L ibras

O caractere , usado para simbolizar o conceito de “para todos” em problemas de lógica, é empregado nesta obra para representar o conjunto de disciplinas que trabalham com os temas referentes à prática pedagógica e à inclusão nos ambientes escolares.

L ibras

-. SP. 2. Língua Brasileira de Sinais. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.Curitiba: Ibpex. ISBN 978-85-7838-316-9 1. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro.610/98 e punido pelo art. 2009. Universidade Luterana do Brasil .Ulbra . 09-04412 CDD-419 Índices para catálogo sistemático: 1. A edição desta obra é de responsabilidade da Editora Ibpex. 184 do Código Penal. Surdos: Língua de sinais 419 .Ulbra. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Ulbra. Língua de sinais I.Obra coletiva organizada pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Informamos que é de inteira responsabilidade das autoras a emissão de conceitos. Brasil) Libras / [organizado pela] Universidade Luterana do Brasil .

saúde e tecnologia. Assim. Cultivo do convívio social em termos de mútuo respeito e cooperação. bem como da consciência crítica da sociedade. buscando sempre o melhor em todas as suas áreas de atuação. sem perda dos valores legítimos do amor. ▪ Desenvolvimento do senso crítico e da autocrítica. Vivência e difusão dos valores e da ética cristãos. até hoje. das emoções. Desde a primeira escola. buscando permanentemente a excelência no atendimento das necessidades de formação de profissionais qualificados e empreendedores nas áreas de educação. Formação integral da pessoa humana em conformidade com a filosofia educacional luterana.pdi Ulbra 2006-2016 Plano de Desenvolvimento Institucional Mantida pela Comunidade Evangélica Luterana São Paulo (Celsp). Valores ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ Busca permanente da qualidade em educação. Fidelidade ao lema: “A Verdade Vos Libertará”. Visão Ser uma instituição de referência no ensino superior em cada localidade em que atua e estar entre as dez melhores do país. Promoção do bem-estar social por todos os meios legítimos. Foco no ser humano e na qualidade de vida em saúde e cultura. disponibiliza para acadêmicos. fundada em 1911. Foco primordial no aluno e na qualidade acadêmica. difundir e preservar o conhecimento e a cultura por meio do ensino. Informações sobre PDI – Telefone: (51) 3477-9195 – E-mail: pdi@ulbra. profissionais e toda a comunidade serviços de qualidade em todas as áreas. da pesquisa e da extensão. saúde e tecnologia. o Criador. dos sentimentos. Missão A Ulbra assume como Missão Institucional desenvolver. Preocupação permanente com a satisfação das pessoas que fazem parte do Complexo Ulbra. a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) tem uma história de conquistas.br . cuja existência se desenrola na presença de Deus. a Ulbra caracteriza-se por ser uma instituição voltada para o futuro.

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ou como o címbalo que retine. não sou nada. se não tiver amor. se não tiver amor. a ponto de transportar montanhas. mesmo que tivesse toda a fé. . Mesmo que eu tivesse o dom da profecia. sou como o bronze que soa. — Coríntios. e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência.Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos. 13: 1-2.

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Isso significa que aprender uma língua vai além do aprender o conjunto de regras que a rege. Para tanto.apresentação A língua é um fenômeno social. procuramos . Além disso. trata de temas recorrentes quando o assunto é surdez. O material que agora apresentamos foi elaborado a partir desse entendimento. aprender uma língua é mergulhar no espaço em que ela vive. Em “Anotações contextuais” traremos um pouco da história. das lutas e das conquistas dos surdos. cada capítulo está dividido em duas seções principais: Anotações contextuais e Anotações linguísticas. Não existe língua se não existirem os sujeitos da língua. foi colocado um pouco do mundo surdo e um pouco da língua que habita esse mundo. Ela só se realiza ligada histórica e culturalmente a uma comunidade de usuários. mas com consistência teórica. Em cada capítulo. De maneira breve.

aqui colocar os leitores a par dos elementos que são fundamentais para que se entenda o jeito de ser surdo e o jeito surdo de se colocar no mundo. que o contato com este livro propicie a todos mais do que a iniciação em uma nova língua: um novo modo de “olhar”. de modo que facilitasse o entendimento por parte daqueles que nunca estiveram em contato com uma língua de modalidade diferente da sua. x . mais do que nos determos em gramaticalismos excessivos. A nossa preocupação foi. procuramos descrever a Libras como língua em uso. pois. para aprofundar um pouco mais as teorias linguísticas relevantes para o aprendizado da Libras. mostrar como se constitui essa língua e as suas peculiaridades de uma maneira simples. Também usamos esta seção. Desejamos. Na seção “Anotações linguísticas”. em um ou dois capítulos. buscou-se algo que possibilitasse ao aprendente começar a se aventurar pelo mundo apaixonante e intrigante das línguas visoespaciais. Além disso. sobretudo.

s umário ( 1 ) O estatuto linguístico das línguas de sinais. 16 Anotações linguísticas.2 Anotações contextuais. 45 .2 Anotações contextuais.2 Anotações contextuais. 21 ( 2 ) Surdez: percurso histórico. 13 1.1 3. 27 2. 39 3. 30 Anotações linguísticas.1 2. 42 Anotações linguísticas. 35 ( 3 ) Caminhos de uma construção: a educação de surdos.1 1.

71 6. 49 4.1 5. 101 Anotações linguísticas. 56 ( 5 ) Surdo: identidade e cultura.2 Anotações contextuais. 74 Anotações linguísticas.1 8.1 6. 96 ( 9 ) Libras: traduzir ou interpretar?. 109 . 61 5.2 xii Anotações contextuais. 51 Anotações linguísticas. 93 Anotações linguísticas. 84 Anotações linguísticas. 104 Referências por capítulo.2 Anotações contextuais. 64 Anotações linguísticas. 68 ( 6 ) Diversidade: convívio com as/nas diferenças(?). 91 8.1 7. 81 7.2 Anotações contextuais.1 4. 87 ( 8 ) Língua em mudança: variação linguística.( 4 ) Bases teóricas e filosóficas da educação de surdos.2 Anotações contextuais. 99 9. 107 Referências.1 9. 76 ( 7 ) Inclusão.2 Anotações contextuais.

(1) o estatuto linguístico das línguas de sinais .

letramento e processos cognitivos envolvidos na aprendizagem. graduada em Direito pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). ministrou as disciplinas Currículo e Práxis de Ensino Fundamental – Séries Finais e Currículo e Práxis de Ensino Médio. Professora convidada da especialização em Educação de Surdos da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). no Centro Social Marista Mário Quintana. na região metropolitana de Porto Alegre. É fundadora e diretora do Grupo de Teatro Surdo Mãos-em-Cena. especialista em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e mestre em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). apoiando e orientando as famílias de bebês surdos (Programa de Estimulação Precoce). Tem trinta e cinco anos de Magistério. Desde 1997 ministra aulas de Língua Portuguesa. seus campos de interesse são os processos cognitivos da linguagem e a criação de um espaço teórico e metodológico próprio para a língua portuguesa como L2 para surdos. É professora de Língua Portuguesa de alunos ouvintes na Rede Municipal de Ensino e professora de Língua Portuguesa como segunda língua [L2] para alunos surdos. Como educadora e pesquisadora. Orientou monografias na área de aquisição da língua de sinais. onde desenvolve Oficinas de Letramento com alunos das séries iniciais. Especialista em Educação de Surdos. .Maria Auxiliadora Baggio é licenciada em Letras pela Faculdade de Letras e Educação de Vacaria – RS (Falev). fez seus Estudos Adicionais na Área da Surdez em 1982 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialização em Educação de Surdos pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Também leciona língua portuguesa e teatro. no município de Gravataí. junto à Unidade de Ensino Especial Concórdia – Ulbra. sendo dez anos como professora de ouvintes e vinte e cinco anos atuando na educação de surdos. para surdos. Literatura e Produção Textual para o ensino médio. Maria da Graça Casa Nova é graduada em Letras/Literatura pela Faculdade Porto-Alegrense (Fapa). Atua como voluntária no Programa Mais Educação implementado pelo governo federal junto à Rede Pública de Ensino. Trabalha no Programa de Pais do Concórdia.

Na seção “Anotações contextuais” deste capítulo. revisar alguns conceitos com a finalidade de esclarecer e desmistificar ideias relacionadas às línguas visoespaciais. procurando esclarecer alguns mitos que ainda persistem quanto ao estatuto e ao status das línguas de sinais. Em seguida. para iniciar o aprendizado da Língua Brasileira de Sinais – Libras –. entre elas a Libras. na seção de “Anotações linguísticas”. .Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) apesar dos avanços da pesquisa linguística que consolidaram o estatuto das línguas de sinais como línguas naturais. retomaremos os conceitos de linguagem e língua. linguagem natural e língua natural. é necessário. ainda são comuns inúmeros equívocos quando do primeiro contato com elas. Dessa forma. estudaremos aspectos gerais e introdutórios necessários ao aprendizado da Libras.

humano ou não-humano. não se trata apenas de definir o que é linguagem. nesse caso. anatômica. Daí pode-se falar em linguagem de programação. são decisões consensuais da sociedade e. se for convencional. nervosa e cerebral que lhes permite expressarem-se pela . as palavras possuem um sentido próprio e necessário. Já o termo língua faz referência a uma língua em particular como português. De maneira geral. mas das interpretações particulares que podem ser atribuídas a essas questões dentro de uma estrutura teórica aceita. isso porque algumas vezes existe confusão entre estes conceitos. a sociedade poderia ter escolhido outras palavras para designar as coisas. é interessante o dizer de Chaui3. a linguagem aparece como uma faculdade ou potencialidade de expressão. isto é.1 Em sentido amplo – e do ponto de vista linguístico – pode-se dizer que. Essa discussão levou. No que diz respeito a determinar o que é uma linguagem natural e uma língua natural. séculos mais tarde. por exemplo. linguagem das abelhas. Linguagem e língua A preocupação com a linguagem não se restringe a limitar um objeto de estudo para a linguística. identificados por traços culturais particulares e restritos a um determinado espaço2. Ou seja. e a língua como a materialização dessa expressão ligada a um grupo determinado de indivíduos. especialmente devido ao fato de o termo em inglês – language – poder ser traduzido tanto como linguagem quanto como língua. grego. natural ou artificial. mas implica reflexões que vão dos aparatos biológicos do homem e da base biológica da própria linguagem humana até a delimitação do papel da linguagem como distintiva da natureza humana. ou o que é uma língua. os humanos nascem com uma aparelhagem física. o termo linguagem pode ser entendido como qualquer sistema de comunicação ou de notação.1) a notações contextuais Iniciamos nosso estudo com a diferenciação entre linguagem e língua. independentemente da perspectiva teórica que fundamente os conceitos de linguagem e língua. isto é. explicitando questões relativas à natureza da linguagem: Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural 16 aos homens (existe por natureza) ou é uma convenção social? Se a linguagem for natural. à seguinte conclusão: a linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural. inglês. linguagem corporal. são arbitrárias. linguagem matemática. passando por sua função comunicativa dentro do corpo social.(1.

à Escola Estruturalista. Quanto à definição do que é uma língua natural. indubitavelmente. dentre essas propriedades podemos destacar as seguintes: 17 . ou. inventado no final do século XIX como forma de facilitar a comunicação internacional4. O segundo liga-se à investigação das propriedades inerentes a uma língua natural. aqui. passando a funcionar como se fosse algo natural. pode-se concluir que em se tratando de linguagem humana. que é transmitida de geração em geração. em outros termos. Apesar dos diferentes fundamentos teóricos que embasam as muitas definições de língua natural. propriedades essas que vão torná-la distinta de uma língua não-natural. dois pontos devem ser considerados. são fatos culturais. independentes dos sujeitos falantes que a empregam. O primeiro diz respeito ao condicionamento dessa definição a construções teóricas diversas e à área do conhecimento a qual está ancorado o estudo da língua. um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias. como algo que possui suas leis e princípios próprios. 5 Doravante considerarei uma língua como um conjunto (finito ou infinito) de sentenças. ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidade interna.palavra.7 As duas primeiras citações são clássicas da linguística e pertencem: a primeira. Assim. à Escola Gerativista. econômicas e políticas determinadas. cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de elementos. isto é. essencial dela. é possível estabelecer propriedades que são inerentes a todas as línguas naturais. É ao mesmo tempo. isto é. e a segunda. geográficas. traduzindo-se em uma capacidade de expressão e reflexão por meio de signos. e que muda – tanto estrutural como funcionalmente – com o passar do tempo. mas as línguas são convencionais. A terceira citação está ligada aos estudos culturais e aos estudos surdos. deve ser entendida como uma língua que foi criada e é utilizada por uma comunidade específica de usuários. Segundo Lyons8. As citações a seguir ilustram bem o condicionamento da conceituação de língua a uma determinada linha teórica e a uma determinada área do conhecimento: Língua não se confunde com linguagem: é somente uma parte determinada. linguagem natural é aquela que pode ser desenvolvida espontaneamente a partir do instrumental biológico e sensorial de que os seres são dotados.6 Língua natural. adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. Um exemplo de língua não-natural é o esperanto. surgem de condições históricas. Uma vez constituída uma língua.

São criadas de forma espontânea a partir da mistura de outras línguas e utilizadas como meio de comunicação entre falantes de línguas diferentes. para sua realização. há três combinações possíveis: Entrou em casa cansado. De maneira geral. Permite que se dê ordens. também chamadas de língua de contato. e não o canal oral-auditivo. São línguas improvisadas. Línguas de sinais As línguas de sinais são línguas visoespaciais. que se faça referência ao que existe e ao que não existe. Cansado entrou em casa. têm vocabulários restritos e gramáticas rudimentares. Segundo Quadros e Karnopp9. 18 ▪ São um sistema de comunicação superficial. várias concepções inadequadas surgiram quanto ao estatuto de tais línguas como sistema linguístico. ▪ Há uma falta de organização gramatical nas línguas de sinais. com conteúdo restrito. Uma construção como Em cansado casa entrou não é possível dentro do padrão da língua portuguesa. Em casa. Isso significa que ao se produzir um enunciado em português.▪ Versatilidade e flexibilidade – a língua permite a expressão de emoções e sentimentos. cansado e em. expressiva e linguisticamente inferiores ao sistema de comunicação oral. não aprendidas de forma nativa. entre essas concepções equivocadas podem ser listadas as seguintes: ▪ A língua de sinais é uma mímica incapaz de expressar conceitos abstratos. que se estabeleçam relações temporais. ▪ Padrão – diz respeito a restrições que as línguas apresentam na organização dos seus elementos. entrou cansado. a. bem como quanto ao entendimento de suas características. Elas se apresentam em uma modalidade diferente das línguas orais. ▪ Criatividade/produtividade – é a possibilidade que todos os sistemas linguísticos dão aos usuários de compreender um número indefinido de enunciados sem conhecê-los anteriormente. ▪ Arbitrariedade – está relacionada à falta de conexão entre forma e significado. ▪ Existe uma única língua de sinais que é universal e usada por todas as pessoas surdas. sendo elas um pidgin[a] sem estrutura própria. sendo estética. Como tradicionalmente a língua foi associada à fala. a combinação das palavras nas frases é restrita. . entrou. por exemplo. por exemplo. Isso quer dizer que não existe uma conexão intrínseca obrigatória entre a palavra casa e o objeto que ela simboliza. subordinadas e inferiores às línguas orais. tendo-se as palavras casa. Assim. pois utilizam a visão e o espaço.

usuário de Libras. na educação. portanto. por exemplo. ▪ Seriam línguas do hemisfério direito [do cérebro]. Baggio10 nos relata uma experiência: Em sala de aula de Geografia. exatamente como um ouvinte brasileiro falante de português precisa aprender inglês. registra-se aumento no vocabulário denotando referentes técnicos. deverá aprender a ASL (Língua de Sinais Americana). Na medida em que as línguas de sinais garantem maior aceitação. quiser se comunicar com um surdo americano na língua deste. em um legítimo sistema linguístico. O problema foi resolvido pela utilização de um processo de “formação de palavras” trivial nas línguas do mundo. Pesquisas realizadas em várias áreas. portanto. a produzir expressões metafóricas. com léxico e estrutura próprias. Quanto à estrutura. Dessa forma. Em relação a isso. as línguas de sinais possuem gramática própria com regras específicas em todos os níveis: fonológico. Não era de conhecimento nem dos alunos. As mesmas autoras complementam que do ponto de vista psicolinguístico. nem do professor um sinal correspondente à palavra ou ao conceito. Formou-se um ”sinal composto” pelos sinais de ‘povo’ mais o sinal de “número”. não se constituindo. Nesse sentido. sem origem nas línguas orais. construir humor. mas como uma necessidade natural de comunicação entre pessoas que não utilizam o canal oral-auditivo. e com diferentes línguas de sinais. como qualquer outra língua. pelo fato de ser esse o hemisfério responsável pelo processamento de informação espacial. denotar referentes teóricos.▪ Derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. os alunos [surdos] buscavam entender o conceito de população. em especial. têm desmistificado esses equívocos. Importante salientar que. pesquisas realizadas com surdos que apresentavam lesões nos hemisférios esquerdo e direito do cérebro demonstraram que os que tinham lesão no 19 . não existe uma língua de sinais universal. expressar opiniões políticas. se um surdo brasileiro. sabe-se que tais línguas desenvolvem itens lexicais apropriados a situações em que são usados. Cada país tem sua própria língua de sinais. Os estudos mostram que tais línguas são sistemas linguísticos transmitidos de geração para geração de pessoas surdas. especialmente na linguística. como no caso das línguas oral-auditivas. especialmente em círculos escolares. morfológico e sintático. São aptas. Entretanto. Quadros e Karnopp11 complementam afirmando que: A alegação de empobrecimento lexical nas línguas de sinais surgiu a partir de uma situação sociolinguística marcada pela proibição e intolerância em relação aos sinais na sociedade e.

