0% acharam este documento útil (0 voto)
89 visualizações69 páginas

Só Faltava Eu Perceber - Janaína Patrícia

Enviado por

agatacfranca
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
89 visualizações69 páginas

Só Faltava Eu Perceber - Janaína Patrícia

Enviado por

agatacfranca
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

SUMÁRIO

Copyright
Dedicatória
Epígrafe
Prólogo
Capítulo 1: Meu Melhor Amigo
Capítulo 2: Yas.
Capítulo 3: Que Amor!
Capítulo 4: Tá Linda!
Capítulo 5: Ciúmes.
Capítulo 6: Coisa Séria.
Capítulo 7: O Mais Novo Casal.
Capítulo 8: Almoço de Comemoração.
Capítulo 9: Te Perdi.
Capítulo 10: Tempo Certo.
Epílogo
Minidicionário
Sobre o(a) autor(a)
Copyright © 2024 Janaína Patrícia

Revisão: Sarah Santos

Leitura beta: Kauane Oliveira, Maria Íngridi, Sarah Santos, Mirlie Hellen Nunes.

Diagramação: Janaína Patrícia

Capa principal: Janaína Patrícia

Outras ilustrações (título e etc.): Janaína Patrícia

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por
quaisquer meios sem permissão por escrito do(a) autor(a), salvo em breves citações, com indicação
da fonte.
DEDICATÓRIA
Para pessoas que estão em busca de um amor que as façam feliz.
Saibam, o primeiro amor deve ser Cristo, para só então, o segundo amor ser
despertado.
EPÍGRAFE
“Prometam, ó mulheres de Jerusalém, que não despertarão o amor antes do
tempo.”
— Cantares 8:4(versão NVT) – Bíblia Sagrada
PRÓLOGO
“Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e
mesmo com o passar dos anos não se desviará deles.”
— Provérbios 22:6
— Mainha, como você e o painho se casaram? — Me sento do
ladinho dela no sofá.
— Ora meu amor, você já sabe. — É tudo o que ela responde, mas,
bem rapidinho, eu sorrio com os olhinhos do gato de botas, do desenho, e
ela começa a contar. — O seu pai cursava gastronomia, e como eu cursava
contabilidade e estávamos na mesma faculdade, ele vivia atrás de mim e
acabou se tornando o meu melhor amigo.
O meu painho aparece na porta da sala e sorri pra mim. Ele sempre
fica feliz quando a minha Mainha fala assim.
— Eu sempre fui uma fã de comida, então foi assim que ele me
conquistou. Toda semana ele fazia um prato diferente e eu provava. Mas um
dia, enquanto cozinhava, ele me pediu em namoro. — Ela sorri bobinha. —
Então veio você, o nosso casamento, nós aceitamos a Cristo, a cafeteria
aconteceu e estamos aqui.
— Quando eu me casar, quero que seja com o meu melhor amigo
também. — Abraço o meu corpinho e sorrio pra eles.
— SÓ COM TRINTA ANOS! — Pulo do sofá quando ouço o grito do
meu painho.
A minha mãe olha feio pra ele e depois sorri olhando pra mim.
— Querida, você tem apenas seis aninhos. Quando tiver dezoito anos
e se tiver alguém que goste muitão de você, vai poder se casar. — Ela diz.
— Angélica! — Painho reclama e chega mais perto da gente.
— Verdade? — Me ajoelho em cima do sofá. — Então eu posso me
casar com o Levi?
Eles me olham com os olhos bem abertos.
— Angélica! — Ele reclama de novo.
— Meu amor, de onde você tirou isso? — A minha Mainha pergunta.
— Ué! Eu disse que queria me casar com o meu melhor amigo, e o
Levi é o meu melhor amigo. Mainha, a senhora escutou direitinho?
— Querida, quando vocês virarem adultos e, se gostarem um do
outro, podem se casar. — Ela responde.
— Espero que não demore muito. — Desço do sofá e vejo painho
ficar vermelho que nem um tomate.
— Vai passar rapidinho, meu bem! — A minha Mainha passa a mão
nos meus cachinhos.
Saio da sala e vou pra o meu quarto, mas consigo ouvir eles
conversando bem altão.
— Ela só casa depois que...— Ela não o deixa falar de novo.
— Deixa de drama, criatura! Ela só tem seis anos!
— Exatamente! Ela tem seis e aquele pirralho de quinta tem dez... —
O meu painho parece bem bravo.
Será que eu fiz besteira?!
— Seis anos! — A minha mãe repete. — E se ele for um rapaz digno e
a nossa filha amar ele, não vai ter como impedir.
— Mas...
— Seis anos, Josué!
Anos depois Cristo bateu na minha porta, eu abri e tudo mudou.
Desde cedo aprendi que o amor vem quando a gente menos espera,
principalmente o amor de Deus. Eu só não esperava que o meu amor
terreno estaria ao meu lado desde a minha infância.
CAPÍTULO 1: MEU MELHOR
AMIGO
“Mulheres de Jerusalém, eu as faço jurar: Não despertem nem incomodem
o amor enquanto ele não o quiser.”
— Cânticos 8:4
Acordar cedo nunca foi o meu forte, confesso, mas eu preciso de um
tempinho pra fazer as minhas coisas mais pessoais antes de abrir a cafeteria
com os meus pais na parte da tarde.
Depois de ficar uns dez minutos tentando fazer a alma voltar pra o
corpo, me levanto, prendo os meus cachos em um coque folgado, saio do
meu quarto e vou fazer a minha higiene matinal. Então, só aí, pego a minha
bíblia e o meu caderno pra fazer o meu devocional.
Antes mesmo de começar o devocional, vejo o meu celular tocar e a
foto de um rapaz aparecer, é Levi.
— Bom dia, Yas! — Ouço a sua voz alegre do outro lado.
— Bom dia. Que animação em! — Me ajeito em cima da cama.
— Eu tenho que ter né! — O moreno ri. — Lindo desse jeito!
Reviro os olhos.
— Palhaço! — Resmungo e ouço a sua risada.
Ele ama me irritar e é o meu melhor amigo, como pode?!
— Vamos começar o devocional?! — Levi pergunta, e assim
começamos o nosso primeiro momento com Deus.
O meu melhor amigo e irmão mais velho da minha melhor amiga.
Pois, desde que eu tomei a decisão real de seguir a Cristo, ele tem me
ajudado, estudando a bíblia comigo algumas vezes por semana.
Sou nascida e criada em um lar cristão. A minha família é cristã, e eu
me converti aos 15 anos e tô na caminhada como peregrina desde então.
Entre altos e baixos, mas de uma coisa eu sei, tudo isso vale a pena.
Assim que terminamos o devocional, me despeço de Levi e começo a
me arrumar. Visto uma calça de tecido leve preta, um top também preto e
uma blusa branca. Sempre tento ir à academia antes do café, ou então o meu
corpo começa a pedir socorro.
— Bom dia, família! Benção! — Cumprimento os meus pais.
— Bom dia! — Meus pais me cumprimentam e dão a benção assim
que eu me inclino pra receber um beijo na testa de cada um. — Que Deus te
abençoe!
Dizem que eu sou uma mistura dos dois.
A minha mãe é uma mulher baixinha, dona de uma pele negra e
cabelos quase lisos, tem o famoso falso magro e cada sorriso que fazem os
seus olhos castanhos pequenos sumirem. Já o meu pai tem a altura mediana
— nem tão alto e nem tão baixo —, cabelos cacheados, olhos castanhos e
também é um falso magro.
Devo acrescentar que sofremos demais pra engordar?!
As minhas idas a academia e nutricionista tem como objetivo a minha
saúde. Porque a genética da minha família me faz perder peso com
facilidade. E assim como tem pessoas que sofrem por pesar a mais, na
infância eu sofria por pesar de menos. Sempre vinha apelidos como
“vassoura”, ou até crianças maldosas dizendo que a qualquer momento eu
poderia voar. Tudo isso já doeu, mas hoje não dói mais. Porque eu entendi a
beleza que Deus vê em mim.
Por isso hoje cuido do meu corpo como Templo do Espírito Santo
que ele é. E antes que eu vá fazer a minha vitamina de banana diária, ouço
um arranhado de voz.
— Yasmim Victoria de Almeida, onde estão as contas do mês? — O
meu pai me olha parecendo irritado.
Como administradora da cafeteria, eu acabo por ficar responsável por
pagar a maioria das contas do lugar, e às vezes acabo pagando as contas de
casa também. Coisa que os meus pais odeiam. Eles dizem que, apesar da
minha formação, é muito peso pra uma pessoa só. E como são os meus pais
e eu ainda não sou casada, ainda tem a responsabilidade de cuidar de mim.
— Desculpa?! — Peço novamente e eles suspiram. — É que no dia
de pagar, vocês estavam ocupados, e como eu já tinha organizado isso,
acabei pagando tudo sozinha.
— Minha filha, sabe por que eu não gosto que pague as contas da
cafeteria e nem daqui de casa? — Nego a pergunta do meu pai. — Não se
trata do dinheiro, mas porque você é minha filha e ainda mora sob o meu
teto. Eu tenho medo de que vá pagar isso sozinha com tanto dinheiro, e
acabem te machucando. O mundo anda perigoso, Yasmim!
Suspiro.
Eu não me ative a essa hipótese. Acho que o meu senso de tentar
ajudar os meus pais a todo custo me faz parar de pensar em mim.
— Promete que não vai fazer mais? Não sozinha? — Ele sorri de
forma terna quando me vê calada por tê-lo desobedecido novamente. —
Nos avise antes.
— Prometo, mas não fica bravo comigo! — Peço, frustrada.
— Eu não tô bravo, princesa. Apenas me preocupo com a minha
família. — Nos abraçamos.
A partir daí, o nosso momento da manhã flui normalmente. Entre
risos e conversas banais. Até eu precisar sair pra academia que tem na
mesma rua da minha casa.
Eu cursei administração — acabando o curso no final do ano passado
— e desde o começo da faculdade, virei o braço direito dos meus pais.
Esses que são donos de uma das cafeterias mais famosinhas de Recife, a
Litera Café.
Nada original, eu sei, mas os meus pais quiseram assim e logo depois
o nome pegou, se tornando difícil de mudar. Além do mais, todo mundo na
família é apaixonado por livros, então...
Depois de uma hora de levantamento de peso e coisas que parecem
me matar de dor, eu volto pra casa e vejo os meus pais na cozinha, entre
conversas e risos apaixonados.
Tão lindos!
Vou até o banheiro, tomo um banho e volto pra cozinha. Então
almoçamos em meio a conversas.
Depois tomo outro banho mais caprichado, com direito a lavar as
madeixas, visto uma calça jeans, uma camisa de cor lilás — uma das cores
do uniforme da cafeteria, a outra é amarelo. — e calço o meu Converse All
Star preto.
O calor da minha cidade me proporciona grandes quantidades de
suor, fazendo com que os moradores precisem se refrescar o mais rápido
possível. Enfim o Nordeste.
Vou até o espelho enorme que fica no canto do meu quarto, finalizo
os meus cabelos cacheados castanhos que ficam na altura das costas, mas
agora se encontram quase na cintura, por estar molhado, e vejo se não tô
vulgar. Me preocupar com vestimenta e no agir é um modo de pensar:”
Cristo gostaria que eu fizesse isso?!”.
— FILHA! — A minha mãe chama interrompendo as minhas ações
do momento.
Pego a minha bolsa com os documentos, o meu celular, a minha touca
de redinha preta e vou até a sala.
Como nós abrimos de segunda a sábado, a partir da tarde e fechamos
quase de dez horas da noite, todos ficam prontos, saímos e vamos até o
estabelecimento da família. Encontrando Gabriela, André e Ruan, os outros
três funcionários em frente ao local.
A Litera Café conta com mesas de plástico redondas de um marrom
rústico, cadeiras também de madeira com um estofamento lilás, luzes de
LED amarelo e lilás e luz normal, as paredes se interligam entre lilás e
amarelo, metade do balcão do caixa —onde também é possível ver algumas
guloseimas frescas — é de vidro e há um banheiro masculino e outro
feminino pra os clientes.
Atravessando a portinha do balcão, temos um espaço onde
geralmente a minha mãe fica, e logo depois uma porta que dá pra cozinha,
dispensa, vestiário e banheiro dos funcionários. E por último, mas não
menos importante, em uma das paredes da cafeteria, há uma estante que vai
de uma ponta da parede a outra. São pra clientes que gostam de ler. Pra
comprar, é só pegarem o livro na estante e pagarem no caixa.
Aqui as funções são muito bem distribuídas e todo mundo faz um
pouco de tudo quando precisa. Mas quando isso não acontece, cada um tem
o que fazer.
O meu pai cozinha porque é o graduado em gastronomia e não deixa
quase ninguém na cozinha dele, fora que a minha mãe é péssima nisso. Ela
geralmente fica no caixa — a mulher é um gênio e calcula tudo de uma
forma impressionante e rápida — e às vezes atende algumas mesas. Eu
atendo as mesas e cuido da parte administrativa. E temos outros três
funcionários.
Eles são Gabriela, André e Ruan. Gabi é a minha melhor amiga desde
que eu me entendo por gente. Ela atende as mesas e é uma escritora nata e
bem famosinha com os seus três livros, por sinal. André — que é noivo de
Gabi —, que cursa gastronomia na parte da manhã e trabalha com o meu
pai na cozinha na parte da tarde e um pouco a noite.
E Ruan...bem, ele não é muito mais velho que eu. É um rapaz bem
brincalhão quando quer, mas que vive com várias namoradas. Isso é o que
sabemos dele.
— Sabe, eu sonho com o dia que a minha filha vai se casar e me dar
netos. — A minha mãe solta a indireta direta do dia fazendo Gabi rir. — E
Levi seria um ótimo genro, sabia?
Levi é o genro dos sonhos da minha mãe. Um ótimo rapaz que pode
me tirar da toca da timidez, como ela diz.
Eita como ela sonha!
O movimento do lugar é tranquilo, não tem muita gente e ela está no
caixa. O que nos dá a liberdade de conversar sem atrapalhar o trabalho.
— Mainha, já lhe passou pela cabeça que a senhora tem apenas
quarenta e dois anos e que tá muito nova pra ter netos? — Ela sorri sem
jeito com o que digo. — E o Levi é o meu melhor amigo e nada mais.
Ela e papai me tiveram novinhos e se casaram meses depois.
— Besteira! — Abana o ar. — Eu quero brincar muito com eles
ainda, e você é a minha única filha. — E então ela me olha toda sorridente.
— Ele é apenas o seu melhor amigo porque você quer. Porque se fosse por
ele...
A mesma ladainha de sempre. Levi me ama apenas como irmã em
Cristo. Isso é coisa da cabeça dela.
Não que o rapaz não seja um homem legal. Irritante, brincalhão, tira
um sorriso de todo mundo que convive com ele. Tudo o que uma mulher
pode sonhar. E se não fosse o meu melhor amigo, eu...
Suspiro.
Nós somos muito diferentes, eu sou um tanto sem graça e introvertida
o suficiente pra espantar qualquer rapaz.
— Eu só vou me casar no dia que um homem com princípios cristãos
iguais aos meus aparecer por aquela porta e... — Assim que eu aponto pra a
entrada, um homem de vinte e sete anos entra, fazendo o sininho da porta
sinalizar a sua chegada. — Jesus!
O homem tem os cabelos castanhos ondulados, olhos castanhos e
duas covinhas emoldurando o sorriso bonito. Não posso me esquecer da
camisa preta de mangas curtas, que destacam os seus braços...
Para com isso Yasmim!
Eu, Mainha e Gabi acompanhamos Levi se sentar numa mesa com
vista pra janela, sorrir pra a paisagem lá fora, pegar o seu iPad na sua
mochila preta e começar a rabiscar.
— Como Levi tem ficado bonito né?! — A dona Angélica solta.
Ele tem feito isso há alguns meses sempre que chega a esse horário.
Às vezes eu me pergunto como essa criatura pode trabalhar como ilustrador
na melhor editora dessa cidade.
— É...quer dizer, não! — Termino de falar o que não deveria e ouço
uma risada delas duas e de Ruan, que passa por nós bem na hora.
Eu e a minha boca grande!
— Eca, tia! Ele é o meu irmão! — Gabi faz careta, mas sei que ela
está rindo de mim. — E é um exibido!
— Levi não é um exibido, ele só...se veste bem. — Tento defendê-lo.
O moreno parece tão concentrado. Queria saber o que ele está
fazendo no iPad.
— Olha como ela defende o namorado! — Dona Angélica me acusa.
— Mainha, ele é o meu melhor amigo! — Cruzo os braços e suspiro.
Sinto até o meu rosto esquentar. E olha que temos ar-condicionado!
— E tu vai se casar com um inimigo, Yasmim? — Ela questiona, já
começando o seu discurso sobre casamento.
Enquanto isso, vejo Gabriela tentar sair com a desculpa de que vai
atender o irmão, mas ela só quer fugir do discurso que a minha mãe começa
toda vez que chegamos nesse assunto. Mas antes que a ruiva saia, a minha
mãe grita nos assustando.
— Yasmim atende! — Ela me empurra e a minha melhor amiga sorri
parecendo entender a jogada da minha mãe.
Eu mereço! Pra quê inimigo quando se tem a minha mãe!
Todo dia eu sou jogada pra cima dele. Tudo o que essa mulher mais
quer é me ver longe de casa. Não é possível!
Chegando no rapaz, vejo se ele reparou no grito da mulher exagerada.
Mas ele apenas sorri pra o que rabisca.
As covinhas...
— Boa tarde, bem-vindo ao Litera Café... — Ele se assusta e vira o
aparelho nas mãos. —...em que posso te ajudar?
Não entendi essa reação!
CAPÍTULO 2: YAS.
“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles

se tornarão uma só carne.”

— Gênesis 2:24
— Boa tarde, Yas! — Ele cruza os braços, que no momento estão um
pouco vermelhos, assim como o seu rosto. Fora o sorriso estranho. — Eu
não te vi chegar.
Tem alguma coisa errada!
Não me lembro qual foi a última vez que o vi desse jeito.
— Tá no mundo da lua, criatura? Não ouviu nem o grito que deu

Mainha agorinha? — Preocupada, me sento na cadeira na frente dele, que

nega. — O que tu tá escondendo?


— Eu? Nada! — O moreno engole em seco.
— Tá sim! Deixa eu ver isso! — Tento pegar o iPad, mas ele fica de

pé na minha frente.
— Vem cá, não veio me perguntar o que eu quero pedir não? — Ele
me ignora, ou melhor, é ignorante comigo. — Eu vim aqui pra comer, e
não...
Espremo os olhos na sua direção.
Iiiiiii! Cheio de patadas!

Eu odeio quando fazem isso comigo e ele sabe disso. Agora ele vem

e...
Suspiro.
É melhor deixar que outra pessoa o atenda, antes que eu me irrite,

volte ao meu velho eu e decida dar uns bons tapas no meu melhor amigo.

Odeio ter esse temperamento. Uma coisinha e o meu velho homem fica

querendo sair do túmulo. Só Jesus na causa!


— Então vai pedir pra sua irmã! — Me levanto.
Não foi assim que eu pensei, mas foi como saiu.
Assim que eu tento sair de perto, Levi segura o meu pulso me
fazendo voltar dois passos até estar próxima de novo. Pra logo depois me
soltar.
— Desculpa, Yas! — Ele pede e eu acabo ficando meio boba ao ouvir

o apelido ser dito daquela forma. — Eu não queria ser grosso com você! É

que...é um trabalho que ainda não terminei, e não quero mostrar agora. —

Confessa sem me olhar nos olhos.


Ele ainda tá me escondendo alguma coisa!
Olho ao redor e percebo algumas pessoas das mesas próximas nos
olhando. Curiosos e com sorrisos maliciosos.
Que vergonha!
— Tudo bem. — Suspiro. — Desculpa por tentar invadir a sua
privacidade. Vai querer o quê hoje? — Acabo deixando isso pra lá.
Levi é bem extrovertido em muitos momentos e é fácil que ele tenha
amizade com alguém. Eu não sei como rapaz ainda não namorou ninguém
na vida. Algumas mulheres cristãs até se interessavam por ele. O problema
é que ele não parece querer relacionamentos, e nenhuma delas teve
paciência o suficiente pra esperar por ele.
Talvez ele seja um Paulo do século XXI.
Não que eu seja experiente. Já que, por ser muito criteriosa e querer
me guardar pra o meu futuro marido ainda inexistente, nunca tive um
relacionamento amoroso.
— Eu quero um café com leite e uma empada de frango. — Anoto o
pedido de Levi.
— Já venho. — Fecho o bloco de notas e vou até o balcão deixar o
pedido, mas não sem antes ouvi-lo murmurar um “obrigado”.
Entrego o papel pra minha mãe, que me questiona com o olhar sobre
o que aconteceu. Mas eu simplesmente levanto os ombros e espero o
pedido, já que não temos tanta gente pra atender agora.
Assim que a minha mãe me entrega o que Levi quer, vou até a mesa
dele entregar o seu pedido e acabo me sentando a sua frente.
— Obrigado, Yas! — O que o meu melhor amigo diz assim que eu
lhe entrego o seu pedido, faz o meu coração bater de forma estranha.
É sempre assim. Ele me chama de “Yas” de uma forma diferente e o

meu coração falta sair pela boca. O que é bem...diferente.


Fico olhando pra ele, tentando entender o que está acontecendo. E só
percebo que a estranha do momento sou eu, quando vejo Levi sorrir
mostrando as covinhas.
— O que tu tem, Yas? — Ele olha no fundo dos meus olhos.
— Eu...nada...— Tento acabar com os pensamentos que começavam
a me rondar. — Tu quem deve ter algo, tá todo estranho! — Abano o ar
com as mãos.
— É que eu sou tão bonito que deixo as pessoas com vergonha, eu
sei! — Abana o ar todo presunçoso.
Reviro os olhos.
Esse personagem irritante que ele faz só pra irritar as pessoas me dá
nos nervos.
Saio de perto pra não dá com a bandeja na cabeça dele, que me
chama com um sorriso brincalhão no rosto.
Olho ao redor e percebo que todos os clientes já foram atendidos, e

inclusive Gabi está conversando com a minha mãe no balcão e Ruan está

digitando a todo vapor no celular. Então resolvo ir até lá e descansar um

pouco, mas assim que chego perto, as duas mulheres me olham com

sorrisos de orelha a orelha.


