Você está na página 1de 106
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS ESCOLA DE SERVIÇO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL

Vanessa Ramos Andrade

Sistema Prisional e Direitos Humanos: desafios para a

garantia de uma política de proteção aos direitos dos presos.

Rio de Janeiro

2008

2

2 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS ESCOLA DE SERVIÇO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL

Vanessa Ramos Andrade

Sistema Prisional e Direitos Humanos: desafios para a

garantia de uma política de proteção aos direitos dos presos

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Serviço Social - 2 -da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de bacharel em Serviço Social.

Orientadora: Suely Souza de Almeida Co-orientadora: Lilia Guimarães Pougy

Rio de Janeiro

2008

3

Agradecimentos

Gostaria de agradecer primeiramente a Deus por abençoar a minha vida.

Aos meus pais, que estão sempre presentes em vida e foram fundamentais para

a realização deste sonho.

Ao meu irmão querido que me incentivou bastante durante os momentos difícieis

da graduação.

À minha supervisora de estágio, Teresinha T. de Araújo, com quem compartilhei

um ano e meio da minha vida acadêmica, aprendendo e trocando idéias sobre a nossa

profissão.

A todos meus amigos, em especial, Alessandra, Bruna e Marta pelo apoio e

companheirismo durante esta jornada; que a nossa amizade possa perdurar por muito

tempo.

A todas às amigas do núcleo de pesquisa “O serviço social e a constituição do

campo dos direitos humanos no Brasil”.

À Victória por compartilhar um pouco de sua sabedoria e de sua história de vida

durante o período que convivemos na pesquisa.

À minha co-orientadora Lilia Pougy que teve um papel fundamental em minha

vida enquanto pessoa e estudante, por me orientar neste momento tão especial, que é

a união de todo o conhecimento que obtive durante a graduação.

E, em especial, a minha querida orientadora Suely Souza de Almeida, a quem

dedico este trabalho. Uma pessoa forte, inteligente e de extrema simplicidade com

quem tive o privilégio de conviver intensamente durante a minha vida acadêmica, ao

integrar seu grupo de pesquisadoras. Onde quer que ela esteja permanecerá em meu

4

coração.

Espero em minha trajetória profissional, dar continuidade aos seus projetos

para a construção de sociedade mais justa, na defesa e garantia dos direitos humanos.

5

Resumo

Este trabalho examina o sistema prisional do Rio de Janeiro, uma vez que seu

cotidiano é marcado pela permanência de práticas violentas no interior dos presídios.

A análise da violência institucional perpretada pelo Estado, por meio de seus

agentes, demonstra o distanciamento existente entre a esfera legal e a efetivação dos

direitos.

Verificou-se a dificuldade no cumprimento das leis, em contraposição ao plano

formal, tendo em vista que o Brasil após a Constituição de 88 tornou-se signatário de

diferentes pactos e convenções, que visam à garantia e à proteção dos direitos de

todos os indivíduos.

6

Sumário

Apresentação

08

Introdução

12

Capítulo I: Violência Institucional e Direitos Humanos: reflexões sobre o sistema

penitenciário do Rio de

15

1.1)

Sistema Penitenciário do estado do Rio de Janeiro

28

Capítulo II: A Execução Privativa da Pena e a banalização da violência no interior das prisões 43

2.1)

Legislações

de

Proteção

aos

direitos

dos

presos

e

Sistema

Prisional 50

2.2) Criminologia Crítica e “Ressocialização”

64

Capítulo III: Cotidiano do Sistema Prisional do Rio de Janeiro sob a perspectiva de funcionários e apenados 69

3.1) A Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira

3.2)

Qualificação

dos

Profissionais

entrevistados

durante

a

70

realização

da

pesquisa 72

3.2.1) Idade 72 3.2.2) Sexo 73

74

3.2.3) Formação

3.2.4) Tempo de serviço na Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro 75 3.3) Opinião em relação a política de encarceramento adotada pelo sistema penitenciário brasileiro 75 3.3.1) Rebatimentos da política de encarceramento no cotidiano profissional 78

7

3.3.2) Descrição do cotidiano profissional e das condições para realização das

intervenções

3.3.3) Limites e possibilidades para a implementação do trabalho 80 3.3.4) Conhecimento sobre Direitos Humanos e viabilização destes em suas intervenções 82 4) Qualificação dos apenados entrevistados 85

79

4.1) Idade

85

4.2) Sexo

86

4.3) Escolaridade

86

4.4) Artigo/Condenação

87

5) Análise qualitativa dos dados obtidos

88

5.1) Opinião dos apenados em relação ao sistema penitenciário brasileiro

88

Principais

dificuldades

enfrentadas

durante

a

execução

da

pena

90

5.2) Significado dos Direitos Humanos para os presos

 

92

Considerações Finais 95 Referências Bibliográficas 98 Anexos 103

8

APRESENTAÇÃO

O Trabalho de Conclusão de Curso ora apresentado é produto de toda uma

bagagem teórica e prática propiciada pelo espaço acadêmico, a Escola de Serviço

Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O interesse pela temática, Violação de Direitos Humanos e Sistema Prisional,

surgiu a partir de minha inserção na Pesquisa O Serviço Social e a Constituição do

campo dos Direitos Humanos no Brasil, coordenado pela Profª. Drª. Suely Souza de

Almeida, bem como da experiência de estágio na SEAP (Secretaria de Administração

Penitenciária – Rio de Janeiro).

Durante o curso de graduação, participei de atividades de ensino e pesquisa

voltados para o campo dos Direitos Humanos e da Criminalidade.

Disciplinas como

Direitos Humanos, Questão Social no Brasil, Núcleo Temático sobre Criminalização da

Pobreza foram fundamentais para a compreensão da realidade social brasileira, e, por

conseguinte dos problemas referentes ao sistema prisional.

A iniciação científica foi fundamental para o desenvolvimento deste trabalho, obtive

contato com profissionais de diversas áreas que enriqueceram o meu conhecimento,

além de leituras, discussões e atividades voltadas para uma formação em Direitos

Humanos de qualidade. Essa gama de conhecimento propiciou a produção trabalhos

para Jornadas de Iniciação Científica, além da a Revisão do I Plano Nacional de

Educação em Direitos Humanos - PNEDH. Foi um trabalho de extrema importância

para a minha formação porque representou o compromisso da universidade com a

sociedade, através da avaliação de instrumentos formais de direito à educação.

A

revisão deste plano contemplou os debates realizados em vários estados do país de

modo a envolver todas as contribuições dos encontros estaduais e municipais e dos

9

documentos recebidos durante o processo de consultas estaduais realizadas em todos

os estados da federação. A revisão a cargo da UFRJ foi uma demanda da SEDH, em

parceria com a UNESCO.

Outra atividade de extrema importância, na minha trajetória acadêmica, foi a

análise de entrevistas realizadas com profissionais dos Programas de Proteção a

Vítimas e Testemunhas e nos Centros de Atendimento a Vítimas de Violência,

existentes em todo o território nacional, quando foi possível conhecer o trabalho

realizado por assistentes sociais, psicólogos e advogados e identificar elementos

relacionados

às

condições

de trabalho,

qualificação

profissional,

o

papel

destes

trabalhadores no Programa, dando ênfase ao papel do Assistente Social neste trabalho.

A experiência de estágio também foi um fator condicionante para realização

deste trabalho. O conhecimento adquirido nesta área, a apreensão do cotidiano

prisional e das correlações de força existente neste espaço suscitaram o meu interesse

por este tema, que é de extrema relevância para a sociedade.

Realizei alguns trabalhos sobre o sistema penitenciário como bolsista de iniciação

científica. Em 2006 apresentei um trabalho intitulado de Os Mitos da Reintegração

Social dos Presos, que consistiu em demonstrar como o trabalho configura-se ao

mesmo tempo em uma possibilidade de inclusão e exclusão social para os apenados,

além de examinar a relação entre a política educacional implementada pelo Governo do

estado do Rio de Janeiro e as dificuldades e possibilidades encontradas pelos

apenados com vistas à inserção no mercado de trabalho.

10

Em 2007, apresentei o trabalho 1 “Relações de Gênero e Sistema Prisional”, na

XXIX Jornada de Iniciação Científica da UFRJ, onde foram estudadas as disparidades

do número de visitantes em unidades prisionais masculinas e femininas. Partimos da

idéia de que as mulheres constituem a grande maioria de visitantes no Sistema

Penitenciário,

tanto

em

unidades

masculinas,

quanto

em

unidades

femininas.

Entretanto em unidades femininas o número de visitantes é muito menor.

Desta forma, minha trajetória acadêmica propiciou um arcabouço teórico e prático

que culminou na realização deste trabalho.

Este trabalho de conclusão de curso tem as marcas desse percurso, como vistas a

contribuir no debate acerca dos direitos humanos e do sistema prisional, tema este que

se constitui em um desafio para todos os segmentos da sociedade que militam pelos

direitos humanos.

Para a realização do trabalho, foi necessária a realização de um levantamento

bibliográfico sobre a temática: trabalhos, textos e artigos referentes ao Sistema

Penitenciário, Violência e Direitos Humanos.

A pesquisa não abordou a realidade de todo o Complexo Penitenciário do Rio de

Janeiro, o estudo foi restrito à Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira, Unidade

onde realizei estágio curricular.

Foram realizadas entrevistas com os apenados e profissionais que trabalham

nesta Unidade Prisional totalizando um quantitativo de 12 entrevistados (6 profissionais

com competências diversificadas na instituição e 6 internos) – com o objetivo de

compreender as relações, as visões e o julgamento dos diferentes atores sobre a

1 O trabalho foi elaborado em co-autoria com Alessandra Nascimento dos Santos também integrante do núcleo de pesquisa “O Serviço Social e a constituição do campo dos direitos humanos no Brasil e orientado pela Profª. Dr. Suely Souza de Almeida e co-orientado pela Profª. Dr. Lília Guimarães Pougy.

11

realidade em que se encontram inseridos - com o objetivo de verificar como a violência

institucional praticada pelo Estado e seus agentes interferem e influenciam o cotidiano

destes

sujeitos, que vivenciam

relações

complexas

de

poder devido

ao

caráter

repressivo e punitivo da ideologia que atravessa as prisões.

A condição de estagiária desta unidade prisional foi muito importante para a

realização da pesquisa, pois o vínculo mantido com a instituição proporcionou a

colaboração de todos os entrevistados para a coleta dos dados. Assim, o resultado

obtido neste trabalho será devolvido à instituição de modo a contribuir com as

atividades daqueles que participaram diretamente e indiretamente da pesquisa.

12

INTRODUÇÃO

O objeto de estudo deste trabalho consiste na análise da violência institucional

perpretada pelo Estado, com vistas à verificar a dificuldade no cumprimento das leis,

em contraposição ao plano formal, tendo em vista que o Brasil, após a Constituição de

88, tornou-se signatário de diferentes pactos e convenções, que visam à garantia e à

proteção dos direitos de todos os indivíduos.

Diante do cenário atual, de aprofundamento das desigualdades sociais e de

minimização das funções do Estado, torna-se fundamental trazer para o espaço

acadêmico a discussão sobre violação de direitos humanos no Sistema Prisional; tema

este bastante incipiente dentro da Universidade.

A violência institucional reproduzida pelo Estado ao longo dos anos é resultado de

uma cultura política que apresenta fortes traços de clientelismo, assistencialismo e

autoritarismo, o que acaba por dificultar a formação de uma consciência política da

população e, por conseguinte, a não ocupação direta desta em espaços que deveriam

ser utilizados para o controle e o gerenciamento das políticas sociais.

No sistema prisional, em especial, o aviltamento da cidadania dos presos é bem

mais explícito; visto que, no senso comum, os direitos humanos são entendidos como

direitos de bandidos e, portanto não devem ser respeitados.

Segundo Wacquant, “A penalidade neoliberal apresenta o seguinte paradoxo:

remediar com um ‘ mais Estado ’policial e penitenciário o “menos Estado” econômico e

social que é a própria causa da escalada generalizada da insegurança objetiva e

subjetiva em todos os países, tanto do Primeiro como do Segundo Mundo”. (2001:7)

Assim, na perspectiva neoliberal, o cidadão é visto como consumidor e as políticas

sociais acabam assumindo duas funções: social – passa a ter função redistributiva de

13

renda na sociedade, funcionando como complemento ao salário do trabalhador;

econômica – constituindo-se num instrumento para baratear a força de trabalho e

permitindo que os trabalhadores se reproduzam de modo que a acumulação se dê a

partir de sua exploração (Pastorini,1997).

As desigualdades sociais oriundas das contradições existentes na sociedade

capitalista refletem-se no perfil da população carcerária brasileira. Esta representa um

determinado segmento que é criminalizado segundo sua condição de classe.