em outubro de 1993. isso porque suas peculiaridades. mas um traço característico dessas línguas. em oposição à arbitrariedade. A materialização dessa linguagem é feita através de línguas naturais por sua própria essência: as línguas de sinais. 2005). . os conceitos de linguagem natural e língua natural. diferentemente das primeiras pesquisas linguísticas nas quais se procurava identificar o que era igual entre as línguas faladas e as línguas de sinais. inclusive. acesse o site: <https://www. Complementando. hoje se caminha na direção de verificar as diferenças entre elas com o objetivo de enriquecer as teorias linguísticas. Ou seja. A iconicidade. Entretanto.br/ccivil_03/leis/2002/l10436. a linguagem humana não depende da modalidade das línguas. c. Vale dizer. mesmo elas sendo visoespaciais. as línguas de sinais não são menos. e pelo que foi estudado nesta seção. são diferentes. (CUXAC. nem mais que as línguas orais.htm>. Não há por que. tais como o caráter icônicob de alguns sinais (um sinal icônico é aquele em que a configuração das mãos reproduz a forma do objeto representado. mas não conseguiam processar informações linguísticas. Para ver na íntegra essa lei. A Lei nº 10.436 de 24 20 de abril de 2002c. Importante dizer que. aqueles que possuíam lesões no hemisfério esquerdo conseguiam processar informações espaciais não-linguísticas. Retomando. Além disso. Essa denominação foi estabelecida em Assembleia convocada pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis). uma vez que essa linguagem é adquirida por eles de maneira espontânea e é por meio dela que estes podem se expressar sem esforço. cujo ponto de partida da análise sejam as línguas de sinais. dessa forma.gov. por exemplo o sinal CASA [/\]) permitiriam um acesso mais direto às operações cognitivas envolvidas no processamento da linguagem. mas nem todo gesto é um sinal. Libras Libras é a língua de sinais usada pelos surdos brasileiros.hemisfério direito processavam todas as informações linguísticas das línguas de sinais. pode-se dizer que todo sinal é um gesto. uma teoria geral da linguagem. e o b. A conclusão a qual as pesquisadoras chegaram é que as línguas de sinais são processadas no centro da linguagem (localizado no hemisfério esquerdo do cérebro) como qualquer outra língua.planalto. pois. é possível concluir que: a linguagem natural dos surdos é a linguagem de sinais. que reconhece e oficializa a língua de sinais brasileira. não é um aspecto que desqualifica as línguas de sinais como línguas naturais. por meio dela que se constituírem em sujeitos com concepções próprias do mundo e da sociedade. Postula-se nesse aspecto. existirem dúvidas quanto ao estatuto linguístico das línguas de sinais.

Parágrafo único. a datilologia e o sinal pessoal. para representá-los. Para ver na íntegra esse decreto. acesse o site: <https://www. Isso porque a aquisição da língua portuguesa (oral-auditiva) pelo surdo só pode ser realizada por meio da aprendizagem formal. constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos. como o sistema de transcrição da Libras. CIDADE etc. A Libras tem status de primeira língua (L1) na comunidade surda brasileira e o português é considerado segunda língua (L2). ▪ Alguns sinais da Libras são representados utilizando-se duas ou mais palavras em língua portuguesa. (1. 21 d. em que o sistema linguístico de natureza visual-motora. Sendo assim. quando precisamos escrever Libras em português é necessário usar convenções. com estrutura gramatical própria.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/ D5626. Sistema de transcrição da Libras A Libras é uma língua de modalidade gestual-visual com características próprias em todos os níveis gramaticais. oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. 1o É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela associados. faz-se necessário apresentá-las. são usados os léxicos da língua portuguesa (LP) através de letras maiúsculas.626 de 22 de dezembro de 2005d regulamenta aquela lei e mantêm essa denominação: Art. Assim.planalto. . Esses sinais são representados pelas palavras correspondentes separadas por hífen. Exemplos: ÁRVORE.2) a notações linguísticas Nessa seção nos ocuparemos de informações básicas necessárias ao início do estudo de Libras.gov. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão.htm>.Decreto nº 5. HOMEM. Eis algumas12: ▪ Como os sinais da Libras são realizados no espaço. Essas convenções são utilizadas por pesquisadores de línguas de sinais e são encontradas em livros sobre Libras.

2p. as pessoas: 1s. Exemplos: P-E-D-R-O S-U-P-R-A-S-S-E-G-M-E-N-T-A-I-S ▪ Uma palavra soletrada com o uso do alfabeto manual pode tornar-se um sinal integrante da Libras se à soletração for incorporado um movimento da língua de sinais. localidades. Exemplos: CASA^ESTUDAR CARRO^BATER PAI^MÃE “pais” “acidente” “escola” ▪ Nome de pessoas. será o símbolo @ que substituirá a última letra da palavra escrita com letras maiúsculas. por hífen.. 2ª e 3ª pessoas do plural Exemplos: . mas é formado por dois ou mais sinais. o lugar: i = ponto próximo à 1ª pessoa j = ponto próximo à 2ª pessoa k e k = pontos próximos à 3ª pessoa e = esquerda 22 d = direita b. Exemplos: AMIG@ FRI@ MUIT@ “fria e frio” “muita e muito” “amiga e amigo” ▪ Os verbos que se referem à lugar ou a pessoas gramaticais e movimento direcionado serão representados pela palavra correspondente com uma letra em subscrito. 3s = 1ª. objetos e outras palavras quaisquer que não tenham um sinal são representadas através da datilologia (soletração do alfabeto manual) e transcritas pela palavra separada. que indicará: a.Exemplos: NÃO-PODER. 2d. Exemplos: N-U-N-C-A. 2ª e 3ª pessoas do singular 1d. 2s. Esse sinal será representado pela soletração. 2ª e 3ª pessoas do dual 1p. ▪ Não há desinências para gênero (masculino e feminino) em Libras. ▪ Quando um sinal é composto. isto é. N-U-M “nunca”. AINDA-NÃO. 3d = 1ª. dá ideia de uma única coisa. 3p = 1ª. letra por letra. é representado por duas ou mais palavras da língua portuguesa separadas pelo símbolo ^. MEIO-DIA. NÃO-TER etc. ou parte da soletração do sinal em itálico. O sinal para representar a palavra da língua portuguesa que possui essas marcas.

nomes próprios de pessoas ou lugares. sempre que for apresentada a um surdo. de tempos em tempos. o português. A língua de sinais. lugares diversos. assim como o inglês. o francês e outras línguas. não está morta. Pode haver uma marca de plural pela repetição do sinal ou alongamento do movimento.1s ENTREGAR 2s 2s DAR 3p kd ANDAR ke “Eu entrego para você. O ato de “dar um sinal” a uma pessoa recebe o nome de batismo. objetos. sentimentos e tudo o mais pode ter um sinal. além de cansativo e monótono. mas um sistema auxiliar utilizado para facilitar a comunicação. ou seja. Importante salientar que o alfabeto manual não é parte da Libras. O léxico de Libras são os sinais. Uma conversação jamais poderá ser mantida usando-se somente o alfabeto manual. Tem a finalidade de soletrar palavras que ainda não possuem sinal em língua de sinais. Observe na próxima página o alfabeto manual. . Este sinal. Se não existe sinal correspondente a determinada palavra ou conceito. seria impraticável. na medida em que vai se interando do significado ou entendendo o conceito. geralmente dado por um surdo. geralmente. esta pessoa soletrará seu nome através da datilologia e apresentará o seu sinal. gera um sinal que passará a fazer parte do “vocabulário” da Libras. pois.” ▪ Não há desinência para plural na Libras. que será representada por uma cruz no lado direito acima da palavra que representa o sinal: Exemplos: MULHER + ÁRVORE + “muitas mulheres” “muitas árvores” Datilologia Datilologia é um sistema com configurações de mão que representam cada letra do alfabeto da língua portuguesa. países. Pessoas. Possuidora de um sinal próprio. novos sinais aparecem. As palavras de uma língua oral são os sinais nas línguas de sinais. a partir daí. obedecendo aos padrões estruturais da língua. gírias são criadas ou passam a fazer parte da língua padrão. ou que o soletrador não conhece. cidades. realiza-se uma pequena pausa entre uma e outra ou move-se a mão do lado direito para o esquerdo como se estivesse passando para o lado a primeira palavra para dar espaço para soletrar a segunda.” “Andar da direita (d) para a esquerda (e). por exemplo.” “Você deu para eles/elas. o surdo. 23 O sinal pessoal Cada pessoa pode ter seu sinal em Libras. Quando se utiliza a datilologia para soletrar duas ou mais palavras. que são usados nessa língua como as palavras são usadas nas línguas orais auditivas.

Alfabeto manual A B C Ç D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Vista frontal Vista lateral .Figura 1 .etapa 2 Ilustração: Renan Itsuo Moriya Y Z .etapa 1 Vista lateral .

R. Por exemplo. Exemplos: ▪ M-I-C-H-E-L-E Sinal: configuração de mão em M. acrescido ou não da letra inicial do seu nome. Linguagem e linguística: uma introdução. Indicações culturais Para saber mais sobre linguagem e língua. é necessária uma observação final. e descritas as principais características das línguas naturais. gesto ou cacoete da pessoa. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. KARNOPP. ) p onto final Estabelecidas as diferenças entre linguagem e língua. ela cortou os cabelos e alisou-os. Uma vez batizada. 1981. mais complexa ou mais simples. Rio de Janeiro: Zahar.pode ser uma representação de uma característica da pessoa ou de algum traço físico. ▪ A-N-D-R-É Sinal: dedo indicador e polegar afastados sobre a orelha. e sobre a língua brasileira de sinais. então o sinal dele é o dedo indicador apontando o olho e. deslizando de cima da cabeça até a altura dos ombros em movimentos ondulados (Michele tem cabelos longos e ondulados). em seguida. não é costume a pessoa trocar o seu sinal. QUADROS. 25 .. mesmo que aquilo que motivou o sinal (o referente) tenha mudado. B. entre elas as línguas de sinais. J. ▪ Marco tem os olhos azuis. os outros dedos fechados (André tem orelhas grandes). mais bonita ou mais feia. Do ponto de vista linguístico. L. a execução do sinal “azul”. Com o passar dos anos. cada qual com suas peculiaridades. Michele foi batizada com o seu sinal por causa de seus cabelos longos e ondulados. o que existem são línguas diferentes. não existe língua melhor ou pior. 2004. atividade. recomendamos as obras a seguir: LYONS. ( . linguagem natural e língua natural. mas o seu sinal permaneceu o mesmo. M. Porto Alegre: Artmed. Importante que se retome o que antes já foi falado: “a linguagem humana independe da modalidade das línguas”13.

1981. 2. p.atividades 1.” (LYONS. teça um breve comentário sobre as afirma- ções a seguir: a. Caso não conheça. Todo sinal é um gesto. em frente ao espelho. escolha e exercite mais dez palavras quaisquer em Libras. Se você conhece alguma pessoa que já tenha sido batizada. b. ressaltando os conceitos-chaves. sem dúvida faríamos referência a este sistema de comunicação como sendo uma língua. mas nem todo gesto é um sinal. com todas as outras características distintivas de uma linguagem. Considerando o que aprendeu. 26 . tente imaginar como seria o seu sinal pessoal. mas que nunca se realizasse no meio falado. 28) 3. Portanto não se deve colocar ênfase excessiva na prioridade biológica da fala. “Se descobríssemos uma sociedade que usasse um sistema de comunica- ção gestual ou escrito. descreva o sinal dessa pessoa. 4. todo o alfabeto manual e pesquise. Exercite. Esquematize o conteúdo teórico do capítulo.

(2) s urdez: percurso histórico .

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social e cultural. Sendo a língua um marcaram a construção dos significados de surdo e surdez ao longo história. permitirá o entendimento das lutas travadas pelos surdos na busca de uma identidade. do reconhecimento de sua língua e da valorização de sua cultura.Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) c onhecer uma nova língua significa mais do que produto histórico. seu estudo nos remete ao outro. . a suas conquistas. além de enriquecer o estudo da Libras. a suas lutas. a suas experiências. Percorrer os principais fatos que apropriar-se de um novo instrumento de comunicação.

Com a entrada do século xviii. valorizando a cientificidade. defendendo a ideia de que este era uma pessoa como qualquer outra e como tal também precisava de Deus. tomamos conhecimento de fatos históricos referentes à linguagem. filosóficos e religiosos de cada época. Na esteira desse pensamento. a Igreja considera a surdez um castigo e o surdo um indivíduo impossibilitado de receber a salvação. a surdez era. Roma negava direitos civis aos surdos que não conseguiam falar. e se este não possuía tal capacidade não conseguia sequer raciocinar. Legalmente. durante a Idade Média. Em Esparta os surdos eram jogados do alto dos rochedos. Na Antiguidade. seguindo os ideais políticos. O assunto será explanado de maneira breve. só poderiam atuar assistidos por um curador. condição necessária para a 30 imortalidade da alma. encarada como castigo. no mais das vezes. o Iluminismo. e o surdo considerado louco. Sem poder falar. com a intenção de que o leitor aprofunde seu conhecimento sobre a seção por meio da pesquisa. Os gauleses os sacrificavam ao deus Teutates por ocasião da Festa do Agárico.2 Segundo Sá3. apresentamos alguns desses fatos: o filósofo Aristóteles entendia que a linguagem (fala) atribuía ao homem a condição de humano. ocorreu um movimento histórico conhecido como El Gran Encierro onde foram confinados todos os improdutivos que .1) a notações contextuais Esta seção terá como foco os temas: Breve histórico da surdez.”1 Em nossa vida profissional.(2. sendo que o primeiro desses registros é atribuído a Moisés. ao longo da história. No entanto. O advento do Cristianismo elevou a significação da surdez e do surdo. não poderia receber os Sacramentos. A surdez era eliminada com a morte ou com o abandono: “Na Antiguidade Chinesa os surdos eram lançados ao mar. tratou de isolar a anormalidade com o intuito de reabilitá-la ou curá-la. Em Atenas eram rejeitados e abandonados nas praças públicas ou nos campos. uma vez que eram considerados incapazes de gerir seus atos. O congresso de Milão e Os movimentos surdos. Nesse período. Breve histórico da surdez Os conceitos de surdez e de surdo construíram-se e modificaram-se. anormal ou enfeitiçado. Com base nessas informações e das presentes nas referências utilizadas para a construção desse livro. Os surdos são referidos nos mais antigos registros históricos do Antigo Testamento. surge o movimento iluminista onde nasceu a construção científica da surdez.

que não suportava pensar nas almas dos surdos-mudos vivendo e morrendo sem absolvição. privadas do Catecismo. aprende a língua usada por eles e passa a instruí-los numa pequena escola a qual veio a crescer até adquirir fama internacional. o que desencadeia revoluções. O que muda a história. as práticas das pessoas comuns. O abade francês. No confinamento eram forçados e treinados para trabalhar como mão de obra barata. miseráveis. formando a população carcerária que temos até hoje. Isso aconteceu em decorrência do trabalho do padre francês Charles-Michel de l’Epée. a partir de um encontro com crianças e jovens surdos das ruas de Paris. É só a partir dessa data que surgem informações sobre os surdos em situações educacionais que privilegiam o uso da língua de sinais e a presença de professores surdos na educação de surdos. catalogados como delinquentes pela justiça. possibilitando a criação de inúmeras escolas para surdos. O método de l’Epée disseminou-se na Europa e nos Estados Unidos. E os considerados improdutivos dentre eles os surdos. os surdos. Esse internamento massivo dos classificados como incapacitados teve um princípio de socialização que num segundo momento foi se transformando em finalidade corretiva. Esse movimento originou-se da necessidade de dar uma solução a grande massa de desocupados que não se adaptava a indústria manufatureira. a luta pelo direito de utilizar a língua de sinais. o Abbé de l’Epée. Os que se negavam eram perseguidos e punidos. inversamente. entre eles. mas com respeito. é em parte da decorrência de sua humildade – o fato de que ele escutou os surdos – e em parte de uma ideia filosófica e linguística muito em voga na ocasião. principalmente. Sacks6 expressa a importância de l’Epée: Mas não são (de um modo geral) as ideias dos filósofos que mudam a realidade: também não são. é o encontro das duas coisas.eram compostos por vagabundos. originando o Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris (primeira escola de surdos do mundo)5. a da linguagem universal. loucos. a resposta está relacionada com a vocação do Abade. Entre essas escolas merece destaque a escola para surdos 31 . Uma mente superior – a do Abade de l’Epée – tinha de encontrar um costume humilde – a linguagem de sinais dos surdos pobres de Paris – para possibilitar uma transformação extraordinária. Se indagarmos por que esse encontro não ocorrera antes. retardados mentais e. foram classificados como incapacitados e criaram-se instituições para atendê-los. como o speceium que Leibnz sonhou. das Escrituras e da Palavra de Deus. A escola fundada por l’Epée é considerada o marco da formação das comunidades surdas e da luta pelos direitos de cidadania do surdo.4 A história moderna dos surdos e da surdez tem como marco o ano de 1755. Assim de l’Epée considerou a linguagem de sinais não com desdém.