— Nem comecem! — Repito a mesma frase de sempre, antes que
elas digam algo constrangedor.
Por que todo mundo gosta de me ver com vergonha?!
— Eu o vi sorrindo pra você. — É a minha mãe quem começa.
Levi é lindo fisicamente e espiritualmente, confesso. Mas sei
lá...somos melhores amigos desde a nossa infância. E pode ser que ele nem
queira nada comigo e a minha mãe está fantasiando.
Enfim, a fanfiqueira!
— Ele apenas me agradeceu, da mesma forma de sempre. — Tento
explicar, mas ela parece irredutível.
— Com aquele sorriso, não sei não, em! E aquele rapaz tem vindo
mais aqui do que o normal. Sinto que terei um genro logo! — A minha mãe
cantarola a última frase.
Ela e Gabi passam a tagarelar sobre como formamos um ótimo casal.
Infelizmente, ou felizmente, alguns minutos depois Levi vai até o
caixa pagar a conta pra ir embora.
— Eu quero essa barra de chocolate aqui. — Levi aponta e a minha
mãe, que se encontra do outro lado do caixa, pega a barra. E logo depois de
pagar, Levi me entrega o doce, me deixando sem entender. — É um pedido
de desculpas.
— Eu que tentei invadir a sua privacidade. — Olho pra o presente de
desculpas. — De novo.
— Mas eu não deveria ser grosso com você. Os meus pais não me
ensinaram isso. — Ele sorri, beija a minha cabeça e quando vê que está
tudo bem, vai embora.
Me deixando com o rosto quente.
Não é que ele queira me comprar com o chocolate. Até porque o Levi

já pediu desculpas. Mas é o fato de que ele cuida de mim. Aquele homem

conhece tão bem que comprou um dos meus preferidos. Chocolate meio

amargo com um toque crocante.

Sabe aquelas bolinhas que vem no chocolate e faz ele ficar crocante?

Amo!

Pai, vai ser tão difícil me afastar do Levi se ele se casar!


Óbvio que nenhuma mulher vai me aceitar ao lado dele. Não quando
somos tão próximos.
— Sinceramente? — Gabi chama a minha atenção toda risonha. —
Eu não sei como vocês são amigos. Ele é todo extrovertido e você toda
vergonhosa.
O pior é que é verdade!
Eu me lembro de uma vez que estávamos em um evangelismo, que

foi organizado pela nossa igreja em uma praça bem perto do lugar. O

sistema era que uma dupla — formada por um homem e uma mulher —

iriam falar com uma pessoa. E a minha dupla era o Levi. Uma tímida e um

extrovertido.
Em algum momento, fomos tentar falar de Jesus pra uma mulher.
Mas quando chegamos perto dela, logo vi que o cachorro que ela segurava
pela coleira — um pinscher — não foi muito com a minha cara. O animal
tentou me morder, então eu corri. Só não contava que uma parte do chão
estaria molhado e que eu poderia cair. Dito e feito, escorreguei e caí que
nem uma fruta podre.
Só sei que Levi ficou preocupado e deu muita risada. A preocupação
foi pela queda, e a risada foi pelo meu susto. Virei piada entre os irmãos da
igreja e os comerciantes daquela praça por alguns meses. Além de ter ficado
com uma breve raiva do meu melhor amigo.
— Isso é sinal de que um dia vocês vão me matar, e talvez seja de
raiva. — Respondo ao sair das minhas lembranças. — Tu é igual a ele!
Pra me ver morrer de vergonha, eu só preciso estar no mesmo local
que esses dois. Deve ser algo de família.
— É, só Levi pra fazer essa menina sair da toca. Parece um bicho do
mato. — A minha mãe chega perto de nós duas depois de atender alguém.
— Mainha! — Antes que eu diga algo, André sai da cozinha a

chamando e tirando a sua atenção de mim, mas não por muito tempo.
— Yasmim, minha filha... — Ela tenta algo.
Por isso, como uma boa filha que sou, entro pela portinha do balcão e
logo em seguida passo pela porta da cozinha.
— Painho, a sua esposa casamenteira quer arrumar um genro pra o

senhor! — Chamo a atenção do senhor ciumento e protetor que o meu pai é.


— Angélica!
Então ele passa a gritar sobre como a filhinha dele é nova demais pra
casar e que não iria me entregar pra qualquer um.
Aqui sabemos que o meu futuro marido precisará conquistar o meu
pai terreno e o Meu Pai Celestial pra casar comigo.
CAPÍTULO 3: QUE AMOR!
“Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como convém a quem está no

Senhor. Maridos, ame cada um à sua mulher e não a tratem com

amargura.”

— Colossenses 3:18-19

Depois que Levi me deu uma barra de chocolate, se passaram

algumas semanas. E a minha mãe deu uma acalmada em relação a nós dois.

Estranhamente ela parou de forçar algo, mas ainda deixa claro que o rapaz

seria um ótimo genro. Tudo com olhares todas as vezes que ele vem aqui. E

Gabi está a ajudando nisso. Com isso, eu não tenho um dia de paz.
Todas às vezes, quem o atende sou eu. Não que eu não goste disso,
afinal, Levi é muito especial pra mim. Mas segundo dona Angélica, tenho
que fazer isso, pois sou a melhor amiga dele e assim ele vai gostar mais se
eu o fizer. Não que a primeira parte seja mentira.
— Amiga, seu amado chegou! — Gabi, que não deixa de me
perturbar, chega perto de mim e do homem que tô prestes a atender. — Vai
atender ele. Deixa que eu atendo esse aqui.
Olho pra ela com os olhos semicerrados, mas a criatura me olha só
sorrisos.
— Mas eu cheguei primeiro! O que ele tem que eu não tenho? É mais
dinheiro? Eu posso pagar! — O homem que deve ter uns cinquenta anos e
que eu ia atender, reclama antes mesmo que eu saia do lugar.
— Não se preocupe, senhor. Eu o atenderei, ela só vai me fazer um
favor. — É Gabi quem responde por mim. — Pode ir, Yasmim. Deixa que
eu atendo esse senhor.
Quando enfim vejo o homem assentir em confirmação que está tudo
bem, vou até a mesa em que Levi se encontra. Ele parece bastante
concentrado em alguma ilustração que está fazendo em seu iPad.
— Boa tarde, bem-vindo ao Litera Café... — Assim que ele me
percebe, vira o aparelho bem rápido, me impedindo de ver o que tinha.
—...o que vai pedir?
Ele tá me escondendo algo!
Semicerro os olhos e vejo ele fingir que isso não aconteceu. Muito
mal, por sinal.
Esses irmãos Alcântara!
— Você me assustou. — Levi sorri mostrando as suas adoráveis
covinhas e ficando vermelho no rosto e em parte do pescoço. — Boa tarde!
Eu quero um café preto com açúcar e um misto quente.
Ainda desconfiada, anoto o seu pedido e entrego à minha mãe, que
entrega pra André na cozinha. Espero a minha amada mãe me entregar a
comida do meu melhor amigo e fico o olhando de longe.
Ele anda muito estranho ultimamente.
— Que amor! — Me assusto e derrubo o bloco de notas e a minha
caneta preta no chão.
Foi a Gabi aparecendo de Nárnia e quase me matando do coração.
— É sério, Gabriela? — Pego os objetos que deixei cair.
— O quê? — A ruiva me olha como se não tivesse feito nada. — Eu
só acho lindo que vocês se olhem tão...apaixonados assim.
Ela tá doida?!
— Apaixonada? Oh criatura, eu não...espera, “vocês”? — Questiono.
O Levi?!

Será?!
— Você e o meu irmão! — Ela sorri boba. — Eu já vi ele cheio de
suspiros e brilhos nos olhos te olhando. E você suspirou agorinha, que eu
vi!
Eu suspirei? Quando foi isso?!

Humm!

Para, Yasmim!

Sem esses pensamentos!

Vocês são melhores amigos e só isso!

É melhor voltar a trabalhar.

Após pagar o que comeu e comprar um livro no cantinho da cafeteria,

Levi vai embora. Mas não antes de marcarmos de sair com o grupinho —

eu, ele, André, Gabi e Ruan — esse final de semana. Geralmente Ruan não

aceita sair conosco, e já chamamos várias vezes, mas ele sempre nega.

Porque ele sempre deixou claro que o tipo de “diversão” dele é outra. Mas

por algum motivo ele aceitou.


Assim o tempo passa tão rápido, que fica difícil não pensar em como
eu queria que certos acontecimentos ficassem devagar.
Depois do dia cansativo, chegamos em casa e temos uma surpresa.
— Bruna? — A minha mãe fica surpresa ao vê-la no portão de casa

com duas malas gigantes. — Eita! Eu esqueci que tu vinha hoje! Me

desculpa! Vamos entrar. Ficou esperando por quanto tempo?


É acho que eu sou a única surpresa com isso.
— Tudo bem, tia. Eu cheguei quase agora. — Ela pega o celular e
depois nos olha. — Sabe como é né? A faculdade e o meu trabalho não me
deixam respirar às vezes.
Meu pai entra com o carro passando pelo portão e parando na
garagem. Depois entramos dentro de casa e ele pega as coisas da minha
prima que estavam lá fora.
Bruna tem a mesma altura que eu, os seus cabelos são castanhos
lisos, a sua pele é branca, os olhos são castanhos como os de quase todo
mundo na família e é uns dois anos mais velha que eu. O seu estilo é mais
delicado, tipo daquelas patricinhas de filmes adolescentes. A patricinha que
trabalha com moda.
Eu e ela só éramos próximas na infância e no início da adolescência.
Mas fomos crescendo e acabamos tendo objetivos diferentes.
— O quarto que tu ia ficar tá uma bagunça e com muitos tralha que

precisamos jogar fora, então tu vai ter que ficar no quarto da Yasmim. — A

voz da minha mãe me tira do estopim.

— Minha filha, a sua mãe esqueceu de te avisar, Bruna vai passar uns

vinte dias aqui em casa. — O meu pai diz, confirmando o meu susto.
Eu desconfiava, mas não tinha certeza de que ela passaria esse tempo
aqui. Não é que eu não a queira por aqui, também não vou expulsar
ninguém. É que realmente, não somos muito próximas e eu nem sabia que
ela estaria aqui.
— Eu esqueci não! A filha também é sua! — A dona Angélica

reclama.

Então eles começam a discutir como se não estivéssemos aqui. É

sempre a mesma coisa. Uma discussão besta — nada que os faça mal — e

depois estão cheios de carinhos um com um outro.

Os meus pais são o Enemies To Lovers no sentido literal das palavras.


— É, mas a tarefa de avisar a menina que teríamos visita era sua! —
O meu pai a acusa e só falta a esposa soltar fumaça pelos ouvidos e nariz.
— Mas porque estamos falando sobre isso?! Desculpa, meu bem! Não
deveríamos estar discutindo.
O seu Josué é o primeiro a pedir desculpas. Então ela o olha toda

bobinha e sorri. Porque o ponto fraco da dona Angélica é ele se mostrar

sensível perto dela.