Desta maneira, a violência institucionalizada atinge os presos de formas variadas:

torturas, falta de assistência médica, jurídica, social, psicológica, dentre outros. A

população carcerária vive em condições desumanas; a precariedade das unidades

prisionais

gera,

em

muitos

casos,

rebeliões,

por

meio

das

quais

os

apenados

reivindicam melhores condições de vida, pois estão sob a proteção do Estado e este

não cumpre com o seu dever de zelar pelas garantias fundamentais destes indivíduos.

Conforme Almeida, “sendo dirigida predominantemente contra frações das classes

e categorias subalternizadas, a violência é uma das expressões da questão social (

)

que podem ser igualmente qualificadas como formas brutais de violência que se

materializam nas condições de vida de enorme parcela da população brasileira – a

indigência, a convivência diária com a fome, a falta de acesso à habitação, o trabalho

precário e intermitente, o desemprego, as precárias condições de saúde”. (2004:53)

O Serviço Social é uma profissão que intervém nas expressões da questão social,

tendo como princípios fundamentais a defesa intransigente dos direitos humanos e a

ampliação e a consolidação da cidadania. Desta maneira, é importante trazer para a

academia o debate sobre o sistema penitenciário, pois o Assistente social tem um papel

14

fundamental tanto na efetivação quanto na denúncia do não cumprimento dos direitos

daqueles que se encontram reclusos nas unidades prisionais.

Tendo em vista as desigualdades sociais e os processos de marginalização social,

cultural e econômica das classes subalternas, Torres afirma que “as saídas para a

categoria atuante no sistema penitenciário, bem como uma reflexão sobre a intervenção

da profissão nos presídios, estão nas mãos dos próprios profissionais, mas não de

maneira individual, e, sim de forma coletivamente, de maneira que leve a uma reflexão

crítica e ao estabelecimento de estratégias para o enfrentamento desta realidade”.

(2001: 91)

Assim, é necessário pensar em estratégias que venham reconfigurar o tratamento

dispensado aos presos, na tentativa de viabilizar a efetivação de direitos no sistema

prisional.

15

Capítulo I: Violência Institucional e Direitos Humanos: reflexões sobre

o sistema penitenciário do Rio de Janeiro.

Trabalhar a questão penitenciária atualmente implica considerar a conjuntura

social, econômica, política e cultural do país. Estes elementos são fundamentais para o

entendimento da realidade das prisões, e como estas vêm se gestando na sociedade

capitalista.

O sistema carcerário do país constitui-se em um conjunto de instituições cuja

finalidade concentra-se na detenção de determinados segmentos sociais com vistas à

manutenção e reprodução da ordem estabelecida. Verifica-se, nesses espaços, que o

índice de violência é bastante acentuado; esta se expressa de várias formas, sejam

elas físicas ou psicológicas.

A realidade das prisões brasileiras representa o descaso do poder público com a

sociedade, e revela a face perversa das políticas formuladas para o enfrentamento da

pobreza

no

país.

Desta

forma,

determinados

segmentos

da

população

são

criminalizados em decorrência de classe, etnia e gênero; portanto, são alvos de ações

paliativas que reforçam as desigualdades existentes na sociedade.

O aumento da criminalidade na sociedade brasileira tem como pano de fundo a

sua formação social, além de traços remanescentes do período vivenciado durante o

regime ditatorial. Pereira, utilizando Wacquant (2001a) traz a seguinte contribuição ao

cenário brasileiro: este acentua que algumas razões, ligadas à nossa história e à

posição subordinada do Brasil na estrutura das relações econômicas internacionais,

contribuem para o crescimento da criminalidade, em uma sociedade marcada pelas

disparidades sociais e pela pobreza em massa.

16

Essa subordinação do Brasil em relação aos organismos internacionais acarreta

a ausência de políticas sociais universais que contemplem as demandas da população.

À medida que esta não possui meios para suprir a sua necessidade, realiza estratégias

para garantia de sua sobrevivência, seja a partir de atividades informais ou através de

práticas consideradas ilícitas, uma vez que o sistema de justiça criminal considera as

classes populares mais propensas à prática de delitos.

As políticas para área de segurança pública, que também se constituem em um

setor de intervenção estatal, ainda são bastante incipientes, mesmo com os avanços

ocorridos nos anos 90 2 :

“criação da Secretaria Especial de Direitos Humanos; o lançamento do Programa Nacional de Direitos Humanos(2001) e o estabelecimento do Sistema Único de Segurança Pública (2003); com o objetivo de implementar as diretrizes do plano”.

No entanto, mesmo com avanços no aparato legal ainda há dificuldades para que

uma política de direitos humanos possa se estabelecer na sociedade brasileira.

A violência institucional reproduzida pelo Estado ao longo dos anos é resultado de

uma cultura política que apresenta fortes traços de clientelismo, assistencialismo e

autoritarismo; o que acaba por dificultar a formação de uma consciência política da

população e, por conseguinte, a não ocupação direta desta em espaços que deveriam

ser utilizados para o controle e o gerenciamento das políticas sociais.

“A violência e a criminalidade no Brasil só podem ser entendidas como produto

de relações históricas, particularizadas por cinco séculos de colonialismo e por um passado escravocrata recente, por relações fortemente hierarquizadas ( )

o que nos lega como

patrimônio coletivo a banalização da vida, a naturalização da morte e a cultura da impunidade” (ALMEIDA, 2004:49)

que minam fronteiras entre o público e o privado (

)

2 Segundo Neme (2005), essas iniciativas surgiram como novas políticas de segurança a partir do nível federal e entre outros objetivos, visaram tratar os problemas de segurança pública com racionalidade maior – a partir de diagnósticos, sistematização de dados e definição de prioridades. Também buscaram associar a eficiência policial ao respeito aos direitos humanos em uma tentativa de oferecer alternativas aos dilemas entre lei e ordem que fortemente domina o campo da segurança no Brasil.

17

É importante salientar que a violência não é um fenômeno que se restringe ao

Estado, ela se encontra em outras instituições; por exemplo: na família, nas escolas,

nas atividades religiosas

no cotidiano dos indivíduos, nos espaços em que estes se

socializam;

nos

elementos

necessários

para

a

sua

reprodução

e

também

para

legitimação das ações estatais.

Assim, a violência praticada pelo Estado atravessa todas as esferas da vida social

contribuindo para não efetivação de direitos à medida que não garante à população o

exercício da cidadania.

As políticas realizadas pelo Estado incidem drasticamente na vida da população; a

violação de direitos humanos torna-se uma prática comum e a cidadania dos indivíduos

deixa de ser efetivada.

No sistema prisional, em especial, o aviltamento da cidadania dos presos é bem

mais explícito, visto que no senso comum os direitos humanos são entendidos como

direitos de bandidos e, portanto, não devem ser respeitados.

Para que a política de encarceramento utilizada pelo Estado seja compreendida

atualmente, torna-se necessário

fazer um resgate

histórico das

relações

sociais

estabelecidas na sociedade brasileira, buscando apreender suas particularidades,

tendo em vista sua formação social.

Baseada em um regime escravocrata que permanece fortemente enraizado em

nossa cultura, a formação da sociedade brasileira constitui um elemento fundamental

para análise dos problemas que atingem a população cotidianamente, uma vez que

reforça o caráter conservador das políticas implementadas e não democratiza as

estruturas de poder estabelecidas nas esferas governamentais.

18

Os aspectos culturais desta sociedade demonstram que os valores construídos

socialmente revelam traços autoritários e preconceituosos, que contribuem para a

legitimação de ações estatais e para a manutenção das prisões como estratégias de

controle da violência e da criminalidade.

Segundo Adorno, mesmo com o fim do

“regime autoritário (1964-1985) não se logrou a efetiva instauração do Estado democrático de Direito. Persistiram graves violações de direitos humanos, produto de uma violência endêmica, radicada nas estruturas sociais, enraizada nos costumes, manifesta quer no comportamento de grupos de sociedade civil, quer no de agentes incumbidos de preservar a ordem pública. Mais do que isso, tudo indica que, no processo de transição democrática, recrudesceram as oportunidades de solução violenta dos conflitos sociais e de tensões nas relações intersubjetivas”. (1995:299)

Mesmo com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o Estado brasileiro,

atualmente, encontra dificuldades para concretização das garantias previstas quanto

aos direitos dos cidadãos. Algumas instituições, principalmente aquelas voltadas para a

área de segurança pública, permanecem legitimando ações autoritárias, remanescentes

do período militar. Estas se constituem em grandes entraves para tornar estes espaços

mais democráticos e conseqüentemente para promoção de uma cultura de direitos.

A luta pela democratização do país teve início no final dos anos 70, tornando-se

efetiva durante a década de 80, um período de grande efervescência no país. Com o

fim da ditadura houve um amplo movimento da sociedade civil – rearticulação do

movimento operário no ABC paulista, além da participação de novos sujeitos políticos

em busca da democratização da sociedade. Vários segmentos da sociedade uniram se

em torno de um interesse comum: um sistema de governo que permitisse a participação

da população nas suas decisões 3 .

3 Segundo Adorno, (

mudanças, entre as quais conviria destacar as seguintes: ampliação dos canais de participação e

a reconstrução democrática e o novo regime político acenaram para substantivas

)

19

Para Coutinho (2000) este processo que pôs fim à ditadura, possui uma dinâmica

contraditória:

Os regimes ditatoriais modernizadores e não fascistas – de que são exemplos clássicos, entre outros o Brasil pós-64 e Espanha franquista em seu segundo período – apresentam uma contradição fundamental: desencadeiam forças que, a médio prazo não podem mais controlar, ou, em palavras mais precisas, desenvolvem pressupostos de uma sociedade civil, que progressivamente, escapa à sua tutela. Quando a pura repressão se revela inviável , têm lugar os chamados projetos de abertura, encaminhados pelo alto e baseados essencialmente em duas iniciativas correlatas: a) na tentativa de adotar uma ação repressiva mais seletiva, voltada apenas contra os setores mais radicais da sociedade civil, b)no esforço de cooptar os segmentos mais moderados da oposição, incluindo-os subalternamente no bloco do poder.”(pág. 90)

Apesar da participação incisiva da população no período de democratização do

país, o mesmo autor assinala que ocorreu uma transição “fraca” de regimes 4 as

aspirações da sociedade civil foram incorporadas “através de combinação de processos

pelo alto e de movimentos provenientes de baixo; e de decerto o predomínio de uns

sobre os outros” (pág.92), porém de modo que as estruturas de poder não fossem

modificadas.

Coutinho assinala que “uma transição desse tipo (

)

implicava certamente uma

ruptura com a ditadura implantada em 1964, mas não com os traços autoritários e

excludentes que caracterizam aquele modo tradicional de se fazer política no Brasil.

(pág.93)

Com o fim da ditadura houve todo um reordenamento da sociedade, inclusive dos

espaços públicos, permitindo a participação da população nas decisões políticas que

incidiam

em

seu

cotidiano.

Neste

período,

o

Estado,

através

de

reivindicações

representação políticas; alargamento do elenco de direitos (civis, sociais e políticos); desbloqueio da

comunicação entre sociedade civil e Estado; reconhecimento das liberdades civis e públicas (

301)

4 Não foi possível romper com traços de uma sociedade autoritária.

).

(1995:

20

populares, buscou contemplar as aspirações deste segmento, que se consolidou na

Constituição de 1988, proporcionando a população à ampliação de seus direitos e a

participação e o controle dos espaços públicos.

O país reajustou boa parte de seu instrumental legal aos novos contornos da situação democrática e ao mesmo tempo, demonstrou disposição em se afinar aos principais instrumentos de regulação da ordem internacional, especialmente aqueles voltados para o respeito e a promoção aos direitos humanos”. (SALLA, 2003:419).

O mesmo autor afirma que embora tenham ocorrido mudanças significativas na

sociedade brasileira, algumas instituições não acompanharam este processo:

A

face

Os aparato policial e prisional, desde a década de 80, têm oposto forte

resistência à assimilação dos novos padrões da vida democrática que se

estabeleceram no país, em boa parte em razão das práticas de arbitrariedade

e violência apesar do esfacelamento das formas autoritárias de governo”.

(SALLA, 2003: 419).

“(

)

punitiva

e

moralizadora

da

prisão

encontra-se

imbricada

nessas

condições, uma vez que a disciplina e a ordem corroboram com a não realização de

direitos. Mesmo com um aparato legal de proteção aos direitos dos presos, estes não

são efetivados; dada a cultura prisional, bem como o corporativismo existente entre os

agentes de segurança – que reforçam práticas incompatíveis ou mesmo inexistentes

nas legislações específicas do sistema prisional.

Durante o período ditatorial, a violência engendrada pelo Estado voltou-se para os

indivíduos que se opunham às idéias disseminadas pela classe dominante em favor do

grande capital. Atualmente, a violência é dirigida às camadas mais baixa da sociedade;

aqueles que não conseguiram inserir-se no contexto das transformações societárias 5 ,

5 José P. Netto afirma que estas transformações afetam diretamente o conjunto da vida social, pois a

reestruturação do mundo do trabalho traz novas configuarações, demandas a vida da classe

trabalhadora.