A única oposição clara feita ao . fundou o Instituto Nacional dos Surdos-Mudos. cujo primeiro presidente foi Edward Miner Gallaudet.fundada em 1817. na Alemanha. em Portugal. Pedro II. No Brasil. Acreditava-se que o uso de gestos e sinais desviasse o surdo da aprendizagem da língua oral. o propósito da educação do surdo deveria ser ensinar a falar. que era a mais importante do ponto de vista social. todos os participantes. A culminância desse processo foi a realização do Congresso de Milão em 1880. em 1857. votaram por aclamação a aprovação do uso exclusivo e absoluto da metodologia oralista e a proscri32 ção da linguagem de sinais. Em 1857. Ou seja. nasceu a Universidade de Gallaudet. filho de Thomas. A escola criada pelos dois utilizava a língua gestual americana conjugada com o inglês na modalidade escrita. especialmente na Europa e na América Latina. as correntes de tendências políticas marcadas pela intolerância com as minorias e simpáticas aos fundamentos da eugenia começaram a disseminar a filosofia oralista. a convite de D. por Thomas Hopkins Gallaudet – educador ouvinte – e Laurente Clerc – surdo francês. Organizado por uma maioria oralista. Entre estes educadores destacaram-se Pereira. para os pedagogos oralistas. em sua maioria europeus e ouvintes. os ideais do abade chegaram pelas mãos de Hernest Huet. outros renomados educadores defendiam o método oral. e Samuel Heinicke. teve com principal resultado o banimento da língua de sinais e a eleição da metodologia oral como exclusiva para a educação dos surdos: Com exceção da delegação americana (cinco membros) e de um professor britânico. considerando o uso das línguas de sinais prejudicial para o progresso dos surdos na aquisição da fala. Importante salientar que a filosofia e os métodos oralistas contam com adeptos até hoje. Heinicke é considerado o fundador do oralismo e defendia a ideia de que o pensamento só se torna possível por meio da linguagem oral. As resoluções do congresso (que era uma instância de prestígio e merecia ser seguida) foram determinantes no mundo todo. nos Estados Unidos. As decisões tomadas no Congresso de Milão levaram a que a linguagem gestual fosse praticamente banida como forma de comunicação a ser utilizada por pessoas surdas no trabalho educacional. Por volta de 1870. professor francês que. Esse Congresso é considerado um marco histórico devido à completa mudança que trouxe a respeito da surdez e da educação dos surdos mundialmente. O Congresso de Milão No final do século dezoito começam a aparecer divergências entre os pedagogos a respeito do método mais adequado para a educação dos surdos. Enquanto os adeptos do método de l’Epée defendiam o uso da língua de sinais.

Nem ajuda a clarear um alcance maior de estratégias colocadas pelos indivíduos lidando com a exclusão e as muitas faces da opressão em suas rotinas. Os movimentos surdos Apesar da proibição do uso de sinais nas escolas. a surdez passa. No Brasil. é reconhecido que essa virada em direção à busca exclusiva da oralização trouxe inúmeros prejuízos para a educação e para a articulação política e social dos surdos. criada em 1987. mas como uma pessoa. as quais se ocupam de buscar o espaço educacional. mal surdo [sic] – que pouco faz para ajudar os indivíduos em suas vidas diárias. que deve ser eliminada. Com esse novo posicionamento. Além disso. ela agora serve para silenciar o alcance total das experiências dos s/Surdos. social e político do surdo. uma grande parte criada e dirigida por surdos. recrudesceu o surgimento de associações e federações. a dicotomia de ‘s/S’ está tão cruelmente composta que. Os termos Surdo e Surdez grafados com “s” maiúsculo são usados por alguns pesquisadores e teóricos da área como referência a um grupo linguístico e cultural. b. as línguas de sinais – nessa época eram consideradas mais como uma espécie de pantomima ou código gesticular do que propriamente línguas – foram reabilitadas a partir das pesquisas do linguista William Stokoe. Segundo Wrigley (1996. inúmeros linguistas e pesquisadores de outras áreas contribuíram para que o surdo não fosse mais visto como portador de uma patologia de ordem médica. a distinção Surdo/surdo é amplamente usada pela maioria dos escritores do campo.oralismo foi apresentada por Gallaudet que. e a Confederação Brasileira de Surdos. que iniciou estudos sobre a Língua de Sinais Americana (ASL). 54). há que se concentrar em “entender o Surdo[a]. então. embora inicialmente útil. Na década de 1960. Mas adverte: “É um dualismo rígido – bom Surdo. p. reportando-se aos sucessos obtidos por seus alunos.7 Após o Congresso de Milão. possuem maior representatividade a Feneis. desaparece a figura do professor surdo e termina a convivência pacífica entre a linguagem falada e a linguagem gestual na educação dos surdos. sua língua (a língua de sinais).” (Tradução livre das autoras). discordava dos argumentos apresentados. os surdos continuaram a usar sua língua nos seus espaços de convivência. Depois dele. a ser considerada uma marca que repercute nas relações sociais e no desenvolvimento afetivo e cognitivo dessa pessoa. sua cultura e não apenas os aspectos biológicos ligados à Surdez[b]”. Em termos simples. No entanto. desenvolvendo nos Estados Unidos um trabalho baseado nos sinais metódicos do abade De l’Epée. 33 a. pesquisas nas áreas dos estudos culturais e dos estudos surdos procuram lançar os alicerces teóricos para o reconhecimento político da surdez como diferença. Segundo Sacks8. . fundada em 2004.

educadores e principalmente das comunidades surdas organizadas. muitos surdos continuam à margem do mercado de trabalho. (grifo nosso) Mesmo diante dos inegáveis avanços conseguidos devido ao interesse de acadêmicos. acima citada. a posição do surdo. alguns precisam conformar-se em viver 34 da Previdência Social e os que estão inseridos dificilmente ascendem a postos mais elevados no emprego. a ideia de atividades próprias. Lutar pela extinção das listas de profissão para surdos que acabam atribuindo-lhes incapacidade para certos cargos e limitando-lhes oportunidades de emprego. visto que esta expressão é utilizada. mas porque desenvolve potencialidades psicoculturais diferentes das dos ouvintes. e não a deficiência.7 milhões de pessoas. Nesse sentido. continua atual. está longe do desejável. pesquisadores. enquanto que o termo surdo está mais afeito ao marco sociocultural da surdez. . quer na questão educacional. contentando-se com empregos ‘humildes’. Sá9: Não utilizo a expressão “deficiente auditivo” numa tentativa de re-situar o conceito de surdez. ainda. no contexto médico-clínico. porque cremos que é nela que se baseia a essência psicossocial da surdez: ele (o surdo) não é diferente unicamente porque não ouve. a afirmação de Sacks. Destas. O número de surdos com formação superior ainda é ínfimo. depois das oportunidades mais amplas oferecidas em meados do século XIX – que os surdos devem ser tipógrafos ou trabalhar nos correios. Enfatizo a diferença. ou tradicionalmente desempenhadas por surdos. uma grande parte jamais teve acesso à educação e aquelas que frequentaram os bancos escolares. Passados vinte anos. citada por Klein12: “1. Essa defasagem educacional deixa reflexos no mundo do trabalho. na maioria das vezes.” Devido a esse condicionamento.Nesse sentido. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)10 indicam que a população com algum grau de surdez no Brasil é de 5. deixam a escola sem os saberes necessários à inclusão social e ao exercício da cidadania. quer no que diz respeito à inclusão social. com preferência. Sacks11 acrescenta que “ainda se considera às vezes – ou voltou a se considerar. uma vez que prevalece. sem aspirar a uma educação superior”. Emblemática a reivindicação da I Conferência Estadual dos Direitos dos Surdos no Rio Grande do Sul em 1998.

Stokoe propôs o termo quiremia para denominar as unidades dos sinais e quirologia (do grego quiro. fonologia é a parte da gramática que estuda os sons da língua – os fonemas.(2. Apesar da língua de sinais ser uma língua gestual-visual (ou espaço-visual ou ainda visoespacial). os pesquisadores continuaram utilizando os termos “fonema” e “fonologia”. Uma pequena alteração no movimento pode mudar o significado do sinal. tala). 35 . partem o “Movimento da mão (M)” e a “Locação (L)” ou “Ponto de articulação (PA)” que juntos formam o sinal. bala. As unidades mínimas são: ▪ Configuração de mão (cm) – É a forma das mãos. geralmente simétricas. A partir da configuração de mão. No entanto. Os fonemas são as unidades mínimas sonoras de uma língua capazes de estabelecer distinção de significado (por exemplo: mala. por isso. Essas formas são feitas pela mão predominante (direita para os destros e esquerda para os canhotos). existem 64 configurações de mão na língua brasileira de sinais. ▪ Não-direcionais – não acontecem deslocamentos. ▪ Bidirecionais – os movimentos são realizados por uma ou ambas as mãos em duas direções diferentes. os estudos linguísticos que já comentamos. Todos devem ser devidamente observados para que se produza o sinal de maneira adequada. que podem ser ou não do alfabeto manual. “mão”) para nomear o estudo dessas unidades. A orientação dos movimentos pode ser: ▪ Unidirecionais – os movimentos são realizados somente para uma direção. realizados por Stokoe. ▪ Multidirecionais – os movimentos acontecem em várias direções. reconheceram que elas têm suas unidades mínimas (fonemas). cala. Aspectos relevantes sobre a fonologia das línguas de sinais Segundo Infante13.2) a notações linguísticas Nesta seção estudaremos parâmetros linguísticos próprios das línguas de sinais. ▪ Movimento da mão – Os sinais podem ter ou não movimento. Segundo Felipe14. compartilham dos mesmos princípios linguísticos que as línguas orais. Os sinais que não têm movimento são chamados de sinais estáticos. ou por ambas. considerando que as línguas de sinais são línguas naturais e. o movimento e a locação. tais como a configuração de mãos.

para a esquerda. comunicam. ▪ Aspectos não-manuais (nm) – São as expressões faciais e corporais. os braços ou estar num espaço neutro à frente do sinalizador. do corpo em geral que por si só. da face. do tronco. O sinal pode tocar o rosto. de concordância. Posterioriormente aos estudos de Stokoe foram acrescentados mais dois parâmetros. Figura 2 – Unidades mínimas para a palavra desculpa CM Formato M Frente e trás PA 36 Queixo DESCULPA Ilustração: Renan Itsuo Moriya . o peito. onde é realizado o sinal. São eles: ▪ Orientação de mão (or) – Battison15 propôs a inclusão do parâmetro orientação de mão na fonologia das línguas de sinais. para cima ou para frente e para trás. de tópico entre outras.▪ Locação ou ponto de articulação – É o lugar. da cabeça. Brito16 enumerou seis tipos de orientações da palma da mão na Libras: para a direita. a cabeça. para baixo. podendo haver ou não contato com o corpo. As expressões não-manuais se referem aos movimentos dos olhos. As expressões não-manuais podem ser utilizadas para marcar sentenças interrogativas negativas. baseado nos diferentes significados que podem ocorrer numa simples mudança de direção da palma da mão na execução de determinado sinal. tomando como ponto de partida no próprio corpo. dentro de um contexto.

4. protagonistas de sua própria história. por associações. que os surdos – mesmo apoiados por familiares. há muito. Rio de Janeiro: Imago. p. de.( . construa um quadro cronológico com aqueles fatos que julgar mais relevantes. é o encontro das duas coisas. Considerando o que você conhece da realidade surda e a experiência que você tem vivenciado como aprendiz de Libras. conseguindo avanços significativos no reconhecimento de sua identidade. Para aprofundar o conhecimento dessa história. Explique e exemplifique cada unidade mínima formacional de um sinal. Navegue pela internet e colete mais dados sobre a história do surdo e a histó- ria da surdez. por estudiosos e educadores – são. SACKS. 1989. R. Em posse desses dados e a partir do conteúdo do capítulo. o que desencadeia revoluções. Vendo vozes: uma jornada pelo mundo dos surdos. 32) 3. Pesquise e faça uma lista de: a. 1989. Cultura. depois de traçar um breve histórico das lutas surdas. atividades 1. b. sua cultura e seus direitos de cidadania. escreva um pequeno texto comentando o trecho a seguir: “Mas não são (de um modo geral) as ideias dos filósofos que mudam a realidade: também não são. cinco sinais com a mesma Configuração de Mãos (CM). cinco sinais com diferentes Movimentos (M). L.” (SACKS. ) p onto final É importante que se saliente. O. Indicações culturais A história da surdez é. pois. cinco sinais realizados em diferentes Pontos de Articulação (PA). O que muda a história. da Ufam. as práticas das pessoas comuns. indicamos a leitura dos livros a seguir: SÁ. com direito ao desenvolvimento pleno. 37 . a história da luta dos surdos na busca de um espaço como sujeitos sociais. c. 2. 2002. Manaus: Ed. inversamente. Foram eles que construíram sua trajetória. poder e educação de surdos.

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(3) c aminhos de uma construção: a educação de surdos .

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Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) a trajetória da educação formal dos surdos é marcada ral. os pelo embate entre duas concepções básicas de surdez: a clínica e a sociocultumétodos educacionais filiados à visão médica da surdez tinham por meta curar o surdo. O objetivo da educação deixa de ser o desenvolvimento da fala. Aqui a utilização da língua de sinais é proibida e tida como potencial fator de atraso do desenvolvimento intelectual do aluno. por sua vez. e não da deficiência. construir sua própria percepção de mundo e conquistar a cidadania. Considerando a surdez uma incapacidade. . focam a educação do sujeito surdo na perspectiva da diferença. empregando técnicas que proporcionassem o desenvolvimento da fala. As concepções socioculturais de surdez. A língua de sinais é reconhecida como primeira língua e valorizada como a língua que permite ao sujeito surdo aprender. uma deficiência a ser sanada.

o método combinado. Sua educação realizava-se por meio da língua de sinais e a maioria dos seus professores eram surdos. A preocupação era no sentido de realmente ensinar o surdo. outros a língua de sinais e outros. assim. foi um dos primeiros a reconhecer que a surdez não afetava a capacidade de aprender. para que pudesse trabalhar e exercer sua cidadania.1 A partir do século XVIII. com a finalidade de serem considerados capazes de herdar títulos e propriedades.1) a notações contextuais Nesta seção. divergiam quanto ao método mais indicado para ser adotado no ensino de surdos. As metodologias utilizadas por esses professores eram variadas. em 1620. O abade Ponce de Leon desenvolveu um alfabeto manual e ganhou notoriedade ao educar os filhos da corte espanhola. Uns acreditavam que deveriam priorizar a língua falada. ainda. O advento de tecnologias que facilitavam a aprendizagem da fala pelo surdo e o embate entre os teóricos sobre objetivo da educação de surdos.(3. . sob a influência do método de l’Epée. da busca do desenvolvimento da fala para a formação. a partir da segunda metade do século XIX. detalharemos um pouco mais a história da educação de surdos e descreveremos como se desenvolveu a educação dos surdos no Brasil. faz com que. Girolamo Cardano e Juan Pablo Bonet. a fundação de escolas se disseminou. Segundo Fernandes2: Antes do século XIX. Para tanto. deveriam saber falar. sistematizando o alfabeto em correspondência com o alfabeto manual. estudiosos surdos e professores ouvintes da época. a educação dos surdos visava o desenvolvimento da fala. no qual afirma que o ensino deve começar pela escrita. os surdos ocupavam papéis significativos. o primeiro tratado de ensino de surdos. Retomando aspectos históricos Os primeiros surdos que tiveram acesso à educação formal foram os filhos da nobreza européia do século XVI. Com a difusão da língua de sinais e o reconhecimento de que essa era a língua dos surdos. as filosofias oralistas ganhem força. Entre os educadores dessa época destacam-se Ponce de Leon. A 42 ênfase do ensino deslocou-se. a educação de surdos avança tanto no aspecto quantitativo como no qualitativo. No entanto. ler e escrever. Girolamo Cardano era médico e educador. mas o propósito do ensino era comum: mais do que o acesso aos conhecimentos ditos escolares. Bonet publicou.

impondo-lhe a obrigação de falar. as críticas aos métodos oralistas – que não apresentaram os resultados pretendidos – e a mobilização dos movimentos surdos começam a quebrar o paradigma educacional vigente. combinam língua oral manualizada. a partir de 1911. a Federação Mundial do Surdo (WFD) rompe com a tradição oralista ao emitir a primeira Resolução sobre Língua de Sinais. como já apontamos no capítulo anterior. gestos. Aqui a prioridade não é a língua. conforme já explanamos. no dia 26 de setembro de 1857 é fundado no Rio de Janeiro o Instituto de Educação de SurdosMudos. juntamente com sinais caseiros trazidos pelos próprios alunos. atualmente Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). tendo serviços de intérpretes para a língua de sinais. História.”3 Esse modelo educacional permaneceu hegemônico durante um século. as práticas pedagógicas realizadas no Instituto utilizavam-se de um alfabeto manual e de um sistema sinalizado derivado da língua de sinais francesa. Por solicitação de Huet. mesmo que tal processo negligenciasse a carga horária prevista para o desenvolvimento do currículo. O Encontro Global de Especialistas recomendou que pessoas surdas e com grave impedimento auditivo [devem] ser reconhecidas como uma minoria linguística. de maneira geral chamadas de Comunicação Total. O currículo dispunha de aulas de Português.4 A quebra do paradigma oralista oportunizou o aparecimento de várias propostas educacionais. Pedro II. Geografia e ainda de linguagem articulada e leitura sobre os lábios. A educação de surdos no Brasil No Brasil.6 43 . No final do século XX aparece uma nova opção pedagógica.A língua de sinais perde espaço e após a realização do Congresso de Milão é banida da educação de surdos. com o direito específico de ter sua língua de sinais nativa aceita como sua primeira língua oficial e como meio de comunicação e instrução. fragmentos da língua de sinais e uso de aparelhos de amplificação sonora. com a chegada do educador francês Hernest Huet a convite de D. Seguindo a decisão de Milão. Os estudos linguísticos desenvolvidos por Stokoe a partir de 1960. a educação de surdos tem início na segunda metade do século XIX. o bilinguismo. A educação passa a priorizar a “cura ou a reabilitação do surdo.5 No início. Essas propostas. mas a comunicação. com práticas pedagógicas diversas. Em dezembro de 1987. a instituição proibiu o uso da língua de sinais optando pelo método oral puro na educação dos alunos surdos.