— Desculpa. — Ela suspira. — Eu pensei que tinha dito. Eu esqueci
da...
— A senhora só lembra de mim na hora de me arrumar um namorado

né?! — A interrompo e ela me olha como se eu tivesse falado besteira. —

Eu menti? Painho sabe que a senhora anda toda casamenteira pro meu lado!
— ANGÉLICA! — O meu pai grita.
Ciumento como sempre...
— Ela tem que se casar algum dia. — A minha mãe responde como
quem não quer nada. — E eu quero netinhos.
— A senhora quer me ver fora de casa. — Resmungo.
— Que confusão. — Bruna sussurra parecendo chocada.
— Essa família é doida! — Eu repito o mesmo de sempre e saio de
perto deles.
E só sabe quem convive.
CAPÍTULO 4: TÁ LINDA!
“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não

se orgulha.

Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não

guarda rancor.”

—1 Coríntios 13:4-5
Na mesma noite em que chegou, Bruna perguntou sobre Levi
algumas vezes. O que me incomodou um pouco, pra não dizer muito.
Quando nós ainda nos falávamos com frequência, a minha prima
dizia que gostava do meu melhor amigo. Mas, ele nunca deu esperança ou
algo assim. E dada a simpatia dele, já cheguei até a achar que era recíproco,
mas ele nunca me disse nada, então descartei o pensamento.
O que não quer dizer que não aconteça agora. Quer dizer, Bruna é
uma mulher bonita, cheia de carisma e elegância. Além de estar mais
madura do que quando éramos mais jovens.
— Mainha! — A chamo da porta da cozinha. — Nós já vamos. Levi
chegou!
— Tudo bem! — Ela nos olha e sorri. — Se divirtam. E que Deus
abençoe os seus caminhos.
Amém!
Hoje é sábado. O dia que combinamos de dar um passeio. Que foi
decidido ser no parque aquático da cidade. E como André e Gabi
precisavam passar em um lugar antes, Levi veio nos buscar, enquanto Ruan
vai nos encontrar lá.
Como a minha prima veio essa semana, e ela foi na cafeteria umas

duas vezes, concidentemente no mesmo horário em que Levi e os outros

estavam, todos do grupinho a viram e decidimos chamá-la pra o passeio

também.
— Olha como ela tá linda! — Levi faz questão de falar quando chego
perto dele.
Me matando de vergonha.
Eu uso um vestido verde água de mangas curtas, que fica um pouco
antes dos meus joelhos. Isso além das sandálias de dedo e a minha
mochilinha.
— Obrigada! — Sussurro de volta, tentando não correr pra dentro de

casa de tanta vergonha.


O que parece agradá-lo, já que mostra as suas adoráveis covinhas.
Eu definitivamente não sei reagir a elogios.
— Oi, Levi! — Bruna chega perto do moreno e o abraça de forma
amorosa.
A ação dela me faz ter uma sensação estranha na boca do estomago.

Enquanto Levi, por algum motivo, não retribui o gesto dela. E antes que
tenhamos outra reação, ela entra no carro de Levi e se senta no banco do

passageiro. Onde eu geralmente me sento quando ele me leva pra algum

lugar de carro.
Ele olha toda a ação da minha prima de com uma careta, mas logo
depois abre a porta de trás do seu veículo pra que eu entre. Faço o que ele
pede, coloco o cinto de segurança e logo passamos a sair do lugar.
Reviro os olhos pra não ficar irritada e respiro fundo.
Quando ela foi na cafeteria, tentou conversar com ele, mas tudo o que
o rapaz fez foi comer rapidamente e ir embora. Rápido demais. O que é
bem estranho pra uma pessoa que gosta de conversar.
Como agora.
— Então, Levi. — Bruna se volta pra ele. — E as namoradinhas? —
A pergunta direta me faz prestar mais na tentativa de conversa dela.
Aposto que ele não quer relacionamentos!
— Eu... — Ele me olha através do retrovisor do carro e eu desvio o
olhar, fingindo não prestar atenção. — Não tenho, ainda.
— Mas por quê? — Bruna tenta fazer um biquinho estranho com a
boca.
Ora, pelo amor! Ela não vê que isso tá estranho?!
— Acho que só não tinha encontrado a pessoa que me faria ter
vontade de ter um. — A resposta dele soa como um tapa.
Eu esperava que ele não quisesse, não que ainda não tinha
encontrado. Isso quer dizer que eu não tenho chances, já que nos
conhecemos desde criança.
Oh, não! Para, Yasmim! Vocês são amigos, A-M-I-G-O-S!
Eu tenho que parar com isso. Sei que se eu me iludir demais, posso
acabar me auto defraudando, e a culpa vai ser unicamente minha.
O resto do caminho foi apenas Bruna tentando conversar, Levi
falando pouco e eu em silêncio.
Quando chegamos no parque, já é possível ver os nossos amigos em
frente ao local, nos esperando. Assim que paramos perto deles, vejo a Gabi
me olhar e bater o pé no chão como se estivesse esperando muito tempo.
— Que demora viu, Yasmim! — A ruiva reclama.
Olha aí!

Euem! Eu nem demorei tanto assim!


— Nem demorei tanto assim, e eu tive que passar um produto no
cabelo pra não danificar tanto. — Balanço a cabeça fazendo com que
algumas mechas cacheadas façam o mesmo movimento.
— Ela não demorou, apenas paramos algumas vezes por causa do
trânsito... — Levi me defende e eu sorrio. — E ela tinha que mostrar a
beleza que tem!
Imediatamente o meu rosto fica quente.
— Iiiiihhh! Olha como ele tá atacante! — Gabi cutuca André.
—” ...Can I have your daughter for the rest of my life?

Say yes, say yes, 'cause I need to know

You say I'll never get your blessing till the day I die...” — André canta alto.

— Tô só esperando pelo dia que Levi vai cantar essa música pra seu Josué.
É a vez de Ruan rir das besteiras que eles falam.
Onde eu fui arrumar esses amigos?
— Mas vamos entrar ou não? — Bruna questiona de braços cruzados.
Pagamos as nossas entradas e vamos caminhando até chegarmos em
um lugar que nos agrade. Uma mesa perto de alguma piscina, mas não tão
perto pra não termos as nossas coisas molhadas por quem pular na água.
— Vamos no banheiro, meninas? — Gabi pergunta, pegamos as
nossas bolsas e a seguimos.
Os meninos vieram de camisa UV, bermudas de tecido solto e
sandálias de dedo. Mas nós meninas, viemos de roupa normal pra trocar no
banheiro daqui.
Nem preciso entrar em uma das cabines, apenas tiro o vestido verde
soltinho que usava, passo protetor solar e vejo se o short e o biquíni estão
comportados.
Eu uso biquíni. Mas o mais comportado possível. Não sou lá muito fã
de mostrar mais partes do corpo do que deveria. Por isso, o short é de um
tecido confortável e folgado verde água, e o biquíni é como uma blusinha
de alças das mesma cor que o short.
Quando as meninas saem das cabines, vejo as suas roupas de banho, e
noto que não são muito diferentes da minha. A diferença está nas cores.
Gabi está toda de azul e Bruna veste um biquíni branco e short preto.
— Vocês passaram protetor solar? Especialmente você, Gabriela? —
Pergunto e a vejo negar, mostrando que se esqueceu desse detalhe. — Tem
que passar!
— Eu sei! — A ruiva resmunga e Bruna diz que já passou a proteção.
— Eu avisei pra o André passar, mas esqueci de mim.
Depois de Gabi fazer o que eu disse, saímos do banheiro e
encontramos os meninos, ou pelo menos dois deles sentados.
— Cadê o André? — Gabi questiona.
— Correu até o primeiro tobogã que viu. — Ruan responde risonho.
— Aquele teu noivo parece uma criança viu.
A minha melhor amiga mostra a língua pra o rapaz por pura
implicância.
— Passaram o protetor solar? — Pergunto já pegando o protetor de
Gabi e colocando na mão do irmão dela. — O que foi?
Eles me olham de forma estranha.
— Você perguntou pra todos nós se passamos protetor solar, Yasmim.
— Bruna responde. — Só falta o André.
— O André eu não preciso, a noiva dele já fez isso. — Abano o ar
com as mãos. — E eu faço isso pelo bem de vocês, tem que cuidar pra não
ter uma queimadura solar ou até algo pior.
— Pode até ser um pouco tímida, mas é muito a sua mãe mesmo. —
Ruan brinca e Levi ri concordando.
Se eu fosse branca iriam me apelidar de “tomatinho”, de tanto que o
meu rosto esquenta.
— Sendo filha de quem é, não tem como ser diferente. — O meu
melhor amigo ri da própria fala, o que acaba mostrando as suas covinhas.
A risada dele é tão fofinha!
E as covinhas?!
Ah, isso. Algumas ações do Levi são o suficiente pra me deixar

encantada, o problema é que um possível relacionamento poderia estragar a

amizade que temos. Isso levando conta que poderíamos confundir amor e

amizade.
Eu acho melhor não, assim não corro o risco de dar errado.
— Yasmim!
— Em?! — Pisco os olhos e procuro quem me chamou.
— Quero entrar na piscina, vem comigo? — É Bruna quem pergunta.
Assinto e olho ao redor — inclusive na minha mochilinha —
procurando um pompom. Eu sempre saio com um, mas ele vive sumindo.
— Toma. — Levi me dá um pompom que estava em seu pulso.
Ué? Desde quando ele passou a andar com isso?

Estranho!

Enfim, usando o pompom, prendo o cabelo em um coque e entro na

piscina pela escadinha. A minha prima faz o mesmo e logo estamos

afastadas dos outros, apenas aproveitando a água em um dia quente.