21

aos que não conseguiram acompanhar as modificações ocorridas no mundo do

trabalho: a mundialização da economia; sendo atingidos fortemente pela introdução de

novas tecnologias na esfera da produção.

“A violência ganha graus acentuados de institucionalização, seja porque envolve freqüentemente agentes públicos, seja porque está incrustada nas várias esferas do poder público, seja, ainda, por se apoiar na complacência e na omissão do Estado. É importante realçar a relação entre o Estado brasileiro e a crescente banalização e naturalização de processos institucionais de violência, cujos efeitos incidem desigualmente sobre o conjunto da sociedade brasileira”. (ALMEIDA, 2004:57).

As instituições policiais utilizam a força para a contenção da ordem pública,

empregam a violência física para reprimir a população. Adorno (1995) sinaliza que para

conter

o

crescimento

da

criminalidade

violenta

tem

se

recorrido

a

um

controle

igualmente violento da ordem pública, cujos resultados se espelham no emprego não

raro desproporcional das forças policiais repressivas.

Afirma também que:

“Muitas vezes, sob pressões da opinião pública, as políticas públicas de segurança formulam diretrizes às agências policiais no sentido de conter a violência a qualquer custo, mesmo que para isso seja necessário comprometer vidas de indivíduos suspeitos de cometimentos de crimes”. (pág.318)

É importante frisar que a violência exercida por estas instituições não se restringe

aos delitos cometidos pelos indivíduos, atua também na contenção, no controle das

classes trabalhadoras. Exercem extrema repressão contra aqueles que expressam

opiniões contrárias ao ideário burguês hegemônico, que realizam manifestações pela

garantia e manutenção dos direitos conquistados historicamente através das lutas dos

trabalhadores.

Os movimentos sociais são exemplos de categorias da sociedade que são

amplamente reprimidos nos momentos em que expõem e defendem suas idéias.

22

As instituições policiais do Rio de Janeiro apresentam altos índices de corrupção,

os meios de comunicação veiculam cotidianamente o envolvimento de policiais em

esquemas ilícitos como tráfico de drogas e as milícias 6 .

Como afirma Torres (2001: 77),

Há inúmeras ilegalidades e situações de violência a que está submetida a população carcerária, praticadas muitas vezes pelos próprios agentes do Estado (funcionários e policiais) como maus-tratos, humilhações, espancamentos, torturas, corrupção, tráfico de drogas e de privilégios; a problemática da impunidade desta realidade, que colabora na manutenção da ideologia do castigo e da vingança social por meio do controle e da perversidade do Estado e de seu aparato policial.

Para o sociólogo francês Loïc Wacquant (2001), o Estado Penal brasileiro apenas

agrava o problema que deveria resolver, a polícia é um instrumento da violência - tanto

a militar, conhecida pelo lema “atire primeiro, pergunte depois”, quanto a civil, que está

constantemente relacionada à tortura e à brutalidade. Para ele, o Brasil adotou uma

estratégia na qual os americanos foram pioneiros: usar práticas punitivas para controlar

os problemas sociais gerados pela sociedade, prometendo soluções a curto prazo. As

prisões não passam de grandes depósitos de gente, nos quais os membros alienados

da sociedade são amontoados.

Constata-se, desta forma, que a violência é utilizada como um instrumento de

coerção que incide de modo recorrente no espaço público e privado dos indivíduos. Ao

serem coagidos por estas ações, ocorre a desmobilização dos cidadãos; que deixam de

se organizarem politicamente com vistas à melhoria das condições de vida. Ao passo

que não se organizam, percebe-se a instalação do individualismo, a tendência atual é

desmobilizar a população para fragmentar suas lutas; estas perdem seu caráter coletivo

e cada segmento social passa a reivindicar interesses próprios.

6 Grupo de policiais que exigem de moradores de comunidades, uma quantia mensal em troca de uma suposta proteção.

23

As transformações na sociedade brasileira decorrentes das modificações nas

estruturas sociais e econômicas acentuaram os níveis de desigualdades sociais. O

individualismo exarcebado provocado pelas novas relações oriundas da sociedade de

consumo, na qual os indivíduos estão inseridos atualmente, gera o surgimento de uma

série de particularismos e nacionalismos (Rouanet,1993) as lutas sociais passaram do

âmbito coletivo para o particular. De acordo com este autor, a individualidade abriu

espaço

para

o

hiperindividualismo

(os

indivíduos

voltados

para

seus

interesses

pessoais sem a perspectiva de vinculação ao gênero humano). A autonomia que

permitia aos sujeitos a liberdade de condução de suas vidas foi perpassada pela

ideologia das classes dominantes, desta forma, sob a ótica do pensamento burguês; o

homem constrói a sua liberdade, os seus valores sem pensar no bem estar da

coletividade.

À medida que o poder público opta pela contenção de parcelas da população, a

partir do contexto social e econômico em que estão inseridas, acaba atribuindo aos

indivíduos a responsabilidade sobre a sua condição, moralizando comportamentos e

criminalizando

determinadas

condutas;

uma

vez

que

as

políticas

implementadas

associam pobreza à violência. Os setores econômicos, sociais e políticos são tratados

separadamente e o resultado dessa dissociação é a formulação e a implementação de

políticas sociais fragmentadas que tendem a amenizar os problemas sociais ao invés

de eliminá-los. Assim, retira-se o caráter histórico das políticas sociais, das lutas para

sua implementação.

A vinculação entre pobreza e violência acarreta uma série de danos à população,

pois o enfrentamento dos problemas desse segmento aparece como um fenômeno

eventual e localizado.

24

“Tal associação ideológica tem repercussões profundas para as classes subalternas, pois, além de não terem acesso a políticas públicas básicas, têm em torno de si comportamentos de discriminação e repressão. Devem ser enfatizadas, ainda, as marcas danosas produzidas em seus processos de subjetivação, em especial a internalização dessa concepção mistificadora”. (ALMEIDA, 2004:56).

A realidade das prisões brasileiras é uma expressão da questão social, existe uma

série de fatores que contribui para que ela permaneça nessas condições, violadora de

direitos. O efetivo carcerário, geralmente, é formado por segmentos da população com

baixa escolaridade, muitas vezes sem nenhum tipo de profissionalização, provenientes

das classes populares e inseridos no mercado informal de trabalho quando em

liberdade. Assim, aqueles que se encontram encarcerados, em algum momento de

suas vidas não conseguiram usufruir a cidadania na sua plenitude, pois apesar a

universalização dos direitos, o acesso aos mesmos se dá de maneira desigual. O

resultado dessa desigualdade de acesso aos direitos é fragmentação e a seletividade

das políticas sociais brasileiras faz com que a população tenha acesso a frações de

cidadania, uma vez que os direitos não são universalizados e os serviços oferecidos

não se efetivam frente às demandas da população.

A punição passa a ser realizada através do aspecto individualizante e não leva em

consideração a realidade, a totalidade social; o problema está no indivíduo e não nas

relações que constroem os valores e a dinâmica social. Para Iamamoto,

“a questão social é indissociável do processo de acumulação e dos efeitos que produz sobre o conjunto das classes trabalhadoras, o que se encontra na base da exigência de políticas sociais públicas. Ela é tributária das formas assumidas pelo trabalho e pelo Estado na sociedade burguesa e não fenômeno recente, típico do trânsito do padrão de acumulação no esgotamento dos 30 anos gloriosos da expansão capitalista.” (2001:11)

Com o advento do neoliberalismo, há o agravamento da questão social. Os

princípios constitucionais, em virtude da política econômica e social adotada, deixam de

ser objetos de intervenção direta do Estado, principalmente no que se refere às

25

políticas

de

seguridade

social.

As

políticas

sociais

implementadas

para

o

enfrentamento das mazelas sociais permanecem com traços clientelísticos e focalistas

contribuindo para a permanência da “cultura de favores”, que ainda perpassa o ideário

da população brasileira. Ao passo que o Estado opta pela manutenção dos interesses

capitalistas, deixa de cumprir com suas funções e contribui para a criminalização da

miséria.

O

desenvolvimento

do

capitalismo

e,

conseqüentemente,

as

transformações

ocorridas no mundo do trabalho geraram mudanças de caráter econômico, social e

político na sociedade; afetando drasticamente a vida da classe trabalhadora no que diz

respeito a efetivação de direitos.

O contexto atual é marcado pelos ajustes neoliberais que visam à diminuição das

funções estatais em detrimento de um Estado penal e repressor. Nota-se que as

políticas implementadas pelos governantes enfatizam a esfera econômica, com a

finalidade de potencializar o padrão de acumulação capitalista e as condições para sua

reprodução. Logo, o cidadão é visto como consumidor e as políticas sociais acabam

assumindo duas funções: social – pode ter função redistributiva de renda na sociedade,

funcionando como complemento ao salário do trabalhador; econômica – constituindo-se

como instrumento para baratear a força de trabalho, permitindo que os trabalhadores se

reproduzam de modo que a acumulação se dê a partir da força da classe trabalhadora.

(Pastorini, 1997).

Antunes, ao discorrer sobre os modelos de produção, afirma que atualmente:

“vivem se formas transitórias de produção, cujos desdobramentos são também agudos, no que diz respeito aos direitos do trabalho. Estes são desregulamentados, são flexibilizados, de modo a dotar o capital do instrumental necessário para adequar-se a sua nova fase. Direitos e conquistas históricas dos trabalhadores são substituídos e eliminados do mundo da produção. (1999: 16)

26

O resultado das desigualdades sociais, que penalizam as camadas populares

também, se expressa no perfil da população carcerária brasileira. O sistema carcerário

do país é um reflexo das contradições produzidas pela própria sociedade que fortalece

a lógica excludente de um modelo econômico que marginaliza e criminaliza imensas

parcelas da população.

É

possível

notar

que

as

prisões

tornaram-se

locais

de

neutralização

e

esquecimento dos detentos; portanto, sem qualquer perspectiva de oferecer a esses

indivíduos uma alternativa para retornarem à sociedade. Neste sentido, o discurso da

“ressocialização”

revela-se

uma

falácia.

A

sociedade

não

é

harmônica

e

seus

problemas

fundamentam-se

nas

contradições

da

sociedade

capitalista,

que,

em

detrimento

da

apropriação

privada

da

riqueza

produzida

pelo

trabalho

coletivo,

aprofunda cada vez mais as desigualdades sociais entre as classes.

Para Wacquant, os efeitos do encarceramento sobre as populações e os

espaços mais diretamente colocados sob tutela penal são:

“estigmatização, interrupção de estratégias escolares, profissionais, matrimônios e desestabilização das famílias, amputação das redes sociais, enraizamento em bairros marginalizados, onde o encarceramento se banaliza como uma “cultura de resistência ou mesmo de desafio à autoridade, e todo o cortejo de patologias, sofrimento e violências (inter) pessoais comumente associados à passagem pela instituição carcerária”. (2003:12)

Neste sentido, é possível perceber a reprodução social da desigualdade pelo

sistema punitivo brasileiro; uma vez que os fenômenos sociais são enfrentados a partir

de um viés coercitivo, tendo como objetivo a eliminação e contenção dos pobres.

Com as mudanças ocorridas no mundo do trabalho, houve uma reestruturação de

formas de produção e reprodução das mercadorias e conseqüentemente da vida social.

Essa

reorganização

do

capitalismo

gerou

uma

situação

de

incerteza

para

os

27

trabalhadores, que passaram a vivenciar as reduções de empregos e o aumento dos

trabalhos informais. O cenário atual é de prevalência do mercado em detrimento da

minimização das funções estatais; há um processo de migração da população para

outros setores da economia, principalmente o terciário (que encobre uma série de

trabalhos informais, originando-se o subemprego).

A massa carcerária constitui uma parte significativa da população que não teve

acesso ao emprego por meio de qualificação adequada para sua inserção no mercado

de trabalho.

Embora alguns autores afirmem que a o trabalho não é um fator importante para

análise das desigualdades sociais na contemporaneidade, ele se constitui em um

elemento fundamental para a garantia das condições de vida de todos os indivíduos.

O Sistema de Proteção Social Brasileiro, baseado na idéia do seguro, tem

implícito o conceito de cidadania regulada (Santos, 1984), ou seja, o acesso aos

direitos encontra-se atrelado ao vínculo empregatício do trabalhador. Assim, com o

aprofundamento da política neoliberal no país, reduzem-se cada vez mais os postos de

trabalho

formais

e

precarizam-se

as

relações

contratuais

existentes;

não

investimentos em infra-estrutura para que o operariado tenha acesso às Políticas de

Educação, Saúde, Habitação, Assistência etc

,

condições básicas para a garantia de

um mínimo de sobrevivência e uma inserção mais qualificada no mercado de trabalho.

