2 C ORÍNTIOS
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ABDR
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Hubbard, Moyer V.
2Coríntios / Moyer V. Hubbard ; tradução de Susana Klassen. - São Paulo:
Vida Nova, 2021. (Série Comentário Expositivo)
256 p.
ISBN 978-65-5967-004-8
Título original: 2Corinthians (Teach the Text Commentary Series)
1. Bíblia – Coríntios – Comentários I. Título II. Klassen, Susana III. Strauss,
Mark L. IV. Walton, John H. V. Série
21-0958 CDD – 227.307
Índice para catálogo sistemático
1. Bíblia – Coríntios – Comentário
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John H. Walton, organizador do Antigo Testamento
Mark L. Strauss, organizador do Novo Testamento
2 C ORÍNTIOS
Moyer V. Hubbard
TRADUÇÃO
Susana Klassen
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©
2017, de Moyer V. Hubbard
©
2017, de Baker Publishing Group (seção “Para ilustrar o texto”)
Título do original: 2Corinthians (Teach the Text Commentary Series),
edição publicada pela Baker Books,
uma divisão do Baker Publishing Group (Grand Rapids, Michigan, EUA).
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
Sociedade Religiosa Edições Vida Nova
Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020
vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br
1.a edição: 2021
Proibida a reprodução por quaisquer meios,
salvo em citações breves, com indicação da fonte.
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New
International Version (NIV). As citações com indicação da versão in loco foram traduzidas
diretamente da English Standard Version (ESV), da New American Standard Bible (NASB),
da NET BIBLE (NET), da Holy Bible, New Living Translation (NLT), da New Revised
Standard Version (NRSV) e da Revised Standard Version (RSV). Citações bíblicas com a sigla
TA se referem a traduções feitas pelo autor a partir do original grego/hebraico. Todo grifo nas
citações bíblicas é de responsabilidade do autor.
Desenvolvimento da série
Jack Kuhatschek
Brian Vos
Seção “Para ilustrar o texto”
Kevin e Sherry Harney (coorganização)
Jeff Porte (autor colaborador)
Edição do projeto original
James Korsmo
Direção executiva
Kenneth Lee Davis
Coordenação editorial
Jonas Madureira
Preparação de texto
Rafael Caldas
Edição de texto
Fernando Mauro S. Pires
Revisão de provas
Abner Arrais
Coordenação de produção
Sérgio Siqueira Moura
Projeto gráfico
Brian Brunsting
Diagramação
Luciana Di Iorio
Capa original
Paula Gibson
Michael Cook
Paulo Jardim (adaptação)
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Sumário
Seja bem-vindo à Série Comentário 2Coríntios 4.7-15............................... 65
Expositivo....................................... vii Vasos de barro
Introdução à Série Comentário 2Coríntios 4.16—5.5.......................... 71
Expositivo........................................ ix Olhos fixos nas coisas invisíveis
Reduções gráficas 2Coríntios 5.6-10............................... 77
(abreviações e siglas)........................ xi Pela fé, e não pelo que vemos
Introdução a 2Coríntios....................... 1 2Coríntios 5.11-15............................. 83
O amor de Cristo nos impulsiona
2Coríntios 5.16-21............................. 89
2Coríntios 1.1-7................................... 9
O ministério da reconciliação
Consolo na aflição
2Coríntios 1.8-11............................... 14 2Coríntios 6.1-13............................... 96
Aprender a confiar Exortação à reconciliação
2Coríntios 1.12-14............................. 20 2Coríntios 6.14—7.1........................ 102
Integridade apostólica Exortação à pureza
2Coríntios 1.15—2.4.......................... 25 2Coríntios 7.2-4............................... 108
Planos alterados, Deus fiel Exortação à afeição recíproca
2Coríntios 2.5-11............................... 31 2Coríntios 7.5-16............................. 112
Perdão e restauração Consolo, arrependimento e reconciliação
2Coríntios 2.12-17............................. 36 2Coríntios 8.1-7............................... 118
Conduzidos como cativos A generosidade dos macedônios
2Coríntios 3.1-6................................. 42 2Coríntios 8.8-15............................. 124
A nova aliança Terminem o trabalho!
2Coríntios 3.7-11............................... 48 2Coríntios 8.16-24........................... 129
A glória insuperável do ministério do Espírito Dinheiro é assunto sério
2Coríntios 3.12-18............................. 53 2Coríntios 9.1-5............................... 134
Transformação na nova aliança Ofertar com generosidade
2Coríntios 4.1-6................................. 59 2Coríntios 9.6-15............................. 139
Serviço na nova aliança Ofertar com alegria
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2Coríntios 10.1-6............................. 145 2Coríntios 11.30-33......................... 187
Destruir fortalezas Orgulhar-se da fraqueza
2Coríntios 10.7-11........................... 151 2Coríntios 12.1-10........................... 191
Autoridade para edificar Fraqueza como força
2Coríntios 10.12-18......................... 156 2Coríntios 12.11-13......................... 198
Em nada inferior
Gloriar-se no Senhor
2Coríntios 12.14-21......................... 202
2Coríntios 11.1-6............................. 162
Prontos ou não, receberão minha visita
Divinamente zeloso
2Coríntios 13.1-4............................. 208
2Coríntios 11.7-15........................... 168 Estejam avisados
Verdadeiros e falsos apóstolos 2Coríntios 13.5-10........................... 214
Considerações adicionais.................. 174 Examinem-se!
