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Pentecostes Em Atos 2

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FACULDADE TEOLÓGICA SULAMERICANA

ELLYSSON BARROS SILVA

O CONTEXTO SOCIOCULTURAL DE PENTECOSTES EM ATOS 2.

Londrina 2011

ELLYSSON BARROS SILVA

O CONTEXTO SOCIOCULTURAL DE PENTECOSTES EM ATOS 2.

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado à Faculdade Teológica Sulamericana, como requisito final para obtenção do título de Bacharel em Teologia. Orientador: Prof. Steve Akio Kawamura

Londrina 2011

SUMÁRIO CAPÍTULO 1 1 INTRODUÇÃO......................................................................................................... CAPÍTULO 2 2 DIFERENÇAS ENTRE XENOLALIA E GLOSSALALIA................................. 2.1 Diferenças entre Xelolalia, Glossalalia, Heteroglossia e Poliglossia.................. 2.2 As Bases Doutrinárias Sobre o Tema................................................................... 2.3 Glossolalia ou Xenolalia em Atos 2?.................................................................... CAPÍTULO 3 3 ESTUDO EXEGÉTICO D EJOEL 2:28 A 32 E ATOS 2:1 A 13......................... 3.1 Situação Religiosa no Período Intertestamentário.............................................. 3.2 Exegese de Atos 2:1 a 13........................................................................................ 3.3 As Ações do Espírito no AT e NT......................................................................... CAPÍTULO 4 4 OS ENSINAMENTOS DA ESCOLA PAULINA SOBRE O DOM DE LÍNGUAS.................................................................................................................. CAPÍTULO 5 5 ESTUDO SOBRE OS DONS DO ESPÍRITO SANTO NA VISÃO DOUTRINÁRIA DA IGREJA CONTEMPORÂNEA.......................................... CAPÍTULO 6 6 CONCLUSÃO........................................................................................................... 6.1 Recomendações...................................................................................................... 6.2 Recomendações da Futura Pesquisa.................................................................... BIBLIOGRAFIA........................................................................................................... 48 59 59 61 62 39

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CAPÍTULO 1 1 INTRODUÇÃO O livro de Atos é considerado como o livro que conta a história da igreja primitiva. Narra a ascensão de Cristo, a manifestação do Espírito Santo no período apostólico, as primeiras conversões, o evangelho sendo pregado em meio aos gentios e a formação das escolas apostólicas. Num primeiro momento, temos a pregação do evangelho em meio aos judeus. No capítulo 4, vemos os primeiros enfrentamentos entre o cristianismo e o judaísmo, no capítulo 6, vemos a instituição dos diáconos e a institucionalização das igrejas. No capítulo 8, o evangelho é pregado em Samaría. Desse momento em diante, a palavra rompe os limites do judaísmo e começa a ser pregada em meio aos gentios. Em um primeiro momento, no capítulo 9, ocorre a conversão de Saulo de Tarso, que se tornara o grande responsável pela pregação, não só em meio ao judaísmo, mas também em meio aos gentios. Após essa conversão, Pedro, ainda resistente com relação aos gentios, entra na casa de Cornélio e prega o evangelho ao mesmo. A partir dessa propagação, a igreja começa a ser instituída em meio aos gentios, em toda a palestina e depois em todo o mundo romano. Pentecostes se torna um evento de suma importância em meio ao nascimento da igreja. Essa em si se estrutura após a primeira manifestação do Espírito Santo no meio apostólico, coincidindo essa, com a festa judaica das primícias, também chamada de pentecostes. Essa festa fora, na verdade, um divisor de águas, em meio a uma mescla de cristianismo com judaísmo. Congregavam nessa festa, judeus de todo o mundo, prosélitos ou não. Quando se torna uma religião de grandes proporções, passa a ser visto, tanto pelo romanismo, como pelo judaísmo, como um grande vilão. Seu fundador passa a ser visto como um judeu herege, sem princípios e que traíra o seu próprio povo, se intitulando como o grande messias, anunciado pelo profeta Isaías (capítulo 9, versos 1 a 6). O profeta, nessa passagem fala que “o povo que andava em trevas, viu grande luz e sobre os que habitavam na sombra da morte,

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resplandeceu grande luz”. Para os judeus fariseus, a sombra da morte era a dominação romana, seus desmandos e sua afronta religiosa (já que sua religião era idólatra, resultante da fusão de várias outras). Para os judeus das castas mais inferiores, os chamados pecadores e rejeitados pelos demais, a sombra da morte era a vida de exclusão a qual estavam condenados. Para os gentios, viver a sombra da morte significava estar preso as doenças incuráveis, a rejeição praticada pelo judaísmo. Após o pentecostes começa um período de grande crescimento da igreja. Os dons espirituais, outrora testificados através do dom de línguas estranhas, também passam hoje. a ser testificados através dos dons de cura, de pontos de suma revelação, que se derramou, desde então, por toda a igreja, até os dias de O presente trabalho será centrado em alguns importância, tanto para o cristianismo dos primeiros tempos, como para o cristianismo hoje: a) No Segundo capítulo será abordado as diferenças entre xenolalia e glossolalia, onde teremos como subitens: - as bases doutrinárias sobre o tema; - estudos doutrinários sobre dons espirituais; - glossolalia e xenolalia na visão bíblica. b) No capítulo terceiro, farei um exegese de Atos 2; 1 a 11 e de Joel 2:28 a 32, que será subdividido nos seguintes itens: - estudo do contexto histórico de Atos 2:1 a 11 e de Joel 2:28 a 32, - exegese e relação entre Joel e Atos; - estudo da situação religiosa no período intertestamentária; - as manifestações do Espírito Santo no AT e no NT. c) No quarto capítulo, falo sobre os ensinamentos da escola paulina e das demais escolas apostólicas sobre glossolalia, onde dividiremos nos seguintes subitens:

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- estudo sobre o panorama cultural e religioso de Atos 2:1 a 11; - a visão paulina sobre glossolalia, abordando a questão de 1º Coríntios 14; - estudo sobre o tema nas demais escolas apostólicas; - estudo sobre dons espirituais no período patrístico. d) No capítulo quinto, apresentarei um estudo sobre os dons do Espírito Santo na visão doutrinária da igreja contemporânea. Nesse estudo abordaremos os seguintes subitens: - as diferenças entre a visão pentecostal, neo pentecostal e das igrejas históricas sobre o tema; - o surgimento do pentecostalismo moderno e suas influências na igreja. e) No sexto capítulo, realizarei o término do trabalho com a Conclusão e crítica sobre as doutrinas a respeito dos dons espirituais. O capítulo a seguir, trará uma definição do que é glossolalia, xenolalia, heteroglossia e poliglossia.

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CAPÍTULO 2 2 DIFERENÇAS ENTRE XENOLALIA E GLOSSOLALIA 2.1 Diferenças Entre Xenolalia, Glossolalia, Heteroglossia e Poliglossia Ao estudarmos os dons do Espírito, devemos deixar bem claro as diferenças existentes entre esses termos, de modo a facilitar a compreensão do que vem a ser o verdadeiro dom de línguas: a) poliglossia: refere-se a capacidade humana de falar ou

aprender vários idiomas, de modo racional. Trata-se de uma capacidade natural de aprender novas línguas. b) heteroglossia: trata-se de um efeito de ordem psíquica ou ainda mental de se falar em várias línguas. De acordo com Figueiredo (2011,) a heteroglossia se manifesta através da capacidade do homem de repetir voluntária ou involuntariamente, palavras em outros idiomas. Isso ocorre dado ao fato de algumas pessoas perderem a capacidade de raciocinar sobre textos a serem falados, onde textos são retirados do inconsciente das mesmas, com ou não, nexo

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algum com a realidade a sua volta. Esses textos, desconexos (ou não), são retirados do subconsciente humano, capaz de gravar dezenas de informações. c) xenoglossia: capacidade de falar línguas estranhas, ou estrangeiras, sem tê-las aprendido de um modo sistemático. Diferente das demais acima referidas, a xenoglossia é resultante de distúrbios de ordem neurológica, psicoses ou traumas físicos. Trata-se da capacidade do ser humano de pronunciar frases descontextualizadas, originadas de um idioma desconhecido por outras pessoas, ou não, mas que fora aprendido pelo falante em um determinado momento de sua vida, sendo que estas mesmas frases podem estar armazenadas no subconsciente humano. Trata-se de falar algum idioma, desconhecido pelo consciente da pessoa, mas que pelo fato de essa ter tido algum contato com a mesma, por algum distúrbio neurológico, esse idioma volta a ser falado, inconscientemente. Difere da glossolalia, pois se trata de uma repetição de palavras de um idioma conhecido. d) glossolalia: fenômeno de origem pneumo-religiosa, onde o fiel é levado a pronunciar sons sem articulação e desconexos. Trata-se de um fenômeno ocorrido no auge de uma emoção mística. É comumente atribuído como um efeito da descida do Espírito Santo em meio ao povo, levando esse a uma espécie de transe, como ocorrido em Atos 2. Comumente é usado, de maneira equivocada, como um sinal do batismo no Espírito Santo, sendo esse termo usado, principalmente no meio pentecostal. Assim sendo, no capítulo seguinte, faremos um amplo estudo sobre esse tema, dentro de uma perspectiva bíblico-teológica, onde abordaremos a doutrinação sobre o mesmo, no período vetero e neotestamentário (FIGUEIREDO, 2011). Uma vez esclarecidas as diferenças entre glossolalia, xenolalia, heteroglossia e poliglossia, no próximo texto,

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faremos uma análise dos mesmos dentro das escrituras, buscando-se as bases doutrinárias sobre dom de línguas. 2.2 As Bases Doutrinárias Sobre o Tema
e há de ser que, depois, derramarei do meu Espírito sobre toda carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos e os vossos jovens terão visões. Até sobre os meus servos e minhas servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito. (STAMPS, 1995)

Joel retrata em seu livro, um período de completa letargia espiritual a qual o povo vivia. Em seu contexto, prega que o espírito de Deus (já existente em meio aos homens) chama o seu povo conserto, para o arrependimento. para o Em Cristo somos chamados para o

conserto e arrependimento. Como conseqüência desse arrependimento, as ações do Espírito Santo tornam-se visíveis. Para Joel, as ações do Espírito consistiam no revelar da palavra, na correção vinda de Deus e na manutenção da promessa do conserto. Em caso de arrependimento, as ações do Espírito se manifestariam através do reavivamento espiritual do povo, refletido em uma vida de bênçãos sem medidas. No contexto neotestamentário, as ações do Espírito Santo são manifestadas através do crescimento da igreja. A partir de então, temos uma mudança do que seria povo de Deus (não mais se restringindo a um conceito judaico), mas de povo de Deus, englobando os gentios. Essas ações levantam os seguintes questionamentos:

a) Mas quais são essas ações? Essa primeira questão será respondida, dentro de uma explanação no subitem 4 desse capítulo, no capítulo 3. b) Até que ponto a glossolalia pode ser vista como uma ação do Espírito Santo? Para essa questão, faremos um estudo exegético das palavras “Línguas- repartidas – fogo”, dentro do contexto de Atos 2,

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ainda no capítulo 2, subitem 2. c) Quais as bases doutrinárias sobre esse tema? Para respondermos essa pergunta, esse trabalho fará uma análise das passagens de Joel 2:28 a 32, Atos 2;1 a 9 e Atos 19:6, no decorrer do mesmo. d) A partir de quando podemos falar em glossolalia, dentro dos padrões bíblicos? Para responder a essa questão, a primeira referência bíblica que encontramos sobre diversidade de línguas, está em Gênesis 11; 7 a 9:
eia desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro. Assim, o Senhor os espalhou dali sobre a face da terra, e cessaram de edificar a cidade. Por isso, se chamou o seu nome de Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra e dali os espalhou o Senhor sobre a face da terra. (STAMPS, 1995, p. 49)

Vemos aqui, a primeira repartição de línguas, sendo essa passagem usada como base para se explicar a diversidade de idiomas existentes hoje na humanidade. Vemos aqui a ação do próprio Deus separando os homens, já que a construção de grandes torres, os chamados zigurates, eram motivos de orgulho e de idolatria em meio aos homens, obrigando assim Deus, que os habitantes da Mesopotâmia vivessem separados. Outra passagem está em Joel 2:28 a 32, onde Deus promete o derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne, como fruto da promessa de restauração. Outra referência bíblica está em Atos 2:1 a 13. A terceira passagem sobre o tema está em Atos 8:14 a 17, quando o evangelho começara a ser pregado em Samaria e os apóstolos oravam sobre os samaritanos, com imposição de mãos:

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então lhes impuseram as mãos e receberam sobre si o Espírito Santo. (STAMPS, 1995, p. 5)

A quarta passagem está em Atos 19:6, quando Lucas relata a viagem de Paulo a Êfeso, viagem durante a qual funda uma igreja:
e impondo-lhes Paulo, as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falavam línguas e profetizavam. (STAMPS, 1995, p. 1673)

A passagem de Atos 2 nos traz uma idéia da situação em que se deu o ocorrido em Atos 2. Primeiro de tudo, devemos lembrar que, de maneira bastante equivocada, alguns estudiosos têm ensinado que o que ocorreu em Atos 2 foi o batismo com o Espírito Santo (dando-se a entender que havia uma ausência do mesmo), sendo que o correto seria ensinar às pessoas que esse mesmo Espírito já agia em meio ao povo de Deus e que o dom de línguas não é o batismo com o Espírito, mas sim uma evidência da presença do Espírito nas pessoas. Em primeiro lugar, devemos entender que quem nos batiza no Espírito Santo é o próprio Cristo. Portanto, a negação do mundanismo e o entendimento das escrituras, pautado em um amadurecimento em Cristo se dá, sobretudo, através da ação do Espírito de Deus em nossas vidas. O dom de línguas (ou outros dons espirituais) são evidências da ação do mesmo na vida das pessoas. Mas sobre essa doutrina do batismo no Espírito Santo, vale um estudo a parte: a.1) O batismo do Espírito Santo é para todos os que tem sua fé em Cristo, e isso é fruto da regeneração. A primeira evidência que temos a esse respeito está no ato da ressurreição. Para entendermos o que significa isso, devemos antes de tudo distinguir duas coisas sobre o batismo no Espírito Santo: o recebimento do mesmo, durante nossa aceitação do senhorio de Cristo sobre nossas vidas, e os sinais e evidências da presença desse Espírito, como sinal de sua ação em nós. - em primeiro lugar; quando da última reunião de Cristo com seus discípulos, o mesmo lhes prometera que receberiam o

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Espírito Santo, como regenerador. No evangelho segundo João, 14;15 a 29, temos a promessa do consolador. Cristo fala que o consolador habitava em meio aos discípulos e que seria enviado aos mesmos: “mas vós os conheceis pois habita no meio de vós e estará em vós”. Quando João escreve essa parte de seu texto se refere na verdade a presença do Espírito Santo, em meio aos discípulos, através do próprio Cristo. A principal missão de Cristo fora a de batizar seus discípulos (Mateus 3:11; Mc 1,08; Lc 3,16 e Jo 1,33). Batizar aqui significa segundo Vine (2009, p. 430) estar separado, reconhecendo o senhorio de Cristo sobre si e a importância da remissão dos pecados através do sangue do Cordeiro. Cristo determinara aos mesmos que esses não começassem a testemunhar, antes que fossem revestidos pelo Espírito Santo (Lucas 24;49):
envio sobre vós a promessa de meu pai, mas ficai na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder. (STAMPS, 1995, p. 1564)

Vemos aqui que o batismo no Espírito Santo (enquanto sinais do batismo) é uma obra distinta da regeneração. Trata-se na verdade de um complemento da regeneração em Cristo, onde a pessoa recebe a Cristo, como seu Senhor e, depois, a ação do Espírito Santo começa a regeneração da vida da pessoa. Em primeiro lugar temos o Espírito que nos conduz ao arrependimento (regeneração). Em segundo lugar, somos revestidos de poder, através do batismo no Espírito. Quando lemos sobre Paulo, em Atos 19:6, vemos que os Efésios sabiam o que era o batismo de João (nas águas, reconhecendo o senhorio de Cristo sobre si), mas ainda não tinham provado a plenitude (sinais) do Espírito Santo em si. O batismo no Espírito (enquanto manifestação dos sinais) é uma obra subseqüente a regeneração. Ser batizado no Espírito, significa experimentar a plenitude de vida que há no mesmo. Em Atos, vemos o “batismo do Espírito Santo” quando os apóstolos recebem sobre si o manifestar desse Espírito. O receber aqui, não significa que o Espírito era ausente em suas vidas, mas

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sim que ainda não tinham provado da sua plenitude, uma vez que ainda aguardavam ser capacitados por esse mesmo. a.2) Atos descreve o falar em línguas como um sinal do batismo no Espírito (uma vez que batismo no Espírito é evidenciado, não apenas pelo dom de línguas, mas por diversos outros dons espirituais, segundo comentários de estudos Pentecostais (STAMPS, 1995, p. 1626), e não como o próprio batismo no Espírito. Chega-se a essa conclusão analisando-se a teoria da Santíssima Trindade, quando vemos que Pai, Filho e Espírito Santo são, na verdade, um só elemento, com três pessoas, que sempre se fizeram presentes em meio ao povo. O que vemos aqui é que o batismo nas águas nos torna separados para Deus, mas a presença do Espírito Santo em nossas vidas nos capacita para realizarmos a sua obra. Em Atos 2, vemos que aqui entra em questão a glossolalia, pois a ação do Espírito capacitou (e nos capacita hoje) os apóstolos a pregar a palavra de Deus a outras nações. Trata-se na verdade de uma capacidade de se falar em outras línguas. Aqui vale um estudo mais detalhado, pois sobre esse termo podemos levantar os seguintes questionamentos:  o que significa verdadeiramente a glossolalia (fazendose uma comparação do conhecimento científico, com os padrões bíblicos)? Para essa pergunta, estaremos fazendo uma análise do termo “glossai”, no subitem 2.2, desse capítulo.  Existe alguma relação entre a glossolalia do AT com a do NT? Para respondermos esse item, faremos uma exegese de Joel 2:28 a 32, e Atos dos Apóstolos 2:1 a 9.  O que pode ser diferenciado entre as escolas paulinas das demais escolas apostólicas, em termos de glossolalia? Essa questão será respondida no capítulo 4 desse trabalho. Primeiramente, antes de respondermos qualquer uma das perguntas acima, devemos entender a natureza regenerativa do Espírito Santo. Segundo Lima (2008), Paulo fala em Romanos 8;18 a 27 que toda a criação geme. Esse gemido tem a ver com a perdição do pecado. Trata-se de um gemido de dor. Segundo o apóstolo, o Espírito Santo se apresenta

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como nosso regenerador. Lima ainda afirma que a natureza regenerativa do Espírito de Deus se manifesta quando esse espírito é dado ao cristão, capacitando-o para crescer e frutificar em Deus. Mas o que é esse crescer e frutificar? Paulo fala em Gálatas 5:22 a 23:
mas o fruto do Espírito é: o amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade e fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei (STAMPS, 1995, p. 1801).

