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Introdução aos Estudos literários II: Literatura, Correntes teórico-críticas

Introdução aos Estudos literários II:

Introdução aos Estudos literários II: Literatura, Correntes teórico-críticas
Introdução aos Estudos literários II: Literatura, Correntes teórico-críticas

Literatura, Correntes teórico-críticas

Universidade Estadual de Santa Cruz Reitor Prof. Antonio Joaquim da Silva Bastos Vice-reitora Profª. Adélia

Universidade Estadual de Santa Cruz

Reitor Prof. Antonio Joaquim da Silva Bastos

Vice-reitora Profª. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro

Pró-reitora de Graduação Profª. Flávia Azevedo de Mattos Moura Costa

Diretor do Departamento de Letras e Artes Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos

Moura Costa Diretor do Departamento de Letras e Artes Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos Ministério

Ministério da

Educação

Moura Costa Diretor do Departamento de Letras e Artes Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos Ministério

Ficha Catalográfica

I61

Introdução aos estudos literários II : Literatura, cor- rentes teórico-críticas : Letras Vernáculas, módulo 3, volume 2 / Elaboração de conteúdo: Sandra Ma- ria Pereira do Sacramento. – [Ilhéus, BA] : UAB- UESC, [2010]. 148 p. : il. ; anexos.

Inclui bibliografias. ISBN: 978-85-7455-194-4

1. Literatura – História e crítica. 2. Literatura – Esté- tica. 3. Estruturalismo. I. Sacramento, Sandra Maria Pereira do. II. Título: Letras Vernáculas : módulo 3, volume 2.

CDD 809

EAD - UESC

Coordenação UAB – UESC

Profª. Drª. Maridalva de Souza Penteado

Coordenação do Curso de Licenciatura em Letras Vernáculas (EAD)

Prof. Dr. Rodrigo Aragão

Elaboração de Conteúdo

Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento

Instrucional Design

Profª. Msc. Marileide dos Santos de Olivera Profª. Drª. Gessilene Silveira Kanthack

Revisão

Profª. Msc. Sylvia Maria Campos Teixeira

Coordenação de Design

Profª. Msc. Julianna Nascimento Torezani

Diagramação

Jamile A. de Mattos Chagouri Ocké João Luiz Cardeal Craveiro

Capa

Sheylla Tomás Silva

AULA I

Sumário

A concepção clássica do artístico

13

1. INTRODUÇÃO

15

2. PLATÃO

16

3. LONGINO

17

4. ARISTÓTELES

18

5. HORÁCIO

19

ATIVIDADE

21

RESUMINDO

21

REFERÊNCIAS

22

LEITURA RECOMENDADA

22

ANEXO

23

AULA II

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

27

1. INTRODUÇÃO

29

2. A LIBERDADE ROMÂNTICA

30

3. A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX

42

ATIVIDADE

45

RESUMINDO

45

REFERÊNCIAS

46

LEITURA RECOMENDADA

47

ANEXO

48

AULA III

A estilística da langue e a da parole

53

1 INTRODUÇÃO

55

2 ESTILÍSTICA

56

ATIVIDADE

61

RESUMINDO

62

REFERÊNCIAS

62

LEITURA RECOMENDADA

62

ANEXO

1

63

ANEXO

2

66

AULA IV

O formalismo russo: a autonomia do literário

69

1. INTRODUÇÃO

71

2. FORMALISMO RUSSO

72

ATIVIDADE

77

RESUMINDO

78

REFERÊNCIAS

78

LEITURA RECOMENDADA

79

ANEXO I

79

ANEXO II

80

AULA V

O new criticism: a visão imanentista da obra literária

85

1 INTRODUÇÃO

87

2 NEW CRITICISM

 

88

ATIVIDADE

91

RESUMINDO

92

REFERÊNCIAS

92

ANEXO I

93

AULA VI

O estruturalismo

95

1. INTRODUÇÃO

97

2. ESTRUTURALISMO

98

ATIVIDADE

105

RESUMINDO

105

REFERÊNCIAS

106

LEITURA RECOMENDADA

106

ANEXO

I

107

ANEXO II

111

AULA VII

A estética da recepção

115

1. INTRODUÇÃO

117

2. ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

118

ATIVIDADE

125

RESUMINDO

126

REFERÊNCIAS

126

LEITURA RECOMENDADA

127

ANEXO

128

AULA VIII

A estética da recepção

133

1. INTRODUÇÃO

135

2. PÓS-ESTRUTURALISMO

136

ATIVIDADE

144

RESUMINDO

144

REFERÊNCIAS

144

LEITURA RECOMENDADA

145

ANEXO

146

DISCIPLINA INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS LITERÁRIOS II: LITERATURA, CORRENTES TEÓRICO- CRÍTICAS
DISCIPLINA
INTRODUÇÃO AOS
ESTUDOS LITERÁRIOS II:
LITERATURA,
CORRENTES TEÓRICO-
CRÍTICAS

Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento

aula

1

A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO

Mostrar os conceitos básicos que digam respeito à Literatura, a partir da tradição clássica, com Platão, Aristóteles, Longino e Horácio.

clássica, com Platão, Aristóteles, Longino e Horácio. Ao final desta Aula I, você deverá identificar as

Ao final desta Aula I, você deverá identificar as várias concepções acerca do artístico à luz de Platão, Aristóteles, Longino e Horácio.

1

Aula

AULA 1

A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO

1 INTRODUÇÃO

AULA 1 A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO 1 INTRODUÇÃO Você, ao longo da Aula I, terá

Você, ao longo da Aula I, terá acesso às várias concepções clássicas acerca do artístico. Platão, Aristóteles, Longino e Horácio - para o último a literatura é capaz de despertar, no leitor, o êxtase do sublime - se aproximam da visão conteudística da literatura. Aristóteles, entretanto, prega a autonomia do artístico; ainda que tenha sido discípulo do primeiro e procure superá-lo, em grande medida, ainda que encerre seu pensamento, como os outros, aliás, vinculado à procura do êidos, isto é, da harmonia perfeita do absoluto, do mundo das essências.

ATENÇÃO

Antes do início desta Aula I, você deverá ter lido:

• o capítulo 2 de Gêneros Literários, de Angélica Soares;

• o capítulo 3, mais especificamente, da

p. 23 à p. 28,

Acízelo de Souza;

de Teoria da Literatura, de Roberto

o capítulo 3, de Teoria da Literatura “ Revisitada”, de Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi;

• toda a obra Arte Retórica e Arte Poética de Aristóteles;

• toda a obra A poética clássica de Aristóteles, Horácio, Longino*.

* As referências das obras encontram-se no final da Aula I.

Horácio, Longino* . * As referências das obras encontram-se no final da Aula I. UESC Letras

UESC

Letras Vernáculas

15

Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A concepção clássica do artístico

teórico-críticas A concepção clássica do artístico 2 PLATÃO Platão, filósofo do período clássico da

2 PLATÃO

Platão, filósofo do período clássico da Grécia Antiga, não deixou um tratado específico sobre literatura. De algumas de suas obras, é que conseguimos retirar ensinamentos pertinentes ao artístico, como nos Diálogos, em Fedro, em Íon e em A República. Nos Diálogos, já aparece a preocupação de formulação de alguns postulados sobre a arte, em geral, e sobre a poesia, em particular. Em Fedro, sugere que o poeta deve ser considerado um ser inspirado, possesso, fora da racionalidade filosófica. Em Íon, por outro lado, vê o poeta, o rapsodo, como

um ser inspirado por um dom divino; tendo Sócrates como personagem. Esse, em diálogo com Íon, defende a opinião de que o rapsodo, ao declamar versos, contagia os ouvintes com alucinações, pois a poesia, sendo simulacro, constitui imitação da aparência e não da realidade. Sócrates, para justificar o conceito artístico de Platão, pergunta a Íon: Quem poderá julgar melhor se Homero tratou corretamente da arte da guerra, um rapsodo ou um general? Defendendo, em seguida, em favor do general e não do rapsodo, uma vez que o artista não conhece a natureza e mesmo a utilização das coisas. A palavra simulacro guarda o significado de simular, enganar. Para a literatura, é utilizada como um princípio de imitação que o poeta faz da chamada realidade:

de imitação que o poeta faz da chamada realidade : SAIBA MAIS ΙΩΝ — Íon —

SAIBA MAIS

ΙΩΝ Íon — pertence ao primeiro grupo dos diálogos de Platão e relata a conversa entre Sócrates e Íon de Éfeso, um rapsodo muito conhecido em Atenas. Não sabemos a data exata da composição; mas, a partir de diversas informações contidas no texto, é possível situá-la entre 394 e 391 a.C.

Fonte: http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0337

A República: no século IV a.C., em data imprecisa, surgiu em Atenas a primeira concepção de sociedade perfeita que se conhece. Trata-se do diálogo “A República” (Politéia), escrito por Platão, o mais brilhante e conhecido discípulo de Sócrates. As ideias expostas por ele - o sonho de uma vida harmônica, fraterna, que dominasse para sempre o caos da realidade - servirão, ao longo dos tempos, como a matriz inspiradora de todas as utopias aparecidas e da maioria dos movimentos de reforma social, que, desde então, a humanidade conheceu. Fonte: http://educaterra.terra.com.br/ voltaire/politica/platao.htm

Por outro lado, a imitação artística usa o lado ‘inferior’ das faculdades humanas, e quando ela se dirige ao público é essa parte inferior que ela procura estimular. Basicamente a poesia é produto de um conhecimento falho, emprega as faculdades inferiores da alma humana e estimula exatamente o que há de ‘desprezível’ no espírito do público (GONÇALVES; BELLODI, 2005, p.3).

A questão do simulacro foi estudada por Platão, quando fala em A

República sobre o problema do conhecimento na literatura. Para ele,

a imitação da chamada realidade, feita pela poesia, só alcançaria o

terceiro estágio da verdade; enquanto que o produto elaborado pelo artesão ocuparia o segundo estágio, porque este se encontra mais próximo da natureza reproduzida; cabendo, entretanto, somente ao filósofo, o alcance do mundo das ideias, refutando, assim, o simulacro.

Em A República, Platão faz concessão ao poeta desde que esse

16

o simulacro. Em A República , Platão faz concessão ao poeta desde que esse 16 Módulo

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

1

Aula

esteja a serviço da educação do povo grego, admitindo somente a poesia que se adequasse à lei e à razão humana, através de hinos aos deuses e em louvor aos homens famosos. Em diálogo com Glauco, afirma:

Quanto a seus protetores, que, sem fazer versos, amam

a poesia, permitiremos que defendam em prosa e nos

mostrem que não só é agradável, mas também útil, à república e aos particulares para o governo da vida. De bom grado os ouviremos, porque com isso só temos a lucrar, se nos puderem provar que aí se junta o útil ao agradável (PLATÃO, 1994, p.403).

E o princípio utilitarista da literatura ganhou acolhida entre os romanos e influenciou a cultura ocidental posterior. Ao colocar, portanto, o literário a serviço do ideológico, com o propósito de ter existência reconhecida, é necessário ser útil à sociedade grega na formação de seus concidadãos. A razão, assim, devia conter a emoção, contrária a qualquer manifestação do desejo, fazendo, entretanto, concessão ao belo, ao bom e ao justo, quando o artístico deve estar em comum acordo com a ética.

3 LONGINO

Não se sabe se o pensador grego Longino, de fato, viveu. Fala-se de um “pseudo-Longino” , entretanto, a obra Do sublime, a ele atribuída, abriu uma nova concepção do literário, ainda que esteja vinculada ao pensamento platônico, no que diz respeito à função utilitarista da literatura. Do sublime encerra a virtude da literatura como capaz de despertar, no leitor, o êxtase do sublime, através de técnica artística adquirida pelo trabalho e afinco do escritor. Longino destaca a importância na ênfase dada, no texto, ao uso das palavras capazes de empreender a reflexão no leitor:

das palavras capazes de empreender a reflexão no leitor: SAIBA MAIS Glauco: em A Repúbli- ca

SAIBA MAIS

Glauco: em A Repúbli- ca, aparece um grupo de amigos: Sócrates,

dois irmãos de Platão - Glauco e Adimanto - e vários outros persona- gens, que serão pro- vocados pelo mestre.

