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ERIC YAZAWA

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Para melhor compreensão deste cenário é oportuna a definição de outros
conceitos que diferenciem os setores de iniciativa da sociedade civil utilizando como
ordem a responsabilidade social dirigida a cada um. Dividem-se, portanto, as
organizações em Primeiro, Segundo e Terceiro Setor.
As questões sociais no Primeiro Setor são de responsabilidade do governo,
ou seja, é o setor que agrega os interesses públicos e pode ser exemplificado por
órgãos governamentais como ministérios, secretarias, as autarquias e as empresas
de economia mista. Esta iniciativa é regulamentada pelos artigos 203 e 204 da
Constituição Federal referentes à Assistência Social que orientam:

Art. 203 - A assistência social será prestada a quem dela necessitar,
independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por
objetivos:
I - a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à
velhice;
II - o amparo às crianças e adolescentes carentes;
III - a promoção da integração ao mercado de trabalho;
IV - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a
promoção de sua integração à vida comunitária;
V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa
portadora de deficiência e
ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria
manutenção ou de tê-la
provida por sua família, conforme dispuser a lei.
Art. 204 - As ações governamentais na área da assistência social serão
realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no
art. 195, além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes
diretrizes:
I - descentralização político-administrativa, cabendo a coordenação e as
normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos
respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a
entidades beneficentes e de assistência social;
II - participação da população, por meio de organizações representativas,
na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis.

Segundo Terra (2004), a política de ação social do governo obedece
basicamente a três princípios: integração, descentralização e interação.
A ação integrada atende à vertente de uma aliança entre os vários órgãos do
Estado que em seu processo desenvolva as ações dos ministérios, das autarquias e
de outras instituições. Outra vertente do princípio de integração é a simultaneidade
que visa gerar ações em parceria com os vários órgãos e setores governamentais.

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O princípio da descentralização questiona as dificuldades e a flexibilidade do
governo em solucionar os problemas gerados pela heterogenia e os aspectos
territoriais das regiões brasileiras. Sobre este aspecto, surge a participação das
organizações não governamentais com o intuito de minimizar os elos burocráticos
existentes neste cenário, resultando em ações e práticas em conjunto com a política
estatal.

O terceiro e último princípio baseia-se na interação entre sociedade e Estado
relacionando o papel social com o apoio e incentivo que lideranças manifestadas
comunitariamente aderem ao contribuírem nas ações do governo.
A percepção de um desenvolvimento sustentável, quando visto pelo prisma
do empresariado, posiciona a responsabilidade social ao Segundo Setor que
responde por questões individuais e de uso do lucro como instrumento.
Ao Segundo Setor cabe à livre iniciativa, ou seja, sem a limitação à liberdade
de desenvolvimento empresarial e, não apenas, como uma afirmação do
capitalismo.

O capitalismo social tem alterado suas diretrizes quanto às questões de
adaptação num ambiente favorável a posturas socialmente corretas. Neste
processo, mecanismos organizacionais são acionados visando um melhor ajuste
com o cenário de uma política mais condizente com as preocupações de âmbito da
sociedade civil.

Segundo o Instituto Akatu (2008), auferir lucro e atentar-se à qualidade, ao
melhor preço, à concorrência e a excelência no atendimento de um serviço prestado,
não são mais únicos diferenciais ao avaliar o perfil de uma empresa. O consumidor
consciente, definido pelo Instituto Akatu (2008) como aquele que se dispõe a
transformar em práticas cotidianas os valores com que se identifica, inclusive em
suas decisões de compra e relações empresariais, reivindica atitudes voltadas ao
desenvolvimento social e o comportamento de empresas cidadãs.
De acordo com o Serasa (2008, s/p), organização responsável por análises e
informações para tomada de decisões corporativas e apoio a negócios empresariais,
Cidadania Empresarial é “um conjunto de políticas, processos e práticas que
buscam o equilíbrio entre os aspectos econômicos, sociais e ambientais,
estabelecendo o relacionamento da empresa com as partes interessadas, visando
ao desenvolvimento sustentável”.

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Para Fernandes (2000), existem três modelos que esquematizam as práticas
empresarias e o grau de envolvimento destas com a causa social. Segundo a
autora, na política de doações, com base em sistemas ou não, há um
distanciamento do objeto e do processo filantrópico em questão. Diferindo a este
modelo, há o financiamento de projetos de autoria extra-empresa, na qual, o nível é
médio. Já no investimento em projetos e programas próprios da empresa, o nível de
engajamento com a causa social é o mais alto dentre os três modelos. Tais atitudes
cidadãs refletem uma nova característica das empresas brasileiras que, para
Fernandes (2000, p.12), é a prática da filantropia estratégica consistindo na:

[...] administração inteligente da participação da empresa, através de
investimentos filantrópicos, nas causas sociais. Compreende a análise,
escolha e determinação de uma causa que tenha, preferencialmente,
relação com o negócio da empresa. Assim, ao invés de praticar uma política
de doações, a empresa investirá no(s) projeto(s) social(ais) específico(s)
que agregará valor a sua marca, despertando a associação positiva por
parte de consumidores, fornecedores, clientes e potenciais, entre seu nome
e a ação socialmente responsável.

