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A INQUISIÇÃO

EM PORTUGAL E NO BRAZIL

SUBSIDIOS

PARA A SUA HISTORIA

ANTONIO

BAIÃO

,-.,

CONSERVADOR DA TORRE DO TOMBO

ENCARREGADO DOS CARTORIOS DO SANTO OFFICIO

LISBOA

OF. TlP.- CALÇADA DO CABRA, 7

1!)06

LIVRO

I

·

A InquisiQIO no Seoulo XVI

SUMIIARIO- Importanda do assumpto. Fontes: bibl:ographia; Fr. Pedro !\lonteiro, Alexandre Her· culano e os principaes jomaes e revistas do nosso paiz; o pouco que dizern os chronistas a tal respeito e razão d'isso; os cartorios do S.to Officio. Os Inquisidores geraes. O Conselbo geral do S to Officio : seu primeiro regimento até agora inedito, exeg~se e confronto com o heapa- ohol ; privilegio~ e relaçllo dos deptttados. A carreira inquisitorial : nomençlo, accesso 1 venci- mentos e aposentaçlo dos funcionarias do S.to officio. Inquisições que houve. Inquisiçlo de Lisboa : exegése do seu primeiro regimento até agora inedito ; sua area jurisdiccional, equivoco de Herculano ; relaçlo dos seus inquisidores, deputados, promotores e qualificadores. Iadivi- duos nella denunciados. As ilhas e o Brnzil. Inquisiç4o de Coimbra: sua area jurisdicciona1; relaçlo do:S seus inquisidores, deputaclos, promotores e qualificadores ; individuas nella denun - ciados. loqaisiçlo de Evora, idem. Os culpados : evoluçlo da forma de os processar, lactas que por causa d'isso h{JUVt: ante3 do estabelecimento da Inquisiçlo. Meios de prova e penu; a pena de confiscat'o dos bens, organisaçlo do fisco ; os autos da fé. Inquisiçlo da lndia; noti- cias que d~ella temos no seculo XVI. Syntbese

e conclus~cs.

Ninguem, por mediana illustração que possua, deixará de reconhecer a excepcional 1mportancia do assumpto de que nos pretendemos oçcupar.

Antes de todas e quaesquer considerações basta que tenhamos pre- sente que foi uma instituição tres vezes secular, que viveu sempre exer- • ceodo a. sua influencia em todas as camadas sociaes, desde as mais ele- vadas ás mais intimas, desde as mais illustradas ás analphabetas e que exerceu essa influencia desde a côrte até ~ mais humilde aldeia sertaneja. Quer dizer, na sua rede de malhas bem fina.s nada lhe escapou; ella

abrangeu todo Portugal. egualou.

nenhuma outra a

A sua csphcra d' acção foi principalmente religiosa e moral, mas que

Em intensidade

e extensão

importantissimos dados nos não apresentará o seu estudo para a historia judiciaria e penal do pniz e, d'uma forma lata, para o conhecimento de

toda a actividade social portugueza comprimida pela Inquisição durante perto de 3oo annos? ! l-lo hemos vendo bem minuciosamente no decurso CJ'este trabalho.

6

·-·······-·-·----·--·

I

Fontes

Diversas foram as fontes de que lançárnos mão e de bern diverso va· lor e auctoridade historicos.

no prin1eiro quartel do seculo XVIII se reconhecia a alta necessi-

dade scientifica de proceder ao estudo historico da Inquisição

na conferencia da Academia Real da Hislot·ia Pot·tugue'{a de 5 de Ja- neiro de 1721, em que se procedeu á distribuição de trabalhos, foi encar- regado o P.• ~.,r. Pedro Monteiro, da Ordem dos Prégadores, Qualifica-

dor do Santo Officio, r.:xaminador Sinodal do arcebispado de Lisboa oriental e do Priorado do Crato, de compôr, na lingua portugucza, as c Memorias para a Historia da Inquisição•. Vejamos successivamente o resultado dos traba1hos do douto dorni-

n1cano.

Logo na conferencia de 17 de julho de 172 1 ~., Pedro ~1onteiro ex- punha o plano da sua obra que comprehendia cinco livros. No primei ro livro trataria cdo motivo que houve para se estabelecerem na Igreja de

De os seme1hantes tribunaes aos da In':luisição, do seu primeiro instituidor, fundador e Inquisidor Geral que foi S. Domin~os e que pontifice lhe déra

a jurisdicção•. • No segundo trataria da antiga Inquisição d'cste reino, de

que foram inquisidores geracs nos primeiros tempos os provinciaes da ordem dos Prégadores•. «No terceiro a renovação d'estc sancto tribunal e um catalogo de todos os Inquisidores geraes que depois houve, c tuna breve noticia de suas vidas e tudo o mais que succcdeo digno de menlo- ria•. cNo quarto daria noticia de todos os Deputados do Conselho Ge- ral, e tarnbetn dos Inquisidores e Deputados das lnquisições de Lisboa, Evora, Coi1nbra e Goa e d~ outros ministros n1ais d'este tribunaL~. «No quinto referiria todos os casos, de que pode tomar conhecimento a Inqui- sição, ns Bulias e graças que lhe conceder,u11 os Summos Pontífices, c privilegias que lhe deran1 os reis, as prerogativas c exccllcncias d'cstc tribuna), c os elogios, ~uc lhe fizeram pessoas graves c varões insign·es». E, referindo-se ao hvro segundo, acrescentava o dominicano que cer-

tamente tinha havido ant1ga Inquisição no nosso reino «ainda que seja ignorada de muitos homens doutos pela falta de escriptores antigos e que para a composição d·este livro tem dezascte bulias pontificias, que to-

ctas se passaram para os antigos Inquisidores d'estc reino e dos mais de Hcspanha, desde o governo de D. Sancho II até D. João III,. Tal foi o plano que Fr. Pedro 1\'lonteiro reeditou numa d'aqucllas

a de 7 de Se-

tembro de 1723, presidida por el-rei D. João V e com a assistcncia da sua faustosa côrte. ~tas, antes d'isso, na conferencia de 22 d'outubro de 1721, tinha elle dito que para a execução da sua obra não tinha a quern seguir, poi~ ainda ninguc1n escrevera sobre esta materiu, pelo que lhe era necessario mais tcn1po para a concluir•. ~:, junctando obra ás pa1avras,

foi apresentando uma lista de oitenta e nove deputados do Conselho Ge-

E por isso,

sessões

memora \'eis

da sala cGalé» do Paço da Ribeira,

ral,

lista

7

que se encontra publicada

no tomo I

das Memo1·ias e Docu-

mmlos da Academia Real da Historia Portugue{a·

Como· se vê, Fr. Pedro Monteiro parecia animado das melhores in- tenções de estudar e trabalhar, mas, em presença da difficnldade mate- rial do assumpto, ia explicando a demora forçada da sua conclusão; to- davia, como veremos, outras difficuldades bem mais insuperavflis se lhe haviam de deparar. Na conferencia de 12 de Maio de 1722 cumpria-lhe dar conta dos seus trabalhos, porém não se achou presente. Na de 5 de novembro apresen- tou a lista de todos os ministros da Inquisição de Lisboa e na de 4 de Março de 1723 declarou suspender os seus trabalhos quanto á lista dos ministros das Inquisições de Coimbra e Goa c para querer aprender na censura dos primeiros o como se devia haver na composição d'estes ulti· mos•. Eram os primeiros e1nbaraços que lhe surgiam; eram os primeiros escolhos que se lhe atravcssavatn no caminho. Na conferencia de 10 de junho de 1723 junctou ás noticias que tinha dado as cop.ias de duas cartas : uma do bispo de Coimbra, D. Jorge d' Almeida em resposta á que lhe escrevera D. João III e outra d'este monarcha para o bispo de Lamego, ambas sobre a Inquisição. na epoca

cm que ella se renovou e extrah1das da Torre do Tombo pelo seu an-

tigo escrivão Gaspar Alvares de Lousada {1). Não temos noticia dos trabalhos do domillicano durante 7 annos c sabemos que, na conferencia de 20 de Janeiro de 17.30 (2) elle explicou que ha tres annos lhe tinha dado un1 estupo1·, proh1bindo-lhe, por isso, os medicas o estudo. Quanto á Inquisição, dizia Fr. Pedro Monteiro, 9ue tinha composto o catalogo (sic) de todos os ministros do Conselho Ceral, e o de todos os Inquisidores, Deputados, Secretarias,· Revedores dos livros, consulto-

res c visitadores das náos ~strangeiras e acrescentava: c é materia de se-

gredo d'este tribunal o querer escrever o seu governo, por ser assim conveniente•. E, com este fundamento, achava o dominicano que lhe não restava senão escrever um catalogo dos lnquisidores Geraes, deixando assim truncado o plano que, com tantas illusóes, compozera havia nove annos! Queixou se Fr. Pedro Monteiro dos seus annos e dos seus achaques, fallou no privilcRio que tinha a sua ordem de ter um inquisidor perpetuo no Conselho Geral c, sendo portanto tambem de interesse dos domi· nicanos este estudo, contou que tinha pedido á sua ordem um ama· nuense, que ainda lhe não fôra concedido, nem recusado; todavia o que estamos a ver é o dominicano, no ultimo quartel da vida, quando o espirito está mais enft·aquecido, minado de escrupulos e com a ante-visão do inferno, exercer a censura nas suas mesmas obras e então, diz-nos o jesuita Manuel de Campos, que na conferencia de 26 de Maio de 1735 fez o seu eloaio funebre, ccahio o raio sobre a historia da Inquisição, em

( 1) Memori

da Academia Real da Historia PortugueJa, tomo III, pag. 220.

~s

'

8

--

que tinha estudado mais. Não sei que palavras ardentes achou naquella obra, que começou a escandalisar se d'ella e em vez de a dar á luz, a foi dando ao fogo. Acodiram os ami~os áquelle estrago, a que o impel- lia um mal regulado temor de Deos; urara1n·lh'o das mãos e esconderam-

lh'o\ até que socegassem os escrupulos; socegados, reconheceo o livro e emendou a obra e esta é a correcta que hoje existe•.

1735 e ainda na

conferencia de 1 de Abril de 1734 elle se queixava da dilação do ama- nuense, que fazia com que não tivesse ainda entregue dois volumes das

f.""r.

Pedro

Monteiro

falleceu

no

dia

2

de

Maio de

suas

Foram esses volumes que se publicaram apoz a sua morte c que tra- tam da Inquisição desde a sua origem na christandade até D. João III,

volumes refutados por Fr. Manoel de S. Damaso na Ver,iade elucidada

e, no dizer de Innocencio, pelo P.• José Caetano d'Aimeida nas suas Me- 111orias, de que nos não occuparemos por alheios ao nosso assumpto.

propriamente dita~isto é da Inquisição

após o reinado de D. João III, nos referimos á sua lista de 8g deputa- dos do Conselho Geral, e acrescentaremos que no tomo 3. 0 foi publicada

a sua Noticia geral das Santas l11quisiçoens deste Reino e suas colz- quistas, Ministros e officiaes de que cada huma se con1poem. Catalogo âos l11quisidor·es, Deputados, Pronzotores e Notarias que tenJ havido íza Inquisição de Evora desde a sua ,·enovação até ao presente.

No mesmo tomo sahio o calhalogo dos l11quisidores que tenJ havido na S. ltzquisição d'esta côrte, desde a sua t·enovação até o p1·ese1zte com

o auno, e dia

cMemorias da lnqu1sição• (1).

Para

o

estudo

da

Inquisição

em

que

tonzaratn posse, assim como as listas dos Pro-

tnotores e notarios da Inquisição de Lisboa e dos Inquisidores, depu- tados, promotores e notarios da Inquisição de Coimbra. No tomo 4. 0 appareceu, do mesmo Fr. Pedro Monteiro, a o1·ige1n dos

,.eJ'e,-fo,·es dos liv1·os e qualificadol·es do S. to O/ficio., co11z o catalogo ,fos que tenz lza1'ido nas Inquisiçoeus d'este Reiuo, assim com~J listas dos In-

quisidores e Deputados da Inquisição de Goa. Ainda no tomo V (num. XXVIII) appareceu a lista dos secretarias do Conselho Geral. E, se é certo que quem despreoccupadamente analysar o plano do do- minic~no lhe notará graves defeitos, principalmente derivados da sua epo- cha, da prcoccupação de en~randecer. a sua ordem e do facto de o en- .:arregaretn do estudo d'uma Instituição ainda então vigente e cujo lernma era o seg,·e,io, é certo tambem que ninguem de boa poderá negar n1e- recimcnto historico a estes trabalhos que bem penosos lhe haviam de ter sido e que bons a~xiliares são ainda hoje. Depois d'isso publicou-se anonymamente a Historia dos pri1zcipaes

actos e pl·ocedit1le11ltiS da l11quisição enz Po1·tugal, parte della atribuída

por Innocencio a Antonio Joaquitn ltloreira e em que se trata, em tom dec:amatorio, da creação das tres inquisições, do Conselho Geral, dos ln. quisidores Geraes, dos autos da fé, cujas listas publica, assim como a scn·

9

tença contra o Dr. Antonio Homem, e do Regimento de D. Francisco de Castro de 1640, cuja analyse se faz. E' antes um livro de propaganda que um. sereno estudo scientifico. - A gloria d'esse estava reservada a Alexandre Herculano. São bem conhecidos os seus tres volumes da Hislop·ia da origem e estabelecimento da l11quisição e111 Portugal. O que nelles estuda o grande mestre será elle mesmo quem no-lo dirá. cPodiamos escrever a historia da Inquisição, diz elle a pag. XIII do Prologo, d'esse drama de ftagicios que se protrahe por mais de dous seculos. Os archivos do terrivel tri- bunal ahi existem quasi intactos. Perto de quarenta mil processos res- tam ainda para darem testemunho de sccnas medonhas, de atrocidades sem exemplo, de longas agonias. Não quizemos. Era mais monotono e menos instructi\·o. Os vinte annos de lucta entre D. João III e os seus subditos de raça hebrea, elle para estabelecer definiti\'amente a Inquisição, elles para lh~ obstarem, offerecem materia mais ampla a graves cogitações~. São vinte annos pois ean que Herculano, {op·ceja11do pa1·a que fos-

que elle que111 [a/lasse, nos apresenta por

se'" mais os docunzelllus do

um lado a dissolução da curia papal em que as consciencias per-

tenciam a quem mais dava e por outro lado a côrte fanatica, odien·

ta

e

quiçá

1nvejosa

do

rei de

r·uim co11dicção

e inepto,

e/ramado D

João 111.