O diálogo vai tratar de

assuntos relacionados

à organização da so-

ciedade e à natureza

da política. Na Repúbli- ca ideal, concebida por Platão, o governo deve estar nas mãos dos filósofos, que são aqueles mais próximos da verdade, da ideia do bem e da justiça.

A investigação platônica

utiliza o método dialé- tico (palavra que tem, na sua origem, a noção

de “diálogo”). Esse pro-

cedimento consiste em apreender a realidade, através de posições contraditórias, até que uma delas é finalmente entendida como verda- deira e a outra como fal-

sa. A dialética platônica

é um processo indutivo,

que vai da parte para o todo.

Fonte: http://filosofandoehisto-

riando.blogspot.com/2009/08/

os-dialogos-de-platao.html

Quando, pois, uma passagem, escutada muitas vezes por

um homem e sensato e versado em Literatura, não dispõe

a sua alma a sentimentos elevados, nem deixa no seu

pensamento matéria para reflexões além do que dizem as palavras, e, bem examinada sem interrupção, perde em apreço, já não haverá um verdadeiro sublime, pois dura apenas o tempo em que é ouvida. Verdadeiramente grande é o texto com muita matéria para reflexão, de árdua ou, antes, impossível resistência e forte lembrança, difícil de apagar (1981, p.76-7).

UESC

Letras Vernáculas

17

Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A concepção clássica do artístico

teórico-críticas A concepção clássica do artístico Assim, a leitura de uma obra bem elaborada, capaz de

Assim, a leitura de uma obra bem elaborada, capaz de despertar

o êxtase sublime, faz-se ecoar por muito tempo na mente do leitor

atento, ao mesmo tempo em que se artístico.

dinamiza a potencialidade do

4 ARISTÓTELES

Aristóteles, discípulo de Platão, distancia-se do mestre em suas

colocações acerca do artístico. Para quem a literatura é verdadeira

e séria, por princípio, uma vez que o poeta ocupa-se do que poderia

ter acontecido, segundo a verossimilhança ou a necessidade, e não com o que aconteceu como o faz o historiador. No capítulo IX da sua Arte Poética, que nos chegou de forma incompleta, afirma “a poesia

é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a

poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular “(ARISTÓTELES, 1964, p. 278). Aristóteles, então, destaca a autonomia do artístico, na medida em que o vê como uma unidade, como um todo orgânico, em transcendência com a realidade evocada. Por isso, o conceito de cópia, de mímesis, deve ser entendido como uma espécie de recriação não assujeitada aos princípios da racionalidade, uma vez que essa

é capaz de criar um mundo coerente em sua universalidade, com

harmonia e perfeição. A catarse é outro conceito utilizado por Aristóteles, para definir

a purificação dos sentimentos: temor ou piedade, experimentados pelo expectador, diante da tragédia. O autor propõe que:

[O] terror e a compaixão podem nascer do espetáculo

cênico, mas podem igualmente derivar do arranjo dos fatos, o que é preferível e mostra maior habilidade no

Como o poeta deve proporcionar-nos o prazer

de sentir compaixão ou temor por meio de uma imitação, é evidente que essas emoções devem ser suscitadas nos ânimos pelos fatos (ARISTÓTELES, 1964, p. 588).

poeta. [

]

Neste sentido, a obra de arte desperta o prazer e faz melhorar o espírito. Aristóteles, ao contrário de Platão, que usa o método dedutivo e normativo para falar da arte, não encerra, em seus escritos, nenhum preceito a ser seguido pelo artista, é antes

ontológico e indutivo. E o princípio de imitação aristotélico liga-se às formas literárias na poesia épica e na poesia em geral, na tragédia

e na comédia. Na poesia, ela ocorre de modo indireto, pela mediação

18

na tragédia e na comédia. Na poesia, ela ocorre de modo indireto, pela mediação 18 Módulo

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

1

Aula

narrativa; na tragédia e na comédia, de modo direto, através da ação dos atores. Logo, Aristóteles inaugura uma concepção do literário, em que a forma é valorizada em detrimento do conteúdo. Além da Arte Poética, o filósofo nos deixou a Arte Retórica, em que são colocadas questões atinentes à persuasão no texto literário, fora do contexto judiciário. A Retórica, para ele, é comparável à Dialética, no sentido

socrático, isto é, a arte do diálogo. Em resposta a Platão, afirma que

a Retórica, em si, não é má, deve ser, antes, bem usada na ágora, a serviço da democracia.

A Retórica é útil porque o verdadeiro e o justo o são, por natureza, melhores que seus contrários. Donde se segue que, se as decisões não forem proferidas como convém, o verdadeiro e o justo serão necessariamente sacrificados:

resultado este digno de censura (ARISTÓTELES, 1964, p.

20).

resultado este digno de censura (ARISTÓTELES, 1964, p. 20). Ontológico : que diz respeito à ontologia.
resultado este digno de censura (ARISTÓTELES, 1964, p. 20). Ontológico : que diz respeito à ontologia.
Ontológico : que diz respeito à ontologia. É a parte da filosofia, chamada de “filosofia

Ontológico: que diz respeito à ontologia. É a parte da filosofia, chamada de “filosofia primeira” por Aristóteles, denominada, posteriormente, de metafísica (pura ou geral).

Etimologicamente, significa

a “ciência do ente”, isto é,

a doutrina do Ser supremo ou divino.

Fonte: Dicionário de Filosofia, 1969, p.305.

Ágora: praça das antigas cidades gregas, na qual se fazia o mercado e onde se reuniam, muitas vezes, as assembleias do povo.

Fonte: Novo Dicionário Aurélio

da Língua Portuguesa - Aurélio

Buarque de Holanda Ferreira

Assemelha-se, portanto, à Dialética e sua tarefa não se resume

a persuadir, mas a discernir os meios a serem utilizados a propósito

de uma questão. A Retórica teve seguidores no mundo clássico e, na Roma de Cícero, (séc. I a.C) ganhou destaque. Quintiliano, por exemplo, escreveu Instituições oratórias já no século 1 da Era Cristã, em que disserta sobre eloquência, através do uso de tropos como metáfora, sinédoque, metonímia, alegoria, ironia, hipérbole e outros.

SAIBA MAIS

A tendência para a imitação é instintiva do homem, desde a infância. Neste ponto distingue-se de todos os outros

seres, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação (ARISTÓTELES, 1964, p. 266).

Quanto à epopéia, por seu estilo corre parelha com a tragédia na imitação de assuntos sérios, mas sem empregar um só metro simples e a forma narrativa. Nisto a epopéia difere da tragédia (ARISTÓTELES, 1964, p. 270).

A comédia é imitação de maus costumes, não contudo de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso

que é ridículo. O ridículo reside num defeito e numa tara que não apresentam caráter doloroso ou corruptor (ARISTÓTELES, 1964, p. 269).

caráter doloroso ou corruptor (ARISTÓTELES, 1964, p. 269). 5 HORÁCIO Horácio é considerado o grande codificador

5 HORÁCIO

Horácio é considerado o grande codificador das ideias platônicas de cunho extraliterário, e dinamizador das ideias do filósofo grego em toda a Europa, com o princípio de Docere cum delectare, isto é, Ensinar deleitando, em que a literatura tem algo a ensinar para o seu leitor. Horácio altera em grande medida os preceitos aristotélicos. E a teoria desenvolvida durante o período clássico renascentista deve-se ao que foi codificado por Horácio, poeta da Roma antiga.

UESC

Letras Vernáculas

19

Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A concepção clássica do artístico

teórico-críticas A concepção clássica do artístico SAIBA MAIS Hexâmetro Dactílico : é uma forma de
teórico-críticas A concepção clássica do artístico SAIBA MAIS Hexâmetro Dactílico : é uma forma de

SAIBA MAIS

Hexâmetro Dactílico: é uma forma de métrica poética ou esquema rítmico. É tradi- cionalmente associado à poe- sia épica, tanto grega quanto latina, como, por exemplo, a Ilíada e a Odisséia de Homero e a Eneida de Virgílio. Um dác- tilo é uma sequência de três sílabas poéticas, a primeira longa e as duas seguintes breves. Portanto, o verso hexâmetro dactílico ideal consiste em seis (do grego hexa) pés, cada um sendo um dactílico. Tipicamente, porém, o último pé do verso não é um dactílico, mas sim um espondeu ou um troqueu, ou seja, a penúltima sílaba é sempre longa e a última sí- laba pode ser breve ou longa.

Fonte: http://greciantiga.org/

arquivo.asp?num=0161

A ars poetica horaciana está encerrada na Epistola ad Pisones., carta escrita em hexâmetros dactílicos ao Cônsul romano Lúcio Pisão

e a seus filhos sobre teoria literária, pois esses manifestavam grande interesse pelas artes e, em especial, pela literatura, tendo sido, inclusive, preceptor dos infantes. Segundo Pires:

Com sentido altamente normativo, esta epístola é um verdadeiro código de preceitos a serem seguidos pelos que pretendiam produzir uma obra-de-arte literária. Sua

importância começou a ser reconhecida por Quintiliano –

(PIRES, 1989, p.19).

algumas gerações mais tarde -, (

)

O período clássico, a Idade Média e o Neoclassicismo, com

Boileau serão influenciados, sobremodo, pelos preceitos pragmáticos horacianos de conceber o artístico. A atenção dada à ordem e à coerência no uso das palavras, bem como à unidade de tempo, lugar

e ação, fizeram-no ponto de referência para os neoclássicos.

E Rogel Samuel confirma a afirmação: “E a idéia horaciana

de que cada gênero deve ter um único assunto, um caráter, uma linguagem e um metro apropriado se tornou doutrina central na crítica dos séculos XVII e XVIII”. (SAMUEL, 2002, p. 49).

A literatura aí é concebida como resultado de um domínio

técnico, ao qual se submete a inspiração, na junção, portanto, entre talento e arte. Sugere àqueles, que se iniciem neste ofício, a humildade para receber críticas e o uso do tempo para que o texto possa ser guardado e avaliado posteriormente, de forma mais detida. Em sua ars poetica, Horácio afirma:

No âmago das palavras, deverás também ser útil e cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras

mais correntes. Se por ventura for necessário dar a conhecer coisas ignoradas, com vocábulos recém-

] podes fazê-

lo e licença mesmo te é dada. Desde que a tomes com discrição. Assim, palavras há pouco forjadas, em breve terão ganho crédito se, com parcimônia, forem tiradas da fonte grega.

http://www.latim.ufsc.br/986ED7F3-3F3A-4BC2-BBE3

criados e formar palavras nunca ouvidas [

Veja que, para o romano, o literário é consequência de um fazer trabalhoso, que altera o sentido das palavras usadas na linguagem corrente. O conceito de conotação, séculos mais tarde, cunhado pelo estruturalista Roman Jakobson, já se encontra de forma rudimentar em seus escritos.

20

estruturalista Roman Jakobson, já se encontra de forma rudimentar em seus escritos. 20 Módulo 3 I

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

1

Aula

1 Aula A TIVIDADE 1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta aula? 2. Em

ATIVIDADE

1 Aula A TIVIDADE 1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta aula? 2. Em
1 Aula A TIVIDADE 1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta aula? 2. Em
1 Aula A TIVIDADE 1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta aula? 2. Em

1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta aula?

2. Em que aspecto Aristóteles se distancia da concepção artística platônica?

3. O que Platão fala acerca da poesia n’Os Diálogos, em Fedro, em Íon e n’A República?

4. O que significa a expressão Docere cum delectare?

5. O que são mímesis e verossimilhança para Aristóteles?

6. Em que medida Longino se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?

7. Por que, para Aristóteles, a Retórica se assemelha à Dialética socrática?

8. Horácio se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?

9. Boileau, responsável pela disseminação, na Europa, do preceito clássico acerca do artístico, faz que colocações?

UESC

RESUMINDO

acerca do artístico, faz que colocações? UESC RESUMINDO Você foi apresentado, nesta Aula I, às várias

Você foi apresentado, nesta Aula I, às várias concepções clássicas acerca do artístico. Deve atentar para o fato de que Platão inaugura o enfoque do literário, pelo viés do conteúdo, tendo em Longino e em Horácio, da tradição romana, seus seguidores, enquanto Aristóteles se distancia de seu mestre, ao valorizar a autonomia do artístico.

enquanto Aristóteles se distancia de seu mestre, ao valorizar a autonomia do artístico. Letras Vernáculas 21

Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A concepção clássica do artístico

teórico-críticas A concepção clássica do artístico R E F E R Ê N C I A
teórico-críticas A concepção clássica do artístico R E F E R Ê N C I A

R E F E R Ê N C I A S

ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.

ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.

ENCICLOPÉDIA Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.

Le Petit Larousse Illustré, Larousse. Paris: 1998.

PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de Janeiro: Presença, 1989.

PLATÃO. A República. Tradução de Jair Lot Vieira. São Paulo: EDIPRO,

1994.

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:

Vozes, 2002.

SILVA,

Almedina,1975.

Vitor

Manuel

de

A.

Teoria

da

literatura.

Coimbra:

SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,

2004.

22

LEITURA RECOMENDADA

ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.

ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.

SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.

2000. SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura . São Paulo: Ática, 2004. Módulo 3 I
2000. SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura . São Paulo: Ática, 2004. Módulo 3 I

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

1

1 ANEXO
ANEXO
ANEXO

PLATÃO: nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos

e abastados, de antiga e nobre casta. Ao seu temperamento artístico

deu, na mocidade, livre curso, que o acompanhou durante a vida toda,

manifestando-se na expressão estética de seus escritos. Suas obras até hoje são objeto de análise e apreciação, a mais conhecida, entretanto,

é A República, em que defende, na forma de diálogo, um modelo aristocrático de poder, governado pelos intelectuais.

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/platao.htm Ilustração - Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm99/icm21/images/images/Plato.gif

ARISTÓTELES: (384-322 a.C) foi um filósofo grego nascido na cidade de Estagira, na Calcídica, Macedônia, distante 320 quilômetros de Atenas. Essa cidade foi por muito tempo colonizada pelos jônicos, e, em virtude disto, ali se falava um dialeto jônico. O nome do pai de Aristóteles era Nicômaco, um médico. Aristóteles foi criado junto com um grupo de médicos, amigos de seu pai. Nicômaco chegou a servir a corte macedônica, a serviço do rei Amintas, pai de Felipe, futuro rei. Na sua juventude, teria jogado fora seu patrimônio e, aos dezoito anos, foi para Atenas, a fim de aperfeiçoar sua espiritualidade, e lá ingressou na Academia, onde se tornou discípulo de Platão, o que marcaria profundamente sua biografia.

Aula
Aula
de Platão, o que marcaria profundamente sua biografia. Aula Fonte: hLttp://www.consciencia.org/aristoteles.shtml

Fonte: hLttp://www.consciencia.org/aristoteles.shtml Ilustração - Fonte: http://www.ilt.columbia.edu/Publications/Projects/digitexts/aristotle/bio_aristotle.html

HORÁCIO: (65-8 a.C.) poeta latino; nasceu em Venúsia. Dono de estilo puro e rigoroso, onde a brevidade da metáfora, alia-se à surpreendente economia verbal. Sua obra exerceu influência na literatura ocidental.

UESC

Fonte: Enciclopédia Barsa. vol.15, 1966, p.248. Ilustração - Fonte: http://www.carpegeel.be/hora.aspx

Letras Vernáculas

Enciclopédia Barsa. vol.15, 1966, p.248. Ilustração - Fonte: http://www.carpegeel.be/hora.aspx Letras Vernáculas 23

23

Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A concepção clássica do artístico

teórico-críticas A concepção clássica do artístico Quintiliano: nasceu em Calahorra, no ano de 35, e faleceu
teórico-críticas A concepção clássica do artístico Quintiliano: nasceu em Calahorra, no ano de 35, e faleceu

Quintiliano: nasceu em Calahorra, no ano de 35, e faleceu em Roma, no ano

96. Foi professor de retórica, filólogo conceituado e advogado. Recebeu toda

a sua educação em Roma, onde, mais tarde, abriu uma escola de Retórica. Foi o primeiro professor a ser pago pelo Estado.

Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1617. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Calahorra,_estatua_de_Quintiliano.JPG

Boileau: Nicolas Boileau - (1636-1711), escritor francês,

Boileau: Nicolas Boileau - (1636-1711), escritor francês, historiador de Luís

XIV, autor de uma célebre Arte Poética (1674), que contribuiu para disseminar

o ideal literário do classicismo em todo o Ocidente.

Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1190. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nicolas_Boileau.jpg

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Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nicolas_Boileau.jpg 24 Módulo 3 I Volume 2 E A D

Módulo 3

I

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Suas anotações

Suas anotações

aula

2

A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX

Apresentar os conceitos básicos que digam respeito à Literatura, de acordo com Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética e da liberdade românticas; bem como mostrar a influência da História nas teorias críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson.

com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson. Ao final desta Aula II, espera-se que você esteja

Ao final desta Aula II, espera-se que você esteja dominando teorias tributárias ao historicismo do século XIX e seus representantes mais significativos que respondem pelo Romantismo e pelo Realismo-naturalismo.

2

Aula

AULA 2

A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX

1

INTRODUÇÃO

DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX 1 INTRODUÇÃO Nesta Aula II, vamos trabalhar com conceitos básicos

Nesta Aula II, vamos trabalhar com conceitos básicos que digam respeito à Literatura, bem como a influência da História nas teorias críticas do século XIX, com os conceitos de arte para Hegel, Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética e da liberdade românticas; bem como a realista e a naturalista, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson.

ATENÇÃO

Antes do início desta Aula II, você deverá ter lido:

• os capítulos 7 e 8, de Períodos Literários, de Lígia Cademartori;

• os capítulos 8 e 11, de Introdução à filosofia da arte, de Benedito Nunes;

• o capítulo 6, especificamente, da p. 74 à p. 98 de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi;

• O capítulo 3, especificamente, da p. 28 à p. 33, de Teoria da Literatura, de Roberto Acízelo de Souza;

• os capítulos 1, 2 e 3 de O Caráter Social da Ficção do Brasil, de Fábio Lucas*.

* As referências das obras encontram-se no final da Aula II.

do Brasil, de Fábio Lucas*. * As referências das obras encontram-se no final da Aula II.

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Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX 2 A LIBERDADE ROMÂNTICA O Romantismo

2 A LIBERDADE ROMÂNTICA

O Romantismo foi um movimento artístico, político e filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII, na Europa, que perdurou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo, que marcou o período neoclássico, e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os

estados nacionais na Europa. E o princípio historiográfico da época significou uma grande mudança de perceber o mundo, ao dar destaque

à

vida coletiva e aos seus modos de atribuir sentidos comuns, pois

o

homem percebeu que vive em comunidade, que lhe dá sentido de

existência. É o que diz Victor Manuel de A. Silva, em sua Teoria da Literatura (1975):

Logo no dealbar do século XIX, Mme. de Staël demonstrou na sua obra intitulada De la Littérature, que a literatura é intimamente solidária com todos os aspectos da vida coletiva do homem, verificando-se que cada época possui uma literatura peculiar, de acordo com as leis, a religião e os costumes próprios dessa época (SILVA, 1975, p. 444).

A partir do Romantismo, o homem percebe-se um ser histórico, tendo a História e a Crítica literárias condicionadas a uma perspectiva historicista de ver o fenômeno literário. A História Literária, por exemplo, estará ligada à filologia em busca da reconstituição e compreensão dos textos literários do passado e a crítica, por sua vez, valorizará tudo o que diga respeito ao passado e à sua herança como justificativa do presente. Para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo, sob pena de prejudicar o rigor lógico, pois o mesmo é multifacetado em seus temas e motivos. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira (1976), trata-se de um momento de definição alinhada aos valores burgueses no Ocidente, a partir da Revolução Francesa de 1789, ainda que essa tenha vários desdobramentos posteriores no século seguinte. Para o estudioso, ocorre uma série de mudanças, até então nunca vista na Europa, diante de uma nova classe em ascensão. Neste momento, então:

Definem-se as classes: a nobreza, há pouco apeada do poder; a grande e a pequena burguesia, o velho campesinato, o operariado crescente. Precisam-se as visões da existência: nostálgica, nos decaídos Ancien Regime; primeiro eufórica, depois prudente, nos novos proprietários; já inquieta e logo libertária nos que vêem bloqueada a própria ascensão dentro dos novos quadros;

30

libertária nos que vêem bloqueada a própria ascensão dentro dos novos quadros; 30 Módulo 3 I

Módulo 3

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2

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imersa ainda na mudez da inconsciência, naquele para os quais não soara em 89 a hora da Liberdade-Igualdade- Fraternidade (BOSI, 1977, p.99).

da Liberdade-Igualdade- Fraternidade (BOSI, 1977, p.99). SAIBA MAIS Mundo Reificado: para Marx e Engels, em A

SAIBA MAIS

Mundo Reificado: para Marx e Engels, em A

Ideologia Alemã (1986), ao falarem na divisão do trabalho, afirmam que, na produção mecanizada,

o operário serve à máquina, tornando-se

simples apêndice desta e o princípio subjetivo

da divisão do trabalho desaparece, em face da

objetivação do complexo de produção. Neste momento, ocorre a alienação, o trabalhador é distanciado daquilo que produz e o produto do seu trabalho se torna reificado, isto é, coisa (do Latim res,rei), porque passa a valer pela própria realidade. Assim, a crise do artesanato, graças à Revolução Industrial, com a produção em série, traz desdobramentos para o social, o econômico e o ideológico; estendendo-se, dessa sorte, à arte e ao artista. Um exemplo do processo de reificação, de objetificação do trabalhador, que

se torna um autômato, encontramos no filme

Tempos Modernos (1931), dirigido e encenado por Charles Chaplin.

Fonte: SACRAMENTO, 2004, p.45.

A literatura do período romântico, se,

por um lado, endossará as ideias correntes burguesas e estará também disponível para compor as comunidades imaginadas (ANDERSON, 2008), não tarda a expor as fraturas advindas da impossibilidade de implementação da utopia social. Weber (2004), em sua análise clássica sobre

a modernidade, vai dizer que essa já

nasceu sob a égide da crise, uma vez que

oportuniza a alteração da visão tradicional

do mundo, amparada sobremodo na religião,

substituída pela racionalização, colocando o

homem em três esferas, enquanto pai de

família, trabalhador e cidadão. Göethe, ao

se referir à literatura do período, advoga para o clássico a saúde e,

para o romântico, a doença. Nesse processo, a ânsia de totalização

vai-se colocar para o artista que detém a noção de finitude, em uma sociedade capitalista cada vez mais burocratizada.

A obra de arte, fruto de um olhar crítico ao que a circunda,

encarna a busca de totalidade, denunciadora de um mundo reificado, uma vez que o eu não se encontra integrado a ele próprio e ao que o cerca. A poética que marca o período romântico faz-se estruturada sobre o símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre-

sença da alegoria. Tanto o símbolo, quanto a alegoria são tropos, isto

é, figuras de linguagem, que refletem um ideal de unidade, reivin-

dicado por uma época. O símbolo estrutura-se, ainda, em uma dimensão analógica de continuidade, enquanto a alegoria já indicia toda a impossibilidade reclamada pela busca de inteireza. Essa mostra as fraturas de uma realidade que não foi capaz de gerar o bem-estar apregoado pelo telos revolucionário, sintetizado na tríade Igualdade – Liberdade – Fraternidade. Vale destacar que o processo revolucionário francês estendeu-se por dez anos, sendo visto, por historiadores, em fases:

moderada (1789-1792), radial (1792-1794) e conservadora (1794- 1799). Essa última abriu espaço para o golpe do 18 Brumário, em alusão ao segundo mês do Calendário Revolucionário Francês, que esteve em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 1831, com

em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 1831, com Símbolo : aquilo
em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 1831, com Símbolo : aquilo

Símbolo: aquilo que, por

um princípio de analogia, representa ou substitui outra coisa. Fonte: Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa - Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

Alegoria: exposição de um pensamento sob forma figurada. Fonte: Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa - Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

