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BROQUÉIS

JoãodaCruzeSousa

-OpoetanegroouOCisneNegroouODanteNegroouOpoeta-

OAUTOR

Nasceu em 1861, na antiga Desterro, foi generosamente adotado por senhores brancos e criado como filho. Recebeu educação esmerada e aos vinte anos já dirigia um jornal. Publicou Tropos e Fantasias em colaboração com Virgílio Várzea. Em função da hostilidade dos brancos, deixou sua terra. Percorreu o Brasil e foi recebido em vários lugares como um grande poeta. Casou-se com Gavita, negra, com quem teve quatro filhos. Após a morte do pai, da mãe e de dois filhos, lutou ainda com a loucura da mulher e com a miséria. Acometido de uma tuberculose violenta, faleceu em Minas Gerais sendo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão de cavalos. Foi enterrado dignamente por iniciativa e à custa de José do Patrocínio.

CARACTERÍSTICASDOAUTOR

· Maior representante do Simbolismo em nível nacional e internacional;

· Sua poesia é reconhecida como uma das cinco melhores entre os simbolistas de todo o mundo, a melhor entre os sul-americanos;

· Formalmente ligado às marcas parnasianas: à métrica, às rimas, às formas fixas (o soneto) mas sem a obrigatoriedade dos modelos;

· Simbolista no vocabulário e na temática;

· Sua obra tem a marca da perenidade;

· Considerava a arte como libertação: ela não pode ter fórmulas;

· Incomparável sensibilidade auditiva, mestre da musicalidade.

OBRAS

- Tropos e Fantasias em colaboração com Virgílo Várzea

- Missal e Broquéis

- Evocações

- Faróis

- Últimos sonetos

CONTEXTOHISTÓRICO

O surgimento do simbolismo no Brasil deveu-se a alguns fatores:

*político*

a Revolta da Armada deflagrada pela Marinha de Guerra em 1893/4 contra o governo de

Floriano Peixoto e a Revolução Federalista, inicialmente, uma disputa regional, também se opõe ao governo, marcando os estados sulistas com sangrentos episódios que geram a melancolia e a angústia no espírito da juventude.

*climático*

o clima frio e as brumas hibernais da região sul favorecem o cenário para a sedimentação do movimento que tematicamente valoriza os estados da alma, a sugestão, o misticismo. *cultural* chegada ao Brasil de livros de poemas de simbolistas europeus: Rimbaud, Mallarmé, Baudelarie, Verlaine.

Simbolismo

· Período de transição que marcou a última década do século XIX e as duas primeiras do séc.

XX (1893-1922), aproximadamente.

· Caracteriza-se pela negação do Realismo e suas manifestações: o cientificismo, o racionalismo, o materialismo, o positivismo.

· Criação literária baseada no inconsciente, na sugestão, na associação de idéias e imagens.

· Predomínio do subjetivismo, religiosidade, misticismo e ocultismo.

· Tom vago, impreciso, nebuloso que resulta na poesia ilógica, obscura, fechada.

· Musicalidade (A música acima de tudo).

· Destaque para o emprego de recurso, como: metáforas, aliterações, sinestesias, analogias, comparações.

· Linguagem e idéias fundamentadas na sugestão sugerir, eis o sonho.

OLIVRO:Broquéis

Livro de poesias publicado em 1893 juntamente com Missal, livro em prosa, e marcam o início do Simbolismo no Brasil. É constituído de 54 poemas, entre eles Antífona, poema que abre o livro como uma profissão de fé” simbolista. Destaque para os poemas Regina Coeli, Serpente de Cabelos, Encarnação, Ângelus, Siderações, Braços, Lua, Supremo Desejo, Sinfonias do Ocaso que serão analisados neste estudo.

O TÍTULO BROQUEL do francês um tipo de escudo espartano, redondo e pequenino.

Em sentido figurado: defesa, amparo, proteção.