Que a historia d' esses vinte annos se ia a historia d'uma instituição secular, é o que ninguem certamente poderá crer. No trabalho, verdadeiramente magistral de Herculano ha muito, muitissimo mesmo que adrnirar, mas nelle tambem ha ommissões, nelle tambem ha algum tanto de paixão. Para a sua obra o grande historiador servia-se principalmente de documentos da Torre do rfombo, da Bibliotheca da AJuda, da collecção ~1oreira da Bibliotheca Nacional e da Synznzicta /,usitana, collecção de copias vinda de Roma e onde se acha transcripto um extenso memo- rial apresentado pelos christãos novos, do qual lierculano usou para nos expôr o quadro dos abusos e excessos das diversas lnquisições de Por tugal desde 1S4o até 1544· Da Torre do Totnbo teve elle conhecimento da correspondencia ori- ginal dos nossos enviados cm Roma para D. João III, parte tambem na Bibliotheca da Ajuda, das minutas de muitas instrucções de cá para

lá e de ditferentes documentos que fazem parte do C 9

o1po Clzro11ologico,

quasi

tudo publicado hoje no Corpo Dip/o,nalico Po1·tugue;- e sómente d'al- guns processos crimes dos Cat·tor·ivs do Sau/o Ojficio, corpo cssencia- lissimo para este estudo, cujo valor historico a seu tempo se ponderará, e que ainda não era bem conhecido no tempo do ~lestre. D'aqui as suas nnturaes ommassoes.

Collecção de S.

Vice11te, G 9

artas nzissi1'as, Bullario, e Gavetas, -

.

,

Como dissétnos, t~tmbcn1 Herculano, pelo n1otivo que acabán1os de cxpôr, se servio de um mcanorial dos christãos-novos para o estudo d'al- guns annos da Inquisição, memorial necessariamente suspeito c que havia de expôr os factos com a paixão do pretendente opprimido. Essa a ori-

---

-

lO

•• -·····

1

gem da violencia que se nota nalgun1as

··--···-

paginas da llisloria

d"1 o1·ige1n

e estabelecinz~nlo da Juquisição enz Po1·1ugal.

r: não devemos passar adiante

sern

nos referirmos a

um

li\'ro,

que

tca1 feito certo barulho, que mais detida1nente estudaretnos, e que refere,

d'uma forma generica, mas bastante parcial, o que se passava no Santo

Officio. E' as Noticias ,·eco,,-fitas ,-fel proce

1inzienlo

de

las l11quisiciones

de Espana y Po1·tugal cou sus presos, compilado por um auctor anony- mo e que se diz impresso cm Villa Franca ern 1720 (ou 22 ?), mas que Antonio Ribeiro d<?s Santos ( 1), Figanierc (2) e Innocencio Francisco da Silva (3) nos Jizem te-lo sido etn Londres, aliás com pessima revisão, atribuindo-o ao judeu portuguez, Da\'id Neto. No dizer do cavalleiro Oliveira, citado por Antonio Ribeiro dos San· tos, são os proprios judeus da Hollanda, onde abundavam os exemplares d'esta obra, que a não têm em grande conta. E de facto assim deve ser, como a seu tempo se provará. Mas basta mesmo notar a for1na arrebatada e agressiva por que as Noticias 1·econditas estão escriptas para termos a impressão da falta de serenidade e paixão do seu auctor. Tambem em 1750 foi impresso um opusculo do P. 0 Antonio Vaeira

con1 o titulo de Relação exactissinza, instrucliva, curiosa, ''er,fadei,·,J e 11oticiosa do procedim~11to das lnquisiçóes de Po1·tugal, apresentado ao papa Innocencio XI e, no seculo XIX, a Nat·,·ativa da persep;11ição de llypolilo José da Costa Pe1·eil·a Furtado de "'\1e11do11ça, livros que, sendo

setn duvida interessantes,

são

no

tntretanto de somenos

valor historico

pela parcialidade cotn que foram escriptos e que a seu tempo se ver'i. No estado actual da bibliograj)hia portugueza não é possivcl dar u1na lista completa dos trabalhos dispersos publicaJos em revistas e jornaes sobre o assu:npto que nos interessa. Aquelles de que tivémos conheci- mento e de que fazemos uso são os seguintes: no Instituio citaremos os conscienciosos artigos de J. C. Ayres de Campos, intitulados: Docu,nentos

para a llisto1·ia d,J Sauto O/ficio t.•nz Po1·tugal; Utn auto da fé; Senleuça aa lllquisição de Lisboa C01ltl·a Fr. DioJ!O ,fa Assunrpção; Letnb,·ança do p,.o,11otor Estevant Leitão acerca do que em Ronza se havia d~ reouerer tucante a tres casos de j·u,·isdicção i1zquisito,·ial; J>,.;,,ilegios dos oificiaes c fanzilia,·es, co11{or·nze os a/va1·ás de 1S62 e 1S8o, tresladados dos regis- tos do a1·cllivo tnunicipal de Coinzbra ; Jzu·isdic:ção dos Inquisidores nas causas dos seus offtciaes e (atllilia,.es; C'Jizji1·1naçãrJ de todos os p1·ivilegios do Sauto Ofjici·J; Nomeação de Thot1la'{ Gollçalves para caçador e ,·e- gtJtáo d,l lllquisiçá.J de c·oi11lh1·,t; ca,·/"1. ,fe 1101lleaçáo e privilegias que enz 1621 a luquisição de Coinzbra. passou a Antouio João, seu co111p1·a,io1· ; Outra da tnes11za l11quisiç,fu J.'assada a J\1auuel F1·aucisco, b,t,·queiro e

fo1·11ecc~.ior de c,l,·t•ão;

effz Coilnb1·a, feit

J.\'onze,tçc.fo ,ic 11111 tll'dlia"for ,fe beus St,quest,·aflos

l

icen':-·,t

p

tra

salzir ,io c,l,·cere e a11dap· pelo

z e111 IÓ25;

1·ei11o, l'"1ss,1,ia pel~ luquisição de G~oi11zbr~.1 ao 1·ecoucilia,fo Joã~ Lopes;

( 1} Ale111orias da lilter

ttu,.a

S(fgrada dos Judeus portugueres 110 p1·esente seculo nas

Jle1norias de Litteralura portuguc:;a, ton1o 4. 0 , pag. J27.

(2) Bihliographia Hastorica, n.o 1496.

(3) Diccionario Bibliograpllico, \·ol. 2. 0 , pag. 118.

II

·-··-···-··-··- ·--··

···

Sentença da lr1quisição de lJisboa COIIII'·a Diogo He,,·iques Fl~res (1662); Processos de Maria Soares e de seus filhos, sentenceados e111 L1sboa (1623); Alvará de nomeação e poderes do júi1 dos bens con:fiscados na l11guisição de Coin1bra; .P1·ivilegao do Santo Of.ficio de Coinzbra (1572). A1nda no

Instituto fallaremos do desenvolvido estudo de Antonio José Teixeira so- bre um dos perseguidos pela Inquisição, o lente Antonio Homem, do ar- tigo do sr. Antonio de Portugal Faria intitulado A inquisição ,vo,·tugueta 110 seculo XVII, que não é mais que uma lista das pessoas que foram sen· tenceadas no auto da de 1682, em Lisboa. No Pa11or.J111a referirernos os artigos intitulados: Origenz da lllquisi-

ção en1 Po1·tu~al, Cu1·iosidade ace1·ca da Inquisição e O feiticeir·o, ebro-

nica da lnquis1ção por Cunha Rivara.

Na Revista u,,,,e,·sal Lisbo11euse apontaremos o artigo de Cunha Ri· \'ara, intitulado O p1·i,nei1·o auto de e1n Jlor·tugal e no J>ositivismo

os artigos do sr. Consiglieri Pedroso sobre superstições e crenças popu- lares nos quaes faz referencia a alguns processos da Inquisição e em cs- · pecial ao de Luiz da Penha. No Conimbrice11se, o jornal que Joaquim ~lartins de Carvalho tornou tão interessante com as suas investigações historicas, encontramos os ar-

tigos seguintes: Seulença da Iuquisição que co11dc1nnou o P.e Lui'{ d' Ato:

ra1· Lobo, natural de Montemór-o-11ovo ( a6f>9); Lista das pessnas penr- lellciadas 110 auto de de Coin1b1·a enz 1781; Noticias d,l Inquisição de Coinzbra e11r 16i4; O t1·ibunal ,ta l11quisição, referencias aos regimen- tos de 1613 e 1640; Noticias dos processos ,fe A-Jat·ia Soat·es e filhos, que Ayres de Campos publicou no lllstituto; Relação de cria11ças que,

e1·a1n baptisadws occul-

taJtdo-se os 11onzes dos paes; G'o'!flicto ent1·e a Inquisição e as fi·eit·as de Coimb,·a; Selllellça da Inquisição COillra o estudante Pe,ft•o Serrão; regime1ztos 'da Inquisição de Portugal; "'1 lnquisiç,fo ,1,e Coilt1bra, acqut- sição de edificia para e//,t e or·de11ados dos i11quis1,fo1·es e1n 1820; Edital publicat1do auto de em 1-:41 ; Consulta du Couse/lzo Ge1·a/ do Santo Officio acerca do Bispo de Br·aga11ça (1798); Deuuucia d'esle Bispo; A l11quisifiío tln Po1·tugai e D. João IV; A saneia lnquisiçã'J; P1·ocessos

4 Inquisição de Goa, a sua exti11ção pelo

'nascendo nos ca,·ce,·es da Jnquisição de G

oinzbra

o~

da l11quisição de Coimbra;

Afarque'{ de Po111bal; fl.ypolito José da l:osta e a luquisição.

sobre os }Jaços da In-

quisição, e na Re,,isla de Eaucação e E·usiuo ha um artigo documentado de Antonio José Teixeira sobre a lnstallação da I11quisição de G"oinzbra

e na Revisla l

No Archi1'o Pitlo1·esco ha uma serie d'artigos

~itlel·a,·ia

do [>orto encontra se um artigo intitulado A ver-

dadeira epocha do estabc/e,;inzen/o do Sa11to OJiicio da l11quisição e111 Por-

tugal por B. (~., cm que se combate a fabula da entrada da Inquisição c1n Portugal atribuída a um impo~tor castelhano e se diz que é inexacto tudo o que escreveu Llorente ácerca da Inqui5ição em Portugal, junctando

differcntes documentos, artigo attribllido por Figanierc a Fr. Francisco de

S. Luiz. Nct Correspont.iellcia t.ie Coinzbra,

IRQ,, publicou Antonio José

Teixeira o processo da Inquisição contra André de Avellar e a sentença da mesrna contra <:hrispim da Costa.

. No Occide111e apontaremos os artigos intitulados: Os pe11dões das l11qui-

12

siçócs de Lisboa e Evora; Fili11lo Elísio e a l11quisição pelo sr. Maximi-

liano d' Azevedo; Ma11oel Ferna11des Vil/a Real e o seu processo ua lllqui- sição de I.~isboa pelo sr. J. Ramos Coelho; Unza feiticeil·a do seculo pas-

sado

co11den1nada pela Inquisição por Manuel M. Rodrigues; e Vi$ila de

D. João ~ 7 á Inquisição de Evora, pelo sr. J. Ramos Coelho.

No Archi1•o Histo1·ico Porlugue'{ citaremos: Fraucisco Xaviet· de Oli- veira, o cavallei1·o de Oliveira, pelo sr. Antonio Francisco Barata; O Ca-

valleil·o de Oliveira e a /11quisição pelo sr. Braamcatnp ~ Fr. Nico-

lau de Oliveira e a Iuquisição pelo sr. Brito Rebello; A Inquisição e al- flllllS seisce11tistas pelo sr. Pedro A. d' Azevedo e Alllotrio de Gouveia alcllimista do seculo XVI, do mesmo auctor.