“No Brasil, revela-se um quadro em que tanto o Estado Social como o Estado Legal são fracos, pois incapazes de universalizar, de fato, os direitos sociais e os direitos civis. A garantia desses direitos permanece restrita a uma minoria, de modo que as amplas parcelas da população restam um Estado precário e repressor. É para as camadas sociais mais pobres, desprovidas dos direitos sociais, que se apresentam tanto os maiores riscos da criminalidade como a face repressora ou mesmo ilegal do Estado”.(NEME, 2005:15)

28

Desta maneira, tem-se progressivamente um aumento significativo de indivíduos

encarcerados, uma vez que estes não apresentam condições de proverem suas vidas e

não possuem apoio estatal para a garantia de um sistema de proteção social que possa

ampará-los diante das incertezas postas pelo mercado de trabalho. O encarceramento

em

massa

revela

que

as

medidas

adotadas

pelo

Estado

possuem

um

público

direcionado,

que

quando

privado

de

sua

liberdade,

tem

seus

laços

sociais

enfraquecidos; dificultando assim a retomada das relações sociais, quando estiver em

liberdade.

1.1 - Sistema Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro

O sistema penitenciário do Rio de Janeiro encontra-se regulamentado pelo

Decreto 8.897 (RPERJ), instituído em 31 de março de 1986. Este decreto objetiva

complementar a Lei de Execuções Penais (1984), especificando as competências e os

procedimentos a serem adotados pelos diversos profissionais que atuam no sistema

penitenciário do Rio de Janeiro.

Este regulamento trouxe medidas significativas para a vida dos presos, uma vez

que no âmbito da assistência objetiva “a preservação da condição de ser humano do

detento tanto quanto prevenir o crime, além de orientar o retorno do interno à

convivência em sociedade, buscando proporcionar aos presos, assistência material, à

saúde, à defesa legal, educacional, de serviço social e religiosa, estendendo-se a

referida assistência aos egressos e aos filhos das presas no estado”.

Em 2002, o sistema prisional do Rio de Janeiro esteve vinculado à Secretaria de

Justiça, até então extinta; transformando-se na Secretaria de Direitos Humanos e

29

Sistema Penitenciário, no governo de Antony Garotinho. Passado este período, durante

o mandato de Benedita da Silva, o sistema carcerário retornou ao comando da

Secretaria de Justiça. Em 2003, a então governadora Rosinha Garotinho, através do

Decreto 32.621 de 1º de janeiro do referido ano, instituiu a Secretaria de Administração

Penitenciária (SEAP/RJ) 7 , com o objetivo de dar um tratamento individualizado e

específico ao sistema penitenciário do Rio de Janeiro.

A

SEAP

encontra-se

organizada

Unidades

Prisionais 8 ,

Infra-Estrutura

e

através

de

Tratamento

três

Subsecretarias

Penitenciário,

além

Adjuntas:

de

uma

Subsecretaria Geral de Administração Penitenciária. Tem ainda três Coordenações de

Unidades Prisionais: Gericinó, Frei Caneca e isoladas; Niterói e interior, com o objetivo

de dar assistência mais personalizada às direções dos presídios. São órgãos da SEAP:

Fundação Santa Cabrini (FSC), o Conselho Penitenciário (CONPE) e o Fundo Especial

Penitenciário (FUESP).

Apesar de toda uma estrutura voltada para a questão da individualização da pena

dos presos, bem como da tentativa das melhorias das condições de vida dos apenados

nas unidades prisionais, o sistema carcerário do estado do Rio de Janeiro apresenta

contradições quanto aos objetivos da política de encarceramento e os resultados

obtidos atualmente.

Existe uma separação entre o tratamento penal e a segurança penitenciária,

ambas orientam-se por perspectivas diferenciadas; predominando sobre o sistema

penal o pensamento dos agentes de segurança. A lógica da punição permanece sob a

ótica positivista, onde os indivíduos serão “reinseridos” na sociedade através da

30

perspectiva da “ressocialização”, onde os apenados, dentro das prisões, adquiririam

novos hábitos para tornarem-se “bons cidadãos”, ou seja, é a realização de uma

metodologia de trabalho que tem como referencial um modelo de sociedade em que

não há contradições, as relações sociais são harmônicas e, portanto os indivíduos

devem se adequar à mesma; pois os fatores que ocasionaram a perda da liberdade

estão estritamente vinculados à subjetividade dos apenados.

Desde

o

seu

nascimento,

início

do

século

XIX,

a

penalidade

estabelecida

constituiu-se na manutenção do controle dos indivíduos, “de maneira cada vez mais

insistente, tem em vista menos a defesa geral da sociedade que o controle e a reforma

psicológica e moral das atitudes e dos comportamentos dos indivíduos” (FOUCALT,

1977: 67).

Neste período, o controle dos indivíduos não se restringirá apenas ao poder do

judiciário; várias instituições lhe darão suporte para o acompanhamento da execução

da pena dos presos:

“uma gigantesca série de instituições que vão enquadrar os indivíduos ao longo de sua existência; instituições pedagógicas como a escola, psicológicas e psiquiátricas como o hospital, o asilo, a polícia, etc. Toda essa rede de um poder que não judiciário deve desempenhar uma das funções que a justiça se atribui neste momento: função não mais de punir as infrações dos indivíduos, mas de corrigir suas virtualidades” (idem, 1974:68).

O sistema penitenciário apresenta novos mecanismos para aplicação da punição.

Se antes, no nascimento das prisões o corpo era o alvo de práticas violentas e estas

eram

demonstradas

publicamente,

na

atualidade,

os

presos

continuam

sendo

submetidos à praticas de tortura, que englobam violência física e psicológica e estas

não são publicizadas regularmente, uma vez que não há interesse em divulgar a

realidade

destas

instituições.

As

condições

degradantes

a

que

são

submetidos;

contribuem para o fomento de rebeliões, bem como para dificultar o retorno dos presos

31

à vida em liberdade.

Apesar dos avanços constitucionais e do surgimento de

alternativas para o cumprimento da pena e a prevenção do crime, as taxas de

encarceramento da população brasileira continua apresentando cada vez mais acirrada.

A

situação dos

apenados

não

se

diferencia

totalmente

dos presos de

regimes

passados, ao contrário: os modelos de prisões contemporâneos apresentam uma nova

“roupagem”, mas atuam de modo a assegurar que estes indivíduos permaneçam sob

vigilância a todo o momento; uma série de elementos coercitivos são implementados

para o controle da subjetividade de cada um dos internos. Durante o período de

encarceramento, estes perdem a sua individualidade uma vez que suas singularidades

são expostas a situações vexatórias cotidianamente.

Se antes existia o Panopticon 9 “uma forma de arquitetura que permite um tipo de

poder do espírito sobre o espírito” (idem,1977:69); para o controle dos indivíduos, hoje,

a sociedade capitalista através dessas mesmas instituições exercem um poder sobre os

indivíduos

que, através

de determinados

comportamentos e infrações a

normas

estabelecidas socialmente, os levam a legitimação e reprodução da ordem. O controle

também se dá através da esfera privada dos cidadãos, o ideário dominante é propício à

perpetuação de uma ideologia que culpabiliza os indivíduos pela sua condição.

Com o advento da sociedade industrial as formas de punição deixam de ter como

foco central a função de disciplinar e reeducar os apenados; têm como finalidade

adequar os indivíduos às novas formas de produção da sociedade capitalista.

9 O Panopticon era um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio com uma torre no centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas havia segundo o objetivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário trabalhando, um prisioneiro se corrigindo, um louco atualizando sua loucura. Na torre havia um vigilante. Como cada cela dava para o interior e exterior, o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nenhum ponto de sombra e, por conseguinte, tudo que fazia o indivíduo estava exposto ao olhar de um vigilante que observava através de venezianas, de postigos semi-cerrados de modo a poder ver tudo, sem que ninguém ao contrário pudesse vê-lo. (FOUCALT:

32

Foucault sustenta que a prisão vai muito além da simples detenção, ela pretende

disciplinar o indivíduo e torná-lo dócil. Pois, “é dócil um corpo que pode ser submetido,

que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (1977:126)

Os mecanismos de disciplinamento dos cárceres, as formas de regulação do

cotidiano prisional, servem para moldar o comportamento dos aprisionados numa

perspectiva preventiva e educativa, mas que são sobrepostas pela lógica da punição.

Melossi (2005) ao discutir a vinculação entre cárcere e trabalho descreve como a

casa de trabalho foi uma estratégia anterior ao cárcere, de subordinação das classes

subalternas ao desenvolvimento do sistema capitalista: a casa de trabalho – “um

protocárcere” que seria depois tomado como modelo da forma moderna do cárcere no

período iluminista, isto é quando ocorreu a verdadeira “invenção da penitenciária” não

parecia ser outra coisa senão uma instituição de adestramento forçado das massas ao

de modo de produção capitalista, afinal, para elas, esse modo de produção era uma

absoluta novidade ( e nesse sentido, a casa de trabalho era uma instituição subalterna

à fábrica).

“Neste sentido, torna-se indispensável considerar tanto a dimensão instrumental quanto a dimensão simbólica da instituição carcerária. A dimensão instrumental nos permite iluminar as origens da penitenciária e as funções econômicas imediatas que ela assumia, sendo a principal delas a produção de uma força de trabalho disciplinada e disponível à valorização capitalista. A dimensão simbólica, por sua vez permite-nos explicar o motivo do sucesso histórico aparente da instituição carcerária. O cárcere representa a materialização de um modelo ideal de sociedade capitalista industrial, um modelo que consolida através do processo de desconstrução e reconstrução contínua dos indivíduos no interior da instituição penitenciária”. (GIORGI,

2006:45).

Deste

modo,

tem-se

na

contemporaneidade

a

produção

de

formas

de

estigmatização e criminalização dos indivíduos que não têm acesso ao trabalho, a

punição continua sendo focalizada aos segmentos populares da sociedade, naqueles

que vivem em situação de pobreza. A política de controle implementada pelo Estado

33

contribui para o aumento das desigualdades sociais restando aos indivíduos que não

usufruem os direitos sociais a adoção de medidas alternativas para a garantia de sua

sobrevivência. “A força de trabalho excedente, desempregada, se vê obrigada a

garantir a sua existência através de artifícios e de estratégias de sobrevivência que vão

do biscate ao crime. É a utilização de meios legítimos de sobrevivência. (DORNELLES,

1992:57).

Garland apropriando-se do pensamento de Michel Wieviorka (1997), a partir da

década de 60, ocorre em nível mundial um novo paradigma da violência. Este novo

paradigma origina-se das transformações sociais, políticas e econômicas; emergindo

desde então novas formas de controle social e punição. O surgimento de novas formas

de controle produzem novas relações sociais,

“mais do que uma mudança circunscrita às práticas e percepções acerca do crime e da criminalidade, ou das formas de controle social e de punição, estaria ocorrendo na atualidade uma transformação mais geral da violência e de suas representações no mundo contemporâneo (pág. 08)

Esse novo reordenamento alterou as formas de punição e o tratamento destinado

à criminalidade. Ocorreram modificações nas práticas penais e nas políticas de

segurança;

pois

as

estratégias

de

manutenção

da

ordem

atentam-se

para

o

crescimento da insegurança e do medo presente na sociedade. As políticas formuladas

pelo Estado tentam responder de maneira eficaz aos anseios da população diante dos

elevados

índices

de

comunicação.

criminalidade

transmitidos

constantemente

pelos

meios

de

O sistema carcerário brasileiro apresenta particularidades, quanto às práticas de

violência incorporadas ao cotidiano das prisões. Wacquant (2001) demonstra alguns

elementos importantes que contribuem para as formas de punição adotadas pelo Brasil.

34

Chama atenção, conforme já foi mencionado, para posição subordinada do país na

estrutura das relações econômicas internacionais, acarretando disparidades sociais

vertiginosas e a pobreza de massa que, ao se combinarem, alimentam o crescimento

inexorável da violência criminal. Afirma também o uso rotineiro da violência letal pela

policia militar e o recurso habitual à tortura por parte da polícia civil, as execuções

sumárias e os desaparecimentos inexplicados geram um clima de terror entre as

classes populares, que são seu alvo, e banalizam a brutalidade no seio do Estado;

sinaliza que no Brasil existe um recorte de classe, sendo a discriminação baseada na

cor um elemento fundamental para aplicação da violência pelos aparelhos policial e

judiciário; e por fim, menciona o estado das prisões, utilizados para o controle dos

distúrbios urbanos; por meio de uma associação entre as prisões brasileiras e os

campos de concentração, como empresas públicas de depósito industrial dos dejetos

sociais.

Assim, as prisões são utilizadas para conter um público que não se enquadra ao

modelo de sociedade vigente, é um instrumento,

‘‘

retirar do espaço público o refugo da sociedade de mercado – os pequenos delinqüentes ocasionais, os desempregados e os indigentes, os sem teto, os sem documentos, os toxicômanos, os deficientes e doentes mentais deixados de lado por incúria de proteção sanitária e social. (DAMER PEREIRA apud Wacquant, 2004:217)

para limpar as escorias das transformações econômicas em curso e

(

)

As relações estabelecidas nestes espaços revelam a fragilidade de uma política

penitenciária que gera cada vez mais o distanciamento entre o plano formal e a

efetivação de direitos dos apenados. Diariamente, os presos convivem com uma série

de violações de direitos que incidem brutalmente em suas vidas, principalmente no

tocante aos seus projetos de liberdades. Os presos não têm a possibilidade de projetar

suas vidas extramuros, porque não se viabilizam condições para que possam obter

35

meios para garantia de sua sobrevivência e de seus familiares. Muitos reincidem

porque encontram uma realidade bastante complexa quando saem em liberdade.

