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Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais

Introdução à Ciência
Docente: João Timotheo
Discente: Ane Ferrari Ramos Cajado

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro:


Graal, 1993

Nessa obra, Foucault busca desconstruir a hipótese da repressão sexual, a partir de


seu método que é a análise de discurso. O método que ele irá utilizar é uma análise de
certo tipo de saber sobre sexo (não vai se ater à repressão) que possibilite entender
como os mecanismos de poder podem ser engendrados A hipótese da repressão sexual
enuncia que desde a ascensão da burguesia no século XVIII, a sexualidade vem sendo
reprimida. O sexo passar a significar exclusivamente reprodução e o casal reprodutor
(heterossexual, portanto) torna-se o modelo; todas as outras práticas sexuais
desviantes devem ser catalogadas e negadas. Para Foucault isso se não está
totalmente errado, não é a verdade sobre o tema. Para ele, o que ocorreu desde o
século XVIII não é exatamente uma proibição do sexo (o que ele chamou de hipótese
repressiva) mas sim uma produção abundante de discursos sobre o sexo e a
sexualidade que objetivavam controlar os indivíduos (o que ele chamou de scientia
sexualis). Abaixo, esquematizarei o que para Foucault significa a hipótese repressiva e
o que é a scientia sexualis.

HIPÓTESE REPRESSIVA1

Incitação dos discursos aumenta-se o detalhamento para ter maior controle

• Para controle do sexo é necessário controle da linguagem;


• Aumentando a especialidade dos profissionais encarregados de “tratar” da
sexualidade, melhora-se o controle.
• Idade Média: só havia controle da carne e de com quem se fazia sexo
• Sécs. XVII – XIX: havia controle de tudo que envolvia a sexualidade com o surgimento
de áreas de especialidade, quais sejam: demografia, biologia, medicina, psiquiatria,
psicologia, etc.
• Legislação até o fim do século XVIII

direito canônico Apenas disciplinavam o sexo


pastoral cristã dos cônjuges e as relações
lei civil matrimoniais

1
Essa hipótese repressiva é o discurso explicativo sobre a evolução da sexualidade ao qual
Foucault vai se opor.
SCIENTIA SEXUALIS

• Ars erótica: era o conhecimento do


prazer; o objetivo era perpetuar o
prazer
2 formas de verdade sobre o sexo
• Scientia sexualis: era o conhecimento do ato, se
utilizava da confissão (médica, psicológica,
religiosa); o objetivo era controlar a prática.

Vinculam-se porque há prazer no ato de descobrir a verdade do


prazer, ou seja, há multiplicação da intensificação dos prazeres
ligados à produção da verdade sobre o sexo

Confissão

A confissão é importante como método de conhecimento para quem a ouve. É


importante também para o confessante porque através da confissão é inocentado,
resgatado, perdoado,salvo, já que se diagnostica e se cura uma doença, qual seja:
qualquer desvio da sexualidade.
As formas de confissão mudaram, mas continuam sendo um método válido para o
conhecimento.

Como a confissão virou um método científico?

1. Associada a outros exames (lembrar da anamnese);


2. Sexo tem muitos desdobramentos e eles podem ser estudados;
3. Alguns aspectos do sexo são inacessíveis, precisam ser “arrancados” pelo
profissional do confessante;
4. Esse método permite formar um discurso que inaugura um poder sobre o
indivíduo;
5. As doenças sexuais podem ser medicadas.

Falamos verdade sobre

NÓS SEXO

Fala a verdade através

da liberação do oculto
Fisiologia da Reprodução  desejo de saber

Havia dois grandes campos de saber sobre o sexo2

Medicina da Sexualidade  desejo de não saber


2
Essas duas formas de saber sobre o sexo era encontrada na sociedade desde fins do século
XVIII e,principalmente, século XIX.
Até agora, Foucault informa que não existe a hipótese repressiva, que a scientia
sexualis forma um saber-poder sobre a sexualidade e, portanto, sobre os indivíduos.
Mas como ocorre a relação entre sexo e poder?

SEXO E PODER DENTRO DA HIPÓTESE REPRESSIVA

Desejo Poder

Energia selvagem Ordem que tenta


castrar
Desordenada este desejo

Relação errada

Qual é então a relação entre desejo e poder?