Alem dos artigos de jornaes e revistas que apontámos e de que, a seu tempo, faremos mais especial menção, fallaremos nas monographias es-

peciaes O conde de Villa Ft·anca e a Inquisicão pelo sr. A. Braamcamp Freire, O Padre Fer11a11do de Oliveil·a e a sua obra Jlautica pelo sr. Hen-

rcire;

rique Lopes de Mendonça ; sobre Damião de Goes e a Inquisição mere- cem menção os trabalhos de A. P. Lopes de Mendonça, sr. Sousa Viterbo, sr. Joaquim de Vasconcellos e.sr. Guilherme Henriques que lhe publicou na antegra o processo. Fr. Manoe) de S. Damaso, assim como Fr. Lucas de Santa Catharina

citam o livro de 'f4

meira parte se intitula De origine luquisitzouis, tambem citado por Hcrcu· lano e que só lográmos alcançar devido á amabilidade do sr. Sousa Viterbo.

Em 1699 imprimio·se em Coimbra un1 livro intitulado Opusculunr de Pri-

vilegiis fa,lliliarunr, ojjiciali1nnque Sa11/ac! Inquisitio11is, de que era auctor

Diogo Guerreiro Carnacl1o de Aboim, juiz do fisco do districto da Inquisição de Coimbra. Barbosa Machado tambem cita o livro de Fr. João de Vas-

concellos,

Camillo Castello Branco faz referenci~ á·lnquisição principalmente nos seus romances O Judeu e A caveira da nza1·ty_r, assim como no prefacio do poema Os ralos da Inquisição de Antonio Serrão de Castro. Para o primeiro romance a fonte de que principalmente se servio foi do livro impresso en1 1688, Relalio11 de l'luquisiliou de Goa e da bio-

graphia do poeta Antonio José da Silva escripta por Costa e Silva, pois

- que o talentoso romancista, como expressamente no-lo declara, não vio o processo original do Judeu. No segundo romance faz referencias a al- guns processos inquisitoriaes; e no prefacio dos Ratos da luquisição pro- cura fazer a biographia do Poeta em face d'este pocn1a.

Tambem Coelho da Rocha consagra um dos c~pitulos do seu valioso E",tsaio aos Judeus c l11quisição e nelle, tnuito resumidamente, se occupa do procedimento c forrnas do Santo Otlicio, não àistinguindo porctn re- gimentos c fallando apenas na bulia de 23 de n1uio de r536.

r. Antonio de Sousa, Aphoris1ni l1lquisito1·u111, cuja pri·

Capitu/acio11es sob1·e la l11quisiciou de

Portugal.

l.~~astilla y

Di ffc rcn tes ca pi tu los ha no

"i11111111a1·io

de l'a,·ia h ist o1·iü. de Ribci r o

Guirnarães consagrados ao assun1pto qu '! nos intercssJ. Citarc1nos no vol. 2. 0 , ns Ale11zorias da Inquisição ctn que cspccialn1cntc falia no Dr. An

tonio 1-lometn e Fr. Diogo da Assun1pção; no vol. 3. 0 O Marque{ de

Pombal e a l11quisição; no vol. 4. 0

A Sa11/a Iuquisição (va1·ias tzoticias)

e no vol. 5.'' trata de Manuel Fernandes Villa Real, cujas declarações

\

-

13

publicaÃ. as~im como alguns excerptos do processo contra elle movido pelo .

Santo ufficro.

Em 1821 publicou-se uma Histo1·ia a11onyma das l11quisiçóes de [/alia,

Hespanha e PoJ·tugal, trabalho simplesmente de propaganda e, em •8g3, publicou no Porto o Dr. Carlos José de Menezes uma obra em dois vo- lumes intitulada A l11quisição em Pot·lugal, trabalho que o proprio auctor intitula de compilação, mas que infelizmente não é de con1pilação crite· riosa, pois que mistura transcripções de Herculano com trstnscripções do livro de que acabámos de fallar e de outros apenas de propaganda.

A Bibliolheca do Povo e das Escolas tambem, em 1899, publicou um

trabalho intitulado A [,Jquisição em Portugal, de J. Augusto de Oliveira

Mascarenhas, trabalho apenas de compilação. Acrescentando algumas paginas da obra Brasões da Sala de Ci1111·a do sr. Braamcamp Freire, em que se faz referencia a varios processos

inquisitoriaes, algumas paginas da Hislot·ia da litleralura portugtlt{a do sr. Theophilo Braga e outras do livro Diabt·u,·as, santidades e p1·ophe-

c1as de Teixeira de Aragão, cremos ter finalisado a referencia do que de principal se encontra na litteratura portugueza sobre o assumpto de que nos pretendemos occupar. Como se vê, trabalhos que comprehendam o conjuncto da vida inqui- sitorial, só temos as listas de Fr. Pedro Monteiro e a Historia da origem

e eslabelecimento da l11quisição enr Portugal; tudo o mais ou é profunda-

mente suspeito ou

quasi dois

são monographias, estudos parciacs.

De sorte que,

seculos apoz

Fr. Pedro Monteiro, podemos repetir com elle

que n~o temos a quem seguir, pois ai11da tJinguem escreveu sobre esta

mater1a.

dizem os chronistas a

respeito da Inquisição. O chronista Francisco d' Andrade chega-nos a dizer - referindo -se a ella- que taes particularidades não pertencem á sua historia (1) c Fr. Luiz de Sousa, nos A1111aes de D. João 111, a pag. 3og, apenas, referindo-se a D. ~~n~ique de Menezes, n?s diz que elle trouxera de Roma as bulias da

lnquts1çao que forão de par/teu/ar gosto pe1·a ElRey.

Como é natural,

attendendo á censura, pouco

D. Francisco Manuel de Mello, na sua Aula politica, a pag. 8, § XII occupa·se do Conselho do Santo Officio, mas di-lo elle expressamente (2), só segundo a fórma da corôa castelhana.

. Na quarta parte da Historia de S. Domi11gos é-se mais explicito e refe- nndo-se Fr. Lucas de Santa Catharina á organisação vigente no tempo em que elle escrevia (meiados do seculo XVIII) refere-se, como domini- cano, largamente á preponderancia da sua ordem no Sa111o Officio, pu- blicando até uma carta de 23 de setembro de 1614 em que se lhe con- cede um tosar perpetuo no Conselho Geral. . Até aqu1 enumerámos ~s fontes impressas da Histo1·ia da Inquisição; veJamos agora as manuscr1ptas.

(1) Cllronica d~ D. João III, ft. 118 da 2.• parte.

(2) Aula politica, de D. Francisco Manuel de· Mello, pag. 2 do Prologo.

Estas ~ão principalmente os cartorios do Santo Officio, a que se con-

sagra um capitulo especial no livro O Archivo da

Torre do 1,0111bo.

Referindo~se a elles escreve com razão Cunha Ri vara ( 1) : • Pelo

que

respeita á Inquisição, mal se poderá formar juizo seguro e imparcial, em· quanto se não fôr a essa Torre do Tombo revolver os processos da In-

quisição•. E de facto não pode haver guia mais seguro para o estudioso, pois que os cartorios do Santo Officio, que felizmente escaparam do ter- remoto de 1755, eram secre/os, e por isso, o que nos seus documentos se escreveu, a expressão da verdade e nunca destinado a illudir quem quer que fosse. Assim o pensou D. Juan Antonio Llorente quando, no prefacio da sua

Histo1·ia

cp·itica da I11quisição de Hespanha, disse que para se escrever

uma historia tão authentica como com~leta da Inquisição era preciso ser inquisidor ou secretario do Conselho Geral do S.to Officio; assim o pen- sou o protestante Limborch que para a sua Hzslop·ia luquisitiouis declara não se apoiar senão nas bulias dos papas e nos escriptos e actas emana· dos dos inquisidores; e assim se entende na Hollanda onde existe o G"o1·pus Inquisitionis Neer/andicae, e na Allemanha onde Hansen prepara uma collecção de documentos sobre a Inquisição alleanã (2). O trabalho pois que vamos emprehender é fundado principalmente nos cartorios do Santo Officio, a nosso cargo, na Torre do Tombo ; não

é um trabalho de propaganda, mas unica e ·exclusivamente um trabalho de caracter scicntifico. Dividín1o-lo por seculos á falta, por emquanto, de base para divisão mais scientifica. Ao fazê-lo, tivémos presente o conselho que Henrique {~harles Lca dá a Salon1ão Reinach, traductor da sua Histo-

,·ia da Iuquisição 11a Edade-~fedia: c T,·,tduise{ comme vous l'enle,dre{, nzais, je J'OUS e11 p1·ie, 11e ''ous dépa,·te{ pas du lon inzpa1·Jial que J·e me suis

i11zposé. Les faits doi1'e11l pap·/ep· d'~ux·nzênzt's~. Tambem por nós hão de

fallar os factos.

II

Inquisidores

ieraes

No yertice da organisação inquisitorial, como auctoridade suprema, encontra-se o Inquisidor Geral. Apezar da creação de quatro inquisidores-móres, os bispos de Coim- bra, Lamego e Ceuta e um l)Uarto escolhido por D. João Jll, feita na bulia de 23 de maio de t536 CJUe instituio entre nós a Inquisição, é certo que neiJa se falia no Gene1·ali !11quisito7·e e Herculano nos diz (3) que Paulo

III

tinha o intuito de que só excrces~e o cargo Fr. Diogo da Silva, bispo

de

Ceuta, individuo que não fazia temer aos conversas tantas injustiças

e violencias.

.

( 1) Revista univers,1l Lisbone11s,-, vol. 3. 0 , pag.

43.

(2)

Vide

Jlistoriographia da Inquisição pelo sr. Paulo Frederico no livro Historia

da Jn~uisiçJo 11a Edade-Media de Charles Lea, traduc5ão de Salomão Rcinach.

J5

---··---····-··-··-·-···-·······-

De facto, a 5 de outubro, em Evora, o Dezembargador João ?t'lontciro,

da parte d'El

Diogo da Silva a acceitar o cargo de Inquisidor-mór. Este, diz o auto de acceitação, (1) tomou-a e acceitou-a cenz suas mãos e co111 to,io devido

acatamento e rever·e11cia, a be(jou e pôs so!J1·e a sua cabf!Ç&l e a J'Ío toda

e leo e entendeo».

Rei lhe apresentava a bulia de P

1ulo

III, intinl:indo 1-

r.

Não nos preo~cuparemos com a qu_esttio que no seculo XVIII tant.o agitou os academtcos Fr. Pedro Montetro e Fr. Manoel de S. Damaso, de saber a que ordem pertencia o primeiro inquisidor-n1ór. Seria domi- nicano, como quer o padre mestre Fr. Pedro ~lonteiro; ou pertenceria á

Manoel de S. Damaso?

Herculano resolve-a suppondo a hypothese do bispo de Ceuta ter pas- sado da ordem dos mini mos para a dos franciscanos. • Porventura, escreve o Mestre, havendo professado naquella ordem fóra do reino, e voltando ao seu paiz, onde ella não existia, teria resolvido passados alguns annos, filiar-se na dos menores, (~).

de

outubro, fez a publicação da bulia inquisitorial ao Cardeal Infante, D. Af. fonso, arcebispo de Lisboa e perpetuo adtninistrador do bispado de Evo- ra (3) para que lhe désse toda a ajuda e favor e para- que mandasse ajun- tar as dignidades, conegos e cabido da sua sé de Evora, e toda a cleri- sia para se receber e notificar em pregação publica a bulia de Paulo 111, como com effeito succedeu (4). Para dar maior solemnidade ao acto veio a elle assistir el-rei D. João III a 22 de outubro; reuniu-se cabido, conegos, prelados, clerigos e povo da cidade de Evora, e perante elles, o notario apostolico Diogo Travassos enJ alta e illte/ligivel JIO{, diz o termo da publicação, fez a lei- tura da bulia Cum ad niiJil n1agis e da carta monitoria de edicto e tempo de graça por trinta dias (5), afim de todos saberem a lei em que ficavam vivendo.

milicia de S. Francisco de Assis, como quer ~

r.

·Seja

certo é que foi elle que1n, dois dias depois, a i

como

fôr,

o

(1) Collectorio das bulias e breves apostolicos, ft. 4; encontra-se d'elle uma copia au-

thenrica a ft. 1 do codice 979 da Livr

tria

da Torre do Tombo. Vide tambem o tomo II

das Provas da Hist. Genealogica, pag. 713 a 718. (2) Hist. da origem e estabelecunento da baquisiçlio e1n Po,.tugal, pag. t63 do vol. 2.•

(3) No Collectorio a ft. 7 e no Catalogo dos Deputados do Consellzo Geral se diz

que este cardeal é o Infante D. Henrique, o que é manifesto equivoco. O Cardeal D.

Henrique foi o primeiro arcebispo de Evora e só entrou na posse do logar a 24 de se-

tembro de 1 S40, como poJe ver-se a pag. Jt\3 do Jlortug

tl

S4tcro~ de Fr. Apolinario da

Conceição, manuscripto 471 da LiJ'r.:tria da Torre Jo ·ron1ho. Lo~o em 3 de a~-;osto de 1S4o, D. João III pedi.t ao Papa o logar vago para elle (Corpo Diplornatico Portu- KWf, vol. 4-•, pag. 311), e ao mesmo tempo pedia ao Cardeal Santiquatro a sua protec- ção para esta pretensão (Corpo Diplo1natico, vol. 4. 0 , pag. 325). t\ntes delle tinha sido seu 1rmão D Affonso.