Mesmo com o apoio dos familiares são numerosos os efeitos produzidos pelas prisões,

que dificultam principalmente o acesso ao mercado formal de trabalho.

A violência no interior das instituições penais é resultado de vários aspectos que,

combinados, contribuem para a banalização das condições de vida da população

carcerária.

Salla (2001) afirma, que ao longo das décadas de 1980 e 1990, a violência nas

prisões brasileiras tem sido resultado de um conjunto bastante conhecido de aspectos:

a deterioração das condições físicas dos locais de encarceramento, a superlotação, a

falta de condições de higiene, a inexistência de serviços de assistência à saúde, a falta

de assistência judiciária, a corrupção e a incompetência administrativa, além da

constância na prática de tortura.

Geralmente, os elementos acima descritos são alvos de reivindicações dos presos

durante rebeliões. Estas, quando ocorrem, consistem em estratégias de resistência às

formas de convivência no interior das prisões.

Nas unidades prisionais do Rio de Janeiro, os apenados têm muitas dificuldades

quanto ao acesso aos serviços oferecidos pela instituição. A área técnica, composta por

profissões como, Serviço Social, Psicologia, Psiquiatria, Educação, dentre outras, é um

espaço, ainda que com um viés de manutenção e coesão, que propicia melhores

condições de vida a estes indivíduos, oferecendo orientações e realizando atividades

que garantam seus direitos, tais como: assistência social, psicológica, educacional,

visando à garantia de um apoio durante a execução da pena. Porém, verifica-se que há

36

alguns obstáculos por parte dos agentes de segurança para que estes setores

desenvolvam seus respectivos trabalhos.

Muitos desses impedimentos estão estritamente ligados à questão da segurança;

a movimentação de presos parece causar uma certa fragilidade no interior dos

presídios, impossibilitando a realização de trabalhos que venham a contribuir com o

desenvolvimento das potencialidades dos apenados. Assim, as práticas que têm como

propósito a promoção da cidadania dos internos não têm tanta relevância em relação às

atividades desenvolvidas pela segurança, que objetivam apenas a manutenção da

ordem e da segurança penitenciária.

Dhamer Pereira (2006) assinala que o cotidiano da vida prisional assemelha-se ao

jogo de “cabo de guerra” numa ponta estão os inspetores penitenciários, com sua

atenção voltada para as ações de manutenção da ordem; na outra ponta do jogo os

profissionais da assistência. Os dois grupos se queixam mutuamente e cada um dos

lados acusa o outro de colocar empecilhos à realização de seus trabalhos.

Trata-se de perspectivas diferenciadas de trabalho, pois o processo de formação

desses profissionais abrangem questões que não se articulam no interior das Unidades

Prisionais. Ambas as partes estão sempre reivindicando em torno de condições

propícias para o desenvolvimento de suas atividades, pois:

“as contradições advindas dos objetivos divergentes perseguidos tanto por inspetores quanto por técnicos podem ser simplificadas como no jogo cabo de guerra mencionado. Todos os envolvidos na administração da custódia de presos convivem com este conflito, intrínseco à pena privativa de liberdade e às medidas de segurança; jamais haverá vencidos e vencedores. (pág. 185)

As formas punitivas existentes na sociedade brasileira fundamentam-se em uma

perspectiva de criminalização da pobreza, as classes subalternas – público alvo das

prisões são discriminadas pelas condições sócio-econômicas em que vivem.

37

A face punitiva das ações realizadas no sistema penitenciário do Rio de Janeiro

“produz não só a relação de desigualdade, mas os próprios sujeitos passivos desta

relação” (Baratta, 2002:166).

recrutando-os

principalmente das zonas mais depauperadas da sociedade, um setor de marginalizados sociais particularmente qualificado para intervenção estigmatizante do sistema punitivo do Estado e para a realização daqueles processos que, a nível da interação social e da opinião pública, são ativados pela pena e contribuem para realizar o seu efeito marginalizador e atomizante. (Idem, pág. 167).

a função do cárcere na produção de indivíduos desiguais (

)

Dados do Infopen 10 revelam que, em 2007, o quantitativo da população carcerária

do estado do Rio de Janeiro, incluindo homens e mulheres, era de 22.851 reclusos.

Estes distribuídos de acordo com seus respectivos regimes e situações: Presos

Provisórios, Regime Fechado, Semi-Aberto, Regime Aberto, Medida de Segurança-

Internação, Medida de Segurança-Tratamento ambulatorial.

Em relação à quantidade de presos por Grau de Instrução tem-se: Analfabetos:

4.069,

Alfabetizados:

511,

Ensino

Fundamental

Incompleto:

13.849,

Ensino

Fundamental Completo: 2.514, Ensino Médio Incompleto: 801, Ensino Médio Completo:

913, Ensino Superior Incompleto:118, Ensino Superior Completo: 74, Ensino acima de

Superior Completo:02.

Ilustração 1

10 Inteligência Penitenciária Nacional do Depen.

38

0% 1% 4% 0% 4% 18%
0%
1%
4%
0%
4%
18%

11%

60%

GRAU DE INSTRUÇÃO - POPULAÇÃO CARCERÁRIA DO RIO DE JANEIRO

AnalfabetosDE INSTRUÇÃO - POPULAÇÃO CARCERÁRIA DO RIO DE JANEIRO Alfabetizados Ensino Fundamental Incompleto Ensino

Alfabetizados- POPULAÇÃO CARCERÁRIA DO RIO DE JANEIRO Analfabetos Ensino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Completo

Ensino Fundamental IncompletoEnsino Fundamental Completo Ensino Médio

Ensino Fundamental CompletoEnsino Fundamental Incompleto Ensino Médio

Ensino MédioEnsino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Completo

Incompleto

Ensino Médio CompletoEnsino Fundamental Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Superior Incompleto Ensino Superior Completo Ensino

Ensino Superior IncompletoCompleto Ensino Médio Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Superior Completo Ensino acima de Superior Completo

Ensino Superior CompletoIncompleto Ensino Médio Completo Ensino Superior Incompleto Ensino acima de Superior Completo 2% Da população

Ensino acima de Superior CompletoCompleto Ensino Superior Incompleto Ensino Superior Completo 2% Da população carcerária 80% possui nível de

2%

Da população carcerária 80% possui nível de escolaridade baixo, refletindo a

situação de pobreza que estes indivíduos vivenciam cotidianamente; em conseqüência

da precariedade das condições de vida e das relações de trabalho. Muitos apenados

nunca obtiveram vínculo empregatício durante a vida profissional; estiveram sempre

vinculados ao mercado informal de trabalho desenvolvendo atividades laborativas sem

nenhum tipo de proteção por parte do Estado.

A ausência de proteção social é resultado de uma política que aprofunda as

desigualdades sociais,

“a sociedade brasileira continua caracterizada pelas disparidades sociais vertiginosas e pela pobreza de massa que, ao se combinarem, alimentam o crescimento inexorável da violência criminal, transformada em principal flagelo das grandes cidades.” (WACQUANT, 2001:08)

O mesmo autor sinaliza dentre outros fatores que,

o recorte de hierarquia de classes e de estratificação etnorracional e a

discriminação baseada na cor, endêmica nas burocracias policial e judiciária

) (

os indiciados de cor se beneficiam de uma vigilância particular por parte da

polícia, têm mais dificuldades de acesso a ajuda jurídica e por um crime igual,

39

são punidos com penas mais pesadas que seus comparsas brancos. E, uma vez atrás das grades, são ainda submetidos às condições de detenção mais duras e sofrem violências mais graves. Penalizar a miséria significa aqui tornar invisível o problema negro e assentar a dominação racial dando-lhe um aval de Estado” (idem, págs. 09 e10).

Ilustração 2

Quantidade de Presos por Cor de Pele/Etnia

No

sistema

43%

1% Branca 0% 31% Negra Parda Amarela 25% Outros
1%
Branca
0%
31%
Negra
Parda
Amarela
25%
Outros

penitenciário

do

Rio

de

Janeiro,

o

total

de

negros

e

pardos

corresponde a 15.572 do total de 22.851 internos (as). Este dado representa os

destinatários da política de encarceramento se localizam nas classes populares, pois

este segmento da sociedade é composto de indivíduos que apresentam maiores

dificuldades para terem seus direitos garantidos. Geralmente são aqueles que se

inserem precariamente no mercado formal de trabalho, possuem baixa escolaridade, a

base salarial gira em torno de um salário mínimo, sem contar com as pessoas inseridas

no mercado informal, que sobrevivem de uma renda que nem sempre é suficiente para

sobrevivência familiar e são completamente desprotegidos em relação aos direitos, uma

vez que a seguridade social organiza-se através do seguro social, dificultando o acesso

aos direitos, tendo um de seus princípios “seletividade e distributividade na prestação

dos benefícios e serviços”, ou seja, a situação de vínculo empregatício define quem terá

acesso aos benefícios e serviços previstos em lei.

40

No sistema carcerário do Rio de Janeiro, bem como do restante do país há a

ausência de uma padronização da política penitenciária orienta e organiza as ações

neste campo de intervenção, que não se constitui como área privilegiada para o Estado.

Não existe investimento porque “o sistema prisional apresenta-se como funcional à

economia capitalista, tal como a criminalidade, já que contribuem decisivamente para o

mercado da segurança pública” (DHAMER PEREIRA, 2006:342). As modificações

neste

poder

instituído

implicariam

mudanças

nas

relações

sociais

presentes

no

cotidiano e conseqüentemente no entendimento de que o modelo de encarceramento

não é a única via para os problemas sociais.

A compreensão de que o aumento da violência e dos índices de criminalidade

estão vinculados à decisões de cunho econômico e político, que incidem nas condições

de vida dos indivíduos, é de fundamental importância para que se pense em políticas

sociais universais, de caráter preventivo de modo a auxiliar a população no provimento

de suas necessidades básicas.

As políticas sociais aplicadas pelo poder público são pontuais, não se efetivam

concretamente em relação às demandas sociais apresentadas pela população. Desta

forma acabam por fragilizar a vida daqueles que necessitam dos serviços oferecidos,

uma vez que não são idealizadas sob o princípio de universalidade de atendimento,

existe um público específico que acessa as ações realizadas pelo poder público. À

medida que estes serviços (saúde, educação, assistência,

)

são débeis e fragilizados

não

respondem

às

expectativas

dos

indivíduos

deixando-os

em

condição

de

vulnerabilidade social.

As políticas sociais existentes no cárcere, também são bastante ineficientes; pois

não há uma articulação entre as mesmas. A ausência de uma política específica para o

41

sistema penal colabora para a inexistência de uma interlocução entre as demais

políticas: saúde, assistência, educação, entre as diversas áreas que se ocupam do

“tratamento” e também das questões pertinentes à segurança e ao cumprimento da

pena.

Todos

os

problemas

apontados

contribuem

para

permanência

de

práticas

violentas que se traduzem no descontentamento dos apenados, bem como dos agentes

de segurança que exercem suas funções em condições precárias e insalubres.

As rebeliões, comumente associadas à reivindicações dos presos por melhorias

nas

unidades

prisionais,

são

apropriadas

pela

mídia

de

forma

sensacionalista,

transmitindo à sociedade que a violência existente nestes espaços origina-se da

insubordinação dos presos às medidas adotadas pela administração dos presídios em

relação às regras de condutas emanadas para segurança e o funcionamento destas

instituições. São escassos os noticiários que fazem observações sobre a realidade dos

espaços prisionais e do público que neles encontram-se privados de sua liberdade.

Garland (1997), que faz uma associação entre as falhas do sistema penal e a

questão da violência, afirma que:

“há uma tensão inerente às sociedades ocidentais, uma vez que estas lidam com a punição de forma racional e por meio de um desejo coletivo moral e apaixonado de punir aqueles que violam as regras sociais. A tentativa de prevenir o crime por meio de leis e de um sistema carcerário convive com o desejo de vingança. O sistema jurídico-penal, portanto, é capaz de oferecer melhores oportunidades de escolha para uma vida sem crimes, mas também opera no sentido de satisfazer vontades coletivas’.

Neste sentido, a lógica da punição relaciona-se muito mais ao desejo de punir

aqueles que violaram as regras impostas por um modo de pensar dominante, do que

oferecer

um

sistema

que

busque

respeitar

os

direitos

destas

pessoas

e

que

conseqüentemente garanta o mínimo necessário para que os apenados tenham

42

condições de cumprirem sua pena e obterem acesso a políticas que lhe dêem suporte

quando estiverem em liberdade.