caberia apenas fornecer-lhes assistência e cuidados. quando possível. até essa época. e assim não sendo. os métodos utilizados na educação de surdos do Brasil seguiram a trajetória histórica determinada pelas tendências mundiais. p. o que se priorizou nas instituições educacionais dedicadas ao ensino de surdos foi a opção por métodos curativos ou emendativos. . p. da filantropia. cujo principal objetivo era o desenvolvimento da fala. a educação de surdos situar-se no âmbito da caridade. 43).” A educação comum esteve sempre associada ao direito da liberdade e da igualdade. recorro ao texto de Ozouf (1989. a partir dos estudos de Stokoe e de outros estudiosos de várias áreas – como já mencionado – a língua de sinais retorna à educação e novos paradigmas que consideram a condição bilíngue e bicultural do surdo procuram estabelecer as bases de uma educação de surdos realmente emancipatória. Tais políticas tinham como principal propósito curá-los. por um lado. Posto isso. pois é necessário ressaltar o infortúnio para adquirir a benevolência. em que analisa a Fraternidade na tríade das abstrações juntamente à liberdade e à igualdade: “Entre a liberdade e a igualdade. Daí. pois. se alguns indivíduos não se encontravam entre os eleitos por uma fatalidade e não estavam “entre os vagabundos que em todos os tempos querem mudanças e conflitos” (ARROYO. sobre a Revolução Francesa. O desenvolvimento de instrumentos político-pedagógicos suficientes para o crescimento psicossocial e para a construção de uma cidadania verdadeira passava ao largo das discussões e das ações. as políticas públicas para o setor foram. como nos explica Lacerda. à caridade que não é obtida através da luta mas de apelo. cuidar deles. Reabilitada como língua.De maneira geral. citado por Soares7: “para que deixassem de ‘representar valores negativos no seio da sociedade’”. Dessa forma. desse movimento maior. nesse sentido. Elucidativas. mais de caráter assistencialista do que propriamente educacional. não existe a 44 equivalência de estatuto. e a fraternidade. por outro. enquanto a dos surdos. que definiu a vinculação educação e cidadania. a meu ver. até 1960. para torná-los úteis para a sociedade. citado por Arroyo. 1987. A ideia do surdo como um indivíduo com direito ao desenvolvimento pleno e como sujeito social e historicamente inserido só começa a aparecer no discurso educacional brasileiro nas três últimas décadas do século XX. As duas primeiras são direitos. Além disso. e a terceira é uma obrigação moral. as reflexões de Soares8 a seguir: Creio ser possível fazer uma analogia entre o significado de povo no ideal da política republicana e o significado de normal para os eleitos para a educação. A partir dessa análise considero que a inversão de prioridades que existiu na educação de surdos e que teve como decorrência um barateamento nos aspectos considerados importantes no ensino escolar fez parte. 718).

Exemplos: ▪ CUNHADA: sinal de cunhado + sinal de mulher ▪ TIO: sinal de tio + sinal de homem. APRENDER. MENIN@. MOSTRAR. Noções sobre morfologia da língua de sinais Os sinais. Eles não se flexio- nam em pessoa e número. pronomes e numerais. b. Exemplos: DAR. Isso acontece também com adjetivos. verbos. TI@. usa-se o símbolo @ para dar a ideia de ausência.2) a notações linguísticas Nesta seção estudaremos noções de morfologia da Libras. como foi visto no Sistema de transcrição para Libras já apresentado nesse livro (AMIG@. GOSTAR.(3. são classificados como substantivos. (veja DAR no glossário do DVD). 45 Verbos De acordo com Quadros e Karnopp9. Verbos com concordância: são os verbos que se flexionam em pessoa e número – têm movimentos. BRINCAR (veja TRABALHAR e BRINCAR no glossário do DVD). Exemplos: TRABALHAR. Neste tópico. Quando se quer marcar o gênero do substantivo. Substantivo Os substantivos em Libras não apresentam flexão de gênero: não há desinência para marcar o gênero nos sinais. AVISAR. TE@. assim como as palavras nas línguas orais. Verbos simples: são os verbos sem concordância. adjetivos etc. ENTREGAR. enfocando o substantivo e o verbo. PERGUNTAR. estudaremos os substantivos e os verbos. faz-se o sinal e acrescenta-se o sinal de HOMEM e MULHER. TOD@). Isso também acontece com os adjetivos e os pronomes (ME@. RESPONDER etc. ESTUDAR. Quando o sinal que possui marca de gênero (masculino e feminino) é escrito em língua portuguesa (LP). PRIM@). os verbos em Libras estão divididos em três classes: a. neutralidade. AMAR. .

▪ Os verbos que representam fenômenos da natureza são impessoais (não têm sujeito). ▪ Alguns verbos incorporam a negação. Sendo assim. é quase impossível mencionar as lutas surdas sem mencionar a educação de surdos e vice-versa. alguns verbos possuem algumas especificidades. (veja CHOVER no glossário do DVD). São elas: ▪ Existem verbos que incorporam o objeto: não há necessidade de sinalizar o verbo e o objeto para estruturar a oração. NEVAR. Indicações culturais Os caminhos da educação de surdos ainda estão sendo construídos. sugerimos as leituras a seguir: . Exemplos: COMER.c. TROVEJAR etc. Para conhecer mais a respeito da história da educação de surdos e sobre questões atuais no debate sobre essa educação. complementado pelo movimento realizado ao produzir o sinal. Como aquela. ( . e principalmente no Brasil. parece importante salientar também 46 que a história da educação de surdos não se afasta da história da educação como um todo. ) p onto final A história da surdez e a história da educação de surdos estão diretamente ligadas. quer nas questões de inclusão social. CHEGAR. (veja BEBER-CAFÉ no glossário do DVD). GOSTAR e NÃO-GOSTAR e SABER e NÃO-SABER no glossário do DVD). Eles têm uma forma icô- nica na maneira de realizar o sinal. tem procurado caminhos que garantam uma aprendizagem mais eficaz e mais eficiente e. NÃO-GOSTAR. NÃO-SABER etc. (veja TER e NÃO-TER. Exemplos: CHOVER. tem conseguido inegáveis avanços quer nos aspectos pedagógicos. Especificidades de alguns verbos Em Libras. LAVAR etc. VIR. Para concluir. BEBER etc. Exemplos: NÃO-TER. Exemplos: IR. Verbos espaciais: estes verbos têm ação e direção. guardadas as peculiaridades próprias quando se trata de surdez. porque o complemento é incorporado pelo sinal do verbo. como pôde ser observado pela leitura dos dois últimos capítulos. (veja CHEGAR no glossário do DVD).

SOARES, M. A. L. A educação de surdos no Brasil. Campinas: Autores Associados, 1999. FERNANDES, E. (Org.). Surdez e bilinguismo. Porto Alegre: Mediação, 2005.

atividades
1. Exercite todos os sinais aprendidos. Não deixe de praticá-los, pois o exercício

sistemático evita o esquecimento.
2. Escolha cinco sinais, entre os exemplos dos capítulos, e faça a descrição da

produção desses sinais.
3. Sintetize os conteúdos das “Anotações contextuais” em forma de esquema,

salientando os aspectos que você considera mais relevantes.
4. Procure na internet textos sobre a trajetória educacional dos surdos no Brasil.

Escolha aquele texto que você considerar mais interessante e escreva uma resenha.

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b ases teóricas e filosóficas da educação de surdos

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dialeticamente. com as concepções de homem e cidadania que se construíram ao longo do tempo. Delas nos ocuparemos neste capítulo.Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) o caminho histórico da educação de surdos está imbricado.1) a notações contextuais As bases teóricas e filosóficas da educação de surdos são lançadas por três grandes correntes: o oralismo. a comunicação total e o bilinguismo. . Tais concepções encontram-se traduzidas nas três grandes correntes teóricas que têm orientado a educação de surdos. (4.

em termos médicos. leitura labial: treino para a identificação da palavra falada mediante decodificação dos movimentos orais do emissor. pode se constituir em interlocutor por meio da linguagem oral.). Há uma supervalorização do tipo e do grau de surdez constatados por meio de testes audiométricos e. Os adeptos do oralismo admitem a existência de resíduo auditivo em qualquer tipo de surdez. em que a linguagem falada só é percebida se emitida com forte intensidade (a partir da perda de 50 dB os fonemas do português não são mais percebidos). língua etc. sons ambientais e fala. desenvolvimento da fala: exercícios para a mobilidade e tonicidade dos órgãos envolvidos na fonação (lábios. é o ponto de partida para a recomendação de adotar-se o oralismo como meio mais adequado ao ensino de surdos. é necessário saber que. e enfatiza a língua oral em termos terapêuticos. mesmo não possuindo o nível de audição para receber os sons da fala. que quando bilateral e precoce pode ter como consequência a impossibilidade de desenvolver a fala. a partir desses testes. Conforme Soares1. severas (70/90 dB HL). a educação assumia mais uma conotação clínica do que pedagógica. em que não há percepção de alguns fonemas e não se verificam perturbações significativas na linguagem. 3 (grifo nosso) A proposta oralista baniu o uso de sinais na educação dos surdos e. relegou os conteúdos escolares a um segundo plano. médias (40/70 dB HL).Oralismo O Congresso de Milão. em que a voz não é percebida e a fala só pode ser desen52 volvida com o auxílio de técnicas especializadas. e profundas (acima de 90 dB HL). exercícios de respiração e relaxamento (chamados também de mecânica da fala). como já relatado nos capítulos anteriores. Oralismo ou método oral é o processo pelo qual se pretende capacitar o surdo na compreensão e na produção da linguagem oral e que parte do princípio de que o indivíduo surdo. Para esclarecer. Essa concepção fundamenta-se na recuperação da pessoa surda. procura-se reeducar a criança surda utilizando a amplificação dos sons juntamente com técnicas específicas de oralização. . inclusive na surdez profunda. a linguagem é ensinada por meio de atividades estruturais sistemáticas através de técnicas que são basicamente as seguintes: O treinamento auditivo: estimulação auditiva para reconhecimento e discriminação de ruídos. Nela. as perdas auditivas podem ser classificadas em: leves (20/40 dB HL). uma vez que tinha como principal objetivo o desenvolvimento da fala. chamada de “deficiente auditivo”.2 Aqui. mandíbula.

Dorziat6 enumera alguns desses métodos: língua falada de sinais (codificada em sinais). Enfatiza que as línguas de sinais e as línguas orais são línguas autênticas. mas símbolos complexos. segundo Quadros4. nessa época. impulsionada. A Comunicação Total é uma proposta flexível no uso de meios de comunicação oral e gestual. Consolida-se mais como filosofia do que como um método de educação. O linguista americano percebeu e comprovou que a língua de sinais atendia a todos os critérios linguísticos de uma língua genuína. seja a língua de sinais. sobretudo. equivalentes em níveis de qualidade e importância. com uma estrutura interior completa. Defende a utilização de qualquer recurso linguístico. Observou que os sinais não eram imagens. Segundo Quadros e Karnopp5. Fundamenta-se no respeito às diferenças. a partir da década de 60 do século passado. a elas foi atribuído o estatuto de línguas naturais. a partir de então. pela divulgação. Além disso.” De acordo com grande parte dos teóricos e pesquisadores. bem como o uso de aparelhos de amplificação sonora. uma vez que. A partir dessa proposta surgem diferentes métodos e sistemas de comunicação com o objetivo de favorecer a aprendizagem da língua oral. é importante salientar que pesquisas desenvolvidas em vários países quanto à questão da aquisição da língua oral dão conta de que apesar do investimento de anos de vida de uma criança surda na sua oralização. língua falada sinalizada exata (variante do sistema anterior do qual se distingue pela 53 . O estudo de maior relevância. Privilegia a comunicação e a interação e não apenas a língua (ou línguas). trabalho de desenvolvimento de pistas auditivas e leitura orofacial para facilitar a comunicação com as pessoas surdas. foi o desenvolvido por Stokoe. o uso do método oral puro trouxe como consequência a deterioração das conquistas educacionais dos sujeitos surdos e do grau de instrução alcançado por eles. Comunicação Total A Comunicação Total surgiu na esteira do fracasso da concepção oralista. de estudos sobre as línguas de sinais. sua produção oral não é compreendida por pessoas que não convivem com ela. a linguagem oral ou os códigos manuais. “ela é somente capaz de captar cerca de 20% da mensagem através da leitura labial. esses estudos foram decisivos para a reintrodução dos sinais na educação de surdos. conforme já comentamos. e em uma maneira própria de entender o surdo como pessoa e não como portador de uma patologia de ordem médica. o que em nada contribui para a inclusão social do surdo.Nesse ponto. As obras Sign language structure (1960) e Dictionary of american sign languages (1965) foram um marco de transição nos estudos das línguas de sinais.

Essa metodologia substitui ou complementa os recursos utilizados por métodos exclusivamente orais. utilizam-se marcadores de tempo. a partir da constatação de que a simples aceitação dos sinais na escola. equivalente à fala para os ouvintes. inseridos na estrutura da língua portuguesa. sem no entanto. datilologia. Isso faz com que a intenção de reconhecimento das línguas de sinais seja eliminada tanto em termos de filosofia como de implementação. gesto. No Brasil. Outra estratégia utilizada pela Comunicação Total é o uso de sinais na ordem do português. desestruturando também o português. Leva-se também em consideração que a linguagem não tem somente uma função instrumental de comunicação (entendida aqui no seu sentido estrito: o de fazer transitar uma mensagem entre interlocutores). não são suficientes para afastar as defasagens educacionais dos alunos surdos. Segundo Dorziat7. e combinação diversa de sinais. Como a maneira pela qual as pessoas se comunicam é determinada pela comunidade onde estão inseridas. é considerada inadequada por muitos teóricos. A isto se chama de português sinalizado. usar marcadores. método que envolve a combinação das duas modalidades: sinais e fala. Além disso. por exemplo. firmou-se o bimodalismo. como no português sinalizado. ou de que a mescla de língua de sinais e língua oral. associação de códigos manuais para auxiliar na discriminação e articulação de sons (configuração de mão perto do rosto. “os sinais ajustados não têm a mesma funcionalidade para os surdos. A Comunicação Total. desconsidera as 54 implicações sociais da surdez. quando mantém moldes bimodalistas. a Comunicação Total serviu mais aos pais e professores ouvintes do que aos alunos surdos.”9 Para seus críticos. Bilinguismo O bilinguismo surgiu como opção pedagógica para a educação de surdos. Utiliza-se de sinais extraídos da Libras. dando apoio à emissão de cada fonema). Como não existem na língua de sinais componentes da estrutura frasal do português (preposição. mas é fator primordial no desenvolvimento cognitivo e . o bimodalismo acaba por desconsiderar a riqueza estrutural da língua de sinais. conjunção etc. Para Quadros e Karnopp8. pantomina. são criados sinais para expressá-los. O que existe em ambos os casos é um ajuste da língua de sinais à estrutura da língua portuguesa. de número e de gênero para descrever a língua portuguesa através de sinais.reprodução exata da estrutura da língua oral).). pois além de artificializar a comunicação. Estes continuaram com defasagens tanto na leitura e na escrita como no conhecimento dos conteúdos escolares. fala.

o mais cedo possível. que o surdo possui não só uma língua própria. Além dos aspectos linguísticos. ou. este. O fazer pedagógico deve ser construído em um contexto não só bilíngue. mas também bicultural: Uma proposta de educação com bilinguismo exige aceitarmos. mas que essa língua constitui uma cultura específica que se traduz de forma visual. participação e transformações das expressões culturais presentes nas duas comunidades. diferentes de um catarinense. Não se trata de buscar semelhanças com a condição ou status de estrangeiro ao surdo e ao ouvinte. por exemplo. aceitarmos que japoneses. nos quais a língua se mostre instrumento indispensável.” (grifo nosso) De maneira geral. Por se tratar de um bilinguismo sui generis. sejam preservados. oral-auditiva – a proposta de educação bilíngue exige um compromisso sociopolítico-acadêmico que contemple a integridade e a diferença entre as 55 . Para Fernandez10: “Educar com bilinguismo é ‘cuidar’ para que através do acesso a duas línguas. sem deixarmos. se torne possível garantir que os processos naturais de desenvolvimento do indivíduo. Ou seja. por exemplo. Aceitarmos essa realidade sem preconceitos é o mesmo que aceitarmos que um baiano tem traços culturais diferentes dos de um carioca e. Esta situação nos aproxima das características culturais da comunidade de surdos. como proposta educacional. compartilhem de traços culturais pela proximidade ou necessidade social.na criação de uma concepção de mundo. que o surdo é portador de características culturais próprias. uma vez que não se lida somente com línguas diferentes. à língua brasileira de sinais e à língua portuguesa. a língua de sinais é considerada a primeira língua (L1) e a língua portuguesa segunda língua (L2). ambas respeitadas em sua integridade. está ligada a aspectos psicossocioculturais. Ou seja. mas com línguas que se realizam em modalidades diferentes – uma é visoespacial e a outra. que devem ser considerados nos processos de ensino-aprendizagem. passa pelo “reconhecimento político da surdez como diferença”13. Quadros11 afirma que “os estudos têm apontado para essa proposta como sendo a mais adequada para o ensino de crianças surdas. mas percebermos o esforço de compreensão. optar por uma proposta de educação bilíngue significa reconhecer que a educação está inserida no meio social e político de uma comunidade. Nesse contexto. todos de sermos brasileiros. No caso dos surdos brasileiros. portanto. ainda. o bilinguismo busca oportunizar o acesso a duas línguas pela criança. tendo em vista que considera a língua de sinais como língua natural e parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita”. em princípio.12 A educação bilíngue para surdos. italianos e alemães. como vemos no Brasil em relação os bairros ou colônias de imigrantes.