Paulo, concessão de benefícios e os 2Coríntios 13.11-14......................... 220
coríntios Por fim, irmãos...
2Coríntios 11.16-21a....................... 176
Papel de insensato Notas............................................... 226
2Coríntios 11.21b-29....................... 180 Bibliografia...................................... 231
Credenciais apostólicas Índice de assuntos............................ 233
vi
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Seja bem-vindo à
Série Comentário Expositivo
Por que mais uma série de comentá- do grego e do hebraico e pouco refina-
rios? Essa foi a pergunta que fizemos mento hermenêutico. Existe a necessi-
quando a editora Baker Books nos dade de um comentário que empregue
pediu para produzir esta série. Temos o que há de melhor no que diz respeito
algo a oferecer aos pastores e profes- à pesquisa e estudos bíblicos, mas que
sores que não se encontre em outras também apresente o material de forma
séries de comentários ou que possa ser clara, concisa, atraente e fácil de usar.
apresentado de modo mais proveitoso? Este comentário foi desenvolvido com
Depois de fazer uma pesquisa criteriosa o propósito de disponibilizar uma obra
sobre as necessidades de pastores que de referência de fácil manuseio para a
ensinam o texto bíblico semanalmente, exposição do texto bíblico e oferecer
concluímos que é possível, sim, oferecer acesso rápido às informações de que o
algo mais. Elaboramos este comentário leitor precisa para comunicar o texto
tendo em mente preencher uma impor- de modo eficaz. Para isso, o comentá-
tante lacuna. rio é dividido em unidades de tamanho
O caráter técnico dos comentários adequado à pregação, cuidadosamente
atuais muitas vezes sobrecarrega os selecionadas, cada qual desenvolvida em
leitores com detalhes secundários ao seis páginas (que propiciaram o controle
propósito central do texto bíblico. As do número de palavras tanto da passa-
abordagens sobre fontes, a crítica da gem inteira quanto de cada subseção).
redação, bem como os levantamentos Desse modo, pastores e professores que
detalhados da literatura secundária pa- se dedicam a preparações semanais, com
recem distantes da pregação e do ensino o auxílio desta obra, vão saber que estão
da Palavra. Em vez de se embrenharem lendo aproximadamente a mesma quan-
em análises técnicas, os pastores mui- tidade de texto a cada semana.
tas vezes lançam mão de comentários Cada passagem começa com um re-
devocionais, os quais podem conter sumo conciso da mensagem principal,
deficiências exegéticas, usos indevidos ou a “Ideia central”, da passagem e
vii
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uma lista de seus principais temas. Na na seção “Para entender o texto”, cada
sequência, há uma interpretação mais unidade de até seis páginas traz as seções
detalhada do texto. que inclui o con- “Para ensinar o texto” e “Para ilustrar o
texto literário da passagem, seus an- texto”. A seção sobre ensino destaca os
tecedentes históricos e considerações principais temas teológicos da passagem
interpretativas. Ao mesmo tempo que o e maneiras de comunicar esses temas ao
material lança mão dos mais excelentes público atual. A seção sobre ilustrações
estudos bíblicos acadêmicos, também oferece ideias e exemplos para cativar a
é claro, conciso e objetivo. Informa- atenção dos ouvintes e associar a men-
ções de caráter técnico são limitadas
sagem ao dia a dia das pessoas.
ao mínimo possível; as notas ao final
O formato criativo deste comentário
de cada capítulo indicam ao leitor onde
nasceu da convicção de que a Bíblia não
encontrar abordagens mais detalhadas
e recursos adicionais. é apenas um registro daquilo que Deus
Outro foco importante deste comen- fez no passado, mas, sim, sua Palavra
tário é o processo de pregação e ensino “viva e eficaz, mais cortante que qual-
em si. Nos tempos atuais, são poucos quer espada de dois gumes” (Hb 4.12).
os comentários que ajudam o pastor Nosso desejo é que este comentário ajude
ou professor a fazer a transição entre o a liberar esse poder transformador para
significado do texto e sua comunicação a glória de Deus.
eficaz. Nosso objetivo é preencher essa
lacuna. Além da interpretação do texto Os organizadores
Seja bem-vindo à Série Comentário Expositivo viii
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Introdução à
Série Comentário Expositivo
Esta série foi elaborada para disponibi- no desdobramento do texto ao
lizar obras de referência de fácil manu- seu redor, mesmo no tocante à
seio para a exposição do texto bíblico e estratégia retórica do livro e à
oferecer acesso rápido às informações contribuição da unidade para
de que o leitor precisa para comunicar o propósito do livro.
o texto de modo eficaz. Para isso, o co- b. Esboço/Estrutura. No caso de
mentário é dividido de modo criterioso alguns gêneros literários (p. ex.,
em unidades fiéis às ideias dos autores Cartas), por vezes é oferecido
bíblicos e de extensão adequada ao en- um breve esboço exegético a
sino ou à pregação. fim de guiar o leitor enquanto
este acompanha a estrutura e o
As seguintes seções são apresentadas
desdobramento da passagem.
em cada unidade.
c. Antecedentes históricos e cul-
1. Ideia central. Em cada unidade, turais. Esta subseção trata de
o comentário identifica o tema informações relativas aos ante-
principal, ou “Ideia central”, que cedentes históricos e culturais,
motiva tanto a passagem quanto o úteis no esclarecimento de um
versículo ou de uma passagem.
comentário.
d. Considerações interpretativas.
