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Jorge Barbosa

Cognição
Memória 2

3 Mar. 2009
PSICOLOGIA JB

Como se Organiza a Memória

A Psicologia Cognitiva conseguiu classificar com sucesso os diferentes tipos de memória de longo prazo
(MLP). Mas explicar as formas da MLP não resolve o problema de saber como é que os diferentes tipos de
memória se organizam ao nível do armazenamento. A palavra organizam é importante: os dados de memória
não são armazenados ao acaso; pelo contrário, são cuidadosamente arrumados, consoante as suas
características.
Vejamos. Procure recordar os 12 meses do ano o mais rapidamente que seja capaz. De quanto tempo
precisou? Em que ordem recordou os 12 meses? Muito provavelmente evocou todos os meses em poucos
segundos, numa ordem cronológica “natural” (Janeiro, Fevereiro, Março, e assim por diante). Agora tente
recordar esses 12 meses na sua ordem alfabética. De quanto tempo precisou? Enganou-se alguma vez? As
diferenças entre estas duas tarefas indicam obviamente que a nossa memória dos meses do ano está
organizada de uma forma particular. Com efeito, um dos aspectos mais distintivos da memória é a sua
organização. Os investigadores descobriram que, se as pessoas forem encorajadas a organizar o material de
aprendizagem, recordá-lo-ão muito mais eficientemente, mesmo que não saibam que vão ser posteriormente
testados na sua capacidade de o recordar.
Em que consiste, então, esta organização da MLP?

Hierarquias

Na maior parte das situações, recordamos muito melhor os factos que organizamos hierarquicamente.
Hierarquia é um sistema, em que os itens são organizados em classes do geral para o particular. Por exemplo,
este texto, pelo menos até agora, está organizado em dois níveis de títulos, para facilitar a compreensão de
como os vários bits de informação estão nele expostos.
Numa experiência clássica de 1969, Gordon Bower mostrou a importância da organização hierárquica da
memória. Sujeitos, a quem foi dada uma lista de palavras hierarquicamente organizadas para aprendizagem,
recordaram-nas significativamente melhor do que os sujeitos, a quem foi pedido que aprendessem uma lista
de palavras, distribuídas ao acaso.

Redes Semânticas

Muito frequentemente, usamos redes semânticas para organizar material na memória episódica. Uma das
primeiras teorias das redes semânticas defendeu que as nossas memórias podem ser encaradas como uma
rede complexa de nós que correspondem a índices ou conceitos. Assumia-se que a rede era hierarquicamente
organizada, sendo que os conceitos mais concretos (pardal, por exemplo) ocupariam uma posição
subordinada face a conceitos mais abstractos (ave).
Recentemente, os psicólogos cognitivistas reconheceram que tais redes hierárquicas são demasiado simplistas
para descrever como funciona a cognição humana. Por exemplo, os sujeitos precisam de mais tempo para
responder a uma pergunta de tipo falso/verdadeiro à frase “o pinguim é um pássaro” do que à frase “o pardal
é um pássaro”. Actualmente, os investigadores da memória consideram que as redes semânticas são mais
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irregulares e distorcidas: uma ave típica, como o pardal, estaria mais próxima do nó, ou centro, da categoria
ave, do que o menos típico pinguim. A “tipicalidade” dependerá das próprias estruturas da MLP e do
contexto da aprendizagem.

Adicionamos novo material a uma rede semântica, colocando-o no sítio certo da região apropriada da
memória. O novo material é gradualmente ligado, a partir dessa região, aos nós relacionados da vizinhança
na rede. Este modelo explica por que razão, quando só se estuda para um teste pouco tempo antes de o
realizar, não conseguimos recuperar a informação de que necessitamos na MLP. O novo material ainda não
se movimenta com facilidade na “Web” da MLP e, por isso, bloqueia e impede o seu funcionamento. Pelo
contrário, o debate em torno do material de aprendizagem, ou a sua incorporação num trabalho de pesquisa
pessoal, promove o estabelecimento de relações com outros conhecimentos. Estas múltiplas conexões
aumentam a probabilidade de ser capaz de recuperar a informação muitos meses ou até anos depois. O
conceito de múltiplas conexões está de acordo com a importância da elaboração da informação na memória,
de que se falou no texto anterior.