Além destas características, a autora aponta a mensuração de projetos e a
avaliação crítica possível através da filantropia estratégica, que pode também
estimular o voluntariado empresarial envolvendo a classe de colaboradores internos
no desenvolvimento de projetos voltados à comunidade.
Trabalhando ainda os fatores que englobam o Segundo Setor, Terra (2004)
destaca o surgimento de instituições que trabalham na divulgação dos valores e
práticas voltados ao desenvolvimento sustentável relacionado à responsabilidade
social dentro das organizações. O Instituto Ethos, como exemplo, foi idealizado por
empresários do setor privado com o objetivo de servir de suporte às empresas que
almejam gerir seus negócios de forma socialmente responsável. Assim, a
organização torna-se parceira da empresa na construção de padrões éticos de
relacionamento com funcionários, clientes, fornecedores, comunidade, acionistas,
poder público e com o meio ambiente.
Para uma melhor atuação com seus 1328 associados, a instituição se
organiza em cinco linhas de atuação: a ampliação do movimento de
responsabilidade social empresarial (RSE); o aprofundamento de práticas nesta
área; a influência sobre mercados e seus atores mais importantes, no sentido de
criar um ambiente favorável à prática da RSE; a articulação do movimento com

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políticas públicas e a produção de informação e divulgação da temática
responsabilidade social.

Embora o trabalho da Instituição Ethos permeie o campo social com o apoio
de outras instituições de mesma linha, ainda há uma lacuna social a ser preenchida
pelo setor privado oriundo da carência deixada também pelo Primeiro Setor. Neste
sentido, a falência do Estado, a crise do desenvolvimento auto-sustentável, os
reflexos da deficiência que um regime socialista acomete e a convergência de
problemas sociais tais como analfabetismo, desemprego, carência de voluntariado e
instituições ativas no cenário social, afetam em grandes proporções, principalmente,
os países em fase de desenvolvimento como o Brasil.
O auxílio a este pilar social desorientado surge pelo setor que se expressa
através da sociedade civil constituindo o chamado Terceiro Setor. O que diferencia
este último setor dos demais é a sua organização que não visa lucros, objetiva
serviços de caráter público e não é auxiliado pelo governo. Portanto, cabe a
sociedade organizada a responsabilidade pelo Terceiro Setor que deve compreender
as questões sociais e tornar-se ativa.
Proposta por Terra (2004: s/p), uma definição estrutural do Terceiro Setor
distingue este dos demais setores baseando-se em cinco atributos operacionais: as
organizações do Terceiro Setor são formalmente constituídas, em forma de
instituição legal ou não, com formalização de deternimado nível de regras; possuem
uma estrutura básica não governamental, ou seja, não são ligadas
institucionalmente a governos, além de possuírem gestão própria, sem o controle
externo; o trabalho realizado dentro das instiuições é de nível voluntário sem gerar
remuneração a mão-de-obra disposta, e como último atributo, não possuem fins
lucrativos, todo lucro gerado deve ser revertido integralmente na organização, não
podendo de tal maneira a divisão de bens entre seus acionistas.
Torna-se difícil mensurar o número exato de empresas cidadãs no Brasil
quando se relaciona os critérios de Salamon e Anheier (1992) para definir uma
empresa formalmente constituída no âmbito do Terceiro Setor. De acordo com dados
do Instituto Ethos, estima-se no Brasil 220 mil entidades sem fins lucrativos, que
movimentam em torno de 400 milhões de dólares e empreguem 600 mil pessoas,
além dos 1,2 milhões provindos do trabalho voluntário.
Segundo a Abong (2008), Associação Brasileira de Organizações Não
Governamentais, a expressão Terceiro Setor tem incluído as ONG’s (Organizações

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Não Governamentais) na esfera de atividades de iniciativa da sociedade civil sem
fins lucrativos e abrigando, de forma usual, outros segmentos filantrópicos e
institutos empresariais. Tal situação implica num erro ao conceito do Terceiro Setor
devido à tendência histórico-cultural de homogeneizar os termos sociais.
Para a Associação, é necessário o conhecimento de que apesar dos pontos
convergentes entre tais “atores sociais”1