— Prima...— A voz da Bruna me faz tirar a atenção da água.
— Oi? — A olho, esperando-a falar.
— Então, você gosta do Levi? — Bruna me olha impaciente.
É possível não saber a resposta de uma pergunta tão simples?! Porque
eu acho que não sei!
— Eu...— Olho pra os meus amigos, que agora já se encontram
distantes. —...eu não sei. Acho que não.
— Que bom! — Bruna sorri. — Acho que vou investir nele. Sabe
como é, né?! Ele é o meu tipo. Bonito, alto, independente financeiramente,
desenha livros bestas.
Eu definitivamente não gostei da fala dela, e de alguma forma, não
gosto da ideia de vê-los em um relacionamento.
Isso tá muito perigoso pra mim!
CAPÍTULO 5: CIÚMES.
“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não
se orgulha.
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não
guarda rancor.”
—1 Coríntios 13:4-5
— Você acha que ele pode querer algo comigo? — Bruna questiona,
me tirando dos meus pensamentos.
— Eu...eu não sei. De verdade. — Dou de ombros. — Você ainda
segue a Cristo?
Eu e Bruna não somos próximas há alguns anos. Normalmente, as
nossas únicas interações são curtidas nas fotos uma da outra e em reuniões
de família. Coisa que não acontece há uns dois anos.
— Bem...eu...você sabe que o trabalho e a faculdade tomam muito do
meu tempo, e...é complicado. — A moça desvia o olhar.
Oh, Bruna!
— Mas você sabe que é preciso arrumar tempo pra Ele! — Tento
acalmar a minha voz.
É ruim demais não estar perto de Jesus. É como um buraco
impossível de tampar. De ser preenchido.
— Sim, eu sei. Eu prometo tentar, tá bom?! — Ela abana o ar com
uma das mãos. — Mas e o Levi?
— Olha, você é alguém interessante sim, então talvez...—As palavras
saem da minha boca com um gosto amargo.
Bruna me olha sorridente e tudo o que eu faço é sorrir sem mostrar os
dentes.
Por que eu não consigo gostar deles dois juntos?!
O dia passou muito rápido, e com as horas passando, eu acabei
deixando o assunto “Bruna e Levi” de lado. Pelo menos um pouco. E por
ainda termos o culto de jovens hoje, Levi novamente nos levou pra casa,
André levou Gabi pra casa dela e apesar de termos convidado, Ruan não
aceitou ir à igreja.
Por algum motivo ele vive fugindo. Mas tenho certeza de que em
breve o rapaz vai aceitar o convite de Deus pra vida dele.
Escuto a buzina de um carro.
— BORA, PRINCESA! — Ouço o grito de Gabi lá fora.
Ela não tem um pingo de vergonha na cara.
— Mainha, Levi chegou! — Aviso. — Nós já vamos! Benção,
Mainha e painho!
Me despeço, e logo eu e Bruna estamos perto do carro do Levi. Esse
que está com a porta do passageiro aberta. Ele sempre abre a porta pra mim.
Todo cavalheiro!
Só não contávamos que Bruna iria passar na minha frente e se sentar
no lugar em que eu costumo me sentar. Tanto eu quanto Levi ficamos
surpresos com a sua ação, de novo. Então ele me olha como se pedisse
desculpas e abre a porta traseira pra mim.
Quando eu já tô sentada, vejo nos olhares de André e Gabi, se
perguntando o que eu faço no banco de trás. Aponto com a cabeça pra
Bruna e a minha amiga revira os olhos.
— Então, Levi...— Bruna chama a atenção do rapaz depois de boa
parte do caminho em silêncio. — Com o que você anda trabalhando
mesmo?
Ué?!
Ela tinha me perguntado isso e agora tá assim?!
— Sou ilustrador de livros. — Levi é curto na resposta.
Que estranho!
— Aah...— Ela parece decepcionada com a resposta simples e curta.
— ...igual a mim. Eu também desenho no meu trabalho de designer de
moda, sabia?
Então ela passa a tagarelar sobre como desenha bem, como é a
melhor em seu trabalho e é boa em tudo que faz, entre outras coisas. Isso
até Gabi fingir um ronco alto, que faz Bruna parar e olhar pra minha amiga
de cara feia. Além de me fazer prender uma risada, que eu quase solto sem
querer.
— Que é? Ninguém quer saber de como você desenha bem ou sei lá
o que é que você faz lá na sua cidade não! — A ruiva brinca com um fundo
de verdade.
— Levi tava prestando atenção. Não é? — Bruna se volta pra o meu
melhor amigo de forma amável, mas ele parece não ouvir. — Levi?!
— Em?! — Ele para o carro e nos olha sem entender.
E ele não ouviu...
— Você não me ouviu? — Ela questiona.
Ele me olha pelo retrovisor, com uma pergunta silenciosa. Mas tudo o
que eu faço é balançar os ombros.
Quero só ver o que ele vai fazer.
— Não?! — Ele responde e ela vira o rosto meio emburrada.
Levi fica sem entender e avisa que já chegamos no estacionamento da
igreja. Então ele desliga o carro e, antes que eu saia do carro, o mesmo abre
a porta de trás que estava prestes a abrir.
Suspiro.
A mulher que se casar com ele terá um tesouro com ela.
Agradeço e todo mundo sai do veículo, deixando Levi travar as
portas do carro. Entramos no templo, sendo recepcionados por alguns
jovens da recepção, e logo procuramos nos sentar.
E, assim como no carro, Bruna faz questão de tomar lugar ao lado de
Levi no banco, antes que eu o fizesse. Ficando a Gabi do outro lado do
irmão, e André do lado dela. Mas quando eu vou me sentar do outro lado de
André, a noiva dele me puxa, fazendo com que eu caia sentada entre ela e o
Levi.
Olho pra a minha melhor amiga espantada, assim como os outros três.
Tirando Gabi, fica toda sorridente.
— De nada. — Ela sussurra e pisca um dos olhos.
Reviro os olhos sem conseguir evitar o sorriso.
Como chegamos faltando poucos minutos pra o culto começar, logo
estamos ouvindo a voz do líder dos jovens e preletor da noite no microfone
em cima do púlpito. Então tudo se segue maravilhoso. E eu só consigo
suspirar e sorrir a cada momento. Mesmo tendo vindo no sábado passado ao
culto de jovens, eu estava com saudades.
No entanto, o meu momento de felicidade acaba quando eu sinto um
belisco de Gabi. Olho pra criatura e vejo ela apontando pra o meu lado com
a cabeça.
Que amiga em!
Sigo o seu apontar, tentando entender o que ela quer e vejo Levi me
olhar estranho. Ele está sorrindo e então simplesmente pisca pra mim vira
rapidamente pra frente.
Gabi me belisca de novo e eu fecho os olhos.
Eu tenho que parar com isso!
CAPÍTULO 6: COISA SÉRIA.
“Neste assunto, ninguém prejudique a seu irmão nem dele se aproveite. O
Senhor castigará todas essas práticas, como já lhes dissemos e
asseguramos.”
— 1 Tessalonicenses 4:6
Nós tentamos prestar atenção no culto, Gabriela ficou fazendo
insinuações formando um coração com a mão, eu e André éramos os mais
neutros ali e Bruna ficou tentando chamar a atenção do Levi. O que fez o
moreno ficar visivelmente incomodado. Ele detesta quando ficam tirando a
atenção dele do momento da palavra a todo momento.
— Eu tô é morto de fome! — André bate no seu abdômen quando
passamos pela saída indo até o carro de Levi no estacionamento.
— Como sempre né?! — O meu melhor amigo brinca. — Quem vê
pensa que morre de fome.
— Eu tenho que concordar. Tu não para de comer não? — Gabi
questiona o noivo, que ri e beija a bochecha dela.
Bruna continua calada desde que o culto acabou. Mesmo depois de
combinarmos de ir em uma pizzaria depois daqui.
— Ele tem um buraco sem fundo no lugar do estômago. — Levi
continua. — Quero ver quando vocês se casarem.
— Aah Cara, eu tô em fase de crescimento! — Depois de Levi tirar o
alarme do carro, André abre a porta pra Gabi e entra logo em seguida,
ficando nos mesmos lugares que viemos.
Bruna faz menção de abrir a porta do carro, mas para e olha pra Levi
com expectativa. Mas quando vou entrar no veículo, o meu melhor amigo
abre a porta pra mim e faz menção pra que eu entre. Só aí ele entre na porta
do motorista e começa a ligar o carro.
— BORA, BRUNA! — Gabi grita, deixando a minha prima irritada.
Bruna...
Assim partimos rumo a nosso rolê pós culto.
Eu tenho que conversar com esse Levi. Por mais que ele não tenha
uma amizade com a Bruna, ou que ele tenha ficado irritado por não
conseguir prestar atenção na palavra, ela gosta dele. E talvez, sei lá, eles
possam ter algum futuro né.
Quem eu tô tentando enganar? Fiquei bem incomodada desde que
ela me contou que ainda gosta dele.
O caminho até a pizzaria foi rápido. O lugar fica perto da igreja,
então não demoramos pra chegar aqui.
Quando as quatro pizzas de queijo, frango, calabresa e quatro queijos
chegam respectivamente a nossa mesa, começamos a comer enquanto
conversamos. Os nossos papos vão de livros e filmes a alguns assuntos
bíblicos. E novamente estamos eu, Levi, Bruna, André e Gabi sentados
respectivamente ao redor da mesa. Deixando claro que, a minha melhor
amiga percebeu as intenções de Bruna e não está gostando nada disso.
— Você vai deixar isso acontecer? — A ruiva sussurra ao meu lado.
— Se o seu irmão não a afasta, eu vou fazer o quê?! — Retruco
também em sussurro.
Tirando o momento de irritação depois do culto acabar, ele pareceu
gostar da companhia dela.
— Tu é muito lerda, Yasmim! — Gabi reclama no mesmo tom.
Mas antes que eu a questionasse, ouço me chamarem.
— Em?!
— O que você acha sobre o casamento, Yasmim? É bom namorar
antes? — André repete a pergunta.
Faço careta.
Nem sei como eles foram parar nesse assunto.
— Olha...— Começo e vejo Levi me olhar com atenção. — Depende.
Se for pra namorar de forma recreativa, sem ter o alvo o casamento, acho
uma perda de tempo.
Eles concordam e Bruna revira os olhos discretamente.
— Casamento é coisa séria. E acho o período do namoro algo
importante sim. Desde que ambos não pequem trazendo a imoralidade
sexual pra o meio do relacionamento. Também acho que em hipótese
nenhuma devemos apelar pra “ficar”. É melhor esperar do que que
desobedecer por puro desejo momentâneo. — Assim que eu termino a
minha constatação, a minha prima começa a falar.
— E como devemos saber se o beijo é bom ou se vamos nos dar bem
com a pessoa? Tem que provar, Yasmim! — Ela arqueia uma das
sobrancelhas.
Tudo bem que não somos muito próximas, mas Bruna não era assim.
O que aconteceu?!
— Primeiro que a gente já pode cortar isso de “se o beijo é bom” ou
de ir pela beleza. — Tento explicar sem ser grossa. — Claro que a beleza
física contribui pra uma possível atração. Mas um dia tudo isso vai embora
e só vai sobrar o que somos por dentro.
— Fora que ao distribuir beijos e até querer gostar de todo mundo, só
vai fazer com que distribuamos pedaços dos nosso coração por aí. — Gabi
continua a minha fala.
— É aí que entra a defraudação emocional. — André continua.
O próximo assunto virou defraudação emocional e como devemos
guardar o coração. Eu que lute pra guardar o meu, porque olhando os
defeitos e qualidades do Levi, tá difícil!
CAPÍTULO 7: O MAIS NOVO
CASAL.
“Mulheres de Jerusalém, eu as faço jurar: Não despertem nem incomodem
o amor enquanto ele não o quiser.”
— Cânticos 8:4
Depois daquela conversa sobre defraudação, acabamos indo pra casa.