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Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX SAIBA MAIS Telos: significa fim (finalidade),
SAIBA MAIS Telos: significa fim (finalidade), e que, por sua vez, remete à ideia de
SAIBA MAIS
Telos: significa fim (finalidade), e que, por sua vez,
remete à ideia de felicidade, à busca da vida boa. O
Bem, em si mesmo, é o fim a que todo ser aspira,
resultando na perfeição, na excelência, na arte
ou na virtude. Todo ser dotado de razão aspira ao
Bem como fim que possa ser justificado pela razão.
Teleologia foi um termo criado por Wolff para indicar
“a parte da filosofia natural que explica os fins das
coisas” ( Log., 1728, Disc. prael.,§ 85). O mesmo
que finalismo (v.).
Fonte: Dicionário de Filosofia, 1998, p. 943.
Igualdade – Liberdade - Fraternidade: trilogia
atribuída ao filósofo Jean-Jacques Rousseau,
de uso corrente durante a Revolução Francesa, a
partir de 1789; quando se inicia um longo período
de convulsões políticas; com desdobramentos de
várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia
constitucional e dois impérios.
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/lea4.htm
Figura 1: Reprodução da pintura de Delacroix La Libertè guidant le peuple. Neste quadro, aparecem
Figura 1: Reprodução da pintura de Delacroix La Libertè
guidant le peuple. Neste quadro, aparecem as classes
sociais, aliás, conceito firmado pelo Liberalismo, ainda que
se encontre, no mesmo, unidas por uma única causa: a
Liberdade.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Delacroix
Teleológico: diz-se de argumento, conhecimento ou explicação que relaciona um fato com sua causa final.
Teleológico: diz-se de
argumento, conhecimento
ou explicação que relaciona
um fato com sua causa
final.
Fonte: Novo Dicionário Aurélio
da Língua Portuguesa - Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira

a posterior ascensão do General Bonaparte,

que é considerado como o grande responsável pela consolidação dos ideais burgueses e que expandiu o militarismo da França e mesmo o da Europa, de um modo geral. Kant, em Crítica da faculdade do juízo

(1993), parte de dois tipos de finalidades para

a arte: a finalidade estética e a finalidade

teleológica. O juízo ou finalidade teleológica diferencia-se do estético porque aquele age se- gundo as exigências da razão, voltado para um objetivo, enquanto para o segundo, o objeto está relacionado a um fim subjetivo, de acordo com o sentimento de eficácia, experimentado pelo homem. Estas finalidades, ou juízos

reflexionantes, ficam sob o signo do como se, isto

é, do pensamento hipotético das possibilidades,

como fator transcendental. O ser humano é capaz de fazer um juízo para

qualificar determinado objeto de Belo ou não, e

o faz desinteressada e contemplativamente,

sendo um prazer subjetivo, porém universal, capaz de ser comunicável. Assim, o Belo tem um fim em si mesmo, pairando acima dos nexos de causa-efeito, dos fins objetivos naturais; e, por isso mesmo, nesta realidade, em suspenso, a liberdade se instala, visto aguardar a afirmação do Espírito, detentor dos “fins ideais da ordem ética” (NUNES, 1991, p. 50). Kant (1993), como era idealista, advogava para a ideia, interiorizada em cada um de nós, a detenção da Beleza, uma vez que esta é univer-

sal, acontece com todos os seres humanos. E

o prazer estético só ocorre devido ao jogo de imaginação. Este

institui-se vindo do singular, para, a partir daí, tentar extrair uma regra universal. Para Kant, o juízo estético ou de gosto está em conexão com o comunal, isto é, com a dimensão intersubjetiva (= política),

uma vez que, em sociedade, é ativado o sensus communis, isto é, uma concordância das sensações do que seja Belo e harmonioso,

e que depende do discurso para a sua comunicação, implicando a

interação dos homens “como criaturas limitadas à Terra, vivendo

32

implicando a interação dos homens “como criaturas limitadas à Terra, vivendo 32 Módulo 3 I Volume

Módulo 3

I

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cada qual precisando da companhia do outro,

mesmo para o pensamento” (ARENDT, 1993, p.37).

O conceito de juízo reflexionante estético alcança uma

amplitude durante o Romantismo, porque está sustentado sob a relativização do pensar, do criticar, em relação ao papel do filósofo e extensivo a qualquer pensante, envolvendo mesmo a própria poiésis artística. Para Arendt,

em comunidades, (

)

Kant insurge-se contra a tradicional distinção hierárquica que opõe a maioria filosofante à maioria ignorante, redefinindo-a nos termos da distinção entre o ator engajado na ação e o espectador crítico e imparcial que, se permanece alheio ao engajamento, nem por isso pretende-se portador de uma verdade contemplada [ ] (1993, p. 114).

Porque o ator é também espectador, visto ambos serem capazes de dispor da mente pensante. Ator e espectador são manei- ras de estar no mundo. Assim, o poeta, para o Romantismo, cons- titui aquele ser superior que é capaz de apreender, em formas, nos limites da legalidade da imaginação, o Absoluto, que detém toda a sabedoria. A obra de arte constitui aquilo que Walter Benjamin (1993) chamou de princípio monadológico, isto é, a obra como mônada, porque vale por si mesma, como objeto estético, mas não pode ser prescindida da reflexão social, na qual se inscreve, sendo, portanto, parte de um todo. O Romantizar está condicionado a um conceito que o irmana a todo o ethos do período chamado Romantismo. E, apesar de, a princípio, lembrar devaneio, alucinação, o termo prende-se a Romantisieren, que ganha uma amplitude de investigação. Assim, Novalis o tem “como a habilidade característica do gênio que vincula os objetos exteriores às idéias ao manipular os objetos exteriores como se fossem idéias” (apud SCHLEGEL, 1994, p. 12). Assim, Romantizar e Bildung complementam-se, em termos de ação, uma vez que o último vem de bilden (= cultivar), como elemento de formação, tanto daquele que cultiva, quanto do objeto cultivado, lembrando-nos a estreiteza desenvolvida entre o jardineiro e seu jardim.

No cerne desta questão, encontramos um afã inerente à busca

do contínuo, da totalidade harmoniosa, sem que a categoria de sujeito fique esquecida. E aspectos, aparentemente contrários, como vida e espírito, genérico e individual, natureza e cultura, tendem a se fundir num todo uníssono e orgânico, tornando-se este ideal romântico uma espécie de religião secularizada.

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Letras Vernáculas

Mônada: por ter significado diferente de Unidade (v.), esse termo designa uma unidade real inextensa,
Mônada:
por
ter
significado diferente de
Unidade (v.), esse termo
designa uma unidade
real inextensa, portanto
espiritual. Giordano Bruno
foi o primeiro a empregar
esse
termo nesse sentido,
concebendo a M. Como o
minimum, como unidade
indivisível que constitui
o
elemento de todas as
coisas (De minimo, 1591;
De Monade, 1591).
Fonte: ABBAGNANO, 1998,
p.680-690.
Ethos: na Sociologia, é
uma espécie de síntese
dos costumes de um povo.
O
termo indica, de
maneira geral, os traços
característicos de um
grupo, do ponto de vista
social e cultural, que o
diferencia de outros. A
palavra ethos tem origem
grega e significa valores,
ética, hábitos e harmonia.
É
o “conjunto de hábitos
e ações que visam o bem
comum de determinada
comunidade”. Ainda
mais especificamente, a
palavra ethos significava,
para os gregos antigos, a
morada do homem, isto
é,
a natureza.
Fonte: http://www2.fcsh.unl.
pt/edtl/verbetes/E/ethos.htm
Aula
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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Quando esta possibilidade não é alcançada,

Quando esta possibilidade não é alcançada, surge a ironia,

como índice do que Schiller chama de beleza lógica. Neste processo,

o indivíduo abandona qualquer modelo interpretativo anterior, para,

munido de seus próprios aparatos intelectuais, apreender aquilo que

o cerca e ansiar o absoluto. E aí, arte e filosofia imbricam-se, porque

esta, como elemento especulativo, é vista em trajeto de mão dupla de sensibilização do espírito e espiritualização do sensível, ao tentar

a viabilização do geral, universal, via particular. Particular o geral, eis

a audácia romântica. Os românticos utilizaram-se, sobremodo, do fragmento, do ensaio, como possibilidade, na finitude do provisório, do inacabado concreto. O fragmento vale-se da reflexão estética, que é um modo de interposição do sujeito cognoscente, entre o dado geral, firmado no conceito, e a noção de belo, fruto do livre-jogo. Walter Benjamin, em O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão, reproduzindo

o famoso fragmento 116 das lições da Atenuam de Schlegel, expõe

acerca da poesia, como medium-de-reflexão, isto é, um meio, uma forma de reflexão: “melhor flutuar pelas asas da reflexão poética no intermédio, entre o exposto e o expositor, livre de todo interesse e potenciar sempre novamente esta reflexão e multiplicá-la como série infindável de espelhos” (1993, p.72). Estriba-se o poeta romântico nos juízos reflexionantes estéticos, tendo como princípio o dado sentido pelo sujeito. E as regras aplicadas à arte, segundo Kant, são fornecidas pelo gênio, que possui talento (= dom natural), anterior à obra realizada, na esfera da natureza verdadeira. O artista gênio, ao representar uma determinada realidade, altera papéis até então auto-delimitantes, diante da vida, isto é, de espectador e ator. Hannah Arendt aproxima o gênio do ator político, pela sua tomada de posição, pelo seu juízo crítico, ainda que aquele paire na possibilidade de concretização, em seu ato investigativo. Neste senti- do, o artista é espectador porque as decisões mais concretas não de- pendem de si; ao mesmo tempo, é ator, ao expor sua subjetividade na polis, sobressaindo a autonomia do ego, além e acima das leis que faz. Para Walter Benjamin, em sua obra O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão, a arte deve ser vista na dimensão do mundo das ideias e não entendida presa a uma circunstância:

Correspondendo a ela, portanto, o Ideal enquanto o a priori do conteúdo agregado. A Idéia é a expressão da infinidade

Como Idéia entende-se

neste contexto o a priori de um método, [

da arte e de sua unidade. [

].

].

De um tal

a priori parte a filosofia da arte de Göethe (BENJAMIN,

34

1993, p.72).

]. De um tal a priori parte a filosofia da arte de Göethe (BENJAMIN, 34 1993,

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I

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Desse modo, Göethe aproxima-se do Ideal musal de arte dos gregos, com a soma dos conteúdos puros, quando estes atribuíam às musas a fonte de inspiração, em consonância com a ação de Apolo, possuidor dos puros conteúdos, limitados e harmônicos. Estes puros conteúdos seriam arquétipos invisíveis, presos

a preceitos naturais de origem e harmonia, somente intuíveis, não

alcançados pela obra de arte, sendo as únicas depositárias. Esses conteúdos puros não podem ser unidos com a natureza mesma, pois a obra de arte, por ser desinteressada, tem domínio nos seus próprios conteúdos. Apesar de a natureza verdadeira não aparecer na obra, paradoxalmente, só é intuível, imageticamente, aí. Neste sentido, o objeto artístico dá ao conteúdo, isto é, à representação do real, uma forma comparável a ela mesma. Portanto, o poeta como o gênio, ao vislumbrar a realidade criticamente, insere-se em uma dimensão utópica, à procura de uma

ordem social mais humanizada, constituindo-se na possibilidade de reconciliação da alma com a essência e o sentido da vida, fato só possível, para Lukács (1974), na Antiguidade Clássica, e, para Benjamin, na fase pré-capitalista, em que as relações interpessoais eram próximas, e havia a noção de totalidade, porque era estreita a aproximação entre produtor e produto. Estas constantes não guardam uma inteireza que, a princípio, poderia parecer; no entanto, sedimentam dados que nos autorizam identificar, ao longo da Modernidade, um processo contínuo de dilaceramento da alma humana, diante de um mundo reificado, no qual não existe qualquer possibilidade de integração e harmonia, uma vez que até as relações interpessoais viram mercadoria. O juízo de gosto ou estético kantiano, de acordo com o posicionamento de H. Arendt, em Lições Sobre a Filosofia Política de Kant (1993), abre uma possibilidade ao juízo político, sendo enquadrado, na esfera de mudanças, ao status quo, visto transitarem pela doxa do contingente, ao contrário do juízo do entendimento ou

do imperativo categórico, calcado o primeiro no necessário racional e

o segundo, no sentido do dever. Assim, a poiesis e a política encon-

tram-se no movimento da descontinuidade, deixando abertura ao inusitado utópico. Esta visão dialética de Aufhebung (= superação) não deixa de considerar todo o ganho da filosofia das Luzes, à qual se acrescenta

a possibilidade romântica, superando-se, assim, qualquer forma de

exclusão entre religião e ateísmo, de um lado, e espiritualismo e materialismo, de outro. Neste sentido, o bildung (= educação), como cultivo, como