43

Capítulo II: A Execução Privativa da Pena e a banalização da violência

no interior das prisões.

Existe um grande distanciamento entre a esfera legal e as práticas realizadas nas

prisões. Com base em alguns instrumentos legais referentes ao sistema penitenciário

buscou-se identificar a banalização da violência por parte do Estado; uma vez que este

viola cotidianamente os direitos da população carcerária, apesar da existência de

mecanismos legais que dispõem sobre o tratamento penal destinados aos presos.

A vida da população brasileira tem sido marcada por numerosas situações de

violência. Atualmente, os meios de comunicação têm veiculado uma série de notícias

relacionadas ao aumento da criminalidade e da insegurança nas grandes cidades e é

possível verificar que há uma necessidade de convencimento da população em relação

ao endurecimento das penas, como se o encarceramento daqueles que cometem

delitos fosse a solução para a redução dos elevados índices de violência na sociedade.

A realidade das prisões brasileiras revela de forma concreta as condições de vida

dos apenados (celas superlotadas, instalações degradadas, doenças, ociosidade,

injustiça). Estes fatores são condicionantes para o surgimento de motins e rebeliões.

Sobre as condições degradantes dos presídios, Rolim (2007) cita um trecho do

Relatório Anual (2002) do Centro Internacional para Estudos Penitenciários:

O conceito tradicional de prisão, pelo menos nos países ocidentais, é de um lugar onde o ofensor é enviado como castigo, e não para ser castigado. O que implica que o castigo consiste na privação de liberdade e não se estende à

Cada vez mais, aumenta o

forma na qual as pessoas aí são tratadas (

número de instâncias nas quais as condições em que os presos são mantidos

dá a impressão que eles foram enviados para a prisão para serem castigados. Isto provavelmente depende dos recursos da administração da prisão para

Em muitos casos as condições

mantê-las em boas condições de detenção (

repressivas são impostas nos presídios de modo intencional, como uma forma

).

).

44

de administração executiva e conveniente para lidar com os presos que apresentam risco de fuga ou rebelião. Também porque acreditam que determinado grupo de presos merece tal tratamento devido às ofensas pelas quais foram presos ou condenados”. (pág. 83).

O mesmo autor, em linhas gerais, apresenta as principais avaliações críticas

produzidas

no

Brasil

sobre

o

sistema

penitenciário,

estas

demonstram

o

posicionamento do Estado quanto às estratégias adotadas para a contenção da

criminalidade.

1. “O sistema de Justiça Criminal no Brasil tem privilegiado as condenações às penas privativas de liberdade. Ao longo dos últimos anos, tais condições têm sido empregadas com muito maior freqüência pelo Poder Judiciário cuja tendência mais representativa parece apontar – na maior parte dos estados, pelos menos – para um endurecimento da execução penal e para a prolatação de sentenças mais longas”.

Nota-se que há um aparato judicial e policial que privilegia o encarceramento dos

indivíduos, ao invés da aplicação de penas alternativas em relação ao delito cometido.

O Estado utiliza a força e a militarização “para conter a insegurança física cujo vetor é a

criminalidade de rua e a insegurança social gerada em toda parte pela dessocialização

do trabalho assalariado, o recuo das proteções coletivas e a mercantilização das

relações humanas”. (Wacquant, 2001:13).

2. “Independentemente do fenômeno objetivo de avanço da criminalidade e do aumento da violência produziu-se no Brasil uma avassaladora sensação de insegurança que parece moldar cada vez mais o comportamento e as expectativas disseminadas socialmente. Concorre para esse fenômeno, o destaque desproporcional e muita das vezes sensacionalista oferecido pela mídia aos temas da violência e da criminalidade, o que contribui, também, para que toda a discussão pública a respeito da segurança seja constrangida por uma forte dose de emocionalismo e preconceitos”.

A mídia tem um papel fundamental quanto à formação da opinião pública em

relação aos problemas sociais, econômicos e políticos da sociedade. Quando faz

referência ao aumento da violência e da criminalidade, constrói no imaginário social a

idéia

de

medidas

repressivas

como

única

alternativa

contra

autores

de

delitos,

45

desconsiderando a historicidade de vida destes indivíduos e as contradições existentes

na sociedade.

3. ”Do ponto de vista político, este mesmo clima passa a alimentar iniciativas de cunho demagógico – seja no âmbito administrativo, seja no âmbito legislativo - e reforça um discurso retrógrado do tipo “lei e ordem” e/ou “tolerância zero” não raras vezes proponentes da violência hostil a qualquer princípio humanista”.

O discurso demagógico da punição surge como uma alternativa única frente a

violência que assola o país, para o Estado a militarização da vida social é a solução

para os problemas sociais.

Nestas circunstâncias, verifica-se que a organização do sistema de justiça criminal

no Brasil, “revela a função coercitiva do Estado e demonstra que a justiça se torna mais

rígida e passa a punir associada a um aparelho policial mais vigilante” (DAHMER

PEREIRA, 2006:67), não oferece estrutura para o cumprimento das penas, e sua

finalidade concentra-se apenas no aspecto punitivo e no controle dos indivíduos nas

prisões.

Zaffaroni afirma que:

O poder punitivo é seletivo por natureza; não existe no mundo um sistema

penal que não seja seletivo. É um dado estrutural, não acidental. Por causa disso, o que pode e deve fazer um sistema penal (e o direito penal como contra – poder de contenção) é procurar diminuir o grau da seletividade. Para isso não é solução reprimir ainda mais algumas camadas sociais, ou seja, impor

Não temos um

maior repressão, mas diminuir o peso da repressão geral. (

modelo ideal no mundo. Pensar no melhor sistema penal é perguntar pela melhor guerra. Temos sistemas penais mais ou menos violentos, mais ou menos corruptos, mais ou menos seletivos, mas ideais, nenhum. (2007:135)

)

Rolim (2007) sinaliza alguns dos principais problemas das instituições penais

brasileiras, que contribuem para a banalização da violência e o desrespeito aos direitos

dos presos durante o cumprimento das penas privativas de liberdade:

46

1.

penas,

condicionada, em larga medida, pela circunstância objetiva da superlotação das casas prisionais.

Inexistência

de

um

processo

de

individualização

das

2. Ausência de procedimentos padronizados de administração prisional, tratamento dos presos e o gerenciamento de crises.

3. Inexistência de garantias mínimas e exposição sistemática dos condenados às mais variadas possibilidades de violência por parte dos demais presos e por parte de funcionários do sistema.

4. Regimes disciplinares rigorosos e ineficientes que agravam arbitrariamente a execução penal e promovem tensionamentos desnecessários nas instituições.

5.

Tratamento inadequado e normalmente ilegal e abusivo na revista de familiares de apenados quando das visitas às instituições.

O conhecimento sobre o cotidiano dos apenados ocorre em momentos extremos,

não se discute os problemas referentes ao sistema penitenciário e não há um

entendimento de que as contradições existentes dentro destes espaços originam-se

das desigualdades existentes na sociedade.

A persistência de violações de direitos nas prisões é resultado do estigma sofrido

por este segmento pelos próprios agentes do Estado e também pela população que

reage de forma bastante incisiva quanto às medidas a serem adotadas durante o

período privação de liberdade destes indivíduos. É comum a associação dos direitos

humanos a direitos de bandidos, essa simples relação retira o caráter histórico das

conquistas democráticas, resultado de lutas sociais da humanidade e exclui também o

caráter universal desses direitos; uma vez que no senso comum estes são restringidos

à população carcerária.

A falta de conhecimento da vida intramuros por parte da população e a ausência

de vontade política dos governantes para tornar efetivas as prescrições das leis, gera

esse distanciamento entre a esfera legal e as garantias previstas aos apenados, pois

47

em nome da ordem e da segurança legitimam-se práticas que não condizem com os

instrumentos legais que visam o bem estar de todos os indivíduos.

As prisões destinam-se aos que ficaram à margem do desenvolvimento econômico

produzido na sociedade capitalista. O acúmulo de riquezas concentrado nas mãos de

uma minoria da população expressa as disparidades sociais existentes entre a classe

trabalhadora e a classe dominante.

As desigualdades sociais são inerentes a este modelo de sociedade, portanto, o

acesso aos direitos se constitui em uma dificuldade para determinados segmentos da

população.

Nesta perspectiva, Coutinho (1997:159) assinala que “a divisão da sociedade em

classes constitui um limite intransponível à afirmação conseqüente da democracia” (

).

Ao discutir o conceito de cidadania, afirma que no modelo de produção capitalista

a mesma não se realiza. Para Coutinho, em uma democracia efetiva, todos os

indivíduos se apropriam da riqueza socialmente produzida.

Apesar da existência de um Estado de Direito no país, a democracia brasileira,

ainda é bastante deficitária, a universalidade dos direitos não atinge a totalidade da

população. Constata-se que a classe trabalhadora tem sido submetida a situações

extremas de exploração, ficando assim a vulnerável a condição de pobreza e miséria.

Os

direitos

sociais

são

paulatinamente

desmontados

e

as

políticas

sociais,

implementadas através de lutas sociais não ampliam os direitos deste segmento,

constituindo-se em instrumentos focais e assistencialistas; que não abrangem os

problemas sociais na sua totalidade.

Mészáros (1993) chama atenção para o que Marx afirma ser uma “ilusão jurídica”,

que trata a esfera dos direitos como independente ou auto regulada (pág. 204); ou seja,

48

a realização dos direitos ocorre sem levar em consideração as escolhas dos indivíduos,

ela existe independentemente da vontade humana.

“A objeção principal de Marx diz respeito à contradição fundamental entre os

direitos do homem e a realidade da sociedade capitalista, onde se crê que estes direitos

estejam implementados”. (1993:204)

Nesta sociedade, torna-se insuficiente a garantia de direitos apenas no plano

formal,

estes

estão

voltados

apenas

para

universalizados para todos os cidadãos.

uma

minoria

ao

invés

de

serem

Os direitos humanos de liberdade, fraternidade e igualdade são, portanto, problemáticos, de acordo com Marx, não por si próprios, mas em função do contexto em que se originam, enquanto postulados ideais abstratos e irrealizáveis, contrapostos à realidade desconcertante da sociedade de indivíduos egoístas. Ou seja, uma sociedade regida pelas forças desumanas da competição antagônica e do ganho implacável, aliados à concentração de riquezas em número cada vez menor de mãos (1993:207)

Ao trabalhar a questão da propriedade privada sinaliza que “a aplicação da

pretendida igualdade direitos a posse culminou em uma contradição radical, visto que

implicou necessariamente a exclusão de todos os outros da posse efetiva, restrita a um

só indivíduo”.

“Marx rejeita enfaticamente a concepção de que o direito à propriedade privada

(posse exclusiva) constitui a base de todos os direitos humanos” (1993:208). Retira-se

o caráter universal dos direitos humanos, eles passam a serem atribuídos apenas para

aqueles

que

possuem

os

desigualdades sociais.

meios

de

produção;

tornando-se

justificativa

para

as

Quanto ao sistema penitenciário, nota-se que o conjunto de instituições que o

organizam transformaram-se em espaços privilegiados para o desrespeito aos direitos

humanos. Os apenados são submetidos a condições de vida lastimáveis devido ao

49

constante descumprimento das leis. Não há nenhuma garantia de que os presos

tenham a possibilidade de cumprirem suas penas em conformidade com o delito

cometido e não há suporte para que o preso possa, gradualmente, dar continuidade a

sua vida quando estiver em liberdade.

Aqueles que se encontram encarcerados buscam através dos familiares e de

algumas

instituições

principalmente

as

religiosas 11 ;

o

apoio

necessário

para

conviverem com esta dura realidade, imposta cotidianamente.

Neste sentido, torna-se necessário enfrentamento desta problemática no país, pois

é necessário afirmar os princípios democráticos do Estado de direito, num momento em

que a violação de direitos abrange toda a população brasileira.

Bobbio (1992:25) afirma que “o problema grave do nosso tempo, com relação aos

direitos do homem, não é mais o de fundamentá-los, e sim o de protegê-los”.

o problema que temos diante de nós não é filosófico, mas jurídico e, num

sentido mais amplo, político. Não se trata de saber quais são e quantos são esses direitos, qual é a sua natureza e seu fundamento, se são direitos naturais ou históricos, absolutos ou relativos, mas sim qual é o modo mais seguro para garanti-los, para impedir que, apesar das solenes declarações, eles sejam continuamente violados”.

“(

)

DHAMER PEREIRA (2006:133) sinaliza que reafirmar os direitos humanos, no

caso os direitos dos presos e de suas famílias – não é uma dificuldade de ordem

conceitual. São direitos reconhecidos, pelo menos, por parte da humanidade e constam

nas normas internacionais”. Além disso, expressam o interesse maior da humanidade, o

qual deve predominar sobre o interesse particular (MESZÁROS, 1993:214).