Paulo fala aos gálatas aqui, quais são as diferenças entre as obras da carne e a do espírito. Fazendo uma pré-análise da Carta aos Coríntios (que será estudada mais a frente), com Gálatas, vemos que existia em ambas as situações, os mesmo problemas doutrinários, com relação aos dons do Espírito Santo. Aqui Paulo fala sobre a importância do amor, como dom maior, apontando os frutos do Espírito, como resultado da regeneração. Em Isaías 11;01 a 3, vemos o profeta anunciar o messias, e com ele estaria o consolador presente em sua vida:
do tronco de Jessé brotará um rebento, e das suas raízes um renovo frutificará, repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria, e de inteligência, o Espírito do conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor. Deleitar-se-á no temor do Senhor, não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir de seus ouvio. (STAMPS, 1995, p. 1009)

O profeta Isaías aqui, também fala sobre os dons do Espírito. Essa profecia fala também da presença do Espírito Santo na vida de Cristo. De acordo com Lima, baseado nesse princípio, os dons espirituais são na verdade, sete: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus (LIMA, 2008, p. 12). Analisando as cartas paulinas, vemos que o caso da Epístola aos Coríntios traz grandes esclarecimentos Mas qual o contexto de Corinto? Paulo escrevera “aos Coríntios”, quando de sua estada em Êfeso. Tratava-se de uma cidade portuária, com navios chegando de todas as partes do mundo conhecido. Era também a cidade conhecida pela sua imoralidade, já que havia na mesma o culto a Afrodite (STAMPS, 1995, p. 1733). Ao fundar essa igreja, Paulo se defronta com uma série de a respeito dos dons espirituais.

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problemas. Dado a todo legado cultural que a mesma, que recebia pessoas de várias partes do mundo, Espirituais. a igreja de Corinto enfrentava problemas de toda ordem. Um dos principais girava em torno dos dons De acordo com os comentários bíblicos da CPAD (ANDRÉ, 2009, p. 158), os dons espirituais passaram a ser causa de acalorados transtornos entre a membresia local. Em outras palavras, os membros pensavam que, pelo fato de terem certos dons, eram uns mais espirituais do que outros. Paulo faz, nessa epístola, um esclarecimento total sobre os dons. Primeiramente vale salientar o que está escrito em 1º Coríntios 12;13, quando fala que todos são batizados pelo Espírito. Creio que nesse ponto temos um verso chave para entendermos os princípios bíblicos, não apenas da glossolalia, mas dos demais dons espirituais; o batismo no Espírito Santo não tem relação direta com o pentecostes, mas sim quando aceitamos o senhorio de Cristo sobre as nossas vidas. Quando o aceitamos, passamos a ser batizados e regidos pelo Espírito de Deus. Em Efésios 4:11, o próprio Paulo fala que “uns Ele deu para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas e outros para pastores”. Paulo fala aos efésios o que falara aos coríntios: independente dos dons ou do chamado, todas as áreas ministeriais são de grande importância, uma não funcionando em separado da outra. Mas um dos dons que mais chama a atenção em Coríntios é o debate que o apóstolo faz sobre a glossolalia. Para podermos entrar profundamente nesse tema, temos que responder alguns questionamentos: 1) Quais são os relatos de glossolalia no NT? 2) Por que esse tema estava tão em voga na igreja de Corinto? Para essa questão, faremos um estudo sobre a escola paulina, no capítulo 4. 3) O que Paulo diz sobre o dom de línguas? Chegaremos a essa conclusão analisando as escolas paulinas. Para a primeira questão, devemos fazer um estudo mais detalhado sobre Atos 2. Os apóstolos aguardavam o derramar do Espírito Santo (Consolador) sobre o povo de Deus. Estavam em Jerusalém, para a festa de Pentecostes.

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O pentecostes, ao longo da história cristã moderna (devemos entender que os movimentos glossolálicos são entendidos como pentecostais de maneira bastante equivocada, já que toda a igreja foi fundada no pentecostes, então toda cristandade é pentecostal, sendo necessário entender então a glossolalia e o pentecostes, como duas coisas distintas), sempre foi alvo de muitas especulações. O Dom de línguas, revelado em Atos 2 (a manifestação do Espírito ocorrida em Atos, e não a festa de pentecostes em si ), se tornara um divisor de águas na igreja. De um misto de influência judaica, com cristã, a igreja em Atos dos apóstolos toma ciência do seu aspecto inclusivo, ao pregar o evangelho, não somente entre judeus, mas entre gentios também. Vemos então, o significado prático da palavra ekklesia, que quer dizer “enviados para fora” (http://pt.wikipedia.org). A festa de pentecostes, também conhecida como festa da colheita, era comemorada cinqüenta dias após a páscoa, se tratando de um evento de grande contribuição para difusão do evangelho em todo o império romano, já que havia muitas pessoas de diversas partes do mundo em Jerusalém. O dia de pentecostes era comemorado cinqüenta dias após a páscoa, sendo também chamada de festa das semanas, por serem contadas sete semanas após a páscoa. Muito provavelmente era uma festa, originariamente comemorada pelos cananeus, uma vez que, até a ocupação da palestina, diversos povos habitavam a região. A primeira menção do pentecostes que vemos na bíblia, está Êxodo 23;16, quando Javé determina que o melhor das colheitas seja oferecido ao seu senhorio. Por se tratar de uma festa de suma importância, tanto religiosa, como para o calendário agrícola, pentecostes reunia uma grande leva de judeus, tanto da diáspora, quanto da própria Judéia.
...e todos pasmavam e se maravilhavam, perguntado uns aos outros: “Não são galileus todos esses homens que estão falando que estão falando? Então como é que ouvimos cada um, na nossa própria língua nativa? Partos, medos e elamitas, e os habitantes da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, Frígia, Panfília e Cirene, Egito, Partes da Líbia e forasteiros romanos, tantos judeus como prosélitos? (STAMPS, 1995, p. 1631)

Essa passagem de Atos revela a dimensão cultural que estava envolvida a cidade de Jerusalém, na ocorrência da festa de pentecostes. Os Judeus que para lá iam, vinham de todas as partes do Império Romano. São esses judeus frutos das diversas diásporas ocorridas ao longo da

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história de Israel, mas

que se mantiveram religiosamente presos ao

judaísmo. O segundo grupo, prosélitos, compostos por pessoas vindas de outras nacionalidades, convertidas ao judaísmo, mas talvez não falantes do idioma hebraico, dado ao fato de os apóstolos receberem o dom sobre essas línguas. A primeira manifestação de línguas estranhas ocorre em um momento em que havia a necessidade de se propagar o evangelho entre as pessoas do Império Romano. Mas no contexto de Atos, podemos falar em glossolalia ou em xenolalia? “Em primeiro lugar, Lima (2008, p. 14) defende uma divisão entre línguas “estranhas” e “estrangeiras”. Uma das passagens bíblicas para base de estudo (fora Atos 2) está em Atos 19:06. Paulo estava em sua terceira viagem missionária, na cidade de Êfeso, onde fundara uma igreja. Nessa ocasião, o falar em línguas era uma constante. O texto fala: “impondo-lhes as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo e falavam em línguas e profetizavam” (STAMPS, 1995, p. 1673). Analisando a passagem, Paulo não deixa claro se, aquilo que ocorrera em Êfeso, era xenolalia ou glossolalia, mas algumas versões (Bíblia de Estudos Pentecostais, Bíblia Tradução Ecumênica TEB e a Vulgata) as classificam como línguas “diversas”. Voltando ao caso de Atos 2, vemos que as línguas tidas como estranhas, eram na verdade línguas diversas. O que vem a ser isso? São línguas conhecidas pelo ser humano. Mas como podemos chegar a essa conclusão? O que nos leva a esse entendimento? Uma análise no verso 8 (Atos 2) abaixo pode nos dar maior entendimento:
então como é que ouvimos cada um, na nossa própria língua nativa? Partos, medos e elamitas, e os habitantes da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, Frígia, Panfília e Cirene, Egito, Partes da Líbia e forasteiros romanos, tantos judeus como prosélitos?

Aqui temos uma grande chave para o entendimento; a vastidão do Império Romano. Por se tratar de uma grande área, pessoas de várias nacionalidades estavam ali presentes durante o pentecostes. Não vemos aqui, quaisquer textos que nos digam se as línguas faladas pelos ali presentes, eram incompreensíveis ou desconhecidas pela humanidade em geral, como alguns estudiosos apontam que seriam, mas sim línguas desconhecidas por aqueles que as falavam. A passagem. Ao estudarmos a glossolalia, devemos fazer um paralelo entre o pentecostes de Atos e os ensinamentos paulinos sobre dons espirituais diferença entre glossolalia e xenolalia está presente nessa

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em Coríntios. Figueiredo (2011), classifica o evento de pentecostes como algo diferente do ocorrido em Corinto. Primeiramente classifica o ocorrido em pentecostes (Atos 2) da seguinte forma: • • • o dom de línguas (por Figueiredo chamado de heteroglossia (FIGUEIREDO, 2011) tratava-se de um dom de fala inteligível; outro ponto era de que se tratava de um dom geral, derramado sobre cada um dos membros da igreja presentes no evento; por usar de uma comunicação humana (linguagem humana de várias partes do mundo), o dom de línguas faz com que a igreja adquira um aspecto missionário. O próximo texto nos explicará se o ocorrido em Atos 2 é glossolalia ou xenolalia, segundo a visão bíblica. 2.3 Glossolalia ou Xenolalia em Atos 2? Qual o termo que mais se adéqua a Atos 2? Podemos falar de Xenolalia, glossolalia, heteroglossia ou poliglossia? Figueiredo (2011, p. 2) classifica o ocorrido em Pentecostes, como um grande divisor de águas na vida da igreja. É através do ocorrido que a igreja nasce o evangelho é pregado entre prosélitos e judeus, rompe com as barreiras culturais e passa a ser pregado em todo o mundo. Serviu de luz para os não crentes, sendo judeus ou gentios, cultos ou ignorantes, desconhecedores do javismo ou não. Em Atos 2 não havia intérprete para o que era falado, isto porque o que fora falado pelos apóstolos, o era em línguas desconhecidas para aqueles, mas conhecida entre os gentios. A manifestação que ali ocorrera, rompera com as barreiras culturais. Haviam línguas repartidas, como que de fogo. Ai está a grande chave para entendermos o ocorrido. Levando em consideração os termos glossolalia, xenolalia, heteroglossia e poliglossia já definidos acima, ficaremos em cima de dois temas: glossolalia e xenolalia (já que Heteroglossia é resultante de distúrbios neurológicos e poliglossia, resultante de línguas aprendidas de forma sistemática). Cientificamente falando, a xenolalia (linguagem estrangeira) trata-se, como já fora dito, de um ato de falar em línguas humanas (por tanto conhecidas), que não tenham sido aprendidos de um modo sistemático, como em uma escola. Aqui vale um parêntese. A palavra

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“sistemática” tem um grande peso para entendermos se esse termo se aplica ou não ao fato ocorrido em Atos. A xenolalia trata-se de um fato de falar línguas aprendidas, mas não em escolas ou através de algum método didático pedagógico estabelecido, mas sim através da vivência. Sendo assim, trata-se de aprender um idioma pela convivência com pessoas de outras nacionalidades. No caso, essa linguagem, segundo a ciência, fica arquivada no cérebro humano. Já na glossolalia, vemos algo parecido. Trata-se de falar em línguas. Mas a semelhança está apenas nesse ponto. A grande diferença entre xeno e glossolalia está no fato de como ocorrem. A glossolalia, como já foi abordada, trata-se de um fator pneumatológico, onde a manifestação de um espírito, resulta em um falar em línguas estranhas (desconhecidaspelos ouvintes - ou não). Mas o que se aplica em Atos 2? Primeiro de tudo, o contexto em que se desenvolve Atos 2: a presença de outros povos: partos - medos - elamitas, gente da Capadócia, da Panflia – Frigia - Cirene - Egito e romanos, indica o legado cultural em que se encontrava a cidade de Jerusalém. Para entendermos as razões para a existência de tantas nacionalidades em Jerusalém durante o pentecostes, devemos entender alguns pontos da história de Israel: - várias diásporas ocorreram ao longo de sua história, provocando a expulsão de milhares de judeus, mundo afora. - estava sobre o domínio romano, tendo sido outrora dominada por diversas potências de sua época. - era também uma das principais cidades romanas na região, recebendo pessoas de todas as partes desse império. De acordo com Gomes (2011), o termo em grego utilizado para descrever o ocorrido em Atos é γ λ ω σ σ α ι (glossai). O mesmo faz uma comparação entre o ocorrido em Atos, com aquelas idéias defendidas por Paulo na 1ª Carta aos Coríntios, mais precisamente em 1º Coríntios 14:2-4-13 e 14. No verso 2 o apóstolo Paulo fala:
pois o que fala em línguas não fala aos homens, senão a Deus, com efeito ninguém os entende, e em espírito fala mistérios.

Verso 4:
“o que fala em línguas edifica-se a si mesmo, mas o que

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profetiza edifica a igreja.”

Versos 13:
“pelo que, o que fala em língua, ore para que possa interpretar, pois se eu orar em línguas, o meu espírito ora, de verdade, mas o meu entendimento fica sem fruto”.

Paulo fala aqui de manifestação de línguas idiomáticas, porém não aprendidas de forma sistemática. Gomes defende que Paulo tinha uma visão de línguas idiomáticas (portanto conhecidas) retratada por Lucas, em Atos. Aqui vemos que o termo que se aplica a Atos é glossolalia, em detrimento de xenolalia, defendida por alguns. Mas por que glossolalia, ao invés de xenolalia. No verso três e quatro, de Atos 2 lê-se:
e viram línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles, todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.