De maneira geral. isto é. sempre com sentido bilateral. Igualdade material. nas frases. ARRENDONDAD@. . rapidamente e sem esforço. por exemplo. 56 (4. contemplando “todas as dimensões da linguagem humana: ampliando os conhecimentos. facilitando o desenvolvimento intelectual. expressando tudo que se queira.2) a notações linguísticas Nesta seção estudaremos os adjetivos e o sistema pronominal da Libras. Para Quadros14. Alguns adjetivos são icônicos. aqui. Esse é o caso dos sinais dos adjetivos. que busque a igualdade material a qual tem como fundamento o respeito e a atenção às diferenças.”15 A comunicação assim entendida e assim desenvolvida visa a uma convivência baseada em uma diversidade ativa. nas duas comunidades. como no português. Adjetivos Os adjetivos em Libras também não possuem marca para gênero e para número. a formação de intérpretes de língua de sinais e a formação de professores de língua portuguesa como segunda língua para surdos. entre outros (veja LISTRADO e ARREDONDADO no glossário do DVD). a educação bilíngue deve ser “linguística e culturalmente aditiva”. a formação de professores bilíngues. Isso significa uma integração que não vise apenas inserir o surdo na comunidade ouvinte. Entende-se que. sempre estarão na forma neutra. somente dessa forma. deve ser entendida como aquela baseada no conceito filosófico-jurídico tomista de Justiça: tratar desigualmente os desiguais.modalidades das línguas envolvidas no processo. LISTRAD@. na realização do sinal é reproduzida pela mão a característica do referente a ser significado (retome o capítulo um e veja as diferenças entre arbitrariedade e iconicidade). a formação de professores surdos e sua presença junto ao aluno surdo. esse princípio pode ser traduzido pelo que Perelman16 e Di Napoli17 conceituam como tolerância ativa e solidariedade nas diferenças. pode-se alcançar a comunicação em todas as suas possibilidades. integrados do mesmo modo. Hoje. consequentemente. sociológica e filosoficamente. entendendo tudo que se diz. bem como estarem os ouvintes. o adjetivo aparece posposto ao substantivo a que se refere. A proposta é uma integração de dupla via entendida como a possibilidade de estar o surdo bem integrado em sua comunidade e na comunidade ouvinte.

▪ EST@ MESA NOV@ Esta mesa é nova. DIFÍCIL. apresentamos um quadro que permite visualizar com maior facilidade o que falamos até aqui sobre os pronomes pessoais. ▪ CARRO NOV@ ME@ Carro novo é meu. a configuração da mão é o numeral 2 (ou em V). ▪ Você – apontar com o dedo indicador para o receptor (pessoa com quem se fala). Quando se quer falar no dual (NÓS-2 ou VOCÊS-2). DOIDO. Vale salientar que todos os sinais de pronomes pessoais têm movimento. GORDO.Exemplos: ▪ TE@ NAMORAD@ BONIT@ Teu namorado é bonito. EXIBIDO e HUMILDE no glossário do DVD). Pronomes pessoais O sinal para as três primeiras pessoas do discurso no singular (EU. TRISTE. no trial (NÓS-3. os pronomes interrogativos. O que difere de uma pessoa para outra é a orientação da mão (Or). EDUCADO. os pronomes indefinidos e os pronomes demonstrativos fazem parte do sistema pronominal da Libras e serão o objeto de estudo deste tópico. ALTO. (Veja ALEGRE. os pronomes possessivos. Sistema pronominal Os pronomes pessoais. CALMO. BOM. CHATO. MEDROSO. 57 . FELIZ. A seguir. Para o plural a usamos a configuração de mão em “d” fazendo um movimento semicircular à frente (ou lado) do sinalizador. ▪ El@ – apontar para uma terceira pessoa que não está na conversa ou para um lugar que a represente (pessoa de quem se fala). MAGRO. EGOÍSTA. VOCÊS-3) é o numeral 3. FÁCIL. BAIXO. ▪ Eu – apontar com o dedo indicador para o seu próprio peito – o emissor (pessoa que fala). VOCÊ e EL@) é o mesmo: dedo indicador apontando. FAMOSO. PREOCUPADO. CORAJOSO. CARO. MAU. quatrial é o quatro.

Configuração de mão em “p” com o dedo médio batendo uma vez no peito num movimento semicircular (MEU PRÓPRIO) – sinal de “pra mim”. ▪ Terceira pessoa: SE@ TI@. EL@+-4. Pronomes Possessivos 58 Os pronomes possessivos também não apresentam marca de gênero. NÓS-4. “egoísta”. NÓS-TOD@. com os dedos juntos. VOCÊ+-3. El@+-2: dual. ou seja. Estabelecem relação de posse e. 2001. ele não aponta. (Veja os pronomes no singular EU. VOCÊ+-4. VOCÊ+-3: trial. por educação. Por exemplo: ▪ Primeira pessoa: ME@ AMIG@. El@ e os pronomes no plural: NÓS-2: dual. como todos os pronomes. e que. VOCÊ+-4: quatrial. Com movimentos dos olhos e da cabeça pode-se “apontar” para a pessoa sem que ela perceba. VOCÊ+-2: dual. EL@+-3. VOCÊ+ -TOD@. VOCÊ. El@+-4: quatrial. NÓS-3. NÓS-4: quatrial. El@+-TOD@. não deseja que a pessoa perceba. VOCÊ+-TOD@ EL@+-2. Na 1ª pessoa pode haver duas variações. Configuração de mão aberta. NÓS-TOD@ VOCÊ+-2. El@+-3: trial. EL@+-GRUPO. EL@+-TOD@ Fonte: Adaptado de FELIPE. . NÓS-3: trial. A estratégia usada é colocar a mão à altura do peito com o dorso voltado para o lugar onde esta pessoa se encontra e apontar com o indicador para a palma da mão. estão relacionados às pessoas do discurso.Quadro 1 – Pronomes pessoais Singular 1ª pessoa 2ª pessoa 3ª pessoa EU VOCÊ EL@ Plural NÓS-2. ▪ Segunda pessoa: TE@ NAMORAD@. Outro recurso para chamar a atenção dos outros são as expressões não-manuais. Numa conversa entre duas pessoas na qual o emissor fala sobre uma terceira que está presente. 2. batendo uma vez no peito do emissor. para expressar ME@ pode haver dois sinais: 1.

Todas as sentenças com pronomes interrogativos devem ser acompanhadas de expressões faciais interrogativas realizadas simultaneamente com os sinais. animal ou coisa (veja NINGUÉM = ACABAR. Pronomes interrogativos Os pronomes interrogativos que e quem são. SE@). dependendo do contexto. já o sinal “nenhum” (configuração de mão abertas esfregando uma na outra) é usada também para pessoa. trial. NINGUÉM = NADA e NENHUM no glossário do DVD). mas também pode ocorrer no início dela. Faz-se necessário observar o contexto em que ele está sendo usado. animal ou coisa e pode. Pronomes indefinidos Há diferentes formas para representar o mesmo pronome indefinido. já o sinal NINGUÉM/NADA (configuração de mão com o dedo polegar e indicador com o formato oval e os outros dedos estendidos. executando um movimento repetitivo para frente e para trás. 59 Pronomes demonstrativos Os pronomes demonstrativos também não possuem marcas de gênero. mão realizando um movimento balançando) é usado tanto para pessoa. As expressões faciais interrogativas são semelhantes às feitas por ouvintes quando estão indagando alguma coisa (veja QUEM e QUAL no glossário do DVD). no sentido de “quem é” ou “de quem é” é mais usado no final da frase. significar “não ter”. quatrial e plural não há um sinal próprio. O pronome interrogativo qual tem uma tendência para ocorrer no final da frase. eles estão relacionados às pessoas do discurso e representam proximidade ou distanciamento com relação à posição do emissor. O sinal apresentado para o pronome ninguém (sinal igual a ACABAR) só é usado para pessoa. usados no começo da frase. geralmente. Dependendo do contexto. ou o sinal soletrado Q-U-M. apontamos para um espaço neutro que significa a pessoa de quem se está falando e que anteriormente já havia sido citada. São utilizados os pronomes pessoais correspondentes. mas o quem. . o sinal é constituído a partir da configuração de mão em “p” com movimento em direção à pessoa com quem ou de quem se fala.Já na 2ª e 3ª pessoa (TE@. Para os pronomes possessivos no dual. Como em português. mantendo o dedo indicador em contato com o polegar em formato oval e os outros dedos fechados. o pronome “quem” pode apresentar duas formas: o sinal QUEM realizado com a configuração de mão. Se a pessoa não estiver no campo visual.

Trace um paralelo entre as três propostas metodológicas para a educação de surdos apresentadas no capítulo. 4. mas diferem destes quanto à locação e orientação do olhar (veja EST@. C. 1999. Porto Alegre: Mediação. ( . Então. Você já tem uma boa bagagem linguística em Libras e já conhece muitos nomes e verbos. recomendamos: SKLIAR. o oralismo e a Comunicação Total convivem ainda hoje nas instituições de ensino. 2. ▪ ESS@ (apontamento para o objeto perto da 2ª pessoa). ) p onto final Como fecho do capítulo é interessante anotar que. . com a prevalência da Comunicação Total. Atualidade da educação bilíngue para surdos. A partir do que foi estudado nas “Anotações contextuais”. Revise todo o repertório de sinais que você adquiriu até aqui. 2. construa pelo menos três frases usando as convenções do Sistema de Transcrição e sinalize para um colega. v.” 3. Para isso. escreva um pequeno texto comentando a afirmação: “a linguagem não tem somente uma função instrumental de comunicação. ▪ AQUEL@ (apontamento para o objeto num ponto distante). exer- cite-se em frente a um espelho. O bilinguismo é uma proposta em construção ainda não totalmente implementada mesmo naquelas escolas de surdos que se denominam bilíngues. (Org. ESS@ e AQUEL@ no glossário do DVD).Os pronomes demonstrativos têm a mesma configuração de mãos dos pronomes pessoais – de apontação –. ed. 2. quanto às propostas teóricas para a educação de surdos. ▪ EST@ (apontamento para o objeto perto da 1ª pessoa).). Indicação cultural Para saber mais sobre educação bilíngue. mas é fator primordial no desenvolvimento cognitivo e na criação de uma concepção de mundo. atividades 60 1.

(5) s urdo: identidade e cultura .

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Os termos identidade e cultura não têm. assumem acepções diferentes quando ligados a um referencial teórico específico. Já o termo cultura. no entanto. atende a critérios diferentes daqueles usados nos estudos culturais. Esses termos. no sentido de que sua definição . de maneira geral. por exemplo. Além disso. uma definição única. é entendido como o conjunto de manifestações artísticas. Isso significa que a formação do conceito de identidade na psicologia. características essas que a torna um indivíduo único entre os seus semelhantes. religiosas e comportamentais de um determinado povo. portanto. o termo identidade refere-se às características próprias de uma determinada pessoa.Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) p ara o senso comum. são termos política e ideologicamente marcados. Da mesma forma. conceituar cultura em termos filosóficos vai acarretar uma definição diferente daquela oriunda de uma conceituação sociológica.

Construindo identidade(s) As preocupações a respeito do conceito de identidade remontam à Antiguidade Grega. aproximasse da noção de unidade aristotélica. idade). Ao escolher uma profissão. permitindo uma representação a respeito de si. É na alteridade que se constrói a identidade. biografia (trajetória pessoal) atributo que os outros lhe conferem. produzida no confronto com o outro. Aqui não se trata mais de modo de ser. mas de modos de ser como se cada qual não possuísse uma identidade única. uma vez que é a relação com o outro que estabelece os critérios de semelhança e diferença que permitem a cada um encontrar o seu lugar no mundo e o seu modo de ser nesse mundo. de habilidades. as atividades desenvolvidas por ela e tudo o que possa estabelecer a separação entre o “eu” e o “outro”. a história de vida de cada pessoa.. de maneira que cada um seja único. Do ponto de vista psíquico. a identidade está ligada a um conjunto de representações que o indivíduo tem de si mesmo e que o faz diferente dos demais. pois compreende todos estes aspectos integrados – o homem como totalidade – e busca captar a singularidade do indivíduo. ou entre grupos e a sociedade. (5.1 Para a psicologia social. ela era entendida como unidade. Nesse sentido: A identidade é a síntese pessoal sobre o si-mesmo. um comportamento. Esse conjunto de representações contempla a personalidade. A maneira como a psicologia social concebe a identidade aproximasse da noção de identidade observada nos .pode emergir das relações de poder entre o indivíduo e um grupo. o indivíduo toma uma posição perante os demais.1) a notações contextuais Nesta seção. Na visão aristotélica. A identidade é uma construção que se desenvolve na dinâmica da relação com o outro. a identidade emerge dos diferentes papéis que cada um assume no convívio social. 64 No entanto. Portanto. nesse sentido. uma religião. sexo. incluindo dados pessoais (cor. Este conceito supera a compreensão do homem enquanto conjunto de papéis. entre grupos diferentes. a identidade seria a essência do que era único. ocuparemo-nos em relatar de forma breve os principais pressupostos teóricos que embasam os conceitos de identidade surda e de cultura surda. pronto. de valores. Ou seja. atitudes etc. a identidade não é algo dado.

é importante salientar que uma concepção essencialista de identidade cultural – que a princípio serve para definir os grupos – pode adquirir. O que diferencia uma abordagem da outra é que. enquanto que nos estudos culturais cuida-se das identidades coletivas. o que acarreta a discriminação e o preconceito. mas permite que a formação da identidade cultural esteja aberta para outros sentidos adicionais e complementares. a identidade cultural deve ser entendida como um posicionamento e não como uma essência. ela desempenha um papel unificador e de resistência e está ligado ao surgimento de movimentos sociais ou de expressões diversas (gênero. entre outros. pois. um caráter sectário que mais do que fazer avançar as lutas favorece a criação de imagens estereotipadas desse grupo. que envolve o compartilhamento de patrimônios comuns como a língua. se levada a posições extremas. mas compreende uma relação entre o essencialismo necessário à sobrevivência das comunidades imaginadas e o construtivismo que compreende a identidade cultural através da diferença e em uma relação dialógica e não definitiva. o sentido de diferença não está completo. não estabelece binarismos. na psicologia a perspectiva de análise é a da identidade pessoal.estudos culturais. concebendo uma cultura compartilhada em um quadro de referências fixas3. étnicas. Segundo Rosa4. não se encerra em posições fixas. Nesse sentido.” A formação da identidade ou das identidades culturais ocorre. a identidade cultural encontra nas diferenças a categoria central de sua constituição. o trabalho. quando assume caráter essencialista. as representações sobre a surdez e o surdo eram marcadas pelo discurso da . porque Esta compreensão das identidades culturais como um posicionamento é então um caminho que não encerra o conceito em uma concepção. Aqui.5 Nesse sentido. A identidade cultural. estabelecendo-se a partir de um sentimento de pertença. na relação entre o sujeito – ou os sujeitos – e o grupo. mesmo tratando-se de aspectos psicossociais. culturalmente formadas. as artes. agrega sujeitos que congregam uma mesma identificação. Oliveira2 define identidade cultural como “um sistema de representação das relações entre indivíduos e grupos. por exemplo) que necessitam dessas referências como condição de existência. as festas. os esportes. raça. Até então. Já por uma perspectiva construtivista. 65 Identidade surda As discussões a respeito da construção de uma identidade surda surgem a partir do reconhecimento da língua de sinais como língua natural. a religião.

gênero. um fator determinante de inclusão ou exclusão do grupo. condição física e em outras fontes de ‘diferença’”. um contexto multicultural em um mundo globalizado onde a diferença é revestida de um caráter construtivista desligado de referências fixas e aberta a significações complementares. o grau de perda auditiva não é. Segundo Behares6. . há um conjunto muito complexo de sentimentos. essas concepções de surdez apóiam-se em um caráter marcadamente essencialista de definição de identidade surda. cultura ou perspectiva surda (ou Surda) unificadora. classe. Os indivíduos ouvintes que integram a comunidade de surdos participam dos definidores socioculturais da surdez.7 (grifo nosso) 66 A visão sociocultural de surdez desloca a discussão do discurso sobre a deficiência para o reconhecimento da surdez como diferença. pela incapacidade e referido como surdo-mudo ou/e deficiente auditivo. crenças e traços culturais que permitem a coesão grupal e a elaboração de objetivos alternativos de vida. enquanto que muitos surdos alheios à comunidade não os possuem. podendo incluir. no qual o uso da língua de sinais é a referência fixa para a construção de uma identidade surda unificadora. pois os surdos também se enquadram nas categorias de raça.” Dessa forma. em nenhuma comunidade de surdos conhecida. além do mais. Considera-se. Interessante anotar que ainda hoje pessoas referem-se ao surdo com o termo pejorativo “mudinho”. “Não é saudável alegar uma identidade. portanto. a construção da identidade surda insere-se nas discussões mais amplas sobre identidade ou identidades. A identidade do surdo. “O ser surdo” não supõe a existência de uma identidade surda única e essencial a ser revelada a partir de alguns traços comuns e universais. de fato. complementa Skliar9. Contemporaneamente. nacionalidade. Essas comunidades se constituem com indivíduos que possuem os mais variados graus de perda auditiva. muitos autores passam a definir os surdos como um grupo linguístico e culturalmente minoritário. o deficit de audição deixa de se constituir em referência que permite aos surdos se agruparem e constituirem uma comunidade. era atribuída socialmente mais pela inexistência da falaa do que pelo deficit de audição. alguns indivíduos ouvintes. Em seu nascedouro. Segundo Sá8. Nesse sentido. As representações sobre a. nesse sentido.deficiência. aqui. A partir dos anos 1960. o símbolo de inserção das pessoas surdas em uma comunidade própria é o uso da língua de sinais e “por trás desse símbolo. O sujeito surdo era identificado pela falta. desde surdos profundos até hipoacústicos levíssimos.