A dificuldade em realizá-los está relacionada à falta de compreensão da população

em relação aos direitos dos presos e também decorre da ausência de uma política

11 Geralmente, os presos que não recebem visitas dos familiares buscam o apoio material e emocional junto a entidades religiosas.

50

institucional definida e estruturada em níveis nacionais, que possibilite a configuração

de diretrizes e objetivos para o sistema penitenciário brasileiro.

Meszáros (2006) alerta, contudo para o risco dos direitos humanos se tornarem

um mero discurso ideológico enquanto os interesses de classe prevalecerem e

paralisarem a realização do interesse de todos. E chama atenção ainda para o

significado da expressão do interesse de todos, que numa sociedade como a nossa

pode ser interpretada como os interesses de todos os setores dominantes.

Desta forma, os direitos humanos devem ser entendidos como direitos universais,

portanto viabilizados a todos os indivíduos. Para que sejam efetivados torna-se

necessária modificações na estrutura social visando a garantia de uma sociedade mais

justa e igualitária.

Tendo em vista os aparatos legais de proteção aos direitos humanos, o próximo

item deste trabalho destina-se a análise da implementação desses mecanismos dentro

das prisões.

2.1. Legislações de Proteção aos direitos dos presos e Sistema Prisional

Nesta etapa do trabalho considerou-se importante fazer uma análise de alguns

instrumentos nacionais e internacionais de proteção e respeito aos direitos dos presos.

Para tanto, examinou-se os seguintes dispositivos: A Constituição Federal de 1988, a

Lei de Execuções Penais e as Regras Mínimas da ONU para o Tratamento de

Reclusos.

Esses mecanismos legais expressam com clareza as prerrogativas dos apenados,

mas cotidianamente vêm sendo afrontados pelo Estado dentro das prisões. Portanto,

51

trazê-los para o debate contemporâneo sobre o sistema prisional é de extrema

relevância para sociedade.

A Constituição Federal de 1988 prevê no artigo 5º que “Todos são iguais perante a

lei,

sem

distinção

de

qualquer

natureza,

garantindo-se

aos

brasileiros

e

aos

estrangeiros residentes no país, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à

igualdade, à segurança e a propriedade”.

Estabelece

que:

”III)

desumano e degradante”(

ninguém

será

submetido

a

tortura

nem

a

tratamento

);

“XLVI) a lei regulará a individualização da pena; (

),

“XLVIII) a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a

natureza do delito, a idade e o sexo do apenado; XLIX) é assegurado aos presos o

respeito à integridade física e moral.

A

rotina

prisional

é

perpassada

por

numerosas

violações

das

garantias

constitucionais. Nota-se que a população carcerária possui tratamento desigual em

relação aos demais segmentos da sociedade. O fato de estes indivíduos terem

cometido algum delito, faz com estes sofram processos criminalizantes por condutas

que estão fora dos padrões determinados socialmente.

DHAMER PEREIRA (2006:139) observa

que “na

legislação, encontramos a

cidadania formal, tal como imaginamos que ”deve ser”. Na verdade, entretanto, um

amplo contingente dos brasileiros, entre eles os presos, é visto como não merecedor de

direitos”.

Não há um entendimento de que os apenados estão apenas cerceados do direito

de ir e vir, do direito ao voto, direitos civis e políticos. Logo, a idéia de que os presos

não são cidadãos é fomentada entre os agentes do Estado – poucos são aqueles que

possuem idéias contrárias a este pensamento, assim, os presos são obrigados a

52

conviverem com uma série de humilhações em decorrência da manutenção de uma

ideologia de castigo.

Nas prisões, os apenados são submetidos a torturas e tratamento desumano, que

se expressam em práticas violentas que incidem profundamente na esfera pública e

privada dessas pessoas. Esse controle social fomentado pelo ideário da cultura

prisional invade a vida dos presos afetando suas relações sociais, e a conseqüência

destes atos é torná-los propensos à reincidência criminal uma vez que não encontram

nesses estabelecimentos oportunidades para a suposta “regeneração”.

Perguntado

verbalizou:

sobre o sistema penitenciário do Rio de Janeiro,

um

apenado

Falta muito, tem muita coisa faltando para o preso. Porque as condições são muito ruins, falta o essencial: educação, saúde, atenção. Falta muita coisa pra você ressocializar o preso. Só nesta unidade se encontra coisas de estudos, industrial, mas se vai para outra cadeia, vai encontrar só o espaço que tem pra ficar, não tem trabalho, não tem nada”. (Presidiário, 33 anos, recluso há cinco anos e nove meses. Já teve passagem em três unidades prisionais – Bangu VIII, Água Santa e atualmente Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira).

A fala deste interno resume a realidade das prisões brasileiras, não possuem

estrutura

adequada

para

o

viabilização de direitos.

“tratamento

dos

presos”

apresentando

limites

para

O sistema prisional brasileiro está regulamentado pela Lei de Execuções Penais

(Lei 7.210 de 11/07/1984). Esta lei tem como objetivo “efetivar as disposições da

sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração

social do condenado e do internado”. Organiza as práticas existentes no sistema

prisional e estabelece normas a serem cumpridas acerca dos direitos e deveres dos

presos bem como dos funcionários destas instituições.

53

A LEP tem como meta a reintegração dos indivíduos, porém a proposta de

reinserí-los na sociedade de forma harmônica não condiz com a realidade, porque esta

é perpassada de contradições e o seu movimento é dialético.

Formulada sob o ponto de vista da perspectiva etiológica, atribui aos indivíduos a

responsabilidade de adequação as normas sociais estabelecidas, desconsiderando os

problemas sociais, que são fatores condicionantes na vida dos indivíduos aprisionados.

Segundo Torres,

A LEP determina como deve ser executada e cumprida a pena privativa de liberdade e restrições de direitos. Contempla os conceitos tradicionais da justa reparação, satisfação pelo crime que foi cometido, o caráter social preventivo da pena e a idéia de reabilitação. Dotando os agentes públicos de instrumentos de individualização da execução da pena, aponta deveres, garante direitos, dispõe sobre o trabalho dos reclusos, disciplina e sanções; determina a organização e competência jurisdicional das autoridades; regula a progressão de regimes e as restrições de direito”. (2001:79)

A LEP buscou contemplar os preceitos das Regras Mínimas para o Tratamento

dos Presos (1955), instrumento do Sistema Internacional de Proteção aos Direitos,

normas estas que o Brasil é signatário e prevêem que a execução penal trabalhe em

conformidade e respeito aos direitos humanos. Ao adotar o paradigma do tratamento

incorpora também os direitos e garantias da Constituição Federal de 1988.

Apesar de se constituir em um instrumento de extrema importância para as

práticas

existentes

prerrogativas.

no

sistema

prisional,

é

comum

o

descumprimento

de

suas

Iniciamos a análise da – LEP – artigo 5º “Os condenados serão classificados,

segundo os seus antecedentes e personalidade, para orientar a individualização da

pena”.

54

Verifica-se que o processo de individualizador da pena não tem se concretizado no

sistema prisional. Uma parte dos condenados cumpre pena irregularmente, em locais

não apropriados de acordo com as sentenças que lhes foram proferidas.

Existem

muitos presos condenados cumprindo penas em delegacias policiais ou em unidades

prisionais

destinadas

a

presos

provisórios.

Alguns

sem

condenação

definida

permanecem um longo período de suas vidas nas instituições penais em decorrência

de questões burocráticas relativas ao sistema judiciário.

A divisão de presos por facções é uma particularidade que impõe limites ao

sistema penitenciário brasileiro. Pois, a falta de vagas em estabelecimentos prisionais

específicos

dificulta

o

acesso

dos

presos

a

progressões

de

regimes

e

conseqüentemente a outros benefícios que venham colaborar gradualmente com o seu

retorno à liberdade.

O artigo 10º da LEP define que “a assistência ao preso e ao internado é dever do

Estado, objetivando prevenir e orientar o retorno à convivência em sociedade” O artigo

11º especifica a assistência a ser prestada aos presos: I) material; II) à saúde; III)

jurídica; IV) educacional; V) social; VI) religiosa.

Nestes artigos está previsto o trabalho do atendimento técnico (Assistência

Social, Psicológica, Educacional, Jurídica e Saúde), que no geral apesar dos embates

com

os

setores

de

segurança,

apresentam

intervenções

em

certa

medida

são

significativas, e apresentam efetividade no atendimento dos presos.

A LEP prevê que a assistência à saúde, será proporcionada ao preso e ao

internado e terá caráter “preventivo e curativo, compreenderá atendimento médico,

farmacêutico e odontológico” (artigo 14). Nas unidades prisionais, este atendimento é

bastante precarizado; não há medicamentos adequados para os presos enfermos.

55

Alguns convivem com doenças como HIV e Tuberculose, que são agravadas pelas

condições insalubres dos locais em que se encontram alojados. A falta de profissionais

na área da saúde também contribui para a fragilização dos atendimentos nesta área.

De modo geral, estes atendimentos são realizados pelos serviços de saúde pública, e

são muitos precários para a grande maioria da população. Acrescenta-se a este fato as

dificuldades ligadas à segurança prisional que impõe limitações para o deslocamento

dos presos (transferências para hospitais penais ou movimentação interna); tendo-se

assim, nesta área uma grande dificuldade para cumprir os aspectos legais.

Quanto

à

“(

são igualmente problemas crônicos nas prisões brasileiras. A assistência à saúde, no entanto, é a que apresenta maior precariedade. Os serviços internos à prisão são constantemente alvos de críticas dos presos pela ausência de médicos e outros profissionais de saúde, e pela falta de equipamentos essenciais e medicamentos. Presos com necessidades especiais – deficientes físicos, doentes mentais, doentes com problemas crônicos ou graves – não encontram qualquer tipo de atendimento especializado na maior parte das prisões brasileiras”. (SALLA, 2003:427)

a assistência social, assistência judiciária e assistência à saúde do preso

)

assistência

educacional

está

previsto

no

artigo

17

que

esta

compreenderá a “instrução escolar e a formação profissional do preso e do internado”.

São poucos os estabelecimentos prisionais que oferecem qualificação profissional aos

internos, o ensino oferecido pelas escolas não abrange a totalidade da população

carcerária que busca dar continuidade aos estudos. Não há recursos materiais e

humanos suficientes para que o trabalho seja desenvolvido com qualidade. Além disso,

as

iniciativas

de

profissionalização

dos

presos

são

muito

incipientes;

poucos

estabelecimentos prisionais possuem convênio com a Fundação Santa Cabrine –

instituição responsável em organizar atividades culturais, educacionais e artísticas,

incentivando a ocupação criativa de detentos.

56

O trabalho prisional disposto no artigo 28 da LEP preceitua como “dever social e

condição de dignidade humana, terá finalidade educativa e produtiva”; o artigo 31

dispõe sobre a obrigatoriedade na medida das aptidões e capacidades de cada preso.

Outro fator importante relacionado ao trabalho prisional e mencionado nesta legislação

é a remição de pena, (artigos 126 a 130) quando é regulamentada a possibilidade do

tempo de prisão ser reduzido na proporção de três dias trabalhados para um de pena,

ressaltando-se que a ocorrência de falta grave é fator de perda dos dias anteriormente

remidos.

O trabalho nas prisões é realizado através de atividades de manutenção interna

dos presídios (limpeza, cozinha, obras), artesanato e atividades informais. Algumas

destas

atividades

trabalhistas.

possuem

remuneração,

mas

não

são

protegidas

pelas

leis

A maior parte do efetivo carcerário é formada por uma população com baixa

escolaridade,

a

grande

maioria

sem

nenhum

tipo

de

profissionalização;

muitos

provenientes das classes populares e inseridos no mercado informal de trabalho

quando em liberdade.

As atividades desempenhadas pelos apenados, em muitos

casos, não lhes fornecem o aprendizado e a experiência necessária para posterior

vinculação ao mercado de trabalho.

Segundo Foucault, o trabalho foi apropriado pelo Sistema Prisional como

mecanismo de disciplinamento dos cárceres com vistas à manutenção das normas para

a regulação do cotidiano na direção da constituição de corpos dóceis.

Assim, o

trabalho prisional exerce várias funções: controle, oferta de mão -de - obra barata para

o capital, além de isentar o Estado de suas atribuições; visto que muitas das atividades

realizadas deveriam estar sob a responsabilidade de funcionários admitidos através de

57

concursos públicos, com todas as garantias trabalhistas previstas em lei. Os apenados

realizam estas atividades e na maioria dos casos não recebem nenhum tipo de

remuneração. Para eles, o trabalho se constitui como um elemento fundamental para

reorganização de suas vidas e uma oportunidade para não reincidirem criminalmente.