Três palavras aqui chamam a atenção: Línguas – repartidas - fogo. O primeiro termo, segundo Vine (2009 p. 754) deriva do grego glossai. Adquire aqui o aspecto de língua idiomática, falada para o entendimento de estrangeiros. No caso de glossolalia, trata-se do dom sobrenatural de falar em um idioma sem tê-lo aprendido através de algum método vigente (VINE, 2009). Pentecostes, declaravam as pessoas Em Atos, vemos que aqueles que receberam o dom de línguas no dia do de outras nacionalidades, as grandezas de Deus. Outra palavra é “repartidas”, derivada do grego “diamerizõ”, que quer dizer “separadas em partes”. Vemos que em Atos 2, cada um dos que estavam ali presentes, começou a falar em linguagens diversas, sendo que cada um dos forasteiros, entendia a mensagem em sua línguas materna. A terceira palavra é “fogo”, derivado do grego “pur”, que indica aqui “separação, santidade de Deus e presença de Deus”, segundo Vine (2009, p. 662). Por essas três palavras, vemos que o termo glossolalia aqui é o que melhor se aplica. Vemos aqui que existe uma ligação direta entre Atos dos apóstolos e o evento descrito em Gênesis 11:7 a 9 (torre de Babel), onde o Espírito de Deus traz a divisão de

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línguas. Podemos justificar esse termo por outras vertentes também: - o início do cristianismo fora marcado pela influência judaica. Em um primeiro momento, a pregação do evangelho era restrita (por motivos culturais) aos judeus, formando uma espécie de religião judaico-cristã. Os apóstolos só começaram a pregação em meio aos gentios, com a formação das primeiras comunidades (Atos 4:32 a 37). Por motivos culturais, havia grande resistência em meio aos judeus de terem contatos com outros povos, o que significava estar longe de sua influência cultural. - os apóstolos eram (fora Paulo, instruído por Gamaliel e Lucas, médico) pessoas simples, sem grau de instrução, o que impossibilitava que tivessem alguma oportunidade de terem algum tipo de contato com o aprendizado de outras línguas (Mateus 4:15 a 25); - quando lemos em Atos 2, a expressão “cheios do Espírito”, Lucas se referia na verdade a uma separação destes apóstolos, feita por Deus, que os capacitavam a falar em linguagem estranha. Mas qual a relação intertextual entre Joel e Atos dos apóstolos? Será mesmo que Atos é um complemento de Joel? Quais as semelhanças textuais entre as duas passagens? Para entendermos o que ocorreu em Atos 2, faz-se necessário em estudo exegético sobre Joel 2:28 a 32, a fim de que possamos melhor entender os dizeres do apóstolo Pedro, em Atos 2:14. O texto a seguir faz uma análise detalhada de cada um desses livros.

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CAPÍTULO 3 3 ESTUDO EXEGÉTICO DE JOEL 2:28 A 32 E ATOS 2:1 A 13 a) O texto: Joel 2:28 a 32:
e depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos terão sonhos e vossos jovens terão visões, até sobre os servos e servas naqueles dias derramarei o meu Espírito, mostrarei maravilhas no céu e na terra, sangue e fogo e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte de Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como o Senhor disse, entre os restantes.

O estudo de caso desse texto nos faz lembrar sobre a importância dos dons espirituais durante o período veterotestamentário e neotestamentário. Primeiramente, o período compreendido entre o surgimento do patriarcalismo e o período inter-testamentário é marcado pelas manifestações do Espírito de Deus. Em Gênesis, o autor relata sobre a presença do Espírito de Deus durante a criação. As manifestações do Espírito de Deus no velho testamento denotam a presença de um Deus em meio ao seu povo, outrora gerando vida, outrora gerando arrependimento. Era o Espírito Santo que conduzia o povo em meio ao deserto (Êxodo 33, 1 a 11; 40:34 a 38), era por meio do Espírito Santo que Javé falava com os sacerdotes no templo. Fora o Espírito de Deus que ungiu a Saul como rei sobre Israel (I Samuel 10:01), foi o mesmo Espírito que se apoderou de Davi, quando esse foi ungido rei, no lugar de Saul. Em Ezequiel, o Espírito Santo é o Espírito de vida, em meio ao vale de ossos secos. No próprio livro de Joel, no capítulo 2;28 a 32, o profetizar e o ter visões são frutos da ação do Espírito em meio ao povo. A palavra de Deus veio a Joel, durante um período de calamidade do povo. O ataque de insetos e a queda na colheita que se sucedeu, foram vistos por ele, como sinal do julgamento de Javé, motivado pelo pecado de seu povo. Joel acreditava que esse julgamento antecedia o dia do juízo final. Diante desse quadro, prega o arrependimento e a busca por Deus, já que era propósito do criador essa salvação. Essa restauração só viria com o arrependimento do povo. Javé sempre se mostrou apto a restaurar seu povo. Há aqui de se ressaltar o papel dos profetas, como intermediadores entre Deus e o povo. É fruto desse papel que nascem as pregações de arrependimento. É fruto desse

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arrependimento, que Deus resgata seu povo. Estudar essa passagem de Joel é de grande importância para entendermos o contexto em que se passa. b) Escolha da perícope: Ao realizarmos uma exegese de um texto neotestamentário, vemos a necessidade da complementação com o período veterotestamentário. Nesse caso, a passagem de Joel 2:28 a 32, é tida pelo apóstolo Pedro, como a promessa feita por Javé, sobre o derramamento do Espírito Santo. O derramar fala da unção restauradora do poder de Deus. Joel retrata bem essa promessa, ao falar em profecias e dons de revelação, dons esses revelados em Atos dos apóstolos. Assim podemos falar que a semelhança entre o panorama religioso de Joel e Atos muito grande. Em Joel vemos um povo afastado das leis de Deus, que se contaminara com os pecados do mundo a sua volta. Nesse livro, no capítulo 1, vemos Deus chamando o povo ao arrependimento. O Espírito de Deus, revela a seu povo, quais são os seus pecados, onde errou e deve se arrepender. Mostra a fidelidade de Deus, com relação ao arrependimento do seu povo, sua benevolência na restauração, restauração essa seguida de crescimento espiritual. O capítulo três fala sobre o juízo de Deus, sendo aplicado contra os inimigos do seu povo. c) Análise semântica: Ao analisarmos a passagem de Joel 2;28 a 32 vemos que há a necessidade de estudarmos mais de perto, aproximadamente seis palavras, consideradas chaves para o entendimento da perícope acima: derramarei - espírito - carne - profetizarão - servos maravilhas. A primeira palavra, derramar, quando analisada pelo minidicionário Luft, da língua portuguesa, ganha o sentido de espalhar, difundir, distribuir, espalhar ou aspergir. Analisando o contexto ao qual Joel apresenta, quando fala do derramamento do Espírito Santo, vemos que a palavra que se encaixa aqui é yãtsaq já que fala do derramamento enquanto unção de vida, de restauração vinda de Deus, e não juízo. A segunda palavra a ser analisada é “espírito”. Segundo Vine (2009, p. 113), “rua” (palavra grega para Espírito) quer dizer presença de Deus, dando vida ao seu povo. A terceira palavra a ser analisada é carne, vinda da palavra hebraica “bãsãr”

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(VINE, 2009, p. 63).

No hebraico distingue várias coisas, relativas a seres viventes. No

contexto de Joel, se refere a ser vivente, no caso Israel, enquanto povo de Deus. Já em Atos, vemos que o contexto se estende para toda a humanidade, enquanto povo de Deus. A quarta palavra analisada é profetizarão. Essa palavra, na septuaginta vem da palavra hebraica “nãbã”, que está ligada a palavra “vidente” (VINE , 2009, p. 248). Quer dizer trazer a mensagem. A palavra “profeta”, por sua vez também é traduzida pela palavra nãbhi, que significa “aquele que traz a palavra de Deus, ou aquele por quem a palavra emana”. Em Joel significa “trazer a palavra de Deus”, ou “revelar as mensagens de Deus”, ou ainda viver as manifestações do poder de Deus. A quinta palavra é “servo”. De acordo com o Dicionário Teológico do novo Testamento, a palavra “servo” deriva do hebraico “ebed” (VINE, 2009, p. 295), que dá origem a duas palavras em grego: “pais” e “huios”, que trazem a conotação de filhos. Assim Joel se refere aos dons do Espírito sendo derramado sobre todos os filhos e filhas de Deus, não havendo distinção aqui. A sexta palavra que chama a atenção na perícope é a palavra “maravilhas”. Essa palavra, de acordo com Vine, deriva do hebraico mophêt, e está ligada aos grandes feitos de Deus (VINE, 2009, p. 179). O verso 28 fala de promessa. Em primeiro lugar aqui vemos que não há distinção de sexo, no caso do derramamento da unção do Espírito. O derramar do espírito aqui prometido, tem o sentido de unção de vida, no seu mais amplo sentido. O espírito de vida aqui, não só fala de uma ressurreição, no sentido de alguém que estava em pecado e morto espiritualmente, mas também de alguém que frutifica em Deus. Em outro sentido, o espírito não só dá vida, mas também capacita a pessoa para que essa anuncie a palavra de Deus e leve vida a outras pessoas. A expressão “sobre toda a carne”, fala sobre a unção de Deus derramada sobre todos da congregação, sem distinção de sexo ou idade. No verso 29, vemos que Deus não faz distinção de sexo ou idade, quando fala que todos os seus servos e servas seriam alvos do derramamento do espírito de Deus. Esse derramar, fora estendido sobre toda a congregação. Segundo Joel, Israel se encontrava em estado de completa letargia espiritual. Essa morte era fruto do pecado. Deus se mostra disposto a restaurar esse povo. Vemos então nessa promessa, uma ação de restauração de vida, em meio ao povo. A expressão “derramarei o meu espírito sobre toda a carne” fala, em um primeiro momento, da vinda do Espírito de Deus sobre o seu povo. Em Atos 2 temos uma real noção do cumprimento dessa profecia. Em um primeiro momento, Israel é tido, no caso de Joel, como povo de Deus escolhido para

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presenciar o derramamento do Espírito. Em Atos, durante o pentecostes, esse conceito é ampliado. Em primeiro lugar, o sacrifício do cordeiro através da vida de Cristo, torna a salvação e o acesso ao reino de Deus viável a todas as pessoas. Em segundo lugar, o derramamento do Espírito, verificado em Atos 2, permite com que o evangelho seja pregado a todas as pessoas. Biblicamente, vemos que os apóstolos ao presenciarem o derramamento do Espírito, começaram a anunciar o reino de Deus em outras línguas. Vale lembra que, pelo fato de tudo isso ter ocorrido durante o pentecostes, ali em Jerusalém estavam pessoas de todas as partes do Império Romano. A partir desse fato, as escolas apostólicas começam a difundir o evangelho, não somente em meio aos judeus, mas também em meio aos gentios (Atos 8;1 a 4, 10;1 a 25). Analisando então a profecia de Joel, vemos que a expressão “derramarei o meu espírito sobre toda a carne” vemos que se trata do Espírito de Deus sendo derramado sobre o seu povo, preparando-o para anunciar o seu reino para toda a humanidade. Dentro de um conceito teológico, podemos analisar essa passagem sobre dois pontos básicos: • o arrependimento, como fruto da ação do Espírito; • a unção e intervenção do Espírito de Deus (restaurando e transformando a vida de sua igreja), como fruto de um arrependimento genuíno; • Em primeiro lugar, analisaremos o arrependimento: “e depois, derramarei o meu espírito sobre toda a carne, e o vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, os vossos velhos terão sonhos”. O derramamento do Espírito Santo aqui é condicionado a uma verdadeira submissão a palavra de Deus. Então vemos aqui que a promessa do derramamento (enquanto parte da ação regeneradora, trazendo sinais da presença do mesmo, como restauração e prosperidade) está condicionada aos frutos da primeira ação do Espírito Santo: o convencimento do pecado, por parte do Espírito Santo, e o reconhecimento, seguido de uma nova tomada de postura, feita pela igreja. Em outras palavras, a igreja (no Novo Testamento) ou o povo de Deus (contexto do Velho e do Novo Testamento) se submetem a aceitar o sacrifício do cordeiro, reconhecendo seus erros, alcançando assim a remissão dos pecados, sendo incluída(o) então, em um contesto de “corpo”, de salvação. No período veterotestamentário, podemos entender “corpo” como parte do Reino de Deus. No

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neotestamentário, entendemos como noiva de Cristo, ou seja, aquela que é capacitada para representar e anunciar o reino de Deus, tendo em si a ação do próprio Deus (Pai – filho e Espírito Santo) na pessoa do Espírito de Deus. Em segundo lugar a unção e a intervenção: O fruto do arrependimento é a capacitação do Espírito para que o povo anuncie o reino de Deus. No período neotestamentário, vemos que a igreja começa a crescer a partir do derramamento do Espírito, ocorrido em Atos 2. Esse derramamento é tão somente a presença do próprio Deus no meio do seu povo, agindo trazendo restauração e vida, a mesma prometida em Joel 2:28 a 32. Joel fala sobre o “mostrar maravilhas no céu e na terra”, tratando isso da presença do próprio Deus e do seu Espírito em meio ao povo. Essa restauração é acompanhada de uma transformação por completo, e de uma capacitação para anunciar o reino de Deus as demais nações. Antes de passarmos para uma análise de Atos, ainda temos que entender o contexto literário do livro de Joel, fazendo-se uma análise do que esse mesmo livro fala a respeito da exortação e do arrependimento, e como podemos entender esse livro, dentro do contexto de Atos. 1) Contexto literário: Analisando o contexto em que se passa o livro de Joel, vemos que no seu primeiro capítulo, este chama o povo ao arrependimento. Segundo Calvino:
o Profeta agora adiciona ameaça para que pudesse alvoroçar as mentes do povo: Pois chegando está, diz, o dia de Jeová, pois perto está”. O mesmo diz que “através dessas palavras ele sugere, primeiramente, que não devemos esperar até que Deus nos ataque, mas que, tão logo ele exiba sinais de sua ira, devemos pressentir seu julgamento. (http://www.monergismo.com/textos/livros/Joel-Comentariolivro_Joao_Calvino.pdf).

De acordo com o mesmo, quando Deus nos avisa do seu descontentamento, devemos imediatamente buscar o arrependimento, antes que venha o seu juízo. povos (verso 2). Esse povo, de acordo com Calvino, seria o Exército assírio. No capítulo 2, o profeta fala do juízo que vem do alto. Fala do grande dia de julgamento e das suas conseqüências. A ação do Espírito de Deus é aqui revelada, como Joel revela que o julgamento vindo de Deus teria como conseqüência direta a invasão de Judá por outros

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aquele que faz uma intervenção junto ao seu povo, incitando esse ao arrependimento dos pecados. O arrepender-se aqui é visto como parte da ação de restauração, vinda de Deus. Dos versos 18 ao 27, vemos ai uma nova perícope, onde o profeta fala do zelo de Deus com seu povo. Ainda nessa parte não fala do derramamento do Espírito como conseqüência desse zelo, mas fala sobre as bênçãos que serão derramadas sobre o povo, como conseqüência desse arrependimento. Então devemos entender que o derramamento do Espírito, enquanto aquele que nos traz vida, é fruto desse arrependimento. No capítulo 3, Javé fala do seu juízo. Uma vez restaurado o povo de Deus, Javé agora se apresenta, nesse capítulo, como Juiz, mas não contra o seu povo e sim como aquele que julgará as nações que se levantaram contra Israel. Aqui vemos mais um exemplo da obra restauradora de Deus. Uma vez que há o arrependimento, a conseqüência direta disso é o juízo de Deus contra os inimigos de seu povo. No primeiro capítulo do livro de Joel, o profeta alerta sobre o pecado e suas conseqüências chamando o povo ao arrependimento. Já no segundo, vemos o derramamento do Espírito de Deus, trazendo vida. Esse derramamento é como água usada para amolecer o barro e dar novo molde àquilo que precisa ser trabalhado. O Espírito de Deus nos convence do pecado. Uma vez confessado, esse pecado, nossas vidas passam a ser trabalhadas. Nesse ponto a obra de restauração de Deus começa a ser feita. Uma vez concluída, Deus se levanta como juízo sobre nossos inimigos.
2) Aspectos históricos:

O livro de Joel narra um período de decadência religiosa e política de Judá. Alguns historiadores acreditam que o seu ministério, muito provavelmente, tenha sido exercido durante o reinado de Joás (836 - 830 a.C.), sendo que outra linha de pensamento aponta que seu ministério deve ter ocorrido entre o ano de 510 a 400 a.C., durante a reconstrução do templo de Jerusalém, após o exílio babilônico. Analisando a profecia dita por Jeremias (Jr 25;01 a 13) contra o Rei de Judá e analisando os eventos históricos de setenta anos de Judá na Babilônia, levando-se em consideração a proximidade cronológica entre Daniel e os eventos narrados em Joel, alguns estudiosos apontam que a data que provavelmente Joel exercera seu ministério seria entre 510 e 400 a.C., sendo essa época pouco provável. De acordo com Hubbard (1979, p. 23), Joel talvez poderia ter tido algum ofício ligado ao templo. O pleno conhecimento que tinha a respeito das práticas litúrgicas no templo, faz com que pensemos em se tratar de alguém ligado ao templo. Sua preocupação com a situação do povo era tamanha que ansiava pela volta ao culto e a veneração a Javé. Tratava-se