Até no proprio Corpo DiplonaL1tico Portugue;, aliás tão meti~ulosnmente feito, vol. 4.•, índice, se diz, summariando a carta de t3 de março de 1S4o, que por essa epoca es• tava gravemente enfermo o cardeal D. Henrique, quando é certo que a carta falia em Cani~al m~u irmão que era o bispo de F.vora, I>. Affonso, que pol1CO depois falleceu. (4) Collectorio, H. ~, que é confi.-mado pelo treslado authentico, de t56Q, do j4 ci- tado codice 97g, que pertenceu ao cartorio da Inquisiç_ão de Coimbra. · (5) Este monnorio não se encontra impresso no Collectorio. Herculano conjectura

Este

edicto

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-----

é particularmente interessante porque, melhor do que a

bulia, nos dá a primitiva medida da competencia inquisitorial. Dirigido aos visinhos e moradores da cidade de Evora e seus termos, notifica aquelles que se sentirem c.ulpados nos crimes de heresia e apos- tasia, por terem praticado actos dos ritos judaico, lutherano ou mahome- tano, ou tiverem praticado feitiçarias ou sortilegios, a que venham com- fessa·los e manifesta-los ·publicamente, pedindo penitencia d'elles, porque

Jesus Christo tem sempr~ os braços abe1·tos para perdoar.

não só aos actos proprios se refere, como tambem aos que virem

fazer e obrar, ainda que seja a paes, ou mães ou parentes e ainda mesmo a pessoa~ que tenham já fallecido. Estas confissões ou declarações podem ser escr1ptas, quando a pessoa, que as faz, souber escrever, e no caso contrario serão escriptas pelCJ escr1vão.

E

De tri~ta dias er~ o

pados

sertam absolvidos

tempo da g1·aça, isto é, o tempo em que os ~ul­

das censuras

e penas

de excomunhão matar,

com penitencias saudaz,eis para as suas alnzas.

A esses, que neste tempo assim se viessem confessar, promettia o edicto que não seriam presos nem encarcerados. Mas, ai dos que de tal fórma não procedessem; porque esses eram reveis e pe1·1ina\es e contra elles usaria o Inquisidor-mór de todos os rigores do seu officio ! O edicto tinha a data de 20 de outubro de 1536 e, ao que parece, não se julgou sufficiente para o fim desejado. Por isso, pouco menos de um mez depois, a 18 de novembro, novo mo11ilorio sahia do paço do primeiro Inquisidor-mór, bem mais explicito que o anterior (1) e em que desenvol- vidamente se apontavam os factos Deviam assim ficar todos sabendo bem de que culpas se tinha1n de confessar e quaes as que deviam denunciar. Ha no emtanto na sua enumeração evidente confusão religiosa. Em primeiro Jogar eram os ritos e ceremonias de caracter judaico, alguns dos quaes todavia são antes superstições pagãs: guardar os sab- bados, não trabalhando e vestindo-se de festa; fazer comida ás sextas- feiras para o sabbado, acendendo e n1andando acender então candeei- ros limpos com mechas novas mais cedo que os outros dias e deixan- do-os acesos toda a noite até se apagare1n; degolar aves, atravessan- do-lhes a garganta, tendo experimentado o cutello na unha do dedo da mão e cobrindo o sangue com terra ; não comer toucinho, nem lebre, nem coelho, nem aves afogadas, nem enguia, polvo, congro, arraia, pescado que não tenha escan1a; jejuar o jejum maior que cahc em setembro, não comendo em todo o dia até á noite ao nascer das estrellas e estando no dia de jejum maior, descalços, comendo carne e tigeladas e pedindo per-

que fosse pela co~t~a~icção em que e~le e~tava C«?m a b~lla de 12 ~'«?.utubro e. a pro·

pria bulia da Inqutstção. Para a sua h1st~r1a s~rvao-se d uma tra4ucçao em l~tt~ que

est4 na

codice n.o 979· Vide Doe. I. ( 1) Encontra-se publicado a ft. 4 do Collectorio e a elle se refere Herculano,

a paB.

Symmicta. Um traslado

authentaco

d elle encontra-se a fi. 7 v.o do cna~o

167 da Hist. da orig. da lnguisição, vol. t. 0

···················-·---·············-···

dão uns aos outros; jejuar o jejum da rainha Esther, assim como ás se-

gundas e quintas ; solemnizar a Paschoa comendo pão asmo em bacias e escudellas novas, rezando os Psalmos sem Gloria Pat1·i, fazendo ora- ção contra a parede, sabbadea11do, abaixando a cabeça e levantando a e usando então dos ataphaliis, isto é, de correias atadas nos braços ou pos- tas sobre a cabeça ; comer, quando alguem morre, em mesas baixas e pescado, ovos e azeitonas; estar então detraz da porta; banhar os defun- tos; lançar-lhe calções de lenço, amortalhando-os com camisa comprida e pondo-lhes em cima a mortalha dobrada como se fosse capa ; enterra-los em covas fundas e em terra virgem e pondo-lhes na bocca um grão de

prata, dizendo que é para pagar a primeira

pousada ; cortar-lhes as unhas guardando-as ; derramar ou mandar derra- mar a agua dos cantaras e potes, dizendo que as almas dos defuntos se vêm ali banhar ou que o Anjo P!rcucie111e lavou a espada na agua ; deitar, nas noites de S. João e de Natal, ferros, pão ou vinho, na agua dos cantaros e potes, dizendo que naquellas noites a agua se torna em sangue; deitar benção aos filhos, pondo-lhes as n1ãos sobre a cabeça e abaixando a mão pelo rosto abaixo sem fazer o signal da cruz ; cir- cumcidar os filhos; depois de os baptisar rapar-lhes os oleos que lhes pozeram. Depois eram os de caracter mahometano : jejuar o jejum do Ramedan, não comendo em todo o dia, banhando o corpo todo e estando descalços fazendo orações de mouros; guardar as sextas feiras.e não comer toucinho nem beber vinho. D~pois eram os de caracter lutherano e heretico como : dizer que não

l'araiso nem inferno, que não lza mais que 1Jasce1· e morrer; não crer

ha

aljofar ou dinheiro de ouro ou

no Sanctissimo Sacramento; não crer todos os A1·tigos da Fé; dizer que a Missa não aproveita ás almas; affirmar que o S.to Padre e Prelados não teem poder para ligar nem absolver; dizer que a confissão se não deve fazer a sacerdotes, mas cada um se ha-de co11(essar en1 seu co1·ação; dizer que ha a transmigração das almas; dizer que cada um se pode salvar ainda que não seja christão ; negar a Virgindade de Nossa Senhora ; dizer que Jesus Christo não é o Messias promettido. Por ultimo o Inquisidor-Mór admoestava a que confessassem ou denunciassem os casos de biçamia, bruxedo ou feitiçaria e aquel- Jes que tivessem alguma Bibha em portuguez que devia ser exami- nada. Para os judeus fazia-se uma restric~ão: era preciso não os accusar de actos anteriores a 12 de outubro de 1535 que tinham sido perdoados, e para todos, confessantes ou denunciantes, se comminava a pena de exco- munhão maior, no caso de não cumprirem as disposições do monitoria, que teve publicidade a 19 de novembro. E para essa publicidade se poder effectivar e o monitorio se cumprir,

· logo no dia seguinte el-rei D. João m fazia expedir uma carta dirigida a todos os portuguezes desde os mais altos na escala hierarchica, os infan- tes, até ao seu ultimo vassallo, ordenando que prestassem á Inquisição todo o auxilio, prendendo ou mandando prender os que contra as suas determinações delinquissem, fazendo citar, requerer e emprazar quacs-

A lxQuJstçlo •• PoaTUG.AL • xo B.BAZJL

3

18

------···············-··---

quer pessoas ou penhorar os seus bens-, recebendo, em fim, e fazendo re · ceber benigna e favoravelmente os officiaes do Santo Officio (1). Não nos chega noticia alguma dos effeitos do edicto inquisitorial nos poucos mezes que ainda restavam do anno de 36 (2). Sabemos sómente que no anno de 37, logo no mez de janeiro, o Inquisidor João de MeJio,

o celebre João de Mello, a quem Herculano tantas referencias faz .e de

que adeante nos occuparemos, servindo de Inquisidor·•nór, no palacio do bispo de Ceuta, ouve os depoimentos denunciadores das testemunhas. Quaes fora1n essas testemunhas e qual a natureza e effeitos das suas de- clara~ões a seu tempo se dirá. Por agora constataremos apenas, que em dezembro de J537 João de Mel1o ouvia delatores em Lisboa no paço dos Estáos, e não se póde dizer que a sua colheita fosse avultada nos dois nnnos em que D. Diogo da Silva servio de Inquisidor·mór, que, na phrase de Herculano, era um Inquisidor-mór tolerante e illustrado. Diversas pro· vas deu elle do seu animo recto e imparcial, e tantas foram que, ccomo a bulia de 23 de maio de 1536 auctorisava el-rei para escolher um quarto Inquisidor geral, além dos tres bispos de Ceuta, Lamego e Coi~bra, e como só o primeiro tinha exercido esse cargo, nada mais havia do que pôr á frente da Inquisição, em logar d'elle, um individuo de maior con- fiança e de mais solta consciencia. Foi o que se fez. Allegando a sua pro- vecta idade e pouca saúde, e a necessidade de administrar a pequena dio- cese de Olivença, Fr. Diogo da Silva pedio para ser substituído por pessoa mais habilitada do que elle para exercer o mister de Inquisidor geral• (3). 10 de junho de 1 53g renunciava pois o bispo de Ceuta o cargo de Inquisidor-mór, a 22 nomeava D. João III para elle seu irmão, o infante

D. Henrique, arcebispo de Braga, que então contava 27 annos de edade e a 3 de julho tomava posse do seu elevado e laborioso cargo (4). E' preciso conhecer os antecedentes d'esta nomeação. Em carta, pro-

anno, de que só temos a minuta, publicada a

vavelmente de abril d' este

p~g. 23 do voJ. 4. 0 do Co'lo Diplomatico Portugue1_, e a que se refere

Herculano (5), D.

nomear Inquisidor mór o irmão pelas csuas vertudes e grande zelo que lhe

João II

dizia a D. Pedro Mascarenhas que pretendia

( 1) Esta carta, citada por Herculano, estai impressa no Collectorio a fl. 147 v.; um traslado outhentico d'ella se encontra a ft. 32 v. do citado codice 979· (2) Referindo-se a esta epocha, escreve Herculano: «Faltam-nos provas directas da moderação do novo tribunal nos prin1eiros tempos do sua existencia, e a indolc e fins impelliam- no para a atrocidade : todavia, as maiores probabilidades persuadem que não se tentou dar á bulia ~e 23 de maio uma interpretação demasiado favoravel aos conver- sos, ou pelo menos, que o procedimento dos anquisidores não ultrapassou, como acon- teceu depois tantas vezes, a méta da legalidade. Lendo-se ns allegaçóes feitas em diver- sos tempos pelos agentes dos christãos novos perante a curia ron1ana, não se encontram, relativan1ente ao período immediato â nomeação do bispo de Ceuta, senão accusações yagas, gue mais ,·ão ferir as provisões da bulia de 23 de maio do que os seus executo-

res•.

(4) No Colleclorio se encontra a fl. o o auto de acceitação, a nomeação, assim como a carta do bispo de Ceuta a que Hercuf:1no allude; egualmente se encontram, em tras-

lado

Hrst. da orig. e estabelecimento '"tia. Inquisição, vol. 2.o, pag. '70· (3) Herculano, Hist. da Origem e estai. da Inquisição, yol. s.•, pag. 2oS.

authentico, a fl. 36 do citado Codice 979· (5) His 1. da orig. e estab. da lJifUisição, voJ. 2.•, pag. 207, Dota.

19

conheço nas cousas de Deus e da igreja,. Acrescentava o monarcha Pie· doso que se o cargo fosse de principe secular, co1n muito grande gosto nelle se empregaria, porque cnenhúa cousa ouuera que era mais de rey que servir a Deus, que he verdadeiramente reinar•. E, fazendo realçar as qualidades do irmão, que só pelo se1·viço de Deus acceitava de boa vontade o Jogar, dizia el-rci 1>. João III que cse nam pode du\'idar que use de seu officio como não deve em nenhuma parte, por 111ais largos que se lhe concedam os poderes,. A côrte de Roma porem é que assim o não entendeu, c o monarcha portuguez (1) lamentava-se depois do Papa não ter por bean que o seu

ir:mão carnal fosse o Inquisidor-mór, porque S. Santidade estava conven· cido de que cquanto mais chegado he a mim em parentesco, mais sus· peito fiqua a esta nação,. A nação a que D. João III se refere é a hebraica, cujos representan- tes em Roma intrigavam, mentiam, subornavam e de todos os meios se ser\·iam para conseguir os seus fins, denunciando até ás vezes factos verdadeiros ao que parece, c que os partidarios da Inquisição certamente bem desejaria1n que ficassem no escuro. Assim, um mercador de Lisboa, por nome Heitor Antonio, foi para Roma queixar-se de que, vindo e1n direcção á capital do mundo catholico, perto de Rio Frio, encontrara dois cavalleiros, um dos quaes partira a galope logo que o avistara, e pouco depois encontrou o infante D. Henrique, acompanhado por cinco homens

I

a cavallo, que a elle se dirigio perguntando-lhe para onde ia. Heitor An- tonio respondeu-lhe que para Valhadolid e como o infante lhe retrucasse que bem sabia que ia para Roma, que era irmão do procurador dos chris· tãos novos e que ia contra a Inquisição, Heitor negou-o, apezar do 9ue

D. Henrique o não deixou seguir viagem e o fez ir comsigo até Landetra,

onde lhe tomaram a mallst com todas as cartas que o infante leu, cento

e tantos cruzados e certos anneis. Entregaram-lhe depois a malla com as cartas, mas tambem o entregaram preso ao correio·mór que o trouxe para Lisboa, onde o christão novo poude fugir e pôr-se a salvo em di

recção a Roma.

