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EDITORIAL

a

FOMe e Falta de teRRa

SUMÁRIO
Abril 2005/03

morte de crianças indígenas Guarani-Kaiowás em Dourados, Mato Grosso do Sul, por causa da desnutrição, ganhou destaque na grande imprensa. O enfoque do problema está sendo distorcido, pois parece que ao “dar comida” aos índios, ele será resolvido. Essa atitude faz parecer que os Kaiowás são objetos de caridade que precisam ser tratados com projetos paternalistas. Em nota divulgada no dia 5 de março de 2005, lideranças da Comissão de Direitos Indígenas Guarani-Kaiowás daquele Estado, afirmam se sentirem indignadas por não serem ouvidas e respeitadas em seus direitos e explicam a verdadeira causa das mortes. “Na raiz desta situação está a falta de terra, que é conseqüência da história de roubo e destruição dos nossos territórios tradicionais, da política de confinamento, da perda de nossa liberdade e até da perda da vontade de viver. Aqui no Mato Grosso do Sul, nós indígenas, fomos sendo expulsos de nossas terras, assassinados para a entrada de gado e, depois, de grandes plantações monocultoras, como a soja. Foi um processo de violência contra as pessoas e contra as nossas formas de vida. As matas onde podíamos caçar foram destruídas pelos madeireiros e os tratores dos fazendeiros. Era lá que podíamos coletar alimentos como as frutas, o mel e a matéria-prima para fazer nossas casas e utensílios”. A falta de terra gera dificuldades para a produção de alimentos em áreas já degradadas, e a falta de políticas públicas de apoio à produção gera dificuldades para o aproveitamento das poucas terras disponíveis. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), na terra indígena Dourados, onde estão concentrados os casos de mortes por desnutrição, vivem cerca de 11 mil indígenas em 3.500 hectares. Sem perspectivas de vida, cresce o alcoolismo e, a partir dos anos 90, aumentaram também as taxas de suicídio. Como vemos, as mortes e a desnutrição são resultado de muitos fatores, o principal dentre eles, a perda da terra. Uma outra forma de desviar a atenção é fazer acreditar que o problema é cultural. Mais uma vez os líderes explicam: “também não se pode dizer que a responsabilidade das mortes é a nossa cultura. As soluções vão muito além da distribuição de alimentos e de cestas básicas. Nós éramos um povo livre que vivia com fartura. Hoje vivemos dependendo do assistencialismo do governo”. Portanto, não é difícil perceber que o povo Guarani-Kaiowá, bem como todos os povos indígenas deste país, precisam acima de tudo, de respeito e justiça. É lamentável que a questão da terra ainda não tenha sido incluída nas medidas anunciadas pelo governo federal para combater a mortalidade infantil em Dourados. A Semana dos Povos Indígenas, realizada anualmente pelo CIMI durante o mês de abril, tem como tema este ano “Paz, Solidariedade e Reciprocidade nas Relações”, em sintonia com a Campanha da Fraternidade. É um convite para que a sociedade brasileira reflita e se informe melhor sobre a realidade atual dos povos indígenas e a necessidade de cultivarmos valores como a solidariedade e reciprocidade nas relações entre pessoas, famílias, comunidades e povos. Isso começa pela questão da demarcação e homologação das terras indígenas, condição primeira para o exercício do respeito à diversidade étnica e vida plena para todos. 

Trigo e uva se transformam em pão e vinho (Eucaristia), símbolo da missão evangelizadora e profética da Igreja.
Foto: Corrado Dalmonego

 MURAL DO LEITOR -------------------------------------04
Cartas

 OPINIÃO -------------------------------------------------05
O mercado e o trabalhador Humberto Dantas / Antonia Carrara e Manuel de Souza Impossível colecionar todas as conchas Rosa Clara Franzoi Notícias do Mundo Fides / Zenit

Divulgação

 PRÓ-VOCAÇÕES ---------------------------------------07  VOLTA AO MUNDO------------------------------------08  ESPIRITUALIDADE ---------------------------------------10
A morte foi morta, a vida vive Salvador Medina Superávit e Déficit Alfredo J. Gonçalves

 CIDADANIA ----------------------------------------------12  TESTEMUNhO ------------------------------------------13
A loucura do amor Marcela Sena Souza

 TESTEMUNhO ------------------------------------------14
Cativada pela simplicidade Maria Esperanza Becerra Medina A Missão dos Leigos II Luiz Balsan e Lírio Girardi

 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA ---------------------------15  hISTÓRIA DA MISSÃO ---------------------------------19
Pequeno rebanho na Mongólia Francisco Lerma Martínez

 DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
Evangelização e Profetismo na Igreja hoje Antônio Valentini Neto Tempo de Capítulo Geral Michelangelo Piovano e Maria Costa

 ATUALIDADE ---------------------------------------------22  INFÂNCIA MISSIONÁRIA ------------------------------24
Com alegria construiremos teu Reino Roseane de Araújo Silva O que os jovens pensam de si Carlos Eduardo da Silva (Dudu)

 CONEXÃO JOVEM -------------------------------------25  ENTREVISTA ----------------------------------------------26
De mãos dadas com os povos indígenas Emerson Quaresma, Francimar Rodrigues e Ivan Brito Macunaíma: vivo até o último índio Joaquim Gonçalves Notícias do Brasil Adital / Cimi / CNBB / Desarme.org

 AMAZÔNIA ----------------------------------------------28  VOLTA AO BRASIL --------------------------------------30

Missões - Abril 2005

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Mural do Leitor
Ano XXXII no

03 AbrIl 2005

28ª Romaria da Terra

Diretor: Jaime Carlos Patias Editor: Maria Emerenciana Raia Equipe de Redação: Joaquim F. Gonçalves, Cristina Ribeiro Silva e Rosa Clara Franzoi Colaboradores: Alfredo J. Gonçalves, Vitor Hugo Gerhard, Lírio Girardi, Luiz Balsan, Salvador Medina, Michelangelo Piovano, Júlio César, Marinei Ferrari, Roseane Araujo Agências: Adital, Adista, CIMI, CNBB, Dom Hélder, IPS, MISNA, Pulsar, Vaticano Diagramação e Arte: Cleber P Pires . Jornalista responsável: Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) Administração: Eugênio Butti Sociedade responsável: Instituto Missões Consolata (CNPJ 60.915.477/0001-29) Impressão: Editora Parma (11) 6462.4020 Colaboração anual: R$ 35,00
AG: 545-2 CC: 38163-2 - BRADESCO Soc. Missionários de N.S. Consoladora (a publicação anual de Missões é de 10 números)

MISSõES é produzida pelos Missionários da Consolata Fone: (11) 6256.7599 Missionários da Consolata Rua Josimo de Alencar Macedo, 413 Cx.P 207 - 69301-970 Boa Vista/RR . Fone: (95) 224.4109 Membro da PREMLA (Federação de
Imprensa Missionária Latino-Americana)

Rua Dom Domingos de Silos, 110 02526-030 - São Paulo Fone/Fax: (11) 6256.8820 Site: www.revistamissoes.org.br E-mail: redacao@revistamissoes.org.br

Redação

A Romaria da Terra é um momento forte na Igreja do Rio Grande do Sul e um espaço privilegiado de conscientização popular, de participação e troca de experiência entre os romeiros e romeiras de todo o Estado. Sem dúvida, é um lugar de fortalecimento de fé na defesa da Mãe Terra e de seus filhos e filhas. A 28ª Romaria convidou a refletir sobre o tema “nossas sementes, nossas raízes, nossa vida”, cujo sentido nos remete à origem e à essência da vida, já que proporcionam o alimento. Cada povo que preserva sua semente preserva sua cultura, e ao mesmo tempo valoriza sua vida e fortalece suas raízes... A Romaria recorda a importância das comunidades e das pastorais sociais; surgem grupos de projetos alternativos e movimentos sociais, como o profetismo da CPT (Comissão Pastoral da Terra). A 28ª Romaria da Terra aconteceu na comunidade de Linha Sítio, município de Cruzeiro do Sul, no dia 8 de fevereiro, terça-feira de Carnaval e reuniu cerca de 20.000 romeiros e romeiras do RS e de alguns outros Estados. O município é marcado por pequenas propriedades familiares, como na maioria do centro-norte da Diocese. “Já no sul, além dos pequenos agricultores há também o latifúndio” (cfr. dom Sinésio Bohn na apresentação Texto Base da CF/2005). Romeiros e romeiras foram chegando aos milhares, desde o amanhecer (como foi o caso de Três de Maio – 1ª delegação a chegar ao local) sendo acolhidos calorosamente pelos anfitriões. Por volta das 9h00, os romeiros com sementes nas mãos, iniciaram a celebração ecumênica, coordenados pelos representantes das Igrejas que integram o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs). O destaque inicial foi dado aos elementos da natureza: água, ar, terra, fogo, e a responsabilidade do ser

humano de retornar o equilíbrio da ordem natural. Prosseguiu-se em caminhada por três quilômetros, ao longo de pequenas propriedades, sob intenso calor. A Romaria foi concluída com uma celebração Eucarística Ecumênica, com muitas sementes, produtos da terra e do trabalho artesanal do povo daquela região (sucos, frutas, pães, cucas, rapadura, doces, biscoitos, e peças artesanais das mais diversas culturas: afro, indígena, alemã, italiana, polonesa etc.). Na parte da tarde, houve a Tribuna, com apresentações das diferentes etnias e culturas presentes e personalidades destacando o tema da Romaria e chamando para ações concretas de luta pela dignidade humana e vida no Planeta Terra. Finalizou-se o evento com o envio dos romeiros com sementes e a abertura da CF-2005, feita pelos Representantes do CONIC, de forma profundamente significativa. Se o calor do sol foi marcante, acredito que o calor da fé tenha sido maior, como sinal de presença de um povo que caminha, reza, toma consciência, se fortalece, luta por vida digna e valores essenciais. Teresinha Turra Rocinha, Três de Maio, RS.

Correção A capital da Tanzânia é Dodoma, e não Dares-Salam, conforme publicamos na página 14 da edição número 2, março de 2005.
Abril 2005 - Missões

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O mercadO e o trabalhador
de Humberto Dantas

O

governo acredita ter motivos de sobra para comemorar o crescimento econômico no Brasil. A despeito das instituições especializadas estimarem taxas próximas aos 4% e a equipe econômica divulgar que o país vai superar os cinco pontos percentuais, o certo é que apontamos para o crescimento. O motivo de tais resultados é explicado, sobretudo, pelo sucesso das exportações. O Brasil tem ocupado espaço marcante na pauta de importações de inúmeros países e liderado o comércio mundial de alguns produtos, principalmente no setor do agronegócio. Mas o que tudo isso significa para a realidade do trabalhador? Efetivamente, ainda, muito pouco. O conceito de crescimento econômico está diretamente relacionado ao aumento contínuo da renda per capita dos indivíduos. Nesse caso, como esse indicador é composto por uma média, nada indica que toda a sociedade está ganhando mais. O crescimento pode, inclusive, representar o agravamento da desigualdade.

Além disso, o histórico ímpeto dos governos de elevar a carga tributária ameaça a capacidade do país expandir ainda mais sua produção e participação no mercado internacional. Para completar, as maiores taxas de juros do mundo se concentram no Brasil, o que também prejudica o setor produtivo. O que seria capaz de alterar essa leitura pessimista de uma realidade tão comemorada? A transformação do louvado crescimento econômico do país para desenvolvimento econômico. A diferença principal entre os conceitos é explicada pela Ciência Econômica. Enquanto o primeiro tem relação direta com indicadores
Cleber P. Pires

quantitativos – aumento da renda – o segundo tem um significado mais qualitativo, marcado por melhorias significativas em indicadores de bem-estar social como diminuição da pobreza, da desigualdade e acesso aos direitos sociais. Nesse caso, o único motivo que nos leva a comemorar o Dia do Trabalho é a diminuição contínua, nos últimos meses, das taxas de desemprego. Mas o que poderia representar um passo no caminho do desenvolvimento também deve ser visto com ressalvas. Isso porque, ao mesmo tempo que as vagas se abrem num ritmo superior àquelas que se fecham, a média das remunerações caem. A diminuição nos vencimentos dos trabalhadores é resultado das altas taxas de desemprego. Tudo indica que os cidadãos estão se submetendo a salários menores em nome de uma colocação no mercado. Dessa forma, o crescimento econômico não responde por um suposto desenvolvimento, uma vez que o brasileiro não deseja apenas trabalho e sim emprego com dignidade. 