Tudo por insistência minha, que esqueci de avisar aos meus pais que sairia
depois do culto. Fora que tivemos um dia bem cheio. Mas quando o meu
melhor amigo nos deixou em casa, descobri que os meus pais não estavam
bravos por chegarmos tarde em casa. Eles disseram que confiam em Levi,
então não deu tempo de ficarem preocupados.
Também naquela noite, Bruna foi dormir com raiva de mim. Ela não
me disse, mas eu senti o clima pesado. Não houve um “boa noite” e
nenhuma outra palavra qualquer. E a sua expressão também denunciava
isso. Ela deve estar achando que eu fiz de propósito na noite retrasada, mas
não foi o que aconteceu. Só respondi o que me foi perguntado.
Mas e se eu realmente tiver acabado com as chances dela com Levi?!
E vendo agora, não acho que ela e ele sejam bons um pra o outro. Se
eu deixasse isso acontecer, eles acabariam entrando em um julgo desigual,
mas também não deveria me meter, né?!
Não posso deixar os meus ciúmes de melhor amiga falar mais alto.
— YASMIM! — Me assusto com um grito perto de mim. — Acorda
pra vida, minha filha!
Foi o meu pai.
Ele saiu um pouco da cozinha, porque as vitrines de comida estão
cheias e ele precisa de uma pausa de vez em quando.
— Oi?! — Pisco os olhos ao perceber que estava parada.
— O que você tem? — O homem questiona. — Parece meio triste.
A preocupação estampa o seu rosto. Então tento sorrir, um sorriso
sem mostrar os dentes.
— Nada não. — Respondo, mas o meu pai não parece muito
convencido.
— Hum! — Os seus olhos se fecham em uma fenda. — Olha o seu
amigo, que segundo você, não é seu namorado, ali!
— Painho, você também?! — Olho na direção do rapaz já sentado na
janela de sempre e no horário de sempre.
Ele veste uma camisa preta, calça jeans escura e tênis preto. A mesma
cor de sempre. Mas nele fica muito bonito. E nas suas mãos, há também o
seu iPad. E outros objetos que ele usa no trabalho.
Ando até Levi, mas paro quando vejo Bruna na sua frente. A minha
prima veio “ajudar” um pouco. Porque, aparentemente, ela não gosta de
ficar sozinha. Ao invés de ficar ali parada, resolvo ir até uma cliente que me
chamou. Ela está em uma mesa ao lado da que Levi está. Então, sem querer,
acabo ouvindo parte da conversa deles.
— E a Yas? — O meu coração acelera quando o ouço perguntar sobre
mim.
Já diz a palavra de Deus, “O coração é enganoso...”, e nesse caso o
meu deve estar doido.
— Aah, ela tá ocupada, olha! — Bruna responde e eu sinto os seus
olhares.
Tudo enquanto aguardo a cliente — uma senhora de cabelos brancos,
rosto rechonchudo e sorriso gentil — decidir o pedido. Ela mudou de ideia
algumas vezes, mas ainda não escolheu.
— Aah! Então eu quero apenas um café com leite. — O Levi pede.
— Já trago o seu café. — De canto de olho vejo a minha prima
apertar o ombro dele e sair, enquanto ele fica incomodado.
Olho pra Levi e sorrio sem mostrar os dentes.
— Já decidi! — A senhora chama a minha atenção. — Eu quero um
suco de laranja, um cupcake com cobertura de chocolate e que vá falar com
ele.
— Oi?! — A olho espantada e ela sorri.
— Garota, eu já estive no seu lugar. Sei que gosta do rapaz. —
Sussurra a última frase. — Não seja que nem eu, que esperei muito e quase
perdi o meu amor. Fale com ele antes que outra moça o faça.
Assinto, e olho na direção de Levi um pouco envergonhada.
Será que ele ouviu?!
Levo a anotação do suco de laranja e do cupcake pra o meu pai e ele
apronta o pedido. Vendo Bruna se afastando do balcão com o copo de café e
um sorriso vitorioso.
Talvez eu realmente o tenha perdido.
Suspiro e levo o pedido até a senhora.
Vejo Bruna sentada na mesa do Levi tentando puxar assunto com o
mesmo, que suspira parecendo irritado. Mas ainda não a afasta.
— Como é o seu nome, moça? — A senhora pergunta assim que a
sirvo.
— Yasmim. — Respondo sem conseguir tirar os olhos do mais novo
casal.
— Onde tá o meu terceiro pedido, Yasmim?! — Ela brinca apontando
com a cabeça pra a mesa ao lado.
Sorrio, e antes que eu faça algo, ouço a voz de Levi.
— Yas?! — Me chama novamente.
— Oi?! — Me viro e vejo ele me olhar com um sorriso, enquanto
Bruna parece irritada.
— Oi, digo eu. — Ele parece questionar com o olhar. — Eu venho
aqui pra ver você, e hoje parece não querer falar comigo.
A sua fala faz o meu rosto esquentar e querer abrir um buraco no
chão exatamente agora.
— Não é isso, é que eu...eu... não sei! — Lhe direciono um sorriso
meio vergonhoso. — Desculpa.
— Tudo bem. Não precisa pedir desculpas. Mas a minha mãe quer
que você e a sua família estejam lá na casa dela pra um almoço de domingo.
Pode ser?
— Sim. — Respondo à pergunta dele. — Eu vou falar com eles.
E saio dali antes que eu enfie a minha cabeça em um buraco ou que
Bruna queira me esganar.
Meu Pai, e agora?!
CAPÍTULO 8: ALMOÇO DE
COMEMORAÇÃO.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
— 1 Coríntios 13:7
Eu sempre me achei mais ou menos. Nem bonita demais e nem feia
demais, normal. Mas agora eu tô me achando horrorosa.
Hoje é domingo, o dia do almoço.
Iremos todos pra Escola Bíblica e depois eu, meus pais e Bruna
vamos almoçar na casa dos pais do Levi e da Gabriela. Por isso eu tô a
ponto de surtar com a minha aparência. Com tudo, na verdade.
Mas não é como se ele nunca tivesse me visto!
Não é como se eu não tivesse ido a casa deles antes!
Eu só...
“Você o ama de forma diferente. E isso não é de hoje, sua tonta!”
Posso ouvir a voz de Gabi me repreendendo. Sim, acho que já admiti.
Só não acho que ele...bem...
— Yasmim! — Pulo, literalmente, de susto, ao ouvir a voz da minha
mãe. — Tá linda! É minha filha mesmo!
Sorrio pra ela.
— A senhora acha? — Giro bem devagar fazendo a saia do meu
vestido balançar.
Eu tô usando um vestido de alças florido azul. A parte de cima é em
látex e a de baixo é rodada e um pouco acima dos joelhos. E quanto aos pés,
neles há uma sandália de amarração branca.
— Sim! — Ela me abraça e passa a mão nos meus cachos. — Agora
vamos pra igreja e depois ir à casa dos teus sogros!
Ela simplesmente solta e sai do meu quarto como se não tivesse
falado nada.
Dona Angélica não tem jeito mesmo!
Depois de ver como estão os meus cachos, pego a minha mochilinha
de costas azul bebê, a minha bíblia e vou até a sala, onde a minha família já
estava me esperando.
Fomos apressados pelo meu pai e logo chegamos na igreja.
Pense em um homem que não gosta de atrasos!
— EI, COISA LINDA! — Ouço a voz de Gabi assim que saio do
carro.
Ela, André, Levi, Patrícia e Samuel — os pais das minhas pessoas
favoritas — estão em pé formando uma roda em frente ao templo.
— Oi, doida! — Cumprimento de forma mais educada e a minha mãe
ri.
— Olha o Levi! — Bruna me tira do estupor e quando a olho, ela está
arrumando os cabelos lisos.
Como uma pessoa que trabalha com moda, Bruna sempre se veste
muito bem. Uma blusa curta branca, uma calça pantalona verde água e nos
pés um tênis branco.
Ela passa na minha frente indo em direção aos meus amigos e a
minha família me olha de forma estranha. Parece que sabem de tudo.
Será que...? Sério, Gabi?
Reviro os olhos e vou atrás dela.
— Paz! — Gabi se joga em mim, digo, me abraça. — Pense em uma
mulher linda!
— Verdade! — Ouço a voz de Levi.
A minha melhor amiga me faz dar uma volta e quando paro, vejo
Levi me olhando em meio a um sorriso.
— Obrigada! — Pisco um dos olhos pra eles.
Cumprimento as outras pessoas e apresento Bruna pra os pais de Levi
e Gabi, já que eles não tinham a visto ainda, não com essa idade.
Depois de conversarmos um pouco, entramos na igreja e cada um foi
pra sua turma. Os nossos pais na dos adultos, já eu, Levi, Gabi, André e
Bruna na dos Jovens. A aula dada pelos líderes hoje foi sobre
relacionamento, defraudação e namoro. Que são temas recorrentes e até
muito pedido pelos jovens. Também porque os líderes se preocupam muito
conosco.
E assim a manhã foi se passando, e quando vi, já estávamos indo até
a casa de Patrícia e Samuel.
— Tô morrendo de fome! — André diz assim que sai do carro dele.
— Deixa de ser esfomeado, criatura! — Gabi bate na cabeça dele. —
Deu onze horas agora!
— Mas fome não tem hora! — Ele resmunga. — E o seu irmão é
igual!
Patrícia ri ao ouvir as palavras do genro.
Entramos na casa e já vejo a minha família e André sentados e
conversando como se a casa fosse deles.
É impressionante como essa família é entrona!
Conversa vai, conversa vêm, e a todo momento Bruna tenta chamar a
atenção de Levi. Principalmente quando ele está conversando comigo. E eu
não queria, juro que não queria, acho isso uma atitude muito infantil,
mesmo vinda de mim. Mas ela está me irritando tanto!
— Vamos almoçar? — Patrícia nos chama. — Como são muitas
pessoas, vamos comer lá no quintal. O Samuel comprou algumas mesas e
cadeiras pra momentos como esse! — A mulher diz toda orgulhosa.
— Algumas? — Gabi arqueia a sobrancelha.
Gabi sempre diz que a mãe é exagerada, e que se puder acaba
comprando mais do que deveria.
— Sim, algumas! — A mãe repete. — Foram só quatro mesas com
quatro cadeiras cada, Gabriela!
Enfim, acabamos indo pra o quintal. O lugar fica atrás da casa e é
como um jardim. Há algumas mesas brancas, plantas e flores que eu
desconheço, um pouco de grama em algumas partes e um caminho feito de
pedras pequenas. Quem vê do lado de fora, não imagina quão espaçoso é
aqui dentro.
A dona da casa diz que vai pegar as comidas na cozinha e eu, Gabi e
André nos oferecemos pra ajudar. E sabemos o motivo pelo qual o noivo da
minha melhor amiga se ofereceu pra ajudar...
Almoçamos em um clima de descontração e muita alegria, exceto
pelo fato de não sabermos o motivo da comemoração. Sim, comemoração.
Os pais dos meus melhores amigos sempre inventam um almoço pra
comemorar qualquer coisa que seja, mas qual é o motivo de hoje? Não
sabemos.
CAPÍTULO 9: TE PERDI.
“Prometam, ó mulheres de Jerusalém, que não despertarão o amor antes
do tempo.”
— Cantares 8:4(versão NVT) – Bíblia Sagrada
— Agora...Yasmim! — A ruiva mais velha me chama. — Sei que é
pedirmos de mais, mas nós que somos mais velhos, estamos cansados. Você
e o meu filho podem lavar os pratos?
— Claro que ela pode! — A minha mãe responde antes que eu fale
algo.
Essas duas...
Eu e Levi — que mesmo durante o almoço, estava estranhamente
silencioso — nos levantamos, pegamos alguns pratos e copos que restavam
nas mesas e caminhamos até entrarmos na casa. Mas antes de passarmos
pela porta, pude ouvir a minha prima dizer que iria ajudar, mesmo em meios
aos protestos da minha mãe, Patrícia e Gabi.
Levi se propõe lavar os pratos enquanto eu e Bruna enxugamos. Mas
a cada momento em que a morena vai pegar algo perto dele, arranja algum
jeito de tocá-lo.
Ela precisa mesmo tocar nele desse jeito?!
Para, Yasmim!
Ele é o seu melhor amigo e apenas isso!
