Introdução
O romance ou a obra cujo título é a Balada do amor ao vento, reflete a história de amor entre
Mwando e Sarnau, que representa as guerras culturais e religiosas da sociedade moçambicana.
Mwando e Sarnau por serem jovens de religiões diferentes, eles não poderiam contrair
matrimónio através do casamento, ele era católico e só poderia ter uma esposa que acabou
sendo escolhida pela família, e Sarnau foi escolhida para ser a primeira mulher de Nguila, o
herdeiro de Mambone. No entanto, em Moçambique a poligamia não é nenhum crime, o rei
podia ter muitas mulheres e a sua esposa teria que aceitar e não ser ciumenta, pois, isso seria
uma ofensa para o mesmo. Paulina Chiziane na sua obra nos trás o papel da mulher numa
sociedade africana patriarcal, mostrando de forma detalhada a realidade vivida por muitas
mulheres moçambicanas.
Balada do amor ao vento
Com a narrativa Balada de amor ao vento, Paulina Chiziane, procura nos conta sobre a história
amorosa de Mwando e Sarnau. De um modo geral, a autora procura descrever o lugar ou
estatuto da mulher numa sociedade patriarcal e poligâmica localizada no Sul de Moçambique.
A história de amor entre Sarnau e Mwando, é caracterizada por encontros e desencontros das
personagens, o que torna o eixo que se acciona a memória da personagem principal, que tem
uma vida cheia de aventuras da riqueza e da realeza à miséria. O seu casamento poligâmico
ainda na fase da adolescência, a traição ao marido com homem amava desde a infância, a sua
fuga da aldeia e a sobrevivência em meio à miserável Mafalala, tudo isso podemos encaixar
numa série de eventos decorrentes dessa história e o permanente questionamento das
convenções sociais relativas aos papéis das mulheres no contexto familiar moçambicano.
Sarnau que vivia em Mambone, via se abandonada grávida por Mwando, um jovem que deixou
o seminário da igreja católica, após ter vivido com ele uma história de amor extraconjugal
repleta de esperanças e perseverança. No entanto, Mwando abandona sua esposa Sarnau para
casar com Sumbi, moça cristã escolhida para ser sua esposa, em um casamento monogâmico,
de acordo com as regras pregadas pela igreja católica. Sarnau fica desperada, ao receber a
notícia de Mwando, ela acaba perdendo o filho que estava em seu ventre em uma tentativa de
suicídio. Mas, a vida da Sarnau ganha uma drástica mudança quando é eleita para ser a
primeira esposa de Nguila, herdeiro da tribo dos zucula. Tal como manda a tradição, os zucula
tinham de pagar o lobolo à família da noiva para que ela dê sua permissão para a realização do
casamento.
E o casamento com Nguila eleva a condição da Sarnau de futura rainha dos zucula, posto que
alcança por ocasião da morte dos pais do seu marido, que vem a ocupar o trono na realeza.
Ademais, mesmo com sua privilegiada condição social, a qual lhe é garantida por sua posição
como esposa do rei Nguila, ela sofre imensamente em virtude da violência e das imposições às
quais se submetia em função da poligamia. Nguila possuía outras esposas um total de seis, e a
Sarnau sempre era espancada e exigida um filho. Como primeira esposa de Nguila, Sarnau era a
única com legitimidade para gerar um descendente para o trono.
O rei Nguila coloca acima a masculinidade hegemônica dentro das sociedades tradicionais da
região sul de Moçambique. Polígamo, grosseiro e violento, com um comportamento sexual
quase predatório com relação às outras mulheres da tribo zucula, Nguila sujeita sua primeira
esposa, Sarnau, a dores, sofrimentos e humilhações recorrentes. Comparativamente a esses
eventos, Mwando é traído e abandonado pela Sumbi sua esposa cristã. A sua educação cristã
não levou Mwando apenas a rechaçar a poligamia, mas também a defender a relativização das
funções sociais atribuídas aos homens e às mulheres em sua tribo. Sumbi tirava proveito disso,
obrigando-o a assumir as tarefas que os outros homens, membros do clã, consideravam
indignas e reservadas às mulheres, tais como cozinhar, lavar e cuidar da casa. Entretanto, após
de ser abandonado por Sumbi, Mwando toma direcção até Mambone, e lá reencontra Sarnau e
ambos reiniciam seus encontros sexuais.