2. Principais temas. Em conjunto
Esta subseção fornece infor-
com a “Ideia central”, o comentário mações necessárias à clara
apresenta uma lista de ideias-chave compreensão da passagem. A
da passagem. intenção do autor é ser alta-
3. Para entender o texto. Esta se- mente seletivo e conciso, e não
ção se concentra na exegese do exaustivo e extenso.
texto e inclui várias subseções: e. Considerações teológicas. Nesta
a. Texto em contexto. Aqui o autor subseção bastante sucinta, o co-
explica de modo sucinto como mentário identifica algumas con-
a unidade em estudo se encaixa siderações de ordem teológica
ix
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cuidadosamente selecionadas a em áreas como literatura, entre-
respeito da passagem. tenimento, história e biografia e
4. Para ensinar o texto. Nesta seção, mais de quarenta outras categorias
o comentário oferece orientações presentes na cultura. O propósito é
voltadas para o ensino do texto. O oferecer ideias gerais para despertar
autor apresenta os principais temas e
aplicações da passagem e os associa, a criatividade de pregadores e pro-
cuidadosamente, à “Ideia central” e fessores e ajudá-los na preparação
aos “Principais temas”. de materiais para uma exposição
5. Para ilustrar o texto. Aqui, o co- mais vívida da mensagem e seus
mentário sugere ilustrações úteis principais temas.
Nota dos editores
Estamos convencidos de que esta obra aplicação. Cumpre ressaltar, porém,
será uma ferramenta útil e benéfica a que nem sempre concordaremos com
ministros, professores e leigos cristãos, os posicionamentos de cada autor e que
uma vez que contribuirá para encurtar nenhuma ferramenta deve substituir o
a distância entre o texto bíblico e sua estudo do texto bíblico.
Introdução à Série Comentário Expositivo x
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Reduções gráficas
(abreviações e siglas)
Antigo Testamento Jn Jonas
Mq Miqueias
Gn Gênesis Na Naum
Êx Êxodo Hc Habacuque
Lv Levítico Sf Sofonias
Nm Números Ag Ageu
Dt Deuteronômio Zc Zacarias
Js Josué Ml Malaquias
Jz Juízes
Rt Rute
1Sm 1Samuel Novo Testamento
2Sm 2Samuel
1Rs 1Reis Mt Mateus
2Rs 2Reis Mc Marcos
1Cr 1Crônicas Lc Lucas
2Cr 2Crônicas Jo João
Ed Esdras At Atos
Ne Neemias Rm Romanos
Et Ester 1Co 1Coríntios
Jó Jó 2Co 2Coríntios
Sl Salmos Gl Gálatas
Pv Provérbios Ef Efésios
Ec Eclesiastes Fp Filipenses
Ct Cantares Cl Colossenses
Is Isaías 1Ts 1Tessalonicenses
Jr Jeremias 2Ts 2Tessalonicenses
Lm Lamentações 1Tm 1Timóteo
Ez Ezequiel 2Tm 2Timóteo
Dn Daniel Tt Tito
Os Oseias Fm Filemom
Jl Joel Hb Hebreus
Am Amós Tg Tiago
Ob Obadias 1Pe 1Pedro
xi
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2Pe 2Pedro Pseudepígrafos do Antigo Testamento
1Jo 1João
Asc. Isa. Ascensão de Isaías
2Jo 2João
2 e 3Br 2 e 3Baruque
3Jo 3João C. Arís. Carta de Arísteas
Jd Judas 4Ed 4Esdras
Ap Apocalipse 1-2En 1 e 2Enoque
Jos. Asen. José e Asenate
Gerais LAB Liber antiquitatum biblica�-
rum (Pseudo-Filo)
a.C. antes de Cristo Sl. Sal. Salmos de Salomão
cap(s). capítulo(s) T. Jó Testamento de Jó
cf. conferir T. Levi Testamento de Levi
d.C. depois de Cristo T. Sim. Testamento de Simeão
esp. especialmente Vida Pro. Vida dos Profetas
ibidem mesma obra
i.e. id est, isto é Obras gregas e latinas
p. ex. por exemplo
v. versículo(s)
Élio Aristides
Plat. Platão
Versões e manuscritos antigos
Pais apostólicos
LXX Septuaginta Did. Didaquê
m. Mishná
Apuleio
1QS Regra da Comunidade
Metam. Metamorfoses (O burro de
P.Oxi. Papiros de Oxirrinco
ouro)
Ário Dídimo
Versões contemporâneas Epít. Epítome da ética estoica
CEB Common English Bible
Dião Crisóstomo
ESV English Standard Version
Disc. Discursos
GNT Good News Translation
KJV King James Version Epíteto
LEB Lexham English Bible Disc. Discursos
NASB New American Standard
Bible Horácio
NET The NET Bible (New En- Od. Odes
glish Translation) Sát. Sátiras
NIV New International Version Isócrates
NJB New Jerusalem Bible Nic. Nicoles
NLT New Living Translation
NRSV New Revised Standard Josefo
Version Ant. Antiguidades dos judeus
RSV Revised Standard Version G. J. Guerras dos judeus
Luciano
Apócrifos e Septuaginta Alex. Alexandre, o falso profeta
Assalar. Contra os assalariados
Bl Bel e o Dragão dos grandes (De mercede
1-2Mc 1 e 2Macabeus conductis)
Sb Sabedoria de Salomão Fug. Os fugitivos
Si Siraque Hermot. Hermotimo
Reduções gráficas (abreviações e siglas) xii
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Retórica O mestre de retórica (Rhe- Ep. Epístolas
torum praeceptor) Sábio Sobre a firmeza do sábio
(De constantia sapientis)
Marcial
Epig. Epigramas Suetônio
Tib. Tibério
Musônio
Disc. Discursos Tácito
An. Anais
Petrônio
Sat. Satíricon
Referências contemporâneas
Filo
Agr. Da agricultura BDAG Frederick W. Danker;
Fuga Da fuga e da descoberta Walter Bauer; William F.