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também, de uma chamada pública a conversão. Joel não era um simples oficial do templo, ou alguém que levava recados do templo para o povo. Fazia ele parte dos sacerdotes, pois tinha pleno conhecimento da torá. Se tratando de um dos profetas menores da, seu ministério fora caracterizado pelo incentivo a busca pelo arrependimento, uma vez que a nação judaica se encontrava em total estado de letargia espiritual. Voltara de um exílio, o governo central não se estabelecera totalmente e a economia encontrava-se arrasada pela praga de gafanhotos, e a estabilidade política era ameaçada pela invasão Síria. Joás assume seu reinado aos sete anos, durante o ministério de Joiada. Com a morte deste, seu reinado entra em um declínio espiritual, se contaminando com as religiões pagãs e praticando a idolatria. Depois de presenciar a invasão a Judá pela síria, de presenciar a decadência econômica, política e religiosa de seu país, começa a pregar a redenção. O ministério de Joel é conhecido como o ministério da promessa, da redenção de Judá e da vinda do Espírito Santo (2;28 a 32) , como conseqüência do arrependimento. Sua preocupação na restauração do culto era tanta que, segundo Hubbard, Joel não se preocupava em chamar para a restauração os ébrios (uma vez que na prática cúltica, o uso do vinho tinha perdido já a sua moderação). O sentido religioso de devoção a Deus já havia se perdido em meio ao povo. A prática litúrgica, já não tinha mais o seu efeito. Os lavradores de Judá já tinham se contaminado com as práticas cúlticas cananéias. A seca associada a peste de gafanhotos tinham devastado a plantação. Era o juízo de Deus. Os cultos a Javé já tinham perdido seu sentido. Diante desse quadro, Joel prega o arrependimento. Fazendo uma ligação com Atos 2, vemos que a mesma letargia espiritual verificada no tempo de Joel, é encontrada entre o judaísmo, no primeiro século. Se em Joel verificamos a infidelidade a Deus, manifestada através da idolatria e do culto a outros deuses, em Atos, o judaísmo letárgico, tinha como característica, a falta de amor ao próximo, o desapego as leis (ou em alguns casos, o extremo apego a uma vida religiosa), a ausência da manifestação do Espírito Santo no período interbíblico e a rejeição ao Messias. No texto a seguir, trataremos da situação religiosa no período intertestamentário. Ao fazermos a análise desse período, iremos entender como se formou o quadro sócio-religioso descrito por Lucas em Atos dos apóstolos. 3.1 Situação Religiosa no Período Intertestamentário O período intertestamentário é de grande importância para entendermos a situação religiosa em Atos 2. Para podermos entender esse período, teremos que fazer uma retomada de elaboração do livro de Malaquias. Esse livro fora escrito por volta de 430 a 420 a.C. Nessa

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época, o templo de Jerusalém já havia sido restaurado, após a volta do exílio persa, os sacrifícios no templo e as festas judaicas já tinham voltado a serem praticadas. Porém era vista uma total letargia em meio ao povo. Em primeiro lugar, analisaremos o capítulo 1; versos 7 e 8, que revela a forma que as ofertas eram entregues no templo:
ofereceis sobre o meu altar pão imundo e dizeis: em que te havemos profanada? nisto, que dizeis: A mesa do Senhor é desprezível, porque, quando trazeis animal cego para o sacrifício, não faz mal. E quando ofereceis o coxo ou o enfermo, não faz mal. Ora apresenta-o ao teu príncipe; terá ele agrado de ti? Ou aceitarás a tua pessoa? (STAMPS, 1995, p. 1371)

Vemos aqui o quanto letárgica estava a situação de Israel.

A queda no padrão

das ofertas é vista como um sinal do desapego as leis. Lendo o capítulo 2 de Malaquias, vemos que até o alto sacerdócio havia se desviado, como podemos ler no verso 2.
se não o ouvirdes e puserdes em seu coração dar honra ao meu nome , diz o Senhor dos exércitos, enviarei a maldição contra vós e amaldiçoarei as vossas bênçãos, e já as tenho amaldiçoado, porque vós não pondes isso no coração.

No capítulo 3, vemos que o povo de Israel começara a se contaminar com os demais povos a sua volta, inclusive contraindo matrimônio. Mas qual a origem de tanta letargia? O período interbíblico é marcado pela frieza espiritual do povo, sendo a mesma, fruto das diversas diásporas e invasões as quais o povo sofrera (que resultaram no contágio com o paganismo de outros povos, dado ao contato com esses). No capítulo 3 de Malaquias, verso 1, vemos a promessa de restauração, sendo que essa realizada apenas 400 anos mais tarde. São 400 anos onde o abandono espiritual fora marcado pelas várias invasões de povos pagãos, trazendo consigo, não só sua religião, mas também sua cultura e estilo de vida que contaminavam o povo israelita. O período interbíblico é marcado pelas diversas invasões, ocorridas na Palestina, que vão incorrer na queda dos padrões morais e espirituais do povo Israelita. São essas ocupações que vão marcar profundamente a vida cultural e o cenário religioso a qual se passa os livros do novo testamento. Trata-se esse período, de uma era extremamente turbulenta para o povo israelita, marcado primeiramente, pela invasão assíria, seguida pelos caldeus e os persas. De acordo com a ordem cronológica, temos as seguintes ocupações na palestina, até o Império Romano: • a soberania medo-persa (450-333 a.C). É nessa época que se destaca o

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rei Ciro, da Babilônia, que determina a volta do povo judeu para Jerusalém, além da reconstrução da cidade, além de prover tudo o que fosse necessário para a volta desse povo. Essa decisão fora tomada, após o mesmo ler uma passagem no livro de Isaías 45, que citava seu nome citado 200 anos antes do seu nascimento. Vale salientar aqui que muitos judeus não quiseram retornar até a sua terra, pelo fato de já estarem instalados no exílio, onde preferiram ficar. Segundo Stamps, o povo persa tratavam os judeus com relativa tolerância, permitindo os cultos a Javé e a observação das leis mosaicas. Nesse período houveram lutas constantes entre a Pérsia e o Egito, estando Judá em meio aos dois Estados, fazendo com que o povo judeu fosse alvo dessas disputas. • a soberania greco-macedônica (333-323). É nesse período que se destaca o império grego e a pessoa de Alexandre Magno. Com as diversas conquistas feitas pela Grécia, seu império torna-se vasto, construindo-se rotas comerciais por todo o mediterrâneo, integrando diversos povos e principalmente, trazendo um vasto legado religioso, resultante da mistura de diversos povos e diversas religiões. As marcas desse império são visíveis em todo o NT; os cultos a Afrodite, a Júpiter, a Diana, são frutos dessa época grega. O paganismo grego se mistura a religiosidade da palestina. Os judeus encontram nos gregos, a mesma liberdade religiosa encontrada nos persas, e que se manterá no período romano. Já os Samaritanos não são bem vistos pelos gregos, não encontrando neles, o mesmo privilegio dado aos judeus, aumentando animosidade entre esses povos, refletida nos dias de Jesus. • a dominação egípcia (323-198). É durante essa dominação que os judeus na diáspora, no caso Egito, traduzem o Antigo testamento do hebraico para o grego, formando a septuaginta. • O jugo sírio (198-166). Nesse período, Antíoco IV, pregou a helenização do império, adotando a religião grega, perseguindo a judaica.

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Sacrificou porcos no altar em Jerusalém e vendeu famílias judaicas, como escravas. • A guerra dos macabeus (166-63): marca a ascensão do nacionalismo judaico. O desejo de constituir um Estado forte, faz com que um grupo de sacerdotes, chamados de Macabeus (que significa martelo) se levantem e restabeleçam o culto a Javé. Outros feitos de destaque são a expulsão dos dominantes e a eliminação dos judeus infiéis ao javismo. • O domínio Romano: Roma domina Jerusalém em 63 a.C. Começa então um período de decadência religiosa e política para a Judéia. Herodes torna-se governador de toda a judéia, transformando-a num estado submisso a Roma. Importa os costumes gregos e pratica o culto a júpiter. Com essa helenização, os judeus passaram a viver uma mescla de cultura e religiosidade romana e grega, longe do javismo. Analisar o período interbíblico é deveras interessante, para que façamos uma análise do cenário em que se encontrará os livros neotestamentários. O legado religioso, dado as constantes invasões de diversos povos, somado ao resfriamento espiritual a qual o povo se encontrava no período neotestamentário, nos traz uma ideia de quantas dificuldades o evangelho encontrava para ser semeado. O javismo estava em decadência, o paganismo em ascensão. A esperança de um messias, aos moldes do que acreditavam os macabeus, estava em alta. Mas o grande general não veio. Em seu lugar veio uma pessoa de pregação simples, porém sua palavra precisava ser pregada, tanto entre judeus nativos, quanto àqueles gentios e prosélitos da diáspora. Estudar o período interbíblico torna-se necessário para podermos entender por que em Atos 2, fala-se tanto em prosélitos e forasteiros, por que tanto se fala em imigrantes presentes em Jerusalém, no período da páscoa e do pentecostes (ANDRÉ, 2011). A seguir faremos uma análise exegética de Atos dos apóstolos, a fim de que possamos entender como se formara o quadro religioso em que ocorrera a manifestação do Espírito Santo, sobre os apóstolos. 3.2 Exegese de Atos 2;1 a 13 a) Sobre o livro e sua autoria: O testemunho do cristianismo primitivo classifica Lucas, embora não haja

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qualquer citação no texto sobre sua autoria, como autor do livro. Este, por sua vez, é considerado uma continuação do Evangelho Segundo Lucas. Trata-se de um livro endereçado a um homem chamado Teófilo. Mas aqui vale um estudo, onde se diz que Teófilo não é uma pessoa em específico, mas sim um grupo de pessoas, ou igrejas na dispersão, já que Teófilo vem do grego, e quer dizer filho de Deus, ou amigo de Deus. Analisando a carta, vemos que a designação de Teófilo, como sendo não uma pessoa, mas um conjunto de pessoas, talvez todas as igrejas na dispersão, dado ao fato de que o livro retrata o surgimento do cristianismo, não só em meio ao judaísmo, mas também em meio aos gentios. É durante a elaboração de Atos, que vemos a formação das escolas paulina e petrina. O livro é encerrado de forma abrupta, no início da grande perseguição ao cristianismo. Também não retrata sobre a morte de Paulo de Tarso, mas nos dá uma idéia de onde passou seus últimos dias. Mas quem é Lucas? Acredita-se que Lucas foi um gentio convertido, sendo o mesmo um cooperador do apóstolo Paulo (2º Timóteo 4:11), sendo também chamado de médico amado (Cl 4:14). Ao que nos parece, Lucas era extremamente hábil naquilo que fazia. Como historiador, preocupava-se com a riqueza de detalhes naquilo que escrevia. O fato de ser o único gentio a escrever um dos evangelhos, além do livro de Atos, o coloca como grande evangelista, principalmente em meio aos gentios. A próxima parte desse trabalho está centrada em uma análise mais detalhada sobre o ocorrido em Jerusalém, durante o pentecostes. b) Comparação das três versões: Para entender o ocorrido em pentecostes, devemos fazer uma análise detalhada de cada verso dessa passagem. Para isso, devemos fazer essa análise usando três versões das escrituras: a TEB, a Thompson e a BEP. A versão utilizada para realizarmos essa exegese será a TEB, por ter uma linguagem mais clara. TEB 1. quando chegou o dia de pentecostes, eles se achavam reunidos todos juntos. 2. de repente, veio do céu um ruído como que de violento vendaval que encheu toda a casa onde eles estavam. 3. então lhes apareceu algo THOMPSON BEP 1. cumprindo-se o dia de 1. cumprindo-se o dia de pentecostes, estavam todos pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. reunidos no mesmo lugar. 2. de repente veio do céu um 2. e, de repente, veio do céu som, como de um vento um som como de um vento impetuoso, e encheu toda a impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam casa em que estavam assentados. assentados. 3. e viram línguas repartidas, 3. e foram vistas por eles

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como línguas de fogo, que se repartiam, e pousou sobre cada um deles. 4. todos ficaram cheios e repletos do Espírito Santo, e se puseram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia exprimiremse. 5. Ora, em Jerusalém, residiam judeus piedosos, vindos de todas as nações que existem sob o céu. 6. ao rumor que se propagava, a multidão se reuniu e ficou toda confusa, pois cada um ouvia falar em sua própria língua

como que de fogo, as quais línguas repartidas, como que pousaram sobre cada um de fogo, as quais pousaram deles. sobre cada um deles. 4. todos foram cheios do 4. e todos eles foram cheios do Espírito Santo, e começaram Espírito Santo, e começaram a a falar em outras línguas, falar em outras línguas, conforme o espírito os conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. concedia que falassem. 5. em Jerusalém estavam 5. e em Jerusalém estavam habitantes judeus, homens habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. que estão debaixo do céu. 6. correndo aquela voz, 6. e correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão, e ajuntou-se uma multidão e estava confusa, porque cada estava confusa, porque cada um, os ouvia falar na sua um os ouvia falar na sua própria língua. própria língua.

7. perplexos e maravilhados, 7. e todos pasmavam e se 7. e todos pasmavam e se eles diziam: maravilhavam, perguntando maravilhavam, dizendo uns aos uns aos outros. Não são outros: “Pois quê? Não são galileus todos esses homens esses galileus todos esses que estão falando? homens que estão falando? 8. como é que cada um de 8. então, como é que os 8. como pois ouvimos, cada nós os ouve em sua língua ouvimos, cada um , na nossa um, na nossa própria língua em materna? própria língua nativa? que somos nascidos? 9. partos, medos e elamitas, 9. Partos, medos, elamitas, e 9. Partos, Medos, elamitas e os habitantes da Capadócia, os que habitam na que habitam a capadócia, o Mesopotâmia, Judé, Ponto e mesopotâmia, Judéia e Ponto a Ásia. Ásia. Capadócia, Ponto, Ásia. 10. da Frígia, Panfília, Egito 10. Frígia e Panfília, Egito e 10. a Frigia, a Panfília, Egito e e da Líbia, Cirenaica, e os de partes da Líbia, perto de partes da Líbia, junto a Cirene, Roma aqui residentes. Cirene, forasteiros romanos, e forasteiros romanos, tanto tanto judeus, como proséiltos. judeus, como prosélitos. 11. todos, tanto judeus, 11. Cretenses e árabes- todos 11. e cretenses e árabes, todos como prosélitos, cretenses e temos ouvido falar das temos ouvidos em nossas árabes, nós o ouvimos grandezas de Deus. próprias línguas falar das anunciar em nossas línguas grandezas de Deus. as maravilhas de Deus? Analisando os dois primeiros versos de cada uma das versões apresentadas, não notamos grandes e relevantes diferenças entre as mesmas, que levantem grandes questionamentos. Faremos então uma análise geral dessas três versões a fim de se obter um melhor entendimento do texto. Fazendo uma análise mais detalhada sobre essa perícope, vemos que essa

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passagem retrata um dos momentos mais marcantes do cristianismo. A partir de pentecostes, a igreja cristã surge na sociedade. Analisando de uma forma geral essa passagem, podemos observar alguns pontos: 1) A evidência da presença do Espírito Santo, em meio ao primeiro colégio apostólico formado, manifestada através do dom de línguas estranhas, era necessário naquele momento, pois: - a cidade de Jerusalém estava tomada por pessoas de outras nacionalidades, até mesmo de fora da Judéia; - era uma cidade romana, pois alguns do alto oficialato romano ali moravam; - recebia pessoas de várias nacionalidades diferentes, havendo vários costumes e culturas naquele meio; - pelo fato de ser uma cidade de referência, se falava vários idiomas ali. 2) havia uma forte tendência cultural, por parte dos judeus, em termos de isolamento, com qualquer tipo de contato com outras culturas, surgindo assim, barreiras que impediam qualquer aprendizado com culturas de outros povos. Assim, o dom de línguas manifestado em Atos dos apóstolos, era algo realmente necessário naquele momento em que o evangelho precisava ser anunciado entre as pessoas de fora do judaísmo. A grande presença de forasteiros e de judeus de várias nacionalidades ali presentes, tornavam necessária a presença de línguas estranhas, a fim de se anunciar o evangelho. Faremos agora uma análise textual dessa perícope. c) Análise literária: 1) Semântica: para a realização de uma análise semântica do texto, escolhemos algumas palavras chaves para o mesmo: pentecostes - vento - línguas - fogo - pousar prosélitos. A primeira palavra a ser analisada é pentecostes. O dia de pentecostes era comemorado cinqüenta dias após a páscoa, sendo também chamada de festa das semanas, por serem contadas sete semanas após a páscoa.

