o ouvir pela pregação da Palavra de Cristo. A ênfase aqui está na proclamação
clara e fiel do Evangelho, como a boa nova de que Cristo morreu pelos pecadores e ressuscitou
para sua justificação.
Além disso, a perspectiva reformada da missão é alicerçada na visão bíblica do Reino
de Deus. A missão não se limita a converter indivíduos, mas envolve a proclamação do Reino
de Deus e a transformação de toda a criação. O mandato cultural, dado em Gênesis 1:28,
encontra seu pleno cumprimento em Cristo, o segundo Adão, que restaura o domínio sobre toda
a criação. Assim, a missão da igreja inclui tanto o discipulado dos crentes quanto a influência
transformadora no mundo, apontando para o Reino vindouro de justiça e paz.
Finalmente, a abordagem missiológica, reconhece que a consumação da missão ocorrerá
apenas com a volta de Cristo. A igreja vive entre o “já” e o “ainda não” do Reino de Deus,
proclamando a vitória de Cristo enquanto aguarda Sua plena manifestação. Esta tensão
escatológica motiva a igreja a perseverar em sua missão, sabendo que o triunfo final não
depende de seus esforços, mas da promessa fiel de Deus.
4. Exemplos Históricos da Pregação na Expansão da Missão Cristã: Uma
Perspectiva Reformada
A história da igreja cristã é marcada por grandes movimentos de avivamento e expansão
missionária, todos profundamente enraizados na pregação fiel da Palavra de Deus. Desde o
início da era apostólica, passando pela Reforma Protestante, até os grandes despertamentos, a
pregação tem sido o principal meio de propagação do Evangelho e transformação das
sociedades.
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João Calvino, em suas Institutas da Religião Cristã, defendeu a centralidade da
pregação como o principal meio de graça, juntamente com os sacramentos. Para Calvino, a
pregação não era apenas um discurso, mas um meio pelo qual Cristo se faz presente para o Seu
povo. Ele afirma: “Onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida, ali, certamente,
está a igreja de Deus” (CALVINO, 2006). A prática calvinista da pregação expositiva — que
coloca a explicação e aplicação das Escrituras no centro do culto — formou a base para a
teologia reformada e sua abordagem missiológica. Os missionários reformados seguiram este
modelo, levando a pregação da Palavra como o foco de seus esforços evangelísticos.
William Carey, conhecido como o "pai das missões modernas", é outro exemplo
notável. Em sua obra An Enquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the
Conversion of the Heathens, Carey destacou que a pregação é o meio pelo qual o Espírito Santo
atua para trazer convicção de pecado e conversão (CAREY, 1792). Para Carey, a pregação fiel
era o elemento essencial na evangelização, pois, sem ela, a missão não passava de um trabalho
social vazio e desprovido de poder espiritual.
Nos despertamentos do século XVIII, figuras como George Whitefield e Jonathan
Edwards exemplificaram o poder da pregação na missão. Edwards, em seu sermão icônico
"Pecadores nas Mãos de um Deus Irado", mostrou como a pregação fiel da Palavra pode trazer
convicção e arrependimento profundo. Edwards acreditava que o avivamento verdadeiro era
resultado da obra soberana de Deus através da pregação bíblica. Em sua obra A Missão da
Igreja, Michael Horton corrobora essa visão ao afirmar que o poder da pregação não reside nas
habilidades retóricas do pregador, mas na ação do Espírito Santo ao aplicar a Palavra de Deus
ao coração dos ouvintes (HORTON, 2016).
Portanto, ao longo da história, a pregação tem sido o principal motor de avanço
missionário. A pregação expositiva, que é fiel ao texto bíblico e centrada em Cristo, tem sido a
marca distintiva dos movimentos missionários reformados. Ao contrário de métodos
pragmáticos e reducionistas, que frequentemente substituem a pregação pela ação social, a
tradição reformada sustenta que é a proclamação da Palavra que verdadeiramente transforma
vidas e sociedades.
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5. Aplicações Contemporâneas para a Missão da Igreja: Uma Abordagem
Reformada e Missional
A missão da igreja no contexto contemporâneo enfrenta desafios significativos. O
secularismo crescente e a pluralidade religiosa exigem uma abordagem missiológica que seja
fiel às Escrituras e relevante para o mundo atual. A tradição reformada, conforme apresentada
por autores como Michael Horton e John Stott, oferece uma resposta robusta para esses
desafios, enfatizando a centralidade da pregação e a necessidade de uma abordagem missional
que não negligencie a proclamação do Evangelho.