nos sujeitos. essencial ou permanente. ético. Essa construção ocorre no encontro do sujeito com o grupo. Cultura Surda Cultura é um termo de múltiplas acepções ligadas às diferentes áreas do conhecimento que se ocupam em conceituá-la. de compreender e de explicar. ou a linguagem gestual caseira de surdos que não tem acesso à língua). linguístico. representações e/ou produções. como ela diferencia os grupos. A identidade é móvel. O patrimônio cultural das comunidades surdas se traduz em uma experiência visual e se constitui de expressões linguísticas (a língua de sinais. estática. Essa nova marca cultural transporta para uma sensação a cultura grupal. dinâmica. pode ser considerada como o conjunto de crenças básicas e formas de experiência em costumes. descentrada. as culturas prescrevem instituições e padrões de comportamento para guiar os seres humanos pelos caminhos considerados corretos dentro de uma determinada sociedade. estético. cultural etc. ou com os grupos nos quais a experiência visual da surdez. Strobel12 afirma que a cultura é uma ferramenta de transformação. De maneira geral. O sujeito contemporâneo não possui uma identidade fixa.”10. centrada. seja no campo intelectual. de percepção a forma de ver diferente. Assim entendida. Segundo Walzer11. no entanto. Filiando-se ao projeto dos estudos culturais. de fazer. não tem como referencial único e fixo o uso da língua de sinais. estabelecendo na diversidade a sua base conceitual. cognitivo. mas de vida social constitutiva de jeitos de ser. como um dos atributos constitutivos da diferença.as identidades mudam com o passar do tempo. ou das identidades surdas. A cultura surda se constrói e se define em um contexto de pluralismo que se distância de uma maneira única e hegemônica de conceber cultura. a luta pelo reconhecimento oficial da 67 . formada e transformada continuamente em relação às formas através das quais é representada nos diferentes sistemas culturais. nos momentos históricos. não mais de homogeneidade. no espaço geográfico. normas e características de comportamento de um povo. Neste sentido é necessário ver a comunidade surda de uma forma ostensivamente plural. ou de um determinado grupo. éticas (o entendimento político da surdez como diferença. a construção da identidade surda. possa envolver todo o tipo de “significações. ou seja. como nos explica o mesmo autor. no que faz emergir a “diferença”. nos diferentes grupos culturais.

que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. a cultura surda traduz e é traduzida pelas representações e produções através das quais o sujeito surdo se vê. ▪ AMANHÃ (EU) IR CASA ANA. Ou seja. as identidades surdas como posicionamento e modo de ser no mundo. ▪ ANTEONTEM MAMÃE COMPRAR CARRO. como em português. tais como as campainhas nas escolas de surdos. Advérbios de tempo Alguns advérbios marcam. .2) a notações linguísticas Nesta seção debruçaremo-nos sobre o estudo dos advérbios. explicitando as circunstâncias em que esse processo acontece. os verbos – quando transcritos para o português – apresentam-se não flexionados (infinitivo). nas frases. para concluir essa seção sobre a cultura surda. utilizamos as palavras de Strobel13: Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de se torná-lo acessível e habitável ajustando-os com as suas percepções visuais. despertadores com vibração. Exemplos: ▪ HOJE (EU) VIAJAR SÃO PAULO. Isto significa que abrange a língua. os instrumentos luminosos. vê. Podem se referir também a um adjetivo ou a outro advérbio. anteontem) ou no futuro (amanhã). literatura surda. entende e transforma o mundo. se no passado (ontem.língua de sinais. estéticas (teatro surdo. arte visual produzida pelos surdos) e materiais (o telefone de surdos [TDD – Telephone Device for the Deaf ]. 68 Advérbios Em Libras. as crenças. não há marca de gênero e número para o advérbio. agora). O advérbio exerce a função de caracterizar o processo verbal. por exemplo). entre outros). em que tempo está ocorrendo a ação: se no presente (hoje. as ideias. (5. os costumes e os hábitos de povo surdo. Dessa forma. Nesse sentido.

Indicações culturais Para saber mais sobre o assunto. recomendamos as leituras a seguir: BAUMAN. Rio de Janeiro: J. Atualidade da educação bilíngue para surdos. Para finalizar. Zahar. Outros advérbios são: ▪ N-U-N-C-A ou N-U-N sinal soletrado (veja no glossário do DVD). p. Advérbios de lugar Os sinais para os advérbios de lugar AQUI. PASSADO ou FUTURO. dando ideia de “muito”. ESS@ e AQUEL@. 2. 1999.Os advérbios. O sinal para MESMO possui configuração de mão igual. ▪ SEMPRE (no sentido de continuar): configuração de mão em V(2) com deslocamento para frente. 131-147. L. respectivamente (rever os pronomes demonstrativos). ) p onto final Neste capítulo aprendemos sobre a identidade e a cultura surda. pode-se usar os sinais HOJE. AÍ. (veja BONIT@ e BONIT@ MUITO no glossário do DVD). aparecem no início da frase. Florianópolis: Ed. 69 ( . “muito alegre” etc. BEHARES. “alegre”. In: SKLIAR. e nas “Anotações linguísticas” aprendemos a aplicação dos advérbios de tempo. E.). Z. Línguas e identificações: as crianças surdas entre o “sim” e o “não”. só que não há deslocamento da mão (veja no glossário do DVD). 2008. “calmamente”. Porto Alegre: Mediação. lugar e modo em Libras. v. mas podem também aparecer no final. Advérbios de modo A maioria desses advérbios pode ser representados através de expressões não-manuais. Vida líquida. é importante ressaltar que a temática desenvolvida na seção “Anotações contextuais” deste capítulo costuma gerar polêmica entre os teóricos da área. . K. geralmente. ou através de uma pequena mudança no movimento do sinal. 2007. C. e LÁ são idênticos aos sinais dos pronomes demonstrativos EST@. Caso não haja na frase o advérbio para marcar o tempo. STROBEL. As imagens do outro sobre a cultura surda. 2. “pouco”. “depressa”. (Org. ed. da UFSC.

4. 70 3. As identidades. uma volatilidade das identidades que se inscrevem em uma outra lógica: da lógica da identidade para a lógica da identificação. as múltiplas e flutuantes identidades em processo contínuo de construção. Sinalize para outra pessoa algumas frases que contenham advérbios. . Após a leitura desses textos e o seu confronto com o estudado no capítulo.atividades 1. A diversidade cultural que o mundo apresenta hoje. Relacione o trecho a seguir com o conteúdo teórico do capítulo e depois escreva um pequeno comentário. 2. Pesquise na internet pelo menos dois textos que desenvolvam os temas iden- tidade e cultura surda. das parcialidades e das diferenças. mutabilidade e fluidez da identificação. Treine os sinais apresentados no repertório do capítulo. à impermanência. a defesa do fragmentário. que eram definitivas. Fonte: OLIVEIRA. Da estabilidade e segurança garantidas pelas identidades rígidas. como corolário. trouxeram. 2009. produza um texto sintético a partir do seguinte tema: a importância do grupo cultural na formação da identidade surda. tornaram-se temporárias.

(6) d iversidade: convívio com as/nas diferenças(?) .

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O uso dos dois termos como sinônimos. .Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) a s discussões sobre diversidade e diferença são recorrentes tanto no campo de implementação de políticas públicas referentes à inclusão. como no discurso teórico dos mais variados campos do conhecimento. à igualdade de oportunidades e à acessibilidade. na construção desses discursos. leva frequentemente a distorções que tornam ainda mais complexa uma discussão que por si só não tem se apresentado fácil.

em que seus indivíduos possuem características culturais heterogêneas que. da busca da igualdade das minorias. pode remeter ao significado de individualidade. de multiplicidade. suas expressões culturais não conseguirão ser produzidas. Diversidade e diferença: significando os termos O termo diversidade abriga uma variedade de conceitos que se estendem pelos mais diversos campos do conhecimento. No dizer de Bauman2. na psicologia liga-se à ideia de heterogeneidade. o que empobreceria o diverso mundo das trocas. de maneira breve. na área da antropologia cultural remete à alteridade e à multipicidade de costumes. pois estão refletidas nos documentos internacionais. na área do pensamento humano à diversidade filosófica. em conjunto. de comportamentos e de crenças. o que alguns autores entendem por conviver na diversidade.(6. Segundo Serfert1: 74 O conceito de diversidade cultural. procuraremos entender as distinções presentes na significação de diferença e diversidade e expor. Sob esse aspecto. possui duas linhas inseparáveis. e como exemplo. que é motivo de discussão global. das experiências. Já o conceito de diferença está relacionado a questões de identidade. Ambas precisam ser garantidas. “Pergunte a quem quiser o que significa ser um indivíduo. será semelhante: ser um indivíduo significa ser diferente de todos os outros. e na área das relações internacionais. e a resposta. dos indivíduos. feita através de suas políticas públicas. venha ela de um filósofo ou de uma pessoa que nunca se preocupou em saber ou nunca ouviu falar do que os filósofos vivem. da democracia cultural. de variedade. A segunda está inserida no contexto mundial das trocas de bens e serviços culturais e busca um intercâmbio equilibrado entre os países.1) a notações contextuais Nesta seção. o que há em comum nas várias acepções do termo são as ideias de pluralidade.” . ser original. cuja preocupação é a manutenção dos seus direitos. Independentemente do campo de conhecimento que se ocupe com questões relativas à diversidade. pode-se colocar que: na área da biologia diz respeito à biodiversidade. Do ponto de vista pessoal. pois sem a manutenção da identidade cultural de um povo. à ideia de ser único. no contexto atual. a manifestação da diversidade está imbricada na concepção de multiculturalismo. constroem uma identidade nacional. dos locais. A primeira refere-se ao contexto da diversidade dentro de uma sociedade específica.

Mais do que a tolerância. evoluir por si mesmo. nem de conversão. neste sentido. Fato de que o corpo social toma consciência e em virtude do qual procura criar mecanismos adaptativos que favoreçam a inclusão. o que não é suficiente para o reconhecimento político da diferença.] As diferenças são sempre diferenças. não é uma tática de persuasão. O oposto da tão almejada igualdade é a desigualdade. da tolerância para com o outro. isto é. Assim posta. “Adaptar-se. não como resignação pela existência de outros pontos de vista.”3 As diferenças na diversidade O discurso da diversidade tem realizado esforços no sentido de criar uma cultura de aceitação do outro com frequentes apelos à tolerância.. da aceitação. um ser com fim próprio. A diversidade parte do reconhecimento. em uma perspectiva multicultural. como uma nova maneira de normalizar os diferentes. levando o diálogo intercultural a um nível mais profundo: o reconhecimento. ou a um e ao outro. de algo que cedo ou tarde voltará à normalidade. impróprio. a diversidade pode se revestir. a partir da qual todos devem se mirar. segundo alguns autores. relação em que cada um identifica no outro um fim. Nesse contexto.” Enfim. Ou seja. 75 . Klein5 afirma que “Diversidade remete a uma norma ’transparente’ construída na sociedade hospedeira. é necessário o diálogo e a intencionalidade das ações para transpor a barreira do multiculturalismo e criar um espaço intercultural. o ato de colocar-se no lugar do outro. de semelhança. A relação intercultural.” Para Jian6. No entanto. alguém hospeda tolerantemente o outro em seu espaço. A empatia completa a compreensão. o conceito de diferença pode parecer constituir-se em oposição ao conceito de igualdade. pode-se “afirmar que diferença não é o contrário de igualdade. É uma diversidade que propõe elementos de reflexão que permitem ao outro. não devendo ser entendidas como um estado não desejável. mas como reconhecimento de sua legitimidade e com boa vontade de entendê-los em suas razões. significa limitar os danos sobre si e sobre os outros”4. a mera tolerância com o outro pode constituir-se em uma atitude passiva. De acordo com Di Napoli7. no seu próprio modo de ver e compreender as coisas. sociais e políticas. em se tratando de reconhecer as diferenças como construções históricas.Assim entendido. o trâmite entre a aceitação e a compreensão de diferenças – sejam pessoais. sejam culturais – exige uma postura de empatia. as diferenças e a diversidade apresentam-se como um fato para a sociedade. O reconhecimento tem base no respeito e na reciprocidade. assim concebida. “a tolerância deve ser empregada em um sentido positivo ativo.. [.

76 Numerais ordinais Os numerais ordinais do primeiro (1º) até o nono (9º) têm as mesmas formas dos cardinais. Os ordinais do primeiro (1º) ao quarto (4º) têm movimentos para cima e para baixo. valor monetário etc. Há. idade. logo depois. enquanto os do quinto (5º) ao nono (9º) movimentam-se para os lados. na Libras também existem formas diferentes para apresentar cada tipo de numeral. usa-se o sinal do numeral correspondente ao valor e. É necessária a observação do contexto em que o numeral aparece: se indica ordem. No caso de centavos. Há também quem faça o numeral e soletre M-I-L (veja valores em reais no glossário do DVD). os outros não. incorpora-se o sinal da vírgula mais o numeral correspondente aos centavos e a configuração de mão em “C” com movimento para os lados. . as formas são idênticas. Valores monetários Na utilização dos numerais para valores monetários de um até nove reais. Numerais cardinais Há formas diferentes para sinalizar quantidades e cardinais até o numeral 10. após o numeral e o sinal de REAL. A partir do 11. ainda. horas. Numerais Assim como na língua portuguesa. ou seja. quantidade. o sinal soletrado R-L (real) ou R-S (reais).(6. quem sinaliza o R executando um movimento de um lado para o outro.2) a notações linguísticas Esta seção se ocupará agora do estudo dos numerais. para o numeral cardinal e para o ordinal. basta juntar os sinais dos cardinais que formam o outro número. incorpora-se o sinal VÍRGULA ou PONTO. mas com uma diferença: os ordinais possuem movimentos. medida. Não se pode utilizar a mesma configuração de mão para a quantidade. Para valores que envolvam a quantia mil. cardinais e ordinais são realizados de forma idêntica. para representar real ou reais indistintamente. A partir do dez.

. 20. 30. a mão acaba rotacionada 180 graus. 15. com a mesma mão. 1 seguido de dois zeros. e com um movimento semi-circular da mão. com a mesma mão. com a mesma mão 1000 Inicialmente o dedo indicador aponta para cima. 100 e 1000) 11 15 20 1 seguido de 1. 1 seguido de 5. O movimento do braço e pulso é mínimo. 2 seguido de 0. Figura 4 – Sinais dos números cardinais (11. 30 100 Ilustrações: Renan Itsuo Moriya 3 seguido de 0.Figura 3 – Sinais de quantidades (de 1 a 10) 1 2 3 4 5 6 7 8 Vista frontal Vista lateral 9 10 1 seguido de 0. com a mesma mão. com a mesma mão. com a mesma mão.

Figura 5 – Sinais dos números ordinais do 1º ao 10º 1 o 2 o 3 o 4 o 5 o 6 o Vista Frontal Vista Lateral 7 o 8 o 9 o 10 o A partir do décimo. os números são representados da mesma forma que os cardinais. Ilustração: Renan Itsuo Moriya .

atividades 1. reconhecendo e respeitando as diferenças. Após as 12 horas. ( . a expressão facial para marcar a interrogação. com o dedo indicador. salientando os aspectos mais relevantes dentro do tema. concomitantemente.Que horas são? Quando se deseja sinalizar QUANT@ HORA. 2000. VIEIRA. Vencer esse desafio passa pelo diálogo intercultural que só é possível quando conhecemos o outro. sugerimos a leitura dos textos a seguir. recomeça-se a contagem de 1 hora da tarde (sinaliza-se 1 hora mais o sinal TARDE) (veja como se pergunta as horas em Libras observando no glossário do DVD). DI NAPOLI. Essa é a diversidade ativa que se busca quando se propõe uma cultura de paz. também usando expressão facial interrogativa. Ética e compreensão do outro. ) p onto final Para concluir. . usa-se a mesma configuração de mãos dos numerais para quantidade e. desenha-se um círculo em volta de todo o rosto no sentido horário. Usa-se. no sentido de quanto tempo alguma coisa vai durar. R. Sintetize o conteúdo das Anotações contextuais do capítulo. pode-se afirmar que conviver na diversidade. aponta-se para o pulso. é um desafio contínuo em um mundo globalizado. L. Rio de Janeiro: Record. Caso se queira saber as horas (tempo cronológico). B. 79 Indicações culturais As relações entre diversidade e diferença são um campo amplo no qual as posições teóricas. Para aprofundar os conhecimentos sobre o assunto. ideológicas e políticas travam um embate contínuo. 2000. Cidadania e globalização. reconhecendo nele a essência humana que nos torna iguais. Porto Alegre: Edipucrs.

3. . E somente assim. Descreva por escrito a formação dos sinais a seguir: a. Através do diálogo. 109 e. a. um diálogo produtivo pode acontecer. 12 c. nós podemos apreciar o valor de aprender com o outro em um espírito de referência mútua. 65. com respeito recíproco. Comente a citação a seguir. 2001. levando em consideração as relações surdo/ouvinte: quando os dois lados construíram confiança suficiente para olharem-se frente a frente. 23 d. até mesmo. Sinalize para um colega ou para alguém da sua família os sinais que você descreveu. 1320 80 4. Tradução livre das autoras. o encontro torna-se possível.[a] Fonte: JIAN. 5 b. p. celebrar as diferenças entre nós como uma razão para expandir nossos respectivos horizontes.2. Podemos.

(7) i nclusão .