O Estado não propicia o acesso à Educação (em muitas instituições, as escolas

encontram-se fechadas ou o ensino oferecido não condiz com o perfil da população

usuária. Os cursos de qualificação profissional não são compatíveis com as exigências

do mercado de trabalho e apesar do governo possuir uma instituição (Fundação Santa

Cabrini) com o objetivo de contribuir para a criação dos meios necessários para que os

internos e egressos do sistema penitenciário do Rio de Janeiro tenham condições de

acesso ao exercício da cidadania, através da profissionalização, da educação e da

experiência no exercício profissional, são as famílias que assumem, em geral, o papel

de apoiá-los de acordo com suas condições e garantir uma carta de emprego com

“pessoas conhecidas” ou em firmas onde os apenados já trabalharam anteriormente.

Desta maneira, a falta de investimento no setor educacional e laborativo é um

fator condicionante que influencia nos projetos de liberdade dos presos; pois está ligada

diretamente à questão da sobrevivência e manutenção destes indivíduos.

A oferta de programas de escolarização, de formação profissional e de postos de trabalho para os presos fica muito aquém das necessidades na maior parte dos presídios brasileiros. Faltam estudos consistentes sobre as taxas de reincidência criminal no Brasil, mas todos os levantamentos parciais feitos pela polícia, pelo poder judiciário ou pelo sistema penitenciário apontam que elas estão sempre acima de 50%, revelando que uma das principais atribuições legais do sistema, que é a reinserção do indivíduo na sociedade, não está sendo cumprida”. (SALLA; 2003:427)

Outra área abordada pela LEP é a assistência jurídica que deve ser destinada aos

presos e internados sem recursos financeiros para constituírem advogados.

58

Os atrasos no andamento dos processos judiciais se dá também pela falta de

recursos materiais e humanos. Os atendimentos realizados nas unidades prisionais não

são contínuos; uma vez que os Defensores são alocados em vários estabelecimentos

penais ao mesmo tempo, e não conseguem dar conta dos inúmeros processos que

acompanham. Tem-se desta forma uma das causas da superlotação do sistema

penitenciário brasileiro.

A assistência social (artigo 22) “tem por finalidade amparar o preso e o internado,

e prepará-los para o retorno à liberdade; entre suas atribuições está a orientação ao

preso, a sua família e à vítima (artigo 23)”.

A assistência social também apresenta limitações no desenvolvimento de seu

trabalho, por questões relativas à segurança e por todos os motivos que já foram

expostos e que abrangem as demais áreas que atuam no “tratamento” dos presos.

A Lei de Execução Penal, apesar de conter aspectos importantes no que tange às

normas de cumprimento das penas privativas, não tem sido levada em consideração na

prática pelos custodiadores, principalmente quanto ao tratamento penitenciário. Os

direitos ao atendimento social, médico, psicológico e profissionalizante previstos, não

são colocados em prática pela execução penal: existem algumas exceções, mas estas

não conseguem superar essa conjuntura marcada por uma ausência de atendimento e

preparo psicossocial e profissionalizante do preso. Da mesma forma, as atividades

educacionais, jurídicas, profissionalizantes, produtivas, bem como o atendimento a

familiares e às condições físicas dos prédios não têm expressado o real cumprimento

da lei.

Outro mecanismo legal que orienta a administração da vida dos presos são as

Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos. Essas regras foram adotadas pelo

59

primeiro Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento de

Delinqüentes, realizado em Genebra (1955).

Divide-se

em

duas

partes:

a

primeira

consiste

“em

matérias

relativas

à

administração geral dos estabelecimentos penitenciários e é aplicável a toda categoria

de reclusos, dos foros criminal ou civil, em regime de prisão preventiva

ou

condenados, incluindo os que estejam detidos por aplicação de medidas de segurança

ou que já sejam objeto de medidas de reeducação ordenadas por um juiz. A segunda

parte contém regras que são especificamente aplicáveis às categorias de reclusos de

cada secção”.

Desta forma são, portanto, referência para todos os profissionais que trabalham no

sistema penitenciário, uma vez que instituem um conjunto de procedimentos a serem

implementados nos estabelecimentos prisionais dos países que compartilham com as

idéias adotadas por esta resolução.

Destacou-se na primeira parte, no tocante as Regras de aplicação geral, alguns

itens relacionados às instituições penais, que também estão contemplados na Lei de

Execuções Penais; tais como: Separação por Categorias, Locais de Reclusão, Higiene

Pessoal, Vestuário e Roupa de Cama, Alimentação, Serviços Médicos.

Separação por Categorias

A Regra nº 8 “estabelece que as diferentes categorias de reclusos devem ser

mantidas em estabelecimentos penitenciários separados ou em zonas de um mesmo

estabelecimento

penitenciário,

tendo

em

consideração

o

respectivo

sexo,

idade,

antecedentes penais, razões da detenção e medidas necessárias”.

60

b) “Presos preventivos devem ser mantidos separados dos condenados”;

A realidade das prisões brasileiras não corresponde ao estabelecido por esta

regra, em decorrência das rivalidades existentes entres as facções do crime organizado

e da morosidade do aparelho judiciário, os presos são alocados nas unidades prisionais

aleatoriamente, desde que sejam de uma facção comum ao presídio a que são

destinados.

No item 9º “As celas ou locais destinados ao descanso noturno não devem ser

ocupados por mais de um recluso. Se, por razões especiais, tais como excesso

temporário de população prisional, for necessário que a administração penitenciária

central adote exceções a esta regra, deve evitar-se que dois reclusos sejam alojados

numa cela ou local.

No

item

10º

“As

acomodações

destinadas

aos

reclusos,

especialmente

dormitórios, devem satisfazer todas as exigências de higiene e saúde, tomando-se

devidamente em consideração as condições climatéricas e especialmente a cubicagem

de ar disponível, o espaço mínimo, a iluminação, o aquecimento e a ventilação”.

No item 11º “em todos os locais destinados aos reclusos, para viverem ou

trabalharem”:

a) “as janelas devem ser suficientemente amplas de modo a que os reclusos

possam ler ou trabalhar com luz natural e devem ser construídas de forma a

permitir a entrada de ar fresco, haja ou não ventilação artificial”;

A

superlotação,

a

insalubridade,

a

falta

de

infra-estrutura

são

problemas

recorrentes no sistema penitenciário, que em muitos casos são reivindicações dos

apenados quando estes organizam motins e rebeliões por melhores condições de vida

para sobreviverem nestes espaços.

61

Higiene Pessoal

Regra nº 12 “As instalações sanitárias devem ser adequadas, de modo a que os

reclusos possam efetuar as suas necessidades quando precisarem, de modo limpo e

decente”.

Regra nº 14 “Todas as zonas de um estabelecimento penitenciário usadas

regularmente

pelos

reclusos

escrupulosamente limpas”.

Os

locais

destinados

à

devem

higiene

ser

pessoal

mantidas

e

conservadas

sempre

são

totalmente

degradados,

sem

privacidade, sem as condições necessárias para que o ser humano realize suas

fisiológicas, é um espaço inadmissível para a permanência de um indivíduo.

Vestuário e Roupa de Cama

Regra Nº 17 “Deve ser garantido vestuário adaptado às condições climatéricas e

de saúde a todos os reclusos que não estejam autorizados a usar o seu próprio

vestuário. Este vestuário não deve de forma alguma ser degradante ou humilhante”.

Regra Nº 19. “A todos os reclusos, de acordo com padrões locais ou nacionais,

deve ser fornecido um leito próprio e roupa de cama suficiente e própria, que estará

limpa quando lhes for entregue, mantida em bom estado de conservação e mudada

com a freqüência suficiente para garantir a sua limpeza”.

Alimentação

Regra 20 - 1) “A administração deve fornecer a cada recluso, a horas determinadas,

alimentação de valor nutritivo adequado à saúde e à robustez física, de qualidade e

bem preparada e servida”.

62

Vestuários, Roupa de Cama e Alimentação, em muitos casos, ficam sob a

responsabilidade dos familiares, pois esses serviços são oferecidos eventualmente e no

caso da alimentação, é possível afirmar que a mesma é de péssima qualidade.

Serviços Médicos

Regra 22

1) “Cada estabelecimento penitenciário deve dispor dos serviços de pelo menos

um médico qualificado, que deverá ter alguns conhecimentos de psiquiatria. Os

serviços médicos devem ser organizados em estreita ligação com a administração geral

de saúde da comunidade ou da nação. Devem incluir um serviço de psiquiatria para o

diagnóstico, e em casos específicos, o tratamento de estados de perturbação mental”.

2) “Os reclusos doentes que necessitem de cuidados especializados devem ser

transferidos para estabelecimentos especializados ou para hospitais civis. Quando o

tratamento hospitalar é organizado no estabelecimento este deve dispor de instalações,

material e produtos farmacêuticos que permitam prestar aos reclusos doentes os

cuidados e o tratamento adequados e o pessoal deve ter uma formação profissional

suficiente”.

3) “Todos os reclusos devem poder beneficiar dos serviços de um dentista

qualificado”.

Regra 24.

“O médico deve examinar cada recluso o mais depressa possível após a sua

admissão no estabelecimento penitenciário e em seguida sempre que, necessário, com

o objetivo de detectar doenças físicas ou mentais e de tomar todas as medidas

63

necessárias para o respectivo tratamento de separar reclusos suspeitos de serem

portadores de doenças infecciosas ou contagiosas de detectar as deficiências físicas ou

mentais que possam constituir obstáculos à reinserção dos reclusos e de determinar a

capacidade física de trabalho de cada recluso”.

Regra 25.

“Ao médico compete vigiar a saúde física e mental dos reclusos. Deve visitar

diariamente todos os reclusos doentes, os que se queixem de doença e todos aqueles

para os quais a sua atenção é especialmente chamada”.

O serviço médico também é bastante fragilizado, os presos ficam sujeitos expostos

a diversas doenças contagiosas e não possuem tratamento curativo e preventivo

adequado para a eliminação das mesmas. Em muitas unidades prisionais não há oferta

contínua das atividades médicas, assim a população carcerária também tem seus

direitos transgredidos na área da saúde.

As violações de direitos humanos dos apenados são notórias, todas as normas

acima

destacadas

expressam

a

evidente

ilegalidade

que

ocorre

no

sistema

de

aprisionamento no Brasil. O Estado não assiste aos presos em suas necessidades

básicas; apesar dos avanços legais em relação ao tratamento da questão penitenciária.

É

possível

notar

que

as

prisões

tornaram-se

locais

de

neutralização

e

esquecimento dos detentos; portanto, sem qualquer perspectiva de oferecer a esses

indivíduos uma alternativa para retornarem à sociedade. Neste sentido, o discurso da

“ressocialização”

revela-se

uma

falácia.

A

sociedade

não

é

harmônica

e

seus

problemas fundamentam-se na contradição capital x trabalho, que, em detrimento da

apropriação privada da riqueza produzida pelo trabalho coletivo, aprofunda cada vez

mais as desigualdades sociais entre as classes. Os mecanismos de regulação da

64

prisão reproduzem a violação de direitos humanos e não cumprem os objetivos de

reintegração social, as prisões se transformaram em locais de propagação do crime,

pois a tendência é a eliminação de todas as medidas e políticas que visem mudanças

nesta realidade.

2.2. Criminologia Crítica e “Ressocialização”

A criminologia crítica contribui de forma significativa para a análise dos

processos

criminalizantes.

Esse

marco

teórico

é

referenciado

por

um

horizonte

macrossociológico, que analisa a sociedade a partir de questões estruturais da

sociedade, ou seja, as contradições vigentes na estrutura econômica e social da

sociedade capitalista.

Neste sentido, a perspectiva crítica de análise do sistema penal tem como

referencial a teoria marxiana, onde o movimento da realidade social é visto de uma

forma dinâmica considerando os conflitos de classe existentes na sociedade.

Para Baratta (2002), a desigualdade da sociedade capitalista reflete no processo

de criminalização. Há uma distribuição desigual da penalização de acordo com a classe

social, pois os indivíduos são selecionados em decorrência de sua situação econômica.

Para o autor, segundo a criminologia crítica, não há uma igualdade no direito

penal, pois as funções do direito penal da sociedade capitalista compactuam com o

controle social sobre os comportamentos desviantes.

Há situações socialmente negativas no processo de criminalização, que legitimam

uma discriminação seletiva cujo alvo são as camadas subalternas. Assim, o sistema

penal

atinge

prioritariamente

os

pobres,

legitimando

a

discriminação

seletiva

e

imunizando as camadas dominantes da sociedade.

65

Sobre esse aspecto, ressalta Baratta (2002) que há uma contradição entre a

igualdade formal do direito penal burguês e a desigualdade real da sociedade de

classes.

Este autor propõe as seguintes críticas quanto ao direito penal burguês:

1. O direito penal não defende a todos, mas somente os bens essenciais; e, quando pune as ofensas aos bens essenciais, o faz com intensidade desigual e de modo fragmentário;

2. A lei penal não é igual para todos, pois o status de criminoso é distribuído de modo desigual entre os indivíduos;

3. O grau efetivo de tutela e a distribuição de status de criminoso é independente do dano social das ações e da gravidade das infrações à lei, no sentido de que estas não constituem a variável principal da reação criminalizante. (BARATTA, 2002:162)

Neste

estudo,