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O Narrador para Bakhtin

O narrador, segundo Bakhtin, é parte integrante do universo textual e sua linguagem reflete um diálogo social que evidencia diferentes visões de mundo. A narrativa é vista como um diálogo inacabado, onde a polifonia de vozes e a multiplicidade de consciências são fundamentais para a construção do romance. Bakhtin diferencia entre a 'palavra autoritária' e a 'palavra interiormente persuasiva', ressaltando que o narrador, como um discurso entre discursos, não possui uma consciência autônoma, mas serve como um substituto composicional do autor.

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O Narrador para Bakhtin

O narrador, segundo Bakhtin, é parte integrante do universo textual e sua linguagem reflete um diálogo social que evidencia diferentes visões de mundo. A narrativa é vista como um diálogo inacabado, onde a polifonia de vozes e a multiplicidade de consciências são fundamentais para a construção do romance. Bakhtin diferencia entre a 'palavra autoritária' e a 'palavra interiormente persuasiva', ressaltando que o narrador, como um discurso entre discursos, não possui uma consciência autônoma, mas serve como um substituto composicional do autor.

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O Narrador para Bakhtin

O narrador é integrante do universo textual, e sua linguagem -


representação do diálogo social - decorre da manifestação de
diferentes visões de mundo. A existência do outro, até mesmo do
“outro eu” implícito num discurso interior, é evidenciada pela
enunciação do narrador.

Dessa forma, as teorizações de Mikhail Bakhtin sobre o gênero romance


permite que a narrativa mostre-se como um diálogo inacabado, e se abra
a multiplicidades de vozes, a polifonia. A multiplicidade de vozes e
consciências independentes, presentes no romance, demonstra a
autêntica polifonia de vozes com plenos valores, vozes com relação
absoluta de igualdade devido ao diálogo.

O plurilingüismo inserido no romance é, para Bakhtin, o discurso de


outrem na linguagem de outrem. A palavra, nesse tipo de discurso,
é bivocal, pois serve, simultaneamente, a dois locutores: carrega
consigo a intenção direta da personagem que fala e a intenção
refratada do narrador.

Segundo Bakhtin, o heterodiscurso “é discurso de outro na linguagem do


outro” (BAKHTIN, 2015, p. 113),

A figura do narrador está ligada a ofícios do mundo antigo e medieval: na


fonte criativa do narrador, está a “experiência que vai de boca em
boca”31, a mesma que confere grandeza às narrativas escritas, desde que
tenham conservado os traços da oralidade. O narrador é tanto aquele que
conta sobre algo distante, a partir de suas viagens, como o que permanece
em casa e conta a partir do conhecimento da história e tradição de sua
terra. Neles estão, respectivamente, o marinheiro e o camponês, os quais
produziram sua própria linhagem de narradores: “a real extensão do reino
das narrações não é pensável em todo seu alcance histórico sem a íntima
interpenetração destes dois tipos arcaicos”
A narração está ligada à arte de “dar conselhos” (Rat), de modo que o que
conta neste processo é a capacidade do narrador/conselheiro dar
continuidade a uma história. A narração prescinde de explicações,
deixando ao interlocutor a liberdade de interpretação, e sua exatidão não
tem a ver com a plausibilidade, uma vez que na origem de muitas
narrações se encontra o miraculoso como o mais exato: “é certamente já
metade da arte do narrador livrar uma história de explicações, na medida
em que ele a reconstitui”

Na relação axiológica entre o eu e o outro, forma-se em mim


esteticamente a imagem externa do outro, sou eu que, a partir do meu
lugar privilegiado e único na existência, afastado do outro, posso lhe dar
seu acabamento externo. Essa exterioridade fundamenta, para Bakhtin, a
existência do valor estético, com todas as ressalvas que a analogia
operada por ele entre vida e arte exige que sejam feitas.

Há, portanto, três relações estabelecidas: entre prosador (e suas


variantes) e autor, entre autor e narrador e entre autor e personagem
(que narra). Em todas Bakhtin consegue enxergar relações de proximidade
e afastamento, de fusão e de diferenciação entre suas vozes. A diferença
entre as relações só pode ser percebida se não se perde de vista que o
autor não é uma pessoa concreta, fato muitas vezes posto em dúvida
quando o próprio Bakhtin usa expressões como autor “personificado e
concreto”, ou ainda “suposto autor real”, que podem também aparecer
no romance.

Com isso, ele propõe uma diferenciação entre “palavra autoritária” e


“interiormente persuasiva”. A diferença basicamente consiste em que a
palavra autoritária (da religião, política, moral etc.), sendo a palavra de
outrem que se impõe, se isola de outras palavras e não permite sua
modificação. Consequentemente, não permite também sua
representação, mas apenas sua repetição, sua transmissão. A palavra
interiormente persuasiva é aquela que não se diferencia a priori da nossa
própria. “À diferença da palavra autoritária exterior, a palavra persuasiva
interior no processo de sua assimilação positiva se entrelaça
estreitamente com a nossa”.27 Essa palavra, pela abertura e liberdade
que dá ao sujeito de lidar criativamente com ela, de perder seu vínculo
inicial com o outro, é mais facilmente passível de representação literária e
não somente de transmissão.

A mesma regra vale para o narrador, que continua sendo “um discurso
entre discursos”, e pode servir tanto para refratar as ideias do autor no
discurso de um outro, como ser expressão direta das ideias desse autor,
quando a narração não é feita por uma personagem. Nesses sentidos, o
narrador é sempre substituto composicional do discurso do autor, é uma
forma composicional, no sentido próprio que dá Bakhtin à forma em “O
problema do conteúdo, do material e da forma...” Talvez por isso Bakhtin
não se dedique tanto, ou não pôde se dedicar à questão do narrador, já
que o objetivo da contemplação estética nunca será apenas a forma
artística, mas o conteúdo humano para o qual ela aponta. Por isso suas
atenções incidem sempre mais sobre o autor e a personagem, já que eles
são os elementos que evocam o sentido humano na produção literária.
Para ele, “é necessário ter em vista que, por si mesmas, as formas
composicionais ainda não resolvem a questão do tipo de discurso”, 39
pois como forma elas podem servir a vários tipos.

A conclusão a que chega Bakhtin nas considerações sobre o narrador é,


portanto, bem simples: “a narração se desenvolve entre dois limites: entre
o discurso secamente informativo, protocolar, de modo algum
representativo, e o discurso do herói”.41 São exatamente as formas
encontradas por Bakhtin em Dostoiévski.

Conclui-se que o narrador, principalmente na perspectiva do romance


polifônico descrito por Bakhtin, não tem o mesmo aspecto de uma
consciência autônoma, a não ser quando a própria personagem encarna a
voz narrativa. Quando ele é um substituto composicional do autor,
Bakhtin não chega a sugerir uma definição mais desenvolvida do que essa,
mas certamente, como um discurso entre outros discursos, mesmo sendo
substituto composicional do autor, ele não substitui sua consciência, seu
campo de visão. Levando-se em conta que o objeto estético para Bakhtin
é a contemplação de um conteúdo que diz respeito à vida humana, o
narrador poderia ser uma chave para a compreensão desse objeto (não
para Bakhtin, aparentemente), uma chave para entender a relação autor/
personagem, pois a forma como se apresenta pode dizer muito da relação
ética entre “eu” e o “outro”, ou entre “eu” e “tu”, tão caras para ele.

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