Você está na página 1de 28

FUNCTIONAL AND COGNITIVE GRAMMARS

APRESENTAÇÃO: MORGANA DE ABREU LEAL


CONCEITO DE AUTO-SUFICIÊNCIA (CROFT, 1995)

 Aplicado à sintaxe e à gramática


 Oposição às abordagens formais de gramática
Nível da Sintaxe

• Elementos sintáticos interagem com elementos semânticos e discursivos


• Regras de sintaxe fazem referências a papeis semânticos (agente vs. paciente),
a características semânticas (animacidade), ou propriedades discursivas
(referenciação)

Nível da Gramática

• Gramática depende ou não de outras capacidades cognitivas humanas (atenção,


categorização)
• Gramática depende ou não do contexto social de uso

Formalistas = gramática e sintaxe são autônomas em relação a fatores “externos”;


Funcionalistas e Cognitivistas = não autônomas, fatores discursivos e cognitivos são refletidos nas
propriedades estruturais da língua.
FUNCIONALISMO

 Uma infinidade de abordagens que consideram aspectos da estrutura da língua como “amarrados” a suas funções
comunicativas.
 Onde diferem? Em quais aspectos são motivados pela função e o que é exatamente uma função comunicativa.
 Extremos:
 Abordagens que são meras extensões da gramática gerativa (Kuno, 1987; Prince, 1981; Bresnan e Aissen, 2001).
 Funcionalismo extremo, que nega a arbitrariedade da estrutura e da gramática e vê toda estrutura como inteiramente
baseada na função, e a gramática reduzida ao discurso (Nichols, 1984; Hopper e Thompson, 1984).
 A maioria dos funcionalistas considera sintaxe e gramática como amplamente arbitrárias mas crucialmente não
autossuficientes.
COGNITIVISMO
 Sintaxe e gramática são reflexões da organização conceptual geral.
 Não há demarcação clara entre semântica e pragmática.
 Todo significado linguístico está associado à conceptualização.
 Várias vertentes, distinção entre linguística cognitiva “essencial” e linguística cognitiva-funcional:
 Vertente mais conceptual ou semântica, liderada por Langaker e Talmy
 Vertente orientada à construção, originada com trabalhos de Lakoff (1977) e Fillmore (1988); duas direções:
 Direção cognitiva, como Goldberg (1995, 1996, 2006) e Croft (2001)
 Direção formal, que renega os principais fundamentos da LC, ao mesmo tempo mantendo a superioridade da gramática de construções sobre
a gramática baseada em regras, representada por Fillmore (1988) e Pollard e Sag (1994)

 Vertente funcional, mistura as duas ideais, especialmente topologia linguística, estrutura informacional, discurso, análise textual, e
sociolinguística. Verhagen (1995, 2005), Nuyts (2007), Kemmer e Barlow (2000), Croft (2001).
 Geeraerts e Cuyckens (2007) sugerem uma subdivisão cronológica, uma emergente dos anos 80 e outra do final dos anos 90
Funcionalistas Cognitivistas
Ambas teorias abarcam um Gramática Sistêmico-Funcional Gramática Cognitiva de
grande corpo de pesquisa de Halliday (GSF), Langacker,
teórica, descritiva, empírica Gramática Funcional de Dik Gramática Cognitiva de
e aplicada, mas com pouco (GF), Construções de Goldberg,
desenvolvimento de Gramática de Papel e e
modelos de gramática. Referência de Van Valin (GPR).
Gramática de Construções
Butler (2003) as chama de “3 Radical de Croft.
gramáticas estruturais e
funcionais”.

MODELOS DE GRAMÁTICA
GRAMÁTICAS
ESTRUTURAIS-
FUNCIONAIS GSF, GF e GPR são três versões de modelos de
gramática funcionais integrados com conjuntos
explícitos de regras entrelaçadas que podem ser
empregadas para gerar e compreender enunciados.
Tentam dar conta da competência comunicativa e
explicar as motivações que originam estruturas
linguísticas específicas.
GRAMÁTICAS ESTRUTURAIS-FUNCIONAIS

Gramática Sistêmico-Funcional
• A mais diversa das três, Halliday (1985), Matthiessen (1995), Martin (1992), Fawcett (2000) e
inclui um ramo de Gramática Semiótica (McGregor, 1997).