Este facto, narrado e admittido pelo proprio D. Pedro Mascarenhas (2), fez augmentar a má vontade existente em Roma contra o In~uisidor Geral que por esse te1npo estava em lucta aberta com o nuncio Capo di Ferro, lucta que liercuJano historia larga e documentalmente, pondo em relevo a grande finura diplomatica do embaixador D. Pedro de Mascarenhas, que, apezar d~ tudo, conseguio a revocação de Capo di Ferro. Para ahi remettemos o leitor curioso d'csta lucta em que o Infante D. Henrique jogou o seu importantissimo Jogar. Elia outra coisa não era senão o re- flexo do que ia em Roma. Entretanto o arcebispo de Braga era provido no logar do irmão falle· cido, o cardeal D. Affonso, e para esse effeito o bispado de Evora era

(•) Em carta de 10 de dezembro de t53g, a D. Pedro de Mascarenhas, publicada a

pag. 2l1 do vol. 4-• do Corpo Dip. Port.

(3) Carta de 9 de março de 1S4o, a pag. 2Y} do vol. 4° do Corpo Dip. Port.

-

20

elevado a arcebispado

edade (2) e as rendas que possuía eram urn conto e meio de reaes do 1nosteiro d' Alcobaça, outro conto e meio de reaes do arcebispado de Braga e outras ainda, menos importantes. Como se ve, achava-se na edade em que as paixões mais facilmente

se exacerbam; alem de principe secular era principe da Egrcja, supremo fiscal, como Inquisidor-mór, da pureza religiosa do paiz e por isso consi- derado como inimigo figadal dos christãos novos que, como vimos já, violenta e pessoalmente o combatiam em Roma. Ficar silencioso perante os seus adversarias seria· capitular e D. Henrique, escrevendo a Pedro Domenico accusa os christãos novos dizendo que elles não podem allegar ser condemnados por teste1nunhos falsos ou de christãos velhos, •porque todos até gora o sam per suas proprias confessões e testimunhos, (3). O seu estado religioso é nella descr1pto com cores carregadas; acham-se comprehendidos em cousas tão feias e abominaveis contra N. Senhor, que se não acreditariam se não fossem tão claras e se tão provadas não estivessem. Por exemplo, certo sapateiro de Setubal, christão novo, por nome Luiz, intitula se o Messias e tem fingido milagres de tal maneira que, até entre os seus adoradores, conta homens illustrados. Ha-os que se fazem profetas e um tal Gabriel, tambem christão novo c physico, anda em Lisboa, prégando aos seus correligionarios de casa em casa, a religião moysaica. Para cumulo chegaram a converter uma christã a quem, com grande solemnidade, cortaram as unhas e ultimamente foi

(1 ). D. Henrique tinha então vinte e oito annos de

descoberta uma synagoga ! Pedro Domenico fez a leitura d'esta carta ao Pontifice e é elle mesmo que1n nos conta ter Paulo III ficado maravilhado de ta111 feas cousas (4). E' impossivel, nesta altura, separar a personalidade do Inquisidor geral O. Henrique da marcha dos negocias em Roma que decididamente atravessavam um periodo bem agudo. Apezar d'um christão novo, rico e nobre, ao que parece natural de Coimbra, neto de Mestre Rodrigo e sobrinho de Antonio Fernandes, dar como suspeito um inqllisidor d'ali, querendo que a sua cau~a fosse jul- gada pelo infante D. Henrique - evtdente prova de confiança - é certo que ainda se não tinha desvanecido em Roma a m~\ itnpressão d'el-rei D. João III o ter collocado como Inquisidor Geral, o que, o proprio Papa

atribui a a avarieia e cobiçia (5 ).

Debalde Balthazar de Faria, enviado especial em Roma, allegava que

a ~nhum christão novo tinha a Inquisição tirado a sua fazenda, que os bens dos condemnados eram confiscados para os herdeiros catholicos. e

João III dispendia por anno, na manutenção

que pelo contrario el rei D.

do Santo Officio, nada menos de dez a onze mil ducados ! Pelo seu lado os christãos novos não descançavam. A. bulia não se

---------

Bulia de 24 de setembro de 1 5-to, no Corp. Dp. Port., vol. 4. 0 , pag. 344·

( 1 j

( 2.) Corpo Dip. Port., vol. 4. 0 , pag. 326; l1~{ornz.1f para a pro••isão do bisp

10

(3)

lbid., vol. 5. 0 ,

pag. 3-J.; carta de

10 de fcvcretro de 1542

tdo.

(4) lbid., pag. 70.

(5) Carta de 27 de julho de t5-J2 ; lbid., pag. 98.

' I

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21

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cumpre, diziam elles; das appelações não se faz caso; se um christão novo accusa outro, é absolvido; se o escravo accusa o amo de judaisar, dão-lhe liberdade; a quem accusa um christão novo, dão cinco ducados; os carcercs e prisões são secretos e nem á missa lhes permittem a ida! (1) O exaspero chegava verdadeiramente ao seu auge. Certa occasião Balthazar de Faria fallava com o Pontifice e aos pés d'este se lançou um Gaspar Francisco, filho de Margarida d'Oiive1ra, presa pela Inquisição e cujo processo o Papa a si avocou, dizendo em

altos gritos que o embaixador portuguez lhe queria queimar a mãe, ex- cedendo-se tanto que o Papa o teve de mandar arredar pelos guardas (2). Este lance, intensamente dramatico e commovente, havia de certo de abalar o animo de Paulo III, tanto mais que ha muito tempo o preoccu- pava o facto do seu antecessor, á hora da morte, fallar em revogar a In- quisição, por descargo de consciencia (3). Em tal disposição de espírito, não admira pois que o breve de 22 de setembro de 1544 (4) viesse suspender a execução das sentenças do Santo Officio.

A seu tempo se verá qual era então o movimento de culpados ; por

agora fallemos apenas na impressão causada por tal breve na côrte por- tugucza, c que não podia ser mais c:Joloros~. c A corte achava-se em Evora, escreve 1-Ierculano (5). O primeiro acto do nuncio foi intimar ao infante inquisidor-mór as inopinadas de· terminações do pontifice, mandando depo1s afixar copias authenticas do breve nas portas das cathedraes d'Evora, de Lisboa e de Coimbra:

D. João III, escrevendo a Balthazar de Faria em 2J de dezembro (6), queixa·se bem amargamente d'este procedimento, lembrando o que, por causa da Inquisição, tem perdido de fazenda c vassallos. Dirigindo-se di- rectamente a Paulo III, ean t3 de janeiro de J5.j.5, apresenta -se como fundamente aggravado e historia largamente os motivos que o leva- ram a pedir tal Tribunal, motivos exclusivamente de caracter ·religioso; lembra os serviços tambem da mesma ordem prestados pelos portugue- zes com as descobertas e conquistas d'além-mar, os grandes damnos que lhe soffre a fazenda com a fuga dos christãos novos e com a propria In- quisição, cujos officiaes c mais despezas são todos á sua custa ; falia nas isenções que alguns christãos novos têm alcançado e entre elles o De- zembargador Gil Vaz Bugalho, christão velho convertido ao judaísmo; e, por fim, antes de pedir o estabelecimento perpetuo da Inquisição, lembra

o alto serviço que está prestando o infante D. Henrique no logar de In-

quisidor Geral, po1· Ih' o eu ntuito rogar e ellconznzelldat• (7).

Como se vê, na côrte portugueza havia então a perfeita consciencia do

( 1) Carta citada; Corpo Dip. Port., vol. 5. 0 , pag g8.

(2)

Carta de 18 de fevereiro de 1S44; lbid., vol. 5. 0 , pag. 271.

(3 J Carta citada de 18 de fevereiro de 1544·

(4) L·orpo Dip. Port., vol. 5.•, pag. 3o8. (5) A pag. tg8 do 3. 0 vol. d·a sua Hist. da orig. e .Estab. da Inquisição. (ó) L·o,.po Dip. Port., vol. ~.o, pag. 320.

(7) lbid., pag. 33o.

·

22

grande desastre economico, que era para o paiz o exodo dos christãos novos e em J53g existia essa certeza, porquanto, a 10 de Dezembro (C,Jrpo Dipl. Por!., vol. 4. 0 , pag. 231) o mesmo monarcha, escrevendo ao seu embaixador, não occultava que os judeus eram uma muito grande parte dos seus vassalos, cmuyto mais proveitosos que todolos outros do povo pera meu serviço per todalas vias de negociação, de maneyra que as m1nhas ren. das, e todas as dos nobres dos meus reynos, e todos outros tratos pro- veitosos crecião por suas mãos destes mais riquos que todolos outros, e sabido he a grande soma de dinheiro que tem pasado desta terra em Frandes•. A tudo porém se preferia a unidade religiosa e uma mal entendida tranquillidade de espirito fanatisado !

O anno de 1545 foi para o infante D. Henrique compensador, em be-

nesses, dos desgostos por que o faziam passar os seus temíveis e astucio- sos adversarias.

A 22 de ~larço concedia-lhe o Papa o regresso no priorado de Cedo-

feita (1) ; a 8 de junho o Iogar e proventos de commendatario de Alco- baça (2); e a 4 de dezembro era elevado á dignidade cardinalicia. Parece que havia o proposito de desvanecer na côrte portugueza o pessimo effeno da suspensão do 8.' 0 Officio, a qual tinha trazido comsigo a expulsão do nuncio.

Com effeito um medianeiro se tinha interposto a procurar conciliar os animos, que tão exaltados se achavam. Este medianeiro era Ignacio de Loyola, o fundador e Geral dos Jesuitas. Mas D. João III entrincheirava·se na formula positiva do do 111 des. O Papa queria o nuncio readmittido ? Pois bem ; era preciso tambem ser condescendente e instituir a Inquisição conforme os seus desejos (3). No entretanto o nuncio voltou a Lisboa, mas o breve de que elle foi portador não satisfez el-rei D. João III.

A 19 de fevereiro de t546 o monarcha portuguez se queixava d'elle, acoimando-o de susreito. Fôra o caso que o nuncio, cm Evora, se dirigira ao Cardeal D. Henrique, apresentando-lhe uma queixa contra os inquisi- dores que, nos seus actos, excediam as determinações da bulia e, apezar do Inquisidor Geral logo alli lh'o haver contradictado e de lhe ter promet tido resposta por escripto, o nuncio apresentou a queixa a alguns prelados e ao proprio rei, tendo-a, para cumulo, enviado ao Papa (4).

A 6 de Maio novas gueixas juncta ás antigas: o nuncio excommungara

os nota rios do Santo Officio! (5).

A curia romana porém continuava fazendo a bocca doce á côrte por-

tugueza. A' promessa de alargamento das rendas do bispo, Cardeal Far- nese, neto do Pontifice (ti), respondia este, como vimos, não só com

( 1} Corpo Dipl. Porl., vol. 5. 0 , pag. 400.

(2) lbid., pag. 424. (3) lbid., pag. 4S4. (4) Jbid., vol. 6.•, pag. 19.

(5) lbid ., pag.

5o.

a dignidade de cardesl para D. Henrique, mas tambem concedendo lhe o poder de testar todos os seus bens (1), dispensando-o de ir a Roma rece- ber o capello (2) e para o Rei, irmão e Rainha enviava uma caixa de Agnus Dei, offerta que Balthazar de Faria, em cnrta de 23 de abril de 1 !>4~ (3), encarecia como muito valiosa. Eram os preludios da s~ttisfacçãodos desejos do Monarcha que Baltha· zar de Faria annunciava em 3 de maio (4)· Com etfeito, pelos fins de novembro chegava a Lisboa o cavalleiro João Ugolino com a bulia definitiva da Inquisição e mais diplomas concernen- tes a este objecto (5). cDividiam-se, escreve Herculano, os diplomas pontificios relativos ao negocio dos christãos novos cm duas categorias : uma dos que lhes eram, ou antes simulavam ser, favoraveis: outra dos que se referiam ao estabe- lecimento definitivo do tribunal da fé. Eram os primitivos, além da bulia de perdão, um breve eximindo do confisco por dez annos os criminosos sentenciados ; outro suspendendo por um anno a entrega ao braço secular dos réus de crime capital; outro, emfim, dirigido n el-rei para interpôr a sua paternal sollicitude, afim de que a Inquisição procedesse com bran- dura•. Estes diplomas acham-se hoje todos impressos no Coi1JO Diplomatico

Portuquet,.