H. Virt. Todos os homens virtuosos Arndt; F. Wilbur Gingrich.
são livres A Greek-English lexicon
Maus O hábito dos maus de ata- of the New Testament
car os bons and other early Christian
Migr. Da migração de Abraão literature. 3 ed. (Chicago:
Plant. Da plantação University of Chicago Press,
Post. Da posteridade de Caim 2000).
QG Questões sobre Gênesis CIJ Corpus Inscriptionum Ju� -
daicarum. Jean-Baptiste
Plutarco Frey, org. (Roma: Pontifical
Bajul. Como distinguir o amigo do Biblical Institute, 1936-52).
bajulador (Quomodo adula- 2 vols.
tor ab amico internoscatur) LSJ Henry George Liddell;
Emílio Lúcio Emílio Paulo Robert Scott; Henry Stuart
Mor. Morais Jones. A Greek-English
Lexicon. 9 ed. acrescido de
Públio Siro
suplemento rev. (Oxford:
Sent. Sentenças
Clarendon, 1996).
Quintiliano SP Select Papyri. Tradução
Inst. Or. Instituição oratória (Institu- para o inglês de A. S. Hunt;
tio oratoria) C. C. Edgar. Loeb Classical
Library (Cambridge: Har-
Sêneca vard University Press, 1932-
Diál. Diálogos (Dialogi) 35). 5 vols.
Exceto indicação em contrário, todos os autores clássicos são citados a partir de Loeb Classical
Library; Manuscritos do Mar Morto são citados a partir de Florentino García Martínez; Eibert
J. C. Tigchelaar, The Dead Sea Scrolls. ed. de estudo (Leiden: Brill, 1999). 2 vols.; Ário Dídimo
é citado a partir de Arthur John Pomeroy, org. Epitome of Stoic Ethics. Society of Biblical
Literature Texts and Translations 44 (Atlanta: Society of Biblical Literature, 1999); Musônio
é citado a partir de Cora E. Lutz, Musonius Rufus: “The Roman Socrates” (New Haven: Yale
University Press, 1947); Cartas Cínicas são citadas a partir de Abraham J. Malherbe, org.
The Cynic Epistles: a study edition, Sources for Biblical Study 12 (Missoula: Scholars Press,
1977); Pseudepígrafos do Antigo Testamento são citados a partir de James H. Charlesworth,
org. The Old Testament Pseudepigrapha (Garden City: Doubleday, 1983-85). 2 vols.
xiii Reduções gráficas (abreviações e siglas)
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Introdução a 2Coríntios
A cidade de Corinto Comércio, política e turismo contri-
Corinto era uma das cidades-estados buíram para o rápido crescimento de
mais ilustres da Grécia. Sua história re- Corinto; estudiosos contemporâneos
monta ao oitavo século a.C. e é marcada costumam descrever a Corinto romana
por realizações políticas, comerciais e do primeiro século como uma “cidade
culturais. Corinto se tornou, no auge em rápida expansão”.1
de sua influência, a principal cidade da Quando Paulo visitou Corinto pela
Liga da Acaia, uma federação de cidades primeira vez (c. 51 d.C.), chegou a uma
gregas que tinha por objetivo promover próspera metrópole (e arredores) de
o sucesso político da Acaia diante dos quase cem mil habitantes. Em vários
desafios da Macedônia, de Esparta e aspectos, essa cidade era diferente da-
de Roma. Essa aliança levou, por fim, quela de trezentos anos antes. Uma vez
à destruição de Corinto e à dissolução que Corinto era uma colônia romana,
definitiva por Roma da Liga da Acaia a elite governante era constituída, em
em 146 a.C. Corinto permaneceu em grande parte, de romanos, e o latim era
ruínas até ser restabelecida por Júlio a língua predominante entre aqueles que
César em 44 a.C. como colônia romana. detinham o poder na cidade. Corinto era
A localização estratégica de Corinto a sede do governo provincial romano
no istmo que une o Peloponeso à Gré- e, portanto, contava com uma presença
cia continental significava que a cidade militar. Contudo, a cidade também tinha
controlava os dois portos nas vizinhas uma numerosa população de gregos
Lequeu e Cencreia. Essa encruzilhada nativos; logo, a designação “greco-ro-
marítima ligava Roma a suas provín- mana” é verdadeiramente aplicável à
cias no leste, o que tornou a recém- Corinto do primeiro século.