Esquemas

Imagine que se desloca, na companhia de um amigo, a uma cidade, onde nunca tinham estado antes. É uma
longa viagem e é bem possível que estejam cansados e com fome. Param numa estação de serviço de auto-
estrada com restaurante, entram nele, sentam-se e analisam a carta do menu. É a primeira vez que está neste
restaurante, mas sabe exactamente o que vai acontecer. Porquê? Basicamente, porque tem um esquema a
respeito do que se passa num restaurante.
Quando armazenamos informação na memória, na maior parte da vezes, acomodamo-la a conjuntos de
informação pré-existentes, tal como numa nova experiência de jantar num restaurante desconhecido é
acomodada a experiências anteriores do mesmo género. Um esquema é um enquadramento ou conceito
mental pré-existente que nos ajuda a organizar e interpretar informações. Esquemas de contactos prévios
com a realidade influenciam a forma como codificamos, fazemos inferências e recuperamos informações.
As teorias das Redes Semânticas defendem que a memória envolve factos específicos com ligações claras
entre si. Pelo contrário, a teoria do Esquema defende que a MLP não é, na verdade, muito exacta. Só

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raramente encontramos na memória aquilo que queremos ou, pelo menos, tudo o que queremos; portanto, o
resto temos de ser nós a reconstruir, o que faz com que tenhamos a ilusão de que aquilo que queremos é
aquilo que somos capazes de recuperar na memória (boa parte do que é recuperado resulta dessa
reconstrução...). Os nossos esquemas suportam, portanto, os processos de reconstrução, ajudando-nos a
preencher as lacunas das nossas fragmentadas memórias.
Temos esquemas para muitas situações e experiências: cenários e paisagens, acontecimentos banais, etc. Um
Script é um esquema para um acontecimento que decorre no tempo. Por exemplo, se está a apreciar um café
numa esplanada depois de uma agradável refeição, e alguém, de repente, pousa um papel na mesa, o seu
script diz-lhe que muito provavelmente o empregado acabou de lhe entregar a conta que tem de pagar pela
refeição e pelo café e (quem sabe?) pelo usufruto de uma belíssima esplanada, coisas que, no conjunto, o
tinham afastado de preocupações tão prosaicas como aquela para a qual o seu script está a chamar a sua
atenção.

Redes de Conexões

As teorias das Redes Semânticas e dos Esquemas têm pouco ou nada a dizer acerca do papel do cérebro na
memória. No entanto, uma nova teoria, baseada nas investigações das neurociências, está a provocar um
crescente interesse nos psicólogos: o Conexionismo, ou processamento distribuído em paralelo (PDP). Esta
teoria defende que a memória é armazenada por todo o cérebro em conexões entre os neurónios, sendo
necessário que algumas dessas conexões trabalhem em sincronia, em conjunto, para termos acesso a uma
memória particular (Borowsky e Besner, 2006; Takashima, 2006, entre outros).

Teoria

Rede Semântica Esquema Conexionismo


Natureza das Conceitos abstractos Grandes estruturas de Pequenas unidades,
unidades de conhecimentos conexões entre
memória neurónios

Número de unidades Dezenas de milhar Desconhecido Dezenas de milhões

Formação de novas A partir de novos nós A partir de novos Aumento da força


memórias esquemas ou da excitatória das
modificação dos conexões dos
antigos neurónios

Importância da Pouca Pouca Muita


estrutura cerebral

Na perspectiva conexionista, os dados da memória nem são conceitos abstractos (como nas teorias das redes
semânticas), nem grandes estruturas de conhecimentos (como nas teorias dos Esquemas). Em contrapartida,
os dados da memória assemelham-se mais a impulsos eléctricos, organizados exclusivamente ao nível dos
neurónios, das conexões entre neurónios e da actividade que aí se realiza. Qualquer porção de conhecimento