Atil se encontram (a pag. 147 do vol. 6. 0 ) o breve 1//ius qui misel·i- cors de 11 de maio de 1547, absolvendo das penas e excomunhões in- corridas os christãos novos e todos os mais que delinquissem contra a fé, soltando-os, entregando-lhes os bens confiscados e restituindo-os ás suas honras e dignidades; o breve G·unJ serenissi1n11m, a q_ue Herculano se não refere, dirigido ao Cardeal Infante para lhe transmittar que o Papa espera que elle use da Inquisição com brandura (6); o breve Cu1n saepius annun- ciando a D. João III a concessão da bulia ~7); o breve Ronla,us Ponlifex, annullando as isenções outorgadas pela Santa Sé aos christãos novos, existentes em Portugal, exceptuando as dos procuradores dos hebreu41 e dos seus parentes (8), e o breve Licel 11os de 15 de novembro dirigido ao rei para recommendar brandura aos Inquisidores; e finalmente a bulia Me- ditatio Cordis, restabelecendo os poderes inquisitoriaes em todo o seu

vigôr (g).

Como se vê, procura\ra o Pontifice adoçar com um perdão a bulia in- quisitorial, diligenciando assim satisfazer as duas partes, que ha tanto tempo litigavam com um phrenesi e uma energia bem dignos de causa

(1) Corpo Dipl. Port., vol. G.o, pag. Sr.

(2) lbid., pag. 78.

(3) lbid., pag. •35.

(4) lbid., pag. •3g.

15) Herc., Hist. ila Orig., pag. 3o-J do vol. 3. 0

(6) Corpo Dipl. Port., vol. 6. 0 , pag. 1S9.

(7) lbid., pag. 16o.

(8) lhid., pag. 164.

--······

24

·······-····-······ -·· ··- ·--···---

mais util e proveitosa para a Humanidade. Conseguil-o-hia d'esta feita? Hemos d·e vê-lo bem brevemente, pelo menos quanto a uma d'ellas.

bulia Medilatio Cordis: (1) c Depois de um

preambulo, onJe se epitomava a historia das phases por que até ahi pas- sara a Inquisição portugueza desde a sua primeira fundação, alludia-se ao perdão geral que se acabava de conceder aos até então culpados do crime de heresia. Depois d'esta prova de indulgencia, o pontífice estava resolvido

a proceder severamente. Para isso, abrogando a bulia de I536, avocava a si todos os poderes conferidos por ella ou d'ella derivados, dando os de novo ao infante cardeal D. Henrique e aos inquisidores seus delegados. Supprimia todas as modificações e limitações até ahi impostas á Inquisi- ção de Portugal, e cassava sem excepção a auctoridade concedida a qual- quer delegado apostolico para conhecer de tal ou tal delicto contra a reli- gião. A Inquisição, assim constituida, procederia em conformidade da JUrisprudencia que geralmente regulava aquella instituição, e os inquisido- res usariam de toda a jurisdicção, preemtnencias e prerogativas que por direito, uso e costume pertenciam aos individuos revestidos de semelhante dignidade, continuando e terminando todos os processos de heresia, sem exceptuar sequer os avocados á curia pontificia. Concluia declarando irrito

Herculano extracta assim a

e nullo tudo quanto podesse contrariar as amplissimas disposições d'aquella bulia,.

O l:1quisidor Geral D. Henrique estava por esse tempo em Evora e, a

2 de fevereiro de 1S48, era elle entregue dos treslados dos diplomas pon-

tificios a cujo respeito D. João III desejava ouvir o seu parecer. Não o

demorou o cardeal e logo no dia seguinte communicava a El-Rei os gran- des inconvenientes do perdão (2). Como se ha-de dizer aos que judaizam nos carceres? Que procedimento se ha-de ter para com elles ? Nota o cardeal

a contradicção entre o que dizia o perdão, que a abjuração fosse publica,

c o ~ue o nuncio lhe communicava, que ella fosse sómente na presença dos Inquisidores e notarias. E, notando isto, apresenta a sua opinião de que ella devia ser publica, bem publica, para os christãos saberem de

quem se deviam guardar, porque o contagio dos culpados era peçonhento

e perigoso. Elles podiam corromper os restantes christãos novos e, não só esses, como até os proprios christãos velhos ! S. Paulo dizia que basta

o fermento para corromper toda a massa.

O Cardeal tambem não via com bons olhos a suspensão por um anno

da entrega dos culpados ao braço secular. U1n anno, tempo mais que suffi·

ciente

para elles poderen1 {ate'· o que qui'{tl·enJ e se hil·e111, escreve tex-

tualmente o Inquisidor Geral.

E' para o final da sua c~trta, totalmente desconhecida e tão interessante,

quando cm especial se refere á bulia Medi/alio G"ordis, que o Cardeal D. Henrique guarda toda a indignação da sua critica. A bulia só por si bem estava, mas a bulia não se pode considerar cm separado dos papeis que com ella vinhan1. Porventura não arranjarão os christãos novos per-

( 1) Hist. da orig. e estah. da l11quieição CllJ Po1·1ugal, vol 3

,

pog. 3o6.

·-·····

···--··-····---·--

dão sempre que lhes appeteça ? Se agora lh'o dão, com uma bulia ínquí- sitorial Iam tllca•·ecida, não é conjecturar muito que lh'o deem, sempre que o supliquem e peçam. Entende o Cardeal que deve EI-Rei dar estimulo e animo aos que tra- tam do negocio da Inquisição, porque elles o teem de lodo der·1-ibado e, se quer Inquisição, que ordene tudo de novo. Já não está para tratar mais d'este negocio, diz o Inquisidor Geral, e se estivesse não mandaria exe- cutar o perdiio que he 11111ilo {o1·te cousa pera mi111. Porque o não escusa EI-Rei, ao menos temporariamente, de exercer o lagar? O Cardeal volta- ria quando a Inquisição se pudesse faie•· como devia. Mas para isso preci· sava elle de dois ou tres homens, entendidos nos negocias da In~uisição, para sempre o acompanharem ; e, além d'isso, de inquisidores sufficientes; de rendimento para se lhes pagar e para os gastos da Inquisição; d'um en- carregado em Roma para negoctos d·eua e em tudo do favor e protecção reaes. Só então o Cardeal se quereria tornar a meter 11esta fragua de Ira·

ba/hos que se nam podem sofi·e,·.

Ainda fallando da bulia IP.mbra D. Henrique que nella se não diz que seja o Rei quem nomeie o Inquisidor Geral~ o que pode trazer graves in- convenientes. E por ultimo, o Cardeal, sempre descontente, acha que o breve Romanus Poutrfe."C destinado a annullar as isenções conceâidas pela Santa Sé aos christãos novos, excepto as dos procuradores dos he- breus e dos seus parentes, lhes vem muito favoravel, devendo, por causa das confusões e dos sophismas, declarar com precisão quaes eram esses procuradores. Como seria interessante saber o que diria a isto Balthazar de Faria, o infatigavel embaixador em Roma, se por acaso tivesse tido conhecimento da opinião ferozmente insaciavel do Cardeal D. Henrique a respeito dos diplomas que com tantas fadigas e canceiras tinha alcançado! E' nos vedado sabê-lo, assJm como não sabemos a resposta que el-rei

D.

João III daria á carta do irmão. O que sabemos no emtanto é, que

D.

Henrique não se contentou só com escrever e que, dias depois, enviava

como emissario um tal Fr. ·Antonio, cujas instrucções felizmente chega- ram a nossos dias (1). Têm a data de 1o de fevereiro. Nellas lhe recommenda o Inquisidor Geral que lembre a EI·Rei a forma como acceitou o cargo da Inquisição; os servaços que nelle prestou ; a questão que sustentou com o Nuncio na qual só lhe pesa não ter sido mais intolerante ; e que pondere a El-Rei que, depois da recente bulia e documentos que a acompanham, não lhe fica senão o nome de Inquisição, pois lhe uraram a materia em que se havia de exercer, não só destruindo o que, com tanto trabalho, se tinha feito já, mas tambem de futuro, com dilações e isenções dos procurado·

res. Em seguida, desejava o Cardeal Infante que Fr. Antonio transmittisse

só entrar em

ao

Monarcha o

seu

pedido

de

escusa tempornria,

para

exercicio, quando a Inquisição se podesse exercer a valer, comtanto que

( •)

Doe. III.

A

lxQmuçlo

llK PoRTUGAL

110 BBAztt,

3

d-ni ~ dr~ pessoas de UMzfimça alCe de iaqc•~ ~ diobeiro _para

~ l!q.ssicão so poc si se ~tentar: cm ui c•so., esca~na D. Hconque,

aM~ ~ ·r!~RIU~ I!JirJI~rn .1 til~ ~ ~ Frinu ua .U .,

,as

par~to

., •--do!

~J3cto ao perdão. conrinuYa o carde31 cizendo que elle se oio deTi~

cumf1 it ~ demais

a majs. mteodmdo-se qce so dcriam abjurar os que n-

n~m ~

r-:-ocessos ccoclu

idos~

por'fue os outros podia::-- sahir Jiyremeote

e ir tomai o Smc1i~ Sacramento i:om a alma maocbada pelas faltas

4k.cio ~

p-·arstc f<X!tO e -mandar embaixadores ~c cmbaisa~ a Roma, afim .k ~ros.eguir o que se deseian. Per ~!iat)O o ürdeal insistia pela sc.t esaJ.Sa; o seu arcebispado da-

do Santo Olticio Er-a iodispc •rsaftl não traoSI-

E de bma alguma podia~ liar o Suncio com j~-

~

os

~~

ID'

=to

qoe iucr, era preciso lisita-lo e q~ ti• esse o cargo de

G!ral de-ria ~tar na -:õrtt. Fr•.\.:1tcn.io ~a ror obrigação ~cmmunhAr isto tudo á Raiuba e ao lufante, roja rnx~~o Jena ~.

~h

~io sa~tt)()S 3 forma ~omo dle se &.scmpeobou de soa missão, mas

de certo nio cmnrrio tudo o que D. Hmri~ue ihe ~CJOIIDaiCian., por-

qu.mto estu instn'.;~s ~seia1".1 o cardeal 'I~ lbe b-

ttStituidas e

~

dias fizeram, ao que ~rec~ rane dos ~~cmentos ~n~g-JCS por Pedro

da

Ca.~ a Thuni~ de Goes. em 1:ex, ~1 •

\1~-ol"a

E. araar ,rell3s e d3 ~an.t a que tizf!mos refittncia. D. João W aio

se adlal""a J:~ro.sto a deixar Jc ~umrrir o pcrJio ~~~do aos christios oon>s \'!' Os des-ejos do ln'luisiJor Geral ~eram~ fOIIIO satisfei- tos; o --1ue elle cooscguio )X'rem foi 'lae as a~iura.:-ões fosse••• publicas,

e em ~~ilafalso

H aTia comtuJo uma JifficutJadc: ~"'IDO fazer a prégação

a~uaJ.s ao acto sem esc"ndalisar o JX-ro :

O infante opina,-. ~ue o serm.i

'l

não ~na ser na nKsma occasiio e

~ fim insistia~ mas itt l:'-en1 fn~uxo~~nt~, lk.l .~~~~"'00 do Jogar de lo-

quisido: Geral.

A pu~li~a\ãO \l"este rerJiio ~~ral t~z

se

\74

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(ifc!to cm Lisboa., na Sé,

num Domin!lo~ dia ll' Je iunh

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~ ~o d\>Ut\1~1\.~ e~~~\"e ~~ ~· .,_, P~J'.' rar.a i~ ~: adcccr a forma

como ~S\.ll,~u os ne~t'-~k'\$ da l~·i~'à\" \~\:

-

P(\f t~se t~'"l'' atl~t~,-~ \' t.~~~~ lnt:.~nt~ tnn1 ar2TC infamidade

que che~o~ a 5(\~~$l\h,u ~ ,,\rt(\ ~ ('~ll ~'"'~ ~:~~~ paa-tia a risitar ~

seu •~ebas~'\do \~\. J,, "~~nn ~""'l'flr '~ ~(us ~'-c~ ~.1ticios que a

lnquisiç!o t~ll ~c.mll''~'""'~nt~ t\~~\f\'i.t,

PAssado t~n'~"'' ~"' R"'"'.-

rin~'"' ~~ ,, l~f'A l'•t::v lU c

D.

João

UI,

··-

já de ha muit:a congraçado com o irmão, lembrava-se de conseguir que o seu suc~essor fosse o cardeal D. Henrique. Se o conseguisse, satisfaria o irmão, ambicioso como poucos; para a familia real portugueza traria um grande lustre e honra, e seria tambem a victoria completa sobre os tão odiados christios novos. Neste sentido pois escreveu, a 19 de janeiro de •55o, a Balthazar de Faria, dizendo-lhe para fallar junctamente a todo o collegio dos cardeaes e a cada um ern particular, escrevendo na mesma orientação ao impera- dor Carlos V. Não conhecemos infelizmente a resposta de Balthazar de Faria que nos seria particularmente interessante; sabemos todavia pela carta de 1 1 de fevereiro ( 1), que Balthazar de Faria alguma coisa fez, dirigindo-se quer aos cardeacs, quer aos embaixadores de França e Hespanha. D. João III dizia.Jhe tambem saber que o rei de França mostrava grande contentamento em o cardeal 111e11 yrmão aver de ser papa, assim como o rei de Hespanha, e recommendava-lhe que trabalhasse nesse sentido,

p1·essoposlo que trmao papa.

.