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sociais. globalizado.Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) o debate sobre a inclusão surge na sociedade contemporânea a partir de experiências complexas oportunizadas em um mundo múltiplas facetas fazem com que esse sujeito possa ser incluído por algumas condições e excluído por outras. étnicas. Esse debate invade os espaços públicos e privados. de gênero e ainda aquelas referentes ao que se convencionou chamar de portadores de necessidades especiais. psicossociais. no qual as múltiplas incursões do sujeito em uma sociedade de . envolvendo questões econômicas.

multiplicam-se. As fronteiras da exclusão aparecem. “Esse conceito desloca a responsabilidade do desemprego da estrutura social e econômica e coloca-a sobre aquele que procura/necessita de emprego”. cultural ou social. mudam de cor. caracterizado pela competitividade e marcado pela individualidade. trabalhar ou exercer os direitos de cidadania. de nome e de linguagem.1 O espaço de inclusão/exclusão modernamente. é o corpo social constituído pela globalização. Estabelecer os limites dessa fronteira é algo bastante complicado. estar de um lado ou de outro de uma suposta fronteira. um binômio que facilmente remete à ideia de um espaço. disfarçam-se. examinaremos o binômio inclusão/exclusão do surdo no contexto social e a proposta de educação inclusiva. espelha bem a responsabilização atribuída ao indivíduo pela sua inclusão ou exclusão no espaço social chamado mercado de trabalho. Se algo ou alguém se encontra fora. . Nesse contexto. Tais relações passam a ser de responsabilidade do indivíduo a quem caberá a incumbência de desenvolver os atributos necessários para que possa estudar. desaparecem e voltam a aparecer. de corpo. Incluir quem? Incluir onde? O uso da palavra inclusão remete a dois pontos fundamentais: se existe a necessidade de incluir.1) a notações contextuais O foco desta seção neste capítulo é a inclusão no que diz respeito à pessoa surda. Como exemplos dessas ações se destacam: a luta pela criação de leis e o seu cumprimento. as relações entre inclusão e exclusão não são mais entendidas como um processo relacional. Nesse espaço.(7. Ainda segundo Klein 2. os movimentos surdos. Klein nos esclarece: 84 Inclusão/exclusão. Nesse sentido. Para tanto. existe um espaço que deve ser ocupado e que é regulado por critérios que estabelecem os atributos necessários para se estar incluído ou excluído nesse espaço. é porque algo ou alguém se encontra fora. ou pós-modernamente. entre outras. de um lugar onde se pode estar dentro ou fora. o estabelecimento de convênios que garantam vagas de trabalho para surdos e a exigência de intérpretes nos espaços de escolarização. seus limites ampliam-se. construída pelas novas lógicas nas relações de trabalho. A noção de empregabilidade. a comunidade surda e as pessoas surdas têm desenvolvido ações com a finalidade de implementar uma inclusão social dos surdos que entenda e respeite a surdez e o estar sendo surdo a partir do reconhecimento político da diferença.

procurava-se habilitar os deficientes profissionalmente (dando preferência a atividades “manuais”) com o objetivo de torná-los úteis para a sociedade. datam dessa época. nos Estados Unidos.” As discussões sobre o caráter excludente do ensino especial. Esse sentimento de pertença pode assumir múltiplas formas e enquadramentos. Esse documento retoma as resoluções da Conferência Mundial sobre Educação para Todos de 1990 e. em uma perspectiva de Direitos Humanos. escola de surdos. sempre fora do espaço da escola regular. independentemente de suas diferenças particulares. não ocorrendo uma legítima inclusão. essas experiências acabam por adquirir apenas um caráter integrativo. As primeiras experiências de inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais em classes regulares. e ministrado por especialistas. Além disso. 5 Com o advento da Declaração de Salamanca. Krebs e Freitas4. Nessas escolas. em 1994. Segundo Rodrigues. passa-se a pensar em um processo mais aprofundado de inclusão. mas não existem mecanismos efetivos para o seu real desenvolvimento cognitivo. O ensino nos moldes da educação especial é desenvolvido em instituições especializadas (escola de cegos.Da educação especial à educação inclusiva Os estudos e pesquisas de Jean Itard (1774 -1838). o jovem deve sentir que pertence à escola e a escola sentir que é responsável por ele. As primeiras experiências desse modelo educacional apresentavam um caráter marcadamente emendativo e assistencialista. “é possível perceber a inscrição histórica do discurso da educação especial nas práticas normalizadoras que reivindicavam e constituíam formas regulares de curar e reabilitar. os alunos estão presentes na sala de aula de ensino regular. A partir daí. as propostas pedagógicas eram marcadas mais por parâmetros médico-clínicos do que por parâmetros propriamente educacionais. cuja preocupação maior era curar ou diminuir as deficiências. nos moldes em que se apresentava. a princípio. a educação especial reveste-se de novo conceito e as propostas pedagógicas passam a incorporar os discursos do “educar para a diversidade” e do “respeito às diferenças”. Assim. escola de deficientes mentais). isto é. reafirma o direito de todos à educação. Sobre este aspecto os autores afirmam que Estar incluído é muito mais do que uma presença física: é um sentimento e uma prática mútua de pertença entre a escola e a criança. começaram a aparecer a partir dos anos 70 do século XX. isto é. a educação especial passa a ser entendida oficialmente como 85 . na França. aproximando-as o mais possível do padrão de normalidade estabelecido. De acordo com Lunardi3. situadas em uma rede de relações que fazia operar os mecanismos de normalização e disciplinamento. estabeleceram as bases da educação especial.

7 Ou seja. deixa de se configurar somente como um espaço próprio para a educação dos deficientes. O espaço educacional dos surdos Entendida por uns como um avanço e por outros como apenas mais uma forma de “normalização dos diferentes”. As escolas atendem as diferenças sem discriminar. questões de ordem cultural. a necessidade de cada aluno. complementar e. em alguns casos substituir os serviços educacionais comuns de modo a garantir a educação escolar e promover as potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educativas especiais.um processo educacional definido em uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais. política e econômica. Isso porque. avaliação de aprendizagem para alunos com deficiência e com necessidades educacionais especiais). no debate. Nesse sentido. assim como a necessidade do todo. segundo observação nas escolas de surdos). mais do que a preocupação com o espaço da educação. sem trabalhar à parte com alguns alunos. No que diz respeito à educação de surdos. a educação dos alunos com necessidades educacionais especiais passa a ser responsabilidade do sistema educacional como um todo e não só de uma parte dele – a educação especial. sem estabelecer regras específicas para se planejar. principalmente no caso de surdos filhos de pais ouvintes (maioria dos casos. Isso porque. entre outras. 86 na perspectiva inclusiva. suprime-se a subdivisão dos sistemas escolares em modalidades de ensino especial e de ensino regular. ou excepcionais. atividades. para avaliar (currículos. de uma maneira ampla. nesse sentido. existe quem afirme que toda a educação é “especial”. Strobel9 esclarece que . a proposta de educação inclusiva tem fomentado discussões que ultrapassam os limites da área educacional envolvendo. o contato com adultos surdos e a aquisição da língua de sinais só ocorre na escola. os embates trazem a tona as questões da construção da identidade e da aquisição da língua. mas como um conjunto de propostas e práticas educacionais que podem ser desenvolvidas em qualquer espaço. levando-se em consideração o fato de que cada aluno é um indivíduo único. organizados institucionalmente para apoiar.6 A educação especial. em todas as etapas e modalidades da educação básica.8 Além disso. deve ser considerada na construção de um projeto pedagógico. inclusive no sistema de ensino regular. para aprender. Assim pensada.

até os bichos são ouvintes e ela própria é diferente. ela dirige seu “olhar” ao seu redor na vida cotidiana. professores ouvintes. Diante disso. 87 (7.2) a notações linguísticas A introdução da sintaxe da Libras será o tema desta seção neste capítulo. uma cultura inclusora. É complexo para estas crianças surdas que não tem acesso às informações rotineiras pela barreira da comunicação. como toda a escola especial. em qualquer nível. de professores competentes na língua de sinais e a consciência de que o ensino vai se processar numa realidade bilíngue e bicultural. E como ela nunca viu um adulto surdo a quem possa ter um vínculo identificatório. No caso da surdez. as propostas educativas dessas escolas estavam centradas na procura da normalização. é de entendimento da maior parte dos profissionais que atuam na área da surdez e da quase unanimidade das comunidades surdas que. A estrutura da frase da língua portuguesa é diferente da estrutura da língua inglesa. desenvolvam. uma grande parte das escolas de surdos tem tentado implantar um projeto de educação que possibilite ao aluno adquirir os saberes universalmente acumulados através da língua de sinais e que leve em consideração a experiência visual de ser surdo. Além disso. se a opção da educação do surdo for a de frequentar uma escola de ouvintes com proposta inclusiva. Sintaxe: a estrutura das frases Todas as línguas (orais e de sinais) possuem estrutura frasal própria que obedece aos padrões da língua (reveja as “Anotações contextuais” do capítulo 1). ela pode chegar à conclusão de que vai morrer. ela vê que tem vizinhos ouvintes. crianças ouvintes. Com a evolução e o aperfeiçoamento das propostas educacionais para a educação de surdos. é necessário que as instituições de ensino regular. policiais ouvintes. balconistas ouvintes. a presença do professor surdo fornece às crianças surdas um elemento identificatório positivo. O espaço educacional do surdo tem sido. como comunidade escolar. isso significa a presença de intérpretes de Libras. médicos ouvintes. pessoas de família ouvintes. que é diferente da francesa e assim por diante. isso ocorra depois da aquisição da língua de sinais como primeira língua e da língua portuguesa como segunda. Além disso. E as línguas de sinais . a escola de surdos. na maioria das vezes. Primeiramente. já que não existem adultos surdos.a criança surda sabe que ela é diferente das outras pessoas que ouvem.

pelo fato de se estar lidando com duas línguas de estruturas diferentes. É exatamente igual. o sinal para por que e porque é o mesmo. simultaneamente. pode-se dizer que. o português sinalizado – e não na língua de sinais. Esse é um dos motivos pelo qual nenhuma tradução ou interpretação pode ser realizada literalmente. sejam sociais. Faz-se necessário observar as estruturas das línguas envolvidas. ( . ) p onto final Como fecho do capítulo. Isso significa que o sinalizador. pode no final produzir o seu discurso na língua oral sinalizada – no caso do português. No que diz respeito à inclusão do aluno surdo em escolas de ouvintes. . segundo relato de profissionais que atuam na educação.estão incluídas nesse rol. a ordem básica nas construções de frases em Libras é a ordem – como. existem outras construções como OSV. existem seis combinações que podem ser realizadas com o sujeito (S). constatou que. no entanto. Segundo Felipe11 e Brito12. os processos cognitivos envolvidos da produção da linguagem não nos permitem a produção do discurso em duas línguas ao mesmo tempo. palavra por palavra. porque. HOMEM COMPRAR CARRO –. SOV e VOS. e que em cada língua há dominância de uma. sendo que a incidência maior é a da ordem SVO. Porque/Por quê? Em Libras. uma delas será prejudicada. Levando em consideração a estruturação de frases de cada língua é que se postula que não se deve sinalizar e falar ao mesmo tempo. 88 Greemberg. os temas de inclusão. Isso se deve. principalmente. O que vai definir se o porquê é uma explicação (resposta) ou se é uma interrogação (pergunta) é o contexto da frase e as marcas da expressão não-manual (face e corpo) (veja o sinal de POR QUE no glossário do DVD). à questão das línguas diferentes e à falta de intérpretes na maioria das instituições de ensino. apesar das variações que ocorrem entre as línguas. têm cada dia mais ocupado os debates públicos e privados. de maneira geral. Além disso. sejam educacionais. as experiências até aqui realizadas têm sido insatisfatórias. o verbo (V) e o objeto (O) nas frases. citado por Quadros e Karnopp10. por exemplo. se tentar falar e sinalizar ao mesmo tempo. Experimente falar português e inglês ao mesmo tempo e veja o que acontece. mesmo as línguas sendo de modalidades diferentes.

p. Cultura surda e inclusão no mercado de trabalho. Ela disse: Oh! Desculpe esqueci-me de você e já passaram muitos números.Indicações culturais O debate em torno da inclusão social e da inclusão escolar do surdo está longe de encontrar uma síntese. S. L. 2. S. c. LOPES. identidade e diferença no campo da educação. alteridade. M. Santa Cruz do Sul: Edunisc. Cheguei ao banco e peguei a senha de prioridade. meu número é 54. Fonte: STROBEL. M. Pesquise na internet o texto referente à Declaração de Salamanca e outros docu- 89 mentos oficiais que tratem de educação para todos e educação inclusiva. p. Portadores de necessidades educacionais especiais. LUNARDI. A.. Os textos indicados a seguir fornecem elementos para aprofundar a temática do capítulo e entender melhor as questões da inclusão. avisei a moça do caixa. C. M. p. (Org. C. alteridade. b. A.. De repente. A invenção da surdez: cultura. atividades 1. 2004. KLEIN. fiquei aguardando sentada no lugar reservado e fui vendo que ela ia chamando as pessoas e nada de chegar minha vez. levantei e disse para a moça do caixa: moça. 15-32.). pois não tinha painel para ver a chamada. 83-99. Educação especial. 41. A partir da leitura dos depoimentos a seguir e da temática da inclusão desen- volvida no capítulo. 2008. A invenção da surdez: cultura. produza um texto dissertativo com o seguinte título: Da inclusão escolar a inclusão social: a situação do surdo. In: THOMA. . identidade e diferença no campo da educação. Santa Cruz do Sul: Edunisc. (Org.). In: THOMA. Educação inclusiva. M. fica aí do lado que logo te atendo. A partir deles. Educação especial: institucionalização de uma racionalidade científica. construa sua própria definição para os termos a seguir: a. 2004. LOPES.

nas Associações ou com algum surdo): prato. eu fiquei surpresa e perguntei: que trabalho? Os colegas disseram que o professor avisou verbalmente na última aula. panela. 101. eu arrumava todas as ‘desculpas’ possíveis para escapar daquela situação. 2008. Então quando me cobrava a leitura labial. apartamento e edifício. Isto também aconteceu com as provas marcadas e depois.Uma vez entrei na sala de aula e todos entregaram trabalho para o professor. 3. A direção obrigou-o a tirar o bigode. me dava mal por não ter estudado. na hora. só que ninguém se lembrou de me avisar. . inclusivamente disse uma vez que o professor tinha bigode enorme e por isso não entendia. e fiquei muito sem graça porque continuei não entendendo e para piorar. 90 Fonte: STROBEL. copo. p. ele ficou horrível com os lábios muito finos. o que ele fez. xícara. Então a partir daí desde a infância até a faculdade comecei a fingir que entendia tudo. garfo. Pesquise os seguintes sinais (na internet.

(8) l íngua em mudança: variação linguística .

.

É o que trataremos neste capítulo.Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) a variação linguística diz respeito às mudanças que ocorrem no uso da língua em relação ao espaço. ao tempo e à situação de comunicação. o que são variantes ou variedades linguísticas e como ocorre a variação linguística na Libras.1) a notações contextuais Neste tópico estudaremos os fatores determinantes da variação linguística. . Essas mudanças recebem o nome de variantes linguísticas ou variedades linguísticas. (8.

sabe que está utilizando a língua portuguesa. não existe uma variedade melhor que a outra no uso da língua. variedades linguísticas são as diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto e com um mesmo valor de verdade. Isso significa que o que determina a opção por uma ou outra variedade é a situação concreta de comunicação. na visão puramente linguística não existe relação de superioridade ou inferioridade entre elas. A língua também sofre variação no tempo.1 Além disso. as chamadas variantes de prestígio. “cacetinho” em Porto Alegre) até o sotaque (a maneira dos cariocas pronunciarem o “s” é diferente daquela usada pelos gaúchos). vários usos Tomando como exemplo a língua portuguesa. Dessa forma. a idade. Apresenta variações que vão do léxico (por exemplo. No entanto. O fator determinante na eleição de uma como variedade de prestígio em contraposição a outra como variedade estigmatizadora é o status sócio-político-econômico dos falantes que as utilizam. isto é. Qualquer falante de português. no Brasil. uso de palavras diferentes para se referir a mesma coisa: “pão-francês” em São Paulo. As variedades linguísticas podem ser classificadas em dois tipos: ▪ dialetos: são variedades que ocorrem em função do falante. apprehender/aprender) como na estrutura sintática das frases. essas variações no uso da língua não comprometem a sua unidade. A variação linguística ocorre em todos os níveis de funcionamento da lin94 guagem e é determinada pelo modo que cada um usa a língua na situação de comunicação em que se encontra. por exemplo). O português usado no Brasil no século XIX é diferente do usado atualmente. outros fatores como a região. bem como pela variedade cultural de cada comunidade linguística (influência da colonização. Do ponto de vista sociolinguístico. Variedades linguísticas Segundo Tarallo2. . e as variantes estigmatizadoras. Essas variações ocorrem tanto no vocabulário (signaes/sinais. não possuem uma hierarquia linguística entre si. e não uma suposta variedade superior. como a norma-padrão.Uma língua. ou da imigração. como o dialeto caipira. é fácil verificar que ela não é usada de maneira homogênea em todo o Brasil. da pessoa que utiliza a língua (emissor). o nível de escolaridade do falante e sua profissão são determinantes na ocorrência da variação.