AnálisedosPoemas

Antífona:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas

Incensos dos turíbulos das aras

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Santas vaporosas

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dolências de lírios e de rosas

Indefiníveis músicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do sol que a Dor da Luz resume

Visões, salmos e cânticos serenos, Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes Dormência de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos, radiantes

Infinitos espíritos dispersos, Inefáveis, edênicos, aéreos, Fecundai o Mistério destes versos, Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

E as emoções, todas as castidades

Da alma do Verso, pelos versos cantem

Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça De carnes de mulher, delicadezas Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas

Cristais diluídos de clarões álacres, Desejos, vibrações, ânsias, alentos Fulvas vitórias, triunfamentos acres, Os mais estranhos estremecimento

Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos, tantálicos, doentios Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue, abertas, escorrendo em rios

Poema composto para servir de introdução ao livro Broquéis, transformando-se em síntese do Simbolismo, é a maior expressão de sinestesia, que se dilui no vago, no abstrato. Desde os primeiros versos o autor expressa sua fixação pelo branco “Ó Formas alvas,

brancas. Formas claras,/ De luares, de neves, de neblinas!

palavras que remetem a essa cor. (num total de nove, apenas na 1ª estrofe) Em todo o poema estão presentes as maiúsculas alegorizantes: Ó Formas

Harmonias da Cor e do Perfume

característica típica do Simbolismo.

/

através de sinônimos ou de

De Virgens

quiméricos do Sonhos

Horas do Ocaso

Do Éter

A Sinestesia, a grande estreladesse estilo, envolve todo o poema como nos versos Que brilhe a correção dos alabastros / Sonoramente, luminosamenteem e que os dois advérbios exprimem magnificamente a dupla procura da música e da cor; Harmonias da Cor e do Perfumeampliam esse universo com a presença do cheiro

A gradação que se segue após o pronome indefinido no verso: Tudo! vivo e nervoso e quente e forte”é reforçada pela palavra turbilhõesque explode entre o limite do mundo material e do sono, no poema, representado pela palavra Morte.

Em Dormência de volúpticos venenos, Sutis e suaves

efeitos musicais que se incorporam à sugestão que o som sibilante do fonema /ç/ evoca em

todo o primeiro quarteto e, por inúmeras vezes, repetido ao longo do poema.

o

emprego da aliteração produz

Livro da fase inicial, percebe-se ainda nitidamente o subjetivismo como uma angústia represada que de forma mística, quase religiosa conclama a uma nova ordem de realização

poética: “Ó Formas alvas

Assim a linguagem de cunho simbolista está presente em todo o texto: a sugestão: “Ó Formas

vagas, fluidas, cristalinas, Do Sonhos as mais azuis diafaneidades

religioso: De Virgens e Santas vaporosa

, Como se fossem pincéis espalhando cores e matizes diversos, as palavras surgem revelando

um cromatismo poético que nos remetem:

- ao branco: alvas, brancas, claras, luares, neves, neblinas, cristalinas, puras, virgens, lírios, alabastros, aras

- ao azul: “Éter(espaço celeste), azuis diafaneidades

- ao amarelo: pólen de ouro, “áureas correntezas, Fulvas, do sol

Ó Formas vagas

Fecundai (tu) o Ministério destes versos

”– ou de cunho

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume.

- ao vermelho: Horas do Ocaso, vermelhidões, chagas em sangue

ReginaCoeli

Ó Virgem branca, Estrela dos altares,

Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!

Branca, do alvor das âmbulas sagradas

E das níveas camélias regeladas.

Das brancuras da seda sem desmaios

E da lua de linho em nimbo e raios.

Regina Colei das sidérias flores, Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.

Ave de prata azul, Ave dos astros Santelmo aceso, a cintilar nos mastros.

Gôndola etérea de onde o Sonho emerge Água Lustral que o meu Pecado asperge.

Bandolim do luar, Campo de giesta, Igreja matinal gorjeando em festa.

Aroma, Cor e som das Ladainhas De maio e Vinha verde dentre as vinhas.

Dá-me, através de cânticos, de rezas,

O

Bem, que almas acerbas torna ilesas.

O

Vinho douro, ideal, que purifica

Das seivas juvenis a força rica.

Ah! faz surgir, que brote e que floresça

A Vinha douro e o vinho resplandeça.

Pela Graça imortal dos teus Reinados Que a Vinha os frutos desabroche iriados.

Que frutos, flores, essa Vinha brote Do céu sob estrelado chamalote.

Que a luxúria poreje de áureos cachos

E eu um vinho de sol beba aos riachos.

Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli, Vinho é o clarão que teu Amor impele.