-fundada Corinto um importante centro Em tempos recentes, chegou-se a
de comércio e viagem. Como anfitriã um consenso entre estudiosos do Novo
dos Jogos Ístmicos bienais, uma com- Testamento a respeito do perfil de Co-
petição pan-helênica de importância rinto e de seus cidadãos. Esse retrato
inferior apenas aos Jogos Olímpicos, da cidade geralmente faz referência à
Corinto também era beneficiada pelo tu- relativa riqueza de Corinto, à cons-
rismo ligado aos jogos, tornando-se um ciência de seu prestígio, à dedicação
centro de atletismo no Mediterrâneo. à retórica, à ênfase sobre a aparência
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física, à mobilidade ascendente e à li- (no mínimo) a segunda carta de Paulo
cenciosidade.2 Paulo confronta diversas a Corinto (Carta B).
manifestações desses valores culturais Não fica claro o que exatamente
em suas cartas a essa igreja e, por isso, aconteceu em seguida, mas parece
sabemos mais sobre a comunidade cristã provável que Timóteo tenha voltado
em Corinto que sobre qualquer outra depois de entregar essa carta aos corín-
igreja do Novo Testamento. Também tios (1Co 4.17; 16.10,11; At 19.21,22)
sabemos mais sobre o relacionamento com a notícia de que a situação havia
turbulento de Paulo com essa igreja que se deteriorado consideravelmente. Essa
com qualquer outra fundada por ele. informação levou Paulo a abandonar o
Das várias cartas que Paulo escreveu itinerário anunciado por ele em 1Corín-
a Corinto, apenas duas chegaram até tios 16.5,6 e a fazer uma visita não pla-
nós, 1 e 2Coríntios. Antes de tratar- nejada a Corinto (2Co 1.15-24; 13.1,2).
mos de questões literárias e históricas A visita não foi boa; Paulo diz que ela
fundamentais para a interpretação de causou “tristeza” (2.1). O apóstolo
2Coríntios, é proveitoso situar a carta sofreu hostilidade por um membro da
no contexto da correspondência de comunidade (2.5-11; 7.12) e foi embora
Paulo com os coríntios e entender os profundamente entristecido com o pe-
desdobramentos entre 1 e 2Coríntios. cado dos coríntios (7.7-9). Ao voltar a
Éfeso, Paulo redigiu uma carta emotiva,
As cartas de Paulo a Corinto e o(s) escrita “com grande aflição e angús-
propósito(s) de 2Coríntios tia de coração e com muitas lágrimas”
O ministério inicial de Paulo em Co- (2.4), que ele enviou por meio de Tito
rinto durou cerca de dezoito meses (2.4,12,13; 7.6,7). Essa carta, que não
(At 18.1-17). Algum tempo depois de chegou até nós, costuma ser chamada
ir embora, Paulo escreveu aos coríntios “Carta C”.
para lhes dar mais orientações pasto- Por fim, Tito trouxe a Paulo a boa no-
rais. Quanto ao conteúdo dessa carta, tícia de que os coríntios haviam reagido de
sabemos apenas que os aconselhava a modo favorável a sua carta escrita em tom
não se associarem a crentes que conti- incisivo e haviam tomado providências
nuassem a praticar imoralidade sexual contra o transgressor (2.5-11; 7.5-12).
(1Co 5.9). Em discussões acadêmicas, No entanto, Tito também informou o
essa carta é chamada, por vezes, “Carta apóstolo de uma nova ameaça: missio-
A”. Depois disso, Paulo ficou um longo nários grandiloquentes vindos da Judeia
período em Éfeso (At 19) e, durante estavam em Corinto tentando solapar
esse tempo de ministério, ouviu relatos a credibilidade de Paulo. Em resposta,
da “casa de Cloé” sobre divisões em Paulo enviou Tito diretamente a Corinto
Corinto (1Co 1.11).3 Também recebeu com a carta que temos diante de nós,
uma carta dos coríntios com perguntas 2Coríntios (a quarta carta identificável
a respeito de assuntos como casamento de Paulo a essa comunidade), enquanto
(1Co 7.1), alimentos sacrificados a o apóstolo prosseguiu por terra pas-
ídolos (8.1) e outras questões práticas. sando pela Macedônia a caminho de Co-
Paulo escreveu 1Coríntios em resposta rinto. Paulo também encarregou Tito de
ao relato de Cloé e às perguntas dos reavivar o entusiasmo pela oferta a ser
coríntios. Na verdade, portanto, essa é levantada para os pobres de Jerusalém,
Introdução a 2Coríntios 2
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para que, quando o apóstolo chegasse “restauração” (13.9). A obra restau-
com emissários da igreja da Macedô- radora que precisa ocorrer diz respeito
nia, os coríntios (sem falar no próprio a Deus e a Paulo e também a relacio-
Paulo!) não ficassem constrangidos por namentos entre os próprios coríntios.
não apoiarem essa empreitada. Paulo espera que essa carta prepare o
À luz dessa sequência de aconteci- terreno para sua visita iminente, a fim
mentos, ao escrever 2Coríntios, Paulo de que, quando ele chegar, não precise
tinha em mente vários objetivos distin- usar sua autoridade para disciplina, mas
tos, porém inter-relacionados: possa usá-la para edificação (13.10).