, a identidade de cada organização deve ser
desassociada quanto as suas razões diversas de formação. Um dado que justifica
tal iniciativa, é o fato da sociedade civil brasileira, de acordo com a Abong (2008:
s/p), ser “extremamente diversa, plural, e heterogênea, constituída ao longo de
séculos e marcada por processos brutais de exclusão, concentração de renda e
violação de direitos”, ou seja, tais organizações estariam expressando conflitos e
contradições existentes na sociedade brasileira.
A Rits, Rede de Informações para o Terceiro Setor, (2001) emprega o conceito
de Terceiro Setor numa esfera mais ampla ao círculo que envolve as ONG’s. A
organização identifica outros atores sociais tais como serviços relacionados à ordem
filantrópica empresarial, associações beneficentes, iniciativas das igrejas e o
trabalho voluntário, atuantes conjuntos do cenário que compõe este setor. Tal
afirmação evoca um perfil de relação estreita entre Estado, Terceiro Setor e órgãos
privados, traçando assim uma sociedade em busca de articulações quanto aos
modelos de organização apresentados.
O interesse comum e os objetivos focados em uma ONG devem possuir um
elo com as ações do governo e a síntese da organização privada. Esta relação não
deve usurpar o papel social de seus envolvidos, contribuindo em formas de
parcerias e identificando na sociedade civil as problemáticas com soluções possíveis
através do pensamento social.
Apesar da falta de dados em relação a empresas que expressem
responsabilidade social no Brasil, as ONGs, por sua vez, têm encontrado um
ambiente onde o crescimento para tal modelo intervencionista é convidativo. Isto se
deve a uma política democrática, com pluralidade de partidos, formação de
sindicatos e fortalecimento de movimentos urbanos e rurais, segundo Delgado
(2004).

1

Atores sociais, termo adotado neste estudo pela definição de Moema L. Viezzer como aqueles que
interferem na qualidade do meio ambiente e na qualidade de vida.

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O papel social de uma ONG abrange os interesses em assuntos
comunitários, de desenvolvimento cultural, urbano, individual, de proteção ao meio
ambiente e os aspectos individuais. Uma ONG possui a responsabilidade de
encontrar no âmbito individual ou coletivo o apoio necessário para sanar as
deficiências que o Estado não consegue suprir. Ocorre então a divisão de definições
quanto ao conceito de ONG e sua concepção.
As origens do termo e a definição de ONG são relacionadas ao Terceiro Setor
por Russo, Bauer e Araújo na organização de artigos multidisciplinares feito por
Penerai e Mercedes (2005, p.41) resultados de pesquisas e projetos desenvolvidos
no Centro Universitário Feevale. Paras as autoras:

A expressão ONG foi criada pela ONU, na década de 40, para designar
entidades não oficiais que recebiam ajuda financeira de órgãos públicos
para executar projetos de interesse social dentro da filosofia de
desenvolvimento da comunidade. A definição oficial é dada pela estrutura
jurídica e seu recorte público-privado. Assim, também ocorre um outro setor
na esfera da organização geral da sociedade, que seria, o público-
comunitário, não estatal, que se constitui no chamado terceiro setor da
economia, no plano informal.

A defesa da importância de uma ONG no desenvolvimento econômico e
social de uma nação, gera também críticas apontadas por Mariuzzo (2008, s/p) na
revista eletrônica ComCiência, quanto a chamada terceirização da atividade social
dos governos. Segundo a historiadora, “o crescimento das ações sociais de
empresas e ONGs, [...], pode nublar o papel social a cargo do Estado. Ao mesmo
tempo que o esforço nessa área é positivo, empresas e ONGs recebem incentivo e
isenção fiscal para fazer o papel do Estado [...]”.
Referente ainda ao papel social eficiente de uma ONG, Mariuzzo denuncia
através dos estudos de Fisher e Falconer, o enfoque ineficiente que as ONG’s no
Brasil dão a determinadas causas sociais como os programas de assistencialismo a
criança e o adolescente, principalmente no quesito educacional, e o atual ranking da
Unesco2

que coloca o país em 72º no quesito educacional, demonstrando que
ONG’s e setores privados não estão aptos a desempenhar um papel que é função
do Estado.

2

UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Fundada em
16 de novembro de 1945.

19

O papel social do Terceiro Setor no Brasil, ainda se restringe ao
desenvolvimento tímido e a carência de maiores iniciativas aliando setor privado e
público se comparados a outros países. Segundo Oded Grajew, fundador do Instituto
Ethos, citado por Fernandes (2000):

[...] só os Estados Unidos têm 32 mil fundações, com patrimônio de cerca
de 132 bilhões de dólares, dos quais 8,3 bilhões são atribuídos através de
verbas, sem considerar a doação de trabalho voluntário, estimada em
quase 200 bilhões de dólares. As atividades sem fins lucrativos, nesse país,
chegam a 1,2 milhões de organizações.

Em síntese, o cenário que envolve os setores da sociedade civil creditam a
responsabilidade social desempenhada pelos setores em harmonia funcional com a
iniciativa estatal, privada e pública. Organizações Não Governamentais e demais
instituições de caráter filantrópico estão dispostas a mudanças no sentido de
minimizar diferenças sociais e as problemáticas geradas pelo homem moderno e
sua coletividade, basta para isso disposição de mão-de-obra voluntária e a
comunicação ideal para cada organização estabelecer o seu melhor meio de canal
com o público a quem deseja atingir. O enfoque da comunicação de uma ONG ou
qualquer instituição oriunda do Terceiro Setor deve mostrar eticamente o trabalho
realizado e o compromisso social que tal organização defende sem gerar
desconfiança por parte da direção de verbas e o destino do bem social.

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