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- como o nome do meu cão, por exemplo - está embutida nas malhas de centenas de milhar de conexões entre
neurónios, e não se restringe a uma única localização.
Como é que funciona o processo de conexões? Uma actividade neuronal que envolva a memória, como
recordar o nome do meu cão, está distribuída por um certo número de áreas do córtex cerebral. As
localizações da actividade neuronal, designadas nós, estão interligadas. Quando um nó atinge um nível crítico
de activação, afecta outro nó, excitando-o ou inibindo-o, através das sinapses. Sabemos que o córtex cerebral
humano contém milhões de neurónios ligados entre si por centenas de milhões de sinapses. Devido a estas
conexões sinápticas, a actividade de um neurónio pode ser influenciada por muitos outros neurónios. Por
exemplo, se existe uma conexão excitatória entre os neurónios A e B, a actividade no neurónio A tenderá a
aumentar a actividade no neurónio B. Se a conexão é inibidora, a actividade do neurónio A tenderá a reduzir
a actividade no neurónio B. Tendo em conta estas reacções simples, a perspectiva conexionista defende que as
alterações nas conexões sinápticas são a base fundamental da memória.
Parte do interesse desta perspectiva conexionista tem a ver com o facto de ela ser consistente com o que se
conhece hoje a respeito do funcionamento do cérebro. Outro aspecto que alimenta o entusiasmo de alguns
investigadores é o facto de ter sido experimentada com sucesso a predição de alguns resultados de
experiências sobre memória a partir de modelos matemáticos, de programas de computador. Esta abordagem
conexionista tem ainda a vantagem de reforçar e ser reforçada por investigações que procuram determinar
onde é que a memória é armazenada no cérebro.
Até aqui, vimos, então, o que é que a psicologia cognitiva pensa a respeito de como é armazenada a
informação. Mas uma questão permanece sem resposta: onde? Será que existe um sítio no meu cérebro, onde
aquele fim de tarde na esplanada está à espera para ser recordado?
A questão da localização física das memórias tem vindo a interessar os psicólogos desde há muito tempo.
Nos anos 60 (do século XX), alguns investigadores estudaram esta questão em experiências com vermes
(lombrigas). Num estudo de Walker e Milton (1966), os vermes foram, em primeiro lugar, treinados a
“viajar” num labirinto. Depois, os vermes treinados eram mortos e serviam de alimento a vermes “ingénuos”
- vermes não treinados. Acontecia então que os vermes que tinham sido alimentados com vermes treinados
“compreendiam” mais depressa o labirinto do que os vermes que não tinham canabalizado os seus
camaradas treinados em labirintos. Obviamente, a memória humana não se compara, na maior parte dos
casos, com a memória dos vermes - e o canibalismo não parece ser uma forma eficiente de adquirir
informações. Mas esta experiência antiga põe em evidência a ideia de que, apesar de a memória ser um
fenómeno misterioso, ela, tal como todos os processos psicológicos, devem ocorrer num lugar físico: o
cérebro.

Onde são Armazenados os Dados da Memória

Karl Lashley dedicou a sua vida à procura do local do cérebro onde as memórias pudessem ser armazenadas.
Treinou ratos a descobrir o percurso correcto num labirinto. Posteriormente, foi cortando várias porções dos
cérebros dos animais, testando, a cada passo, a sua memória do percurso do labirinto. Após a realização de
experiências em centenas de ratos, Lashley viu-se forçado a admitir que a perda de várias áreas corticais (uma
de cada vez) não afectava a capacidade dos ratos para recordar o percurso correcto do labirinto. Lashley
concluiu que os dados da memória não são armazenados numa localização específica do cérebro. Outros
investigadores, na sequência da pesquisa de Lashley, concordaram que o armazenamento na memória é
difuso, mas desenvolveram outras perspectivas. O psicólogo canadiano Donal Hebb, já em meados do século
XX, sugeriu que assembleias de células, distribuídas por grandes áreas do córtex cerebral, operam em

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conjunto para representar a informação. Esta ideia de Hebb de memória distribuída tem vindo a revelar-se de
longo alcance.

