A História da Psicopedagogia
Os primeiros Centros Psicopedagógicos foram fundados na Europa, em 1946, por J
Boutonier e George Mauco, com direção médica e pedagógica. Estes Centros uniam
conhecimentos da área de Psicologia, Psicanálise e Pedagogia, onde tentavam
readaptar crianças com comportamentos socialmente inadequados na escola ou no
lar e atender crianças com dificuldades de aprendizagem apesar de serem
inteligentes (MERY apud BOSSA, 2000, p. 39).
Na literatura francesa – que, como vimos, influencia as idéias sobre psicopedagogia
na Argentina (a qual, por sua vez, influencia a práxis brasileira) – encontra-se, entre
outros, os trabalhos de Janine Mery, a psicopedagoga francesa que apresenta
algumas considerações sobre o termo psicopedagogia e sobre a origem dessas
idéias na Europa, e os trabalhos de George Mauco, fundador do primeiro centro
médico psicopedagógico na França,..., onde se percebeu as primeiras tentativas de
articulação entre Medicina, Psicologia, Psicanálise e Pedagogia, na solução dos
problemas de comportamento e de aprendizagem (BOSSA, 2000, p. 37)
Esperava-se através desta união Psicologia-Psicanálise-Pedagogia, conhecer a
criança e o seu meio, para que fosse possível compreender o caso para determinar
uma ação reeducadora.
Diferenciar os que não aprendiam, apesar de serem inteligentes, daqueles que
apresentavam alguma deficiência mental, física ou sensorial era uma das
preocupações da época.
Observamos que a psicopedagogia teve uma trajetória significativa tendo
inicialmente um caráter médico-pedagógico dos quais faziam parte da equipe do
Centro Psicopedagógico: médicos, psicólogos, psicanalistas e pedagogos.
Esta corrente européia influenciou significativamente a Argentina. Conforme a
psicopedagoga Alicia Fernández (apud BOSSA, 2000, p. 41), a Psicopedagogia
surgiu na Argentina há mais de 30 anos e foi em Buenos Aires, sua capital, a primeira
cidade a oferecer o curso de Psicopedagogia.
Foi na década de 70 que surgiram, em Buenos Aires, os Centros de Saúde Mental,
onde equipes de psicopedagogos atuavam fazendo diagnóstico e tratamento. Estes
psicopedagogos perceberem um ano após o tratamento que os pacientes
resolveram seus problemas de aprendizagem, mas desenvolveram distúrbios de
personalidade como deslocamento de sintoma. Resolveram então incluir o olhar e a
escuta clínica psicanalítica, perfil atual do psicopedagogo argentino (Id. Ibid., 2000,
p.41).
Na Argentina, a psicopedagogia tem um caráter diferenciado da psicopedagogia no
Brasil. São aplicados testes de uso corrente, “alguns dos quais não sendo permitidos
aos brasileiros...” (Id. Ibid., p. 42), por ser considerado de uso exclusivo dos
psicólogos (cf. BOSSA, p. 58). “... os instrumentos empregados são mais variados,
recorrendo o psicopedagogo argentino, em geral, a provas de inteligência, provas
de nível de pensamento; avaliação do nível pedagógico; avaliação perceptomotora;
testes projetivos; testes psicomotores; hora do jogo psicopedagógico” (Id. Ibid.,
2000, p. 42).
A psicopedagogia chegou ao Brasil, na década de 70, cujas dificuldades de
aprendizagem nesta época eram associadas a uma disfunção neurológica
denominada de disfunção cerebral mínima (DCM) que virou moda neste período,
servindo para camuflar problemas sociopedagógicos (Id. Ibid., 2000, p. 48-49).
Inicialmente, os problemas de aprendizagem foram estudados e tratados por
médicos na Europa no século XIX e no Brasil percebemos, ainda hoje, que na
maioria das vezes a primeira atitude dos familiares é levar seus filhos a uma consulta
médica.
Na prática do psicopedagogo, ainda hoje é comum receber no consultório crianças
que já foram examinadas por um médico, por indicação da escola ou mesmo por
iniciativa da família, devido aos problemas que está apresentando na escola (Id.
Ibid., 2000, p. 50).
A Psicopedagogia foi introduzida aqui no Brasil baseada nos modelos médicos de
atuação e foi dentro desta concepção de problemas de aprendizagem que se
iniciaram, a partir de 1970, cursos de formação de especialistas em Psicopedagogia
na Clínica Médico-Pedagógica de Porto Alegre, com a duração de dois anos (Id.