Humberto Dantas é cientista político, professor do Centro Universitário São Camilo, assessor da Pastoral Fé e Política da Região Episcopal Lapa e colunista de O São Paulo.

de Antonia Carrara e Manuel Rodrigues de Souza Junior

É

utópico falar em benefícios para a classe trabalhadora dentro de um sistema que propicia abundante e crescente desigualdade econômica, ou seja, será muito difícil que os trabalhadores obtenham melhorias de vida consideráveis enquanto viverem regidos pelo sistema capitalista. Ao sermos questionados sobre os benefícios da classe trabalhadora, olhamos também para o outro lado da sociedade, o lado dos reais beneficiados. Sendo assim, tomemos logo o extremo, por exemplo: os bancos. No final de fevereiro, os jornais trouxeram grandes manchetes sobre os lucros das instituições financeiras. O Itaú apareceu com o maior lucro da história, registrando rentabilidade de 27% em 2004, resultado bem maior do que o de grandes bancos internacionais, como o ABN Amro Bank, holandês, (24%) e o americano Bank of America (23%). Isto só para citar um caso. Se a classe trabalhadora acompanhasse essa evolução, certamente estaria em merecida situação favorável. Acontece que as coisas não

José Wilson Soares de Carvalho, trabalhador da construção civil.
são assim. Pelo contrário, enquanto o setor financeiro teve esse crescimento monstruoso, a vida dos trabalhadores mudou tão pouco, que as melhorias tornam-se imperceptíveis... Portanto vejamos: o mercado de trabalho evoluiu, a taxa de desemprego caiu de fato para 9,6% (em seis regiões metropolitanas) em dezembro passado, a mais baixa desde 2002. No entanto, economistas afirmam que há dados preocupantes que mostram dificuldades no mercado de trabalho. Traduzimos essas preocupações como o fato do desemprego continuar muito elevado, além de sabermos que é estrutural. Há um crescimento nas contratações. No entanto, constatou-se que em algumas regiões, como no ABC paulista, por exemplo, elas são temporárias (geralmente emprego só por um ano). Além disso, apurou-se que pelo menos 61% das pessoas ocupadas em dezembro de 2004, estavam na verdade, subocupadas

e sub-remuneradas, trabalhavam por conta própria ou, ainda, estavam contratadas sem carteira assinada. A indagação que fazemos: com que custo social tem ocorrido esse crescimento econômico? No atual sistema, desenvolvimento econômico nunca foi sinônimo de aumento de novos empregos. Principalmente diante da crise estrutural pela qual passa o capitalismo, que vem alardeando em todo planeta a extinção de certas formas de trabalho. A Pastoral Operária acredita na resistência e na capacidade transformadora da classe trabalhadora, que sempre em momentos difíceis da história, soube construir novos caminhos. Neste momento de crise estrutural, a inquietude dos trabalhadores se manifesta na Articulação Nacional do Movimento dos Desempregados, com várias iniciativas conjuntas em todo país. Como também as novas formas de emprego que surgiram nas experiências de economia solidária, possibilitando uma nova cultura do trabalho, como fonte da realização da pessoa humana. 

Antonia Carrara e Manuel Rodrigues de Souza Junior são membros da coordenação Nacional da Pastoral Operária.

Missões - Abril 2005

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OPINIÃO

1º Congresso Missionário Interinstitucional
de Estêvão Raschietti

Desde sempre as religiosas e religiosos foram os protagonistas quase exclusivos da missão alémfronteiras, dentro e fora do Brasil.

O
Jaime C. Patias

debate em torno da missão Ad Gentes, alimentado pelos recentes Congressos Missionários Nacional e Americano, fez a Igreja do Brasil refletir, avançar e abrir novos caminhos na dimensão universal da missão. Estamos num processo de assumir cada vez mais o compromisso de viver, testemunhar e anunciar o Evangelho além de todas as fronteiras. Há dois anos o 1º Congresso Missionário Nacional firmava algumas metas para a caminhada missionária, como a fundamentação da missão na gratuidade evangélica, o protagonismo dos pobres, o trabalho em comunidade e a exigência de elaborar projetos de ação e animação missionária.

Católica uma época de transição de uma cristandade fechada e autocomplacente para uma Igreja aberta, mundial e missionária. Fazer memória do Vaticano II não representa um saudosismo facultativo, mas diz respeito à retomada ousada de um compromisso essencial dos cristãos diante do mundo de hoje. Particularmente, o documento do Concílio Vaticano II “sobre a atividade missionária da Igreja” lembra que essa última é missionária por natureza (cf. AG 2). Conseqüentemente, para as religiosas e os religiosos consagrados, a Missão não é algo optativo, mas constitui sua própria identidade. Retomar o Decreto Ad Gentes significa, portanto, reassumir um jeito de ser (quem somos), uma ética (como somos) e um projeto missionário (o que fazemos) como essência para a Vida Consagrada. Trata-se de repensar esse estado de vida fundamentalmente a partir da missão e de seus desafios. Nesse sentido pensou-se na realização de um Congresso Missionário Interinstitucional que pudesse representar, para as Congregações comprometidas com a missão além-fronteiras, um momento de encontro, de oração, de estudo, de reflexão, de partilha e de articulação, em vista de celebrar, retomar e propor âmbitos comuns de ação e animação missionária na Igreja no Brasil.  Estevão Raschietti é sacerdote xaveriano, diretor do Centro Xaveriano de Animação Missionária.

A missão Ad Gentes foi tema de discussão durante o Comla7-Cam2.

Nesse contexto, a Vida Consagrada tem um papel específico no interior das Igrejas locais. É chamada a despertar novamente seu papel profético de “se dedicar totalmente à missão” (cf. VC 72), deixando-se interpelar pela Palavra e pelos sinais dos tempos (cf. VC 81), redescobrindo sua identidade na força do testemunho (cf. VC 76) e no valor da fraternidade universal (cf. VC 51), abrindo caminhos para novos projetos históricos de presença e de ação em todos os cantos da terra (cf. VC 78). Desde sempre as religiosas e os religiosos foram os protagonistas quase exclusivos da missão além-fronteiras, dentro e fora do Brasil. Atualmente, são cerca de 1,8 mil as missionárias e os missionários brasileiros espalhados pelo mundo afora, dos quais 98% são religiosos e 80% desse total é representado por religiosas. Contudo, não se pode fechar os olhos diante da mudança de época que estamos vivendo. A progressiva diminuição quantitativa de religiosos e religiosas, de sua presença missionária no mundo não se deve tornar uma diminuição qualitativa. Onde está a relevância da Vida Consagrada dentro da nova realidade mundial? A celebração dos 40 anos do Concílio Vaticano II vem ao encontro desse anseio. Este evento inaugurou para a Igreja

TEMA: RELEITURA DO DECRETO AD GENTES APÓS 40 ANOS DO VATICANO II Novos impulsos e imperativos para a vida religiosa LOCAL: Centro Educativo e deAssistência Social La Salle (Ceaslas) Rua Santo Alexandre, 21 Vila Guilhermina – São Paulo, SP DATA: 21 a 23 de abril de 2005 PARTICIPANTES: representantes (articuladores) de congregações missionárias que têm algum compromisso com a Missão Ad Gentes e que enviam missionários ou missionárias para outros países. OBJETIVO: animar a vida dos Institutos e das Congregações missionárias para que, a partir dos imperativos do Vaticano II, possam delinear metas para uma nova ética e para projetos de ação e animação missionária na Igreja no Brasil. Tel.: (11) 5572-2016 E-mail: alemfronteiras@terra.com.br Abril 2005 - Missões

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IMpossíveL CoLeCIonar
todas as conchas
de Rosa Clara Franzoi

não pretenda que com uma vida desorganizada, o espírito de Deus lhe mostre o caminho.

A

lice, estudante de astrofísica, queria passar umas férias diferentes. Os amigos lhe sugeriam lugares pitorescos, onde além de descansar, pudesse saciar sua sede de novidades. Contrariando a todos, ela decidiu passar suas férias numa ilha semi-deserta e lá se foi com sua inseparável mochila. Coisas de jovem, disseram os pais. Assim que chegou à ilha, Alice foi tomada por uma grande ansiedade: “catar conchinhas”. Foi enchendo os bolsos, a mochila... Uma espécie de “viseira” lhe impedia de ver o restante das belezas do lugar. No apartamento que alugara, bem depressa as prateleiras da estante e os peitoris das janelas ficaram cobertos de conchas de todos os tamanhos e cores. Porém, passados alguns dias, ela caiu em si. Convenceu-se que seria impossível colecionar todas as conchas da praia e tomou uma decisão: iria selecioná-las. Tarefa extremamente difícil, pois todas eram lindas. Mas, Alice era inteligente e decidida. De todas aquelas conchas, ficou com apenas algumas, devolvendo à praia as demais. E o que aconteceu? Justamente por serem poucas, Alice podia agora dedicar a elas mais tempo e carinho e tinha a impressão que, a cada dia, iam ficando mais bonitas. E não só isso: ela tinha tempo e espaço para descobrir que a ilha estava repleta de outras tantas maravilhas que prendiam sua atenção e enchiam seus olhos de encanto.

O excesso de “conchas” nos prejudica

Quer ser um missionário/a?
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui 02611-011 - São Paulo - SP Tel. (11) 6231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br

Centro Missionário “José Allamano” - Pe. Joaquim Gonçalves

Rua Itá, 381 - Pedra Branca 02636-030 - São Paulo - SP Tel. (11) 6232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br

Missionários da Consolata - Pe. César Avellaneda

Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 69072-970 - Manaus - AM Tel. (92) 624-3044 - E-mail: imcmanaus@manausnet.com.br

A beleza só aparece e floresce quando sabemos dedicar-lhe tempo e dar-lhe espaço e atenção.Veja, os próprios eventos, objetos e até pessoas se tornam únicos, belos e significativos quando temos o espaço e o tempo para curti-los. Não percebemos o perigo que corremos hoje, com a frenética agitação que nos envolve. O nosso tempo e espaço é todo tomado e preenchido. São tão poucas as páginas da nossa agenda que ficaram em branco e as horas vagas do nosso dia! São tarefas demais, pessoas demais, coisas demais... É simplesmente impossível para um ser humano, nesta situação tumultuada, encontrar-se serenamente consigo mesmo, com as pessoas, com Deus, ter uma vida organizada e descobrir o seu futuro com visão e responsabilidade. Com certeza, Alice poderá se esquecer daquelas férias, mas jamais esquecerá a lição que levou para a sua vida. A experiência da ilha lhe possibilitou uma importante descoberta: a necessidade de ter tempo e espaço para recompor o seu interior, encontrarse consigo mesma, com a natureza e traçar um norte certo para a sua vida. Entendido isto, apenas algumas conchas lhe bastavam. É que ela soube parar e rever, selecionar e priorizar. É uma realidade. Não podemos estar metidos em tudo, fazer mil coisas, assumir mil compromissos, algumas vezes só para mostrar que somos eficientes. O prestígio e a fama duram tão pouco...! Alguém poderá se justificar dizendo que o que faz é “muito importante”. Lembre-se porém, que é grande sabedoria e sensatez ter uma escala de valores e a ela dedicar o tempo e o espaço necessários para o desenvolvimento total. A qualidade deverá sempre prevalecer sobre a quantidade. Talvez realizaremos menos coisas, mas, com qualidade. O que vale a pena! Para cada coisa, há a hora certa. É a própria Bíblia que nos diz. Sugiro a leitura do capítulo 3 do Livro do Eclesiastes.  Rosa Clara Franzoi é irmã missionária e animadora vocacional.

Missões - Abril 2005

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Divulgação

pró-vocações

sempre mais ativos na nova evangelização. Foram decididos dois seminários de formação, em 23 e 24 de abril, e 23 e 24 de junho, enquanto se estabelecerá uma cooperação mais estreita com as comissões diocesanas, para harmonizar iniciativas e intenções.

Paquistão Mulheres cristãs, prontas ao corajoso anúncio do Evangelho
O anúncio do Evangelho e a pregação da Boa Nova não podem ser privilégio exclusivo de sacerdotes e religiosos: as mulheres cristãs devem estar prontas para o corajoso anúncio do Evangelho da Salvação. É o que se afirmou em um recente seminário, em Lahore, no Paquistão, organizado por organismos católicos e protestantes, como o Catholic Woman Association (CWA) e a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Lahore. Durante o seminário, que reuniu mais de mil mulheres religiosas e leigas de diversas confissões cristãs, foram enfrentados temas relativos ao papel da mulher na sociedade paquistanesa e na comunidade cristã.

Colômbia Conferência Geral do CELAM

VOLTA AO MUNDO

De 8 a 10 de março, na sede da Conferência Episcopal da Colômbia, ocorreu a reunião de secretários gerais das conferências episcopais da América Latina e Caribe, em preparação para a V Conferência Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). O encontro, previsto para o ano 2007, deverá ser celebrado em Roma com o lema “Discípulos de Jesus Cristo na Igreja Católica para a nova evangelização da América Latina e Caribe ao início do terceiro milênio”.

RD Congo Exortação dos bispos aos religiosos
“A vida consagrada constitui hoje uma realidade concreta para o Congo. Segundo as estatísticas de 2004, os religiosos e as religiosas no nosso país são 11 mil, em uma população de mais de 50 milhões de habitantes, dos quais a metade católicos. Sua presença, portanto, constitui um dom para a Igreja”. Esta é a declaração do padre Léon Ngoy Kalumba, jesuíta, Secretário da Comissão Episcopal para os religiosos na República Democrática do Congo, por ocasião da publicação da exortação dos bispos congoleses, intitulada “Irmãos e irmãs consagrados, despertem! Façam-se ao largo” (Lc 5,4). Kalumba destacou que a sociedade congolesa atravessa uma crise que atinge também a vida consagrada. Por isso, destaca, os bispos congoleses escreveram a exortação para
Da Casa Madre

Grécia Conferência Ecumênica Mundial
“Oferecer a cristãos e Igrejas um fórum para a troca de experiências e a reflexão sobre as prioridades da missão e o futuro do testemunho cristão, em sinal da reconciliação entre as Igrejas. Promover entre os participantes o compromisso de serem multiplicadores da reconciliação dentro das próprias Igrejas, comunidades e contextos”. Esses são dois dos objetivos da Conferência Ecumênica Mundial sobre “Missão e Evangelização”, organizada pelo Conselho Mundial das Igrejas (CMI), com o tema “Venha Espírito Santo, cure e reconcilie!”, agendada para o mês de maio, em Atenas (Grécia). O tema foi escolhido justamente para recordar que a missão não pertence a nós. Deus, através do Espírito Santo, está presente e atua na Igreja e no mundo. Participarão do evento mais de 500 delegados de todos os continentes e de todas as grandes Igrejas e confissões religiosas, membros do Conselho Ecumênico das Igrejas, representantes das igrejas e denominações pentecostais, evangélicas e da Igreja Católica Romana.