Que desabrocha ensangüentadas rosas Dentro das naturezas luminosas.

Ó Regina do Mar! Colei! Regina!

Ó Lâmpada das naves do Infinito!

Todo o Ministério azul desta Surdina Vem destranhos Missais de um novo Rito!

Poema-oração à Virgem, expressa o vago impulso para a liturgia e misticismo, sem contudo denotar a fé católica. Elaborado em dísticos estrofes de dois versos decassílabos, com rimas emparelhadas (a, a

b, b

O poeta dirige-se à Virgem a partir de vocativos “’O Virgem branca, Estrelas dos altares, “Ó

Rosa pulcra dos Rosai polares, ambientado-a não em lugar fechado e estático, mas em um plano etéreo, acima do espaço material, sugerido pelas palavras: siderais flores, Ave de

prata e azul, Ave dos astros

Infinito- a quem ele pede: Dá-me

Vinho douro, ideal, que purifica, repetindo sua invocação: Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli, “Ó Regina do Mar! Colei! Regina!

).

,

Gôndola etérea, Bandolim do luar, Lâmpada das naves do

o Bem

,

e finaliza como num ritual místico, sorvendo o

Lua Clâmides frescas, de brancuras frias, Finíssimas dalmáticas de neve Vestem as longas árvores sombrias, Surgindo a Lua nebulosa e leve

Névoas e névoas frígidas ondulam Alagam lácteos e fulgentes rios Que na enluarada refração tremulam Dentre fosforescências, calafrios

E ondulam névoas, cetinosas rendas

De virginais, de prônubas alvuras Vagam baladas e visões e lendas No flórido noivado das Alturas

E fria, fluente, frouxa claridade

Flutua como as brumas de um letargo

E erra no espaço, em toda a imensidade, Um sonho doente, cilicioso, amargo

Da vastidão dos páramos serenos, Das siderais abóbadas cerúleas Cai a luz em antífonas, em trenos, Em misticismos, orações e dúlias

E dentre os marfins e as pratas diluídas

Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,

Com grinaldas de roxas margaridas Vagam as virgens de cismares ermos

Cabelos torrenciais e dolorosos Bóiam na sondas dos etéreos gelos.

E os corpos passam níveis, luminosos, Nas ondas do luar dos cabelos

Vagam sombras gentis de mortas, vagam

Em grandes procissões, em grandes alas, Dentre as auréolas, os clarões que alagam, Opulências de pérolas e opalas.

E a Lua vai clorótica fulgindo

Nos seus alperces eterais e brancos,

A luz gelada e pálida diluindo

Das serranias pelos largos flancos Ó Lua das magnólias e do lírios!

Geleira sideral entre as geleiras! Tens a tristeza mórbida dos círios

E a lividez da chama das poncheiras

Quando ressurges, quando brilhas e amas, Quando as luzes e amplidão constelas, Com os fulgores glaciais que tu derramas Dás febre o frio, dás nevrose, gelas

A tua dor cristalizou-se outrora

Na dor profunda mais dilacerada

E das dores estranhas, ó Astro, agora, És a suprema Dor cristalizada!

Neste poema Cruz e Sousa é um compositor: com as tintas das palavras vai sugerindo um quadro em que a figura central, a Lua, através de uma linguagem cifrada, menos precisa e lógica, aos poucos surge misteriosamente, apresentando-se como um ser transcendente que pira sobre tudo:

Vestem as longas árvores sombrias, Surgindo a Lua nebulosa e leve

E erra no espaço, em toda a imensidade,

O poema ainda evidencia constante em seus versos por sua condição de negro eternamente

fascinado pela brancura:

Clâmides frescas, de brancuras frias,

Finíssimas dalmáticas de neve

Névoas névoas frígidas ondulam. Alagam lácteos e fulgentes rios

musicalidade, presença obrigatória em sua poesia, atinge ponto alto nos versos: E fria,

A

fluente, frouxa claridade / Flutua como as brumas de um letargo

sílabas: fri flu fro flu produzem uma espécie de polifonia, suavizada pelos sons das

palavras brumas de um letargo.

A

passam níveos, luminosos, /Nas ondas do luar e dos cabelos

Aqui a Lua é a mulher metaforizada em noiva, “Ó Lua das magnólias e dos lírios. Quando ressurges, quando brilhas e amas.