Neurónios e Memória

Actualmente, muitos neurocientistas acreditam que a memória está localizada em sítios específicos ou em
circuitos de neurónios. Larry Squire, por exemplo, diz que, na sua maioria, cada conjunto de dados da
memória está agrupado em cerca de 1 000 neurónios. Os neurónios singulares desempenham, com certeza,
um papel importante na memória. Com efeito, há investigadores que, tendo medido a actividade eléctrica de
células singulares, descobriram que algumas respondem a rostos, e outras à cor dos olhos ou do cabelo, por
exemplo. No entanto, para reconhecermos um amigo nosso que encontramos na rua, os neurónios
individuais que fornecem informação acerca da cor, do tamanho e de outras características, trabalham em
conjunto, em assembleias de neurónios.
Há também investigadores que acreditam que os neurotransmissores (produtos químicos) podem ser a tinta
com que os dados da memória são escritos. Ironicamente, algumas das respostas à complexa questão sobre os
mecanismos neuronais da memória têm origem em estudos com um animal muito simples - a deselegante
lesma do mar. Eric Kandel e James Schwartz escolheram este grande “caracol-sem-concha”, como lhe
chamaram1 devido à arquitectura simples do seu sistema nervoso que não tem mais do que 10 000 neurónios.
A lesma do mar está longe de ter a capacidade para aprender rapidamente, ou de ser um animal com uma
boa memória, mas está equipada com um reflexo muito fiável. Sempre que algo toca na sua guelra ou nas
costas, ela afasta-se imediatamente.
Num primeiro momento, os investigadores habituaram a lesma do mar a ser picada na guelra. Após um certo
tempo, o animal passou a ignorar a picada e deixou de reagir. Depois, os experimentadores passaram a
aplicar um choque eléctrico na cauda, tocando ao mesmo tempo na guelra. Depois de muitos ensaios de
choques acompanhados de picadas, a lesma passou a afastar violentamente a sua guelra ao mais pequeno
toque. Os investigadores descobriram então que a lesma recordava esta mensagem durante várias horas e até
durante algumas semanas. Verificaram também que a picada na guelra da lesma do mar libertava o
neurotransmissor serotonina nas sinapses do seu sistema nervoso, e que esta libertação do neurotransmissor
fornecia basicamente um “lembrete” de que a guelra tinha sido tocada. Esta “memória” informa a célula
nervosa de que deve enviar comandos químicos para retrair a guelra na próxima vez que seja tocada. O que
os autores pensaram foi que, se a natureza constrói o complexo a partir da simplicidade, então o mecanismo
usado pela lesma do mar pode muito bem funcionar também no cérebro humano.
Estas investigações não são conclusivas. No entanto, deram origem a muitas outras, financiadas por grandes
laboratórios farmacêuticos, uma vez que, a serem verdadeiras as conclusões de Kandel e Schwartz (e de
outros), então vale a pena investir na investigação de drogas que possam melhorar substancialmente a
memória. Basicamente, pensa-se que, no futuro, drogas que aumentem o caudal e o fluir de informação entre
neurónios, através das sinapses, poderão melhorar o desempenho da nossa memória. Do mesmo modo, há
quem acredite que algumas manipulações genéticas poderão ter o mesmo resultado. Para já, estas
experiências com drogas e de manipulação genética estão a ser feitas com os animais do costume: ratos.
Dado o interesse da indústria farmacêutica nestas investigações e a sua enorme capacidade de financiamento,
é provável que esta linha de investigação venha a ter grande visibilidade nos próximos tempos.
Não será nem a visibilidade que esta linha de investigação seguramente vai ter no futuro, nem o carácter
atractivo de que se reveste, do ponto de vista da saúde, que alguma vez poderá legitimar o abandono de
outras pistas de investigação. Com efeito, não nos basta (agora) saber onde; precisamos, mais do que nunca
perceber como se organiza a memória, tendo em conta o tipo de informações com que temos de lidar no dia-a-
dia.

1 snail-without-a-shell em inglês
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