Coréia do Sul Leigos, protagonistas da nova evangelização

Procissão Mariana em Wamba, RD Congo.

É composta por 13 membros ativos, com encargo trienal, e inclui sacerdotes, religiosos, leigos e leigas a Comissão para o Apostolado dos Leigos, que atua junto à Conferência Episcopal da Coréia. A Comissão reuniu-se para estabelecer iniciativas e estratégias, com o objetivo de tornar os leigos da Igreja coreana

afirmar o valor da vida à luz dos ensinamentos do Evangelho, agradecer aos religiosos e às religiosas por aquilo que representam para a Igreja congolesa, mas também para encorajá-los a enfrentar os desafios multiformes dos dias de hoje. 

Fontes: Fides, Zenit
Abril 2005 - Missões

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INTENÇÃO MISSIONÁRIA
Para que as comunidades cristãs, movidas pelo anseio de santidade, despertem numerosas e autênticas vocações missionárias.
de Vitor Hugo Gerhard
Jaime C. Patias

N

unca como nos tempos de hoje a humanidade teve tanta sede e fome de santidade. Jamais se viu um movimento tão forte, tão disseminado e avassalador em busca do espiritual e do místico. Mesmo que os mais céticos discordem desta afirmação, continuo a defendê-la, pelas seguintes razões: a) os novos movimentos religiosos autônomos, denominados por muitos nomes; b) a facilidade com que se reúnem multidões para as mais variadas celebrações; c) o florescimento dos movimentos apostólicos dentro da Igreja Católica; d) o crescimento numérico das comunidades cristãs nos continentes da África e Ásia; e) os sinais de vitalidade e martírio registrados em tantas partes do mundo; f) a produção e comercialização de produtos religiosos em escala sempre crescente; g) a ocidentalização das religiões ancestrais, até recentemente confinadas ao Oriente. É bem verdade que tudo isso vêm mesclado por muitas cores e matizes. Nem tudo é puro e inocente. Porém, se deve dizer que nunca foi diferente. A história das religiões sempre foi marcada pelas imperfeições. Nos parece que hoje, sobretudo, o fenômeno religioso está marcado por duas grandes tendências: o pluralismo nas relações externas e a flexibilidade nas relações internas. O contato direto e a proximidade oferecida pelos meios de comunicação social, faz com que cada uma das religiões exija de si mesma novas formas de relações com o outro; internamente,

Comunidade São José Operário - Heliópolis, SP.

os processos de transformação das estruturas parece estar exigindo sempre uma maior capacidade de adaptação, dentro de um mundo sempre mais versátil, rápido e implacável. Neste contexto, as vocações missionárias se tornam cada vez mais uma espécie de êxodo em cinco direções complementares: êxodo geográfico, êxodo existencial, êxodo psicoafetivo, êxodo cultural e êxodo religioso. Sair do próprio lugar, sair de si mesmo, sair das próprias relações humanas, sair da cultura onde se nasceu e sair do próprio bojo da religião que se professa. São graus sempre maiores de exigência para os que são chamados à missão. Assim, a autenticidade da vocação missionária passará sempre pela autenticidade da comunidade que a gerou e enviou. Quanto mais forte for a experiência de santidade da comunidade, tanto mais forte será o seu testemunho missionário.  Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

N

Envio de missionárias para a Amazônia
Regional) no Estado de São Paulo, contou com a participação de diversas religiosas. As missionárias são: Sandra Mara de Assis, clareriana; Laura N. de Lima, franciscana de Bonlanden e Maria Elena Claudino, carmelita de Santa Terezinha. Durante a homilia, dom José recordou a missão do Amazonas, da qual participou. Parabenizou as irmãs e agradeceu às congregações por apoiarem projetos missionários. Com os debates sobre a missionariedade e o serviço social prestado pela Igreja aos mais pobres, acalorados com o assassinato da irmã Dorothy Stang, as missionárias, que estão de malas prontas para o Amazonas, testemunharam a coragem da vida consagrada. Para irmã Sandra, “o sangue da Dorothy foi uma semente jogada naquelas terras. Não nos abala, mas impulsiona”. Para irmã Laura, a missão “é uma exigência da vida religiosa, pois serve como serviço e testemunho”. Já a missionária Maria Elena diz que “Cristo desafia, mas ele mesmo nos dá a alegria de viver e superar os desafios”. Ao final da celebração, as irmãs enviadas receberam uma cruz e uma Bíblia de suas provinciais. Na oração de envio, dom José Maria Pinheiro, com as provinciais, advertiram: “jamais violentarás a alma do teu povo que, doravante, será teu povo”. As irmãs partiram para o Amazonas dia 1º de março, e lá devem ficar por pelo menos três anos.  Rafael Alberto, Jornal O São Paulo.

o dia 27 de fevereiro, a Catedral Metropolitana de São Paulo, na Praça da Sé, acolheu a celebração de envio de três missionárias para o município de Manaquiri (aproximadamente três horas da capital doAmazonas, Manaus). O projeto que envia estas missionárias é uma parceria da CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil e da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) através dos regionais Sul 1 (São Paulo e Norte 1 - Amazonas). Há 10 anos, Manaquiri possui uma comunidade intercongregacional que trabalha com os ribeirinhos da região. A celebração presidida por dom José Maria Pinheiro, bispo auxiliar de São Paulo da Região Episcopal Ipiranga e bispo responsável do COMIRE (Conselho Missionário

Missões - Abril 2005

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A morte foi m
a vida vive
Fotos: Divulgação

espiritualidade

de Salvador Medina

ser humano enquanto vive, reflete incessantemente sobre suas origens, sentido e fim da existência – na religião, na filosofia, nas ciências. As vivências, além dos conteúdos, que lhe permitem viver com memória, sentido e direção, inseridas - conscientemente ou não - numa cultura determinada e com uma visão teológica, constituem a espiritualidade pessoal e coletiva. O fim implacável da existência, a morte, levou o ser humano, já no início da Pré-história, dois mil anos antes de qualquer cultura escrita, a buscar respostas diante da escuridão do que não faz sentido. Trata-se do ser humano enfrentando a certeza da morte, com a esperança da imortalidade. Neste artigo me deterei na resposta dada pelo Deus de Jesus de Nazaré através da ressurreição, encaminhando, porém, fiel à nossa filosofia de pensar “a missão no plural”, para visitar e “beber em outras fontes” de espiritualidade, ricas e profundas.

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Caminho de perguntas e respostas

Poderíamos percorrer, orientados pelo professor Hans Küng no seu livro “Religiões do mundo”, os caminhos trilhados pelas culturas dos diferentes grupos étnicos da Austrália, da África e das Américas nesse peregrinar, angustiante e esperançoso, rumo ao “início das coisas”, à “terra sem males” ou ao “paraíso

perdido” e aprender deles o sentido do “fim”. Outros caminhos encontraríamos, mergulhando nas águas sagradas do rio Ganges, na Índia, como peregrinos necessitados de purificação ou como cinzas depois da cremação, espalhadas para logo renascer numa existência pior ou melhor, dependendo das boas ou más ações anteriores, até um dia sair definitivamente do ciclo reencarnatório, como espera o hinduísmo. Igualmente, enveredando pelo Tao, ( literalmente, um “caminho” “lei”, “doutrina”, “princípio de ordem”), na pequena e moderna cidade-estado de Cingapura, de tradição chinesa, ou na multiétnica República da China, com seus 1,2 bilhões de habitantes, unidos por uma mesma escrita e tradicionalmente orientados pelo velho sábio e mestre Confúcio, mesmo depois do longo domínio do “imperador vermelho”, Mao Tse-Tung e de seus sucessores, nós vamos encontrar respostas para o além da morte. Também aproximando-nos do “iluminado” Siddhartha Gautama, o Buda, que 2.500 anos atrás, desde as alturas do Himalaia e do leito do Indo até a Indonésia ou a China, a Coréia e o Japão, como grande mestre, mostrou para centenas de milhões de pessoas um caminho para enfrentar a dor, o sofrimento, a velhice, a doença e a morte, poderemos encontrar caminhos de salvação. Toda sua mensagem budista se encontra resumida nas Quatro Nobres Verdades existenciais que respondem às quatro perguntas fundamentais do ser humano: o que é o sofrimento, de onde ele vem, como pode ser superado e qual o caminho para superá-lo. Peregrinando para Meca, cidade onde nasceu Abril 2005 - Missões

morta

A ressurreição de Jesus é a resposta gratuita de Deus ao questionamento da humanidade sobre a morte.
Para Refletir
A ressurreição, embora já esteja presente no mundo, é um processo que continua até chegar à plenitude e nos desafia a vivermos como ressuscitados. Pensemos, oremos e celebremos essa presença: 1. Jesus ressuscita hoje nas comunidades: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20). 2. Jesus ressuscita hoje na Eucaristia: “Tomem, isto é o meu corpo (...) Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos” (Mc 14, 22-24). 3. Jesus ressuscita hoje nas testemunhas (especialmente nos Mártires e nos missionários): “Eis que eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Maomé (570 d.C.) ou Medina (al-Madina: “cidade” do profeta), lugar da Umma, ou primeira comunidade religiosa e política muçulmana, da sua tumba e também da primeira mesquita, mandada construir pelo próprio Maomé, ou encontrando qualquer um dos quase um bilhão de seres humanos que professam o islamismo na costa atlântica da África, nas ilhas da Indonésia, nas estepes da Ásia Central ou em Moçambique e até mesmo na Europa ou nas Américas, sem olhar neles só mulás barbudos, terroristas violentos e inescrupulosos, xeques do petróleo ou mulheres com rostos vedados, mas os seguidores do profeta Maomé, guiados pelo Alcorão, do mesmo modo que os judeus pela Torá de Moisés e os cristãos pelo Evangelho de Jesus Cristo, poderemos achar luzes para o futuro eterno.

os não judeus, anunciando essa Boa Nova: “Eu sou o caminho que leva ao Pai” (v.6). E diante da morte e, então, do cadáver do seu amigo Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e acredita em mim, não morrerá para sempre” (Jo 11,25).

O morto está vivo

“Eu sou o Caminho”

Um teólogo da Galiléia chamado João, profundo conhecedor e amigo, além de discípulo de Jesus de Nazaré e de sua mãe Maria, registrou, vinte séculos atrás, estas palavras escutadas do próprio Jesus ou narradas na sua comunidade de fé: “não fique perturbado o coração de vocês. Acreditem em Deus e acreditem em mim. Existem muitas moradas na casa do meu Pai. Se não fosse assim, eu lhes teria dito, porque vou preparar um lugar para vocês. E quando eu for e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo, para que onde eu estiver, estejam vocês também” (Jo 14, 1-4). O evangelista escreveu para os fiéis vindos da gentilidade e, então, também para nós,

O Jesus histórico que foi injustamente perseguido, preso, julgado, condenado à morte de cruz e morto, foi reconhecido vivo pelos seus discípulos, seguidores de sua pessoa e continuadores de sua causa ou missão. Nós, hoje, contamos, felizmente, com documentos escritos, registrados no Novo Testamento da Bíblia Sagrada, particularmente nas Cartas Paulinas, nos quatro Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, que testemunham esta real e misteriosa experiência de “presença na ausência”, objeto fundamental e original da fé cristã, porque: “se Cristo não ressuscitou - como afirma Paulo, o missionário dos gentios – a nossa pregação é sem fundamento, e sem fundamento também a vossa fé” (1 Cor 15,14). Assim, a ressurreição é a resposta gratuita de Deus ao questionamento da humanidade. A fidelidade de Jesus nos permite compreender mais facilmente a resposta do amor divino: “o que para ele foi uma conquista difícil, nós podemos acolher agora na clareza da fé” e colocá-la na mesa da partilha e do diálogo entre as religiões, como contribuição à busca comum.  Salvador Medina é sacerdote missionário e pároco da Paróquia São Brás, Salvador, BA.