Com grinaldas

em que a combinação das

temática de imagens estelares se fundem a imagens físicas, corpóreas: e os corpos

vagam as Virgens

SupremoDesejo 1. Eternas, imortais origens vivas

2.

Da luz, do Aroma, segredantes vozes

3. Do mar e luares de contemplativas,

4. Vagas visões volúpticas, velozes

5. Aladas alegrias sugestivas

6. De asa radiante e branda de albornozes,

7. Tribos gloriosas, fúlgidas, altivas,

8. De condores e de águias e albatrozes

9. Espiritualizai nos Astros loiros.

10. Do sol entre os clarões imorredouros.

11. Toda esta dor que na minhalma clama

12. Quero vê-la subir, ficar cantando

13. Na chama das Estrelas, dardejando

14. Nas luminosas sensações de chama.

· Considerando o aspecto formal, este poema é um soneto (14 versos disposto em dois quartetos e dois tercetos) rimas alternadas (a b a b) ricas e pobres.

· Quanto ao aspecto estilístico temático, desde o título já ocorre uma postura subjetiva, revelando um desejo supremo, em que o adjetivo não tem uma definição rigorosa;

· A DOR (verso 11), para ele, física, sentida, é, através de sinestesias, elevada a algo espiritual, etéreo, em que se misturam imagens visuais (imortais origens vivas/ da

Luz) e olfativas (do Aroma

)

e auditivas (

segredantes

vozes

)

· Essas imagens ganham amplitude com o pedido para que a sua dor seja

espiritualizada: Espiritualizai nos Astros louros

chama

Toda essa dor que na minhalma

”“Quero

vê-la subir, ficar cantando / Na chama das Estrelas

· Há forte presença de palavras imagens que remetem à idéia de luz e de vozes

domar

Astros loucos do Sol .

,

vagas visões

,

Aladas alegrias sugestivas asa radiante e branca,

,

· verso, (4): Vagas visões volúpticas, velozesproduz aliteração, que também ocorre nas palavras: albornoses, gloriosas, fulgidas, altivas, albatrozes, sol- esse recurso reforça a sugestão espacial bem definida com o verbo subir: Toda essa

dor

Quero vê-la subir

As palavras ganham significado transcendente, absoluto, com maior expressividade ao serem

grafadas com a maiúsculas alegorizantes

do Aroma

,

nos Astros,

das

Estrelas.

Como se fosse possível, o poeta remete sua dor a um outro plano, numa atitude ao mesmo tempo masoquista e libertadora.

Encarnação Carnais, sejam carnais tantos desejos, Carnais, sejam carnais tantos anseios, Palpitações e frêmitos e enleios, Das harpas da emoção tantos arpejos

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, À noite, ao lugar, entumescer os seios Lácteos, de finos azulados veios De virgindade, de pudor, de pejos

Sejam carnais todos os sonhos brumos De estranhos, vagos, estrelados rumos

Onde as Visões do amor dormem geladas

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias Formem, com claridades e fragrâncias, A encarnação das lívidas Amadas!

* Enfatizando a temática sexual, esse soneto mostra a violenta atração do poeta por imagens de forte sensualidade, repetidas vezes, como nos versos: Carnais, sejam carnais tantos desejos. Essa carnalidade explícita é suavizada na figura das lívidas Amadas, embora

reforcem a sua obsessão pela cor branca e por tudo aquilo que lhe sugere brancura:

seios lácteos, de finos e azulados veios

provocada pelos versos: sonhos, palpitações desejos e ânsias / Formem, com claridades e

fragrâncias

nunca foi plenamente realizado.

os

.

A imagem se completa com a sinestesia

.

A cor e o cheiro se fundem como elemento essencial do erotismo cujo desejo

Braços Braços nervosos, brancas opulências Brumais brancuras, fúgidas brancuras, Alvuras castas, viginais alvuras, Lactescências das raras lactescências.

As fascinantes, mórbidas dormências Dos teus braços de letais flexuras, Produzem sensações de agres tonturas, Dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes Que prendem, tetanizam como os herpes, Dos delírios na trêmula coorte

Pompa de carnes tépidas e flóreas, Braços de estranhas correções marmóreas Abertos para o Amor e para a Morte!