Horton, em A Missão da Igreja, defende que a igreja não deve conformar-se aos padrões
de relevância cultural que minimizam a pregação. Ele argumenta que, embora o engajamento
social seja importante, este deve fluir da pregação fiel do Evangelho, e não substituí-la
(HORTON, 2016). Segundo Horton, a igreja é chamada a proclamar a “verdade pública” do
Evangelho, que desafia as narrativas culturais dominantes e apresenta Cristo como o único
Senhor e Salvador. A missão da igreja, portanto, não é meramente adaptar-se ao mundo, mas
confrontá-lo com a verdade transformadora do Evangelho.
John Stott, em A Missão Cristã no Mundo Moderno, reforça essa ideia ao afirmar que a
missão integral deve incluir tanto a proclamação quanto a demonstração do Evangelho
(STOTT, 2008). Para Stott, a evangelização e a ação social são “duas asas do mesmo pássaro”,
inseparáveis na missão da igreja. No entanto, ele adverte contra a tentação de reduzir a missão
apenas à ação social, negligenciando a proclamação da Palavra. Stott argumenta que a pregação
é o meio principal pelo qual Deus comunica Sua graça salvadora, e que, sem ela, a missão
integral perde seu foco central.
Christopher Wright, em A Missão de Deus, oferece uma abordagem missional baseada
na narrativa bíblica como um todo. Wright argumenta que a missão da igreja deve ser
fundamentada na missão de Deus, que é revelada nas Escrituras como o plano redentor para
toda a criação (WRIGHT, 2012). Ele enfatiza que a pregação é o meio pelo qual a igreja
participa da missão de Deus, anunciando o Reino e chamando as pessoas ao arrependimento e
à fé. Para Wright, a missão da igreja não é meramente um esforço humano para transformar a
sociedade, mas uma participação na obra redentora de Deus, que é realizada através da
proclamação fiel do Evangelho.
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John Piper, em Let the Nations Be Glad, destaca a supremacia de Deus na missão. Para
Piper, a pregação é fundamental porque coloca Deus no centro da missão, chamando todas as
nações a adorá-Lo (PIPER, 2003). Ele afirma que “a pregação existe porque a adoração não
existe em todos os lugares”. Em outras palavras, a finalidade da missão é a adoração, e a
pregação é o meio pelo qual as pessoas são trazidas ao conhecimento de Deus e à adoração
verdadeira. Piper argumenta que a pregação deve ser teocêntrica, exaltando a glória de Deus e
chamando as pessoas à adoração.
Assim, em uma abordagem reformada e missional, a pregação permanece central na
missão da igreja. Ela não é apenas um componente da missão, mas o coração dela, através do
qual o Espírito Santo opera para trazer salvação, renovação e transformação. A missão integral,
quando corretamente compreendida, vê a pregação como o fundamento sobre o qual todas as
outras atividades da igreja são construídas. O engajamento social e a diaconia são importantes,
mas são secundários em relação à pregação, que é o meio primário da graça.
Em um mundo que cada vez mais relativiza a verdade e abraça o pluralismo, a igreja
deve reafirmar sua confiança no poder da Palavra de Deus pregada. Somente assim ela poderá
cumprir sua missão de fazer discípulos de todas as nações, proclamando a glória de Deus e o
senhorio de Cristo sobre todas as esferas da vida.
Conclusão
A conclusão que se sustenta em uma base bíblica e reformada deve destacar a
centralidade da obra de Deus na missão da igreja, ressaltando o papel da pregação e da
proclamação do Evangelho como meios pelos quais Deus age soberanamente no mundo. A
igreja não é apenas uma instituição que desempenha atividades sociais ou culturais, mas é,
acima de tudo, a comunidade redimida que proclama a mensagem do Reino de Deus, apontando
para a reconciliação em Cristo e para o cumprimento do plano redentor de Deus na história.
Compreendemos que a missão da igreja é primeiramente teocêntrica, isto é, orientada
para a glória de Deus e não para a satisfação das necessidades humanas apenas. Embora a ação
social e o engajamento cultural sejam importantes, estes devem ser vistos como frutos da missão
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e não como sua essência. O verdadeiro coração da missão reside na proclamação do Evangelho
— a mensagem de Cristo crucificado e ressurreto, que é poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê. A ênfase reformada na soberania de Deus nos lembra que é o próprio Senhor
quem conduz a missão, e a igreja participa como instrumento em Suas mãos, seguindo o
mandato da Grande Comissão.