• apresentar o contexto completo de Integridade literária de 2Coríntios
sua mudança de planos de viagem Tendo em conta os objetivos multifa-
a fim de refutar as acusações de cetados por trás de 2Coríntios, não
inconstância feitas por alguns em deve causar surpresa que a unidade da
Corinto (caps. 1 e 2); carta seja seriamente questionada. Aliás,
• apresentar uma visão mais com- até meados de 1990, de acordo com o
pleta de seu ministério apostólico, consenso acadêmico 2Coríntios era um
especialmente de seu sofrimento e documento composto de pelo menos
de sua “fraqueza” (12.10) a fim de duas cartas distintas. Estudos recentes,
refutar aqueles em Corinto (quer entretanto, corroboram cada vez mais a
os próprios coríntios, quer intru- unidade de 2Coríntios, posicionamento
sos) que usavam as dificuldades de adotado por este comentário. Uma de-
Paulo para minar sua credibilidade fesa detalhada desse posicionamento vai
apostólica (caps. 3—7); além do escopo desta introdução,5 mas
• ajudar Tito em seu trabalho de convém fazer alguns comentários tanto
motivar os coríntios com respeito a respeito dos argumentos favoráveis
à oferta para os pobres de Jerusalém à unidade redacional da carta quanto
ao fornecer uma base teológica mais sobre os aspectos mais problemáticos
detalhada e diretrizes específicas desse posicionamento.
(caps. 8 e 9);
• confrontar diretamente as asserções Argumentos a favor da unidade
de missionários intrusos, refutar de 2Coríntios
sua difamação e desmascarar sua Ausência de corroboração textual para
arrogância e dissimulação (caps. um documento composto. Primeira-
10—12); mente, não há evidências textuais de
• preparar os coríntios para sua ter- que 2Coríntios tenha existido em uma
ceira visita, que incluiria um acerto forma diferente desta que vemos hoje. Se
de contas minucioso das atitudes 2Coríntios é um documento composto de
e ações pecaminosas persistentes várias cartas, o processo editorial respon-
(6.14—7.1; cap. 13). sável pela produção da forma canônica
de 2Coríntio deveria ter sido concluído
O propósito mais amplo de 2Corín- antes que tivessem circulado quaisquer
tios pode ser descrito como reconcilia- cópias das cartas individuais que contri-
ção e restauração.4 A oração principal buíram para sua presente forma. Tam-
de Paulo pelos coríntios é por sua bém teríamos de supor que essas cartas
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foram destruídas ou se perderam depois da era mosaica e da lei em si (3.1-18),
de concluída a redação do documento praticamente completamos o perfil dos
composto, a carta canônica de 2Corín- intrusos cristãos judeus dos capítulos
tios. Além disso, precisamos fornecer 10—13. Em outras palavras, não é ver-
um motivo convincente para a edição dade que a apologética dos capítulos
e combinação dessas cartas. Combinar 10—13 é totalmente inesperada diante
vários documentos em um só rolo de do conteúdo dos capítulos 1—9.
papiro não é problemático, mas a lógica Várias questões, várias estratégias. De
por trás da eliminação de introduções e acordo com 1Coríntios, o problema fun-
conclusões e da inserção de fragmentos damental em Corinto eram os próprios
de uma carta entre segmentos de outra coríntios. Paulo os avaliou como imatu-
exige uma explicação plausível. ros, mundanos e ainda não preparados
Temas unificadores. Embora certa- para o “alimento sólido” do discipulado
mente seja fato que os principais seg- maduro (1Co 3.1-4). Embora tivessem
mentos de 2Coríntios (caps. 1—7; 8 e 9; feito algum progresso quando Paulo es-
10—13) tratam de assuntos diferentes, creveu 2Coríntios, muitos dos mesmos
também é fato que temas importantes problemas ainda estavam presentes:
permeiam a carta como um todo, in- participação em refeições em templos
dicando um texto retoricamente unifi- pagãos (2Co 6.14—7.2; cf. 1Co 8;
cado — por exemplo, força na fraqueza 10.14-22), impureza sexual (2Co 12.21;
(2.14-16; 4.7-18; 11.30-33; 12.10; cf. 1Co 5.1,2), depreciação carnal da
13.3), o estilo de Paulo e sua filosofia de retórica de Paulo (2Co 10.10; 11.6; cf.