— Tu já terminou aquela ilustração? — Questiono, tentando mudar o
rumo da conversa.
— Terminei. — Ele mostra aquelas covinhas bonitas. — E vou te
mostrar logo, curiosa! — Bate de forma leve com o dedo indicador na ponta
do meu nariz, deixando um resquício de espuma ali.
— Eu não sou curiosa, só quero saber o motivo pra tanto segredo. —
Pego um pouco de espuma e coloco no nariz dele.
— Você é tão fofoqueira, Yasmim! Não precisa...— Bruna ia dizer
algo, mas eu a interrompo tentando não ficar irritada.
Por um breve momento eu tinha esquecido da presença dela tão perto.
— “Não preciso”, o que? — Respiro fundo. — Quer saber? Deixa pra
lá!
É melhor evitar certas discussões com quem só quer saber de brigar.
Deixo o pano de pratos na pia e volto pra onde os outros estão, me
sentando perto de Gabi, que me olha de forma estranha. A minha expressão
não deve ser lá a mais bonita no momento.
Narrado por Levi
Por ser extrovertido, durante a minha infância eu tive várias
amizades, umas que até poderiam me levar pro caminho errado, se não
fosse a vigilância da minha mãe. Mas apenas três amizades eram de fato
bençãos na minha vida. Gabriela — a minha irmã mais nova —, André —
meu melhor amigo — e Yasmim — a menina que era melhor amiga da
minha irmã, acabou virando a minha melhor amiga e que eu realmente
tratava como uma irmã.
Quando entrei pra adolescência, os meus pais me contaram como
fizeram um ao outro sofrer antes de conhecerem a Cristo. Defraudação
emocional, discussões sem sentido, imaturidade e mais algumas coisas
ruins. Eles viram que a qualquer momento o desejo de estar com alguém
poderia ser despertado em mim. Então me ensinaram a não os copiar, não
estragar a vida de uma filha de Deus e nem deixar que estraguem a minha.
Por tanto, passei a ver e tratar as pessoas ao meu redor de forma diferente. E
é claro que eu errava, mas até se quisesse dar um exemplo bom a minha
irmã biológica, precisa mudar a minha forma de tratar as irmãs em Cristo.
Aproveitei a minha adolescência pra servir a Deus no máximo, sem
me preocupar em estar com alguém. E até me questionei e fui questionado
sobre isso, com dezoito anos pensei que viraria um Paulo da vida. Até
estudar realmente o famoso livro bíblico Provérbios, prestar atenção no
relacionamento dos meus pais e pensar que ter algo como o que eles tinham
poderia ser algo bom.
E só aí passei a procurar alguém que fosse do meu interesse, sem ser
“metralhadora” amorosa, é claro. Tinham as moças que “atiravam” pra
todos os lados; as moças que viviam em guerra com os pais e irmãos; as
moças que queriam estar no púlpito, mas que se negavam a varrer a igreja;
as moças que pareciam ter a maioria das características espirituais que eu
procurava, mas que tratavam a minha irmã de maneira ruim; e a moça não
precisava estar no púlpito pra servir a Deus de forma genuína, que
compartilhava os maiores segredos e medos com a minha irmã, que as
vezes se deixava levar pela timidez, que apesar de ser formada em
administração, não ligava de servir mesas ou limpar um chão porque um
cliente sujou de propósito.
Um dos muitos defeitos é a timidez, e uma das melhore qualidades é
ter atos de serviço como linguagem do amor.
Então no ano passado, pedi conselhos aos meus pais, que me
aconselharam a orar e aí conversar com os pais de Yasmim. E assim fiz.
Depois da conversa um tanto nervosa — pois o homem ciumento e protetor
que o seu Josué é, quase me fez desistir — passei a estar na cafeteria com
mais frequência.
O problema do momento é que a prima da Yasmim chegou na cidade
e não me deixa em paz. E por mais que eu odeie tratar as pessoas diferente
do que os meus pais me ensinaram, tive que aplicar outros ensinamentos
deles: não defraudar ninguém e exortar com amor.
Como agora.
— Olha Bruna, eu não sei o que se passa com você, mas eu não...—
Ela me interrompe.
— Eu gosto de você! — Diz como se fosse algo simples.
Fecho os olhos na tentativa de pensar em me sair dessa sem magoá-la
de fato.
— Mas eu não. — Abro os olhos pra ver ela me olhar irritada. — E
na verdade, nem você gosta de mim. Não de forma amorosa. Eu sei que os
seus pais são separados desde que era criança, que cresceu sem o amor
paternal que ele deveria te dar. Mas eu não posso preencher esse vazio que
existe no seu coração. Só Jesus pode te dar o que você precisa no momento.
— É por causa da Yasmim, não é?! — Bruna questiona depois
bagunçar os próprios cabelos. — Eu sabia! Eu contei pra ela que gostava de
você, e olha o que ela fez!
Ela não fez isso!
Que Deus tenha misericórdia!
— A culpa não é dela! — Suspiro tentando segurar a paciência que
me resta. — Na minha casa, eu fui ensinado que amar é uma escolha, que
eu não posso iludir alguém, que não posso preencher um lugar que só pode
ser de Cristo. Então não é você, eu apenas escolhi amar a Yasmim. E se eu
puder te dar algum conselho, nunca mais culpe alguém por algo que ela é
inocente, e nunca se declare pra um rapaz desse jeito. Você precisa de Jesus
agora!
Os olhos dela começam a ficar trêmulos e a vejo tentar segurar
algumas lágrimas. Apesar de não gostar de ver alguém desse jeito, não
poderia deixar que tudo piorasse mais.
Só espero que ela não desconte a raiva em quem não deve.
Narrado por Yasmim
— Tá emburrada desse jeito por quê? — Gabi me cutuca e eu fico em
silêncio apenas pensando em uma forma de jogar um dos copos de vidro
que enxuguei na cabeça da minha prima. — Yasmim?
Eu não deveria pensar desse jeito. Mas...
Isso não é a atitude certa pra uma imitadora de Cristo.
— Em?! — A minha melhor amiga me cutuca de novo.
— O QUE É?! — Bati na mesa, a assustando e recebendo olhares
questionadores de todo mundo. — Desculpa. — Sussurro.
Só falta eu abrir um buraco por aqui mesmo, de tanta vergonha.
— Depois a gente conversa. — Respondo Gabi, pondo um ponto
final no momento.
É quando vejo Bruna e Levi voltando pra perto de nós. Ele parece
preocupado e ela chateada. Quase posso ver as lágrimas querendo se formar
nos olhos castanhos da morena. E isso é o suficiente pra despertar a minha
curiosidade.
O que será que aconteceu?!
As horas foram se passando e acabamos saindo da casa de Patrícia e
Samuel quase na hora do culto da noite. Que foi maravilhoso por sinal.
Com a exceção de que a Bruna simplesmente não quis ir. E quando eu
perguntei o motivo, recebi uma resposta um tanto grosseira.
E quando chegamos em casa, a minha prima disse que iria voltar pra
a cidade dela na manhã seguinte. E assim aconteceu. Assim que acordei, vi
que as suas coisas não estavam mais no meu quarto, e os meus pais
disseram que ela saiu bem cedo. Sem nem se despedir.
A minha manhã passou rápido e foi até esquisita. Tá todo mundo
muito estranho, incluindo Levi, que acaba de passar pela porta de vidro da
cafeteria. Pego a minha caneta e o meu bloco de notas e vou até a mesa de
sempre.
— Boa tarde! Bem-vindo ao Litera Café! O que vai querer? —
Pergunto.
Vejo que ele não veio com nenhum material de trabalho. E nas suas
mãos há apenas o seu celular.
— Boa tarde, Yas! — Levi sorri mostrando as suas covinhas
encantadoras. — Quero um suco de maracujá, uma empada de frango,
aquele doce de amendoim e conversar com você depois.
Conversar?!
CAPÍTULO 10: TEMPO CERTO.
“Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito
debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e
tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar,
tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir,
tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de
ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e
tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de
rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar
e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.”
— Eclesiastes 3:1-8
— Tudo bem. — Anoto o pedido. — Vou trazer o seu pedido.
Volto pro balcão e entrego o papel pra minha mãe, essa que me olha
toda sorridente.
Essa mulher às vezes me dá medo!
Depois de entregar o pedido pra Levi, olho ao redor e vejo o
movimento tranquilo. Mas paro os meus olhos em uma idosa. É a mesma
senhora que me pediu pra conversar com o meu melhor amigo outro dia.
Ela me olha toda sorridente, em sua roupa quase que toda amarela e pisca
um dos olhos. Como se soubesse de algo.
— Mim! — Ouço Gabi me chamar. — O teu celular tá vibrando. —
Ela me entrega o meu aparelho que estava embaixo do balcão.
É uma mensagem de Levi:
“@levialcantara: Podemos conversar agora?”
“@yasmimalmeida: Sim.”
De repente eu sinto o meu coração acelerar e um nervosismo estranho
vir. Com o celular nas mãos, vou até a mesa do meu melhor amigo e espero
que ele diga algo.
— Podemos sair daqui? — Assinto em resposta pra sua pergunta.
Saímos da cafeteria e caminhamos durante alguns minutos, parando
exatamente na praça da minha vergonha, onde eu fugi de um cachorro e
fiquei com raiva de Levi. Mas também é um lugar onde eu passei inúmeros
momentos legais com os meus amigos.
— Oi. — Sussurro ao nos sentarmos em um dos bancos livres.
A praça tem alguns bancos de um tipo específico de madeira e
alumínio, arvores grandes e pequenas, um parquinho onde crianças brincam
sob o olhar dos pais, um ou outro vendedor e algumas pessoas apenas
observando o movimento.
— Oi. — Ele respira fundo, parecendo tomar coragem. — Yasmim...
É algo muito sério. Ele não me chama assim sempre.
— O que vai acontecer agora pode ser muito decisivo, então...se a
resposta for negativa...mesmo que a nossa amizade tenha sido, seja
maravilhosa, vamos ter que dar um fim a ela. — Levi estrala os dedos da
mão.
Será que...e se...será que ele e a Bruna?!
Antes que os meus pensamentos tomem outros rumos, ele volta a
falar.
— Você sabe muito bem que desde a nossa infância, eu sempre
conversei com todo mundo e quase virei um Paula da vida. — Assinto
sentido as lágrimas brotarem de Nárnia nos meus olhos. — Mas como
minha melhor amiga, sinto que devo dizer que a parte sobre não namorar
tem um motivo. Os meus pais me ensinarem que eu não devo roubar o lugar
de Deus no coração de ninguém. Mas há algum tempo eu tenho amado uma
pessoa, e tenho esperado o momento certo pra falar com ela sobre isso.
O meu peito parece se apertar, e a minha visão muda pra uma que não
me deixa ver direito. É como se o espaço ao nosso redor fosse se fechando
aos poucos.
— É a Bruna, não é? — O interrompo já sentido uma lágrima descer.
— Eu vi que vocês conversaram bastante ontem na sua casa e...
— O quê? — Ele franze a testa.
Eu sei que te perdi, e justamente por ser burra demais.
— Tudo bem. Se ela te fizer bem e te aproximar de Cristo, eu posso
me afastar de você. Sei que fica complicado um homem casado ter uma
melhor amiga que não seja a esposa e...
Levi fecha os olhos.