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Muito

provavelmente

era

uma

festa,

originariamente

comemorada pelos cananeus, uma vez que, até a ocupação da palestina, os hebreus eram seminômades, não dominando técnicas agrícolas. Vale lembrar que os cananeus, assim como só demais povos que ocupavam a terra de Canaã, Javé determina que esses povos fossem destruídos (Deuteronômio 9;05). A festa das Segas, como também era chamada, recebeu o nome de origem grega de pentecostes (πεντηκοστή, VINE, 2009, 865), sendo uma das festividades mais importantes para os hebreus. A primeira menção do pentecostes que vemos está em Êxodo 23;16, quando Javé determina que o melhor das colheitas seja oferecido ao seu senhorio. Por se tratar de uma festa de suma importância, tanto religiosa, como para o calendário agrícola, pentecostes reunia uma grande leva de judeus, tanto da diáspora, quanto da própria Judéia (http://www.metodista.br/fateo/materiais-de-apoio/estudos-biblicos). A segunda palavra a ser analisada é vento. De acordo com Vine (2009, p. 113), deriva do hebraico “ruah”, e do grego “pneuma”. Ambas querem dizer sopro ou vento. Analisando o significado da palavra, segundo Vine e de acordo com o contexto de Atos, vemos que o que mais se aplica é enquanto espírito de vida e presença do próprio Deus, em humanidade. A terceira palavra é língua, traduzida do grego “glossa” (VINE, 2009, p. 754), que faz referência a línguas de Fogo. É usada também para referir o legado cultural em Jerusalém durante o pentecostes, onde em Atos 2 faz referência as várias nações existentes em Jerusalém. A quarta palavra é fogo, derivado do grego “pur” (VINE, 2009, p. 662). Segundo Vine, a palavra, tanto no AT, como no NT, representa de forma figurativa, a presença do próprio Deus, em meio ao seu povo. Em Gênesis 15:17, vemos que o fogo fala da presença do próprio de Deus. Em Êxodo 3:2, vemos o fogo simbolizando uma teofania. A quinta palavra é pousar. Esta mesma está ligada a receber, a descer algo sobre alguém. A sexta palavra é “prosélitos”. De acordo com Vine (2009, p. 909), deriva do grego “προσηλυτων”. Como já fora analisada, refere-se ao grupo de pessoas da religião judaica, convertidas em meio aos gentios, e que moravam ou estavam em Jerusalém para o “pneuma” meio à

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pentecostes. Vine os classifica como “aqueles que entram na posse”, ou seja, passaram a ser parte do povo judeu. Analisando exegeticamente o contexto de Atos, vemos que manifestação a do dom de línguas, como já fora dito, foi um divisor de

águas no meio apostólico. Primeiro de tudo pelo fator cultural. Dentro da realidade da época, não havia quaisquer perspectiva de que o evangelho fosse romper as barreiras do judaísmo, dado ao fato de haver nesse meio, um forte anseio pela vinda do messias. O falar em outras línguas (quer seja xenolalia, defendida por alguns estudiosos, ou glossolalia, aqui defendida), fez com que o evangelho se espalhasse entre as nações. Os prosélitos eram aqueles que, mesmo não tendo origem na etnia judaica, tinham contato com essa religião e participavam da festa da colheita, uma vez que se tratava de gentios convertidos ao judaismo. Aqui vale um paralelo: a festa da colheita, celebrada no pentecostes, era um momento de gratidão a Deus e de confraternização entre o povo. Era portanto, uma época em que se anunciava as maravilhas de Deus a todos os povos. Justamente em uma época em que o cordeiro havia deixado sinais e maravilhas, havia sido imolado para perdão dos pecados, fora, crucificado e ressurreto em três dias, pentecostes fora então uma data de extrema importância para que o evangelho rompesse as barreiras do judaísmocristão e começasse a crescer em meio aos gentios. O texto a seguir nos levará a uma compreensão da relação existente entre o texto de Joel 2:28 a 32, com o capítulo 2 de Atos. d) Relação intertextual entre Joel e Atos dos Apóstolos: A primeira referência intertestamentária que encontramos, ligando as passagens de Joel e Atos dos Apóstolos está ainda no capítulo dois de Atos, nos versos 14 a 21, quando o Apóstolo Pedro reconhece a descida do Espírito Santo no meio daquelas pessoas ali presentes. Para compreendermos essa relação intertestamentária, devemos observar os seguintes pontos: • O Espírito de Deus agia de forma isolada no AT, em meio ao povo, agindo

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somente através da vida de alguns profetas, ou grandes líderes. O sacrifício do Cordeiro era feito no templo (a partir do período do Êxodo), ou então e altares, no período dos patriarcas (Gênesis 22; 12 a 14,26:24 a 25, 35;1 a 7, Êxodo 40; 34 a 38). • No período neotestamentário, a ação do Espírito de Deus se torna mais universal. O véu do santuário foi rasgado, possibilitando um acesso direto, entre Deus e o homem (Isaías 53:5 a 7, 1º Timóteo 2:6, 2º Cor 5:21, 1º Pe 1:19). Vemos que, diferentemente do que alguns defendem a presença do Espírito de Deus sempre esteve em meio ao povo, quer através de um profeta ou de um grande líder, diferentemente daquilo defendido por alguns teólogos, dizendo esses que a presença do Espírito só se faz presente após o pentecostes. Para entendermos isso com mais afinco, temos que fazer um estudo mais detalhado das ações do Espírito no AT e no NT. Analisando os textos de Atos 2 e Joel , vemos que há uma complementação. Em primeiro lugar, chegamos a essa conclusão, dado ao fato de que tanto em Joel, como em Atos, o consolador era aguardado. Havia um mover de Deus em torno da busca pelo arrependimento e confissão dos pecados. Esse, em Joel é representado pelo papel do próprio profeta, que fala as multidões. Em Atos, os profetas são os discípulos, o cordeiro é Cristo e a imolação pela expiação dos pecados já ocorrera no ato da crucificação. Joel fala de um reavivamento. Em Atos, o reavivamento é manifestado sobre a descida do Espírito Santo em meios aos cento e vinte pessoas ali presentes em Jerusalém. Em Joel, a expressão “toda a carne” é compreendida, como o reavivamento sobre todo o povo de Israel. Em Atos essa manifestação ganha o conceito de reavivamento para toda a humanidade. O texto a seguir tratará sobre as manifestações do Espírito Santo, tanto no AT, como NT, suas formas de atuação e a natureza regenerativa do Espírito de Deus. 3.3 As Ações do Espírito no AT e no NT a) As ações do Espírito Santo no AT: As ações do Espírito Santo são mencionadas em torno de 85 vezes em todo o velho testamento. Tecendo uma comparação entre o período veterotestamentário e neotestamentário, vemos algumas diferenças entre as formas de ações do Espírito Santo:

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a.1) A santíssima trindade no ato da criação: a palavra criar aparece três vezes no livro de gênesis (1:01, 21 e 27 ). A palavra, segundo Vine (2009, p. 88), deriva do hebraico “bãrã” e está ligada a criação de algo por Deus. Segundo Gênesis 1:03, o “espírito de Deus , pairava sobre a face das águas”, durante a criação. No evangelho de João, capítulo 1, lemos que Cristo é chamado de Verbo. Vine (2009, p. 1058) traduz a palavra a partir do grego “zõopoieõ”, que quer dizer, “dar a vida”. No velho testamento, no ato da Criação, o Espírito de Deus nos dá vida. No novo testamento, Cristo nos dá a vida, através do seu Espírito, primeiramente, no ato da crucificação, depois no pentecostes. Em Gênesis 6;13, vemos que a santíssima trindade insta com Noé, avisando sobre o dilúvio e orientando sobre a construção da arca. No capítulo 6, verso 3, vemos que o Espírito de Deus luta contra a humanidade, exortando a mesma ao arrependimento de seus pecados, semelhante àquilo que é feito pelo mesmo, no novo testamento. No período pós diluviano (que vai do dilúvio até pentecostes em Atos 2), vemos a ação do Espírito, de modo esporádico, atuando no meu do povo. A primeira passagem que vemos é Gênesis 41;38, Josué interpreta os sonhos do Faraó, quando estava na prisão. Em Êxodo 31;1 a 4, a palavra diz:
disse mais o Senhor a Moisés, vê eu chamei por nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Ur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo o artifício, para inventar obras artísticas, e de trabalhar em ouro, em prata e em bronze (THOMPSON, 2002, p. 79).

Através da vida de Moisés, vemos que o Espírito de Deus o capacitava com mansidão e liderança. Em números 12:03, vemos que a palavra de Deus o classifica como o mais manso de sua época. Em Gálatas 5;23, vemos que um dos dons do Espírito de Deus, segundo Paulo, é a mansidão. Em juízes 14:06, Sansão é capacitado pelo mesmo espírito para julgar o povo de Deus, segundo sua lei. a.2 ) Em segundo lugar, o Espírito Santo estava no meio do Povo, agindo por meio de alguém em específico: a principal diferença está na abrangência da atuação; no período veterotestamentário o Espírito agia em caráter isolado, sobre determinadas pessoas (1 Samuel 10;06, 16:13, Ageu 2;05, 1 Samuel 16;13, Êxodo 31;1a 6, Nm 27;18, Juízes 6:34, Juízes 11;29). O Espírito de Deus estava presente em meio a criação (Gênesis 1;03), e na transmissão

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oral da palavra (Mq 3:08). a.3) Em segundo lugar; o Espírito Santo como guia. Em Números 11:10 a 30, vemos que o Espírito Santo estava sobre a vida dos lideres do povo (Êxodo 13:21,22) e se fazia presente em meio ao povo, através de suas ações. (Êxodo 40;34 a 36). a.4 ) O Espírito Santo agia através dos profetas: todas as cerimônias religiosas no AT, tinham como canal, a vida do profeta. Era por meio dele que o povo se relacionava com Deus. Todo contato era feito através do profeta. a.5 ) A santíssima trindade no ato da criação: a palavra criar aparece três vezes no livro de gênesis (1:01, 21 e 27). No evangelho segundo João, no capítulo 1, 1 a 4 o evangelista diz:
no princípio, era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus, ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas forma feitas por ele e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida e a vida era luz dos homens.

Agora analisaremos as ações do Espírito no período neotestamentário.

b) As ações do Espírito Santo no NT.
projetando ele isso, em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo (THOMPSON, 2002, p. 871).

A primeira manifestação do Espírito Santo no novo testamento, fala a respeito do nascimento virginal Cristo. Em Lucas 1:15, vemos que João Batista, precursor de Cristo era cheio do Espírito de Deus desde a sua conceição. Em Lucas 1:41, vemos que Isabel era cheia do Espírito Santo, Zacarias profetizou cheio do Espírito Santo (Lucas 1;67), Simeão e Ana teve a revelação a respeito do nascimento do Messias (Lucas 2;25 a 38). Em Mateus 3:11, vemos que João Batista profetizava a respeito do batismo de Cristo. Em Mateus 3:16, Jesus recebe o Espírito Santo sobre si (não devemos aqui, entender que há uma separação entre as

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três pessoas, mas sim que as três: pai - filho - espírito santo - são uma só, porém aqui o espírito santo se torna visível, através de uma pomba, sendo que Cristo recebe então a unção para o início do seu ministério), após o seu batismo. Durante toda a vida ministerial de Cristo, vemos o espírito de Deus atuar. Podemos citar o caso da cura do endemoninhado em Cafarnaum (Mc 1;21 a 28, Lc 4:33 a 37), a cura da sogra de Pedro (Mc 1;29 a 39, Mt 8:14 a 17), a cura de um leproso (Mc 1:40 a 45), do paralítico em Cafarnaum (Mc 2:1 a 4), do homem da mão ressequida, em Marcos 3, acalmando a tempestade (Mc 4:35 a 41), curando o endemoninhado de Gadara, (Mc 5:1 a 20), a filha de Jairo e a mulher hemorrágica (Mc 5;21 a 43), a própria multiplicação dos peixes (Mc 6;30 a 44), a cura de um cego em Betsaida, em Marcos 8, a cura de um jovem possesso, no capítulo 9 de Marcos. Cristo ainda promete aos discípulos que, após a sua ressurreição, o Espírito de Deus seria enviado aos mesmos (Marcos 16:13 a 15). Já no livro de Atos, o discurso de Pedro no dia do pentecostes, levou a conversão de três mil pessoas (Atos 2;37 a 41), a cura de um coxo na porta do Templo (Atos 3). No capítulo 9, versos 32 a 43, vemos o apóstolo Pedro ser usado pelo Espírito Santo na cura de Enéias e Tabita. Fora isso, podemos citar como ações do Espírito Santo, as três grandes viagens missionárias de Paulo, onde várias igrejas foram fundadas. Através da ação do Espírito, surgiram os escritos pastorais paulinos, as cartas também de função pastoral, como as de Pedro e o livro de apocalipse de João. Agora, já estudado as ações do Espírito Santo, tanto no AT, como NT, estudaremos a visão dos apóstolos sobre os dons do Espírito, em termos de glossolalia. Nesse estudo, faremos uma análise doutrinária da escola paulina em Êfeso e Corinto, analisando quais as diferenças entre as mesmas, qual a visão de corpo de Cristo que Paulo prega para Coríntios. Ainda faremos uma análise sobre qual o posicionamento do apóstolo sobre esse dom e de que forma sua doutrina a respeito dos mesmos tem sido interpretada de maneira equivocada pelas muitas denominações de hoje.

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CAPÍTULO 4 4 OS ENSINAMENTOS DA ESCOLA PAULINA SOBRE O DOM DE LÍNGUAS Antes de fazermos um estudo detalhado sobre a escola paulina, devemos antes começar tecendo alguns comentários sobre a obra de Calvino (apud FRASER, 1964), onde o mesmo faz comentários sobre a obra de Paulo aos Coríntios. Primeiramente, o autor fala da importância da mesma, por conter citações sobre os vários dons que permeavam a igreja do primeiro século. Segundo Calvino, Corinto era uma cidade estratégica, localizada na região de Acaia, situada entre o mar Egeu e o mar Jônio, ligando a Ática ao Peloponeso, vivendo absolutamente do seu porto. Ainda Calvino (ibdem), quando Lucas escrevera Atos dos apóstolos, Paulo

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se encontrava em Êfeso, quando soube dos problemas existentes em Corinto, onde formara uma igreja, durante seu ministério de um ano e seis meses naquela localidade. Um dos principais problemas encontrados pela igreja de Corinto girava em torno dos falsos profetas, que invadiram toda a região, pregando profetas: - em virtude de terem uma boa oratória, se levantavam contra a simplicidade das pregações de Paulo; - por motivos de ambição, desejavam dividir a igreja; - com isso desejavam aumentar a sua reputação. Vale salientar que o legado cultural em coríntios era muito grande. Por ser portuária, era uma cidade que convivia com várias culturas diferentes entre si, originadas de varias nações. Sobre os dons espirituais, como já fora citado, Paulo salienta que (1 Coríntios 12;01) embora haja vários ministérios, só existe um corpo cristão. Calvino salienta que os coríntios faziam mal uso dos dons espirituais, visando tão somente a prática de espetáculos e orgulho próprio, sendo que esses dons não estavam sendo usados para o engrandecimento do corpo de Cristo. Ainda segundo o autor, Paulo realça que todos os dons vêm de Deus. Hoekma (2011) vai mais longe: diz que “a língua falada pelos Coríntios era idêntica àquela falada em pentecostes, porém com finalidades díspares”. Calvino ressalta que os dons descritos por Paulo em 1º Coríntios deveriam ser usados pela igreja, não para o vanglorio da própria pessoa possuidora desse dom, mas para o engrandecimento da igreja. Calvino fala que a igreja se constitui em uma unidade de muitas partes, não havendo capítulo 12, distinção da importância de ministérios entre a igreja. No verso 12, Paulo salienta:
assim, como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, formam um só corpo, assim é Cristo também (THOMPSON, 2002, p. 1043)

de maneira enganosa em meio a igreja. Segundo

Calvino (ibdem), existiam três razões para o aparecimento desses falsos

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Paulo aqui ensina que cada um no corpo de Cristo tem a sua função. Vale lembrar que o apostolo fala sobre a importância aqui, de cada ministério, para o bom funcionamento da igreja. Na visão calvinista, o batismo nos enxerta ao corpo de Cristo. Paulo fala no verso 13, que foi pelo mesmo Espírito que todos foram batizados. No capítulo 14 de 1º Coríntios, temos uma maior visão sobre o problema que essa igreja enfrentava com relação ao dom de línguas:
segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar, pois os que falam em línguas não falam aos homens, senão a Deus. Com efeito, ninguém entende, e em espíritos fala mistérios, mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação, o que fala em línguas edifica a si mesmo. (THOMPSON 2002, p. 1044)