Gramática Funcional
• Também tem uma instanciação cognitiva na forma de Gramática Funcional-Procedural
(Nuyts, 1992, 2001), uma orientada ao léxico, Modelo Lexêmico-Funcional (Faber e
Mairal Usón, 1999), além de diversas variedades discursivas, sendo a mais recente a
Gramática Funcional Discursiva (Hengeveld e Mackenzie, 2008).

Gramática de Papel e Referência


• Não gerou subdivisões internas relevantes.
GRAMÁTICA FUNCIONAL E GRAM. DE PAPEL E REFERÊNCIA

GF GPR
 Engendrou em estudos tipológicos, mais  Surgiu de trabalhos de cruzamentos linguísticos em
notavelmente em partes do discurso e estrutura e estrutura frasal básica, alternância de estruturas de
ordem da locução nominal. argumentos e ligações de orações e da experiência
na descrição de línguas indígenas.
 Exploração de fenômenos gramaticais, como
relações gramaticais, voz, mecanismos de
rastreamento de referenciação, ligação de oração, e
estrutura informacional.

São similares entre si em seu comprometimento com padrões de adequação tipológica.


Empenham-se em adequação psicológica, mas não compreendem bem o fenômeno.
GRAM. SISTÊMICO-FUNCIONAL

 Pouca ambição pela adequação tipológica e psicológica, mas uma busca sistemática pela adequação pragmática.
 Análise de textos reais encontrados em contexto socioculturais reais.
 Dedica-se a mostrar como a organização de textos reais nos níveis lexicogramaticais e semântico-discursivos se
relaciona às diferentes metafunções da linguagem (ideacional, interpessoal, e textual).
 Particularmente influentes são as pesquisas de coesão textual e como os textos estão ligados ao contexto
situacional de uso, gerando uma visão mais semântica de registros e de gêneros.
1) A natureza da relação entre os níveis semântico,
sintático, morfológico, lexical e prosódico de padrões
linguísticos.
2) Os tipos de mecanismos empregados por estrutura
QUATRO frasal específica.

PONTOS ENTRE 3) O número e natureza das camadas ou níveis de


estrutura frasal proposta.
GF, GSF E GPR 4) O escopo das funções semântica, sintática, e
pragmática reconhecidas.

(Butler, 2003, cap. 6)


GSF GF e GPR
1) A NATUREZA
DA RELAÇÃO • Não distingue entre léxico e
gramática.
• Visão tradicional de léxico
como inventário de lexemas
ENTRE OS NÍVEIS • Reconhece apenas um nível verbais, nominais, adjetivais e
semântico superior específico. adverbiais, enriquecidos com
SEMÂNTICO, • Estrutura frasal: itens lexicais unidades prefabricadas,
SINTÁTICO, são output e não input do expressões idiomáticas,
processo de produção, que cumprimentos, exclamações e
MORFOLÓGICO, envolve padrões tal.
paradigmáticos interligados. • Distinguem semântica de
LEXICAL E morfossintaxe e postulam um
PROSÓDICO DE nível de organização
pragmática.
PADRÕES • Estrutura frasal: deriva das
propriedades dos predicados
LINGUÍSTICOS. e seus argumentos.
1) A NATUREZA Não reconhecem um nível distintivo de representação
sintática.
DA RELAÇÃO GSF e GSF: morfossintaxe é um conjunto de regras de
ENTRE OS NÍVEIS GF realização, aplicadas ao output de do processo de seleção.
GF: morfossintaxe é um conjunto de regras de expressão,
SEMÂNTICO, aplicadas à representação essencialmente semântica.
SINTÁTICO,
MORFOLÓGICO,
LEXICAL E “Em contraste, representações semânticas são conectadas
com templates sintáticos (na forma de marcadores
PROSÓDICO DE GPR frasais) por um série de regras de conexão que diferem
PADRÕES dependendo se o mapeamento ocorre da semântica para
a sintaxe ou vice versa.”
LINGUÍSTICOS.
GPR GF GSF

• Camadas são • Na camada • Camadas


distinções entre representacional metafuncionais
ESTRUTURA unidades sintáticas
(núcleo vs principal
mais baixa, distingue
uma camada
ideacional,
interpessoal e
ORACIONAL É vs periférico). predicada e uma textual.
• Camadas são predicacional, e no • Camadas existem
MULTICAMADA organizadas nível interpessoal, em paralelo.
hierarquicamente (a uma proposicional e
mais alta incluindo a uma ilocucionária.
mais baixa). • Camadas são
organizadas
hierarquicamente (a
mais alta incluindo a
mais baixa).
GSF Coexistem no nível lexicogramatical.