Ibid., 2000, p. 52).
De acordo com Visca, a Psicopedagogia foi inicialmente uma ação subsidiada da
Medicina e da Psicologia, perfilando-se posteriormente como um conhecimento
independente e complementar, possuída de um objeto de estudo, denominado de
processo de aprendizagem, e de recursos diagnósticos, corretores e preventivos
próprios (VISCA apud BOSSA, 2000, p. 21).
Com esta visão de uma formação independente, porém complementar, destas duas
áreas, o Brasil recebeu contribuições, para o desenvolvimento da área
psicopedagógica, de profissionais argentinos tais como: Sara Paín, Jacob
Feldmann, Ana Maria Muniz, Jorge Visca, dentre outros.
Temos o professor argentino Jorge Visca[1] como um dos maiores contribuintes da
difusão psicopedagógica no Brasil. Foi o criador da Epistemologia Convergente,
linha teórica que propõe um trabalho com a aprendizagem utilizando-se da
integração de três linhas da Psicologia: Escola de Genebra - Psicogenética de Jean
Piaget (já que ninguém pode aprender além do que sua estrutura cognitiva permite),
Escola Psicanalítica - Freud ( já que dois sujeitos com igual nível cognitivo e distintos
investimentos afetivos em relação a um objeto aprenderão de forma diferente) e a
Escola de Psicologia Social de Enrique Pichon Rivière ( pois se ocorresse uma
paridade do cognitivo e afetivo em dois sujeitos de distinta cultura, também suas
aprendizagens em relação a um mesmo objeto seriam diferentes, devido as
influências que sofreram por seus meios sócio-culturais) (VISCA, 1991, p. 66).
Visca propõe o trabalho com a aprendizagem utilizando-se de uma confluência dos
achados teóricos da escola de Genebra, em que o principal objeto de estudo são os
níveis de inteligência, com as teorizações da psicanálise sobre as manifestações
emocionais que representam seu interesse predominante. A esta confluência, junta,
também, as proposições da psicologia social de Pichon Rivière, mormente porque a
aprendizagem escolar, além do lidar com o cognitivo e com o emocional, lida
também com relações interpessoais vivenciadas em grupos sociais específicos
(França apud Sisto et. al. 2002, p. 101).
A análise do sujeito através de correntes distintas do pensamento psicológico
concebeu uma proposta de diagnóstico, de processo corretor e de prevenção, dando
origem ao método clínico psicopedagógico.
CONHECENDO A HISTÓRIA DA PSICOPEDAGOGIA NO BRASIL
CONHECENDO A HISTÓRIA DA PSICOPEDAGOGIA NO BRASIL Aparecida Roseli
Pereira da Silva Celia Paula Luperini Elizete da Silva Paulo RESUMO Este trabalho tem
como proposta apresentar a história da trajetória da psicopedagogia no Brasil, para tanto
faremos uma breve contextualização do processo que desencadeou o surgimento dessa
ciência em diferentes momentos históricos. CONHECENDO A HISTORIA DA
PSICOPEDAGOGIA NO BRASIL Assim como na Europa e na Argentina, o problema de
aprendizagem foi entendido, por muito tempo, como sendo originado por fatores
orgânicos, essa visão foi mantida por muitos anos e foi determinante na forma de
tratamento do fracasso escolar ate bem pouco tempo. As dificuldades ou problemas de
aprendizagem pode sem facilmente constatada também como distúrbios, cuja causa é
também atribuída a uma disfunção do sistema nervoso central. A partir da concepção
orgânica acerca dos problemas de aprendizagem, Bossa observa que: “ na década de
1970, foi amplamente difundida, aqui no Brasil, a idéia de que os problemas de
aprendizagem teriam como causa uma disfunção neurológica, não detectável em exame
clinico, a chamada disfunção cerebral mínima (DCM). Alem do rotulo DCM, termos como
dislexia, disritmia e outros, também foram utilizados pela psicologia individual para
camuflar os problemas sociopedagógicos, como, por exemplo, situações de
desigualdades, de oportunidades educacionais da época.” (BOSSA, 2007. p.51) Essa
perspectiva teve origem na Europa, no século XIX, época em que os problemas de
aprendizagem eram estudados e tratados por médicos. Porem, essa atitude foi
rapidamente incorporada na educação brasileira, por tratar os fenômenos de repetência
e evasão de forma simples e ingênua. Ainda nos dias atuais, a primeira atitude dos
educadores e dos familiares de crianças com problemas de aprendizagem é recorrer ao