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Letras Vernáculas

Apolo: filho de Zeus e Leto, e irmão gêmeo de Ártemis, deusa da caça. Era
Apolo: filho de Zeus e
Leto, e irmão gêmeo
de Ártemis, deusa
da caça. Era um dos
mais importantes e
multifacetados deuses do
Olimpo.
Fonte: http://www.
mundodosfilosofos.com.br/
apolo.htm
Modernidade: costuma
ser entendida como um
ideário ou visão de mundo
que está relacionada
ao projeto de mundo
moderno, empreendido
em diversos momentos ao
longo da Idade Moderna
e consolidado com a
Revolução Industrial. Está
normalmente relacionada
com o desenvolvimento do
Capitalismo.
Fonte: http://base.d-p-h.info/
pt/fiches/premierdph/fiche-
premierdph-3602.html
Aula
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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX autoentendimento, será utilizado como uma forma

autoentendimento, será utilizado como uma forma de alcançar

o outro, assumindo os artistas, assim, a missão de guias da

sociedade, a qual pretendem reformar, uma vez que esses detêm “o conhecimento dos segredos da Natureza” (NUNES,1991, p.52), ao mesmo tempo em que a obra encontra-se livre de regras externas no seu processo artístico em si, por transitar pelas representações da imaginação, distantes do conhecimento objetivo do Entendimento. Hegel, em Fenomenologia do Espírito (1992), estabelece

a passagem da consciência imersa em si, destacando a inserção

do humano, a partir dessa última, na dimensão do histórico- cultural, chegando, no fim da obra, na revelação histórica do Espírito Absoluto, alcançando as três formas de estar no mundo:

arte: (intuição), religião (representação) e filosofia (conceito). Ele destaca a possibilidade de homologia entre o espírito e a cultura, ou entre conceito e história, rumo a uma “história conceituada.” Entretanto, subsume o sujeito cognoscente, aquele capaz de conhecer, de entender, enquanto mediador, ao espírito absoluto, impossibilitando-o de alterar o devir. No cerne desta questão, encontramos um afã inerente ao próprio homem, em busca do contínuo, da totalidade harmoniosa, sem que a categoria de sujeito fique esquecida, algo aventado como precípuo para a modernidade. A partir dessa, portanto, os paradigmas passados foram questionados e a arte começa por refletir a instabilidade do gênero humano, colocando-o em constante conflito entre os valores anteriores e aqueles que traziam ares de conquista e emancipação. Dizemos isso, porque, por conta de movimentos sociais de libertação, ainda no século XIX, como o Socialismo Utópico, o Anarquismo, o Marxismo, a Comuna de Paris, o Cartismo, o Ludismo, entre outros, há uma espécie de reversão da mímesis,

que passa a ceder espaço a uma arte participação, de recusa, uma vez que o ideário de racionalidade não foi capaz de gerar o bem- estar esperado, como apregoavam os líderes revolucionários da aurora da Liberdade.

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estar esperado, como apregoavam os líderes revolucionários da aurora da Liberdade. 36 Módulo 3 I Volume

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2 Aula UESC SAIBA MAIS Socialismo Utópico: o pensamento socialista foi primeiramente formulado por Saint- Simon

SAIBA MAIS

Socialismo Utópico: o pensamento socialista foi primeiramente formulado por Saint- Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen (1771-1858). O socialismo defendido por estes autores foi, mais tarde, denominado de socialismo utópico por seus opositores marxistas (os quais, por oposição, se autodenominavam socialistas “científicos”), e vem do fato de seus teóricos exporem os princípios de uma sociedade ideal sem indicar os meios para alcançá-la. O nome vem da obra Utopia de Thomas More (1478-1535).

Fonte: http://www.mundoeducacao.com.br/historiageral/socialismo-utopico.htm

Anarquismo: é uma filosofia política que engloba teorias, métodos e ações que objetivam a

eliminação total de todas as formas de governo compulsório. De um modo geral, anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita e, assim, preconizam

os tipos de organizações libertárias.

Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.24.

Marxismo: é o conjunto de ideias filosóficas, econômicas, políticas e sociais elaboradas primariamente por Karl Marx e Friedrich Engels e desenvolvidas, mais tarde, por outros

seguidores. Baseado na concepção materialista e dialética da História, interpreta a vida social conforme a dinâmica da base produtiva das sociedades e das lutas de classes daí consequentes.

O marxismo compreende o homem como um ser social histórico e que possui a capacidade de

trabalhar e desenvolver a produtividade do trabalho, o que diferencia os homens dos outros animais e possibilita o progresso de sua emancipação da escassez da natureza, o que proporciona o desenvolvimento das potencialidades humanas.

Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p. 315.

Comuna de Paris: foi a primeira experiência de ditadura do proletariado na história, governo revolucionário da classe operária criada pela revolução proletária, em Paris, e durou 72 dias: de 18 de março a 28 de maio de 1871. A Comuna de Paris foi resultado da luta da classe operária francesa e internacional contra a dominação política da burguesia. A causa direta do surgimento da Comuna de Paris consistiu no agravamento das contradições de classe entre o proletariado e a

burguesia decorrente da dura derrota sofrida pela França, na guerra contra a Prússia (1870-1871).

O empenho do governo reacionário de Thiers da fazer recair o fardo dos gastos da guerra perdida

sobre os amplos setores da população originou um poderoso movimento das forças democráticas.

Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/c/comuna_paris.htm

Cartismo: caracteriza-se como um movimento social revolucionário inglês, ocorrido entre 1836

e 1850, tendo como base a carta escrita pelo radical William Lovett, intitulada Carta do Povo, e

enviada ao Parlamento Inglês. Nesta, encontram-se as seguintes reivindicações políticas: sufrágio universal, eleições anuais, voto secreto e elegibilidade para os não proprietários.

Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.100

Ludismo: é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho, trazida pela Revolução

Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo ludita (do inglês luddite) identifica toda pessoa que

se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias, geralmente, vinculadas ao movimento

Fonte: http://www.suapesquisa.com/industrial/ludismo.htm

Letras Vernáculas

37

Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX SAIBA MAIS O Terceiro Estado: na
e a visão historicista das teorias críticas do século XIX SAIBA MAIS O Terceiro Estado: na

SAIBA MAIS

O Terceiro Estado: na França do Antigo Regime (Ancien Régime) e durante a Revolução Francesa, o termo Terceiro Estado (fr. Tiers État) indicava as pessoas que não faziam parte do clero (Primeiro Estado) nem da nobreza (Segundo Estado). Desses termos, veio o nome medieval da assembleia nacional francesa: os Estados Gerais (fr. États Généraux), análogo ao Parlamento britânico, mas sem tradição constitucional dos poderes parlamentares:

a monarquia francesa reinava absoluta.

Fonte: http://variasvariaveis.sites. uol.com.br/burguesia.html

Cromwell: segundo Hugo, seria uma nova forma de poesia fruto dos tempos modernos que deveria superar por completo as velhas manifestações clássicas que se prendiam em demasia a regras fixas. Para chegar até seu objetivo principal, Hugo

realiza uma espécie de síntese histórica em que filia as formas de arte poética a três momentos do desenvolvimento histórico da humanidade, ou melhor, a três idades do mundo: os tempos primitivos, de primeiros encantos com

o

mundo, que seriam líricos

e

teriam nas odes e hinos

suas formas de expressão; os tempos antigos, em que

já haveria grandes impérios e

acontecimentos narrados em poemas épicos; e, por fim, os tempos modernos, que seriam

dramáticos.

Guardadas as discussões teóricas acerca da origem do romance, para Julia Kristeva de Le texte du Roman, encontra- se na narrativa pós-épica medieval, quando ocorre a dissolução da comunidade europeia sustentada em uma economia natural fechada e dominada pelo cristianismo (1970, p.19). Diderot, por

sua vez, não identifica qualquer vínculo entre o romance publicado,

a partir do século XVIII, com a produção estética daquele anterior.

E Kristeva identifica a mudança, que o romance tomou, em seus temas, após a Revolução Francesa. Para a teórica búlgara, radicada na França:

Por um romance, entendeu-se até hoje um tecido de acontecimentos quiméricos e frívolos, cuja leitura era perigosa para o gosto e para os costumes. Gostaria muito que se encontrasse um outro nome para as obras de Richardson, que educam o espírito, que tocam a alma, que respiram por todos os lados o amor do bem, e que são chamadas de romance (KRISTEVA,1970, p. 29).

Napoleão via o romance como uma forma de ter os pés

no chão, assim, essa narrativa foi considerada como a “revolução literária do Terceiro Estado”, durante a Restauração, iniciada em 1840 e esteve, entre as mais publicadas. Foram publicados, na França, durante o império napoleônico, anualmente, cerca de quatro mil romances, representando uma dinâmica cultural antes nunca vista no país! Enquanto, no teatro, surge o drama, mistura da tragédia com a comédia, do grotesco com o sublime. No famoso prefácio

do drama Cromwell, publicado em 1827, Victor Hugo coloca toda

a sua verve condoreira em defesa da inspiração e da autonomia do artista.

Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e

seria estranho que, nesta época, a liberdade, com a luz, penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais nativamente livre no mundo, as coisas do pensamento.

] [

Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras

regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre

toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição, resultam das condições de existência próprias para cada

assunto. [

O poeta, insistamos neste ponto, não deve,

pois pedir conselho senão à natureza, à verdade, e à inspiração, que é também uma verdade e uma natureza (HUGO, 2002, p.30).

]

Na linha de raciocínio de Paul Valéry, de que não há possibilidade

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p.30). ] Na linha de raciocínio de Paul Valéry, de que não há possibilidade 38 Módulo

Módulo 3

I

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2

Aula

de definir o Romantismo, sob pena de prejudicar o rigor lógico; vamos agora, analisar textos, que representam a visão multifacetada do romantismo. O primeiro deles é um soneto do poeta brasileiro Álvares de Azevedo, constante de Lira dos Vinte anos (1994):

Pálida, à luz da lâmpada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria Pela maré das águas embalada! Era um anjo entre nuvens d’ alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando Negros olhos as pálpebras abrindo Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo! Por ti – as noites eu velei chorando, Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

A imagem evocada pelo eu lírico é da mulher amada em um

sonho. De forma não definida, concentrada, nas duas primeiras estrofes do poema, essa mulher é descrita como estando mais distante, etérea, difusa e inatingível: “lâmpada sombria”, “Sobre o leito de flores ela dormia”, “lua por noite embalsamada”, “Entre as nuvens do amor ela dormia”, “virgem do mar”, “escuma fria”, “Pela maré das águas

anjo entre nuvens embalada”, “

banhava e se esquecia”. Por outro lado, nas estrofes seguintes, o ser amado ganha uma dimensão mais próxima possível de identificação,

mais bela”, “seio palpitando”, “Negros olhos “Formas nuas no leito resvalando”, “Não

rias de mim, meu anjo lindo!”, “

nos sonhos morrerei sorrindo!”. Apesar de os tercetos colocarem a mulher mais concreta, ela continua inacessível e distante, pois tudo não passou de um sonho. Tal atitude romântica coloca o ser amado em uma dimensão do sublime e da divindade; confirmando, assim, o que já foi dito acima, sobre o alcance dos puros conteúdos, presos a preceitos naturais

confirmando-se em: “ as pálpebras abrindo

embalada!“, “

em sonhos se

”,

as noites eu velei chorando!”, “

de origem e harmonia, alcançados pela obra de arte. Os conteúdos puros, de que fala Kant, em Crítica da faculdade do juízo (1993), dão à arte uma dimensão desinteressada, porque essa não deve remeter à realidade mais imediata. Nesta perspectiva, o poema em

UESC

Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX questão alcança o chamado princípio monadológico,

questão alcança o chamado princípio monadológico, Walter Benjamin (1993) e, da mesma sorte, se confirma o anseio de Romantisieren (romantizar) e de Bildung (cultivo) do eu poético e daquilo que ele enaltece, no caso, a figura feminina. Victor Hugo encerra, ao contrário dos poetas do ultraromantismo, de cunho escapista, como Álvares de Azevedo, uma opção pelo embate, frente aos problemas. Em Écrit, carta em versos, de 1846, no quinto livro, Contemplations, opta pelo enfrentamento revolucionário:

Les Révolutions qui viennent tout venger,

Font un bien éternel dans leur mal passager

A travers les rumeurs, les cadavres, les deuils,

L’écume, et les sommets qui deviennent écueils,

Les siècles devant eux poussent, désespérés,

Les Révolutions, monstrueuses marées,

Océans faits des pleurs de tout le genre humain.