.-

o spi1·ito

.

samlo _he o que ha de {ater o ca1·deal nze11

Apezar de D. João III se mostrar nesta carta muito espet·ançado, é certo que dois dias depois expedia o Papa recem.nomeado um breve de participação a D. Henrique. EI-Rei perdia assim uma das suas illusóes e o cardeal via por terra os castellos que tão phantasiosamente teria architectado, julgando-se por· ventura revestido da thiara pontifical para poder tirar a desforra dos infa- mes christãos novos que com tanta pertinacia e astucia se lhe atraves- savam no caminho. Para distracção foi o Cardeal fazer a visitação das Casas da Suppli· cnção e do Civel {2) e um dos grandes inconvenientes, que, como vimos, . elle tinha apontado nos documentos enviados com a bulia Meditatio Cordis, sobre a extensão a dar á isenção dos procuradores dos christãos novos, foi attendido, determinando-se expressamente que só se deviam entender os procuradores que, á data do breve, exerciam em Roma taes funções (3). E, como não estivesse ainda contente com as honras obtidas e, por outro lado, se não vissem com ·bons olhos, o cardeal D. Henrique c o nuncio, foi aquelle elevado á dignidade de legado pontificio (4). D. João III, em janeiro de 1553, fazia esse pedido (5), em março d'esse mesmo anno renova-o e, quando elle foi satisfeito, galardoou o car- deal Monte Policiano com a pensão de 4oo~ooo rs. e enviou um bom presente ao Pontifice (6).

(r) Co~po Dipl. Port., vol. 6. 0 , pag. 346.

(2)

(3)

lb1d., pa~. 367.

lbid., vol. 7. 0 , pag. 8, Breve Ro111ani Pontificis, de 2.5 de março de aSSa.

(4) Pelo bre\'c Quod tua Majestas de 18 de agosto de t553, Corpo Dipl. Port., vol. 7 .•,

pag.241.

(5) lhid., pag. 202.

(6) lhid., pag.

326 c 328.

Na verdade,

------··-··

contra o eardeal D. Henrique

não cessavam as intrigas·

em Roma. Os seus inimigos não descançavam e para as desfazer acon- selhava-lhe D. João III que escrevesse ao Papa, para aclarar e explicar a observancia que em Portugal se tinha dado aos decretos do Concilio (1). Não se desfazendo a accusação de desobediente, como obter a tão ambi- cionada legacia ? E para todos estes negocios era sempre indispensavel o parecer do Inquisidor Geral (2), que de resto se queixava dos seus multiplos atfaze- res, a Inquisição, a Legacia, o arcebispado c Alcobaça, por causa dos quaes precisava de bons auxiliares, não duvidan~o escrever a El-Rci que teria de abandonar a Inquisição e a Le~acia se por acaso lh'os fosse tirando, como pretendia, nomeando Fr. Gaspar dos Reis para o bispado do Funchal (3). Todavia a ambição de D. Henrique não se achava satisfeita e, pre- tendente infeliz d·uma vez á cadeira de S. Pedro, quando morre o Pon- tifice, novamente intenta suceder-lhe, empregando para isso todos os seus

esforços em Roma Lourenço Pires de Tavora (4). Mas, ou porque não houvesse esperança de bom exito, ou porque na côrte portugueza se movessetn intrigas juncto da rainha D. Catharina, ou porque fosse verdadeiro o motivo apresentado, é certo que, en1 12 de setembro de a55g, D. Catharina dizia a Lourenço Pires de Tavora que não tratasse mais do assumpto, quer pela g1·ande necesidade que eu

te11ho da pessoa do seuhor cardeal pe,·a o que toca

ao gover·11o destes

•·cyuos que he de ta111o peso, quer, porque para tal fim, se não deve usar de meios humanos (5). Mais uma vez pois D. Henrique vio gorados os seus audaciosos planos. Entretanto, pelo breve Accepinzus quod de 20 de setembro de 1 ~6o (6), foi-lhe concedida licença para visitar, corrigir e reformar as cgrcjas e casas religiosas de ambos os .sExos e de qualquer ordem, assim como cohibir os excessos dos prégadores. Não lhe faltava portanto onde exer- cer a sua actividade. Temos até aqui visto o papel do Inquisidor Geral D. Henrique, prin- cipalmente nas luctas externas indispensa\'eis para a conservação, manu- tenção e alargamento do Santo Officio. A seu tempo se verá a sua obra na organisação interna do tribunal. Basta que nos lembremos que D. Henrique, quando começou a exercer o logar de Inquisidor Geral, se achou em frente d'uma instituição completa- mente nova pela qual o seu antecessor pouco tinha feito e n que era pre- ciso dar organisação pratica e viavel, para ajuizarmos da energia-. da acti- vidade e quiçá fanatismo, de que lhe foi preciso lançar mão. Pode di- zer-se seguramente que bem mal empregado elle foi, mas, por antypa-

{1) Doe. VI.

(2) Doe. VII.

(3)

(4)

Carta de 7 de julho de aSS-4. Doe. VJJ( Cor:;~o Drpl. Port., vol. 8. 0 , pag. 21 o.

(5) lbid., pag. 2lo.

thica que nos seja a figura do ultimo filho de D. Manoel, ainda mais la-

natico, como vimos, que o primeiro- el-rei D. João III- é indubitavel que elle foi a fatidica alma da Inquisição portugueza no seculo XVI. Por bulia do Papa Gregorio XIII de 24 de fevereiro de 1578 ( 1) foi nomeado Inquisidor Geral o bispo de Coimbra, D. Manoel de Meneses, que no dia J3 de junho prestou juramento no mosteiro dos Jeronymos de Belem (t), mas que não chegou a exercitar o Jogar por ter fallecido na batalha de Alcacer Quibir.

. Seguio-se-lhe o arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, nomeado por bulia de 27 de dezembro de 1579 (3) ; depo1s o cardeal Alberto, no· meado por bulia de Sixto V de ~5 de Janeiro de 1S86 (4) e que acceitou o Jogar a t3 de março; e depois foi nomeado Inquisidor Geral o bi~ de EIYas, D. Antonio de Mattos de Noronha por bulia de Clemente VW de 12 de julho de J5g6 (5). Este tomou posse a 8 de agosto, acceitando nessa occasião o breve de Sua Santidade, o qual, assim como haviam feito seus antecessores, diz

o termo de acceitaçio, bei_jou e p6s sobrt sua cabeça. Com o bispo de

Elvas se completa a lista dos Inquisidores Geraes do seculo XVI.

m

O Conselho Ger•l do Santo OHiclo

~

oMo assessores do Inquisidor Geral funccionavam, á (rente do Santô Oflicio, os deputados do Conselho, tambem chamado Geral. · Logo na bulia instituidora da Inquisição entre nós, se falia do

Co11silium gene1·ale ;,,quisilionis.

Herculano diz-nos (6) que Fr. Diogo da Silva fez immediatamente

a sua instituição e é certo que, se nos não chegam provas do Conselho

ter existido de direito, a não ser a bulia citada, sabemos que de facto,

logo nos primeiros dias de I537, aos interroga torios das testemunhas assistem em Evora o Dr. João de Mello, servindo de Inquisidor-mór, o Licenciado Gonçalo Pjnheiro e \l Dr. Ruy Lopes deputados e collse- lheiros da Sa11ta Inquisiçã (7), assim como Antonio Rodrigues, prior de Monsanto. Qual a primitiva lei em que viviam, não o sabemos. Sabemos apenas

1) Publicada no Collectorio, a ft. I3.

2) Collectorio, fJ. aS v.

3~ Collectorio, fi.

·

1 6.

4

5

Colleelorio, ft. 19.

Collectorio, ft. 21 v.

.

6} A pas. 170 do 2.• voL da Hist. da origem e ellabllecimento da l1UJIIiliçáo

7). Liwo

da1 denunciaç6es de z537 a J543 que adeante extractaremoL F·r. PedrO

Monteiro, Catalogo dos Deputados do Conselho Geral, diz que elles foram nomeados

• 10 de outubro de t536 e tru os mesmos nomes que apontámos com a differença só- meate de chamar a Ruy Lopes, Rodrigo, por engano.

4

3o

que um dos primeiros cuidados do Cardeal D. Henrique, ao ser investido

do poder de Inquisidor Geral, .foi, treze dias depois da sua posse, a 16 de julho de 1Sl9 (1), estabelecer e ordenar Co11selho Geral, nomeando para d'elle fazerem parte os seguintes conselheiros: Fr. João Soares, mestre em Theologia (~), Dr. Ruy Gomes Pinheiro, dezembargador d'EIRei, Dr. Ruy Lopes de Carvalho, conego na sé de Evora, e o Dr. João de Mello, continuando sómente estes dois ultimos dos nomeados pelo pri- meiro Inquisidor-mór. Das suas atribuições sabemos que eram as que lhe commettera a bulia Cun1 ad nihil magis (3) e, quanto aos seus deveres, temos noticia de que, sob juramento, se obngavam a dar justiça ás partes sem favor nem aggra-

alguma, tendo e não pedindo

Yo, sem odio nem affeição, não recebendo d' elias dadiva segredo, -não descobrindo as resoluç6es que se tomassem

nada, quer ao Inctuisidor Geral, quer aos collegas do Conselho Geral, quer · ain~a aos Inquistdore!l particulares. Juramento, como se vê, demastado

serio para ser cumprido na integra ! COmo já dissémos (4), em 1S44, foi suspensa a execução das senten- ças do Santo Officio. Er.a o triumpho provisorio dos chrtstãos novos ! Depois d'isso a bulia Meditalio cordis(5) de 16 de julho de 1S47- e não de 18 como diz Monteiro-veio restabelecer em Portugal os poderes in- quisitoriaes, revogando as modificações feitas e concedendo ao Inquisidor

Geral, seus successores e officiaes, a faculdade de usarem plenamente dos seus cargos. Por isso, a 14 de junho de 1 ~ (6) o Inquisidor Geral D. Henraque, invocando a bulia de Paulo III, nomeia conselheiros do

D. Manoel de M~nezes, Doutor nos

Conselho

Geral do

Sa111o

Oflicio

Sagrados Canones, Martim Gonçalves da Camara, Doutor em Theologia

e o Dr. Ambrosio Campêlo.

Quanto ás suas attribuiç6es eram principalmente as que a bulia lhes commettia. E' de crer no emtanto que o tribunal tivesse o caracter de appellação, como tanto almejavam os opprimidos christãos novos.

O primeiro Regimento d elle que conhecemos, de que fallámos (7),

mas que se conserva ainda inedito, é o de 1 de março. de 1S7o (8). Façamos syntheticamente o seu estudo.

( 1) Monteiro diz a 16 de junho, mas é equivoco manifesto. Consta do traslado au- thentico que publicamos (Doe. IX) que foi a 16 de julho, mas bastava que tivessemos presente que só a 3 de julho o cardeal D. Henrique tomou posse. Uma das coisas re- queridas pelos quatro hebreus que D. João III consultou, por 1 S46.t para aquietação da sua raça era um conselho, como tribuiL11 -de appellação (Corpo Utplomatico, vol. 6.•, pag. 109 e Herc., vol. 3.•, pa~s. 249 e seg.), com o que concordam os inquisidores na sua resposta (Corpo Diplomatrco, vol. 6.•, pas. 124). (2) A 16 de fevereiro de 154.5 pedia D. Joio III ao Papa que o provesse no bispado

de Coimbra. (Corpo Diplomalico, vol. 5.•, pag. l7g). 3) Doe. IX.

.

·

fico

4) A~~~.

5)

da no CoU.ctorio, ft. 10 .-,e a pas

ortllpef! _

(6) Viae Collectorio, ft. 12 vo.

166 do yol. 6.• do Corpo Diploma·

(7) A PIR· 63 do livro O ArclliJIO da 2"orr1 do Tombo.

(!)DOe. X.

·

31

Comp(Se-ae de 3S capitulos (==artigos) e .Dão existe o otipl, .-. sim uma CO,Pi•, que pela letra se conhece nlo ter aido muito poaterior c cuja authcnucidacfc pro\•ém de fazer parte dos canorios do Santo Officio. São-nos infelizmente desconhecidos os seus antecedentes, .aempre de tanta importanciR para o estudo d'um monumento legislativo. Maa ~ e'fi.

~;:~d~:C~~r~t~~~j~~~:.jacto como a deusa mythologica, vestida c

Quem seria o seu auctor 1 Quaea as auaa foota 1 A que discussão te· ria dado Jogar 1 Não o sabemos.

Por elle o Conselho Geral do Sarllo O.fficio devia ser composto de 3

deputados, 1 secretario, 1 sollicitador e 1 porteiro, com faculdade do In- qu•sidorGeral nomear mais officiaes (artigo 2. 0 ). Estes deputados, nome&• dos palo Inquisidor Geral com consentimento d'EI-Rei. deviam ser sacer-

dotes illustrados, virtuosos, ~?~::Udentes e nobres, a quem se tirasse a de-

vida inquirição de geraçiio, v1da e costumes (artigo 1.-,, inquiriçio muito

~~;:::~:'r::n~fi~!eo~ev~~n~~=c,;dose.:~hS~n~~n~~~j~;:~~!~~

suardar na edadc o direito commum, e devendo ter pelo menos ordeni

sac.ras (artigo 7·').

Secretario do Conselho devia ser notaria apostolico e ter protizlío

· O

~:c,~:~:33~m:~S.~~~!~i~lo·~:e~:;e~~rtd; :J~~w~!~~~~:~~

wilegios, livros e paJ?tiS que houvesse no secreto e cumprindo-lhe obede- cer ao que, a respeito dos notarias, deteroüna o Regimento das lnquWo

çl!eo.