— Yasmim, você tá se escutando? — Ele bagunça os cabelos
castanhos ondulados. — Eu não amo a Bruna, nem vou me casar com ela.
Eu. Não. Quero. Ela!
— E então? — Pisco os olhos já meio turvos pelas lágrimas.
— Se não tivesse me interrompido, saberia que eu iria dizer que a
pessoa que eu amo e que tenho esperado é você! — Desabafa e os meus
olhos parecem dobrar de tamanho. — Você é a pessoa que me aproxima de
Cristo, que me faz pensar em como deve ser bom ser casado com uma
mulher como você. Que escuta, que se preocupa, que auxilia, que ama a
Deus acima de mim e tantas outras coisas. Pra mim, você é a mulher de
Provérbios 31!
Eu fui burra de novo!
— Por quê? — Acho que a ficha não caiu.
Será que eu tô sonhando?!
— Lembra de quando éramos adolescentes?! — Levi ri. — Eu
sempre fui extrovertido demais, mas não queria namorar, queria servir a
Deus em tempo integral porque sabia e que teria que dar atenção a outra
pessoa.
— Achei que seguiria o conselho de Paulo. — Sorrio de enxugo as
minhas lágrimas.
Ele revira os olhos por causa da minha brincadeira.
— Engraçadinha! — Levi se vira, olhando as crianças do parquinho.
— Tu e todo mundo. Mas parece que os planos de Deus eram diferentes dos
meus, porque no passado Ele colocou em mim o desejo de ter em um
relacionamento que o glorifique.
Conforme ele vai falando, acabo lembrando de certos...sinais.
— Tentei conversar com outras irmãs e não via as características que
procurava, até que prestei atenção e ao meu redor, e a minha melhor amiga
estava lá! — Ele desvia o olhar do horizonte e o direciona pra mim. —
Então no ano passado, conversei com os seus pais e com os meus, pedi
permissão pra tentar e passei a frequentar a cafeteria com mais frequência.
— Todas as jogadas que as nossas famílias fizeram... — Suspiro sem
acreditar. — Até o almoço...
— Foram pra tentar nos aproximar mais. — Levi responde.
— Todo mundo sabia, menos eu?! — Ele assente.
— Tentei deixar claro que não queria que nenhum deles te forçasse a
nada ou colocasse coisas na sua cabeça, mas segundo eles, você queria.
Eu que sempre reclamei de personagens que não viam o amor bem na
frente deles, tô me sentindo como eles. Mas de alguma forma, também sei
que foi no tempo certo. Em outro momento não estaríamos prontos pra
auxiliar um ao outro.
— Eu...Levi...— Sinto mais lágrimas no meu rosto. Dessa vez de
alegria.
— Sim ou não? — Ele pergunta parecendo tão ansioso quanto eu.
— O quê? — Pergunto só pra ter certeza.
Eu já tenho a resposta da pergunta, só quero ter certeza de que não tô
em um sonho maluco.
— Sim ou não? Quer namorar comigo? — Levi fica de pé e repete a
pergunta.
— Sim! — Inevitavelmente, sussurro.
— Sim? — Questiona, como se não tivesse escutado direito. — Só
pra deixar claro, não é um namoro recreativo, em algum momento a gente
vai...
— SIM! — Grito com a voz um pouco fina demais e me jogo nos
seus braços.
E assim, nos braços um do outro, ele grita pra que todos ouçam a
nossa felicidade. E também me fazendo passar vergonha mais uma vez, na
mesma praça da fuga do pinscher.
— Eu tenho uma pergunta. — Saio dos seus braços, ficando com uma
expressão séria logo em seguida. — Há alguns dias tu se assustou quando
eu chegava perto e me escondia o seu iPad. O que era?
— Eu queria te pedir em namoro através de uma ilustração, mas tive
alguns contratempos. — Levi desvia o olhar.
— Eita como ele é romântico! — O abraço novamente.
O homem pra quem eu tenho me preparado e me preocupado em ser
uma mulher virtuosa estava do meu lado esse tempo todo. Só faltava eu
perceber.
Fim!...Perai!
EPÍLOGO
“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles
se tornarão uma só carne.”
— Gênesis 2:24
— Mainha! — Ouço o choro da pequena Kiara pelo Litera Café. —
Aquele seboso comeu o meu docinho!
A pequena de cinco anos corre até mim e eu a pego no colo.
Eu deveria parar de deixá-la assistir Monstros S.A.
Quem diria que eu e Levi — aquele homem que eu dizia a todos ser
apenas o meu melhor amigo — teríamos uma pequena cópia dele com o
meu temperamento?! Pois é, a nossa filha, em seus cinco anos, é a cópia do
pai.
A pele não é tão branca quanto a dele, mas os seus cabelos são
igualmente castanhos e cacheados — pelo menos a parte cacheada da
aparência me puxou — e os olhos castanhos também, mas não podemos
esquecer das covinhas que me faz passar horas a admirando.
E quanto ao temperamento...esse aí é todinho do pai. Extrovertida e
esquentada é o que essa garotinha é. Não pode ver o primo — o filho
adotivo de André e Gabi —, que parece que o seu mundo vai acabar.
O pequeno Arthur é o filho mais velho da minha melhor amiga e seu
marido. Ele tem os seus sete anos e foi adotado com apenas três anos pelo
casal. Esses já esperavam a pequena Manuela na barriga. Enfim, Arthur e
Kiara vivem de implicâncias. E as vezes o meu sentido de
leitora/fanfiqueira/mãe me diz que o garoto pode ser o meu genro no futuro.
O quê?
Eles podem ser primos de coração, mas não tem o mesmo sangue.
E meu marido que lute com isso!
Mas também prefiro manter esses palpites apenas entre Levi e eu.
Não quero alimentar sentimentos inexistentes em ninguém.
— Kiara de Almeida Alcântara! — Chamo a atenção da minha filha
pra que ela pare de chorar. — O que eu disse sobre xingar as pessoas?
— Que é feio, e que Jesus não gosta. — A garota faz um bico do
tamanho do mundo. — Mas Mainha, ele vive me perturbando
— É isso mesmo. É errado e Jesus não gosta. Então o deixe falando
sozinho, e sempre que ele te irritar, você fala com a tia Gabi, entendeu?
A minha filha assente.
— Agora vai brincar com a vovó. — Solto ela no chão, que vai
correndo atrás da minha mãe.
Essa que vive conversando com as funcionárias e qualquer cliente da
sua idade que queira falar sobre crochê e filhos.
— Esses dois um dia vão se casar. — Sussurro pra mim mesma,
quando Gabi chega perto de mim.
Ela já não trabalha mais aqui. A ruiva ganhou dinheiro o suficiente
com os seus livros pra comprar a editora em que ela e Levi eram apenas
escritora e ilustrador. E gora ela e o meu marido são sócios da editora cujo
nome é Transformar. Porque buscam levar a literatura cristã pra vida das
pessoas de uma forma que suas vidas sejam transformadas e que elas
conheçam a Cristo.
— Tá fazendo o quê aqui, criatura? Não era pra tu tá trabalhando
com Levi a essa hora?
— Vim tomar uma xícara da alegria na melhor cafeteria e livraria da
cidade. E vim ver os meus filhos e o meu marido. — Ela sorri toda boba. —
O teu amado vem aí.
André continua trabalhando aqui. Mas agora com mais demandas e
sendo o segundo chefe na cozinha. Ao lado do meu pai.
A Litera Café agora está bem maior. Somos metade cafeteria e
metade livraria. Onde temos um contrato em que muitos livros vendidos
aqui são da Editora Transformar.
— E o Ruan? Mandou notícias? — Ela pergunta.
— Ele continua na Colômbia e os meus pais super orgulhosos. —
Respondo. — Apesar de não falarem, eles sempre o tiveram como um filho.
O Ruan — um funcionário que tivemos há alguns anos — se
converteu ao evangelho, virou um recém missionário e vive há dois meses
na Colômbia. Servindo a Deus por lá.
Não sabíamos quase nada sobre o cara, mas os meus pais sempre
gostaram muito dele, que sempre foi legal. Até que aquela mesma senhora
que insistiu pra que eu falasse com Levi foi atendida por Ruan e acabou
pregando pra o rapaz. Que tomou a decisão depois de uma semana.
— Quem diria! — É a resposta da ruiva.
— Que fofoqueiras! — Levi chega nos assustando.
Ele continua o extrovertido maluco de sempre, e não perde a
oportunidade de me assustar.
— Você ainda fica surpreso? — André aparece assustando a esposa.
O casal se cumprimenta com um beijo que chega a ser constrangedor,
mesmo sendo apenas um selinho.
Já eu abraço Levi e beijo o seu maxilar por breves segundos, onde
posso sentir um pouco da sua barba crescer. Porque sim, é o nosso
cumprimento público desde que namoramos, noivamos e nos casamos
meses depois.
— Oh, Yasmim! — Gabi me chama enquanto eu deposito outro beijo
no rosto do meu marido e deito a cabeça no ombro dele. — E a Bruna?
— Hoje mesmo ela me mandou uma mensagem dizendo estar
grávida. — Sorrio feliz por ela.
No dia do meu casamento, a minha prima me pediu perdão por não
ter visto que Levi na verdade me amava. E pela raiva desnecessária que
teve de mim a ponto de não se despedir. Hoje, além de ter reencontrado a
Cristo, ela se casou com um jovem pastor e espera o primeiro filho.
— Fico feliz por ela. — Gabriela ri como se lembrasse de algo.
Deve lembrar que quase bateu na minha prima por mim.
— Eu não disse? — André chama a nossa atenção. — Fofoqueiras!
— Fofoqueira é a... — A minha amiga se deixa levar pela provocação
do marido.
Mas antes que ela termine a frase, ouvimos dois gritos.
Kiara e Arthur!
— MAINHA! — Gritam ao mesmo tempo.
Quando chegam perto o suficiente pra os olharmos direito, vemos
duas crianças completamente sujas de achocolatado. E eu me perguntando o
que aconteceu.
— KIARA!
— ARTHUR!
Eu amo a minha família. E agora sim...
Fim!
MINIDICIONÁRIO
Pompom: Prendedor de cabelo fofinho.
Seboso: Coberto ou sujo de sebo ou de outra matéria gordurosa, que dá ares
de importante; imodesto, metido a sebo, que ou quem é sujo, imundo,
porcalhão, sebento.
Defraudação emocional: É um termo que se refere a uma situação em que
uma pessoa cria expectativas em outra pessoa, mas não as cumpre,
causando dor emocional. Existem quatro tipos de defraudação emocional:
sedução gospel, azaração, cupido e auto defraudação
Editora Transformar: Editora fictícia na história. Mas que na vida real
publica livros infantis.
Tradução do trecho:
“Can I have your daughter for the rest of my life?
Say yes, say yes, 'cause I need to know
You say I'll never get your blessing till the day I die”
“Posso ficar com a sua filha pelo resto da minha vida?
Diga que sim, diga que sim, porque eu preciso saber
Você diz que eu não vou ter a sua bênção até o dia que eu morrer.”
● Rude, MAGIC!
SOBRE O(A) AUTOR(A)
Fã de clichês, aventuras, ação e uma pitada
de romance, Jana gosta de ler desde
criança, e no início da adolescência
descobriu que podia escrever coisas legais.
Já escreveu em uma plataforma digital
apenas como hobbie, mas hoje decidiu que
talvez escritora pudesse ser uma de suas
profissões. Foi assim que passou a falar de livros nas redes sociais. Porque
falar de tudo o que ela gosta (Jesus, livros) é como se fosse a melhor coisa
do mundo (e realmente é).
Então, se quiser conhecer mais do seu gosto diferenciado por crochê, arte,
livros, Jesus e de ser uma ” social media literária”, basta segui-la por aqui:
Instagram: @janapatriicia
Tik Tok: @[Link]
Email: janainanpatricia@[Link]

Você também pode gostar