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Superávit ou Déficit?
Enquanto a economia brasileira parece gozar de boa saúde, a política social continua sofrendo de anemia crônica. Como fica a cidadania nesta história?
de Alfredo J. Gonçalves

cidadania

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esde o começo do ano, o país vem sendo bombardeado por uma série de notícias eufóricas por parte da grande imprensa, sinalizando que a economia brasileira contabiliza recordes em vários itens: no superávit primário, nas contas públicas, na arrecadação tributária, na balança comercial, nas exportações, no crescimento econômico... Enfim, o modelo de política econômica adotado parece ser o melhor remédio para todos. Algumas observações se fazem necessárias. Primeiro, a base de comparação costuma ser o ano anterior, quando o crescimento econômico foi negativo, o que torna frágil a argumentação de melhora significativa. Em segundo lugar, se compararmos o Ajuste fiscal crescimento da economia brasileira aos de outros países emerO chamado superávit primário ilustra bem essa contradição. gentes – tais como China, Índia, México, Argentina – veremos Ele representa as economias do governo para o pagamento em que todos eles tiveram taxas de crescimento que vão de 7 a dia dos juros e serviços do endividamento externo. É a política 11% ao ano, bem acima do de ajuste fiscal exigida pelos Brasil. Mas uma terceira organismos internacionais, observação é ainda mais como o FMI. O problema é preocupante: a quem beque a economia do governo neficia o crescimento da é feita através de cortes na economia brasileira? Aqui área social, como foi o caso está o grande nó da quesrecente dos gastos com a tão. Historicamente, o cresreforma agrária. Ou seja, cimento do Produto Interno o governo trata da saúde Bruto (PIB) sempre foi vido sistema financeiro, salciado por uma das maiores vando os investimentos dos concentrações de renda e especuladores, e deixa à de riqueza. Cresce o lucro mingua a população cados bancos, multiplicam-se rente. Ao invés de polítios empreendimentos do cas públicas e reformas agronegócio, sobe a venda profundas, para os pobres de bens duráveis, os altos restam as migalhas das juros engordam cada vez políticas compensatórias: mais o capital financeiro... bolsa-escola, bolsa-famíMas como fica o empre- Moradores de rua de São Paulo exigem seus direitos. lia, programa Fome Zero, go, o salário, a saúde, a entre outras. Um pergunta educação, os meios de transporte, as estradas, a habitação, a final salta à vista: como fica a cidadania brasileira? Não uma questão agrária e agrícola, e assim por diante? O crescimento cidadania de fachada, cheia de retórica e de boas promessas, produz assimetrias cada vez mais profundas. mas uma cidadania real, baseada na elevação do nível de vida de todos e todas! A pergunta coloca em nossas mãos a Descaso com o social responsabilidade de lutar por mudanças. Estas jamais virão Numa palavra, enquanto os indicadores econômicos parecem de cima. A sociedade muda quando a população se organiza gozar de boa saúde, os indicadores sociais continuam sofrendo e sai às ruas. A verdadeira cidadania não é um presente dos de anemia crônica. Se olharmos para a bússola da Bolsa de poderosos, mas uma conquista de um povo organizado.  Valores, por exemplo, o navio segue em rota batida rumo a um horizonte promissor. Mas se olharmos para a bússola das dívidas Alfredo J. Gonçalves é sacerdote carlista, assessor da Comissão para o Serviço da Caridade, sociais, o horizonte não é muito animador. Se é verdade que a Justiça e Paz – CNBB.
Jaime C. Patias

economia registra superávits e recordes otimistas, o mesmo não se pode dizer das condições reais de vida, especialmente da população de baixa renda. Aqui permanecem os déficits históricos, simbolizados, por exemplo, pela fila do INSS, pela falta de moradia, pela precariedade dos serviços públicos, pelo atraso da reforma agrária, pelo baixo nível do ensino fundamental, pelo desemprego e subemprego... A contradição é evidente e reveladora. O modelo econômico continua privilegiando o setor das finanças, as grandes corporações agroindustriais, as empresas transnacionais, os negócios voltados para exportação, ao mesmo tempo que faltam recursos para a implementação de verdadeiras políticas públicas que possam favorecer os segmentos mais excluídos.

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A loucura do amor
Marcela, filha de Maria do Carmo Sena e Manoel de Souza, nasceu em São Miguel Paulista, São Paulo, aos 19 de setembro de 1975. Partilha sua experiência apostólica com os imigrantes em Nápoles, Itália.
de Marcela Sena Souza

ITÁLIA: Superfície ..............301.302 Km² População..............57.300.000 hab. Católicos ................83,2 % Capital ...................Roma
Arquivo Pessoal

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eus realizou em mim grandes coisas a partir do momento que me chamou, primeiramente à vida, à fé e à consagração religiosa. Posso ver em meu caminho muitas provas de sua predileção e amor. Foi pelo fato de me sentir muito amada por Ele, que germinou em mim a semente preciosa da vocação religiosa: o divino chamado para viver a radicalidade do Batismo e doar minha vida pelo Reino.

Resistência e entrega

No início, fui muito resistente ao convite do Mestre. Ser religiosa me parecia uma loucura. Eu queria formar uma família. Mas, não era este o projeto de Deus. Interiormente sentia um grande vazio, que procurei preencher com namoro, amizades, viagens, festas. Mesmo assim vivia descontente. Comecei a freqüentar a paróquia me engajando em diversas pastorais.Tudo em vão. Deus me chamava à totalidade. Assim com a ajuda de um sacerdote vocacionista, decidi entrar para a vida religiosa. Sofri muito com a oposição da minha família. Pensei até em desistir. Mas, Jesus continuava a me chamar com insistência. Nos momentos de oração sentia grande paz e alegria. Foi ali que encontrei força e coragem para sair de casa, mesmo contra a vontade dos meus pais, aos 18 anos.

Evangelização, partilha de vida

Consagração e experiência apostólica

Em 1993 entrei na Congregação das Irmãs das Divinas Vocações (vocacionistas). Depois de dois anos no Brasil, fui enviada a continuar a formação na Itália. Lá, fiz uma rica experiência de apostolado missionário em Pianura, num bairro pobre da periferia de Nápoles. Fiquei surpresa em ver, num país de primeiro mundo, a situação de pobreza e miséria em que viviam tantas famílias. No contato com aquelas pessoas descobri que eram todos estrangeiros, vindos clandestinamente de países mais pobres da Europa e da África. Fugiam das guerras e misérias e apenas procuravam encontrar um meio de sobrevivência. Por isso, sujeitavam-se a todos os tipos de trabalhos, os mais humildes. A muitos deles era tirada até a própria dignidade como pessoa.

A única coisa que restava era a esperança, que traziam claramente estampada no olhar. E um sonho: poder voltar à pátria, viver novamente na própria cultura. Obrigados a assumir usos e costumes estranhos, sentiam-se tomados de profundo sentimento de inferioridade, o que dificultou muito a nossa presença no meio deles. Nos aproximamos não para evangelizar, mas, para sermos evangelizadas. A etnia era muito diversificada e aquelas pessoas, mais do que da religião, precisavam de valorização, respeito e amor. Dessa forma nossa ajuda não era só material, através de campanhas de roupas ou alimentos. Sobretudo, consistia em apoio moral e amizade. Convivi com essas pessoas por quase três anos e aprendi muito, especialmente a ternura, a simplicidade, a coragem de trabalhar e enfrentar qualquer coisa como se tudo dependesse delas. Aprendi a confiança de quem nada tem e tudo espera.  Marcela Sena Souza é irmã vocacionista, professora e mestra em Ciências Religiosas pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

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Testemunho

Cativada

Testemunho

pela simplicidade
Maria Esperanza, 39 anos, colombiana, é missionária da Consolata na Espanha. Manifesta a importância da família e da comunidade em seu processo vocacional.
de Maria Esperanza Becerra Medina

ESPANHA: Superfície ..............505.954 Km² População..............39.600.000 hab. Católicos ................94,9 % Capital ...................Madri

Jaime C. Patias

S

omos sete filhos, três mulheres e quatro homens. Na convivência simples do lar aprendi os valores da partilha, da aceitação recíproca, a acolhida do diferente. No bairro, o companheirismo, a cordialidade, a espontaneidade. No testemunho e presença dos seminaristas da Consolata aprendi a paixão por Jesus Cristo e o Reino, a intercul-

turalidade e o Ad Gentes. O contato com eles, provenientes de diversos países, despertou minha curiosidade: como podem estar dispostos a sair da própria terra e dar a vida para a construção do Reino de Deus? Por que tanta doação e empenho na busca de uma sociedade mais fraterna e justa?

Uma Igreja simples

Nos grupos juvenis me deixei cativar pelo rosto de uma Igreja simples, despojada, aberta e próxima das pessoas. Uma Igreja corajosa, capaz de denunciar o que afasta a humanidade do sonho de Deus. Uma Igreja de mulheres e homens autênticos, aberta ao universal e solidária, num mundo sem fronteiras. Deixei-me cativar pelo Reino de Deus. Iniciei o processo de discernimento vocacional no grupo juvenil da Consolata, JUCRIS, de onde passei a caminhar com as vocacionadas das Irmãs. Nesse período passei por luzes e sombras, alegrias e dificuldades. Pois, querer ser “discípula do amor” é aprender a deixar-se guiar pela força do Espírito, que opera e liberta desde o mais profundo do coração, que marca e transforma a vida de quem encontra o Ressuscitado. Ingressei no Instituto Irmãs Missionárias da Consolata, na Colômbia, em 1989. Após um ano já me encontrava na Itália com um grupo internacional de jovens da Polônia, Itália, Quênia, Tanzânia, Moçambique, Inglaterra e Portugal. Fiz a Profissão Religiosa em 1998, prosseguindo os estudos em Roma. Ao terminá-los me dispus a servir o Reino aonde fosse chamada. Fui enviada a Madri para a Animação Missionária.

Missão, vida e ser do cristão

Na Espanha fui compreendendo uma vez mais que a missão é que dá vida ao nosso ser cristão. E o meu ser missionária é que me anima no aqui e no agora. Desperta-me e projeta para o mais além, onde Jesus ainda não é conhecido. Quando olho as novas gerações, sem valores transcendentes que lhes ilumine os horizontes e vejo tantas situações desumanas de vida, faço minha a preocupação de São Paulo: “Como vão invocar sem antes crer nele? Como crer nele sem antes escutar? Como escutar sem pregador?” (Rom 10,14). Sim, nós somos os canais de vida nova: Cristo não tem mãos, tem somente as nossas para realizar seu trabalho hoje; Cristo não tem pés, tem somente nossos pés para chegar até às pessoas; Cristo não tem lábios, tem somente nossos lábios para anunciar seu Evangelho.  Maria Esperanza Becerra Medina é irmã missionária na Espanha.

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O leigo percorreu um longo caminho para mostrar seu valor e dignidade dentro da Igreja.

A Missão dos leigos II
de Luiz Balsan e Lírio Girardi

Quem é o leigo hoje? Qual o seu lugar na Igreja e no mundo?

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a matéria da edição anterior vimos como os leigos gradualmente foram perdendo terreno no interior da Igreja, chegando ao ponto de serem considerados cristãos de segunda classe, como se somente as pessoas que, de certa forma, deixavam o mundo vivendo nos mosteiros – os monges – ou os que deixavam de se ocupar diretamente dele – os sacerdotes – pudessem ser considerados cristãos de verdade e, como conseqüência, pudessem almejar um caminho de santidade. Concluímos a matéria dizendo que com o nascimento das universidades, no século XIII, inicia-se um longo caminho para a retomada do valor e da dignidade do leigo na Igreja. Dentro desta mentalidade que foi afirmando sempre mais a concepção de uma superioridade da vida monacal e sacerdotal

sobre a vida leiga, há quem volte a chamar a atenção para o que é realmente essencial. São Tomás de Aquino afirma com força o princípio de que a santidade cristã consiste na vivência da caridade. Algo novo? Não, pois este é um princípio fundamental da vida cristã que aparece muito claro nas Sagradas Escrituras e também nos primeiros séculos da Igreja. Bastaria recordar brevemente algumas passagens: interrogado sobre qual é o maior mandamento, Jesus responde dizendo que, no amor a Deus e no amor ao próximo está contida toda a lei (Mt 22,40). Paulo, o Apóstolo das nações, por sua vez, à comunidade de Corinto, que manifestava uma certa tendência em considerar superiores aqueles que manifestavam carismas extraordinários, responde com o hino à caridade, que encontramos em sua primeira carta (1Cor 13). No final do século V, o grande mestre da vida espiritual,

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Teresa Silva

Teresa Silva, leiga em seu trabalho na Tanzânia.

Os leigos de a missão al

Acima de tudo o amor (1Cor 13, 1-8)

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inda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria. O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência também desaparecerá.

Santo Agostinho, dizia que a caridade é a essência e a medida da perfeição cristã. Esta frase é muito forte e, se quiséssemos usar uma metáfora para melhor compreendê-la, poderíamos dizer que a ausência do amor na vida cristã é como a falta de oxigênio no ar: é algo que não serve para nada, pois falta o que é lhe mais característico. Vista no contexto da época, a afirmação de São Tomás é particularmente significativa: se o essencial é a caridade, quer dizer que é possível ser santo em qualquer lugar. Então é possível ser santo, mesmo ocupando-se das coisas do mundo: família, trabalho, política, cultura, lazer... Como conseqüência, não é mais necessário imitar os monges e distanciar-se do mundo para viver plenamente a vida cristã e, portanto, se pode ser cristão de primeira qualidade, mesmo estando no mundo. Mas, infelizmente, esta compreensão de São Tomás se perde no tempo! Não era o momento certo para ser compreendida em todas estas suas implicações e, portanto, continua-se a pensar que os verdadeiros cristãos são os religiosos e os sacerdotes. Abril 2005 - Missões

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Juventude Católica

espertam para lém-fronteiras
Arquivo Pessoal

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Tony Pereira em celebração no Santuário dos Mártires, São Félix do Araguaia.

onhecendo as transformações pelas quais a Igreja Católica passou, a partir da década de 50 do século passado, pode-se compreender também as mudanças que foram surgindo no Programa de Ação Católica, iniciado no Brasil por dom Sebastião Leme, durante o papado de Pio XI (1922-1939) com o objetivo de incrementar a participação dos leigos na Igreja. Inicialmente, a estrutura da Ação Católica Brasileira (ACB), criada em 1920 e oficializada em 1935, assemelhou-se à italiana, com movimentos de juventude e de adultos, feminino e masculino: Homens da Ação Católica (HAC), Liga Feminina da Ação Católica (LFAC), Juventude Católica Brasileira (JCB-masculina) e Juventude Feminina Católica (JFC). No setor da juventude, surgiram as primeiras subdivisões que já indicavam uma especialização: a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Operária Católica (JOC) e a Juventude Universitária Católica (JUC). Mas, somente no final da década de 40 do século passado, a Ação Católica Especializada foi reorganizada, espelhando-se, neste momento, nos modelos belga e francês. Nesta reordenação, reconhecia-se os diferentes grupos sociais que constituíam a sociedade brasileira, reunindo os jovens em núcleos segundo sua condição social: os operários na Juventude Operária Católica - JOC; os trabalhadores do campo na Juventude Agrária Católica - JAC; os universitários na Juventude Universitária Católica – JUC; os estudantes na Juventude Estudantil Católica - JEC e os que não se enquadravam nas outras situações, na Juventude Independente Católica – JIC. Segundo José Oscar Beozzo, a Ação Católica no início da década de 1960, “já havia levantado as questões da fome, do subdesenvolvimento, do compromisso do cristão no campo político e social para a libertação das grandes massas oprimidas”. Ela seria, neste caso, precursora da Teologia e da Espiritualidade da Libertação.