Mas qual o posicionamento de Paulo sobre o dom de línguas? Vejamos alguns ensinamentos da escola paulina: - Paulo diz, no capítulo 13:
ainda que eu falasse a língua dos homens, que eu falasse a línguas dos anjos, mas não tivesse o amor, serei como bronze ressoante ou como o símbolo estridente. Se eu tiver o dom de profecias e conhecer todos os mistérios e todo o ensinamento; e se tiver toda a fé que faz remover montanhas, mas não tiver amor, nada serei,. e se eu doar todos os meus bens para o sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, de nada me aproveitará (THOMPSON, 2002, p. 1044)

Paulo aqui salienta a importância do amor ao próximo, como dom espiritual maior. Calvino destaca nos escritos paulinos, a importância que esse apóstolo dá ao amor entre as pessoas. Na análise calvinista, o amor pregado por Paulo em aos Coríntios, ganha grande importância, dado ao fato de o próprio apóstolo destacar que o amor (tanto ao próximo, quanto a obra de Deus) é a pilastra central de toda obra divina. Paulo assim destaca a importância da edificação do corpo cristão como um todo (destoando da visão de alguns teólogos, sobre a edificação individual do dom de línguas, a qual Paulo também defende em 1º Coríntios 14;4). Para Calvino, Paulo defende o evangelho da graça, que é baseado no amor ao próximo, dizendo que esse amor procede de um coração puro (1º Timóteo). Assim Paulo, segundo Calvino, tece duras críticas a importância

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dada pelos Coríntios, ao dom de línguas, em menos prezo aos demais dons. Segundo Calvino, Paulo salienta que esse dom era motivo de perturbação em meio à igreja, dado ao status que a igreja de Corinto dava ao mesmo. No verso 3, do capítulo 14 de 1º Coríntios, Paulo fala do dom de profecia, como sendo mais importante, por edificar o corpo de Cristo. O amor ao próximo é destacado no verso três, quando fala que os coríntios deveriam valorizar mais as obras sociais da igreja, destacando que essa igreja deveria ter um aspecto missionário. Paulo destaca que o maior dom é o amor. Fala ainda que esse não se comporta inconveniente, sendo paciente e benigno, não buscando os próprios interesses. Mas por que Paulo fala isso? Corinto enfrentava vários problemas de ordem doutrinária: - o primeiro; as disputas judiciais entre os membros e a imoralidade sexual: 1º Coríntios 6; - o consumo de sacrifícios a ídolos: 1º Coríntios 8; - a adoração a ídolos: 1º Coríntios 10; - de Afrodite, que raspavam suas cabeças, como sinal de purificação: 1º Coríntios 11. A carta de Paulo aos Coríntios revela que essa igreja doutrinários tinha vários pontos

a serem corrigidos. De maneira bastante equivocada, algumas alas do

cristianismo defendem seu ponto de vista a respeito da glossolalia, alegando que essa mesma carta fala contra o dom de línguas. Mas dentro da questão estudada, Paulo é contra ou a favor desse dom? Primeiro vale aqui uma análise do estudo sobre o tema: Segundo informações de Dennis Kiszonas (apud www.gracegospel.eu/línguas) defende a tese de que o próprio apóstolo Paulo diz em 1º Coríntios 13; 08 que todos os dons cessariam com o tempo e que somente o amor é que sobreviveria. Mas vale aqui um comentário específico que a de Estudos Pentecostais (BEP), traz a respeito: - Stamps (1995) diz que o cessar dos dons e línguas ocorrerá quando vier aquilo que é perfeito.
“a caridade nunca falha, mas havendo profecias, serão aniquiladas, havendo línguas, cessarão, havendo ciência, desaparecerá. Porque em parte

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conhecemos e em parte profetizamos, mas quando vier aquilo que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado” (1º Coríntios 13:08 a 10. (STAMPS, 1995, p. 1758).

Segundo Stamps, Paulo não fala do fim do dom de línguas e do seu desaparecimento em meio a igreja, mas fala que o amor é o maior dos dons e que esse deve prevalecer. No entendimento paulino, segundo Stamps, o “perfeito” é usado em referência a volta de Cristo, e que esse amor maior prevalecerá na igreja. Mas por que Paulo fala isso à igreja de Corinto? Primeiro de tudo, para melhor compreensão, podemos separar quatro palavras: caridade – profecia – línguas – ciência. - a primeira; Paulo fala que a falta de caridade é o maior problema em Corinto. Havia divisões dentro da igreja, sendo que havia até mesmo pessoas que não aceitavam a autoridade de Paulo, por se considerarem batizados no espírito, cuja evidência maior era o dom de línguas, sendo esse grupo considerado o mais perigoso de todos. - a segunda, profecia; por se tratar de uma cidade bastante mística, Corinto enfrentava o problema de falsos ensinamentos, em meio ao povo. Falsos profetas se infiltravam no meio do povo. Paulo destaca no capítulo 14, verso 23 a 25, que o dom de profecias e de revelação deve ser, antes de tudo, usado para a revelação do interior do coração de cada pessoa, além de revelar sobre situações que precisam ser reveladas. - línguas. Paulo salienta aqui o valor das línguas estranhas. O mesmo fala que, para que haja edificação do corpo (no caso de Corinto), esse dom deve ser acompanhado do entendimento. Ai vale o dom da revelação, salientado pelo mesmo. Sobre o falar em línguas, Paulo salienta que ele mesmo fala em diversas línguas, mais do que a todos - capítulo 14, verso 18 (lembrando-se que por ser um cidade portuária, que recebia pessoas de todas as partes, muitos membros da igreja, que se quer tinham o dom de línguas, faziam o uso do conhecimento de outros idiomas que aprendiam com os imigrantes, trazendo confusão em meio ao povo), mas em nenhum momento se vangloria disso, se dizendo superior. Tendo um bom entendimento, vemos que Paulo fala que o seu falar em línguas

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(aqui aprendidas de forma sistêmica) ou era usado para

a difusão do

evangelho. Stamps (1995, p. 1760) tece comentários sobre o fato de a igreja de Corinto fazer o uso do dom de línguas, durante a pregação da palavra, trazendo confusão. Segundo ele, Paulo salienta que o uso do dom de línguas só tem serventia, quando pode ser traduzido à toda congregação. De maneira nenhuma desmerece esse dom, mas simplesmente fala para os coríntios, que esse dom deve ser usado para a edificação do corpo, salientando que, como existe o dom, também deve haver a interpretação. O evangelista fala que o dom de línguas serve para convencer os incrédulos do seu pecado, mas o de profecias edifica a igreja. Há aqui uma separação entre dons; um serve para a edificação da pessoa e, no caso citado, a capacita para a difusão do evangelho, dado ao fato de falar e compreender novas línguas. O outro também edifica a pessoa. Porém capacita a igreja para uma vida com Cristo, trazendo a a igreja, gerando união e tona a vontade Deus e seus anseios para pecados ocultos. Paulo salienta no verso 26 a 27, de 1º Coríntios 14, a importância da ordem nos cultos, dizendo que o dom de línguas deve ser usado da maneira adequada no culto, não sendo fonte de desordem. Segundo Nogueira fala que:
Paulo não nos diz nada diretamente a respeito do que os coríntios concebiam como fala inspirada. Mas ele faz objeções às atitudes dos coríntios na assembléia, tais como: a larga prática da glossolalia sem interpretação, o que não contribuia para o crescimento da assembléia, inclusive na presença dos descrentes; a prática da profecia sem o teste congregacional; e o desejo individual de exercitar os dons proféticos por competição, disputando oportunidades.

crescimento. Paulo fala que a profecia e a revelação trazem à tona, os

(2009), o cristianismo do primeiro século e o fenômeno hoje

Paulo não é, portanto, contra o dom de línguas, mas sim contra o seu uso inadequado e descontextualizado. - A quarta palavra é ciência - Paulo salienta que o conhecimento da palavra, sem contudo o viver o temor de Deus e o amor ao próximo, não tem valor algum. Muito provavelmente as pessoas em Corinto tinham certo conhecimento em várias ciências, dado ao

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fato de ser esta uma cidade cosmopolita e que isso, muito provavelmente influenciava nas igrejas. Nogueira ainda fala que a glossolalia é e sempre foi praticada, em diversas outras religiões. Vale mais um levantamento a parte aqui, no caso de Corinto. Pelo fato de ser cosmopolita, recebia pessoas, não só de outras localidades, mas também de outras religiões. Salienta ainda que o cristianismo do primeiro século, emergiu de uma seita judaica, ganhando influência Greco-romana, para uma religião com características próprias, e que crescera, mais em meio aos gentios, do que no meio judaico. Assim sendo, trouxe para si, todo um legado dessas demais culturas. Assim, muitos falsos profetas, se utilizavam de falsos dons de línguas (dentro da perspectiva cristológica), se infiltrando em meio ao povo. Nogueira ainda diz:
uma das formas de recepção desses oráculos era a comunicação da divindade por meio de um médium humano, como Pítia em Delfos e as Sibilas. Pítia foi uma sacerdotisa (mantij) que, sobre o tripé de Apolo (que representava o trono divino), entrava em transe e, neste estado, proclamava seus oráculos em uma linguagem que parecia uma mistura de um grego truncado e incoerente e uma vocalização ininteligível.

Vemos que no caso da glossolalia, Corinto era um caso a parte sobre esse tema. Paulo é então contra o dom de línguas? Não. Vejamos alguns pontos: a) Analisando os fatos ocorridos em Atos, durante os quais foram escritos as cartas paulinas, vemos que havia um grande mover, em termos dos dons e milagres, no cristianismo do primeiro século. O mover do Espírito ocorria em igual intensidade em todas as partes, onde o cristianismo havia chegado. Kirszonas defende que esse período de dons cessou com o período apostólico. Vale aqui um debate sobre as passagens bíblicas estudadas pelo mesmo e que carecem de maiores esclarecimentos: - o mesmo fala que em 1º Coríntios 13:8, que Paulo recebera uma revelação de que esses dons cessariam. Fazendo uma análise mais detalhada, vemos Paulo falando que, com a vinda daquilo que é perfeito, isto é, Cristo, é que esses dons

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cessariam. Vale salientar também que o uso indevido desses dons poderiam trazer um cessamento desse mover. Kirszonas cita, que os dons do Espírito Santo cessaram no período apostólico, mediante uma análise feita de modo simplista, das cartas escritas quando Paulo estava em Roma: Filipenses, Colossenses, Filemon e Efésios, dizendo que as mesmas não fazem citação sobre o dom de línguas. De maneira equivocada, o autor fala em cessação dos dons, baseados nessas cartas, não fazendo ao menos uma citação do ocorrido em Êfeso, narrado em Atos 19:6. Na verdade, o autor fala que o “estar cheio do Espírito Santo”, narrado em Efésios 5:18, não fala sobre o dom de línguas, o que é completamente inconclusivo (Paulo fala aos Efésios sobre o se apartar do vinho, mantendo-se cheio do Espírito), sendo que chegamos a essa opinião, estudando sobre os sinais do mover e os frutos do Espírito na vida cristã (sendo esse estudo realizado durante a elaboração desse trabalho). Vale lembrar também, que todas as cartas paulinas são contemporâneas a Atos dos apóstolos, tendo sido escritas por volta de 62 a 63 d.C. Lembramos ainda que, segundo a bíblia BEP (STAMPS, 1995, p. 1673), o fato ocorrido em Êfeso, dera-se 25 anos após o primeiro pentecostes, ocorrido por volta de 33 d.C, sendo que aquilo que fora narrado por Lucas em Atos, ocorrido por volta de 55 d.C, muito próximo das datas estipuladas para as cartas paulinas. Outro ponto que Kirszonas apóia sua teoria é a passagem de Filipenses 2;25-30 (citando a passagem entre Paulo e Epafrodito, onde recomenda aos Filipos que o recebam, pois tivera sido mandado aos mesmos para que vejam que estava vivo, uma vez que estivera a mais usar do dom de cura beira da morte, por diversas vezes), dizendo que Paulo já não pudera no caso citado. Na passagem, segundo a versão Thompson, Paulo fala:
julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito, meu irmão, cooperador

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e companheiro nos combates, e vosso enviado para prover as minhas necessidades, pois tinha muita saudades de todos vós, e estava muito angustiado de que tivésseis ouvido que ele estivera doente, de fato esteve doente, e quase a morte, mas Deus se compadeceu dele, e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza, por isso vo-lo enviei mais que depressa, para que, vendo-o outra vez, vos regozijeis, e, eu tenha menos tristeza. Recebei-o no Senhor com todo o gozo, e tende em honra a homens como ele, porque pela obra de Cristo, chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso da vida para suprir para comigo o serviço que vos próprios não podíeis prestar. (THOMPSON, 2002, p. 1068)

Aqui vemos no verso 27, que o próprio apóstolo testemunha sobre a cura de Epafrodito, embora não deixando claro se houve cura por meio de intercessão ou por recursos médicos. Um estudo aqui a parte: Epafrodito foi um dos companheiros de Paulo em suas viagens missionárias, sendo um dos gentios convertidos durante a segunda geração de cristãos, no início do ministério dos apóstolos. Kirszonas aponta que nas epístolas pastorais (Tito , 1º e 2º Timóteo) não encontramos nada a respeito do dom de línguas ou de cura. Porém fazendo uma análise mais crítica sobre essas passagens, vemos o primeiro equívoco encontrado, quando analisamos a passagem em 1º Timóteo 1:18 a 20, quando Paulo fala:
esta instrução te dou, meu filho Timóteo, que, segundo as profecias que houve a cerca de ti, por elas combate o bom combate, conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, havendo rejeitado, vieram a naufragar na fé. Entre esses encontram-se Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar.

Pelas informações contidas nessa carta, 1º Timóteo, capítulo 1, verso 3, vemos que Paulo provavelmente a escrevera durante a sua estada em Êfeso, o que permite colocar a datação dessa mesma, em torno de 60 a 65 d.C, sendo contemporânea de Atos, onde os fenômenos da glossolalia, de curas e revelação, estavam em voga. Sustenta o teólogo, que os dons espirituais cessaram com o fim do livro de Atos. Mas vale aqui um dado a ser estudado: Romanos fora escrito durante o fim de sua viagem missionária em Corinto, por volta de 57 d.C., 1º e 2º Coríntios, por volta de 55 a 56 d.C, Gálatas em 49 d.C., Efésios no ano de 62. Filipenses, Colossenses, I e II Timóteo, Filemon e Tito, em torno de 60 a 65, e I e II Tessalonicenses em torno de 50 a 51, todas durante a elaboração do livro de Atos. A partir dessa análise, podemos ver que, embora o apóstolo não cite especificamente sobre a existência dos dons de línguas, Paulo fala da

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profecia sobre vida de Timóteo em I Timóteo 1:18, sendo que essa, como fora dito, é contemporânea a Atos, assim como essa epístola paulina. Paulo fala ainda sobre os dons ministeriais em Efésios 4;11, quando fala:
e ele mesmo deu uns para apóstolos, outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores (THOMPSON , 2002, p. 1059).

Havia então, o dom de profecias, em Efésios. Em I e II Coríntio, Paulo escreve suas cartas, normatizando e disciplinando o uso dos dons espirituais, em Gálatas fala das ações e dos dons do Espírito na vida cristã. Em Tessalonicenses, Paulo exorta a vida de santidade, como fruto do espírito de Deus. Analisando esses pontos, embora não fale dos dons de cura e de línguas, Paulo fala dos dons do Espírito. Analisando que os dons de línguas, de cura, de revelação, também são dons do Espírito, torna-se inconclusiva, e sem base para tal, a opinião de Kirszonas sobre o fim desses dons ainda no ministério apostólico. Fazendo mais uma análise, vemos que Lucas, segundo a BEP, escrevera o livro de Atos em um período um pouco a frente das cartas paulinas - talvez com um ou dois anos de diferença - em torno de 63 d.C. Já Paulo fora martirizado em torno de 67 d.C, data em que a maioria dos apóstolos já tinham sido martirizados. Quando Kirszonas fala do fim desses dons na segunda parte do livro de Atos, devemos entender que o mesmo livro termina de forma abrupta no capítulo 28, dado a asseverada perseguição sobre os cristãos por parte do império Romano, levando-se a entender que muito do que ocorrera na igreja entre esse período de 63 d.C a 90-96 (quando João escreve Apocalipse) não é narrado nas escrituras, ficando por tanto a visão do autor, um tanto inconsistente e inconclusiva. Temos que salientar também, alguns testemunhos sobre os pais da igreja, no chamado “Período Patrístico”, onde os mesmos já não mais relatam a ocorrência dos dons de línguas, a partir do final do século II e início do século III. Vale salientar, porém que a igreja, a partir desse século, começa a ser inundada por práticas pagãs, oriundas de novas

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seitas e falsos ensinamentos, que vão levar a mesma a uma letargia espiritual e a uma cessação dos dons e de todo o mover do Espírito, durante a idade média, sendo que essa letargia só se encerrou após a reforma protestante do século XVI. Todo esse período patrístico e o que aconteceu sobre dons espirituais, durante a idade média, serão fatos abordados no capítulo cinco, desse trabalho.