Mais um hino à brancura, ao seu desejo incontido pela mulher branca (desejado pela mulher de classe dominante?) Nesse soneto fica evidente o seu desejo físico, palpável, metaforizado na imagem erótica de:

Braços nervosos, Brancas opulênciasProduzem sensações de agres torturas

Todas essas imagens são marcadas por uma angústia e tensão, características de um simbolista cujo desejo carnal ficou sempre irrealizado, pois o seu fim tanto pode ser o Amor como a Morte.

Serpente de Cabelos A tua trança negra e desmanchada por sobre o corpo nu, torso inteiriço, claro, radiante de esplendor e viço ah! lembra a noite de astros apagada.

Luxúria deslumbrante e aveludada através desse mármore maciço da carne, o meu olhar nela espreguiço

felinamente, nessa trança ondeada.

E fico absoluto, num torpor de coma,

na sensação narcótica do aroma, dentre a vertigem túrbida dos zelos.

És a origem do Mal, és a nervosa serpente tentadora e tenebrosa, tenebrosa serpente de cabelos!

Dentro da temática da sensualidade esse soneto canta as formas femininas e compara a mulher a uma serpente, criando uma imagem de forte apelo erótico:

Luxúria deslumbrante e aveludada/ através desse mármore maciço/

de carne Seduzido pelo desejo, ele se identifica com um animal que:

o

meu olhar nela espreguiço / felinamente, nessa trança ondeada.

Mas tudo fica no plano da imaginação, que o deixa absorto, num torpor de coma, na sensação narcótica, a vertigem- (de másculo reprimido) Finaliza relacionando a imagem feminina à“origem do Malnuma visão ao mesmo tempo sensual e mística.

Siderações Para as Estrelas de cristais gelados as ânsias e os desejos vão subindo, galgando azuis e siderais noivados de nuvens brancas e amplidão vestindo

Num cortejo de cânticos alados os arcanjos, as cítaras ferindo, passam, das vestes nos troféus protelados, as asas de outro finamente abrindo

Dos etéreos turíbulos de neve claro incenso aromal, límpido e leve, as ondas nevoentas de Visões levanta

E as ânsias e os desejos infinitos

vão com arcanjos formulados ritos da Eternidade que nos Astros canta

Outra temática presente nos seus poemas é o Misticismo característica da nova fase (Simbolismo) em que se opõem matéria e espírito, corpo e alma.

Há um clima onde predomina o vago, o abstrato, porém voltado para uma esfera superior, aqui evidenciado através das palavras:

Para as estrelas/

Mais do que nunca, há uma linguagem simbólica intensamente subjetiva que busca o eu no

universo, a essência do ser humano, através de incursões a regiões etéreas, espaciais, ilimitadas: a amplidão vestindo, os arcanjos / Num cortejo de cânticos alados, passam

O vocabulário foi cuidadosamente trabalhado através de palavras e expressões que acentuam

a sugestão mística: arcanjos, turíbulos, incenso, infinitos, ritos, Eternidade.

as

ânsias e desejos vão subindo/ galgando azuis i siderais noivados

Ângelus

Ah! lilazes de Ângelus harmoniosos, Neblina vesperais, crepusculares, Guslas gementes, bandolins saudosos, Plangências magoadíssimas dos ares

Serenidades etereais dincensos, De salmos evangélicos, sagrados, Saltérios, harpas dos Azuis imensos, Névoas de céus espiritualizados.

Ângelus fluidos, de luar dormente, Diafaneidades e melancolias Silêncio vago, bíblico, pungente De todas as profundas liturgias.

E nas horas dos Ângelus, nas horas

Do claro-escuro emocional aéreo, Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras Ondulações e brumas do Mistério.

Surges talvez, do fundo de umas eras De doloroso e turvo labirinto,

Quando se esgota o vinho das Quimeras

E os veneno românticos do absinto.

Apareces por sonhos neblinantes Com requinte de graça e nervosismos, Fulgores flavos de festins flamantes, Como a Estrela Polar dos Simbolismos.

Num enlevo supremo eu sinto, absorto, Os teus maravilhosos e esquisitos Tons siderais de um astro rubro e morto, Apagado nos brilhos infinitos.