A narrativa bíblica nos apresenta um Deus missionário, que desde o início buscou
redimir a criação caída. O plano de redenção é revelado progressivamente nas Escrituras, desde
a promessa feita a Abraão até a consumação descrita em Apocalipse, onde todas as nações se
unem para adorar ao Cordeiro. A igreja, como povo de Deus, é chamada a participar dessa
missão, proclamando o Reino de Deus e chamando as pessoas ao arrependimento e à fé. Esse
chamado não se baseia em nossa capacidade ou habilidade, mas na obra eficaz do Espírito
Santo, que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo.
A pregação expositiva e fiel da Palavra é o meio pelo qual Deus continua a falar ao Seu
povo e ao mundo. Em uma era marcada pelo relativismo e pluralismo, a igreja deve reafirmar
sua confiança nas Escrituras como a verdade absoluta e infalível. A mensagem do Evangelho
não é uma opinião cultural ou uma filosofia de vida, mas é a própria revelação de Deus para a
humanidade. A pregação bíblica, portanto, deve ser clara, corajosa e centrada em Cristo,
proclamando tanto o amor de Deus quanto a realidade do juízo. Sem essa ênfase, a missão da
igreja se torna vazia e perde seu poder transformador.
Uma abordagem apologética reformada para a missão reconhece que a pregação do
Evangelho encontrará oposição, pois o mundo rejeita a verdade de Deus em favor de suas
próprias filosofias. Contudo, a igreja é chamada a dar testemunho fiel, sabendo que o poder de
Deus se aperfeiçoa na fraqueza. O próprio Cristo nos advertiu que o caminho do discipulado
envolve perseguição e sofrimento, mas também nos prometeu que estaria conosco até o fim dos
tempos. É essa promessa que dá à igreja a confiança necessária para continuar proclamando o
Evangelho, mesmo em face da hostilidade cultural.
A missão da igreja não se trata de construir um reino terrestre por meio de esforços
humanos, mas de proclamar o Reino de Deus que já foi inaugurado em Cristo e que será
consumado em Sua volta. A tensão entre o “já” e o “ainda não” do Reino de Deus define a
natureza da missão da igreja. Vivemos como peregrinos, cidadãos de uma cidade celestial, mas
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ao mesmo tempo somos chamados a ser sal e luz no mundo, anunciando o Evangelho e
demonstrando o amor de Cristo em nossas vocações diárias.
A igreja, então, deve resistir à tentação de buscar relevância cultural às custas da
fidelidade bíblica. Em vez disso, deve confiar nos meios de graça ordenados por Deus — a
pregação da Palavra e a administração dos sacramentos — como os meios pelos quais o Espírito
Santo opera para transformar vidas e expandir o Reino. A missão não é impulsionada por
estratégias humanas, mas pela fidelidade ao mandato de Cristo e pela dependência no poder do
Espírito.
Por fim, a esperança da igreja reside na certeza da volta de Cristo. A missão não será
plenamente cumprida por nossos esforços, mas será consumada quando Cristo retornar em
glória para julgar os vivos e os mortos e para fazer novas todas as coisas. Essa esperança
escatológica dá sentido e propósito à missão da igreja, lembrando-nos de que trabalhamos não
para um reino terreno e passageiro, mas para o Reino eterno de Deus. Portanto, a missão da
igreja é, acima de tudo, uma proclamação da glória de Deus em Cristo, que triunfa sobre o
pecado, a morte e o diabo, e que nos chama a sermos participantes dessa vitória por meio da fé.
Assim, permanecemos firmes no mandato da Grande Comissão, sabendo que a missão
da igreja não falhará, pois é sustentada pelo próprio Cristo, que prometeu: “E eis que estou
convosco todos os dias, até a consumação do século” (Mateus 28:20).
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Referências Bibliográficas
Bíblia Sagrada: Almeida Revista e Atualizada.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.
CAREY, William. An Enquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the
Conversion of the Heathens. Cambridge: The University Press, 1792.
HORTON, Michael. A Missão da Igreja: Fazendo Discipulado, Pregando a Palavra e
Administrando os Sacramentos. São Paulo: Vida Nova, 2016.
KUYPER, Abraham. Lectures on Calvinism. Grand Rapids: Eerdmans, 1931.
PIPER, John. Let the Nations Be Glad: The Supremacy of God in Missions. Grand Rapids:
Baker Academic, 2003.
STOTT, John. A Missão Cristã no Mundo Moderno. São Paulo: Vida Nova, 2008.
WRIGHT, Christopher J. H. A Missão de Deus: Descobrindo a Grande Narrativa das Escrituras.
São Paulo: Editora Vida, 2012.