FUNÇÕES
SINTÁTICA, Funções semânticas são previsíveis pelas posições de

SEMÂNTICA E
GPR argumentos na estrutura lógica. Funções pragmáticas são
apenas foco e tópico.

PRAGMÁTICA

GF Funções semânticas são atribuídas (relativas à situação).


Várias subdivisões nos tipos de funções.
GRAMÁTICA FUNCIONAL DISCURSIVA (GFD)

Modificou a arquitetura da GF:


 orientação de cima pra baixo;
 adição de componentes conceptuais (1) e contextuais (2) ao componente gramatical;
 (1) O local da intenção comunicativa e sua representação mental correspondente
 (2) Interage com as estruturas interpessoais, representacionais e morfossintáticas das unidades linguísticas, permitindo fazer
referência subsequente a vários tipos de entidades à medida que são introduzidas ao discurso.
 e, dentro do componente gramatical, uma camada interpessoal expandida refletindo uma gama maior de tipos de
enunciados.
A CAMADA INTERPESSOAL EXPANDIDA

 “Captura aspectos linguisticamente relevantes da interação entre o falante e seu interlocutor na forma de uma
hierarquia de unidades discursivas, sendo o nível mais alto o movimento que pode consistir de vários atos
temporalmente ordenados, que por sua vez contem vários conteúdos temporalmente ordenados, e esses podem
figurar múltiplos sub-atos de atribuição ou referência.”
 GFD tem como unidade básica de descrição gramatical o ato, e não a oração. É, portanto, o ato que está
incorporado em um dos 3 tipos de frames (ilocutivo, interpelativo, e expressivo), cada qual tendo seus
modificadores e operadores correspondentes e seus sub-atos aos quais são atribuídos funções pragmáticas.
 A estrutura interpessoal então sustenta a representacional, que corresponde mais ou menos à da GF.
TIPOLOGIA DE SENTENÇAS COMPLEXAS

Unidades envolvidas na formação de


Combinação de orações sentenças complexas
 GF: distingue a coordenação tradicional e embedding  GF, GFD e GPR: caracterização próxima da estrutura
da oração hierarquicamente sobreposta (em
 GPR: coordenação, subordinação e co-subordinação
camadas)
 GSF: embedding, parataxis e hypotaxis, assim como
 GF e GFD: complementos podem ser de tipos
relações lógico-semânticas de expansão e projeção.
predicacionais, proposicionais e oracionais
 GPR: complementos podem ser de núcleo, core e de
oração.
GRAMÁTICAS
COGNITIVAS
GRAMÁTICA COGNITIVA DE
LANGACKER (GC)
GRAMÁTICA COGNITIVA DE
CONSTRUÇÕES DE GOLDBERG
(GCC)
GRAMÁTICA RADICAL DE
CONSTRUÇÕES DE CROFT (GRC)
EM COMUM

1. Todos consideram construções, concebidas como unidades simbólicas, em vez de regras, como objetos primários
das descrições linguísticas.
 Construção é uma unidade simbólica convencional, ou seja, uma rotina enraizada envolvendo um pareamento forma-
significado convencionalizado dentro de uma comunidade de fala.
2. Pressuposição de que a estrutura linguística pode ser exaustivamente descrita em termos de construções.
 Exemplo de Uma dúzia de rosas, Nina enviou à mãe! 11 construções: ditransitiva; topicalização; locução verbal; locução
nominal; determinante indefinido; plural; dúzia, rosa, Nina, enviar, mãe.
 Construções variam em tamanho, complexidade e esquematicidade (riqueza de detalhes).
3. Adoção de um continuum sintático-lexical.
 Não há base para distinção entre unidades gramaticais e lexicais.
EM COMUM