Novas provocações
Novos ares se respiram na Europa a partir da Revolução Francesa (1789). Tendo como lema “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, a Revolução combate o poder absoluto do rei, em favor de uma sociedade mais democrática. Como também a Igreja tinha os seus privilégios, desencadeia-se uma forte onda anticlerical na Europa. O confisco dos bens eclesiásticos, a supressão de congregações religiosas e uma crítica acirrada à Igreja são algumas das manifestações desta atitude fortemente antieclesial. Dois destes elementos terão uma influência forte no laicato católico. A concepção democrática que se afirma na sociedade, possibilitando uma maior participação do povo nos destinos da nação vai gerar uma nova postura dos leigos na Igreja: este espírito participativo é levado também para o interior da própria Instituição. Os leigos começam a bater às portas, reivindicando um espaço maior. Em segundo lugar, esta onda antieclesial mexe com o brio dos cristãos mais convictos. Incentivados também por muitos sacerdotes, os leigos partem em busca de novas formas de

participação. Na verdade, os leigos se tornam co-responsáveis pela formação cristã Leigos em celebração do lava-pés, Paróquia na sociedade. N. Sra. Consolata, Jd. São Bento, SP. Em outras palavras, poder-se-ia dizer que os leigos se sentem chamados ao apostolado ativo e, por isso, se unem em associações e movimentos. Eles solicitam espaço para o trabalho, não como meros executores do que é decidido pelo clero, mas como pensadores criativos. Poderíamos dizer que é um tempo de grande vivacidade laical: os leigos buscam, em primeiro lugar, um crescimento na vida de fé, uma adequada formação cristã e, ao mesmo tempo, um espaço para uma atuação mais autônoma e eficiente na Igreja e como membros dela na sociedade.

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Claudio Morneau

Dificuldades ainda presentes
No campo teológico, Antonio Rosmini escreve na primeira parte do século XVIII um livro intitulado “As cinco feridas da Igreja”. Nele o autor solicita uma maior colaboração entre o clero e o

vive numa espécie de conflito: ao mesmo tempo que sente a necessidade de um laicato ativo, quer mantê-lo como simples executor de suas decisões. Em 1906, Pio X reafirmava o princípio de que “só no corpo pastoral reside o direito e a autoridade. Quanto à multidão, não tem outro direito que o de deixar-se
Geraldo Nonato de Souza / GNZ

Valorização do humano

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Humanismo que nasce no início do século XV, e que, de certa forma, é um dos frutos do surgimento e do desenvolvimento das universidades, apresentase como uma corrente de pensamento que volta o seu olhar para a cultura clássica greco-romana, centralizando a sua atenção no ser humano, buscando redescobrir o seu valor. Esta corrente filosófica passa a olhar o mundo e a vida com uma atitude mais positiva: o tempo de vida de cada um deixa de ser visto como um vale de lágrimas. O ser humano descobre suas potencialidades e olha para si com um otimismo crescente. Esta atenção para com o humano torna-se tão primordial a ponto de se poder dizer que o homem é o centro de tudo. A radicalização desta forma de pensar levará o

Atuação de leigos em trabalho com a Infância Missionária.

Tempos de grande vitalidade
conduzir e de seguir os seus pastores como dócil rebanho”. Mesmo diante destas barreiras e na ausência, ainda, de uma reflexão teológica que dê suporte a uma participação mais ativa dos leigos, ela acontece na prática com grande força. Diante do avanço do secularismo e do anticlericalismo, surge a Ação Católica, que abrange os vários movimentos e associações que os leigos católicos promoveram, de modo particular a partir da segunda metade do século XIX, com finalidade de formação pessoal e ação pastoral. Os leigos se unem em uma infinidade de associações como, por exemplo: Amizades Cristãs, Sociedade da Juventude Católica, Federação Luiz Zucatto, ministro da Eucaristia e Matrimônio. Universitária Católica, Juventude Universitária, União das Mulheres Católicas, Federação de Homens Católicos, Obras de Propagação da Fé, entre muitas outras. Em paralelo a isto, começa a surgir uma espiritualidade tipicamente laical. O terreno se prepara para a grande mudança que ocorrerá a partir do Concílio Vaticano II (este tema continua na próxima edição).  Luiz Balsan é missionário, professor de Espiritualidade e doutor em Teologia. Lírio Girardi é missionário e pároco da Paróquia Santa Margarida, Curitiba, PR.
Arquivo

povo, uma maior valorização do sacerdócio dos ser humano à ilusão de já não precisar mais de fiéis, uma liturgia Deus na sua vida, surgindo assim o ateísmo. mais participaNeste contexto, no âmbito cristão, destaca-se tiva, onde realFrancisco de Sales, bispo de Genebra, no século mente se experimente a Igreja XVII e doutor da Igreja. Entre outras obras, como Corpo de ele escreve “Introdução à vida devota”. Nesta, Cristo e uma Francisco busca mostrar que a santidade é participação dos possível também para quem está no mundo, leigos na escoisto é para os leigos. Mas sua voz também se lha dos bispos. perde e continua-se a pensar que para ser santo Ele talvez esteja é preciso imitar a vida dos monges. vendo longe demais e por isso não é compreendido no seu tempo. As idéias ainda predominantes no mundo eclesial caminham por outras direções: a Igreja é vista como sociedade perfeita – não se consegue ainda compreendê-la como Corpo de Cristo, o apostolado. A participação ativa na missão da Igreja é ainda considerada como algo que se refere aos padres e bispos. É emblemática, neste sentido, uma frase do Núncio Apostólico da Bélgica, monsenhor Ferrari (+1855): “estamos, desgraçadamente numa época em que todos se sentem chamados ao apostolado”. Como pano de fundo desta afirmação está a concepção teológica segundo a qual a pessoa passa a participar da missão da Igreja pela ordenação, e não pelo batismo. No pontificado de Pio IX – que, diga-se de passagem, foi o maior de toda a história, totalizando 38 anos – pode-se perceber dois momentos distintos. Num primeiro, ele manifesta desconfiança nas novas formas de associações leigas; nos últimos 18 anos de pontificado, pede para que os leigos estejam ativamente presentes nas questões eclesiais. Convoca-os, então, para que, concretamente, colaborem na defesa dos direitos espirituais e materiais da Igreja diante de uma sociedade que se apresenta fundamentalmente hostil. A hierarquia da Igreja

Para Refletir
1. Na sua opinião, quais são os fatores que mais dificultaram, na Igreja, uma participação ativa do leigo? 2. Em que sentido as universidades contribuíram para o renascimento da participação ativa do leigo na Igreja? 3. De que maneira a nova mentalidade trazida pela Revolução Francesa contribuiu no despertar do laicato católico?

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Pequeno rebanho
na Mongólia
de Francisco Lerma Martínez

A Mongólia é uma das mais recentes aberturas dos missionários e missionárias da Consolata, que ocorreu em julho de 2003, com o envio de 2 sacerdotes e 3 irmãs.
Da Casa Madre

alar da Mongólia significa falar de uma Igreja nascente, de um reduzido grupo de batizados, apenas 200, de uma Igreja em formação no meio de uma população muito pobre e não cristã na sua totalidade. Os habitantes são budistas-lamaistas (95,5 %), muçulmanos (0,4 %), e um reduzido número de simpatizantes de várias confissões cristãs. Para compreendermos melhor os passos que este pequeno grupo de cristãos está dando na Mongólia, pode nos ajudar a experiência das primeiras comunidades cristãs dos Atos dos Apóstolos. Nelas vemos como os crentes viviam unidos, eram assíduos na oração, na fração do pão, na escuta da Palavra e no amor fraterno.

F

Os gritos do povo

Depois dos primeiros contatos com o cristianismo no século VII, só a partir de 1992 é que a Igreja Católica começou a enraizar-se no país com uma presença permanente. Por isso a sua primeira preocupação foi inserir-se na sociedade mongol para sentir as suas preocupações e anseios, partilhar a sua vida, descobrir os seus valores e entendê-los. Sente como próprio o grito profundo do povo, a sua situação de extrema probreza, a perda da identidade cultural, a miséria das crianças de rua, a migração para as cidades, o alcoolismo. O primeiro e único bispo da Mongólia, Monsenhor Padilla, falando desta situação tão deprimente afirma: “a vida na capital (Ulaabaatar) se caracteriza pelo alcoolismo, pela violência e pelas condições de vida debéis e incertas”.

Irmãs em viagem pelo sul da Mongólia.

Que missão?

A Igreja escuta o povo e faz sua a vontade de libertação de tantos oprimidos e aflitos e se pergunta sobre a sua missão. Que missão? Perante o desafio de milhares de esfomeados e de jovens sem futuro, optou pelo compromisso com a causa dos pobres, colaborando diretamente com obras e atividades de assistência, de promoção e de formação. As três paróquias e as congregações religiosas presentes no país se ocupam das crianças de rua e demais vítimas da pobreza e marginalização através do Verbiet Care Center, dos missionários de Scheut, do Centro Juvenil dos salesianos, e do acolhimento de jovens mães das Irmãs da Madre Teresa. No setor da formação, os salesianos dirigem o Colégio Politécnico e uma escola de inglês. A Mongólia vive atualmente um forte despertar religioso. Há grande fome de Deus depois de 65 anos de dominação soviética, durante a qual o país sofreu uma dramática perseguição religiosa. Calcula-se que foram destruídos 750 mosteiros budistas e mortos

mais de três mil monges. Hoje assistimos à reabetura de templos e a redescoberta dos antigos ritos. Muitas obras artísticas, literárias, televisivas e cinematográficas se inspiram no antigo patrimônio sociocultural, e respira-se um ambiente de esperança, desejando que se abra uma nova página da história. Este ambiente é propício ao anúncio do Evangelho, numa terra em que a mensagem de Jesus não é conhecida. Como fazem os poucos cristãos e missionários para fazê-la conhecer? São conscientes que o primeiro passo é o testemunho de vida, concretizado com as atitudes evangélicas de simpatia, tolerância, amabilidade e fraternidade. Deste modo, cada cristão se torna apóstolo no próprio ambiente, antes de falar. Trata-se do anúncio por contato que vai lançando a semente no silêncio e lentamente, mas com muita esperança. Em seguida, a dedicação aos mais pobres que é a faísca que acende o fogo da fé e faz nascer novos cristãos. Há um outro desafio que a jovem Igreja da Mongólia enfrenta: o diálogo inter-religioso, principalmente com o budismo. Os budistas apreciam a presença dos católicos e se nota um objetivo comum entre as duas religiões, isto é, oferecer um futuro ao país, começando com os mais jovens. Os budistas também têm obras em favor dos pobres e das crianças marginalizadas. É necessário dialogar para superar divisões, fundamentalismos e intolerâncias. Deste modo se atingirá os elementos fundamentais da pessoa, a inteligência e o coração, de onde surgirá uma era nova para todos. Assim, a Igreja nascente da Mongólia, chegará à idade adulta deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, como antigamente as comunidades dos Atos dos Apóstolos.  Francisco Lerma Martínez é sacerdote missionário e secretário-geral para a Missão.

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história da missão

Evangelização e Pr
na Igreja hoje
Fotos: Arquivo CNBB

Destaque do mês

Reunidos em Assembléia neste mês de abril, os bispos do Brasil discutem o tema “A Evangelização e o Profetismo – Missão da Igreja diante dos desafios atuais...”, aprofundando o Projeto Nacional Queremos ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida.

Assembléia da CNBB, 2004.
de Antônio Valentini Neto

A
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nualmente, os bispos da Igreja Católica do Brasil realizam a Assembléia da Instituição que os congrega: a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Durante dez dias, vivem a experiência renovadora de comunhão, cultivam momentos intensos de oração, analisam os principais desafios de sua missão de pastores do povo de Deus e buscam juntos, na docilidade ao Espírito Santo, como realizar a evangelização, tarefa principal de seu ministério. Na Assembléia deste ano, de 5 a 15 de abril, os bispos aprofundam o tema central: “A Evangelização e o Profetismo - Missão da Igreja diante dos desafios atuais...” Este tema decorre das atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para o período 2003-2006. Elas fundamentam o Projeto Nacional de Evangelização “Queremos ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida”, para 2004-2007.