médico, que ainda continua tendo uma grande importância nas decisões das famílias. É
a partir do final da década de 1970 é inicio dos anos 1980 que, começa a se configurar
uma nova teoria sobre o atendimento do fracasso escolar. O enfoque passou então a
ser a visão sociopolítica, na qual o problema de aprendizagem passa a ser entendido
enquanto problema de ensinagem. Mas ainda no final da década de 1970, educadores
continuavam a delegar causas extra-escolares ao fracasso escolar, porem Bossa
destaca que: “ faz-se necessário desmistificar a idéia de que o fracasso escolar é
causado por fatos externos e passar a entender a articulação entre estes e as
dificuldades existentes no próprio âmbito escolar que determinam o fracasso escolar”
(Bossa, 2007, p.52) Essa postura de relacionar causas extraclasses ao fracasso escolar
conduz à relativização e, até mesmo, à inversão de muitas formas de compreender esse
fracasso escolar como problemas de aprendizagem e que deveria , nesta perspectiva,
se configurar principalmente com problemas de ensinagem, que não são produzidos
unicamente dentro da sala de aula. Collares afirma que: “ o processo social de produção
do fracasso escolar se realiza no cotidiano da escola [...] é nas tramas do fazer e do
viver o pedagógico quotidianamente nas escolas, que se pode perceber as reais razões
do fracasso escolar das crianças advindas de meios socioculturais mais pobres.” (
Collares, 1989, p.25) No final da década de 1970, surgiram no âmbito institucional, os
primeiros cursos com enfoque psicopedagógicos, antecedendo a criação dos cursos de
formais de especialização e aperfeiçoamento. Segundo Bossa: “ Esses cursos tratavam
de temas como “ a criança-problema em classe comum” ,” dificuldades escolares” , “
pedagogia terapêutica” , “ problemas de aprendizagem escolar” . Eram oferecidos a
psicólogos e profissionais de área afins, em busca de subsídios para atuar junto às
crianças que não respondiam às solicitações das escolas.” (Bossa, 2007, p.123) Ainda
não podemos deixar de citar a grande contribuição da professora Genny Golubi de
Moraes, coordenadora dos cursos de Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUCSP) e responsável pela formação de um grande numero de profissionais, que
priorizou o trabalho preventivo, demonstrando a preocupação de que cada vez menos
crianças chegassem à clinicas por problemas escolares. Em 1979, por iniciativa da
pedagoga e psicodramaticista Maria Alice Assimon e Madre Sodré Dória, que foi criado
o primeiro curso regular de psicopedagogia no Instituto Sedes Sapientiae, na cidade de
São Paulo. Segundo Fagali e Ferretti, a reeducação era vista como: “ um processo de
reintegração, em que estavam presentes os fatores afetivos, os de raciocínio e os
conceitos, de maneira geral. A compreensão do raciocínio, apoiava-se na epistemologia
genética da Piaget, e os aspectos afetivos fundamentavam-se na relação vincular, no
aqui-e-agora, segundo abordagem gestáltico-fenomenológica [...].” (FAGALI;
FERRETTI, 1992, p.2) Observase que o curso assume um caráter terapêutico, no qual
os aspectos afetivos da aprendizagem ganham destaque no âmbito clínico, essas
mudanças continuam e abrem espaços para se refletir e se praticar no espaço escolar,
valorizando as diferenciações do papel do psicopedagogo, buscando uma analise mais
rigorosa da identidade desse profissional. Cabe a instituição refletir na forma de
conceber a problemática do fracasso escolar e ir em busca do profissional indicado pela
sua identidade que já é um educador e ao longo do tempo ampliou seu compromisso,
assumindo a responsabilidade em relação a diminuição dos problemas de
aprendizagem nas escolas e, consequentemente , a redução dos altos índices de
fracasso escolar. BIBLIOGRAFIA BOSSA, N. A. A psicopedagogia no Brasil:
contribuições a partir da prática. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. COLLARES, C. A. L.
Ajudando a desmistificar o fracasso escolar. In: Fundação para o desenvolvimento da
educação. Ed. Toda criança é capaz de aprender? São Paulo: FDE, 1989. FAGALI, E.
Q; FERRETTI, V. M. R. A construção do curso de formação em psicopedagogia clinica
e institucional. Construção
Psicopedagógica, São Paulo, 1992.
[Link]
nobrasil/125199