. Quanto 4 especial escripturaçio do Conselho, a cargo do accretariot

~~·c~.;!~h:';:ffi:~sli~~;ge!~~~ihou:!i~:~~.:'J.:~~e~=

aidores e officiaes do Santo Officio e do Fisco e doa aeus termos de jura. mento; outro de registo dos accordãos, resoluções e respostas a duvidas que se suscitarem; outro de registo das bulias, breves e priYiletpos, quer concedidos l.'elos Papas, quer _palas Reis, cujos originaes ficarao em po- der do Jnqutsidor Gerol; o ult1mo é para registo dos despachos e provi-

viodas dos Inquisidores dos districtos, e aggravos vindos dos juizes do fiaco, devendo faze-lo em todos os outros casos o deputado mais moderno

(anigo 4· 0 ).

O Conselho Geral do Santo O.fficio era o substituto do Inquisidor Ge- ral, quando o ·Jogar estivesse vago (artigo 5. 0 ) e os seus tres deputados

deviam despachar junctos, devendo dar conta ao Inquisidor Geral do que fosse mais Jmportante (artigo 6. 0 )

· Vejamos agora o que cumpria fazer a este cor~ collectivo. Uma das suas attribuições era a de ordenar as VIsitações ás Inquisições do reino, de tres em tres annos, pelo menos, sendo d'ellns encarregado um dos do Conselho podendo ser, e, no caso contrario, uma pessoa ido- nea, que viria dar contas ao Co1uel/Jo, onde apresentaria o processo respe- ctivo e, se d'elle constasse causa sufficiente, serião os culpados privados dos seus Jogares ou suspensos, podendo tambem sê-lo pelo Inquisidor Geral, mesmo os do Conselho (anigo 8. 0 ), quando para isso lhes encontra~se culpas. Outra atribuição era a de ordenar as visitas ás livrarias publicas e par- ticulares, fazendo roes dos livros _prohibidos e conceder hcença para se imprimirem os novos (artigo g.•). Cumpria-lhe, sempre com a ass1stencia do Inquisidor Geral, a censura ás bulias que sejam de graça aos christãos novos ou que pareçam em prejuízo do Santo Officio, para ver ~ nellas ha alguma coisa falsa de que precise dar-se conta ao Pa~a (artigo to.•). Era tambem o Conselho quem ordenava as visitações dos Inquisidores ao seu districto, assim como determinava o tempo da graça (artigo 11.•); nelle se tratavam todas as cousas pertencentes aos crimes de Heresia e Aposta· aia e ao bom governo e estado do Santo Officio. Por causa disso podiam-se corresponder com El-Rei e até com Sua Santidade (artigo 11. 0 ). Como tribunal de recurso, o Co11selho Geral do Sanlo Of!icio conhe- cia das appellaç6es dos Inquisidores dos districtos (ou comarcas), inter- postas pelas panes ou pelo Promotor ; das que viessem dos Bispos, e dos aggravos provenientes dos juizes do fisco; tambem, como t:1l, conhecia das suspeições postas aos dois Inquisidores de qualquer districto, porque, sendo postas a um só, podia o outro conhecer d'ellas (artigo 13. 0 ) e das

appellações dos

defuntos (artigo 24. 0 ).

Em primeira instancia conhecia o

Co~rselho dos processos que o Inqui-

sidor Geral a si avocava dos bispos, no caso dos bispos os não remette- ·rem mediante cartas do Conselho (artigo 21. 0 ), não podendo os Inquisi- dores remetter rresos de uma Inquisição para outra, sem mandado do Inquisidor Gera e seu (artigo 14. 0 ). Como corpo consultivo, cumpria-lhe .decidir as duvidas que houvesse entre os Inquisidores e os bispos, ou en- · ·tre os Inquisidores um com o outro, mas só no caso de serem graves, -porque, não o sendo, podiam-lhes pôr termo, chamando letrados ae fóra (artigo 15.•); assim como as duvidas que houvesse por causa da interpre-

tação

do Regimento das l11quisiç6es, que, de resto, os do Conselho Geral

tinham de sempre guardar (artiBo 16. 0 )

: Ao Comtlho

Geral cumprta dar despacho nos finaes dos processos

-das Ioquisições, assim como naquelles que fossem duvidosos, 11raves ou

··de ·pessoas que não podessem ser presas sem consulta do Inquisidor Geral

33

(artigo 17. 0 ) e determinar os autos da fé, ordenando quem nelles havia de prégar (arttgos 18. 0 e 19. 0 ). Quando os culpados fossem individuas de elevada cathegoria social, ti-

tulares, pessoas religiosas ou cuja prisão causasse alvoroço, não devia ser effectuada sem o Inquisidor Geral e o Conselho conhecerem d'essas cul- pas ; isto eram tambem obrigados a guardar os Inqu-isidores da India, com a differença sómente d'estes deverem consultar os governadores ou capitães que deviam annualmente participar para o Co11selho o respectivo estado da Inquisição (artigo 20. ~).

do Conselho conceder fiança aos presos_pelo crime

de Heresia, mas dando primeiro conta d'isso ao Inquisidor Geral e ou- vindo o parecer dos Inquisidores a cujo districto o preso pertencer (arti- go 22. 0 ), o que tambem é preciso para lhes commutar ou perdoar penas,

quer ellas sejam de carcere, quer de degredo, quer pecuniarias (artigo

23. 0 ), dependendo dos lnauisidores das comarcas ou d1strictos as que fo- rem arbitrarias. •

principal fonte de receita do Santo Officio entre nós eram os bens

confiscados, pois que, como adeante veremos, a pena de confiscação, era a mais geralmente empregue.

A superintendencia na administração d'estes bens cumpria ao Inquisi-

dor Geral (artigo 26. 0 ), que por isso tinha de nomear os officiaes encarre-

0 ), excepto os juizes e thesoureiros, por-

E' das

attribuições

A

gados d'esse serviço (artigo 27

que as cartas d'estes deviam ser passadas em nome d'El-Rei, com visto do Constlho Geral. Estes thesoureiros do fisco tinham de prestar contas de dois em dois annos ao Provedor da comarca a que pertenciam, que a

EI-Rei as devia dar do que se passava, assim como nos Contos (anigo 35. 0 ). Para diversos fins servia o dinheiro das confiscações. Constituindo re-

ceita inquisitoriat

lho e dos ·Inquisidores dos districtos c officiaes do fisco, a gratificações pe·

los serviços prestados

e, o que sobeJasse, dev1a ser empregado no provimento dos logares d'Africa (artigo 28. 0 ). Ainda o Regimento, cuja exegése estamos fazendo, commettia ao Con- selho Geral do Santo OJ!icio especiaes attribuições quanto aos filhos dos condemnados, que os Inquisidores dcvigm informar se tinham necessidade de auxilio ou de ensino de doutrina (artigo 29. 0 ), assim como o auctorisar os Inquisidores a censurar as proposições (artigo 3o. 0 ). O Conselho exercia tambem uma especie de fiscalisação sobre o Inqui- sidor Geral, quando este quizesse nomear para elle alguem, não cumprindo as disposições regimentaes, o que, em tal caso, até ao Rei deveriam parti- cipar (artigo 1• 0 ).

era destinado aos ordenados dos deputados do Conse-

1

a reparos nos carceres e palacios das Inquisições

1

-

.

.

.

Tal

Santo

é a synthetica exposição do Regimento do

Conselho

Geral do

Of!icio, de 1 de março de 1S7o, feito, diz o seu alvará de confir-

mação (1), com o parecer de letrados, juristas e theologos, experimenta-

dos em coisas do Santo Officio !

D. Sebastião confirmou-o e approvou-o poucos dias depois, a 1S de março de 1S7o, em todas as cousas tocantes ao fisco e á corôa real. Ficou portanto com todos os sacramentos indispensaveis á sua regu- lar execução.

Insignificantes pontos de contacto encontramos entre

este Regimento

e as l11slrucçóes,

até 1561, para

as inquisições hcspanholns,

a

que L lo·

rente a11ude (1). Estas teem principalmente disposições parallellas ás da

carta de edito do tempo da graça, que public4mos (2).

Uma das attribuções que o Regimento commettia ao Co11selho Geral do Sa11to Of!icio era, como vimos, a visitação das inquisições, de tres em tres annos. E, apezar do mesmo Regimento, para o seu provimento determinar a feitura de livros especiaes, é certo que elles não chegaram até. nossos dias. De sorte que não podemos fundadamente dizer a fórma como seria cumprida esta disposição legal. Temos sómente noticia da visitação feita

á Inquisição de Coimbra, em 1S73, pelo L. do Manoel de Quadros (3), e da feita em r577 (4), á mesma inquisição, das quaes provieram importantes providencias para ella, que veremos a seu tempo. Outra attribuição do Conselho Geral do Satzto Of!icio era visitar as li- vrarias publicas e particulares. antes d'esta disposição, em 2 de novembro de t54o, o inquisidor geral D. Henrique tinha encarregado o prior de S. Domingos de Lisboa, Fr. Aleixo, sob prior d'esse mesmo mosteiro e Fr. Christovão de Valboe-

na da cexaminação de todolos livros que ouver nas livrarias desta ci- dade-Lisboa-e pelo tempo em diante a e/las vierem e acharrdo .11am atrE ctJtholicos nem conformes a 11ossa samla fee catholica ou sospeilos per qualquer manei•·a que seia manda1·em q11alquer deles que presenlt for q11~ se nam vendáo e que seiam ent•·egues pera deles faterem o qut llte parecer ser11iço de nosso Se11hor e assy pOde,·ão ma11áar JJotejicar a todos emprersores que nam imprimão novamente ninhOs livros sem pri- meit·o serena vistos examinados per elles (5).

Como se vê, de duas eseecies eram as attribuições conferidas aos censores, um dos quaes, Fr. Christovão de Valboena, foi, cinco annos de- pois, eleito provincial da ordem de S. Domingos (6): attribuições d'ordem repressiva destinadas aos livros impressos e d'ordem preventiva desti· nadas áquelles que de futuro viessem a lume. E, como complemento d'esta commissão, no dia· 29 de novembro do referido anno de 1S4o, eram os impressores Luiz Rodrigues e Germano Galhardo notificados pelo nota-

( 1) A pag. 17S do I vol. da Historia critica da Inquisição de Hespanha (ed. Cranceza.)

{2

Doe. I.

·

(3 · Consta

Consta

de ft. 86, v. o do j 4 cit. codiee, 979· do cit. codice 979, ft. roo.

·

(4

(5

·

Codice 977 da secçio dos Manuscriptos da Livraria, fi. Este documento é um

trasla o authentico.

-

(6) Corpo Dip_lomatico Portuguer, vol. 5.•, pa~ 394· D. Joio III, em carta de 4 de

·

março de 1 ~4S, pedio ao Pontifice a confirmação d esta eleição.

35

rio Jorge Coelho, de mandado do inquisidor João de Mello, de que não deviam imprimir cousa alguma, sem primeiro mostrarem aos censores no- meados, sob pena de execução e de dez cruzados de multa para as· des pezas da Inquisição (1). Era o pleno imperio da censura previa inquisitorial.

·

antes d'isso porém existem vestigios da censura inquisitorial {2). Todavia, para a consecução completa do programma do Santo Offi- cio, não bastava que se não vendessem nem imprimissem obras que, de qualquer fónna, maculassem a pureza religiosa dos christãos velhos; era ainda preciso que se não lessem nem se possuissem. Para isso o Inquisidor Geral D. Henrique fez, a 4 de julho de 155I, ex~dir uma provisão em que aponta os livros defesos, e exyressamente diz ·que a sua leitura ou posse importa a pena de excomunhao, assim co- mo para aquelles que não vierem á mesa do Santo Officio denunciar os seus leitores ou possuidores. (3) Estes livros prohibidos eram os seguin

tes:

O a11to de dom Duardos que nom tiver cês11ra como foy eme1tdado.

O

O

O

O

O

O a11to dos physicos.

aulo d~ Lusita,ia com os diabos I sem tlles poder-se-ha emprimir.

auto d~ ~drtanes I por ca~~sa das matinas.

a11to do Jubileu damorn.

auto da aderencia do paço.

a11to da viaa do paço.

Gamaliel. A rel1Jf60 de Pão Paulo. As floJJelas de Joan bocalio.

O testamento de Christo em li11goaj·e•z.

Cop_las de la burra.

E' ainda o sr. Brito Aranha (4) quem nos falia no Rol, publicado em 1S64 e mandado fazer pelo mesmo Inquisidor Geral, que existe na colle- cção da Bibliotheca Nacional, no qual, além dos livros defesas apont• •

dos, se indicam os seguintes :

Theso11ro dos autos hespanhoes. Leite da Fee. Consolaçam de triste, todas as par·tes. Tratados gu,.er imp1·essos, quer de mão de devações, ou, pera milhor date,·, superst1çoes que promelttm a quem quer q as ji{er 011 mandar fa· {~r q a[caiiÇarem .q'~alque1· cou!a q11e pedi1·en1, oi1 ~scaparã de todo pe- ngoJ ou cousas sJnJJihãiJtes: nao lendo o11tra cous4, tirãdo aquclle, po-

dera correr.