4. Construções formam um inventário estrutural ou rede taxonômica que representa tipos diferentes de
conhecimento do falante da língua.
5. Os modelos permitem ligações parte-todo, extensões prototípicas e extensões metafóricas.
6. Permitem também a armazenagem redundante da taxonomia construcional.
 A mesma informação armazenada diversas vezes em diferentes níveis de esquematicidade.
 O armazenamento redundante está ligado a níveis de ativação e de frequência de uso das construções (Modelo baseado no
uso, cunhado por Langacker).
DIVERGÊNCIAS

 GC: toda o conhecimento linguístico (semântico, pragmático, funcional-discursivo, e estrutural) é conceptual em sua
natureza. Por consequência, os construtos gramaticais e categorias recebem uma redefinição conceptual.
 GRC: não reconhece relações primitivas ou categorias que não sejam construções.
 GCC e GC: sujeito e objeto são postulados como atômicos primitivos, enquanto em GRC: sujeito não existe fora da
construção.
 Estrutura das construções é estritamente meronômica, não há relação sintática.
 Consequência: formas de codificação (ex. marcadores de concordância) são interpretados pela GRC como codificação de
relações simbólicas, ou seja, indicam como um elemento sintático se encaixa na interpretação semântica de dada construção ou
como ele contribui para a identificação da construção.
 GRC: não há tipos de construções universais; todas as construções são específicas da língua.
 Pode haver comparação e mapeamentos de cruzamentos linguísticos.
DIVERGÊNCIAS

 GRC: partiu de uma tentativa de fornecer uma tipologia válida de partes do discurso, relações gramaticais e o
fenômeno da voz, e mais recentemente estendeu para o domínio de padrões de estrutura argumentativa,
aspectualidade e papeis semânticos.
 GCC: partiu do estabelecimento de relações de categorização entre construções, principalmente com relações
estruturais argumentativas, na construção ditransitiva do Inglês.
 GC: concentrou em estabelecer uma semântica conceptual para categorias gramaticais e relações e desenvolver
análises da uma grande quantidade de processos de conceptualização como perfilamento, grounding, zona ativa,
ponto de referência, scanning e subjetificação.
CRÍTICAS

 Abordagens cognitivas da gramática se dizem fundamentalmente baseadas no uso, mas não demonstram interesse
no evento de uso: não há tentativas de modelar as dinâmicas da interação falante-ouvinte, muito menos
considerar diferentes tipos de textos e discursos.
 São fracas em respeito à adequação pragmática.
 LC deveria estar mais amarrada à psicologia cognitiva, a experimentos empíricos e abordagens neurais, a estudos
baseados em corpus.
UNIFICANDO GRAMÁTICA FUNCIONAL E COGNITIVA

 Gramáticas funcionais são essencialmente orientadas ao processo, enquanto as gramáticas cognitivas são baseadas
em construções.
 Nuyts (2008): a orientação ao processo das gramáticas funcionais faz com que sejam mais adequadas que
gramáticas baseadas em construções para capturar o dinamismo do uso da língua.
 Argumenta que a comunicação é uma complexa atividade de resolução de problemas que requer adaptação por parte do
falante a circunstâncias novas e variáveis, e por isso que “codificar significados conceptuais em formas linguísticas não é um
processo óbvio em si mesmo, mas algo que precisa ser trabalhado de maneira dinâmica, repetidamente.” Segundo ele,
gramáticas funcionais estariam mais sensíveis aos fatores conceptuais e contextuais, estando assim mais perto da
flexibilidade inerente à fala, enquanto gramáticas de construções seriam mais estáticas em relação ao processo de
comunicação.
 Van Valin sugere que, enquanto falantes operam dentro de um sistema projecionista ao mapear significado à forma,
ouvintes operariam em de maneira construcionista, com a compreensão requerendo co-composição.
UNIFICANDO GRAMÁTICA FUNCIONAL E COGNITIVA

 Modelo Lexical Construcional de Gramática (Marial Usón e Faber, 2007) e Gramática Procedural Funcional
(Nuyts, 2001): combinam insights funcionalistas e cognitivistas, especialmente na área de semântica e pragmática
das relações predicado-argumento.
 Necessário: comprometimento de refletir a função comunicativa da língua na gramática, considerando fatores
discursivos, contextuais e conceptuais.