[ As revoluções que vêm vingar tudo,/Fazem um bem

Através dos rumores, dos cadáveres,

dos lutos,/ Da espuma e dos cumes que se tornam escolhos,/ Os

séculos empurram na sua frente, desesperados,/As revoluções, marés

monstruosas,/Oceanos feitos dos prantos de todo o gênero humano] (apud

eterno no seu mal passageiro

/

PEYRE, 1971, p.87).

Assim, o poeta saúda as revoluções, vistas como solução para os males da sociedade de então, com possibilidade de um futuro glorioso para a França. Victor Hugo, assim como Lamartine, outro artista francês, tiveram grande influência na poética de Castro Alves, considerado como fiel herdeiro desses mestres. O baiano traz para a Literatura Brasileira o espírito de combate, alinhado à linha platônica de poetar; ainda que o Romantismo tenha se oposto ao modelo clássico, como já vimos acima. Tal sinal foi repetido muito depois, não mais à luz do Liberalismo, mas sim do Marxismo, por um Carlos Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo, entre outros. A causa maior defendida por Castro Alves (1964) é a Liberdade e atreladas a essa a Igualdade e a Fraternidade, universalizadas para todo o gênero humano, todos, em uma coordenada do espírito revolucionário de 1789. O poemeto épico O navio Negreiro do baiano guarda o tom condoreiro, de acordo com o seu antecessor Victor Hugo, isto é, com o uso de apóstrofes e hipérboles, que encerram a indignação do eu poético, bem como de hipérbatos, com inversões tão bruscas, que chegam a confundir o leitor. No sexto canto, do poema, o eu poético consegue empreender um embate crucial com os símbolos nacionais e históricos, que, a princípio, deveriam ser utilizados como índices de referência e

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que, a princípio, deveriam ser utilizados como índices de referência e 40 Módulo 3 I Volume

Módulo 3

I

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2

Aula

distinção, mas são rechaçados, pelo que significam.

E existe um povo que a bandeira empresta P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia! E deixa-a transformar-se em uma festa Em manto impuro de bacante fria!

Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia?!

Silêncio!

Que o pavilhão se lave no teu pranto

Musa! Chora, chora tanto

A bandeira, sendo um símbolo nacional, em uma epopeia clássica, ganharia a dimensão de enaltecimento e não de repulsa. Tal negação se justifica porque são nações que, em nome do lucro, - o tráfego dos navios negreiros rendia grandes somas – muitos viviam deste comércio repugnante; tanto, na África, na Europa, nas Américas, como no Brasil. Na estrofe seguinte, ocorre a abominação ao próprio pavilhão nacional. Especificamente, a instância poética se refere ao fato de o país ter-se sagrado vencedor da Guerra do Paraguai, há pouco extinta em março de 1870.

Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra, E as promessas divinas da esperança Tu, que da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança, Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!

Para, na estrofe seguinte, em tom de imprecação, através de vocativos, exortar José Bonifácio de Andrade e Silva, patrono da Independência do Brasil, a tomar uma providência efetiva contra a escravidão e, ao mesmo tempo, vindo a condenar a própria descoberta da América, quando diz:

UESC

Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu na vaga, Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia de mais

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo Andrada! Arranca este pendão dos ares! Colombo! Fecha a porta de teus mares!

Da etérea plaga

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Consequentemente, o regime feudal do Absolutismo,

Consequentemente, o regime feudal do Absolutismo, com seus valores e crenças, que motivaram a expansão marítima europeia, são colocados também em xeque, ao negar a dimensão histórica do feito de Colombo em 1492; uma vez que o Liberalismo acenava então com

outra coordenada histórica, fundada em dados igualitários para toda

a humanidade.

3 A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX

Entre outros teóricos, destaca-se Sainte-Beuve (1804-1868)

como um dos principais críticos europeus do século XIX, que institui

o método biográfico de análise literária; porque para ele, é impossível

avaliar uma obra sem conhecer seu autor, seu perfil psicológico e moral. Esteve muito comprometido com o Positivismo de Augusto Comte, quando via a História em uma coordenada de progresso, rumo ao estágio positivo da matematização da vida.

A par de Sainte-Beuve, ocorre a figura de Hyppolyte Taine

(1828-1893). Fortemente influenciado pelas ciências naturais e seus métodos, em seu determinismo racionalista, e os estende à crítica da Literatura. Nas palavras de Eduardo Portella et al., em Teoria Literária (1991):

A concepção literária de Taine exerceu uma larga influência por seu caráter tão claro quanto racionalista e como se depreende facilmente, o método literário científico parte da obra como pretexto para se concentrar no autor e sobretudo no homem e seu meio social. Predomina ainda o historicismo em detrimento do literário (PORTELLA et al.1991, p.23).

Logo, Taine passa a ver a obra artística como produto do meio, da raça e do momento histórico, pois toda raça vive em um meio

natural e sociopolítico, que age sobre a mesma, em um momento da evolução histórica.

O método biográfico, portanto, se volta para o meio, na busca

do entendimento da obra. Mas há ainda outros teóricos vinculados ao historicismo evolucionista como Brunetière, quando viu os gêneros literários como organismos vivos, com nascimento, crescimento e morte. Lanson (1857-1934), por sua vez, estabeleceu seu método de História Literária, semelhante ao filológico, trazendo à luz textos

europeus do passado ainda não estudados.

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ao filológico, trazendo à luz textos europeus do passado ainda não estudados. 42 Módulo 3 I

Módulo 3

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Os filmes indicados abaixo se vinculam, por suas temáticas,

ao conteúdo estudado nesta Aula II.

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (1989) Direção: Peter Weir. Com Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan
SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS
(1989)
Direção: Peter Weir. Com Robin Williams, Robert Sean
Leonard, Ethan Hawke
Sobre uma escola conservadora dos Estados Unidos
dos anos 50 do século passado, cujo professor de
literatura persuade seus alunos a lerem poesia como
forma de libertação. E reproduz bem a ambiência
vivida pelos poetas do romantismo: Göethe, Schiller,
Novalis e Schlegel, durante o Império alemão do
século XVIII, quando se reuniam em cavernas, em
uma espécie de confraria, para lerem poesias.
Aula
2
O CORCUNDA DE NOTRE DAME (1956) Direção: Jean Delannoy. Com Anthony Quinn e Gina Lollobrigida.
O CORCUNDA DE NOTRE DAME
(1956)
Direção: Jean Delannoy. Com Anthony Quinn e Gina
Lollobrigida.
Baseado na obra homônima de Victor Hugo, publicada
em 1831, se centra em torno de três personagens:
a cigana Esmeralda, o corcunda Quasímodo e o
pároco Claude Frollo. Além da atenção ao enredo,
o romance faz menção à sociedade parisiense do
século XV, com a presença de destaque o rei Luís XI.
Tais opções de enfoque, utilizadas por Victor Hugo,
respondem pela ânsia de liberdade romântica em
relação aos clássicos. Trata-se de uma temática que
expõe as mazelas socias de uma época, mas ainda
presente no século XIX, quando a obra foi escrita.

UESC

Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX SINFONIA DE PRIMAVERA (1983) Direção: Peter
SINFONIA DE PRIMAVERA (1983) Direção: Peter Shamony. Com Nastassja Kinski e Rodolf Hoppe. Baseado na
SINFONIA DE PRIMAVERA
(1983)
Direção: Peter Shamony. Com Nastassja Kinski e
Rodolf Hoppe.
Baseado na vida do compositor romântico Robert
Schumann, reflete a ambiência da sociedade do
Império alemão, do século XVIII.
O CORTIÇO (1977) Direção: Francisco Ramalho Jr.Com Betty Faria, Armando Bógus, Mário Gomes Baseado na
O CORTIÇO
(1977)
Direção: Francisco Ramalho Jr.Com Betty Faria,
Armando Bógus, Mário Gomes
Baseado na obra homônima do escritor maranhense
Aloísio de Azevedo. Obra e filme estão muito
comprometidos em interpretar a realidade à luz do
Naturalismo, em que o homem é visto como produto
do meio, da raça e do momento histórico, sem uma
perspectiva de subjetividade, bem próximo ao
animal.

44

momento histórico, sem uma perspectiva de subjetividade, bem próximo ao animal. 44 Módulo 3 I Volume

Módulo 3

I

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2

Aula

2 Aula A TIVIDADE 1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o

ATIVIDADE

2 Aula A TIVIDADE 1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o
2 Aula A TIVIDADE 1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o
2 Aula A TIVIDADE 1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o

1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo?

2 Kant, em A Crítica da faculdade do juízo (1993), afirma que a arte possui dois tipos de finalidade: a finalidade estética e a finalidade teleológica. Explique.

3 Como Kant define o Belo, a Beleza?

4 Disserte acerca da seguinte afirmação, feita durante a Aula II: A poética que marca o período romântico faz-se estruturada sobre o símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela presença da alegoria. Estes refletem um ideal de unidade, reivindicado por uma época.

5 Qual a concepção de arte em Fenomenologia do Espírito de Hegel?

6 É possível estabelecer um elo entre os puros conteúdos e o desinteresse artístico defendido por Kant?

7 De que modo as teorias de Sainte-Beuve, Brunetière, Lanson e de Taine estão em sintonia com a época em que surgiram?

8 Por que o romance foi considerado a “revolução literária do Terceiro Estado”?

9 Por que Victor Hugo insurge-se contra o modelo clássico?

10 De que forma o historicismo do século XIX influencia a crítica literária daquele momento?

UESC

RESUMINDO

a crítica literária daquele momento? UESC RESUMINDO Espera-se que você, ao final da Aula II, tenha

Espera-se que você, ao final da Aula II, tenha apreendido os conceitos básicos que digam respeito à Literatura, os conceitos de arte para Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética e da liberdade românticas; bem como a influência da História nas teorias críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson.

nas teorias críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson. Letras Vernáculas 45

Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX R E F E R Ê
e a visão historicista das teorias críticas do século XIX R E F E R Ê

R E F E R Ê N C I A S

46

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes,

1998.

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ARENDT, Hannah. Lições Sobre a Filosofia Política de Kant. Tradução de André Duarte de Macedo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier,1994.

BENJAMIN, Walter. O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão. Tradução de Marcio Seligmann-Silva. São Paulo: EDUSP, Iluminuras, 1993.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976.

BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Herder, 1969.

CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática,1997.

CALVET, Jean. Manuel illustré d’histoire de la littérature française. Paris: J. de Gigord, 1966.

Enciclopédia Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.

Grande Dicionário Delta Larousse. Editora Delta: Rio de Janeiro, 1973.

HEGEL, F. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 1992.

HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime: tradução do “Prefácio de Cromwell” Tradução de Celia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 2002.

HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.

KRISTEVA, Júlia. Le texte du roman. The Hague: Mouton, 1970.

LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo: Ática,

1985.

LUKÁCS, Georg. L’âme et les formes. Paris: Gallimard, 1974.

Ática, 1985. LUKÁCS, Georg. L’âme et les formes. Paris: Gallimard, 1974. Módulo 3 I Volume 2

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

2

Aula

UESC

NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática, 1991.

PEYRE, Henri. Qu’est-que c’est le Romantisme? France: Presses Universitaires de France, col. SUP, 1971.

PORTELLA, Eduardo, et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.

SACRAMENTO, Sandra. Nação, Identidade e Gênero na Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Caetés, 2004.

SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem, numa série de cartas de Friedrich Schiller. Tradução de Roberto Schwarz; Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras: 1995.

SCHLERGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos. Tradução de Victor-Pierre Stirnimann. São Paulo: Iluminuras: 1995.

SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.

de. Teoria da Literatura . São Paulo: Ática, 2004. R E F E R Ê N

R E F E R Ê N C I A S

LEITURA RECOMENDADA

CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática, 1997.

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.

LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo:

Ática, 1985.

NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática,

1991.

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,

2004.

Ática, 1991. SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura . São Paulo: Ática, 2004. Letras Vernáculas

Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX ANEXO Kant: Immanuel Kant ou Emanuel
ANEXO
ANEXO
historicista das teorias críticas do século XIX ANEXO Kant: Immanuel Kant ou Emanuel Kant ( Königsberg

Kant: Immanuel Kant ou Emanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de

1724 Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo alemão,

geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da

era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.

A filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica,

já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica

da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da

Razão Prática). Em sua terceira grande obra, A Crítica do Juízo, Kant se

esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo

natural e o da liberdade. A natureza talvez não seja apenas o domínio do

determinismo, mas também o da finalidade que aparece notadamente

na organização harmoniosa dos seres vivos.

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant2.htm Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg

Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg 48 Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 –
Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg 48 Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 –
Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg 48 Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 –

48

Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 – Paris 1945) foi um

incluem interesses em matemática, filosofia e música; autor de, entre

outras obras, de Le Jeune Parque (1917) e Charmes (1922).

Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 2014. Ilustração - Fonte:http://www.ts4.com/Quotes/QuotePaulValery.html

Weber: Maximillian Carl Emil Weber (Erfurt, 21 de abril de 1864 Munique,

14 de junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e

considerado um dos fundadores da Sociologia. Autor de Ética Protestante

e o Espírito do Capitalismo (1905), Cientista e o Político (1921), Ensaios

sobre a Teoria da Ciência (1965).

Fonte: HUISMAN, 2000, p. 609. Ilustração - Fonte:http://www.ocoruja.com/index.php/2009/max-weber/

Arendt: Hannah Arendt (Linden, 14 de outubro de 1906 Nova Iorque,

4 de dezembro de 1975) foi uma teórica política alemã, muitas vezes

descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou

para os Estados Unidos, durante a ascensão do nazismo, na Alemanha.

Entre suas obras de mais destaque estão Origens do Totalitarismo (1951)

e A condição humana (1959).

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm

Ilustração - Fonte: http://filosofiaportal.blogspot.com/

Ilustração - Fonte: http://filosofiaportal.blogspot.com/ Módulo 3 I Volume 2 E A D

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

Novalis: Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (Oberwiederstedt, Harz, 2 de maio de 1772 Weißenfels, 25 de março de 1801), Freiherr (Barão) von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudônimo Novalis, foi um dos mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do século XVIII e o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico.

Fonte: BRUGGER, 1969, p.498. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Novalis-1.jpg

Schiller: Johann Christoph Friedrich von Schiller, enobrecido em 1802 (10 de novembro de 1759 em Marbach am Neckar 9 de maio de 1805 em Weimar), mais conhecido como Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo e historiador alemão, e é tido como o mais importante dramaturgo alemão. Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século XVIII, e juntamente com Göethe, Wieland e Herder é representante do Romantismo alemão e do Classicismo de Weimar. Sua amizade com Göethe rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura alemã. Sua poesia também é famosa, como por exemplo, a Ode à Alegria (An die Freude), que inspirou Ludwig van Beethoven a escrever, em 1823, o quarto movimento de sua nona sinfonia.

Fonte: SCHILLER, 1995, p. 11-26. Ilustração - Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Friedrich_schiller.jpg

Schlegel: Friederich von Schlegel foi influenciado pela filosofia de Fichte. Em 1798 tornou-se companheiro (casado só em 1804) de Dorothea Veit (1763-1839), filha do filósofo judeu Moses Mendelssohn, cujo gosto literário o fortaleceu nas convicções românticas. Suas críticas magistrais do Wilhelm Meister, de Göethe, e de peças de Shakespeare foram incluídas no volume, editado juntamente com August Wilhelm Schlegel, Interpretações e críticas.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/friedrich-schlegel.jhtm Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Friederich_von_Schlegel.jpg

Göethe: Johann Wolfgang Von Göethe (1749-1832) foi um importante romancista, dramaturgo e filósofo alemão. Fez parte de dois movimentos literários importantes: romantismo e expressionismo. Apresentou também um grande interesse pela pintura e desenho. Juntamente com Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão Sturm und Drang.

Fonte: http://www.suapesquisa.com/pesquisa/goethe.htm Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Johann_Wolfgang_von_Goethe_%28Josef_

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Letras Vernáculas

Aula 2
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Introdução aos estudos literários II:

literatura, correntes teórico-críticas

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX

e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Lukács: Lukács György foi um filósofo
e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Lukács: Lukács György foi um filósofo
e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Lukács: Lukács György foi um filósofo
e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Lukács: Lukács György foi um filósofo
e a visão historicista das teorias críticas do século XIX Lukács: Lukács György foi um filósofo

Lukács: Lukács György foi um filósofo húngaro de grande importância

no cenário intelectual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács

refez, em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia clássica

alemã: inicialmente um crítico influenciado por Kant, depois o encontro

com Hegel e, finalmente, a adesão ao marxismo. Seu nome completo era

Georg Bernhard Lukács von Szegedin, em alemão, ou Szegedi Lukács

György Bernát, em húngaro.

Fonte: http://www.unicamp.br/cemarx/marianorma.htm Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luk%C3%A1cs_Gy%C3%B6rgy.jpg

Hegel: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 1831) foi um filósofo alemão. Recebeu sua formação no Tubinger Stift (seminário da Igreja

Protestante em Wurttemberg). Era fascinado pelas obras de Spinoza, Kant

e Rousseau, assim como pela Revolução Francesa. Muitos consideram

que Hegel representa o ápice do idealismo alemão do século XIX, que

teve impacto profundo no materialismo histórico de Karl Marx.

Fonte: BRUGGER, 1969, p. 498 - 499. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel00.jpg

Julia Kristeva: linguista e crítica literária de expressão francesa nascida

em 1941, em Sófia, na Bulgária. Estudou a literatura a partir de elementos

da linguística e da psicanálise.

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estruturalismo.htm Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Kristeva_p1200568.jpg

Diderot: Denis Diderot, escritor francês (Langres, 1713 – Paris 1784).

Filho da pequena-burguesia abastada, estudou em Londres e Paris, sem

escolher profissão determinada, reunindo conhecimentos enciclopédicos.

Ganhou a vida com trabalhos literários subalternos. Publicando, entre

outras obras, Pensées philosophiques (1746), tornou-se suspeito às

autoridades, como materialista e ateu; sua obra prima, entretanto, foi

a

Encyclopédie (1750-1772,) a qual reportou todo o conhecimento que

a

humanidade havia produzido até sua época. Como crítico de arte, foi

o

primeiro leigo a se dedicar à técnica da pintura. Seu ensaio sobre a

arte de atuar constitui a primeira contribuição de valor à crítica do teatro

moderno.

Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p.2184. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Denis_Diderot_%28Dimitry_Levitzky%29.jpg

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http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Denis_Diderot_%28Dimitry_Levitzky%29.jpg 50 Módulo 3 I Volume 2 E A D

Módulo 3

I

Volume 2

EAD

Victor Hugo: escritor francês (Bersançon 1802 – Paris 1885). De 1817

a 1830, é um jovem poeta de carreira, bem dotado, bem pensante e

monarquista. Publica em 1822, Odes et poésies diverses, quatro meses antes de se casar com Adèle Fouchet. Em 1827, publica o drama Cromwell. Os acontecimentos políticos de 1830, o desentendimento conjugal, a ligação amorosa com Jouliette Drouet (1833) determinam

profundamente mudanças nas idéias e na sensibilidade do escritor, que se afirma cada vez mais chefe do movimento romântico. Em 1841,

é eleito para a Academia Francesa de Letras. Entre suas obras estão

coletâneas líricas, peças de teatro e romances; com destaque para o drama Hernani, de 1830; o romance Notre Dame de Paris, de 1831; e Les Misérables, de 1862.

Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 3423. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victor_Hugo_001.jpg

Hyppolyte Taine: foi crítico, historiador e filósofo francês. Foi o filósofo do naturalismo. Para ele, se conhecemos a raça, o meio e o momento histórico, em que o homem foi criado, podemos saber seu pensamento

e seus sentimentos. Suas obras mais importantes são: De l’ intelligence (1870) e Philosophie da L’ Art (1882).

Fonte: CALVET, 1966, p. 770-771. Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hippolyte_taine.jpg

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Letras Vernáculas

Aula 2
Aula
2
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hippolyte_taine.jpg UESC Letras Vernáculas Aula 2 51

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Suas anotações

Suas anotações

aula

3

aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem

A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE

aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem
aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem
aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem
aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem
aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem
aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem
aula 3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE E nfocar os conceitos que envolvem

Enfocar os conceitos que envolvem a Estilística ligada à langue e aquela que prioriza a parole .

ligada à langue e aquela que prioriza a parole . Ao final desta Aula III, você

Ao final desta Aula III, você deverá conhecer os pres- supostos teóricos da corrente de abordagem do literá- rio: Estilística.

3

Aula

AULA 3

A ESTILÍSTICA DA LANGUE A A DA PAROLE

1 INTRODUÇÃO

3 A ESTILÍSTICA DA LANGUE A A DA PAROLE 1 INTRODUÇÃO Nesta Aula III, vamos estudar

Nesta Aula III, vamos estudar a corrente teórica Estilística. Os teóricos Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau dão ênfase, em seus estudos, à abordagem que privilegia a langue; ao contrário de Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso que veem a parole como princípio explicativo em suas análises.

ATENÇÃO

Antes do início desta Aula III, você deverá ter lido:

a obra A Linguagem Literária, de Domício Proença Filho;

o capítulo 15 de Teoria da literatura, de Victor Manuel de A. Silva;

o capítulo 1, especificamente, da p. 28 à p. 30, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;.

o capítulo 7, especificamente, da p.171 à p.178, de Teoria da Literatura “revisitada” de Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi.*

* As referências das obras encontram-se no final da Aula III.

e Zina Bellodi.* • * As referências das obras encontram-se no final da Aula III. UESC

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Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A Estilística da langue e a da parole

teórico-críticas A Estilística da langue e a da parole SAIBA MAIS Langue e Parole: língua versus
teórico-críticas A Estilística da langue e a da parole SAIBA MAIS Langue e Parole: língua versus

SAIBA MAIS

Langue e Parole: língua versus fala (discurso) é a dicotomia basilar da lin- guística saussuriana. Fun- damenta-se na oposição social/individual, extraída da Sociologia: a língua é da esfera social, ao passo que a fala é da esfera in- dividual. Para o mestre genebrino, linguagem é a faculdade que o indivíduo tem de falar uma língua.

Fonte:

edtl/verbetes/L/lingua.htm

http://www2.fcsh.unl.pt/

2 ESTILÍSTICA

O termo estilística, em outra acepção, já havia sido empregado

no século XVIII pelo filósofo alemão Novalis, como sinônimo de retórica. No século XX, porém, na esteira do Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, Charles Bally, seu aluno e genro, a partir do curso de férias ministrado pelo mestre, na Universidade de Genebra, institui a Estilística moderna, centrada na langue, enquanto expressão de sentimentos, ao contrário do enfoque linguístico, que se preocupa somente com a parte intelectual do nosso ser pensante. Para Bally:

A estilística estuda, portanto, os fatos de expressão da linguagem organizada sob o ponto de vista do seu conteúdo afetivo, i. e., a expressão dos fatos da sensibilidade através da linguagem e a ação dos fatos de linguagem sobre a sensibilidade (BALLY, s/d,

p.16).

Por fato estilístico, se entende como a menor unidade do texto. O autor, ao fazer determinadas escolhas, entre as previsíveis no código

linguístico, opta por um determinado fato estilístico. Entretanto, Bally não se dedicou ao texto literário, suas análises descritivas centraram- se apenas nos recursos estilísticos, em seu sistema de expressão, colocados pela língua, de modo geral, à disposição dos falantes como expressão de sentimento.

A Estilística, como a entende o suíço, está para a língua e não

para a fala e, neste sentido, para a norma, previamente, estabelecida para o usuário da língua. Nas palavras de Eugenio Coseriu:

[Trata-se do] estudo das variantes normais com valor expressivo-afetivo [no] estudo da utilização estilística normal das possibilidades que oferece um sistema daqueles elementos que são normalmente, na língua de uma comunidade portadores de um particular valor expressivo (1962, p.105).

Com Jules Marouzeau, ainda que seu enfoque permanecesse no nível da língua e não da fala, a Estilística moderna passa a incidir suas análises, em certa medida, no texto literário. Em uma perceptiva generalizante, de cunho científico, não se detém em um autor, mas em obras referentes a uma época de uma determinada literatura, a fim de apreender aspectos do estilo, como o uso de expressões, que remetem a questões concretas ou abstratas, de clichês, de construções frasais ou mesmo o vocabulário que aparente imitações de autores ou supostas influências, entre outros.