A primeira tarefa da Igreja: Evangelização

Ao anunciar a convocação de um Concílio Ecumênico, o Vaticano II, em 1959, o Papa João XXIII tinha em mente o aggiornamento (“colocar em dia”) da Igreja. Desejava colocar em linguagem compreensível aos homens e mulheres de nosso tempo a mensagem perene do Evangelho. Logo passou-se a falar em “voltar às fontes”, ao vigor inicial das comunidades da Igreja primitiva no testemunho e no anúncio da Boa Nova da Salvação. Nesta perspectiva, o Concílio falou em seus documentos da Evangelização (31 vezes). Mas o assunto foi assumido decisivamente a partir do Sínodo Mundial dos Bispos de 1974, sobre a Evangelização, com a exortação apostólica decorrente Evangelii Nuntiandi de Paulo VI, em 1975. Abril 2005 - Missões

rofetismo
Três razões principais motivaram este destaque para a Evangelização:
1ª) a busca de autenticidade, a volta às origens, a procura de uma consonância mais perfeita possível com o Evangelho de Jesus Cristo; 2ª) a tomada de consciência de que apenas um terço da população de hoje é cristã, e somente um quinto é católica e de que mesmo nos países considerados cristãos há um processo de descristianização ou de secularização; 3ª) a necessidade de responder a três desafios especiais do nosso tempo: a) o desafio do ateísmo (aparece no documento do Concílio sobre a Igreja no mundo de hoje); da secularização (aparece no mesmo documento) e do ocultamento do sentido de Deus e do homem (aparece na recente encíclica de João Paulo II, o Evangelho da Vida); b) a consciência cada vez mais aguda de que a ação pela justiça e a participação na transformação do mundo são partes constitutivas da pregação do Evangelho, da própria missão da Igreja pela redenção da humanidade e a libertação de toda a situação de opressão (aparece no documento do Sínodo dos Bispos de 1971 sobre a Justiça no Mundo); c) a necessidade do diálogo com as outras religiões, cujas bases foram estabelecidas pelo Concílio. Durante o próprio Concílio surgiu um Secretariado para tal finalidade. Depois foi transformado em Pontifício Conselho para o Diálogo inter-religioso, ao qual se devem dois documentos: Diálogo e Missão (1984) e Diálogo e Anúncio (1991). Diante do crescimento da religião islâmica e das religiões asiáticas, a Igreja percebe a amplitude do desafio missionário além-fronteiras em dupla direção: diálogo e anúncio missionário.

Evangelizar com ternura e firmeza profética

Evangelizar foi a ordem de Jesus aos apóstolos: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Esta é a permanente “diretriz” da Igreja, que evangeliza pelo conjunto de suas ações: serviço, diálogo, anúncio explícito e testemunho de vida fraterna. A Igreja evangeliza para despertar nas pessoas a fé em Cristo, proporcionando um encontro transformador com Ele e estabelecendo a comunhão de vida nEle e com Ele: “O que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1ª Jo 1, 3). O primeiro grande destinatário da evangelização é a pessoa humana, feita para viver em comunhão com Deus e com os semelhantes. Por

isso, a evangelização urge na vida em comunidade e ao mesmo tempo renova aquela constituída na fé, na esperança e no amor, formando o povo de Deus. Pela evangelização, a Igreja também oferece seu contributo específico para a construção da sociedade justa e solidária. As Diretrizes oferecem uma variedade grande de pistas de ação. Elas pretendem responder aos principais desafios constatados na sociedade pelas próprias Diretrizes. Eles são, em grande parte, as conseqüências negativas do processo atual de globalização: crescimento econômico desigual, priorização do capital especulativo, nova visão a respeito da pessoa, da família e da religião, enfraquecimento da política e descrédito dos políticos, desemprego crescente... Alguns efeitos maléficos da globalização e da atual realidade são: o isolamento das pessoas, o enfraquecimento da família, a quebra dos laços comunitários, o esfacelamento das comunidades, as diversas formas de desrespeito à vida, a falta de condições mínimas de sobrevivência para uma parcela sempre maior da população, a frustração pela impossibilidade de se desfrutar tudo o que a propaganda consumista oferece ou porque, quanto mais se consome, maior o vazio existencial, a exclusão e a violência... Neste quadro, as atuais Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil destacam a acolhida em toda sua ação. Num mundo de dispersão, de anonimato e de isolamento, o agente de pastoral deve acolher com ternura cada pessoa e apontar para a comunidade cristã como espaço de convivência familiar e fraterna. Nesta perspectiva, a comunidade eclesial ganha a característica de lar. Ela concretiza a Igreja doméstica. De fato, nas pistas de ação, as Diretrizes propõem: acolhida e orientação da pessoa em busca de solução de suas necessidades, serviços de aconselhamento, atendimento personalizado, educação para o diálogo integral e aberto, educação para um relacionamento solidário e respeitoso das pessoas entre si. No contexto social atual que apresenta tantos feridos, machucados pela frieza do mercado, pela exploração, pela violência, as Diretrizes insistem em ações de solidariedade: atenção às necessidades básicas das pessoas, serviços especiais em favor dos idosos, migrantes, jovens e crianças em situação de risco, acompanhamento aos desempregados, migrantes, pescadores, turistas, ações imediatas para aliviar o sofrimento dos excluídos, na luta contra a miséria e a exclusão social, justa distribuição da renda, garantia de condições mínimas de sobrevivência para todos. Nisso, a Igreja vai assumindo a característica do samaritano, que proporciona o socorro imediato aos feridos e garante o tratamento posterior até a plena recuperação. Pela intransigente defesa dos direitos das pessoas à inclusão social, pelas causas das desigualdades sociais que apontam, por urgirem os católicos à solidariedade e ao engajamento social, as Diretrizes têm forte conotação profética. Mesmo porque a evangelização, por natureza, deve ter vigor profético. Por estes aspectos, parece possível dizer que as Diretrizes propõem evangelizar com ternura, mas também com firmeza e vigor profético, num modelo de Igreja-lar, samaritana e solidária.  Antônio Valentini Neto é pároco da Catedral de Erechim, RS.

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Tempo de
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omo herdeiros do mesmo Carisma, a experiência de fazer contemporaneamente os dois Capítulos Gerais – missionários e missionárias – é muito enriquecedora. Há muito em comum, o que os incentiva a refletir, a partilhar e a buscar juntos a fidelidade ao Carisma e à Missão Ad Gentes. Pode-se comparar um Capítulo Geral com aquele “encontro” dos 72 discípulos com o Mestre ao regressarem da missão. Foi uma experiência de partilha das experiências vividas e de discernimento (Mc 6,30). Inicialmente o Fundador, padre José Allamano, pensava numa Congregação para a evangelização da África e enviou o primeiro grupo, constituído por dois padres e dois irmãos, para o Quênia. E pouco depois outro grupo para a Etiópia. Ano após ano, missionários e missionárias foram se espalhando por vários países de quatro continentes.

atualidade

Capítulo Geral
Os missionários e as missionárias da Consolata realizarão em São Paulo, de 10 de abril até metade de maio de 2005, seus respectivos Capítulos Gerais, durante os quais farão uma avaliação da caminhada percorrida.
de Michelangelo Piovano e Maria Costa
Fotos: Jaime C. Patias

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az parte da vida das Ordens e dos Institutos Religiosos, segundo as normas consagradas nas Constituições de cada um, realizar o Capítulo Geral, durante o qual se faz uma avaliação da caminhada percorrida, se desenham novos projetos de evangelização e de vida comunitária e se procura responder aos contínuos desafios que a realidade, em constante mudança, apresenta à missão da Igreja. As Constituições dos Institutos estabelecem que o Capítulo Geral aconteça a cada seis anos. Cada Congregação guarda como um tesouro precioso aquele Carisma específico recebido de Deus através da vida de um Fundador ou Fundadora. Um Carisma que afinal é também uma riqueza para toda a Igreja. O Capítulo tem como primeira tarefa proporcionar aquele confronto, absolutamente necessário, com o Carisma específico da fundação, tanto no sentido de o dinamizar, quanto à fidelidade de como responder Abril 2005 - Missões

aos novos desafios que as mudanças históricas inevitavelmente trazem. Enfim, durante o Capítulo Geral também são eleitos os novos superiores e superioras gerais, junto com seus respectivos conselheiros e conselheiras. No caso específico da Consolata, existe uma forma de vida muito internacionalizada, onde cada província é constituída por membros de diversas nacionalidades. O missionário ou missionária, quando enviado além-fronteiras, deixa de fazer parte da província de origem. As missionárias da Consolata celebram o seu IX Capítulo Geral - o primeiro fora da sede geral, na Itália – e os missionários celebram o XI – o segundo também realizado fora de sua sede geral, em Roma. São 50 os missionários e 48 as missionárias em seus respectivos Capítulos. Aquele das Irmãs realiza-se na sede provincial, no bairro do Mandaqui e o dos padres e Irmãos no Centro Missionário José Allamano, no bairro da Pedra Branca, ambos na Região Episcopal Santana, em São Paulo.

Objetivos e participantes

Durante o Capítulo, as missionárias querem celebrar a vida do Instituto, avaliar a sua caminhada e aprofundar pontos importantes como: a formação inicial e permanente dos seus membros, a inculturação do Carisma, a espiritualidade de comunhão, a Missão Ad Gentes, a organização interna e, em especial, lançar um olhar no horizonte rumo à celebração do primeiro centenário do Instituto. No decorrer da assembléia capitular haverá espaço para a participação de alguns leigos que partilham com os missionários o Carisma da Congregação, provenientes dos diversos países onde os grupos já estão constituídos.

maior impacto a palavra do Evangelho que diz: “ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a toda a criatura”. Todo o ser humano tem direito de conhecer a verdade do Evangelho. Já vai para mais de um ano que ambos os Institutos estão preparando este evento através de ampla avaliação e reflexão, na qual participam todos os membros, reunidos em assembléias locais e provinciais. É a partir dessas assembléias que os desafios vão sendo evidenciados e as novas propostas vão tomando corpo para que os capitulares formulem as decisões adequadas e oportunas. O Capítulo Geral dos missionários irá estudar temas importantes e desafiadores para o Instituto no momento atual tais como a internacionalidade, a interculturalidade dos seus membros, o diálogo religioso, a formação de base e permanente e os leigos missionários. Durante os dois Capítulos haverá também momentos de celebração e de encontro em conjunto. O primeiro deles acontecerá logo no dia 11 de abril, com a peregrinação ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida para implorar sua bênção ao começar estes importantes eventos. E o segundo será a reflexão sobre a caminhada da Igreja e da de Animação Missionária, SP. Vida Religiosa profética e solidária no Brasil. Para isso se contará com assessoria externa. Terminadas as sessões capitulares realizadas em separado, missionários e missionárias se encontrarão para partilhar sobre alguns temas refletidos e sobre as decisões tomadas para que até os próximos Capítulos alguns projetos missionários sejam realizados em conjunto. Os Capítulos Gerais normalmente são acompanhados por orações das pessoas que, de várias formas, partilham do Carisma dos Institutos. O primeiro e indispensável participante é o Fundador, o Bem-aventurado José Allamano, a quem os capitulares pedem a graça de permanecer fiéis ao dom recebido de Deus e do qual se tornaram herdeiros e herdeiras.  Michelangelo Piovano é sacerdote e Superior do Instituto Missões Consolata no Brasil. Maria Costa é Irmã e Superiora das Missionárias da Consolata no Brasil.

A preparação

Celebração eucarística na festa da fundação do IMC, Centro

As missionárias da Consolata atualmente contam com 846 membros, e os missionários, com 974. As delegadas ao Capítulo Geral são provenientes da Itália, Etiópia, Somália, Tanzânia, Quênia, Moçambique, Libéria, Estados Unidos, Colômbia, Venezuela, Argentina e Brasil. Excetuando-se a Somália e a Libéria, além desses mesmos países, os missionários contam com delegados da Costa do Marfim, da República Democrática do Congo, da Coréia do Sul, da Espanha e de Portugal. Nos últimos anos, os dois Institutos se orientaram para novas aberturas em países de extrema minoria cristã. É o caso da Mongólia, país situado entre a Rússia e a China, onde os batizados não chegam a duas centenas, e o caso de Djibuti, na África, onde 98% da população é de religião muçulmana. As congregações missionárias não são constituídas por “grupos de elite”. São apenas cristãos em cujos corações ressoou com

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com alegria
Infância Missionária

construiremos teu reino
É com muita expectativa que inicio esta nova fase em minha vida: o desafio de manter o diálogo com os animadores e animadoras da Infância Missionária (IM) através desta página. Espero contar com a colaboração de vocês!

de Roseane de Araújo Silva

credito estarmos ainda vivendo sob o impacto do martírio da Ir. Dorothy Stang, uma missionária engajada na defesa dos pequenos no interior do Pará. Dorothy, criança em terras distantes, profetiza em nosso chão. Desejosa de que a Justiça cumpra o seu papel punindo os culpados, tomo este fato como ponto de partida do nosso diálogo. O que move mulheres e homens a dedicarem suas vidas em defesa dos menos favorecidos? Ou
Jaime C. Patias

A

como recententemente, no mato Grosso do sul. É preciso ir além da compaixão a que somos levados. É necessário devolver às nossas crianças a esperança profética que nos inunda quando as fitamos nos seus olhinhos. A esperança profética de sermos sujeitos da nossa própria história e não meros espectadores. Defendemos o reino de liberdade, fraternidade, justiça, amor, e ele não é algo distante.

Venha a nós o Vosso Reino!

o reino de Deus já está em nosso meio (Lc 17,21) quando nos fazemos presentes em qualquer situação de injustiça, continuando a missão de Jesus, transformando-a com o nosso testemunho profético de anúncio e denúncia. Às margens do mar da Galiléia, Jesus convida os irmãos Pedro e André a deixarem suas vidas, seguindo-o para uma “pescaria” totalmente diferente (mc 1,16-18). Que resposta daríamos a Jesus nos dias de hoje? Preferimos a nossa “tranqüila” vida de pescadores? Ou abraçamos o desafio de testemunhar em águas mais profundas, em águas que não conhecemos? Eis o desafio... As nossas crianças esperam a nossa intervenção de sujeitos, abrindo caminho para uma sociedade melhor que essa. Uma sociedade sem diferenças, onde todas cresçam e vivam com liberdade, cantando com alegria a construção do reino de amor preparado por Deus Pai-Mãe. A certeza de que não estamos sozinhos nos faz caminhar. Das crianças do mundo – sempre amigas!  Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da rede pública do Paraná.

