Michel Foucault – História da Sexualidade
Introdução
A coleção História da Sexualidade é uma das obras mais influentes de Michel Foucault.
Originalmente planejada em seis volumes, teve quatro publicados em vida:
1. A vontade de saber (1976)
2. O uso dos prazeres (1984)
3. O cuidado de si (1984)
4. As confissões da carne (publicado postumamente em 2018, sobre cristianismo
primitivo).
A obra questiona os modos pelos quais as sociedades ocidentais produziram discursos
sobre o sexo e a sexualidade, mostrando que não se trata de verdades naturais, mas de
construções históricas atravessadas por poder e saber.
Volume I – A vontade de saber (1976)
Neste primeiro livro, Foucault contesta a chamada hipótese repressiva, muito difundida
nos anos 1960-70, segundo a qual a modernidade teria reprimido o sexo.
Em vez de repressão, ele mostra que houve uma proliferação de discursos sobre
sexualidade desde o século XVII: médicos, juristas, pedagogos, religiosos e políticos
passaram a falar cada vez mais sobre o sexo, classificando práticas, distinguindo normal
e anormal, produzindo estatísticas e regulamentos.
O ponto central é que o sexo se tornou objeto de dispositivo de sexualidade, isto é, um
conjunto de saberes e poderes que visavam administrar a vida, controlar populações,
regular famílias e disciplinar corpos.
Dessa análise nasce o conceito de biopoder: forma de poder moderna que se exerce não
mais pela ameaça de morte, mas pela gestão da vida — saúde, natalidade, mortalidade,
higiene, reprodução.
Volume II – O uso dos prazeres (1984)
Após o primeiro volume, Foucault reorienta o projeto. Em vez de focar apenas na
modernidade, volta-se para a Antiguidade grega. O objetivo é compreender como os
gregos problematizavam as condutas sexuais e construíam formas de subjetivação.
Ele mostra que, na Grécia clássica, a questão central não era a repressão, mas o uso
moderado dos prazeres (aphrodisia). O ideal ético estava ligado à temperança, à
moderação e ao autodomínio, especialmente dos homens livres.
A sexualidade grega, portanto, era regulada não por uma moral de proibição, mas por
uma estética da existência, em que o cuidado com os prazeres era parte da formação do
sujeito virtuoso.
Volume III – O cuidado de si (1984)
Este volume trata do período helenístico e romano. A ênfase passa do uso moderado
para o cuidado de si (epimeleia heautou), entendido como uma prática constante de
atenção ao corpo, à alma e às condutas.
Aqui, a sexualidade é pensada no quadro mais amplo de técnicas de si, que envolviam
dietas, exercícios, reflexão, escrita de si e diálogo com mestres.
As práticas sexuais eram avaliadas segundo sua contribuição para a formação ética do
sujeito, privilegiando o equilíbrio e a saúde. O sexo torna-se, portanto, um aspecto da arte
de viver, ligado ao governo de si mesmo.
Volume IV – As confissões da carne (2018)
Publicada postumamente, essa obra examina o cristianismo primitivo e a maneira como
ele transformou radicalmente a experiência da sexualidade.
O cristianismo introduz o regime da confissão: os indivíduos devem declarar seus
pensamentos, desejos e faltas diante de uma autoridade espiritual. O que importa não é
apenas o ato, mas a intenção e o desejo.
Com isso, o sexo passa a ser visto como problema central da alma. A sexualidade é
interiorizada e controlada não apenas externamente, mas pela consciência. Esse modelo
influenciou profundamente a cultura ocidental, estruturando práticas de penitência,
direção espiritual e moral sexual até a modernidade.
Contribuições principais da coleção
1. Genealogia da sexualidade: Foucault mostra que a sexualidade não é um dado
natural, mas um campo de práticas, discursos e regulações historicamente
construído.
2. Dispositivo da sexualidade: conjunto de saberes (medicina, direito, pedagogia)
e práticas (confissão, exame, estatística) que produzem verdades sobre o sexo.
3. Biopoder: forma de poder moderna centrada na gestão da vida, da reprodução e
da saúde das populações.
4. Subjetivação: os volumes II, III e IV exploram como diferentes culturas (grega,
romana, cristã) produziram modos diversos de relação consigo, articulando
prazer, cuidado e verdade.
5. Ruptura com a moral repressiva: em vez de pensar a sexualidade como
reprimida, Foucault a vê como campo de produção de saberes e de formação de
sujeitos.
Legado
A História da Sexualidade transformou radicalmente os estudos sobre corpo, gênero,
desejo e poder. Inspirou pesquisas em filosofia, sociologia, história, psicologia, estudos
queer e feministas.
Sua principal herança é mostrar que a sexualidade não é apenas algo íntimo ou biológico,
mas um território político: ao regular prazeres e condutas, as sociedades produzem
sujeitos, normalizam comportamentos e governam a vida.
Conclusão
Com a História da Sexualidade, Foucault traça uma arqueologia e genealogia da forma
como o Ocidente lidou com o sexo. Da proliferação de discursos na modernidade,
passando pela ética grega e romana, até a moral cristã, ele mostra que a sexualidade é um
dispositivo fundamental na constituição dos sujeitos e nas práticas de poder.
A coleção permanece como um marco teórico para pensar a relação entre prazer, moral,
poder e identidade, revelando que falar de sexualidade é, antes de tudo, falar de como o
humano se constitui historicamente.