Sarnau era rejeitada sexualmente pelo marido, que tem franca preferência pela quinta esposa,
Phati, Sarnau entrega-se totalmente a Mwando, e com ideia de fugir do seu casamento com
Nguila. Grávida de Mwando, Sarnau se vê obrigada a forçar uma relação sexual com Nguila que
sequer a procurava para ocultar a evidência da traição. Contudo, nasce do fruto da sua traição
o novo herdeiro do trono dos zucula. Sarnau foi descoberta em sua traição por Phati, e ela se vê
obrigada a fugir da ira de seu marido, deixando os filhos com Nguila. Navegaram em pequenos
barcos e chegam a Vilanculos, uma pequena aldeia de pescadores situada na província de
Inhambane, onde Mwando tornou-se pescador e Sarnau passou a ter uma vida tranquila. O rei
Zucula manda um antigo companheiro de Mwando, para buscar Sarnau e seu amante para
entregá-los.
Com outro filho no ventre prestes a nascer, Sarnau entra de vila em vila até chegar à Mafalala,
bairro pobre de Lourenço Marques, onde passou a vender o seu corpo para poder sobreviver.
Ela foi atacada por uma grave doença venérea, e tem mais um filho, fruto de um amatismo com
um homem casado que não assumiu a paternidade, e por fim se tornou uma vendedeira,
vendendo tomates nos mercado livres da Mafalala. Após abandonar Sarnau pela segunda vez,
Mwando envolve-se com a mulher de um português e, descoberto por este, e acabou
deportado para Angola, onde trabalhou como escravo nas plantações de cana e café. Usou dos
seus conhecimentos religiosos, actuou como sacerdote, onde ganhando respeito dos outros
trabalhadores escravizados e a ganha alcunha de “Padre Moçambique”. Mas, quinze anos
depois, Mwando foi liberto, e viaja para sua terra natal com o desejo de retornar a Maputo em
busca de Sarnau. Onde ele gastou todas suas economias nesta viagem de regresso e, no
caminho para Lourenço Marques, passa por Mambone, onde foi descobrir que Sarnau havia
começado a se prostituir na Mafalala.
Mwando chega a Lourenço Marques, e surpreende Sarnau e lhe propõe recomeçar sua vida em
comum. Sarnau culpa Mwando por todas as misérias que teve de enfrentar. Forçando a entrada
na palhota de Sarnau, Mwando depara-se com os filhos de Sarnau. Atendendo ao apelo dos
filhos, que reconhecem Mwando como pai, Sarnau cede e aceitou Mwando em sua palhota,
mesmo sabendo que muito provavelmente terá de sustentá-lo pelo resto de sua vida.
Conclusão
O romance Balada do amor ao vento, tenta nos reflectir e discutir sobre a linhagem patrilinear e
a poligamia existentes em algumas “tribos” do país africano e sobre os aspectos culturais que
regem as mulheres africanas e moçambicanas em particular na região sul do país, cujo seu
papel na sociedade é delimitado e cheio de sofrimento, submissão e muita dor.
A linhagem patrilinear e a poligamia vem tirar o estatuto da mulher como sendo agente activo
no desenvolvimento da sociedade, a não ser somente dona de casa e geradora de filhos. Diante
desses dois pressupostos acima colocados, a mulher passa por uma desvalorização e sendo
assim um simples instrumento de gerar filhos.
O romance nos dá à entender que o lobolo feito na zona sul de Moçambique, é uma prática que
aumenta a desvalorização da mulher nessas sociedades, pois, a mesma parece uma espécie de
compra e venda. No entanto, a mulher quando já está no lar deve obedecer fielmente o seu
marido e os demais familiares, porque é um instrumento que foi comprado.