Crianças no V Fórum Social Mundial, RS.

aos favoritos do Deus Pai-Mãe? Somos chamados e enviados à missão desde o ventre materno (Jr 1,5), alimentados pela força transformadora do espírito santo em nossas vidas. o desejo insaciável de ver acontecer o reino de Deus em nosso meio, anunciando a Boa nova e denunciando o que é contrário a ele. Esse foi o testemunho da missionária coroada com o martírio, profetiza dos nossos dias.

Dinâmica: Disputa desigual
Material: 2 folhas de jornais velhos enroladas como bastão, 2 vendas e 2 voluntários. - Vendar as dois voluntários, entregando um bastão de jornal para cada um. Girar os dois e pedir para que cada um acerte o outro com o jornal. - Desamarrar um dos participantes e continuar a disputa, agora em condições desiguais. - Os outros participantes devem observar e torcer. - Avaliar os sentimentos diante da disputa com todo o grupo, refletindo as posturas diferentes e contrárias, tais como: solidariedade, indignação, indiferença, passividade, sentir-se co-responsável, “lavar as mãos” etc.

O chamado profético

existem várias situações que as nossas crianças vêm enfrentando hoje em dia, atingindo em cheio seu direito de ser criança, o direito à vida. em terras brasileiras muitos pequeninos juntos com seus pais, são agredidos quando são expulsos de um pedaço de chão onde sobrevivem, quando são forçados a viver à beira de estradas ou debaixo de viadutos nas grandes cidades, ou quando morrem de fome as crianças indígenas,

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O que os Jovens pensam de si
“A juventude é rica, a juventude é pobre. A juventude sofre e ninguém parece perceber” (Renato Russo).
de carlos eduardo da silva (Dudu)

M

uitos jovens não se acham capazes de resolver os próprios problemas, pensam que são pessoas fracas, que não têm força de nadar contra a corrente das dificuldades. Como conseqüência desta autoimagem, vemos uma multidão deles entregues às drogas ou à inatividade, sem condições de lutar pela melhoria deste mundo. Vemos também jovens que se acham incompreendidos, sem espaço para falar. Como conseqüência, presenciamos formas de auto-expressão exageradas, tais como as de pichação e vandalismo. muitos jovens pensam ainda que estarão eternamente no presente, por isso, ao invés de lutar por um futuro melhor, procuram apenas um “hoje” menos doloroso. Existem ainda jovens que se vêem como o futuro da humanidade, e por isso tratam de hoje estudar e trabalhar para serem adultos de sucesso, muitas vezes não se importando com o que são, mas pelo que serão no futuro, deixando que passe em branco uma etapa da vida.

Tempo de sonhar

existem ainda jovens, e eu me incluo entre estes, que pensam que a juventude é tempo de sonhar, tempo de experimentar vários desdobramentos da vida, tempo de cair e levantar, tempo de lutar pelo que se acredita, nem que isso implique nadar contra várias correntes, tempo de se apaixonar, tempo de mudar de idéia, tempo de brigar, de ser amigo, de se reconciliar, de amar. tempo de viver com o entusiasmo dos primeiros dias de vida e com a intensidade dos últimos. Esses jovens acreditam que a juventude não é apenas uma etapa da vida, mas um estado de espírito que pode nos acompanhar aos oitenta anos, ou já estar perdido aos quinze. Depois de ter mostrado algumas das coisas que os jovens pensam de si, acredito que seja importante considerar que boa parte da auto-imagem da juventude é construída por fatores externos, tais como a família, a escola, a igreja e a mídia. É comum vermos adultos que se dizem sensatos condenando as ações dos jovens, dizendo que são irresponsáveis, que não sabem o que querem, e assim por diante. mas essas pessoas se esquecem que muitas vezes foram elas mesmas que fizeram com que os jovens não acreditassem em si, que os fizeram achar que

Participante do Dia Nacional da Juventude, Catedral da Sé, SP.

são incapazes, que não têm responsabilidade, que não têm futuro e que só serão dignos de respeito quando forem adultos. A auto-imagem juvenil é também um grande trunfo para o mercado econômico, pois à medida que se faz com que os jovens pensem que não têm futuro, tenta-se fazer com que aproveitem o seu presente adquirindo coisas desnecessárias. Para finalizar, penso que ser jovem é sempre ter possibilidade, é nunca ter nada concluído, é sempre estar disposto a experimentar. Por isso, mesmo na situação atual, em que os jovens são usados como massa de manobra pelo mercado, e “bode expiatório” para muitos dos problemas sociais, é possível mudar, é possível melhorar. Precisamos ajudar os jovens que ainda estão parados e conformados com o estado do mundo, a acordar, a se dar conta de seu potencial e de sua responsabilidade de agentes transformadores da realidade.  Carlos Eduardo da Silva (Dudu) é seminarista da Sagrada Família de Bergamo, Curitiba, PR.

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Jaime C. Patias

conexão jovem

entrevista
Fotos: Paula Brenha

De mãos dadas
de Emerson Quaresma, Francimar Rodrigues e Ivan Brito

com os povos indígenas

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Até que ponto a Igreja está pressionando o governo para que a homologação da Área Indígena Raposa Serra do Sol saia o mais urgente possível? A Igreja faz tudo que está ao seu alcance. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) há muitos anos está ao lado dos índios. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), surgiu por iniciativa da CNBB. Ultimamente, a Comissão Episcopal para a Amazônia, juntamente com o CIMI, teve um papel decisivo junto ao Judiciário para conseguir que o Supremo Tribunal Federal (STF) caçasse liminares que impediam a área contínua. Ouvimos na Assembléia o relato da advogada do CIR, Joênia Wapichana, de que no dia 15 de dezembro foram derrubadas duas liminares que impediam a homologação. E isso se deve à influência decisiva da Comissão Episcopal para a Amazônia na pessoa de Dom Jayme Chemello e também de Dom Luiz Soares Vieira, que visitaram Roraima em outubro e, em Brasília, conseguiram uma mobilização que pressionou o Procurador Geral da República. Ele entregou um documento ao STF, que, na pessoa do Ministro Carlos Aires Brito derrubou aquelas liminares que impediam a homologação. A tristeza dos índios é saber que o presidente Lula teve dezoito dias para realizar a homologação e não o fez. De 15 de dezembro de 2004 até 3 de janeiro de 2005 não havia nenhum entrave judicial. No dia 3 de janeiro, Mozarildo Cavalcante, senador por Roraima, entrou com uma Ação Cautelar para suspender a demarcação. A decisão está novamente no STF, nas mãos de onze juízes que formam o plenário, última instância do Judiciário. Abril 2005 - Missões

epois de participar da 34ª Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima em Maturuca, entre os dias 12 e 15 de fevereiro, o administrador diocesano de Boa Vista, capital do Estado, padre Edson Damian, nos relata um pouco do contexto histórico e atual da atuação da Igreja, usando sua respeitabilidade universal em prol dos índios, que defendem a homologação em terra contínua da Raposa Serra do Sol. Qual o papel da Igreja de Roraima junto às comunidades indígenas? Atualmente os índios são autônomos, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), que organiza a Assembléia, caminha com as próprias pernas. Mas para chegar a isso, a presença da Igreja foi fundamental. Os missionários da Consolata têm todos os méritos por ajudar esses índios que estavam dispersos e que eram mão-de-obra semi-escrava dos fazendeiros. Congregá-los, sabendo que já tinham perdido a língua, a cultura e a identidade, era conquistar de novo a sua auto-estima, e com o passar dos tempos, também a luta pelos seus direitos, dentre os quais, o reconhecimento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em área contínua.

O que o senhor pensa dos comentários feitos pelo apresentador Gilberto Barros no programa da Rede Bandeirantes, Boa Noite Brasil, relatando a presença de ONGs norte-americanas manipulando os índios? Foi um documentário mentiroso, totalmente desfavorável à homologação em área continua, apresentando reportagens de comunidades indígenas que são contra a homologação, descrevendo que eles vivem no maior conforto e bem-estar, com tudo aquilo que essa cidade tem a oferecer de consumo e que os filhos dessas famílias estão se preparando para entrar na universidade. Contrapondo a isso, mostraram malocas que se dizem ligadas ao CIR e que querem a homologação em área contínua, que são índios vadios e preguiçosos, não produzem nada, só produzem para comer e não têm interesse em se desenvolver. Quando se assiste a um programa desses, percebemos os interesses da elite e dos meios de comunicação de Boa Vista, totalmente contrários aos direitos dos índios. A Igreja de Roraima está muito envolvida com os povos indígenas. Ela está sofrendo valgum tipo de ameaças por estar apoiando a homologação?

bispo estava em São Paulo e eu respondia pela Diocese e nós vivemos momentos praticamente de prisão domiciliar. Ficamos reféns do telefone. Foi impressionante! Naqueles três dias eu percebi a rede de solidariedade universal, o prestígio que tem a nossa Igreja no Brasil e no mundo inteiro por assumir a causa dos povos indígenas. Algumas pessoas geralmente criticam a existência de missões dentro das comunidades indígenas afirmando que elas destroem a característica peculiar desses povos e mais, que introduzir a fé cristã seria prejudicial à própria cultura indígena. Como se concilia essa questão, na sua opinião?

Nesta entrevista, padre Edson Damian comenta a homologação da Área Indígena Raposa Serra do Sol e a situação da Igreja no Estado de Roraima.

Sempre. Quando os missionários da Consolata tiveram à frente o saudoso Dom Aldo Mongiano, que foi bispo por 21 anos, em meados de 1978, fizeram essa opção clara pelos povos indígenas e pelos seus direitos. A partir daí, o que os não-índios dizem? Que até essa data havia uma perfeita paz e harmonia entre eles e que foi a Igreja que criou a divisão de brancos e índios. Agora, o que eles não dizem é que até essa data, os índios eram escravos dos brancos. A Igreja percebeu que não podia mais evangelizar Participantes da 34ª Assembléia Geral mantendo a dominação dos índios. E desde então começou a perseguição contra ela. O que vemos nos dias de hoje é que toda a mídia de Boa Vista, todos os políticos, toda a elite é contra a Igreja, principalmente nessa questão da Área Indígena Raposa Serra do Sol. A perseguição é cada vez mais violenta e evidente, a exemplo do dia 6 de janeiro de 2004, com o Movimento Pró-Roraima, realizado pelos plantadores de arroz, fazendeiros e políticos locais. Intitulava-se pacífico e ordeiro, mas começou com uma ação extremamente violenta, invadindo e depredando a missão de Surumu, prendendo três missionários da Consolata que permaneceram por três dias em cárcere privado. Naquele dia, o

A Igreja passou por dois caminhos: o primeiro durou até o Concílio Vaticano II e terminou em 1975, com a preocupação de evangelizar e, junto com o Evangelho, sempre levou a saúde, a educação, a promoção integral das pessoas. As primeiras escolas e os primeiros hospitais desse país foram fundados pela Igreja, e isso aconteceu no meio das áreas indígenas também. O segundo, foi a novidade que o Concílio Vaticano II trouxe no tocante ao respeito pela cultura do outro, sem querer impor a sua, que se julga civilizada, desenvolvida e superior. A partir de então nasceu o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que mudou o jeito de evangelizar. Antes de anunciar o Evangelho, é preciso percorrer um longo caminho de diálogo com a cultura dos índios para só depois, a pedido dos próprios índios, introduzir a evangelização explícita. A presença dos missionários serve para cuidar da saúde, alimentação e educação – alfabetização – primeiramente na língua materna para preservá-la, e depois em Português, para que possam se defendos Povos Indígenas de Roraima. der na sociedade dos brancos e conquistar os seus direitos. Com esse método de diálogo, a Igreja já está evangelizando porque está promovendo a vida, a dignidade e os direitos. Com os Yanomamis, por exemplo, os missionários da Consolata estão desde a década de 60, pois chegaram aqui em 1948 e foram os primeiros que tiveram esse contato maior e permanente com os índios. Mas, desde essa data, eles não batizaram nenhum índio Yanomami. Então, dizer que a Igreja não respeita a cultura indígena, impondo outra diferente, é mentira.  Emerson Quaresma, Francimar Rodrigues e Ivan Brito são agentes da Pastoral da Comunicação da Área Missionária Santa Maria Goretti, Manaus, Amazonas.