pregação (2.17; 4.2-5; 5.11-13; 10.10- 1Co 2.1-5) e partidarismo (2Co 10—12;
12; 11.5,6; 13.2,3), orgulho apropriado cf. 1Co 4.4-6). Além desses problemas
e inapropriado (1.12,14; 5.12; 7.4,14; persistentes, quando Paulo redigiu 2Co-
8.24; 9.2; 10.8-17; 11.10-30; 12.1-10) ríntios também teve de tratar de questões
e recomendação (3.1-3; 4.2; 5.12; 7.11; relacionadas à alteração de seu itinerário
10.18; 12.11). de viagem, à interrupção da coleta da
Os capítulos 1—9 preparam o ter- oferta e aos recém-chegados cristãos
reno para os capítulos 10—13. Argu- judeus intrusos. Em outras palavras,
menta-se, por vezes, que os oponentes 2Coríntios trata de uma ampla gama
nos capítulos 10—13 e a retórica severa de problemas e, portanto, avaliar a in-
desse conteúdo são completamente sem tegridade da carta com base nos padrões
precedentes tendo em conta as infor- contemporâneos de coerência temática
mações dos capítulos 1—9, especial- voltada para um só objetivo resulta na
mente 7.4—16. Em contrapartida, nas incompreensão da complexidade da si-
duas seções da carta Paulo se defende tuação da realidade de Corinto.6
diante dos coríntios, e até mesmo os
capítulos anteriores trazem alusões a Passagens problemáticas para aqueles
intrusos (3.1) e àqueles que afirmam que defendem a unidade de 2Coríntios
serem servos de Deus, mas exploram Há ampla concordância a respeito
outros (2.17; 4.2) enquanto pregam dos pontos de junção de 2Coríntios:
a si mesmos (4.5). Ademais, quando 1.1—2.13; 2.14—7.16 (interrompido
ligamos essas declarações à extensa por 6.14—7.1); 8.1—9.15; 10.1—13.13.
reflexão de Paulo sobre a insuficiência Nem todas essas junções, porém, são
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igualmente problemáticas com res- que 6.14—7.1 representa uma aplicação
peito à integridade de 2Coríntios. Por concreta da exortação à reconciliação em
exemplo, a ação de graças repentina em 5.21—6.2.12 Algumas dessas propostas
2.14 e o excurso subsequente podem são bastante complexas e imaginativas.
ser explicados de modo arrazoado pela No fim das contas, a solução de Barret
referência de Paulo a Tito em 2.13, que talvez seja a mais atraente, ainda que
lembrou o apóstolo das boas notícias apenas em virtude de sua simplicidade:
trazidas por Tito sobre a reação favo- “Não é raro Paulo se permitir digressões
rável dos coríntios a sua carta incisiva da ideia central e, depois, voltar a ela de
(2.1-4). Essa suposição é confirmada modo um tanto abrupto”.13
quando Paulo retoma a linha de racio-
cínio em 7.4-16. O consenso emergente 2Coríntios 10—13
sobre os capítulos 8 e 9 (até mesmo Sem dúvida esse é o segmento mais
entre aqueles que não consideram a difícil da carta para quem argumenta
carta uma unidade)7 é de que andam a favor da integridade de 2Coríntios.
juntos e foram colocados em sua atual Aliás, seria difícil imaginar uma mu-
posição no original, logo depois dos dança mais dissonante de conteúdo
capítulos 1—7. No entanto, duas se- e tom do que a que o leitor encontra
ções de 2Coríntios são especialmente quando passa do capítulo 9 ao capítulo
difíceis de relacionar ao contexto em 10 dessa carta. Paulo se torna irado e
que se encontram e, portanto, exigem sarcástico e entra claramente em modo
um comentário sucinto. de ataque. De repente, somos informa-
dos de que falsos profetas estão pre-
2Coríntios 6.14—7.1 gando um Jesus diferente (11.1-4) e, ao
Essa passagem parece representar uma que parece, a lealdade dos coríntios está
mudança drástica de assunto e traz uma verdadeiramente dividida (12.11-18).
proporção elevada de vocabulário que Como conciliar esse trecho com a pas-
não aparece em outros trechos da carta sagem que o antecede, em que Paulo
de Paulo. A exortação à separação e à expressa sua “plena confiança” nos
pureza lembra material de Qumran, o coríntios (7.16)?
que levou alguns a concluírem que se Na opinião deste autor, não há ne-
trata de um fragmento essênio cristiani- nhuma resposta inteiramente satisfa-
zado.8 Além disso, quando a passagem é tória para essa pergunta. No entanto,
removida, 6.13 faz uma transição suave como observamos acima, os capítulos
para 7.2. Outros estudiosos argumen- anteriores trazem alusões a intrusos que
tam, contudo, que essa passagem pode estavam explorando os coríntios (2.17;
ser integrada a seu presente contexto ao 3.1; 4.2,4) e também dão a entender
se identificar corretamente a tradição que esses intrusos são judeus (3.1-18).
judaica mais ampla na qual Paulo se ba- Diante disso, sua presença nos capítulos
seia,9 ou ao se discernir com precisão o 10—13 é menos surpreendente. Aliás, o
assunto no contexto do qual Paulo trata estudo abrangente realizado por Sum-
ao fazer essa exortação,10 ou, ainda, ao ney dos oponentes de Paulo em 2Corín-
entendermos adequadamente a estru- tios conclui que indícios dos capítulos
tura retórica do argumento paulino.11 1—7 e dos capítulos 10—13 apontam
É especialmente curiosa a proposta de para os mesmos oponentes nessas duas
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seções da carta.14 Ademais, a “plena mais incômodas dos estudos paulinos.