Antes ele busca entender o poder. Poder como entidade abstrata não existe, o que
existe são relações de poder. A idéia de que o Estado seria o único órgão de poder ou
que as redes de poderes das sociedades modernas seria uma extensão dos efeitos do
Estado (seu simples prolongamento) é absurda para Foucault. Noutras palavras, o
poder funciona como uma máquina social que não está situada em um lugar
privilegiado ou exclusivo (o Estado,por exemplo), mas se dissemina por toda a
estrutura social. Não há descontinuidade (micro poder X macro poder), nem
homogeneidade (o que está definido pelo macro é um reflexo do micro), o que existe é
um duplo condicionamento.

A dominação deve ser revista. Não existem grupos que se sustentam no poder e
dominam outros ou os subordinam; o que existe são correlações de poder que estão
em constante embate e transformação. Onde há poder, há resistência que são pontos
móveis transitórios que também se distribuem por toda a sociedade.

Ele propõe o seguinte esquema para entender o poder:

1. A relação negativa
2. A instância da regra
3. O ciclo da interdição
4. A lógica da censura
5. A unidade do dispositivo

DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE

Estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentados por


ele.

A partir desse esquema, Foucault conclui que o poder sobre o sexo não se baseia
exclusivamente em simples repressão. Se fosse assim,o poder seria apenas de dizer
não, esse poder não realizaria nada, seria um poder não-poderoso. Para ele, o poder
faz essencialmente alguma coisa, ele é ativo, ou seja, o poder não é só interdição, ele
fomenta ações. O poder engendra dispositivos que, ao mesmo tempo em que
produzem saberes sobre o sexo ou sexualidade, estabelecem verdades que servem de
base para estabelecer relações de poder. Ele tipifica quatro dispositivos, quais sejam:

1. Histerização do corpo da mulher


2. Pedagogização do sexo da criança
3. Socialização das condutas de procriação
4. Psiquiatrização do prazer perverso

PERIODIZAÇÃO
1. séc. XVII: grandes proibições +
pudores da linguagem
2 grandes rupturas
2. Séc XX: tolerância às pré-núpcias +
experiências extra-matrimoniais

A primeira ruptura é dada graças a algumas transformações ocorridas num período de


tempo bem amplo. Entre os séculos XVI e o XVIII os discursos sobre o sexo sem
escapar da noção de pecado, saem do terreno eclesiástico. Durante o período que vai
do século XVIII até o XIX a tecnologia do sexo vai se ordenar em torno dos saberes
médicos. Como desdobramento dessa nova tecnologia (os saberes médicos
disciplinadores), houve uma associação entre perversões e hereditariedade. Em
decorrência disso, surge um projeto estatal e médico para gerir/controlar a sexualidade
da população. Cria-se a associação entre perversão, hereditariedade, degenerescência
que se traduz no conceito de eugenia3.
A cronologia da repressão à A cronologia da repressão à sexualidade
sexualidade se dá dessa forma:
não se dá dessa forma:

XVI XIX

XVI
XX
XX

É importante frisar que também há uma cronologia da difusão/aplicação dos


dispositivos entre as classes sociais. Esses dispositivos atingiram mais concretamente
à classes altas, muito embora, fosse direcionados até mais explicitamente às classes
baixas.

3
Vale ressaltar que a psicanálise se opõe a isso.
CONCLUSÃO

 Não houve uma política sexual unitária;


 Corpo aristocrático versus Corpo burguês Burguesia cria um
corpo de classe

Relações de parentesco Relações de descendência


através do sangue o através da saúde e da higiene o
constituía constituía

 Não houve restrição dos prazeres, o que existiu foi uma reorganização, um cuidado
maior com o corpo, com a longevidade e a descendência. “Parece não se tratar aqui
de uma desqualificação da carne; ao contrário, de uma intensificação do corpo, de
uma problematização da saúde; trata-se de novas técnicas para maximizar a vida. Ao
invés de uma repressão do sexo das classes a serem exploradas, tratou-se primeiro
do corpo, do vigor, da longevidade das classes que dominavam” (pp.116)