CAPÍTULO 5 5 ESTUDO SOBRE OS DONS DO ESPÍRITO SANTO NA VISÃO DOUTRINÁRIA

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DA IGREJA CONTEMPORÂNEA a) O dom de línguas no período patrístico e na idade média: Segundo Hoekma, (1964, p. 6 a 19), durante o século XX, o mundo cristão tem sido tomado por um grande interesse a respeito do dom de línguas. Outrora limitado aos meios pentecostais (no caso, prefiro chamar de meio glossolálico, uma vez que a igreja de um modo geral fora formada durante o pentecostes, lembrando que a festa judaica em si e o dom de línguas são duas coisas díspares), hoje já rompera com as barreiras do tradicionalismo religioso, sendo presenciado em meio aos cristãos históricos, históricos reformados e membros de comunidades. Recentemente vemos esse fenômeno se espalhar também em meio ao catolicismo carismático. Salienta o autor, que do período do ano 100 ao ano de 1900 d.C, os glossolálicos eram um grupo minoritário extremamente perseguido, tanto no meio protestante, como no meio católico. Mas vejamos alguns estudos interessantes sobre manifestações espirituais, ocorridas entre o período apostólico e o ano de 1900: - Montanismo: De acordo com Hoekma, foi um movimento que surgiu em meados do século II. Ainda de acordo com o Autor:
os autores pentecostais as vezes se referem ao montanismo como um movimento da igreja no século II que se lhes assemelha .Um desses autores se expressa desse modo: “uma seita da igreja antiga que pode ser classificada de pentecostal é a que foi fundada por Montano da Frígia que defendia uma estrita disciplina eclesiástica e cria que a igreja receberia um novo batismo pentecostal. O mesmo autor cita Eusébio, historiador da igreja , do século IV, para falar que Montano foi arrebatado em Espírito, entrando em êxtase, falando coisas estranhas. (KOEKMA, 1964)

Hoekma, no entanto salienta que Montano foi julgado como herege e expulso da igreja, pois suas pregações iam contra as escrituras, aumentando-as, escrevendo livros e trazendo profecias que iam contra as escrituras. - Irineu (130-200 d.C): o mesmo, Irineu diz:
falamos sabedoria aos prefeitos, denominando perfeitos a todos aqueles que têm o Espírito de Deus, e que pelo Espírito de Deus, falam toda sorte de idiomas. De igual maneira, ouvimos de muitos irmãos da igreja que possuem dons proféticos e que por meio do Espírito , falam toda classe de

o autor cita que muitos dos pentecostais citam as

palavras de Irineu, para justificar a existência do dom de línguas ainda no século II. Segundo

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línguas e trazem a luz, coisas que estão escondidas dos homens e declaram os mistérios de Deus,para beneficio geral.

Hoekma faz dois comentários a respeito disso: - em primeiro, fala que Eusébio traduz a expressão “toda classe de”, a partir do grego “paritodapais” dizendo que não é convincente de que Irineu esteja falando de algum idioma que não fosse conhecido em sua época (KOEKMA, 1964). Aqui vale um comentário: Lucas, quando fala sobre a glossolalia (Atos 2:4), em Atos dos apóstolos, fala exatamente de idiomas conhecidos, porém não aprendidos de forma sistemática, por aqueles que as falavam, trazendo sobre os prosélitos e gentios de um modo geral, as revelações sobre o reino de Deus, da mesma forma como esta relatada no testemunho de Irineu. - Hoekma ainda cita que Irineu, em seu testemunho, cita a presença do dom de cura e de libertação, mencionando o exorcismo, profecias e até mesmo de ressurreição. Mas, segundo fala, Irineu não cita o dom de línguas, baseando-se nisso para que esse dom cessou ainda no período apostólico. Vale aqui mais um comentário a respeito: todos esses dons, sempre foram contemporâneos na igreja. Ao mesmo tempo que os apóstolos testemunhavam sobre o dom de cura e de ressurreição, havia também o de línguas e de revelação. Cabe aqui mais um paralelo: em nenhum momento as escolas apostólicas diminuíram o dom de línguas, em relação a outros dons. O que Paulo faz em Coríntios é tão somente uma normatização desse dom. - Tertuliano (160-200 d.C): Hoekma (1964) utiliza uma passagem em que Tertuliano fala sobre Marcion, em que declara que seus discípulos, que utilizavam um tipo de falar em línguas de formas extática, comparando os mesmos a uma mulher que fala de modo a trazer divisões em meio a sociedade. Vale salientar aqui que Marcion se utilizava do gnosticismo, suas pregações rejeitavam o velho testamento e por isso foi julgado como Herege e excomungado. Suas pregações, portanto, não podem ser citadas para a defesa da glossolalia, nos dias atuais.

- Crisóstomo (345-405): outro ponto que Hoekma fala sobre sua teoria é que Crisóstomo já não fala sobre a existência da glossolalia, em seus dias. Segundo o mesmo,

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Crisóstomo diz que a passagem em 1º Coríntios 12 e 14 são para ele, um tanto obscuras, não havendo interpretação para as mesmas (KOEKMA, 1964). - Santo Agostinho ( 354-430 d.C). De acordo com Hoekma (1964), em sua Sexta Homilia sobre I João, Santo Agostinho tece críticas ao dom de línguas, dizendo que esse mesmo o era apenas e tão somente, para o período apostólico. Diz que as pessoas de seu tempo, não deveriam mais esperar que, alguém que recebesse oração por imposição de mãos, falassem em novas línguas. O autor ainda cita que vários outros relatos são encontrados durante a idade média, a respeito de o falar em línguas, não havendo consenso de que se tratava de glossolalia, ou xenolalia: São Francisco Xavier (1506-52) teve o dom de línguas ao pregar aos nativos da Índia. Vicente de Ferrer (1357-1419), pregou para húngaros e, gregos e alemães. Louis de Bertrand (1526-1581), converteu 30.000 índios sul-americanos em seu idioma nativo. São Francisco de Assis também usara o falar em línguas, em suas pregações pelo mundo afora. No caso dos meninos profetas de Cevenes, Hokema os classifica como uma volta ao montanismo. Outros grupos, como os Quakers e os mórmons, também se utilizavam de um modo de falar em outras línguas. Devemos salientar também o fato de alguns convertidos, discípulos de Wesley, que falavam já praticando a glossolalia. Faremos a partir de agora um estudo sobre o movimento pentecostal moderno, a partir do ocorrido no chamado “milagre da rua Azusa”. b) A glossolalia no século XX Mas quando foi que surgiu o pentecostalismo moderno (trataremos o que chamo de glossolálico, como pentecostalismo moderno, lembrando sempre que a festa de pentecostes deve ser entendida como algo diferente do ocorrido com a descida do Espírito Santo em Atos 2). Quais são os chamados “pais do movimento pentecostal”? Para a primeira pergunta, podemos destacar o caso da escola bíblica formada em Topeka, Kansas, por Charles Parham, oriundo do movimento de santidade (Holiness), ligado a Igreja Metodista. O movimento de santidade estava em seu apogeu e, segundo Hoekma, Parham e seus alunos chegaram a conclusão de que havia algo que ainda precisava ser derramado sobre os cristãos do mundo inteiro (KOEKMA, 1964) Esse derramamento era fruto de uma santificação. O que Parham buscava era exatamente o que ocorrera em Atos 2. Analisando as escrituras, Parham e seus quarenta alunos viram que o sinal, ou prova indiscutível, do chamado batismo no Espírito Santo era, no seu entendimento, o dom de

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línguas. Após esse ponto, o grupo começou a buscar exaustivamente esse batismo. Em 1 de janeiro de 1901, a senhora Agnes Ozman, aluna de Parham, recebeu desses a oração por imposição de mãos, começando então a orar em línguas. Vemos aí, pelos relatos a ocorrência da glossolalia, já no período moderno. O chamado pentecostalismo moderno, entrou então em sua primeira fase, sendo pregado em diversas cidades dos EUA (HOEKMA, 1964). Agora faremos em breve estudo sobre o milagre da rua Azusa e sua importância para o pentecostalismo. c) O milagre da rua Azusa Entre as pregações pentecostais do início do século XX, destaca-se o papel do pregador negro W.J. Seymour, que havia estudado em Houston, no seminário de Parham. De acordo com Hoekma, Seymour foi para Los Angeles, onde se instalara com um pequeno grupo, em uma igreja abandonada, na Rua Azusa 326. Em 9 de abril de 1906, sete pessoas foram batizadas com o dom de línguas. Ali as reuniões se seguiram durante três anos, sendo o centro do avivamento pentecostal norte-americano (HOEKMA, 1964). Esse avivamento se dera de forma tão grande que em poucos anos estava sendo pregado em todos os continentes. Dentro desse movimento pentecostal, os maiores são: - Assembleia de Deus, com sede em Springfield, Missouri; - Igreja de Deus em Cristo, uma igreja negra, que crescera de 31000 membros, me 1936, para 400.000 membros em 1963; - o terceiro grupo é a Igreja de Deus, com sede em Cleveland, Tennenssee; - Igreja do Evangelho Quadrangular, fundada em 1927; - Assembléias pentecostais mundiais, igrejas fundadas por negros, em 1957.

No próximo item, faremos um comentário sobre os pontos de vista doutrinário sobre o dom de línguas existentes entre as igrejas históricas, históricas reformadas, pentecostais e comunidades. Também faremos um estudo sobre o movimento pentecostal no Brasil, desde 1900, até hoje. d) Os diversos ensinamentos doutrinários sobre o dom de línguas:

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Mas qual o pensamento das diversas denominações sobre esse tema? Primeiramente, vamos dividir as igrejas em cinco grupos distintos entre si: a) As históricas reformadas; b) As históricas; c) As pentecostais; d) As neopentecostais e as comunidades. a) Começaremos pelo primeiro grupo. As igrejas históricas reformadas (já que nem todas as igrejas históricas tem sua origem na reforma protestante, para isso cito o caso particular da Igreja Metodista, fundada a partir do movimento Holliness), em geral detêm um posicionamento bastante radical sobre o falar em línguas. Um caso especial é o citado pela Igreja Reformada, que sustenta sua doutrina dizendo que os dons de cura, revelação e línguas eram apenas para o período apostólico. Em uma pesquisa por mim realizada, entre 01-08-2011 a 01-09-2011 (saliento que todo esse material está em anexo), pude verificar que, através de um questionário respondido pela própria liderança da comunidade, que a igreja sustenta seu ponto de vista, dizendo que os dons espirituais eram apenas para o período apostólico e ali se encerraram. Vale salientar que a mesma, ainda que sustente seu posicionamento nas escrituras, não apresenta citações bíblicas conclusivas sobre o tema, e que justifique tal posicionamento. Mas temos que salientar um ponto bastante válido: o batismo no Espírito Santo não ocorre, segundo a visão da doutrina da igreja (sustentado esse ponto, pautado maneira bastante clara, nas escrituras – 1º Coríntios 12;13) de que o batismo no Espírito Santo ocorre no ato da conversão). Já entre os luteranos conforme argumenta (NETO, 2011), um estudo feito, mostra que os mesmos apresentam um posicionamento sobre o tema, baseado nos seguintes pontos: O primeiro ponto na qual os luteranos se apóiam está no fato de que os teólogos pentecostais sustentam sua teoria a respeito do dom de línguas, chamando-as de línguas estranhas , ao invés de estrangeiras, como defendem os luteranos (já foi defendido nesse trabalho, ao falarmos que o ocorrido em Atos eram línguas desconhecidas por quem as falava, mas de conhecimento de quem as ouvia, como em Atos 2:8 a 11). Outro ponto de vista dos mesmos, diz que, segundo estudos feitos por lingüistas, o “dom de línguas” defendido pelos pentecostais, são na verdade, resultado de um falar completamente extático e sem conexão, não apresentado nenhuma estrutura lingüística conhecida. Baseiam-se contrários ainda se pautando de que os cultos pentecostais se constituem em desordem, uma vez que o dom de

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línguas é, segundo os mesmos, acompanhados de gritos, batidas de pé, grunhidos, etc., o que segundo os mesmos vão contra a ordem estabelecida por Paulo, em 1º Coríntios 14:28-30-32 e 40 e Gálatas 5:22-23. Sua doutrina ainda se apega ao fato de que, na carta aos Coríntios, Paulo fala que os dons do Espírito, devem ser vistos sobre a temática de corpo de Cristo. Salientam que o próprio apóstolo fala que os dons do Espírito devem ser usados para a edificação do corpo de Cristo, como um todo. Já os pentecostais, segundo análise dos luteranos, têm no dom de línguas, algo para a edificação própria, sendo que os mesmos - os pentecostais - apóiam a tese de que o dom de línguas é o próprio batismo no Espírito Santo. Os luteranos destacam ainda para o fato (julgado pelos mesmos como errôneo) de que todos os pentecostais buscam o dom de línguas, em detrimento dos demais dons, contrariando 1º Coríntios 12:12 a 28. Falam também que todo o ser humano deve orar a Deus com todo o entendimento (Lucas 10:27, 1º Coríntios 14:7, 9, 15, 32, Efésios 1:17-18). Vale salientar que esse posicionamento dos luteranos é parecido com as demais igrejas oriundas da reforma protestante, como batistas e presbiterianos. Preferem estes também interpretar como dons do Espírito, o amor ao próximo e a chamada para o evangelismo. Entre os Batistas, podemos dizer que não há um consenso. Se de um lado os tradicionalistas se dizem contra (http://solascripturatt.org/seitas/pentecostalismo/deveumaigrejabatistaabracarpentecostalismolaurencejustice.htm), por outro lado, outras denominações de cunho batista apóiam essa prática, como no caso da Igreja Batista Água viva (http://www.igrejabatistaaguaviva.com) . Com relação aos questionários aplicados, entre as igrejas com origem na reforma, podemos notar algumas divergências, com relação a doutrina sobre dons espirituais: primeiro de tudo, citarei abaixo , o questionário aplicado na pesquisa: Já entre as igrejas históricas, surgidas após a reforma (como no caso da Metodista, fundada no século XVII, oriunda de uma igreja reformada - a Anglicana, e a Adventistasurgida em 1863), não existe um consenso sobre esses dons: para os adventistas, o batismo do Espírito Santo é evidenciado pelos diversos dons (como a fraternidade), não encontrado base na doutrina destes, algo que justifique o uso do dom de línguas, sendo esse dom repudiado em meio aos adventistas. Segundo esses, o batismo no Espírito ocorre durante a conversão. Sobre o dom de línguas, (www.jesusvoltara.com.br), os adventistas classificam o falar em línguas como algo que deve ser analisado com cuidado. Em um primeiro momento classificam que o maior erro dos pentecostais é de falar que o crente somente recebe o Espírito Santo, com o falar em línguas, o que na verdade é incoerente com as escrituras. O segundo ponto em que os Adventistas sustentam sua doutrina é quando falam que alguns dos primeiros cristãos receberam o Espírito Santo, porém, não falaram em línguas:

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- citam o caso de Estevão, em Atos 6:5 a 7, que recebera o batismo, porém, na visão adventista, não recebera o dom de línguas; - Atos 6:1 a 7, dizendo que os varões escolhidos como diáconos eram cheios do Espírito Santo, mas não falavam em línguas. Para esses dois pensamentos, vale um comentário a parte; quando Lucas escreve a expressão “cheio do Espírito Santo” está se referindo a mesma situação encontrada em Atos 2; 3 e 4, quando fala que todos os que estavam reunidos em Jerusalém (apóstolos ou não) foram cheios do Espírito Santo. É portanto um tanto inconclusiva a opinião em que se diz que aqueles diáconos em Atos 6; 1 a 7, não falavam em línguas, sendo que o mesmo se aplica a Estevão. Em uma reportagem encontrada no mesmo site, vemos o seguinte testemunho sobre o dom de línguas:
Reid Simonns (nome alterado) parou um momento em seu sermão, para dar tempo a que o intérprete traduzisse suas últimas frases. A multidão de japoneses, reunida naquela esquina de Tóquio para ouvir o que o soldado americano tinha a dizer, subitamente deu demonstração de espanto. Todos mantinham seus olhos fixos no jovem ocidental, sem voltarem ao intérprete. Reid repetiu a sentença e esperou novamente pela tradução. Foi quando alguém declarou: ‘O senhor não precisa de tradutor. Está falando japonês! Sim, irmão, era o que realmente acontecia. Ali estava um jovem que, embora tivesse grande paixão pelos pecadores, ao ponto de deixar sua pátria e atravessar os mares em busca dos pagãos, nunca falou japonês em sua vida, mas pregava agora nesta língua, apelando aos nipônicos para aceitarem a Cristo como Salvador. Nessa reunião, seis preciosas almas aceitaram a Cristo. Ó, amados, eis aqui o verdadeiro dom de línguas. Este sim, é o dom de Deus; o dom derramado no Pentecostes. (www.jesusvoltara.com.br, 2011).