confiança” de Paulo não pode ser en- Uma análise recente desse tema identi-
tendida como indicação de ausência de ficou dezenove perfis distinguíveis ela-
problemas pendentes em Corinto. A ex- borados ao longo do último século.15
pressão de confiança do apóstolo em Muitas dessas sugestões apresentam
7.16 se refere principalmente ao modo características em comum, e essas vá-
que os coríntios lidaram com a questão rias permutações podem ser organizadas
do irmão que havia hostilizado Paulo em quatro grupos básicos: judaizantes,
durante sua visita que causou “tristeza” gnósticos, “homens divinos” helenistas
(2.1), o enfoque de 7.4-16. e pneumáticos.16 Escolher uma dessas
Também precisamos ter em mente alternativas é uma tarefa intimidante,
que uma carta do tamanho e com a dificultada pela interação complicada
abrangência de 2Coríntios certamente de Paulo com os coríntios. Por exemplo,
não foi escrita de uma só vez. Consi- embora haja consenso entre os estudio-
derando-se o que sabemos a respeito sos de que 2Coríntios 10—13 fornece
das viagens e do ensino de Paulo, e o indícios claros da presença de intru-
fato de que ele trabalhava pelo próprio sos, sabemos com base em 1Coríntios
sustento no ministério, é mais razoável e outras passagens de 2Coríntios que
imaginar que a carta levou pelo menos Paulo tinha muitos outros adversários
vários dias, ou mesmo várias semanas,
em Corinto. Portanto, só porque vemos
para ser concluída. Durante esse tempo,
Paulo objetar a determinada perspec-
o apóstolo pode ter recebido mais infor-
tiva, não significa necessariamente que
mações sobre a seriedade da situação em
os oponentes intrusos adotavam essa
Corinto, o que o fez mudar sua aborda-
perspectiva. Precisamos fazer distinção
gem e seu tom nos capítulos posteriores.
entre os oponentes de Paulo (os intrusos
Os primeiros capítulos ainda tratavam
de questões importantes e relevantes, dos caps. 10—13) e seus “oponentes”
daí não serem descartados. Também é (indivíduos descontentes no meio dos
possível que Paulo tenha ditado essa próprios coríntios). Ademais, preci-
carta ao longo de um período extenso, samos levar em conta que, por vezes,
tratando de diferentes questões a cada Paulo criticava ou condenava alguns
sessão. Esses segmentos diversos podem valores culturais mais amplos que não
ter sido, então, compilados e enviados harmonizavam com o evangelho sem
aos coríntios na forma da carta que co- fornecer informações úteis a respeito de
nhecemos como 2Coríntios. Em essên- seus rivais. Em outras palavras, consi-
cia, 2Coríntios parece representar uma derando-se a situação complexa visível
só carta de Paulo, mas uma carta que nessas cartas, não podemos tomar por
trata de várias questões distintas e de certo que tudo aquilo a que Paulo se
um conjunto de circunstâncias bastante opõe seja para combater apenas um
complexo em Corinto. grupo, ou que todas as suas declarações
de tom polêmico sejam voltadas contra
Os oponentes de Paulo em uma só frente unificada. O que sabemos
2Coríntios a respeito dos oponentes de Paulo em
A identidade dos oponentes de Paulo 2Coríntios 10—13 pode ser resumido
em 2Coríntios ainda é uma das questões de modo sucinto:
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1. Eram judeus (11.22), mas não há 6. Orgulhavam-se excessivamente
evidências de que defendessem a obe- (10.12-17; 11.16—12.11) e tinham um
diência à Lei mosaica. Não encontramos estilo de liderança abusivo (11.20). É
nenhuma referência à circuncisão, a res- interessante que, em momento nenhum,
trições alimentares ou a outras peculia- Paulo ataca seu ensino ou sua doutrina;
ridades judaicas, embora fique claro que antes, concentra-se em seu estilo arro-
esses indivíduos tinham grande orgulho gante e estrondoso.
de suas credenciais judaicas.
2. Vinham de fora de Corinto, prova- Com base naquilo que sabemos
velmente da Palestina (11.22), e Paulo
com certeza a respeito dos intrusos
considerava que estavam invadindo sua
dos capítulos 10—13, parece que eram
jurisdição ministerial (10.13-17).
evangelistas cristãos judeus que haviam
3. Professavam Cristo (11.23) e diziam-se
adotado os métodos e o estilo de filó-
“apóstolos” (11.5,13; 12.11). No en-
tanto, Paulo parece duvidar da autenti- sofos sofistas populares helenistas a
cidade de sua profissão. Chama-os falsos fim de obter lucro financeiro e que,
apóstolos, obreiros enganosos e servos de ao fazê-lo, comprometiam seriamente
Satanás (11.13,14) e indica que pregam o evangelho. O presente comentário
um Jesus bem diferente (11.4). partirá dos pressupostos dessa análise
4. Gostavam de exibições de oratória um tanto minimalista e procurará fazer
(11.5,6) e técnicas retóricas (11.12). distinção, caso a caso, entre as várias
5. Tiravam dinheiro dos coríntios linhas de oposição com as quais depa-
(11.7-15,20; 12.14,15). ramos nessa carta.
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