56

que aparente imitações de autores ou supostas influências, entre outros. 56 Módulo 3 I Volume 2

Módulo 3

I

Volume 2

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3

Aula

Na linha oposta à Estilística da langue, de filiação linguístico- positivista, surge a Estilística da parole, fortemente influenciada pela linguística idealista de raiz romântica. Entre seus grandes representantes estão: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso. Benedetto Croce teve o grande mérito de ter tirado a Estética do âmbito da Filosofia. Para quem a arte constitui um conhecimento intuitivo, fora da esfera intelectual, pois seus objetivos são intrínsecos a ela mesma. A arte não está, como a família platônica entende, a serviço da moral, ou de uma utilidade, além da expressão. Por apresentar a linguagem como atividade espiritual e criadora, a Estilística opõe-se também à visão naturalístico-positivista, que condiciona a arte ao meio, à raça e ao momento histórico, como viu Taine na segunda metade do século XIX.

Quer dizer, não existe qualquer realidade lingüística objetiva, de caráter social e comunitário – a langue de Saussure -, independentemente dos indivíduos singulares: existem, sim, atos lingüísticos individuais, livres criações do espírito, que apenas podem ser convenientemente estudados se se considerar a natureza poética (SILVA, 1975, p.601).

Logo, a língua é sempre artística, uma vez que o ato de fala está pleno de criatividade, ainda que nem toda fala seja digna de ser preservada para a posteridade, como deve acontecer com a obra de arte. Sendo o crítico um mediador, de cunho filológico, que deve se colocar entre a obra e o leitor. Karl Vossler, por sua vez, foi aquele que instituiu a estilística literária ou crítica estilística, a partir dos estudos de Vico, Humboldt e Croce. Sua percepção idealista vê a linguagem como atividade intuitiva, espiritual, que passa a existir na sua expressão verbal. E só pode ser considerada arte aquela obra, cuja linguagem sofreu modificação, somente, alcançada pela intuição individual.

Portanto, a estilística representa para Vossler o fundamento de toda a lingüística, visto que a linguagem é primordialmente poesia; e constitui igualmente o fundamento dos estudos literários, da crítica estético-literária, já que a poesia é essencialmente linguagem. Em lugar de estudos biografistas, sociológicos, moralísticos, etc, a obra poética exige o estudo do seu texto, da sua linguagem e da história do idioma em que está escrita, porque a língua aparece como a matriz que

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Letras Vernáculas

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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A Estilística da langue e a da parole

teórico-críticas A Estilística da langue e a da parole alimenta a potencialidade artística do escritor (

alimenta a potencialidade artística do escritor ( ) (SILVA, 1975, p. 603).

Vossler, ainda que visse o objeto estético como autônomo ao contexto, não deixou de privilegiar as circunstâncias culturais que precedem ao artístico. Leo Spitzer, por sua vez, foi influenciado por Vossler e o segue na concepção da arte destituída do contexto histórico ou de qualquer juízo de valor.

A Estilística de Spitzer valoriza o papel do artista, constituindo-se como uma ponte entre a Lingüística e a Literatura. Spitzer considerva a Lingüística como algo sem alma e a Estilística, para ele, deveria estabelecer uma ponte com a alma do artista. Foi influenciado por Freud, o conhecimento da Psicanálise proporcionou-lhe instrumentos para compreender certos problemas de Literatura (GONÇALVES; BELLODI, 2005, p.175).

Cada fato estilístico, presente no texto literário, para Spitzer, é pleno de gesto, no sentido psicanalítico, que indicia um estado de alma. Restringe-se, entretanto, em seu enfoque do fenômeno literário, à análise psicológica e não psicanalítica, uma vez que não chega a investigar os complexos, causadores das neuroses, estudados por Freud.

O método de análise literária genética spitziano fez escola e segue um processo que vai do autor à obra e da obra ao autor. Entre seus seguidores estão os espanhóis: Dámaso Alonso e Amado Alonso, entre outros. Com uma visão não formalista da obra, Damaso Alonso propõe um método fundamentado de análise, em que enfoca a figura do crítico e a do leitor comum; além de propor tipologias de estilos: o conceitual, o afetivo e o imaginário. Evidenciando as interrelações firmadas entre significante e significado, Eduardo Portella, et al. (1991) assevera:

Como entre o significante e o significado há inúmeras relações, a finalidade da Estilística consiste na análise dessas interrelações. Metodicamente a análise pode partir do significado para o significante ou de maneira inversa (PORTELLA et al., 1991, p.29).

Alonso critica Charles Bally porque esse se deteve na langue. Por ser uma Estilística da parole, seu método recria a intuição do poeta no texto, ainda que sua essência seja de impossível apreensão. Portanto, a Estilística, ao estabelecer métodos de análise, veio a

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apreensão. Portanto, a Estilística, ao estabelecer métodos de análise, veio a 58 Módulo 3 I Volume

Módulo 3

I

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EAD

ocupar tarefas outrora restritas ao campo da Retórica. Quando se fala em Estilística da langue, está-se levando

em conta a capacidade expressiva constante na própria língua, da qual o falante se utiliza,
em conta a capacidade expressiva constante na própria língua, da
qual o falante se utiliza, sem, de fato, acrescentar algo
de pessoal, enquanto sujeito da enunciação. Neste
tipo de análise, são consideradas somente as
três funções da linguagem, de - Karl Bühler,
posteriormente, ampliadas para seis com
Roman Jakobson - centradas, respectivamente,
na 1ª, 2ª e 3ª pessoas, a saber: função de
exteriorização psíquica, função apelativa e função
de
representação. Essas elencam a previsão de uso
do código lingüístico, isto é, o falante, ou extravasa
um sentimento, ou interfere sobre o receptor de sua
mensagem, ou ainda se refere ao mundo representado pelo código.
Figura 1 - Onde estão as áreas verdes?
Fonte: http://ocaosemvenancioaires.
blogspot.com/2009/09/meio-ambiente-
Vejamos esses usos, em exemplos abaixo:
por-cristian-deves.html
Aula
3

Vivemos, hoje em dia, com a preocupação constante ecológica.

O Planeta Terra pede socorro! Entretanto, um dos personagens da

charge reproduzida ao lado, leva às últimas conseqüências o seu compromisso com as gerações futuras.

O referido personagem, ao se utilizar da 1ª pessoa do singular: “Eu estou apenas assegurando meus 15m² de área verde, seu guarda.”, deixa que o seu receptor, no caso, o guarda que o interpela, tenha acesso às camadas mais profundas do seu ser, pondo, em evidência, a sua inquietação, diante de um tema tão sério para o ser humano. Trata-se o texto, a seguir, de uma propaganda, também comprometida com as questões ecológicas; mais racional em suas colocações, ao contrário do nosso personagem da charge, que age movido somente pela emoção.

do nosso personagem da charge, que age movido somente pela emoção. Revista Veja , set. 2009.

Revista Veja, set. 2009.

UESC

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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A Estilística da langue e a da parole

teórico-críticas A Estilística da langue e a da parole Veja que o texto, em destaque, volta-se

Veja que o texto, em destaque, volta-se para o receptor da mensagem “você”, ou seja, aquele com quem se fala, e faz a recomendação de como encaminhar o lixo doméstico para a reciclagem.

de como encaminhar o lixo doméstico para a reciclagem. Revista Veja , set.2009 - Edição 2129,

Revista Veja, set.2009 - Edição 2129, p.5-6.

Nesta propaganda, o emissor se detém em relatar algo que diz respeito ao mundo exterior comentado. “Ser forte é do Brasil. O banco que aumentou o crédito para o País enfrentar a crise também. Faz diferença ter um banco que é do Brasil.” Ainda que haja um forte apelo, implícito, sobre o receptor da mensagem, para que se torne cliente do BB e usuário de seus produtos, a mensagem se utiliza da 3ª pessoa, do que se fala, “O banco”. Em uma análise estilística de um texto literário, deve-se atentar para o uso das imagens sugeridas, a partir das escolhas expressivas utilizadas pelo eu poético. Leia, agora, o fragmento do Poema dos olhos da amada, presente em Poesia Completa e Prosa (1980), abaixo reproduzido, de Vinicius de Moraes:

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Ó minha amada Que os olhos teus São cais noturnos Cheios de adeus São docas mansas Trilhando luzes Que brilham longe Longe nos breus

Cheios de adeus São docas mansas Trilhando luzes Que brilham longe Longe nos breus Módulo 3

Módulo 3

I

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3

Aula

Se nos voltarmos para os recursos utilizados pelo poeta, no uso da camada fônica, isto é, de sons, veremos que ocorre apenas um par de rimas: teus/adeus; entretanto, a sonoridade, no mesmo, ocorre devido, principalmente, à aliteração, com a repetição de consoantes nasais, presentes ao longo do poema: /m/ e /n/, capazes de trazer para o leitor a sensação do balanço do mar próximo a um cais. Da mesma sorte que o uso da assonância, com a reincidência de vogais iguais, que, no caso, são /o/ e /a/, produzindo o mesmo efeito de previsibilidade do movimento da água, em um ancoradouro. Do ponto

de vista do conteúdo, entre os recursos estilísticos, de que o poeta se vale, estão: a antítese e a metáfora, respectivamente, luzes/breus; Que os olhos teus/ São cais noturnos/São docas mansas. Há que ser chamada a atenção para o uso da parataxe, isto é, de orações coordenadas: os olhos da amada/são cais noturnos cheios de adeus/

são docas

predominantes na lírica, que não está preocupada

, em relatar o mundo, antes opta pelo extravasamento de emoções; enquanto a hipotaxe requer um grau de racionalidade esperado principalmente pela narração, pelo texto em prosa. No poema em questão, mesmo com a presença de orações subordinadas, essas são antes coordenadas entre si: trilhando luzes (= que trilham)/ que brilham longe, longe nos breus. No ANEXO 1, desta Aula III, reproduzimos uma análise estilística feita sobre um soneto do poeta português Luís de Camões.

feita sobre um soneto do poeta português Luís de Camões. SAIBA MAIS Parataxe: é um recurso

SAIBA MAIS

Parataxe: é um recurso estilístico muito comum na poesia, facilmente identificável e que não tem sido, talvez pela própria obviedade de seus efeitos, objeto de maior atenção da crítica especializada. Consiste na conexão de constituintes linguísti- cos (frases ou catego- rias sintáticas) por co- ordenação.

Fonte: http://www.centopeia.net

/secoes/?ver=87&secao=ensaios

&pg=5

Hipotaxe: trata-se de uma conexão de frases por subordinação, isto é, com uma relação de dependência sintática.

Fonte:

net/secoes/?ver=87&secao=e

http://www.centopeia.

nsaios&pg=5

http://www.centopeia. nsaios&pg=5 A TIVIDADE 1. Explique o vínculo da Estilística de

ATIVIDADE

http://www.centopeia. nsaios&pg=5 A TIVIDADE 1. Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally
http://www.centopeia. nsaios&pg=5 A TIVIDADE 1. Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally
http://www.centopeia. nsaios&pg=5 A TIVIDADE 1. Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally

1.

Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally ao Estruturalismo.

2.

Qual a importância dos estudos de Jules Marouzeau para a Estilística?

3.

Explique o avanço dos estudos estilísticos vistos por Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso?

4.

Estabeleça a diferença entre a estilística da langue e a da parole.

UESC

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Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas

A Estilística da langue e a da parole

teórico-críticas A Estilística da langue e a da parole 3 RESUMINDO RESUMINDO Nesta Aula IV, você

3 RESUMINDO

RESUMINDO

da langue e a da parole 3 RESUMINDO RESUMINDO Nesta Aula IV, você estudou a corrente

Nesta Aula IV, você estudou a corrente literária Estilística, com os

teóricos da langue Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau

e os da parole: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso

Alonso e Amado Alonso.parole: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso 4 REFERÊNCIAS COSERIU, Eugeniu. Teoria del lenguaje y

4 REFERÊNCIAS

COSERIU, Eugeniu. Teoria del lenguaje y linguística general. Madrid:Leo Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso. 4 REFERÊNCIAS R E F E R Ê N

R E F E R Ê N C I A S

BALLY, Charles. Traité de stylistique française. Heidelberg: Winter, s/d.

Gredos,1962.

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HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar,

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PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.

PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática,

1992.

REIS, Carlos. Técnica de Análise Textual. Coimbra: Almedina,1976.