estão relacionadas à configuração das mãos e/ou ao movimento e dependem do emissor que utiliza o sinal (o sinal AJUDAR é produzido de forma diferente. dependendo dos costumes da geração que o utiliza (são exemplos de variação histórica os sinais BRANCO e PAI). Por exemplo. mas com o mesmo significado. são usados sinais diferentes. 95 Variação linguística na Libras Na Libras. segundo as mesmas autoras. as variações sociais (uso determinado pela classe social do falante). grau de intimidade e grupo de comunicação em que os interlocutores realizam a situação concreta de comunicação. Segundo Strobel e Fernandes3. da mensagem e da situação de comunicação. Existem também as variações históricas. à modalidade do uso da língua (o uso da língua falada é diferente do uso da língua escrita) e à sintonia (relaciona-se com afinidade. variações regionais são as que ocorrem em relação ao lugar onde o sinal é utilizado. Fazem parte da variação dialetal as variações regionais (mudanças no uso da língua em regiões diferentes). essas variações ocorrem em decorrência de fatores regionais. Dependem do receptor. dependendo da região onde ele é utilizado (por exemplo: o sinal VERDE é diferente em São Paulo e Curitiba). . as variações etárias e as variações profissionais (jargões. Um sinal pode sofrer modificações com o passar do tempo. As variações sociais.▪ registros: variedades que ocorrem em decorrência do uso da língua. uma entrevista com a finalidade de conseguir um emprego. podendo apresentar ou não movimento). sociais e históricos. o uso da língua entre mãe e filho é diferente daquele que esta mesma mãe vai utilizar no desempenho de suas funções profissionais). Assim. gírias ligadas a uma determinada profissão. uma audiência com uma autoridade). Por exemplo. Ou seja. linguagem formal utilizada em situações de comunicação mais formais: por exemplo. ou seja. também são observadas variações. o “juridiquês” utilizado pelos profissionais da área jurídica). A variação de registro está relacionada ao grau de formalismo no uso da língua (linguagem coloquial usada no dia a dia.

no entanto. SOGR@. APRENDER. FÉRIAS. R – REUNIÃO. sendo uma mão ativa e a outra passiva (a mão dominante realiza o movimento e a outra serve de apoio). Em alguns casos. QUENTE. COMER-MAÇÃ. P – PÉ. ROSA. MEIO-DIA. TI@. . PÊNIS. PIZZA. SÁBADO. ▪ F – FAMÍLIA. a composição (sinais compostos) e o empréstimo linguístico (sinais produzidos a partir da configuração das mãos do alfabeto manual). FRUTA. ▪ ▪ ▪ ▪ L – ÁGUA. PAÍS.2) a notações linguísticas Nesta seção. RESPONSÁVEL. Exemplos: AJUDAR. RAZÃO etc. CONHECER etc. ▪ Sinais realizados com configuração de mão em letras ou numerais (movimentos e locações diferentes). FELIZ. Para representá-lo. FUTURO. esses processos são iguais aos das línguas orais. REUNIÃO. TRABALHAR. PURO etc.(8. ACUSAR. TE@. GANHAR. BRINCAR. PRIM@. Processo de formação de sinais Os sinais obedecem a processos de formação próprios. ADMIRADO. ONTEM. Exemplos: EMPREGAD@. ▪ C – CURSO. PROFESSOR. CONGRESSO etc. NÃO-TER etc. ▪ Sinais realizados pelas duas mãos com configuração de mãos idênticas com movimentos simétricos. RESPOSTA. APOIO. COMUNIDADE. LIMPAR. S – SOBRINH@. DIFERENTE. TER. REFRIGERANTE. Exemplos: AINDA-NÃO. utilizam-se as palavras com letra maiúscula separadas por um hífen. o objeto de estudo será o processo de formação dos sinais. ROXO. LARANJA etc. DEPOIS. LIMPO. DEPRESSA. Exemplos: ▪ B(4) – QUARTA-FEIRA. FOLGA etc. QUATRO. CENTRO. 96 Exemplos de processos de formação de sinais ▪ Sinal único – é aquele sinal que no processo de tradução para as línguas orais necessita de duas ou mais palavras. DÓI. como por exemplo. FILOSOFIA etc. COMEÇAR. PARAGUAI etc. PIZZA. ANTES. NAMORAR. SEMINÁRIO. FAMÍLIA. ▪ Sinais realizados com as duas mãos com configuração diferentes. CUNHAD@.

) p onto final No presente capítulo. estudamos de forma breve o que é variação linguística. BOI. CASA – ESTUDAR = ESCOLA PAI – MÃE = PAIS CASA – CARNE = AÇOUGUE HOMEM – VENDE – CARNE = AÇOUGUEIRO. COBRA etc. QUINTA-FEIRA. As línguas de sinais. Exemplos: ( . . Esse ramo da Linguística estuda as relações existentes entre língua e sociedade. é importante ressaltar que os estudos da linguística e em especial os estudos da sociolinguística contribuíram para que se pensasse nas línguas sem utilizar qualquer juízo de valor. ao trabalho OU não ter. SOFRER. FOME. Vale dizer. VACA. Se você quer saber mais sobre como os sociolinguistas realizam suas pesquisas. EXIBID@ etc. AVISAR. PERCEBER. IDADE. antes dos estudos linguísticos. F. é uma das funções do sociolinguista. Exemplos: ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪ FALTAR = ausência: faltar à escola. TARALLO.▪ ▪ V(2) – VER. ▪ Sinais diferentes com significados diferentes. LEMBRAR. AVIÃO. Para finalizar. EXPLORAR. SEMPRE. Indicação cultural A variação linguística é o objeto de estudo da sociolinguística. TRISTE. AEROPORTO. INTELIGENTE. roupas que têm uma certa harmonia quanto à cor) OU marcar um encontro. NÓS-2. PINTAR = parede OU desenho em folha de papel. CUIDAR. 1985. mas que quando traduzidos para o português são traduzidos pela mesma palavra. Y – GORD@. Esse fato gerou inúmeros mitos. Acabar com esse preconceito. 97 ▪ Sinal composto – é formado por dois ou mais sinais. estuda a “língua viva” inserida no contexto social. ▪ 5 – GRITAR. passeio etc. mas nem por isso é melhor ou pior. quer quanto às línguas de sinais. não eram consideradas línguas. CENTRO. PROCURAR etc. uma língua é diferente da outra. quer quanto às variantes menos prestigiadas das línguas orais. recomendamos a obra a seguir. que acabaram por se traduzir em preconceito linguístico. CINCO. São Paulo: Ática. SOCORRO. COMBINAR = harmonizar (por exemplo. AZAR. DESCULPA. EVITAR. A pesquisa sociolinguística. especialmente pelo fato de não se utilizarem da fala como modo de produção.

diferentes dos que foram aqui apresentados. Pesquise e liste exemplos. Pesquise na internet sinais que sofreram variação histórica. Pesquise alguns sinais que são usados na sua região. Se sim. Esquematize as anotações teóricas do capítulo. . 2. de sinais que têm a mesma forma e significados diferentes. procure entrar em contato com pessoas de outras regiões do país (usando a internet. 3. por exemplo) e veja se existe diferença entre eles. descreva e compare os 98 dois sinais. descreva os sinais e procure justificar o contexto da variação. depois.atividades 1. 4.

(9) L ibras: traduzir ou interpretar? .

.

Maria Auxiliadora Baggio Maria da Graça Casa Nova ( ) a tradução e a interpretação da Libras é função de profissionais. além de dominarem a língua.1) a notações contextuais Como fechamento do livro. sua cultura. Esses profissionais. regidos por um Código de Ética. Há também a necessidade de conhecer o mundo surdo. seus costumes. nesta seção debruçaremo-nos sobre a questão da tradução e da interpretação da Libras. Isso significa que só fluência em Libras não é suficiente para ser intérprete. devem ter conhecimento do contexto em que ela está envolvida. . as lutas travadas pelas comunidades. (9.

entre outros lugares. Não é decodificação.” A seguir. No ato de interpretar. uma vez que ambas exigem a fluência e o domínio das línguas 102 envolvidas no processo. Apesar de ser considerado um aspecto positivo. língua portuguesa e Libras. como também reescrever uma frase eventualmente mal construída. apesar de as atividades de traduzir e de interpretar guardarem afinidades. tribunais. Tudo é rápido e o intérprete tem que atuar praticamente de forma automática. servindo de elo entre duas modalidades de comunicação. não há muito tempo para pensar. tem que reproduzir. quase que simultaneamente. para Silva1. Nesse sentido. apagar. há que se entender que a simples frequência em cursos de Libras não é suficiente para ser intérprete. televisão. as palavras e as emoções do sinalizador. igrejas. as significações dos dois termos serão próximas. pode reler. O intérprete ouve e. Interpretar requer uma formação sólida. O ato de traduzir. O tradutor pode recorrer a dicionários. tudo para realizar uma boa tradução. ou um sinal para uma palavra. transmite os pensamentos. apresentamos o Código de Ética da Feneis. Além disso. literalmente. Não é possível pedir ao emissor que pare e volte o discurso. muitas pessoas começaram a se interessar e muitas se encantaram com a língua de sinais. não é um ato mecânico. . e com atuação de intérpretes em universidades. Por isso. uma conquista da comunidade surda. como também o conhecimento da sua cultura e da sua história. é necessário convívio com os surdos. a fim de elucidar o leitor sobre os requisitos necessários para exercer a profissão de intérprete em Libras. retomar. Interpretar não é transpor uma palavra para um sinal. Com o advento das leis relacionadas à Libras. “o intérprete da Língua Brasileira de Sinais é aquele que. almejando tornarem-se também intérpretes. no caso. ao contrário. Na verdade. congressos. existem peculiaridades que diferenciam uma atividade da outra e que devem ser consideradas. tomando a posição do sinalizador ou do falante.Traduzir ou interpretar? Estas são palavras de mesma acepção? Dependendo do dicionário a que se recorrer. o domínio das duas línguas envolvidas no processo. por não se constituir em um ato presencial. oportuniza ao tradutor tempo de reflexão suficiente para escolher um termo adequado. quando não se conhece essas atividades há que se pensar que elas são iguais. que as palavras são sinônimas.

mantendo a dignidade da profissão e não chamando atenção indevida sobre si mesmo. evitando interferências e opiniões próprias. as quais foram confiadas à ele. sempre transmitindo o pensamento. o intérprete deve informar à autoridade quando o nível de comunicação da pessoa surda envolvida é tal. honesto. O intérprete deve manter uma atitude imparcial durante o trans- curso da interpretação. sem adereços. a intenção e o espírito do palestrante. 2. aprovada pela Feneis. 6. 9. [sic] Em casos legais. Ele guardará informações confidenciais e não poderá trair confidências. O intérprete deve ser uma pessoa de alto caráter moral.Intérpretes: código de ética 1. 7. confidente e de equilíbrio emocional. 3. a menos que seja perguntado pelo grupo a fazê-lo. 4. O intérprete deve ser remunerado por serviços prestados e se dispor a providenciar serviços de interpretação. durante o exercício da função. terá de parafrasear de modo crasso o que se está dizendo para a pessoa surda e o que ela está dizendo à autoridade. que a interpretação literal não é possível e o intérprete. O intérprete jamais deve encorajar pessoas surdas a buscarem deci- sões legais ou outras em seu favor. 8. O intérprete deve interpretar fielmente e com o melhor da sua habili- 103 dade. então. quando necessário. 9. Ele deve lembrar os limites da sua função particular – de forma neutra – e não ir além da sua responsabilidade. especialmente em palestras técnicas. procurando assistência de outros intérpretes e/ou profissionais. O intérprete deve considerar os diversos níveis da Língua Brasileira de Sinais. em situações onde fundos não são disponíveis. O intérprete deve adotar uma conduta adequada de se vestir. 5. . O intérprete deve reconhecer seu próprio nível de competência e usar prudência em aceitar tarefas. Acordos a níveis profissionais devem ter remuneração de acordo com a tabela de cada estado. consciente.

10. O intérprete deve se esforçar para reconhecer os vários tipos de assis-

tência necessitados pelo surdo e fazer o melhor para atender as suas necessidades particulares.
11. Reconhecendo a necessidade para o seu desenvolvimento profissio-

nal, o intérprete deve se agrupar com colegas profissionais com o propósito de dividir novos conhecimentos e desenvolvimentos, procurar compreender as implicações da surdez e as necessidades par104

ticulares da pessoa surda alargando sua educação e conhecimento da vida, e desenvolver suas capacidades expressivas e receptivas em interpretação e tradução.
12. O intérprete deve procurar manter a dignidade, o respeito e a pureza

da Língua de Sinais. E também deve estar pronto para aprender e aceitar sinais novos, se isto for necessário para o entendimento.
13. O intérprete deve esclarecer o público no que diz respeito ao surdo

sempre que possível, reconhecendo que muitos equívocos (má informação) tem surgido por causa da falta de conhecimento do público na área da surdez e comunicação com o surdo.
Fonte: FEDERAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS SURDOS, 2009.

(9.2) a notações linguísticas
Esta seção, neste capítulo, se ocupará com um pouco de semântica, abordando a polissemia na Libras.

Polissemia
O mesmo sinal pode ter vários significados: a esse fenômeno dá-se o nome de polissemia. A maneira de se descobrir a que se refere a palavra ou o sinal é somente através do contexto. Por exemplo: os sinais LARANJA (fruta); LARANJA (cor) e SÁBADO são iguais. O contexto é que vai informar qual é o significado do sinal. Observe: ▪ (EU) IR CINEMA LARANJA; ou ▪ (EU) IR CINEMA SÁBADO. Veja outros exemplos de polissemia em Libras: DOCE/AÇÚCAR; NÃOPODE/OCUPADO (veja os sinais no glossário do DVD).

( . ) p onto final
Como visto nesse último capítulo, a atividade de intérprete de Libras requer um estudo aprofundado da língua e do contexto no qual a língua está inserida. Vale dizer que é uma profissão em ascensão e que o mercado é carente de profissionais nessa área.

Indicação cultural
Para saber mais a respeito da atividade de intérprete, sugerimos acessar o site da Feneis ou de outras associações de surdos. FEDERAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS SURDOS. Intérpretes. Disponível em: <http://www.feneis.com.br/page/interpretes.asp>. Acesso em: 16 mar. 2009.

105

atividades
1. Escolha dois itens do Código de Ética da Feneis e escreva um comentário

sobre eles.
2. Faça uma lista de palavras da língua portuguesa que são polissêmicas e

depois as compare com os sinais da Libras.
3. Escreva cinco frases em português, transcreva-as e depois sinalize essas

frases.
4. Treine os sinais do repertório deste capítulo disponível no glossário.

41. p. QUADROS. 2005. MONTEIRO. BRITO. KLEIN. 16. 2004. 1989. ROBINS. SACKS. 2000. . 2004. 43. SAUSSURE. KARNOPP. 2009. p. 1989. 17. QUADROS. 1981. 36. HISTÓRIA DOS SURDOS. 1970. SACKS. 2001. BAGGIO. p. 35. BATTISON. 2002. 1988. SÁ. 8. SACKS. 1995. BAKHTIN. p. 170. BAGGIO. p. 2006. MONTEIRO. 39. KARNOPP. 1974. p. 2006. QUADROS. p. 2004. 2006. p. SÁ. 2006. CHOMSKY. p. 1995. MARTINET. 2001. QUADROS. 1981. CHAUI. 32. 1995. KARNOPP. 1996. 1981. 108.r eferências por capítulo Capítulo 1 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 LYONS. SÁ. 2004. 2002. BAGGIO. 1957. 49. LYONS. KARNOPP. LYONS. 13. FELIPE. p. 31-37. 2002. 1977. LACERDA. 2002. FELIPE. p. p. 2009. BRASIL. SAUSSURE. INFANTE. p. Capítulo 2 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 PACHECO. SÁ. LYONS. 1981. 2009. 1989. p.

Capítulo 7 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 KLEIN. FLEURI. p. p. 2004. KARNOPP. 24. 2009. 2009. SOARES. p. p. KLEIN. 2005. SKLIAR. p. p. DI NAPOLI. 1999. 32. 1997. KLEIN. 2004. p. 117. 2007. p. 1999. 11. 1999. 2009. MOSQUERA. p. HUARTE. 2004. p. 2004. 2001. HALL. 2003. 2005. 6. 1997. 64. PERELMAN. 1997. 2009. 1999. TARALLO. 2005. MANTOAN. BRASIL. KREBS. 2008. 300. Capítulo 4 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 SOARES. 2000. ROSA. p. p. 2002. p. STROBEL. RODRIGUES. 2004. 88. 4. 2004. ROSA. 5. 2004. RODRIGUES. p. 2004. 11. STROBEL. 4. 27. QUADROS. 2004. 1998. FERNANDEZ. 18. 2000. p. 2009. 1996. WALZER. 30. KARNOPP. 2008. STROBEL. p. FERNANDES. SOARES. 1989. Capítulo 5 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 MICHEL. 1999. BAUMAN. FREITAS. 1999. 2004. 53. 29. 1985. DI NAPOLI. BRASIL. p. OLIVEIRA. 2005. p. 1999. 1. 2001. QUADROS. 16. DORZIAT. DORZIAT. BEHARES. p. 1997. Capítulo 9 1 SILVA. SOARES. 2008. 88. 2004. 300. 37. 7. 1999. p. SÁ. 5. 1999. 2001. 2004. SOARES. 2009. p. 1996. p. 25. STöBAUS. 2003. 2001. KARNOPP. KLEIN. KREBS. 5. 69. p. 108 . 94. QUADROS. FERNANDES. QUADROS. p. QUADROS. 1999. FERNANDEZ. SKLIAR. WRIGLEY. 84. FERNANDES. p. QUADROS. p. MICHEL. LUNARDI. p. 2003.Capítulo 3 1 2 3 4 5 6 7 8 9 SOARES. KARNOPP. p. 132. p. 2004. QUADROS. BRITO. 65. 1997. FELIPE. Capítulo 8 1 2 3 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. 2004. p. BEHARES. SKLIAR. JIAN. Capítulo 6 1 2 3 4 5 6 7 SERFERT. 1996. p. p. 40. p. 14. p. MANRIQUE. DORZIAT. FREITAS. p. 2004. 25. 1995. 10. DORZIAT. STROBEL. 1999.

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. no inverno de 2009.Esta obra foi impressa pela Reproset Indústria Gráfica. sobre offset 90g/m².

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