O teu perfil todo o meu ser esmalta

Numa auréola imortal de formosuras

E aprece que rútilo ressalta

De góticos missais de iluminuras.

Ressalta com a dolência das Imagens, Sem a forma vital, a forma viva,

Com os segredos da Lua nas paisagens

E a mesma palidez meditativa.

Nos êxtases dos místicos os braços Abro, tentado da carnal beleza

E cuido ver, na bruma dos espaços,

De mãos postas, a orar, Santa Teresa!

Em Cruz e Sousa, menos que o significado denotativo, as palavras revelam nuanças melódicas e multi-significativas.

A leitura desse, como da maioria dos seus poemas, é pura sugestão que revela outras

dimensões de mundo: Serenidades eterais dincensos, Névoas de céus espiritualizados.

As palavras perdem seu valor expressivo racional para desaguara num universo simbólico, através de semelhanças(1), comparações(2), analogias(3) e sinestesias(4):

1. Neblinas vesperais, crepusculares

2. Quando se esgota o vinho das Quimeras
3.

4. Tons siderais

bandolins

saudosos,/ Plangências magoadíssimas

apagado nos brilhos.

Sonoridade e musicalidade ao mesmo tempo suave e intensa, típicas expressões do simbolismo, como nestes versos em que a repetição do sintensifica um clima indefinido,

vago:

Ah! Lilazes de Ângelus harmoniosos, Neblinas vesperais, crepusculares Guslas gementes, bandolins saudosos Plangências magoadíssimas dos ares

e em Fulgores flavos de festins flamantesa aliteração, de forma sutil, cria uma música de palavras. Há o encontro com o sagrado, não aos molde das religiões, mas na imaginação, totalmente livre de estereótipos:

Serenidades eterais dincensos De salmos evangélicos, sagrados,

E cuido a ver, na bruma dos espaços, De mãos postas, a orar, Santa Teresa!

SinfoniasdoOcaso Musselinosas como brumas diurnas descem do ocaso as sombras harmoniosas, sombras veladas e musselinosas para as profundas solidões noturnas.

Sacrários virgens, sacrossantas urnas, os céus resplendem de sidéreas rosas, da lua e das Estrelas majestosas iluminando a escuridão das furnas.

Ah! por estes sinfônicos ocasos

A terra exala aromas de áureas vasos,

Incensos de turíbulos divinos.

Os plenitúnios mórbidos vaporam

E como que no Azul plangem e choram

cítaras, harpas, bandolins, violinos

O soneto é construído com a mistura de um vocabulário ora litúrgico: “”Sacrários, virgens, sacrossantas, incensos, turíbulos, divinose ora cósmico: ocaso, céus, sidéreas, Lua, Estrelas, criando imagens de luz, de transparência, de brancura que promovem uma viagempara além do tempo e do espaço: uma viagem espiritual, abstrata. É muito forte a presença da sinestesia em que o apelo olfativo a terra exala aromas de áureos vasos.Se encontra com sons musicais: E como que no Azul plangem e choram

cítaras, harpas, bandolins, violinos

sensaçõe s anunciadas no título através da palavra

Sinfonia.

CONSIDERAÇÕESFINAIS

Em Missal, o autor diz: Para mim, as palavras, como têm colorido e som, têm do mesmo modo sabor. Essa concepção de poesia foi a marca de Cruz e Sousa.

Tendo começado a escrever ainda sob a influência parnasiana e condoreira, compôs, no início de sua atividade literária, poemas antiescravagistas. Mas a força da estética simbolista o conquistou definitivamente: abusou de uma linguagem menos precisa e lógica, mais sugestiva e musical por meio do ciframento, da ambigüidade e de associações inesperadas ou inexplicáveis, para que ela pudesse aproximar-se daquilo que a razão seria incapaz de perceber, atingindo assim algum tipo de transcendência. Por isso, chegou-se a dizer que sem ele não teríamos essa estética em nossa literatura.

Autor da mais famosa aliteração simbolista, cuja musicalidade tornou inigualável esta estrofe do poema Violõesquechoram:

Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices vorazes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas

Embora inicialmente estivesse preso a um subjetivismo, no qual expressa sua dor e sofrimento de homem negro, sua obra evoluiu para posições universalizantes ao sintonizar-se com a dor e a angústia do ser humano.

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