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Macunaíma

amazônia

vivo até o último índio

A 34ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima congregou cerca de 1.030 pessoas, com a presença de 186 tuxauas (caciques) na aldeia Maturuca, área indígena Raposa Serra do Sol, entre os dias 12 e 15 de fevereiro.
de Joaquim Gonçalves

o centro das atenções da 34ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, a expectativa acerca da homologação da área Raposa Serra do Sol. Permanecem ainda muitas frustrações. Daí o desabafo espontâneo: “querem acabar conosco”. Em dezembro de 2002 a diretoria do Conselho Indígena Missionário (CIMI) foi recebida pela equipe de transição do governo Lula para apresentar algumas das questões indígenas vitais: os decretos que dificultavam homologações ou demarcações e as situações de invasões impunes de terras já demarcadas. E sugeriam ao presidente algumas soluções coerentes e legais para esses problemas. Conscientes de

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que tanto o partido vencedor nas eleições, quanto o próprio presidente eleito sempre estiveram junto com os indígenas nas lutas, as expectativas eram grandes, a esperança parecia estar ao alcance da mão. Mas hoje, dois anos e meio depois desse diálogo, pode-se dizer que o horizonte está nublado. Parece uma noite se sobrepondo ao dia. Quem diria? As comunidades indígenas lamentam profundamente que o presidente, tendo tido a oportunidade única no fim do ano passado de assinar o decreto de homologação contínua da terra Raposa Serra do Sol, não o tenha feito. Poucas semanas antes, o Supremo Tribunal Federal tinha deixado caminho aberto para liquidar o assunto da homologação. Poderia se ter começado este ano com Abril 2005 - Missões

As conclusões da 34ª Assembléia são claras quanto a sugestões e exigências enviadas ao governo e às organizações nacionais e internacionais que são solidárias com as vítimas de violação de direitos humanos. Reportamos aqui os elementos essenciais das decisões tomadas, condensadas em 4 temas:
1. Quanto ao território, diversidade cultural e direitos humanos exige-se: a homologação imediata da TI Raposa Serra do Sol conforme demarcada pela Portaria número 820/98-MJ, com as providências necessárias para que sejam reintegradas às comunidades indígenas as ocupações ilegais; a retirada dos invasores José Ribeiro da Silva da TI Pium e Benjamim da TI Boqueirão, pela prioridade destacada na região do Boqueirão; providências para retirada imediata de todos os invasores, em especial dos que já receberam indenização, em grande parte, localizados na Região do Amajari, Taiano e Serra da Lua; a retirada de garimpeiros, fazendeiros, madeireiros, pescadores na Terra Yanomami, TI Araçá; responsabilizar os meios de comunicação social que propagam a discriminação e o racismo contra os povos indígenas. privatização de conhecimentos milenares dos povos indígenas; o processo de elaboração de projetos de estradas; e a permissão de monocultura de acácias”. E recomenda a articulação de ações interinstitucionais de proteção e manejo de recursos naturais, o apoio às organizações indígenas e a realização da 1ª Conferência Indígena do Meio Ambiente. 3. No que se refere à saúde e educação exige-se: a garantia de continuidade de convênio entre CIR (Conselho Indígena de Roraima) e Funasa (Fundação Nacional da Saúde), assegurando meios; equipamento adequado aos postos de saúde e às casas de saúde indígena; formação e meios de transporte para os agentes de saúde; apoio à criação de Centros Regionais para a Medicina Tradicional Indígena; construção de prédios nos pólos base da Funasa; estudar e avaliar a contaminação ambiental e intoxicação por mercúrio e agrotóxicos por pessoas competentes; repensar a educação escolar indígena, com o apoio do MEC; a federalização do Centro Indígena e Cultural Raposa Serra do Sol no Surumu; assegurar representantes indígenas no Conselho do Fundef (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental); possibilitar e reconhecer oficialmente todas as escolas indígenas; garantir representante indígena no Conselho Estadual de Educação. 4. Quanto ao desenvolvimento sustentável a Assembléia “rechaça os projetos que oferecem migalhas com o objetivo de enfraquecer nossa luta pela demarcação e retirada de nossas terras, promovendo a divisão nas nossas comunidades. O investimento de energia na luta pelas demarcações e homologações nos impedem de avançar e investir essa energia em projetos de desenvolvimento sustentável. Temos condições de produzir e diminuir nossa dependência de produtos comprados no mercado. Temos iniciativas para auto-sustentação e produção de renda. Por isso recomendamos: que sejam simplificados os mecanismos para a administração de recursos públicos; que sejam investidos recursos nos projetos viáveis já em andamento, tanto para formação e capacitação; que os projetos governamentais respeitem os projetos formulados em nossas comunidades e organizações”.

2. Quanto ao direito ambiental exige-se: a imediata autuação e responsabilização dos arrozeiros que jogam agrotóxicos nos rios que cortam a Raposa Serra do Sol, especialmente na região do Baixo Contijo. Que o Ibama, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal assumam suas responsabilidades legais e dêem ao caso a prioridade que merece; que seja dada uma solução à sobreposição do Parque Monte Roraima e da TI Raposa Serra do Sol; que sejam retirados os lixões existentes em terras indígenas e recuperadas dos danos ambientais. E além de formular exigências lícitas, a Assembléia manifesta seu repúdio, preocupação e indignação quanto a “negociação feita pelo governo federal com o direito humano à saúde e ao meio ambiente, permitindo a poluição dos rios; apropriação e Paula Brenha

terra limpa e esperança renascida. Mas o presidente, pressionado por deputados, governadores e fazendeiros deve ter preferido que a senhora Ministra do Supremo, Ellen Gracie Northfleet, tivesse tempo para redigir mais um entrave aparentemente jurídico para adiar aquela esperada “canetada”, com a qual podia ter posto termo a toda a briga. A imprensa nos faz saber que na Câmara dos Deputados nunca houve uma mentalidade antiindigenista tão marcante como agora. Verdadeira ou configurada como armação, ela serve para negociar cargos, favores e projetos. A Assembléia terminou num clima de fraternidade, de esperança e de disposição para continuar a luta pelo respeito, dignidade e promoção da vida de todos. Os trabalhos foram encerrados com a eleição do tuxaua Marinaldo Justino Trajano como coordenador do Conselho Indígena de Roraima, para um mandato de dois anos. 
Marinaldo Justino Trajano, novo coordenador do CIR.

Joaquim Gonçalves é sacerdote missionário e membro da Comissão Justiça e Paz.

Missões - Abril 2005

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Goiânia (GO) Crime contra os direitos humanos
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Reforma Agrária e Urbana (CPMI da Terra) poderá pedir a federalização das investigações sobre o despejo violento de cerca de 4 mil famílias da ocupação Sonho Real, próxima ao centro de Goiânia, que resultou na morte de duas pessoas e mais de 30 feridos, em 16 de fevereiro. O deputado João Alfredo, relator da CPMI, fez o anúncio ao final da audiência pública que encerrou a visita de uma comitiva de sete parlamentares a Goiânia, no último dia 3 de março. Ele vai propor à Comissão que esta faça formalmente a solicitação à Procuradoria Geral da República. A Procuradora Geral de Justiça de Goiás, Laura Maria Ferreira Bueno, apontou os políticos como responsáveis pelo agravamento das tensões entre os ocupantes e proprietários, na medida em que ajudaram a financiar a compra de material de construção e acenaram com promessas de fixação dos moradores no local. Representando a Arquidiocese de Goiânia na audiência pública, frei Marcos Sassatelli sugeriu a desapropriação da área do despejo para fins sociais.

o Encontro Nacional do Mutirão pela Amazônia. Além da Comissão Episcopal para a Amazônia, estarão presentes no evento representantes dos regionais, bispos, padres, religiosos(as) e leigos(as). O principal objetivo do evento é animar o espírito missionário da Igreja e sensibilizar a sociedade brasileira no que se refere à Amazônia. Pretende-se também: analisar a situação atual da Amazônia, ou seja, os riscos, necessidades e oportunidades nos campos socioeconômico, político e religioso; realizar o rasgaste histórico e identificar desafios e perspectivas de uma renovada evangelização e definir encaminhamentos e compromissos. Mais informações: amazonia@cnbb. org.br ou pelo telefone: (61) 313-8300.

Dourados (MS) Fome é conseqüência da falta de terras
A situação de confinamento dos indígenas GuaraniKaiowá em pequenos lotes de terra, no Mato Grosso do Sul, é apontada por antropólogos e historiadores que trabalham com este povo como sendo a causa principal do contexto de violência e de falta de recursos econômicos em que os índios estão inseridos. Os suicídios, que tornaram este povo nacionalmente conhecido na década de 1990, assim como os recentes casos de desnutrição, que já levaram pelo menos cinco crianças à morte em 2005, estão diretamente relacionados ao reduzido tamanho das terras que os Guarani ocupam. Na terra indígena Dourados, onde estão concentrados os casos de mortes por desnutrição, vivem cerca de 11 mil indígenas em 3.500 hectares. “Uma aldeia como Dourados não oferece nenhuma condição para a organização social indígena”, afirma Antonio Brand, historiador que coordena o programa Guarani-Kaiowá da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande.

VOLTA AO BRASIL

Brasília (DF) Referendo das armas
O futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil, Carlos Velloso, pediu ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e ao corregedor da Câmara, Ciro Nogueira (PFL-PI), pressa na regulamentação do referendo sobre a proibição do comércio de armas no país. O deputado Raul Jungmann (PPS-PE), coordenador do Comitê Suprapartidário pelo Desarmamento, conseguiu reunir mais de 150 assinaturas de líderes de oito partidos para garantir a tramitação em regime de urgência do decreto legislativo que irá regulamentar o referendo de 2 de outubro. O referendo está previsto no Estatuto do Desarmamento, aprovado e sancionado em 2003, mas somente será efetivado se o decreto legislativo for aprovado pelos deputados - uma vez que o Senado Federal já aprovou a matéria. Segundo Velloso, a Justiça Eleitoral precisa de pelo menos quatro meses para preparar o referendo e o tribunal precisa da regulamentação, em curso no Congresso, para definir as normas específicas da consulta popular. Em encontro com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), um grupo de representantes da Igreja Católica, de igrejas protestantes e de organizações não-governamentais denunciou que o lobby contrário à realização do referendo recomeçou no Congresso. Um acordo entre o governo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) anunciou a criação, em abril, do dia D do desarmamento que deverá acontecer entre 17 e 21 de abril. Nesse dia, igrejas em todo o país deverão permanecer abertas para receber armas.

Roraima Indígena integrará Conselho Nacional
Convidada e nomeada pelo presidente Lula, a advogada do Conselho Indígena de Roraima, Joênia Wapichana, tomou posse, dia 10 de março, no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (Cades). Trata-se de um Conselho integrado por representantes de banqueiros, empresários, intelectuais e de várias organizações sociais, sindicatos e  movimentos, onde se discutem problemas diversos, entre eles os de integração social, de desenvolvimento sustentável e distribuição de renda. A advogada do CIR recebeu o convite com surpresa, por se tratar de uma instância tão próxima da Presidência. Nesse círculo de debates e de propostas de políticas públicas, a doutora Joênia irá certamente defender a causa indígena. 

Mutirão pela Amazônia
Com o tema “Amazônia: desafios e perspectivas para a missão” e o lema “Cristo aponta para a Amazônia”, realiza-se de 9 a 11 de junho, na capital federal,

Jaime C. Patias

Fontes: Adital, Cimi, CNBB, Desarme.org
Abril 2005 - Missões

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Bem-aventurado padre Dehon Profeta do amor
undador da Congregação dos padres do Sagrado Coração de Jesus, também conhecidos como dehonianos, Leão João Dehon foi um homem comprometido com a Igreja e com o povo. Ele dizia que “o homem que quer transformar a sociedade não pode ter idéias tímidas”. E foi assim que viveu. Com audácia evangélica e alicerçado numa profunda espiritualidade ao Sagrado Coração de Jesus, ele procurou transformar a sociedade, através da construção da “civilização do amor”. “Padre Dehon soube fazer desse anseio de amor o impulso para intensa e extensa atividade pastoral no campo social. Embora não se pudesse exigir que ele previsse Puebla, sabe-se por seus escritos que ele atribuía a situação catastrófica de sua época ao afastamento dos homens do amor de Cristo. E estava convencido de que a transformação social só se daria, plena e evangelicamente, se passasse pela conversão do amor”, disse dele dom Paulo Evaristo Arns, na apresentação da edição brasileira do livro “Por uma civilização do amor”. Nascido em La Capelle, França, em 14 de março de 1843, padre Dehon precisou lutar contra seus pais para tornar-se sacerdote. Intelectualmente era bem preparado, formado em Direito Civil e Canônico, Filosofia e Teologia. Denunciou as graves questões sociais de seu tempo, editou revistas, publicou artigos e livros, divulgou as encíclicas dos papas de sua época, especialmente, a Rerum novarum de Leão XIII, abriu um colégio e fundou uma congregação. Tudo isso porque, segundo ele, “se queremos que Cristo reine, é preciso que ninguém nos leve a dianteira no amor ao povo”.

F

Padre Dehon foi um apóstolo do Coração de Jesus e verdadeiro profeta de seu tempo. Seu exemplo de vida é agora reconhecido pela Igreja, que o beatificará em 24 de abril.
Divulgação

as partes do mundo”, escreveu em seu diário, já no fim de sua vida. De fato, esse ideal de padre Dehon foi colocado em prática quando a Congregação que ele fundou tinha apenas 10 anos. Em 1888, foram enviados os primeiros missionários dehonianos para evangelizar a América Latina, no Equador. Em 1893, chegaram os primeiros dehonianos ao Brasil, em Pernambuco. Em 1897, partiram os missionários para a África, no Congo, e, em 1903, os primeiros dehonianos no sul do Brasil, em Santa Catarina. A partir daí, o fundador da Congregação do Sagrado Coração de Jesus continuou aceitando missões nos lugares mais difíceis e problemáticos e viajava constantemente para visitar seus padres, conhecer a realidade da Igreja em cada local, estudar os problemas sociais e elaborar novos projetos. Padre Dehon faleceu em 12 de agosto de 1925. Seu sonho, sua obra e sua espiritualidade continuam atualíssimos e ainda impulsionam aqueles que seguem seu carisma. 

Terêzia Dias Redatora da revista IR ao POVO

“Missionário, sou-o”
De tudo o que fez na vida, as missões sempre foram a grande aspiração e objeto de especial atenção do padre Dehon. “O ideal de minha vida, o voto que formulava em lágrimas na minha juventude, era o de ser missionário e mártir. Parece-me que esse voto se cumpriu. Missionário, sou-o com mais de 100 missionários que tenho em todos

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Revista Ir ao Povo Terêzia Dias Tel.: (11) 5587-4711 E-mail: redacao@iraopovo.com.br Mais informações: www.dehonianos.org.br

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Luciney Martins

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