Já entre os metodistas, existe algo incerto sobre esse tema: a Igreja Metodista (fundada por John Wesley) detêm o pensamento de que o uso da glossolalia nas igrejas, quando apoiado em um falso entendimento, pode levar as pessoas a acreditarem que existam cristãos de primeira classe (batizados com evidencia do dom de línguas) e cristãos de segunda classe (inaptos para o ministério e que não oram em línguas), criando um cenário religioso semelhante a igreja de Corinto (www.metodista.org.br). Ainda de acordo com a visão da igreja, em uma reportagem de autoria de Mack Stokes, publicada em seu jornal, no site acima citado, a igreja diz que:

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este critério da glossolalia como fator inconteste do batismo no Espírito Santo pode fazer com que indivíduos sob pressão, no afã de serem aceitos pelo grupo, passem a exprimir sons que nada têm a ver com as línguas estranhas relatadas em Atos 2 e nas cartas Paulinas, mais precisamente nos capítulos 12 a 14 de 1 Coríntios.

Mas uma reunião do colégio episcopal, datada de 1980, passa uma normatização à igreja sobre o uso dos dons espirituais: - em primeiro lugar, salienta a visão de Paulo de que todos os dons são importantes para o pleno funcionamento do corpo de Cristo. Portanto todos os dons tem o mesmo valor, perante Deus, devendo por tanto, serem usados para a edificação da igreja de Cristo. Quanto ao “falar em línguas”, o colégio episcopal salienta que, segundo as Escrituras, esse é apenas um dos demais dons espirituais. Destacando que esse dom tem o caráter de edificação pessoal e que, quando acompanhado de interpretação, adquire um caráter de edificação para o corpo de Cristo. Como esse segundo fato não ocorre cotidianamente, não é recomendado pela igreja que esse dom seja praticado em publico. Na visão da igreja, o Espírito Santo se apossa da pessoa, no ato de sua conversão. Já na visão da Igreja Metodista Livre do Brasil, o batismo no Espírito Santo e nas águas são um só. Quando aceitamos o senhorio de Cristo em nossas vidas, somos separados por Deus. Para a igreja então, o cristão não é batizado no espírito e cheio desse, somente após receber algum dom espiritual . Em uma análise feita em seu site (www.metodistalivre.org.br), vemos que a igreja defende que há um só batismo, o de Cristo e em sua doutrina é inconcebível o Cristão ser convertido, mas não ter o Espírito Santo em si. Sobre o dom de línguas, a igreja salienta que este não era apenas para os tempos apostólicos (ibdem). Tece porém, pesadas críticas dizendo ser errado o fato de os pentecostais classificarem o dom de línguas, como o sinal (por muitos desse meio classificado como único) do batismo do Espírito Santo. Contudo, sobre o uso do dom de línguas, a igreja não estabelece uma normatização clara sobre o uso desse mesmo, durante os cultos. Dizendo apenas, que todo dom deve ser, antes de tudo, provado perante a escritura, que todo aquele que diz ter algum dom deve, antes de mais nada ter a sua vida testificada como exemplo de santidade, perante as escrituras. c) Agora analisemos entre os pentecostais. De uma maneira bem clara, vemos que todas se apóiam no ocorrido em Atos dos apóstolos. Porém temos que nos valer de estudos

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mais detalhados sobre seu posicionamento:

- As Assembléias de Deus, podem ser consideradas as que estão na vanguarda desse movimento, tendo suas raízes no avivamento da rua Azusa, em 1906. A mesma acredita que o dom de línguas deve ser usado para a edificação do corpo de cristo e da própria pessoa (HOEKMA, 1964). Outro expoente desse meio no Brasil, é a igreja do Evangelho Quadrangular, também oriunda do avivamento da rua Azusa, que prega como sinal do batismo, a evidência do dom de línguas, curas e revelação através do Espírito (http://www.quadrangular.com.br/pagina.php?nome_link). Segundo sua declaração de fé, o batismo do Espírito Santo é a o cumprimento da promessa do consolador. É esse batismo, segundo a visão da igreja, que capacita do crente para sua guerra espiritual. Também crê na glossolalia, não como o maior, mais como um dos dons do Espírito Santo sobre a vida do crente (http://www.quadrangular.com.br/pagina.php?nome_link). d) O último grupo a ser analisado é o das comunidades e as neopentecostais. De uma maneira geral, podemos tratá-los de forma bastante homogênea. O forte desses grupos está na cura e na libertação (LACY, 1998, p. 47-97). Se destoam dos demais por serem uma mescla de características de igrejas históricas (onde compartilham com essas a característica de terem estudos bíblicos mais detalhados), apresentando também em suas doutrinas, a glossolalia e a crença no dom de curas, além de pregarem a teologia da prosperidade.Originou-se das demais vertentes evangélicas, a partir do final dos anos 1960, nos EUA, e no Brasil , no final dos anos 1970 (ibdem). Embora crêem no dom de curas e de revelação, destoam do pentecostalismo clássico, tendo características mais urbanas do que aqueles (ibdem). De acordo com uma pesquisa realizada em algumas comunidades, através de pesquisas feitas em sites, diferenciam-se do pentecostalismo clássico pelo fato de que, mesmo crendo no dom de curas e revelação, fazem uso da quebra de maldição e da cura interior, como arma para a cura física (http://inabrasil.org). De um modo geral não apresentam quaisquer restrições sobre a glossolalia durante os cultos. Com relação aos questionários aplicados, entre as igrejas históricas e reformadas podemos notar algumas divergências, com relação a doutrina sobre dons espirituais. Faremos aqui uma análise dos questionários aplicados, sendo que os mesmos seguem em anexo aos trabalhos.

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Com relação a primeira pergunta, as igrejas pesquisadas são aquelas surgidas após a reforma protestante. Já a segunda questão, a maioria dos que responderam ocupam algum cargo de liderança ou diaconia, sendo uma menor parte, os que ocupam os demais cargos citados, ou então são apenas membros. Julgo necessário partir de uma análise sobre esse para que possamos conhecer um pouco sobre o perfil de líder que temos hoje nessas igrejas, bem como os seus conhecimentos sobre o tema desse trabalho. Analisando o questionário aplicado, vemos que grande parte das pessoas entrevistadas, que ocupam cargos de liderança , estão na igreja onde se encontram a pelo menos 10 anos ou mais, enquanto os que são apenas membros tem um tempo inferior a cinco anos. Com relação ao tipo de pastoreio existente nessas igrejas, vemos que perto de oitenta por cento das entrevistadas, são igrejas de pequeno e médio porte, e apenas uma com mais de quinhentos membros, mas que contem todas uma boa estrutura, em termos de lideranças estabelecidas, o que vem no caso, a facilitar os estudos bíblicos, trazendo um pastoreio de maior qualidade, auxiliando no amadurecimento da igreja. Quando foi pesquisado sobre se na igreja, existe algum trabalho no sentido de que se estude sobre os dons espirituais, no sentido de que se faça com que a igreja atinja a maturidade espiritual, vemos que perto de noventa por cento da igreja das entrevistadas que existe e um trabalho a respeito desse tema, embora não possamos apontar como esses estudos são direcionados. Com relação a questão sobre o Espírito Santo, como agente de cura (física ou psíquica), vemos que ente os lideres, noventa por cento crêem nesse tipo de dom e apenas dez por cento disseram que não. Quando perguntamos sobre as diferenças entre xenolalia e glossolalia, vemos que os entrevistados, vemos que a metade dos entrevistados não souberam responder a essas diferenças, o que se torna bastante embaraçoso, quando falamos em dom de línguas. Quando falamos sobre a ocorrência de estudos sobre dons espirituais entre essas igrejas, podemos ver que sessenta por cento dessas igrejas já realizaram algum tipo de estudo sobre os mesmos, sendo esses mesmos de fácil entendimento pelo publico. Com relação a manifestação dos dons espirituais, (enquanto sinais) entre os entrevistados, vemos que a forma mais aceita é a respeito do amor fraternal, em detrimento dos demais dons. Já com relação ao dom de línguas, essas mesmas não fazem o uso desse dom. Entre as igrejas pentecostais, neopentecostais e comunidades, vemos que, de um modo geral, todas se baseiam no uso do dom de línguas e revelação, apoiados em Atos 2:1 a 9, 1º Cor 14:14-15 e Atos 2:38-39. Porém podemos notar que existe entre as mesmas, uma deficiência no estudo sobre glossolalia e xenolalia, o que se torna necessário nesse tema. No próximo capítulo, faremos uma na analise geral do trabalho, tendo como objetivo sugerir as diretrizes de como esse tema deve ser trabalhado dentro das

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igrejas, bem como cada igreja deve defender seu ponto de vista, não agindo em detrimento das demais denominações (desde que as mesmas também defendam suas doutrinas, apoiadas em estudos exegéticos claros e de qualidade, dentro dos padrões bíblicos), gerando entre as igrejas , a visão de corpo e de complemento em Cristo.

CAPÍTULO 6 6 CONCLUSÃO

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6.1 Recomendações: Para concluir esse trabalho, gostaria de deixar três observações: a) A visão de corpo de Cristo. Em primeiro lugar, saliento que em Atos 2 é que a igreja foi formada. Partindose (como já disse) de que a palavra igreja, vem de eklésia, que quer dizer, chamados para fora, vemos que todas as igrejas, então são pentecostais, pois somos todos chamados a viver o amor de Cristo, a viver o dom de cura e de profecia, o dom de revelação, a sermos guiados pelo Espírito Santo. Podemos sim, não sermos glossolálicos (crermos no dom de línguas), como forma de oração que não traga benefícios para o corpo da congregação, como Paulo sugeriu em “Aos Coríntios”. Porém, se nos chamamos servos do Deus vivo, somos sim todos pentecostais, pois em pentecostes que a igreja fora formada, sendo também ali que os apóstolos receberam seu chamado, sendo cobertos pela unção do Espírito e enviados para fora. Devemos ter em mente que os dons espirituais devem ser usados para a edificação de todo o corpo cristão. Vou mais além; o sangue de Cristo nos faz reformados, pois devemos ter o ideal de vivermos uma vida cristã sem a influência do mundanismo em nossas vidas, como pregavam os reformadores. Também somos episcopais e presbiterianos, pois precisamos de pessoas com o dom de governança, dado pelo Espírito de Deus. Também devemos ser metodistas, pois devemos acreditar no evangelismo, como método maior de desenvolvermos os dons do Espírito dado a todos nós. Também devemos ser batistas, pois o batismo universal que vem de Deus é único, e nos separa das coisas mundanas. Devemos crer também em um Deus que nos cura e nos livra de todos os males, nos dando prosperidade, curando nossas feridas no corpo e na alma, da forma como os neopentecostais crêem. Devemos crer num Deus que nos cura, nos liberta e que atua em nossas vidas ,através do seu Espírito. b) Os dons do Espírito. A respeito da glossolalia e dos demais dons, sugiro que as igrejas devam dar estudos mais detalhados sobre esse tema. Vemos hoje que a cristandade como um todo, tem tido um falso ensinamento sobre esse dom. Uns o consideram como o maior dos dons. Outros os acham desnecessários. Porém vemos que uma coisa é comum em todos: existe hoje uma grande falta de conhecimento da palavra no meio evangélico (como já foi citado na pesquisa realizada). Vemos que isso tem trazido sobre o povo de Deus, uma enorme doença espiritual,

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fruto da falta de conhecimento das escrituras. Vivemos em uma época que, pela falta de conhecimento, muitas pessoas do meio evangélico tem tido um falso entendimento da palavra, o que tem gerado igrejas doentes, tomadas por heresias. Vemos também que essa falta de conhecimento tem trazido divisão em meio ao povo de Deus, onde vemos o surgimento de grupos sectários, contrários uns aos outros, trazendo morte e destruição em meio a igreja, tirando o foco da visão de corpo de Cristo que devemos ter. c) A visão de igreja universal e única: Assim, sugiro a igreja de Cristo que, quando for estudar a respeito dos dons espirituais, devemos, antes de tudo, ter em mente que as igrejas fundadas pelos apóstolos tinham visões completamente diferentes entre si, sobre o uso desses dons. De maneira nenhuma, a igreja de Corinto fora instruída a menosprezar o dom de línguas, em detrimento de outros dons, assim como também nada consta nas escrituras que Efésios, Tiatira, Filipo, Colosso, Tessalônica, ou quaisquer uma das igrejas, quer fundada por Paulo, Pedro, ou outro apóstolo fora instruída a isso. Mas vemos sim que existe uma normatização sobre o uso adequado desses dons. Vemos também que, embora todas essas igrejas citadas, tivessem doutrinas diferentes entre si, havia uma visão clara de corpo de Cristo entre as mesmas, o que promovia união entre as mesmas. Vejo que é necessário hoje, que as igrejas ensinem seus membros de uma forma adequada e imparcial, instruindo os mesmos de que os dons espirituais são manifestados de diferentes formas entre as igrejas e até mesmo entre os membros da mesma denominação. Em outras palavras, devemos ensinar que cada igreja tem o seu chamado especifico, cada membro tem o seu dom especifico. Sendo assim, fico com o ensinamento da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 12;7 a 11, que diz:
mas a manifestação do ensino é dada a cada um para o que for útil. Por que a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria, e a outro, pelo mesmo Espírito , a ciência, e a outro a fé, e a outro o dom de cura , e a outro a operação de maravilhas, e a outro o de profecia, e a outro o dom de discernir espíritos, e a outro variedade de línguas, e a outro interpretação de línguas, mas um só e o mesmo Espírito opera todas as coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.

Aqui vemos que Paulo nos ensina que cada um de nós temos nosso chamado. Não somos mais santos ou usados do que outros, pelo fato de falarmos ou não em línguas estranhas. Também não devemos privar nossas igrejas desse dom. Devemos ter em nossas mentes que o Espírito Santo nos concede esses dons para que sejamos reais representantes de Cristo. Somos chamados para curar, somos chamados para ser agentes da libertação. O

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mesmo Espírito que está em meio a santíssima trindade, deve estar também , em nosso meio. 6.2 Recomendações da Futura Pesquisa Para finalizar esse trabalho, gostaria de deixar algumas instruções para as igrejas: - em primeiro lugar, ao estudarmos os dons do espírito, sugiro a essas que façam um estudo detalhado sobre as ações do mesmo, tanto no Novo Testamento, como no Antigo Testamento, a fim de que a membresia entenda que o mesmo Espírito que agiu em Atos dos Apóstolos, também agiu no AT, desde a criação. - em segundo lugar, quando forem estudar sobre o dom de línguas, que ensinassem também aos seus membros que todo culto deve ter ordem e que a membresia seja instruída sobre a forma adequada do uso de desse dom. O que quero dizer é que esse dom deve sim ser usado em nossas igrejas, porém com entendimento do que mesmo significa, segundo as escrituras (para isso, sugiro o estudo feito sobre as diferenças entre glossolalia e xenolalia nesse capítulo), levando o crente a entender essas diferenças para que, em meio ao povo de Deus, não haja espaço para o surgimento de falsos dons, abrindo espaço para a carnalidade, trazendo letargia sobre o povo, mas sim que somos chamados a agir segundo a ação do Espírito. - em terceiro lugar; que todos os dons devem ser usados para o crescimento do corpo de Cristo. - em quarto lugar; Paulo fala em Efésios 4:12-13 que devemos todos caminhar em unidade de Corpo, amando e nos suportando uns aos outros, lembrando-nos que somos parte da mesma igreja de Cristo. Somos chamados para fora, mas somos chamados para sermos um em Cristo. Assim devemos ver que somos noiva de Cristo, e como noiva, cada uma de nossas características fazem parte de nossos adornos. Para finalizar, destaco a necessidade de que as igrejas instruam seus membros sobre os dons espirituais, alimentando-os na palavra, admoestando-os com relação as normas bíblicas estabelecidas pelas escrituras, não de modo que não façam uso dos mesmos, mas que creiam nos mesmos, porém de uma forma em que não sejam levados por vento de doutrina, mas sim de uma forma disciplinada, para que gerem cura e crescimento em meio a igreja. BIBLIOGRAFIA

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